ARTE ( O sistema da arte contemporânea ) Excertos do livro «Arte» de Alenxandre Melo ÍNDICE Pág. 1. AS TRÊS DIMENSÕES DO SISTEMA ...................................................................................................... 1 2. DIMENSÃO ECONÓMICA ......................................................................................................................... 1 2.1. Os artistas enquanto produtores ......................................................................................................... 2 2.1.1. Os financiadores .................................................................................................................................. 3 2.1.2. Os ajudantes ........................................................................................................................................ 3 2.2. Os vendedores ...................................................................................................................................... 4 2.2.1. Os leilões .............................................................................................................................................. 4 2.2.2. Os comerciantes .................................................................................................................................. 4 2.2.3. Os galeristas ........................................................................................................................................ 5 2.2.4. As feiras ............................................................................................................................................... 5 2.3. Os compradores .................................................................................................................................... 5 3. DIMENSÃO SIMBÓLICA ........................................................................................................................... 6 3.1. Os comentadores .................................................................................................................................. 7 3.1.1. Os curiosos .......................................................................................................................................... 7 3.1.2. Os jornalistas ........................................................................................................................................ 7 3.1.3. Os críticos ............................................................................................................................................ 8 3.1.4. Os investigadores ................................................................................................................................. 8 3.1.5. Os editores ........................................................................................................................................... 9 3.1.6. As revistas ............................................................................................................................................ 9 3.1.7. Os catálogos ........................................................................................................................................ 10 3.2. Os exibidores ......................................................................................................................................... 10 3.2.1. Exposições para todos os gostos ......................................................................................................... 11 4. DIMENSÃO POLÍTICA .............................................................................................................................. 11 4.1. Os decisores institucionais .................................................................................................................. 12 O sistema da arte contemporânea 1. AS TRÊS DIMENSÕES DO SISTEMA Numa apresentação genérica e simplificada podemos distinguir três dimensões de funcionamento do sistema da arte contemporânea: uma dimensão económica, uma dimensão simbólica e uma dimensão política. É a manifestação interligada destas diferentes dimensões que precisamente constitui o sistema, mas isso não impede que a distinção seja operacional, para efeitos de descrição e análise. A maior parte dos agentes e eventos envolvidos não são exclusivos de uma das dimensões, embora possam ter um peso mais preponderante numa delas. Deste modo, vamos encontrar frequentemente os mesmos agentes em diferentes dimensões, desempenhando funções diferenciáveis mas complementares em termos de elucidação da sua eficácia específica. 2. DIMENSÃO ECONÓMICA A dimensão económica é aquela em que a obra de arte surge como produto, mercadoria, objecto de um processo económico de produção, circulação e valorização comparável ao processo económico de produção, circulação e valorização de qualquer outro produto mercantil. A cadeia de relações inerente à dimensão económica comporta três instâncias fundamentais: produção, distribuição e consumo. À instância de produção corresponde a actividade--do artista ou autor considerado enquanto produtor. À instância de distribuição correspondem as actividades dos diferentes tipos de vendedores, designadamente galeristas ou comerciantes (marchands, dealers) que desempenham funções de intermediários, e eventos peculiares como sejam os leilões e as feiras de arte. À instância de consumo corresponde, no sentido estritamente económico que aqui lhe damos, a actividade dos compradores, coleccionadores particulares ou institucionais, privados ou públicos. Ao