21º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental
II-016 - DESEMPENHO DE UM FILTRO ANAERÓBIO COM ENCHIMENTO DE
BAMBU PARA TRATAMENTO DE ESGOTOS SANITÁRIOS À DIFERENTES
TEMPOS DE DETENÇÃO HIDRÁULICO
Sandra Aparecida Rozon de Camargo(1)
Engenheira Sanitarista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUCCAMP.
Mestre em Saneamento e Ambiente pela Universidade de Campinas - UNICAMP .
Edson Aparecido Abdul Nour
Prof. Dr. do Departamento de Saneamento e Ambiente, Faculdade de Engenharia Civil,
UNICAMP,
Bruno Coraucci Filho
Prof. Dr. do Departamento de Saneamento e Ambiente, Faculdade de Engenharia Civil,
UNICAMP,
Silvana Turolla Brolleze
Tecnóloga em Saneamento
Endereço (1): Av. Nossa Senhora de Fátima, 805 - Bloco Del Rio - Apto. 32 - Taquaral - Campinas - SP - CEP:
13090-902 - Brasil - Tel: (19) 3255-6284 - e-mail: [email protected]
RESUMO
O presente estudo discute os resultados obtidos durante a monitoração de um filtro anaeróbio (FA) de fluxo
ascendente com enchimento de bambu para tratamento de esgotos domésticos em diferentes situações de
operação. Foi avaliado o desempenho do FA com diminuição gradativa no tempo de detenção hidraúlica
(TDH), de 9 a 2 horas. As mudanças no TDH foram feitas a partir de 380 dias do iníco de operação do FA, no
qual o TDH de 9 horas foi diminuído em uma hora a cada aproximadamente trinta dias, até o valor de 2 horas.
O reator permaneceu com TDH de 2 horas durante 11 semanas e após esse período, o TDH foi aumentado para
5 horas. Também foi avaliado o desempenho do FA diante de uma diminuição drástica no pH do afluente, com
aproximadamente 570 de operação, atingindo valor de pH de 1,7, o que provocou um choque ácido no FA, e
resultando em quedas de remoção de aproximadamente 20%, 40%, 30% e 15% para DQOtotal, DQOfiltrada, DBO
e SST, respectivamente. O tempo decorrido para a recuperação do FA variou de acordo com o parâmetro
analisado, no qual a remoção de DQO filtrada apresentou maior queda e tempo para o retorno aos valores obtidos
antes do choque ácido.
PALAVRAS-CHAVE: Filtro Anaeróbio, Esgoto Sanitário, Meio Suporte de Bambu, Choque Ácido e Tempo
de Detenção Hidráulico.
INTRODUÇÃO
Um dos grandes desafios é estudar alternativas para meio suporte que atendam os requisitos para o bom
funcionamento do reator e ao mesmo tempo, ampliar a possibilidade de utilizar materiais disponíveis de menor
custo e com peso menor, para não comprometer a estrutura do reator. A distribuição do bambu é extensa,
ocorrendo em regiões tropicais e subtropicais, seu crescimento é rápido e tem baixo custo de obtenção, o que é
importante para países em desenvolvimento, comparado-se com materiais sintéticos utilizandos como meio
suporte. A razão de preço entre bambu e anéis confeccionados de material sintético é aproximadamente de 1:10
a 1:15, sem incluir o transporte (TRITT et al. 1993).
COSTA COUTO (1993) e COSTA COUTO & FIGUEIREDO (1992), pesquisaram o filtro anaeróbio com
meio de enchimento de bambu para tratamento de esgoto doméstico, como tese de mestrado desenvolvida na
Faculdade de Engenharia Civil da UNICAMP. O autor comparou o FA com enchimento de bambu com um
filtro preenchido com anéis de plásticos (“palm rings”) e outro FA com britas número quatro. Na comparação
dos filtros com diferentes meios de enchimento, as porcentagens de remoção DBO e DQO estiveram na faixa de
60 a 80% e a remoção de sólidos suspensos na faixa de 70 a 80% para os três filtros. Contudo o desempenho
ABES – Trabalhos Técnicos
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do filtro com anéis plásticos foi pouco superior ao apresentado pelos filtros operando com pedras e bambu,
indicando o bom desempenho do FA com meio suporte de bambu.
