BARRACAS E SABERES: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DATRANSMISSÃO
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DO SABER NA FEIRA DO VER-O-PESO
SUELLEN NASCIMENTO DOS SANTOS/ UFPA
WILMA MARQUES LEITÃO/UFPA
RESUMO
Este trabalho tem o objetivo de descrever e analisar a transmissão de barracas e
saberes familiares na feira do Ver - o- Peso. Durante esta primeira pesquisa, foram
encontradas duas formas dessas transições, sendo apresentada aqui somente a
transmissão familiar, que é o modo oficial e mais tradicional, a barraca então permanece
em uma mesma família passando de uma geração para outra. É importante destacar a
transição familiar pode começar na infância e que, assim, mais tarde, o filho (a) recebe o
saber antes de assumir a barraca. Como o setor é predominantemente masculino
normalmente o pai é o principal responsável na transmissão deste saber ao filho (a),
entretanto com uma pequena presença feminina também se torna possível a passagem
da mãe para o filho (a).
PALAVRAS-CHAVES: Ver-o-Peso, feiras e mercados, transmissão de saberes.
1- VER-O-PESO E A COMERCIALIZAÇÃO DE FARINHA
O Complexo Ver-o-Peso surgiu no século XVII, como entreposto comercial,
onde se costumava “haver o peso” ou “ver o peso”. Hoje ainda é um dos principais
postos de abastecimento de Belém, está localizado no centro da cidade, às proximidades
da baía do Guajará – rio que banha a cidade – e também na principal via de acesso para
o centro comercial da cidade. Possui uma importância não apenas econômica, mas
também cultural, um espaço capaz de despertar amores em alguns, gratidão para quem
ganha a vida na feira e repudio para os que não participam do cotidiano da feira. Muitas
vezes evocado como cartão postal da cidade, o Complexo está sempre presente na mídia
local, seja em datas comemorativas da cidade como o Aniversário de Belém, o próprio
aniversário do Ver-o-Peso e o Círio de Nazaré, ou quando se fala de qualidade ou
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Trabalho apresentado na 28ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os
dias 02 e 05 de julho de 2012, em São Paulo, SP, Brasil.
1
aumento de preços de produto. Atualmente tem sido cenário presente na mídia nacional,
em novelas exibidas em horário nobre.
O complexo é composto pela feira do Açaí, feira do Ver-o-Peso, Mercado de
Carne e Mercado de Peixe, praças do relógio e a do pescador. Segundo Lima (2008) o
Ver-o-Peso é um espaço social e geograficamente demarcado por seus trabalhadores e
transeuntes, o que se compreende como a feira abrange desde a Pedra (local onde
desembarca e se comercializa os mais diversos tipos de pescado) até o setor de
industrializados. Em 2001 passou por uma reforma, e a feira do Ver-o-Peso ganhou uma
divisão por setores, que são artesanato, bares, camarão seco, ervas2, farinha, feira do
Açaí, frutas, hortifrutigranjeiro, importados, industrializados, lanches, maniva3,
Mercado de carne, Mercado de peixe, mercearia, Pedra do peixe, peixe salgado, polpa
de frutas e refeição.
O setor específico para farinhas não existia antes da reforma de 2001
mencionada anteriormente, assim não havia apenas um espaço em comum para
comercialização e vários foram os pontos de venda do produto, como próximo ao rio ou
na Praça do Pescador. A mudança trouxe alguns impactos, por exemplo, se o senhor X
que vendia produtos hoje considerados de mercearia, tal como café, arroz, milho, etc.,
também podia vender farinha. Com a Reforma da feira houve uma separação na venda
de produtos, e assim as pessoas que vendiam tais mercadorias precisaram escolher entre
um ou outro, pois o decreto 39.326/2001 (regulamentador do Ver-o-Peso) prevê apenas
uma barraca por pessoa da família. Deste modo, alguns ficaram somente com a farinha,
outros no setor hoje chamado de mercearia e alguns dividiram entre familiares, ficando
cada qual num setor.