contrário do que é habitual, não consideramos aqui o público em sentido amplo como consumidor final, porque entendemos que o seu papel é mais significativo noutras dimensões. (...) No que diz respeito ao lugar do autor, se pensarmos em questões como os custos de produção e o grau de auto-suficiência na execução das obras, facilmente nos apercebemos de que a actividade do autor enquanto produtor é indissociável da actividade de um conjunto de agentes que podemos agrupar sob as designações de financiadores, fornecedores, ajudantes e executantes. No diz respeito aos vendedores e compradores, e para além das diferenciações já enunciadas, bastará aqui chamar a atenção para as diferenças básicas entre as lógicas de funcionamento do mercado primário e do mercado secundário, ou especificamente das casas de leilões ou das feiras de arte, ou ainda para as óbvias diferenças de atitude entre, por exemplo, um pequeno, esporádico e caprichoso coleccionador particular e o responsável pelas aquisições de um grande museu estatal. Entre estes casos extremos, claramente diferenciáveis, situa-se uma ampla escala de variações e combinações intermédias - os diferentes tipos, por exemplo, de galeristas ou coleccionadores particulares - que mais adiante teremos ocasião de comentar. (...) Porque se vendem obras de arte? Em termos muito simples, diríamos que se existe um mercado para as obras de arte é porque há quem as queira comprar e que isto nos obriga a ponderar as razões que poderão Gestão das Artes 1 O sistema da arte contemporânea levar alguém a querer adquirir uma obra de arte. Porque nos circunscrevemos neste momento à dimensão económica, devemos então abordar a questão das motivações económicas da procura de obras de arte. (...) Em síntese, relativamente às motivações económicas que estão na base da atitude dos compradores - e aqui pode ser útil, a título comparativo, ter em mente o que se passa com os investimentos na Bolsa -, podemos distinguir três objectivos: a longo prazo, a reserva de valor; a médio prazo, o investimento; a curto prazo, a especulação. No que diz respeito aos objectivos de longo prazo, as obras de arte são encaradas como reserva de valor na medida em que são bens cujo valor se supõe poder resistir à passagem dos anos. O raciocínio, mais ainda do que à arte contemporânea, aplica-se a obras já consagradas pela história e em relação às quais funciona o factor de raridade - isto é, já não se podem produzir mais. Em todo o caso, existe sempre um risco. As próprias valorizações feitas pela história da arte estão sujeitas a flutuações, não só por causa das mudanças de gosto ou de perspectivas de análise, mas também devido à evolução das técnicas de autenticação que ultimamente têm vindo a provocar pequenas, mas dramáticas, crises de atribuição de autoria e detecção de falsificações. Além disso, a importância que cada sociedade concede à arte varia muito de época para época, com as correspondentes repercussões nas oscilações dos preços das obras. O grau de risco e imprevisibilidade é ainda maior se nos deslocarmos para o médio prazo - três ou quatro décadas, grosso modo -, período no qual as variações de gosto, a lógica pendurar dos movimentos estéticos, ou os ritmos das modas, podem ditar alterações radicais e inesperadas. (...) No curto prazo a situação é diferente e remete sobretudo para uma lógica especulativa que só tem possibilidade de se manifestar em épocas de instabilidade do mercado: períodos de euforia ou de recessão, marcados por variações muito rápidas de preços. Neste caso, como se sabe, é possível registar ganhos ou perdas consideravelmente elevados num espaço de tempo relativamente curto. Tudo depende da qualidade, extensão e velocidade de actualização das informações de que se dispõe, de se ter acesso aos círculos artísticos mais dinâmicos e de se poderem obter a tempo as indicações relativas a quem, quando, onde e por quanto comprar e vender. (....) 2.1. Os artistas enquanto produtores O artista ou o produtor, entendido como agente económico, pode encontrar-se em diferentes situações que correspondem a um leque diversificado de possibilidades em termos de custos de produção e de autosuficiência de execução. As implicações e consequências destas alternativas são em cada caso concreto determinadas pela situação socioeconómica do artista, dependendo esta da cotação das suas obras, da sua situação económica de partida - meio familiar ou social de origem e/ou de pertença - e da sua trajectória social. Começando pela questão dos custos de produção, encontramos um conjunto de situações que vão desde custos de produção irrelevantes, que são, por exemplo, os necessários à realização de um desenho a grafite ou carvão sobre papel, até custos de produção gigantescos, como são, por exemplo, os requeridos por volumosas esculturas de bronze, sofisticadas instalações com vídeos ou trabalhos com computadores, implicando um grande investimento em materiais e o recurso a processos técnicos complexos e equipas especializadas. Gestão das Artes 2 O sistema da arte contemporânea 2.1.1. Os financiadores A diversidade de custos e condições de produção leva a uma diferenciação no que diz respeito à situação económica do artista. Em termos do financiamento, este, conforme o seu nível de rendimento e os seus custos de produção, pode ou não ter de recorrer a um financiamento por parte de outros agentes. Os financiadores distribuem-se por várias categorias e situações, que procuraremos enunciar metodicamente: - Galeristas com quem o artista trabalha e que recebem em contrapartida do pagamento dos custos de produção o direito de venda da peça com uma taxa de lucro estipulada antecipadamente ou não; - Coleccionadores que recebem em troca um tratamento preferencial na compra da peça em questão ou de outras, traduzindo-se esta preferência no direito a primeiras escolhas ou em reduções de preços; - Instituições que financiem a produção de uma peça com vista à sua aquisição ou apresentação numa exposição da sua responsabilidade, o que configura uma situação próxima da encomenda; - Mecenato ou subsídios oficiais em sentido lato; - Apoio de artistas com uma situação económica mais vantajosa ou de um grupo informal que, por razões de solidariedade pessoal ou cultural, decide viabilizar a continuidade de trabalho de um determinado artista.