A avaliação da partida e operação de quatro FA com enchimento de meio anel e anel inteiro de bambu foram
alvos de estudos no trabalho de mestrado de CAMARGO (2000), que fazia parte do Programa de Pesquisas em
Saneamento Básico (PROSAB), Edital 01, do tema Tratamento de Esgotos Sanitários por Processo Anaeróbio
e Disposição Controlada no Solo, financiado pela FINEP, CNPq, CAIXA, CAPES e MCT, e apoio da ABES e
FAPESP.
CAMARGO e NOUR (2000), estudaram a etapa de partida para FA com enchimento de anéis inteiros e meio
anéis de bambu. Os autores verificaram que esta etapa foi completada cerca de 121 dias após o início de
operação dos FA, quando os valores de percentagem de remoção de DBO atingiram um equilíbrio dinâmico
aparente ao longo do tempo. A percentagem média de remoção de DBO, DQO e SST foi de 69, 70 e 80%,
respectivamente, ocorrendo um aumento significativo nestes valores após 300 dias de operação. Os FA
operaram com TCO acima de 1,0 kg DQO/m3dia, sem apresentar perda de eficiência. Não houve diferença
significativa de desempenho entre as diversas configurações do FA.
MATERIAIS E MÉTODOS
O FA, com fluxo ascendente, foi instalado na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Bairro da Graminha,
na cidade de Limeira, empresa Águas de Limeira S.A., responsável pela estação. Esta ETE possui tratamento
preliminar constituído de grade, espaço entre barras de 2 cm, caixa de areia, calha Parshall para medir e
regularizar a velocidade do fluxo, caixas de distribuição que funcionam como um poço de sucção para recalcar
o esgoto, através de bombas, para um sistema de lagoas de estabilização formado por uma lagoa anaeróbia, uma
lagoa facultativa e uma lagoa de maturação.
A planta piloto é formada de quatro reatores cilíndricos de aço inox com volume individual (vazio) de
aproximadamente 0,75 m3, os quais recebem esgoto sanitário por meio de um sistema de alimentação
(Figuras 1 e 2). O presente trabalho discutirá os resultados obtidos durante a monitoração de um desses filtros,
que foi operado a diferentes TDH com meio suporte de anel inteiro de bambu da espécie Bambusa tuldoides.
Figura 1 Esquema da planta piloto, onde o filtro 4 é o reator em estudo no presente trabalho.
O sistema de alimentação é formado por uma bomba submersa no poço de sucção, que recalca o esgoto
sanitário, que já sofreu tratamento preliminar na ETE existente, até uma primeira caixa de cimento amianto
(com volume de 500 L), depois de atravessar uma peneira do tipo estática de barras verticais de 1,5 mm de
largura e abertura entre barras de 1,0 mm, a fim de remover sólidos que possa obstruir tanto as tubulações e
registros, como o meio suporte. A função da primeira caixa é reservar o afluente para alimentar continuamente
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a segunda caixa. O efluente, então passa para um segundo reservatório, localizado logo abaixo do primeiro,
também com capacidade de 500 L, e tem como função manter uma carga hidráulica constante no sistema para
alimentação dos reatores. As caixas de distribuição de efluente estão montadas em estrutura de madeira de
forma a mantê-las acima dos reatores para que o sistema de alimentação opere todo por gravidade e apresentam,
junto ao fundo, uma saída para retirada de material sólido sedimentado ao longo do período de operação
(Figura 2). O FA recebeu revestimento isolante externo, do tipo "isopor" (espuma de poliestireno), visando
diminuir a influência de variações de temperatura do ar. (Figura 3).
Figura 2: Sistema de alimentação:peneira
estática e os dois reservatórios de 500
L.
Figura 3: Os filtros anaeróbios revestidos com isolante
térmico
O FA apresenta fundo falso cônico, que funciona como um compartimento de distribuição do fluxo de esgoto.
O meio de enchimento constituído por anel inteiro de bambu é suportado por uma grade suporte, que foi
construído também em bambu (Figuras 4 e 5).
