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SILVA, Rosa Maria Alves da
Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP)
GT:Alfabetização de pessoas jovens e adultas
UM OLHAR PARA O ALFABETIZANDO
ADULTO : EXPLORANDO
CONCEPÇÕES ACERCA DA LEITURA E ESCRITA.
Este texto é resultante de uma pesquisa ainda em andamento sobre as
concepções que jovens e adultos têm a respeito da leitura e da escrita.
A preocupação teórica que norteia o desenvolvimento da pesquisa, está
orientada para proposições sobre o processo de elaboração de conceitos. Assumindo o
ponto de vista da Psicologia Dialética de Vigotsky e da Teoria da Enunciação de Bakhtin,
Fontana (1993) afirma que “a elaboração conceitual é considerada um modo culturalmente
desenvolvido de os indivíduos refletirem cognitivamente suas experiências, resultante de
um processo de análise ( abstração) e de síntese ( generalização) dos dados sensoriais, que é
mediado pela palavra e nela materializado”.(P.122).
Admite-se, nesta perspectiva, a elaboração conceitual como uma função
psicológica superior que não ocorre através de um processo passivo e individual, mas sim,
ativo, interativo, no interior das relações sociais.A partir desta visão sobre conhecimento e
sujeito cognoscente, procurou-se pensar sobre o objeto de conhecimento explorado pela
pesquisa, a saber, a leitura.- O que é ler?
Segundo Foucambert (1989),ler é atribuir voluntariamente, um significado à
escrita..“Todos sabem que há diferença entre ver e olhar, ouvir e escutar...Ler não é
apenas passar os olhos por algo escrito, não é fazer a versão oral de um escrito. Quem
ousaria dizer que sabe ler latim só porque é capaz de pronunciar frases escritas naquela
língua? Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas
respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita,
significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se
é”.(p.5).. Aprende-se a ler através do contato com textos significativos, isto é, que
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respondam às reais necessidades do leitor e que portanto, mesmo aqueles que não sabem
ler, sintam necessidade de fazê-lo e para tal mobilizam tudo o que sabem sobre a questão ,
sobre as possíveis respostas, sobre o funcionamento da escrita. Utilizam índices para
elaborar hipóteses e testá-las com ajudas externas.
OS DEPOIMENTOS DOS ALFABETIZANDOS
A seguir apresenta-se depoimentos de adultos alfabetizandos, colhidos através de
entrevistas com o objetivo de verificar as concepções que jovens e adultos em processo de
alfabetização têm a respeito da função social da leitura e da natureza dos textos. Parece
significativo para análise, o relato de Daniel, 20 anos, Guararapes,SP:
DIANTE DE UM TELEGRAMA:
E-O que você acha que está escrito aqui?
D- Não sei, não, heim. É da Delegacia, não é?
E- Por que você acha que é da Delegacia?
D-Por causa do carimbo.
DIANTE DAS CONTAS DE ÁGUA, LUZ E TELEFONE
E- E aqui, o que está escrito?
D-Esta é da força.
E- Por que você acha que é da força?
D-Por causa dos números, aqui.
E o que significa estes números?
D-Esse é o negócio que tem e marca, o relógio.
E este aqui?
D-( Após um riso) Ah! Eu errei. Esse aqui é negócio de telefone. Não, é da água. Esse aqui
( apontando para o talão de luz), que é da força. Olhe o negócio aqui. O reloginho.
E- Esse aqui, ( apontando para a conta de água) então, você acha que não é telefone?
D- Eu acho que não. ( tentou ler a palavra Prefeitura) -PA-Ra- EE-O que você está lendo?
D- Esse negócio aqui.
E- Pode continuar.
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D-Eu sei falar as palavras todas, só não sei juntar.
E- Você quer continuar? Não é telefone, mesmo não.
D-Ah! ( novamente riu) esse aqui é da água mesmo. Agora é que é de telefone. Sabe por
que? Isto aqui é as ligação, não é? Aqui é as ligação, ó.
E- E aqui? O que será? ( apontando os preços)
D- Aqui é o nome das cidades que é. Não, aqui é o preço.
E- E o nome da cidade, onde está?
D- Aqui, Ó. Tá marcado. Vai ponhando a régua e vai acompanhando.