(...) 2.1.2. Os ajudantes Examinando agora a questão da auto-suficiência de execução veremos que também aqui o artista não está, longe disso, tão sozinho quanto nos habituámos a imaginá-lo. Desde logo convém reparar que mesmo o artista que utiliza os materiais mais tradicionais usa como matérias-primas uma série de produtos que não é ele a produzir. Tintas, madeiras, telas, pincéis, tubos de tinta, grades, papéis, a lista é interminável e não precisa de ser prolongada para se perceber que, quando o artista começa a trabalhar, a existência e reunião dos materiais de que ele se vai servir implicou já a existência e o funcionamento, de um modo específico de cada situação histórica e social concreta, de um conjunto de aparelhos de produção, geralmente subdivisões especializadas de diferentes tipos de indústrias, especialmente organizados para a produção dos materiais com que o artista vai trabalhar. São o que chamaremos fornecedores. Passando agora à própria tarefa do artista, e embora a figura do artista sozinho no seu estúdio continue a corresponder parcialmente à realidade actual, observamos que, na maior parte dos casos, no que diz respeito à execução, há um leque de possibilidades de colaboração ou delegação que começa pela utilização de assistentes e ajudantes - segundo modalidades que vão desde um auxiliar para esticar as elas ou amassar o gesso até algumas dezenas para fazerem quase tudo - e pode ir até à delegação total da execução, limitando-se o artista a fornecer desenhos de projectos, esquemas, maquetas, ou mesmo instruções orais a pessoas ou equipas que se encarregarão totalmente da execução. Entre os casos-limite do artista auto-suficiente e a delegação total, ao nível da execução, há várias situações intermédias. Entre elas, para além da utilização de ajudantes e assistentes, refira-se o recurso a modelos para posar ou agentes especialistas em tarefas específicas fundição, néons, carpintaria, iluminação, vídeo, gravura, fotografia, computadores - tão variadas quanto a própria variedade de materiais mobilizados pela arte contemporânea. (...) Gestão das Artes 3 O sistema da arte contemporânea 2.2. Os vendedores Passando agora à análise dos vendedores, ou seja, da instância de distribuição, distinguimos três grupos principais: as casas de leilões, os comerciantes e os galeristas. 2.2.1. Os leilões Hierarquicamente, as casas de leilões operam ao mais alto nível do funcionamento da cadeia económica do sistema. Têm também uma eficácia social e cultural, que já referimos, mas é sobretudo no plano económico que se consideram decisivas. É a entrada no circuito dos leilões que decide e representa a chegada de um artista contemporâneo ao escalão mais elevado da consagração social e valorização económica. É o comportamento dos preços de um artista nos leilões que decide a continuidade da sua ascensão - até à possibilidade de candidatura à irreversibilidade histórica -, a estabilização ou o declínio, sendo que poucos eventos económicos são menos gratificantes para um artista que a repetida - não acidental queda das cotações, em leilão, para valores abaixo do preço corrente de mercado. O grande significado económico dos preços atingidos em leilão - dado o seu carácter público, aberto e publicitado -, que servem de guia e referência para o conjunto do mercado, faz com que seja limitado o número de artistas contemporâneos que entram neste circuito, e que estas entradas se façam geralmente acompanhar de acções concertadas de galeristas e coleccionadores no sentido de prevenir qualquer eventual tendência para a desvalorização. Para este fim, trata-se de assegurar a compra, pelo menos, ao preço de mercado, ou, em último caso, de impedir a venda abaixo desse preço, indicando-o como preço mínimo que, a não ser atingido, leva a que o quadro seja retirado. Neste último caso, porém, persiste o efeito negativo. O facto de uma obra não ter encontrado comprador ao preço corrente no mercado dá uma indicação negativa sobre a evolução da procura de um artista. Se tal se verificar não de um modo ocasional e por motivos circunstanciais mas de forma repetida, haverá que adoptar alguma discreta moderação na gestão das cotações do artista. (...) 