A PRODUÇÃO CONTEMPORÂNEA DE ARTES VISUAIS: UM CAMPO EXPANDIDO PARA DISCUSSÃO E PRODUÇÃO EM SALA DE AULA DIEFENBACH, Carine A.1 MOMOLI, Daniel Bruno 2 RESUMO Esta pesquisa tem como objetivo buscar nas artes visuais contemporâneas sua potência para trabalhar seus temas em sala de aula, afim de desenvolver uma formação mais crítica e reflexiva de alunos da educação básica . Optou-se pela abordagem das artes visuais contemporâneas no campo expandido. Por meio de pesquisa bibliográfica em materiais como livros, trabalhos científicos e sites foram investigados o potencial do ensino da arte contemporânea na escola e suas possibilidades, a partir da busca em sua história, seus principais objetivos com a cultura e com a sociedade, levantando produções de artistas que ali deixaram suas marcas para que a arte contemporânea se tornasse o que ela é hoje. Essa pesquisa tem por finalidade contribuir com o mundo imagético que vivemos. Uma arte que provoca o olhar do aluno a uma realidade que não pode ser desperdiçada. Entender sua importância e suas possibilidades é fazer com que nossos alunos transpassem fronteiras pré-estabelecidas pelas mídias, é libertar nossos alunos, fazendo-os se tornarem leitores críticos dentro e fora da sala de aula, seres humanos que reflitam sobre questões e situações do seu próprio dia-a-dia. Para realização desta pesquisa me embasei em autores como ARCHER (2001) que aborda o surgimento da arte contemporânea, seus objetivos e essência cultural e social, a arte/educadora BARBOSA (1998) que fala sobre a importância do ensino da arte no currículo escolar e no livro organizado por OLIVEIRA E HERNÁNDEZ (2005) que traz textos reflexivos de autores tratando sobre a formação do professor e o Ensino das Artes Visuais como potência nos dias atuais. Através dessa análise foi possível compreender a importância que possuí trabalhar o conteúdo arte contemporânea na sala de aula como potência, traçando assim ligações com a sociedade e o mundo. 1 Carine Armani Diefenbach, formada em Artes Visuais pela instituição VIZIVALI, cursando pósgraduação em Metodologia do Ensino de Artes pelo Centro Universitário UNINTER. Email: [email protected] 2 Daniel Bruno Momoli – Mestre em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS (2013). É Professor da Faculdade Vizinhança Vale do Iguaçu – VIZIVALI; Da Universidade Alto Rio do Peixe – UNIARP em Caçador e da Universidade do Contestado UnC de Curitibanos. Email: [email protected] 405 Palavras chave: Artes Visuais. Arte contemporânea. Educação. 1 INTRODUÇÃO A presente pesquisa que leva como tema “A produção contemporânea de artes visuais: um campo expandido para discussão e produção em sala de aula”, busca investigar a potência do ensino da arte contemporânea na escola e seus reflexos na sociedade, permite entender a importância e a emergência que há em um ensino focado na atualidade, compreendendo a arte contemporânea como meio de transformação do ser humano em um ser crítico e leitor visual. A partir de estudos e vivências em sala de aula como professora de Arte e fotografia artística, percebo a necessidade de trabalhar com algo que desperte o interesse dos alunos, com conteúdo que leve os alunos a interpretar e conhecer melhor seu meio, que trabalhe com questões que emergem da sociedade, assim levando os alunos a desenvolverem o raciocínio crítico e reflexivo. O texto apresenta inicialmente a abordagem sobre as artes visuais contemporâneas e em sua sequência uma discussão que tende a aproximar a produção visual contemporânea e a escola e por fim a metodologia do trabalho realizado e as considerações finais. 