Turismo cultural: uma alternativa para o desenvolvimento sustentável do
Mato Grosso do Sul
Christiane Rodrigues Congro1 ; Nágila Gomes Nader2
1
Embrapa Pantanal - Rua 21 de Setembro, 1880, Corumbá, MS. E- mail:
[email protected].
2
Universidade Católica Dom Bosco / Instituto de Ensino Superior do Pantanal
(UCDB/IESPAN) – Rua Dom Aquino, s/nº, Corumbá, MS.
Resumo
Essa pesquisa tem como objetivo realizar um levantamento dos aspectos culturais de
Mato Grosso do Sul e apresentar suas potencialidades e perspectivas em relação ao
turismo cultural. O estudo se constitui numa abordagem qualitativa, de caráter
documental histórico. Essa pesquisa revela que o desenvolvimento do turismo cultural
de Mato Grosso do Sul encontra-se em fase inicial e que existe necessidade de
elaboração de um planejamento que permita a transformação dos atrativos culturais em
produtos turísticos.
Termos para Indexação: cultura pantaneira, Mato Grosso do Sul, turismo cultural.
Abstract
The present research had the objective to realize a search of the cultural aspects from
Mato Grosso do Sul and present its potentiality and perceptivities in relation to the
cultural tourism. This study was constituted in a qualitative research. The results revel
that the development from the cultural tourism in Mato Grosso do Sul is nowadays in
the beginning phase e that there is a need of planning and create roots, which allow the
transformation of the cultural attraction in touristy products.
Index Terms: cultural tourism, Mato Grosso do Sul, Pantaneira′s culture.
Introdução
Mato Grosso do Sul é considerado um Estado novo, com apenas 26 anos, possui
influências culturais diversificadas que proporcionam destaque cultural. O Estado vem
sendo visitado por turistas provenientes de diversos países, que procuram conhecer a
cultura local, sendo que em 2002, aproximadamente 67 mil turistas estrangeiros
visitaram o Estado (EMBRATUR, 2004).
O turismo cultural é uma tipologia que tem nos recursos provenientes de heranças
patrimoniais de referencial cultural/histórico, tais como monumentos, obras de arte,
documentos e manifestações tradicionais. Esses atrativos são capazes de atrair pessoas,
gerando deslocamentos e permanências temporárias (BAHL, 2003). O turismo cultural
não tem como atrativo principal um recurso natural. As atividades elaboradas pelo
homem constituem a oferta cultural. Portanto, turismo cultural é aquele que tem como
objetivo conhecer os bens materiais e imateriais produzidos (BARRETO, 2001).
WERE (1972) apud ONDIMU (2002) explica que cultura é um sinônimo de
agrupamento de pessoas através de processos contínuos, com transformações e buscas
de expressões dos valores das pessoas, crenças e rituais, além de artesanatos.
Cultura é uma dimensão do processo social, da vida de uma sociedade. Não é
estanque ou estável. É mutável e se vale das mais variadas formas de expressão humana
(TRIGO, 1996). O autor acredita que em uma sociedade onde a educação tornou-se
permanente e a cultura permeia praticamente todas as atividades, inclusive o lazer e o
turismo. Para PINTO (1968) apud TRIGO (1996), cultura é o processo pelo qual o
homem acumula as experiências que vai sendo capaz de realizar.
O turismo cultural está inserido em diversos segmentos de turismo, onde engloba
outras tipologias como: ecológico, antropológico, religioso, arqueológico, artístico,
entre outros. O turismo cultural e o ecoturismo geralmente estão inter-relacionados e
encontram-se elementos de ambos em passeios e destinos voltados para esse segmento
(OMT, 2003).
Não só nos países desenvolvidos, bem como no Brasil, os atrativos culturais estão
sendo inseridos com destaques para: museus de artes, peças teatrais, apresentações de
orquestras, entre outros. Em áreas menos desenvolvidas podem ser incluída as práticas
religiosas tradicionais, artesanatos ou apresentações culturais (OMT, 2003).
Deve-se ressaltar que os turistas podem causar impacto negativo nas culturas que
visitam, especialmente no turismo de massa, porém o próprio crescimento turístico pode
levar os habitantes de um determinado lugar a uma certa recusa das atividades turísticas,
devido ao incômodo a que vêem submetida sua vida diária (OMT, 2001).
Nesse sentido a conservação das características culturais do Mato Grosso do Sul, e
a sua concretização como um produto turístico planejado pode ser uma estratégia
fundamental para o desenvolvimento sustentável do turismo na região.
Material e Métodos
Essa pesquisa tem como objetivo realizar um levantamento dos aspectos culturais
de Mato Grosso do Sul e apresentar suas potencialidades e perspectivas em relação ao
turismo cultural. O estudo se constitui numa pesquisa qualitativa, de caráter documental
histórico, com ênfase na análise de conteúdo de pesquisa, levantamento de dados
estatísticos elaborados e divulgados por órgãos governamentais, consulta as pesquisas
científicas produzidas sobre a região e observação in loco.
