Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios Instrutora: Ana Cristina D. M. Follador Brasília, 2005. Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 1 Sumário Definições fundamentais 02 1 Bases da auditoria 03 2 Preparação de auditorias internas 2.1 Perguntas de auditoria 2.2 Programa e Plano de auditoria 2.3 A equipe de auditoria interna 03 04 06 08 3 Condução da auditoria 3.1 Análise da documentação e auditoria no local 3.2 Auditoria no local 3.3 Relatório da auditoria: preparação, aprovação e distribuição 3.4 Conclusão da auditoria 3.5 Ações de acompanhamento 09 11 11 16 17 17 4 Técnicas de entrevista e os papéis do auditor e do auditado 4.1 Visão geral 4.2 Motivação 4.3 Análise transacional 4.3.1 Análise funcional 4.3.2 O auditor na análise funcional 4.3.3 Técnica de entrevista 4.4 Análise transacional 4.5 Escuta ativa e técnica de perguntas abertas 4.6 Fases de uma entrevista 18 18 20 21 21 24 24 25 27 28 Referências bibliográficas 30 Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 2 Definições fundamentais A compreensão dos termos seguintes é primordial para um programa de auditoria eficaz. Auditoria Processo sistemático, documentado e independente para obter evidências de auditoria e avaliá-las objetivamente para determinar a extensão na qual os critérios de auditoria são atendidos. Nota - Auditorias internas, algumas vezes chamadas de auditorias de primeira parte, são conduzidas pela própria organização, ou em seu nome, para análise crítica pela direção e outros propósitos internos, e podem formar a base para uma autodeclaração de conformidade da organização. Em muitos casos, particularmente em pequenas organizações, a independência pode ser demonstrada pela liberdade de responsabilidades pela atividade sendo auditada. Critério de auditoria Conjunto de políticas, procedimentos ou requisitos. Nota – Critérios de auditoria são usados como uma referência contra a qual evidência de auditoria é comparada. Evidência de auditoria Registros, apresentação de fatos ou outras informações, pertinentes aos critérios de auditoria e verificáveis. Nota – Evidência de auditoria pode ser qualitativa ou quantitativa. Constatações de auditoria Resultados de avaliação de evidência de auditoria coletada, comparada com os critérios de auditoria. Nota – Constatações de auditoria podem indicar tanto conformidade quanto não conformidade com o critério de auditoria ou oportunidades para melhoria. Programa de auditoria Conjunto de uma ou mais auditorias planejado para um período de tempo específico e direcionado a um propósito específico, Nota – Um programa de auditoria inclui todas as atividades necessárias para planejar, organizar e realizar as auditorias. Plano de auditoria Descrição das atividades e arranjos para uma auditoria. Escopo de auditoria Abrangência e limites de uma auditoria. Competência Atributos pessoais demonstrados e capacidade demonstrada para aplicar conhecimento e habilidades. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 3 1 Bases da auditoria: Uma auditoria da qualidade é aplicada tipicamente a um sistema de gestão da qualidade ou aos seus elementos, porém não está limitada a eles. Pode se diferenciar entre auditoria de sistema, auditoria de processo e auditoria de produto. As auditorias de sistema, de acordo com o cliente da auditoria, podem se classificar em: - Auditorias internas da qualidade (ou de primeira parte, onde o cliente de auditoria é a própria organização), as quais servem, em primeiro lugar, para assegurar e melhorar a capacidade de qualidade de uma empresa; - Auditorias externas (de segunda ou terceira partes) as quais servem principalmente para a comprovação da capacidade de qualidade (quer seja para um cliente da organização ou um organismo regulamentador, certificador ou credenciador). Este curso está orientado para a execução de auditorias internas de sistema de gestão da qualidade, baseadas nos Requisitos Gerais para Competência de Laboratórios de Ensaio e Calibração – NBR ISO/IEC 17025:2001. De acordo com a NBR ISO 19011:2002, a auditoria caracteriza-se pela confiança em alguns princípios que a tornam uma ferramenta eficaz e confiável em apoio a políticas de gestão e controles, fornecendo informações sobre as quais a organização pode agir para melhorar seu desempenho. Seguindo-se tais princípios, obtêm-se conclusões de auditoria relevantes e suficientes, e permite-se que os auditores, ao trabalharem independentemente entre si, cheguem a conclusões semelhantes em circunstâncias semelhantes. Princípios relacionados aos auditores: - Conduta ética; - Apresentação justa; - Devido cuidado profissional; Princípios relacionados à auditoria: - Independência; Abordagem baseada em evidência. 2 Preparação de auditorias internas Normalmente, o Laboratório conta com uma equipe de auditores internos que fazem parte do seu quadro de pessoal. Sendo assim, a preparação da auditoria torna-se um processo simplificado, onde os auditores já possuem conhecimento sobre o Sistema da Qualidade do Laboratório, seu escopo de credenciamento, e das medições realizadas. Caso os auditores não tenham familiaridade com os procedimentos específicos do Laboratório (por exemplo, Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 4 em laboratórios que fazem parte de instituições maiores que possuam um Sistema da Qualidade baseado em outras normas de gestão), é conveniente que tenham acesso a tais documentos com antecedência suficiente para executar uma auditoria interna completa e eficaz. Em alguns casos, os Laboratórios contratam auditores independentes, ou empresas de consultoria, para executar as auditorias internas. Importante salientar que a responsabilidade pela condução da auditoria, seu acompanhamento e seu atendimento ao requisito da 17025 continua sendo do gerente da Qualidade do Laboratório (ou denominação equivalente). Se o procedimento de auditorias internas permitir que os auditores utilizem seus próprios formulários, o Gerente da Qualidade deve analisá-los criticamente para assegurar o cumprimento do requisito. Nesse caso, a preparação da auditoria envolve uma análise preliminar dos documentos do laboratório e uma visita no local, cujos objetivos principais são: - Obtenção de uma visão melhor dos métodos e procedimentos do Laboratório; - Conhecimento das acomodações e equipamentos; - Esclarecimento sobre as interfaces entre o Laboratório e as demais áreas da empresa; - Coleta de informações que subsidiem a elaboração do plano e definição do escopo da auditoria. 2.1 Perguntas de auditoria Para que uma auditoria interna seja eficaz, é primordial que seja bem fundamentada. E uma boa fundamentação só é possível com uma coleta de informações apropriadas. Para tanto, os auditores devem estar preparados para fazer perguntas adequadas. A palavra auditoria significa “audição”, onde o auditório (ouvintes) ouve um apresentador, ou, no que diz respeito às auditorias, um auditor ouve o auditado. Nesse sentido, o auditor deve fazer perguntas que possibilitem obter constatações de auditoria. Utilizando perguntas objetivas, o auditor poderá obter informações claras e completas que serão subsídio para o relatório de auditoria. Tais perguntas objetivas têm como base as ações de gestão da qualidade requeridas pela NBR ISO/IEC 17025, no caso de credenciamento de Laboratórios. Dessa forma, as atividades relevantes para a qualidade dos serviços de calibração ou ensaios devem corresponder aos requisitos da norma, e o cumprimento aos requisitos deve ser assegurado pelos procedimentos e métodos utilizados. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 5 PERGUNTAS OBJETIVAS DE AUDITORIA Da NBR ISO/IEC 17025 Do Sistema da Qualidade Pergunta objetiva principal da auditora Quais são os procedimentos e métodos aplicados ? Como é assegurada a circunstância? e/ou Quais as ações requeridas? Exemplos: Verificações intermediárias dos padrões de referência Manutenção planejada dos equipamentos de medição Procedimento de verificação? Procedimento de manutenção ? Como são asseguradas as verificações? Como é assegurada a manutenção? Uma constatação de auditoria pode ser obtida a partir de um requisito, por exemplo: - Quais os procedimentos e métodos utilizados para a garantia da qualidade de resultados? Este tipo de pergunta objetiva levará a uma explicação por parte do entrevistado. Porém, essa pergunta direciona a resposta para apenas um aspecto: como é realizada a garantia da qualidade dos resultados. Uma auditoria da qualidade, além de avaliar a execução eficiente, também tem como objetivo constatar se as atividades relevantes da qualidade e os respectivos resultados correspondem às disposições planejadas e se essas disposições são apropriadas para alcançar os objetivos. Sendo assim, uma pergunta mais adequada seria: - Como são planejadas e executadas as atividades para monitoramento da validade dos ensaios e calibrações realizados? Ou ainda: - Como é assegurada a garantia da qualidade dos resultados de ensaio e calibração? Normalmente, numa entrevista de auditoria, acrescentam-se sub-perguntas e perguntas auxiliares às perguntas principais, para facilitar o esclarecimento e a constatação da conformidade ou não a um determinado requisito. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios Pergunta objetiva Pergunta principal Sub-perguntas 6 Perguntas auxiliares Sub-pergunta 1 As instruções...estão descritas? Sub-pergunta 2 .........................documentadas? Sub-pergunta 3 .........................implementadas? 2.2 Programa e Plano de auditoria A NBR ISO/IEC 17025:2001 requer: - - - - Que o laboratório realize, periodicamente e de acordo com cronograma e procedimentos predeterminados, auditorias internas das suas atividades para verificar se suas operações continuam a atender os requisitos do sistema da qualidade e da própria NBR ISO/IEC 17025:2001; (nota: convém que o ciclo de auditoria seja, normalmente, completado em um ano) Abrangência: o programa de auditoria interna deve cobrir todos os elementos do sistema da qualidade, incluindo as atividades de ensaio e/ou calibração; Responsabilidade: o gerente da qualidade é o responsável pelo planejamento e organização das auditorias, conforme requerido no cronograma e solicitado pela gerência ( obs do instrutor: o Gerente da qualidade deve ter a autoridade necessária para ser o responsável pelo programa da auditoria interna, autoridade esta concedida pela Gerência (Alta Direção) do laboratório); Auditores: pessoal qualificado e treinado que seja, sempre que possível, independente da atividade auditada. Ações: devem ser tomadas ações corretivas em tempo hábil, quando as constatações da auditoria lançarem dúvidas quanto à eficácia das operações ou quanto à correção ou validade dos resultados dos ensaios/calibrações. Caso os resultados tenham sido afetados, os clientes devem ser notificados por escrito. (obs do instrutor: seguir os requisitos controle dos trabalhos de ensaio e/ou calibração não-conforme e ações corretivas). Registros: a área de atividade auditada, as constatações e as ações corretivas decorrentes. Acompanhamento: as atividades de acompanhamento da auditoria devem verificar e registrar a implementação e a eficácia das ações corretivas tomadas. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 7 Um programa de auditoria inclui uma ou mais auditorias (constituindo um ciclo de auditoria), dependendo do tamanho, da natureza e complexidade do laboratório a ser auditado. É no programa de auditoria que todas as atividades necessárias para planejar e organizar as auditorias e para fornecer os recursos que possibilitarão sua condução eficaz e eficiente dentro do período especificado. Para que o programa de auditoria interna seja definido adequadamente, devese estabelecer claramente: - Os objetivos do programa de auditorias internas; - A abrangência; - Responsabilidades dos envolvidos; - Cronograma; - Procedimentos; - Implementação do programa; - Registros; - Formas de monitoramento e análise crítica do programa. Para um sistema da qualidade baseado na NBR ISO/IEC 17025:2001, o laboratório precisa estar consciente de alguns aspectos específicos: - O objetivo da auditoria interna, além de fornecer subsídios para a melhoria contínua do sistema, é o de verificar o atendimento aos requisitos da norma e de seu sistema da qualidade, continuamente, e não de forma pontual; - A definição da abrangência da auditoria é fundamental, pois deve contemplar todas as atividades de calibração e ensaio realizados; - Atenção especial ao registro e verificação da eficácia das ações corretivas, de maneira adequada, a fim de evitar que uma análise errônea leve a repetições das mesmas não-conformidades ao longo de vários ciclos de auditoria; - A análise crítica do programa só é eficaz se leva em consideração as constatações registradas ao longo da vigência do sistema da qualidade. O plano de auditoria define como será realizada cada auditoria prevista no programa de auditorias internas. A preparação do plano é uma atividade conjunta entre o gerente da qualidade e o líder de equipe da auditoria. O plano de auditoria deve ser flexível o suficiente para permitir alterações, tais como mudanças no escopo da auditoria ou outras mudanças que se tornem necessárias à medida que as atividades de auditoria no local progridam. É necessário que o plano de auditoria seja analisado criticamente e aceito pela unidade a ser auditada, e deve ser divulgado com antecedência aos envolvidos. Quaisquer objeções e alterações devem ser solucionadas e acordadas entre as partes. Basicamente, um plano de auditoria interna contém: - os objetivos da auditoria; - os documentos de referência e requisitos aplicáveis; - o escopo da auditoria, identificando as unidades organizacionais e os métodos de calibração e/ou ensaios a serem acompanhados; - as datas e locais; Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 8 - cronograma, incluindo reuniões da equipe auditora e entre a equipe e o auditado; - funções e responsabilidades dos membros da equipe de auditoria. 