E- E onde você me falou que está o nome das cidades?
D- Aqui, ó. Não, não, é aqui
E- E será que você conhece o nom,e de alguma destas cidades?
D- Não, não.
DIANTE DA CARTA
D- Aqui é uma carta.
E- Como você sabe?
D- Aqui é o endereço, onúmero da casa. ( NA REALIDADE, ELE APONTOU O LOCAL
E A DATA)
DIANTE DE UM EXTRATO BANCÁRIO
E- E esse aqui?
D- É IPVA de carro, negócio de seguro.
E- Tem alguma coisa que te mostre isso?
D- Tem aqui as letras, os números
E- Olhe do outro lado.
D- ( Pausa ) - É carro mesmo.
Observa-se que por trás das palavras de Daniel, já há sistemas complexos de
enlaces e relações abstratas. Ele já começa a introduzir o objeto em uma determinada
categoria de sistemas conceituais hierarquicamente organizadas. Diante das contas de luz,
água e telefone, através de índices ele buscou o sentido do texto e através de comparações
dos diversos índices, procurou classificar os suportes textuais em categorias diferenciadas,
indicando um processo de inferência lógica apoiada em imagens visuais.
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Lúria (1987), a respeito da Linguagem e o Pensamento Discursivo, relata
uma investigação que realizou com pessoas analfabetas que resolveram habilmente
problemas da vida cotidiana, mas seu pensamento teórico era estritamente ligado às
vivências. Isto fazia com que diante de um silogismo típico, chegassem à conclusão correta,
porém baseando-se em suas experiências pessoais. Por exemplo, em resposta ao silogismo
“todos os homens são mortais; Mohamed é um homem, conseqüentemente... eles
respondiam: -“claro, ele morrerá, eu sei que todo mundo morre”.
Daniel, baseando-se em experiências pessoais, encaminhou uma operação
dedutiva, embora tenha chegado à conclusões incorretas pela interpretação que deu a certos
signos, como no caso do extrato bancário, que analisou em seus aspectos numéricos,
concluíndo ser o IPVA de carro, ou no telegrama que por ter um carimbo, foi reconhecido
como sendo da Delegacia.
Segundo Lúria, estas observações são bastantes importantes, pois mostram
que , na realidade o processo de conclusão silogística implica
a mobilização dos
conhecimentos prévios.
As entrevistas realizadas, demonstraram que a desconsideração da Escola por
estes conhecimentos da vivência cotidiana, faz com que os alunos também não os
reconheçam como válidos, o que justifica declarações do tipo:- “Eu só sei meu nome,
mesmo. Não sei mais nada” ( Francinaldo, 23 anos, Santana dos Garrotes, PB). Da mesma
forma, Leonardo, 20, da mesma cidade, após ter identificado o extrato bancário do Banespa
e ter lido uma manchete do Diário de Pernambuco, afirma: “Mas, eu não sei escrever, não
sei escrever de jeito nenhum . Agora, na escola, eu vou aprender a escrever”.
Como conseqüência desta substimação de suas capacidades e seus
conhecimentos, a auto-estima destas pessoas fica bastante prejudicada. É o caso de Ana
Maria, 20, Santana dos Garrotes, PB, que embora estivesse respondendo satisfatoriamente a
todas as perguntas do entrevistador, insistia em dizer que não sabia nada, chegando a irritarse e a entrevista teve que ser interrompida.
Além de desconsiderar este sujeito pensante, interativo , a escola , na
tentativa de facilitar a aquisição do conhecimento, numa abordagem
“transmissão-
recepção” transforma a leitura e escrita em conteúdo meramente escolar , desconectado de
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um contexto real e significativo, limita a capacidade de ir à busca de sentidos e faz com que
os alunos concentrem-se apenas em decifrações do que está escrito, nos aspectos externos
dos significantes. Maria Helena,40, diante de um cartaz de propaganda de
um
supermercado estabelece o seguinte diálogo com o entrevistador:
MH- Eu já fui à escola, mas eu sei muito pouco.
E- O que a senhora acha que está escrito neste cartaz?
MH- Não sei não. Aqui não é um B?
Continuou soletrando: - B A, BA; R A, RA; T a, Ta; TIL O; BARATO, não?
