MOINHO DE ILUSÕES MAKTUB DELLA COELHO Dedico este Livro à minha Família, Presente Divino que ganhei. Aos meus filhos, que são responsabilidades conferidas a mim por Deus. Aos meus irmãos biológicos que me receberam com todo Amor do Mundo. Que bom que vocês existem! À minha mãe Silvia, que me deu a Vida quando muitas teriam me assassinado. Ao meu Pai Dagmar, que me ensinou a Amar incondicionalmente e a maior honra que podemos carregar: HONESTIDADE! À minha mãe, Querida Nair, que é minha amiga e a minha inspiradora da verdadeira maternidade! Ela, que esteve sempre ao meu lado, mesmo quando eu não estava a seu lado. Te Amo, Mãe. 2 Dedico este Livro aos meus Professores Queridos aos quais devo todas as minhas qualidades como Aluna e Educadora. Dedico a todos os meus alunos para que saibam que moram eternamente em meu coração! Dedico também a toda criancinha que seu grito silencioso jamais fora ouvido. Por fim, dedico este Livro ao meu Único e Eterno Amor. "O que importa é o que se sente!" (Angel) 3 I PARTE 1º CAPÍTULO Era o mês de setembro, a primavera despontava pequenas flores coloridas demonstrando a graça natural e já mostrando a beleza multicor que se apresentaria naquele ano. A criança acorda sonolenta com a luz que passa pela vidraça que a mãe deixara aberta para que a brisa noturna refrescasse os sonhos da pequena. Ainda estava na cama envolvida pela doce preguiça, quando lá de fora ouve uma voz bem conhecida de seus ouvidos: - JACQUÊEE!!! Arregala os olhos e corre à janela da sala com um sorriso aberto nos lábios ao mesmo tempo em que solta com todas as forças o ar de seus pulmões: - GI !!! JÁ VOU !!! ESPERA !!! Mais rápida que Iracema, escova os dentes, toma seu café com leite e até faz seu fiel penteado, a parte da frente de seus longos cabelos cacheados são puxados para trás e presos com um laço de fita branco, assim, algumas madeixas caem pelos ombros deixando seu rosto livre ao mesmo tempo em que emolduram sua face como a de uma princesinha. A cor escura de seus cabelos formava um belo contraste com o verde raro de seus olhos fazendo com que quem os visse, rapidamente, se voltasse para ter certeza de que eram realmente reais. Conforme a claridade, parecia que a menina era cega, tamanha a estranheza daquele olhar. - Vamos! Ande!- já no quintal, a menina, procurando escapar da ordem de voltar cedo, empurra o amigo para fora do portão. -JA-CQUE-LLI-NE !!! Jacque suspira aborrecida olhando de cara feia para o rapazinho como se ele fosse o grande culpado da mãe chamá-la. - O que é, mãe? - Aonde vocês dois pensam que vão tão cedo? - a alta senhora que possui os mesmos olhos da filha, porém de um verde menos raro, olha de um para o outro com as mãos na cintura. - Brincar na praça, ué!!! - Como é que se diz, mocinha? Ela abaixa a cabeça e, com a boca em muxoxo, responde: - Eu posso ir brincar na praça com meu amigo Givan, mamãe? A mãe sorri por dentro, faz uma cara de mais brava e finaliza a dramatização: - Hum, assim está melhor! E não pense que não percebi a má vontade na resposta, viu?! Na próxima vez, quero mamãe querida! Pode ir sim, agora são 8 horas, quero que esteja de volta às 10 h em ponto! Nem um minuto a mais nem a menos, viu... Jacquelline?!! Os dois já corriam em disparada. 4 Uma sombra passa por aqueles olhos maternos enquanto D. Rosa observaos desaparecerem de suas vistas. Procura afastar qualquer preocupação... é muito cedo ainda, tem muitas coisas a fazer durante o dia. A praça fica a poucos quarteirões dali e ocupa o espaço de toda uma quadra. Diferente das outras da cidade aquela era cheia de escadas, pois o local ficava em uma descida enorme. Normalmente era muito visitada por babás e pais que levavam seus filhos para brincarem e maravilharem-se com a fonte luminosa que ficava bem no centro. Com isso, só sobrava isolado, sob uma árvore, um banco vazio que ficava lá embaixo da ladeira, meio escondido por arbustos e algumas flores. Era ali que se sentavam. Na praça, ali era o lugar dos dois amigos. Correram até o banco de costume e se jogaram em meio a risos e brincadeiras. Cansados de tanto gargalharem, Givan observa que Jacquelline olha as borboletas beijarem o perfume das flores recém-abertas pela nova estação. Pensa, nesta hora, que a amiga é saltitante e colorida como aquele inseto. O pensamento o faz rir no silêncio raro que reinava entre os dois. O som inesperado despertou a menina que quis saber do que se tratava aquela risada sem a participação dela. - O que foi? - Nada! - Conte A-GO-RA! - Não conto não! - Gi, conte... por favor! - Ah... bom... agora sim, falou a palavrinha mágica por favor! Ela espera alguns minutos. -Então...? - ...então o quê? - GIVAN GALLE !!! QUER FAZER O FAVOR DE CONTAR POR QUE VOCÊ ESTAVA RINDO!!! - ah... isso!- ele cai na risada e continua calado. - Por que você faz assim comigo? Não quer contar, não conte então!!! Quando percebe que a amiga ficou realmente chateada, ele, já sem achar tanta graça, acaba explicando: -É que você parece as borboletas! -Borboletas? Eu?!! -É, você não pára igual a elas. - Ah é?!! Borboleta, então? Abriu os bracinhos como asas e saiu saltitando, correndo, pulando entre as pessoas. - Gi...Vem voar comigo, vem!!! O menino ficou ali esperando que sua borboleta retornasse ao jardim. Enquanto isso, ria e tentava entender por que achava Jacquelline tão diferente das 5 outras meninas da idade dele. Lembrou-se, então, de quando a viu pela primeira vez. Fora realmente um encontro inusitado. Embora em uma cidade pequena todos se conhecessem, ele ainda não tinha idade suficiente para ter acesso a todos os lugares e pessoas. Foi muito interessante... estava na primeira série da alfabetização, freqüentava o Colégio Cristóvão Colombo. No pequeno município, uma das poucas atrações turísticas que havia era um antigo casarão que pertenceu ao fundador do lugar. Inclusive o nome da cidade, Moinho de Ilusões, fora inspirado no velho moinho que ainda estava em pé nos fundos da construção. Certa vez, a escola organizou uma visita ao tal local para alunos do 1º Ano que fariam um trabalho sobre a fundação da cidade. A professora já tinha explicado no início do bimestre que, no século anterior, o casarão abrigava os únicos moradores da região, os Dutra, explicou ainda que, além de usarem o moinho para moer grãos, ele fora também desenvolvido para serrar madeiras utilizadas na construção da ferrovia que passava pela cidade. Isso trouxera prosperidade à família Dutra e atraíra outras que ali chegavam em busca de trabalho na construção da estrada de ferro. Aquele menino de olhos azuis, pele branca e cabelos negros fazia parte da turma da escola e, como todos no passeio, encantava-se com os móveis antigos, com o relógio que marcava eternamente 18h, com a banheira enferrujada e, principalmente, com a imagem que aparecia pela janela lateral de um dos quartos do fundo. Atraído pela visão, sem que ninguém percebesse, desvencilhou-se da gritaria e falação da criançada e vislumbrou-se em pé, diante daquela Torre enorme, restos do antigo moinho, que apontava para o céu como se fosse uma seta para as nuvens. Percebeu pelas aberturas como janelas que era composto de três andares sendo que, no último, a abertura era tão extensa que deveria permitir que ele visse até sua casa lá embaixo. Quis desesperadamente conhecer o terceiro andar da Torre. Com a entrada aberta, alcançou rapidamente a escada que o levaria ao piso superior e, dali, através de uma das janelas que vislumbrou lá de baixo, pôde ver que ninguém dera por falta dele ainda. Já no seguinte, viu a escada que o levaria ao terceiro andar, tomou coragem e subiu. Lá em cima, qual foi a sua surpresa ao ver uma menina, um pouco menor do que ele, virada de costas, imersa em pensamentos e, no mais absoluto silêncio, contemplando a paisagem aberta a sua frente. Não poderia dizer quanto tempo permaneceu ali sem conseguir desviar seus olhos para a paisagem. Percebeu, de repente, um leve movimento naqueles longos cachos castanho-escuros e deparou-se com dois grandes e belos olhos verdes arregalados: - Que susto! - Oi. 6 Uma fileira de dentes de leite ilumina a face de mármore: -Oi. Você veio com essa turma do Colombo? - É, vim sim. - Como é seu nome? - Givan. - Quantos anos você tem? - Logo farei 8. -Nossa, você é mais velho do que eu!...Vem cá, vem! Sente aqui comigo, me dê sua mão e olhe lá embaixo... aquela ali é a casa da minha vó, ela mora sozinha porque meu avô morreu antes d’eu nascer, os pais de meu pai também já morreram faz tempo, só tenho mesmo minha vó de vó ...a minha casa não dá pra ver daqui não... Gi, está vendo agora aquela nuvem no céu?...não parece uma Estrela? Você não acha? Eu queria tanto ver as Estrelas daqui, deve ser lindo à noite! Mas meu pai nunca deixaria eu sair de casa depois do pôr-do-sol. - Podemos ver, então, o pôr-do-sol daqui. Também deve ser lindo! No meio da Torre, no terceiro andar, havia algo como uma caixa d’água feita de cimento tomando toda a parte central parecendo uma espécie de cama redonda à altura do início das janelas e acompanhando o formato circular do edifício de tijolos à vista. Era de grande valia para nossos visitantes, já que podiam sentar-se e até deitar-se sobre o grande bloco. Já as janelas eram verdadeiros quadros abertos possibilitando a visão de toda a cidade, algumas fazendas e ainda pequenos vilarejos da região. Se deitassem e olhassem para cima, avistariam o velho traçado das madeiras que seguram o teto feito de telhas romanas. Os dois estavam sentados um ao lado do outro, com as pernas trançadas como a meditarem, conversando sem parar como velhos amigos. - Você vem comigo? - Claro, é só a gente combinar, né... - franziu a testa -... como é mesmo seu nome? -Jacque. - sorrindo ela completa - Jacquelline! Você ainda não tinha me perguntado! Minha mãe diz mesmo que falo demais, acho que falei tanto que você nem pôde perguntar... Sua voz é abafada por uma série de vozes a chamarem desesperadamente o menino: - GIVAN!!! GIVAN!!! ONDE VOCÊ ESTÁ?!! Ele já tinha se esquecido completamente com quem viera ali. Antes de ele sair, ela pediu: - Não conte pra ninguém que estou aqui, tá? - Por quê? - Porque só você conhece o meu lugar, Gi. Promete? Deu de ombros rindo: - Tá... tudo bem... prometo! Tenho que ir! Tchau, Jacque! - Tchau, Givan. Ela não desviou seu olhar até que ele desaparecesse pela escada. 7 Os olhos azuis voltam à realidade sem conseguir entender o que fazia aquela menina ser realmente uma borboleta. Não conseguia entender ainda em seus 10 anos de idade, mas um dia ele saberia. 2º CAPÍTULO Desde a visita do colégio ao casarão há alguns anos, eles ainda não haviam conseguido ir à tardezinha para a Torre, embora sempre fugissem para aquele local. Certa vez, porém, o pai da menina foi levar a esposa para uma consulta médica de rotina na cidade vizinha e a filha ficou aos cuidados da avó, que aceitava bem mais os caprichos da única neta. Enfim, o tão esperado entardecer seria apreciado pelos jovenzinhos. Ainda não eram dezessete horas e Givan já estava ansioso pela chegada de Jacque. Em aproximadamente uma hora, lá de cima, pôde vê-la correndo para subir até onde ele estava. - Gi, desculpe, minha vó não queria me deixar sair antes de acabar a lição. - Nossa, cheguei mesmo a pensar que você não conseguiria de novo! - Na minha vó? Lá é bem mais fácil, né? Ela acha que meu pai exagera... aliás, todo mundo acha isso, menos ele !!! E naquela vez ele chegou bem na hora que eu pulava a janela! Lembra que eu fiquei de castigo cinco semanas?! Sem contar a bela grade que enfeita meu quarto! Sem comentários! - Jacque! Não fique tão aborrecida! Pense o lado bom, é mais difícil um ladrão entrar na sua casa! Fazendo cara de nojo: - Até parece! Gi, eu já tenho 13 anos, não sou mais uma criancinha! Sou estudiosa, odeio drogas, nada de namoros! Sei me cuidar, você me conhece! - Fazem isso porque amam você! - Não poderiam, então, me amar um pouco menos? Nunca imaginei que amor demais pudesse fazer mal! - E não faz mesmo! Abaixe as asas, Borboleta. - ele sabia acalmá-la, era só chamá-la pelo apelido de criança que a fazia sorrir. - Agora me fale de você... sua mãe está mesmo grávida? - Não, pelo jeito serei filho único para o resto da vida... assim como você! - Sinto muito, sei o quanto vocês queriam um bebê em casa! -Tudo bem, Jacque! Deus sabe o que faz! Deve ser melhor assim! Talvez seja importante sentirmos que a maternidade depende, principalmente, da vontade Divina. Agora, já que é impossível minha mãe engravidar, meus pais vão aceitar a proposta daquela multinacional, como disse minha mãe... é irrecusável! - Você vai embora então? – a amiga pergunta assustada. - Não, eu não! Só sairei daqui quando me formar! 8 - Já sei... seguirá pelo mundo!... e eu vou sair voando atrás de você! - Se não vier voando, coloco você em uma gaiola e trago junto comigo! – após pararem de rir um pouco - ... ficarei com meus avós, Jacque! - Ah, meu amigo... sentirá muita falta de seus pais, eu sei! - Claro que sim, mas se for melhor pra eles, tudo bem! Já não sou nenhuma criança. - olham-se alguns instantes com carinho - Venha, vamos ver o nosso pôr-do-sol pela primeira vez em nossa Torre. - É, Gi, depois de tantas tentativas... estamos aqui finalmente. Ali permanecem em sagrado silêncio assistindo ao sol-pôr. Somente a brisa marron-amarela do entardecer cobre o inesquecível momento. Às vezes, olham-se descobrindo-se... cada um tentando entender como o outro podia ter tamanha beleza! Às vezes... as palavras escapam... - Gi... -Oi. -Você promete não ver o pôr-do-sol aqui com nenhuma outra amiga? - Prometo. - ele sorriu imaginando que não conheceria outra menina maluca igual àquela que teria coragem de subir naquele lugar tão velho só para ver o entardecer. Às vezes um suspiro atravessava o ar... - Gi... - Oi. -Você promete que quando formos maiores e livres, você me trará aqui para vermos as Estrelas? - Tá. - Tá, não! Tem que prometer. - Tá bom. - Tá bom o quê? - Tá, prometo. O sol já estava quase se pondo. - Gi... -Hum. - Você já viu o mar? - Já, Jacque. - e? - ele permanece em silêncio... - Fale, Gi! - Não dá. - Como assim não dá? - É que ele é... Ele é... a coisa mais linda que a natureza já fez... não dá nem pra explicar! Os dois sorriem. Diante da beleza do pôr-do-sol estavam de mãos dadas como sempre 9 ficavam em momentos assim. - Gi... - Oi. - Promete me levar um dia pra ver o mar? - Você está me fazendo prometer demais! Meus avós dizem que uma promessa é algo muito sério e que a Bíblia diz que não devemos prometer nada! - Minha professora de catequese disse que a Bíblia diz que não devemos JURAR, ela nunca falou nada de PROMETER! Mas tudo bem! Alguns minutos depois... - Gi, vamos inventar uma palavra pra nós dois que tenha um significado muito forte e que não possamos descumpri-la jamais? Assim, não desobedeceríamos nem seus avós nem a Bíblia. - Bem... legal! Deixe-me pensar... posso dar minha PALAVRA DE... HOMEM?! - Não, que eu sou mulher, fica chato! PALAVRA DE ...VERDADE? ... não! PALAVRA DE... MORTE? ... - ...credo!!! Claro que não!!! Precisa ser uma palavra bem forte tipo... Já sei! PALAVRA DE VIDA!... Pronto! É a palavra que só não cumpriremos ou mentiremos se estivermos mortos. - Certo, então, de hoje em diante, se dissermos PALAVRA DE VIDA terá que ser verdade, temos de cumprir e nada pode descumpri-la, somente a morte. Podemos deixar de dizer a frase. Nenhum dos dois pode obrigar o outro a falar, mas, se disser, terá que ser verdadeiro. Doa a quem doer, combinado para sempre? - Combinado. - PALAVRA DE VIDA? - PALAVRA DE VIDA! Quando pararam de rir da brincadeira séria dos dois, Givan viu os olhos verdes de Jacquelline a fitarem os seus, segurou firme aquelas mãos e olhou bem para aquele rosto como se quisesse guardá-lo pelo resto de seus dias. - PALAVRA DE VIDA, Jacquelline, que, quando crescermos, eu a levarei para conhecer o mar. E a escuridão logo desceu naquele lugar. 3º CAPÍTULO Jacquelline e Givan moravam razoavelmente próximos já que em uma cidade pequena, tudo é perto. Porém, estudavam em colégios diferentes. Jacquelline amava a escola que cursava o ginásio. Lá possuía muitos amigos e amigas. Era uma excelente aluna, fazia teatro, participava do time de vôlei e era líder de sala. Todos adoravam seu jeito espevitado, como dizia sua avó. Difícil para seus colegas era não gostarem da presença dela. A menina de verdes olhos era aquele tipo de pessoa rara que não somente olha às pessoas, mas as vê. Ao enxergar qualquer lampejo de tristeza, solidão, 10 necessidade, põe-se prontamente como conselheira, companheira verdadeiramente, uma amiga! Faz isso a velhos conhecidos e também a recémchegados, os quais enternecem o coração da menina por pensar que os mesmos sentem-se estranhos em terra diferente. Assim, conhece muito bem quase todos os moradores jovens da cidade. Mas somente aquele a quem dividiu seu precioso lugar é que a conhece realmente. Neste início do ano letivo- último que Jacque passaria na escola, pois já cursava o 3º ano do Ensino Médio- a mais nova moradora da cidade andava movimentado o colégio CEMI, seu nome é Gizele e entrou para a escola de Jacque. Como sempre, esta fez as boas-vindas à nova amiga e adotou-a para apresentar e enturmá-la até na cidade- se preciso fosse. Acontece que a recém-chegada não necessitava de tanto esforço assim, pelo menos na parte masculina, já que é uma daquelas meninas belas que nasceram, provavelmente, no momento em que a natureza continha toda graça e beleza à disposição da mais nova concepção. Apesar de loira, olhos azuis, o que realmente encantava os rapazes era seu corpo que já possibilitava a visão de uma verdadeira ninfa que desponta. Enquanto a primeira desperta o carinho angelical e amigo de todos, a segunda arranca suspiros e pensamentos pecaminosos por onde passa. Jacque participa da admiração que Gizele extrai. Não pelos mesmos motivos, claro, mas admira seu conhecimento e esperteza que, aliados à simpatia daquela, faz com que a amizade cresça cada dia mais. Com quase dezessete anos, Jacquelline parecia ter menos idade enquanto Gizele, um ano mais nova, aparentava já possuir a maioridade. As duas encontram-se, diariamente, nos intervalos e aulas vagas: - Jacque !!! - Oi, Gi... e aí? Sua mãe deixou você ir lá em casa hoje? - Não! - Gizele fala fingindo um olhar entristecido. - Ah. - Jacque fica arrasada, sem acreditar na resposta. Mas, de repente, a lorinha abre um enorme sorriso: - Mas deixou... AMANHÃ !!! - PERFEITO !!! PERFEITO!!! As duas gritam, e pulam, e se abraçam, fazendo a maior festa arrancando olhares curiosos. Despedem-se combinando os detalhes do dia seguinte que será um feriado municipal por marcar o início da ferrovia na cidade. Jacquelline após chegar do colégio e almoçar, normalmente passa as tardes estudando com Givan, depois os dois seguem visitar seus lugares e Jacque retorna para olhar as Estrelas pelas grades de seu quarto. Seu pai já está menos rígido, isso graças às intervenções da esposa, embora raramente deixe a única filha sair à noite nem nos finais de semana. Quando isso acontece, pode ir somente acompanhada por Givan e depois do patriarca ter confirmado e aprovado o roteiro do passeio. Jacque estava ansiosa para contar ao amigo sobre a vinda de Gizele. Mal 11 terminou de ouvir o diário “Jacquê” e a porta da sala já estava aberta para ele entrar. - A Gi vem aqui amanhã!- foi logo dizendo. - Ai, meu Deus! Até que enfim vou conhecer a famosa Gizele!!! - Vai. Você vai adorá-la! - Sei! Espero que sim! O último amigo que você me apresentou parecia um louco saído do hospício. - Coitado, ele era super problemático com os pais! - E por isso precisava andar só de preto e ouvir aquelas músicas barulhentas horríveis que você não entende nada do que diz, mas sabe que ele reclama do mundo? - É verdade, acho que ficou revoltado mesmo de tanto ouvir aquelas porcarias!!!- o riso é inevitável - Pois será legal, Gi ! Mas vai ser uma confusão daquelas a hora que chamar “Gi”, vocês dois vão enlouquecer... ou eu , né? - Você não! Mais louca do que já é, impossível, Borboleta! E caem na risada novamente. O feriado 20 de março finalmente amanhece e Jacquelline já está em pé por dois grandes motivos: Gizele iria para sua casa e era o aniversário de Givan. Ele completava 18 anos. 4º CAPÍTULO O rapaz morava com os avós desde que seus pais embarcaram para a Inglaterra quando ele ainda tinha quinze anos. Por três vezes já vieram matar a saudade do filho e retornaram à Europa. Claro que realmente sentia muitas saudades, mas sempre fora maduro o suficiente para entender as necessidades financeiras de seus responsáveis. Nunca reclamou disso, estava feliz e agradecido pelo amor dedicado de seus avós. Em troca, respeitava e cuidava dos pais de sua mãe; assim como a amiga, os avós paternos de Givan faleceram há muito tempo. Não prestara o vestibular até agora por sentir-se ainda despreparado e, por isso, iniciara recentemente um cursinho pré-vestibular para ingressar na UNESM, a mais respeitada universidade pública do Estado. Seu sonho era fazer Medicina. Já havia tido alguns envolvimentos amorosos na cidade, nada sério, porém jamais comentou sobre isso com Jacquelline. Por mais íntimos que fossem, sempre que iria tocar nesse assunto, era como se a desrespeitasse de alguma forma e, então, se calava. Naquele dia, sabia que a amiga aprontaria algo, só não conseguia imaginar o que seria daquela vez. Sempre havia uma surpresa diferente. Nos primeiros aniversários, quando ainda eram crianças, chegava na Torre e deparava-se com algum bolo de terra com gramas e flores em cima, sem contar as bolinhas de lama em volta. Segundo ela, uma festa de verdade não poderia deixar de ter chocolate. 12 Logo que aprendeu a escrever, ela assistiu a um programa de TV e imitou a fã de um artista qualquer. Sem pestanejar, pegou o rolo de guardanapos de papel da mãe –disse que não teria coragem de mexer no de papel higiênico- escreveu um monte de FELIANIVE SARIO AMO VECÉ e entregou-o com um laço de fita igual ao que estava em seu cabelo no dia anterior. Mas o mais inesquecível foi quando, já mocinha, levou para a Torre a velha vitrola à pilha, um arsenal de velas que pegou no cemitério e marcou para vo pôr-do-sol. Chegando lá, Givan até assustou-se ao vê-la em pé entre um monte de velas acesas colocadas no pára-peito da Torre. E enquanto tocava sua música preferida, Love is a many splendored thing, Jacquelline, em um vestido enorme da mãe, maquiada, de saltos mais altos que ela, convidava-o para dançar. Naquele dia, ele realmente achou que a amiga devia ter algum distúrbio mental. Infelizmente, desta vez, demoraria a saber o que ganhou neste dia... e o que perdeu. 5º CAPÍTULO A mãe estranhou a filha já estar em pé, vestida e com o quarto impecável. - Ué... vai chover hoje? - Não, mãe, o dia parece tão claro! - Pois acho que vai cair uma tempestade! Nunca vi o quarto da senhorita tão bem arrumado e tão cedo!!! - Ah, mãe... hoje é o níver do Gi! - Minha nossa, já? - Mãe, eu falei a semana toda! A senhora esqueceu? - Eu... aniversário do Gi ?...nem lembrei! - Mãe, não brinca! Lembra que a senhora vai fazer aqueles bombons de coração que pedi? - Eu?!!! Não lembro não! Jacque ficou branca: - Mãe, por favor, eu pedi tanto!- já ia chorar quando a mãe sorri e aponta para o refrigerador. - Eita, menina boba! Claro que fiz, estão prontos já. Olhe ali, na geladeira, na caixinha de coração que você me deu pra colocá-los. -Ah, ufa! – suspirou aliviada abrindo a caixa - Obrigada, mãe, estão perfeitos!!! Agora só falta eu arrumar o resto. - Que resto? - Vou escrever letras em cada bombom com fios de ouro que comprei com o dinheiro da mesada deste mês. Escreverei A M O V O C Ê. - Pra isso você precisaria de sete bombons, por que pediu vinte? - Pra eu comer também, né?! Ainda bem que pedi bastante. Como a Gizele estará aqui, dividirei com ela. Vou pegar os fios, já volto! - Pra que tanta pressa? Já de volta: 13 - Porque preciso arrumar o resto. - Ainda tem mais? - Sim, como não podemos beber álcool, vou colocar refrigerante naquela garrafa de champanha que guardei do Natal, lembra? E aí, a senhora vai me avisar quando ele chegar e estarei no quarto, pronta quando ele abrir a porta. Vou ligar uma música linda que separei pra ele e farei a surpresa! - Como assim “estarei pronta”? Você já está pronta, não está? - Claro que não né, mãe?!! - Jacquelline, nada de pegar minhas roupas de novo, por favor! - Não, mãe, eu vou usar aquela roupa do Natal, mas com um acessório que fiz especialmente pra esta data. Então, separei a sua somente pra minha amiga. - O quê?!! - Mãe, a Gizele vai estar aqui também, então, ficaremos lindas pra ele. Por favor, a senhora empresta aquele vestido azul que a senhora tem? Por favor, mãezinha querida... por favor... por favor!!! – não contou que Gizele fizera questão de usá-lo uma vez que já vira a mãe da amiga usando-o em um jantar beneficente há poucos dias na escola e soube que ficaria perfeito em seu corpo. Após uma série de beijos e abraços, a mãe finalmente concorda: - Mas só o vestido, heim... nada de meus brincos e colares! - Pode deixar! A mãe, pensativa, via a filha absorta na escrita com os tais fios dourados, precisava conversar com ela... não sabia se era o momento... mas aquilo estava indo longe demais. - Filha... - hum... - Sente aqui um pouco. Jacque voltou-se e viu que a mãe estava preocupada com algo. - O que foi, mãe? Preocupada? - Sim, filha... preocupo-me com você. - Comigo? Por quê? A mãe dá um suspiro ainda indecisa se deve ou não falar. - Mãe, fala! A senhora já está me deixando aflita. - Bem... você e o Givan... - O que é que tem? - Você sabe que ele quer fazer Medicina, não é? - Claro que sei, mãe! Torço muito por ele! - Você sabe que ele fará faculdade em outra cidade, não é? - Sim, sei, em Mourão, vai ser super corrido, mas eu darei a maior força, estarei sempre pronta pro que ele precisar! Posso até ajudar em algo... não sei ainda... só quero estar com ele nessa hora... já pensou ele médico, mãe?!... - Filha, me escute!... Você sabe que ele pode conhecer alguém... - mas a menina não escutou o final da frase, pois a tão esperada Gizele acabava de chegar e gritava lá do portão. 14 - JACQUELLINE!!! JACQUEEE!!! CHEGUEI !!! 6º CAPÍTULO As duas fazem a maior festa! A visitante conhece o Givan de tanto a outra falar e se sente até íntima dele antes mesmo de vê-lo. Gizele já sabia da surpresa e logo seria a hora combinada do aniversariante chegar. As duas trancaram-se no quarto em meio a roupas, sapatos, maquiagens, bombons e músicas. Muito tempo depois, tudo já estava pronto, só faltava aguardar a grande presença. Jacque conferia as letras dos bombons pela última vez enquanto Gizele se olhava no espelho a confirmar se os fios de seu cabelo longo e dourado estavam impecáveis: - Jacque? - hum... não sei se coloco-os perto da garrafa de champanhe ou se os seguro com uma mão? - Deixe-os aí e me diga uma coisa. - a loira precisava confirmar suas suspeitas. - O quê? - Você é apaixonada pelo Givan, sabia? - Eu?! - Sim, você! Sério... Você sabe disso? Jacque com um suspiro senta na cama, olha para as pequenas mãos em seu colo e responde voltando– se para a amiga: - Sim, eu sei! Eu o amo desde o momento em que o vi pela primeira vez. Acredito mesmo que já o amava desde que nasci, só não sabia definir o que sentia e a quem seria. Acho que sentia que em algum lugar mágico apareceria... assim como foi. Sei lá... loucura, acho! - O que vai fazer? Jacque espanta-se com a amiga: - Como assim “o que vai fazer”? Acha pouco amá-lo? E o que é que eu posso fazer além de amá-lo? - Alguma coisa, ué! Declarar-se, beijá-lo, agarrá-lo! - Você é louca? Jamais faria isso, acho que nem tomando um porre faria algo parecido! - Ah, faria sim, minha amiga. Tomando um porre, com certeza, faria! As duas riram imaginando o ridículo de uma situação assim. - Mas, Jacque, você pensa em fazer algo? - Não, Gi, o que posso fazer é esperar e continuar amando-o. - Esperar o quê? - Esperar que ele me queira como mulher! Esperar que, assim como eu, ele saiba que nascemos um pro outro. Esperar que ele esteja pronto pra mim. 15 - E se isso demorar anos pra acontecer? - Eu não sei... nunca pensei nisso. - Já pensou se ele encontra alguém?- um sorriso estranho pairava em seus lábios. Jacquelline não consegue responder, está quase chegando a hora da grande surpresa. 7º CAPÍTULO Givan entra na casa e é recebido pela mãe de Jacque que fica conversando com ele enquanto bate de uma forma diferente nas panelas fazendo um barulhão danado que repercutiu por toda casa e chegou ao quarto das meninas como um aviso para que ficassem atentas. O aniversariante chegara! Ele já sabia que D. Rosa estava proibida de cumprimentá-lo - até a surpresa, pelo menos- isso para que ele pensasse que todos esqueceram seu aniversário. Jacquelline agia assim desde que se conheceram. Ele só se perguntava, às vezes, se realmente ela o achava tão bobo a ponto de acreditar nisso todos esses anos. A sorridente senhora o encaminha ao quarto e ele vai até lá imaginando se a surpresa seria ali, na Torre, no banco da praça, na escola, em sua casa, na Igreja... Onde seria desta vez? E o quê? Abre a porta e, imediatamente, uma música maravilhosa inunda o ambiente enquanto ele olha primeiro para Jacquelline em seu vestido verde - caído nos ombros, rodado, um pouco acima dos joelhos - donde delicadas flores bordadas brilhavam confundido-se com o brilho de seus olhos. Usava um sapatinho parecendo de cristal e em suas costas ele vê duas asas da cor do vestidoBorboleta!!! Não conteve um sorriso. Ela segura uma taça em cada mão oferecendo uma a ele como se brindasse a sua presença no mundo... a sua presença em seu mundo! Aceitou a taça sem voltar os olhos e sem tirar o sorriso dos lábios. Olhou para o móvel próximo à amiga, onde viu os bombons com a mensagem de Amor e, ao lado, uma garrafa de Dom Pérignon... voltou-se para olhar Jacquelline novamente e o que viu foi uma figura majestosa no fundo do quarto. Parecia um quadro raro... Gizele estava em pé a fitá-lo com aqueles magníficos olhos que se misturavam ao azul do vestido que lhe emoldurava o corpo perfeito. Givan sentiu um calafrio subir-lhe pela espinha e não conseguiu mais tirar os olhos daquela beldade. Após o término da música, Jacque abraça-o e toma a mão do rapaz para levá-lo até a amiga. - Gi, esta é a Gi ... e, Gi, este é o Gi. Sem conter o riso, o belo homem cumprimenta a nova mulher sem deixar de perceber que mais perto era ainda mais bonita. Os três passaram a manhã naquele quarto. Sentaram-se no chão, próximos 16 ao aparelho de som, e fizeram um verdadeiro piquenique no tapete, esqueceram até de deixar chocolate para D. Rosa. Dali, abraçadinhos - o rapaz entre as duas belas mulheres- partiram para a casa do aniversariante. Haveria um almoço para ele. - Legal você, Jacque!!!- ele disse com um toque de ironia, como se estivesse ressentido com ela. - Por quê? O que foi que eu fiz? - Jacque o olhou preocupada. - A senhora me dá de presente a sobremesa antes do almoço!!! - Ah!!!- respira aliviada, pois o que menos queria era aborrecer o amigo com qualquer coisa. O dia foi muito divertido, mais um aniversário feliz ao lado de Jacquelline. No entanto quem não saía da cabeça de Givan era a beldade loira de olhos azuis. 8º CAPÍTULO - Gi, olhe lá... você está vendo que tem um buraco no teto? - hu-hum...eles precisam reformar isto aqui. - Por mim reformariam todo o resto também... se eu pudesse, plantaria uma infinidade de margaridas ali embaixo, em volta da Torre, e, por toda varanda do casarão, encheria de orquídeas! - Orquídeas e margaridas?- ele fez uma careta. - Sim, ué...o que é que tem? - Sei lá... parece que não combina muito. - O único problema disso tudo... até de só reformar aqui, é que os outros descobrirão nosso lugar e virão sempre pra cá. Mas daí fecharíamos a Torre só pra nós.- ela riu com a idéia - ... e quem a gente quisesse que passasse, né?! - é...pode ser... - e nossa Torre seria mesmo sagrada! - É. - Gi, qual é o problema? Eu sei que você não está bem. Os dois estavam deitados olhando para o teto da Torre de mãos dadas. Neste momento, ele se deita de bruços olhando para ela e sorrindo: - Nada! E a Gizele? - Ah...ela adorou você! Quem não o adora, né?! - Também gostei muito dela... - Eu não disse?!! - ... e quando ela volta aqui? - Não sei, a mãe precisa deixar. - Quantos anos ela tem? - Dezesseis. -Só isso?!! É dois anos mais nova que eu e um ano a MENOS que VOCÊ?!!! 17 - Não parece, né? - Não mesmo!!! Jacque percebeu uma ironia estranha na voz dele. - Não entendi seu sarcasmo. - Ué...nada...só disse que não parece, você parece mais nova que ela...só isso! - Nossa... você está estranho mesmo, não falei? Deve ser a idade...está ficando velho! O riso retoma a antiga afinidade entre os dois. - Sábado é a festa do colégio, lembra? Por favor, Gi, me leve...por favor! Faço qualquer coisa!!! Até resumos de História pra você... - Tudo bem, eu vou!...e esquece os resumos, não precisa... pode deixar, falarei com seu pai. Agora é a vez de Jacque se levantar e olhar para ele: - Tão fácil assim? Você está realmente diferente! Mas...adorei!!! Obrigada!!! – termina a conversa com os famosos beijinhos e abraços de agradecimento. O futuro universitário era muito responsável para dirigir um carro sem carteira de habilitação que agora poderia tirar já que acabara de atingir a maioridade. Sem ela, no entanto, levava e trazia Jacquelline a pé para casa. Sorte deles é que tudo era muito próximo. O clube onde seria a festa era mais perto da casa de Jacque do que até mesmo da dele. 9º CAPÍTULO Sábado, após toda recomendação do pai da jovem, os dois saem na expectativa de uma noite diferente na pacata cidade. Ambos já têm traçados seus planos para noite, embora com personagens diferentes. A festa segue seu rumo no clube mais elegante da região. Os bailes, ali, eram muito famosos pelo sucesso de grandes orquestras que encantavam a todas as idades. Jacquelline não parava um minuto sequer de dançar. Adorava, principalmente, as músicas dos anos 60 e bolero. Givan nem tanto, mas não se negava a fazer par com a amiga nos momentos em que a melodia exigia dançar a dois. Assim que chegaram, foram recebidos por um batalhão de amigos de Jacque que a carregou para o meio do salão, pois a música de Elvis Presley alegrava aquele momento e ela não podia estar de fora. Os olhos azuis correm o salão à procura de outro par de olhos como os dele. Encontrou-os a fitá-lo. Gizele, sorrindo, veio ao seu encontro e, devido ao barulho, saíram para o jardim ficando próximos a um chafariz. O garçom serviu duas taças de refrigerante e deixou-os a sós. - Você está linda, Gizele! - Obrigada, Givan. Você também está extremamente elegante neste 18 sobretudo preto. Intensifica o seu charme. Beberam sem desviar o olhar um do outro. A música ali não era tão intensa e os dois puderam se conhecer um pouco mais. Os olhos do homem brilhavam em cada sorrir da mulher e a intensidade do brilho daqueles lábios confundiam-se com as lâmpadas que iluminavam o jardim. Esquecidos de qualquer olhar vigilante, viram-se abraçados, envolvidos pela música romântica que acabara de iniciar. Apertando aquele corpo junto a si, sem tirar os olhos dos rubros lábios que se entreabriram para recebê-lo na ânsia sensual de feminilidade, cobriu-os sem qualquer vestígio de pudor ou inocência. Envolvidos um nos braços do outro não puderam perceber um sorriso desfeito por um par de olhos verdes que nublaram-se diante da primeira visão de dor. A orquestra ainda não terminara a música Without You de Mariah Carey e Jacquelline já estava trancada atrás de uma das portas do banheiro feminino. Ali não sabe quanto tempo permaneceu tentando enxugar as lágrimas que escorriam enquanto a imagem de seu melhor amigo beijando sua melhor amiga não saía de sua cabeça. Algum tempo depois, pôde se acalmar. Lavou o rosto e abriu caminho entre garçons e cozinheiros. Sem que ninguém reparasse, conseguiu chegar ao portão dos fundos do salão. De lá, alcançou a rua e, segurando seus sapatos, arrastou-se em direção às grades de seu quarto. O pai dormia profundamente e foi a mãe que abriu a porta para a filha entrar em casa. Esta, de olhos baixos, sussurrou algo como boa-noite e fugiu para o quarto onde entrou e trancou a porta por dentro. A mãe olhou em volta e viu que a filha viera sozinha. Em uma dor profunda, alerta seu coração que o tão temido momento havia chegado, Jacquelline conheceu a dor de amar em solidão. Segura entre seus lençóis, Jacque deixa que todas as lágrimas reprimidas naquela noite escorressem livremente em sua face. Aperta o peito com as mãos em punho como se, assim, pudesse estancar o sangue que escorre de sua alma e diminuir a dor profunda que a apunhá-la. Nada a faz melhorar. Jacquelline Vale adormece junto ao nascimento do sol. 10º CAPÍTULO Givan estava encantado com a mulher em seus braços e o beijo arrebatara todos seus desejos masculinos. Continuaram ainda algum tempo no jardim e, após longos beijos e promessas feitas de um novo encontro, decidiram entrar novamente no salão e procurar Jacquelline. - Me leva pra casa, Givan?- ainda está em seus braços e fala entre beijinhos na ponta do nariz do novo namorado. - Está bem, deixo a Jacque e depois a levo. 19 - Talvez um outro amigo possa levá-la. - Não, Gizele, eu devo levá-la. A beldade vê-se impotente e concorda: - Tudo bem, querido. Já andavam há meia-hora pelo salão e não a encontravam. O rapaz já estava ficando preocupado: - Você viu a Jacque, Alexandre? - Vi, mas já faz um tempão, veja se ela não está lá com a Valéria Natal. Talvez esteja do outro lado. - Valéria, você viu a Jacquelline? - Agora não! Faz algum tempo que a vi indo em direção ao banheiro, mas isso já foi há umas duas horas. Ninguém sabia de nada. - Querido, acho que ela encontrou alguém e está namorando como nós. Givan ri nervosamente. - A Jacque? Ficar com alguém sem falar nada pra mim? Nunca! - Ué...você ficou comigo e não disse nada a ela! Ele não tinha se dado conta disso ainda, reflete por um momento, mas está preocupado demais para pensar mais profundamente na verdade que acabara de ouvir. - Vamos embora, preciso procurá-la! - Embora? Agora? Não, é muito cedo! - Precisamos encontrá-la! Entendeu, Gizele?!! Gizele já imaginava o que acontecera, conhece muito bem as pessoas e gente como a Jacquelline era fácil demais prever os pensamentos. A amiguinha estava no salão, a música lenta começou a tocar, ela veio buscar o amigo para dançar - como sabia que faziam - e deparou-se com os dois se beijando. Correu para casa chorar as mágoas pelo amado. Pura comédia romântica! Só que isso não era motivo para estragar o seu baile. Pensou melhor em como devia portar-se diante do namorado e resolveu suavizar a situação: - Querido, vamos fazer assim... vá à casa de Jacque e veja se de repente ela não se sentiu mal e resolveu ir embora sem aborrecê-lo. Enquanto isso, eu fico aqui procurando por ela. Agora, se eu não encontrá-la e ela não estiver em casa, iremos à polícia então. O que acha? - Acho que você está certa! Irei até lá e depois volto para contarmos o que descobrimos. - Oh, querido... Despedem-se com um rápido beijo nos lábios. 20 11º CAPÍTULO D. Rosa ainda está perdida em pensamentos contemplando a noite pela vidraça da janela da sala quando percebe uma figura conhecida abrir o portão e dirigir-se à entrada. Antes que batesse, ela abriu a porta: - Boa-noite, Givan. Jacquelline está bem, fique tranqüilo. - Mas...o que houve? Por que ela veio embora sem me avisar? - Ela estava com dor de cabeça... muita dor de cabeça! E não encontrava você no salão. Precisava, urgentemente, de uma aspirina. Pediu para que eu me desculpasse. Disse que estará melhor amanhã. - Posso vê-la? - Melhor não...ela acabou de dormir. Outra hora vocês conversam. O rapaz ainda hesita, mas desiste: - Boa- noite, Dona Rosa. - Boa- noite, Givan. A mãe retorna à sua poltrona e fica olhando pensativa para o rapaz que desaparece na escuridão da madrugada. O cansaço toma conta do corpo do jovem que passa no clube rapidamente e segue sozinho para casa. A namorada disse que havia combinado com a mãe de esperar a vizinha para ir com ela já que não sabia que ficariam juntos e a outra queria ficar mais algum tempo no baile. O rapaz acaba tendo uma noite estranha, perturbada e não sabe por quê. Sente que algo não está bem... Devo estar adoecendo... deve ser gripe... é... deve ser mesmo uma gripe muito forte! 