2.3 A equipe de auditoria interna Para que uma auditoria seja conduzida de forma a alcançar os objetivos propostos, a formação da equipe auditora é um aspecto fundamental. A equipe selecionada deve possuir a competência necessária para alcançar os objetivos da auditoria. Nos casos em só exista um auditor, ele deve ter a habilidade para atuar como líder de equipe e ter a qualificação necessária para auditar tanto os requisitos da gerência quanto os requisitos técnicos. Para assegurar a formação de uma equipe de auditoria eficaz, deve-se levar em conta, entre outros aspectos: - os objetivos, os critérios e o escopo da auditoria; - a competência global necessária; - independência da equipe em relação às atividades auditadas; - habilidade dos componentes da equipe em interagir eficazmente com o auditado e trabalhar em conjunto. Competência global de uma equipe para auditoria interna tendo como requisito a NBR ISO/IEC 17025:2001 Qualidade Conhecimento e habilidades específicas em qualidade NBR ISO/IEC 17025:2001 Conhecimento e habilidades genéricas Técnica Conhecimento e habilidades específicas nas calibrações e/ou ensaios realizados Educação Experiência Treinamento Experiência ..........................................profissional ...............em auditoria...................em auditoria Documentos de auditoria Atributos pessoais Além do plano de auditoria, são necessários outros documentos antes que se inicie a auditoria, que são de grande utilidade para um fluxo sem atritos. Quando bem estruturados esses documentos facilitam a coleta de evidências objetivas pelos auditores e contribuem para uma maior eficácia das atividades de identificação das causas das não-conformidades, definição de ações corretivas e atividades de acompanhamento. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 9 Entre os documentos necessários, estão incluídos os modelos de relatório de auditoria, formulários para registros de informações e listas de verificação. Caso o laboratório ou a equipe auditora optem por utilizar listas de verificação, deve-se ter o cuidado para que a auditoria interna não seja limitada pelos itens da lista. Uma auditoria interna adequada deve abranger todos os elementos do sistema da qualidade do laboratório, e o relatório final deve refletir essa abrangência. Uma lista de verificação é uma ferramenta útil, mas não a única base para se conduzir uma auditoria. 3 Condução da auditoria Uma auditoria interna é conduzida adequadamente desde que todos os envolvidos estejam conscientes de suas responsabilidades e tarefas. As responsabilidades sobre a geração de documentos, responsabilidades, guarda de registros e os demais aspectos da auditoria variam em cada laboratório, mas devem estar descritos em procedimentos, orientados pelos requisitos pertinentes da NBR ISO/IEC 17025. Os auditores devem planejar cuidadosa e adequadamente a auditoria interna, executá-la de forma eficiente a interesse do solicitante e do auditado, cumprindo assim com os objetivos da auditoria. Eles devem conhecer, interpretar e aplicar corretamente a norma utilizada (NBR ISO/IEC 17025 nesse caso em particular) e os elementos do sistema da qualidade do laboratório. Devem comportar-se de forma independente e imparcial, informando de maneira objetiva os resultados e as constatações de auditoria, fazendo sugestões de melhoria. O auditado deve identificar e descrever exatamente os fluxos do seu sistema da qualidade e os procedimentos de calibração e/ou ensaios utilizados, e responder as perguntas do auditor de forma clara e objetiva. Principalmente, deve encarar a auditoria interna como ferramenta para a melhoria do sistema, e não como uma competição entre as áreas ou pessoas da organização. O fluxograma a seguir representa uma seqüência típica para a condução de auditorias internas. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios • • • • • • Início da auditoria Designação do líder de equipe; Definição: objetivos, escopo, critério; Viabilidade; Seleção da equipe auditora; Contato inicial com o auditado Análise crítica de documentos Determinação da adequação de documentos e registros da qualidade em relação aos critérios considerados Preparação das atividades de auditoria no local • Plano de auditoria; • Definição de tarefas; • Documentos de trabalho • • • • • • Auditoria no local Reunião de abertura; Comunicação durante a auditoria; Coleta e verificação de informações; Evidências e constatações da auditoria; Conclusões da auditoria; Reunião de encerramento. • • Relatório da auditoria Preparação do relatório; Aprovação e distribuição do relatório. Conclusão da auditoria Ações de acompanhamento Nota: fluxograma adaptado da NBR ISO/IEC 19011:2002 Ana Cristina D. M. Follador - 2005 10 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 11 3.1 Análise da documentação e auditoria no local Uma auditoria interna, para atender aos requisitos da NBR ISO/IEC 17025, deve abranger os requisitos da gerência e os requisitos técnicos, incluindo as atividades de calibração e ensaio. Dessa forma, além da auditoria no local, onde a estruturação do sistema da qualidade é verificada em função da descrição nos procedimentos e em relação a NBR ISO/IEC 17025, é necessária a análise da documentação, onde se verifica a correspondência dos documentos do sistema da qualidade com a NBR ISO/IEC 17025. Dependendo do tamanho da equipe auditora, estas atividades podem ser simultâneas. 3.2 Auditoria no local Reunião de abertura: Normalmente, quando se tratam de auditorias internas em pequenas organizações, a reunião de abertura consiste em simplesmente comunicar o início da auditoria, e confirmar as funções e os serviços que serão acompanhados. Em organizações maiores, ou nos casos onde os auditores sejam contratados especificamente para realizarem as auditorias internas, a reunião é formal e inclui os seguintes aspectos, entre outros: - apresentação dos participantes; - confirmação dos objetivos, escopo e critérios da auditoria; - confirmação da programação da auditoria; - apresentação do método de condução da auditoria, os formulários utilizados; - confirmação dos canais de informação entre a equipe e o auditado; - salientar a manutenção da imparcialidade e confidencialidade. Comunicação durante a auditoria: Numa auditoria interna, muitas vezes não são necessários canais formais de comunicação, pois geralmente a equipe auditora interage com o gerente da qualidade e os responsáveis técnicos do laboratório. Caso o laboratório faça parte uma organização maior, estes canais devem ter sido definidos na reunião de abertura. É importante que os membros da equipe de auditoria se comuniquem durante o processo, para assegurar o cumprimento do programa e verificar a abrangência das evidências registradas por cada auditor. O líder da equipe deve estar atento à atuação global da equipe, para reorientar a auditoria caso sejam evidenciados problemas comuns a mais de uma área (por exemplo: metas de treinamento inadequadas, condução das atividades para garantia da qualidade dos resultados, etc.). Se, por algum motivo, o plano de auditoria tenha que ser modificado, deve-se registrar o fato, e, caso comprometa o alcance dos objetivos propostos, deve- Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 12 se definir a ação a ser tomada, o que poderá implicar em uma auditoria adicional específica. Coleta e verificação de informações: Durante a auditoria no local: É feita uma verificação independente para constatar Se as atividades relativas à qualidade Correspondem às disposições planejadas Foram implementadas com eficácia São adequadas para alcançar os objetivos Para concretizar tais objetivos, durante a auditoria do local ocorrem as seguintes etapas: - Coleta de informações; - Evidências de auditoria; - Avaliação das evidências quanto ao atendimento aos critérios de auditoria, resultando nas constatações de auditoria; - Análise crítica; - Conclusões de auditoria. Uma auditoria interna deve ser abrangente e minuciosa o quanto possível, pois é uma das melhores ferramentas para avaliar e melhorar continuamente o sistema da qualidade do laboratório. O laboratório deve otimizar os recursos disponíveis para a realização do programa de auditoria, para não ter prejuízos posteriores resultantes de não-conformidades que poderiam ser evitadas. