A relação teoria e prática na gestão dos cursos de pós - graduação (stricto sensu)1 Maria Helena Salgado Bagnato2; Eunice Almeida da Silva3 Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) - São Paulo-Brasil [email protected] [email protected] 1. RESUMO A articulação teoria e prática tem sido uma temática bastante explorada na produção científica na área da Enfermagem, tentando superar uma estrutura em que ainda predomina o tecnicismo e um modelo biologizante e fragmentado de fazer ciência. 1 A presente pesquisa é financiada pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq- Brasil). Maria Helena Salgado Bagnato é professora doutora da Universidade Estadual de Campinas e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Práticas de Educação e Saúde (PRAESA). 2 3 Eunice Almeida da Silva realiza pós doutorado na Faculdade de Educação da UNICAMP, é pesquisadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Práticas de Educação e Saúde (PRAESA). Neste texto, propomo-nos a problematizar a relação teoria e prática no processo de gestão de um curso de pós-graduação em Enfermagem Fundamental. Nossa preocupação volta-se para a articulação entre estas duas facetas, caracterizando-as como práxis. Entendemos a articulação teoria e prática enquanto um princípio que deve permear todo o processo de formação dos profissionais de saúde, tanto nos cursos de graduação quanto de pós-graduação. Para tanto, a gestão dos cursos stricto sensu em Enfermagem, os quais se destinam a formar além de pesquisadores, docentes para a graduação e para a pós-graduação, poderá ser um espaço fértil para contemplar uma articulação orgânica entre teoria e prática. Ao aprofundar as reflexões em torno desta temática queremos contribuir para o processo de gestão desses cursos, em uma perspectiva democrática e participativa visando o fazer em Enfermagem como uma prática social, capaz de transformar o caráter muitas vezes desumano e mecânico desse fazer. Palavras – chave: Teoria-prática, práxis, enfermagem, gestão, pós-graduação 2. CONTEXTUALIZAÇÃO DA TEMÁTICA O distanciamento entre a teoria e a prática no ensino de graduação em Enfermagem foi tema central de uma pesquisa desenvolvida como tese de doutorado, em 2004, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP-Brasil). Em 2011, dando continuidade a estas reflexões, encaminhamos um projeto que foi acolhido pelo Laboratório de Práticas Educativas em Saúde (PRAESA), da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP-Brasil), com vistas a problematizar a relação teoria e prática no processo de gestão de um curso de pós-graduação em Enfermagem Fundamental. A escolha pela área de Enfermagem Fundamental está no fato de essa ser fundante do conhecimento e da prática da Enfermagem e, portanto, de embasar todas as áreas específicas. 3. QUESTÕES NORTEADORAS DA PESQUISA 1. Há espaços no processo de gestão de um curso de Pós-Graduação (stricto sensu) em Enfermagem para discussões sobre a articulação entre teoria e prática nesta formação? Se há, sob quais bases teóricas é sustentada essa discussão? 3. Em que momento do processo de formação é pensada a articulação entre teoria e prática e como esta é realizada? 4. CAMPO DE COLETA DE DADOS Pretendemos realizar a nossa coleta de dados para obtenção das respostas às perguntas anteriormente descritas, na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (USP-RP-Brasil), especificamente no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental, tendo em vista ser esta a primeira universidade, no Brasil, a implantar um curso de doutorado nessa área. 5. OBJETIVOS Os objetivos específicos da pesquisa são: 1) Situar historicamente a trajetória do conhecimento da Enfermagem, delineando possíveis propostas de articulação entre teoria e prática; 2) Situar o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto; 3) Compreender as concepções de relação entre teoria e prática oferecidas no Programa referido, delineando-as teoricamente; 4) Apontar e analisar as bases teóricas que sustentam a formação na área de Enfermagem Fundamental da Universidade em estudo; 5) Analisar questões epistemológicas e metodológicas existentes na organização do conhecimento exposto no Programa de Pós-Graduação (stricto sensu), na área de Enfermagem Fundamental, impeditivas de articular teoria e prática; 6) Sistematizar os resultados levantados, apontando o modelo de curso oferecido no Programa stricto sensu, na área de Enfermagem Fundamental desta Escola, especificando e analisando as propostas de articulações entre teoria e prática na formação de futuros professores de graduação; 7) Contribuir para o processo de gestão dos cursos de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental, em uma perspectiva democrática e participativa visando a contemplar ferramentas teóricas, epistemológicas e metodológicas para a construção de mediações entre a teoria e a prática. 