12º CAPÍTULO Nos dois dias que se seguiram à trágica noite, Jacquelline mal saiu do quarto. Falou à mãe que estava doente, possivelmente com virose, e que não queria ver ninguém para não passar a doença aos outros. D. Rosa fingiu acreditar e desde então tem evitado as visitas para a filha. Mas já era o terceiro dia, hora de ressuscitar. Precisava fazer alguma coisa. - Filha, abra a porta. - Está aberta, mãe... pode entrar. Encontra Jacquelline, de pijama, deitada na cama, olhando o dia lá fora pela vidraça ainda fechada. - Vamos abrir as janelas, filha...precisamos de novos ares. Só, então, Jacquelline volta os olhos inchados para a mãe: - Tanto faz, mãe. Após refrescar o quarto, a sábia mulher senta na beira da cama, segura as mãos da filha e resolve que é hora de falar: - Filha...eu sei o que aconteceu. 21 Estranhando: - Sabe?...Como? - Não sei exatamente, mas imagino....Eu sei o quanto você o ama, Givan estava com alguém, é isso? Jacque abaixa os olhos que se enchem d’água. - sim...com a Gizele. Por essa a mãe não esperava. Então foi pior do que ela imaginara. A filha sentia-se traída pelos dois melhores amigos que tinha. - Entendo, filha. Sei o que você deve estar sentindo ...mas...você alguma vez contou seus sentimentos ao Givan? - a ele não, mãe...nunca tive coragem. – cansada continua após um suspiro - mas ela sabia o que eu sentia por ele. Silêncio. - O que dói, filha? É a traição de uma amiga que ficou com o rapaz que você ama? Jacquelline mexe a cabeça negando...novamente os olhos estão rasos d’água. - O que me dói....é perdê-lo. - Filha, mas você não perdeu nada! - Perdi, sim, mãe...nunca, jamais terei coragem de tirá-lo de alguém.... - filha... - e... se ele ficou com alguém, é porque não me ama. - filha...às vezes amamos alguém e não sabemos que amamos. - Como pode, mãe? Como não saber que sente um sentimento tão grande assim? - Alguns não conseguem ver o que sentem, filha... alguns não conseguem.... Sabia que a filha não entenderia o que nem ela entende muito bem. Deixou que a menina se aconchegasse em seu colo para dali nascer novamente para os novos rumos que sua vida iria tomar. 13º CAPÍTULO Nesse mesmo dia, Jacquelline ligou para Gizele e pediu que viesse até sua casa para conversarem. Esta conseguiu autorização da mãe e em menos de uma hora estava na presença daquela. Jacquelline passou a usar todo seu talento teatral para as decisões que tomaria dali em diante. - Oi, Gi.... fiquei tão doente do baile pra cá. Tudo bem? E as novidades? Gizele tenta observar algum brilho irônico ou sarcástico no olhar de Jacque, mas não consegue: - Tudo! Preciso contar uma coisa que está me deixando muito apreensiva. - Conte. 22 - Eu e o Givan estamos namorando desde o baile, você sabia? Jacquelline busca todas as forças de sua alma e sorri abraçando-a: - Que legal, Gi... Só espero que você o faça feliz! - Mas...Jacque... - ...mas o quê? - ...e o que você sente por ele? - Ah...não se preocupe! Aquilo que conversamos era somente coisa de criança! Cheguei a pensar que ele era o homem da minha vida, mas isso é bobagem...claro que não. Somos somente amigos, nada mais! - Sério? - ...sério. - Você não está brava comigo? - Claro que não... essas coisas do coração não se escolhe. – nesta resposta, ela estava sendo totalmente sincera. - Bem... então se você não o ama, mas é amiga dele... me ajuda então? - Ajudar?!! - Sim, ué...você não disse que não o ama? Então, pode muito bem me ajudar. - C-C-Claro – por essa Jacque não esperava. - Se não me ajudar é porque ainda gosta dele. - T-Tá...ajudo, sim.- suspira a antiga menina de laços de fita e olhos cor das matas. Jacquelline inventa uma desculpa qualquer e Gizele vai embora dali. Ainda faltava a parte mais difícil. Já estava no portão quando ouve a mãe chamá-la: - Aonde vai, filha? - À Torre, mãe. 14º CAPÍTULO Os olhos azuis parecem querer sorver a alma dos esverdeados. - Fala o que aconteceu. - Nada, Gi...minha mãe disse que explicou a você. Me senti mal e fui embora. - PALAVRA DE VIDA? Ela baixa os olhos em silêncio. A menina está amedrontada demais dele descobrir seus verdadeiros sentimentos que não se dá conta de que algo o está intrigando mais que tudo. - Você estava com alguém, Jacque? É isso? A surpresa da garota é tão grande que chega a rir da pergunta. Observa e percebe que realmente ele não enxergou ainda a imensidão do Amor que sente por ele. Em segundos pensa que talvez a idéia de um outro alguém 23 seja realmente um escudo para preservar seus verdadeiros sentimentos. Assim, ele acreditando que ela é atraída por outros e a namorada dele imaginando que ela não o amava, poderia estar perto dos dois sem expor situações embaraçosas para todos. - Sim, Gi...talvez tenha alguém. Givan baixa os olhos rapidamente sem saber que sensação estranha era aquela que tomava conta de seu peito. Era aquela maldita gripe que voltava! Só podia ser! - Quem é, Jacque? E agora? Quem ela diria?...pensou, então, em um menino do colégio que sempre tentara algo.... - O Nato. - O Renato? - Sim, ele mesmo. - Você disse que não queria nada com ele! - Porque não sabia que era ele. - Que era ele o quê? - Que era ele o homem da minha vida. -E o Renato é o homem de sua vida? – ele parecia incrédulo Jacque...responde....é ele o homem de sua vida? PALAVRA DE VIDA que acredita nisso? Sem fitá-lo, sem confirmar suas palavras, ela sussurra: - S-Sim....acho que sim!- tentando romper a tensão levanta os braços e sorri - Ah!...Gi... me conte você de seu namoro e... - Jacque, como procurou pelo Amor? Como sabe o jeito que esse homem seria? Quem disse que o Renato é o homem de sua vida, pelo amor de Deus? Enlouqueceu de vez? Ele é um conquistador barato que já fez a ex-namorada passar horrores em suas mãos e agora escuto essa barbaridade de você?!! - Ainda não sei de nada agora não!!! Pare!!! Por favor !!! – estava prestes a romper em lágrimas. - Pense em como deve ser o homem de sua vida. O homem a quem se entregará e ficarão juntos até o fim! - passou nervosamente uma das mãos pelos cabelos negros – Jacque, pense bem! Não vá se envolver com alguém como ele, por favor! Após um longo suspiro, Jacquelline a fitá-lo profundamente, sem se importar com as lágrimas que escorriam, relata um pouco dos únicos sentimentos que jamais tivera coragem de dividir com ele: - Givan... eu sei que o homem que eu amo e espero me amará assim que olhar em meus olhos e me reconhecer. Eu sei que ele saberá que a única pessoa neste mundo que o completa e o conhece sou eu e que ele é e será o único que me conhecerá. Sei que ele falará comigo com voz terna e que quando olhar pra mim será como se o céu estivesse me fitando. Sei que sentimos um Amor tão profundo que jamais nos esqueceremos... que o tempo e até a morte poderá chegar e, ainda assim, nossas Almas estarão ligadas uma à outra. PALAVRA DE VIDA ... que é ele 24 que eu amo... PALAVRA DE VIDA que ... é ele que buscava ao nascer... PALAVRA DE VIDA que ... é ele que encontrei! Givan a olha de um jeito diferente como se nunca a tivesse visto antes. Parecia que levara uma bofetada, estava corado e respirando com dificuldade. - E este homem é o Renato, Jacquelline? Antes que pudesse responder, ouviu-se uma voz a gritar lá embaixo: - GIVAN!!! JACQUELLINE!!!! VOU SUBIR AÍ!!!! Era Gizele que vinha à procura do namorado. 15º CAPÍTULO Os dois amigos de infância nunca se sentiram tão pouco à vontade como naquele momento. Gizele, assim que saiu da casa de Jacque, foi direto para casa do namorado. Lá foi avisada pela avó do rapaz que ele fora à Torre conversar com Jacquelline. Ela não perdeu tempo e, imediatamente, pensou que seria melhor impor sua presença naquele local sagrado. Enlaçada ao namorado, Gizele parecia encantada com a visão que tinha da cidade. - Nossa! Sempre quis vir até aqui! Você me falava tanto deste lugar, Jacque! Mas é mais bonito do que eu imaginava! - Lindo mesmo... a cidade até parece mágica! - Você disse que via a casa de sua vó daqui... qual é a dela? Desanimada, a amiga mostrou ao longe uma casinha simples de madeira, a única daquele quarteirão sem antena de TV no telhado. - Minha avó não gosta de modernidade. – explicou ao perceber o olhar curioso da colega. - Agora eu sei onde é, já vi a casa de sua vó porque minha mãe sempre visita uma amiga que mora ali perto, a dona Eurides, conhece? - Claro, é comadre de minha mãe. A loira virou-se para o rapaz: - Então, querido... você já contou tudo sobre nós pra Jacque? - Não, Gizele....ainda não conversamos sobre isso. - É que acabamos de chegar...estávamos falando de como passei mal no baile. - Pois, Jacque... ele me disse que desde a surpresa que não saio da cabeça dele. O olhar dos dois se encontraram e uma pontinha de tristeza toca o coração dele ao olhá-la, Jacquelline precisa sair antes que seus olhos a traiam. - Desculpem-me...mas ainda não estou muito bem...preciso ir. - Tudo bem, amanhã a gente se fala na escola. - Espere, Jacque...eu levo você. - Melhor não, Gi... fique com ela... afinal, é a primeira vez que você se encontra com outra mulher em nossa Torre. 25 16º CAPÍTULO O namoro era oficial e Jacquelline jamais se intrometeria entre os dois. Mesmo Givan namorando, tentavam ainda ficarem juntos como nos velhos tempos, embora muitas coisas tivessem mudado dentro de cada um. Nas tardes, enquanto estudavam, percebia várias vezes ele distrair-se e ficar olhando para ela longos momentos. Ela fingia não perceber, não tinha coragem de fitá-lo, pois sabia que seus olhos suplicariam Amor. E isso não tinha mais o direito de pedir já que ele dedicara-o a uma outra pessoa. Algum tempo ela ainda relutou em voltar à Torre, era como se alguém tivesse maculado seu paraíso, mas depois voltara a freqüentar o lugar. Certa vez seus pais haviam feito uma pequena viagem e ficaria novamente na avó. Era a chance que tinham de verem as Estrelas de lá. Ele a apanhou e foram abraçadinhos até o local que conheciam tão bem. Permaneceram horas ali, deitados, de mãos dadas a olharem o céu aveludado que os cobria. Desta vez o primeiro a cortar o silêncio foi ele: - Jacque... - Oi... - Não a beijei aqui. - Tudo bem, Gi. - Saímos imediatamente após você descer. - Não se preocupe comigo - a voz já estava meio embargada pela emoção que aumentava. - Eu não sabia antes, mas... amo você, Jacquelline, e agora sei que me ama também. Tudo o que você disse não sai de minha cabeça... é como se não tivesse visto o que agora está muito claro... - por favor... - Sei que deve ser difícil acreditar, mas é verdade... eu a amo realmente... se algum dia duvidar de meu Amor, é só olhar o céu à noite, enquanto existirem Estrelas no céu ainda haverá o meu Amor por você. - Por que então?- as lágrimas escorrem no silêncio. - É você que eu amo, é você que eu quero, é você que eu preciso, mas não é o momento de ficarmos juntos... não me pergunte...só sei que não é o momento.... Silêncio. - ....me espera...- disse acariciando-a com tanto carinho e delicadeza que ela sabia que, se olhasse para ele, seria beijada. ...lágrimas rolam de seus olhos em silêncio... Não tinha coragem de virar-se! 26 17º CAPÍTULO Os momentos de Givan e Jacquelline eram divididos com a escola, os deveres familiares e o namoro. Ela praticamente não saía mais nos finais de semana. Algumas vezes, quando havia alguma festa, o casal de namorados a levava ao local e, no horário combinado, voltava para apanhá-la. Enquanto isso, normalmente tentava distrairse, embora a imagem do beijo no baile e as últimas palavras dele na Torre não saíssem de seus pensamentos. Enquanto estavam juntos, sozinhos, esquecia-se de qualquer tristeza, mas vê-los entre beijos e abraços estava ficando cada vez mais difícil de suportar. Tentava manter a amizade com a namorada do amigo na escola, mas ouvila falar o quanto era desejada e como eram maravilhosos os beijos de amor dos dois não era nada agradável. E, desde que as duas conversaram, a loira levou a sério o pedido de ajuda que fez para Jacque. Poucos dias antes da Páscoa, a beldade conversava com a amiga enquanto esperava o namorado apanhá-la: - Jacque, quero muito ir ao jantar dançante que haverá sábado de Aleluia, mas ele não. - Ah, eu também não quero não. - Mas, Jacque, você precisa me ajudar. Por favor, se você disser a ele que quer ir, como seu pai só deixa sair com ele, claro que não negará. - Mas eu não quero ir! - Bem...depois que ele acertar tudo, no dia, você não vai então. Daí ele não terá coragem de não ir comigo. - Eu jamais faria isso com ele, Gizele. Enlouqueceu? - Mas isso é ajudar uma amiga. - Enganando ele? - Olha, está combinado, faremos isso agora, assim que ele vier me buscar. - Eu não vou fazer isso! - Eu falo com ele, deixe! - Olha, o que eu posso fazer é conversar com ele e tentar convencê-lo a levá-la ao baile. - Não...aí é ruim pra mim que sou a namorada. Ele pode ficar meio decepcionado. Como você não o ama, não há problema algum em pedir. Ou você não quer dizer por que ainda gosta dele? - Não é nada disso, Gizele. Não é certo isso! - Oi, querido – mal o namorado chegou, ela já se jogou em seus braços e o recebeu com um beijo demorado na boca – olha, a Jacquelline está com vergonha de pedir ... - O quê?...- Jacque só imagina o que a outra está dizendo, tenta impedir, mas a garota continua. - ... mas ela quer ir ao jantar no sábado e pediu pra nós dois a levarmos já 27 que o pai dela só deixa sair com você. - Eu não quero ... Gizele não a deixa continuar: - Ela está com vergonha de pedir agora que estamos namorando. Mas eu já disse a ela que não há problema. Não é, Gi? - Claro que não, eu a levo sim. Jacquelline não sabia o que dizer, se abrisse a boca seria para insultar a namorada do amigo. Mas isso o entristeceria e era tímida demais, certinha demais com os outros para saber como agir em uma cilada dessas. Sentia-se totalmente impotente. Mas o pior ainda estava para acontecer. 18º CAPÍTULO A ninfa era filha de pais separados e vivia com a mãe. Diferente das famílias provincianas, os limites femininos há muito não existiam para a beldade de olhos cor do céu. A perda da inocência ainda muito jovem deixava-a irresistível à maioria dos homens, mas não era isso que atraía aquele que Jacquelline amava. Ele envolveu-se profundamente com Gizele, gostava dela realmente, gostava muito além da simples atração física, respeitava-a. Não aceitava alguns de seus pensamentos e atitudes e, vendo que isso poderia prejudicá-la, adotou-a como príncipe encantado e acreditava mesmo que deveria salvá-la. Por isso, pedira a seu grande Amor que o esperasse. A jovem menina de olhos verdes, já que iria ao tal jantar, resolveu comprar uma roupa nova para a noite. Escolheu, desta vez, algo mais ousado. Nestes últimos meses, as curvas de seu corpo, antes muito magro, começava a despontar. Escolheu um vestido verde- escuro que deixava grande parte das costas livre. Na frente, de um leve decote, saía o tecido que envolvia delicadamente os seios da menina e enlaçava-se atrás do pescoço descoberto pelo penteado. Era longo e a abertura em uma das pernas realçava as novas linhas de seu corpo. Para a festa, prendeu os cabelos em um coque no alto da cabeça e deixou que caíssem alguns pequeninos cachos próximos à orelha para emoldurar-lhe a face. Estava belíssima! A criança, enfim, apresenta a bela mulher que se transformaria. Haviam marcado às 21 h. Givan e Gizele a buscariam em casa e iriam ao tal jantar. O pai estava viajando a negócios. Ultimamente não parava quase em casa. Esperava o amigo enquanto conversava sobre o futuro com a mãe: - Mãe, mas há a possibilidade do papai ir trabalhar na matriz da fábrica se a daqui fechar? - Sim, filha... é quase certa a transferência. Vamos torcer pra fábrica daqui não fechar! Estão fazendo o que podem pra salvá-la. Mas tudo anda tão difícil ultimamente... 28 Já eram 21:18h e eles ainda não tinham chegado. Jacquelline, através da janela da sala, não tirava os olhos do portão. De repente, pára um carro e sai um rapaz em direção à casa delas. - Que estranho! - O que, filha? - ENTRE - a menina grita para alguém lá fora. – Mãe, é o Renato que está aqui... Oi, Nato... aconteceu alguma coisa? - Não, o Givan e a Gizele já foram ao jantar e pediram para que eu a buscasse já que estou com o carro de meu pai. Minha nossa, você está linda!!! - Obrigada! – agradeceu friamente já impondo uma certa distância entre eles. Mãe e filha entreolharam-se e após um aceno afirmativo da mãe, aceitou sair com o rapaz, não sem chatear-se com isso. Nunca precisaram de carro! Ao chegar no salão já foi procurá-los e encontrou-os com um grupo de amigos. Assim que chegou, Givan pegou em seu braço e buscou um lugar mais reservado: - Isso lá é coisa que se faça? - O quê?- ela estava atônita, completamente surpresa. - Você pede pra eu e a Gizele trazê-la quando não queríamos vir a este jantar e, na última hora, combina com o Renato pra ir buscá-la? - Eu ?!! - Não, Jacquelline, fui eu!!!- disse com ironia. - Em primeiro lugar, eu não queria vir a este jantar! - Eu não acredito que estou ouvindo isso de você! Acha que sou louco? Você queria, sim, eu não viria e vim somente pra trazê-la! Você pediu até pra minha namorada falar comigo. Esqueceu que conversamos nós três? A Gizele estava lá como testemunha! Jacquelline realmente não acreditava no que estava ouvindo! Só podia ser um sonho... um sonho ruim... Olhou para seu melhor amigo e percebeu que Gizele o envenenara contra ela. A loira armara tudo direitinho e fora ELA quem dissera ao Renato para buscá-la, Jacque já havia contado certa vez que o rapaz vivia assediando-a e que Givan o detestava. O seu erro foi calar-se no dia que falaram sobre o jantar. Devia ter dito que não queria e que Gizele a estava obrigando a concordar com aquilo. O pior de tudo é que agora, por mais que dissesse algo, Givan não acreditaria nela. A situação era absurda demais! Permaneceu com o Renato no jantar, ele que era seu acompanhante. Até isso Gizele havia planejado perfeitamente bem. Vai saber quantas coisas mais inventara sobre ela. 29 19º CAPÍTULO Jacquelline passava por um momento de muita confusão. Seu pai estava prestes a mudar de cidade devido ao trabalho, no entanto ela e a mãe permaneceriam em Moinho de Ilusões, pelo menos, por enquanto. Mas Jacque queria fugir dali... não estava mais agüentando... estava fraca demais... precisava afastar-se... não conseguia estar perto dele deste jeito! Conviver com a esperança de ser amada e vê-la despedaçar-se era demais para a menina. Ele se afastava a cada dia... vê-los juntos tornou-se ainda pior... a idéia de ela esperá-lo e ele não vir desesperava-a... melhor seria romper de uma vez, tomar por si só os passos do afastamento, pois assim saberia para o que deveria estar preparada e quando. Fora a decisão mais difícil que tomara na vida e a mais errada de todas. Passou a evitar os lugares onde costumavam encontrar-se e passou a ter atitudes detestadas por ele. Nas tardes que estudavam juntos, ia em casa de amigos para divertir-se. Nunca mais pôs os pés na Torre e fazia o caminho mais longo à escola para evitar a antiga praça. Com a mente ainda infantil de menina, conversou com o Renato e praticamente o pedira em namoro. Ele, que há tempos era interessado nela, abraçou essa chance no mesmo momento. Ela mal conversava com Gizele na escola, passava os intervalos na sala conversando com sua nova turma, isso quando não cabulavam aula. Tornou-se próxima de várias pessoas que antes evitava contato por terem fama de desordeiros, dentre eles estava o seu namorado. Soube, através de antigos amigos, que o casal tornava-se cada vez mais unido e que os dois passavam as tardes juntos estudando. Com isso, Gizele melhorava suas notas enquanto Jacque passara a fazer parte dos maus alunos. Como o pai realmente teve que trabalhar fora e a mãe se revezar entre as duas cidades, estar grande parte dos dias sozinha em sua casa ou na da avó facilitara e muito seu novo destino. Mesmo a distância já instalada entre os antigos amigos, a cidade é pequena, acabaram encontrando-se em uma festa: - Oi, Jacque. - Oi, Givan. - O que está havendo com você? - Nada. Estou ótima! Onde está sua namorada? - Ela já vem! – olha com desprezo para a antiga amiga - Estou tão decepcionado com você. A Gizele tem me contado o que apronta na escola! Os comentários não param...pare com isso! Você vai se destruir! - Gizele conta as coisas a você?- ela dá um sorriso sarcástico - Ótima informante você tem. Parabéns! Dê um recado à sua agente por favor, diga a ela pra não se meter na minha vida! 30 - Jacque... o que está acontecendo? Ela só quer ajudar! Sei que está saindo com um pessoal barra-pesada. - São meus amigos e vá cuidar de sua vida, Givan! Não se meta mais na minha! Naquela mesma noite, um dos rapazes do grupo, Rony, sabendo que ficara mal após ter conversado com o antigo amigo, ofereceu um tranqüilizante. Como estava muito deprimida e faria qualquer coisa para fugir da realidade, aceitou prontamente. Ele a levou de moto para fora da cidade alegando que ela se sentiria melhor com um passeio. Em sua ingenuidade, Jacque acreditou prontamente. Ele a levou a um campo isolado e a fez sentar- se na grama. Rony molhou algo num lenço e, sem que ela esperasse, apertou contra a boca e o nariz de Jacquelline o pano que a fez desmaiar. Quando a menina acordou, viu aquele corpo de homem em cima dela e antes que o pano estivesse novamente sufocando-a, soube que ele a violentava. 20º CAPÍTULO Ao voltar do desmaio, agia como um robô. Vestiu-se olhando em volta para ver se sua virgindade sangrara... não encontrou mais nada! Voltaram para junto da turma. Jacquelline estava ainda em choque, mal conseguia balbuciar alguma coisa. Seus gestos, sua atitude eram totalmente mecânicas. Ninguém estranhou a chegada deles, exceto Léia- a namorada de Rony. Já era alta madrugada e estavam todos - próximos à escadaria frontal da antiga Estação Ferroviária - conversando, rindo e alguns bebendo. Em um determinado momento, L_ia, percebendo que Jacque estava estranha desde que chegara daquele passeio, veio falar com ela sem que os outros ouvissem a conversa: - O que houve, Jacque? - O Rony me violentou, Léia. - ela não conseguiu se calar. - O quê?!! A namorada do rapaz era uma das poucas pessoas quase sensatas ali. Incrédula, inventou uma desculpa qualquer aos outros e levou a colega para casa. - Agora me conte tudo com calma, Jacquelline. E a não mais menina, como se falasse de fora de seu corpo, contou tudo o que conseguia se lembrar. - Eu não acredito que você fez isso com a Jacquelline? - Fez o que, gatinha? - Rony, não minta... - Léia não falava, cuspia as palavras - tenho nojo de você! - Lé, vem cá, gata! Não fiz nada! – nunca tinha visto a menina tão 31 enfurecida - Olha... eu confesso, tá bom assim? Ela se jogou em cima de mim e sou homem, gatinha! Eu ia falar não? Desculpa,vai?! Ela não significou nada pra mim! Ele tentou abraçá-la e foi empurrado com tanta força que por pouco não caiu e levou a moto em que estava escorado. - Nunca mais olhe na minha cara, Rony, você morreu pra mim! O rapaz, enfurecido pelo fim do namorado causado por Jacque, espalhou na cidade que Jacquelline Vale havia se oferecido a ele e a vários homens. Muitos, por algum tempo, acreditaram que a antiga menina pura de olhosverdes era alguém que saía com qualquer um por pura diversão. Algumas famílias de bem até proibiram seus filhos de freqüentar o mesmo ambiente que ela, alguns pais tentavam impedir até mesmo que seus familiares conversassem com a garota. Isso mudaria assim que soubessem quem era realmente aquele no qual acreditaram. Nos primeiros dias, a menina trancou-se no quarto e só recebia a visita de Léia. Essa, sim, tornara-se uma boa companheira e a defendia quando vinham falar mal de Jacque para ela. Renato soube da história através da ex-namorada de Rony e, mesmo ouvindo a versão verdadeira, nunca mais aparecera. Era hora de sair da cidade. Jacquelline, sem despedir-se de mais ninguém além da avó, fez suas malas, trancou a porta de sua casa e atravessou os limites de Moinho de Ilusões sem olhar para trás. 32 II PARTE 1º CAPÍTULO - O que tá havendo, fio? Algum pobrema? A avó fala ao neto que há horas está sentado na mureta da varanda dos fundos a olhar a chuva que cai lá fora. A voz bondosa o desperta e o faz retornar àquele instante. - Nada, vó. Tudo bem. – sorri para tranqüilizar a sábia velha senhora que senta em uma cadeira de área para fazer-lhe companhia. - Moinho de Ilusões num é mais a mema, né, fio? - ele fica em silêncio enquanto retorna a olhar as águas que caem agora torrencialmente. Passa ainda alguns instantes em profundo silêncio, depois diz: - Nossa, vó... esta chuva não acaba nunca?! Preciso sair pra aula e já é super tarde. - E ocê tem aula hoje? Nu feriado de Nossenhoraparecida? - Vó, o vestibular está chegando, não dá pra parar agora não! A senhora cerra os punhos fazendo um gesto de tltal contrariedade: - Eu falo pro seu avô, este mundo tá perdido memo! Vê lá se a gente trabaiava em dia santo no meu tempo! Nem na roça, meu fio, que a comida podia estragá e as pranta do patrão eu e seu vô tinha que moiá, a gente fazia um pecado desses. Dia santo é dia de rezá, dia de si alembrá o que de bom o santo feizi aqui nesta terra de Deus e tentá irmitá ele. Que é que andianta estudá tanto sem pedi ajuda de Deus? - Mas, vó, eu peço sim a ajuda Dele! - Bão, pedi só não andianta não. Tem que segui Ele tumbéi! - Está certo, vozinha! – com um sorriso beija a testa daquela mulher antes de sair. – Vou nesta chuva mesmo. Sua benção. - Deus te bençoe, fio! E Nossenhoraparecida te proteja dos mar dessa vida. Mesmo com a chuva caindo forte sobre seus ombros, desceu a escada de sua casa, pegou o carro que ganhou de presente de seu pai assim que tirou a carteira de motorista e saiu em direção oposta à escola, como sempre fazia. Parou em uma rua deserta próxima a um banco de uma praça isolado por arbustos floridos. Ficou ali algum tempo e saiu em direção ao caminho do antigo casarão, agora abandonado até pela vizinhança. Há tempos fazia isso na esperança de ouvir uma voz conhecida a chamarlhe para juntos fazerem as aventuras mais bobas e deliciosas de sua vida. Até agora tudo que ouvira fora o gritar alegre de uma menina de olhos esquisitos que morava em seus pensamentos. No silêncio absoluto da rua, Givan Galle seguiu em direção ao cursinho, não podia se atrasar. 33 2º CAPÍTULO As provas para a UNESM iniciariam na manhã seguinte e Givan havia deixado este dia para relaxar e divertir-se. Sabia que o que estudasse na véspera só o faria desaprender o que já tinha aprendido. Tudo o que podia ser feito, ele fez. Agora é relaxar, se acalmar para poder aplicar da melhor forma possível seus conhecimentos na hora do exame. Com o mesmo pensamento, seus colegas estudiosos do cursinho compartilhavam da diversão, a palavra proibida do dia era VESTIBULAR ou qualquer coisa relacionada a isso. Alugaram um clube com piscina e lá divertiramse muito ouvindo música, alguns dançando enquanto outros jogavam pinguepongue, ou vôlei, ou basquete e até uma partida de futebol saiu, com direito à torcida e tudo mais. Claro que o consumo de bebida alcoólica estava proibido para aqueles futuros acadêmicos. No entardecer, alguns foram embora enquanto uma turminha mais unida conversava tranqüilamente em volta da piscina. - Gente, o que vamos fazer agora? – disse Márcia, a única órfã de pai e mãe. Entrar em uma universidade estadual era para ela uma questão de necessidade profissional, pois tinha como objetivo ingressar em alguma pesquisa científica e pedir Bolsa de Estudo para aprimorar cada vez mais seus conhecimentos. - Sinceramente, não sei! Acho que vou embora!- resmungou o mais nerd da turma. - Fique quieto, Silas! Dê um tempo aí vai! Vamos aproveitar isto aqui! Se eu chegar em casa agora, vou ficar lá sem conseguir dormir e vou encanar com amanhã! Vamos ficar aqui e relaxar até quando a gente puder!- Bárbara era sempre a última a querer ir para casa. Lá, enfrentava as crises nervosas de seu pai alcoólatra e de sua irmã drogada, os amigos tinham muita compaixão por ela, sempre procuravam consolá-la e ajudá-la a superar situações tão difíceis como essas. - Gente, mas precisamos dormir cedo! - Relaxa, Givan! Oito horas em ponto nós vamos embora! – Vivaine, a mais madura e inteligente da turma, finaliza aquela discussão. Ela ficara bem colega do rapaz por causa da Gizele que fora sua vizinha e sua melhor amiga por um determinado tempo. - Já sei, galera!!! Até lá, vamos jogar o jogo da verdade?! Nada melhor do que nos conhecermos bem antes que nossas vidas tomem rumos tão diferentes! - Amei, César!- grita Ritóvski que na verdade chama-se Rita Ostrovski, a única amiga estrangeira que tinham. Chegara há alguns anos da Rússia e naturalizara-se brasileira. Estava sempre radiante por morar em um país tão livre e tão belo. Conhecera o Brasil através de sua mãe que em 1964 teve de se retirar do país por fazer parte do movimento que tentou implantar o comunismo no país das maravilhas. A jovem revolucionária, na época, apaixonou-se por um russo e casar- 34 se com ele após engravidar do primeiro filho de quatro foi algo natural. Às escondidas, na antiga União Soviética, ensinara às crianças as belezas do continente americano e a língua portuguesa que a caçula, Ritinha, assim como os irmãos mais velhos, falava e entendia fluentemente. Com a morte do marido, com a anistia total e irrestrita e com a queda do comunismo pôde retornar ao país que tanto amava e mostrá-lo aos filhos. Os amigos resolveram apelidar a mocinha carinhosamente de Ritóvski. - Precisamos, então, de uma garrafa. – antes mesmo de terminar a frase, Vivaine já estava com uma embalagem de sukita na mão e tornava-se a mediadora do jogo. - Brasileirinhos, como se joga isso? - Ué, mas você não tinha adorado? - Ai, Bá!!! Adorei já pelo nome JOGO DA VERDADE... mas as regras mesmo eu não sei. - Todos riam muito com as tiradas da estrangeira, realmente era uma russa com alma brasileira. - É assim... – Givan quem explicou com toda paciência que seus amigos muitas vezes não tinham com a imigrante. - ... nos sentamos em círculo e colocamos a garrafa no meio, deitada, alguém a roda e o fundo da garrafa nos diz quem fará uma pergunta e a ponta nos indica quem irá responder. No entanto a regra diz que não se pode mentir. Se tem algo que não queira contar, então, não participe. Se participar, terá que falar a verdade SEMPRE. - dirige-se agora a todos - Se alguém não quiser contar a verdade que saia daqui agora! Somente Bárbara não quis participar, pois havia muitos segredos que presenciara em sua casa dos quais imaginava que não conseguiria contá-los a ninguém. Todos respeitaram a opinião dela e iniciaram o jogo sem importarem-se com sua presença próxima a eles. Sentados em círculo no chão, a mediadora quem roda a primeira vez. - Ahhhhh ... justo pra mim... de primeira! - disse César. - Pois é, meu chapa, agora quero só ver!- Marcelo, o fera em computação e músico da Igreja, quem faz a primeira pergunta - vamos lá... é verdade mesmo que você ficou com aquela gatinha do curso, a Wanda? -Ai, não acredito nisso!!! Sacanagem, Marcelo! - ele estava inconformado -.... não posso passar não, só desta vez, por favor?! Eu que dei a idéia, pô! Todos respondem juntos: - NÃOOOOOOOO!!!- e caem na risada. - Aff, tudo bem! Vou responder, mas o que se falar aqui tem que ser segredo, heim!!! E isso foi uma tremenda duma sacanagem!... Coitado de quem eu pegar pra perguntar! Após verificar que todos concordaram em manter em segredo, inclusive a Bárbara, tudo o que fosse ali falado, ele, pressionado pelos amigos, acabou balbuciando: - não 35 - Como é, César?- perguntou Marcelo com as mãos em concha no ouvido - ninguém aqui escutou direito... - NÃO! Não fiquei com aquela gostosa não!!! Todos riram de doer a barriga, até o nerd ria que se contorcia. Para o amigo metido a Don Juan, admitir que a mulher que ele vivia assediando ainda não tivesse caído nas graças dele era algo mortal para o sedutor. E essa situação é que era tão engraçada a todos. - Cara, eu sabia que era muita areia pra você... eu sabia! E a brincadeira foi por aí a fora, perguntas tais como se Ritóvski era virgem, quem foi o primeiro de um, ou a primeira do outro, ou ainda qual a maior gafe da vida deles. Riam muito e se descontraíam cada vez mais com a criatividade das perguntas e respostas até que chegou um momento que a garrafa parou apontando para a Vivaine, Givan é quem faria a pergunta. - Minha querida amiga Vivaine... - todos riram imaginando que frase inescrupulosa viria a seguir. - ...por que você e a Gizele deixaram de ser amigas? 3º CAPÍTULO O clima ficou esquisito na hora e Vivaine teve um arrepio pela surpresa que a pergunta causara. Não esperava por isso e o que diria poderia atingir diretamente o amigo, não ela nem ninguém ali, somente ele. E agora o que fazer? Todos meio surpresos com a pergunta, porém sem saberem a total gravidade da resposta, incitavam-na a responder. Refletindo rapidamente, ela achou que já estava na hora dele saber toda a verdade sobre a antiga namorada. Sem mais titubear, sabendo o que viria depois, disse: - Bem... deixei de ser amiga da Gizele quando ela mesma me contou como fez pra separar você da Jacquelline. Percebi com isso que ela não era amiga de ninguém e que poderia fazer o mesmo comigo. Portanto, não merece minha confiança, melhor ficarmos afastadas. Quando disse isso a ela, claro que não gostou e nunca mais falou comigo. Givan sentiu como se aquela febre antiga retornasse de uma vez e gelasse seu corpo e sua alma... sem conseguir raciocinar direito perguntou quase gritando: - Com a minha Jacquelline?!! - Sim – Vivaine ri da inocência do amigo enquanto confirma - ... com a SUA Jacquelline. - Mas o que é que ela fez com a Jacque? Os demais perceberam que o clima de diversão havia realmente acabado e preferiram deixar os dois conversarem sozinhos aquele assunto que, embora não mencionassem, sabiam ser muito delicado para o futuro médico. A cidade que os conhecera crescendo e brincando juntos sabia do vazio que a ausência da menina fazia na vida de Givan. Muitas vezes, não o encontrando nem em casa nem no cursinho, o buscavam no velho banco da praça ou parado dentro do carro aos pés da antiga Torre. Mas ninguém nunca comentava nada, afinal, ninguém sabia nem 36 ao certo onde estava a família Vale. Os pais de Jacquelline mudaram-se para a cidade grande de um outro Estado e sua avó falecera pouco tempo depois. Todo contato com ela aparentemente havia desaparecido, já que ninguém da família surgia nem para cuidar da casa da falecida. A cidade entendia a saudade do rapaz, mas ninguém podia fazer nada além de calar-se. Despediram-se todos e quando se viram sozinhos, Vivaine e Givan, ela abriu os lábios para dizer tudo que sabia. - Gizele sempre quis ser vencedora em tudo, odiava perder e sentia uma mistura de prazer sórdido ao ganhar algo deixando alguém infeliz com isso. É o que constatei após ouvir a forma como sua ex-namorada descreveu o namoro de vocês. Você sabe que ficamos muito amigas pouco antes de terminarem. Achava a relação de vocês dois muito bonita, embora essas baboseiras românticas nada tenham a ver comigo, mas ver um rapaz tão amoroso e dedicado como você era até me fazia ter vontade de namorar algum dia... Riu, porém voltou a ficar séria quando o riso não foi correspondido, Givan estava super fechado. Sem graça, ela tossiu e continuou: - ...bem...então, acabei me aproximando dela já que éramos vizinhas e a proximidade trouxe amizade. Quando vocês não estavam juntos, ficávamos horas conversando, assistindo filme e ela passou a confiar em mim. Confiou a tal ponto que certo dia contou uma porção de coisas que me fez ver quem realmente era a Gizele. Me fez ver que era alguém totalmente diferente daquilo que aparentava. - E o que ela contou? - Estávamos falando de como ela o conheceu e as palavras foram saindo sem preocupação, disse-me que o conheceu através de Jacque e que decidiu tirá-lo dela antes mesmo de vê-lo. Conforme Jacquelline falava de você com deslumbramento, ela percebeu que namorá-lo seria como ganhar um prêmio... principalmente, por ser tão respeitado entre tantas pessoas na cidade... isso a atraía mais que tudo. Não foram exatamente essas suas palavras, estou descrevendo o sentimento que pude perceber na maneira como ela me contou... as palavras exatas não me lembro totalmente! Bem... para ela... ser a namorada oficial do futuro médico de Moinho de Ilusões seria perfeito, ela chegou a traçar planos até para o casamento. Gizele sabia, pela Jacquelline, que você nunca tinha namorado com ninguém, pelo menos, oficialmente... então, a idéia de conquistar o que muitas meninas queriam, inclusive a melhor amiga dela, era realmente irresistível para alguém doente assim. Mas Jacquelline precisava sair de cena, ela era um grande obstáculo, pois todos sabiam que Jacque era apaixonada por você. -... e de mim? Não diziam que também era apaixonado por Jacque? - Não, Gi! Todos sabiam que, quando você quisesse, bastaria pedi-la até em casamento que ela aceitaria na hora. Mas você nunca fez nada, então... na verdade, ninguém pensava muito nisso. - Entendo, continue ... por favor. - A primeira coisa que ela fez foi surgir de uma forma sedutora a sua frente. Isso era fácil, afinal, os homens viviam aos pés dela. 37 - Nem me diga. - foi o comentário seco do rapaz - ...desculpe...pode continuar. - Bem... ela me disse que tentou afastá-lo de Jacque com conversas e seduções mas que não via resultado, por isso, começou a armar situações. Disse que certa vez falou a você que Jacque queria ir a um tal baile e que na verdade era ela quem queria. -... acho que isso foi um jantar, não foi? – como se dissesse a si mesmo Deve ser aquele terrível jantar... -... pode ser um jantar ...não me lembro direito... bem, ela me contou que armou para que o Nato fosse buscar a Jacque porque sabia que você o detestava. E pra Jacque estava combinado de você ir apanhá-la, mas o Nato chegou e disse a ela que você tinha mandado ele buscá-la... acho que deu a desculpa de que você não tinha carro...algo assim. Givan estava lívido com essa informação: - Não acredito que foi armação da Gizele, Vivaine!!! Não acredito nisso!ele imaginava que Gizele havia mentido muitas vezes já que até o traíra certa vez, por isso ele rompeu o namoro, mas daí a ter armado para afastá-lo de Jacquelline, ele nunca imaginara isso. - Eu sei que é difícil acreditar, Givan. É terrível, mas nem foi por isso que me afastei dela... me afastei porque ela é muito mais perigosa do que imaginamos. - Do que você está falando? - Bem... vocês terminaram porque ela o traiu certa vez com o amigo do Nato, o Rony, não foi? - Sim, foi... eu os vi juntos entrando em um Motel, eu já estava indo pro cursinho quando houve um telefonema anôni... - ele olha para ela que sorri com cumplicidade – foi você que me avisou. - Desculpe a covardia, mas foi o melhor que pude fazer na época, foi logo que soube de tudo isso. Em choque, ele pede para ela continuar: - você ia dizendo que ela é mais perigosa... - ... então, ela saía com Rony, certo? Gizele me contou que certa vez, e isto foi pouco antes de Jacque ir embora da cidade, ela pagou ao Rony para que ele drogasse e violentasse Jacquelline para assim você nunca ser o primeiro homem da vida dela. Givan precisou se apoiar na amiga num gesto de surpresa e terror. - Você está bem?- ele ofegava e estava vermelho de incredulidade misturada ao remorso e à indignação. - Não pode ser!!!...não é possível!!!