BARRACAS E SABERES: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DATRANSMISSÃO 1 DO SABER NA FEIRA DO VER-O-PESO SUELLEN NASCIMENTO DOS SANTOS/ UFPA WILMA MARQUES LEITÃO/UFPA RESUMO Este trabalho tem o objetivo de descrever e analisar a transmissão de barracas e saberes familiares na feira do Ver - o- Peso. Durante esta primeira pesquisa, foram encontradas duas formas dessas transições, sendo apresentada aqui somente a transmissão familiar, que é o modo oficial e mais tradicional, a barraca então permanece em uma mesma família passando de uma geração para outra. É importante destacar a transição familiar pode começar na infância e que, assim, mais tarde, o filho (a) recebe o saber antes de assumir a barraca. Como o setor é predominantemente masculino normalmente o pai é o principal responsável na transmissão deste saber ao filho (a), entretanto com uma pequena presença feminina também se torna possível a passagem da mãe para o filho (a). PALAVRAS-CHAVES: Ver-o-Peso, feiras e mercados, transmissão de saberes. 1- VER-O-PESO E A COMERCIALIZAÇÃO DE FARINHA O Complexo Ver-o-Peso surgiu no século XVII, como entreposto comercial, onde se costumava “haver o peso” ou “ver o peso”. Hoje ainda é um dos principais postos de abastecimento de Belém, está localizado no centro da cidade, às proximidades da baía do Guajará – rio que banha a cidade – e também na principal via de acesso para o centro comercial da cidade. Possui uma importância não apenas econômica, mas também cultural, um espaço capaz de despertar amores em alguns, gratidão para quem ganha a vida na feira e repudio para os que não participam do cotidiano da feira. Muitas vezes evocado como cartão postal da cidade, o Complexo está sempre presente na mídia local, seja em datas comemorativas da cidade como o Aniversário de Belém, o próprio aniversário do Ver-o-Peso e o Círio de Nazaré, ou quando se fala de qualidade ou 1 Trabalho apresentado na 28ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 02 e 05 de julho de 2012, em São Paulo, SP, Brasil. 1 aumento de preços de produto. Atualmente tem sido cenário presente na mídia nacional, em novelas exibidas em horário nobre. O complexo é composto pela feira do Açaí, feira do Ver-o-Peso, Mercado de Carne e Mercado de Peixe, praças do relógio e a do pescador. Segundo Lima (2008) o Ver-o-Peso é um espaço social e geograficamente demarcado por seus trabalhadores e transeuntes, o que se compreende como a feira abrange desde a Pedra (local onde desembarca e se comercializa os mais diversos tipos de pescado) até o setor de industrializados. Em 2001 passou por uma reforma, e a feira do Ver-o-Peso ganhou uma divisão por setores, que são artesanato, bares, camarão seco, ervas2, farinha, feira do Açaí, frutas, hortifrutigranjeiro, importados, industrializados, lanches, maniva3, Mercado de carne, Mercado de peixe, mercearia, Pedra do peixe, peixe salgado, polpa de frutas e refeição. O setor específico para farinhas não existia antes da reforma de 2001 mencionada anteriormente, assim não havia apenas um espaço em comum para comercialização e vários foram os pontos de venda do produto, como próximo ao rio ou na Praça do Pescador. A mudança trouxe alguns impactos, por exemplo, se o senhor X que vendia produtos hoje considerados de mercearia, tal como café, arroz, milho, etc., também podia vender farinha. Com a Reforma da feira houve uma separação na venda de produtos, e assim as pessoas que vendiam tais mercadorias precisaram escolher entre um ou outro, pois o decreto 39.326/2001 (regulamentador do Ver-o-Peso) prevê apenas uma barraca por pessoa da família. Deste modo, alguns ficaram somente com a farinha, outros no setor hoje chamado de mercearia e alguns dividiram entre familiares, ficando cada qual num setor. Este trabalho está sendo desenvolvido no setor de farinha, pela importância do alimento possui dentro da sociedade belemense. Sobre a farinha no Ver-o-Peso observou-se o seguinte aspecto: “Nesse mercado, assim como nas demais feiras de Belém, a farinha de mandioca ocupa lugar de destaque. Longas filas de barracas expõem, em sacos abertos, os mais variados tipos de farinha, e os feirantes, de modo geral, conhecem as características de cada uma, assim como seus modos de 2 “No setor de ervas medicinais encontramos uma das mais fortes tradições da população de Belém: o uso de ervas, óleos, raízes, sementes e partes animais como remédios, amuletos e sortilégios. Com múltiplos usos , os feirantes oferecem remédios para os mais diversos tipos de doenças, banhos para problemas financeiros e espirituais e amuletos para dar sorte.” (CAMPELO, 2010, p. 52). 