2 A PRODUÇÃO CONTEMPORÂNEA DE ARTES VISUAIS Para a compreensão sobre a Arte Contemporânea, serão trabalhados temas que envolvem as produções deste conceito estético que segundo Archer compreender o período entre os ano 1960 e 1980. Pois, segundo autor arte contemporânea, não é o mesmo que a arte contemporânea a nosso tempo, é necessário que se entenda que existe uma produção que nos é contemporânea, e um conjunto de produções adjetivadas como contemporâneas devido suas características. Para se compreender este pensamento, precisamos conhecer um pouco a história da Arte contemporânea, surgida na metade do século XX, após a segunda guerra mundial e que se prolonga até os dias de hoje, desconstruindo tudo que se conhecia por arte (pintura, escultura, arquitetura), propostas pela Arte Moderna e as Vanguardas Modernistas. 406 Sabemos que a produção artística vem se modificando de acordo com as demandas da sociedade e esta, após a primeira e segunda guerra mundial, passou a clamar por mudança, por melhores condições para o ser humano, e exigiu pensar no próprio ser humano como fonte de vida, de sabedoria e de existência, o que levou a discutir e questionar seu próprio meio, reflexões do pós-guerra que levaram vários artistas e críticos a pensarem nessa existência, nesse ato de se sensibilizar e discutir situações no campo político, social e cultural. Pode-se tomar como ponto de partida de uma revisão histórica da arte contemporânea o movimento dadaísta, surgido na Europa em 1916, a partir de revoltas e desgostos de jovens artistas que viviam naquele período conturbado que era a primeira guerra mundial. Como se refere De Micheli, sobre os jovens e intelectuais daquela época: A impaciência de viver era grande, o desgosto aplicava-se a todas as formas da civilização dita moderna, as suas próprias bases, à lógica, à linguagem, e a revolta assumia formas em que o grotesco e o absurdo superavam de longe os valores estéticos. (DE MICHELI, 2004, p. 131) Os artistas dadaístas buscavam desconstruir tudo que se conhecia por arte com o objetivo de romper com as formas da arte tradicional e com o racionalismo que predominava nas produções artísticas. Para isso, se apropriavam de objetos comuns do cotidiano e os apresentaram de forma diferente, dentro de um contexto artístico. Nesse âmbito, Marcel Duchamp (1887-1968), artista francês, e principal representante do movimento dadaísta, trouxe essa discussão para o meio artístico, lançando um novo conceito como valor estético. Duchamp contestou os valores estéticos tradicionais, quebrando com os parâmetros do que se considerava arte, ao apresentar um urinol como obra de arte. O artista mudou a posição de uso do objeto, incluiu a inscrição “R.Mutt – 1917” e denominou a obra como “Fonte”. Como podemos ver na figura 1: 407 Figura 1: DUCHAMP, Marcel. Fonte, 1917. Site: Arte Fonte de Conhecimento, 2010. A proposta de Duchamp consistia na utilização artística de objetos produzidos em série, sendo que essas obras foram denominadas como readymades. Duchamp através destes, pedia que o observador “pensasse sobre o que definia a singularidade da obra de arte em meio à multiplicidade de todos os outros objetos” (ARCHER, 2008, p. 3). O objetivo de Duchamp era fazer o observador identificar o motivo pelo qual o objeto estava ali, o porquê de ter sido retirado de seu local de uso e exposto como objeto artístico. Duchamp declarou: [...] que queria matar a arte (“para mim”), mas suas tentativas persistentes de desconstruir o quadro de referências alteraram a nossa maneira de pensar, estabelecendo novas unidades de pensamento, „um novo pensamento para aquele objeto‟ (apud FERREIRA e COTRIM, 2006, p. 204). Trata-se de um questionamento sobre a ideia do que é arte, ou do que pode ser considerado como arte. Assim se expandindo para um conceito, definindo um tema, que passa a ser a ideia da obra, a base fundamental, abrindo fronteiras disciplinares e explorando novas formas de se pensar a arte. Diante disso, Marcel Duchamp é um importante marco para a teoria da arte contemporânea por redefinir o conceito de arte da produção artística, desarticulando a técnica, o produto do conceito artístico e dando ênfase ao pensamento e ao processo de criação. 