- olhou suplicante para amiga que baixou os olhos – ...e-eles ...e-eles...conseguiram? Vivaine ainda de olhos baixos disse baixinho: - ...sim... sinto muito! – olhou para ele com firmeza agora - .... e, por isso, na época, Rony chantageava a loira demente para que saíssem juntos. Foi quando você a viu no Motel. Logo depois também aconteceu o acidente com a mãe dela, 38 lembra? Mas foi embora mesmo com medo da falação da cidade já que você os tinha descoberto, agora já sabe o quanto status era importante pra ela, né?! Só que o que ninguém imaginava é que ela adorava transar com o Rony, na verdade, adorava sair com qualquer homem! Rony nem foi o primeiro da vida dela! - Mas ela era muito nova!!! Nós nunca fizemos nada! - Porque VOCÊ não quis! Sabendo como você era, ela me disse que precisava manter a poce de virgenzinha! Mas, quando você viu os dois juntos e ela, aparentemente feliz com isso, percebeu que seria melhor ir embora daqui, decerto pra tentar enrolar outro alguém em outra bela cidade. Depois tinha ainda a desculpa de ser órfã! Rica e órfã de mãe enrolaria os otários mais facilmente. Givan levantou os olhos. - Desculpe. - Você está certa, como pude ser tão cego?!! - Calma... você era inocente, caiu nas garras dela! - Como pude agir assim com Jacque, Vi? Como pude duvidar e dizer coisas tão horríveis à minha amiga? Eu não tinha esse direito... ninguém a conhecia como eu e olha só o que foi que eu fiz!!! Se eu estivesse lá pra protegê-la... em vez disso... - ei...ei...calma aí! Agora não adianta mais nada!!! Você errou, mas a culpa é da GIZELE e não SUA do que aconteceu com Jacquelline! - ...mas se eu estivesse lá, não deixaria... - Mas você não estava e não adianta mais se martirizar com isso! Ninguém é perfeito! Você precisava, SIM, saber a verdade, você deve isso à Jacquelline... eu devia isso a ela já que pelo jeito sou a única, além daqueles dois cafajestes, que conhece o que realmente aconteceu. Só não sabia como contar tudo... ainda bem que aconteceu esse jogo. Ela olha para Givan que está transtornado com tudo e sente pena dele: - Givan, agora calma. Pra tudo tem-se um jeito, só pra morte que não. E pelo que sabemos, ela não morreu. – sorri para descontrair o companheiro – Olha... amanhã é sua prova, você se lembra do quanto a Jacque torcia por você, se quer fazer algo por ela, então, faça sempre o melhor a você mesmo. Faça aquela prova e passe no vestibular. Depois disso, procure-a e comemorem juntos. Peça perdão de tudo e retomem a amizade. Pelo pouco que a conheci na escola, sei que ela se jogará em seus braços e vocês serão amigos novamente. - Mas tudo o que aconteceu com ela... - O importante é que tudo passa... e o sentimento de vocês é verdadeiro. Se você não pôde estar com ela na época para protegê-la, então, procure-a e esteja com ela para cicatrizar as feridas... se houver... - Obrigado, Vi. Parece absurdo, mas você está certa. Meus avós que dizem que pra tudo tem jeito, só pra morte que não. - Então leve a resposta afirmativa do vestibular pra ela. Se concentre amanhã e faça o melhor que puder. Já fez duas vezes e não passou ... Medicina não é nada fácil, mas este é o seu ano! Se concentre agora! Faça isso pra levar alegria 39 quando encontrar a Jacque e boa- sorte, meu amigo! - Farei isso sim, Amiga. Sei que posso mesmo chamá-la assim... e obrigado por tudo. Depois de Jacque você foi a melhor amiga que já tive. Ela olhou bem os olhos dele e sorriu agradecida aos Anjos por tê-lo convencido a fazer a prova no dia seguinte com calma e convicção. Houve um momento em que achou seriamente que havia comprometido o vestibular do amigo e quase entrou em pânico por isso. O jovem rapaz foi direto para casa, tomou um banho, um bom suco de maracujá, afastou qualquer pensamento e adormeceu para a nova fase de sua vida. Apesar de tudo o que ouvira neste dia, a febre passara e uma leve sensação de paz inundava sua alma e seu coração, só não sabia que essa sensação se chamava esperança e não percebera que ela surgira quando ouviu que Jacquelline era exatamente a mulher que ele sempre sentira que ela era. 4º CAPÍTULO Foi o último a entregar a prova que definiria seu futuro profissional dali em diante. O resultado sairia somente no final de janeiro do ano seguinte. Se não passasse desta vez, pensava em deixar a faculdade de Medicina para um segundo plano e buscar algum trabalho em sua cidade ou em outra qualquer. Cumprida a responsabilidade, precisava agora colocar os pensamentos em ordem, coisa que não se permitira desde que começaram as provas no dia anterior. Foram dois dias de avaliações: manhã e tarde. Despediu-se rapidamente dos colegas que conversavam no pátio, pegou seu carro e foi direto para Moinho de Ilusões, lá seguiu para o terreno do casarão. Pela primeira vez subiria na Torre desde que viram as Estrelas pela última vez. Hesitou um pouco olhando a imponência daquela estrutura imaginando quantas vezes não estivera ali sozinho. Mesmo após ter-se tornado um homem, o local continuava majestoso e imponente. Subiu devagar olhando em volta e vendo que o tempo e o abandono mostravam suas primeiras marcas. Alguns degraus da velha madeira estavam ruídos e outros nem mais existiam. Mesmo assim, ele chegou ao terceiro andar e parou, agora homem, onde certa vez um menino parara deslumbrado com outra figura infantil. Sorriu com a lembrança e caminhou em direção oposta à abertura de acesso aos degraus. Encostou a mão no pára –peito para vislumbrar aquela imagem quase esquecida e depois sentou-se onde costumava deitar-se com a eterna companheira. Ficou horas voltando seus pensamentos em cada palavra, em cada gesto ali ou por eles vivido ... iniciava no dia da visita da escola ao casarão e parava no dia que completara 18 anos... retornava de novo e não conseguia ir além daquela data... Mas precisava... então, respirou fundo e permitiu que todas as imagens e conversas assumissem seus devidos lugares... Jacquelline fazendo a surpresa... 40 Gizele aparecendo... Jacquelline sorrindo... ele se entregando à Gizele... Jacquelline sumindo no baile... Gizele tranqüilizando-o... Jacquelline adoecendo... Jacquelline falando de Nato... Jacquelline se declarando com lágrimas nos olhos... Gizele aparecendo na Torre... Jacquelline se declarando com lágrimas nos olhos... Jacquelline acompanhando os dois... Jacquelline sorrindo... Gizele e Jacquelline amigas... Gizele ajudando Jacquelline... Jacquelline aparecendo no jantar com Nato... Jacquelline se declarando com lágrimas nos olhos... Jacquelline sendo puxada por ele enquanto tenta desesperadamente dizer que não queria ir ao jantar... Ele não acreditando...ele não acreditando...ele não acreditando... Jacquelline se afastando... Gizele se queixando das atitudes de Jacquelline... Jacquelline com novos amigos... Jacquelline se afastando... Jacquelline namorando... Jacquelline beijando... Jacquelline nos carros... Jacquelline se afastando... Jacquelline dançando... Jacquelline o olhando... Jacquelline se afastando... ele dizendo o quanto estava decepcionado com ela ... Jacquelline se afastando... Jacquelline se afastando... Jacquelline desaparecendo. Deu-se conta de que em nenhuma dessas últimas lembranças lembrou-se de Jacquelline sorrindo. 5º CAPÍTULO A viagem de trem até a capital seguira tranqüila e ajudara-o a acalmar-se enquanto se deslumbrava com a paisagem magnífica da descida da serra. Pôde avistar uma grande diversidade de flores e árvores, mas o que mais o encantava era o sangrar das águas cristalinas a escorrer pelas encostas das montanhas. Sua região era um dos poucos lugares do país que os governantes usaram de inteligência e, assim, preservaram as ferrovias do Estado. Porém a matriz da antiga fábrica de calçados, onde o pai de Jacquelline trabalhava, ficava próxima a São Paulo. Pegaria, após a viagem de trem, um ônibus que o levaria a cruzar as fronteiras estaduais e seguir rumo à maior cidade do país. Ainda em Moinho de Ilusões conseguira o endereço e os telefones da indústria, mas ligou sem obter nenhum resultado, pois não passavam informação de funcionários através de telefone por questões de segurança. E ninguém naquela pequena cidade, pelo menos que ele conseguira encontrar, sabia do paradeiro da família do Sr Ermelindo. Givan sem desanimar, pois nem a morte o poderia fazêlo, decidiu ir pessoalmente à metrópole. Seus pais desde o primeiro ano no exterior vinham depositando uma reserva considerável para a faculdade do filho e o que já conseguiram não só seria suficiente para todas as despesas acadêmicas quanto para a montagem completa de um consultório particular. Mas Givan levou uma boa parte de suas próprias economias, com pequenas vendas de carros que intermediava, para as despesas de viagem e para que pudesse ficar algum tempo na grande selva de pedra. Pelo que se conhecia, sabia que não sairia de lá até 41 encontrar sua amiga de infância. Já era o amanhecer do segundo dia fora de sua terra natal quando vislumbrou o nascer do sol na cidade da garoa. Saber que, após esses anos, estava tão perto de Jacquelline já o fazia respirar de uma forma a sorrir. Levou desde o nascer do sol até a terceira hora para desembarcar na Rodoviária Barra Funda e, de lá, seguir, entre uma multidão de pessoas apressadas, tentando buscar alguma informação de como chegar a Guarulhos, pois era lá que ficava a matriz procurada. Dali mesmo foi direto ao Metrô, desceu na estação Tucuruvi e seguiu de táxi para a Vila Isabel em direção à SUMMER SHOE. Quando o visitante chegou aos portões da imponente fábrica de calçados teve que se identificar na portaria e foi com muito custo que conseguiu permissão para chegar à recepção do local. Se deu conta do tamanho da fábrica quando adentrou os portões e deparou-se com uma infinidade de departamentos e portas. Pensava que sua única chance provavelmente seria a de que o pai de Jacque ainda trabalhasse naquele lugar. - Pois não, senhor? Posso ajudá-lo? – disse uma moça que mais parecia uma atriz de cinema; embora ele não estivesse preocupado com isso, era impossível não olhá-la e admirá-la pela beleza dos traços harmoniosos. - Sim...acho que sim...talvez sim... não sei... – não sabia como começar. - Calma, senhor! Explique-se, por favor. - A senhorita conhece... ou melhor... sabe se aqui trabalha o Sr. Ermelindo? - Ermelindo? Qual setor? - Não faço idéia. Mas é seu Ermelindo Vale. Após conferir uma lista para certificar-se de não haver mais nenhum funcionário com esse nome, disse: - Olha ... realmente lembro-me de um Ermelindo que veio para cá há alguns anos ... veio de nossa filial... Os olhos azuis de Givan iluminaram-se como se a luz do sol refletisse diretamente neles: - ...É ele mesmo! Posso falar com ele, por favor! É seu Ermelindo que eu conheço, só pode ser !!! A funcionária suspirou e olhou com compaixão para o rapaz: - Infelizmente isso não será possível... lamento. - Mas por quê? É rapidinho, prometo não atrapalhá-lo... - Senhor, sinto muito... não é por isso...é que Seu Ermelindo não se encontra mais entre nós. - Ah – mesmo abalado pela informação não perde as esperanças - Mas a senhorita sabe pra onde ele foi?...alguma outra fábrica de calçados talvez? - Não, o senhor não entendeu. O seu Ermelindo faleceu alguns meses depois de ser transferido pra cá. Givan ficou mudo olhando para o nada como se seu cérebro precisasse de 42 algum tempo para absorver aquela informação, para entender que suas chances de encontrar Jacquelline se esvaíra mais rapidamente quanto surgira e ainda saber que ela devia ter passado momentos extremamente difíceis enquanto estavam separados, os pais eram muito importantes para ela. Pobre seu Ermelindo! O rapaz gostava muito daquele homem! - O senhor está bem? - a preocupação da jovem o trouxera de volta à realidade – ele era seu parente?... era algo importante? - Sim...muito. Ele é... ele era... o pai da mulher que eu amo. - Oh... lamento muito! - ...e também a minha única chance de reencontrá-la novamente. A moça então - pelo que viu naquele olhar- pediu que aguardasse um momento. Em seguida, ela atendeu alguns telefonemas e, assim que conseguiu uma folguinha, falou pelo ramal interno: - Ronilza, peça ao seu Tozinho pra vir aqui um pouquinho na recepção, por favor? Givan ficou aguardando sem saber o que, cerca de uma meia-hora. Enquanto isso olhava sem ver o movimento constante dos funcionários entrando e saindo, a porta de vidro mostrava caminhões e carretas movimentando-se pelos canteiros da grande fábrica em meio a inúmeros seguranças e funcionários. Diferente das pessoas apressadas que se deparara pela cidade, não pôde perceber que todos pareciam satisfeitos, todos realmente gostavam de estarem ali. - O que foi, Alice? Sentiu saudades deste velho aqui é? - Claro, seu Tozinho, quem não tem saudades do senhor, heim? Mas eu o chamei por outro motivo. – dirigindo-se ao visitante – Senhor... - Givan... - Como? - Givan é meu nome. - Certo, Sr Givan, por favor, venha aqui! – quando o rapaz estava ao lado deles, continuou – este aqui é seu Tozinho, o mais antigo funcionário da fábrica e que conhece todo mundo muito bem. Talvez ele possa ajudá-lo em algo. - Podem me chamar somente de Givan. – sorriu enquanto todos assentiam com simpatia. - Fala, filho. Em que posso ajudá-lo? E Givan explicou que procurava pelo Sr Ermelindo e que pensara encontrar a filha através do pai, mas que acabou de saber que ele tinha falecido. Perguntou ainda se alguém sabia o que houve com a família. - Vixi... conheci demais seu Ermelindo, desde que ele morava em Moinho de Ilusões nós já conversávamos. Mas só conheci a esposa no velório. A filha eu nunca vi, parece que ficou com a vizinha no dia... Foi uma tristeza só! Também, senhor bom, homem honrado, homem sério! Por isso foi embora cedo desta terra! - Realmente, seu Tozinho! Ele era um homem enérgico, mas muito justo. Do que ele faleceu? - Ficou muito doente de uma hora pra outra... teve água no pulmão...e 43 chegou a hora dele, uai! Fazer o quê? - É verdade... cada um tem realmente a sua hora! E a família? O senhor sabe o que aconteceu com mulher e com a filha? - Olha, faz já algum tempo que falei com a viúva, foi só de passagem, mas o que ela me contou, muito rapidamente porque perguntei dela e da filha, foi que começou a costurar pra fora e a menina foi ser professora de uma escola pública, aqui perto até... não sei se ainda está lá. Givan enche-se de esperanças novamente: - O senhor sabe o nome da escola? - Escola Valdemir da Silva... Passe o telefone pra ele aí, Alice. - Muito obrigado, seu Tozinho! Não tenho nem como agradecê-lo! - Imagine, filho. Deus é bom demais pra nós por que não ajudar os outros no que podemos? - É verdade, bom seria se todos pensassem assim! - A idade ensina, filho...se não pelo Amor, pela Dor... - sorrindo sai o bondoso senhor - Vá com Deus e boa- sorte! - Peraí, Givan. Farei a ligação e você já veja se consegue alguma notícia, em escolas não é difícil obter informações sobre os professores, eles sempre pensam que são pais de alunos que ligam. – alguns minutos depois - Um momento. Passou rapidamente o telefone para o novo conhecido: - Alô, por favor, eu gostaria de saber se a professora Jacquelline Vale leciona nessa escola. ... mas saiu este ano?... pra onde?... só um minutinho que vou anotar...por favor, a senhora pode repetir... Colégio Olinda Baça? ... ótimo, anotei sim. Muito obrigado mesmo! - a alegria de Givan era contagiando – Agora... Alice... posso chamá-la assim? - Claro, Givan... eu sei, vamos já procurar o outro número. Conheço a escola, ela é bem famosa por aqui. E alguns minutos depois a recepcionista já passa o telefone com alguém do Olinda na linha: - Por favor, nesse colégio leciona uma professora chamada Jacquelline Vale?...SIM? – ele olhou sorrindo com os olhos para a cúmplice – ela está dando aula? Agora? ...que horas acaba a aula dela?...a senhora pode me passar o endereço de vocês, por favor? ...Pode falar... Com o endereço em mãos, Givan despediu-se rapidamente de sua nova conhecida, deixando-a corada com um beijo estalado em seu rosto, e correu para pegar um táxi - não antes de se informar como faria para chegar ao tal colégio em menos de uma hora, que era quando acabaria a aula da professora mais bonita do mundo. Alguns minutos depois estava parado embaixo de uma árvore do outro lado da rua sem tirar os olhos do único portão que servia de entrada e saída daquela escola. Ouviu um som que provavelmente indicaria a finalização das aulas, viu um monte de alunos correndo para o portão em direção à rua. Uma infinidade de 44 carros parados na frente buzinavam... alguns motoristas se cumprimentavam... outros gritavam... mas em nenhum momento nosso rapaz desviou o olhar do pátio que dava acesso ao portão. - Pelo que conheço de Jacque, ela deverá ser uma das últimas a sair.pensou enquanto sorria com a idéia. - Então, ela é professora! O movimento já diminuíra quando de repente ele viu, na porta principal que dava acesso ao pátio, uma mulher rodeada por uma série de crianças que a abraçavam e beijavam. Mesmo longe, ele soube na hora... era a sua Jacquelline... seus cabelos estavam curtos agora... quase até os ombros... uma boina cinza denunciava a face marota que havia por baixo do comportado jaleco branco. Era o momento de encontrar-se com ela... teve certeza, ao olhá-la, que sempre a amara... sentiu a força da imensa saudade que guardara no peito todo aquele tempo sem sua menina... queria sair dali e correr ao seu encontro... abraçála... beijá-la ... e, principalmente, pedir-lhe perdão... era isso o que faria... já perdera tempo demais com bobagens! Já procurando atravessar a rua para ir em sua direção, percebeu que Jacque olha para o portão de entrada com um sorriso diferente nos lábios enquanto acena para alguém que não era ele. Olhou naquela direção e pôde ver um homem... pouco mais velho que ambos... com uma criança nos braços seguir em direção a sua amada. Pôde perceber os braços do menininho estendidos para ela enquanto a professora corre para abraçá-lo e retirá-lo das mãos do homem que o levava. Jacque... a sua Jacque... tomou a criança como quem toma um filho no colo e dali, os três, abraçados, seguiram para fora dos domínios da escola e para fora dos olhos cor de céu nublados de Givan. 45 III PARTE 1º CAPÍTULO Jacquelline fez o mesmo trajeto que faria dali a algum tempo aquele que a mulher tentava não carregar dentro de seus pensamentos. A viagem acabara sendo muito cansativa para ela e sentiu-se imensamente aliviada ao encontrar sua mãe a esperar-lhe de carro na estação Tucuruvi. A senhora combinara por telefone onde se encontrariam e, antes que a filha chegasse, ela já a estava aguardando ansiosa. - Mãe!!! Que saudade! – a antiga criança praticamente se joga nos braços calorosos da mulher. - Filha! Você parece tão abatida! - É a viagem, mãe... não passei muito bem....- olhando em volta - onde está o papai? Trabalhando? - Filha... que bom que está aqui... fiquei tão preocupada com você praticamente sozinha lá! - Estou bem... - Vamos sentar um pouco aqui neste banco? -Sentar?!- olha desconfiada e se depara com um rosto marcado pela preocupação - Mãe, cadê o papai? Algum problema? - Filha, eu preciso ir agora ao hospital... - HOSPITAL?!... - Calma... seu pai não passou muito bem esses dias e ontem à noite teve de ser internado. - Mãe... é grave?!- Jacque estava quase chorando. - Não sei, filha... agora que vamos saber algo do médico... o melhor a fazer é deixar você em casa pra descansar e... - DE JEITO NENHUM !!! Vou com a senhora e AGORA! A mãe concorda sabendo que não conseguiria dissuadir a menina. O hospital de Guarulhos não era muito longe dali e lá chegando puderam ir direto à sala do médico responsável pelo caso. - Bom-dia, senhoras! - Doutor, esta é a minha filha que ontem contei que ela chegaria de viagem, lembra-se? - Sim, eu me lembro... que bom que veio, menina! É muito importante a presença de vocês duas aqui agora... Jacquelline bebia cada palavra do médico enquanto observava suas expressões tentando descobrir algo que temia até de pensar... infelizmente seu temor estava certo. -... apesar de ser um homem muito forte, a doença está muito avançada já! - Ele sempre foi turrão pra essas coisas de médico!- a esposa chorava 46 copiosamente amparada pela filha – eu dizia sempre pra fazer um check-up, mas ele é teimoso demais! - Eu sei como são, principalmente, os homens. Na verdade, têm medo de descobrirem que não estão bem, aí, quando nos procuram, em muitos casos é tarde demais... infelizmente. - Doutor Reinaldo, o que podemos fazer agora? - Nada, senhora... só rezarem e estarem ao lado dele. Não há mais nada que possamos fazer... tudo o que a Medicina pode ajudar, já foi feito...agora temos que aguardar... mas preparem-se, o caso dele é muito difícil! Os dias passaram enquanto as duas se revezavam da melhor forma possível para atender as necessidades pessoais e ainda estarem sempre com o doente. Jacquelline fazia questão de passar as noites no hospital, pois achava que a mãe precisava descansar mais do que ela. Porém, a cada dia percebiam que o estado de saúde do homem que amavam estava cada vez pior, ao mesmo tempo em que as atitudes dessas mulheres despertavam cada vez mais a admiração e respeito do médico. Dezoito dias depois do encontro com o doutor, o pai de Jacquelline falecera. 2º CAPÍTULO Embora a morte traga tristeza e saudade, para uma família de fé e unida ela também traz a oportunidade de rever entes queridos e conhecer a solidariedade existente em cada conhecido. A maior parte da família Vale morava na capital de Mato Grosso do Sul e todos que puderam vieram despedir-se de um dos familiares mais respeitados entre eles. A presença de cada um pôde trazer conforto e auxílio às duas pessoas que mais sentiriam a falta daquele homem. Dona Rosa preferiu não avisar a mãe, que de teimosia ainda morava em Moinho de Ilusões, por ser já bem velhinha e andar meio adoentada. Imaginava, desta vez erroneamente, que com o tempo e pessoalmente contaria para ela. Toda a parte burocrática foi tratada pelo irmão mais velho do falecido e a religiosa, como até missa de corpo presente, foi organizada por Dona Cícera, a amiga e vizinha da recente viúva. A filha daquela, Janete Alessandra Paulon, desde que fora apresentada à Jacquelline, não saíra mais de perto da menina e passou todo tempo do velório tentando deixá-la mais calma. Com o tempo, a vida começou a voltar ao normal. Mãe e filha levaram até a rodoviária os últimos parentes que ali ainda se encontravam quase uma semana depois do enterro, Janete juntou-se a elas na plataforma de embarque. Sabiam que seria muito difícil todos se encontrarem de novo, por isso despediram-se com muitas lágrimas e promessas de e-mails e telefonemas. Assim que o ônibus desapareceu de suas vistas, Jacquelline segurou com 47 mãos frias o braço de Janete e desmaiou. 3º CAPÍTULO A nova amiga de Jacque era conhecida e amada por todos do bairro. Era impossível passear em sua companhia e chegar ao destino sem parar em cada esquina, cada quitanda, cada açougue. Todos tinham alguma novidade a lhe contar e queriam sempre a sua opinião para algo que fariam. Se dependesse deles para ser eleita a algum cargo político, provavelmente, nem segundo turno enfrentaria. Janete Alessandra era solteira, Católica fervorosa, cursava o primeiro ano de Letras na FSP e já era professora de Literatura em um dos mais respeitados colégios da região. Sua família chegara na Grande São Paulo em 54, os avós maternos vieram do nordeste para tentar uma vida melhor na rica capital. Corajosos e trabalhadores, venceram as dificuldades financeiras vendendo sorvetes deliciosos feitos pela avó de Janete e divulgados pelo avô que saía todos os dias de porta em porta oferecendo aquelas delícias. Isso foi por pouco tempo, somente o suficiente para ser conhecido. Logo não davam conta de tantas encomendas e foram precisos mais funcionários e um local maior para que atendessem toda a freguesia. Uma homenagem à filha ainda criança, os Sorvetes Cícera são os mais tradicionais da região. A dona desse nome casou-se com o contador formando uma parceria familiar e harmoniosa que completou o sucesso do estabelecimento. Nos finais de semana e férias, a única filha ainda solteira, a professora de Literatura, deixa os livros de lado e ajuda os pais no atendimento aos clientes que lotam o lugar na praça principal da Vila Palmira em Guarulhos. É essa que será a eterna companheira de nossa heroína. É ela que acompanhará as tristezas, encontros e desencontros da nova mulher que nos espera. 4º CAPÍTULO Ao longe, Jacquelline ouve algumas vozes sussurrando e sente uma moleza enorme em seu corpo. Abre os olhos sonolenta e assusta-se ao ver sua mãe, Janete e Dr. Reinaldo; todos, em pé, olhando para ela. Tenta se levantar rapidamente, mas o médico a segura pelo braço e ombro: - Calma, mocinha!....ei...senão ficará com tontura.... Como se sente? Só então percebeu que estava deitada em uma cama de hospital e tomando soro por uma agulha ENORME enfincada em seu braço direito. - Filha... está tudo bem agora, fique calma, logo iremos pra casa. - Jacquelline Vale, você não imagina o susto que levamos com a senhorita! - a paciente é levada a rir da cara engraçada da amiga se fingindo de brava. - O que aconteceu? Como vim parar aqui? 48 O médico toma a palavra: - Vocês poderiam nos deixar a sós para eu assistir minha paciente, por favor?- após as duas saírem, toma a mão dela com carinho e sorri – Você desmaiou na rodoviária e a trouxeram para eu cuidar de você já que ficou meio agitada depois. Aplicamos um tranqüilizante na senhorita e fizemos alguns exames. - Desde que hora estou aqui, doutor? - Chegou esta manhã! Agora são 6 horas da tarde. - Minha nossa! - Precisamos conversar um pouco, Jacque... Você tem namorado, menina? - Não. – a resposta foi cortante. O médico suspira e prossegue a conversa: - Bem... tenho algo a lhe contar que talvez seja uma surpresa agradável a você...ou talvez não. - Algum problema sério comigo, doutor? – ela já estava ficando apreensiva. - Talvez.... bem...você está grávida. Se Jacquelline Vale não estivesse deitada, com certeza, teria caído. - Não é possível !!! - Sim... é possível sim. Tanto que alguém está crescendo dentro de sua barriga. O ultra-som nos informou que você está grávida de 8 semanas, praticamente dois meses. Inconscientemente, a futura mãe coloca a mão sobre o ventre ao mesmo tempo em que vira o rosto para esconder algumas lágrimas que escorrem de seus olhos. - Se quiser falar algo... sou um bom ouvinte. -Doutor... – sentindo que podia confiar naquele homem que praticamente tornara-se amigo da família após todos os acontecimentos com seu pai, contou ao Dr. Reinaldo a forma como engravidara. - Então, você foi estuprada? - Sim... só pode ser. Foi a única vez que tive alguma relação sexual com alguém. - Então, iremos à polícia, iremos ao juiz e tiraremos esse indivíduo. Jacquelline ficou atônita: - Que ... que indivíduo, doutor? - Essa...essa criança aí. - O senhor enlouqueceu? O senhor está falando de MEU FILHO. Não foi ELE que me fez algo, foi o genitor dele, este aqui é MEU FILHO. - Mas...Jacque...a lei é clara, você deve tirar esta criança, estupro é uma violência terrível !!! - ...e o que o senhor quer que eu faça pra SUPERAR a violência do estupro é ASSASSINAR meu PRÓPRIO FILHO ?- após um riso nervoso tentou acalmar-se – Quanto ao estupro, não quero mais voltar a mexer nessa história, não tenho forças pra isso! Por favor, sei que estou sendo covarde por deixá-lo às 49 soltas... egoísta até! Desculpe! ...e, por favor, peço segredo ao senhor...eu contarei às pessoas certas na hora certa! Doutor, quanto ao meu bebê, não sei que lei é essa, não sei o que eu farei nem como o criarei, mas sei que não sou uma assassina! Em hipótese alguma mataria meu próprio filho! Ainda não o conheço, ainda nem o vi, mas tenha certeza de que já sou capaz de dar a minha própria vida por ele! As palavras daquela moça foram tão fortes que derrubou a máscara que, dera-se conta nesta hora, ele usava imitando muitos hipócritas. E, naquele dia, Doutor Reinaldo Frontes aprendeu uma lição que jamais tinha compreendido durante todos aqueles anos de faculdade e consultório. Aprendeu a realmente respeitar o valor de uma Vida, seja ela de que tamanho fosse. Jamais teve coragem novamente de sequer sugerir que uma mulher cometa o crime mais cruel da raça humana: o CRIME de ABORTO. 5º CAPÍTULO - Jacque!!! Não acredito!!! Que lindo!!! Que linda!!!..Ai, meu Deus, agora você não pode ser contrariada... precisamos de um chá de bebê...e a escola? ...deixe a escola...você não pode mais ir à aula... - JANETE!!! ME ESCUTE, POR FAVOR!!! Parou de andar em volta da paciente e respondeu na hora: - Claro, amiga, não posso contrariá-la. - Janete, eu só estou grávida, não doente! - Mas você desmaiou. -Só porque passei muito estresse nesses últimos dias e não me alimentei direito... tive uma queda de pressão e só.- segurou as mãos da amiga que sentara mais calma ao seu lado – Você tem certeza de que minha mãe saiu? - Claro! Ela foi lá na recepção pegar seus exames para irmos embora. E lá é um sufoco pra gente ser atendido, eu pensei... - JANETE, ME ESCUTE... preciso falar com você antes dela saber da gravidez... vou contar tudo o que me aconteceu e depois esqueceremos este segredo por enquanto. Preciso que você me ajude a guardar alguns fatos de minha mãe. Quero passar a gravidez sem ver sofrimento nos olhos dela, depois com o neto será mais fácil aceitar o que houve. - Nossa! É algo tão grave assim? Amiga, você sabe que pode confiar em mim, conte e nunca mais toquemos neste assunto até que você se sinta forte o suficiente para contar a ela seja lá o que for. Prometo. - Não prometa...diga PALAVRA DE VIDA! – Jacquelline ri com tristeza. - O quê?! VIDA?! - nada... desculpe... brincadeira! – e mais uma vez, querendo que fosse a última, os verdes olhos se nublaram ao relembrar aquele noite que gostaria de esquecer. 50 6º CAPÍTULO Esconder a paternidade de um neto para a própria avó não fora nada fácil. Mas a sábia senhora, após tantos sofrimentos, achou melhor aguardar o momento certo para realmente conhecer toda a verdade daquele acontecimento. Agora a filha precisava de cuidados, cuidados com a criança e cuidados com o coração. Ela estaria ali para ajudá-la quais fossem precisos. Quando soube de toda a verdade pela filha de Cícera, logo que pôde segurar o neto em seus braços, sentiu a dor profunda de uma mãe que conhece os sofrimentos que não conseguira impedir a prole de ferir-se. Por agora, após a missa de sétimo dia, a realidade se abate sobre os familiares e o lado prático das situações precisa ser considerado em primeiro plano. D. Rosa se via viúva, sem trabalho e com um neto sem pai a caminho. Pôde contar com uma boa quantia em dinheiro que conseguiu, como uma espécie de indenização, da diretoria da fábrica em que o marido trabalhava e, ainda, com a ajuda espiritual e moral dos vizinhos tão amáveis e prestativos. Mas o dinheiro acabaria enquanto as despesas só aumentavam. A filha participava da preocupação da mãe e juntas tomaram algumas decisões importantes para o futuro. Jacque terminaria o Ensino Médio e para isso Janete já tinha conseguido, desde poucos dias após o enterro, uma bolsa de estudos no colégio em que trabalhava. O bebê só nasceria no início do próximo ano, até lá finalizaria o antigo 2º grau, prestaria vestibular para Letras e tentaria conseguir uma vaga de professora em alguma escola. Dona Rosa costuraria para fora, a vizinha divulgaria seu trabalho para as clientes que tanto freqüentavam sua sorveteria e venderiam o carro da família. Assim, traçados os objetivos de cada uma, sentiam que havia uma razão digna para viver ao acordarem a cada dia. 7º CAPÍTULO - Ainda bem que você não é minha professora, senão acho que teria um ataque de riso em cada aula. - Credo, eu sou uma ótima professora! - Eu sei, mas antes de tudo é minha melhor amiga que me diverte e me alegra todos os diiaaasss!!!- - terminou abraçando e beijando a Janete que se desvencilhava. - Menina, o que vão pensar de mim? Uma aluna barriguda me abraçando aqui no pátio do colégio e em frente a sala dos professores! Assim você me desmoraliza... olhe a pose...somos chiques, lembra?! – falou brincando como de costume e caíram na risada como sempre. - Ai... quase nem aparece ainda minha barriga! - Então, isso aí é gordura, eca...depois que ficou grávida acha que tem que comer todos os chocolates de São Paulo...vai virar uma baleia! 51 - Ai, menina, você acha mesmo? - preocupou-se verdadeiramente a futura mamãe – tenho que me cuidar, né? Mas chocolate é o meu ponto fraco! E o que eu posso fazer se fome dóóóói em grávida? - Comer frutas, legumes... coisas saudáveis! - Você está certa, vou me cuidar mesmo! Agora você me deixou preocupada! - Isso, Jacque, preocupe-se mesmo, é sério...até nem é por causa da gordura, mas pela saúde de vocês. Na pastoral da criança eles usam um farelo que chamam de multimistura que é fantástico! Se quiser, eu compro e trago pra você. - Mas o que eu faço com isso? E o que é? ... um farelo mesmo ? - Bem... é como uma farinha, mas muito nutritiva... eles ensinam as grávidas a colocarem na comida...não precisa muito não... pouca coisa já serve, uma colherzinha de chá em cada refeição. Eles utilizam com as crianças que estão abaixo do peso, desnutridas, mas pra grávida também é ótimo! Dizem que o leite da mãe e a criança ficam muito saudáveis. - Se é bom pro meu filho, pode pegar que eu como até farinha! - Feito!- disse ainda rindo - Sua mãe já viajou? - Não... vai hoje à noitinha. Sua mãe que vai levá-la à rodoviária. Janete Alessandra percebe que a amiga ficou estranha. - Eu sei. Pra onde ela vai mesmo? - Moinho de Ilusões. - Fazer o que lá? - Ver minha vó. Só pouco depois de ver o primeiro sorriso do filho, soube que a mãe fora nessa viagem enterrar a última lembrança de sangue que ainda restara na cidade em que a menina crescera. - Vocês têm casa lá? - Só a da minha vó, a nossa meu pai vendeu quando veio pra cá... mas ela foi entregue ao novo proprietário só depois que eu saí de Moinho de Ilusões... fiquei lá sozinha um tempo ainda. - Pelo que vocês me contam do seu pai, não sei como ele deixou você ficar estudando lá! - Ele estava muito preocupado com o trabalho e, na verdade, pensava que eu dormia só na minha vó... o que os olhos não vêem, o coração não sente! - Jacque... sua mãe me contou sobre um amigo que você ... - Esquece isso, Janete... ele se foi... - Mas você ainda é apaixonada por ele? - Passou... tem que passar... precisa passar! - Se fosse fácil assim, seria ótimo! - Você já amou alguém? - Assim não, mas espero encontrar algum bom homem pra ser meu marido e você sabe que me guardo pra isso. Quero mesmo casar virgem! - Eu também queria, mas... 52 - Não foi culpa sua, Jacque... o homem que casar com você vai entender. - Isso realmente não me preocupa, principalmente porque não vou me casar! – respondeu com firmeza pensando que o único homem que a levaria ao altar não se importava com ela. - Ah, pare de falar bobagens! Claro que vai! O dia de amanhã a Deus pertence! Jacquelline fica em silêncio algum tempo e depois dá um sobressalto que até assusta a colega: - JANA! Isso mesmo, JANETE ALESSANDRA... JANETE... JANA! Olha só...como ficou legal seu novo nome!? Eu estava pensando em algum menor que Janete Alessandra e ACHEI!!!! de agora em diante a chamarei de Jana também! - Mais um nome não!!! Já tenho DOIS!!! - Olha... lembre que estou grávida...não pode me contrariar! - Tomara que esse bebê nasça logo viu, você já se aproveitou demais de mim!!! Após o riso, cada uma em silêncio segue com seus pensamentos. – Jacque, meus amigos chegaram ontem do nordeste, vamos sair da aula e passar por lá para que você os conheça? - Claro. Mas eles não viriam só daqui uma semana? - Sim... só que cancelaram as palestras e retornaram antes por causa da saudade dos filhos... nunca vi família mais unida que essa...vai ver só! - Nossa, as crianças que devem estar contentes! - É verdade! Apesar de adorarem ficar com a avó, nada como estar pertinho dos pais também, né? - Ainda mais se forem realmente como você disse. - Você vai ver, realmente nunca vi um casal tão lindo assim. - Será que vão gostar de mim? - Claro, sua boba, vão adorá-la! Eles já a conhecem de tanto que falei de você. Vocês só não foram apresentados, primeiro, por causa do que aconteceu com seu pai e, depois, porque viajaram. Mas queriam conhecê-la há tempos já. - Você realmente contou tudo a eles sobre minha gravidez? - Contei porque você permitiu! E, Jacque, se vamos ser amigos, e sei que seremos, é melhor que saibam logo de tudo pra evitar perguntas inocentes mas que possam magoá-la. - Você está certa, é verdade! Deixe-me ir pra aula agora, depois a gente se fala. - Tá, encontro você no carro, barrigudinha. Antes que Jacque pudesse responder, Jana já se dirigia rapidamente para à sala dos professores. 53 8º CAPÍTULO Os sete riam muito do bolo que Jacquelline tentara fazer e, claro, não conseguira. Chegara há algumas horas e parecia que conhecia aquela família há tempos, sentia-se como se estivesse em sua própria casa. Juliano e Juliana estavam casados há anos e tinham duas belas crianças: Juninho e Juninha. Com a sogra Julieta formavam os Jus e se orgulhavam muito disso. Depois de amigos, unindo a Janete e a Jacquelline, ficariam conhecidos como A turma do J e adoravam a referência. O dono da casa era um advogado que acabara de despontar no mundo dos negócios com a publicação de seu livro Poética das Finanças, que rapidamente tornara-se um best-seller. Com a publicidade e recente popularidade foi praticamente obrigado a vir para a grande cidade; como jamais se afastariam um do outro, vieram todos para a metrópole, inclusive, a mãe da esposa. Dona Ju era viúva e mãe de cinco filhos homens crescidos e casados, mas era a caçula, Juliana, a mais apegada com ela. Nas festas de fim de ano, a família toda se reunia e matava a saudade. Os Jus moravam em uma bela cobertura no centro de Guarulhos e sentiam-se felizes com a nova morada e com os novos amigos. Algumas vezes escapavam da correria e, tranqüilos, buscavam algum refúgio nos condomínios fechados das praias da região. - Durmam aqui hoje? – a Ju disse para a Janete. - Vamos ficar, Jacque? - Por mim tudo bem, minha mãe já está viajando mesmo e adorei vocês! – estavam sentados no tapete da sala de estar em volta de uma elegante mesa de centro onde estava quase intocado o bolo que a futura mamãe tentara fazer. – Obrigada por me receberem tão bem no lar de vocês!- disse segurando as mãos dos dois novos amigos que retribuíram com olhares carinhosos, sorrisos e muita...mas muita alegria. Há muito tempo a mulher de olhos verdes não se sentia tão feliz e em paz. Passaram a encontrarem- se sempre e tornaram-se cada vez mais amigos. Com o avanço da gravidez, Jacquelline teve alguns problemas de saúde, nada grave, mas merecia alguns cuidados. A maior dificuldade era que desmaios estavam tornando-se cada vez mais rotineiros e, por isso, os amigos não a deixavam mais sozinha. Quando Janete não podia acompanhá-la até em casa, vinha a Juliana ou o marido e levavam-na para a casa deles, de lá só saía quando Dona Rosa, sentindo sua falta e fingindo ciúmes, pedia que a levassem embora. O tempo passava e a jovem mãe finalmente conseguira em mãos o diploma do Ensino Médio ao mesmo tempo em que fazia sua matrícula na FSP. Passara no vestibular para Letras. 54 9º CAPÍTULO A gravidez transformara a menina em uma bela mulher. A felicidade pela chegada do primeiro filho transbordava pelos olhos de Jacque quando ouviam-na mostrar as coisinhas que seriam do seu bebê. Todos do bairro contribuíram com alguma coisa, os presentes foram tantos que a futura mãe, intrigada, ficava imaginando se seu filho realmente conseguiria usar todas as fraldas descartáveis que estavam empilhadas na antiga despensa. Já sabia que se tratava de um menino e o nome já estava escolhido, mas não dizia a ninguém. As mulheres da família Vale agora se mantinham com a costura da mãe e com uma aposentaria que o Dr. Juliano conseguira através dos tribunais pelos anos de trabalho que o pai tivera. As duas sabiam que uma gravidez não desejada não é nada fácil, mas a chegada de um novo ser ao mundo é sempre um presente e esperança para todos. E foi como um presente Divino que aquela família recebeu seu mais novo membro. Adrian nasceu forte e saudável em uma das raras manhãs de sol em São Paulo. - Givan, que nome você colocaria se tivesse um filho agora? - São mulheres que têm filho e não homens, Jacque! - Ai...você entendeu, seu chato! - ... Adrian ... queria que fosse Adrian o nome de meu filho! Os amigos estavam presentes desde as primeiras dores. A jovem mãe almoçava na casa dos Jus quando sentiu as primeiras contrações. Dona Julieta, como era a mais experiente, percebeu que ela entrava em trabalho de parto e meiahora depois A turma do J adentrava ao hospital, Janete foi quem ligou e avisou a futura avó que seu neto já estava a caminho. Em nenhum momento Jacquelline lembrou-se de sentir-se tão feliz como quando recebeu Adrian em seus braços. Em seguida, as enfermeiras pegaram-no do colo da mãe para os primeiros cuidados com o recém-nascido. Como dera a luz pelo parto natural, pôde encontrar-se com os amigos momentos depois do nascimento da criança. Ao chegar ao quarto, encontrou flores por todos os lados e o casal amigo esperando por ela com lágrimas nos olhos. - Vocês o viram já? - Sim, a enfermeira nos mostrou assim que foi pro berçário... ele é lindo, Jacque!