2.2.2. Os comerciantes O grupo que aqui designamos por comerciantes inclui os agentes que compram e vendem obras de arte sem terem galeria aberta, actividade regular de exposição ou sequer, nalguns casos, existência jurídica empresarial. Constituem o chamado mercado secundário. Regra geral não têm uma relação directa com os artistas, isto é, não os representam no sentido em que estes não lhes entregam obras para posterior venda. As que este tipo de comerciantes têm para comercializar são aquelas que eles próprios previamente adquiriram, regra geral a galeristas ou coleccionadores, e que visam vender a outros galeristas ou coleccionadores. Mas há também casos em que compram directamente aos artistas, ou mesmo casos em que estes lhes entregam obras à consignação. Nestas situações, o comerciante desempenha em relação ao artista uma função de agente comercial que, do ponto de vista económico, se aproxima da função de galerista, embora sem a correspondente componente cultural. Para além dessa função cultural dos galeristas, e de um ponto de vista apenas económico, a principal diferença entre comerciantes e galeristas é que estes têm acesso directo e privilegiado aos artistas com quem mantêm uma relação continuada de trabalho, o que lhes permite dispor de stocks permanentemente actualizados e da Gestão das Artes 4 O sistema da arte contemporânea melhor qualidade, não tendo de pagar as obras antecipadamente aos artistas mas apenas quando as vendem. (...) 2.2.3. Os galeristas (...) Os galeristas têm uma importância simultaneamente económica - são eles que essencialmente, ou inicialmente, vendem as obras dos artistas - e sociocultural - são eles que mostram, e basicamente promovem, o trabalho dos artistas. Um maior peso da componente cultural ou comercial depende do tipo de galeria.(...) Vários tipos de distinções se podem estabelecer entre galeristas e galerias. A principal corresponde à hierarquização económica, com a correspondente estratificação das relações sociais e poder de mercado junto de coleccionadores. Esta hierarquização não corresponde exactamente à hierarquia cultural, podendo existir, para um mesmo nível de poder económico, galerias com graus de prestígio cultural que vão de zero até ao máximo.(...) 2.2.4. As feiras As feiras de arte caracterizam-se pela reunião num espaço e num período de tempo limitados de um elevado número de vendedores - galeristas e comerciantes - e compradores. Por isso, e porque se trata de um evento de natureza predominantemente económica com características peculiares, entendemos tratá-lo de modo autónomo na sequência da abordagem dos vendedores e antes de passarmos à análise dos compradores. Quando comparamos as feiras de arte com as outras instituições que estruturam o mundo da arte, podemos dizer que elas têm uma função estético-artística muito reduzida, se não mesmo nefasta, mas ao mesmo tempo uma significativa função económica e sociocultural. Apesar das excepções, e embora este aspecto varie de feira para feira e de stand para stand, uma feira é regra geral o contexto menos apropriado para desfrutar a emoção estética do confronto pessoal com uma obra ou para lograr um entendimento profundo do trabalho de um artista. Pelo contrário, o carácter massivo das feiras, a heterogeneidade dos trabalhos expostos, a presença ruidosa do público, tudo contribui para uma dispersão do olhar e da atenção. (...) A importância, a animação e inclusivamente a realização de mais ou menos feiras de arte depende evidentemente da situação económica do mercado, tendo uma correlação positiva com a prosperidade deste. Assim, em meados da década de 80, assistimos a uma proliferação vertiginosa das feiras de arte, que atingiram uma popularidade inusitada. Mais recentemente, com o arrefecimento do mercado, esta tendência inverteu-se e muitas delas entraram em declínio ou desapareceram. Também por esta razão as feiras constituem, pela sua simples realização e pelo seu nível de sucesso, um indicador da situação geral do mercado. 2.3. Os compradores Chegamos agora ao terceiro pólo do triângulo económico, a instância do consumo, ocupada pelos coleccionadores ou compradores. (...) Uma primeira aproximação à tipologia dos coleccionadores é-nos sugerida pela análise das motivações económicas da procura. Conforme referimos atrás, podemos de forma esquemática distinguir três objectivos económicos possíveis para um coleccionador: a longo prazo, a reserva de valor; a médio prazo, o investimento; Gestão das Artes 5 O sistema da arte contemporânea a curto prazo, a especulação. Estes diferentes objectivos dão-nos, ainda apenas do ponto de vista de uma estrita análise económica, um leque de tipos possíveis de coleccionadores, que vai desde o puro especulador financeiro até ao mecenas histórico, entendido como personalidade que, pela profundidade e perenidade da sua ligação às artes, cria uma imagem cultural pública historicamente reconhecida e enaltecida. Uma vez mais devemos sublinhar que as motivações económicas não são suficientes para explicar o coleccionismo e que para a maioria dos coleccionadores são determinantes factores psicológicos agregados ao desejo e ao prazer da posse, ao fascínio da acumulação ou do convívio directo com as obras, ou ainda factores socioculturais associados à afirmação pessoal de uma imagem pública ou a um empenho cívico na valorização da vida cultural de uma comunidade. Para além destas diferenciações, que se estabelecem logo ao nível das motivações, há toda uma outra série de distinções que dão conta das diferenças mais concretas de conteúdo das colecções. Começaríamos por enunciar uma série de distinções que correspondem às que já referimos para os galeristas e que na altura analisámos, as quais remetem para: hierarquia económica em função do poder de compra; hierarquia e segmentação cultural em função do grau de informação e da zona de gosto estético; grau de estabilidade e continuidade segundo o ritmo de compras e eventuais trocas ou vendas; vocação para revelações, actualidade ou consagrados; alcance geográfico regional ou global; opção de tendência ou ecléctica; relação com os artistas mais próxima e activa ou mais distante e neutra. A respeito de todos estes tópicos poderíamos repetir, com os devidos ajustamentos, o que escrevemos sobre os galeristas. (...) 