6. JUSTIFICATIVA E CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA 6.1. Breve relato histórico sobre a trajetória do saber da Enfermagem: o surgimento do teórico para embasar a prática A Enfermagem da Era Medieval, no ocidente, pode ser caracterizada como uma prática de cuidados realizados pelas irmãs de caridade, que valorizavam, sobretudo, a moral. O ensino de Enfermagem era fundamentalmente prático e não sistematizado (Silva, 2004). Segundo Geovanini et.al. (1995) quem escolhia realizar esse serviço, além das irmãs de caridade, eram as virgens, as viúvas e as senhoras de grande influência na sociedade. As atividades eram executadas com base no saber manual e os conhecimentos eram transmitidos com base nas experiências vivenciadas. Portanto, não havia uma base científica no saber da Enfermagem medieval. Com o advento da Reforma caracterizada, sobretudo, pelas mudanças teológicas, sociais, políticas e econômicas que aconteceram no século XV na Europa, as irmãs de caridade que prestavam os serviços de enfermagem, foram expulsas dos hospitais onde trabalhavam. Essa situação deveu-se, sobretudo, às mudanças teológicas que se traduziam nas manifestações dos reis contra a supremacia papal. As irmãs de caridade foram substituídas, no período, por mulheres que, como dizem alguns autores como Giovanini et.al.(1995) e Paixão (1979) tinham baixo nível de qualificação. Foi no contexto da Era Moderna, sobretudo, com a formação de saberes específicos, da Revolução Industrial, do surgimento da Higiene Pública, e outros acontecimentos que surgiu a Enfermagem Moderna. Florence Nightingale, nascida em Florença, Itália, em 12 de maio de 1820, considerada fundadora da Enfermagem Moderna, vivia na Inglaterra quando buscou reformar a Enfermagem mediante princípios éticos, morais e sob alguns princípios técnico-científicos. Para tanto, procurava reorganizar os hospitais da época de acordo com as justificativas científicas. A sociedade em que viveu Florence havia passado por toda uma mudança estrutural, fruto da Revolução Industrial e também das idéias iluministas, que gerou uma nova visão em relação ao modo de vida dos povos. Passou-se a requerer mais ordem, disciplina e eficiência, fatores relacionados a um agir racional. Diz- nos Rosen (1997:112) que essa época “(...) refletia um interesse pelos problemas de saúde e bem-estar dos pobres, não apenas por sentimento de caridade, mas na intenção de controlá-los de modo racional e inteligente.” A necessidade, portanto, a partir de então, não era a de prestar cuidados aos doentes como uma ação de caridade, mas de prestar cuidados com bases em comprovações científicas, uma vez que já se tinha a concepção de higiene e dos meios que possibilitavam causar doenças. O projeto de profissionalizar a Enfermagem surgiu em 1850, com Florence Nightingale, com o principal objetivo de transformar a imagem ruim que se tinha dessa área. A questão teórica na Enfermagem nasceu com Florence quando ela afirmou ser a enfermagem diferente da medicina por favorecer nos indivíduos o surgimento de suas potencialidades naturais para que se opere a cura. Florence mostrou a importância de um trabalho dirigido com base nos conhecimentos gerais e específicos que toda enfermeira deve possuir. A atuação de Florence, portanto, determinou um marco entre a prática da Enfermagem exercida por pessoas leigas do ponto de vista técnico-científico e uma prática da Enfermagem executada por pessoas preparadas para tal. Segundo Carraro (2001:9), “A própria Florence Nightingale, após buscar conhecer o que se praticava na Enfermagem, afirmou que só conhecimentos especializados poderiam trazer resultados satisfatórios (...)”. Contudo, Florence Nightingale procurou definir a Enfermagem como uma arte de cuidar dos doentes. O Modelo Nightingaleano de fazer enfermagem foi difundido pelo mundo e influenciou de maneira significativa o desenvolvimento da Enfermagem como Ciência. 