3 A maniva que dá nome ao setor, é o caule da mandioca (manihot esculenta). Alimento de origem indígena, também é utilizada na preparação da maniçoba (prato típico da região, equiparado a feijoada, seus ingredientes são carne de porco, carne bovina e defumados). 2 fabricação, uma vez que muitos deles são ou já foram também produtores.” (NOGEIRA & MENDONÇA, 2004, p. 39). Os trabalhadores do setor da farinha estão dispostos em 48 barracas que ficam próximas ao setor de peixe seco e tucupi, do ponto de vista da estratégia de vendas o setor está bem localizado. Parte dos trabalhadores são conhecedores das variedades de farinha, mas apenas um entrevistado confirmou ser produtor, compreendendo todas as etapas da produção à comercialização, os outros 19 entrevistados apenas demonstraram ter noção do processo, sendo que os mais idosos afirmaram ter alguma experiência do tempo em que trabalhavam na roça, alguns no tempo de criança. Assim a maioria dos trabalhadores são apenas comerciantes de farinha. A farinha é um produto feito da mandioca, ela faz parte da cultura paraense, está presente na vida diária de boa parte da população paraense, seja na capital ou no interior. Ao realizarem a pesquisa sobre a farinha no Mercado do Ver-o-Peso para o inventário do IPHAN Mendonça & Nogueira puderam perceber esta importância do alimento na região amazônica. “A farinha (...) embora produzida e consumida no país inteiro, tem na região amazônica a maior diversidade de espécies de sua matéria-prima, a mandioca, bem como os mais variados tipos de farinha, os mais diversos usos culinários, o maior aproveitamento de todos os elementos que fazem parte do seu processo de produção, e é também nessa região que se apresenta como relevante referencia cultural.” (NOGUEIRA & MENDONÇA, 2004, p. 37). Na cultura paraense encontramos a influencia da farinha ou da própria mandioca em canções populares como o curimbó, ou mesmo em brincadeiras com autodefinições do paraense como “papa chibé4”, o alimento está sempre muito relacionado a cultura paraense. Importante destacar que como alimento a imagem da farinha está quase sempre associada ao açaí, ao peixe, camarão, etc. Há inclusive eventos que ocorrem nos municípios do interior do Pará, como a Farinhada, que ocorre na cidade de Acará, é uma competição onde os produtores escolhem o que consideram a “melhor” farinha do município. Mas a importância da farinha vai além do fator cultural, ela também tem grande força econômica, há cidades no interior do estado, ribeirinhas ou não, onde a principal fonte de renda é a farinha de mandioca, assumindo em algumas comunidades dois papeis o de subsistência e de mercado. Foi o que Corrêa (2008) percebeu nas 4 Chibé: Pirão de água com farinha de mandioca. 3 Comunidades do S, São Bento e Trindade, que fazem parte do município de São Domingos do Capim, ao escrever sobre saberes e tradições nas comunidades ribeirinhas. “Nessas comunidades, as relações sociais de produção centram-se, predominantemente na agricultura, no cultivo da mandioca, sendo a produção da farinha a atividade propulsora da economia, geradora de renda delas.” (CORRÊA, 2008, p. 34). Esta importância econômica começa com o cultivo da mandioca, pois este é um produto que não tem época para plantio ela pode ser cultivada o ano todo, isso foi o que Corrêa (2008) observou através dos diálogos em sua pesquisa, que a facilidade para plantar a mandioca incentivou este produto torne-se o principal entre eles, pois enquanto o milho ou o arroz precisam ser plantados em determinadas épocas a mandioca não. Mesmo tendo a necessidade depois da colheita de deixar o solo descansar por um período de 5 anos, isso não impede o uso de outros lotes da terra. Pontes (2000) também coloca a importância dessa produção de farinha para a economia dos municípios ao tratar da farinha de tapioca no distrito de Americano, onde a farinha de tapioca é o principal produto a ser comercializado. A farinha de tapioca também é um derivado da mandioca, feita a partir da fécula ou goma de mandioca. Ela também constatou no distrito de Americano a importância da farinha de tapioca para a construção da identidade do local, pois os moradores na busca de desassociar sua imagem da penitenciária que lá existe, constroem a ideia do distrito como a melhor produção de farinha de tapioca, assim há canções e a dança da farinha de tapioca. O município de Acará e o distrito de Americano são algumas das cidades que tem sua economia principal voltada para a produção de farinha. Na feira o produto chega também