História e Desporto A família Herédia e o Olimpismo Francisco J. V. Fernandes Introdução Aquelle cantinho fresco e aprazível da Tapada, onde se realisam de costume os torneios de tiro aos pombos, animou-se na tarde com a ‘poule de epée’ á qual concorreram numerosos esgrimistas. As carruagens deixavam os convidados á entrada do recinto e na barraca do jury apareciam as senhoras da nossa primeira sociedade que iam assistir ao torneio. Dentro em pouco chegavam S. M. el-rei, S. M. a rainha senhora D. Maria Pia, S. M. a rainha D. Amélia e S. A. R. o senhor Infante D. Affonso. Começou então o torneio, no qual tomaram parte os senhores Sebastião Herédia 1 , Vieira da Silva, Pinto Bastos, Mário Duarte, Cândido Fernandes, César de Mello, Eduardo Romero, Solano e Leone. Ficaram vencedores os srs. Herédia, Candido Fernandes, Mário Duarte e Romero. N’um intervallo houve um desafio entre os srs. Furtado Coelho e barão do Lago. Dirigiram o torneio os srs. António Martins e visconde de Reguengos (filho)2. Figura 1 - O pavilhão do ‘jury’. Onde SS. MM. as rainhas senhoras D. Maria Pia e D. Amélia assistiram ao torneio. [Em primeiro plano el-rei D. Carlos] Fonte: Foto e Legenda da Illustração Portugueza, 2 de maio de 1904, p.412. 1 O torneio descrito pela Illustração Portugueza foi integrado no baile e kermesse de caridade realizado no Palácio Foz, residência do ‘ministro da América’, Mr. Page Bryan, e ocorreu no dia 25 de abril de 1904. A seleção deste extrato e foto da Illustração Portugueza para nota introdutória desta não exaustiva referência histórica ao percurso desportivo-olímpico da família Herédia é, quanto a nós, ilustrativo do desporto e dos protagonistas desportivos que, no início do século XX, pontuavam em Portugal: ambiente de elite, associação das práticas desportivas com as vivências sociais, envolvimento aristocrático, em particular marcado pela assídua presença de membros da família real, neste caso o próprio rei D. Carlos e a rainha D. Amélia. Não é de estranhar a presença de D. Carlos, ele próprio desportista e patrono desportivo, como bem ficou demonstrado no primeiro número da coleção Estudos Olímpicos, assinado por Gustavo Pires, na qual o presente título se insere3. (…) D. Carlos foi também um desportista de reconhecidos méritos. Ele foi justamente considerado o primeiro ‘sportsman’ português.4 O mesmo autor, na introdução à obra referida, ao abordar os primórdios do Desporto em Portugal, refere: O desporto em Portugal desenvolveu-se a partir das mais diversas atividades recreativas esporádicas, ligadas ao cultivo das terras, à faina do mar, às artes e aos ofícios, à instrução militar e aos trabalhos do circo, durante toda a segunda metade do século XIX, bem como a partir de atividades do ponto de vista desportivo mais consistentes, organizadas já entre o final do século XIX e o início do século XX, de acordo com o paradigma do industrialismo que determinava a organização do trabalho por toda a Europa. Esta dinâmica ficou, em grande medida, a dever-se à Família Real e, em especial, ao empenho de D. Carlos, que foi um entusiástico desportista, praticante de várias modalidades e, de uma maneira geral, um amante desinteressado das coisas da educação física e do desporto5. 2 Gustavo Pires estabelece uma primeira ponte entre o desporto português e o Movimento Olímpico em Portugal: Contudo, esta faceta do Monarca, nos estudos realizados acerca da sua vida, não tem sido verdadeiramente considerada, distração de lesa-majestade, tanto mais que, hoje, se sabe que o Monarca, para além de nos seus tempos de lazer se ter dedicado à ciência e à pintura com reconhecida competência, foi, também, um dedicado desportista e o grande responsável pela introdução do Movimento Olímpico em Portugal6. Não se estranha, por isso, a sua presença, e a da rainha, num evento desta natureza. Os prémios foram distribuídos por S. M. a rainha D. Amélia e constavam de uma bandeja de prata oferta de S. M. el-rei, que foi ganha pelo sr. Herédia, um par de floretes e um estojo com cigarreira, que foram ganhos pelos srs. Candido Fernandes e Romero7. O envolvimento real na esgrima8 data do primeiro torneio sénior realizado em 12 de maio de 1900 na sala Portugal da Sociedade de Geografia, assim relatado pelo jornal O Dia: (…) foi também disputada uma ‘poule’ de seniores, facto igualmente de salientar, pois terá sido a primeira vez em Portugal que esgrimistas conhecidos concordaram em submeter-se ao veredicto dos toques. A ‘poule’ foi ganha pelo ‘distinto amador’, senhor Sebastião Herédia que recebeu um estojo com cigarreira e fosforeira de prata lavrada e oxidada oferecida pela Rainha (…). Todavia, pese embora a inevitabilidade das referências históricas, desportivas e culturais que contextualizam no tempo o objetivo destas linhas, o seu fim último é o de dar à família Herédia o relevo que lhe cabe na história do desporto português da primeira metade do século XX e, em particular, à participação olímpica de alguns dos seus elementos. Mais do que isso, pretende-se desfazer um equívoco recorrente que a literatura atinente vem cometendo, em parte devido à parcial coincidência de nomes entre D. Sebastião Sancho Gil de Borja de Macedo e Meneses Correia Herédia e D. Sebastião de Freitas Branco Herédia, pai e filho (respetivamente filho e 3 neto de D. Francisco Correia Herédia, visconde da Ribeira Brava 9 ) ambos participantes em ‘Amsterdão-1928’, o primeiro em Esgrima/Florete, o segundo em Pentatlo Moderno, facto que cremos único na participação olímpica portuguesa - pai e filho na mesma edição dos Jogos Olímpicos – a que se acrescenta, ainda na mesma edição dos Jogos, a participação de outro membro da família Herédia – António Guedes de Herédia, que viria a participar também em Berlim–1936 e Londres–1948, na modalidade de Vela. E falamos de equívoco recorrente, pois a maioria das referências que a literatura contém, identifica os dois primeiros apenas como ‘Sebastião Herédia’, sendo que alguns autores assumem claramente que se trata de um único atleta, como é o caso, p.e., da edição de 2008 da Associação de Atletas Olímpicos de Portugal10 que, a p. 256, e sob uma foto de Sebastião Herédia (filho), considera-o como tendo participado em 1928 em Esgrima e Pentatlo Moderno (quando só participou na segunda destas modalidades), e como sendo uma das mais marcantes figuras dos primeiros anos do desporto em Portugal, um dos seus mais arrebatados pioneiros, referindo-o ainda como uma estrela do ciclismo em Paris, tendo o seu nome chegado a ser falado para representar a França em Atenas–1896. Ora, tais feitos, que aliás necessitam ser melhor investigados, o que procuraremos fazer, não são de Sebastião Herédia (filho), mas de seu pai, bastando para o concluir, se outras provas não sobrassem, que SH (filho) nasceu em 1903, não se lhe podendo atribuir factos ocorridos em 1896... A mesma publicação prossegue o equívoco da confusão entre os dois atletas ao afirmar, a p. 257, que Sebastião Herédia se tornou olímpico em Amesterdão–1928 em duas frentes, Esgrima e Pentatlo Moderno, o que é incorreto, como adiante deixaremos bem provado. No mesmo lapso incorre o artigo Do visconde de esgrima, as armas que mataram o rei…11, ao afirmar: (…) E Sebastião de Herédia, o filho [do visconde da Ribeira Brava], (…) tornou-se figura incontornável no desporto nacional: com o ciclismo a dar os primeiros passos ganhou várias corridas em Paris, os franceses chegaram a colocar hipótese de o levar em 1896 a Atenas à primeira edição dos Jogos Olímpicos, deixaram-na cair por ser português, (…) e já engenheiro químico pelo IS Técnico, representou Portugal no pentatlo moderno dos Jogos Olímpicos de 1928 e 1932. 4 em que a primeira referência deve ser creditada a Sebastião Herédia (18871958) e a segunda ao seu filho Sebastião de Freitas Branco Herédia (19031983), que efetivamente participou em Pentatlo Moderno em 1928 e em 1932. Não vai, porém, nestas linhas, cujo objetivo mais não é o de que repor a verdade histórica e dar relevo aos feitos desportivos e atléticos de membros da família Herédia, qualquer crítica menos construtiva aos que, em livros, artigos e preleções, se têm ocupado de trazer ao público, factos e episódios que contribuem para um mais completo conhecimento da história do desporto português e dos seus protagonistas. Por outro lado, há que reconhecer que os meios para registo e divulgação existentes no final do século XIX e primeira metade do século XX eram manifestamente insuficientes, e sabe-se da dificuldade de acesso que ainda existe quanto à consulta de arquivos institucionais que tardam em tornar-se públicos. O recurso aos jornais e aos relatos dos repórteres torna-se assim numa fonte histórica relevante. Tratando-se de uma matéria em que os estudos profundos rareiam, natural se torna que as primeiras investigações sejam marcantes para a toda a literatura que se seguiu, repetindo-se erros, omissões e incorreções, como se de verdades confirmadas se tratassem. Assim aconteceu efetivamente neste caso, tanto é que, por exemplo, o site www.sports-reference.com/olympics/athletes, usado como fonte em quase toda a literatura que se ocupa dos resultados olímpicos, incorre no mesmo erro ao considerar Sebastião Herédia (1903-1983) como tendo participado em Esgrima e Pentatlo Moderno 5 Figura 2 - Ficha de Sebastião Herédia do Sports Reference. Todos os dados são de Sebastião de Freitas Branco Herédia, mas a participação em Esgrima (Florete) foi de seu pai Sebastião de Sancho Herédia. Fonte: http://www.sports-reference.com/olympics/athletes/he/sebastiao-heredia-1.html, consultado em 30/08/2013. As fontes dos equívocos não se limitam às acima descritas. Por infeliz coincidência, uma das fotos mais divulgadas da representação portuguesa a Amsterdão-1928 e divulgada em várias publicações surge quase sempre cortada do lado esquerdo do observador, sendo perfeitamente visível esse corte, o qual exclui da foto, entre outros, Sebastião Herédia (pai), Sebastião Herédia (filho) e António Guedes de Herédia. Figura 3 - Representação Portuguesa a Amsterdão-1928. Nota: Foto cortada. São visíveis apenas 17 elementos. 6 Fonte: Portugal nos Jogos Olímpicos do Século XX, Pinto, R. A., p. 51. Numa outra foto, o grupo surge maior, mas é ainda mais evidente que há um corte do lado esquerdo. Figura 4 - Representação Portuguesa a Amsterdão-1928. Nota: Foto cortada. São visíveis apenas 20 elementos. Fonte: Jogos Olímpicos 1986 Atenas 2004, QuuidNovi, p. 64. E, finalmente, uma foto completa, com todos os Herédia presentes em Amsterdão-1928 (em 2.º lugar, de pé, da esquerda para a direita, Sebastião Herédia (pai) e, em 1.º e 2.º lugares, sentados, da esquerda para a direita, Sebastião Herédia (filho) e António Guedes de Herédia, surge em Os Jogos Olímpicos, de Carlos Paula Cardoso (CTT – Clube do Coleccionador, 1996). 