6.2. A organização do saber científico da Enfermagem: a relação entre a prática e a teoria Na década de 1950, nos Estados Unidos, surgiram as primeiras teoristas enfermeiras com o intuito de fornecer à Enfermagem um arcabouço de cientificidade necessário para que essa área pudesse galgar o status de Ciência além de Arte: (...) Todavia, depois de 1950, grande número de enfermeiras teoristas tem desenvolvido modelos de Enfermagem que oferecem suporte para o desenvolvimento das teorias de Enfermagem e do conhecimento de Enfermagem (CARRARO, 2001:10). O período de 1950 se caracterizou, portanto, como um marco divisor entre uma enfermagem não científica, regida apenas por intuição para a realização de procedimentos embasados em teorias. Pretendia-se incorporar na educação do enfermeiro o conhecimento das ciências sociais, físicas e biológicas. Por meio desses saberes, esperava-se uma formação ampla desse profissional no que diz respeito ao conhecimento científico, com vistas à aplicabilidade na prática da Enfermagem. Esperava-se que o enfermeiro fosse capaz de identificar o problema e, por meio do conhecimento de outras áreas, pudesse conceituar cientificamente esse fato. Depois de conceituado, traçavam-se os cuidados de Enfermagem (Silva, 2004). Almeida et. al. (1986 apud Nordmark & Rohweder,1972), exemplificam como deveria ser compreendida a assistência de Enfermagem ao paciente com base em raciocínio científico. Por exemplo, para um caso clínico que apresentava relação com o volume e a pressão do sangue circulante foi descrito o conceito de homeostasia: (...) o sangue transporta substâncias do exterior ao interior das células e vice-versa, e por ele o volume e a pressão do sangue circulante devem conservar-se dentro de certos limites para satisfazer as necessidades variáveis dos órgãos. Portanto, a enfermeira deve observar o paciente em busca de sinais e sintomas de transtornos de circulação, e informar ao médico (ALMEIDA et.al.,1986:59 apud NORDMARK & ROHWEDER, 1972). Havia, portanto, uma organização sistematizada do saber da Enfermagem por meio de teorias para direcionar o cuidado a ser prestado. Esse fato possibilitou um deslocamento da Enfermagem Arte para Enfermagem Ciência: Muito antes de a enfermagem ser uma ciência ela era uma arte. Muitos dos seus aspectos atuais têm raízes em milhares de anos, durante os quais as enfermeiras empenhavam-se em curar o doente e dele cuidar com ternura, carinho, mais que com ciência (ALMEIDA et.al., 1989 apud SOUZA, 1959). Contudo, procurou-se, posteriormente, definir a Enfermagem como Arte e Ciência. A mesma autora anteriormente citada mostra esse fato em sua edição de 1966: A enfermagem é uma arte e ciência que visa ao paciente como um todo: corpo, mente, espírito. Técnica de enfermagem é aplicação dos conhecimentos dessa Arte e Ciência. É adaptação dos meios à prática dos ensinamentos, o procedimento da enfermeira dentro do seu campo de ação, o uso dos métodos e o emprego correto das determinações, com absoluta observância dos detalhes (ALMEIDA et.al., 1989 apud SOUZA, 1966). Pode-se compreender, com bases nessas citações, que antes de a Enfermagem galgar o status de Ciência ela, era concebida como Arte. Pode-se também intuir que quando a Enfermagem se caracterizava pela realização prática, sem a existência de um embasamento teórico, era concebida como Arte. A Enfermagem enquanto Ciência passou a mediar um saber técnico-científico. Esse saber é aplicado de acordo com uma metodologia para prestar a assistência de Enfermagem. Esta consiste em um processo aberto, dinâmico e contínuo que objetiva propiciar ao doente as melhores condições para a recuperação da saúde (Carraro, 2001). A Metodologia da Assistência de Enfermagem, no Brasil, iniciou-se com Wanda de Aguiar Horta na década de 1970. Horta utilizava o termo Processo de Enfermagem para caracterizar o conjunto de etapas que direcionam a assistência a ser prestada. Acreditava-se que essa Metodologia seria capaz de aproximar a teoria à prática de enfermagem e também teria a finalidade de unificar a Enfermagem Arte da Enfermagem Ciência, tendo em vista que o objeto de estudo da enfermagem é o Cuidar e que este implica, além da técnica, na expressão da sensibilidade humana. 