METODOLOGIA DO PROJETO RECICLAÇÃO EM RESÍDUOS SÓLIDOS EM ABREU E LIMA: FAMÍLIA E GÊNERO. DRA. HULDA STADTLER – UFRPE/DED/Incubacoop Poderá parecer estranho o encaminhamento que daremos a esse texto, mas nossa perspectiva é alicerçar, com mais objetividade, os alcances sócio-econômicos e ambientais do projeto a que nos referimos. Certamente que a problemática onde se insere terá destaque e por si, ela justifica a metodologia com a qual demos início às nossas atividades. O projeto também revela características de produção familiar, gênero e geração. A Incubacoop /UFRPE vem nos últimos anos desenvolvendo ações, criando tecnologias e participando das discussões políticas que envolvem a problemática dos resíduos sólidos no país, e mais especificamente em Pernambuco, apresentando caminhos para meio ambiente, recursos e economia solidária. Cumprindo com seu papel de contribuir para emancipação social de uma categoria de trabalhadores informais – os/as catadores - ligados aos antigos lixões de nossas periferias urbanas, tem realizado desde 2005 um projeto de incubação em Abreu e Lima. Nossas atividades ganham caráter nacional a partir de dois referenciais: o primeiro está relacionado à participação de um grupo de trabalho sob a temática dos resíduos sólidos na Rede Nacional de Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs); o segundo as determinações federais de extinção dos lixões e sua transformação em aterros sanitários gerando no Estado de Pernambuco a Lei 13.047, de 26 de junho de 2006 de obrigatoriedade da coleta seletiva. Duas vertentes estão incluídas em nossas ações que são colaborar com atitudes humanizadas e conscientes em relação aos problemas do meio ambiente e fomentar a prática cooperativista e associativista fortalecendo empreendimentos voltados para uma economia solidária que garanta aos grupos possibilidade de a partir do trabalho, conquistar um capital que não se refere tão somente ao aspecto monetário, mas principalmente a um modelo de desenvolvimento humano e participativo. Como nos propomos no início do texto, iremos iniciar nossa apresentação não por atacar diretamente a problemática de resíduos sólidos, mas por conhecer a realidade da vida e o perfil sócio-econômico da população atendida pelo processo de incubação. Nossa maneira de enfocar o problema nos leva a dizer que embora em empreendimentos em Economia Solidária venha se falando em organização supra-familiar, em nosso caso, a família tem sido uma melhor referência de organização, controle e distribuição de tarefas. As pessoas atingidas por nosso projeto não diferem em muito da grande faixa da população brasileira vivendo em periferias de nossas capitais, necessitadas de conseguir uma forma, mais ou menos, constante de ganhar a vida. Os trabalhadores e associados dos grupos incubados, não são seres isolados, são representantes de redes de famílias que lutam por permanecer nessa classificação sóciocultural. Afirma Scott que “Os estudos de famílias no mundo desenvolvido repetidamente frisam a influência da urbanização sobre a organização das famílias – identificando uma tendência para a diminuição do tamanho da família, a nuclearização dos grupos domésticos e o fim anunciado das famílias grandes e tradicionais” (2005:229). Essas famílias precisam adaptar-se às novas condições, ou seja, urbana. De modo geral são famílias nucleares com a presença de um homem, uma mulher e filhos, mas nem sempre de caráter consangüíneo. Muitos pesquisadores apontam que o crescimento urbano fez marcas profundas no empobrecimento dos grupos familiares marcados pela falta de oportunidade e pelas desigualdades sociais. Esses grupos passam a viver do comércio informal, das sobras aproveitáveis, dos restos, dos produtos reciclados e vendidos a baixo preço ou dos lixos Dra. Hulda Stadtler – UFRPE/DED Coordenadora de Resíduos Sólidos - Incubacoop [email protected] 2 produzidos por um consumismo desenfreado e onde atravessadores fazem maior lucro estendendo os tentáculos da mais valia. Alimentam-se de produtos de segunda, cestas básicas ou, até mesmo de restos do próprio lixo. As famílias marcadas por essa transformação são conduzidas a construir suas próprias estratégias de sobrevivência sem qualquer auxílio, até muito recentemente, de políticas públicas que pusessem limite ao processo de marginalização. Atualmente temos alguns auxílios por parte do governo, mas que não é objeto de nossa reflexão no momento, pois muitas prefeituras ainda relutam em contribuir como no caso da coleta seletiva. Temos ainda normas de organização cooperada (lei bancária) que aprofundam