- disse a Ju. - Você viu como parece com ela, meu Bem? – perguntou o marido à esposa. - Parece comigo, Juliano, você acha mesmo? – aguardava a resposta com ansiedade. O escritor segurou suas mãos e disse com firmeza: 55 - Sim, minha amiga, ele se parece muuuito com você! Tenho certeza de que só com você! Ela sorriu tranqüila. - Onde estão as crianças, a Dona Ju, a Jana, a minha mãe? Vocês sabem delas? E, então, sorrindo de felicidade, as três entram junto com as crianças trazendo o recém-nascido mais amado daquela cidade! Adrian entra no colo da avó para, pela primeira vez de um ano, sugar a vida que sai dos seios da mãe. 10º CAPÍTULO - Filhinho, não mexa em nada! – Jacque pega o filho nos braços e leva-o lá fora no terraço para contemplar as luzes coloridas que no jardim, amplo até para uma cobertura, iluminavam a noite sem luar. - Jacque, traga ele aqui... eu cuido dessa criança...vem com o tio, vem? – o menino já abre os braços sabendo que ali conseguiria apanhar vários objetos que a mãe lhe tomava. - Ju, você está mimando demais meu filho, depois ninguém agüenta! -Não o estou mimando, ele precisa descobrir o mundo, né, meu pequeno...vamos lá pegar seus presentinhos?! Vamos?- o menino se abre em sorrisos enquanto a mãe balança a cabeça fazendo um muxoxo. - Agora não! Ainda não são nem nove horas... os presentes são só meianoite! – não percebendo resultado, apela para esposa do amigo – Ju, ajuda aí, seu marido quer abrir os presentes de Natal ainda na Páscoa! Olha só a criançada lá em volta da árvore já. Juliana cai na risada e comenta enquanto termina os preparativos dos últimos pratos da ceia de natal: - Deixe as crianças, menina! Você não percebeu que os brinquedos que meu marido vai abrir são pra ele brincar?! Relaxa... as crianças que se entendam. Jacque suspira: - Você está certa... ando tão nervosa ultimamente. Deixe que eu vou lavando a louça... - ... ah, obrigada... é o que eu mais detesto na cozinha!...Agora, Jacque, por que anda nervosa? - Preciso trabalhar urgente. - Mãe, a maionese já está na geladeira?- gritou pra D. Ju que brincava agora com o Adrian. - Já, sossegue, filha! - Fala, Jacque...desculpe... - ... é que a despesa da faculdade este ano não foi fácil. Mesmo sendo pública, há os livros, transporte...você sabe... nossa! Essa panela não limpa, Ju!... -... deixe de molho, então... -... e ainda tem o Adrian! ... Meu Deus! E a Jana que não chega nunca?!! 56 Ela ficou de conversar esta semana com a diretora do colégio sobre a possibilidade de eu dar aula lá no ano que vem ou se a diretora ajudava em alguma outra escola... mas desde ontem não consigo falar com ela. - Nós também não, dona Cícera disse que ela passou o dia num retiro da Igreja. Deixei recado pra ela vir pra cá sem falta. Neste instante, ouvem o interfone e algum tempo depois a campainha que não pára. Tinha de ser a Jana! Mas eram os irmãos de Juliana que acabavam de chegar do interior de São Paulo. Janete só apareceu bem mais tarde. - Cheguei, meus amores!!! – As crianças que brincavam em volta árvore de Natal atravessaram correndo a sala de estar e quase derrubaram a tia Janete com abraços e beijos. Todos adoravam-na e sabiam que chegaria cheia de presentes para a garotada. A chegada da amiga trouxe também a novidade de que ela conseguira arrumar uma escola para Jacque finalmente. Não a que trabalhava, conseguira uma vaga em uma escola pública, porém era uma forma dela mostrar seu trabalho e, se bem feito, com certeza poderia ter referências para conseguir um colégio melhor. Jacquelline ficou radiante e aliviada com a notícia. Mesmo ganhando pouco, já poderia ajudar nas despesas e lutava para, em breve, arcar com todas as suas necessidades e as de seu filho. Janete sabia o quanto isso era importante e necessário para a outra e ficou muito feliz em poder dar-lhe esta notícia como presente neste dia tão especial. Porém mal conseguiram conversar, a casa ficou ainda mais cheia com outros parentes do casal, as mães das meninas e alguns amigos da vizinhança. Aquele Natal fora o primeiro da vida de Adrian, uma criança que realmente refletia a felicidade de ser amado ao sorrir e encantar cada um. Após os cumprimentos à meia-noite, Jacquelline pegou o filho no colo e saiu novamente para aquele jardim. Ali... sozinha, sob a escuridão da noite, olhou em adoração o filho em seus braços. Suas mãozinhas tocavam o rosto macio da mãe enquanto balbuciava e sorria tentando afastar o sono que quase o vencia.... A mulher, encantada, olha seus olhos claros ... parecidos com os dela, embora os dele tendessem ao azul... seus cachinhos eram escuros e seu sorriso parecia ter o brilho das Estrelas.... após a criança adormecer...levantou o olhar para a noite...e ficou ali parada algum tempo a olhar o céu ... ainda havia Estrelas no céu. 11º CAPÍTULO Era o segundo mês de março que passaria longe de Moinho de Ilusões e como fora no anterior, procurava ocupar-se com várias atividades em casa, nos estudos, para tentar esquecer que era o mês de Givan. Tentava em vão. Já nas primeiras horas do dia vinte, Jacquelline abriu uma espécie de caderno de pano que fizera no ano anterior onde, através de uma técnica que desenvolvera com um isqueiro a laser, queimava palavras que expressavam sua 57 paixão pelo rapaz que se encontrava tão ausente. Queimava o pano por trás e em cada letra era como se cicatrizasse um pouco de sua saudade. Escrevia durante todo o dia e, ao anoitecer, guardava-o de todos que pudessem descobrir seu segredo. Talvez algum dia, quem sabe, pudesse entregá-lo... talvez tivesse coragem. Faria isso em todos os aniversários e em momentos de profunda lembrança. - Tudo bem, filha? Que bom que está aqui na sala, assim me fará companhia. - Claro, mãe. - O Adrian dormiu cedo hoje não? - é verdade!.. Mãe? - Fala, filha. - Não... nada... - Pergunte, vai... - Bem... quando a senhora foi ... naquela vez... lá... - No enterro de sua vó? - Isso... a senhora...a senhora... - Sim, filha. - Sim? ...o quê? - Sim, eu o vi ...de longe, mas o vi. - Então nem conversaram? - Não. - Ele estava... - Não estava sozinho não, meu amor. Jacque olha fixa para a TV ligada a sua frente. A mãe sabia o esforço que a filha fazia para tentar seguir em frente e esquecer o amigo de infância. Mas a mulher também, em sua sabedoria, via que um sentimento como aquele jamais seria apagado. Acreditava que só o tempo acertaria toda aquela situação e enquanto isso... estaria ao seu lado. - Vou deitar, mãe...amanhã será um dia cheio! - Amanhã é um novo dia, filha! Um novo dia! Naquela noite como na do ano anterior foi deitar-se tentando imaginar como fora aquela data para ele... se ele estava feliz... sabia que se ele tentou o vestibular, devia estar decepcionado por mais uma vez não passar, Jacquelline acompanhava a lista de aprovados pela internet. Também neste aniversário, sua maior dúvida era se ele se lembraria dela, quem sabe até com saudade... ou se ele se lembraria somente é que foi em um 20 de março que conhecera a namorada. 12º CAPÍTULO Mais um ano passara rapidamente, o comércio já começava a iluminar as vitrines com enfeites natalinos. Para Jacquelline, em um ano, muita coisa mudara. Terminava o segundo ano de Letras como a melhor aluna de sua turma e conseguira no meio do ano uma vaga no Colégio Olinda, o mesmo que a amiga 58 trabalhava. Com isso, já podia arcar com as suas despesas e as do filho. Animavase até a cuidar-se um pouco mais visitando semanalmente o cabeleireiro, indo às compras e vestindo-se de acordo com a moda. Naquele final de novembro estava radiante porque poderia comprar seu primeiro carro. - Gente, me ajudem, por favor! Se eu for lá sozinha, o dono vai me passar a perna. Eu não entendo nada de carros! - Eu não posso, porque amanhã tenho que agendar as palestras do doutor aqui pra semana que vem. - Tenho aula o dia todo e depois o grupo de oração! Pra mim, amiga, nem pensar. - Eu só posso ir pela manhã. Como você está na escola, irei sozinho então. - Juliano, você faria isso, por favor?! - Claro, Jacque... mas antes me explique direitinho o que você quer que eu faça. - Olha... fique com esse jornal aqui...é esse aí que eu vi... esse circulado. O dono está pedindo 20 mil, mas ofereça 16 em dinheiro vivo, se ele fechar, beleza! Porque foi o máximo que consegui no banco !!! Por favor, antes olhe bem o carro pra mim ...sabe...aquelas coisas que só os homens conhecem...motor, assoalho, espelho ... - ...espelho? - Ué...se tem espelho dos dois lados, motorista e passageiro. Esqueci de ver! - Não acredito que quer que eu veja isso!!! - Doutor Juliano, como é que eu vou estacionar sem o espelho? - Ah...retrovisor então, né, moça!!! Nossa, pensei que você tinha andado demais com a Jana... que susto! – desta vez até as crianças não paravam de rir. - Credo, Juliano! Eu não sou assim não! Jacque, me defenda vai!!! - Não, Ju! - ainda rindo - ela não é assim... ela é pior! No dela ia pedir pra colocar um batom no porta-luvas!!! - Pior que vocês estão é certos!!! Afinal, ninguém me conhece como vocês!!!- Janete se rende aos risos. - Bem... então ficamos combinados assim...se der certo, você leva pra mim lá na escola pra gente já testá-lo... aí eu volto com você até onde você deixou seu carro e sigo com o meu. Entendeu? ...resumindo, você já vai pra escola com meu carro! Hoje ainda, farei a transferência pra sua conta e aí é só pagar e levar. Semana que vem cuidarei dos documentos! Já verifiquei até no DETRAN e, com este carro, está tudo certo! - Se não conseguir fazer a transferência total, eu pago com meu dinheiro e depois você me passa o restante. Mas este endereço aqui do jornal não é tão perto não, heim... digo pra você me levar de volta. - Quanto tempo você acha? - Que horas acaba sua aula? 59 - Amanhã sairemos onze e vinte. - Bem... esse horário é o de almoço...acho que uma hora mais ou menos...isso por causa do congestionamento. Por mim não há problema algum, porque meu compromisso é somente às duas da tarde. - O problema é que o Adrian tem médico amanhã às 13 h e é pro lado que tenho que levar você. - Então ficou fácil, passo na sua mãe, pego ele e o levo até a escola ... aí de lá, você me traz e vai ao médico. Certo? - Perfeito, doutor! Ai, não vejo a hora de chegar amanhã e saber se tenho um carrinho... ou não, né?! - Vai dar tudo certo, Jacque! - Obrigada, Jana...assim paro de emprestar tanto seu carro. - dirigindo-se agora à Juliana - Obrigada a você também, amiga, só com a auto-escola demoraria mil anos pra tirar minha carteira de motorista. E obrigada por amanhã, Ju... vocês são mais que meus amigos, vocês são meus irmãos! Emocionados, eles se abraçam, despedem-se e cada um segue seu caminho rumo aos encontros e desencontros da vida. Ao chegar em casa, encontra tudo escuro. Passa pelo quarto da mãe e por alguns instantes olha os traços marcados da sabedoria do tempo agora suavizados pelo sono. Nunca mais as duas conversaram sobre o passado, exceto quando Jacque perguntara se a mãe o vira, é como se decidissem enterrá-lo com o pai e a avó. Só não sabia se a mãe ficava em silêncio pela filha ou por ela mesma. Beijou-a com carinho e seguiu para o seu quarto. Após fazer a transferência de uma parte do dinheiro para a conta de Juliano, fugiu para a cama do filho. O trabalho e a faculdade roubavam praticamente todo seu tempo, mas quando estava em casa procurava dedicar-se completamente àquela criança. Acarinhou sua face, beijou-lhe o pescoço sentindo seu cheiro... segurando com suavidade seus bracinhos lembrou-se do que dissera Dr. Reinaldo quando soube que estava grávida e sentiu um frio subir-lhe a espinha. Como alguém tinha coragem de matar uma criancinha como aquela? Só porque não podiam vê-la, podiam matá-la?!! ...ela existia sim e estava ali para provar... foi só deixá-la nascer...deixá-la sorrir...é só amá-la que ela lhe fará feliz. Jacquelline adormeceu em Paz com Adrian em seus braços. 13º CAPÍTULO As crianças do 6º Ano estavam extremamente agitadas com a apresentação do Sarau organizado pela professora Jacquelline. Uma vez por semana, as aulas de Língua Portuguesa eram transformadas em palco para apresentação de poesias, músicas, danças, tudo que os estudantes produzissem. Ali, a censura era simplesmente para que o ambiente fosse agradável 60 a todos e a regra era nada ser cobrado como avaliação. Arte pela Arte era o que a professora queria despertar nos educandos. Mas não exatamente no sentido Parnasiano, seu objetivo era fazer com que seus alunos apreciassem um texto por gostarem de tal leitura, não porque seriam cobrados por isso. Queria ainda, despertar e valorizar cada vez mais a criatividade de cada um, por isso cada apresentação era aplaudida e prestigiada. Na organização, usava o discernimento para dosar a liberdade de leitura com a orientação pedagógica. Seu trabalho era respeitado pela coordenação da escola que lhe dava total apoio nas atividades. Neste dia, inclusive, a direção iria prestigiá-los cedendo o palco que ficava no anfiteatro e convidando professores e alunos de outras séries para assistirem. Jacquelline, nas aulas de Sarau, sempre usava uma boina como forma de se diferenciar aos alunos da aula tradicional, embora tivesse que permanecer com o tradicional jaleco branco. Após brilharem no palco dançando vários ritmos, declamando poesias, lendo textos infantis e até tocando Ave-Maria com um clarinete, as crianças ficaram eufóricas! A apresentação fora um sucesso, inclusive, arrancara lágrimas dos olhos da diretora, além de muitos aplausos. Ao soar o sino, os pequenos artistas rodearam a professora e levaram-na para fora entre beijos e abraços fazendo a educadora prometer que na semana seguinte aumentaria o tempo de cada número. Ainda despedindo-se entre risos, abraços e beijos, Jacque acenou quando viu chegando ao portão o Juliano que trazia Adrian em seu colo com os bracinhos abertos para ela. A mãe correu ao encontro do filho enquanto ouvia do amigo: - Seu carro está aí fora, senhorita motorista! Vamos lá dar uma voltinha nele? Jacque, sorrindo ainda mais, completa: - Mas estou muito nervosa, então, agora você dirige! Será meu chofer, heim! - Como queira, madame! Vou dando mais dicas no caminho! E, Paulistanos, CUIDADO QUE AGORA TEMOS A JACQUE NO VOLANTE!!! Jacquelline, contente pela vitória que conseguira, saiu rindo, abraçada ao amigo, com o filho nos braços, para juntos olharem seu primeiro automóvel. 61 IV PARTE 1º CAPÍTULO A febre instalara-se em seu corpo, sentia a garganta arder, todo o corpo doía e mal tinha forças de sair da cama. A chuva continuava a cair lá fora, servia como música de fundo aos seus pensamentos quando ouviu uma batida na porta. - Truce um chá procê, meu fio, e tem uma moça aí fora que qué te vê. - Quem é, vó? - Num sei, fio, mas é uma baita duma moça bunita. - Deve ser a Vivaine, a jornalista que eu sempre falo dela pra senhora. Soube que ela chegou esta semana de uma longa viagem de trabalho. - Givan sorri para a senhora com carinho e pede para deixá-la entrar enquanto tira de cima da cama algumas peças de roupa e o notebook depositando-os no criado-mudo ao seu lado. Alguns minutos depois, aparece em seu quarto uma figura alta e esbelta com um sorriso nos lábios trazendo para o doente maçãs e biscoitos. - Então, o doutor está dodói? - Pois é... nem pude comemorar o resultado do vestibular. Mas meus avós já contaram até pros meus pais lá na Europa ! Não conseguiu segurar o riso ao imaginar os avós do amigo espalhando a notícia até para outros continentes: - Estão orgulhosos de você! - Estão até mais felizes do que eu! – o futuro médico se rende aos risos por alguns instantes - Vi, todos realmente passaram? Até a Bá? Ela andava tão insegura! - Sim, todos da nossa turma, né? Também estudamos tanto! Eu sabia que este seria o nosso ano! E quanto às festas, há tempo pra isso, Gi... não se preocupe que pra nós festas não faltarão. - ... é verdade...- o amigo dá um riso desanimado- Tudo bem com você? O pessoal me disse que você viajou pra fazer uma matéria, me conte como foi essa aventura de negócios? Nem pra me contar nada heim! - Você estava em São Paulo quando eu fui! Gi, minha viagem foi sensacional! Esse tempo no Pantanal me ensinou muita coisa, sabe! Principalmente o quanto nosso Brasil é maravilhoso!... A fazenda do meu patrão é linda! Nunca vi tanto bicho na minha vida, dei comida pra uma Arara... na minha mão, acredita?!! E claro que trouxe uma matéria mais que pronta de lá... é óbvio! - Nossa! Deve ter sido muito legal! Bom trabalhar assim, né? Viajando! - É mesmo, mas não me animo muito não. Essa grande reportagem é só porque meu chefe quer vender as terras dele! Então, publicaremos um documentário pra valorizar a propriedade! Esperto ele. - Hoje em dia a maioria das pessoas não dá mais ponto sem nó! 62 - Pior!... Mas agora olhando bem para o doutor aqui, a sua cara mostra que as coisas estão meio quentes pro seu lado! - fala brincando enquanto coloca as mãos no pescoço do rapaz para verificar que ainda estava febril. - Pois é, já tomei antitérmico e até agora a febre não passou completamente. - Fique atento, pode ser Dengue... está havendo muitos casos na cidade. Embora a prefeitura e a TV sempre alertem para as pessoas não deixarem vasilhas com água parada pro mosquito transmissor não proliferar, não tem jeito, o povo parece que não entende! - Calma, jornalista! Apesar de que isso merece mesmo uma manchete! - Aff, Gi... queria enfiar um pouco de juízo na mente do povo - ri para ele percebendo que se inflamara ao dizer sobre algo que para ela era realmente muito importante já que estava relacionado com a saúde de todos - desculpe... mas se cuide, vai que é Dengue. - No meu caso é garganta... sinto que está mesmo inflamada, em todo caso ficarei atento e o único remédio que usarei será dipirona, sem contar em repouso e... - ... MUITO LÍQUIDO!- ela completou sorrindo. Voltando a ficar séria: - Givan, e a SUA viagem... como foi? A amiga está sentada na beirada da cama, próxima ao doente, entre ele e a parede. Givan fita em silêncio a janela do quarto, que fica ao lado oposto da amiga dando vista ao corredor lateral da casa. - Ela se casou, Vi... - Você a encontrou então?!- a jornalista entusiasmou-se. - Eu a vi... cortou os cabelos, acredita?- sorriu. - E como foi quando ela viu você? - Ela não me viu. - Não acredito !!! - Não pude chegar até ela... -Mas POR QUÊ? – a acadêmica estava inconformada. - Eu a vi de longe e ia me aproximar, mas ela se encontrou com o marido e... com o filho deles. Vivaine espantou-se com a informação e entendeu o que o rapaz deve ter sentido na hora, mas isso não era motivo para não falar com Jacquelline já que por tanto tempo foram tão amigos. - Mas por que não falou com ela? O que é que tem? Ele baixou os olhos: - Mal consegui vê-la com outro, imagine conversar com ela! E poderia trazer algum constrangimento... não sei... não quis atrapalhar a vida dela... também fiquei abalado por vê-la feliz com outro... a verdade é que eu a perdi, Vi... e a culpa foi minha! Balançando a cabeça: 63 - Não acredito... há algo errado nisso... não é possível! - Pois esquece, minha amiga... ninguém me contou, eu vi. Agora é tentar seguir em frente. – vendo que o espírito investigativo da amiga falava mais alto suplicou-lhe - Quero que prometa que não irá procurá-la, Vivaine. Não podemos perturbá-la! Tantos anos ficamos juntos e eu acabei lhe trazendo só sofrimentos ... preciso deixá-la ser feliz. Prometa, Vi... por favor! A outra, resignada, suspira: - Tudo bem... se é assim que quer! E você o que vai fazer? Ele sorriu sem qualquer sombra de dúvida: - Amá-la e esperar por ela aqui. Olhou com estranheza para ele e não pôde deixar de perguntar: - Como é que é? - Vi, você sabia que as borboletas podem visitar diversos lugares, mas fazem morada somente nos jardins que fornecem alimento adequado pra elas e pra sua prole? - O quê?! - Você sabia que as borboletas procuram lugares que as protejam dos ventos fortes e tempestades... e que pra encontrarem água precisam do solo macio? ...As borboletas são diferentes dos pássaros que bebem água em qualquer fonte... elas a buscam no solo... no solo adequado. Se as plantas de seu jardim chamarem as borboletas, com certeza, você atraí-las-á. Vivaine pensa que o amigo está mudando de assunto: - Que bom, né?! Gosto de borboletas também, são bem... bem... coloridinhas, né?! - Ela voltará , Vi.... voltará ao seu jardim... e me encontrará esperando por ela. 2º CAPÍTULO - Bom-dia, Givan. Sarou já?Givan acredita que a desvantagem de morar em uma cidade pequena é que todos se conhecem e sabem da vida de cada um. Mas o problema mesmo é quando uma gripe torna-se AIDS na boca das pessoas. - Sarei, Gracinha. Gostaria de uma informação. - Pode perguntar. - Quem é o responsável pela preservação do terreno do antigo casarão? - Olha... não saberia dizer a você. Na verdade... nunca ouvi falar nada disso por aqui, na Prefeitura. Mas talvez você consiga algo na Secretaria Municipal de Administração e Serviços Públicos, lá procure o Seu Chico, você já deve saber que ele trabalha há anos aqui e sabe tudo de cada propriedade da prefeitura... se não puder ajudar, poderá encaminhá-lo a quem possa. -... e onde fica mesmo a Secretaria? - No primeiro andar. 64 - Obrigado, Graça. Mande lembranças à família por mim. - Obrigada, serão dadas. O rapaz foi conduzido pelo guarda do andar até à sala de Seu Chico. - Bom-dia, seu Chico. - Bom-dia, pois não? - Acho que o senhor não se lembra de mim. Eu sou o neto do seu Sebastião e D. Querubina. - Mas olha só... está um rapaz heim?! - Pois é. - E em que posso ajudá-lo, filho? - Bem... não sei se o senhor sabe mas eu entrei para a Universidade . - É mesmo! E vai ser o quê? - Médico, seu Chico. Médico Pediatra! - Que maravilha! ...como é mesmo seu nome ?... minha cabeça ... - Givan. Bem... o que eu gostaria de ver com o senhor é a possibilidade de transformar o velho casarão do moinho em algo que traga algum benefício a esta cidade... O velho senhor balançava a cabeça afirmativamente e parecia atento ao que ouvia. -... como anda bem abandonado e pelo jeito a prefeitura não dispõe de muitos funcionários pra isso, eu vim disponibilizar meus serviços utilizando aquele local pra atendimento médico ao mesmo tempo em que cuidarei de lá ... O velho senhor fez um rosto contrariado que o jovem interpretou como sendo recusa em gastar dinheiro público com o terreno. - Faço as reformas de meu bolso se for preciso, seu Chico...- pensou em usar parte do dinheiro da faculdade. - Não é isso não, filho... sua idéia é ótima! Muito boa mesmo, mas aquele casarão não é da prefeitura. - Não é? - o rapaz espantou-se – é do Estado então? - Não, Givan. Aquele terreno é particular. É ainda dos Dutra. - Mas sempre esteve aberto, visitei ele até com a escola! - Mas é porque o dono deixa assim e não liga pra isso, a família mudou-se há muito tempo pra cidade grande. Antes até de você nascer, o terreno permanecia completamente fechado, no entanto, um dia, veio alguém deles aqui e deixou o portão aberto com um caseiro tomando conta. Este, por sua vez, morava sozinho e talvez por isso deixasse todo mundo visitar o local, deve ser quando você foi lá com a escola. - Acho que todos pensavam que era algum guarda da prefeitura. - Que nada! Mas parecia mesmo... ele cuidava do terreno, da casa e até do velho moinho. Não ganhava um tostão por isso, pra sobreviver carpia os quintais da redondeza e ganhava alimento dos vizinhos. Há poucos anos ele morreu e o 65 terreno continuou aberto, só que agora parece abandonado. - Mas então precisaria falar com o proprietário e pra isso terei que ir à outra cidade então! - Talvez não. Antigamente o Dr. Jorge Cacique cuidava de pagar as contas daqui... contas de água, energia, imposto... essas coisas. Talvez ele tenha contato com algum Dutra ainda. Converse com ele primeiro. - Já tomei muito seu tempo, seu Chico. Obrigado pela informação... - ...de nada, filho. Tomara que dê certo! ...mas não sei bem como você vai fazer já que o espaço não é da prefeitura. - O senhor vai ver, seu Chico...- repete sorrindo- Aliás, todos por aqui vão ver! 3º CAPÍTULO Jacquelline está eufórica olhando aquele nome estampado na tela do computador da sala dos professores. - JANETE, ELE PASSOU... ELE PASSOU!!! A professora vê a agitação da amiga e quase derruba o café ao correr até ela para ver o que tinha acontecido para tanto alvoroço. - O que houve, Jacque? - O GIVAN PASSOU NO VESTIBULAR!!! – os olhos verdes brilhavam tão felizes como Janete nunca os vira antes. - É algum aluno seu?- pensou em seguida no absurdo do que dissera já que Jacque lecionava para crianças do 6º Ano. - Não, Jana... é ele! - Ele quem?- Janete viu o jeito da amiga e compreendeu finalmente de quem se tratava, sorriu.- esquecer heim?! Se todo mundo se esquecesse assim, o mundo seria só Paz e Amor! ...dá uma beirada aí da cadeira... deixe-me ver isto...hum, então o nome secreto é Givan Galle... 18º lugar no vestibular para ... MEDICINA NA UNESM? Jacquelline fala toda orgulhosa: - Viu como ele é bom? Ah, Jana, estou tão feliz! Ele deve estar radiante de felicidade! Deve ter tentado todos esses anos, mas agora conseguiu! Amiga, isso é demais! - Liga pra ele, uai! - Endoidou? - Ué... por que não? Vocês não cresceram juntos? - Jana, não quero ficar triste agora, prometo que outra hora eu conto o que houve... não é nem por ele que não ligo, mas... outra hora conversamos, tá? - Então, tá! Mas a outra hora fica marcada pra amanhã, às nove da noite. Os Jus pediram pra eu avisar você que eles querem nos contar algo, aproveitaremos pra comemorar a vitória de seu grande Amor e você nos conta o que houve. A Turma do J precisa saber tudinho de seus membros. Combinado sem direito à 66 recusa. - Tudo bem, vai... amanhã então. 4º CAPÍTULO - Nossa, mãe, ando tão cansada! Ainda bem que amanhã é sábado. - Pudera, filha, você se mata de tanto trabalhar! Nunca vi igual! Ou está brincando com Adrian, ou dando aula, ou estudando, ou fazendo alguma atividade extra da escola! Os diretores têm razão em gostarem tanto de você, você trabalha que nem doida! - Eu gosto e preciso, mãe! - Mas precisa também se divertir, sair à toa e, principalmente, arrumar um namorado! - ...esquece isso, não vou ficar com ninguém! D. Rosa vendo que não adiantava, pegou o menino adormecido nos braços da mãe e levou-o até o quarto. Jacquelline aproveita o espaço e deita naquele sofá antigo; quando a senhora retorna, a filha conta a novidade: - Mãe, o Givan passou no vestibular pra Medicina! - É mesmo?! - Passou, mãe!- Jacque se abre em sorrisos. - Mas como é que você sabe disso? - Eu vi no site da UNESM a lista dos aprovados e o nome dele estava lá. Deve estar a maior festa na casa dele. A D. Querubina e Seu Bastião devem já ter contado pra cidade toda! Bem... se eu estivesse lá, seria mais rápida que eles! As duas riem gostoso como há tempos não acontecia. - Mas como quer ser pediatra ainda tem um longo caminho pela frente! Vai ter que batalhar muito... agora fará uns seis anos de faculdade, depois acho que precisará de uns quatro para residência e especialização em pediatria... eu acho né! - Minha nossa! Uns dez anos? - Isso mesmo! Mas quando completar os seis primeiros, se passar, acho que já ganha algum dinheiro com a residência! Ele vai ter que estudar muito... Mas eu sei que ele vai conseguir, tenho certeza disso! -Ele seguiu a vida, filha. - Eu sei, mãe! E eu sigo a minha. - Se matando de trabalhar. - Sério, mãe, é bom pra mim! Eu cresço muito quando ensino, quando estudo. Pra que é que vou querer um namorado a esta altura de minha vida? Adrian pequeno ainda! - Mas não é por isso que você não namora... - Não namoro porque não vejo graça em ninguém... ah, amanhã vou sair com a turma. - É mesmo? Até que enfim! Antes não saía da cada dos Jus, agora mal os 67 vê. -É que todos andam muito atarefados mesmo, mas amanhã vamos nos encontrar!- espreguiçou-se sentindo o cansaço das noites mal dormidas - Agora vou deitar, mãe. Benção. - Deus a abençoe, filha... durma bem. 5º CAPÍTULO Dirigiram-se a um restaurante aconchegante que havia no centro de Guarulhos, onde ocuparam uma mesa para quatro pessoas que fora reservada pelo advogado no dia anterior. Mesmo após o jantar, ainda pouco sabiam do passado da moça de olhos misteriosos. - Estamos esperando, Jacquelline Vale... é só começar assim...Era uma vez... - Contos de fadas terminam em “felizes para sempre”, Jana!... minha história não é bem assim. - Quem é que sabe? Você não morreu! E mesmo se tivesse morrido... olha só o Titanic!!! - Ah, Janete, fique quieta, por favor! Tem hora que você fala cada bobagem!- Juliano tentou amenizar a curiosidade das mulheres - Jacque, se não quer nos contar agora, não precisa. Só achamos mesmo que você guarda muito os sentimentos e que isso pode até lhe fazer mal... talvez dividindo um pouco com os amigos, as coisas não sejam tão ruins quanto parecem. Jacquelline, comovida pela preocupação que sabe ser de todos, resolve confidenciar alguns de seus sentimentos: - Tem razão, Juliano. Acho que preciso mesmo falar um pouco... até porque não há um só dia em que eu esqueça meu passado. - Estamos aqui... se quiser, nos conte; caso não consiga, entenderemos e continuaremos ao seu lado. – completou Juliana demonstrando estar em comum acordo com o marido, apesar de querer saber o que se passou com a amiga que tanto estima. - Bem... eu era apaixonada por um menino que conheço desde a infância... – finalmente conta todos os sabores e dissabores que ocorreram entre ela e Givan... revela alguns detalhes sem se preocupar com as lágrimas que escorrem de seus olhos aliviando um pouco a amargura contida em seu coração por todos aqueles anos que evitara expressar seus sentimentos com medo de não conseguir suportá-los. Estava enganada! Dividir o que sentia fizera com que pudesse relembrar os momentos felizes que passaram juntos e até riu relembrando as maluquices que aprontara para agradá-lo. - Realmente, quem a vê tão comportadinha agora jamais imagina a louca insana que você era. 68 Até Jacque concordava com ele. - Acho que, na verdade, eu o espantei sendo tão maluca! - E depois falam de mim, né ?!- Janete não consegue ficar calada. - Jacque, eu acho que ele ama você! - Se ele me amasse mesmo, teria me ouvido, teria me procurado, Juliano. - Ninguém sabe o que aconteceu realmente... você teve mais notícias dele? - Só que ele estava namorando quando minha avó morreu, que só pode ser com a Gizele senão minha mãe teria falado com quem ele estava, e que agora passou no vestibular. Se quisesse, teria me encontrado na época... e agora já me esqueceu, lógico. - Você devia ligar pra ele. - Não vou fazer isso, Jana! E, depois, ele não vai nem querer falar comigo e eu vou piorar... Gente, pense bem... ele passou a vida inteira ao meu lado todos os dias e nunca fez nada, claro que não me amava! Poderiam até dizer que ele era tímido, mas ele namorou, sem timidez alguma que eu vi, minha melhor amiga! Depois ainda se afastou de mim até como amigo... e vocês acham que ele me ama?! Enlouqueceram ou eu entendo AMOR como algo bem diferente de todo mundo! - Mas ele não disse que a amava? - Disse ... uma vez ... há séculos ... e completou que não podia ficar comigo! Foi ótimo desabafar com vocês porque pude ver com a Razão tudo isso, não posso me iludir de forma alguma... às vezes sonho acordada que ele vai aparecer e dizer que descobriu que me ama!... A Razão diz isto: ele nunca me amou e não me ama! Vamos ser realistas, tenho que conviver com a idéia de que o amo sozinha e ponto final! Se conseguir esquecê-lo um dia, ótimo! Se não, fazer o quê? Terei que me conformar e tocar a vida sozinha mesmo, porque não quero ficar com alguém pensando em outro que acho que deve ser pior do que ficar só... mas vamos mudar de assunto, pessoal? - Nem sempre a Razão sabe de toda a verdade, Jacque... mas vamos mudar de assunto se é o que quer... Vamos ao principal motivo de eu tê-los convidado para este jantar. Turma do J, minha linda esposa aqui tem uma novidade para todos! Todos viram Juliana ficar corada e olhar tímida para o marido: - Ah, querido... conte você! O marido segurou uma de suas mãos beijando-a com todo amor do mundo e disse radiante de felicidade: - Nós dois estamos grávidos novamente!!! As duas amigas do casal correram a abraçá-los em meio a sorrisos e gritinhos de felicidade, mas Janete tinha que falar alguma das suas: - Aff, lá vamos nós procurar mais um nome com Ju. Dois né, porque até sabermos o sexo!!! Todos respondem ao mesmo tempo: - CALE A BOCA, JANA!!! 69 6º CAPÍTULO Os jovens acadêmicos estão sentados em círculo no chão do coreto que ficava na praça central em frente à Igreja Matriz da cidade. Aguardam ansiosamente aquele que fazendo mistério convocou uma reunião. - Ah, até que enfim ele chegou... Ficam ainda mais ansiosos ao verem Givan estacionando o carro. Assim que saiu já pôde ouvir e ver os amigos chamando-o para andar rápido. Sorriu e encaminhou-se decidido para o grupo que o esperava. - Sente logo e conte o porquê desta reunião antes que eu morra de aflição! - Calma, Bá. - disse cumprimentando a todos e sentando-se ao lado da Vivaine – Meus amigos... hoje será um dia muito importante pra todos aqui... Olham-se prontos a cair na risada e fazendo pose de sérios. - Fala logo, doutor brasileiro!- até a curiosidade russa é demonstrada. -Então...fiquem quietos e me escutem... agora sem brincadeira!- após a concordância de todos, continua- vocês sabem que fazemos parte da minoria deste país, certo? - Depende minoria de quê? - Minoria das pessoas que conseguem cursar uma boa faculdade, César! - Ah, isso sim! Apesar de alguns risinhos, o futuro médico não pára o pequeno discurso: - Não podemos deixar isso ser algo comum. Devemos agradecer esta oportunidade que temos da vida. - Concordo... mas agradecer como e a quem? - Vi, aí é que está a grande pergunta! - E o meu amigo tem a grande resposta, suponho.- completou Marcelo intrigado. - Acho que sim e gostaria que participassem disto comigo... gostaria que fundássemos um grupo de ajuda à população desta cidade... algo pequeno sim, mas melhor que não fazermos nada e seguirmos nossas vidas como um profissional qualquer. - Acho que ainda não entendi... eu também? - Mesmo sendo russa... sua alma parece brasileira...então, acho que será de grande valia. – ela percebe que foi somente uma brincadeira e o abraça com carinho - Claro que você tem que participar! Afinal, o que seríamos de nós sem as suas, Ritóvski?! - Mas teríamos alguma ajuda financeira? Não entendi ainda direito também, Gi.- Vivaine não poderia deixar de pensar na praticidade das coisas. - Cada um se doaria da melhor forma que puder. Só entre nós temos: Eu, médico; Vivaine, faria a divulgação como jornalista; Bá, é enfermeira; Marcelo, informática; Ritóvski, música, pintura, artes plástica; Silas, advogado; César, dentista e, quem sabe, poderemos contar com fisioterapeutas, psicólogos, professores... Antes de continuar, preciso saber se vocês querem ser meus parceiros 70 nessa. A única coisa que posso adiantar agora é que não ganharemos nada com isso, pelo contrá rio, nos finais de semana, somente nos finais de semana, nos doaremos para ajudar as pessoas daqui sem ganharmos um tostão furado... a princípio é isso! Quem topa participar desta loucura comigo? - Nossa! A idéia parece ótima... mesmo sem saber detalhes, eu topo. - Obrigado, Bá. - É isso aí, conte comigo, meu chapa!- Marcelo nem hesita. - Claro que estou nessa! Mas quero exclusividade nas entrevistas! Nem sei do que, mas já vejo as manchetes! - Eu já estou lá, brasileiros! - Queria mesmo ter passado em Medicina... ser ginecologista... mas contêm comigo pra arrumar a boca da mulherada mesmo! - CÉSAR!!! – as mulheres, inconformadas com o comentário, dão pequenos tapinhas nele. - Márcia, eu sei que você precisa se concentrar nas pesquisas, por isso nem vou perguntar nada a você. Mas saiba que nossas portas estarão sempre abertas a uma Doutora! - Obrigada, Gi... obrigada mesmo por compreender o que preciso fazer. - Sucesso, amiga!- virou-se para o mais tímido deles- E você, Silas? O futuro advogado sente-se encabulado com tantos olhares: - O que foi? O que é que estão olhando?! Eu tô nessa, né? Fazer o quê?!!! Todos caem em cima dele abraçando-o! 7º CAPÍTULO - Podemos convidar a participar conosco alguns de nossos colegas que praticamente já se formaram em vez de contratar outros profissionais. Isso nos custaria muito e conseguir doações não será nada fácil. Vivaine e Givan já estavam há horas, no quarto dele, acertando alguns detalhes necessários para tal empreendimento. O primeiro problema que se depararam é que nem ele, nem o Silas, nem o César poderiam exercer a profissão ainda; teriam, portanto, que conseguir alguém formado para tal. Vivaine já trabalhava no jornal da cidade; a Bá possuía um curso de enfermagem; Ritóvski era professora de desenho, de piano, desde pequena sabia tudo relacionado às Artes e Marcelo dominava computação. - ... podemos já convidar a Valéria Natal como fisioterapeuta, ela voltou este ano e está formada . - Você cuida disso então? - Cuido. -Mas e advogado?...muitas pessoas precisam de um, principalmente, os idosos pra conseguirem a aposentadoria...eu sei bem o que passou meu avô....foi um custo, coitado... e só conseguiu o ano passado porque contratamos a Dra Viviane. 71 - A Viviane!!! - É mesmo! Como nós nos esquecemos dela? Claro que vai aceitar na hora! Ela sempre ajudou as pessoas. Você entra em contato com ela também? - pode deixar... entro em contato com todos que for preciso. - dentista?... quem poderia ser o dentista até o César se formar? - A Cris, ué! - Isso!... Mas ainda falta o mais importante... o médico! - Não, Gi...isso ainda não é o mais importante porque podemos contratar alguém...o problema é onde faremos o atendimento de toda essa gente? Givan, sorrindo para ela, piscou um olho: - Já cuidei disso, faremos no casarão. 8º CAPÍTULO A gravidez de Juliana transcorria normalmente, porém andava mais cansada que das outras vezes. O Dr. Ju também parecia mais grávido que antes. Desta vez enjoara com a esposa, sentira cólicas e certa vez pensou sentir um bebê mexer em sua barriga, mas achou melhor não dividir esta última experiência com os amigos. O menino Juliano apaixonara-se pela esposa ainda na adolescência, primeiro sua beleza deslumbrante o conquistara, depois a bondade e lealdade da mulher o fizeram perdidamente apaixonado. Com a chegada do filho pôde ver o mundo de uma forma ainda mais ampla do que já vira nos tribunais e não se cansava de afirmar que quem realmente entende das leis humanas e divinas é a maternidade. Essa que ele acompanhara de perto, pelo menos. Ao receber a filha nos braços conheceu um outro sentimento até então desconhecido para ele, a mistura de Amor e Dor ao mesmo tempo. Viu-se desde os primeiros momentos preocupado com o dia em que a sua princesinha se casaria e seguiria sua vida. Em mais um final de semana, A Turma do J estava completa na sala de cinema dos Jus assistindo uma comédia antiga e devorando pipocas de microondas, trouxeram até a D. Rosa para distraí-la um pouco. Adrian brincava com a Juninha e não parava de falar um minuto com ela. Enquanto isso, a mãe do menino chorava copiosamente assistindo o filme. - Jacquelline, sinceramente, você deve ter algum problema! Chorar em comédia?! - Meu Bem... deixe a Jacque chorar em paz! Se quiser chorar, que chore! Janete ria que não conseguia parar enquanto Jacquelline Vale ainda derramava lágrimas pelo desencontro desastrado do mocinho com a mocinha. O comentário sobre Jacque chamara a atenção das crianças: - Tia, por que você tá chorando? Não fique assim não! - Vem cá, Juninha, é que a tia é bobinha mesmo! Não ligue não. - Isso é coisa de menina, mana. Aposto que você vai chorar igual quando for maior. 