Este trabalho está sendo desenvolvido no setor de farinha, pela importância do
alimento possui dentro da sociedade belemense. Sobre a farinha no Ver-o-Peso
observou-se o seguinte aspecto:
“Nesse mercado, assim como nas demais feiras de Belém, a farinha de
mandioca ocupa lugar de destaque. Longas filas de barracas expõem, em
sacos abertos, os mais variados tipos de farinha, e os feirantes, de modo
geral, conhecem as características de cada uma, assim como seus modos de
2
“No setor de ervas medicinais encontramos uma das mais fortes tradições da população de Belém: o uso
de ervas, óleos, raízes, sementes e partes animais como remédios, amuletos e sortilégios. Com múltiplos
usos , os feirantes oferecem remédios para os mais diversos tipos de doenças, banhos para problemas
financeiros e espirituais e amuletos para dar sorte.” (CAMPELO, 2010, p. 52).
3
A maniva que dá nome ao setor, é o caule da mandioca (manihot esculenta). Alimento de origem
indígena, também é utilizada na preparação da maniçoba (prato típico da região, equiparado a feijoada,
seus ingredientes são carne de porco, carne bovina e defumados).
2
fabricação, uma vez que muitos deles são ou já foram também produtores.”
(NOGEIRA & MENDONÇA, 2004, p. 39).
Os trabalhadores do setor da farinha estão dispostos em 48 barracas que ficam
próximas ao setor de peixe seco e tucupi, do ponto de vista da estratégia de vendas o
setor está bem localizado. Parte dos trabalhadores são conhecedores das variedades de
farinha, mas apenas um entrevistado confirmou ser produtor, compreendendo todas as
etapas da produção à comercialização, os outros 19 entrevistados apenas demonstraram
ter noção do processo, sendo que os mais idosos afirmaram ter alguma experiência do
tempo em que trabalhavam na roça, alguns no tempo de criança. Assim a maioria dos
trabalhadores são apenas comerciantes de farinha.
A farinha é um produto feito da mandioca, ela faz parte da cultura paraense, está
presente na vida diária de boa parte da população paraense, seja na capital ou no
interior. Ao realizarem a pesquisa sobre a farinha no Mercado do Ver-o-Peso para o
inventário do IPHAN Mendonça & Nogueira puderam perceber esta importância do
alimento na região amazônica.
“A farinha (...) embora produzida e consumida no país inteiro, tem na região
amazônica a maior diversidade de espécies de sua matéria-prima, a
mandioca, bem como os mais variados tipos de farinha, os mais diversos usos
culinários, o maior aproveitamento de todos os elementos que fazem parte do
seu processo de produção, e é também nessa região que se apresenta como
relevante referencia cultural.” (NOGUEIRA & MENDONÇA, 2004, p. 37).
Na cultura paraense encontramos a influencia da farinha ou da própria mandioca
em canções populares como o curimbó, ou mesmo em brincadeiras com autodefinições
do paraense como “papa chibé4”, o alimento está sempre muito relacionado a cultura
paraense. Importante destacar que como alimento a imagem da farinha está quase
sempre associada ao açaí, ao peixe, camarão, etc. Há inclusive eventos que ocorrem nos
municípios do interior do Pará, como a Farinhada, que ocorre na cidade de Acará, é
uma competição onde os produtores escolhem o que consideram a “melhor” farinha do
município.
Mas a importância da farinha vai além do fator cultural, ela também tem grande
força econômica, há cidades no interior do estado, ribeirinhas ou não, onde a principal
fonte de renda é a farinha de mandioca, assumindo em algumas comunidades dois
papeis o de subsistência e de mercado. Foi o que Corrêa (2008) percebeu nas
4
Chibé: Pirão de água com farinha de mandioca.
3
Comunidades do S, São Bento e Trindade, que fazem parte do município de São
Domingos do Capim, ao escrever sobre saberes e tradições nas comunidades ribeirinhas.
“Nessas comunidades, as relações sociais de produção centram-se,
predominantemente na agricultura, no cultivo da mandioca, sendo a produção
da farinha a atividade propulsora da economia, geradora de renda delas.”
(CORRÊA, 2008, p. 34).
Esta importância econômica começa com o cultivo da mandioca, pois este é um
produto que não tem época para plantio ela pode ser cultivada o ano todo, isso foi o que
Corrêa (2008) observou através dos diálogos em sua pesquisa, que a facilidade para
plantar a mandioca incentivou este produto torne-se o principal entre eles, pois enquanto
o milho ou o arroz precisam ser plantados em determinadas épocas a mandioca não.