3. DIMENSÃO SIMBÓLICA (...) Estamos perante uma manifestação da dimensão simbólica do sistema da arte contemporânea quando as obras de arte se transformam em objecto de um discurso cultural. Entendemos aqui discurso cultural no seu sentido mais amplo, que vai da exclamação que um observador ocasional solta perante uma obra até à mais elaborada tese teórica. Alargando ainda mais a extensão desta noção, podemos mesmo incluir no discurso cultural as reacções não formuladas, ou seja, as reflexões íntimas ou as experiências emocionais não partilhadas de um qualquer observador. A dimensão simbólica da existência das obras de arte recobre assim o arco que vai das determinações psicológicas da sensibilidade e dos gostos pessoais até aos discursos teóricos, passando pelos diferentes níveis de elaboração e difusão de discursos culturais através dos meios de comunicação social. A dimensão simbólica corresponde, no essencial, ao conjunto das actividades do grupo de agentes que designaremos por comentadores e exibidores. Nos comentadores incluem-se, em termos muito, gerais, os curiosos, os jornalistas, os analistas e os editores. Por exibidores designamos o conjunto das pessoas que decidem sobre o que se mostra em espaços de exposição não comerciais. (...) Porque têm certos objectos um valor cultural especial? A dimensão simbólica é o veículo de uma validação e legitimação cultural ao nível da sociedade global. A dimensão simbólica, enquanto produção de discursos, mais ou menos formalizados e mais ou menos publicamente divulgados, sobre as obras de arte, constitui-as em objecto social particular, com modalidades de presença e protocolos de dignidade específicos e com um Gestão das Artes 6 O sistema da arte contemporânea processo de valorização especial a que corresponde um grau e um tipo de consideração social diferentes do de qualquer outro conjunto de objectos. (...) Podemos agora voltar ao tópico da insuficiência das motivações económicas para explicarmos a procura de obras de arte e tudo o que dela decorre - isto é, o coleccionismo, e o próprio mercado de arte, em sentido amplo. À dimensão simbólica da existência das obras de arte corresponde um outro tipo de motivações em que se incluem, por um lado, o acesso a uma relação privilegiada ou de excepção com um determinado conjunto de objectos e, por outro lado, a frequentemente correlativa aspiração a um prestígio social que pode ir desde o mero exibicionismo mundano até às mais elevadas noções de virtude cívica. Quando falamos de relação privilegiada com um objecto estamos a referir-nos ao elemento de prazer emocional ou intelectual que a maior parte dos coleccionadores aponta como principal motivação da sua actividade. (...) O coleccionador pode ainda apostar numa deliberada rentabilização social da sua colecção. Abrir um museu, fazer a colecção circular, organizar exposições, editar livros e catálogos, publicitar as compras e vendas, transformar-se enfim numa personalidade cultural reconhecida e respeitada pela sociedade no seu conjunto. (...) 3.1. Os comentadores Dissemos atrás que a dimensão simbólica do sistema da arte contemporânea corresponde, no essencial, ao conjunto das actividades do grupo de agentes que designamos por comentadores e exibidores. Nos comentadores incluem-se, em termos muito gerais, os curiosos - que são os elementos mais activos do grande público -, os jornalistas - ou informadores -, os analistas - críticos, ensaístas, investigadores -, os editores - de jornais, revistas, publicações, especializa das ou não, catálogos ou livros, passando pelos directores de colecções e consultores de edição - e os exibidores - curators, comissários, directores de serviços de exposições, em suma, o conjunto das pessoas que decide sobre o que se mostra em espaços institucionais ou não comerciais em sentido lato. (...) 3.1.1. Os curiosos «Curiosos» é a designação que damos aquela faixa do grande público que revela um interesse - uma curiosidade - mais vivo e mais continuado pela arte contemporânea. São observadores «anónimos», que não desempenham qualquer função formalizada no mundo da arte, mas que constituem uma parcela fundamental do conjunto dos visitantes das exposições e dos consumidores de informação artística em geral. Têm alguma participação, embora mínima, na formação das opiniões ao nível mais elementar - o das trocas de impressões numa inauguração, por exemplo. Mas a sua função mais importante consiste no seu papel de charneira, de veículos transmissores, de intermediários entre o discurso dos comentadores especializados e a formação do gosto da opinião pública em sentido lato. 3.1.2. Os jornalistas Os jornalistas, mais ou menos especializados em jornalismo cultural ou das artes, têm principalmente uma função de informação, transformando, por assim dizer, em notícia, segundo o padrão normalizado de todas as notícias, aquilo que se passa no mundo da arte. Mesmo no plano estritamente informativo, a dimensão e o tipo de notícias têm já um significado importante. Gestão das Artes 7 O sistema da arte contemporânea Assim, por exemplo, ao nível mais elementar, o simples facto de uma galeria - uma pequena galeria de província, por exemplo - conseguir que o seu nome, morada e exposição em exibição sejam incluídos numa listagem num jornal diário de grande expansão, ainda que sem nenhum comentário, pode já ser considerado uma grande vitória. Marca a sua ascensão à esfera da existência, do ponto de vista da opinião pública, concebida como entidade social global. A partir daí, há uma hierarquia em termos de extensão e frequência das referências informativas. O tom mais ou menos neutro, positivo ou negativo e, sobretudo, a inclusão ou não de fotografias são também muito importantes para medir o valor promocional das informações. (...) 