Figura 4: Formato do meio suporte de bambu utilizado no
filtro 4
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Figura 5: Fundo falso e material suporte
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A partida do FA foi efetuada com inóculo, proveniente de uma fossa séptica de uma das ETEs da cidade de
Campinas, de modo a acelerar o processo. Iniciou-se a partida do FA, com vazão de 340 ml/min para atingir um
TDH de 24 horas, no qual foi mantido nessas condições durante um semana. Após essa curta adaptação da
biomassa, o TDH foi diminuído para 9 horas. As mudanças no TDH foram feitas a partir de 380 dias de
operação do FA, período no qual o reator já se encontrava em equilíbrio dinâmico. O TDH, incialmente com
valor de 9 horas, foi diminuído em uma hora a cada aproximadamente trinta dias, até o valor de 2 horas. O
reator permaneceu então com TDH de 2 horas durante 11 semanas e após esse período, foi aumentado para 5
horas (Tabela 1).
Tabela 1: Período e tempo de operação do FA em diferentes TDH
TDH (horas)
Período de operação (dias)
9
1 a 380
7
380 a 430
6
430 a 450
5
450 a 485
4
485 a 520
3
520 a 541
2
541 a 618
5
618 a 745
Tempo de operação (dias)
380
50
20
35
35
21
77
127
Durante 745 dias de operação do FA foram monitorados o efluente após sair da segunda caixa do sistema de
alimentação e que representa o afluente a ser tratado pelo FA e a saída final do filtro, ou seja o efluente tratado.
Durante a monitoração, foram obtidas eficiências de remoção de matéria orgânica (representada pela DQOtotal ,
DQOfiltrada e DBO), Sólidos Suspensos Totais (SST) e valores de pH. As metodologias utilizadas na
determinação dos parâmetros estudados, são àquelas contidas no Standard Methods for the Examination of
Water and Wastewater (APHA, 1995).
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Avaliando o desempenho do FA a diferentes TDH, observou-se que esse sofreu maior influência pela
concentração de DQO no afluente que pelas variações graduais no TDH. Com 438 a 450 dias de operação o
filtro estava sendo operado com TDH de 6 horas, tratando afluentes mais concentrados (DQO=1054 mg/L),
obteve melhor eficiência de remoção que os períodos anteriores com TDH maior e afluentes menos
concentrados. Esse fato se repetiu no período de 485 a 526 dias de operação (Tabela 2).
Tabela 2: Resultados da monitoração do FA em diferentes TDH.
FA (anel inteiro de bambu)
Período de
Resultados médios
Concentração
Concentração
operação
de eficiência de
média no afluente
média no efluente
Remoção (%)
(mg O2/L)
(mg O2/L)
(dias)
DQO
DBO
DQO
DBO
DQO
DBO
64,4
66,8
671
276
220
81
1 a 380
60,2
73,0
427
107
172
28
381 a 436
84,0
92,5
1054
476
154
32
437 a 450
40,2
73,0
464
65
273
17
451 a 484
55,6
80,3
760
171
246
35
485 a 526
61,0
66,5
683
150
232
51
527 a 554
46,1
38,3
835
309
415
198
555 a 627*
57,6
48,6
737
304
290
154
628 a 745
onde: * Em 562 dias de operação do FA ocorreu o choque ácido.
4
TDH
(horas)
TCO
(kg/m3.dia)
9
7
6
5
4
3
2
5
1,80
1,42
4,22
2,23
5,37
5,46
10,06
3,54
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Na Tabela 2 e Figuras 6 e 7, verifica-se que o FA apresentou melhor desempenho tratando afluentes mais
concentrados. Entretanto em situações de choque de pH, TDH ou qualquer outro parâmetro de controle, o
desempenho será afetado consideravelmente, mesmo tratando afluentes mais concentrado. Esse fato pode ser
observado no período de 555 a 627 dias de operação, onde o filtro 4 apresentou diminuição na eficiência de
remoção de DQO e DBO, mesmo tratando afluente mais concentrado (aproximadamente 835 mgO2/L). Esse
fato é justificado devido ao choque ácido ocorrido com 567 dias de operação, mantendo o filtro 4
desestabilizado por um período aproximado de 64 dias e depois se recuperando para valores de eficiência de
remoção um pouco abaixo dos valores anteriores ao choque ácido. Condições não favoráveis de operação do
FA, como o TDH (2 horas), não favoreceu a uma satisfatória recuperação do reator, exigindo um maior tempo
para retornar ao equilíbrio do sistema (Figuras 6 e 7).
Observa-se também nas figuras 6 e 7, que a eficiência de remoção de DQOtotal e DBO no efluente do FA, antes
do choque ácido, permaneceu na faixa de 60% para DQO e 70 a 80% para DBO com a diminuição gradativa do
valor do TDH. Após o choque ácido a eficiência de remoção de DQOtotal diminuiu para 30% e DBO para 20%.