Mesmo tendo a necessidade depois da colheita de deixar o solo descansar por um
período de 5 anos, isso não impede o uso de outros lotes da terra.
Pontes (2000) também coloca a importância dessa produção de farinha para a
economia dos municípios ao tratar da farinha de tapioca no distrito de Americano, onde
a farinha de tapioca é o principal produto a ser comercializado. A farinha de tapioca
também é um derivado da mandioca, feita a partir da fécula ou goma de mandioca. Ela
também constatou no distrito de Americano a importância da farinha de tapioca para a
construção da identidade do local, pois os moradores na busca de desassociar sua
imagem da penitenciária que lá existe, constroem a ideia do distrito como a melhor
produção de farinha de tapioca, assim há canções e a dança da farinha de tapioca.
O município de Acará e o distrito de Americano são algumas das cidades que
tem sua economia principal voltada para a produção de farinha. Na feira o produto
chega também de outras localidades, através do rio das ilhas próximas a região, outra
parte vem pela estrada em determinados dia da semana em sacas de 60 Kg que são
entregues pelos fornecedores diretamente ao cliente. Esse fornecedor é chamado no
espaço da feira de intermediário, pois não se trata do produtor, mas de alguém que
comprou a farinha do produtor e está vendendo está mesma farinha ao feirante do Vero-Peso. Pelo rio também há esse intermediário, pelo qual é chamado de atravessador,
este não vem até ao setor deixar mercadorias, eles chegam por volta das 4 horas da
manhã na Orla da feira e lá ficam os feirantes esperando para comprar, algumas vezes a
saca da farinha é vendida para uma terceira pessoa antes de chegar de fato às mãos do
feirante.
2-BARRACAS E SABERES: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE
TRANSMISSÃO DO SABER NA FEIRA DO VER-O-PESO
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2.1- O PROCESSO DE TRANSMISSÃO DAS BARRACAS
Este trabalho dá continuidade a uma pesquisa anterior intitulada As diversas
formas de transição das barracas na feira do Ver-o-Peso (SANTOS, 2011), durante
esta primeira fase pode-se perceber que havia duas formas principais de conseguir uma
barraca na feira e de transmiti-la, a primeira a forma familiar e a segunda através das
relações de amizade. Para compreender este processo é necessário chamar a atenção
para a importância da barraca como patrimônio para o feirante do Ver-o-Peso, quando
Lima (2008) procurou observar entre os trabalhadores do Complexo Ver-o-Peso suas
percepções a respeito do patrimônio, a autora percebeu que entre estes, mesmo que de
modo não consciente, os objetos transmitidos de geração para geração, a exemplo disso
estão as barracas que na grande maioria ainda vem sendo transmitida de pai para filho.
“constituem, portanto, o patrimônio cultural sessa coletividade, uma vez que
se mostraram presentes na feira e caros a muitos dos entrevistados, quais
sejam: o território com suas temporalidades; a tradição familiar na
transmissão da barraca, do oficio e dos saberes; o sentido de independência e
liberdade; o Ver-o-Peso como casa, como uma família permeado pelas redes
de relações sociais e sociabilidades; e a paisagem...” (LIMA, 2008. p. 146).
Assim as barracas aparecem como um patrimônio, “objeto de família”, que é
passada de uma geração para outra, indo com esta transmissão um conjunto de práticas
e saberes que podem se manter ou modificar com o tempo, acrescento aqui como um
dos aspectos da feira que guarda uma memória do espaço e da vida dos feirantes. Este
“objeto de família” também pode ser passado para alguém que não é necessariamente
da família, como o amigo, numa transmissão por preferencias que envolve laços de
amizades e relações econômicas, mas esta é uma situação que ocorre com menor
frequência. Esse amigo assume a barraca na ausência do herdeiro da família.
“É aqui é por exemplo assim, como se fosse uma pequena hierarquia né? Vai
passando de pai pra filho ou pra um mais chegado, por exemplo um
funcionário há muito tempo mesmo.” (Trecho entrevista realizada em
Maio/2011)
A primeira forma que abordaremos aqui é a transmissão familiar, onde o pai
pode deixar a barraca seja ao cônjuge ou ao filho (a).