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 13 No entanto, em qualquer auditoria, a coleta de informações é feita por amostragem. Cabe à equipe de auditoria buscar uma amostra representativa das informações disponíveis e do escopo de calibrações e ensaios realizados. Portanto, ao serem analisadas as conclusões da auditoria, todos devem estar cientes sobre esta incerteza inerente ao processo. As informações, em uma auditoria, são fundamentalmente obtidas por meio de entrevistas, observação das atividades de calibração e ensaio, e análise crítica de documentos. Registros técnicos e da qualidade, memórias de reuniões e softwares de controle são outras possíveis fontes de informação. A harmonia entre a equipe de auditoria e o auditado é primordial para que as informações coletadas sejam realmente representativas e subsidiem eficazmente as conclusões da auditoria. Sendo assim, o fator humano, durante toda a auditoria, e em especial nas entrevistas para coleta de informações, merece atenção especial, e será tratado em uma seção específica neste curso. Evidências e constatações de auditoria: A partir das informações obtidas, o auditor identifica as evidências de auditoria que, ao serem confrontadas com os critérios da auditoria (requisitos da NBR ISO/IEC 17025, os elementos do sistema da qualidade do laboratório, etc.), consistirão nas constatações de auditoria, as quais, sempre que possível, devem ser confirmadas por meio de registros ou documentos. Não podem ser tiradas conclusões generalizadas, e de maneira alguma podem ser incluídos requisitos pessoais ou “hipotéticos” por parte do auditor. Pode-se chegar a uma constatação de auditoria, por exemplo: - Por meio de perguntas: O Sr. Fulano confirma conhecer o procedimento de calibração de manômetros e procede conforme o mesmo; - Por meio da análise de documentos: O procedimento para cálculo de incerteza para micropipetas não contempla todas as fontes de incerteza relevantes; - Por meio do acompanhamento de serviços: A calibração de voltímetros é executada exatamente de acordo com o procedimento xy; - Por meio de verificações: Os instrumentos Ba-023 e Ba-024 apresentam as etiquetas de status de calibração erroneamente preenchidas. Uma constatação de auditoria pode significar tanto uma conformidade quanto uma não-conformidade com os critérios de auditoria. Em se tratando de auditorias internas, as constatações sempre indicam oportunidades de melhoria. Todas as constatações de auditoria e as evidências que as suportam devem ser registradas. É necessária uma análise crítica com o auditado para que todos estejam de acordo quanto à correção das evidências a ao entendimento das não-conformidades. Caso haja opiniões divergentes, são registrados os pontos não-resolvidos para uma posterior solução. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 14 Constatação da auditoria Circunstância constatada e fundamentada positiva negativa não contraria o Melhoria critério ? Requer ação preventiva sim Não – conformidade Requer ação corretiva Existem determinados tipos de não-conformidades, entre eles: - não atendimento ao(s) requisito(s) normativo(s); - uma disposição inadequada para alcançar os objetivos; - uma atividade não correspondente às disposições; - uma disposição não efetivamente realizada. O não atendimento aos requisitos normativos pode ser constatado em primeiro lugar na análise preliminar da documentação, e posteriormente na análise dos procedimentos utilizados. Na auditoria no local identifica-se claramente se existe um procedimento ou instrução inadequados, com os quais possivelmente os objetivos não serão alcançados. Durante o acompanhamento das atividades de calibração e ensaios, pode-se identificar se tais atividades correspondem ou não às disposições específicas. A equipe auditora deve estar atenta às não-conformidades ocasionais ou sistemáticas. Em caso de dúvida, expande-se a amostragem, verificando-se o mesmo elemento do sistema da qualidade em outras áreas do laboratório. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 15 Deve-se ter em mente, principalmente numa auditoria interna, que não é a quantidade de constatações e não-conformidades que são importantes para a qualidade, e sim o seu significado. Quanto mais completa uma auditoria interna, mais subsídios terá o laboratório para melhorar continuamente a qualidade dos serviços prestados. No entanto, deve-se tomar cuidado para não pecar por excesso, tendo-se em mente que as constatações sempre se referem a aspectos que afetam a qualidade dos serviços e contrariam os requisitos aplicáveis. Conclusões da auditoria Antes da reunião de encerramento, pode ser necessária uma reunião entre os auditores, onde as constatações da auditoria são analisadas criticamente e classificadas, quanto aos critérios da auditoria, em não-conformidades ou oportunidades de melhoria, e o relatório de auditoria começa a ser preparado. No caso das auditorias internas, é apropriado que a equipe auditora discuta as ações de acompanhamento que serão necessárias, para garantir que as ações corretivas tomadas sejam implementadas no prazo acordado e tenham sua eficácia verificada. Em se tratando de auditorias internas em laboratórios, ainda, as conclusões da auditoria podem abordar assuntos tais como a extensão da conformidade do sistema de gestão com a NBR ISO/IEC 17025 e os objetivos da qualidade, a eficácia do processo de análise crítica da gerência, etc. Reunião de encerramento A reunião de encerramento pode consistir apenas na comunicação das constatações e conclusões da auditoria interna ao auditado, em se tratando de laboratórios pequenos, ou pode ser formal e mais abrangente em laboratórios maiores ou quando a equipe auditora é contratada especificamente para realizar a auditoria. É na reunião de encerramento que as constatações e conclusões da auditoria são apresentados, as dúvidas de entendimento são resolvidas e os prazos para implementação das ações corretivas e preventivas são definidos. Há laboratórios que optam por discutir e definir as ações corretivas, preventivas e os responsáveis pos tais ações durante a reunião de encerramento. Também nesse caso é fundamental a definição dos prazos. Outros laboratórios optam por apresentar as ações corretivas e preventivas posteriormente, em prazo definido na reunião final, para análise de sua pertinência pela equipe auditora e conclusão do relatório. O gerente da qualidade é o responsável por todo o processo, a fim de garantir que o programa de auditorias internas cumpra com os requisitos da NBR ISO/IEC 17025 e dos objetivos da qualidade do laboratório. Caso o relatório de auditoria seja concluído na reunião final, ele é aprovado e distribuído, conforme definido no procedimento de auditorias internas do Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 16 laboratório. Se não for o caso, deverá ser entregue pela equipe auditora dentro de um período acordado entre as partes. 