TREINADORES - ARTIGOS JOGAR SEM BOLA - PARTE II JOGAR SEM BOLA Parte II por João Ribeiro "O melhor sistema de jogo nos escalões de formação é o contra-ataque" A frase com a qual proponho iniciar o segundo artigo de JOGAR SEM BOLA, é destacada no livro "As coisas simples do Basquetebol", elaborado pelo Prof. Jorge Adelino, constituindo a mesma a justificação para a escolha desta fase do jogo como contexto da nossa análise sobre o Jogar sem bola. Para o que nos propomos destacar no presente artigo, esta frase assume uma importância significativa, uma vez que, não só nos levanta algumas interrogações à sua aplicação no terreno com equipas jovens, como nos direcciona para as acções sem bola inerentes a esta fase do jogo Todos os sistemas de jogo são válidos e formativos se assentarem numa filosofia que sirva o desenvolvimento do jovem praticante e não, exclusivamente a construção de uma boa equipa de Sub14 e Sub-16. Provavelmente alguns treinadores de jovens, discordarão na medida em que se dispuserem de um jogador de 1,85 m e dois jovens muito rápidos poderão rapidamente dar vida à frase acima citada e garantir vitória em grande parte jogos do seu campeonato distrital de sub-14. Ora vejamos o seguinte cenário: "Ressalto defensivo do jogador mais alto, os dois miúdos rápidos a correr lá para a frente (sem sequer terem participado no ressalto defensivo), passe longo e 2 pontos. Da mesma forma podemos observar equipas de Sub-14 recorrerem aquele(a) jogador(a) que, evidenciando clara superioridade do ponto de vista atlético, assume no jogo um protagonismo que poderá perturbar o ambiente de jogo que se pretende para o progresso de todos os intervenientes. "Ressalto ofensivo, drible de progressão, mudança de direcção (ou não), lançamento na passada" A questão coloca-se: constituirão os cenários acima representados os verdadeiros "sistemas de jogo" utilizados nos escalões de Sub-14? Serão o princípios de jogo, que alimentaram os cenários acima descritos, suficientes para possamos falar num verdadeiro sistema de jogo em prol do desenvolvimento do jovem praticante? Se pensarmos exclusivamente na vitória, creio que sim. Quantos jogos de Sub-14 não se caracterizam por este modelo de jogo? Quantas vezes não verificamos a ausência de acções sem bola com a intenção de criar linhas de passe e espaço para a progressão da bola? Ou simplesmente a participação do jogador mais talentoso em todo o contraataque? Mas a razão deste artigo não é por certo julgar qualquer opção de abordagem ao jogo, mas antes partilharmos convosco algumas convicções que pensamos estarem em perfeita sintonia com a essência da frase inicial e com a riqueza de argumentos técnico-tácticos que deverão fazer parte de qualquer jovem praticante de Basquetebol, venha ele a ser um jogador de alto nível , ou simplesmente um jogador que apenas joga nas divisões secundárias do nosso Basquetebol. 1 www.planetabasket.pt Março de 2010 TREINADORES - ARTIGOS JOGAR SEM BOLA - PARTE II O CONTRA-ATAQUE É UM TRABALHO COLECTIVO O Prof. Jorge Adelino, no seu livro "As coisas simples do Basquetebol" é peremptório na idéia de que o Treinador deverá reforçar, sempre, que todos os jogadores deverão participar em todos os momentos do Contra-ataque, não restringindo a manifestação desta fase a um simples 1º contra-ataque, envolvendo o portador da bola e, eventualmente mais um ou dois companheiros de equipa. Nesta medida, torna-se claro para nós que estão reunidas condições para que as acções sem bola assumam importância relevante neta fase do jogo. Não é nossa intenção seguir uma linha conceptual daquilo que são as sub-fases da transição defesa-ataque, mas sim enquadrarmos as acções sem bola realizadas a partir do momento em que uma determinada