A transição familiar é o principal e mais tradicional modo de se conseguir
uma barraca na feira. Está presente nos discursos oficiais do poder público,
entre os feirantes e frequentadores do espaço. Este é o primeiro aspecto que
aparece quando se visita e conversa-se com alguém do Ver-o-Peso. Deste
modo a família tem um papel fundamental e determinante na transição das
barracas. (SANTOS, 2011.p. 29).
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Este tipo de transição é o modo oficial, pois está previsto no decreto
39.326/2001 regulamentador da feira.
Art. 46. Falecendo o permissionário ou resultando inválido, poderá o
Secretário Municipal de Economia, ressalvados os interesses da
administração, e ouvido o condomínio participativo deferir a permissão de
uso ao seu cônjuge.
Parágrafo único. Na desistência do cônjuge poderá da mesma forma ser
atribuída a permissão a outrem obedecendo à seguinte ordem de preferência e
desde que se comprove, pelo interessado, estar capacitado para o exercício do
comércio.
I – Aos filhos maiores, ascendentes, a outros descendentes maiores ou
colaterais do permissionário comprovada expressamente a desistência dos
que também concorram na mesma classe;
II – a sua companheira, nos termos da legislação em vigor;
Mesmo o cônjuge sendo o primeiro na linha de preferencias no decreto, são
normalmente os filhos que substituem o pai seja a partir de seu falecimento ou na sua
aposentadoria.
A família assume um papel importante não só na transmissão, mas na inserção
do individuo na feira e no saber. Deste modo o trabalho familiar no Ver-o-Peso também
já foi constatado por outros autores, como Campelo (2002), Lima (2008) e Ferreira
(2010), é impossível a partir de uma aproximação da feira não perceber a existência de
parentes trabalhando juntos ou separados no mesmo setor ou em setores diferentes.
Assim a família é ainda o principal meio pelo qual se chega e se estabelece no Ver-oPeso.
“É meu caso aqui (...) é que o papai, o papai tinha cinquenta anos de Ver-oPeso... se aposentou, se aposentou daqui aí faleceu já vai fazer no caso 5
anos, 5 anos agora, aí eu assumi... assumi, mas eu já trabalhava com ele
entendeu? (Trecho da entrevista com o senhor do setor de farinha, em
Abril/2011)
CAMPELO (2002) ao realizar estudos sobre o Ver-o-Peso antes da reforma de
2001, para elaboração de um dossiê organizado pela FUMBEL (Fundação Cultural de
Belém) nos anos de 1999 a 2000 que na época tinha o objetivo de transformar o Ver-oPeso em Patrimônio da Humanidade, também destaca a importância da família, que
ainda tem no pai o seu maior papel, entretanto acrescenta outros atores importantes
como patrão e os amigos.
“Há pessoas que vieram para a feira por intermédio de amigos, parentes ou
patrão já estabelecidos no Ver-o-Peso. Todavia, quase todos aprenderam suas
atividades com algum parente, geralmente o pai a quem ajudavam desde
pequenos...” (CAMPELO, 2002. p. 160)
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Outro estudo elaborado por Ferreira (2010) aponta para a questão do gênero nas
relações de trabalho estabelecidas na feira, onde setores como o das ervas que a maioria
das vendedoras são do gênero feminino é importante para a continuidade do trabalho da
família a presença das filhas. Em setores onde há presença apenas de homens, o
descendente precisa ser do sexo masculino para assumir o trabalho, isto baseia-se não
nas relações de força como relatam os trabalhadores, mas na própria caracterização do
espaço e nas relações de sociabilidade, como as “brincadeiras” que se diferenciam entre
homens e mulheres.
No setor de farinha há uma predominância masculina, entretanto já existem
mulheres presentes no espaço, e a passagem da barraca e do saber no setor não precisa
necessariamente ser para descendentes do mesmo gênero que o antecessor, pode ocorrer
na forma pai/filho ou pai/filha e até mesmo esposo/esposa e recentemente encontrei a
forma mãe/filha, mas como a maioria dos trabalhadores do setor são homens a principal
tem ocorrido na forma pai/filho.
A tabela a seguir mostra os responsáveis que participam deste processo de
transmissão.
Tabela 1: Mostra principal responsável pela transmissão da barraca
Responsável
Quantidade
%
Pai
8
40
Esposo
1
5
Amigo
4
20
Pai e amigo
1
5
Não tem
3
15
Outra situação
3
15
Total
20
100
Fonte: SANTOS, 2011, p. 36.