7 horas
3 horas
6 horas
2 horas
5 horas
5 horas
Choque ácido
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Remoção DBO (%)
Remoção de DQO total (%)
9 horas
4 horas
0
100
200
300
400
500
600
700
800
Tempo de operação (dias)
Figura 6 Eficiência de remoção de DQOTotal no FA
ao longo do tempo, a diferentes TDH.
9 horas
7 horas
6 horas
5 horas
4 horas
3 horas
2 h oras
5 horas
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Choque ácido
0
100
200
300
400
500
600
700
800
Tempo de operação (dias)
Figura 7 Eficiência de remoção de DBO no FA ao
longo do tempo, a diferentes TDH .
Na Figura 6 e Tabela 3 pode-se notar que o FA apresentou baixa remoção de DQOtotal (zero e 11%) no período
entre 451 a 484 dias. Essa queda no desempenho foi devido a diminuição em grande proporção na concentração
média de DQO no afluente e no TDH, proporcionando uma diminuição na remoção média de DQO (Tabela 2).
Verifica-se, durante o acompanhamento do FA, que com 451 dias de operação o afluente apresentou valor de
concentração de DQO maior que 1000 mg/L e na semana posterior diminuiu para 214 mgO2/L. Essa
diminuição rápida na concentração de matéria orgânica no afluente, passando de um valor recomendável para
um valor desfavorável ao bom desempenho do reator, e mais a diminuição de uma hora no TDH, que foi
justamente na mesma semana, provocando uma situação desfavorável à atividade dos microrganismos, afetando
assim a eficiência do reator. Esse fato se repetiu com 492 dias de operação.
Tabela 3: Concentração de DQOtotal no afluente e eficiência de remoção de DQOtotal no FA nos períodos
de mudanças de TDH.
Tempo de operação (dias)
TDH(horas)
Concentração no
Remoção (%)
afluente(mg/L)
380
9
923
70
409
7
385
42
415
7
444
80
450
6
1179
97
457
5
214
0
464
5
466
11
471
5
520
79
541
3
1020
81
555
2
991
63
562
2
902
77
ABES – Trabalhos Técnicos
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Ao observar a eficiência de remoção de matéria orgânica pelo FA no período entre 330 a 561 dias de operação,
antes do choque ácido, verifica-se o bom desempenho desse sistema em relação a retenção de matéria dissolvida
(Figura 8), por meio dos resultados médios de remoção de DQOfiltrada (63 a 76%) no efluente do FA, pela ação
dos microrganismos presentes no biofilme e também no lodo retido nos interstícios do meio suporte. Nesse
período os valores de remoção para DQOfiltrada apresentaram-se semelhantes aos valores obtidos para DQOtotal ...
Depois que ocorreu o choque ácido, em 562 dias de operação, o desempenho em relação a remoção de
DQOfiltrada, foi o mais atingido em relação a DQOtotal , DBO e sólidos, no qual a eficiência foi praticamente
nula, diminuindo assim a capacidade de recuperação do FA. Observa-se que foram diferentes os declínios nos
valores de eficiência de remoção de DQOtotal e DQOfiltrada com a queda de pH no afluente (Figuras 6 e 8). O
choque ácido provocou maior queda de desempenho do filtro em relação a remoção de matéria orgânica na
forma dissolvida, não ocorrendo nenhuma remoção na semana que ocorreu a queda de pH e nas duas semanas
seguintes. Aproximadamente 100 dias de operação após a ocorrência do choque ácido, o FA operando com
TDH de 5 horas, o efluente tratado pelo filtro apresentou uma remoção de matéria orgânica filtrada na faixa de
60%, indicando um sinal do início de recuperação do sistema.
A queda acentuada no valor de pH afetou diretamente os microrganismos presentes no interior do reator. Uma
das prováveis causas para a diferença do tempo de resposta no desempenho do reator em relação a queda de
remoção para os parâmetros DQOtotal e DQOfiltrada diante do choque ácido, é o fato de que a remoção de matéria
orgânica dissolvida, é predominantemente sob ação biológica (BARBOSA & SANT'ANA, 1989). No caso de
matéria orgânica na forma suspensa, a sua remoção é realizada tanto pela ação metabólica dos microrganismos
presentes como pela sedimentação forçada das partículas nos interstícios do meio suporte (CAMPOS, 1999).