a individualização das ações produtivas em detrimento das famílias e do regime familiar de trabalho. Se por um lado o indivíduo ganha enquanto sujeito, independente de cor, raça, sexo, gênero, sexualidade, religião etc., por outro lado perde a identidade familiar de referência e sobrevivência. Embora pareça que os grupos familiares estão se estruturando em alguma direção, na verdade o processo de modernização ou desenvolvimento capitalista tem desorganizado e desestruturado as famílias, principalmente em condições rurais onde o regime familiar de produção é mais forte. Muitas das fundações de barragens, promoção de agrovilas, assentamentos, retirada das famílias pescadoras das margens marítimas, águas doces e pseudo reforma agrária geram uma desestruturação na capacidade organizativa de regime de produção familiar desagregando membros e conduzindo-os, ainda hoje, a buscarem nas periferias dos grandes centros urbanos formas de sobreviver. Contudo, as famílias resistem e, segundo nossos dados, 67,5% dos grupos entrevistados dentro do lixão de Iamã são de familiares produzindo em regime familiar. Muitas vezes com a vinda de alguém do campo acaba a família criando uma rede e um fluxo entre um sistema e outro sobrevivendo pela criação de estratégias que garanta a permanência de bens dentro de casa. Esses grupos familiares formam fatias dentro dos bairros pobres e resguardam-se em moradias próprias adquiridas por invasão e construídas paulatinamente com alvenaria (78% dos catadores/as de Iamã). Na hora do trabalho os parentes ficam com as crianças. Entre as características que constatamos no desmantelamento dos grupos familiares encontram-se problemáticas profundas nas relações de gênero e um fenômeno denominado feminização da pobreza (Fontenele-Mourão, 2006; Faria e Nobre, 2002). Desde a ida, em grande escala de homens pais de família para o Sul do país em busca de sobrevivência que aqui no nordeste e norte mulheres ficaram como chefes de suas famílias. Como o dinheiro nunca vinha tinham que se virar com a prole. São muitos os temas geradores de trabalhos e pesquisas entre as feministas, mas queremos ressaltar o trabalho doméstico e as relações dentro dos núcleos familiares. A má distribuição da renda entre homens e mulheres favorecendo aos primeiros, o abandono da casa, a falta de acesso a terra, ao crédito e financiamento da produção e a ausência de políticas públicas que favoreçam as atividades produtivas das mulheres tem ampliado a dura jornada de trabalho de mulheres chefiando famílias nas periferias urbanas. Ainda segundo nossos dados do lixão, apenas 7% das crianças freqüentam regularmente as escolas, embora quase 50% estejam regularmente matriculadas. Essas temáticas se agravam quando articuladas com questões de geração, classe e raça. São as mulheres as principais representantes das unidades familiares (chefe de família) e da cadeia produtiva nos contextos de baixa renda. Em nosso caso, que tratamos dos/as catadores, podemos afirmar com segurança que a rede de produção, na base da cadeia produtiva, é principalmente formada por mulheres. Quando não estão no local de trabalho dão suporte para os homens, seus familiares, fazê-lo. Isto não elimina a existência de famílias nucleares (pais e filhos) sobrevivendo nessas mesmas áreas em regime de produção familiar como é o caso de um dos grupos de catadores por nós incubados. Não pretendemos fazer um estudo sobre a família em si, contudo essa pode ser tomada como exemplo para análise das instituições sócio-culturais e referência de base sociológica 3 para avaliação da construção histórica das condições da vida cotidiana que nada tem a ver com a lógica do capital (Weber, 1930). Não poderíamos negar sua estreita relação com a estrutura social e a rede de relações de que se compõe. Por isso, para atingirmos o âmago de nosso produto metodológico, partimos da observação transformadora, na incubação vivida diretamente por esses grupos familiares sobrevivendo da coleta de resíduos sólidos no bairro do Fosfato (Abreu e Lima/PE), e a conseqüente rede criada entre estas e outras famílias posicionadas, após a organização da coleta seletiva1, como doadoras, na outra ponta do processo. Temos já quatro bairros cadastrados onde aproximadamente 3200 famílias doam seus resíduos para o projeto gerando qualidade no material recolhido (principalmente garrafas pet) e conseqüentemente agregando valor à venda. Nossa perspectiva pode ainda ser corroborada pelos dados encontrados em uma pesquisa realizada por Gonçalves (2003:98-100), onde conclui que 57% de seus/suas entrevistados/as possuem