3.3 Relatório da auditoria: preparação, aprovação e distribuição O procedimento do laboratório para realização das auditorias internas é que define as atribuições e responsabilidades pelas diferentes etapas. No entanto, é usual que o líder da equipe de auditoria seja o responsável pela preparação e pelo conteúdo do relatório. O relatório deve fornecer um registro que seja completo, preciso, conciso e claro da auditoria interna realizada. Deve incluir ou se referir, entre outros, ao seguinte: - os objetivos da auditoria, e a confirmação de que tais objetivos foram atendidos dentro do escopo da auditoria e em conformidade com o plano da auditoria; - o escopo da auditoria, identificando particularmente as unidades organizacionais auditadas, os serviços de calibração e ensaios acompanhados (incluindo os executores), os procedimentos e registros analisados, o período de tempo coberto; - identificação dos auditores e participantes; - datas e lugares onde as auditorias no local foram realizadas; - os critérios da auditoria (documentos normativos de referência, o sistema da qualidade do laboratório, etc.); - as constatações da auditoria (não-conformidades e pontos de melhoria); - as conclusões da auditoria; - o plano de auditoria, e referência a qualquer alteração que tenha ocorrido durante a auditoria; - quaisquer divergências que ainda não tenham sido resolvidas; - as recomendações para melhorias; - declaração da confidencialidade dos resultados; - o plano de ação de acompanhamento acordado entre a equipe, o auditado e o gerente da qualidade, e os respectivos prazos; - a lista de distribuição do relatório. É conveniente que os documentos de trabalho da auditoria sejam anexados ao relatório, os quais podem incluir: - lista de verificação (se utilizada); - registros das calibrações e ensaios acompanhados; Antes que seja distribuído, o relatório de auditoria é então datado, analisado criticamente e aprovado de acordo com o procedimento do laboratório. O relatório de auditoria é de propriedade do cliente da auditoria, devendo ser dada a devida atenção à confidencialidade das informações. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 17 3.4 Conclusão da auditoria A auditoria interna é considerada como concluída quando todas as atividades foram realizadas e o relatório de auditoria foi aprovado e distribuído. Tanto os relatórios quanto os documentos da auditoria devem ser suficientemente identificados. O tempo de guarda e a disposição final dos documentos orientam-se pelos critérios de arquivamento definidos pelo laboratório e por requisitos legais ou contratuais, conforme o caso. 3.5 Ações de acompanhamento As conclusões da auditoria indicam a necessidade de ações corretivas, preventivas ou de melhoria, em função das evidências registradas. O laboratório, de acordo com seu procedimento, o qual deve ser orientado pelo requisito da NBR ISO/IEC 17025, registra as constatações da auditoria e as ações corretivas dela decorrentes e estabelece o plano de acompanhamento com prazos para implementação e verificação da eficácia das ações tomadas, e os responsáveis pelas diferentes etapas. As ações de acompanhamento não fazem parte do plano da auditoria, mas são fundamentais para que o programa de auditorias seja cumprido de forma eficaz, sendo, portanto, parte desse curso. É importante que a sistemática para verificação da eficácia das ações seja elaborada de tal forma que sejam minimizadas as situações nas quais uma ação corretiva é erroneamente considerada eficaz. Esse tipo de falha muitas vezes traz prejuízos não apenas econômicos (retrabalho), mas também de desperdício de tempo e esforço dos envolvidos. Por isso é fundamental que uma ação corretiva seja definida após uma análise de causas, de acordo com um procedimento específico. Quando uma não-conformidade demandar várias ações corretivas (subdivididas em diferentes níveis), o responsável (ou responsáveis) pela verificação da implementação deve estar atento ao cumprimento de todas as ações. O tempo para verificação da eficácia das ações corretivas tomadas irá variar em função da complexidade das ações, mas deve estar previamente definido. Em algumas situações, as atividades de verificação da eficácia envolvem a realização de uma auditoria interna adicional. Uma vez que todas as ações corretivas, preventivas e de melhoria identificadas em um ciclo de auditoria tenham sido implementadas e verificadas quanto à sua eficácia, o laboratório já possui os subsídios necessários para estabelecer o programa de auditoria seguinte. Essa continuidade se faz necessária, não apenas para cumprir com um requisito da Norma, mas porque o efeito das ações de um sistema de gestão da qualidade enfraquece ao longo do tempo, uma vez que os procedimentos Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 18 não são mais seguidos com a mesma atenção. Isto é um problema humano. A repetição dos ciclos de auditoria leva ao melhoramento contínuo da qualidade, em pequenos passos. Eficiência de um sistema da gestão da qualidade Implementação auditoria auditoria auditoria não conformidades não conformidades não conformidades Tempo 4 Técnicas de entrevista e os papéis do auditor e do auditado 4.1 Visão geral A etapa fundamental de uma auditoria é a coleta e verificação de informações, e as entrevistas são um dos meios mais importantes para tal. Dessa forma, o auditor deve estar muito bem preparado para conduzir as entrevistas de forma adequada às diferentes situações e pessoas com as quais interage ao longo da auditoria. E, para tanto, além de dominar a técnica de perguntas, deve ser capaz de motivar o auditado e propiciar um clima de harmonia, onde todos apresentem comportamentos convergentes (análise transacional). Na fase de coleta e verificação de informações, o auditor deve ponderar: - que as entrevistas sejam realizadas com pessoas de níveis e funções apropriados que executem atividades ou tarefas dentro do escopo da auditoria – canais de comunicação; que as entrevistas sejam conduzidas durante o expediente normal e, onde possível, no local normal de trabalho do entrevistado; que o entrevistado esteja à vontade; que sejam evitadas perguntas direcionadas; que seja executada a escuta ativa; Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios - 19 que seja feito um agradecimento às pessoas entrevistadas pela sua participação e cooperação. A situação entre o auditor e o auditado, isto é, entre