E continuou soletrando: S U, SU; P E, PÉ; Aqui não é um R?... Supermercado, não?
E é? A senhora já sabe ler.
MH- Não sei, não.
E- Pra que serve este papel do supermercado?
MH- Não sei não
E- Tenho certeza de que a senhora lê tudo. Continue.
Maria Helena continuou soletrando e fazendo a síntese muito rápido: Agora você vai
economizar de verdade, no Baratão.
E- O que quer dizer isto?
MH- Economizar
E- Para que serve então este papel do supermercado?
MH- Não sei não.
Nota-se que Maria Helena, através de um processo de análise e síntese, vai
compondo as sílabas e formando as palavras e depois faz uma leitura sintagmática, que
segundo Cagliari (1996) “é aquela em que o leitor acompanha palavra por palavra, numa
certa ordem, adquirindo em geral, apenas um significado literal da leitura. Já , uma leitura
paradigmática faz com que o leitor não só descubra o significado literal das palavras e
expressões, à medida que vai lendo, como também traga para esse
significado os
conhecimentos adicionais, oriundos de seu modo pessoal de interpretar o que leu, tendo em
vista toda sua história, como leitor e falante de sua língua”.(P.152).
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COMENTÁRIOS FINAIS
Não deixa de surpreender que ainda neste final de século, a visão
associacionista de ensino-aprendizagem esteja norteando as práticas de alfabetização, pois
tanto professores quanto alunos pensam que para ler e escrever basta conhecer “ letrinhas” e
juntá-las, num processo mais perceptual que cognitivo.Embora os alunos reproduzam o
discurso da escola, demonstraram seus conhecimentos acerca da leitura e da escrita,
adquiridos nas suas relações com o objeto de conhecimento e com o outro. Mesmo não
sabendo ler, identificaram o conteúdo de diversos suportes textuais, como por exemplo:“ no jornal, fala da crise do Brasil, do mundo, notícias, doenças; no gibi, tem histórias para
crianças e as revistas falam da vida dos artistas e de outras coisas”. Apresentaram um
raciocínio lógico, muitas vezes despercebido pelos professores, como por exemplo o de
Francisca, 20, Santana dos Garrotes, PB:- “ ...é embalagens? É rótulos? É mais fotografia(
Entrev.: - “ E esses números?” ) – Quer dizer que é o preço, né?( Entrev.-“ Sim, é o preço
do quilo do frango, um real e ciqüenta e quatro centavos. E esse?” - apontando a caixa de
bombons BIS) –“ São dois reais”. ( na realidade, o preço era de R$1,10, que ela considerou
como 1+1)
Enfim, parece que as inovações do discurso pedagógico ainda não
repercutiram na escola, cujas práticas estão muito distantes das reais necessidades dos
educandos, como demonstra o depoimento de Antônio, 44, Piancó, PB:” Eu comprei um
livrinho deste, grande, pra mim estudar .Quando criança, minha mãe sozinha não me deixou
estudar. Aí comprei um livro deste, comprei uma tabuada e aí foi. Foi assim que eu tomei
conhecimento das letras, sozinho. Porque eu tinha muita vontade de estudar e não tinha
oportunidade. Pra mim era uma tristeza. Eu via meus coleguinhas estudando e eu não. Não
podia. Minha mãe era de roça e dizia que caneta de pobre era enxada. Então fiquei sem
estudar. Depois de adulto é que vim estudar. Eu conheço as letras, mas me confundo muito
e leio devagar. Eu conheço as letras e quando se conhece as letras, tudo fica mais fácil. Eu
já passei tempos fora e perdi empregos bons, por que?Eu não soube preencher uma ficha.
Era uma metalúrgica, que era minha paixão. Cheguei numa determinada firma e fui
preencher um papel e não soube. Não foi possível”.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cagliari, Luiz Carlos. Alfabetização & Linguística, São Paulo: Scipione,1996.
Foucambert, Jean. A leitura em questão, Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
Luria, A.R. Pensamento e linguagem, Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
Smolka, A.L. e Góes, M.C.R. (orgs). A Linguagem e o outro no espaço escolar, São Paulo:
Papirus,1993.
Vygotsky, L.S. A formação social da mente: São Paulo: Martins Fontes,1984.
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