Assim temos principalmente o pai com 40% e em segundo os amigos que
aparecem com 20%. A figura do patrão não foi relatada nestas entrevistas, por isso não
aparece no quadro. A mãe como transmissora da barraca também não aparece no quadro
porque até o primeiro momento das entrevistas a mãe estava mais afastada da feira e a
filha também acompanhava o marido que possui uma barraca no setor de mercearia.
Somente recentemente a encontrei acompanhando a mãe na farinha.
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Uma das situações relatadas é um senhor que fornecia farinha de tapioca no setor
e um dos seus clientes ofereceu a barraca, ele aceitou e hoje vende e produz farinha de
tapioca. Uma outra situação é de um rapaz A que ajudava o pai na feira e em troca
recebia o pagamento em diárias, o rapaz A não tinha sua própria barraca, e como havia
um senhor idoso B que pretendia se desfazer de duas de suas quatro barracas, passou as
barracas ao rapaz A, que já era conhecido seu na feira.
Quando partimos para a inserção no trabalho no Ver-o-Peso, temos:
Tabela 2: Responsável pela inserção do permissionário na feira
Responsável
Pai
Marido
Amigos
Irmão
Tio
Total
Fonte: SANTOS, 2011, p. 37.
Quantidade
10
4
2
2
2
20
%
50
20
10
10
10
100
Quando perguntamos quem o (a) trouxe para feira a figura do pai ainda
permanece como a mais importante com 50%, em seguida vem a categoria marido
(engloba somente a relação esposo/esposa e não os filhos), os amigos foram
responsáveis por 10%.
A transgressão no processo de transmissão em relação ao que é regulamentado
por lei parece muito com algumas situações encontrada no campesinato, como Moura
(1978), que em sua obra trata da questão da herança da terra entre os trabalhadores
rurais de São João da Cristina em Minas Gerais, se aproximando de certa forma das
transições das barracas no Ver-o-Peso, em termos de uma continuidade do trabalho
familiar, que em São João da Cristina o pai (responsável pelas terras) divide sua
propriedade legal em pequenos lotes como forma de manutenção da terra na família e de
continuação de trabalho, neste caso de uma continuidade por parte do filho. A questão
colocada neste livro é que por lei o pai tem que dividir igualmente entre os filhos, mas
para manter a integridade das terras eles acabam fazendo outros arranjos,
reinterpretando a lei.
No Ver-o-Peso a preocupação é com a barraca como patrimônio da família, em
determinadas situações há famílias quase que completas trabalhando com a farinha,
onde o pai não precisou ausentar-se para que os filhos assumissem o trabalho, mesmo
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que o decreto só preveja a herança em caso de morte ou após a aposentadoria, nesta
situação o pai assim como em São João da Cristina mantem-se como a figura principal a
reger o negócio da família. Deste modo Moura mostra as estratégias encontradas no
campo para a reprodução da própria classe, estratégias que encontramos no Ver-o-Peso
não de modo igual, mas de formas que se aproximam.
Outro aspecto na transmissão está na passagem para os amigos. Esta passagem
está relacionada a vendas de barracas na feira, que acontece em menor proporção que a
familiar, mas que está presente no cotidiano do Ver-o-Peso e que já foi constatado em
trabalhos anteriores como LIMA (2008) que considerou esta forma de “forma prática”.
A venda de barracas não é prevista no decreto regulamentador do Ver-o-Peso, não há
uma legislação que trate claramente sobre isso. Tal como não há nada que impeça
diretamente que terceiros assumam a barraca, a partir do seguinte situação:
Art. 46. Falecendo o permissionário ou resultando inválido, poderá o
SecretárioMunicipal de Economia, ressalvados os interesses da
administração, e ouvido o condomínio participativo deferir a permissão de
uso ao seu cônjuge.
Parágrafo único. Na desistência do cônjuge poderá da mesma forma ser
atribuída a permissão a outrem obedecendo à seguinte ordem de preferência e
desde que se comprove, pelo interessado, estar capacitado para o exercício do
comércio.
III – diretamente a terceiros interessados após desistência expressa de todos
os
herdeiros.
.