72 - Negativo, seu Junião! Olhe aqui pra mim, sou uma moça e não chorei, só ri até agora... viu só? - Papai, eu só choro de saudade de você. Adrian viu Juninha conversar com o pai dela e disse inocentemente: - Mamãe qué o meu papai, poisso cholô mamãe. Cadê papai, mamãe? Não havia se preparado para uma pergunta como aquela. Aliás, naquela sala, ninguém estava preparado para essa pergunta tão natural a qualquer criança. Adrian era ainda muito pequeno, porém muito esperto. Todos ficaram atônitos e ainda nem sabiam que a situação seria agravada pelo que viria a seguir: - Tia, quem é o pai do Adrian? Ele nunca veio aqui, não é? Jacquelline olhava suplicante para Jana sem saber o que dizer. Alguém poderia ter mudado o rumo da conversa, Juliana poderia ter mandado os filhos para algum lugar, talvez a China. A avó podia chamar a atenção do netinho para algum brinquedo diferente, mas todos estavam estáticos esperando uma resposta da mãe do menino sobre o pai até então desconhecido para ele. - Já sei, Juninho...- virou-se para a tia Jacque - Vocês se divorciaram igual o pai e a mãe do Pedrinho, meu primo, não foi, tia? As perguntas eram tão rápidas... - ...mas como é o nome do pai do Adrian, tia?... - ...ele nunca vem visitar vocês? ...por quê?... na televisão já falaram que tem pai que não gosta do filho... alguns até matam os filhos... A criança virou-se suplicante para ela: - Quelo papai, mamãe! Então, as palavras saíram sem que conseguisse controlá-las... - Filhinho... papai não pode ficar com a gente. Papai está estudando. O nome dele é Givan Galle. Ouviu? – a criança sorri em resposta - Seu papai é médico. Não visita você porque pra ser médico precisa estudar muito, meu Amor? Mas ele ama muito você! Não é, tia Jana? - C-Claro... isso mesmo... seu papai é muito bonito também... e é alto... e é homem... - olhou indecisa para Jacque - ... um pediatra, né? Jacque voltou-se novamente para o filho, segurando com firmeza em seus bracinhos: - Isso! Ama tanto as criançinhas como você que quer ser pediatra, médico de criança igual o Dr. Batista! Está vendo, filho? Tenha orgulho de seu pai, meu Amor! E seu nome é Adrian porque o papai queria assim. – abraçou forte o menino e beijou-o fazendo-lhe cócegas no pescoçinho. Olhou para os amigos e para a mãe que, como acordados de um transe, retomaram a falar rapidamente sobre o filme. Sorriu para todos um sorriso amarelo causado pelo frio que tomava conta de seu ventre. O assunto logo fora esquecido pela maioria, pois, naquela mesma noite, abria os olhos o mais novo integrante da Turma dos J. Julinho nascera saudável e na primeira noite já parecia ter sorrido para a vida feliz que o espera ao lado de seus pais e irmãos. 73 9º CAPÍTULO Gastara boa parte do dinheiro da faculdade com a compra do casarão, mas em nada se arrependia. Tratara diretamente com o advogado do antigo proprietário e a compra se deu por um preço justo e de forma rápida. Em menos de um mês da visita à prefeitura, Givan assinava a escritura como único proprietário da construção mais antiga da cidade. Mal conseguia acreditar! Uma de suas intenções era mudar-se para a parte superior enquanto deixaria a inferior para o atendimento à população carente. Separou mais um pouco do valor guardado, agora para a pintura e reforma do local que estava completamente abandonado. A inauguração seria na véspera de Natal e para iniciar fariam uma grande ceia às famílias pobres de Moinho de Ilusões. Para isso contaram com o trabalho de divulgação da jornalista e este fora tão bem feito que já confirmaram presença o prefeito, alguns fazendeiros ilustres, empresários, o bispo, o diretor do maior hospital da região e até o reitor da UNESM. A luta para doações de alimentos para a ceia, de remédios, aparelhos médicos e odontológicos, papéis, computadores, tintas para pinturas, lápis, pincéis, instrumentos musicais e mais uma infinidade de coisas não fora nada fácil. Mas a repercussão do objetivo desses jovens Acadêmicos em todo o Estado rendeu várias colaborações de empresários de diversos ramos. Contaram, também, com o apoio das Igrejas que uma vez por mês fariam a coleta destinada aos bons samaritanos. Após a reforma e pintura, a parte térrea do casarão foi totalmente ocupada e distribuída de acordo com as necessidades de cada atendimento a ser feito. Logo na entrada ficava a recepção onde alguém faria uma entrevista e daria as informações e atendimentos necessários a cada caso, lá fizeram dois banheiros para atender a maioria. A ala leste era a maior e por isso foi destinada aos atendimentos relacionados à saúde: uma sala ampla para espera com música clássica ambiente e, também, com dois banheiros recém instalados; dois quartos cada um com duas camas apropriadas para atendimento médico sendo que um deles fora equipado com aparelhos para realizarem os exames de ultrassonografia e eletrocardiograma; outro com equipamentos odontológicos sofisticados, inclusive, um aparelho de raio-x e uma ampla sala equipada para fisioterapia. A oeste destina-se a outros tipos de atendimentos: um escritório para o advogado, um amplo salão para as aulas de Artes e na última sala havia dez computadores com internet instalada que serviriam para aulas de computação. Todos os antigos móveis da casa foram levados e arrumados na parte superior da construção. A tesouraria era no sótão, no próprio escritório do proprietário e seria ele juntamente com a Vivaine que cuidariam do dinheiro. Uma conta conjunta foi aberta e todo o movimento, fosse débito ou crédito, seria exposto mensalmente na recepção para que todos acompanhassem as despesas e as 74 doações. Por ser um trabalho comunitário e absolutamente sem fins lucrativos, os jovens fariam os atendimentos somente nos finais de semana para que pudessem trabalhar e estudar normalmente nos outros dias. Pouco antes da véspera do Natal do primeiro ano de Medicina, Givan Galle adentrou as portas do casarão para ali fazer a sua morada definitiva. 10º CAPÍTULO A inauguração fora divulgada em todos os canais do Estado e era o destaque da primeira página do único jornal local. A mídia comparou-os ao próprio símbolo natalino e a inauguração ser feita no aniversário do salvador da humanidade intensificou a nobreza do trabalho e rendeu mais algumas doações. O trinta de dezembro, por cair em um sábado, tornou-se o primeiro dia de atendimento. Iniciaram cedo cadastrando várias famílias. Mesmo sendo quase véspera de feriado, havia muitas pessoas de diversas idades espalhadas por todo terreno aguardando sua vez de serem atendidas. Alguns jovens foram selecionados para iniciarem as aulas de informática aperfeiçoando a formação para o ingresso no mercado de trabalho, algumas crianças seguiram para a sala de Artes enquanto vários velhinhos, que tinham a preferência das poltronas, aguardavam a vez de serem atendidos pela Dra. Viviane e seu estagiário Silas. E, assim, cada um dos Acadêmicos puderam aperfeiçoar na prática aquilo que alguns conheciam apenas dos livros. - Givan, o que faremos com as pessoas doentes que estão chegando? O futuro pediatra passara os últimos dias tentando contratar um médico que fizesse os serviços por um preço acessível nesta época de festas... até aquele momento nada conseguira. Bárbara estava recebendo as pessoas na recepção e levando os doentes para a ala leste rezando para acontecer algum milagre, mas já perdia as esperanças... - Você que é a enfermeira? Bárbara, sem voltar os olhos, responde enquanto auxilia um senhor idoso que parecia febril. - Senhor, aguarde em uma dessas cadei... - Por favor, enfermeira, não preciso de atendimento, quero atender quem precisa! Só, então, a moça viu um belo homem, de aparentemente uns 36 anos, vestido de branco, com uma maleta preta e no lado esquerdo do peito bordada a inscrição: DR ALYSSON! Um gritinho de alegria escapou daqueles lábios rosa ao mesmo tempo em que abraça o jovem médico com imenso alívio. - Mas o senhor já acertou o valor com o Givan lá no escritório dele? ...ele estava ligando para todos da região e agora mesmo me disse que não tinha conseguido nada! - O valor que quero é o mesmo que você recebe: a saúde de nossos 75 pacientes. Vamos lá, organize o atendimento de acordo com a gravidade primeiro e avise o Dr. Givan que não precisa mais procurar outro médico, pois ficarei aqui. Sou Clínico Geral e Cardiologista. Bárbara, aliviada e feliz, olha nos olhos de cada uma daquelas pessoas que buscam algum conforto para sua dor e sorrindo avisa: - Logo vocês serão atendidos. O médico de vocês acabou de chegar. 11º CAPÍTULO O trabalho não fora mesmo nada fácil, mas sentiam-se imensamente recompensados. Finalizaram o domingo com o cansaço misturado à sensação de que realmente plantavam uma semente que faria a diferença. Já na primeira semana decidiram que uma vez por mês se reuniriam para fazerem uma espécie de balanço de tudo que ocorrera e, assim, acertarem alguns erros e continuarem os acertos. A cada semana apareciam mais e mais pessoas, porém não só para atendimento, muitas apareciam para ajudá-los de alguma forma. Agradecidas, traziam sacos de arroz, feijão e nada era dispensado pelos tesoureiros uma vez que acertaram, com os Vicentinos da Paróquia local, a distribuição de alimentos e roupas às família pobres. Porém, para que isso acontecesse, primeiro o grupo religioso visitava a casa e verificava se realmente não havia a possibilidade de trabalho para as famílias que receberiam os donativos. Ninguém ali daria esmola para quem pudesse trabalhar, os Acadêmicos do Bem- como passaram a ser chamados- eram contra o incentivo à preguiça e à comodidade; quando a família tendia ao marasmo, davam a oportunidade para os membros trabalharem, para isso criaram um cadastro de Aptos ao Mercado que divulgavam para que os fazendeiros, comerciantes e empresários os contratassem. Nossos jovens não dariam esmola porque não estavam ali atrás de votos, estavam ali porque queriam transformar o mundo em um lugar melhor. - Givan, nós precisamos conseguir uma ambulância para levarmos os casos mais graves ao Hospital Santo Lar já que o desta cidade não atende completamente os pacientes... - Eu sei... Santo Lar realmente é o melhor desta região. - ... e se ficarmos dependendo da ambulância da prefeitura, nossos pacientes morrerão na espera. Ela vive quebrada! - Eu sei disso! Ontem mesmo minha avó estava contando que uma conhecida teve um enfarte e morreu antes que alguém pudesse apanhá-la em casa e levá-la ao posto de saúde ou ao hospital. Eles chamaram a ambulância, como ela demorava, ligaram de novo e avisaram que ela atrasaria porque tinha quebrado. Quando foram chamar um táxi, a senhora já havia morrido! Levaram a mulher já morta e a ambulância apareceu na casa umas três horas depois. Se estivéssemos no dia de atendimento, bastaria alguém ligar e teríamos ido lá, mas... - Sua avó me contou sobre isso. Na verdade, ela me pareceu bem abalada 76 com o que aconteceu. – ficaram algum tempo em silêncio, cada um com suas reflexões sobre o caso - Bonito de sua parte trazê-los pra morarem com você. - Pois é... não ficaria tranqüilo em deixá-los sozinhos e a casa aqui é bem grande! - Perdi meus avós e meus pais muito cedo! - Sinto muito por sua família. - Tudo bem, já superei isso.- mudando de assunto - Seus avós são bem jovens ainda, não é? - Os meus são jovens mesmo! – acrescenta sorrindo- Meu avô se aposentou, mas não consegue ficar parado. Eu até ia contratar uma pessoa pra reforma da parte externa da casa, mas ele mesmo quer ajudar, o deixarei como encarregado então. Estavam no sótão aproveitando um dos raros intervalos entre um paciente e outro. Embora já se considerassem amigos, era a primeira vez que conversavam desde que o médico formado incluíra-se entre os Acadêmicos do Bem. - Alysson, me conte como resolveu aparecer por aqui. O médico suspirou antes de responder: - Simples! Estava saindo de um plantão no Hospital Santo Lar quando o diretor, Dr. Orlando, me chamou em sua sala, ele me dizia de algumas normas novas do hospital quando você ligou procurando desesperadamente um médico, palavras dele. -... e ele estava certo.- lembrou-se da agonia que passaram naquela época de final de ano. -... eu fiquei curioso e perguntei a ele do que se tratava, foi quando ele me mostrou um jornal relatando a atitude nobre de todos aqui, quis fazer parte na hora e cá estou! - Que bom, Alysson! Você chegou mesmo na hora certa! - Sempre quis ajudar as pessoas de alguma forma, mas precisamos nos manter também. Como só trabalhamos nos finais de semana, ajudar tornou-se algo possível. - E como tem feito com seus pacientes que precisam de você quando está aqui? - Atendo praticamente só no hospital e temos o apoio da direção de lá, quando surge algum paciente meu, o plantonista ou o próprio diretor assume o doente e está dando tudo certo. - Então temos muito a agradecer ao Dr. Orlando, não é? - Sim, temos mesmo... Você deve ter percebido como somos respeitados pela mídia, pelos universitários e, principalmente, pelo povo. Isso se dá, além do empenho de cada um, claro... se dá pela transparência das finanças...colocar as contas com ganhos e despesas expostas para quem quiser ver é o principal... Parabéns por isso! - Obrigado! ...Acredito que tudo precise ser claro, embora as decisões somente nós possamos tomá-las, as pessoas saberem o que realmente está sendo 77 feito com o que doam é, no mínimo, uma forma de agradecimento a todos que ajudam de algum jeito... - É verdade, meu amigo! - ... e é com credibilidade que estamos conseguindo realizar isto aqui... sem esquecer a divulgação que a Vivaine faz! Ela é fundamental pra continuarmos nos mantendo! Cada vez mais temos empresários, políticos que nos ajudam mensalmente. - ...é realmente uma vitória! - Mas sabemos que é muito trabalho também! Mal temos tempo de respirar, não é?!... e sua esposa não reclama de você trabalhar tanto? - Não sou casado ... nem tenho filhos. Ainda a tempo de ouvir a última frase, adentra a enfermeira que desde o início do ano tem procurado vestir-se de uma forma mais elegante e sedutora, pena que os doutores, um em especial, ainda não haviam se apercebido disso. - Doutores, temos um caso de febre e diarréia lá embaixo. Os dois levantam-se, colocando cada um seu jaleco branco, e encaminham-se para a porta: - Vamos lá, Cassandra! Bárbara desce a escada ruborizada e confusa pelo apelido que o doutor lhe dera. Por alguns minutos gostou da intimidade, depois, porém, ficou meio enciumada achando que Cassandra poderia ser alguma namorada do cardiologista. Conseqüência de não ter prestado atenção às aulas de Literatura na escola. 12º CAPÍTULO O dinheiro para a reforma do terreno estava reservado desde o início da compra do lugar e o proprietário sentiu que era hora de começar o trabalho. - Vô... o senhor entendeu tudo direitinho? Primeiro, vamos arrumar a Torre e o que leva mais tempo... - Craro, fio! E angora memo nóis já vai começá a pegá as largarta em tudo quanto é terra deste lugar e trazê pra cá... pra fazê o rego d’água num é fácir não, mas seu avô cunségui... eu só num gostei muito da idéia dessas pranta mais ocê que escói, né?!. - Vô, precisa ser do jeitinho que eu expliquei... olha, fique com este desenho. O avô vê o papel e consegue vislumbrar na imagem tudo o que conversavam há semanas. - Certo... ocê manda, fio. - Primeiro, então, consertamos a Torre e arrumamos esses arbustos e essas árvores já que demoram mais a crescer e elas é que servem de abrigo seguro aos insetos... o principal, vô, é jamais usar produto químico! Tudo, absolutamente tudo precisa ser orgânico! 78 - Eu já sei, fio, insqueceu que eu e sua vó cuidava das pranta com bosta de vaca? O neto quase não consegue segurar o riso: - Eu sei que o senhor sabe mais do que eu, vô, e confio no senhor! - Pois pode confiá memo. Angora vou vortá pro trabaio. - Benção, vô? - Deus anbençoe ocê e a nóis tudo, meu fio. Vai vê a belezura que vai ficá aí fora... ocêis tudo vai vê! E a partir daquele dia, caminhões com sementes, pedras, mudas de árvores, arbustos e uma infinidade de trabalhadores braçais cruzavam os portões centenas de vezes para transformar, a cada dia, pedacinhos desertos de areia em partes coloridas e perfumadas do antigo terreno do casarão. 13º CAPÍTULO Um ano se passara da inauguração, os esforços estavam sendo recompensados por tanto alívio e conforto que proporcionaram a tantas pessoas e isso era a maior alegria que tinham! Todos estavam cansados, pois o ritmo era exaustivo para eles, cursavam a faculdade durante toda a semana, cumpriam com suas responsabilidades familiares e ainda faziam o plantão nos finais de semana no casarão. Receberam as férias universitárias como quem recebe um oásis em meio ao deserto, mas a Academia do Bem não deixaria de funcionar nem neste período. Por sorte, o Natal neste ano seria comemorado em uma terça –feira, os jovens, então, poderiam participar da ceia e das comemorações de final de ano em seus próprios lares. Os pais de Givan enviaram passagens aéreas para que fossem à Europa assistir às festas natalinas, os avós aceitaram o presente e embarcaram uma semana antes da véspera de Natal. Givan recusou o convite, não podia sair de Moinho de Ilusões. O rapaz só saía da cidade para assistir às aulas no município vizinho e, mesmo assim, desde que se mudara para o casarão, jamais dormiu fora de seu lar. Deitado a olhar o teto reformado da Torre, consultou o relógio e pôde ver que era quase meia- noite. Logo passaria mais um Natal sem Jacquelline. Onde será que ela estaria naquele exato momento?... será que via as Estrelas ainda? ...Veria aquelas mesmas Estrelas que ele estava olhando?... e o pôrdo-sol?... será que pensava nele algumas vezes?... qual a imagem que aqueles olhos verdes estariam vendo agora, neste minuto?... suas mãos?... tocava algo? ou alguém?... deve estar brincando com o filho, ele deve estar bem grandinho já... Jacque deve ter se casado assim que chegou em Guarulhos, vai ver com algum colega de trabalho... ou algum vizinho?... ela deve fazer as surpresas pra ele agora... não! acho que não...deve estar mais madura com a vinda de um filho... Dava-se conta de que o marido a vira grávida! ...alguém que nunca a tinha conhecido antes a vira grávida e ele não! 79 As memórias surgem intensas ... não param... Lembra-se do sorriso maroto e dos momentos que o abraçava enquanto dançavam... aquelas músicas de menina... queria tanto poder tê-la de novo em seus braços como a tivera tantas vezes sem se dar conta de quem ela era... de que a amava! Seu punho está cerrado e num gesto brusco senta-se para olhar as luzes que brilham nas casas lá embaixo e depois deixa-se novamente deitar de olhos fechados. Desde que se mudara para lá, vinha praticamente todas as noites olhar as Estrelas, era como se ali, naquele lugar, eles estivessem juntos de alguma forma. Estar onde estava naquele momento acalmava seu coração e dava-lhe uma certeza... a certeza de um dia estar novamente com ela sob aquele céu brilhando estrelas. Às vezes assustava-se com a própria voz: - Jacque, você viu aquela estrela cadente? Aposto que não, sua boba! Fica aí na cidade grande em vez de ficar aqui comigo!- e ria sozinho pensando na expressão que a amiga aaria se estivesse ali vendo-o como dono da Torre deles. – Quero só ver quando souber, Borboleta! Se souber algum dia... Em muitas ocasiões contava para ela os problemas que tinha e chegava a ouvir o que ela lhe diria, se pudesse. Conhecia-a tão bem que sabia exatamente quais seriam suas palavras naqueles momentos. E essas palavras normalmente o confortavam. - Jacque... o que eu faço pra poder estar com você novamente?- alguns minutos depois - ... mas como posso buscá-la se está casada e feliz? Adormeceu antes de ouvir o final da resposta. 14º CAPÍTULO - Jacque, você tem mesmo certeza do que está fazendo? - Sim, tenho. - Mas o salário é tão bom aqui!? - Não me sinto completa, Jana. Minha vocação não é colégio particular. - Mas lá terá que trabalhar o dobro pra ganhar o mesmo daqui. - Só que lá estarei feliz. Trabalharei mais, mas realizada! - Você sabe que tem todo apoio dos J, só estou falando porque acho que como amiga devo alertá-la dessas coisas, mas se é isso que seu coração manda, então, faça! - Obrigada por tudo, amiga. Mas é isso mesmo... só sinto que nos veremos bem menos agora em colégios diferentes. - Quando você inicia? - Bem... saiu no diário oficial para eu me apresentar pro exame médico semana que vem. Um dia após o exame será a posse, escolherei a escola e terei uma semana pra me apresentar à direção. - O bom é que você passou em primeiro lugar no concurso, assim, poderá 80 escolher a melhor. - Isso me anima muito, eu até já sei qual eu quero. - Qual? - Quero o Valdemir! - Claro... você amava aquele colégio! - Mas sem ser concursada eu ganhava muito pouco, agora será diferente. Não precisarei sair mais! - Deixe- me entrar, então, que eu continuo por aqui na senzala! - Boa aula, amiga! Depois nos falamos com mais calma. Jacquelline deixa a escola que proporcionara sua estabilidade financeira até formar-se no final do ano que passou. Tivera muita sorte, pois com o diploma em mãos pudera participar de um concurso para professores do Estado e passara em primeiro lugar como professora de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental II. Agora poderia exercer a sua vocação: ser professora de alunos carentes. 15º CAPÍTULO Voltar ao Colégio Valdemir era como uma dona de casa voltar para a cozinha de seu próprio lar. Sentia-se como se fosse ali que devesse estar naquele momento. O primeiro passo após a posse do cargo foi apresentar-se à nova diretoria que mudara há menos de um ano. - Bom-dia, Dona Luzia. - Luzia só, por favor. A diretora falou enquanto trabalhava na pilha de papéis que havia em sua mesa. Era uma bela mulher negra, jovem e muito elegante. Porém o que realmente fascinava quem a conhecia era a personalidade forte e decisiva que impunha sua presença com um simples olhar. Sua amiga e braço-direito, a diretora adjunta Lourdes, era mais sensível e, talvez por isso, juntas, administravam com equilíbrio uma escola pública que se conhecessem o trabalho ali realizado, serviria de exemplo ao restante do país. - Vim me apresentar, sou Jacquelline Vale, a nova professora de Língua Portuguesa dos Sextos Anos. - Correto. Pelo que me disseram você já trabalhou aqui antes, não é? - Sim, mas não como concursada. - Também me disseram que é uma excelente professora e que os alunos sentiram muito a sua falta quando saiu para lecionar no Colégio Olinda Baça. Todos da escola comentaram o fato e a professora baixou os olhos lembrando-se do rostinho triste dos alunos em seu último dia de trabalho; fizeram um bolo e declamaram várias poesias em sua homenagem. Mas agora ela estava de volta. E isso merecia seu sorriso. 81 16º CAPÍTULO O horário era bem expressivo, trabalhava 36 horas por semana: manhã e tarde. Sentia-se sempre cansada, exceto quando estava na sala de aula. Ali dentro, transformava-se e sua metodologia era extremamente diferente da que os alunos estavam acostumados. Jacquelline Vale não só gostava de seu trabalho, a professora Jacque amava verdadeiramente cada aluno. Todos os dias, a primeira coisa que fazia era olhar nos olhos de cada um para ver se realmente estavam bem. Cada sala que lecionava variava a quantidade entre 45 a 54 alunos. Normalmente o resultado satisfatório educacional se daria com, no máximo, 30 por sala. Infelizmente a realidade escolar neste país não permite que se restrinja as salas à última quantidade indicada. A professora não pensava em números satisfatórios de cada ambiente, mas em cada um que ali se encontrava. Cada um que passaria um ano a ouvi-la todos os dias já que sua matéria possuía a maior carga horária da escola. Isso sim a preocupava! Quando abraçara o magistério, percebera a importância de um Professor na vida de cada estudante. Em uma só sala chegava a ter 54 mentes assistindo a seus ensinamentos e a maioria abraçando-os como verdade talvez até incontestável. Ela não podia errar! Errar não no sentido de talvez um dia se confundir em alguma explicação, isso às vezes acontecia e se desculpava , explicava seu erro e expunha o conteúdo de forma correta. Sua preocupação maior era com a formação daquelas crianças. Jovens que por freqüentarem o colégio estadual já demonstravam que vinham de uma vida sofrida por parte de seus pais. A decadência da escola pública é tão incontestável que somente quem a enfrentava eram aqueles que não tinham nenhuma condição de matricularem-se em alguma que fosse paga. O Valdemir da Silva não era uma exceção, pois, embora a administração seja exemplo a ser seguido, o colégio também precisa acatar as normas da Secretaria de Educação e esta, sim, deixou de saber o que é Educação quando passou a preocupar-se mais com votos eleitorais. A professora sabia dessa realidade e optara por estar ali para que aquelas pequenas aulas de Língua Portuguesa fossem mais dignas das de qualquer colégio particular do país. Com o tempo, os alunos sentiam isso, passavam a acreditar em suas capacidades e tornavam-se agradecidos. Mas por ora, a nossa professora inicia o seu primeiro dia como professora de Língua Portuguesa concursada no Valdemir da Silva no 6º Ano A e como sempre fazia antes de iniciar qualquer aula, rezou uma prece a Deus para que iluminasse seus gestos, palavras e que pudesse ser, ali naquele tablado, pela graça divina, um anjo de Deus na vida daqueles pequeninos. - Bem... com o tempo guardarei o nome de todos...por hoje sei de você, 82 Príncipe Wellington!...mas quero ouvi-los todos os dias para guardar, pelo menos, um nome por aula...agora farei a chamada, levantem a mão pra eu vê-los, certo?! - TÁ, PROFESSORA!- os menos tímidos respondem. E em cada sala que entrava, a infinidade de nomes desfilava aos ouvidos da nova professora. Alguns, já conseguira memorizar na primeira semana... Adelar Ademir Adolfo Adriana Adriane Adriano Adriel Adrielle Adriely Ágatha Alana Alcy Alessandra Alex Alexandre Alice Aline Alinne Aluysius Amanda Ana Ananda Andersin Anderson André Andrea Andréia Andressa Angélica Ariadne Ariana Ariel Arthur Aryan Ayra Bárbara Beatriz Bela Bia Bianca Biel Bijal Breno Bruna, Meu Anjo! Bruno Cabelos Azuis Camila Carla Carlos Carol Carolina Caroline, DOUTORA!!! Cátia Célio Celle Ciça Clayton Cleber Cleiton Cris Cristiane Damázio Dani Daniel Daniela Daniele Danilo Danuzza Débora Diana Diego Diogo Dionivan Djenifer Douglas Duda Dyanessa Eder Eduardo Eliel Elso Elvis Emerson Emilly Eric Evelyn Everton Fabiana Fabiane Fábio Fabíola Fabrício Felipe Fernanda Fernando Fran Francisca Francisco Gabi Gabriel Gabriela Gean Geovani Geyse Gi Gian Giani Gilson Giovanna Giovanni Giovanny Gisele Gislene Giuliana Gizele Gleiber Gleison Guilherme Gustavo Heitor Henrique Hewerson Hudson Hudy Hugo Igor Irma Ingrid Iolli Isa Isaah Isabel Isadora Ivone, minha amiga! Jacqueline Janaína nº 26 Jany Jean Jeane Jeh Jéssica 83 Jhelly Jheni Jhennifer João Jorge José Joseney, o mestre! Júlia Juliana Juliane Juliano Júlie Júlio Júnior Kaká Karen Karime Karina Karine Karoline Kary Katiuska Kayke Keityane Kelma Kelvin Kélyta kerolyn ketlen Kevin Lahys Laís, Princesa Larissa Lauder Laura Leandro Ledy Leh Leonardo Letícia Leydiane Lívia, que Lívio! Liz Lorena Luan Luana Luani Luany Luara Lucassss Luciana Luciano Luis Luiz Luizinho Marcel Marcela Marcela Marcelo Márcia Márcio Marco Marcos Mari Maria Maria Mariana Mariane Mariani Marina Marry Mary Mateus Matheus Teves,meu Herói! Matuzalen Maurício Mauro Mayara Melany Mell Menphis Michael Michele Milla Miz Muh Mylena, Minha princesa! Najla Nantes Nathalia Nathalie Natty Naytara Nícolas Níkolas Pâmela Patrick Paula, atriz! Paula, modelo! Paulo Pedrinho Pedro Priscila Rafael Rafaela Raiane Raíra Raisa Raíssa Raphael Raquel Rayssa Renan Renata Renato Rennan, Príncipe Ricardim Ricardo Roberta Roberto Rodney Rodrigo Rogério Rosa Rute Ryan Samyra Sandra Sandro Sérgio Silas Sílvia Sílvio Sophia Stefano Steffany, linda!!! Sullivan Surama Suzy Talita Tallyta, CAMPEÃ!!! Tami Tamires Tatá Tatiane Taynara Thaiana Thaís Thalita Thalles Thallyta Thalu, GUERREIRA!!! Thaluana Thatiane Thayná Thaynara, sapeca!!! Thelma Thiago Tiago 84 Tielles Valéria Vanessa Vânia Victor Vidotti Vinícius Vithória Vitória Vivian Vivih Welington, Meu Príncipe! Wesley Yasmin Yuri, nota DEZ!!! ... havia ainda muitos outros que embora o rostinho esteja guardado para sempre no coração da professora, ela ainda não conseguira memorizar os nomes. 17º CAPÍTULO - Bem... o primeiro trabalho que faremos deverá ser o mais bonito de todos! - Ai, professora, é algum resumo? Detesto resumos! A resposta veio acompanhada com um sorriso: - Não, minha querida, você é a ... - Ana, professora. - Ana! Não, minha princesa, não é um resumo! Mas contaremos de diversas formas a história mais bonita do mundo! - E qual é essa história? - Bruninha, a história mais linda do mundo é a sua história...a sua...a sua...- e a professora foi apontando para cada um daquela sala sem deixar nem um de fora. - Como assim? - Simples, Emerson, semana que vem transformaremos nossa sala em um ambiente muito especial, até lá vocês vão juntando em casa as coisas que pertenceram a vocês desde que nasceram ... não importa o quê! Qualquer coisa que tenha relação com vocês é muito importante e especial... pode ser um pedaço de papel ou até um fio de cabelo, se for seu, se fizer parte de SUA história, deve ser tratada com a máxima importância! - Ah, Professora, eu tenho uma boneca velha de quando era bebê... - Isso, linda, traga-a então. - Professora, eu tenho uma bicicleta toda quebrada. Jacquelline sorri: - Ótimo! Não a deixe de fora, heim! - Eu tenho um carrinho sem rodas... - ... meu álbum... - ...uma bola furada serve? - ...as bolitas faziam sucesso comigo.... A professora percebe que o rapazinho Sérgio ficara quieto em seu lugar encostado à parede e não participa da alegria da sala. Ela vai até ele e sorri bem pertinho: - E você, meu querido, o que vai trazer de você? Ele a olhou meio sem jeito e disse baixando os olhos: - Não sei, professora. Não tenho nada. 85 - Deixe-me ajudá-lo... tem algum brinquedo antigo? - Nem antigo, nem novo. Uma dor foi sentida no coração da mulher. - Bem... e você brinca de quê, menino? - Eu não brinco, professora, só jogo bola com meus colegas da rua no domingo, o resto eu ajudo meu pai. - É mesmo? – ela disse como se fosse algo maravilhoso- Nossa! Que menino esperto e bondoso você é! Tão menino e já ajuda o pai?! - Sim. - E o que vocês fazem? - Ele é pedreiro e eu ajudo ele. A professora então arregala os olhos como se descobrisse um tesouro e diz: - Nossa, então você tem coisas bem legais pra trazer pra nós...olha só...pá, saco de cimento vazio, tijolos quebrados...- dá um gritinho – Pronto, você é o construtor e me ajudará a montar a sala no dia, certo? – volta-se para sala agora em voz alta - Turma, o Sérgio é o encarregado de organizar toda a sala e ele que dará as instruções a vocês. Ouçam bem, vocês devem fazer tudo do jeito que ele os orientar, entenderam? Após a sala assentir, voltou-se novamente para o menino, que sorrindo e com um brilho diferente por sentir-se realmente importante, diz: - Claro, professora! - Como você é construtor, tenho certeza de que terá uma idéia brilhante sobre como devemos organizar a sua sala. Sérgio, você me ajuda conseguir tijolos? Quero deixar tudo muito bonito! - Consigo tudo, professora! - Não precisa ser muito não, eu pago. Só para dividirmos alguns ambientes aqui como o dos meninos e o das meninas... E, então, usaremos suas ferramentas e todas que conseguir! Traga o máximo, por favor! Você é o profissional da sala, heim! Gostaria mesmo de conseguir mudar as condições financeiras de cada um, mas mal tinha sucesso com a sua! Ser professora em um país que um analfabeto assume cargos públicos não era nada fácil. Sabia que jamais um governo assim valorizaria como se deve a Educação de qualidade e os profissionais envolvidos. Voltou à frente da turma e pelo canto dos olhos pôde ver o pequeno trabalhador, todo orgulhoso, combinando com o colega da frente de como trariam tantas ferramentas que tinha em sua casa. 18º CAPÍTULO A semana passara rapidamente. A professora já sabia praticamente o nome de todos os alunos e sentia-se feliz em todas as salas, mas aquela primeira que entrara era a mais especial de todas. 86 Todas as turmas fizeram o trabalho. As apresentações transcorreram como previra durante toda a semana. A coordenação aprovou e apoiou o projeto da professora prestigiando-a com a sua visita e levando as demais salas de aula para olharem a exposição feita por cada aluno. Deixara o 6º A para a sexta-feira propositadamente. Queria estar tranqüila em relação às outras salas para poder prestar mais atenção àquela turminha tão especial. Sérgio chegara mais cedo que ela à escola e tratara, junto com alguns colegas, de organizar o ambiente antes de bater o sino. A exposição seria a partir da segunda aula até o intervalo. Por estarem tão envolvidos, a coordenadora orientou os outros professores a dispensá-los das atividades de suas matérias naquele dia. Durante a primeira aula, o ambiente ficou fechado enquanto as crianças organizavam cada uma o seu espaço. Dispensada das outras salas, a professora pôde estar com elas para dar as orientações de onde cada uma ficaria, mas era Sérgio quem organizava o local e orientava como deveriam ser dispostas as mesas, as carteiras e o tamanho do espaço que deveria ser ocupado por cada colega. Todos o respeitavam, afinal, depois daquela primeira aula, viam-no como alguém de responsabilidade. Isso o rendeu o cargo de Representante de Classe mais tarde. Os pais e os que vieram prestigiar a exposição puderam encontrar uma imagem diferente das salas anteriores. Nas outras, viram os objetos expostos na carteira de cada um distribuídos em cinco fileiras como acontecia nas aulas, mas nesta puderam ver a sala dividida em meninos ocupando o espaço das janelas e as meninas ocupando o espaço do quadro-negro formando um L de apresentações. Com os tijolos, fizeram uma espécie de corredor por onde os visitantes se organizavam para verem os objetos expostos e saíam para um espaço com cadeiras a fim de que pudessem conversar entre eles. As meninas cobriram o muro com lençóis escuros que trouxeram de casa, enfeitaram com desenhos feitos em cartolina e espalharam purpurina que a professora lhes dera. - Vamos fazer esta sala brilhar como vocês? E todos passaram a perceber que realmente brilhavam 19º CAPÍTULO Somente quando cursava o início do quarto ano de Medicina é que Givan pôde ver o terreno do casarão da forma como imaginara. Seu avô realmente fizera um belíssimo trabalho. Na verdade, perfeito! Infelizmente não pôde ver o resultado final de seus esforços, pois havia falecido de um enfarto fulminante no final do ano anterior e a esposa um mês depois. O neto afirmava que fora de saudade já que haviam feito de tudo para que a velha senhora resistisse, mas seu coração parecia não querer reagir, seguindo, portanto, o companheiro de toda uma vida. Pouco antes de morrerem, como se já adivinhassem o que viria a seguir, os avós de Givan venderam a casa que viveram boa parte de suas vidas e doaram o 87 dinheiro para a compra de uma ambulância. Todos ficaram enternecidos pela atitude daqueles idosos que já faziam parte da Academia do Bem antes mesmo dessa atitude. Quando partiram, a imagem dos dois ficara para sempre cristalizada no perfume dourado que inebriava a quem visitava o casarão. A tristeza passara e agora permanecia simplesmente a saudade. O futuro médico, quando não estava na faculdade, se dedicava totalmente ao trabalho dos Acadêmicos. No entanto, em algumas poucas tardes, ausentara-se daquele paraíso para cuidar de outro pedacinho especial para ele. Ritóvskiinão entendera ao ver, na carroceria da prática caminhonete recém-comprada do amigo, um dos belos bancos de madeira e várias mudas de flores retirados do jardim do casarão seguirem para algum lugar misterioso. Como todos sabiam das esquisitices dele, deu com os ombros e voltou-se para as crianças, que a aguardavam com pedaços de argila nas mãos, esquecendo-se rapidamente do episódio. O tempo seguia seu curso e os jovens atarefados mal o percebiam passar. No sábado de Aleluia daquela Páscoa, porém, puderam suspirar um pouco de tranqüilidade enquanto praticamente todos os moradores estavam entretidos assistindo o teatro da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Após conferir o soro da única paciente que ali se encontrava em observação, uma senhora que se intoxicara com a quantidade de bacalhau que comera no dia anterior, a enfermeira foi até a varanda e sentou-se ao lado do Dr. Alysson em uma das inúmeras cadeiras de área vazias. - Ela está bem, doutor, e dorme tranqüilamente - Assim que terminar o soro darei mais uma olhada, mas acredito que já poderá ir pra casa. Ambos permanecem em silêncio olhando a noite estrelada. Os outros permaneciam dentro do casarão, Marcelo na internet, Silas devorava Prática Forense, Ritóvski e César dormiam o sono dos anjos junto aos outros profissionais de plantão. Haviam construído mais uma sala nos fundos, pois agora uma psicóloga também fazia parte da Academia. - Bá, você sabe se o Givan está lá no escritório? -Não... está na Torre.- o médico levantou-se e imediatamente a enfermeira o alertou – mas não vá lá não!!! O doutor até estranhou a reação da moça: - Nossa... mas por quê? Ele ouve um suspiro e estranha o que vem em seguida: - O senhor não percebeu que ninguém sobe na Torre além de Givan? - Não, nunca tinha me dado conta disso... sempre estamos tão atarefados...e, por favor, vou falar pela última vez, me chame de Alysson, já somos amigos...imagino.f - Tudo bem, dout..Alysson.... bem... a Torre é uma espécie de lugar sagrado pra ele - percebendo que o médico ignorava sobre o que ela dizia, resolveu explicar melhor - Ele comprou este lugar aqui não foi só pra montarmos a 88 Academia, na verdade, aqui era onde ele e seu grande Amor do passado praticamente cresceram e a Torre era onde se encontravam! - ...