7 Figura 5 - Representação Portuguesa a Amsterdão-1928. Nota: São visíveis os 23 elementos da comitiva. Fonte: Os Jogos Olímpicos (Cardoso, C. P.), p. 90. Diga-se, porém, em abono da verdade, que ao consultar os jornais da época esta confusão se desfaz facilmente, conforme adiante referiremos, estando expressamente referida a presença de pai e filho, sendo de relevar a este propósito a importante investigação de José Valarinho sobre a Esgrima Portuguesa 12 , que não deixa dúvidas quanto à participação de Sebastião Herédia (pai), e às circunstâncias em que este exímio esgrimista, então com 52 anos, integrou a representação portuguesa. De igual forma, ao consultar o Official Report de Amsterdão-1928, não restará qualquer dúvida quando à participação de ambos. Por seu lado, António Guedes de Herédia (sobrinho e primo dos antes referidos) surge na modalidade de Vela em Amsterdão-1928, Berlim-1936 e Londres-1948, feito que, não sendo único entre os olímpicos portugueses, não deixa de ser relevante, tanto mais por se tratar de um desportista emérito que se notabilizou em várias áreas desportivas, designadamente nos desportos náuticos e no automobilismo. Finalmente, não podemos deixar de dedicar espaço a Maria Luísa de Freitas Branco de Herédia (1905-1961), médica, irmã de Sebastião de Freitas Branco Herédia, que foi membro da Comissão Técnica do COP, em particular pela posição marcante e, para a época, destemida e progressista, na defesa do desporto feminino e da participação das mulheres nos Jogos Olímpicos. Se 8 hoje tal se nos afigura como perfeitamente normal, recordo aqui a opinião de Raul de Oliveira, um dos mais prestigiosos jornalistas desportivos portugueses, que foi diretor de Os Sports e do Mundo Desportivo, enviado especial a Amsterdão-1928 pel’ O Diário de Notícias, em comentário extremamente reprovativo relativamente à participação das mulheres nas provas de Atletismo, opinião que era, aliás, partilhada por diversos comentadores e parte da opinião pública portuguesa: Hoje também tivemos meninas no campo. Deitaram fora o último cigarro e envergaram pudicamente umas calças de homem para aparecerem no estádio. Saltitam aqui e além para aquecer os músculos. Algumas são magrinhas e confundem-se facilmente com o bicho macho. A luta entre as pequenas é uma coisa épica, absolutamente à maneira dos homens (…). (…) Mas protesto e protestarei sempre contra este espectáculo inestético e nada feminino das mulheres correrem e saltarem como os homens. Protesto e protestarei sempre contra esta nova espécie de macho-fêmea e contra quem as tolera, contra quem as aplaude, contra quem lhes deu acesso ao terreno, onde apenas deve imperar a virilidade dos homens. E àqueles que não concordarem comigo direi apenas que se lembrem do respeito que devem às suas mães. Esta posição, porém, contrasta com a que, já na época, era defendida quanto à participação feminina na prática desportiva, entre as quais a protagonizada por Luísa Herédia, como adiante veremos. Pinheiro e Coelho (2012)13, citam a revista Sporting de 10/10/1923: Além das tradicionais temáticas doutrinais sobre a importância do desporto e da educação física na sociedade portuguesa, a linha editorial da revista Sporting, foi igualmente incisiva na defesa do desporto feminino e de um novo papel social para a mulher portuguesa. A redactora Maria Faria Moura era a principal responsável por este linha editorial, conseguindo mesmo levar para a primeira página do jornal, por diversas vezes o desporto feminino, sobretudo por ocasião da visita a Portugal de clubes estrangeiros de futebol feminino. Isto numa altura em que a prática desportiva feminina era uma raridade entre nós. Mas convém relembrar que esta preocupação editorial tinha já bastante tradição em Portugal, designadamente da acção de periódicos como Os Sports (Lisboa, 1905-1909), Sport Nacional (Lisboa, 1910) ou Os Sports Illustrados (Lisboa, 1910- 9 1913), que apresentaram secções de desporto feminino, insistindo na importância do seu desenvolvimento no território nacional14. Os Herédia da Madeira Em jeito de dedicatória, endereçámos este trabalho aos descendentes daqueles que a História e a Literatura vêm chamando os Herédia da Madeira, família de origem espanhola que arriba à Ilha da Madeira em 1602, em pleno domínio Filipino, sendo o primeiro a ali chegar António de Herédia que entra em Portugal com as tropas do Duque de Alba, sendo depois encarregue de dirigir, como capitão de companhia, o presídio castelhano existente na Madeira, na Fortaleza de São Lourenço. Por essa razão fazemos uma pequena viagem pela genealogia da família, como forma de referir todos os descendentes do primeiro dos Herédia, fazendo desde já uma ressalva para eventuais erros, omissões ou desatualização de que a mesma possa enfermar. A linha genealógica dos Herédia radica, conforme Sousa Lara et al (1999)15, em: 1. D. Juan de Herédia, em 1550 alcaide de Touxirola (Espanha), Mestre de Campo em Flandres e Itália, governador de Verxa e Anduxar, falecido em 1560, sendo seu filho, com idêntico nome: 2. D. Juan de Herédia, Alcaide de Tourixola, Mestre de Campo e Governador de Verxa, que casou com D. Isabel de Aroca, e tiveram: 3. D. Cristobal de Herédia que, por sua vez casou com D. Francisca de Morales, e tiveram: 4. D. António de Herédia. 10 António de Herédia (c.1560-1624), o primeiro Herédia que veio para a Madeira Na sua notável obra, Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal, dedicada a Sua Magestade Fidelíssima El-Rei o Senhor D. Luiz I, Albano da Silveira Pinto (visconde de Sanches Brena)16, aponta D. António Herédia, como o primeiro deste apelido que se estabeleceu na Ilha na Madeira. Era natural de Ávila, em Castela, onde nasceu cerca de 1560, tendo falecido em Oleiros (Madeirã) em 16 de março de 1624. Casou nas Ilhas Canárias com D. Anna de Cubas, e com esta sua mulher se passou para a Madeira com o posto de Governador da gente de guerra paga, que nesta ilha tinham os castelhanos nos últimos anos da nossa sugeição. M. em 12 de Março de 1624 com larga sucessão, e d’elle são hoje seus legítimos representantes os Viscondes da Ribeira Brava17. De acordo com Sousa Lara et al (1999)18, António de Herédia (§4) entrou em Portugal em 1580 com o exército do Duque de Alba, passando à Madeira em 1602 como capitão da Companhia do Presídio Castelhano do Funchal de que, posteriormente, foi Comandante. Exerceu interinamente as funções de Governador da Madeira. Tiveram: 5. D. Sancho Herédia, que segue. 5. D. Francisca de Herédia. D. Sancho de Herédia, nascido em setembro de 1613 e casou com Ana Velosa. Tiveram: 6. D. João de Herédia, nascido em janeiro de 1637, faleceu em 16 de janeiro de 1711, casou com D. Maria de Brito de Bettencourt. Tiveram: 7. D. Sancho Bernardo de Brito de Herédia, nascido c. 1690, casou a 8 de maio de 1713 com D. Maria Francisca de Menezes. Tiveram: 11 8. D. Sancho Gaspar de Brito Leal de Herédia, que segue. 8. D. Catarina Isabel de Brito Leal de Herédia, nascida a 22 de abril de 1714, casou c.1731 com Manuel Correia de Aragão e Melo. Tiveram: 9. Francisco Moniz de Herédia de Aragão e Melo, que casou com sua prima direita D. Francisca de Brito Leal de Herédia, adiante neste §, n.º 9. 8. D. Sancho Gaspar de Brito Leal de Herédia, capitão-mor da Ribeira Brava, casou com D. Ana Margarida de Bettencourt de Sá Vilela Acciaiuoli. Tiveram: 9. D. Francisca de Brito Leal de Herédia, que segue. 9. D. Ana Margarida de Bettencourt e Sá Acciaiuoli, casou com Francisco João Escórcio Drumond Moniz de Menezes da Câmara. Tiveram: 10. D. Ana Margarida de Bettencourt Acciaiuoli e Sá Escórcio Drumond, que casou com seu primo co-irmão Francisco Corrêa de Herédia, adiante neste §, n.º 10. 9. D. Francisca de Brito Leal de Herédia casou com seu primo Francisco Moniz de Herédia de Aragão e Melo, atrás neste §, nº 9. Teve, primogénito: 10. Francisco Corrêa de Herédia, nascido na Madeira a 4 de julho de 1793 e falecido em Lisboa a 27 de julho 1880. Pertenceu ao Conselho de Sua Majestade Foi deputado da Madeira na Sessão Legislativa de 1842 e 1845, Presidente da Junta Governativa que se organizou na Ilha da Madeira quando do movimento da Maria da Fonte, Presidente da Câmara do Funchal, Governador Civil interino deste distrito. Casou com a sua prima co-irmã, D. Ana Margarida de Bettencourt Acciaiuoli e Sá Escórcio Drumond, acima, neste §, n.º 10. Tiveram, entre outros: 11. António Correia de Herédia, nascido na Madeira em 2 de março de 1822, faleceu em Lisboa em 23 de junho de 1899. Foi Presidente da Câmara do Funchal, Secretário-geral do Distrito e Governador Civil do Funchal; Diretor das Alfândegas do Funchal, Porto e Lisboa; Diretor-Geral das Alfândegas; Par do 12 Reino; Deputado pela Madeira nas Sessões Legislativas de 1857-58, 1858-59, 1865-1868. Casou com D. Ana de Bettencourt. Em 1871, El-Rei D. Luís I decide por respeito ao notável trabalho humanitário desenvolvido na Madeira por António Correia de Herédia, hexaneto do acima referido António Herédia, primeiro Herédia que passou à Madeira, atribuir-lhe o título de Visconde. Porém, António Correia Herédia recusa o título nobiliárquico em favor de seu filho, Francisco Correia Herédia (1852-1918), que assim assume o título de Visconde da Ribeira Brava. Figura 6 - Brasão de Armas dos Herédia Fonte: A.S. Pinto (1890), Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal, p: 408 (Escudo partido em pala; na primeira as armas dos Corrêas de Paio Ramires, e na segunda as dos Heredias.— Timbre o dos Corrêas). Segundo a fonte mencionada, o brasão de armas dos Herédia, surgir com coroa de conde. Porém, refere que, segundo outras fontes, como Nobreza de Portugal e do Brasil - Armorial Lusitano,19 é aceite como dado adquirido que a família Herédia em Espanha e em Portugal usou como brasão de armas o escudo pleno em campo vermelho com cinco castelos de prata, postos em sautor e timbre com castelo das armas. 13 Figura 7- Brasão de Armas dos Herédia Fonte: Zuquete, A.M. (2000), Armorial Lusitano, pag, 274. (De vermelho, com cinco castelos de prata, postos em sautor. Timbre: um castelo do escudo) Para o título de visconde da Ribeira Brava foram concedidas novas armas para diferenciação com escudo partido de Correias e Herédias com coroa de visconde e timbre dos Correia. A representação proposta por A.S. Pinto (1890), apresenta uma composição de armas espanholas antigas com uma única torre ladeada por dois lobos rompentes e coroa de conde. No solar dos Herédia, hoje Câmara Municipal da Ribeira Brava, está exposto num painel de azulejos as armas dos Herédia com o desenho da base duma coroa encimada por uma “barreta” de fantasia que pode ser o que restou de cordão de tecido que fica normalmente assente sobre o elmo e de onde parte o paquife ou panejamento decorativo que evoca o lenço de proteção do pescoço dos cavaleiros20. 14 Figura 8 - Brasão dos Herédia da Madeira Fonte: Foto obtida no Solar dos Herédia, Ribeira Brava Efetivamente, os cinco castelos em sautor voltam a surgir no atual Salão Nobre da Câmara Municipal da Ribeira Brava, no brasão esquartelado Correia, Herédia, Brito e Bettencourt, bem como na representação em pedra de cantaria existente no já mencionado Solar dos Herédia, igualmente encimado pela já mencionada ‘barreta’ de fantasia. Figura 9 - Brasão esquartelado Correia, Herédia, Brito e Bettencourt. (Salão Nobre da C. M. da Ribeira Brava) 15 Figura 10 - Brasão da fachada do Solar dos Herédia. (Salão Nobre da C. M. da Ribeira Brava) Genealogia dos Herédia (a partir de Francisco Correia de Herédia) § 1.º Francisco Correia de Herédia, natural da Ribeira Brava (Madeira), nascido a 2 de abril de 1852, falecido em Lisboa, assassinado durante a leva da morte, aquando de uma transferência de presídio, ocorrida a 16 de outubro de 1918 durante o consulado de Sidónio Pais, Visconde da Ribeira Brava, filho de António Correia Herédia e de Ana de Bettencourt de Sá Esmeraldo Herédia, casou em Lisboa em 1867 com Joana Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia Herédia, natural de Lisboa (?), nascida em 8 de abril de 1851, falecida na Madeira em 4 de setembro de 1925, filha de D. Sebastião de Gil Tojo de Borja de Macedo e Menezes, e de D. Mariana de Assunção da Gama Lobo Pimentel Guião. 