6.3. A importância dos Programas de Pós-Graduação (stricto sensu) para o saber da Enfermagem A partir de 1970, no Brasil, há a preocupação de se implantar a educação continuada, na área da Enfermagem, por meio de cursos de pós-graduação (stricto sensu). Tal iniciativa veio em decorrência da necessidade de ampliar as atividades do enfermeiro e, sobretudo, do docente, com a inserção da pesquisa e, consequentemente, da produção científica. Com a pós-graduação na área da Enfermagem, o docente ganhou um lugar de destaque em relação aos membros das outras categorias da equipe dessa área, com isso, é produzido um distanciamento entre o pesquisador – docente – e o enfermeiro que atua nos serviços. A lógica era a de que com a pós-graduação, haveria uma produção de pesquisas, sobretudo, com objetivos de direcionar a prática, ou seja, articular a teoria à prática e, como resultado, integrar a pesquisa ao ensino, uma vez que uma das metas da pós-graduação também era o de formar docentes. Esperava-se que o stricto sensu pudesse imprimir um caráter qualitativo no conhecimento da Enfermagem e que isso fosse balizado pela dedicação dos docentes e dos alunos na produção de trabalhos acadêmicos. O corpo docente permanente deve possuir, de preferência, regime de dedicação exclusiva, produção científica ou técnica, orientação acadêmica e de teses/dissertações (ROCHA et. al., 1989:41, apud MEC, 1987). Na década de 1980 foi dado ênfase aos cursos de mestrado e doutorado na área da Enfermagem uma vez que essa profissão era concebida como peça fundamental para a transformação do sistema de saúde (ROCHA et. al., 1989, apud MEC, 1987). Em 1987, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG-Brasil) foi encarregada de elaborar o Projeto de Apoio ao Desenvolvimento da Pós-Graduação em Enfermagem na América Latina. Tal Projeto foi apoiado pela Fundação W.K. Kellogg e tinha como principal finalidade contribuir para o desenvolvimento da Enfermagem na América Latina, por meio da criação e da implementação de cursos de pós-graduação em nível de mestrado, com ênfase em Assistência Primária. Tal proposta visava à aproximação do ensino de Enfermagem com a realidade social, política e econômica das sociedades. Nessa época, havia uma forte discussão quanto à missão da pós-graduação. Os programas de pósgraduação consistiam, por um lado, na necessidade da formação de especialistas com os cursos de especialização e, por outro lado, a de professores e pesquisadores com os cursos de mestrado e doutorado. Diante dessa realidade a discussão em pauta era a de focar a missão dos programas de pós-graduação no sentido de estes contribuírem para o aprimoramento dos serviços (SOUZA, 1987). As diretrizes curriculares para a graduação em Enfermagem no Brasil aprovadas em 2001 pela Resolução n⁰ 03/2001-CNE, enfocam em seu Artigo 14 Parágrafo II, que “as atividades teóricas e práticas presentes desde o início do curso, deverão permear toda a formação do Enfermeiro, de forma integrada e interdisciplinar.” No Parágrafo VI- “apontam a importância da definição de estratégias pedagógicas capazes de articular o saber; o saber fazer e o saber conviver, visando desenvolver o aprender a aprender, o aprender a ser, o aprender a fazer, o aprender a viver juntos” (BRASIL, 1996). Bagnato & Rodrigues (2007), em um pesquisa sobre os contextos em que foram elaboradas as diretrizes curriculares para a graduação em Enfermagem no Brasil aprovadas em 2001, citada anteriormente, retomam os anos 1980 e 1990, explicitando que a inspiração para mudar a formação na Enfermagem estava guiada por questões que diziam respeito a problemas internos refletidos nas condições de saúde da população brasileira, como o apelo a uma formação com base nos dados epidemiológicos regionais e nacionais com vistas a atender de maneira mais focada as necessidades apresentadas. Esse apelo, reiteram as autoras, segue na contramão de uma formação centrada apenas no modelo clínico e num fazer intra-hospitalar. As autoras referendadas, dizem, ainda, que tais diretrizes aprovadas na Resolução n⁰ 03/2001-CNE, trazem novos discursos e terminologias, bem como justificativas de mudanças, tendo como base as transformações de âmbito geral do mundo contemporâneo sem valorizar, no entanto, questões internas postas em nossa sociedade no particular: Assim é que foram se incorporando ao discurso e à letra da lei terminologias até então não veiculadas na internalidade desta prática, como a noção de competências e habilidades, a pedagogia do aprender a aprender, a justificativa da mudança a partir da constatação das transformações no trabalho, dos avanços tecnológicos, do uso da informação e, o que estava ainda implícito na reformulação que era a adequação da educação superior ao