Resultados e Discussão
Como resultado dessa pesquisa foram descritos alguns aspectos relacionados à
cultura sul- mato-grossense e que podem fornecer subsídios para o desenvolvimento do
turismo cultural, contribuindo com o desenvolvimento sustentável da região.
Existem algumas dezenas de sítios arqueológicos no Estado (MARTINS, 1992).
Esses atrativos naturais podem ser transformados em produtos turísticos culturais, pois
os sítios evidenciam a qualidade cultural desses povos extintos, sendo considerados
painéis de arte rupestre. “Um intrigante conjunto de petróglifos apresenta-se gravado em
uma porção do solo laterilizado próximo às margens do rio Paraguai, no município de
Corumbá” (MARTINS, 1992). Ele explica que nesse local ao longo de vários
quilômetros, existem dezenas de sinais variados distribuídos e que parecem estar
alinhados em uma trilha ou via no meio da vegetação pantaneira.
Destacam-se sete tribos indígenas no Estado de Mato Grosso do Sul, sendo que
duas foram extintas no processo de colonização e quatro tribos buscam melhorias na
qualidade de vida de seus membros além de formas de evitar a extinção de sua cultura.
Esses grupos étnicos podem contribuir agregando valor ao turismo na região, sejam
através de museus ou através de comercialização de seus artesanatos e de apresentações
culturais pré-determinadas. Entretanto, a inserção da cultura indígena no turismo é um
assunto delicado e que demanda amplo planejamento e bom senso na formatação desse
tipo de produto turístico.
As tribos apresentam as seguintes características: guaranis (produção de milho,
mandioca e algodão, artesanato com potes cerâmicos e tecelage m de rede de fibras de
caraguatá), kadiwéo (caçadores-coletores, domesticação de cavalos, cerâmicas
decoradas com motivos cromáticos, tatuagens corporais, alto senso de beleza estética),
terena (produção de milho, mandioca, fumo, batata-doce, algodão, abóbora, coleta de
frutos silvestres regionais e de mel, ceramistas e fiadores), guató (característica
lingüística própria, pesca, caça, lavoura nas margens dos rios, tecelagem de tecidos de
algodão, risco de extinção), ofaié (caça, festas e jogos tradicionais, lutam por território
para preservar sua cultura), paiaguá (canoeiros e nadadores, foram extintos desde
meados do século passado) e kaiapó (arte plumária, expressivas técnicas de pintura
corporal, porém estão extintos desde o século XIX) (MARTINS, 1992).
Quanto aos aspectos culturais das influências musicais pode-se afirmar que no
Estado elas são amplas e diversificadas. Como destaca o compositor sul- matogrossense, Paulo SIMÕES (2004) “a música de Mato Grosso do Sul é um produto multi,
proveniente de diversos pontos cardeais, diferentes, portanto da música popular
internacional e da world music”. A música branca e rural tem origem em São Paulo e
Minas, de onde saíram os bandeirantes, que vieram desbravar o Estado. Na fronteira
com o Paraguai e a Bolívia, há influência dos ritmos platinos, como a polca paraguaia, a
guarania e o rasqueado. O chamamé também inclusive na Argentina e no Paraguai.
Ainda segundo Paulo SIMÕES (2004), não existe a música típica do Pantanal.
Porém o cururu e o siriri merecem destaque, que são um resquício cultural e que
sobrevive em cidades de densidade populacional suficiente para reunir dez cururuzeiros
que dancem o siriri. Em termos de cultura musical é preciso lembrar o samba, presente
nos carnavais de Corumbá, cidade histórica considerada berço da cultura do Mato
Grosso do Sul. Tostão e Guarany, Almir Sater, Alzira Espíndola e Carlos Colman são
alguns nomes que representam a musicalidade da região.
Em relação às expressões artísticas no Estado existe uma ampla influência da
natureza, que influência o resultado final dos trabalhos e que pode ser utilizado como
atrativo turístico artístico regional, desde que, se apresente de forma organizada como
um produto turístico. Os trabalhos produzidos pelo artista plástico Adilson Scheiffer,
com seu estilo que mistura cultura nativa com a idéia do movimento pop, cujo auge se
deu na década de 60. Outro nome é o de Humberto Espíndola, referência obrigatória
quando se fala de artes plásticas no Estado, pois ele vem reinterpretando o caráter social
da bovinocultura ao longo de sua carreira. Beto Lima também merece destaque em
função de sua técnica mista, que utiliza giz de cera, pastel seco e tinta acrílica para
retratar flores e animais domésticos. Nelly Martins, pinta em pastel, flores e frutos
locais, produz esculturas em bronze e peças cerâmicas de alta temperatura e escreve
crônicas e contos (NATUREZA E ARTE, 1997). As artes plásticas do Estado revelam
artistas imbuídos da certeza de que a obra é produto de processo reflexivo e de uma
busca incessante de transformação da linguagem. Dentre os artistas locais, destacam-se
Beto Lima, Heron Zanata, Paulo Rihotti, Paulo Flores (MENEGAZZO, 1996).