16 Figura 11 - Francisco Correia de Herédia, visconde da Ribeira Brava (à data da foto já tinham sido extintos os títulos nobiliárquicos em Portugal, pelo que adotou, a partir de 1910, o nome de Francisco Correia de Herédia Ribeira Brava) Fonte: Museu Photographia Vicentes, Madeira Figura 12 - Dona Joana Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia Herédia Fonte: Museu Photographia Vicentes, Madeira 17 Tiveram: 2. António Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia de Herédia (1872-1966), que segue. 2. Francisco Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia de Herédia (1873-?), s.g. 2. Sebastião Sancho Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia Herédia (1876-1958), § 2.º. António Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia de Herédia, natural de Miragaia, Porto, nascido em 15 de janeiro de 1872, falecido em Lisboa (N. S. Fátima) em 13 de agosto de 1966, casou em Lisboa em 19 de maio de 1899 com Alice de Oliveira Guedes, nascida em 18 de julho de 1876, falecida em 24 de junho de 1943. Tiveram: 3. Josefina Guedes de Herédia (1900-1987), que segue. 3. António Guedes de Herédia (1901-1997), § 3.º. Josefina Guedes de Herédia, nascida a 31 de março de 1900, falecida a 2 de outubro de 1987, casou com António da Costa Lobo da Bandeira, nascido a 25 de agosto de 1895. Tiveram: 4. António Alberto Herédia da Bandeira21 (1934). § 2.º Sebastião Sancho Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia Herédia22 (1876-1958), nascido no Porto em 7 de setembro de 1876, faleceu em lisboa em 1958, casou em 5 de fevereiro de 1902 com Maria d’Assumpção Garcia de Freitas Branco Herédia, nascida em Lisboa em 6 de janeiro de 1875, falecida em Lisboa em 17 de março 1953. 18 Figura 13 - Sebastião Sancho Gil de Borja de M. e M. Correia Herédia. Fonte: Almanaque de A Lucta, 1910. Tiveram: 3. Sebastião de Freitas Branco Herédia (1903-1983), que segue. 3. Maria Luisa de Freitas Branco de Herédia23, s.g. 3. Joana de Freitas Branco de Herédia, s.g. 3. Ana de Freitas Branco de Herédia, s.g. 3. José de Freitas Branco de Herédia, § 4.º Sebastião de Freitas Branco Herédia24 nasceu nas Mercês, Lisboa, a 20 de março de 1903, faleceu em Carcavelos a 2 de fevereiro de 1983, casou em Carcavelos, a 20 de novembro de 1931, com Isabel da Glória Santiago de Sousa Botelho Brotas Cardoso, nascida em Vigo, Galiza, em 21 de agosto de 1909 e falecida em Carcavelos a 17 de março de 1997. 19 Figura 14 - Sebastião de Freitas Branco Herédia (1932) Fonte: Recortada de foto em Portugal nos Jogos Olímpicos do Século XX, Pinto, R. A., p. 54. Tiveram: 4. Luis Herédia25 (1932). 4. Jorge Herédia26 (1934). 4. Pedro António Herédia27 (1935) 4. Maria Isabel Herédia28 (1937) 4. Maria Teresa Herédia29 (1939) 4. Afonso José de Herédia, s.g. (1943) 4. Ana Maria Herédia30 (1946) 4. Maria Helena Herédia31 (1950) O Arquiteto Jorge Herédia é pai de S.A.R. a Duquesa de Bragança, Senhora Dona Isabel, sendo seus netos S.A.R. o Príncipe da Beira, Dom Afonso Santa Maria de Bragança, S.A. a Infanta Dona Maria Francisca de Bragança, S.A. o Infante Dom Dinis Santa Maria de Bragança. § 3.º António Guedes de Herédia 32 nasceu em Sacramento, Lisboa, em 10 de março de 1901, faleceu em Lisboa a 13 de agosto de 1997, casou em Lisboa a 31 de março de 1937, com Maria Antónia Cabral Gentil. 20 Figura 15 - António Guedes de Herédia Fonte: Vela Olímpica Portuguesa – 75 anos, F. P. Vela. Tiveram: 4. António Gentil de Herédia33 (1938). 4. Francisco José Gentil de Herédia34 (1940) § 4.º. José de Freitas Branco de Herédia nasceu 12 de junho de 1916, faleceu em 16 de março de 1993, casou em 18 de julho de 1942 com Maria do Carmo Gouveia Portela, nascida em 16 fevereiro de 1920. Teve: 4. Maria do Carmo Portela de Herédia35 (1943). 4. Maria José Gouveia Portela de Herédia36 (1945). 4. José António Gouveia Portela de Herédia (?) 4. Manuel José Gouveia Portela de Herédia (?) Participação Olímpica dos Herédia Julgamos que a prestação desportiva e olímpica dos quatro membros da família Herédia de que nos propomos ocupar não pode ser alheia a todo o 21 referencial familiar que radica na prestação cívica e governativa de Francisco Correia Herédia, quer na Madeira, quer noutros locais do país onde a exerceu. Diversa literatura da época dá conta do seu empreendedorismo em matéria de prática e de construção de infraestruturas desportivas, a ele se devendo muito do que, na fase nascimento do Desporto, aconteceu na Ilha da Madeira em geral, e na vila da Ribeira Brava, em particular. Desde o início da Fundação do Concelho da Ribeira Brava, em 1914, o visconde Francisco Correia Herédia [principal impulsionador da fundação do concelho] promoveu diversas atividades desportivas, tais como os torneios de espada, tiro ao alvo, jogos de futebol e diversas outras atividades desportivas no concelho37. A Ribeira Brava é uma freguesia com grandes tradições desportivas. O seu maior impulsionador foi o próprio visconde da Ribeira Brava. Estávamos em 1916 e a Alemanha já havia declarado guerra a Portugal. Era tempo de reunir armas e estar atalaia. Esta Guerra foi marcante pelas inovações do armamento, mesmo assim, algumas das principais personagens da Ilha ainda se mantinham fieis às antigas tradições. Desta forma, realizou-se, no mês de Julho, um torneio de espada na Ribeira Brava. (…) No mês de julho de 1917, foi organizada uma semana desportiva. As modalidades eram as seguintes: ténis, jogos de futebol, esgrima e ainda um torneio de tiro (…) Estava-se em plena Grande Guerra e o Funchal sentia o arrepio dos bombardeamentos dos submarinos alemães. Alguns homens contados entre aqueles que não tinham sido recrutados procuravam exercitar-se para o pior38. Sobre o nascimento do Clube Desportivo da Ribeira Brava, refere Ribeiro (1998)39: Caberá aqui salientar que o Club Desportivo da Ribeira Brava nasceu praticamente com o concelho e por iniciativa do visconde da Ribeira Brava, em 18 de Outubro de 1914. De forma especial, diversas modalidades desportivas sofreram a influência da atenção que Francisco Correia Herédia dedicava às práticas desportivas de que era, aliás, exímio praticante em algumas delas. No Ténis: O falecido Visconde da Ribeira Brava está na galeria dos bons impulsionadores do Ténis. A ele se deve a construção do court, junto á igreja da vila que ele tanto amou e engrandeceu, no qual se 22 realizaram antigamente animados torneios com os tenistas do Funchal que a gentileza e hospitalidade daquele grande e saudoso Desportista hospedava durante dias no seu aprazivel solar40. O adro da Igreja paroquial da Ribeira Brava é, ainda hoje, chamado de ‘o ténis’, facto que é alheio ao conhecimento das gerações mais novas, mas cuja origem os mais velhos bem identificam. Figura 16 - Court de Ténis no adro da Igreja Paroquial da Ribeira Brava (Madeira). Nota: Mandado construir por Francisco Correia Herédia. Fonte: www.cm-ribeirabrava.pt, consultado em 08/09/2013, foto sem data. No Hipismo: Em 1913 e 1914 realizaram-se interessantes Cavalhadas de Carnaval, com batalha de flores, da iniciativa de Travassos Lopes. No numero dos entusiastas de rédea segura, com escola e picadeiro, é justo citarmos os seguinte nomes: Carlos Frederico de Bianchi, Frederico CarIos de Bianchi, Visconde Val Paraizo, Carlos Ernesto Rodrigues Leitão, actual Visconde de Cacongo, Humberto dos Passos Freitas, António da Costa, Henrique Borges, Julio César de Freitas, Manuel de Freitas, Leopoldo Cabral, César Filipe Gomes, Manuel de Freitas Junior, Capitão Cândido Gomes, David Adida, Tito de Bianchi, Joaquim Menezes Alves, Visconde da Ribeira Brava, Agostinho Pereira de Gouveia, Carlos Martins, Jorge Rodrigues, irmãos Araujos e Travasses Lopes (excelente amador com conhecimentos seguros de cavalaria tauromáquica)41. No tiro ao alvo: Temos várias memórias de Torneios de tiro ao alvo, organizados pelo grande e saudoso Desportista Visconde da Ribeira Brava, no 23 court de Tennis, em frente da igreja paroquial da vila que tem o nome daquêle titular. Entre as figuras que mais se destacaram naquêles Torneios, contam-se o Dr. Brandão de Melo, Delegado do Procurador da República na antiga Comarca de S. Vicente; o chefe de Policia Francisco Macêdo de Faria, Travassos Lopes, Carlos Nellis, Fernando de Figueiredo, Henrique Augusto. Vieira de Castro, Antônio Vieira de Castro, João de Oliveira Faria, Humberto dos Passos Freitas, Visconde da Ribeira Brava, Dr. Elmano Vieira, Manuel Bianchi e outros.42. (…) vencedor do Torneio de tiro à pistola de combate, organizado pelo Visconde da Ribeira Brava, na vila do mesmo nome43. O Dr. Elmano Vieira praticou equitação, natação, remo, tiro. Num torneio desta modalidade, realizado em 1917, na vila da Ribeira Brava, bafejado pela ‘bonne chance’ bateu o afamado Visconde da Ribeira Brava44. No Golf: Em Outubro de 1914 a êxtinta Junta Agricola da Madeira, por iniciativa do seu Presidente, o grande desportista Visconde da Ribeira Brava, deliberou comprar os antigos terrenos do Campo do “Braz”, em S. Martinho, para ali construir um campo de “Golf”45. Nos Desportos Náuticos: Uma das figuras centrais dêste capítulo é, sem dúvida o falecido Visconde da Ribeira Brava, admiravel entusiasta e impulsionador dos desportos nauticos em quasi todos os ramos. A êle se deve, com a fundação do “Club Naval Madeirense”, um periodo de grande animação – 1917-18: regatas, com magnificas ‘guigas’; provas de vela em graciosas ‘monotypes’; grandiosos festivais nauticos, que foram a génese criadora do que se fêz depois46 Foi grande no desporto “Véla”, no tempo do “Club Naval Madeirense” fundado pelo Visconde da Ribeira Brava47. Foi fundador, com o falecido Visconde da Ribeira Brava, do “Club Naval Madeirense”48. Neste mesmo ano, [1917] em festival organisado pelo Visconde da Ribeira Brava, Travassos Lopes, timonando a ‘guiga’ representativa da vila do nome daquêle titular, tripulada por J. Estevam Pinto. Luís de Sousa Pereira, Dr. José Alves dos Santos e Manuel Olimpio da Silva, ganhou a ‘Taça Madeira’, outro rico trofeu que emparelha, com ufania, ao lado da ‘Taça da América’49. 24 No Futebol: Aos bons oficios de Carlos Kessler, conjuntamente com o outro seu colega - Fernando Câmara - ficou devendo o futebol madeirense, da Junta Agricola, um valioso subsidio para as imprescindiveis despezas de organização nos titubiantes passos que o primeiro organismo futebolístico da Madeira começou a experimentar. Tambem não se podem esquecer as facilidades e a boa vontade do então presidente da Junta Agricola, o grande ‘Spor-man’ que foi o Visconde da Ribeira Brava, que concedeu, gostosamente, o referido subsidio50. Na Esgrima Deve-se o seu animado préludio ao Visconde da Ribeira Brava, que jogava todas as armas com reconhecida dextreza, gôsto e vocação, predicados êstes transmitidos a seu filho D. Sebastião de Herédia, antigo Governador Civil do Funchal e exímio esgrimista português, que saiu vencedor num grande concurso internacional de Esgrima realizado ha anos na Bélgica. Para que o impulso dado a êste desporto marcasse uma realidade, o Visconde interessou neste movimento o continental Carlos Nellis, que veio para a Madeira, em 1915, como funcionário da extinta Junta Agricola51. Figura 17- Grupo de Esgrimistas Local: Ribeira Brava, Madeira, o visconde da Ribeira Brava, 1.