Como podemos observar um terceiro pode receber a barraca desde que todos os
herdeiros desistam e atendam as seguintes especificações:
Art. 20. Para habilitar-se ao exercício de feirante é necessário
opreenchimento de formulário com os seguintes dados: Nome, endereço,
número da Carteira de Identidade, número do CIC, Sexo, Idade, Ocupação
Principal, Produtos que deseja comercializar, Carteira de Saúde, Carteira de
Manipulador de Alimentos, 02 (duas) fotos 3x 4, instruindo requerimento ao
Secretário Municipal de Economia.
Art. 27. Verificadas vagas de feirantes, a Secretaria Municipal de Economia –
SECON publicará edital, com o prazo de 15 (quinze) dias, para convocação
de interessados. As vagas serão preenchidas com observância dos seguintes
critérios técnicos sucessivamente:
I – por feirante, que já estejam operando na mesma feira e desejem obter
outra permissão;
II – por feirantes que desejem alterar o seu ramo de comércio;
III – por feirantes que estejam operando em outras feiras e delas desejem ser
transferidos, respeitando o inicio da atividade, onde o feirante mais antigo
terá a preferência do ramo do comércio;
IV – por aqueles que, pela primeira vez, requererem a permissão de uso,
observada a ordem cronológica de entrada dos requerimentos.
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Parágrafo único. Se, após a observância dos critérios técnicos estabelecidos
neste artigo, ainda sobrarem vagas, serão expedidos novos editais. (Decreto
Municipal Nº 26579/1994).
Podemos considerar também a vontade dos pais de que os filhos não continuem
o trabalho na feira.
Tabela 3: Desejo dos pais em relação a continuidade dos filhos no setor de farinha
Desejo dos pais
Quantidade
%
Não
8
40
Sim
7
35
Não pensou/Não sabe
2
10
Não respondeu
2
10
Não tem filhos
1
5
Total
20
100
Fonte: SANTOS, 2011, p. 39.
Estes 40% que responderam não, em maior parte está continuando o trabalho da
família, tem filhos ainda crianças e adolescentes e preferem não vê-los trabalhar na
feira, justificam estar trabalhando para que o futuro dos filhos seja melhor, por
considerarem um trabalho pesado. Aqueles que preferem os filhos dando continuidade
ao trabalho da família demonstram a vontade de manter o patrimônio que foi construído
para eles. Com a análise dos questionários algumas da justificativa para a escolha do
filho é mais voltada para o filho desempregado ou que não tem um estudo.
Quando olhamos para a falta de desejo dos pais para que os filhos continuem na
feira, temos também uma visão do que eles próprios (trabalhadores) pensam sobre seu
trabalho.
“Ninguém quer vim pra cá, todo mundo só vem pra cá, vem por necessidade,
ninguém vem folgado, todo mundo que vem pra cá vem sem nada (...) o Vero-Peso é assim só pra pessoas necessitadas esta é a realidade.” (trecho de
entrevista realizada com senhor de mercearia realizada em Maio/2011).
A fala deste senhor de mercearia mostra um pouco das respostas que outros
entrevistados. Essa visão de necessidade e até mesmo sacrifício, hoje considerando ter
sustentado ou mesmo quem ainda sustenta o filho não deseja estes no espaço.
O Decreto 26.579/94 é o regulamentador de todas as feiras da cidade de Belém,
e exemplifica melhor como funciona a burocracia para trabalhar na feira. Chamando a
atenção aqui para o item IV, o seguimento de uma ordem cronológica de entrada de
10
requerimentos, observamos que na feira funciona mais a lógica do feirante, que já
escolhe o seu sucessor.
Deste modo, as amizades são importantes para conseguir uma barraca na feira e
para se manter no espaço, em situações em que não há parentes, esses são os mais
próximos.
“Eu tenho um amigo meu que conversou comigo, Y tu não quer ficar nessa
barraquinha? Eu fiquei, era uma caixinha assim no chão, eu disse quero.”
(Trecho de entrevista realizada em Abril/2011).
O termo amigo também pode variar em seu significado, pode ser um vizinho de
rua; vizinho de feira, ou seja, que trabalha próximo e por alguma razão deseja sair da
feira e não tem para quem deixar este negocia com alguém que está próximo a ele;
apenas um conhecido não tão próximo, e um amigo próximo propriamente dito. É
possível negociar uma barraca também através de parentes, estes intermediam a
negociação com o permissionário (interessado em vender).