novo formato que ela deveria ter (BAGNATO & RODRIGUES, 2007). Diante dessas constatações, pode-se dizer que, apesar de ser notória a contribuição de inúmeros trabalhos de pesquisas na área de Enfermagem enriquecendo o ensino, a assistência e impulsionando a elaboração de políticas públicas para a melhoria da população, dos estudantes e dos profissionais dessa área, parece que há pontos nevrálgicos impeditivos de articular teoria e prática o que, consequentemente, afasta o ensino da assistência prestada. Alguns autores como Merigui (1998) apontam para essa questão. A autora se inspira em Ribeiro (1970) e em outros, para dizer que: É significativa a quantidade de artigos publicados que se referem à dicotomia existente entre o ensino e a assistência e à docência de enfermagem de antigamente e a atual. Ressaltam que antes a docente de enfermagem concentrava suas ações nas tarefas assistenciais, era vista e respeitada como aquela que sabia cuidar do paciente. Posteriormente, a enfermagem tornou-se uma carreira universitária e a pesquisa passou a ser imprescindível. Com esta evolução, o docente passou a enfrentar o problema de ter que conhecer a teoria, de ter vivência da prática, embora deixando de desenvolver uma atividade contínua no campo. Passou a ser vista pelo aluno como aquela que conhece a teoria e é respeitada pelo seu saber, enquanto o enfermeiro assistencial é o modelo da capacidade técnica, é o que sabe fazer. A grande queixa dos enfermeiros é que a teoria nem sempre se aplica à prática profissional (MERIGUI, 1998:81 apud RIBEIRO,1970). A ênfase em uma formação centrada na proximidade da teoria com a prática vem desde a década de 1970 e tem refletido necessidades inerentes ao desenvolvimento do saber da Enfermagem. Porém, parece que os esforços apontam pouco para as questões centrais que regem esse saber, ou seja, para questões epistemológicas que dizem respeito à organização do conhecimento dessa área. 7. OBJETO E PRESSUPOSTOS 7.1. Sobre a Organização do conhecimento da Enfermagem - questões epistemológicas relacionadas à teoria e prática A questão da dicotomia entre teoria e prática é fruto do método racionalista de produzir conhecimento. Esse método rompe com a possibilidade de um diálogo entre as partes. Sob essa ótica, a sociedade é organizada para pensar, agir e reagir de maneira dicotômica. Lopes, 2007, referindo-se às propostas de currículo na área de Ciências e de Química, diz que o modelo curricular expressa um compromisso com a mudança social, bem como mostra o investimento em direcionar os caminhos da prática. A mesma autora salienta que, dos anos 1990 para cá, houve um grande avanço em relação a identificar que propostas são construídas cotidianamente no decorrer da formação, mediando pedagogicamente o social, o político e o cultural, mas que ainda se sustenta grande parte da tendência verticalizada e hierarquizada da relação entre teoria e prática. Mesmo quando há tendências inovadoras baseadas em aportes teóricos das denominadas perspectivas pós-modernas, e seu foco na emancipação do sujeito via conhecimento, tais tendências acabam assumindo um caráter prescritivo. A autora, diz que, quando concebem tais aportes teóricos como fundamentos a serem incorporados por todos ou quando os intelectuais não refletem sobre suas próprias funções políticas e sociais diante de prescrições concebidas como verdadeiras, corre-se o risco de restabelecer, em novas bases, o monismo epistemológico (LOPES, 2007). Sob esse raciocínio mudam-se discursos, terminologias, conceitos, mas não há avanço significativo e produtivo que possa mudar o eixo epistemológico da ciência amparada pela racionalidade. Esse raciocínio foi mostrado na pesquisa realizada em minha tese de doutorado defendida em 2004. O resultado de uma entrevista, realizada com uma enfermeira assistencial, sobre questões relativas à teoria e à prática, mostrou que há uma discrepância entre teoria e prática e que esta é atribuída também ao tipo de conteúdo que o professor ministra em sala de aula: o dito teórico seria pouco empírico, não palpável em relação ao que se vê no campo hospitalar: Eu acho assim, o que o professor está dando no teórico, não tem nada a ver com a prática. Se ele desse, por exemplo, (...) um hemograma: está vendo isto aqui? Você tem... É um desvio a direita, é um desvio a esquerda... Ele não dá isso (..) Nós temos enfermeiros júnior recém contratados tem menos de um ano de experiência(...) Eles