avaliador e avaliado, nos leva a uma reflexão sobre até que ponto os comportamentos, pontos de vista e reações humanos podem influenciar no resultado de uma auditoria. Genericamente, em todo lugar em que as pessoas entrem em contato, os seus comportamentos são de alguma forma divergentes. O comportamento de uma pessoa é um estímulo, que provoca uma reação na outra pessoa, da qual resulta uma conseqüência, que é um estímulo para uma nova reação. É definido um número alto de calibrações por técnico. = Estímulo Pressão excessiva quanto ao desempenho. = Reação “stress” = Conseqüência = Estímulo Desvios dos procedimentos. = Reação Prejuízo para a qualidade = Conseqüência Figura - Estímulo – Reação – Conseqüência Pode-se observar que um comportamento não existe por acaso, mas que ocorre numa complicada cadeia de estímulos e reações. Em uma auditoria, o auditor pode contribuir significativamente para a condução positiva de uma auditoria, a partir de seu próprio comportamento. No início de uma auditoria, mesmo em se tratando de auditorias internas, o auditor nem sempre dispõe de todas as informações sobre a área auditada e nem sobre as pessoas envolvidas. Seu objetivo, nesse momento, é obter todas as informações necessárias, que são a base para uma avaliação objetiva. E é nesse momento que muitas vezes o auditor encontra empecilhos. Tais empecilhos podem ser criados pelo auditado, seja por reter ou alterar informações, ou por fornecê-las a contragosto. Nessa situação, os rumos da auditoria dependem muito do comportamento do auditor. De que maneira ele se sincroniza com os motivos do auditado e, eventualmente, concorda com Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 20 eles. Para tal, o auditor deve possuir duas características fundamentais: sensibilidade para perceber o “estado do eu” do auditado (nível analítico) e capacidade de liderança para motivá-lo (nível reativo). 4.2 Motivação O comportamento humano é definido tanto pela ocorrência de um estímulo quanto da motivação da respectiva pessoa. Motivo é a razão de um comportamento. Motivação é a confluência de todos os motivos, que resultam num determinado comportamento. Motivar é influenciar por meio da motivação, ativando motivos já existentes utilizando estímulos adequados. Motivos As razões para determinados comportamentos (aberto, positivo, ou fechado, negativo) – podem ser perguntadas pelo auditor ao auditado. Por exemplo, podem ser feitas as seguintes perguntas para esclarecimento dos motivos de um determinado comportamento: - Quais são os motivos para o laboratório manter um sistema da qualidade? - Como e de que forma você se preparou para a auditoria? - Qual a sua experiência com auditorias? A força de um motivo, por sua vez, pode ser constatada pela forma e intensidade com as quais o auditado (ou entrevistado) se manifesta, como expressa seus sentimentos, como mantém a conversação. Dois motivos freqüentes para um comportamento fechado por parte de um auditado são o medo e a falta de informação sobre o significado das auditorias internas. Entre as razões para ter medo, podem se citadas: - Medo de que os pontos fracos no próprio setor sejam descobertos, e medo das conseqüências; - Experiências anteriores negativas; Outros motivos para o comportamento fechado podem ser: - Não concordar com a política da diretoria para a execução das auditorias internas; - Dificuldades pessoais com membros do grupo de auditoria. Motivar Uma vez que o auditor está ciente dos motivos do auditado, agora tem a possibilidade de abordar tais motivos. O objetivo, aqui, é obter do auditado um comportamento aberto, colaboração e apresentação de todas as informações Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 21 necessárias. Isto é possível quando, de forma ética, o auditor influencia o posicionamento do auditado por meio da motivação interna ou influencia o comportamento por meio da motivação externa. Motivação interna significa convencer, atribuir sentido. Isso é obtido por meio de informações prévias sobre os objetivos do programa de auditorias internas, o conteúdo e o procedimento das auditorias, o tratamento dos resultados, as vantagens de um programa eficaz – melhoria contínua, prevenção de nãoconformidades, redução dos problemas de interface, minimização da busca de culpados, desenvolvimento de pessoal, etc. A motivação interna leva a um posicionamento por parte das pessoas, independe de fatores externos, sendo, portanto, mais duradoura. Motivação externa significa dar estímulos. Nas auditorias internas, a manutenção do sistema da qualidade, e, conseqüentemente, de uma certificação ou credenciamento, é o estímulo principal. Condicionado pelo estímulo, o auditado irá exibir o comportamento desejado, sem, no entanto, estar motivado internamente. Uma vez que se alcança o desejado (a manutenção de um certificado, o cumprimento do programa de auditorias), a motivação diminui novamente. Nesses casos, é fundamental que os auditores internos trabalhem para transformar a motivação externa em motivação interna. Isso é possível por meio da conscientização do auditado sobre as vantagens de um sistema da qualidade para cada funcionário, e não meramente um instrumento de marketing. Novamente aqui falamos da disseminação de informações e da participação ativa no processo por parte de todos os envolvidos. Quando aqueles que estão envolvidos nos processos da qualidade puderem formular por si mesmos as vantagens de um sistema da qualidade eficaz, a possibilidade de se obter a conscientização é muito maior. Pois apenas a motivação interna garante que o comportamento desejado perdure e se consolide. 4.3 Análise transacional (interação entre pessoas – Eric Berne) 4.3.1 Análise funcional Se o auditor não pôde identificar a motivação do auditado por meio de perguntas (como descrito no item 4.2), a razão é que não se tratam de motivos abertos, e sim de motivos ocultos ou involuntários. Nesses casos, pode-se interagir na entrevista por meio da análise funcional – identificação dos estados do eu - a fim de reagir da maneira mais adequada para o alcance dos objetivos da auditoria. Um estado do ‘eu’ é uma combinação de: Raciocínio + sentimento + vontade (comportamento) Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 22 Em cada indivíduo, estão presentes três diferentes estados do “eu”, que, por sua vez, também se subdividem: - o eu Pai - Pai crítico; - Pai bondoso; - o eu Adulto - o eu Criança - Criança ajustada; - Criança rebelde; - Criança livre. De acordo com os estímulos e as situações que enfrentam, os indivíduos alternam seu comportamento entre os estados do ‘eu’ acima citados. Não existem estados do ‘eu’ positivos ou negativos. No entanto, quando um desses estados se sobrepõe aos demais constantemente, depara-se com uma patologia que deve ser analisada e tratada adequadamente. Eu Pai Aquele que pensa, age e sente da mesma forma que observou isso nos pais, encontra-se no estado do eu Pai. Esse estado é responsável por todas as avaliações subjetivas, ordens, proibições, regras, críticas, conselhos, disposição em ajudar e solidariedade. O indivíduo expressa suas expectativas, distribui tarefas e fornece instruções, como também atribui culpas em caso de falhas. No estado do eu Pai é que estão concentrados os preconceitos do indivíduo. Expressões típicas: Pai crítico: Você deve..., Você tem de..., Você não pode..., Quantas vezes é preciso repetir... Pai bondoso: Não faz mal..., Não fique assim..., Eu entendo você..., Você agiu bem... Eu Adulto Aquele que discute a realidade atual, coleta fatos e os processa objetivamente, encontra-se no estado do eu Adulto. Nesse estado, discutem-se objetivamente, as vantagens e desvantagens são racionalmente ponderadas, os problemas são solucionados, tomando-se por base dados, fatos, números. No estado do eu Adulto estão armazenadas as experiências pessoais do indivíduo. As idéias não são expressas de modo dogmático, e sim de forma a serem discutidas. Algumas expressões do eu Adulto: Perguntas: Como? O que...? Quando? Por quê? Quem? Onde? Expressões típicas: Na minha opinião..., comparado com... Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 23 Eu Criança Aquele que age e sente como na infância encontra-se no estado do eu Criança. Nesse estado do eu estão armazenados as sensações e os sentimentos – alegria, felicidade, amor, entusiasmo, tristeza, medo, decepção e ódio. Criança ajustada: Faz o que se espera dela, justifica-se ou desculpa-se quando ocorrem falhas, pede ajuda e conselho, observa e respeita naturalmente as regras de cordialidade e hierarquia. Expressões típicas: Isso não é minha culpa...; Eu agi corretamente?; Eu só queria... Criança rebelde: Faz o contrário do que se espera dela. Expressões típicas: Deixe-me em paz!; Agora é que não faço nada! Criança livre: Faz espontaneamente aquilo que quer, independente de normas e regras. Em uma auditoria, é o momento onde os auditados são motivados, cria-se um clima agradável, criatividade e entusiasmo são percebidos. Expressões típicas: Eu quero..., gostaria..., ótimo..., maravilha!; não me importo. Os diferentes estados do eu são acompanhados por quatro posições básicas, que explicam como um indivíduo vê a si mesmo e aos outros. Esta percepção se forma a partir dos 08 anos de idade. • Eu não estou o.k. – você está o.k. Necessidade de ajuda, dependência - Ca • Eu não estou o.k. – você não está o.k. Desespero e indignação - Ca • Eu estou o.k. – você não está o.k. Desespero e indignação - Ca • Eu estou o.k. – você está o.k. Posição básica do eu adulto – A, aceitação de si mesmo e dos outros. Também Cl Adaptado de: Deutsche Gesellschaft für Qualität e.V.(Curso de formação de gerentes e auditores da qualidade). As três primeiras situações descritas no quadro acima são involuntárias e se baseiam em sentimentos. A quarta posição, por outro lado, é resultante de uma decisão consciente e se baseia na coleta e no processamento de informações. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 24 4.3.2 O auditor na análise funcional O auditor, à medida que reconhece os estados do eu do(s) entrevistado(s), pode modificar seu próprio estado a fim de alcançar os objetivos da auditoria. Em grande parte do decorrer de uma auditoria o auditor assume o estado Adulto. Embora seja necessário assumir outros comportamentos, quer seja ao criar um clima agradável e ao motivar as pessoas (Cl), ao observar as regras de cordialidade (Ca) ou ao resolver conflitos e distribuir tarefas (Pb), sua ferramenta mais importante é a utilização consciente do eu Adulto. A posição básica é: eu estou o.k. – você está o.k. O estado do eu Adulto manifesta-se por meio do comportamento geral do auditor, seus sinais verbais e não verbais. Comportamento geral: O auditor comporta-se de maneira objetiva, aberta, ouvindo de forma concentrada e interessada, transformando racionalmente dados em informações. Mantém-se calmo, mas não impessoal. Sinais verbais: O auditor faz perguntas objetivas, sem inferir ou direcionar as respostas. Sinais não verbais: O auditor mantém a expressão do rosto aberta, dirigindo-se ao entrevistado e observando o contato visual, mantendo a cabeça e a postura retas. 4.3.3 Técnica de entrevista Comunicação Na análise funcional, os estados do eu de um indivíduo são identificados por meio das características gerais de comportamento e dos sinais verbais e não verbais. Numa entrevista, entretanto, dois ou mais indivíduos interagem, e são essas transações que passam a ser o foco da observação. O auditor deve estar atento à eficiência da comunicação durante toda a auditoria, pois tem como objetivo o melhor entendimento possível entre as pessoas, de modo a tornar comuns as idéias e informações relevantes. Para tal, deve-se ter em mente que, quando as pessoas interagem, o processo de comunicação ocorre da seguinte forma: apenas 7% se originam das informações ditas, 38% provêm do tom de voz, e significativos 55% resultam dos sinais não verbais. Outro aspecto importante é o posicionamento físico do auditor em relação ao entrevistado. A observância de uma distância adequada será fundamental para um clima de auditoria harmônico. De modo geral, cada indivíduo tem seu próprio território, de cerca de 45 cm de diâmetro. Uma aproximação maior sé é tolerada por parte daqueles com os quais se tem amizade e intimidade. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 25 De posse dessas informações, o auditor pode se comportar de forma bastante consciente, e tem grandes chances de obter sucesso na condução de uma auditoria. Na comunicação entre duas pessoas, uma delas envia uma mensagem, a qual é recebida e processada na mente do destinatário da mensagem. O recebedor do estímulo então reage, enviando sua mensagem de resposta. A outra pessoa recebe esse estímulo e o ciclo se repete enquanto durar a conversação. Desta forma, o estímulo (transmissão) e a reação (recepção) se alternam continuamente. A B Recepção do estímulo Recepção do estímulo Processamento Processamento Reação Reação No repasse de informações, é importante que se diferencie o que se diz (conteúdo objetivo) da maneira (tom de voz, sinais não verbais) como se diz (relação). Aquilo que é dito sempre está inserido num conteúdo relacional, num contexto. O conteúdo relacional é fundamental para a interpretação do conteúdo objetivo por parte do recebedor. É no conteúdo relacional que se reflete a relação entre emitente e recebedor, e que se permite argumentar sobre a posição básica e o estado do eu do emitente. Tomem-se como exemplo as perguntas abaixo: a) Você implementou o procedimento de verificações periódicas dos padrões de trabalho? b) Você finalmente implementou o procedimento de verificações periódicas dos padrões de trabalho? As circunstâncias em ambas são as mesmas. Entretanto, os conteúdos relacionais são claramente distintos, sendo o da pergunta b caracterizado por uma posição negativa. 4.4 Análise transacional Entende-se por análise transacional o estudo das relações estímulo-reação fundamentados pela análise dos estados do eu. As transações podem ser paralelas ou cruzadas. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 26 Nas transações paralelas, a comunicação acontece e pode seguir indefinidamente. Atenção para o fato de que ela não será necessariamente harmônica, pois uma discussão também pode se desenrolar dessa forma. Exemplos de transações paralelas: P P E A A E = estímulo R = reação R C C E: Quando teremos a análise estatística das reclamações recebidas no último trimestre? R: Na próxima segunda feira, durante a reunião semestral. P A P E A E = estímulo R = reação R C C E: Eu simplesmente não consigo identificar a tendência destes gráficos! Você pode me ajudar? R: Eu sabia que você ia ter dificuldade. Com certeza algum dado que você digitou está errado. Deixe que eu resolva. Nas transações cruzadas, a comunicação é interrompida. Cabe ao auditor identificar o ponto de conflito, interromper o ciclo e modificar o nível da entrevista de forma a obter novamente transações paralelas onde todos os envolvidos apresentem o estado eu Adulto. Exemplos de transações cruzadas: Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios P 27 P R E A C A E = estímulo R = reação C E: Os certificados de calibração das balanças de pressão foram analisados? R: Por quê? Tem algum problema? P P R A A E = estímulo R = reação E C C E: Eu preciso dos resultados das comparações intralaboratoriais até amanhã. R: Você sabe muito bem que isso não é minha responsabilidade. Portanto, é fundamental que o auditor conduza a comunicação de forma paralela, alterando positivamente o clima da entrevista, alternando os estados do eu. Para descontrair os entrevistados, pode assumir o estado do eu Criança. Para minimizar bloqueios, pode assumir o eu Pai ao fazer elogios pertinentes e sugerir melhorias. O eu Adulto é fundamental na maioria das situações de coleta e verificação de informações. 4.5 Escuta ativa e técnica de perguntas abertas Aplicando os conhecimentos das análises funcional e transacional, além das técnicas de entrevista, o auditor torna-se capaz de executar a escuta ativa, ferramenta muito importante para uma condução eficaz da auditoria. Escuta ativa Na escuta ativa, o auditor resume o que lhe foi dito pelo seu interlocutor, o qual confirma a correção desse resumo. Essa forma de ouvir torna-se especialmente importante em explanações longas e o entendimento do conteúdo é fundamental. A escuta ativa evita malentendidos, assegura a correta transferência das informações e o interlocutor se sente levado a sério e compreendido. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 28 Algumas expressões são freqüentemente ao praticar-se a escuta ativa: - Se eu entendi corretamente... - Em outras palavras... - Resumindo o que você disse... Técnica de perguntas abertas (não diretivas) Aquele que pergunta, lidera. É por meio de suas perguntas que o auditor mostra boa parte de sua capacidade de liderança. As perguntas abertas não induzem a resposta do auditado, ao mesmo tempo em que impossibilita as respostas do tipo ‘sim’ou ‘não’. Geralmente, iniciam-se as perguntas abertas com as expressões: Como é assegurado...De que forma...Por que... Com essa técnica, obtém-se um número muito maior de informações, e o auditado não se sente pressionado, evitando-se agressões e orientando os estados do eu para o nível Adulto. As perguntas sugestivas (Você possui ou não um procedimento para...Você verifica ou não seus equipamentos antes de colocá-los em serviço?) só devem ser utilizadas quando o auditado se esquiva ao responder as perguntas abertas. Aqui, pressionando o auditado é que se obtém a evidência desejada. Um desenrolar ideal de uma entrevista de auditoria acontece quando a escuta ativa e a técnica de perguntas abertas se alternam. Ciclo básico para a condução da entrevista: - pergunta objetiva; - resumo da resposta; - subpergunta; - resumo da resposta; - outras subperguntas... Perguntas adequadas despertam o raciocínio, verificam evidências, não são consideradas uma ameaça. Outro aspecto importante, e principalmente em se tratando de auditorias internas, é como se expressam as críticas. Caso sejam necessárias, deve-se criticar o fato, e não as pessoas (eu Adulto). A forma da crítica deve ser adequada e sempre acompanhada de uma sugestão de melhoria. 4.6 Fases de uma entrevista Conhecendo as fases em uma entrevista, o auditor pode planejar seu comportamento em cada uma. São elas: a) Saudação São feitas as apresentações das pessoas, procura-se dissipar constrangimentos. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 29 b) Abertura Os objetivos da entrevista são esclarecidos, as expectativas são definidas e inicia-se a entrevista. c) Fase de informação Todas as informações necessárias à definição das constatações da auditoria são coletadas. Deve-se aplicar a escuta ativa, para minimizar os mal entendidos e atritos na fase de argumentação. Dados fatos e números devem embasar todas as discussões, onde não há espaço para avaliações subjetivas. d) Argumentação Após a coleta de informações, os resultados são selecionados, as constatações são definidas. e) Encontro de decisão: Os resultados são apresentados, são definidas ações e, se for o caso, já são definidos prazos e responsabilidades. f) Término O auditor agradece a cooperação, se for necessário são definidos data e local da próxima entrevista. Situações críticas em uma entrevista: Os problemas citados a seguir podem ocorrer em qualquer entrevista, e a sensibilidade e capacidade de liderança do auditor serão fundamentais para orientar a mudança dos estados do eu dos envolvidos e prosseguir adequadamente. - Desvio do tema: o auditor age como moderador, reconduzindo para o tema em questão. - Conversas paralelas: o auditor não se mostra ofendido e reage com humor, pedindo que os participantes dividam os comentários com todo o grupo. - Agressões pessoais: o auditor mantém a calma e a simpatia, mas interrompe rapidamente a situação, observando que isso não beneficia em nada a reunião. - Falta de concentração: o auditor escuta ativamente, faz mais perguntas, dirige-se individualmente aos participantes, eventualmente adia a entrevista quando a situação torna-se crítica ou há excesso de influências externas. - Agressividade entre os participantes: o auditor não toma partido e mantém-se calmo, agindo como moderador. - Interrupções contínuas: o auditor ignora-as ou, em caso de repetição, explica aos participantes as regras de uma reunião. Conclusão: saber ouvir, falar, observar, escrever e se comportar são as condições necessárias para que um auditor desempenhe suas funções de maneira objetiva e prática, cumprindo com os objetivos da qualidade da organização. Ana Cristina D. M. Follador - 2005 Auditores internos da qualidade em laboratórios de calibração e ensaios 30 Referências bibliográficas ABNT. NBR ISO/IEC 17025:2001: Requisitos Gerais para Competência de Laboratórios de Ensaio e Calibração. ABNT. 2001. 20 p. ABNT. NBR ISO 9000:2000: Sistemas de Gestão da Qualidade – Fundamentos e Vocabulário. ABNT. 2000. 26 p. ABNT. NBR ISO 19011:2002: Diretrizes para Auditorias de Sistema de Gestão da Qualidade e/ou ambiental. ABNT. 2002. 25 p. DGQ – Deutsche Gesellschaft für Qualitat e.V. Curso para formação de gerentes e Auditores da Qualidade. 3ª edição. 1995. STACHELSKI, Leonardo. Auditorias: Ambiental e da Qualidade. Apostila. Maringá. 1997. Ana Cristina D. M. Follador - 2005