ª fila, 4.º a contar da esq. Fonte: Illustração Portugueza, n.º 546, II série, de 7 de agosto de 1916. 25 Figura 18 - Participantes em Torneio de Esgrima (Ribeira Brava, Madeira) s/data. Fonte: Museu Photographia Vicentes, coleção Perestrellos. Figura 19 - Grupo de Esgrima, Madeira, s/data Fonte: Museu Photographia Vicentes, coleção Perestrellos 26 Figura 20 - Torneio Esgrima, Madeira. Nota: Realizado no ‘parque’ da Igreja paroquial da Ribeira Brava, s/ data. Fonte: Museu Photographia Vicentes, coleção Perestrellos Importa revelar alguns pormenores relativos ao nascimento da esgrima na Madeira, não só pelo envolvimento do Visconde da Ribeira Brava que vimos relatando, mas por envolver referências da transmissão a seu filho, Sebastião Herédia, da sua apetência e particular competência desportiva por esta modalidade52. Esta sugestiva modalidade desportiva teve entre nós um bom punhado de entusiastas, adeptos e praticantes. Deve-se o seu animado prelúdio ao Visconde da Ribeira Brava, que jogava todas as armas com reconhecida destreza, gôsto e vocação, predicados estes transmitidos a seu filho D. Sebastião de Herédia, antigo governador civil do Funchal e exímio esgrimista português, que saiu vencedor num grande concurso internacional de Esgrima realizado há anos na Bélgica. Para que o impulso dado a êste desporto marcasse uma realidade, o Visconde interessou neste movimento o continental Carlos Nellis, que veio para a Madeira, em 1915, como funcionário da extinta Junta Agricola. Carlos Nellis, conhecedor abalisado no manejo de várias armas (pistola, espada, carabina e florete), anunciou-se como professor da especialidade desportiva, dando as primeiras classes numa dependência do “Club Sports da Madeira”. De cerca de 20 alunos inscritos no seu primeiro curso, um mês depois êsse número estava reduzido a uma escassa meia dúzia, 27 entre os quais se contava George Gordon, o seu melhor aluno classificado várias vezes em torneios de importância; Sotto Maior, filho de um antigo juiz da Comarca do Funchal, Humberto Passos Freitas, João de Oliveira Faria, António Vieira de Castro e Fernando Figueiredo. Antes, porém, de Carlos Nellis, deu lições de esgrima, nos Bombeiros Municipais, o antigo Tenente Jaime Campo Ramalho, que faleceu no posto de coronel. Foram vários os torneios organizados por Carlos Nellis, destacandose os da disputa faz taças “Sebastião de Herédia”, e “Conde de Bousis” (1920 a 1926) e mais tarde, em 1929, a Taça “Fernando Figueiredo”. Os lugares preferidos para a realização dos torneios eram p Parque do “Reid’s Hotel”, Quinta “Pavão” e antigo “Casino Vitória”. O Conde Bousis (Jean de Bousis), era um fidalgo francês muito amante do jôgo das armas, que acidentalmente visitou a Madeira em 1922. A Taça “Herédia” foi ganha dois anos seguidos pelo Capitão Raul Cohen, classificando-se em 2.º lugar o Conde de Bousis e em 3.º o sr. Hermos. Também a Taça “Conde de Bousis” foi ganha no primeiro ano, pelo Capitão Raul Cohen, ficando em segundos lugares António Vieira de Castro e Sr. Hermos. Fernando de Figueiredo, que atingiu a categoria de um belo esgrimista, ficou de posse da Taça “Herédia” por a ter ganho 3 anos seguidos. Outro valor madeirense que muito brilhou nos torneios de Espada, é o Dr. Alberto Jardim, detentor da Taça “Conde de Bousis”, conquistada após renhido assalto com Fernando Figueiredo, em que os golpes foram disputados com mestria, de ambos os lados. Os primeiros classificados da Taça “Fernando Figueiredo”, foram: Fernando Fugueiredo, possuidor da Taça, Ruy Faria (medalha de prata) e Eduardo Ascenção Velosa (medalha de bronze). A 30 de Março de 1926, realizou-se no Casino “Pavão”, um dos muitos torneios dirigidos pelo mestre de armas Carlos Nellis, o qual, depois de vários assaltos interessantes, terminou com a seguinte classificação: Dr. Alberto Jardim, 4V 1D; José Ferreira Duarte Soares 2V 3D; Manuela Bianchi, 1V 4D e Jorge Caldeira, 5D. Serviram de Jury: Capitão José Bettencourt da Câmara, António Ferreira de Castro, F.H. Cunha e G. Farra. Ao Dr. Alberto Jardim foi entregue uma artística Taça de Prata. Em Setembro de 1937, quando “Sporting Club da Madeira” se deslocou aos Açores pela 2.ª vez, Ruy Faria venceu um assalto ali realizado, sendo muito apreciado no seu estilo e limpeza de toques. Deram alento e presença ao jôgo de Esgrima, no período anterior á actual decadência, mais os seguintes nomes que merecem ser justamente citados: F. Freiria, Luigi Gandolfo, Capitães João Carlos de Vasconcelos e Candido Gomes, Eng.º Melo Borges, Gastão Bianchi, Antonio Coutinho, Manuel G. Jardim Amaro e muito particularmente o afamado mestre de cirurgia Dr. Américo Durão, que foi um grande animador do elegante e atraente desporto, digno 28 de quem o faça reviver dando-lhe o lugar que merece entre as outras modalidades desportivas. As ultimas e mais recentes manifestações de Esgrima foram torneios inter-componentes de “Mocidade Portuguesa” e alunos da Escola Industrial, realizados neste estabelecimento de ensino e no Liceu “Jaime Moniz”, no “Dia de Camões”, do ano em curso. Perante este historial, não podemos estranhar que o gene de desportista de Francisco Correia Herédia se tenha transmitido aos seus descendentes, justificando, em parte, as seis presenças olímpicas que seu filho e netos conquistaram. Sebastião Sancho Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia Herédia Figura 21 - Sebastião Herédia (pai), foto de 1909. Fonte: recortada de foto inserta no livro Espadas e Floretes, Valarinho, J. (1993), propriedade desconhecida. Notável desportista, distinguiu-se em diversas modalidades, e o seu nome fica ligado ao nascimento do desporto Português. Representou o Sporting Clube de Portugal (Atletismo, Natação e Râguebi) e o Clube Internacional de Football (Esgrima). 29 O ciclismo foi uma das modalidades que praticou com maior projeção. Contrariamente ao futebol, que não exigia grandes investimentos no equipamento, a bicicleta … (…) nasceu aristocrata, foi brinquedo dos endinheirados, suscitou o alvoroçado interesse de reis e áulicos, passeou a realeza pelos parques e jardins dos palácios, até que um dia o povo adoptou-a, passando de objecto de luxuoso culto a transporte dos trabalhadores53. Num percurso histórico cheio de vicissitudes e incompreensões, o ciclismo como desporto começa a ser regulamentado com a criação da Bycicle Union, em 1880, e da International Cyclist Association, em 1892, sendo que há registo de que a primeira prova de veículos de duas rodas se terá realizado em Saint Cloud, França, em 186854. Em Portugal a responsabilidade pela introdução do ciclismo é atribuída a Artur Seara e Herbert Dagge55. Sebastião Herédia tem o seu nome ligado aos primórdios do ciclismo em Portugal. Inicialmente as competições eram em estrada, mas não tardou que a evolução apontasse para a construção de velódromos, como foi o caso do de Algés, em 1888, depois Carrancas, em cuja inauguração (Novembro de 1889) Sebastião Herédia ganha o Grande Prémio de Pista. 30 Atenas-1896 Figura 22 - Cartaz oficial de Atenas 1896. A literatura disponível permitiu localizar diversos registos quanto a uma eventual tentativa de participação de Sebastião Herédia, na modalidade de Ciclismo, na 1.ª edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, como algo que foi falado, mas não concretizado. As referências feitas a essa possibilidade apresentam-se vagas e insuficientemente comprovadas, de modo que estamos num campo de alguma especulação com a inerente falta de rigor que não se pretende seguir, sem deixar de reconhecer, no entanto, de que se trata de algo plausível. A Associação de Atletas Olímpicos de Portugal, na sua publicação Olímpicos de Portugal (1912-2008), no espaço dedicado a Sebastião de Freitas Branco Herédia (p. 256), embora incorrendo na confusão dos perfis desportivos de Sebastião Herédia (pai) e Sebastião Herédia (filho), designadamente em relação a factos ocorridos quando este último ainda não era nascido, aponta: Com o ciclismo dando os primeiros passos, tornou-se [Sebastião Herédia] uma das suas principais estrelas nas corridas de Paris. Venceu algumas delas e o seu nome chegou a ser dado para representar a França na primeira edição dos Jogos Olímpicos, em Atenas-1986, mas ele era… português No mesmo sentido, e quase ipsis verbis, surge uma referência num artigo de António Simões, publicado no jornal A Bola em 11/02/2010, Do Visconde de Esgrima, às armas que mataram o rei…: 31 (…) E Sebastião de Herédia, o filho [refere-se o autor ao filho do visconde da Ribeira Brava], que recebera o seu primeiro grande prémio das mãos da rainha D. Amélia, tornou-se figura incontornável no desporto nacional: com o ciclismo a dar os primeiros passos ganhou várias corridas em Paris, os franceses chegaram a colocar hipótese de o levar em 1896 a Atenas à primeira edição dos Jogos Olímpicos, deixaram-na cair por ser português. Já Serpa, H. (2007)56ao descrever a impossibilidade (por ser profissional) de participação olímpica de Bento Pessoa, em 1896, recorda: Quem chegou a ser falado como candidato aos Jogos foi Sebastião Herédia, adversário de Bento Pessoa nas provas caseiras. Mas esta candidatura não terá passado de uma ideia sem praticabilidade. Tudo isto dá relevância a alguns factos que se ligam à história do Ciclismo em Portugal, de que Sebastião Herédia foi, de facto, um dos primeiros valores, e que, por isso, devem aqui ser relatados. É necessário recuar ao final do século XIX a um momento em que ainda não havia sido criada a União Velocipédica Portuguesa57. Por esse facto os ciclistas portugueses que pretendiam praticar a modalidade a nível internacional tiveram que se inscrever, com a anuência ou imposição da União Velocipédica Internacional (UVI), na União Velocipédica Espanhola (UVE), sob cuja égide o ciclismo português deu as primeiras pedaladas internacionais. É assim que José Bento Pessoa (considerado o primeiro herói do ciclismo português), natural da Figueira da Foz, se sagra, em 12 de abril de 1897, Campeão de Espanha, na primeira edição do Grande Prémio da União Velocipédica Espanhola58. É também o caso de Sebastião Herédia e outros, como refere Barroso (2001): A supervisão das provas, porém, estará a cargo da União Velocipédica Espanhola, até final do século, devido à inexistência de uma estrutura semelhante em Portugal. Os contactos do ciclismo português, com os melhores praticantes espanhóis, tornam-se frequentes. E é neste período que se destacam praticantes como (…) Eduardo Miching e José Diogo de Orey, além de Sebastião Herédia, Mário Duarte, Manuel Ferreira, Benedito Ferreirinha e, sobretudo, José Bento Pessoa59. 