têm a visão do que? É a visão do papel (...) (SILVA, 2004:124). A organização do saber de Enfermagem, assim como a de outros saberes, foi concebida por meio de teorias capazes de orientar a prática. O prático, portanto, está submetido à condução de um modelo teórico. O método científico do fazer prático da enfermagem por meio do processo de enfermagem ou da sistematização da assistência, o qual pretende uma articulação entre a teoria e a prática nessa área, pode não ser suficiente para esse fim dada as questões epistemológicas aí implicadas. É o que mostra Scherer et al. (2006 apud Clapis et. al, 2004) Atualmente, os profissionais de enfermagem têm se esforçado para a prática do cuidado numa visão holística, objetivando a valorização do homem como ser total tanto no campo da saúde como quando exercem funções de ensino, pesquisa e extensão, considerando as mudanças no sistema educacional. Contudo, o próprio processo de enfermagem tende a persistir hierárquico, disciplinar, ou seja, ‘verticalizado’ SCHERER et. al. (2006 apud CLAPIS et al, 2004). Segundo Lopes (2007), na contramão dessa tendência de buscar teorias capazes de orientar as práticas, seria mais produtivo realizar pesquisas educacionais para entender e contribuir na construção do objeto denominado educação. A autora diz que é possível acreditar que um entendimento mais aprofundado sobre a educação possibilite discussões e diálogos, em múltiplas direções, com currículo, mas sem pretender construir um lugar privilegiado do saber sobre a prática. PRESSUPOSTOS A ciência Enfermagem, com base no modelo biomédico, concebe a realidade acabada, definida pela verdade transformada em fatos. Dessa maneira, não possibilita a aproximação da teoria com a prática, uma vez que o campo prático comporta diversas e múltiplas situações que nem sempre estão e podem ser contempladas no arcabouço teórico. Sob esse modelo de formação a Lei de Diretrizes e Bases n° 9.394/96, que propõe uma formação “crítica e reflexiva com competência técnico-científico-ético-político-social-educativa (...)” (Brasil, 1996), torna-se difícil de ser implementada, pois mesmo que o profissional seja capaz de fazer a crítica ao distanciamento entre teoria e prática, isso não é suficiente para transformar a realidade, o que lhe garante o lugar de subordinação às práticas sociais dominantes e hegemônicas. Segundo Paraskeva (2002:113) inspirado em Apple para que ocorra a transformação da realidade e, consequentemente, dos mecanismos que sustentam as práticas sociais dominantes e hegemônicas, é necessário haver o domínio do conhecimento crítico, pois conhecer é poder. Para esse autor é fundamental o questionamento das formas de conhecimento difundido: (...) de quem é esta cultura? A que grupo social pertence este conhecimento? E de acordo com o interesse de quem é que se transmite determinado conhecimento (fatos, destrezas, propensões e disposições) em instituições culturais como as escolas?(...) (PARASKEVA, 2002:113). Sustenta-se neste projeto que o domínio do conhecimento crítico pode ocorrer no processo de formação do enfermeiro. Para que isso aconteça, considera-se que tal processo contemple a mudança no eixo epistemológico da ciência Enfermagem: de uma ciência organizada com base no método racionalista, tecnicista, amparado pelo modelo biomédico, para uma organização epistemológica que possibilite o diálogo com outras áreas do conhecimento, inclusive com a área da Educação. A possibilidade de diálogo com outras áreas do conhecimento pode desvendar os interesses que legitimam a desarticulação entre teoria e prática na área da Enfermagem. Dessa maneira, o processo de formação em Enfermagem favorecerá a compreensão dos objetivos da prática social que a enfermagem executa, por meio da análise crítica de como está organizado o conhecimento dessa área. A mudança do eixo epistemológico e o desvendar dos interesses referidos poderá propiciar, aos poucos, a construção de uma mediação entre teoria e prática sem, contudo, pretender aprisionar a prática às teorias e, portanto, sem apontar para verdades pré-determinadas. 