equipa ganha a posse de bola após ressalto defensivo ou cesto sofrido. REAGIR À POSSE DE BOLA É consensual na maioria da literatura da modalidade que o sucesso do Contra-ataque passa por uma defesa agressiva, que condicione, em muito, as acções ofensivas do adversário, aumentando as possibilidades de ganho do ressalto defensivo e, consequentemente, a procura da vantagem numérica. Daí que aos jogadores deverá ser fomentado o hábito de que, após ressalto defensivo ganho, ou mesmo cesto sofrido, é importante reagir e procurar encontrar o caminho do cesto com vantagem sobre a transição ataque-defesa adversária. As reacções esperadas inicialmente, na perspectiva do jogador sem bola, apontam para a abertura de linhas de passe que permitam a saída de um primeiro passe; posteriormente, torna-se urgente que seja possível fazer bola progredir da forma mais rápida possível através de linhas de passe à frente da bola; chegando à fase da finalização, é importante que as linhas de passe existentes possibilitem cestos fáceis com a menor oposição possível e em áreas próximas do cesto. Pormenorizemos então o trabalho sem bola em cada um dos momentos descritos anteriormente, assente em princípios/ comportamentos desejáveis. 1 º APÓS CESTO OU RESSALTO DEFENSIVO, ABERTURA Na perspectiva do jogador sem bola é muito importante que, em etapas iniciais de aprendizagem de um jogo um pouco mais organizado a reacção sejam alimentadas por regras claras que envolvam todos na procura de linhas de passe ofensivas. Assim poderemos resumir a actuação dos atacantes sem bola, após o ressalto ofensivo da seguinte forma: Todos os jogadores sem bola, após ressalto defensivo ou cesto sofrido deverão afastar-se do portador da bola, abrindo racionalmente para potenciais zonas/estações de recepção (ver figura 1); Quem ganha o ressalto ou repõe a bola procura virar-se para a linha lateral mais próxima (ver figura 2); 2 www.planetabasket.pt Março de 2010 TREINADORES - ARTIGOS JOGAR SEM BOLA - PARTE II Quem está mais perto da bola (jogador 2) oferece a uma primeira opção de passe (ver figura 2), colocando-se com as costas orientadas para a linha lateral - 1ª Estação de recepção; Todos os restantes procuram outras zonas de recepção. Neste princípio é importante que todos os jogadores possuam capacidade de orientação espacial, identificando o espaço que têm mais próximo, sendo por todos assumido que o lado contrário ao ressalto também é uma 1º Estação de recepção e de que as linhas de passe mais afastadas serão 2ª estação de recepção (ver figura 3) Sem querermos direccionar o nosso trabalho para opções de organização colectiva da equipa, gostaríamos igualmente de propor a opção do jogador sem bola do lado contrário ao ressalto poder explorar a zona central do campo, possibilitando que a bola possa entrar no corredor central e daí progredir rapidamente na direcção do cesto adversário. Da mesma forma uma linha de passe criada na zona central poderá criar 3 potenciais linhas de passe à frente da linha da bola, ao alcance de um passe (ver figura 4). 3 www.planetabasket.pt Março de 2010 TREINADORES - ARTIGOS JOGAR SEM BOLA - PARTE II 2º CORRER À FENTE DA BOLA, QUATRO OLHOS! Que nos perdoe o companheiro San Payo Araújo de utilizar uma expressão sua neste trabalho. Mas de facto, a riqueza desta informação é fundamental para que se aumentem as possibilidades da bola poder progredir sem recurso a demasiados dribles, que certamente facilitarão a recuperação dos defensores para junto do seu cesto. Correr à frente da linha da bola, sem perder a bola de vista e com intenção de receber precisa-se para que possamos criar muitas situações de superioridade numérica. Mas atenção! Passadores precisam-se, escreveu o Prof. Teotónio