Como o regulamento que não atende todas as necessidades dos feirantes, estes
buscam estratégias para a transferência da barraca quando não há como descendentes os
parentes prescritos no decreto 39.326, e esses trabalhadores precisam vender a barraca,
transformam amigos em parentes diante da SECON (Secretaria Municipal de
economia), deste modo ocorre uma transferência por preferencias. Assim é estabelecido
um código entre os amigos.
“Os códigos sociais existem independentes de querermos utilizá-los ou não,o
Ver-o-Peso como um todo é complexo e bem delimitado em sua estrutura
social, criando suas próprias regras para permanência dos atores sociais
envolvidos neste espaço.” (FERREIRA, 2010, p. 164).
A própria terminologia passagem apresentada para definir a venda da barraca, é
uma forma de estratégia, em um primeiro momento e sem contextualização não quer
dizer nada. Outra estratégia é transformar este amigo em parente, geralmente em primo.
E por fim e ficando na barraca até conseguir que pelos “direitos adquiridos” ela passe
para o seu nome.
“Tu me conhece já mais de vários meses (...) é como se você viesse hoje aí eu
falo assim, digo Suellen dá pra ti ficar aqui pra mim? (...) aí tu fica, tal dia tu
fica o dia inteiro, aí tu vai ficando e eu vou chamando. (...) aí chega um dia
eu digo Suellen tu não quer fazer negócio comigo? Aí chega uma pessoa e
pergunta cadê o Y? ele não tá saiu (...) é aí que começa o negocio.” (Trecho
de entrevista realizada em Abril/2011).
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Neste primeiro aspecto, podemos perceber que não há a intervenção da SECON,
a pessoa que negocia não vai até o polo da secretaria na feira avisar a desistência, ela
apenas se retira da feira, com o tempo a própria secretaria passa a barraca para quem
está trabalhando no local. Mas em conversas informais fui informada desta transmissão
também por outro aspecto:
Deste modo o jogo da passagem de barracas a amigos ocorre com uma
negociação direta entre os interessados na própria feira, onde o
permissionário (vendedor) vai até o posto da SECON comunicar que deseja
parar de trabalhar no Ver-o-Peso e assim ele preenche um termo de
desistência ao mesmo tempo que indica a pessoa que esta interessada a ficar
no seu lugar, iniciando-se o processo de transferência da barraca e da
burocracia documental e de verificação por parte da secretaria que administra
a feira. (SANTOS, 2011, p. 43).
Essa transmissão então ocorre por “debaixo dos panos”, com uma aparente
obediência as normas da feira.
2.2. TRANSMISSÃO DE SABERES
Quando se deixa uma barraca ao filho (a) ou a um amigo se deixa bem mais do
que um patrimônio material, com ela se transmite deveres e direitos e um conjunto de
práticas e saberes que vão desde a forma de tratamento aos fregueses, com as técnicas
que o pai ou mãe costumava usar para atrai-los, como agradá-lo e melhor atende-lo,
conhecer com quem se comercializa, quem são os fornecedores, os clientes e no caso da farinha,
quais os tipos do produto.
Este aprendizado pode começar ainda na infância, com
pequenas tarefas, e que serve de preparação para o futuro dono da barraca.
“Eu e as minhas filhas tudinho, eu ensino pra eles, olha é do freguês que nós
vivemos, não faça nada que o freguês não gosta, se quer uma sacolinha dai a
mais, se quer mais um pouquinho a gente bota...” (Trecho da entrevista com
senhora do setor de farinha, em maio de 2011).
A partir de algumas conversas com os feirantes percebemos como os pais
procuram ensinar aos filhos o modo de tratar bem o cliente, considerando este bom
atendimento a principal tática para atrair e cativa-lo. Levando em consideração o
próprio termo “freguês” empregado pelos feirantes como forma de nomear o cliente,
podemos considerar também um ensinamento familiar, onde os antecessores já os
nomeavam assim e foram passando aos filhos.
“O papai sempre agrada o freguês com meio litro de farinha de tapioca, meio
litro de... farinha d’água o que dá chama assim um pouquinho a mais fora o
que a pessoa tá pesando, então põe um pouquinho a mais pra agradar o
freguês” (Trecho de entrevista com senhor no setor de farinha, em maio de
2011).