Remoção de DQOfiltrada (%)
9 horas
4 horas
7 horas
3 horas
6 horas
2 horas
5 horas
5 horas
500
700
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Choque ácido
0
100
200
300
400
600
800
Tempo de operação (dias)
Figura 8 Resultados de eficiência de remoção de DQO filtrada no efluente do FA ao longo do tempo.
Foi observado que a eficiência de remoção de DQOtotal (Tabela 3) sofreu uma diminuição nas primeiras
semanas de cada alteração no valor do TDH, e depois retornava ao desempenho anterior. Para cada diminuição
de 1 hora no TDH, era necessário um tempo para adaptação da biomassa, resultando em queda no desempenho
do FA. Esse fato foi mais notado nos resultados de DQOfiltrada , pois o desempenho em relação a DBO sofreu
menos variações (Tabela 4). DALTRO & POVINELLI (1989), também encontraram comportamentos
semelhantes utilizando filtros com diferentes alturas e TDH (48, 24, 12 e 8 horas). A cada mudança de TDH, os
autores observaram imediata variação na remoção de DQO e após algumas semanas o desempenho dos reatores
retornava aos valores anteriores.
6
ABES – Trabalhos Técnicos
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Tabela 4: Concentração de e DBO no afluente e eficiência de remoção de DBO no FA nos períodos de
mudanças de TDH.
Tempo de operação (dias)
TDH(horas)
Concentração no
Remoção (%)
afluente(mg/L)
373
9
302
91
409
7
86
66
422
7
128
80
520
4
171
78
527
3
162
63
541
3
138
70
Comparando-se o desempenho do FA a diferentes TDH, pode-se observar que a queda nas eficiências de
remoção média de DQOtotal e DBO com TDH de 9 horas para 3 horas (não incluindo o período que houve o
choque ácido), foram de 1,3% e 0,3%, respectivamente (Tabela 2). Observa-se que a queda de eficiência de
remoção de DQO com TDH de 9 horas para 3 horas foi muito menor que a queda de eficiência de remoção de
DQO com TDH de 6 para 5 horas. Como foi discutido anteriormente, o desempenho do reator em
determinados períodos, foi mais influenciado pela concentração de matéria orgânica no afluente que pela
diminuição gradativa do TDH. YOUNG & McCARTY (1969), operando um filtro anaeróbio com enchimento
de britas com diminuição gradativa do TDH (36, 18, 9 e 4,5 horas), notaram que a queda de eficiência de
remoção de DQO do tempo maior para o menor foi de 55,4% para DQO e 35,2% para DBO. Esse fato
comprova que a remoção de matéria orgânica biodegradável, por apresentar maior facilidade de remoção, foi
menos afetada que a não biodegradável, diante de diminuições gradativas no TDH.
É importante comparar os resultados obtidos por YOUNG & McCARTY (1969) com o presente trabalho, em
relação a queda de remoção nas condições de operação dos reatores com maior e menor TDH. Nota-se que nos
dois casos os reatores foram operados em condições distintas e consequentemente apresentaram
comportamentos diferentes. Os autores obtiveram quedas de eficiência de remoção ao longo do tempo de
operação devido as diminuições no TDH, apresentando maior queda no desempenho com TDH menor que 9
horas. Essa situação não foi observada durante a operação dos filtros com enchimento de bambu, pois esses
foram operados com diminuições pequenas e gradativas no TDH e valores menores que 9 horas. YOUNG &
McCARTY (1969) operaram um filtro anaeróbio com TDH maiores para tratando de afluentes mais
concentrados e constantes (1500 ou 3000 mg/L) e logicamente obtiveram eficiência de remoções maiores que
o presente trabalho. Acredita-se que nesta pesquisa, a biomassa estava adaptada a tratar afluentes mais
concentrados em tempos mais longos, apresentando maior sensibilidade pela diminuição do tempo de
permanência do substrato no reator.
No caso dos FA com meio suporte de bambu, a biomassa, desde a partida, estava adaptada com valor de TDH
baixo, quando comparados com valores contidos na literatura, possibilitando que diminuições pequenas e
gradativas no TDH, não causariam quedas consideráveis no desempenho dos filtros. Nas Figuras 9 e 10 são
apresentadas curvas de tendência para a eficiência de remoção de DQOtotal e DBO em função do TDH, incluindo
o período destinado a partida do sistema. Por meio destes resultados, verifica-se que a biomassa sofreu maior
influência pela concentração de substrato presente no afluente, que de maneira geral apresentou grandes
variações de concentração de DQO ao longo da monitoração.