algum tipo de união conjugal, que 66% residem em casa própria de alvenaria e que 46% dos companheiros/as também sobrevivem do recolhimento e reciclagem de resíduos. A Metodologia do Projeto Iniciemos por dizer de que bases teórico-metodológicas partimos. Politicamente acreditamos na democracia representativa e participativa. É legítima a diversidade de opiniões na construção de um projeto produtivo uno a partir da tomada de consciência e participação integral de todos os seus associados. Desse processo são geradas mais eqüitativas e justas distribuições dos bens produzidos em forma de uma organização cooperada. Portanto, os parâmetros desenvolvimentistas que nos referendam estão em teóricos críticos dos projetos capitalistas de administrar agronegócios ou produtos industrializados geradores de uma ação corrosiva na natureza, no meio ambiente, e nas interações humanas (Sachs, 2005; Faladori, 2001; Veiga, 2005, etc). Nessa perspectiva temos realizado ações efetivas no sentido de garantir os eixos de atuação da incubadora em práticas de cooperativismo moldadas na Economia Solidária com grupos populares e retirando-os das condições desumanas de sobrevivência dos lixões. Temos como princípio metodológico geral à pesquisa-ação e abordagens qualitativas, reveladas no processo de construção/reconstrução de saberes da cultura popular, tradicional e étnica comparando-as, junto com o grupo, com o saber cientificamente produzido (Marotti, 1997; Vasconcellos, 1998). 1 A metodologia e implantação da coleta está registrada em outro texto da Incubacoop. 4 Momento de capacitação onde as presidentas dos grupos de catadores/as organizam o pagamento das vendas2. Foto 2 Foto 3 Transformação social implica em co-participação de diferentes atores sociais envolvidos no processo, atuando como protagonistas em um propósito de re-construção social e replicando uma nova concepção de mundo, de relações de trabalho e de lógica de mercado. Foto 4 Para Demo (2000), os processos educativos devem trabalhar as contradições do mundo contemporâneo, como é o caso do paradoxo do lixo (Magera, 2003) desenvolvendo competências e habilidades nas pessoas que os/as instrumentalizem para usar os conhecimentos e habilidades necessárias para responder as necessidades da sociedade e às exigências do mundo atual, respondendo inclusive aos padrões impostos pela globalização do mercado. Nesta perspectiva é preciso sensibilizar as pessoas para compreenderem que há uma lógica possível dentro de uma economia excludente. A economia global solidária que respaldada nos princípios e ideários socialistas comunica, e vem tornando cada vez mais visível, que é preciso empoderar uma representativa parcela de pequenos empreendimentos e de pessoas, a fim de que as atividades que desenvolvem possam se tornar viáveis, gerando postos de atividade e renda e possibilitando a cidadania a estes grupos. Desta forma, a inclusão social de beneficiários de projetos deve perpassar também por uma nova ordem, referenciada pela participação da população. Vista assim, a participação deve ser concebida como um ato interativo entre os/as diversos atores sociais, na perspectiva de conhecer o contexto no qual se encontram inseridos/as, as situações que precisam de intervenção e as alternativas para superação. Trata-se, portanto de um processo de reflexão-ação, característico dos processos de comunicação marcados pela participação ativa dos/as sujeitos envolvidos/as e pela valorização do saber local que se inter-relaciona ao saber científico. Nesse percurso atingimos as famílias, as relações domésticas, as de gênero, as de geração e as produtivas. 2 Todas as fotos foram produzidas pela autora do texto. 5 Pensamos em espaço físico e nas tão desejadas carroças para o trabalho da coleta, utilizadas por ambos os sexos. Foto 5 Foto 6 A Incubacoop vem utilizando metodologias participativas no desenvolvimento de suas atividades como estratégia de fortalecimento dos grupos, consubstanciando a gestão dos empreendimentos e despertando o potencial de participação das pessoas. Metodologias participativas vêm dando um suporte à concepção apresentada, referenciadas no embasamento teórico da pesquisa-ação que procura conhecer e intervir em uma realidade, porém de forma conjunta entre proponente e beneficiário/a das propostas, e considerando as dimensões históricas, éticas, políticas e socioculturais do conhecimento. Nossa versão, entretanto, não é de militância política exclusiva, ela reúne aspectos de pesquisa acadêmica no intuito de gerar um saber que impulsione outros empreendimentos da mesma natureza. Recentemente