é mesmo verdade isso que você está me contando? - ...verdade verdadeira!!! Por que o senh..você acha que ele nunca namora ninguém? - Sei lá... também nunca pensei diretamente nisso, mas acho que imaginava que ele ficasse com alguém sem a gente saber... como muitos homens fazem, mas não se ligam em ninguém! - Como você, no caso? - Não, Bá, eu não tenho tempo pra isso. A enfermeira gostou da resposta. - Bem... no caso dele também isso não acontece! Ninguém nunca comenta nada, mas todo mundo sabe de toda a história deles... até os moradores, todos respeitam seus sentimentos e, por isso, ninguém sobe lá. - Incrível!... vivendo e aprendendo, né? Tantos anos aqui e só agora sei de uma história como essa! Mas e a moça? Morreu? - Não que a gente saiba pelo menos! Mas eles cresceram juntos, ela era apaixonada por ele e ele começou a namorar a amiga dela... - Ai...justo a amiga? - ... pois é, acredita?...então, aí a amiga era uma pessoa terrível que fez de tudo pra separá-los...acabar até com a amizade deles e, então, a Jacque foi embora e nunca mais soubemos nada dela. - Jacque é a menina que ele gosta? - Isso! Jacquelline é a que ele ama . - ... mas se ele a ama, então por que deixou a outra separá-los? - ah... vai entender a cabeça dos homens! A outra, a Gizele, armou um monte de situações e só depois que a Jacque foi embora é que ele entendeu que a amava e que tinha cometido um erro. - Nossa! Então é só procurá-la e tentar resolver isso, se a moça gostar mesmo dele, vai dar tudo certo! - É o que achamos também e uma vez até nos reunimos escondidos de Givan e estávamos decididos a encontrá-la, mas a Vivaine disse que não sabíamos de tudo e nos fez prometer que não nos intrometeríamos de forma alguma. - bem... então deve haver mais alguma informação que você não têm! - Só pode mesmo! - ...Mas o tempo cura tudo, não é? - Será mesmo que cura, doutor? - Na maioria dos casos sim, Bá ... – olhou atento para aquele perfil – há muitas coisas pro tempo curar em você? - Vou ver a paciente, o soro já deve ter acabado. A enfermeira levanta-se deixando o médico intrigado com a bela menina tão jovem e aparentemente tão solitária... como ele. 89 20º CAPÍTULO O tempo foi passando e as responsabilidades com o filho aumentavam cada vez mais. Quando foi preciso escolher a escola para ele ser alfabetizado, Jacquelline viu-se em um tremendo impasse. Por conhecer a realidade do ensino, não confiava na aprendizagem que uma escola pública daria para ele, por outro lado a despesa de um colégio particular seria muito difícil para ela. A avó achava melhor matriculá-lo onde a mãe lecionava. - Mas, filha, você é uma excelente professora, uma das melhores que já conheci e é professora do governo. - Mãe, eu sou assim porque tenho consciência de minhas responsabilidades e cumpro-as. Mas ninguém me cobra, não há aperfeiçoamento e nosso salário é uma porcaria! Como não há um incentivo à Educação neste país, os professores cumprem seus horários da maneira mais cômoda a eles e não se preocupam com mais nada. - Não é possível, filha! E as provas? -Esse governo quer números, não conhecimento; quer um monte de gente analfabeta com diploma na mão! Por isso cria supletivo daqui, supletivo dali! Pense bem, alguém ver matérias de 4 anos em 1 ? Se em 4 já era difícil aprender, que dirá em 1?! - Nossa, nunca havia pensado nisso! - Pior, mãe, é que há uma ordem da Secretaria de Educação que os alunos praticamente não podem ser reprovados! - Sério, filha? Mas e quem não aprenddu a matéria direito? - Passamos ele e pronto! Essa é a realidade, somos “orientados” a fazer uma prova super fácil ou pedir um trabalho que normalmente colam da internet e ele alcança a nota. Ultimamente, só não passa de ano quem faltou demais às aulas, aí não é possível mesmo dar nota pro aluno. - Mas o que o governo ganha com isso, meu Deus? - Ganha um povo sem conhecimento que se torna fácil de ser manipulado. Ganha um povo sem condições de progredir por seus próprios méritos e que fica dependendo de Sacola disso, Sacola daquilo, rendendo uma porção de votos pra esses canalhas. E, ainda, a mídia divulga números de redução do analfabetismo no país pelo número de diplomas alcançados. Nós que estamos lá dentro é que sabemos a nojeira que é. - Antes o ensino público era o melhor!... em sua época só ia para os colégios particulares quem não tinha capacidade de acompanhar o ensino público. Era exatamente o inverso do que me disse agora! - Mãe, antes a censura selecionava o que o povo devia absorver, pior que hoje a maioria de meus colegas difamam radicalmente os militares e proclamam uma utopia libertária ridícula distorcendo a realidade de acordo com alguns antigos revolucionários frustrados! E a mídia ainda ajuda o emburrecimento fazendo o povo engolir um programa pior do que o outro! Preste atenção, observe que agora 90 também a idéia é acabar com a noção de patriotismo! Qual a escola em que os alunos cantam semanalmente o Hino Nacional como fazíamos? Sabíamos todas as comemorações, hoje mal sabem que dia 21 de abril morreu Tiradentes... lembrome que na semana da pátria usávamos verde e amarelo... Bem, mas meus alunos sabem tudo isso! E cantam o Hino Nacional tão bem quanto qualquer aluno de qualquer Colégio Militar do país. - É ... se tivesse um Colégio Militar aqui em Guarulhos, né, filha? Lembra que a Janete nos contou dos filhos da amiga dela? Falou tanto que até guardei os nomes, é... Matheus Coelho, Guilherme e Vinícius Goes, não é ? Nossa, ela disse que eles são tão aplicados, estudiosos e um deles até participa da banda do Colégio Militar lá de Campo Grande! - Olha, mãe, quem se salva neste país, tirando raríssimas exceções, só os Colégios Militares mesmo, viu?! Eu já procurei por aqui, mas não tem nenhum do exército ... e se tivesse, Adrian ainda não teria idade suficiente pra entrar. O jeito é conseguir a bolsa no Olinda mesmo! Amanhã terei a resposta da coordenação. A Jana disse que tentaria ajudar. Vamos torcer, né?! 21º CAPÍTULO Adrian foi um excelente aluno desde que entrara na escola. Diferente da mãe, o menino era um pouco tímido no início de cada ano. Para sanar essa dificuldade de relacionamento com os novos colegas, a professora o incentivava a participar das atividades esportivas e culturais da escola, porém o menino gostava mesmo era de se embrenhar na leitura de livros de aventuras. A mãe respeitava o jeito do filho, mas procurava estar atenta para que a timidez não se transformasse em algo que pudesse prejudicá-lo. A preocupação era desnecessária. Jacquelline achava algumas tradições escolares totalmente descabidas. Um exemplo disso para ela era o Dia das Mães. Segundo essa jovem mulher, deveria ser um dia em que a mãe escolhesse o que desejasse fazer, mas as escolas praticamente obrigam-na a visitar o colégio do filho para ouvir uma série de crianças cantarem, recitarem poesias e entregarem rosas às mães. Ora... e vai uma mãe faltar em uma ocasião dessas, com certeza, o filho ficaria traumatizado. Realmente, muitas coisas precisavam mudar! Já é previsível que seu maior defeito seja detestar as reuniões que havia no trabalho. Segundo a professora, estava ali para lecionar e não para fazer o social. Como no Valdemir não podia ausentar-se desses compromissos, ousava faltar em todas as reuniões do Olinda, onde o filho estudava desde a alfabetização. Não que fosse uma mãe ausente nas atividades da própria criança, simplesmente acompanhava-a em casa. Se fosse preciso, falaria diretamente com a professora do menino. Felizmente para ele, a avó comparecia a todos os compromissos escolares em nome da mãe, mas era aquela que o gerou que o apoiava rumo ao conhecimento. 91 - Filho, você já fez todas as tarefas? - Já, mãe, senão não estaria assistindo a Canção Nova! - Deixe-me ver seus materiais. Sentou-se no sofá e conferiu a agenda do rapazinho e todos os cadernos usados no dia. - Isso mesmo, sua letra melhorou muito, meu Amor! Amanhã é sextafeira, dia de sua história, lembra? - Claro, mãe! Tô fazendo a história de uma árvore enorme ... - Não me conte ainda, senão acaba a minha surpresa! ... Cadê sua avó? - Está na Dona Cícera ajudando a fazer um bolo. E a senhora sabe que a tia Jana ainda não chegou, né? - Sei sim, filho. Ela sempre vem muito tarde da Igreja. Hum...espero que o bolo seja de... - CHOCOLATE!!! – os dois falam em meio a risos enquanto a mãe abraça o menino enchendo-o de beijos. Em seguida, Jacquelline vai para o quarto preparar as aulas para o dia seguinte. Tempos depois, sua mãe aparece na porta: - Filha, vem jantar e temos bolo de sobremesa. - Bolo de quê? – disse sem tirar os olhos dos papéis. - ... de fubá! - hãrg... ah, não, agora não posso, tenho esta pilha de textos para corrigir até amanhã. A mãe vai atrás dela e olha pelos ombros da professora a que está sendo corrigida entre dezenas de outras redações: - Desse jeito você vai até madrugada, pra que fazer um desenho em cada uma? - Para as crianças, mãe, elas adoram! Olha só... este menino aqui, o Hudson, ele detestava redação, quando fazia era daquelas que dava vontade de chorar, então, eu desenhei uma carinha chorando muito, ele adorou! Agora desenho pra sala inteira, quando a redação está boa, a carinha sorri ó... quando está mais ou menos, fica normal deste jeito, olha... e quando está ruim, a carinha chora assim! Depois disso, nenhum aluno deixou mais de entregar as produções de texto! - Entendo você, mas e a janta? - Estou sem fome, comi algo no colégio. - Desse jeito vai acabar doente! A mãe saiu sem ouvi-la murmurar: - Deste jeito eu sobrevivo, isso sim! Antes de dormir a mãe ainda viu, pela fresta da porta, acesa a luz do quarto, mas sabia que não adiantaria falar nada à filha e acabaria atrasando-a ainda mais. Algumas horas depois, a professora espreguiçou-se na cadeira após organizar os materiais que levaria no dia seguinte. Tomou um banho morno e antes de se deitar pegou o presente que a Myleninha havia lhe dado na escola. 92 As crianças eram tão carinhosas com ela, essa menina havia faltado à aula neste dia e quando Jacque estava dentro do carro, saindo do colégio, pôde vê-la correndo para dar-lhe um presente. Provavelmente não fora à escola para poder comprá-lo lá no centro da cidade. Por causa da pressa não pôde abri-lo, mas retribuiu com imensa alegria e um beijo estalado na bochecha da menininha. Agora, deitada em sua cama, era hora de ver o que ganhara, sabia pelo embrulho que se tratava de um livro. Abriu-o e viu estampado na capa: Lúcia Machado de Almeida O CASO DA BORBOLETA ATÍRIA Um banco de praça vem em sua memória... dois olhos azuis brilhando sorrateiros ... uma voz macia de menino... - Jacque, achei um livro na biblioteca da escola que a personagem principal é você! - Eu?Sério? - Seriíssimo! - Mas quem é que escreveu? O escritor me conhece? - Só pode! Se não for de você, é de sua parente. A menina olhava curiosa para o amigo: - Ah, Gi, eu quero ver esse livro! Traz pra mim, traz! - Está aqui comigo nas minhas cossssstasssss!!! Ela deu um gritinho de contentamento enquanto o rapazinho corre pela praça com uma sacola nas mãos esticadas para cima gritando para ela: - está aquiiiii!!! Mas você tem que pegaaaarrrrrrr!!! A garota, menor do que ele, sai em dispara na sua direção e tenta inutilmente apanhar a sacola das mãos do rapaz. - Ai, Gi, dá aí vai?!!! - Posso até dar se você fizer... deixe eu pensar... hum... ei, calma aí... não vai conseguir apanhar nada, sua baixinha... se você... se você... hum... Me ajudar a fazer os resumos de História! - Ai, resumo?! - Um capítulo por um livro! - Ai, tá bom! Eu ajudo! Mas me dá o livro agora!!! - PALAVRA DE VIDA? - PALAVRA DE VIDA, vai! - Tome, está aqui... olha só! Jacquelline o pega e lê: Lúcia Machado de Almeida O CASO DAaBORBOLETA ATÍRIA 93 Adormeceu com o presente em seus braços. 22º CAPÍTULO A mistura de Dom e Amor pode transformar situações aparentemente impossíveis em atos concretos e exemplares. Não faltava criatividade e alegria nas aulas da professora Jacquelline, cada época inventava alguma coisa. Como todas as aulas ali eram especiais, ela usava a boina praticamente todos os dias. Exceto em algumas ocasiões quando fazia o estilo menininha indo com enfeites infantis no cabelo, às vezes nas roupas e até nos materiais. As crianças sempre aguardavam alguma novidade que poderia vir daquela professora. - Meninos e meninas, hoje eu quero só ver quem não fez tarefa, porque eu tenho uma caneta nova e estou doidinha pra usá-la!!! Tchã - rã !!! – e de dentro da bolsa retirava uma caneta com plumas coloridas, ou com um sapinho, ou ainda com uma luz cor-de-rosa que acendia ao escrever. As crianças adoravam-na! E era uma alegria tão grande as aulas de português que quando a professora dizia: - Meus amores, agora vamos conhecer isto aqui... - ninguém deixava de prestar atenção àquele aprendizado tão especial. Por ter aula nas salas praticamente todos os dias e, em algumas ocasiões, duas seguidas, dividia a matéria em três partes: leitura, tradicional, saraus. Como no início da semana as crianças chegavam agitadas dos domingos, para acalmá-las a professora iniciava com a aula SILENCIOSA chamada de AULA DE LEITURA. Jacque trazia uma mala cheinha de diversos livros de poesias, histórias, Bestsellers, revistas como Globo Ciência, Super interessante, Veja e gibis. Cada um podia trazer o que quisesse para ler desde que não incentivasse pornografia, palavrões, violência ou drogas, porém os gibis ela só aceitava se fossem de Maurício de Souza. A coordenação, ao questioná-la sobre isso, ouviu da jovem professora que esse autor, além de estimular a leitura, acrescenta valores morais às crianças, por isso ela fazia a exigência. - Veja, Queli, nesses gibis até Anjinho tem! – lembrou-se das palavras de Janete sobre um tal santo padre Léo falando. A coordenadora, que sempre a apóia, percebe ao folhear a revistinha que ela realmente tem razão: - Novamente, você está certa! É possível perceber nestas histórias o incentivo à amizade, ao estudo, o respeito aos professores, à obediência aos pais... é, concordo com você! Parabéns, Profe! As aulas do meio da semana eram direcionadas aos conteúdos do programa que deveria seguir, mas dado de uma forma coerente onde a maior preocupação da professora era a de que seus alunos entendessem a praticidade na leitura e escrita daquilo que aprendiam. 94 Dentre todas as matérias no ensino da maravilhosa Língua Portuguesa, quando trabalhava transcrição linear, sentia nos alunos uma dificuldade muito grande no entendimento de encontros vocálicos. Para facilitar, desenvolveu uma forma de tornar o conteúdo mais fácil para suas crianças. Já que tinham que aprender, deveriam, então, aprender de uma vez e de forma a nunca mais esquecerem. E lá ia a professorinha com mais uma de suas invenções malucas. - Meus amores, agora prestem bastante atenção, tá? Se vocês não entenderem algo, esperem até a Profe acabar, então, se ainda tiverem dúvidas, será a hora das perguntas. Respondam somente o que eu perguntar, combinado? Sim ou não? - SIM!!! – a classe inteira já respondia e ajeitava-se na carteira porque sabia que agora era hora de prestar atenção. - Bem... lembram-se de quando vocês aprenderam a ler e a escrever? - SIM!!! - Vocês aprenderam que havia as VOGAIS e as.... ? - CONSOANTES!!! -Isso mesmo! Quais são as vogais que vocês aprenderam? - A E I O U !!! - E as consoantes? - B C D F G H J L M N P Q R S T V X Z!!! - Muito bem, crianças, e está corretíssimo! Vocês sabem por que umas são chamadas vogais e outras consoantes? - NÃO !!! - É muito fácil! Vocês já perceberam que quando nós falamos, o ar sai pela boca? ... Bem, ao pronunciarem as vogais o ar sai livremente pela boca, já as consoantes não, há obstáculos: dentes, lábios, língua. Façam o teste agora, vou deixar um minuto... observem que ao dizerem as vogais o ar não passa por nenhum obstáculo, percebam que simplesmente a boca fecha mais, ou menos... diferente das consoantes! ...Legal, né?! – disse observando que as crianças conseguiram perceber a diferença. - Bem, vamos voltar à nossa aula, meus amores!... Agora, prestem atenção novamente, tá? -TÁ!!! - Então, vocês aprenderam o que é vogal e o que é consoante. Agora, prestem atenção nestas palavras que estou escrevendo aqui no quadro... SOU MÁGO MÁGOA 95 ... pronunciem em voz alta essas palavras e observem atentamente o som da letra O em cada uma delas... Isso mesmo... Vocês perceberam que o som do O é diferente? -SIM !!! -Vocês perceberam que na primeira palavra o O parece mais forte? -SIM !!! - Vocês perceberam que o O da segunda palavra tem som de U ? -SIM !!! - E agora, José?- normalmente quando sentia os alunos estranhando alguma situação, Drummond quem falava. As crianças olhavam espantadas por aquela descoberta da diferença do som dos Os. - Será que um desses Os não seria uma consoante?!! ...Claro que não! Mas vocês concordam comigo que não posso dar o mesmo nome para esses Os, não é? -NÃO !!! - Vocês já viram luga1es que vendem roupas quase novas não viram? - SIM !!! - Como as lojas chamam aquelas roupas? - DE SEMINOVAS !!! - Então, na Língua Portuguesa quando o E, ou I, ou O, ou U tem um som fraco, não o chamamos de vogal, mas como é uma quase vogal, ele é chamado de SEMIVOGAL! Somente a vogal A que é sempre forte, portanto, o A nunca será uma semivogal .Escreverei no quadro para ficar mais claro... SOU- neste caso o som é forte, então é mesmo de uma VOGAL! MÁGO MÁGOA- neste caso o som é fraco, mas nem por isso será uma consoante, o Som é de uma QUASE VOGALVOGAL- o que chamaremos chamaremos de SEMIVOGAL! 96 - Entenderam até aqui? - SIM !!! - Hum... alguns olhinhos estão assim ó.... ? ? A professorinha só continuou a matéria após todos terem compreendido tudinho! - Bem... então vamos continuar... Agora, então, vocês aprenderam que também existe a SEMIVOGAL...Vocês devem se lembrar de que as palavras são divididas em sílabas e que ... NA SÍLABA SEMPRE SEMPRE TEM VOGAL. VOGAL ... é possível que vocês vejam uma sílaba com somente a vogal , vejam a palavra... A - MOR ... o A está sozinho na sílaba mas... NUNCA HAVERÁ UMA SÍLABA EM LÍNGUA PORTUGUESA QUE NÃO TENHA UMA VOGAL ...vão anotando o qus a Profe escreve no quadro, tá?! Entenderam até aqui? – olhou toda a sala - Mayara... pergunte, querida. - Profe, como assim uma sílaba sem vogal? Isso eu não entendi. - Olha só, meu Amor! Imagine alguém que separe esta palavra assim... 97 PS - I- COCO-LOLO-GIGI-A DIVISÃO DIVISÃO ERRADA NÃO EXISTE SÍLABA SEM VOGAL CORRETO = PSIPSI-COCO-LOLO-GIGI-A ... entendeu, meu Anjo? - Agora entendi, Profe! - Muito bem... Mas não se esqueça disto aqui... SÓ CABE UMA VOGAL EM CADA SÍLABA ...Bem... agora veremos o que acontece com uma palavra como esta... LEITE ... e agora, José? Como devemos separar essa palavra, amores de minha vida? - AI!!! E agora, Profe? - Caroline, minha futura médica, e agora, José? 98 - Bem... se não podem ficar duas vogais em uma sílaba... então, devo separar Le-i-te? - Aí é que está A GRANDE NOVIDADE DE HOJE, FELIZARDAS CRIANÇAS!!! É isso que vamos entender... acontece que se tivermos o som do E e o som do I fortes, aí temos DUAS VOGAIS, então, teremos que separá-las SIM. Mas e se o I não for forte, aí não teremos DUAS VOGAIS, mas teremos uma VOGAL + UMA SEMIVOGAL, lembram-se ? - ah, entendi!...o I do leite é uma semivogal!!! - Isso mesmo, Pedrinho! - Nesse caso... NÃO PODEMOS SEPARAR SEPARAR A SEMIVOGAL DA VOGAL - NUNCA ... quando nós estivermos escrevendo uma palavra e tivermos que separá-la, olhem bem pra ver se ela possui uma seqüência de vogais, se tiver, você terá que ter muita atenção para saber se trata-se de realmente vogais ou se há semivogais também, vou contar uma historinha pra vocês...querem? - SIM !!! A professora faz pose e muda o tom de voz como se fosse contar um conto de fadas, cantarola a música do filme Titanic e inicia: - Era uma vez um HOMEM muito sozinho, triste, que vivia caminhando por entre as linhas dos livros, revistas, folhetos e folhetins... Seu nome era senhor VOGAL! Vogal era um homem reto direito / , porém sentia Senhor \ , muita solidão! Um belo dia, enquanto seguia seu caminho no mundo das S S letras, deparou-se com as curvas da senhora EMIVOGALuma donzela: doce, frágil, fraquinha, que nunca poderia viver sozinha. SEMIVOGAL sempre deve estar acompanhada de um senhor forte como o senhor VOGAL. A senhora 99 Imediatamente se apaixonaram e se entrelaçaram para toda V eternidade. Sr. OGAL não conseguia se conter e imediatamente a pediu em casamento. Eles se casaram, tiveram muitas palavras e ficaram juntos para sempre. As crianças aplaudem a professora e, depois, voltam a prestar atenção. - Bem... gostaram da historinha? ..é um conto de fada? - SIM, SIM !!! - Agora eu pergunto a vocês... E, nos contos de fada, pode haver separação do casal? Vocês já viram alguma princesa se divorciando do príncipe encantado? - NÃO!!! - Claro que não, né?!Então, para nunca mais esquecerem: pO SR. VOGAL E A SRA. SEMIVOGAL FAZEM PARTE DE UM CONTO DE FADAFADANUNCA SE SEPARAM! ...continuando com nossa brincadeira séria... Seria normal o Sr. VOGAL casar com outro Sr. VOGAL nos contos de fada? Hoje em dia, na vida real, pode até se casar, mas nos contos de fada, NÃO! Nos contos de fada encontramos um homem se casando com uma mulher e não com outro homem! Certo até aqui? -SIM!!! - Então vamos transpor nossa história para a gramática, todas as vezes que o Sr. Vogal encontrar a Sra. SEMIVOGAL deverá ficar com ela na sílaba, não se separar nunca!!! É o casamento tradicional !!! Toda vez que o Sr. VOGAL encontrar outro sr VOGAL deverá ficar SEPARADO, cada um em uma sílaba! - Profe, como eu vou saber se é vogal ou semivogal? - Só há um jeito, Alessandra... pelo som! Copiem, vou destacar com gizes coloridos e deixar o quadro bem bonito, tá? Deixem bem bonito no caderno também! - TÁ !!! 100 A letra ‘a’ sempre será uma vogal. Mas as letras ‘e,i,o,u’ podem ser vogais ou semivogais. Se forem bem pronunciadaspronunciadas- serão vogais, mas se forem fracasfracas- serão semivogais. Exemplo: hishis-tótó-RIA Observando o IAIA- já sabemos que o A é sempre o Sr. Vogal . E o I? Será também o Sr Vogal ou será a doce Sra. Semivogal??? Para saber, leia em voz alta deixando o I bem forte e observe se é assim que você falaria normalmente. Você fala: histór I a ou histór i A ? é claro que falamos histór i AA- porque o I nessa palavra é uma semivogal! Ocorreu DITONGO. Logo, a separação silábica ficará assim: HIS – TÓTÓ- RIA Outro exemplo: PSICOLOGIA PSICOLOGIA observando o IAIA- já sabemos que o A é sempre o sr. Vogal. E o I? Será também também o Sr Vogal ou ou será a doce Sra. Semivogal??? Para saber, leia em voz alta deixando o I bem forte e observe se é assim assim que você falaria normalmente. Você fala psicolog I a ou psicolog i A ? é claro que falamos psicolog IAIA- porque o I nessa palavra é uma vogal. vogal. Ocorreu HIATO. Logo, a separação silábica ficará assim : PSI – CO – LO –GI –A - Parem um pouquinho de copiar e prestem atenção novamente... Vamos 101 unir a nossa historinha aos nomes dos encontros vocálicos, vejam... VOGAL e Sra. SEMIVOGAL casal – Dois – D ITONGO Sr. VOGAL e Sr VOGAL Homens com H - H IATO Sr. - Aqui no livro também está escrito tritongo, Profe ? - Bem, o tritongo é o homem safado, sabem aquele que fica sempre no MEIO de duas mulheres frágeis, coitadinhas!... Sra. SEMIVOGAL Sr VOGAL Sra. SEMIVOGAL ...lembrem-se de que o TRITONGO é a seqüência – semivogal, vogal, semivogal- sempre nessa ordem. 102 Exemplos: PA - RA - G U U - RU – G AI U AI ... gostaram da brincadeira? Amanhã falaremos mais um pouco sobre este assunto. Por hoje já está bom, né?! - Ai, Profe ...tudo fica tão fácil com suas historinhas! A professora sentia-se completamente realizada. Quando chegava a quinta ou sexta-feira os alunos estavam cansados da semana, então, era a hora de animá-los. Por isso, na última aula da semana de cada turma eram realizados os SARAUS. A exemplo da experiência no Colégio Olinda Baça, os alunos tinham liberdade moderada para as suas apresentações e todo o esforço e talento eram despertados e valorizados. Lágrimas subiam aos olhos de Jacquelline ao vê-los improvisar um surdo da lata de lixo e chocalhos de latinhas plásticas de reciclagem. Mas ali, naquela escola, para aquela professora, sentiam como se usassem os melhores e mais caros instrumentos do mundo tamanho era o orgulho que viam refletidos naqueles verdes olhos. 23º CAPÍTULO Givan fazia Residência no Hospital Santo Lar que era ao lado da UNESM. Lá, possuía todo apoio do Dr. Orlando, diretor do Hospital. Ao contrário de muitos que se aposentavam diante de uma escrivaninha ao assumir um cargo importante, o diretor arregaçava as mangas e era comum vê-lo em atendimento nas salas de Emergência. Quando isso acontecia, procurava sempre deixar o Dr. Givan acompanhando-o. Algumas vezes o convidava ao seu escritório e conversavam horas sobre as dificuldades e o andamento da Academia do Bem em Moinho de Ilusões. - Quando eu tinha a sua idade, meu rapaz, eu tive as suas idéias... pena 103 não ter a sua coragem. - Mas de alguma forma o senhor nos ajuda também! Somente pelo fato de nos dispensar nos finais de semana, a mim e ao Dr. Alysson, e assumir aqui os nossos pacientes, é como se trabalhasse conosco. Fico-lhe muitíssimo agradecido... ficamos eu e ele, tenho certeza. - Obrigado, rapaz! - sorriu feliz com o que ouviu do médico – Isso muito me alegra, pode ter certeza! - Pois é a verdade! Seu nome está na lista dos Acadêmicos do Bem assim como de cada profissional que dedica os finais de semana ao atendimento no casarão. Seu trabalho aqui é tão importante para nós quanto o que fazemos lá. Ao olhar para o relógio, uma nuvem sombria passou pelos olhos do experiente médico: - Givan, daqui a alguns minutos receberei uma paciente que é um caso muito delicado. Gostaria que permanecesse aqui e fosse um ouvinte do que se passará. - Claro, doutor. - Mas...preste atenção, será somente um ouvinte. Meia-hora depois, entrou no escritório uma mulher grávida de uns setes meses mais ou menos. Estava sozinha e trajava um vestido bem simples. Não era bela para os padrões modernos, mas sua face pálida, emoldurada pelos seus longos cabelos negros, refletia uma serenidade tão profunda que se bem observada seria capaz até de passar Paz a quem a olhasse. Sorriu com simpatia para os médicos. - Sente-se, Maria. - Obrigada, doutor. - Estou com o resultado de todos os exames que fizemos, por isso a chamei aqui. Calmamente, com as mãos em seu colo, voltou os olhos e disse com um suave sorrir: - Pode falar, doutor!... estou preparada. Deus está comigo! - O seu marido não pôde vir? - Hoje não, o Luís teve que ficar no sítio. Agora, mais que nunca, precisamos vender os queijos. - Entendo... bem... eu pedi para que a senhora fizesse esta série de exames porque percebemos e agora constatamos que sua filha está muito doente. Os olhos da mulher fitaram as mãos que estavam repousadas no colo. O doutor continuou... - Na verdade, sinto muito falar-lhe isto, mas a senhora precisa ser forte, sua filha não vai resistir... a senhora é jovem, poderá ter outros filhos logo, mas precisamos interromper a sua gravidez neste momento. Gostaria de interná-la ainda hoje. Os olhos da senhora voltaram para o médico surpresos e confusos: - Não entendi direito, doutor! O senhor está dizendo que minha filha morreu em meu ventre? 104 - Praticamente, morrerá assim que nascer. Ela é uma criança anencéfala. - Como?... - Ambos os hemisférios cerebrais de sua filha estão ausentes...- baixou a voz -...é uma criança sem cérebro. - Mas ela está viva, não está? Eu a sinto mexer em mim. - Sim, está... mas morrerá assim que nascer. Por isso precisamos interromper a gravidez agora! - Por que interromper agora, doutor? - Para não lhe trazer mais sofrimentos, vamos acabar logo com isso e seguir a nossa vida. Logo a senhora terá outros filhos. Para que estender esse sofrimento a ela, à senhora, se já sabemos que ela morrerá? - Ela sente dor por isso? - Não, senhora! Ela não tem cérebro, portanto, não tem consciência de nada. Está viva em seu ventre; quando sair, morrerá. A mulher, voltando à serenidade então, sorri para o médico tão experiente: - Não vamos interromper nada, doutor. Deixe minha menininha aqui... se está doente, cuidarei dela ainda em meu ventre! ...E se, ao nascer, ficar segundos, minutos ou horas... estarei ao lado dela segurando suas mãozinhas enquanto Deus a deixar conosco. Ele saberá a hora dela partir. Se nos presentear com sua presença por mais tempo, serei eternamente agradecida, senão dormirei tranqüila e feliz por ter visto o rostinho de minha filha. Irei agora encontrar meu marido e dizer a ele que Deus nos reservou uma filha muito especial, tão especial que deve ficar pouco tempo com a gente. Devemos, então, aproveitar cada segundo de sua VIDA conosco. Despediu-se dos doutores sem que o médico tivesse uma só palavra que coubesse neste diálogo como resposta. Contrariando a tudo e a todos, Marcelina nasceu em 20 de novembro e viveu saudavelmente 20 meses depois de nascida. Nove especialistas confirmaram a anencefalia de Marcelina e sua morte foi causada por um acidente que teve na aspiração do leite sem nenhuma ligação direta à doença. Os pediatras avaliaram que contradizendo à Medicina e aos abortistas, a menina poderia ter vivido muito mais, caso não tivesse ocorrido o acidente passível a qualquer criança nos primeiros anos de vida . Marcelina, assim como vários casos não divulgados pela imprensa corrompida, é uma prova concreta de que ninguém, além do Criador, pode dizer a quem deve-se dar o direito à VIDA. O Hospital Santo Lar aprendeu a lição deixada pelo Anjo que ali nascera. 24º CAPÍTULO - Mãe, deixe eu ir com os tios Jus, por favor! 105 - Meu filho, é perigoso! - Mãe, eu já tenho 12 anos, já sou adolescente! - Pré-adolescente... - Mas, mãe...que seja, já não sou mais criança! Faltam só 6 anos pra completar a maioridade! - Ai, Adrian... não me atormente! Agora vai usar Retórica... o que anda lendo, menino? - Está bem!... Por que a senhora não vem então? Aí não se preocupa comigo. - Não posso, vou corrigir redações. - Todas as vezes que os tios chamam a gente pra ir à praia a senhora não pode! Parece uma coisa... parece mesmo que a senhora não quer que eu conheça o mar. Jacquelline suspira e senta em um cantinho vazio de sua cama repleta de livros. - Está certo, Adrian, não é justo com você, tem razão. Conversarei com os Jus, com a Jana, farei uma lista de recomendações e você pode ir sim. Adrian a abraça carinhosamente e tenta tranqüilizar a mãe: - Mãe, tomarei cuidado, desencana... e antes que sinta minha falta, já estarei de volta. A mulher balança a cabeça pensando que o filho não entende que um minuto de preocupação transforma o tempo em séculos para uma mãe. A Turma do J, que já sabia que Jacque mais uma vez recusaria o passeio ao litoral, surpreendeu-se ao vê-la deixar o filho ir com eles. Após organizarem aquele monte de bagagens, a maioria de Janete, partiram para passarem aquele feriado de abril sob o sol gostoso no litoral norte de São Paulo. À noitinha já, após tranqüilizar-se com a ligação do eufórico Adrian, Jacquelline vai até a varanda dos fundos onde a mãe está sentada quase adormecendo e apaga as luzes para ver melhor as Estrelas que fazem companhia ao claro luar. Jacquelline silenciosamente senta em uma cadeira de área ao lado da mãe e fica a contemplar o céu. Tanto tempo e eu não consigo esquecer você, Givan! Deve ter se casado já... deve ter filhos... Deve ter pensado em voz alta porque ouviu a voz da mãe dizer-lhe: - Filha, Givan já é um médico agora. Se não casou com a Gizele, deve ter se casado com uma médica...alguma colega da faculdade! Já faz muito tempo... você deve seguir em frente... Deve! Deve! Deve! Deve ter se casado... Deve ter se mudado de Moinho de Ilusões... Deve ter filhos... um deve se chamar Adrian... Deve tê-la esquecido completamente... 106 Deve nunca tê-la amado! Deve morrer dentro de mim de uma vez por todas! Devo mesmo jamais conhecer o Mar! Correu ao quarto e somente conseguiu adormecer após encher mais algumas páginas de tecido queimado. 25º CAPÍTULO Assim que Dr. Alysson saiu para o jardim, Bárbara procurou fugir do contato dele, mas o médico foi mais rápido e segurou-a pelo braço. - Bá... não entendo você. Sei que me ama. - Sou muito complicada mesmo, Alysson, por isso é melhor ficarmos distantes. - Não fale assim... venha, vamos passear um pouco... – a enfermeira pensa em fugir, mas ele a convence a sentar-se em um dos bancos do belo jardim do casarão - ...por favor... - Está bem. - Saímos juntos durante meses e mal nos beijamos durante esse tempo... de uns dias pra cá, sinto que ganhei a sua confiança... eu a amo, Bá... sei que você sentiu isso e queria se entregar a mim... e, então, de repente foge como se eu fosse um monstro. Carinhosamente ele passa as mãos nos sedosos cabelos da menina. - Não é isso! - O que é então, meu anjo? - Sinto medo de amá-lo... sinto medo que seja como meu pai que ao chegar em casa espancava minha mãe, minha irmã e a mim! E a mulher abre seu coração e conta todas as atrocidades que vira o pai fazer à família quando ainda era uma criança. Pouco depois de passar no vestibular, ele morrera de cirrose causada pela bebida, mas as marcas deixadas nas filhas e na esposa não foram enterradas com ele, permaneciam como uma farpa a cutucá-las em cada atitude que tomavam, inclusive, na caçula Bárbara. A mãe fora internada em um hospital psiquiátrico e a irmã estava em uma clínica para desintoxicação de viciados. Ao receber o Amor do médico, como sempre soubera lidar com o sofrimento, não sabia como tratar a felicidade. E isso a fizera fugir. Seu único problema agora era o medo terrível de ser feliz. O médico, que há muito esperava alguém especial que compreendesse seu trabalho e despertasse-o para o Amor, soube desde os primeiros momentos que a viu que tratava-se de uma flor rara que deveria ser regada e tratada para desabrochar na hora certa. Só não contava que a flor fugisse dele. Compreendendo os espinhos que a acompanhavam, abraçou-os junto com ela e pôde, finalmente sem medos e reservas, enlaçar o coração especial que trazia aquela doce enfermeira. Após esse dia, o clima entre os Acadêmicos era de pura felicidade com o 107 romance finalmente assumido pelo casal. Casaram-se em uma bela noite de lua cheia, na Igreja Matriz da cidade, e partiram para uma rápida lua-de-mel, pois não queriam ausentar-se tanto tempo de suas responsabilidades no casarão. 26º CAPÍTULO A Direção do Valdemir completava nove anos neste final de novembro que foi quando, pela primeira vez, Luzia e Lourdes sentaram naquela cadeira de onde moradores, professores e alunos não mais queriam que elas saíssem por, no mínimo, mais nove anos. Como comemoração, uma série de projetos seriam apresentados durante todo o mês. As apresentações culminariam com um concurso de poesias, no qual a professora Célia Medeiros conseguira que a mesa dos jurados fosse composta por três ilustres Doutores em Literatura da FSP e um show, pago pelos moradores do bairro através de ingressos vendidos, do grupo Tradicional do Sul. O concurso foi idéia da professora Célia do Ensino Médio e estendeu-se a responsabilidade a todos os demais professores de Língua Portuguesa e Literatura. Em todos esses anos de magistério, Jacquelline sempre pôde contar com a direção e coordenação da escola. No entanto, freqüentemente, enfrentava problemas com outros colegas de profissão. Como viam que seus alunos adoravam suas aulas e que com seu jeito diferente conseguia despertá-los aos ensinamentos, sentiam-se ameaçados e procuravam criar obstáculos aos seus empreendimentos tentando de alguma forma desmoralizar suas atitudes. Neste concurso não foi diferente, mas agora aquela professora tomava uma atitude que poderia prejudicar não a ela, mas a um de seus alunos queridos. Segundo a criadora do concurso, seria necessário escolher as três melhores poesias de cada série e Jacquelline discordava. Segundo esta, havia muitos bons poemas para serem desprezados e buscava o direito de apresentar todos que fossem belos de alguma forma nem que para isso estendessem um pouco mais o tempo das apresentações, afinal, os pais e os próprios alunos adoravam ouvi-los declamar. - Célia, este daqui não pode ser cortado. - Jacquelline, eu sou a professora de Literatura e não quero esta poesia no meio das apresentações. Parece que ela fazia de propósito. O poema era pequeno, mas fora apresentado na sala de aula de uma forma tão bela pelo pequeno poeta que ela não poderia deixá-lo de fora, principalmente, porque tratava-se de um aluno que antes possuía uma baixíssima auto-estima. - Célia, este poema é um grande avanço do Matheus Teves... a apresentação dele foi feita de uma forma que será uma das mais bonitas de todas, ele ensaiou dias e tem até o poema decorado já...ele não pode ficar de fora. Você nem viu ele declamar... A outra olhou ironicamente para a colega, tirou o papel das mãos dela, 108 jogou-o na mesa dos excluídos dizendo com um sorriso amarelo: - Este, colega, já está excluído e fim de papo! Jacquelline, vermelha de raiva, pegou o papel bruscamente da outra mesa e saiu direto para a coordenação. Antes somente tomou um copo d’água para não cair no choro na frente da Mariqueli. Sabia que a coordenadora não poderia intervir radicalmente nas decisões dos professores, mas Jacquelline precisava fazer alguma coisa, Teves não podia ficar de fora de jeito nenhum. Se isso acontecesse, a decepção daquele menininho que tanto lutara para ele produzir seus próprios textos seria muito grande e poderia afetá-lo novamente no desenvolvimento da escrita. E não era justo!!! A professora tentou calmamente explicar o que estava acontecendo e suplicar ajuda para a coordenadora: - Não adianta mais conversar com ela. Queli, ela não quer o poema de jeito nenhum. Disse que fim de papo. - Jacque, mas seria melhor você intervir nisso. - E foi o que tentei fazer, mas ela não aceita. Disse que o poema não presta e eu sei que é bom! Queli, eu vi a apresentação do Teves... ele vai ser um show, você vai ver. - Vou tentar conversar com ela. - Tudo bem, mas as crianças querem saber se participam ou não. Ela, hoje de manhã, cortou o poema na frente de todos os alunos! Os selecionados já estão sabendo quem são! Ele precisa de, pelo menos, uma esperança hoje. - Tudo bem, vamos lá. A coordenadora ouviu da outra professora que o poema não era adequado aos doutores da FSP. - Mas eu digo, Queli, que é adequado sim. Ela pode não gostar porque o poema é pequeno, mas a apresentação do Teves é ótima! - Não sou eu, professora Jacquelline, que não gostarei do poema. Ele envergonhará a nossa escola perante os Mestres. - Pois eu garanto que não! Ele vai ser um sucesso! Enquanto isso, os alunos sorrateiramente esperavam o desenrolar da escolha. A classe torcia para ser selecionado, pois as crianças tinham amado a apresentação do coleguinha. Um dos selecionados disse até que cederia sua participação para o Teves se apresentar, se fosse possível. Os aluninhos não tiravam os olhos da porta da pequena biblioteca onde estavam decidindo o que seria do texto do colega. Mariqueli encontrava-se em uma situação muito difícil. Não podia interferir diretamente nas decisões dos profissionais sem deixar um clima desagradável, mas como responsável pedagógica não podia deixar que um aluno fosse prejudicado para que o clima entre os professores ficasse bom. Teve uma idéia para contemporizar. - Bem, Professora Jacquelline, então eu quero assistir a apresentação dele. Se eu achar que está boa, ele será incluído. Certo, Célia? 109 Só o brilho dos olhos demonstravam o alívio e alegria que Jacquelline sentiu naquele instante. Célia concordou: - Tudo bem... acho que você está sendo justa. - Jacquelline? - Muito justa, vou avisá-lo que amanhã ele se apresenta. - Nada disso! Queli, precisamos decidir agora!!! Jacquelline queria mais um tempo para ensaiar um pouco mais e a Célia sabia disso. - Tudo bem, ele deve estar por aqui. Vou procurá-lo. - Esperarei por vocês na quadra. Assim que Jacque não pôde mais ser vista, correu em direção ao grupinho que a aguardava ansioso no pátio: - Encontrem o Teves agora....rápido!!! Alguns segundos depois ele vem correndo com uns cinco em volta dele pelo menos. - Professora, desculpe... eu estava no banheiro! - Tudo bem, querido! Teves... é o seguinte... você vai fazer aquela apresentação agora pra Queli, ela que vai decidir se o seu poema entra ou não no concurso. Teves, faça do jeito que fez na sala de aula...daquele jeitinho!!! Você estava demais!!! – abraça-o e diz virando- se agora para turminha – Turma, torcendo heim! Vamos pra quadra! A professora entregou o poema de somente quatro versos para a coordenadora que, olhando meio desanimada para aquelas poucas linhas, pediu que iniciasse a apresentação. Teves, antes de começar, olhou para a professora que balançou afirmativamente a cabeça em sinal de confiança e ele fez exatamente como tinham combinado em sala. - Queli, quer que ele faça novamente? A coordenadora levantou-se, olhou para aquele rosto aflito e disse: - Não precisa, ele está selecionado! A turminha e o poeta, junto com Jacquelline, pularam de alegria ali na quadra fazendo a maior algazarra de felicidade. Agora era com o pequeno! Após tantas festividades, finalmente, chegara o grande dia do concurso que também marcaria o fim do ano letivo para aqueles que haviam passado de série. Todos do bairro compareceram, pais de alunos, conhecidos, vizinhos, professores! Todos queriam saber quem ganharia o concurso. A disputa seria feita em três categorias: Ensino Fundamental I- 1º ao 5º Ano, Ensino Fundamental II -6º ao 9º e Ensino Médio- 1º ao 3º . Jacquelline não se importava que seus alunos disputassem com 7º, 8º e 9º Anos, sabia-os tão capazes quanto qualquer um daqueles. 110 Após meia-hora de atraso, as luzes da grande quadra coberta foram apagadas e somente o centro, onde fora montado um palco e a mesa dos jurados, foi iluminado. O aluno Gleydson do Ensino Médio era o responsável pelo som. As professoras que orientaram as apresentações estavam atrás do palco juntas com seus respectivos alunos. Uma música inundou o recinto silenciando a platéia quando a professora Célia subiu ao palco e cumprimentou a todos. A oradora abriu o evento convidando os jurados a comporem seus lugares enquanto apresentava-os ao grande público; em seguida, anunciou o breve discurso da coordenação e direção para, enfim, dar início às apresentações. Aquela professora, querendo cansar os alunos de Jacquelline, deixara-os para o final de tudo colocando o Matheus Teves como última apresentação da noite. Fizera a disposição por maldade imaginando que o público já seria escasso no final. Estava redondamente enganada. Duas horas depois, a grande multidão ainda aplaudia e deliciava-se com as poesias apresentadas pelos alunos. O DJ era o ponto principal de muitos números, pois alguns alunos haviam combinado com ele para que colocasse músicas de fundo que comporiam suas declamações. Por fim, os alunos da professora Jacquelline foram chamados e todos, sem exceção, falavam naturalmente suas próprias obras sem precisar de texto escrito para declamar - diferente da grande maioria que antes se apresentara. Só faltava o Teves. A platéia, então, viu um menininho baixinho, cabelos cacheados meio compri os, vestido com o uniforme da seleção brasileira, carregando uma bola de futebol embaixo do braço, subir ao palco e declamar com o sorriso mais lindo da noite: “FUTEBOL FUTEBOL É UMA ALEGRIA! A TORCIDA, UMA LOUCURA! QUANDO A GENTE FAZ UM GOL TODO MUNDO GRITA E PULA” * A platéia totalmente lotada aplaudiu em pé quando ele, antes do último verso, chutou a bola para o meio da quadra e saiu vibrando como em um campo de futebol, nesta hora o DJ colocou a conhecida música-tema da seleção brasileira e, assim, as apresentações foram finalizadas. 