32 Moreira (1980)60 recorda: (…) gente de elevada condição social, como o bacharel Sousa Júnior, o poeta Carlos Malheiros, o diplomata Cardos Duarte, além de homens das mais variadas profissões, como Emílio Segurado, Sebastião Herédia, José Mário Dionísio, António Lopes e Eduardo Pereira (…) (…) davam prova de que… (…) a velocipedia se desenvolvia em todas as suas facetas: recreio, turismo, transporte e competição. Os velódromos começaram a surgir um pouco por todo lado. Rodrigo Pinto & Mário Lino (1999) 61 fazem notar a presença de Sebastião Herédia no velódromo da Palhavã, em 1907: Mais tarde, em 1907, Soares Júnior e Conelli tiveram um interessante despique, mas pelo Velódromo da Palhavã passaram outros ciclistas estrangeiros de nomeada, como Carapezzi, Jacquelin, Miguel Ellegard, Vielada, Danton, enquanto a nível nacional, além dos já citados, estiveram presentes José Maria Dionísio, Rui da Cunha, Manuel Ferreira, Couto Júnior, António Lopes, Luciano Pinto, D. Sebastião Herédia, Mário Duarte, Pedro José de Moura, António Cristiano e Joaquim Raposo, entre tantos outros. De tal forma foi a sua prestação, que Sebastião Herédia passou a ser contado entre os principais competidores de José Bento Pessoa, o principal herói do ciclismo português. Mariano Sabino dos Santos, colaborador do Jornal Horizonte, e considerado um dos maiores conhecedores da história do ciclismo português, refere na sua crónica Na Rota da Roda (Jornal Horizonte, 1 de janeiro de 2011), sobre a entrada do ciclismo em Portugal: Como desporto, o ciclismo desenvolveu-se no nosso País nos fins do século XIX, mais por via dos franceses que aqui entraram e promoveram a sua introdução, quando desde 1870 já tinha um grande desenvolvimento na Inglaterra. A União Velocipédica Portuguesa nasceu no dia 14 de dezembro de 1899 e até então os portugueses que entravam em competições internacionais, como aconteceu com José Bento pessoa que em 33 1897, quando Portugal ainda competia como uma província espanhola por não ter uma federação que o representasse em provas internacionais, ganhou uma prova e bateu o record mundial de 500 metros em velocidade, que estava em poder do francês Jequelin, e depois, em Genebra, venceu o célebre Champion que o havia desafiado. E, referindo-se a Sebastião Herédia, afirma: Também Sebastião Herédia conseguiu a proeza de, em 23 corridas que fez em Paris, ganhou vinte primeiros lugares, colocando a União Velocipédica Espanhola, onde estava inscrito por falta de uma congénere portuguesa e por determinação superior da União Velocipédica Internacional, em destacado plano na prática do ciclismo de competição. Figura 23 - D. Sebastião Herédia (1890?). Fonte: UVP-FPC, 100 anos (1999). Ora, sendo Sebastião Herédia, apesar de Português, ciclista inscrito na UVE, e nessa qualidade tendo participado e dado nas vistas nas corridas disputadas e ganhas em Paris, é natural que ambicionasse uma participação em Atenas1896. Acontece que Espanha não participa nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna. Não nos custa, portanto, admitir que Sebastião Herédia se tivesse predisposto a integrar a seleção francesa, o que seria impossível de concretizar por ser português. Deve, pois, haver um fundo de verdade neste episódio, mas não o podemos dar com absolutamente certo e provado, nem descortinámos qualquer referência na imprensa da época. Gorou-se, desta 34 forma, a possibilidade de um atleta português – Sebastião Herédia – ter participado na primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Paris-1900 Figura 24 - Cartaz oficial de Paris 1900. Coincidindo com a Exposição Universal de Paris/1900, realiza-se a segunda edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Surge, uma vez mais, uma referência à possibilidade de participação de Sebastião Herédia, assim relatada por José Valarinho: 1900 foi também o ano dos segundos Jogos Olímpicos os quais foram englobados na gigantesca Exposição Universal de Paris. Assim, o patrocínio do Comité Internacional Olímpico quase nem chegou a ser notado, de tal forma que grande parte dos concorrentes às várias competições desportivas não tinham consciência de que era nos Jogos Olímpicos que estava a tomar parte. Foi certamente o caso de Sebastião Herédia e de António Martins que, ao inscreverem-se no Torneio Internacional de Espada de Paris, desconheciam, como a nossa imprensa também desconhecia, 35 que esse torneio fazia parte das competições de esgrima dos Jogos Olímpicos. Herédia, cuja aprendizagem decorreu nas salas de armas parisienses inscreveu-se na prova para amadores tendo sido colocado numa ‘poule’ em que se encontravam Renault, Philibert, Onesti, Subercaseaux, Peberay, e o grande campeão cubano Ramon Fonst que tinha então apenas dezasseis anos e que viria a ser o vencedor. Martins, inscrito na competição destinada a professores teria como adversários na sua ‘poule’ Bézy, Gracviche, Samiac, Chauderlot e Pernot. Segundo os jornais da época “foi pena que nem um nem outro dos portugueses tivesse comparecido.” António Martins, como profissional, não viria a ter outra oportunidade e Sebastião Herédia teria de esperar nada menos que vinte e oito anos para estar presente nuns Jogos Olímpicos62. Portanto, e uma vez mais, Sebastião Herédia viu frustrar-se uma nova oportunidade de participação olímpica, desta feita por mero desconhecimento em relação aos moldes da competição. Figura 25 - Concorrentes C. N. Espada 1909. Nota: Sebastião Herédia é o 1.º à esquerda, em 1.º plano. Ao seu lado esquerdo está Frederico Paredes e, atrás deste, o seu irmão Alexandre Paredes. Fonte: Espadas e Floretes, Valarinho, J. (1993), propriedade desconhecida. Entretanto, sucedem-se os eventos de esgrima em que a participação de Sebastião Herédia é sucessivamente referenciada, seja em território nacional, seja no estrangeiro. 36 A relevância dada a estes eventos fica evidente pela natureza das entidades presentes, designadamente a família real portuguesa, e pela cobertura dos jornais, onde é dado o devido destaque à modalidade e ao esgrimista, como é o caso da Taça Penha Longa, a que a Illustração Portugueza dá elevado destaque e na qual Sebastião Herédia defrontou, entre outros Camilo Castelo Branco. Figura 26 - Torneio de Esgrima, taça Penha Longa. 37 Na foto 3 o jury procurando um toque no sr. Sebastião Herédia. Na foto 5 um tempo em segunda dos srs. Sebastião Herédia e Camilo Castelo Branco, que não atinge. Fonte: Illustração Portugueza, n.º 72, julho 1907. Estocolmo-1912 Figura 27 - Cartaz oficial de Estocolmo 1912. Em relação à participação de Portugal em Londres-1912, a mesma esteve sempre rodeada de incertezas, de uma forma geral relacionadas com os recursos financeiros disponíveis. O comité tratou de dar corpo às funções que lhe estavam atribuídas. Diligenciar para que uma delegação portuguesa se inscrevesse nos Jogos, fazer essa mesma selecção e angariar o dinheiro para a deslocação. Com base no desempenho nos Jogos Olímpicos Nacionais, foram escolhidos dez atletas. A 26 de junho de 1912, a bordo do vapor ‘Astúrias’ da Mala Real Inglesa, que larga de Lisboa com destino a Southampton, vão as esperanças nacionais ou, talvez melhor, lisboetas, de um desempenho condigno nessa quimera que representavam os Jogos Olímpicos. Mas dos dez iniciais, quatro ficaram-se realmente pelos sonhos. A sorte foi-lhes madrasta 38 quando já tinham tudo preparado para a viagem. O dinheiro, o último ‘se’, não havia maneira de aparecer. O Governo Civil de Lisboa declarara alto e bom som: “se quiserem ir arranjem dinheiro”. Já em jeito de desespero, foi organizado um sarau desportivo no Coliseu para a noite de 22 de Junho (quatro dias antes do embarque!). Para desventura de César de Melo (luta), D. Sebastião Herédia (esgrima), Matias de Carvalho (1500 m e maratona) e Correia Leal (400 m), o pessoal dos elétricos entrou em greve e o Coliseu ficou quase vazio… Não fora, para lá de donativos particulares, a ajuda da família Pinto Basto – que forneceu as passagens – e ainda verbas obtidas em agremiações desportivas e ninguém teria ido. A 26 lá partiram Fernando Correia (espada), chefe de delegação, António Stromp (100 e 200 m), Armando Cortesão (400 e 800 metros), Francisco Lázaro (maratona), Armando Pereira e Joaquim Vital (luta)63. Em Os 6 de Estocolmo, Pinheiro & Nunes (2012) relatam o sarau: Os dez atletas previamente selecionados para integrar a comitiva olímpica portuguesa, também foram apresentados durante o sarau, que contou ainda com diversos discursos dos membros do COP, que exaltaram a importância da presença de Portugal nos Jogos Olímpicos. Mas, apesar da diversidade e interesse do programa, a fluência do público foi muito pouca o que se deveu em grande medida a uma greve dos condutores dos elétricos, que praticamente paralisou os transportes públicos em Lisboa. Assim, a verba angariada com a bilheteira do sarau foi reduzida, o que implicou reduzir a comitiva de dez para seis atletas, o que causou tristeza e consternação entre os quatro excluídos: César de Melo, Matias de Carvalho, Correia Leal e Sebastião Herédia64. Gorou-se, assim, pela terceira vez, a possibilidade de participação olímpica de Sebastião Herédia, que teria de esperar mais dezasseis anos por uma nova oportunidade. Estes autores descrevem-no como: Notável esgrimista, contava com uma excelente capacidade atlética e inteligência, não se intimidando a nível nacional. No Campeonato da Europa de Esgrima de 1910, em Nice, impôs-se aos melhores mestres estrangeiros65. 39 Figura 28- Sebastião Herédia Fonte: Almanaque 1914. 40 Figura 29 - Participantes Torneio de Esgrima, 14 maio 1917. Nota: Sebastião Herédia é o 3.º à Esq e Francisco Correia Herédia, Visconde da Ribeira Brava, o 5.º. Fonte: Espadas e Floretes, Valarinho, J. (1993), propriedade desconhecida. Amsterdão-1928 Figura 30 - Cartaz oficial de Amesterdão 1928. 41 Não obstante o pessimismo reinante em Lisboa, em 1928, quanto à possibilidade de participação de uma equipa de esgrima em Amsterdão-1928, o que fica bem evidente nos relatos de imprensa da época66, em grande parte devido a ocorrências e rivalidades entre as várias ‘salas’, verificadas durante os apuramentos, acaba por ser constituída uma equipa olímpica: Jorge Paiva e Mário Noronha (sala Carlos Gonçalves), Frederico Paredes, Henrique da Silveira, João Sasseti e Sebastião Herédia (do Centro Nacional de Esgrima). Frederico Paredes integra a equipa olímpica de esgrima após ter estado dez anos voluntariamente afastado da prática, em virtude de, em combate público, ter ferido mortalmente o seu irmão Alexandre Paredes. Não obstante, participa e contribui para a medalha olímpica obtida pela representação portuguesa. Constituída a equipa, é então que ocorre um ato de notável desportivismo de Sebastião Herédia, nesta que era a sua quarta tentativa de participar numa edição dos Jogos Olímpicos, assim relatado por José Valarinho67: Muito desportivamente, Herédia que é o mais velho dos selecionados 68 , achando que a presença de Eça Leal reforçaria consideravelmente a equipa, põe o seu lugar à disposição do atirador que se encontra na Argentina. A oferta é aceite pelo Comité Olímpico que, em compensação, nomeia Sebastião Herédia chefe de equipa e inscreve-o na competição individual de Florete. Figura 31 - Sebastião Herédia (pai), 1928 Com a representação em Florete dada a Sebastião Herédia, Paulo d’Eça Leal integra a equipa de esgrima. Embora não possamos ser perentórios numa 42 conclusão de causa/efeito a partir da atitude de Sebastião Herédia, há que recordar que esta equipa de esgrima conquistou a medalha de bronze e que foi, precisamente, Paulo d’Eça Leal que deu a um atirador belga o toque que permitiu a Portugal a conquista do terceiro lugar e respetiva medalha de bronze olímpica. E prossegue Valarinho69: Desta forma Sebastião Herédia faz, juntamente com seu filho que concorre em Pentatlo Moderno, a sua estreia nos Jogos Olímpicos, naquela que foi a primeira e única vez na história das representações olímpicas portuguesas em que pai e filho participaram nos mesmos Jogos. Figura 32 - Comitiva Portuguesa a Amsterdão-1928. Em 1.º plano, os primeiros à esquerda são, respetivamente Sebastião de Freitas Branco Herédia (filho) e António Guedes de Herédia. Em 2.