realizamos, a convite do PROMATA/PE, um projeto de Consórcio para Resíduos Sólidos a ser desenvolvido em três municípios da Mata Sul. Nele apresentamos nossa compreensão de pesquisa, desenvolvimento de tecnologias sociais e proposta de coleta seletiva. Todo esse procedimento encontra-se em estudo pelos novos gestores do estado. Dentre as técnicas e instrumentos utilizados encontram-se o diagnóstico participativo, técnicas de feedback, de observação participante, oficinas educativas e temáticas, armazenamento de dados, processos de capacitação e assessoramento às necessidades observadas e às demandas e expectativas dos grupos. No início da proposta de incubação realizamos seleção dos grupos, trabalhamos com as identidades a partir da história grupal, resignificando-as; atuamos junto às características interativas dos grupos, proporcionamos capacitações e oficinas em gestão, legislação, divisão de tarefas, coleta seletiva, classificação, venda e comercialização de resíduos sólidos e seus aspectos produtivos e econômicos. Apoiamos, por fim, a participação política e cidadã de representantes dos grupos junto a organizações da sociedade não esquecendo de priorizar o estímulo à alfabetização das pessoas que trabalham e familiares. Os dados referentes à escolaridade indicam a existência de 18% de analfabetos e 58% de pessoas com ensino fundamental incompletos no lixão de Iamã. Desses dados podemos afirmar que as mulheres são mais ativas na participação política, tem jornada de trabalho dobrada e algumas perdem em salário por não terem apoio de creches para deixar as crianças. A realização deste projeto vem mudando o cotidiano dos grupos e também da população onde a coleta seletiva se instaura, contribuindo para a reversão de lógica, e efetivando as etapas do processo a partir da inclusão e protagonismo dos⁄das catadores, consolidando uma rede de trabalho em economia solidária dentro da cadeia de resíduos sólidos. A perspectiva é consolidar a Associação Érick Soares estruturada a partir do lixão de Iamã, como entidade de catadores de resíduos sólidos, e fortalecer sua união em rede com a Cooperativa de Reciclagem de Plástico (Cooreplast), agregando mais valor aos plásticos coletados, promovendo assim melhores condições de trabalho e renda aos associados dos 6 grupos e aumentando, gradativamente, o número de associados com a implantação de um modelo de coleta seletiva e recepção de doações no perímetro do município de domicílio desses grupos. Nossas ações vêm em seis meses ampliando progressivamente seus rendimentos individuais que eram entre R$100,00 e R$200,00 no lixão. Lá as mulheres retiravam menos. Hoje, organizados produtivamente, atingiram a renda mensal de R$320,00 e alguns já retiraram o salário mínimo. Na nova perspectiva homens e mulheres possuem a mesma oportunidade de retirada financeira. Para garantir uma ação de acompanhamento mais eficaz, uma vez que algumas das áreas previstas vêm extrapolando as metas, como no caso da coleta seletiva que ultrapassou o bairro do Fosfato e o número de moradores previsto, foi criado um Grupo Gestor da Coleta Seletiva formado por três membros de cada um dos dois grupos do projeto, tendo as duas presidentas como principais representantes. O Grupo Gestor tem por finalidade ser elemento articulador entre a Incubadora e os grupos incubados, tendo caráter consultivo, sendo algumas das decisões encaminhadas para deliberação em reuniões ampliadas. A formação deste conselho gestor vem facilitando concretizar algumas das atividades traçadas, fortalecendo inclusive o processo de autogestão dos grupos e já reforçando e contribuindo para o trabalho em rede, sendo o carro chefe desta ação a coleta seletiva realizada pelos dois grupos atualmente em três bairros. Peril dos grupos incubados Os grupos incubados residem em um mesmo bairro e suas casas estão a pequenas distâncias umas das outras. Além de trabalhadores de um mesmo empreendimento, essas pessoas representam um micro universo social com características institucionais imbricadas: família, festivais, religiões, sexualidade, habitação, saneamento, propriedades, associação de bairro, prefeitura comum, etc. Compartilham também características raciais como afro-descendentes. São dois os grupos que formam a rede Reciclação, a Associação Érick Soares formada por pessoas advindas do lixão e a Cooperativa Cooreplast que já tem uma história mais longa de incubação. Os muros da Cooreplast fazem contato com os da Igreja Católica local (na foto 2), e a Érick Soares fica há poucos metros em uma pequena ladeira na rua em frente. … Foto 7 Foto 8 