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Evidentemente atender bem é só uma das formas de saber do trabalho, mas há
outros componentes importantes como a manipulação do produto, principalmente se
levarmos em consideração as exigências do mercado atualmente, com controle de
qualidade do produto pondo em cheque práticas culturais como o costume de se provar
a farinha colocando as mãos nas sacas que antigamente podiam ficar abertas sem
proteção pela feira, hoje alguma barracas não expõe a farinha colocando plásticos para
evitar que abelhas pousem na farinha, assim como ao invés de tocar com a mão, o (a)
feirante pegam o litro e coloca na mão do cliente. Saber conservar o produto também é
importante, já que a farinha só estraga se esfriar, é preciso está renovando o estoque, ter
cuidado na hora de guardar ao fechar a barraca, neste caso não só com a farinha, mas
com a própria goma ou fécula de mandioca que necessita ser molhada e depois seca
para poder peneirar. Por fim a negociação feita com fornecedores e fregueses, que em
casos de herança acabam passando do pai para filho (a).
Entre amigos o saber não é necessariamente passado do ascendente ao sucessor
como na família, não é necessariamente quem passa a barraca que transmite o
conhecimento, esse precisa ser apreendido já na prática do trabalho na vida adulta, na
família há como uma preparação na infância, entre amigos se conta com a ajuda de
companheiros do setor, assim a aceitação por parte destes é imprescindível para quem
deseja ter sucesso no local, as amizades que serão construídas ali ajudam no
aprendizado. Durante as entrevistas formais e informais nenhum dos entrevistados que
comprou uma barraca tinha acesso antes ao Ver-o-Peso, eles já tinham certa circulação
no espaço, pode ser ajudando um outro amigo, um conhecia o produto devido a
produção, dois já tinham alguns parentes no local, uma senhora já havia trabalhado em
outra feira.
3. CONCLUSÃO
O Ver-o-Peso quando relatado nas entrevistas é lembrado por muito dos
feirantes como uma “universidade” ou uma “escola” que traz consigo ensinamentos de
sobrevivência, para se estabelecer não basta somente a comercialização, é preciso saber
quem são as pessoas que estão ali, existem códigos estabelecidos que muitas vezes não
precisam de palavras para que haja entre eles comunicação e que somente os que estão
acostumados ao cotidiano do espaço conhecem. Aqui foram tratados principalmente o
saber do trabalho familiar, mas existem outras formas de aprender e de chegar ao Ver-o13
Peso e uma destas está ligada as amizades. Depois da família os amigos são os
principais na transmissão do saber, assim como facilitadores da entrada de novos
trabalhadores na feira.
A diferença está no tempo em que se leva para aprender até que se possa chegar
a ser dono da barraca. Com a família é um processo mais lento, começa como uma
brincadeira na infância, o filho vai ajuda o pai, faz pequenas atividades, compra uma
sacola aqui, o lanche na barraca do amigo do pai, um cafezinho no seu José e assim vai.
Já entre os amigos este processo de aprendizagem precisa ser mais rápido, e para
apreender necessita-se da ajuda dos companheiros de trabalho e aí entra outro ponto que
é antes de tudo estabelece-se no espaço e ser aceito pelo grupo. Não basta apenas chegar
e comercializar, pois senão há um conhecimento do produto e não há a inserção inseri
no grupo dificilmente sobrevive no lugar.
A pesquisa ainda está sendo realizada, mas já é possível ter uma visão parcial
dos dados aqui apresentados e perceber que atualmente dificilmente encontramos
crianças e adolescentes no local, as que encontramos geralmente vão visitar o pai ou
mãe e os avós, não estão presentes todo dia e dificilmente fazem alguma atividade, ao
contrário de como era antes. Um dos fatores relatados por um entrevistado para esta
quase ausência das crianças está na proibição do trabalho infantil através da lei 8.069/90
conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Entendendo que tanto a transição familiar quanto a passagem entre amigos,
mesmo parecendo desejos individuais fazem parte de uma necessidade de reprodução de
classe, a classe de feirantes do Ver-o-Peso e que de certo modo os leva a resistir por
tanto tempo no centro da cidade.
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