Lima ainda no século passado, mas nem por isso deixa de ser um facto bem actual. Passar, permitam-me especular, talvez seja o fundamento técnico mais mal tratado no nosso jogo. Daí que poderemos minimizar essa lacuna criando boas condições de visibilidade para quem passa e para quem recebe. MOSTRA ONDE QUERES RECEBER SEM QUE HAJA 4 OLHOS NÃO PODE HAVER PASSE Na perspectiva de serem criadas várias linhas de passe ofensivas, à frente da linha da bola, vejamos 3 possibilidades de 2º passe após eventualmente 1 drible do jogador que é responsável por conduzir a Transição defesa-ataque e criar situação clara de contra-ataque: PASSE DO 1 PARA O 4 A exploração do "cotovelo" contrário à bola como um potencial corredor directo ao cesto, constituirá um princípio extremamente rico, na medida em que, sem descurar a regra dos "4 Olhos" teremos a possibilidade de um passe longo, por cima da defesa, que, com sucesso criará um cesto fácil (Figura 5). PASSE DO 1 PARA O 2 Não existindo possibilidade de realizar a opção anterior, o jogador 1, que conduz a bola, poderá aproveitar o facto do seu companheiro do corredor lateral do lado da bola, já ter passado o meio campo e, desta forma, criar a oportunidade de finalizar em situação de 1x0 em drible. 4 www.planetabasket.pt Março de 2010 TREINADORES - ARTIGOS JOGAR SEM BOLA - PARTE II PASSE DO 1 PARA O 2 E DO 2 PARA O 4 Perante a reacção do defensor à penetração do 2, este "abre o drible", possibilitando o "corte" do 4, atacando a linha cesto-cesto e criando linha de passe para o jogador 2 poder explorar. 3º NO 3X2 QUEM PASSA APOIA QUEM PASSOU Terminaríamos a nossa abordagem ao jogo sem bola na Transição Defesa-ataque destacando uma das muitas situações possíveis de contra-ataque onde teremos 3 atacantes para 2 defensores (3x2). Especificamente para a acção sem bola que o jogador que a conduziu até ao meio-campo adversário poderá realizar, após passar (ver figura 8). 5 www.planetabasket.pt Março de 2010 TREINADORES - ARTIGOS JOGAR SEM BOLA - PARTE II Neste cenário em que o jogador que conduziu a bola rapidamente procurou uma situação de 2x1, urge fornecer uma indicação para que seja possível continuar a dividir a defesa, à procura de nova situação cesto fácil ou passe de retorno. Assim, parece-nos pertinente que quem passe apoie o jogador a quem passou. Desta forma estão criadas condições para que perante a ameaça de um jogador com bola em áreas mais próximas do cesto, os dois jogadores sem bola dividam o defensor que não assume a função de parar o portador da bola (ver figura 9). Perante as acções dos dois atacantes sem bola, as opções do portador da bola poderão passar por lançar, realizar um passe para o companheiro do lado contrário que se aproxima do cesto em vantagem ou realizar um passe de retorno para o companheiro que se encontra ao nível do "cotovelo" da área restritiva surgindo daí um lançamento ou passe para cesto fácil. Criada esta divisão na defesa, será importante a decisão em função da reacção dos defensores. Poderíamos encontrar mais cenários onde o jogo sem bola assumiria um papel importante, contudo ficaremos por aqui, deixando desde já o leitor motivado para que, no próximo e último artigo sobre JOGAR SEM BOLA, possamos andar à volta das reacções às penetrações em drible em situação de ataque de posição. Concluiríamos dizendo que nesta série de artigos não constitui preocupação nossa expor situações de exercício relativas à aprendizagem das questões do Jogo Sem Bola. Porém, na construção das tarefas de aprendizagem e treino parece-nos pertinente que devam ser levados em conta dois princípios fundamentais: reagir sempre e decidir, observando aquilo que o jogo pede naquele momento. 6 www.planetabasket.pt Março de 2010