Sem muitas surpresas para cientistas sociais, mas como elemento forte a ser estudado nos projetos de incubação das camadas populares, os grupos aos quais temos nos dedicado representam composições familiares. Existe principalmente uma grande família e duas menores no Reciclação: Érick Soares Família 1 12 pessoas Família 2 2 pessoas Cooreplast Família 3 2 pessoas 5 pessoas sem relação de parentesco 7 A família 1, com 12 componentes, responde pela Associação Érick Soares. Essas pessoas são provenientes de trabalho no lixão de Iamã e destacavam-se dos demais justamente por representarem um grupo já organizado. Internamente está subdividida em três sub-grupos nucleares, representando pai, mãe e prole – os Souza, os Conceição e os Gonçalves. Entre eles/as encontramos 8 homens e 4 mulheres, sendo uma das mulheres a representante oficial do grupo. Quanto à cooperativa incubada, a Cooreplast é composta por duas outras famílias (sem muita relevância numérica), e pelas cinco demais pessoas que não pertencem a nenhum grupo familiar incubado. Há, em comparação com a associação, uma inversão em sua classificação por gênero: são 6 as mulheres e 3 homens no grupo. Possuem ainda a característica de não ser um grupo de pessoas advindas das condições geradas pela vida nos lixões. A presença de familiares é uma característica comum entre os grupos de organização popular, mas parece mais fortemente colocada no caso de pessoas provenientes dos lixões. A explicação pode parecer óbvia e ela é de fato. As pessoas saídas do lixão e que trouxeram a associação Érick Soares para a rede poderiam compor um grupo sem laços de família, mas corroboram com a nossa afirmação de que essa organização, aparentemente aleatória, é de fato uma estratégia que tem, certamente, relações com outros elementos que não só a sobrevivência financeira. A família que recolhe resíduos sólidos em cooperação no lixão tem mais potencialidade de conquistar um território, um espaço comercial e ganhar com as vendas, pois vai reunir quantidade e tipos diferentes de resíduos, tendo, conseqüentemente, a chance de negociar seus preços. Além disto, todo o resultado desse trabalho concorre para um mesmo clã pelo somatório das retiradas individuais. Entre as características que validam a experiência de organização em rede familiar estão: o alcance a bens proporcionado por uma renda suplementar e a autonomia que permite flexibilizar para mais ou para menos os ganhos monetários quando a família precisa investir mais ou menos nessa perspectiva financeira. Com relação à renda suplementar apontamos o somatório das retiradas individuais dos membros da família. Com relação à autonomia e flexibilização encontra-se a distribuição das tarefas entre casa e trabalho quando os/as membros/as passam por condições corriqueiras ou adversas (por exemplo, falta de saúde). Há algo claro, porém na distribuição dessas atividades que está voltado para as velhas configurações de gênero e geração. Iremos tomar como exemplo dessas características a retirada dos/as membros/as da rede Reciclação de 21 de abril a 31 de maio de 2007. O total produzido foi de R$ 6.256,50, após o pagamento de energia e outros encargos ficou para retirada dos/as associados/as R$ 5.630,72 (cinco mil seiscentos e trinta reais e setenta e dois centavos) para dividir entre 21 trabalhadores/as. Em reunião coloca-se em uma tabela o nome de cada associado/a e a quantidade de dias que trabalhou no período estipulado. A definição geral da retirada fica determinada pela atuação individual, por exemplo: Pedro trabalhou 28 dias então deverá receber R$ 271,23; Jacira trabalhou 32 dias receberá 308,47. O montante é dividido conforme o trabalho de cada um que faça parte da rede do Reciclação. Ao avaliarmos de modo geral a planilha de retirada, percebemos que independente do grupo de origem cada pessoa trabalhou em média 28 dias nesse período e em média retirou algo em torno de R$ 270,00 com raras exceções (duas mulheres, uma de cada grupo, por motivos distintos trabalharam menos de 20 dias). Contudo, quando dirigimos nosso olhar para as organizações familiares dentro dos grupos, descobrimos vários elementos de otimização da renda, e consequentemente, da qualidade de vida delas. Na Érick Soares temos famílias onde quatro moram na mesma casa, a retirada desse grupo em termos de renda familiar será o somatório das rendas individuais. Isto é, um suplemento para suas possibilidades de acesso a bens de consumo. Existem famílias neste grupo que se empenham na quantidade de dias de trabalho ficando com boa 8 fatia da retirada (os Gonçalves). Se a média