3.1.3. Os críticos Os críticos, quer como autores de textos divulgados em publicações, especializadas ou não, quer como organizadores de exposições ou outros eventos enquadrados por instituições, públicas ou não, quer ainda como emissores de opiniões, tomadas em consideração por compradores ou observadores, estão sempre, e inevitavelmente, a exercer ao mesmo tempo um papel cultural e um papel comercial. (...) Conforme já referimos, incluímos os críticos na categoria dos comentadores de que constituem o grupo mais activo, numa situação intermédia entre o grupo dos jornalistas, que se limitam a dar informações mais ou menos desenvolvidas ou esclarecidas, e o dos investigadores, que conduzem as reflexões de maior ambição teórica e pretensão erudita. Mais exactamente, o crítico surgiria entre o jornalista cultural especializado e o ensaísta, sendo que estas fronteiras são tanto mais fluidas quanto frequentemente um mesmo indivíduo ocupa, em diversas situações e com diferentes tipos de escrita, estas diferentes posições. (...) 3.1.4. Os investigadores Passando agora à mais elevada categoria dos analistas, ou seja, a dos investigadores, importa começar por dizer que embora ocupem um escalão hierarquicamente superior em termos culturais, já que possuem um estatuto universitário e um currículo teórico adquiridos, isso não significa necessariamente que tenham um maior peso ou influência. Pelo contrário, precisamente porque ocupam um escalão cultural mais elevado, porque têm compromissos, posições e funções prioritárias no sistema de ensino - universidade ou instituições de investigação -, este tipo de investigadores, regra geral, mantém-se ou procura manter-se à margem do mundo da arte, ou melhor, na fronteira entre o mundo da arte e o que nos termos ideais, que hoje em dia já não são sequer os dos próprios agentes em causa, se chamaria o mundo do saber. Esta distância académica, erudita, universitária, a distância da teoria e da investigação, é particularmente visível, porque também mais praticável, no âmbito da história da arte, mas manifesta-se igualmente no domínio da arte contemporânea, em que os estudiosos geralmente tentam ou pretendem tentar manter-se afastados dos condicionalismos e dos ritmos sociais e económicos que rodeiam o funcionamento do sistema. (...) Os investigadores fazem, no entanto, parte integrante do sistema por duas ordens de razões. Em primeiro lugar, muitos críticos regulares são também e de forma igualmente regular professores ou investigadores, o que vem reforçar a caução teórica e cultural do seu discurso enquanto críticos. Sucede ainda que muitos universitários puros intervêm pontualmente na actividade crítica corrente sob a forma de artigos ou, mais frequentemente, de ensaios para catálogos ou revistas teóricas. Estas intervenções, por serem menos comuns, são muito apreciadas enquanto suplemento especial de caução teórica, costumando ser avaliadas em termos de: «É um Gestão das Artes 8 O sistema da arte contemporânea teórico que nunca escreve sobre exposições de actualidade, mas excepcionalmente acedeu a fazer um texto para este catálogo.» No entanto, a principal razão pela qual os investigadores são parte integrante do sistema da arte contemporânea e nele têm mesmo um papel destacado resulta do facto de estarem entre os que na prática operam a primeira triagem no que diz respeito ao que vai ficar na história. De facto, e apesar de esta triagem ser sempre o resultado de um consenso informal, em termos práticos são geralmente estes investigadores que escrevem os livros de tese sobre os autores, decidem dos currículos dos cursos de arte contemporânea e orientam as actividades e o trabalho dos centros de investigação e dos estudantes e investigadores mais novos. (...) 3.1.5. Os editores Em complemento ao grupo dos analistas surge o, pouco publicitado e frequentemente ignorado, dos editores. Sendo muitas vezes entidades anónimas e que pouca gente conhece, salvo quando vêm da crítica ou da universidade, os editores são aqueles que balizam e definem o campo daquilo que os analistas podem, se não escrever, pelo menos publicar. A importância dos editores - considerando neste grupo desde os proprietários das grandes casas editoras até aos coordenadores das secções culturais dos jornais - torna-se facilmente compreensível através da simples constatação de que, se hoje em dia é raro encontrar alguém que escreva algo que não queria escrever, isso não quer dizer que todos os analistas publiquem exactamente tudo aquilo que pretendem escrever. Basta que um chefe de redacção entenda que um artista não é suficientemente conhecido para que se justifique fazer-lhe uma entrevista ou que um director de colecção considere que um nome não vende o suficiente para justificar a edição de um livro com cinquenta reproduções a cores. (...) 