º plano, Sebastião de Sancho Herédia (pai) é o segundo a contar da esquerda. Em 12.º lugar, da esquerda para a direita, Frederico Paredes e, à sua frente, João Sasseti avô do Comandante da Marinha Pedro Sasseti Carmona (neto do Presidente da Republica Óscar Carmona) e casado com Maria João Favila Vieira, 4ª neta do madeirense ilustre Conselheiro Manuel José Vieira fundador na Madeira do Partido Progressista de que o Visconde da Ribeira Brava foi ativo militante antes de passar para o Partido Republicano com a implantação da República. Fontes: Os Jogos Olímpicos (Cardoso, C. P.), p. 90; Arquiteto João Paredes (2013). 43 Em entrevista concedido ao Diário de Lisboa 70 , em vésperas dos Jogos de Amsterdão, José Pontes, no momento da sua partida no Sud Express, acompanhado do secretário-geral do COP, Eng.º Nobre Guedes considera que… Portugal deve marcar um logar honroso em esgrima, hipismo e tiro. (…) Somos pobres, temos poucos recursos para mandar uma grande ‘equipe’ (…),mas, mesmo assim, os portugueses que vão a Amsterdão, e que constituem a nossa ‘elite’ desportiva, devem fazer alguma coisa. À partida destes dois titulares compareceram na gare diversas entidades, entre as quais Sebastião Herédia. Quanto à participação propriamente dita, relata O Século: Às competições de esgrima é destinado um pavilhão novo mas sem qualquer traço de bom gosto, de paredes completamente despojadas, frio e nu, quase soturno. Dos nossos atiradores é Sebastião Herédia o primeiro a entrar em acção. Tem já cinquenta e dois anos e vai jogar florete, quando todo o seu treino tinha sido orientado para a espada. Não pode, por isso, ter grandes ambições. A sua ‘poule’ é de oito atiradores dos quais passam à fase seguinte apenas três. Tendo conseguido somente três vitórias, o nosso representante classifica-se em quinto lugar e já não vai mais além. Figura 33 - Equipa de Esgrima Portuguesa em Amsterdão-1928. Fonte: Official Report, p. 565 44 Figura 34 - Resultados de Sebastião Herédia em Amsterdão-1928 Fonte: Official Report, p. 568 O enviado de O Século acha, contudo, que71: (…) êle foi arredado quando devia ter apenas dois homens que lhe eram superiores, o vencedor da ‘poule’ que foi o italiano Pignotti, e o belga Pecher. No entanto, a tremenda influência de um julgamento caprichoso dispôs a sua eliminação. E mais de um assalto foi vítima dos juízes. No mesmo sentido relata o Diário de Lisboa72: Sebastião Herédia (pai) classificou-se em 4.º lugar na esgrima, fazendo bons assaltos, mas, segundo a opinião dos técnicos, foi prejudicado na decisão do júri. Em entrevista concedida ao Diário de Lisboa 73, o Mestre de Esgrima Veiga Ventura refere-se nestes termos à prestação de Sebastião Herédia: Herédia, pai, que é o capitão da nossa ‘équipe’, tendo-se treinado à espada, concorreu ao florete. A sua classificação, porém, não correspondeu aos seus méritos. Estou convencido de que teria feito uma figura brilhante na espada. Termina aqui a prestação Olímpica de Sebastião Herédia, que não a sua prática desportiva, já que em 1931, é descrito um longuíssimo assalto de cinquenta e sete minutos, frente a Mascarenhas de Menezes, no Campeonato Nacional de Florete, quando já contava com cinquenta a cinco anos e, ainda 45 nesse ano, no Portugal-Inglaterra, disputado em Londres, onde obteve três vitórias, naquilo que o Morning Post relatou nestes termos: Nunca Londres viu um match mais belo (…) Figura 35 - A equipa de esgrima que participou no Portugal-Inglaterra, 9/6/1931. Nota: A bordo do Andalucia Star. Sebastião Herédia é o atleta da esquerda, encostado à parede. Fonte: Espadas e Floretes, de Valarinho, J. (1993), propriedade desconhecida. Sebastião de Freitas Branco de Herédia Figura 36 - Sebastião Herédia (filho), 1928 46 Embora a prestação olímpica de Sebastião de Freitas Branco Herédia seja a que mais nos interessa relevar nesta abordagem, não podemos deixar de registar as qualidades e ecletismo do sportsman. Sebastião de Freitas Branco de Herédia tem o seu nome ligado à primeira equipa de râguebi do Sporting Clube de Portugal74. Modalidade introduzida no Sporting Clube de Portugal a 22 de Outubro de 1922 por influência de Salazar Carreira que também foi praticante, sucedendo assim ao Royal F.C. como pioneiro da modalidade em Portugal. A 11 de Novembro desse mesmo ano, o Sporting disputou o seu primeiro jogo de râguebi vencendo o Royal por 11-0. Alinharam pelo Clube dos Leões: Eduardo Costa, Freitas Pons, Salazar Carreira, Correia Leal, Luís Rebelo da Silva, Maurice Baillehache (antigo capitão da Selecção da Normandia e responsável técnico pela modalidade no Clube), A. Sabbo, António Soares, Salazar Diniz, Fortunato Levy, F. Marques, Sebastião Herédia Jr e F. Oliveira. Na Natação: Título Nacional 4x200 livres, 1923 (Martinho Oliveira, Francisco Duarte, Sebastião Herédia e Emilie Renou)75 No Pentatlo Moderno: A Federação Portuguesa de Pentatlo Moderno, no seu Plano de Actividades 2011 76 , destaca as participações olímpicas da modalidade, referindo a participação de Sebastião Herédia em 1928 e 1932. - 1928 Sebastião Herédia, Amsterdão - 1932 Rafael de Sousa, Los Angeles - 1932 Sebastião Herédia, Los Angeles - 1952 José Serra Pereira, Helsínquia - 1952 Ricardo Durão, Helsínquia - 1952 António Lopes Jonet, Helsínquia - 1984 Manuel Barroso, Los Angeles - 1984 Roberto Durão, Los Angeles - 1984 Luís Monteiro, Los Angeles - 1988 Manuel Barroso, Seul - 1992 Manuel Barroso, Barcelona - 1996 Manuel Barroso, Atlanta Particularmente curiosa é a referência que Nobre Guedes faz à participação portuguesa em Pentatlo Moderno nos Jogos de Amsterdão, em entrevista concedida a O Século77: 47 - E quanto ao Pentatlo Moderno que tanto ruído tem levantado? - Nunca supusemos que houvesse qualquer concorrente português às respectivas provas internacionais. Aberta a inscrição, num jornal desportivo, apareceram tão poucos concorrentes que as provas, a realizarem-se, perderiam todo o interesse. Um deles, porém, não desistiu e solicitou, em tempo competente, ao ‘comité’ que o submetesse a provas. Foi atendido e demonstrou, exuberantemente, poder concorrer à prova internacional. Os outros não procederam assim e daí as discussões travadas, absolutamente improfícuas nesta altura. Como Dirigente Desportivo, foi Vogal suplente da gerência de 1923/24 do Sporting Clube de Portugal. As provas do Pentatlo Moderno em Amsterdão-1928 foram disputadas por 14 países, e foram assim organizadas: - Tiro a 25 metros em Zeeburg (Amsterdam), com revolver ou pistola, sem repetição. Vinte tiros em quatro séries de cinco. O alvo foi uma figura humana com 1m e 63 cm de altura. - Natação, prova de 300 m, com viragens, estilo livre, no Swimming Stadium. - Esgrima, prova disputada Fencing Pavilion, segundo as regras da federação Internacional - Cross County Race, 4000 metros, perto de Hilversum. - Hipismo Figura 37 - Concorrentes Pentatlo Moderno Amsterdão-1928. Fonte: Official Report, p. 690. 48 Diário de Lisboa78: Sebastião Herédia (filho) ficou classificado em 3.º lugar na sua eliminatória de natação. Tendo feito uma bôa prova. Diário de Lisboa79: Já veio publicado nos jornais da manhã que Herédia ficou em 36.ºlugar na competição de tiro para o Pentatlo. O seu fôgo foi péssimo. Sendo o alvo a silhueta de um homem, a 25 metros, Herédia perdeu 5 tiros em 20. Nõ se pode dizer que seja um fôgo para campeão representante de um país… Em natação, a sua classificação de ontem também não é de molde a agradar-nos… Diário de Lisboa80: Com a prova de ‘cross’ equestre terminou em Amsterdam a disputa do Pentatlo Moderno, a que concorrera, como representante de Portugal, Sebastião Herédia (filho). A classificação definitiva estabeleceu-se como segue: (…) 31.º Herédia (Portugal) (…) O português ficou pois em 31.º lugar em 37 concorrentes. 49 Figura 38 - Resultados Finais Pentatlo Moderno, Amsterdão-1928. Fonte: Official Report, p. 780 50 Los Angeles – 1932 Figura 39 - Cartaz oficial Los Angeles 1932. Figura 40 - Revista Ilustração, n.º13, 1 de julho de 1932,p.26 (Salazar Carreira). 51 Figura 41 - Participantes Pentatlo Moderno, Los Angeles-1932. Fonte: Official Report, p. 590-591 52 Figura 42 - Resultados Finais Pentatlo Moderno, Los Angeles-1932. Fonte: Official Report, p. 598. Alguma literatura refere que Sebastião de Freitas Branco Herédia cumpriu as provas de natação e esgrima com um braço engessado, motivado por uma queda no concurso hípico, ao que consta em virtude se o cavalo se ter empinado a um toque de esporas, em virtude de se tratar de um cavalo que não estava treinado para receber esporas. Esta informação, que um militar negro presente no concurso lhe tentou transmitir, não chegou ao conhecimento de Sebastião Herédia, por ter sido impedido por um militar branco, por motivos racistas81. Porém, contatado em 12/06/2013, a este propósito, o filho de Sebastião de Freitas Branco Herédia, o padre jesuíta Afonso Herédia, o qual nos afirmou ‘beber com avidez’ as história que seu pai lhe contava, guarda a seguinte memória deste episódio, o qual envolve uma referência que envolve Roy Rogers 82 que já nos havia sido aflorada pelo olímpico Roberto Dória Durão, incidente que terá envolvido o desafio para um duelo à espada. Conta-nos o Pe. Afonso Herédia, sj: 53 O que se passou foi que no Pentatlo Moderno, como ainda hoje provavelmente, a primeira prova era o cross-country a cavalo, sendo os cavalos sorteados nessa altura. O meu pai teve dúvidas se o dito cavalo que lhe tinha calhado em sorte era para ser montado com esporas ou sem esporas e tentou ir perguntar a um homem que tratava dos cavalos... tendo sido impedido, com alguma violência por parte dos comissários, de o fazer. Pelo sim pelo não o meu pai montou com esporas. Enquanto esperava pela sua vez de partir, sem querer deu um toque com as esporas no bom do cavalo que se empinou, tendo o meu pai caído para trás pela garupa, e o pobre do animal sem querer pisou um joelho ao meu pai. Dizia-me o meu pai que os cavalos evitam sempre pisar-nos (???) mas o bicho não reparou. Resultou que o meu pai foi fazer a prova com “alguma agressividade”, molestado por aquilo que lhe acontecera. O cavalo até era muito bom, mas acho que ficou bastante castigado pelo tratamento que o meu pai lhe deu durante a prova. Então, esse tal Roy Rogers terá escrito umas notas sobre o assunto, nas quais dizia que “não sabia se devia ser o Sr. De Branco a montar o cavalo ou o contrário”...o meu pai chamava-se Sebastião de Freitas Branco de Herédia...mas lá nos registos Olímpicos aparecia o “De Branco”. É claro que o meu pai não terá achado piada nenhuma e que se sentiu ofendido e, nessa qualidade, desafiava esse tal Roy Rogers para um duelo tendo o direito de escolher a arma que seria à espada... mas acho que nada disso foi por diante tendo-se acalmado os ânimos. Ainda se viviam resquícios dos tempos dos duelos já então proibidos pela Santa Sé. Nas outras provas, o meu pai ficou bastante debilitado por esse pequeno incidente. Acho que a que lhe correu melhor foi a de tiro. Mas tudo isto é um relato de tradição oral. Não tem grande valor científico-histórico. Provavelmente nos registos oficiais não terão guardado nada pelo irrelevante do acontecimento. António Guedes de Herédia Figura 43 - António Guedes de Herédia, 1928. 