de dias de trabalho for de 31 dias na família teremos 4 vezes R$299,16 em casa. Aluguel, energia, alimentação, TV ou som, divisão de tarefas, tudo passa a ser mais leve para cada um/a. Dois outros campos de análise se alargam quando enfocamos os grupos a partir de sua composição familiar: gênero e geração. Em termos de gênero os grupos se compõem diferentemente de trabalhadores/as quando se trata de família e quando se trata de outro tipo de organização. Na Érick Soares temos 4 mulheres e 8 homens (mesma família); na Cooreplast são 6 mulheres e 3 homens (duas famílias). Gênero e geração estão presentes de modo diferente em cada uma das organizações a depender de seu caráter familiar. Na Érick Soares de modo geral, e por questões de divisão sexual do trabalho nas residências (inferimos nós), as mulheres trabalham menos dias que seus filhos homens e o companheiro,exceto a presidenta do grupo. Assim quando há três homens no grupo e uma mulher a tendência é que o chefe masculino da família trabalhe o maior número de dias ao mês, os filhos homens em segundo, e a mulher estará no final da fila. Sua renda individual, portanto será sempre inferior as demais devido aos afazeres domésticos. De modo geral os homens superam em pelo menos 6 dias os dias de trabalho mensal em relação às mulheres. Existe ainda uma questão de geração bem definida. Os homens apresentam renda proporcional a sua colocação na organização familiar: pai, primeiro filho, segundo filho, etc e as mulheres. Assim, o ponto de partida do processo de transformação de lógica individual para coletiva das pessoas e famílias envolvidas, tem sido o das relações que os/as sujeitos estabelecem entre si e em especial com o mundo do trabalho. Dentro das atividades e funções do grupo encontramos as mesmas problemáticas de gênero e geração típicas dos regimes de trabalho familiar. As mulheres varrem, armazenam, triam, etc. limpam, amarram, Os homens chegam da coleta seletiva no caminhão, descarregam, ajudam a empilhar as bags, etc. Foto 9 Foto 10 Em observação direta nos dias de comercialização podemos ver que apesar do envolvimento de todos (homens velhos e jovens, mulheres velhas e jovens) há uma divisão social do trabalho que garante a permanência dos gêneros em cada um dos papéis sexuais tradicionais de fazer e decidir: 9 Foto 11 Foto 12 Exceto, naquele dia, da presidenta da Érick Soares (blusa vermelha foto abaixo junto aos auditores da Associação de Moradores do Fosfato. Foto 13 Estas incubações têm nos revelado muitas possibilidades de trabalho com grupos populares. Temos compreendido sua organização natural e por várias vezes concordamos que tem mais razão que nós em alguns pontos da administração da vida cotidiana. Temos nos policiado para permitir-lhes nos ensinar como não retornarmos para um padrão fora da Economia Solidária e a nossa última lição ocorreu na retirada do mês de maio. Havíamos estabelecido que naquele momento não permitiríamos que outros/as catadores/as viessem a compor os grupos antes que a retirada individual atingisse o salário mínimo para todos, contudo eles/elas próprios/as saíram da reunião questionando se não haveria uma saída mais solidária para os/as pretendentes. Resolveram que mesmo que a renda individual caísse ao ser dividido o total dos ganhos por todos preferiam acolher os/as novos/as companheiros/as. Para nossa surpresa a renda melhorou. Além disto havia desequilíbrio em número de votantes entre os dois grupos (Cooreplast e Érick) e isto também ficou resolvido com a entrada dos/as novos/as trabalhadores/as. Para finalizar queremos lembrar que estamos em um processo e que as configurações grupais mudam a cada mês. Essa é a dinâmica da vida social e comunitária. Tudo que dissemos é valido para os meses de janeiro a junho de 2007, mas poderá sofrer alterações no processo crescente de produção. Referências Faladori, G. Os Limites dos Desenvolvimento sustentável. São Paulo, Unicamp, 2001. Faria, Nalu e Nobre, Miriam (Orgs.) Economia Feminista. São Paulo, SOF, 2002. 10 Fontenelle-Mourão, Tânia M. Mulheres no Topo de Carreira –Flexibilidade e Persistência. Brasília, Secretaria especial de Políticas para as Mulheres, 2006. Gonçalves, Pólita A reciclagem integradora dos aspectos: ambientais, sociais e econômicos. Rio de Janeiro, Fase, 2003. Magera, Márcio Os empresários do lixo um paradoxo da modernidade. São Paulo, Editora Átomo, 2003. Scott, Parry e Couto, Márcia Thereza. Revista Anthropológicas – Vol 16(1), 2005. Programa de Pós-Graduação em Antropologia – UFPE. Weber, Max A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 1930.