408 Outro importante artista que foi um marco para as artes visuais contemporâneas é Andy Warhol (1928-1987). A partir da produção de Warhol abre-se uma discussão sobre temas presentes na própria sociedade, através do movimento da “pop art”, surgido na década de 1950 e que ganhou maior repercussão na década seguinte. Warhol passa a trazer referências midiáticas para o trabalho artístico, porém sem a conotação da contemplação ou da idealização, e sim por acreditar que um objeto jamais perde sua referência cotidiana. Dessa maneira, Warhol passa a se ocupar de símbolos, objetos, imagens presentes em seu cotidiano. Assim, o trabalho de Wahrol fazia crítica ao consumismo e à sociedade de consumo, sendo seu principal objetivo aproximar a arte com a vida das pessoas. O artista se apropriava de produtos industrializados conhecidos mundialmente para fazer suas críticas, como suas pinturas subsequentes com múltiplas imagens de garrafas de coca-cola, como podemos observar na figura 2: Figura 2: WARHOL, Andy. Coca-cola 5, 1962. Fonte: Site Adbranch, 2010. A repetição estava ligada à forma como a sociedade é induzida pela mídia. Warhol mencionava: “nós bebemos coca-cola e nenhuma soma de dinheiro dará ao presidente dos EUA uma garrafa melhor do que aquela que o vagabundo da esquina bebe” (apud ARCHER 2001, p.11). Através de suas produções, Warhol aponta que a sociedade se deixa influenciar facilmente pelas produções em massa, se baseando somente no que a mídia dita como melhor. Nesse contexto, a arte passa a invadir nosso mundo se apropriando de nossos problemas e inquietações, absorvendo ambientes inteiros, indo além das paredes, expandindo para fora da obra. Para isso, artistas utilizavam, além da pintura em tela, 409 fios de nylon, arames, que transpassavam a tela, invadindo o local do observador, como a produção de Eva Hesse “pendurar, 1966”. Podemos observá-la na figura 3 abaixo: Figura 3: HESSE, Eva. Pendurar, 1966. Fonte: http://protensiones.blogspot.com.br/2012/08/eva-hesse.html. Nesta obra podemos ver uma grande moldura retangular exposta na parede, dentro dela saí uma haste fina de metal que chega até o chão tocando-o e voltando novamente para dentro da moldura. Percebemos que há um diálogo permanente entre obra e seu espaço físico, um complementando o outro. Nesse período, as esculturas passaram a ser penduradas, desafiando a noção de peso. Como comenta Tessler: “os referenciais entraram em desequilíbrio” (TESSLER, 1997, p.18). Todos os aspectos que eram tomados como referência, de base artística, acabaram sofrendo mudanças, acompanhando as mutações sociais, surgindo, assim, outras tendências: conceitual, Arte Povera, Processo, Land Arte e outros, que desconsideram a “obra de arte” como um fazer técnico, feito de materiais restritos, a pincéis e tintas caríssimas, molduras trabalhadas a ouro e esculturas a bronze e mármore, uma “produção artística” com fruição, cujas obras são fundamentadas por um conceito, feitas com objetos, signos, símbolos, elementos já existentes, que fazem parte da vida do ser humano. Como explica Archer: A conseqüência do afrouxamento das categorias e do desmantelamento das fronteiras interdisciplinares foi uma década, da metade dos anos 60 e meados dos anos 70, que a arte rompeu fronteiras, assumindo muitas formas e nomes 410 diferentes: conceitual, Arte Povera, Processo, Anti-forma, Land, Ambiental, Body, Performance e Política. Estes e outros têm suas raízes no Minimalismo e nas várias ramificações do Pop e do realismo. (ARCHER, 2001, p. 61). A arte passa a pensar sua própria existência, os artistas buscam significado para se fazer arte, construindo suas produções com “liberdade e autonomia”, não precisando ter uma técnica de pintura apurada e nem ter estudado nas melhores escolas acadêmicas, como as escolas de Belas Artes, para que sua obra seja reconhecida. A arte passa a se desenvolver explorando maneiras de