A arquitetura através dos casarios históricos também se destaca em função de seu
potencial em relação ao turismo cultural. A cidade de Corumbá, considerada berço da
história sul- mato- grossense, conta com o Porto Geral que é hoje é um dos principais
pontos turísticos da cidade, recebendo embarcações de pescadores profissionais e barcohotéis. O sossego do lugar, o ar puro que vem do Pantanal e que atenua o forte calor,
não condiz com o movimento comercial do passado, quando em 1814, foi o 3° maior
Porto da América Latina, onde desembarcavam transatlânticos com mercadorias que
vinham da Europa e do Rio de Jane iro em direção a Cuiabá (então capital do Estado).
Os casarios antigos que embelezam a rua Manoel Cavassa, a principal do Porto, são o
ponto de referência histórica da cidade. O prédio Wanderley Baís & Cia., construído em
1876, se destaca pela sua arquitetura e estrutura aonde o piso e a escada de ferro com
desenhos exóticos, vieram da Inglaterra. Outro casarão de grande valor arquitetônico é a
Casa Vasquez & Filhos, construído em 1909, pelo arquiteto italiano Martino Santa
Lucci (CORUMBÁ, 2004).
A literatura sul- mato- grossense consagrada por nomes, como o do poeta Manuel
de Barros, que escreveu inúmeros livros sobre as belezas locais. Para ele “Poesia não é
para compreender, mas para incorporar. Entender é parede. Procure ser uma árvore”
(NOGUEIRA; VALLEZI, 1985). Além de Manuel de Barros, também se destacam
poetas e romancistas como: Armando Carmello, Rosário Congro, Weimar Torres, Joel
Pizzini, Emmanoel Marinho, Antônio Alves Guimarães, entre outros nomes.
A gastronomia local é muito diversificada e os hábitos alimentares foram
influenciados por outras culturas, como o hábito de beber tereré, uma espécie de
“chimarrão gelado”, trata-se de uma infusão fria, concentrada fortemente, utilizando-se
uma mistura de erva- mate (Ilex paraguariensis), grossa com material pulverulento
trazido da convivência com os paraguaios. A cultura de ervas contribui para a sua
industrialização e para a cultura nacional (LODI, 1986). A bebida tornou-se muito
popular no Estado e foi inicialmente introduzida através das cidades de Ponta Porã e
Bela Vista, região rica em ervais nativos.
O Paraguai também cooperou com a nossa gastronomia, como a chipa (um tipo de
pão de queijo) e a famosa sopa paraguaia, que é uma torta feita à base de milho e queijo.
Da Bolívia, vieram outras delicias como: saltenha, um salgado em que a massa é feita
com o óleo do urucum e especiarias, recheada com frango, batatas e uva passa e arroz
boliviano, tipo de risoto com ervilhas, banana da terra frita, pedaços de galinha, ovos
cozidos e milho verde. A culinária tradicional do Estado utiliza pequi, fruta endêmica
do Cerrado, preparado na formas de pratos salgados e também como licor. Dentre os
doces, destaca-se o furrundu, preparado com mamão e rapadura de cana (BONITO,
2004).
Os gaúchos introduziram o churrasco, sempre acompanhado da mandioca
cultivada pelos indígenas. Os mineiros, famosos por sua cozinha, contribuíram com as
receitas dos bolos, doces, queijos e requeijão. A farinha de mandioca e a rapadura
chegaram com os nordestinos (QUEM É O DOURADENSE, 1986).
Dentre os potenciais turísticos da cultura sul- mato- grossense, a cultura pantaneira
é a que mais se destaca, por suas peculiaridades e características autênticas. Por homem
pantaneiro entende-se que é um indivíduo natural do Pantanal ou aquele que mesmo não
tendo nascido no Pantanal, assimilou a vivência desse nativo, compartilhando dos
hábitos e dos costumes típicos da região (GONÇALVES, 2000).
O homem pantaneiro também obteve fortes influências dos nativos indígenas, na
sua forma de vivência em toda planície pantaneira, a maneira de dormir em redes, de
andar descalço, o amor à liberdade, o costume das festanças, a utilização da “canoa de
um pau só”, o gosto pelo milho e pela mandioca e o uso do pilão (BONITO, 2004).
A culinária pantaneira destaca-se por seus pratos típicos como: o caldo de piranha
- uma sopa feita com piranha, nutritiva e rico em vitaminas; a bocaiúva - fruta nativa
que pode ser usada como farinha, na base de diversos pratos típicos; o churrasco
pantaneiro e a carne seca, servida em paçoca, cozida, cozida, frita, assada no arroz
(BONITO, 2004).
Conclusões
Considerando a diversidade das influências culturais em Mato Grosso do Sul,
pode-se concluir que o Estado tem amplas possibilidades de desenvolvimento de
diversas tipologias turísticas, com destaque para o turismo cultural, possibilitando a
viabilização de um produto turístico regional. Entretanto, convêm ressaltar que o
sucesso do turismo cultural em Mato Grosso do Sul depende inicialmente da capacidade
de planejamento e implantação de roteiros que transformem o potencial cultural sulmato-grossense em produtos turísticos.
Referê ncias Bibliográficas
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