54 Figura 44 - Sinal privativo de António Guedes de Herédia. Fonte: http://remo-historia.blogspot.pt, consultado em 08/09/2013 A edição comemorativa dos 75 anos de Vela Olímpica Portuguesa83 dedica a António Guedes de Herédia, no capítulo In Memoriam uma atenção e reconhecimento curricular que, pelo seu rigor e relevância para o presente trabalho, nos permitimos transcrever parcialmente. (…) O seu gosto pelas regatas à vela ficou-lhe dos tempos de infância (…) Começou a navegar aos oito anos de idade na canoa Xina, de seu pai, que tinha pertencido à Rainha D. Maria Pia. Em 1925 é fundado o Clube Náutico de Portugal, que lança o monotipo CNP, barco de um só velejador onde António Herédia inicia a sua aprendizagem na competição em regatas de pequenos barcos, todos iguais de um tripulante. (…) Em 1928 tem o seu baptismo nos Jogos Olímpicos disputados em Amsterdão (Holanda), correndo no barco ‘Camélia’, da classe 6 metros internacional e fazendo tripulação com Carlos Bleck, Ernesto Mendonça e Frederico Burnay. (…) Em 1936 participa pela segunda vez nos Jogos Olímpicos disputados em Kiel [Berlim], correndo na classe Star como proa de Joaquim Fiuza. (…) 55 Figura 45 - Equipa Portuguesa de Vela, Amsterdão-1928. Fonte: Official Report, p. 859. Figura 46 - Partida Classe 6m, Amsterdão-1928, em 1.º plano o ‘Camélia’. Fonte: Official Report, p. 865 Figura 47 - Pormenor da prova 6m, Amsterdão-1928, vendo-se o Camélia (P). Fonte: Official Report, p. 865. 56 Figura 48 - Classificação Final Vela 6m, Amsterdão-1928. Fonte: Official Report, p. 866. Diário de Lisboa84: Da representação enviada a Amsterdão, pelo Comité Olímpico Português – e consequentemente: à parte o “football” – só se salvou, até agora, o iate “Camélia”. Entre catorze barcos concorrentes, o “Camélia” classificou-se me setimo lugar. E a “performance” do barco tripulado por Frederico Burnay é tanto mais meritoria quanto a prova foi disputada com temporal, indo o barco português com o convés debaixo de água. Não concordámos com a maneira como a Vela se fez representar nos Jogos, contra a opinião técnica da Federação respectiva. Mas a verdade é que, em Amsterdam os rapazes do “yachting” fizeram entre os representantes portugueses, a mesma figura que quem tem um olho faz entre os cegos… Berlim - 1936 57 Figura 49 - Resultados Finais Vela, Star 6m, Berlim-1936. Fonte: Official Report, p. 402 Londres - 1948 Figura 50 - Equipa Portuguesa, Vela Dragon,Londres-1948. Fonte: Official Report, p. 706. 58 Figura 51 - Classificação Final, Vela Dragon, Londres-1948. Fonte: Official Report, p. 706 Maria Luísa Correia Herédia Em novembro de 1932, o Estado Português incumbe o Dr. José Pontes para continuar a liderar o COP durante a Olimpíada 1932-1936. Com ele são empossados na nova comissão Executiva o Eng.º Nobre Guedes, como secretário-geral, Carlos Farinha, como tesoureiro, João Formosinho Simões, como secretário e, ainda, Dr. César de Melo, Coronel Manuel Latino, Tenentecoronel João Moura, Armando Brito, Eng.º Melo Breyner, Fernando Barbedo, Vasco Ribeiro, Dario Canas, D. Angélica Plantier, Ministro Dr. António Costa Cabral, Prof. Henrique Vilhena, Eng.º Ernesto Basto, Cap. Maia Loureiro, Álvaro Lacerda e Vicente Áreas. O Conselho técnico de 25 membros passa a integrar, pela primeira vez, uma senhora, D. Maria Luisa Correia Freitas Branco de Herédia, irmã de Sebastião de Freitas Branco Herédia. São raras as referências que a literatura lhe consagra. Porém, Carlos Paula Cardoso, no seu 100 Anos de Olimpismo em Portugal, a p. 96, revela um texto da autoria de Maria Luísa Herédia, sobre a representação feminina no Comité Olímpico Português que é bem revelador de se tratar de uma mulher bem à frente do seu tempo, no que se refere à participação das mulheres no desporto, 59 bem diverso ao que a opinião pública e a generalidade da comunicação social defendiam. Figura 52 - Texto de Maria Luísa Herédia. Fonte: 100 Anos de Olimpismo em Portugal, Cardoso, C. P., p. 96 Conforme anteriormente aflorado, a participação desportiva das mulheres, não obstante os opositores, encontrou um eco favorável na comunicação social de que é exemplo a revista Sporting, pela pena da redatora Maria Faeia Moura, e outros periódicos como Os Sports (Lisboa, 1905-1909), O Sport Nacional (Lisboa, 1910) ou Os Sports Illustrados (Lisboa, 1910-1913). Cruz, I., Gomes, P. e Silva, P. (2006)85, lembram que: (…) A igualdade de oportunidades (ou a falta dela) na participação olímpica, tal como no desporto em geral, radica, em parte, na reduzida representação das mulheres em órgãos de decisão e, consequentemente, na falta de poder directo das mulheres. O poder não é ter a hipótese de escolha de um determinado número de 60 alternativas, mas sim ter a hipótese de estar envolvido/a na formulação dessas alternativas. Só em 1981 é que o COI integrou, entre os seus membros, as primeiras duas mulheres, e apenas em 1997 uma mulher alcançou a vice-presidência. Salienta-se o trabalho desenvolvido por Anita De Frantz – Vice-presidente do COI entre 1997 e 2001 – no sentido do alcance de uma igualdade de oportunidades entre homens e mulheres em todo o movimento olímpico. Em 1995, o COI cria um grupo de trabalho denominado ‘Mulheres e Desporto’ (Women and Sport) que estabelece as linhas orientadoras para o desenvolvimento de medidas em prol de uma maior participação das mulheres no desporto e no movimento olímpico. Em 2004, este grupo passa a ter o estatuto de Comissão, ao mesmo nível de todas as outras. Também na Carta Olímpica foi incluído, 1996, o seguinte artigo (n.º 5, artigo 2): “Através dos meios apropriados, o Comité Olímpico Internacional encoraja a promoção das mulheres no desporto em todos os níveis e estruturas, particularmente nos organismos executivos das organizações desportivas nacionais e internacionais no sentido da estrita aplicação do princípio da igualdade entre homens e mulheres.” Carvalho, M. e Cruz, I. (2007)86 referem que, desde a sua fundação e durante largas décadas o Comité Olímpico Internacional foi avesso à participação das mulheres em todas as suas atividades e que a eleição, em 1980, de Juan Antonio Samaranch para Presidente do COI, foi um marco importante no início da mudança há muito necessária, de modo que, em 1981, e pela primeira vez, duas mulheres passaram a ser membros do COI quebrando o longo período de ausência feminina no interior desta instituição durante 85 anos. O evoluir da História do Movimento Olímpico em relação à igualdade entre homens e mulheres torna ainda mais relevante o percurso desportivo de Luisa Herédia e de outras mulheres, entre as quais as suas irmãs, Ana Herédia e Joana Herédia, que se contam entre as primeiras mulheres portuguesas com prática assinalável no desporto. Os II Jogos Olímpicos que se realizaram em Paris, 1900. Foram , integrados na Exposição Universal de Paris, feira mundial de comércio, diluíram-se ao longo de quatro meses, ficando mais conhecidos como Concurso Internacional de Exercícios Físicos e Desportos, tendo o COI pouca influência na sua 61 organização. Não obstante a presença desportiva feminina é notada no cartaz oficial da Exposição referente ao concurso Internacional de Esgrima. Figura 53 - Cartaz do Concurso de Esgrima, Paris, 1900 É igualmente nesta edição que ocorre a primeira campeã olímpica, a tenista inglesa Charlotte Cooper. Figura 54 - Charlotte Cooper (1870-1966) 62 É apenas em 1952 que ocorre a primeira participação olímpica feminina portuguesa, na modalidade de ginástica, com Dália Vieirinho Cunha, Maria Laura Silva Amorim e Natália Cunha e Silva. Figura 55 – Elenco feminino de Portugal para os Jogos Olímpicos de 1952 Fonte: http://museuvirtualdodesportoportugues.blogspot.pt/~ Sobre esta participação pioneira nos Jogos Olímpicos refere o Museu Virtual do Desporto Português: Esta é uma pequena sinopse dos primórdios do Olimpismo da Era Moderna, onde o desporto era um espaço permitido frequentar apenas aos homens, graças à sua virilidade e força. Uma regra, ou ideia, que - felizmente - foi sendo destruída a pouco e pouco ao longo dos anos que se seguiram, sendo que em algumas nações mais fechadas à liberdade de expressão física - digamos assim feminina demorou um pouco mais. Em Portugal, por exemplo, seria preciso esperar cerca de 50 anos - após a primeira participação feminina nas Olimpíadas - para vermos portuguesas a competir no grande palco olímpico. Tal aparição deu-se em 1952, em Helsínquia, cidade que recebeu Dália Cunha, Natália Cunha, e Laura Amorim, as três primeiras deusas olímpicas da história de Portugal. Elas integraram uma comitiva de 79 atletas que a bordo do navio Serpa Pinto representaram as cores de Portugal nas Olimpíadas de Helsínquia. Eram ginastas de créditos firmados a nível nacional, talhadas para a modalidade desde tenra idade, sobretudo as irmãs Dália e Natália Cunha, cativadas para a prática desportiva pelo progenitor, um desportista fanático que jogava râguebi, praticava natação, fazia atletismo, e ainda tinha tempo para praticar tiro. As manas Cunha - Natália era mais velha que Dália um ano - cresceram e também elas tornaram-se viciadas na prática desportiva. Desde o atletismo, passando pelo tiro, e acabando na ginástica, só para citar 63 algumas modalidades em que competiam, as manas - nascidas em Lisboa - tornaram-se figuras de cartaz do masculino cenário desportivo português daquele tempo. Seria precisamente a ginástica a modalidade que as tornaria imortais, já que a par de Laura Amorim, apresentaram a mulher lusitana ao planeta do desporto internacional. Contudo, na capital finlandesa a concorrência foi feroz, como comprovam as modestas classificações obtidas. Dália, com 23 anos de idade na época, foi a melhor das três damas lusas, ao conquistar um 108º lugar na classificação final. Conclusões O olimpismo moderno, tal como concebido por Pierre de Coubertin em 1894, é uma filosofia de vida que exalta e combina num conjunto harmonioso as qualidades do corpo a vontade e espírito, aliando o desporto com a cultura e com a educação. Com o objetivo de colocar sempre o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso do Homem, o Olimpismo favorece o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana. O Movimento Olímpico, nascido do Olimpismo, aponta para a construção de um mundo melhor e mais pacífico, mediante a educação através do desporto, em compreensão mútua, espirito de amizade, solidariedade e jogo limpo87. A linguagem universal a que chamamos desporto é a única capaz de unir os Homens, para além de tudo o que teima em dividi-los, seja a cultura, o credo, a política, a raça, a economia, os interesses individuais, o território ou a tradição. Um pouco por toda a parte no mundo civilizado, o princípio e os conceitos do Olimpismo e do Movimento Olímpico começaram a instalar-se a partir do final do século XIX, assumindo uma dimensão universal durante todo o século XX. Os conceitos instalam-se através dos protagonistas, sejam institucionais, sejam individuais. O presente trabalho é uma homenagem a alguns desses protagonistas, significativamente membros da mesma família e herdeiros de uma cultura desportiva que lhes foi transmitida, por atos de prática desportiva e pela visão na criação de infraestruturas, por um dos seus ancestrais, Francisco Correia Herédia, visconde da Ribeira Brava. 