Pode-se verificar também pela Figura 6, aos 555 dias de operação do FA, a eficiência de remoção de DQOtotal
foi de 63 %, para TDH de 2 horas, tratando afluente com 991 mg/L. Por outro lado, aos 457 dias de operação,
o FA apresentou eficiência de remoção de 11% também para DQOtotal , com TDH de 5 horas, tratando afluente
com 214 mg/L de DQOtotal. Portanto o desempenho do reator está relacionado com a adaptação dos
microrganismos diante da situação que está exposto, e que variações nos parâmetros de operação se forem
necessárias, devem ser feitas de maneira gradativa, para proporcionar a adaptação da biomassa.
ABES – Trabalhos Técnicos
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21º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental
% remoção (antes do choque ácido)
% remoção (depois do choque ácido)
% remoção (antes do choque ácido)
% remoção (depois do choque ácido)
Remoção de DBO (%)
Remoção de DQO
total
(%)
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
0
TDH (horas)
1
2
3
4
5
6
TDH (horas)
7
8
9
10
Figura 9 Eficiência de remoção de DQO total em Figura 10 Eficiência de remoção de DBO em
diferentes TDH, antes e após o choque ácido.
diferentes TDH, antes e após o choque ácido.
O desempenho do filtro em relação a remoção de Sólidos Suspensos Totais (SST) apresentou pequena queda
durante todo o tempo de monitoração do período de diminuição gradativa do TDH, quando os valores se
encontravam na faixa 70 a 80%. Verificou-se queda de eficiência de remoção de SST no filtro após o choque
ácido, diminuindo para valores de 50 % a 60% (Figura 11 e 12). É importante verificar que o desempenho do
reator, se alterou muito pouco durante a diminuição gradativa do TDH, procedimento este que proporcionou
uma adaptação para a biomasssa diante de novas condições de operação. O choque ácido que ocorreu de forma
repentina, desestabilizou o sistema, resultando em maior queda no desempenho do FA com menor TDH. As
conseqüências não foram piores porque o reator apresentava um bom sistema de tamponamento, possibilitando
a recuperação da população microbiana. Possivelmente se o FA fosse monitorado por mais tempo, seria
possível observar uma melhor recuperação do sistema.
% remoção antes do choque ácido
% remoção depois do choque ácido
100
Remoção de SST (%)
90
Remoção de SST (%)
80
70
60
50
40
30
20
10
0
0
1
2
3
4
5
6
TDH (horas)
7
8
9
Figura 11 Eficiência de remoção de SST em
diferentes TDH, antes e após o choque
ácido
10
9 horas
7 horas
6 horas
5 horas
4 horas
3 horas
2 horas
5 horas
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Choque ácido
0
100
200
300
400
500
600
Tempo de operação (dias)
700
800
Figura 12 Eficiência de remoção de SST ao
longo do tempo de operação
CONCLUSÕES
Em função dos resultados, as segunintes conclusões foram obtidas:
O FA apresentou melhor desempenho de remoção de matéria orgânica quando a concentração de DQO e DBO
apresentava valores elevados no afluente.
O desempenho do FA foi mais fortemente influenciado pela variação da concentração de DQO e DBO afluente,
que pelas variações ocorridas nos valores de TDH.
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ABES – Trabalhos Técnicos
21º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental
O FA, antes do choque ácido, apresentou eficiência de remoção média de DQO total, DBO e SST de 74%, 71%
e 72%, respectivamente,.ou seja ou a diminuição gradativa do TDH não influenciou a estabilidade de
desempenho do reator.
A diminuição brusca no valor de pH provocou uma redução na remoção de DQO total e SST, devido
provavelmente a um decaimento na população de microrganismos responsáveis pela degradação anaeróbia do
efluente, sensíveis a mudanças de pH.
A utilização de anéis de bambu como meio suporte mostrou ser adequado e viável, apresentando eficiência
semelhante àqueles encontrados na literatura para os vários tipos de materiais comumente empregados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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DESEMPENHO DE UM FILTRO ANAERÓBIO COM