3.1.6. As revistas O modo mais fácil de ter acesso a informações sobre a arte contemporânea é, sem dúvida, através do recurso às revistas da especialidade, mas a visão de fotografias das obras ou a leitura de comentários quase sempre expeditivos a seu respeito não serve para substituir a visão e a experiência do contacto directo. Isto é válido por maioria de razão para uma situação como a actual, em que abundam as instalações, as tecnologias audiovisuais, os métodos interactivos e toda uma série de processos de trabalho insusceptíveis de reprodução fotográfica eficaz. Conhecer a arte contemporânea - e não haja dúvidas de que o mesmo se aplica à história da arte - implica ver arte contemporânea, e isso obriga inevitavelmente a viajar com regularidade e frequência. A utilidade das revistas não reside na impossível substituição da visão das obras, mas na recolha, organização e apresentação de informações actualizadas. É uma função de informação, sinalização e orientação no sentido mais pragmático destas expressões. A consulta regular de revistas especializa das constitui uma preparação para a entrada no mundo da arte contemporânea ou um acompanhamento e um comentário permanente para quem percorre os seus caminhos. As revistas permitem saber aproximadamente quais são os nomes, temas, lugares e questões com maior visibilidade e circulação num determinado momento, quem está a fazer o quê e onde o está a mostrar; em suma, onde poderemos encontrar isto ou aquilo. Para este efeito, a área de publicidade das revistas é quase tão importante como a área editorial. (...) Gestão das Artes 9 O sistema da arte contemporânea 3.1.7. Os catálogos Numa situação intermédia entre os artigos de jornal ou revista e os livros encontram-se os catálogos. A importância destes varia substancialmente, desde o pequeno folheto desdobrável que qualquer galeria pode editar por ocasião de uma exposição até ao grande catálogo de uma retrospectiva em museu ou ao gigantesco catálogo raisonné que frequentemente exige a colaboração de um grupo internacional de editoras. No entanto, regra geral, a publicação de catálogos é da iniciativa e responsabilidade das galerias ou instituições de exibição - museus -, pelo que não é de incluí-la, em sentido estrito, na esfera de acção dos editores, devendo ser vista como uma actividade complementar das actividades principais das galerias e museus. (...) 3.2. Os exibidores Chamamos exibidores, em termos genéricos, aos responsáveis pela organização e escolha das obras e artistas presentes em exposições efectuadas fora do contexto regular da actividade das galerias. As mais importantes destas mostras são as que se realizam em museus ou centros culturais públicos ou privados de grande prestígio, mas podem também incluir-se neste âmbito exposições em espaços alternativos, sejam eles privados ou públicos não especificamente culturais, ou mesmo em galerias comerciais normais, desde que a iniciativa e o projecto da exposição e a correspondente selecção correspondam a um objectivo independente da lógica normal de funcionamento da galeria. Na categoria de exibidores incluímos, portanto, os agentes habitualmente designados por curators, comissários, organizadores ou coordenadores, responsáveis ou directores de serviços de exposições. (...) Em primeiro lugar, importa referir que os galeristas são também exibidores e dos mais importantes. No entanto, porque entendemos que o seu papel é sobretudo económico, analisámo-lo no âmbito da dimensão económica e não repetiremos agora o que então escrevemos. Em segundo lugar, importa clarificar a distinção entre exibidores independentes e institucionais. Os exibidores independentes, actuando em regime de free-lancers, podem trabalhar com galerias, instituições ou espaços alternativos, e desempenham também outras funções, visando, através da organização de exposições, reforçar a sua capacidade de intervenção e afirmação de pontos de vista. Geralmente estes exibidores são também críticos ou comentadores, mas podem igualmente ser coleccionadores, galeristas activos fora do âmbito comercial ou mesmo agentes provenientes de outras áreas, por exemplo, escritores ou cineastas que por qualquer razão estabelecem ligações com as artes plásticas. Sublinhe-se que os exibidores independentes também podem trabalhar para instituições, sejam elas públicas ou privadas, o que os distingue dos institucionais é que não têm uma ligação contratual e funcional a nenhuma instituição. (...) Os exibidores institucionais são os que têm uma relação de dependência contratual em relação a uma instituição cujos interesses e lógica de funcionamento são supostos secundar. Podem ser oriundos do grupo dos comentadores, sejam críticos ou investigadores universitários, ou da área da política ou da gestão, tendo apenas uma formação corrente de funcionários políticos ou gestores. Eventualmente podem ter uma formação específica na área da museologia ou da gestão cultural. Regra geral, os exibidores independentes mantêm uma intensa actividade crítica e ensaística que complementa a de organizadores de exposições. Já os exibidores institucionais, sobretudo os que trabalham para instituições Gestão das Artes 10 O sistema da arte contemporânea públicas, e por vezes por imposição regulamentar, tendem a não exercer uma actividade corrente de comentário crítico, circunscrevendo o seu labor de escrita a livros ou catálogos da instituição a que estão ligados, isto quando o mantêm. (...) 3.2.1. Exposições para todos os gostos (...) Numa primeira aproximação, simplificadora, poderíamos enunciar três tipos de exposições: de galeria, de museu e alternativas. As primeiras corresponderiam a uma dinâmica predominantemente comercial, as segundas a uma lógica de consagração cultural oficial e as terceiras a uma dimensão experimental mais directamente ligada à comunidade artística. Os fundos de financiamento teriam assim uma origem respectivamente económica, política ou cultural, ou seja, por exemplo, um comerciante - o galerista -, o Estado ou uma associação cultural independente.