8 DESARTICULAÇÃO ENTRE TEORIA E PRÁTICA – possibilidades de compreensão Este trabalho fundamenta-se na abordagem da Educação Crítica, lançando mão das idéias de autores como Paulo Freire, Michael Apple, Henry Giroux, João Paraskeva, Bruno Pucci e outros. Tal abordagem traz à tona a reflexão sobre o caráter político da educação, desvendando referenciais epistemológicos, filosóficos, políticos e pedagógicos que orientam as práticas sociais e que, por isso, não são referenciais neutros e consequentemente tais práticas também não são neutras. Apple (2006:101), em uma das suas análise sobre o caráter político da educação e da prática social que o professor exerce diz, (...) uma das maneiras pelas quais as escolas são usadas para propósitos hegemônicos está no ensino de valores culturais e econômicos e de propensões supostamente ‘ compartilhadas por todos’ e que, ao mesmo tempo, ‘garantem’ que apenas um número determinado de alunos seja selecionado para níveis mais altos de educação por causa da sua ‘capacidade’ em contribuir para a maximização da produção de conhecimento tecnológico de que a economia necessita(...) (APPLE, 2006:101). De maneira geral, propõe-se neste trabalho o entendimento da desarticulação entre teoria e prática como sendo de âmbito ideológico. Pucci & Zuin (1999) resgatam as idéias dos pensadores frankfurtianos e apontam a importância de situar o conceito de ideologia historicamente, para compreensão deste enquanto um termo criado e desenvolvido pela burguesia iluminista que acreditava na liberdade como condição de igualdade dos cidadãos. Essa crença, que se caracteriza como burguesa é a própria essência da ideologia. Pode-se compreender que a essência da ideologia é imersa em uma dimensão política, ou seja, a ideologia, “no sentido estrito, dá-se onde regem relações de poder que não são intrinsecamente transparentes, mediatas e, nesse sentido, até atenuadas" (PUCCI & ZUIN, 1999 apud ADORNO, T. W. ; HORKHEIMER, M., 1973: 191). A ideologia para esses autores é constituída dialeticamente por elementos contrários mas que se compõem: “a ideologia se manifesta ‘como consciência objetivamente necessária’ e ao mesmo tempo ‘como consciência falsa’, ‘como ligação inseparável entre verdade e inverdade’; não é·verdade total, mas também não é mentira” (PUCCI & ZUIN, 1999 apud ADORNO, T. W; HORKHEIMER, M, 1973: 191). Apple (2006) concebe as instituições de ensino como representantes de parte de um conjunto de outras instituições- políticas, econômicas, culturais- de maior poder. As escolas existem por meio de suas relações com outras instituições de maior poder, instituições que são combinadas de maneira a gerar desigualdades estruturais de poder e acesso a recursos(...) Por meio de suas atividades curriculares, pedagógicas e avaliativas no dia-a-dia da sala de aula, as escolas desempenham um papel significativo na preservação, senão na geração, dessas desigualdades (...)APPLE (2006:104). 9. CONCLUSÃO E PROPOSTA Espera-se que este trabalho contribua para a identificação e o entendimento de componentes estruturais de ordem ideológica nas instituições de ensino. Tais componentes podem estar sustentando a desarticulação entre teoria e prática e podendo gerar com isto, dentre outras consequencias, uma formação despolitizada e desumanizada na área da enfermagem. Sob este raciocínio compreende-se a importância de a gestão dos cursos de Pós-Graduação se caracterizar como democrática capaz de abarcar, além de outras, as intenções políticas contra-hegêmonicas. Gestão aqui entendida como um processo que inclui vários conhecimentos e funções (GABOR, 2001). Compreendemos que a unidade teoria e prática na Enfermagem deve se tornar evidente à medida que as atividades desta área assumam um caráter político, caracterizando-se como práxis. As atividades concebidas como práxis advêm de agentes contrários à passividade, que extrapolam o meramente possível e que agem, de fato, na direção de mudanças daquilo que se propõe a modificar. Tais atividades também permitem mostrar as relações existentes entre as partes e os traços de possíveis completudes, o que se opõe a execução de várias ações técnicas desarticuladas ou justapostas casualmente. Partimos do pressuposto de que os cursos de pós- graduação podem ser espaços importantes para inserir a concepção de práxis, uma vez que, e principalmente neles, se formam os professores dos cursos de graduação e pós- graduação, os quais são diretamente responsáveis pela formação do enfermeiro, entendendo que a práxis de uma gestão coletiva deste espaço pode contribuir para este processo. 10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APPLE, M. Ideologia e Currículo. Porto Alegre: Artmed, 2006. ALMEIDA.P.M.C. O saber de Enfermagem e sua dimensão prática. 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