dialogar com a sociedade, formas de se discutir questões emergenciais e com isso expandindo territórios. As produções artísticas contemporâneas abrem espaço para que isso aconteça, sendo apresentadas de forma a abordar uma poética, com a intenção de propor um diálogo, não com a obra em si, mas com seu conceito, sendo este um diálogo sobre seu próprio meio. Como menciona Archer: Em vez de perguntar o que uma peça significa, isto é, tentar descobrir o que o artista está tentando nos dizer, agora era mais apropriado para o “receptor” considerar de que maneiras a informação dada poderia ser significativa. (ARCHER, 1991, p.78) Nesse tempo de mudanças, houve uma grande preocupação que emergia dos artistas em relação aos espaços da arte, se seu lugar era apenas em galerias e museus ou lugares externos, públicos. Essas indagações também fizeram com que a produção artística expandisse, transpassa-se além das fronteiras pré-estabelecidas pelos museus. Nos dias de hoje nos deparamos com a arte não apenas em museus, mas em galerias, instituições, em nossas praças, ruas, calçadas, etc. Pensar a Arte Contemporânea é pensar o diálogo, um jogo recíproco entre a realidade que se vive, a ideia/tema que é abordada para se discutir e a representação, pois na arte contemporânea, o discurso artístico é elaborado problematizando questões que inquietam a sociedade. Desse modo, o trabalho é produzido pelo artista para que possa ser discutido pelas pessoas. Assim Archer se refere; A arte contemporânea está intimamente conectada com a linguagem, havendo entre elas uma relação recíproca, uma 411 relação direta de forma e material, prática e interpretação, imagem e comentário, formando um coletivo, um discurso trazido pelos seus próprios agentes, seus produtores. (ARCHER, 1991, p.85-86). A obra de arte contemporânea não é uma mera representação de algo, mas um questionamento que provoca a reflexão sobre a própria linguagem artística, como se observa, por exemplo na obra de Magritte “A traição das imagens (1929)” em que há a representação de um cachimbo e logo a baixo escrito “Isto não é um cachimbo” (ARCHER, 2001, p.87) Mas esse é o propósito da arte, questionar, intrigar o observador não o fazendo entender tudo de imediato, mas sim fazê-lo ir à busca pelo conhecimento, adquirindo-o, buscando assim um novo olhar para aquela obra e para vida. Para Lewitt, “a ideia de onde a obra provém não era suficiente em si mesma. Era, antes de mais nada, a ideia de fazer aquela obra de arte; sua força, ou a falta desta, não se revela até que a obra esteja completa.” (LEWITT apud ARCHER, 2001, p. 71). Archer se refere; O modo como uma obra se encaixava na história sucessiva dos objetos era de menor importância que as conexões por ela forjadas com seu contexto, e este contexto era tão político quanto visual, espacial ou estético. (...) O contexto agora era mais do que o ambiente crítico fornecido pelas revistas especializadas; era o mundo como um todo. (ARCHER, 2001, p. 118) É nesse mundo como um todo que precisamos, nós como educadores, levar a arte para a sala de aula, fazer a leitura com os alunos, mostrar que em cada imagem existe uma história, um contexto, ideologias que precisam ser lidas para que a imagem tenha significado, não se deixando levar simplesmente por elas sem compreender a dimensão das informações que podem se transmitidas por meio de uma imagem publicitária, por exemplo. Em relação ao período que vivemos hoje, Séc. XXI; No mundo alienado em que vivemos, a realidade social precisa ser mostrada no seu mecanismo de aprisionamento, posta sob uma luz que devasse a “alienação” do tema e dos personagens. A obra de arte deve apoderar-se da platéia não através da identificação passiva, mas através de um apelo à razão que requeira ação e decisão. (FISCHER, 2007, p.15) 412 A arte contemporânea está presente em nosso meio, na sociedade com o objetivo de chamar a atenção do povo para