(...) O mecenato, ou seja, o apoio financeiro à actividade artística por parte de empresas ou particulares, é um elemento presente praticamente em todo o espectro da actual actividade expositiva. Nenhum projecto de ambição média, tenha ele origem num agente independente, numa galeria, num museu ou no próprio Estado, dispensa hoje em dia o recurso ao mecenato. A angariação de fundos junto de potenciais financiadores tornou-se, aliás, uma componente decisiva de qualquer projecto cultural, dando origem a uma especialização - a angariação de fundos - e a uma área de reflexão estratégica específica. Esta área combina as relações públicas, o marketing e a publicidade de modo a conseguir transformar qualquer ideia ou projecto - artístico ou cultural num produto vendável, isto é, um produto com uma imagem susceptível de atrair e convencer financiadores. (...) O espaço de acolhimento de uma exposição pode ser uma cidade inteira - incluindo os exteriores e os interiores de alguns edifícios -, um conjunto de salas seleccionadas de uma série de casas particulares, um convento, um castelo ou qualquer outra construção com interesse histórico ou arquitectónico, uma instalação industrial, umas ruínas urbanas ou uma aldeia abandonada, uma série de montras de estabelecimentos comerciais, as paredes ou os placards publicitários de uma povoação, uma loja, um bar ou um restaurante, uma livraria ou uma biblioteca, uma estação ferroviária ou um estádio de futebol. É tudo uma questão de projecto. 4. DIMENSÃO POLÍTICA A legitimação e validação social global que a sua dimensão simbólica traz ao sistema da arte contemporânea faz com que a sua existência seja reconhecida e, até certo ponto, enquadrada pelas instituições públicas, dando assim lugar a uma dimensão política que se articula intimamente com as dimensões já referidas e produz efeitos significativos em termos de legitimação social, na medida em que introduz a representatividade do Estado como caução e garante da relevância social das obras de arte. Os agentes cuja acção dá corpo a esta dimensão política são, na sua face mais visível, os exibidores institucionais, dos quais depende a orientação das actividades dos espaços públicos de exposição e que são, na maior parte dos casos, os espaços mais importantes de consagração social. Mas a actividade destes exibidores, que tem o seu complemento na dos responsáveis pelas igualmente decisivas políticas de aquisições públicas de Gestão das Artes 11 O sistema da arte contemporânea obras de arte, pelas políticas de apoios, subsídios e encomendas que as completam, só se compreende no interior de uma cadeia hierárquica. Esta toma a forma de uma pirâmide de funcionários culturais e decisores políticos cujo grau de especialização e vocação cultural vai diminuindo em favor de determinações especificamente políticas à medida que aumenta o nível de poder de decisão. Esta assimetria político-cultural entre funcionários que se querem assumir como agentes culturais e decisores que pretendem agir como responsáveis políticos é a fonte dos permanentes equívocos e polémicas em que as questões de política cultural estão constantemente envolvidas. (...) [ Os políticos e a arte ] (...) Em síntese, podemos concluir que as relações entre o mundo da arte e a política cultural dependem da conjuntura político-ideológica e do tipo de efeitos e de imagem cultural que o Estado prioritariamente quer produzir junto da opinião pública nacional ou internacional. Em períodos de conjuntura ascensional, positiva, a cultura tende a ser um pólo de investimento público com vista à promoção de uma imagem próspera e progressiva. Em períodos de conjuntura recessiva, negativa, a cultura pode ser fácil e rapidamente sacrificada e mesmo transformada em bode expiatório no contexto de um retorno aos valores básicos - a economia, a defesa, a família -, servindo propósitos conservadores e moralizantes contra os devaneios supérfluos e a boémia viciosa dos artistas. (...) 4.1. Os decisores institucionais Os exibidores institucionais trabalham em ligação directa com um conjunto de funcionários políticos que, não tendo necessariamente funções ou competências estritamente culturais, dispõem frequentemente de um poder real de decisão que se sobrepõe ao dos especialistas culturais seus subordinados. Exibidores institucionais oficiais e funcionários culturais constituem o grupo do que chamaremos os decisores institucionais, um grupo com forte capacidade de acção simultaneamente no campo da legitimação cultural e da legitimação económica, e com o acréscimo de poder impositivo resultante da relação com o poder político. A consideração autónoma do grupo dos decisores institucionais permite-nos voltar a examinar a questão das relações entre o mundo da arte e o da política. (...) No grupo dos decisores institucionais há que distinguir entre os decisores políticos e os funcionários culturais, sendo que, embora só estes possam ser considerados agentes culturais em sentido estrito, são os decisores políticos que detêm o poder final. Daqui resulta que, embora as decisões institucionais sejam inevitavelmente unas, elas são quase sempre o resultado de uma série de contradições e de negociações permanentes entre os representantes das vertentes cultural e política da política cultural do Estado. A análise destas contradições e negociações revela uma extrema complexidade e diversidade de situações que só podem ser abordadas caso a caso. (...) Referência bibliográfica MELO, Alexandre – Arte. 3ª Edição. Lisboa: Quimera Editores, 2001. ISBN 972-589-069-8 Gestão das Artes 12