111 Neste instante, uma melodia suave era ouvida enquanto os jurados davam as notas finais. Meia-hora depois toda a quadra foi iluminada e Célia voltou ao palco com três envelopes nas mãos. Os jurados e as autoridades da escola que entregariam as medalhas aos primeiros, segundos e terceiros lugares de cada categoria. - Senhoras e senhores, iniciaremos com a premiação do 3º lugar na categoria Ensino Fundamental I, chamamos... Rafaela, aluna da professora Setuko! Todos aplaudiam enquanto a premiada recebia orgulhosamente a sua medalha. - ... 2º lugar na categoria Ensino Fundamental I – Giovanny, aluno da professora Emília! ... ... 1º lugar na categoria Ensino Fundamental I – Raísa, da professora Regina! Agora, pela seqüência das apresentações, falaremos a premiação do Ensino Médio... ... 3º lugar na categoria Ensino Médio- Natty, aluna da professora Célia! ... 2º lugar na categoria Ensino Médio- Suzy, aluna do professor Paulo César! ...1º lugar na categoria Ensino Médio- Jaqueline Afonso, aluna da professora Alessandra! O coração da professora batia descompassadamente, agora seria a premiação da categoria que seus alunos concorrera. - E agora, por último, teremos a premiação dos alunos do Ensino Fundamental II... ... 3º lugar na categoria Ensino Fundamental II- Fabiana, aluna da professora Deisy! ... 2º lugar na categoria Ensino Fundamental II - Igor, aluno da professora Ana Maria! ...1º lugar na categoria Ensino Fundamental II - Alice, aluna da professora Jacquelline! A professora estava segurando as mãos de Teves e abraçou-o enquanto seus outros alunos comemoravam e recebiam as medalhas das autoridades ali presentes. - No meu coração você também é primeiro lugar, viu? Neste momento, as maravilhosas Doutora Kátia Fulii e Doutora Maria Amélia, esta um dos maiores nomes da crítica literária do país, encaminham-se ao microfone e a segunda fala à multidão. - Senhores e senhoras, gostaria de agradecer à coordenação, à direção e à professora Célia por nos ter convidado a participar de um evento como este. São com atitudes assim que faremos da escola pública uma oportunidade às crianças 112 de conhecerem novos mundos e deles retirarem experiências importantes para uma boa formação cultural tão necessária a cada um de nós. Contagiada pela esperança de ainda termos um sistema educacional de qualidade neste país, quis, eu mesma, anunciar o último prêmio desta noite... Todos espantaram-se com essa última informação e mesmo os murmúrios cessaram nesta hora para atentos ouvirem o que viria a seguir. - ... Uma das apresentações apreendeu e expressou o espírito desta nação de uma forma tão singular e encantadora que, se tivéssemos vindo aqui somente para vê-la, já teria valido a pena. E é para este pequeno artista que entregamos o prêmio de “Revelação Artística” e, como não havia essa categoria, a medalha será um dia de passeio pelo campus da FSP para conhecer laboratórios, bibliotecas e lá fazer novamente a sua bela apresentação, porém para os acadêmicos e mestres do curso de Letras! A platéia foi ao delírio! - Por favor... silêncio – pediu a coordenadora agora ao lado das doutoras. -Bem... este prêmio vai para a melhor apresentação da noite que é de... MATHEUS TEVES !!!... com o poema FUTEBOL!!! Escrever a alegria e os pulos de felicidade de toda aquela turminha da professora Jacquelline seria impossível! Nem a Língua Portuguesa possui palavras suficientes para isso, mas deixo-as na imaginação do Leitor para que imagine as lágrimas de felicidade quando viram aquele menino, antes tão tímido, descer do palco orgulhoso trazendo consigo a expressão de que na vida, se fizermos o melhor e lutarmos por isso, podemos receber de alguma forma uma premiação. Naquele noite, ao chegar em casa, pensou que somente por este dia já teria valido a pena tudo que passara e que, de alguma forma, a levara a escolher o magistério. 27º CAPÍTULO O tempo até pode não curar tudo, mas a tudo transforma com certeza. Algumas coisas para melhor, outras ...também para melhor! Dos amigos, todos já eram donos de seus diplomas e atendiam agora como verdadeiros profissionais, inclusive, Givan. DR GIVAN GALLE. Podia, finalmente, assumir as responsabilidades como médico-chefe da Academia do Bem. Além da pediatria, atendia também como Clínico Geral. Dr. Alysson e todos ali imediatamente se prontificaram a deixar-se conduzir pelo doutor que agora assumia o cargo destinado a ele desde o princípio do trabalho. Sua experiência, ao lado de Alysson e do Dr. Orlando, o ensinara muito mais que todos os livros que lera. Embora a teoria fosse a base para o ato em si e a experiência a consolidação daquela, o jovem também trazia consigo a dádiva natural da Medicina. Mas uma das vivências do agora doutor, esta fruto da coragem e 113 consciência dos pais da menina Marcelina, o abalara imensamente e o fizera, sem compartilhar com os companheiros, aprofundar-se em extensas pesquisas sobre Fetologia. Um dos reflexos das conclusões a que esse estudioso chegara foi presenciado pelo outro médico do casarão. Estavam na sala de atendimento quando entrou, acompanhada pela enfermeira, uma jovem de uns vinte anos mais ou menos. Dr. Givan, como sempre fazia, convidou-a a sentar com um sorriso nos lábios e iniciou uma pequena entrevista com a ficha da moça em mãos: - Então, Amanda é o seu nome? - Sim. -Bonito, sabia que significa “muito amada”? - Obrigada, não sabia não, doutor. Givan percebe que a moça não parecia doente, mas estava bem nervosa. - O que a traz aqui, Amanda? Ela respondeu de uma forma tão rápida que o jovem médico teve dificuldades em compreender o que ela dizia. - Você poderia repetir, por favor? - Eu estou grávida, doutor, e vim aqui pro senhor tirar esta criança agora. Givan, sem mover um músculo sequer de sua face, olhou para ela e sorriu: - Entendo. Então vamos lá! - O senhor fará isso por mim? - Claro - disse o médico anotando algo na ficha da paciente - mas primeiro precisamos de algumas informações, ok? A jovem mãe parece aliviada: - certo... pode perguntar. Alysson observa aquela conversa estarrecido, mas haviam combinado que jamais eles se intrometeriam em qualquer atitude tomada por quem estivesse com algum paciente. Quando sozinhos, eles conversariam, mas na frente do paciente a ordem era explícita: jamais poderiam se intrometer nas decisões do outro. Por isso, Dr. Alysson estava ali, chocado, mas observando a cena calado. - Quando foi a sua última menstruação? - Há uns três meses. - A senhorita fez algum exame pra comprovar a gravidez? - Sim, fiz pelo SUS, aqui está o exame de urina. - Então a senhora deve estar grávida somente de umas doze semanas. - Isso facilita as coisas, não é? - Com certeza. É a sua primeira gravidez? - Sim. - A senhora tem namorado ou marido? - Não, sou mãe solteira. - Seus pais já sabem? - Deus me livre!... se meu pai souber, me expulsa de casa na hora! - O pai da criança já sabe da gravidez? - Já e ele mesmo me deu o dinheiro pra eu pagar o senhor por isso. Ele é 114 casado. - Entendo. - guardou a ficha e virou-se para ela sorrindo - Vamos logo então, não é? - Sim, doutor! Quero acabar logo com isso. - Antes de fazermos o aborto, antes de matarmos seu filho, você precisa se preparar. Os dois que o ouviam estranharam a última frase do médico, mas permaneceram calados por um certo tempo. - ... tudo bem. – enfim concordou a jovem. - Dr. Alysson, o senhor pode nos acompanhar um pouco ao meu escritório para conversarmos melhor com esta moça? Alysson não entendia mais nada, só podiam ir ao sótão quem fizesse parte do trabalho, parentes e amigos do proprietário! Depois tentaria entender aquele médico, por ora, só havia uma resposta a dizer na frente da paciente: - Claro. Irei com vocês. Subiram os três a escadaria após o pediatra pegar a pasta e avisar a enfermeira de que só poderiam ser interrompidos se fosse muito urgente. No escritório, colocou a moça sentada em uma cadeira bem em frente a uma enorme televisão, tirou um DVD de sua escrivaninha e pediu que o amigo o colocasse para assistirem. - Primeiro, a senhorita assista prestando muita atenção ao que vai ser falado no filme e logo depois iniciaremos o aborto. O cardiologista estava agora, no mínimo, curioso quando viu surgir na tela o filme The Silent Scream, conhecido no Brasil por GRITO SILENCIOSO, viram que foi produzido pelo Dr. Bernard Nathanson, um americano considerado, no passado, “o Rei do Aborto”. Segundo lera em algum site de Medicina, ele chegou a praticar cinco mil abortos em uma clínica que realizava mais de cem operações desse tipo por dia e que depois, percebendo o horror de suas atitudes, mudou completamente sua posição e tornou-se totalmente contrário a este crime. O filme iniciava com algumas explicações dadas pelo próprio Dr. Bernard sobre a Fetologia. Depois, ele mostrou detalhadamente os instrumentos abortivos e foi explicando cada passo que o aborteiro tem que fazer para matar a criança dentro do útero da mãe. A expressão da jovem transformava-se conforme ouvia e via horrores que nem sequer imaginara. Logo em seguida, quando viu na tela a imagem de um ultra-som nos momentos em que uma equipe médica fazia um aborto, lágrimas escorriam involuntariamente de seus olhos. A imagem era chocante! Principalmente porque foi explicado que eram totalmente reais! A criança, ainda no ventre, começa a desesperar-se e tenta escapar de lá de alguma forma, no entanto, não há para onde fugir. A criancinha parece mesmo que abre a boca para gritar um grito silencioso, mas já é tarde, sua mãe já decidiu que ela deve ser assassinada. No filme é passado o aborto feito por aspiração, um longo tubo grosso de 115 sucção é introduzido no útero, pela vagina da mãe, para destruir a criança. O tubo vai sugando o bebezinho em partes, despedaçando-o, dilacera primeiro seus membros, depois seu corpinho. Por último, fica a cabeça, que não passa pelo tubo, boiando no útero em meio a pedaços de tecido daquilo que há segundos fora uma Vida. Então, uma espécie de pinça é introduzida, com ela o aborteiro esmaga a cabeça e retira-a amassada de dentro da “mãe”. A mulher que assiste cobre os olhos, mas Dr. Givan Galle com firmeza segura em suas mãos e diz: - Abra bem seus olhos e seus ouvidos, assista a tudo para que saiba exatamente o que pediu para eu fazer com seu filho. Lágrimas escorriam do rosto da mulher, mas o doutor fingiu não perceber. Assim que a tela escureceu, pediu que se virasse para onde ele estava sentado, logo atrás dela, e continuou: - bem... o que vimos foi um dos métodos, mas a senhorita pode optar por esquartejarmos o seu filho dentro do seu útero, faremos com uma pinça adequada para isso... ou podemos fazer o parto parcial, é assim...puxamos seu filho pra fora, mas deixamos a cabeça dentro já que ela é grande demais, depois disso introduziremos um tubo na nuca de seu bebê e sugaremos toda a massa cerebral levando-a à morte, aí com a cabecinha do bebezinho murcha conseguiremos retirála facilmente. O médico fala com ela como se falasse de alguma receita de bolo, neste momento ele ri e faz um gesto com uma das mãos tocando a têmpora como se lembrasse de algo. - Ah... temos ainda a forma mais dolorosa e lenta de todas, retiraremos o líquido amniótico de dentro de seu útero e colocaremos uma substância contendo sal, em algum tempo, bem devagar, seu filho morrerá e o jogaremos no lixo. Mas a forma mais comum mesmo é o uso de um remédio conhecido popularmente, na verdade ele é indicado para úlcera, mas muitas “MÃES”- usou um tom irônico ao pronunciar a última palavra – o usam para matar seus bebezinhos...ele é bem simples, elas o tomam e, SIMPLESMENTE, o remedinho faz expulsar a criança de dentro útero...veja só, o bebezinho não morre lá dentro, ele é EXPULSO de dentro da “MÃE” e morre aqui fora asfixiado, como se estivesse sendo estrangulado! Interessante não?!! Parou um instante, olhou bem fundo nos olhos da paciente e perguntou: - Como prefere que matemos seu filho? A mulher debulhou-se em lágrimas enquanto segurava seu ventre e balbuciava sem parar: - Perdão, meu filho?!!...Perdão, meu Deus?!!!...Como pude pensar em fazer uma coisa dessas com meu próprio bebê?!! ...Como pude?!! Dr. Givan, com um carinho que até então não demonstrara àquela mãe, abraçou-a suavemente enquanto sussurra: - Calma!... Calma! ... Ele ainda está aqui! ... Você não fez nada! E ela chorou amargamente naqueles ombros. 116 28º CAPÍTULO Adrian e Jacquelline estavam deitados em uma rede na varanda dos fundos escutando o barulho suave da chuva ao mesmo tempo em que o filho ouvia a leitura das últimas páginas de um livro de histórias infantis que a mãe, ajudada por ele, escolhia para ler a seus alunos no início das aulas do ano seguinte. Apesar de já bem crescidinho, gostava do som daquela voz macia e dos trejeitos que ela usava ao imitar personagens das histórias. -... “e agradecer à vida o privilégio de termos tido... uma professora inesquecível. Close nela.” - Não acredito que a senhora está chorando lendo Ziraldo! Vai precisar escolher outro, senão vai inundar a sala!... Minha nossa, a senhora chora demais! - Ai, filho, é que conta a história de uma professora, por isso, me emociono. - A senhora chora muito e a tia Jana ri demais! As duas juntas até dariam alguém normal!... Mas, mesmo assim, eu te amo, mãe! O rapazinho a abraça carinhosamente e ficam ali conversando baixinho por um longo tempo. - Mãe, que horas a vó vai chegar? - Acho que só à noite, Amor. Ela saiu com a Dona Cícera pras compras de Natal ... o comércio deve estar lotado! - Tomara que ela compre um presente bem legal pra mim. - O que você gostaria... MESMO... de ganhar neste ano, conte pra mamãe, vai? - O que eu queria mesmo... nem é dinheiro que compra, mãe. Ela olhou interrogativa para o filho: - E o que seria, meu Amor? - Ah... queria abraçar meu pai. Jacquelline sentiu todo Amor que sentia pelo menino inundar sua alma. Abraçou-o bem apertado e, olhando a chuva, confortou-o: - Calma, Adrian... o mais importante você tem... um pai que você pode se orgulhar. - Dr. Givan Galle! - Isso mesmo, um homem tão bom que ama as crianças e as ajuda a se curarem. - E foi ele mesmo que escolheu meu nome? - Sim, Amor, desde que éramos bem jovens ele dizia que o filho se chamaria Adrian... - Já sei... quando vocês ficavam na Torre, né? Só não entendo por que nem se falam mais?! Por que ele não vem me ver! – olhou para a mãe já conhecendo a resposta – Tudo bem... não vou tocar mais neste assunto... quando eu crescer a senhora me explica... Aff.!!! ... Mas eu queria pelo menos ver os seus lugares! 117 - Um dia vamos lá, PALAVRA DE VIDA! Mas você sabe que seu pai não mora mais em Moinho de Ilusões... ele deve estar pelo mundo ajudando as criancinhas como sempre quis. - Ele podia bem passar por aqui, n_? A mãe riu: - É verdade... bem que podia mesmo! Embora nunca tivesse tido forças para descrever a aparência física de Givan nem falar da separação deles para o filho, era engraçado que somente com o menino conseguisse falar de seu único Amor sem a voz embargar-se de dor. 29º CAPÍTULO Sentado em uma das cadeiras na varanda, Givan contemplava as gotículas de chuva regando o jardim que se estendia por todo o terreno de sua propriedade enquanto deixava a mente vagar livremente... Meu fio, dispois ocê brinca com a Jacque, num recrama não que chuva é sinar de benção de Deus sobre a Terra! Poderia se considerar completamente realizado profissionalmente. Era um Médico Pediatra e um dos mais respeitados da região. Há pouco tempo montara seu próprio consultório para atendimento durante a semana, montara ali mesmo em Moinho de Ilusões e conseguia, através das consultas particulares e trabalhos no Hospital, dinheiro suficiente para manter-se com um mínimo de conforto. Dividia as salas e as despesas do consultório com o amigo Alysson, este se mudara para a cidade da esposa pouco antes do casamento. Sentia saudade de seus pais que já não os via desde a morte da avó. Insistiam para que ele fosse à Europa, mas ele não podia sair dali. A saúde na região respirava um pouco de calma depois desses meados de dezembro e Givan chegou mesmo a comentar com o colega que os vírus e as bactérias saíram em férias daquela cidade. Mas essa calmaria era o resultado da Medicina Preventiva que a Jornalista Vivaine deixava em foco no canal local de TV a Cabo. Com as orientações, em uma linguagem simples, que passava sobre os cuidados que toda pessoa deve ter no dia-a-dia, reduzira e muito o índice de doenças infecciosas deixando a ala leste do casarão bem menos movimentada. Já os profissionais da oeste resolveram sair em férias pela primeira vez desde a fundação da Academia do Bem. Voltariam somente para juntos comemorarem a véspera de Natal. No entanto o criador desse grande projeto preparava-se para mais um final de ano solitário, pensava em dispensar a companhia dos amigos por sentir-se triste e desanimado. Nos últimos meses, o cansaço e a saudade abatera o jovem médico, embora procurasse reagir doando-se ao trabalho cada vez mais. Devido à exaustão que acumulara diante de tantos anos de esforço, aceitava de bom grado esta semana tranqüila. As compras para o abastecimento da farmácia e da própria despensa 118 faria até sexta-feira, por ora queria curtir um pouco a solidão neste dia silencioso. Só as gotas caindo no telhado faziam-lhe companhia e o levaram a pensar no quanto o jardim ficaria belo naquela semana. Como eram raros momentos assim! Costumava ficar sozinho somente nas noites, na Torre. Muitas vezes quase abandonara a cidade e tentara fugir das angústias que atormentavam sua alma. Sentia-se interiormente como se prendesse seus sentimentos dentro de uma caixa escondendo-os em algum recanto de sua mente, mas que a qualquer instante eles explodiriam fazendo-o enlouquecer. Quando não se entregava ao atendimento nesses quase desesperos, fugia para o lugar sagrado e confidenciava-os acolhendo um pouco de acalento e muitas vezes conseguindo até algum aconselhamento. As gotas caindo o hipnotizavam e faziam-no sentir como se a água cristalina lavasse seu sangue ... seus pensamentos... suas idéias ... como se o purificasse deixando-o leve... em uma maneira tão singela que seu corpo... mente... e alma ... inundaram-se de Paz. 119 EPÍLOGO 1º CAPÍTULO - Filha, você tem um minuto, pode vir até a sala? - Claro, mãe! – sentando-se ao seu lado- o que foi? - Tomei uma decisão muito importante, quero que saiba. A casa de sua avó já ficou muito tempo fechada... esperei pensando que talvez algum dia você quisesse voltar pra lá... mas já faz muitos anos, acho melhor vendê-la e quero encaminhar isso antes mesmo do Natal. - A senhora irá pra Moinho de Ilusões? - Vou, filha... isso que queria lhe dizer, vou amanhã à noite. - Certo... Eu e o Adrian iremos com a senhora. D. Rosa procurou não demonstrar a surpresa: - Nossa, que bom! Estão todos de férias mesmo, não é?... Vamos aproveitar! Eu compro as passagens de vocês amanhã cedo então. – alguns minutos depois - Filha... - Mãe, o Givan não deve mais estar lá... seu sonho era formar-se e sair dali. Por isso será mais fácil pra mim... - Sim... mas você sabe que terá notícias de que ele deve ter se casado...estar com filhos agora. E tem o Adrian que poderá ouvir falar de quem ele pensa ser o pai. - Eu sei de tudo isso, mãe... Não precisa ficar SEMPRE REPETINDO que o que eu JÁ SEI!!!...Mas farei a viagem, principalmente, pelo Adrian. Quero que meu filho conheça a história da mãe, a nossa história... só isso. E ele também quer muito ir até lá. Contou à mãe sobre conversa que tiveram à tarde, na rede. - Naquele primeiro dia que me perguntou sobre o pai, só segui minha intuição, soube naquele momento que ele precisava ter uma figura paterna como todo mundo... e eu não contaria quem é o verdadeiro pai nunca... nem sei se seria bom ele conhecer toda a verdade! Talvez algum dia, não sei ainda... mas sabia que precisava sim da imagem masculina em sua formação... e quem mais eu poderia dizer senão o único homem que amei na vida? - Eu nunca a recriminei por isso, filha, nunca! Você sabe o que é melhor pro seu filho. Tanto que, quando ele me pergunta qualquer coisa sobre o pai, eu, imediatamente, peço que pergunte a você! Deus dá o dom a cada mãe de criar seu próprio filho! – segurando as mãos dela continuou – Você fez o que achou que era certo, isso que importa! Filha...chame a Janete pra ir conosco. - É verdade... - sorrindo concluiu pensativa - ... será bom tê-la ao meu lado. Vou ver se consigo falar com ela agora mesmo e depois vou arrumar as nossas coisas... quem conta pra ele? - Eu conto pro meu neto... quero só ver a carinha dele! 120 2º CAPÍTULO A idéia era voltarem antes do dia 28 de dezembro, Jacque mal dormira abraçada ao Livro de Segredos. Sentia que era hora de deixá-lo na Torre... talvez seu ser quisesse enterrar o passado para sempre... não sabia, somente sentia que precisava deixá-lo lá. Onde costumavam sentar-se, no 3º andar, deve ter sido uma caixa d’água, pois tinha uma abertura... colocaria o seu livro ali. Quem sabe um dia ele o descobrisse! Tentava preparar-se para uma porção de situações que poderiam ocorrer tais como as que a mãe havia falado. Seu filho quase não a preocupava porque, além de ser tímido, por crescer em uma cidade grande e violenta, não costumava dar informações a estranhos... e para ele todos ali seriam desconhecidos. Cruzaram de ônibus a fronteira do Estado e Jacque, sempre ao lado da mãe, vinha olhando a paisagem que não modificara com o tempo e ouvindo suas melodias pelo fone de ouvido. Mesmo ouvindo uma de suas músicas preferidas, My Immortal de Evanescence, não conseguia relaxar, estava ansiosa ao mesmo tempo em que sentia medo. Não falava, mas queria muito saber o que acontecera ao amigo... se havia realmente se casado com Gizele, quantos filhos ele tinha, se estava satisfeito com sua profissão... se viajava pelo mundo, se era feliz. Ela realmente acreditava que se pudessem conversar novamente, voltariam a ser amigos, e mais... acreditava que, se ele soubesse de Adrian e de tudo que ocorreu com ela, assumiria por amizade e compaixão a paternidade do garoto. Ela conhecia o coração bondoso e prestativo que havia no médico... mas para tudo isso precisava encontrar-se com ele, conversar com ele novamente e não sabia se estava preparada para tanto. O que mais temia era que ele não quisesse nem ouvi-la novamente, temia que a repreendesse ou a ignorasse, temia ouvir que era melhor ela ficar afastada de sua vida, temia que ele não a quisesse nem como amiga. Por isso nunca o havia procurado... por medo de perder novamente o que nem tinha mais. Após adentrarem no Estado natal de Jacquelline, o filho e a amiga puderam descobrir a beleza da natureza vista sobre trilhos. O menino estava exultante com a viagem! Ele podia até ser retraído com estranhos, mas descontava com os conhecidos. Não deixava a Janete sossegada um minuto. Falava o tempo todo com ela mostrando imagens pela janela, perguntando quanto tempo ainda faltava de viagem, se estava enjoando no trem, quantas histórias de Ziraldo ela conhecia, quantas alunas bonitas ela tinha... - Menino, quando você era pequeno, deve ter engolido a pílula fabricada por Monteiro Lobato. 3º CAPÍTULO O prédio da Estação Ferroviária Professor Horácio Latino foi tombado como Patrimônio Histórico do Estado e conservado. Localizado no centro de 121 Moinho de Ilusões, passou pela última reforma há nove anos e Jacquelline, ao descer ali, viu que realmente aparentava melhor estado. Embora ainda preservasse os resquícios do passado, observou que provavelmente algumas mudanças foram realizadas em seu interior para oferecer maior comodidade aos passageiros. Passaram pela ampla sala de espera, onde várias pessoas aguardavam - sentadas em bancos confortáveis - parentes, amigos ou o trem para embarque. Viram a antiga bilheteria, uma moderna lanchonete, uma banca de revista, além de alguns banheiros. A professora de Literatura, logo uma conhecedora de Artes, ficara encantada com a fachada em estilo dórico-romano que é a parte mais conservada e encantadora da construção. Realmente a Estação Ferroviária estava diferente e ainda mais bela que antes, mas as ruas e estabelecimentos continuavam os mesmos da memória da menina. Talvez uma coisinha aqui, outra ali; mas poucas mudanças. A cidade era bem pequena, no entanto pegaram um táxi por causa da bagagem e seguiram rumo à casa da avó de Jacque que ficava em um pequeno bairro logo atrás da ferrovia. A mãe, antes de viajar, ligara e pedira para religarem a energia e a água. A bondosa vizinha que sempre teve a cópia da chave da residência da falecida amiga, uma vez por semana limpava e cuidava da casa, o que possibilitou encontrarem-na como se alguém ali ainda morasse. Dona Rosa estava emocionada, Adrian encantado, Jacquelline silenciosa e Janete com uma tremenda dor de cabeça. Após se acomodarem na velha casa de madeira e tomarem seus banhos, foi Jana quem indicou o que fariam: - Bem... eu e este meninão aqui vamos badalar um pouco esta cidade. – virando-se para ele - isso depois de passarmos em alguma farmácia pra eu comprar uma aspirina e um protetor de ouvido... Acho melhor, Jacque, você ficar um pouco sem se preocupar com Adrian, deixe que eu passeio com ele... e a senhora, Dona Rosa, vai falar com a imobiliária agora cedo? Precisa de mim? - Podem deixar que vou procurar alguns amigos primeiro e depois de pegar algumas informações é que levarei, ou não, a casa à imobiliária. - Nós já vamos, né, fofo? Tchauzinho pra vocês.- virou-se para a amiga falando sério em tom de brincadeira - Jacque, se precisar de mim, estaremos na rua principal daqui... é só gritar! - Obrigada, Jana... – beija o filho que fisicamente aparenta ainda uns dois anos a menos da idade que realmente possui – A mamãe precisa agora ficar um pouco sozinha, mas depois me reunirei a vocês e mostrarei os nossos lugares! Está bem, filho? - Tudo bem, mãe! ...Vamos logo, tia! Jacquelline volta-se para Janete e olham-se com cumplicidade e carinho para cada uma tomar seu rumo na pacata cidade. 122 4º CAPÍTULO Os olhos verdes primeiro procuram a casa onde passara a maior parte de sua vida. Sabemos que a venderam antes mesmo de saírem dali, foi preciso para estabelecerem-se na cidade grande. Decepcionou-se ao ver que a antiga casinha branca com varandas agora possuía uma fachada cinza moderna que mal deixava à vista o corredor lateral interno que levava aos fundos onde tantas vezes brincara. É, vó, a Modernidade tem mesmo suas desvantagens! Dali seguiu para a casa dos avós de Givan, esta continuava exatamente como se lembrava... até a pintura das janelas tinha a mesma cor. Sem conseguir se conter, parou em frente ao portão de entrada e ficou olhando cada detalhe com saudade. -Oi, tia. Jacquelline quase desmaiou de susto ao ver uma menina sair de trás de uma das colunas da varanda e fitá-la sem qualquer sombra de constrangimento, era loirinha de olhos azuis. Jacquelline ficou olhando para a menina e teve um frio na barriga, porém algo a segurou e a impediu de fugir dali. - Oi, que menina linda você é e que casa bonita você mora! - perguntou com um fio de voz. - A senhora acha mesmo, tia? Mas eu não moro aqui não. O frio na barriga agora ficou ainda maior. - Eu vim só visitar o tio Juarez? - Tio Juarez?!! - É... ele que mora aqui. Jacque não conhecia nenhum Juarez parente do Givan nem da Gizele. - Como se chama sua mãe? - Ana. Jacque respirou fundo: - E o nome de seu pai qual é ? - Manoel. Um suspiro de alívio se fez ouvir e, então, mais calma e descontraída, Jacquelline soube através da menininha que os tios moraram com ela em outra casa lá perto da Igreja, mas que haviam conseguido comprar aquela ali para eles quando ela era menor. A informação foi suficiente para Jacque ter certeza de que seu amigo de infância havia ido embora de Moinho de Ilusões, isso a aliviava e a entristecia também, porque, no fundo de seu coração, queria vê-lo uma última vez... nem que fosse ao longe. Dali seguiu em direção à velha praça. Desta vez surpreendeu-se pela beleza do lugar! Havia inúmeras flores novas e a fonte continuava ainda mais linda do que em suas lembranças! Não pôde deixar de sorrir ao ver o antigo banco diferente dos outros. Se é que fosse possível, era o único feito em madeira, pintado de branco e onde ele estava tornara-se o local mais florido da praça. Acho que algum político andou se 123 apaixonando aqui no meu lugar. Seja lá quem for... este lugar foi meu antes de ser seu! Jacque sentou-se encolhendo as pernas sobre o assento... abraçada ao Livro de Segredos apoiou a cabeça na encosta superior e deixou que seus pensamentos vagassem livremente para onde quisessem... só então percebeu como sentira falta daquele lugar... como amava aquela cidade... ali era seu único lar neste mundo. O único onde se sentia inteira, completa. Já haviam se passado muitas horas quando a vista secara. Era chegada a hora de subir ao terceiro andar. 5º CAPÍTULO - Rosa, você aqui, mulhé! Quanto tempo! A visitante sorriu ao ouvir, com saudade, o linguajar carregado que muitos daquela cidade traziam como resquício, embora com certa modificação pelo tempo, dos primeiros moradores que vieram do interior mineiro. - Pois, então, Eurides! Anos, não é?! - Vamo entrano, comadi! Inêis, vem pedi benção pra sua madrinha e põe a mesa de café pra nóis! - Não precisa não, Eurides! Só passei por aqui pra ver se vocês estão bem e matar as saudades. – acolhendo a mão da menina e olhando-a com admiração disse – Deus a abençoe, filha! Nossa, como você está moça já! Que linda! - Já tá até namorano, comadi! Mas agora vê lá se ocê vem na minha casa e sai sem tomá café. Eita que esqueceu a nossa anfitriosidade é? D. Rosa realmente quase esquecera. - Nossa, que saudade do seu pão, Eurides! Após experimentar mais algumas delícias a pedido da dona da casa disse: - Mas me conte... como estão as coisas por aqui? Em menos de uma hora soube da vida de praticamente todos os dezenove mil habitantes do local, se não de todos, pelo menos dos principais. - Mas o que movimenta memo nossa cidade é o atendimento do Doutor. Até na TV já saiu. - É mesmo? E por quê? - Comadi, ele atende de graça os pobre todo santo sábado e domingo. Ele e mais uma turma de formado são chamado de Acadêmicos do Bem e lá os pobre tem advogado, psicóloga, dentista, aula de música, teatro, pintura e sei lá mais o quê!.. E ele que é o chefe. - É mesmo? - Pois então não tô dizeno! - Isso é muito bonito, faz tempo? - Olha, faiz ano, heim! - E quem começou isso? - O Doutor. - Que doutor? 124 - Uai, comadi, o doutor Givan. D. Rosa parou de comer na hora e assustada olhou para a amiga de anos: - O menino Givan que brincava com a minha filha? - Claro, é o único doutor Givan por essas banda. - Então ele não foi embora? - Claro que não! - Ele se casou, Eurides? A moradora de Moinho de Ilusões ri : - Como é que vai casar se não esqueceu sua fia inté hoje?! Pela primeira vez em anos, Rosa Pedrini Vale sorri com o coração aliviado. 6º CAPÍTULO - Pois não? - Uma aspirina, por favor. - Só um minutinho que vou buscar lá em cima que as nossas daqui acabaram, tudo bem? - Claro. O senhor poderia vir com um copo d’água para eu já tomar um comprimido? Após ele assentir, Jana sorri para o atendente e continua próxima ao balcão aguardando-o com o Adrian a olhar curiosamente para o cliente de branco sendo atendido pelo farmacêutico. Contrariando a normal timidez do filho da amiga, quase sem acreditar, Janete ouve-o puxando conversa com o desconhecido. Apesar de surpresa, gostou de vê-lo se soltar um pouco. - O senhor é médico? O homem virou-se em direção àquela voz que o chamava e, ao ver o rapazinho, passou, como cumprimento, uma das mãos em seus cabelos: - Oh, rapaz! Sou sim. - sorrindo com simpatia continua a conversa – você gosta de médicos ou tem medo deles? - Gosto, claro. - Então, talvez queira ser um? - Acho que não. Meu pai é médico, sabe. O homem, então, pensando que ele não gostava muito da profissão porque o pai devia passar muito tempo fora de casa, diz: - Entendo... – olhou para ele e a mulher que o acompanhava. - Não deve ser fácil mesmo ser esposa de um médico, não é? Janete, percebendo a confusão, sorri esclarecendo: - Ah... não sou a mãe dele não. Adrian novamente surpreende ao puxar outro assunto: - Nós não somos daqui, doutor? - É mesmo? E de onde você é, meu rapaz? 125 - De Guarulhos, lá em São Paulo, conhece? - Sim ... eu conheço. O rapazinho continuou sem perceber uma nota de tristeza naquela voz. - Minha mãe é daqui ... mas nem eu, nem ela somos. - apontou para Jana. - E quem é sua mãe? Talvez eu a conheça? - O nome dela é Jacquelline, conhece? O médico parece não acreditar no que acabara de ouvir: - Quem?!! Janete, que distraíra um pouco olhando os cosméticos da farmácia, notou algo diferente na voz do doutor e passou a prestar mais atenção àquela conversa torcendo para não ser aquilo que começava a parecer para ela. Médico em Moinho de Ilusões... jovem... as palavras da mãe da amiga vieram-lhe à mente... cabelos negros... olhos azuis?!! Não era possível! Jacquelline a mataria por isso!!! - Jacquelline... conhece? O meu pai era daqui também... Pela expressão do médico teve certeza de quem se tratava. - Acho melhor a gente ir, querido, acabei de me lembrar que preciso urgentemente encontrar sua mãe. Mas era tarde demais, Givan não os deixaria ir embora sem ter certeza de que tratava-se de sua Jacquelline e se era mesmo verdade que ela estava na cidade. - Esperem o medicamento, eu os levo onde quiserem depois. Não aceito recusa, faço questão! - Legal, doutor! – virou-se impaciente para Jana - Por favor, tia. Nem sabemos onde minha mãe está, como é que vai falar com ela? Janete viu-se impotente e tentava imaginar uma desculpa para o que viria a seguir. Adrian surpreendentemente deixara mesmo a timidez de lado e falava sem parar como se o conhecesse há anos: - ...então, doutor, Jacquelline Vale é o nome de minha mãe... o meu pai é daqui também e é médico como o senhor, mas minha mãe não mora com ele não ... ela disse que ele também não mora mais aqui... Quem será esse médico daqui? ...será que se separaram... quem seria o pai dele? - ... mas vim conhecer as coisas dele e dela, minha vó vai vender a casa da minha bisavó e acho que nunca mais voltaremos pra cá...só se quando eu ficar adulto, eu quiser, né? ... Precisava vê-la!!! - ... mas minha mãe disse que seria a primeira e última vez que eu viria com ela. Janete não sabia mais o que fazer para sair daquela situação sem piorá-la. - Adrian, podemos procurar por ela enquanto conhecemos a cidade. - O seu nome é Adrian? – o médico estava cada vez mais surpreso e confuso. - É sim ... minha mãe disse que meu pai que escolheu este nome quando ainda era bem jovem, antes mesmo d’eu nascer! Talvez o senhor tenha conhecido o 126 meu pai. - Qual é o nome dele? Janete cruzou os dedos e rezou baixinho para o menino perder a voz só por uns momentos: - Givan. Dr. Givan Galle. - Como é?!! – seus olhos refletiam a profunda confusão de seus pensamentos. Sem suas preces terem sido atendidas, Janete precisou intervir. Tocou os braços do médico e interrompeu aquela conversa: - Podemos conversar um pouco na casa da avó de Jacquelline? - Por favor, gostaria muito de algumas explicações. O atendente chegou com o remédio e ela achou melhor tomar duas aspirinas. 7º CAPÍTULO Quando Janete entrou na casa, D. Rosa veio entusiasmadíssima ao seu encontro. - Janete do céu! Você não vai acreditar no... - surpreende-se pela segunda vez naquele dia, mas agora ao ver entrar o neto acompanhado do Dr. Givan Galle. Com um sorriso saudoso nos lábios a senhora diz: - Oi, filho! - A senhora o conhece, vó? D. Rosa volta-se para o neto: - Adrian, vá até aquele mercadinho que vimos quando chegamos de viagem e compre café pra vó fazer pra visita. Depois conversaremos melhor, filho. - Tá, mas acho que demora, vó, passamos por lá quando saímos e estava lotado, não foi, tia? - Foi sim! E pela manhã também parecia bem cheio! ... Adrian, pegue o dinheiro que está na minha bolsa, tá? - Doutor, o senhor me espera que já volto, ok? - Espero sim, garoto! Vá tranqüilo que não sairei daqui até você voltar. – Givan acompanha-o com um olhar pensativo até que o menino não mais pôde ser visto pela porta entreaberta da sala. O médico, virando-se para D. Rosa, abraça-a como se abraçaria a própria mãe após anos de saudade. Sem soltar suas mãos, agora um homem bem mais alto que a senhora, fala em voz baixa: - Finalmente as mulheres de minha vida retornam ao lar. - Sente-se aqui... Como você está lindo de branco! Eu já soube o que você e seus colegas estão fazendo pela cidade e pela região! Seus pais devem estar muito orgulhosos! Já sei também que ainda estão na Europa...e sinto muito pelos seus avós... - ...Obrigada, Dona Rosa! Meus pais não querem mesmo voltar mais pra 127 cá! Adoram aquele continente! – olha em volta ansioso - Jacquelline está aqui? - Não... ela saiu. Primeiro, antes de encontrar-se com ela, acho que é melhor conversarmos e sabermos de todas as coisas... tantos encontros... tantos desencontros... Janete esclarece à senhora: - Dona Rosa, Adrian contou ao doutor sobre o nome do pai dele, entende?... mas eu ainda não expliquei nada. - Dona Rosa, é impossível eu ser o pai dele. - Calma, Givan... nós vamos explicar... Percebendo que ele estava muito confuso com a revelação que tivera, resolveu começar desde a gravidez da filha. - Quando você ainda estava namorando a Gizele, minha filha foi pra Guarulhos e dias depois perdemos meu marido... - Eu soube que ele morreu. Apesar de achar estranho ele saber de Ermelindo, D. Rosa continuou, pois queria terminar aquela conversa antes do neto voltar. - Bem... minha filha foi grávida daqui, Givan. - Não acredito, Dona Rosa! Sem imaginar que ele soubesse sobre o estupro até mais do que elas, a senhora não interpreta corretamente as palavras do rapaz: - Pois foi mesmo grávida!- abaixa a voz e suplica para Janete- ...conte pra ele, Jana. - Ela ficou grávida porque foi estuprada aqui, Givan. Ele permanece em silêncio sem saber o que dizer àquelas mulheres que sofriam a mesma dor que ele ao ouvir isso. A amiga de Jacque que explica: - Ela teve a criança, Adrian, e quando ele, crescidinho, já estava fazendo perguntas sobre o pai, Jacque sentiu que o filho precisava de uma figura masculina pra crescer saudável. E a única pessoa que pensou e falou ao filho foi de você. Queria que ele se sentisse orgulhoso do pai, assim como queria que o pai verdadeiro do filho dela fosse você. O resto você já deve imaginar. - Mas e o marido dela? - Que marido, filho? Jacque nunca teve nem namorado que dirá marido! - Mas eu a vi sair da escola com o marido e o filho? -Escola? Como assim? – concluem rapidamente que ele fora atrás de Jacque em São Paulo - Você não pode nunca ter visto isso, Givan, porque minha amiga nunca teve marido nem nada...- de repente, entendendo que poderia ter havido algum mal-entendido, exclama - JULIANO! - O que tem ele, Jana ? - Ele deve ter visto a Jacque com o Ju e pensou que fosse marido dela.voltando-se para o médico - Onde você a viu? E Givan narrou com detalhes sua aventura na cidade grande e como voltara arrasado pensando que seu Amor havia constituído família. Janete explica da amizade que elas mantém com os Jus e fica atônita em ver tantos 128 mal-entendidos. - ... e Jacque sofrendo que nem uma condenada achando que você estava casado. - Eu soube do estupro pouco antes de ir procurá-la e saibam que o bandido fez isso com mais duas meninas daqui, isso alguns meses depois do que fez com Jacque ... Na época, foi preso e, condenado, cumpre pena na penitenciária de Campo Grande de onde não sairá tão cedo! Se sair, não quererá voltar aqui, podem ficar sossegadas. O pai de uma das garotas, o delegado Dr. Eduardo Martelo, garantiu isso quando o prendeu. - Mas alguém soube o que houve com minha filha? - Não! Todos nós soubemos que ele era um bandtdo quando o pegaram, mas soube que ele fez isso com a Jacque somente bem depois e praticamente ninguém sabe disso aqui na cidade. Fiquem tranqüilas! - Graças a Deus!