a observação, para a leitura de imagem, para uma iniciativa de formulação de julgamento, não quer pessoas caladas, anônimas e submissas, ela quer um povo que enxergue a realidade a sua volta e se posicione, fale, questione, se intrigue e se liberte de preconceitos. Ana Mae Barbosa ressalta a importância do ensino da arte; A arte na educação como expressão pessoal e como cultura é um importante instrumento para a identificação cultural e o desenvolvimento. Através das artes é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada. (BARBOSA, 1998, p.16) A arte possui maior compromisso com a cultura e com a história, sendo um importante instrumento para a identificação cultural, por nela haver registros, símbolos e signos que comprovam tal existência. Assim a arte contemporânea possui um comprometimento com a sociedade, pois artistas produzem a partir de questões que emergem dela. Contudo o ensino da arte ativa os sentidos transmitindo significados, ampliando o olhar para uma análise reflexiva e crítica da imagem, realizando uma contextualização histórica, social e cultural, refletindo em seu desenvolvimento criativo e na realidade onde está inserida. Ana Mae Barbosa menciona que: Nossa concepção de história da arte não é linear mas pretende contextualizar a obra de arte no tempo e explorar suas circunstâncias. Em lugar de estarmos preocupados em mostrar a chamada “evolução” das formas artísticas através do tempo, pretendemos mostrar que a arte não está isolada de nosso cotidiano, de nossa história pessoal. (BARBOSA, 2007, p.19) Através da contextualização, sustentamos nossas reflexões, explorando as circunstâncias de cada imagem, dando a elas significâncias, pois a arte esta ligada a política, cultura, economia, padrões sociais, questões estas que fazem mover uma sociedade e necessitam ser vistas e analisadas através da leitura de obras artísticas e imagens que se encontram em nosso meio. 413 2.1. APROXIMANDO AS ARTES VISUAIS CONTEMPORÂNEA DA ESCOLA Sendo assim, podemos dizer que a arte contemporânea permite uma fruição e uma reflexão fundamentadas por um conceito. Podemos observar ao nosso redor a quantidade de imagens que tomam conta de nosso cotidiano nos transmitindo informações diversas. Torna-se importante traçarmos uma crítica a elas. A arte contemporânea nos propõe perceber e interpretar o mundo, sendo necessário o professor instruir e trabalhar com o olhar do aluno para realização de uma análise sensível e racional das imagens que o cercam. Deve-se fazer com que o aluno esteja aberto para esse momento de reflexão, de forma a olhar para um filme, uma novela, ou um simples cartaz e ali buscar seu significado. Como Buoro menciona: Se somos capazes de construir um conhecimento que sustente nossa argumentação sobre futebol, por certo poderemos sê-lo também no que diz respeito a construir um conhecimento em arte que aguce nossas percepções, bem como nos capacite a ler o mundo com olhares revigorantes e revigorados. (BUORO, 2002, p.26-27) Para que haja uma construção de um olhar mais sensível e crítico sobre as imagens que estão expostas na sociedade, é necessário que haja uma educação para isso, educadores capacitados para atender a essa necessidade. Ao perguntarmos para os alunos quantas imagens que viram desde quando acordaram, responderiam: - Um monte. Mas se perguntarmos de quais que se lembram, ficariam pensativos, não sabendo responder, pois foram imagens observadas rapidamente, não foram “lidas” e não estimularam a reflexão. A única mensagem que nosso olho capta é a que a mídia busca trazer, uma ideologia artificial que muitas vezes nos consome e aliena. Como se refere Medeiros; A que imagens são sensíveis quando, nas ruas, a violência pulula, e nas imagens publicitárias, nos programas televisivos seres perfeitos sorriem com dentes perfeitos? Para sensibilizar essa massa de indivíduos isolados para a arte, faz-se necessário primeiramente alertá-los para a violência que se submetem em seus parcos momentos de lazer: bombardeamento de imagens e solidão. A arte é apenas um grito abafado nesse ensurdecedor barulho gerado nas mentes pela televisão e pela publicidade. (apud OLIVEIRA e HERNÁNDEZ,2005,P.80). 