64 Na busca dessas raízes, aprofundámos o perfil de Francisco Correia Herédia e nele procurámos a justificação para o papel de desportistas protagonizado pelo seu filho, Sebastião Herédia, e seus netos, Sebastião de Freitas Branco Herédia, António Guedes de Herédia e Maria Luísa Herédia. Não só no ecletismo que caraterizou a participação desportiva dos Herédia, como pela qualidade dessa prestação simbolizada pela participação nos Jogos Olímpicos, de 1928, 1932, 1936 e 1948. Aos que história genealógica referenciou como ‘os Herédia da Madeira’ fica também associada a prestação do que é considerado o primeiro Olímpico Madeirense, Sebastião Herédia (Amesterdão-1928, Esgrima/Florete), figura que, não tendo nascido na Madeira, de lá são oriundos os seus progenitores e várias gerações de avós paternos, foi nessa ilha que primeiro exibiu os seus dotes desportivos, onde viveu alguns anos da sua vida, tendo sido, inclusivamente, seu Governador Civil. Muito fica, certamente por explorar e investigar. O tempo dirá se um dia poderemos ir mais longe. Fica, porém, nestas linhas, um reconhecido agradecimento aos descendentes que tive o prazer de contatar, e dos quais obtive a melhor colaboração no acesso às fontes familiares. Um agradecimento particular a S.A.R. o Duque de Bragança, Senhor Dom Duarte Pio e a S.A.R. a Duquesa de Bragança, Senhora Dona Isabel, por terem acarinhado a iniciativa e concedido o seu alto patrocínio. Referências Almanaque de A Lucta (1909). 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Periódicos consultados A Fraternidade A República Almanaque a Lucta Almanaque Democrático 1852 Almanaque do Mundo -1909/1911 Almanaque Madeirense – 1945 Alvorada Arquivo Democrático Arquivo Republicano Diário de Lisboa Diário de Notícias É tarde Figuras da República Galeria Republicana Illustração Portugueza O Regenerador O Republicano O Século Revista Atlântico Revista Cascais Sítios consultados jfcuba.no.sapo.pt/ pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_governadores_civis_dos_distritos_de_Portugal pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Correia_de_Her%C3%A9dia wc.rootsweb.ancestry.com/cgi-bin/igm.cgi?op=GET&db=mwballard&id=I129369 www.uvp-fpc.pt/www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=193330 www.asbrap.org.br/publicac/revista/metodologia.htm www.centenariosporting.com/index.php?content=734 www.forumscp.com/wiki/index.php?title=Modalidades#ixzz2VpKEXiS8 67 www.fppm.pt www.fpvela.pt www.fpe.pt www.geneall.net www.genealogics.org/pedigree.php?personID=I00191960&tree=LEO www.sporting.pt/Modalidades/Natacao/natacao_palmaresnacional.asp www.sports-reference.com/olympics/athletes/he/sebastiao-heredia-1.html www.sports-reference.com/olympics/athletes/he/sebastiao-heredia-1.html www.worldstatesmen.org/Madeira.html www.cif.org.pt/historia.aspx nesos.wordpress.com/2006/10/04/almanaque-do-desportista-madeirense-para-1945/ oestadodasartes.blogspot.pt/2012/07/antonio-heredia-bandeira.html Notas 1 Refere-se a Sebastião Sancho Gil de Borja de Macedo e Menezes Correia de Herédia (18761958), filho de Francisco Correia de Herédia (1852-1918), visconde da Ribeira Brava. 2 Illustração Portugueza, 2 de maio de 1904, p.412. 3 Cf. Gustavo Pires, Cem anos de Olimpismo - O Currículo Desportivo do Rei D. Carlos, Lisboa, FMH Edições, Col. Estudos Olímpicos, 2012. 4 Gustavo Pires, Cem anos de Olimpismo - O Currículo Desportivo do Rei D. Carlos, Lisboa, FMH Edições, 2012, sinopse da contracapa. 5 Gustavo Pires, Cem anos de Olimpismo - O Currículo Desportivo do Rei D. Carlos, Lisboa, FMH Edições, 2012, p. 9. 6 Idem. 7 Illustração Portugueza, 2 de maio de 1904, p.412. 8 D.Carlos era, ele próprio, esgrimista e de certo nível, conforme refere José Valarinho (Espadas e Floretes, 2008, p. 61), citando a opinião do comentador de Tiro e Sport, expressa em 15 de fevereiro de 1905: Sua Majestade El-Rei cultiva desde os sete anos a esgrima, tendo sido seus professores, primeiro o célebre professor francês Henri Petit, seguindo-se-lhe Luís Monteiro e António Martins. Tem sido com este último professor com quem durante maior lapso de tempo tem trabalhado Sua Majestade e o mestre não se cansa de tecer elogios às excelentes qualidades que Sua Majestade possui como esgrimista. Mais de uma vez temos ouvido a Martins que Sua Majestade é um habilíssimo atirador e espada e sabre, dificílimo pelo seu jogo inteligente e metódico. Aproveitando maravilhosamente o seu ‘coup d’oeil’ prepara o ataque com grande prudência e precisão, mas à primeira falta do adversário precipita-se com uma rapidez pouco vulgar em homens da sua estatura e toca fatalmente. É sobretudo ao sabre, arma da sua predilecção, em que melhor revela o seu temperamento de atirador forte que é. Adversário franco e leal, acusa com bonomia todos os golpes que recebe e que devolve com presteza fora do vulgar. São notáveis os seus golpes ao braço e a finta de ventre que Sua Majestade executa com rara perfeição, sendo poucos os adversários que têm conseguido parar estes golpes. Possuindo Sua Majestade, qualidades de esgrimista em tão elevado grau, eis porque o vemos sempre entusiasta, seguindo todas as peripécias dos assaltos a que assiste, indicando com uma prontidão a rapidez admiráveis os toques dos contendores. 9 Com o advento da República e o fim dos títulos nobiliários, o visconde da Ribeira brava passou a usar o nome de Francisco Correia Herédia Ribeira Brava. 68 10 Quina, M. G. coord. (2008). Olímpicos de Portugal 1912-2008. Lisboa: IDP-IP. Simões, A., jornal A Bola, 11/02/2010. 12 Valarinho, J. (1993). Espadas e Floretes. Lisboa: Ed. Autor. 13 Pinheiro, J. & Coelho, J.N. (2012). República, Desporto e Imprensa – O Desporto na 1.ª república em 100 primeiras páginas – 1910-1926. Lisboa: Afrontamento, p. 166. 14 Sporting, n.º 134, 10/10/1923. 15 Sousa-Lara, A. C. A. et al. (1999). Ascendências Reais de Sua Alteza Real a Senhora Dona Isabel de Herédia, Duquesa de Bragança. Lisboa: Universitária Editora, Lda. 16 Pinto, A. S. (1883). Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal. Lisboa: Empresa Editora de Francisco Arthur da Silva. 17 Ob. cit.,p: 108. 18 Ob. cit.. 19 Zuquete, A.M. (2000), Edições Zairol. 20 Reflexão partilhada pelo Arq.º João Paredes, representante da Causa Real na R. A. Madeira. 21 cc Claire Narbert, tiveram: Michael António. 22 Olímpico Amsterdão-1928. 23 Membro da Comissão Técnica do Comité Olímpico de Portugal. 24 Olímpico Amesterdão-1928, Los Angeles-1932. 25 cc Maria Lívia Cunha, tiveram: Ana Isabel, Mariana, Maria Rita, Luís Alexandre (teve: Marta, João e Pedro) e Maria Joana (teve: Pedro, Maria Madalena e Luís). 26 cc Raquel Curvelo, tiveram: Sebastião (teve: Catarina Isabel e António Maria), Teresa Mónica (teve: Joana, João e Manuel), Isabel Inês (cc Dom Duarte Pio de Bragança, tiveram: Afonso, Maria Francisca e Dinis), Manuel e Afonso. 27 cc Margarida Dias, tiveram: Francisco (teve: Caetana, Carolina e Diana), Jorge Maria (teve: Maria Francisco), João Pedro (teve: Francisco, Matilde e Rodrigo) Frederico (teve: João Maria, Manuel Maria e Mariana) e Patrícia (teve: Diogo). 28 cc José Manuel Coelho, tiveram: Teresa Maria. 29 cc António Cabral, tiveram: Francisco (teve: Branca e Maria Teresa), Manuel (teve: Tomás), José Diogo (teve: Francisco) e Miguel (teve: António Maria). 30 cc José Manuel Araújo, tiveram: Mónica (teve: Martin), Rodrigo e Filipa (teve: Sebastião e Maria). 31 cc António Ramalho Ortigão, tiveram: Marta (teve: Gonçalo), Inês e Mariana. 32 Olímpico Amesterdão-1928, Berlim-1936, Londres-1948. 33 cc Maria Rita Salgado, tiveram: Margarida (teve: Maria e Maria Rita), Maria e João. 34 cc Christiane Barros, tiveram: Tânia e Alexandre. 35 cc Vasco Fonseca, tiveram: Rodrigo, Cristina e Rita isabel. 36 cc Francisco Freitas, tiveram: Maria Inês (teve: Francisco, Isabel, Tomás, Santiago e Xavier), Ana Isabel e Vera Maria. 37 Gonçalves, J.L.R. (2008). Clube Desportivo da Ribeira Brava, o Clube e a Sua Terra. Ribeira Brava: C.M. Ribeira Brava e J.F. Ribeira Brava, p. 11. 38 Ribeiro, J.A. (1998). Ribeira Brava - Subsídios para a História do Concelho. Ribeira Brava: C.M. Ribeira Brava, p. 291. 39 Obra citada, p.291-292. 40 Vasconcelos, M. (1945). Almanaque do Desportista Madeirense. Funchal: Edição do Autor, p. 213. 41 Ob. cit., p. 230. 42 Idem, p. 238. 43 Idem, idem. 44 Idem, p. 92. 45 Idem, p.258. 46 Idem, p. 172. 47 Idem, p. 33, referindo-se ao currículo do desportista Humberto dos Passos Freitas. 48 Idem, p. 40, referindo-se ao currículo do desportista Travassos Lopes. 49 Idem, p. 173. 50 Idem, p. 103. 51 Idem, p.201. 52 Vasconcelos, M., Almanaque do Desportista Madeirense, 1945, Ed. Autor. 53 Serpa, H. (2007). História do Desporto em Portugal – Do século XIX à Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Instituto Piaget.p. 107. 11 69 54 Conf. Barroso, M. (2001). História do Ciclismo em Portugal. Lisboa: CTT - Clube do Colecionador dos Correios, p. 10. 55 Idem, p. 11. 56 Serpa, H. (2007). História do Desporto em Portugal – Do século XIX à Primeira Guerra Mundial. Lisboa: Instituto Piaget, p. 139. 57 A UVP nasce em 1901, conforme refere Barroso M. (2001) na História do Ciclismo em Portugal. No entanto, Mariano Sabino dos Santos, considerado um dos maiores entendidos em matéria de Ciclismo, aponta a data de 14 de dezembro de 1899, no seu artigo Na Rota da Roda, publicado em 1 de janeiro de 2012, pelo Jornal Horizonte (Ansiães) 58 Barroso, M. (2001). História do Ciclismo em Portugal. Lisboa: CTT - Clube do Colecionador dos Correios. 59 Barroso, M. (2001). História do Ciclismo em Portugal. Lisboa: CTT - Clube do Colecionador dos Correios, p. 23. 60 Moreira, A. G. (1980). A História do Ciclismo Português. Alcobaça: Tipografia Alcobacense, Lda. (Edição do autor). 61 Pinto, R. & Lino, M. (1999). UVP-FPC, Cem Anos de Ciclismo. Lisboa: ASA. 62 Valarinho, J. (1993). Espadas e Floretes. Lisboa: Ed. Autor., p. 53. 63 Cardoso, C. P. (1996). Os Jogos Olímpicos. Lisboa: CTT – Clube do Colecionador, p. 63. 64 Pinheiro, F. & Nunes, R. (2012). Os 6 de Estocolmo. Lisboa: Afrontamento, p. 39. 65 Ob. cit., p. 37. 66 “Duvida-se da possibilidade de mandar uma equipa a Amsterdão”, O Sport de Lisboa. 67 Valarinho, J. (1993). Espadas e Floretes. Lisboa: Ed. Autor, p.135. 68 N.A.- Sebastião Herédia contava então 52 anos de idade. 69 Valarinho, J. (1993). Espadas e Floretes. Lisboa: Ed. Autor, p. 135. 70 10 de julho de 1928. 71 Idem, p.136 72 1 de agosto de 1928. 73 4 de agosto de 1928. 74 http://www.forumscp.com/wiki/index.php?title=Modalidades, captado em 4 de setembro de 2013. 75 http://www.sporting.pt/Modalidades/Natacao/natacao_palmaresnacional.asp 76 http://www.fppm.pt/fppm/PlanoActividades_2011.pdf, captado em 4 de setembro de 2013. 77 10 de julho de 1928. 78 1 de agosto de 1928. 79 2 de agosto de 1928. 80 8 de agosto de 1928. 81 Episódio que nos foi relatado pelo atleta olímpico de Esgrima e Pentatlo Moderno (Los Angeles-1984 e Seul-1988), Roberto Dória Durão, que a obteve de um descendente de Sebastião de Freitas Branco Herédia. 82 Roy Rogers (1911-1998), cujo verdadeiro nome era Leonard Franklin Slye, viria a ser o famoso ator de cinema americano, que se estreou em 1935 com a curta-metragem Slightly Static, e ficou conhecido como o cow-boy cantor. 83 Fialho, G. L. (1999). Vela Olímpica Portuguesa – 75 anos. Lisboa: Federação Portuguesa de Vela, p. 144-145. 84 2 de agosto de 1928 85 Cruz, I., Gomes, P. e Silva, P. (2006). Deusas e Guerreiras dos Jogos Olímpicos, Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, Coleção Fio de Ariana. 86 Carvalho, M. e Cruz, I, (2007). Mulheres e Desporto – Declarações e Recomendações Internacionais., p. 69. 87 Adaptado dos Princípios Fundamentais da Carta Olímpica. 70