- Janete expressa o alívio das duas mulheres. Conversaram ainda bastante, Givan queria saber tudo que acontecera com elas. Adrian abriu o portão quando finalmente as mágoas transformaram-se em felicidade. Ao ouvi-lo, a avó, feliz e tranqüila, vai até a porta e grita com alegria: - Adrian, venha, filho, venha abraçar o seu pai! 8º CAPÍTULO O início da tarde deixava as ruas quase desertas. A menina de olhos verdes cruza rapidamente o caminho que a leva até a Torre. Porém, ao chegar ao portão de entrada do casarão, o que viu a deixou tão assustada que ficou indecisa se devia ou não entrar naquele local. Mas era sua última vinda em Moinho de Ilusões, não poderia voltar sem visitar o seu solo sagrado pela última vez. Olhou em volta e quase não acreditou no que via... desde a entrada, algumas árvores e arbustos estavam espalhados por todo o terreno em volta da casa circundada por uma espécie de pequenino riacho sinuoso que atravessava todo o lugar... alguns bancos, idênticos ao que sentara na praça, estavam espalhados pelo maravilhoso jardim... Receosa, adentra lentamente por um dos vários caminhos estreitos que se encontram entre milhares, mas milhares de... MARGARIDAS! Olha a varanda do casarão, as árvores... vai até a sua Torre e o que vê a deixa perplexa... ORQUÍDEAS... ORQUÍDEAS estão penduradas em vários locais! Como pode isso?!! A menina, temendo algum guarda local, entra na Torre e, além das belíssimas ORQUÍDEAS, encontra tudo limpo, degraus almofadados... Com ainda mais medo de ser repreendida pelo autor daquele paraíso, dirige-se rapidamente ao terceiro andar. De lá consegue ter a visão do imenso jardim de margaridas com orquídeas... dali...mais calma... pôde ver que beijando as flores, descansando nas árvores, inúmeras borboletas podiam ser vistas. 129 Se você pudesse ver o que estou vendo da nossa Torre, Gi, acho que nem acreditaria! Devo estar tendo uma alucinação, só pode! Tocando onde sentavam, levemente com as mãos, foi contornando para dirigir-se ao lado oposto da entrada... agora tinha a visão de quando ainda estavam juntos. Jacquelline Vale sentou-se com as pernas cruzadas como a meditar e ficou a olhar o céu que cobria a sua cidade... como em criança sorria ao olhar as nuvens formando Luas, sorvetes, gatinhos, bonecas, Estrelas... estava tão absorta que não percebia que lágrimas escorriam de seus olhos e que alguém em silêncio observava os pequenos movimentos de seus cabelos agora novamente abaixo dos ombros. Pôde ver, ao longe, uma criança andando de bicicleta na rua da avó... quantos tombos levara ali!... certa vez ele até a levou no colo para sua avó fazer o curativo; mesmo machucada, ela não desistiu...logo estava de volta à brincadeira... Deu-se conta da face molhada e começou a preparar-se para ir embora... não agüentaria o pôr-do-sol ali sozinha. Descruzou as pernas... olhou para o livro que colocaria na abertura próxima à saída... fazia uma prece para que um dia ele o encontrasse... olhou para as casas de Moinho de Ilusões imaginando ser pela última vez ...olhou como a querer guardar aquela imagem pelo resto de seus dias e virou-se para sair dali a lembrá-la para sempre. 9º CAPÍTULO Givan, ao ser abraçado pelo filho de Jacque, sentiu que aquele menino só poderia mesmo ser seu filho. Abraçou-o forte com a certeza de que ninguém poderia admitir o contrário, ele jamais deixaria que isso acontecesse. O dia precisava completar-se... era hora de encontrar sua Jacquelline. Sabia onde ela estaria e foi para lá que se dirigiu. Não querendo assustá-la, deixou o carro a uma quadra do casarão e seguiu direto para a Torre. Mas não precisaria de muitos esforços para não perturbá-la... sua Jacque, quando absorta em pensamentos, mal ouvia o mundo à sua volta. Como certa vez... estava ansioso para alcançá-lo. E ao lá chegar... ver a imagem que sonhara tantas vezes ali reencontrar fizera com que parasse a contemplar a visão sonhada, desta vez por medo de esvair-se. Perdera a noção do tempo novamente... não conseguia mover-se até a silhueta talvez irreal... Mas quando o brilho daqueles olhos deu-lhe a certeza da verdade, tudo que conseguiu foi correr a tomá-la em seus braços. - ai...Jacque... - Givan?! Em resposta abraçou-a e, então, pôde perceber o quanto estava fria e trêmula de susto. Sentiu-a banhar sua camisa em lágrimas... Apertou-a forte a mostrar-lhe que ele também a amava... que ele também sentira a sua falta durante 130 todos aqueles anos... abraçava-a como se quisesse tornar-se um só com ela... queria tirar-lhe todas as dúvidas... Aos poucos pôde senti-la acalmar-se... mesmo assim ele não a soltava... com uma mão acariciava suas costas enquanto com a outra acarinhava seus cabelos... as lágrimas de ambos se misturavam e... sentindo-se um ao outro ficaram durante todo o pôr-do–sol. Iluminados pelos últimos raios, puderam olhar-se e cada um tocar a outra face lendo a imagem amada também com as mãos... sorriam, juntos agora, para o próprio destino que os unira, os afastara e os unira novamente... as almas diziam que desta vez seria para nunca mais se separarem. E ali, na Torre sagrada, Givan e Jacquelline deram seu primeiro beijo de Amor. 10º CAPÍTULO Permaneceram sob as Estrelas entregando-se a abraços e beijos que continham anos de saudade. - Eu sabia que um dia você ia voltar pra mim! Eu sabia! Sem conseguir soltá-lo, os verdes olhos o fitavam com felicidade: - Mas...Gi...como você soube que eu estava aqui? Você ainda mora aqui? - Moro, Borboleta... – deu aquele sorriso maroto que tantas vezes ela sonhara em vê-lo novamente – Eu moro exatamente aqui... moro no seu jardim! Ela teve até medo de acreditar no que vinha a sua mente. - Você que fez este jardim?!! Você mora AQUI?!! - Isso, Amor! Mudei-me pra cá e preparei isto aqui pra esperar por você. As lágrimas nublaram novamente aquele olhar. - Não é possível, Gi... é verdade mesmo? Ele segurou as duas mãos de menina, levou-as aos lábios para sentir-lhes a suavidade e o azul profundo mesclou-se às matas. - Sim, é verdade! Esperei por você todos esses anos. - Mas... e a Gizele? Ele a abraça novamente, agora com mais força, enquanto sussurra: - Esquece, Amor... eu era muito jovem na época ... me perdoa? - Gi... não tenho nada a perdoar. Eu é que preciso ser perdoada por você... tantas coisas eu falei... tantas bobagens eu fiz... Nunca devia ter feito nada daquilo! ...perdão, por favor? - Não diga isso... essas suas bobagens já esqueci há muito tempo... você não sabe de nada ainda... Diga que me perdoa, por favor. - Está bem...se quer assim... eu o perdôo! - PALAVRA DE VIDA? -PALAVRA DE VIDA!... mas nem sei perdoar o quê! – ela ri feliz. Sem soltar aquelas mãos, senta a amiga e conta com detalhes a angústia que sentiu quando Jacque não mais aparecia em lugar algum, conta como se desesperou ao saber pela avó da menina, pouco antes dela morrer, que Jacque 131 havia ido embora para São Paulo. - Assim que ficamos afastados, achei que você nunca tivesse realmente me amado. Eu entendo agora que fui injusto com você pedindo que me esperasse enquanto eu namorava com outra na sua frente, mas, na época, fiquei mesmo decepcionado porque você não me esperou e foi namorar outro! E, na minha infantilidade, sentindo raiva de suas atitudes, foi fácil acreditar nas mentiras que a Gizele falava. - Minha mãe esteve aqui no enterro de minha avó, por que não falou com ela? - Eu estava até decidido a falar com a Dona Rosa e saber notícias suas, mas a Gizele me convenceu, na época, a não perturbar sua mãe em um momento tão difícil como aquele. E eu, ainda com mais raiva que saudade por você ter ido embora sem se despedir de mim, me deixei levar por aquela moça mais uma vez. Suavizando ainda mais a voz, contou-lhe como e o que soube, através da jornalista, a respeito do que fizera Gizele a ela. Jacquelline ficaria extremamente chocada com a última revelação se não estivesse tão feliz em sentir-se amada por ele. - Foi por minha causa que aquilo aconteceu... por isso lhe peço perdão. Ela sorriu tranqüila. - Não foi sua culpa, meu Amor... a culpa foi deles! Mas vamos tentar esquecer aquilo de uma vez por todas! – baixou os olhos pensando em tudo que passaram – Gi... - Sim... - Se você me esperou tanto tempo... por que não tentou me encontrar antes? - Quem disse que não tentei, Borboleta? Ela olhou espantada: - Tentou mesmo? Quando? - Eu a vi onze anos atrás... você estava com os cabelos curtos! Ela ficou meio triste: - Mas não quis falar comigo, não é? Ele sorriu abraçando-a novamente: - Eu a vi de boina, com os cabelos curtos, rodeada por um montão de crianças, na frente de uma escola chamada Olinda Baça. Fui lá pedi-la em casamento, mas fiquei arrasado de ciúmes ao ver a minha Borboleta bater as asas pra um beija-flor. - Como é que é? – já estavam brincando como antes. - Naquele dia, eu a vi encontrar-se com um homem que pensei ser seu marido! E como ele trazia uma criança nos braços... pensei que fosse filho de vocês. - Então você foi um dia na frente da minha antiga escola? - Sim. - E eu não o vi? 132 - Não me viu. - Você é um chato mesmo!!! - E ainda ia pedi-la em casamento. - E só porque me viu conversando com outro homem ficamos separados durante ONZE ANOS ?!! - Pois é. - E depois dizem que mulher é que é ciumenta! Deitaram-se rindo e voltaram a olhar as Estrelas juntos, mas desta vez, além das mãos entrelaçadas, ela estava aconchegada no ombro amado. Que dia será que foi esse heim?! Ah, por que não olhei pra onde ele estava? Seria a amiga Janete, junto com a D. Rosa, que a faria entender esse episódio mais tarde quando cada uma contasse as novidades daquele dia. E agora? Era hora de falar do Adrian. - Gi... - Sim, Amor. - Tenho algo a contar... algo que aconteceu... bem... q-quando eu... Ele a conhecia bem demais, sorria já entendendo o embaraço de sua futura mulher. - Hum... pode dizer... - bem... eu tiv.. eu tenho... Percebeu que ela não sabia como contar de Adrian, mas não resistiu. - Tem o que, Amor? Algum namorado? - Não...não! Claro que não! - Hum...então tem o quê? Conta logo que estou ficando aflito, vamos resolver isso logo. Está é me deixando mais aflita! -...é que...bem... q-quando saí... Um dos braços do médico abraçava-a servindo de apoio para que deitasse, com a outra mão ele acariciou o rosto sonhado. Ela não via o sorriso nos lábios dele. - Amor... estive até agora com nosso filho. Jacque debruçou-se sobre ele tomada de surpresa: - O que foi que disse? - Foi Adrian, o nosso filho, que me trouxe até você, eu não estava em casa nesta tarde! Acalme-se agora... já sei tudo o que aconteceu com você. Conheci a Janete também. - E...? -E... que só tenho a agradecer por ter cuidado tão bem de nosso menino, mas que agora quem manda no pedaço é o pai dele aqui, entendeu? Abraçou-a rindo e mais beijos foram despertados. - Fiquei muito feliz em saber do Adrian, Jacque, já o sinto como meu filho, Amor. 133 Jacquelline, novamente aconchegada ao amado, lembra-se de algo, levanta-se e encontra-o caído no chão. - Olha, Gi... Este aqui tenho certeza de que você ainda não conhece... tome, é pra você... quero que fique com ele! Eu escrevi em todos os seus aniversários... senti muito forte que deveria trazê-lo aqui... achei que fosse pra guardá-lo, mas não era! Agora entendo... minha alma já sabia que eu não precisaria mais dele, chegou o nosso momento, estamos juntos finalmente! O rapaz pegou um livro diferente de todos que conhecia. Viu gravado, na capa grossa de couro, Livro de Segredos de Jacquelline Vale, era extremamente grosso e continha páginas de pano. Ao folheá-lo, viu mensagens de Amor, borboletas, bancos de praça, árvores, Luas, Estrelas e a Torre, tudo feito a fogo. A maior parte dos escritos datavam de 20 de março dos anos em que estiveram separados. Algumas folhas, porém, continham palavras desconexas como AMOR,TEMOR, mãe, maternidade, saudade, MEDO, AMOR, responsabilidade, dor, solidão, tristeza, DESESPERO, AMOR. Havia outras com flores, corações e um V enorme que tomava toda uma página. - Essas são de quando soube que você passou no vestibular. – ela riu para ele - eu olhava a lista de aprovados todos os anos. - Prestei três vezes antes de passar, acredita? - Nossa! Eu imaginava, sabia? Que bom que conseguiu !!!... Gi, como foram seus aniversários? - Não comemoro aniversários desde que fiz dezoito anos!... Como poderia comemorá-los sem você estar comigo? Ele fechou o livro depositando-o com carinho ao lado deles e abraçou-a novamente. - Eu amo você, Givan. Semprei o amei...sempre! - E eu sempre a amei também... – retira suavemente alguns fios de cabelo para ver melhor aqueles olhos -... minha Jacquelline... Você aceita se casar comigo? O brilho daqueles verdes olhos irradiava a emoção que a inundava em saber ser amada por Givan. Jacquelline nunca imaginara que pudesse sentir-se tão feliz e a sua resposta foi um longo beijo de Amor que selou aquele momento para sempre. 11º CAPÍTULO Chegara a véspera de Natal. Como os dois haviam se encontrado há pouco mais de um dia, a cidade ainda não tivera tempo de divulgar àquela informação às senhoras das janelas. D. Rosa voltaria a morar na casa que antes pensara em vender, o neto e a filha ficariam com ela até o casamento marcado para dali a poucos meses. Os pais de Givan já confirmariam presença assim que ele os avisasse. Por ora, os noivos comemorariam as festas de final de ano no casarão 134 junto com a mãe, o filho, Janete e alguns amigos do casal. Jana voltaria logo a Guarulhos ainda a tempo de passar o Ano Novo com a família e com os Jus. Vivaine estranhara a insistência do doutor para que viesse ao casarão mais cedo que os outros convidados amigos. Chegou pouco depois do pôr-do-sol e deparou-se com um menino alimentando os peixinhos que podiam ser vistos no pequeno riacho que circundava a casa. Pensou tratar-se de algum paciente do médico que viera visitá-lo com a família. - Olá! Tudo bem? - Oi, Feliz Natal! Nossa, que menino lindo! Esses olhos esverdeados me lembram alguém! - Feliz Natal pra você também! O doutor está lá dentro? - Meu pai está lá sim!- respondeu sorrindo. - Não seu pai, querido, falo do Dr. Givan! Ele sorriu e foi encaminhando-a para a porta de entrada. - Então, meu pai! Você é amiga dele? Também trabalha na Academia do Bem? A jornalista quase não o ouvia mais, pensava na enrascada que o colega se metera. Por isso estava aflito para que ela viesse... alguma mulher por aí deve ter aparecido para reclamar a paternidade do filho! Era só o que faltava mesmo, coitado! Porém a bela moça surpreendeu-se ao ver - na recepção do casarão toda decorada com enfeites natalinos e luzes piscando em todos os cantos da sala - o amigo, próximo a uma enorme árvore de Natal cheia de presentes, de costas, abraçando e, pelo jeito... beijando alguma mulher apaixonadamente?!! - PAI !!! Givan volta-se para atender ao chamado e, então, Vivaine quase cai das pernas. - JACQUELLINE!!! As duas mulheres sorriem abertamente e correm para se abraçarem. - Nossa, como estou feliz de encontrar você aqui!!! – e agora abraçando o amigo que veio encontrá-las sorrindo– Aff, que coisa, heim!!! Que presente de Natal!!! - Eu ganhei uma borboleta e um filho, pode? - Então... borboleta ...o jardim...estou entendendo agora isso tudo aqui!... e ele é mesmo seu filho? - Sim!... Adrian é nosso filho!- respondeu o médico sem deixar qualquer sombra de dúvida sobre isso. - Givan me contou tudo o que você fez por mim... Obrigada, Vi! - Que nada, devia ter feito há mais tempo! Mas... e seu marido? Nossa, estou tão confusa!!! - Calma, temos uma vida inteira ainda pra colocarmos as histórias em dia! 135 Mas já adianto uma coisa... antes tivesse deixado você xeretar a vida da borboleta aqui! - Hum... então já vi que temos muitos mal-entendidos por aí - olhou para o Adrian - Quantos anos você tem? - Treze, mas daqui a dois meses faço QUATORZE. - Nossa, já é um homem, heim!? Deste momento em diante os convidados começaram a chegar e a encher os noivos com abraços, brincadeiras e perguntas... muitas perguntas! - SILAS, CÉSAR, MARCELO!!! – Jacque corre a abraçar os velhos colegas dos bailes. - Não acredito, menina! Você voltou? – César foi o primeiro a recuperarse do susto. - Pois voltei e fiquei sabendo o lindo trabalho de vocês! Mas quero que me contem tudo! E aí, ainda toca na Igreja, Má? Casaram-se? E você, César... continua namorador? Nós vamos dançar um monte heim! Quero só ver se a gente consegue fazer o Silas se mexer um pouco agora que está mais velho! - Bem, difícil! Vamos ao relatório... o Dr. Silas vai ficar encalhado, ele só vive pro Direito agora, mas o César aqui parece que conseguiu fisgar o coração de nossa psicóloga! - A Wanda?! - É, amiga... parece que tenho uma chance ... Tento roubar aquele coração há anos!!! – todos riem com gosto do jeito do sedutor. - Encalhado coisa nenhuma! Acontece, Jacque, que não sou de ficar espalhando por aí minhas aventuras românticas como esses aí, apesar de que o Marcelo fala de mim, mas vive sozinho! - Por que, Má? - Sou ainda mais religioso agora, Jacque, e quero encontrar a pessoa certa pra mim... me guardo pra ela, entende? - Hum... Estou entendendo! Peraí que tem alguém que eu quero que vocês conheçam. Você, em especial, Má! – virou-se para o grupo que conversava atrás deles - Jana, venha aqui, mulher?!! Quero que conheça mais alguns amigos... Quase atrasados para os cumprimentos chegaram a Bárbara e o Dr. Alysson, seguidos de Ritóvski. Os Acadêmicos ficaram eufóricos de felicidade pela volta de Jacquelline e estavam ainda mais encantados por ela não ter vindo sozinha. - Mãe, que horas vamos abrir os presentes? Jacquelline, desta vez bem mais tranqüila, responde: - Quando quiser, filho, abra-os quando quiser! 136 Todos os convidados já estavam no casarão quando o antigo relógio, agora na recepção depois de restaurado em Mourão, badalou meia-noite. Cumprimentaram-se realmente sabendo que aquele era um Natal Feliz e seguiram para a sala de jantar, que ficava ao lado da ampla cozinha. A enorme mesa estava farta e atendia a todos os gostos. Os convidados não cansaram de elogiar a comida que fora preparada por D. Rosa. Animados por tantas novidades - mesmo durante a ceia natalina, tradicionalmente servida após os cumprimentos da meia-noite - a conversa não parava: - Brasileiros, vocês não imaginam o que fiquei sabendo hoje? - Conta logo, Ritóvski.- Bárbara continuava impaciente com surpresas. - Sabem a Marcinha? - Claro... Que saudade dela! - Pois, então, Gi, ela acabou de embarcar pra França! - Minha nossa, Parri! Aquele monte de belas francesas... AAAI !!! - parou ao levar um cutucão da namorada Wanda que estava sentada ao lado dele. - Ah, isso eu soube! – a enfermeira virou-se para o marido - Lembra, querido, eu contei a você ontem! Uma amiga nossa que você não conheceu estava indo fazer Doutorado na França! - Lembro sim, querida. Bárbara volta-se para as outras pessoas da mesa: - Bem, pessoal, era o sonho da vida dela, né?! - Fico muito contente por isso! Tomara que ela seja muito feliz!- finaliza Givan que, em seguida, com um sorriso de surpresa nos lábios mostra à noiva o Marcelo e a Janete que conversam animadamente na outra extremidade da mesa. Após o jantar, Adrian quase adormeceu em um dos sofás da recepção e, por ser muito tarde para irem embora, o pai cuidadosamente o conduziu para que dormisse lá em cima em um antigo quarto de hóspedes que seria preparado para o filho. Todos em Moinho de Ilusões jamais teriam qualquer dúvida de que aquele adolescente de cabeços escuros e olhos claros fosse realmente filho legítimo do doutor com sua amada esposa. Afinal, ninguém conseguiria mesmo acreditar que um casal que se amava tanto pudesse antes ter sido somente amigo. O médico esperou que o menino deitasse e ficou a contemplá-lo com o pensamento de que tudo na vida era mesmo inesperado. Há poucos dias sentia-se tão sozinho, angustiado e agora... agora olhava seu filho dormindo ao lado de seu próprio quarto. Jacquelline chega silenciosamente e abraça-o pelas costas. Ele vira-se para olhar o Amor que se rende a mais um beijo apaixonado. aafs20 12º CAPÍTULO Incrivelmente, nestes últimos dois meses, Adrian desenvolvia-se rapidamente. A diferença física era visível em cada semana, todos que o 137 conheceram diziam-lhe isto durante a sua festa de aniversário. A maioria, embora espantada, afirmava ser normal da idade, mas o coração materno sabia ser motivo principal a felicidade de ser amado pelo pai que tanto sentira falta. Como faziam quase todas as noites em que estavam juntos, os pais do aniversariante estavam abraçadinhos olhando o céu estrelado da Torre, desta vez exaustos depois da festa que durara a tarde toda. Parecia –lhes e à avó que todas as crianças e jovens da região haviam decidido cumprimentar o filho do médico mais querido das redondezas. Jacquelline e a mãe chegaram de Guarulhos na noite anterior, ficaram lá uma semana para resolverem todos os assuntos e voltarem definitivamente para Moinho de Ilusões. Adrian ficara no casarão. Assim que as duas chegaram, souberam que os Acadêmicos haviam preparado uma recepção para o menino, diziam que além de comemorar seu primeiro aniversário ao lado do pai, a garotada da cidade precisava conhecê-lo. Realmente parece que os Acadêmicos haviam conseguido alcançar os objetivos. Com a correria da festa, a noiva não tivera tempo de contar as novidades da capital ao futuro marido. Somente agora- sozinhos enquanto todos dormiam- Jacque falava sobre a viagem, em como trataram da mudança que devia chegar à cidade dali a uma semana, de que conseguira um preço justo pelo seu velho carro, de como a mãe deixara tudo acertado para a D. Cícera, mãe da Janete, alugar a casa agora vazia e, neste momento, dizia sobre a sua saída da Escola Valdemir. - Nossa, o mais difícil será quando eles voltarem das férias e encontrarem outra professora em meu lugar. Eu sei que sofrerão tanto quanto eu sentirei a falta deles. - Entendo, Amor... se pudesse, eu os traria todos aqui para que você ficasse feliz! - É a vida, encontros e desencontros... mas eu estou muito feliz aqui, meu Amor, você sabe disso! E tenho muito a agradecer a sorte que tive com a Marilda; se não fosse ela ser concursada deste Estado e querer trocar comigo que sou de São Paulo, eu teria que pedir exoneração. - É verdade! - Então, agora posso ser professora dos alunos da escola pública daqui! -E eles nem imaginam a sorte que tem! Vão ter uma professora... BORBOLETA!!! – após o riso, ficou sério novamente e trouxe-a para mais perto dele - Mas, Amor... as aulas até agora não começaram lá? - Pois é...já era pra eles estarem em aula, mas os professores fizeram greve, acredita? E nem previsão tem de quando voltarão... tadinho dos meus aluninhos!!! E eu preciso esperar a paralisação acabar pra eles montarem o processo de transferência, publicarem em Diário Oficial pra, só daí, eu lecionar aqui. Podemos contar uns dois meses a frente por causa disso. - Mas você não tinha que estar lá até sair no Diário Oficial? 138 - Sim – agora foi a moça que o apertou ainda mais em seus braços- mas eu não vou me afastar mais de você!!!... Deixei acertado lá com uma professora substituta, ela ficará em meu lugar o tempo que for preciso. Foi um sufoco esta semana, mas não precisarei mais voltar a São Paulo... só se quisermos visitar nossos amigos. Vou morrer de saudade dos Jus! - E da Jana não? Ele percebe um risinho estranho. Jacquelline debruçou-se sobre ele para perder-se naqueles mares. - Parece que teremos mais uma professora por aqui, Gi! Leu os olhos de sua menina e sorriu ao dizer: - Não me diga que ela e o Marcelo... Jacquelline acena afirmativamente com a cabeça. Depois, entre uma série de beijinhos, pergunta: - E o senhor o que fez na minha ausência? - Hum...não sei se conto!!! - CONTE, GI!!! POR FAVOR!!! - Hum... talvez eu conte uma hora... - CONTE, GIVAN GALLE!!! POR FAVOR!!! - Tá bom !!! Deixe-me contar antes que me jogue Torre abaixo... Bem... fui providenciar a viagem para nossa lua-de-mel! – passava os dedos suavemente contornando a face amada enquanto falavam, às vezes afastava um cabelo fugidio pelo vento - Eu não ia falar nada, mas queria saber se há algum lugar especial que você queira ir. - Qualquer lugar ao seu lado está ótimo, Amor... escolha você! - Um dos lugares que vi era no litoral de São Paulo, mas acho que você deve estar farta de lá, não é? Olhava para ela e novamente conseguiu entender a mensagem daqueles olhos. - Ah, meu Amor!..não acredito que você ainda não viu o Mar? - Não... lembra... – corou meio sem graça. - Claro que lembro! Já sei, minha querida... já sei aonde iremos em lua-demel! 13º CAPÍTULO Chegara o dia do casamento, quase exatos três meses depois do primeiro beijo. Tempo suficiente para a professora preparar-se, despedir-se da vida que deixara para trás e para o jovem médico cuidar dos preparativos para receber sua amada e seu filho. Amanhecera um dia ensolarado, embora no decorrer das horas uma suave brisa refrescasse os moradores da pequena cidade. A celebração civil já havia acontecido pela manhã no único cartório do lugar e a religiosa iniciaria quase ao pôr-do-sol no jardim do casarão. 139 Um altar fora montado na entrada da varanda que estava ainda mais enfeitada de margaridas e brancas orquídeas. O noivo passara a tarde ansioso ao lado da amiga Vivaine e do padre Jaime, um homem santo que viera de Campo Grande especialmente para realizar o casamento deles. Esse fora o presente de alguns parentes da noiva. A casa da avó de Jacque - já morada definitiva de D. Rosa e provisória de Janete, a mais nova moradora da cidade - estava repleta de pessoas entrando e saindo, parentes ajudando, crianças brincando, vizinhos perguntando. Os Jus chegaram de São Paulo na véspera e estavam ali hospedados, trouxeram a mãe de Jana para visitar a filha e assistir a cerimônia. Jheysa, a melhor cabeleireira do mundo segundo a noiva, era quem a arrumava. Já estava chegando a hora e a casa foi silenciando à medida que todos partiam em direção ao futuro lar de Jacque. Por fim, ficaram a noiva, Jheysa, D. Rosa, Janete, o Juliano que a conduzirá ao altar no lugar de seu pai, a Juninha e o Adrian que, juntos, levarão as alianças. - Pronto, minha querida, você é a noiva mais bonita desta terra.- Jheysa pisca um olho para ela enquanto segura em sua mão para que se olhe no grande espelho que cobre quase à altura da parede. Seus cabelos estavam soltos nos ombros com alguns cachos presos em uma tiara de flores naturais, seu vestido refletia o toque silvestre ao deixar-lhe os ombros levemente à mostra enquanto estendia-se somente um pouco abaixo dos joelhos. Se não fosse pela beleza dos bordados, diriam que tratava-se de uma belíssima camponesa. Optara por dispensar o tradicional véu e adotar a cor champanhe já que não poderia alegar virgindade, embora ela ainda não tivesse se entregado nem àquele que seria seu marido. Neste instante ouve-se um barulho na casa como de alguém entrando e, então, surge na porta uma figura de mulher envelhecida, magra e loira. - Gizele. – foi o que ouviram a noiva pronunciar ao ver aqueles ainda belos olhos azuis a olharem para ela. - Desculpem entrar assim... Por favor, gostaria muito de lhe falar um minuto, Jacque. Aquela que fora amiga sentiu um medo subir-lhe pelo ventre, mas procurou controlar-se. A mãe já estava prestes a mandar a visita que tanto mal fizera à filha para fora daquela casa, mas Jacque interveio. - Mãe, levem todos daqui... falarei com ela. - Mas, filha... - Por favor, mãe... vamos resolver isso de uma vez por todas. Não quero nós soltos quando me casar. -Está bem, então. Mas qualquer coisa é só chamar! – olhou severamente para a loira e encaminhou as outras pessoas que assistiam à cena para a varanda e lá aguardaram o seu desfecho. 140 Jacquelline observou a mudança física que ocorrera naquela mulher, estava muito magra, a antiga luminosidade tão atraente sumira quase que por completo, os cabelos pareciam bem mais ralos e estavam encobertos a maior parte em um lenço, rugas envolviam àquele olhar... só os olhos ainda possuíam um brilho intenso de azul do céu. Parecendo cansada, Gizele sentou-se em uma cadeira. A professora teve pena da imagem à sua frente. - Jacque... soube que estava na cidade ao ler no Jornal do Estado que hoje você se casaria com o Givan e, como venderam a sua antiga casa, foi fácil encontrá-la aqui... eu não podia perder esta oportunidade! - Oportunidade?... oportunidade de quê? - Oportunidade de me redimir de tudo que fiz no passado. A noiva olha silenciosa. - Quando era jovem não sabia valorizar as coisas importantes da vida como lealdade, amizade... quero que saiba que fiz muito mal a você e isso tem me atormentado diariamente todos esses anos desde que pude compreender a extensão de minhas atitudes... Jacquelline só a olhava, mas estava bem surpresa com o que ouvia. -... assim que você partiu, eu também logo saí daqui... seu noivo deve ter contado. Fui pra Mourão e lá, por ser a maior cidade desta região, achava que encontraria tudo que precisava e realmente encontrei. Conheci, assim que lá cheguei, um bom e esperto rapaz que me amou e me compreendeu exatamente como eu era. Foi ele quem me ensinou os valores verdadeiros da vida e, com pulso de ferro, não hesitou em me repreender quando agia insanamente. - a voz tornou-se embargada de emoção – ...Ele casou-se comigo e tivemos um filho, essa experiência toda me fez ver o quanto a vida me reservara de bom e o quanto eu destruíra isso em você. Você que foi tão minha amiga. Bem... fiz coisas terríveis...preciso lhe dizer... fui eu que encomendei o estupro que você sofreu... - Eu já sei de tudo isso, Gizele, alguém que foi sua amiga nos contou... sei também que você deveria ter ido pra cadeia junto com Rony. - Entendo. Antes tivesse ido, Jacque, mas nós dois sabíamos que eu era menor na época. E as autoridades nem ficaram sabendo o que houve com você... você não denunciou nada! - É, devia tê-lo feito realmente! Muitas coisas poderiam ter sido diferentes se tivesse tido coragem e ido à Polícia.0 - Confesso que tive muito medo disso e dei um jeito com amigos importantes de acompanhar todos os processos, lá de Mourão... fiquei sabendo de cada detalhe que houve com Rony! Na época, sabia que se ele pudesse me incriminar de alguma forma, com certeza, teria me envolvido em todos os seus estupros. Ele não tinha escrúpulos nenhum... assim como eu! Mas... Jacquelline... mesmo não tendo pagado com a cadeia, tenha certeza de que não há pior cela que a nossa própria consciência, por isso vim aqui hoje, vim pra suplicar a você que me perdoe, por favor. A noiva olhou o tormento daquela senhora cansada à sua frente e pensou 141 em quem era ela para não perdoar? Quando soube pelo Givan o que ela havia realmente feito, chegou a sentir ódio daquela mulher, mas o que tanta raiva mudaria? Nada, só deixaria seu próprio coração pesado. Tentou um sorriso que surgiu fraco. - Está bem, Gizele. Você tem o meu perdão, siga sua vida em paz. - Obrigada, Jacque ... – percebendo que os olhos verdes suplicavam para que ela saísse, levantou-se e seguiu em direção à porta onde parou para dizer-lhe algo - aqueles adolescentes lá fora?...o menino, ele é seu filho? - Sim, Gizele.- os verdes olhos expressaram o medo que sentia interiormente - meu e do Givan. Então, os olhos azuis, pela primeira vez mostrando lealdade àquela que um dia fora sua amiga, sorriram ao afirmar com convicção: - Claro que sim!... Adeus, Jacque. Sejam felizes! A loira saiu parecendo aliviada, porém, quando chegava aonde os outros se encontravam, não suportou as emoções que passara e só não caiu ao desmaiar, porque foi amparada pela cabeleireira. Vendo o que aconteceu de dentro de um carro parado na frente da casa, um homem correu para socorrer a mulher. - Deixem-me pegá-la, por favor... Gizele, minha querida... preciso deitá-la em algum lugar. Enquanto a esposa se rncompunha deitada no sofá da sala, o marido, Rodrigo, explicou que ela estava muito doente e que há onze anos lutava contra leucemia. Descobriram logo após o nascimento de Cristian, o filho deles. Contou ainda o tormento que a mulher passava desde que engravidara, foi a maternidade que realmente a fizera enxergar a vida de uma forma mais sensata e mais humana, segundo o marido. Apesar de alguns ali terem motivos de sobra para desejarem o mal àquela mulher, em seus corações não havia lugar ao rancor e desejaram ardentemente vêla curada. O marido tranqüilizou-os e, em seguida, levou a esposa para o carro no qual seguiriam para Mourão onde viviam com o filho e com a irmã do rapaz. Quando o automóvel desapareceu de suas vistas, todos, tentando apagar a cena triste de há pouco, voltaram a atenção para a noiva novamente. - Você está linda, filha! Jacquelline, ao olhar para todos que ali estavam, emociona-se ao saber que a hora de tornar-se a esposa de Givan estava chegando. - Parece um sonho pra mim... às vezes tenho até medo de acordar! Jana segura suas mãos: - Mas não é um sonho, é real! Seja feliz, minha amiga. E assim ... quase ao pôr-do-sol, Givan pôde ver seu filho ao lado da bela Juninha, já uma mocinha, entrar em meio às flores carregando o símbolo que mostraria a todos que ele e a mulher que amava eram uma só carne... um só coração... uma só alma. Em seguida, vê Jacquelline mais linda que nunca passando entre as margaridas e em meio às inúmeras borboletas que rodeavam-na pelo jardim. 142 O pôr-do-sol e os convidados emocionados acompanharam todo o juramento de Amor Eterno do casal, o único que estranhou algo na cerimônia foi o padre Jaime que quando esperava ouvir o tradicional SIM, ouviu-o acompanhado entre sorrisos dos noivos algo como... PALAVRA DE ALGUMA COISA! 14º CAPÍTULO Na noite de núpcias, os noivos cumpriram o papel de anfitriões na festa que seguiria até o amanhecer naquele clube da cidade e seguiram - com a caminhonete de Givan enfeitada e trazida à festa pelos padrinhos - para onde dali em diante seria o eterno lar do casal. Em plena madrugada adentram os portões do casarão. Antes de descer do carro, Givan se adianta: - Espere um pouco, Amor. Já fora, dirige-se para o lado do passageiro e leva a esposa em seu colo passeando com ela pelo jardim até o lugar para eles sagrado. Desce-a no chão e, mesmo com a pouca luz de fora a iluminá-los, pôde ver o brilho de seus olhos a fitar-lhe com imenso Amor. Ele segura em uma de suas mãos com suavidade e leva-a ao terceiro andar da Torre. Naquele lugar... o que antes só parecia uma enorme cama, agora realmente transformara-se em uma. Um acolchoado de veludo vinho cobre-a em toda extensão... almofadas de seda espalham-se misturadas a uma garrafa de legítimo Dom Pérignon e bombons de coração... sem saber de onde, Jacquelline ouve sem parar diversas versões da música que tanto ama... velas perfumadas são acesas por ele para eternizar a doce surpresa. Ali... velados somente pelas Estrelas, o menino de olhos azuis ensina à menina de laços de fita a beleza de entregar-se ao Verdadeiro Amor. 15º CAPÍTULO - Adrian, vamos ver o que o jornal está falando de seus pais! - Leia aí pra mim, vó? – pediu enquanto mordia um farto pedaço de pão fresco com manteiga. - Não, estou sem óculos, a tia Jana lê, né, dorminhoca? – a senhora passa o jornal para aquela que acabara de levantar-se e vinha em direção à mesa da cozinha. - Bom-dia !!!.. que sono!!! Hoje saiu o jornal? - Sim... lembra que sai dia sim, dia não?! - Deixe-me ver... hum... Primeira página heim!!! Vamos lá... Jornal de Ilusões... 22 de março... quietos agora que vou começar... 143 Foi comentário em toda região de Moinho de Ilusões a abençoada bodas dos jovens Givan Galle e Jacquelline Vale realizada no último 20 de março no local que ficou conhecido como Academia do Bem. O lugar teve exótica decoração de Margaridas e Orquídeas que juntamente com a celebração do Padre Jaime e seleção musical de clássicos escolhidos pelos noivos e executados pelo coral de crianças carentes regido pela professora Rita Ostrovski deram o tom solene ao enlace. O cortejo foi aberto com suavidade pelos ex-alunos da noiva trazendo cada um uma margarida em suas mãos, as crianças surpreenderam a todos naquela tarde ao chegarem em um ônibus alugado pela Direção da escola Valdemir da Silva que fica em Guarulhos- SP, iniciaram a cerimônia seguidos pelos pajens Júnior e Júlio que entraram acompanhados cada um com uma ex-aluna da noiva e, por fim, acompanhando o noivo e sua mãe, foram apreciados os padrinhos elegantemente vestidos, destacando-se a beleza da Sra. Juliana que acompanhou Sr. Phillip, o pai do noivo; de Bárbara com seus olhos castanhos iluminados ao lado do marido que estava deslumbrante e a elegância da mãe do noivo, Sra. Adelle, mulher de refinada elegância e brilho próprio. O emocionante som dos violinos anunciou a entrada da noiva. Puderam ver o jovem Adrian, elegantemente vestido ao lado da bela Júnia, encaminhar-se ao som da música Love is a many Splendored Thing trazendo logo atrás o padrinho, Dr. Juliano, que conduzia ao altar a noiva Jacquelline. Esta trajava um simples e belo vestido em estilo campestre, estava suave e bela, com margaridas em suas mãos e envolta por uma infinidade de borboletas que coloriam o local. Destacamos a homenagem que os alunos da noiva fizeram cantando belamente a música Because you Love Me enquanto o casal recebia os cumprimentos, inesperadamente foram acompanhados pelo coral oficial da celebração. Após a cerimônia religiosa, todos os convidados foram recepcionados no mais elegante clube da cidade, o qual fora ricamente decorado com bom gosto discreto pelas mãos dos pequenos artistas que freqüentam as aulas de Artes na Academia. A animação da bem servida recepção ficou por conta do DJ Caetano que deu o toque de saudosismo à recepção com Boleros e músicas dos Anos 60. Os recém-casados, na manhã seguinte ao casamento, seguiram ao paraíso de Fernando de Noronha em luade-mel para o marido cumprir uma promessa feita à esposa quando ainda eram adolescentes e de lá retornarão a Moinho de Ilusões onde, juntos, continuarão os atendimentos à população carente. E, aproveitando esta coluna, atentem porque já estão abertas as inscrições para as aulas de Língua Portuguesa e Literatura, para isso os Acadêmicos do Bem contam com mais duas novas associadas à grande causa. Cobertura Vivaine Verdine. FIM. 144 Voz do Silêncio Volta pra mim, meu Amor! Carrega-me em teus braços mais uma vez por aquela estrada! Cavalga novamente comigo em lua cheia até alcançarmos nossa santa morada! Queria tanto estar naquele lugar! Nosso Lugar! Lá onde tão amada fui por ti! Lá onde nada te afastava de mim! Carrega-me em teus braços Mais uma vez naqueles verdes campos... Quero em nossa casa ficar que é só lá que minh’Alma sempre quis estar, porque é somente lá que sei que tu é que vais chegar. Teu corpo ainda de nada sabe, no entanto tua Alma permite que no silêncio das palavras nosso Amor se proclame! Neste silenciar sagrado, escuto gritar teu coração e todas as noites me encontro, sem dúvida nenhuma, com nossa eterna paixão! Mas o teu corpo! Totalmente cego ele está! Meu destino nesta vida foi nascer para sempre sonhar ao teu lado ficar! O teu corpo vendado? Sim, eu já o vi! Já o tive em meus braços mas teus lábios não pude beijar! 145 Já mirei tua face Mas não foi pra mim que se encaminhou teu olhar! E neste pôr-do-sol das horas, esta canção despertou-me lágrimas de aflição. Aflição de tanto te amar ouvindo e sabendo que nada sou para ti além de um inspirado cantar! Mesmo assim, olhando as Estrelas sou imensamente Feliz! Feliz simplesmente por Tua presença existir, que minha Vida... Minh’Alma... e até mesmo minhas lágrimas... sentido só têm se ouvir meu nome ser pronunciado por Ti! *Poema FUTEBOL de Matheus Gallego Poema Voz do Silêncio de Della Coelho Foto da Capa : Vivaine Henriques Contato autora: [email protected] 146