414 A relevância de abordar o conteúdo arte contemporânea na escola está na diversidade de experiências que ela apresenta, desde temas contemporâneos, materiais diversificados que podem ser encontrados em qualquer escola, ou qualquer casa, como por exemplo, linha, tecidos, papéis, móveis, utensílios em geral, revistas, sucatas, entre outros, e a relação que podemos traçar com outras áreas do conhecimento. Outro motivo importante são as relações que podemos fazer com a vida, temas como exemplo: racismo, preconceito, política, moda, tempo, memória, entre outros, trazendo uma aproximação maior com a vida e sua constante mutabilidade, que a torna um importante veículo para a produção de sentidos, para entendermos melhor o mundo. Buoro aborda a carência que há nas escolas por um ensino voltado a leitura de imagem, a imagem como linguagem, carregada de símbolos e signos; Buoro lembra que ainda hoje não existem, nas escolas, conteúdos que possibilitem aos educadores adotarem um modo de conhecimento do mundo pela via da visualidade. Essa carência na formação escolar faz com que não considerem as imagens como textos visuais, como linguagem significante e carregada de informações e, por isso, acabam estabelecendo com elas relações “frouxas e pouco significativas”. (apud OLIVEIRA e HERNÁNDEZ, 2005, p.191,). O ensino da arte contemporânea possibilita estabelecer uma relação mais aberta com a sociedade, a partir da leitura e decodificaçãod os códigos presentes nas obras de arte, nas imagens que estão presentes e que fazem parte do nosso cotidiano, se fazendo necessário para não nos tornarmos consumidores passivos, e para assim resignificar nossa experiência no mundo, sensibilizando nosso olhar sobre a realidade que nos cerca. Assim, se torna importantíssimo levar a arte contemporânea para dentro da sala de aula, uma arte que carrega uma poética sobre a atualidade, fala e discursa sobre o nosso cotidiano, nossa vida, sobre as distintas culturas e questões que permeiam nossas vidas, assim teoricamente, se tornando mais acessível para a discussão entre os alunos, que de certa forma, perceberiam a arte mais próxima de suas vidas e, conseqüentemente, se tornando mais significativa para suas vidas. 2.1 METODOLOGIA O desenvolvimento do presente trabalho ocorreu através de pesquisa descritiva, caracterizando-a como pesquisa qualitativa, ou seja, os dados não tiveram formulação 415 matemática. Fopi de caráter exploratório, pois buscou as percepções e entendimentos sobre a natureza geral do tema de estudo e abriu espaço para a interpretação e formulação das considerações apresentadas. A abordagem de pesquisa utilizada, é bibliográfica, como aponta Demo (2008, p.24): “através da qual tomamos conhecimento da produção existente, podemos aceitala e com ela dialogar criticamente”. Assim através de estudos em livros, artigos científicos e pesquisa em sites, foi possível buscar um entendimento sobre como surgiu a arte contemporânea, seus objetivos com a sociedade e a cultura e sua importância no currículo escolar, tanto para o entendimento e crescimento cultural do ser humano como para seu desenvolvimento crítico e reflexivo na sociedade. Para este artigo, foram desenvolvidas análises aprofundadas em autores como Michel Archer que aborda o surgimento da arte contemporânea, seus objetivos e essência cultural e social; a arte/educadora Ana Mae Barbosa que fala sobre a importância do ensino da arte no currículo escolar; no livro organizado por Oliveira e Hernández que traz textos reflexivos de autores tratando sobre a formação do professor e o Ensino das Artes Visuais como potência nos dias atuais. Através dessas pesquisas é possível compreender a importância que possui o ensino da arte contemporânea como potência nas aulas de arte e suas ligações com a sociedade nos dias de hoje. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir das pesquisas sobre o tema “A produção contemporânea de artes visuais: um campo expandido para discussão e produção em sala de aula” passamos a conhecer melhor o processo histórico e cultural da arte contemporânea, seu nascimento e formação, e artistas que colaboraram para que esta arte se expandisse e desenvolvesse a necessidade de se trabalhar a arte contemporânea na sala de aula. Como Teixeira afirma, fazemos parte da “civilização da imagem”, vivemos rodeados por elas, e cada uma é carregada de significados e ideologias que, muitas vezes, por falta de uma análise visual, acabam nós influenciando e nos condicionando à sua ideologia. Contudo se torna essencial uma prática artística que priorize a atualidade, um estudo que fale e instigue uma reflexão sobre o período do agora, traçando análises sobre imagens que fazem parte do dia-a-dia dos alunos. São estas que os inquietam, são estas que os formam, condicionando a construir suas identidades. Então, nós, como educadores artísticos, precisamos estimular o olhar dos nossos alunos a interagir com as 416 obras de arte e imagens que estão presentes no seu cotidiano, saindo da mera contemplação para a decodificação de símbolos e signos, formas e cores, representações estas carregadas de história e com uma linguagem que precisa ser lida e analisada, transformando o aluno de um mero receptor passivo para um interventor, alterando radicalmente a imagem, trazendo-lhe vida e significado. Para nós foi de grande importância este estudo, pois através das leituras e pesquisas passamos a entender melhor a arte contemporânea, assim descobrindo sua essência e seu grau de importância para o ensino em Artes, pois a arte contemporânea leva os alunos a refletir sobre a obra. Atuando sobre o desenvolvimento sociocultural do aluno, expandindo fronteiras, transformando-os em leitores críticos dentro e fora da sala de aula. E é isso que precisamos para os dias de hoje, leitores visuais aptos a viver dentro de uma sociedade visual. REFERÊNCIAS ARCHER, Michel. Arte contemporânea: uma história concisa. 2. Ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012. BARBOSA, Ana Mae. A Imagem no Ensino da Arte: anos oitenta e novos tempos. São Paulo: Perspectiva, 2007. BARBOSA, Ana Mae. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade - lembranças de velhos. 3.ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994. BUORO, Anamélia Bueno. Olhos que Pintam: a leitura da imagem e o ensino da arte. São Paulo: Educ/Fapesp/Cortez, 2002. DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. 2. ed.- 16.reimpr, São Paulo, Atlas: 2008. DE MICHELI, Mario. As vanguardas artísticas. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. DE OLIVEIRA, Marilda O; HERNÁNDEZ, Fernando. (Orgs) A formação do professor e o ensino das artes visuais. Santa Maria: UFSM, 2005. FABRIS, Annateresa. Redefinindo o Conceito de Imagem. Revista Brasileira de História. Vol. 18, n. 35. São Paulo: 1998. FAVARETTO, Celso F. Arte Contemporânea e Educação. Revista Iberoamericana de Educação, Nº53. Universidade de São Paulo, 2010. 417 FERREIRA, Glória; COTRIM, Cicília. (Orgs) Escritos dea: anos 60/70. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2006. FISCHER, Ernst. A necessidade da arte. 9. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2007. GOMES, Jomara B; CASAGRANDE, Lisete D. R. (Orgs) A educação reflexiva na pós-modernidade: uma revisão bibliográfica. Rev. Latino-am Enfermagem, 2002 setembro-outubro; 10(5): 696-703. SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 21 ed. São Paulo: Editora Cortez, 2000. TESSLER, Elida. Obras e sobras: rupturas na arte contemporânea. N. 4; vol. 4; p. 1623: Porto Alegre, 1997.