de outras localidades, através do rio das ilhas próximas a região, outra parte vem pela estrada em determinados dia da semana em sacas de 60 Kg que são entregues pelos fornecedores diretamente ao cliente. Esse fornecedor é chamado no espaço da feira de intermediário, pois não se trata do produtor, mas de alguém que comprou a farinha do produtor e está vendendo está mesma farinha ao feirante do Vero-Peso. Pelo rio também há esse intermediário, pelo qual é chamado de atravessador, este não vem até ao setor deixar mercadorias, eles chegam por volta das 4 horas da manhã na Orla da feira e lá ficam os feirantes esperando para comprar, algumas vezes a saca da farinha é vendida para uma terceira pessoa antes de chegar de fato às mãos do feirante. 2-BARRACAS E SABERES: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE TRANSMISSÃO DO SABER NA FEIRA DO VER-O-PESO 4 2.1- O PROCESSO DE TRANSMISSÃO DAS BARRACAS Este trabalho dá continuidade a uma pesquisa anterior intitulada As diversas formas de transição das barracas na feira do Ver-o-Peso (SANTOS, 2011), durante esta primeira fase pode-se perceber que havia duas formas principais de conseguir uma barraca na feira e de transmiti-la, a primeira a forma familiar e a segunda através das relações de amizade. Para compreender este processo é necessário chamar a atenção para a importância da barraca como patrimônio para o feirante do Ver-o-Peso, quando Lima (2008) procurou observar entre os trabalhadores do Complexo Ver-o-Peso suas percepções a respeito do patrimônio, a autora percebeu que entre estes, mesmo que de modo não consciente, os objetos transmitidos de geração para geração, a exemplo disso estão as barracas que na grande maioria ainda vem sendo transmitida de pai para filho. “constituem, portanto, o patrimônio cultural sessa coletividade, uma vez que se mostraram presentes na feira e caros a muitos dos entrevistados, quais sejam: o território com suas temporalidades; a tradição familiar na transmissão da barraca, do oficio e dos saberes; o sentido de independência e liberdade; o Ver-o-Peso como casa, como uma família permeado pelas redes de relações sociais e sociabilidades; e a paisagem...” (LIMA, 2008. p. 146). Assim as barracas aparecem como um patrimônio, “objeto de família”, que é passada de uma geração para outra, indo com esta transmissão um conjunto de práticas e saberes que podem se manter ou modificar com o tempo, acrescento aqui como um dos aspectos da feira que guarda uma memória do espaço e da vida dos feirantes. Este “objeto de família” também pode ser passado para alguém que não é necessariamente da família, como o amigo, numa transmissão por preferencias que envolve laços de amizades e relações econômicas, mas esta é uma situação que ocorre com menor frequência. Esse amigo assume a barraca na ausência do herdeiro da família. “É aqui é por exemplo assim, como se fosse uma pequena hierarquia né? Vai passando de pai pra filho ou pra um mais chegado, por exemplo um funcionário há muito tempo mesmo.” (Trecho entrevista realizada em Maio/2011) A primeira forma que abordaremos aqui é a transmissão familiar, onde o pai pode deixar a barraca seja ao cônjuge ou ao filho (a). A transição familiar é o principal e mais tradicional modo de se conseguir uma barraca na feira. Está presente nos discursos oficiais do poder público, entre os feirantes e frequentadores do espaço. Este é o primeiro aspecto que aparece quando se visita e conversa-se com alguém do Ver-o-Peso. Deste modo a família tem um papel fundamental e determinante na transição das barracas. (SANTOS, 2011.p. 29). 5 Este tipo de transição é o modo oficial, pois está previsto no decreto 39.326/2001 regulamentador da feira. Art. 46. Falecendo o permissionário ou resultando inválido, poderá o Secretário Municipal de Economia, ressalvados os interesses da administração, e ouvido o condomínio participativo deferir a permissão de uso ao seu cônjuge. Parágrafo único. Na desistência do cônjuge poderá da mesma forma ser atribuída a permissão a outrem obedecendo à seguinte ordem de preferência e desde que se comprove, pelo interessado, estar capacitado para o exercício do comércio. I – Aos filhos maiores, ascendentes, a outros descendentes maiores ou colaterais do permissionário comprovada expressamente a desistência dos que também concorram na mesma classe; II – a sua companheira, nos termos da legislação em vigor; Mesmo o cônjuge sendo o primeiro na linha de preferencias no decreto, são normalmente os filhos que substituem o pai seja a partir de seu falecimento ou na sua aposentadoria. A família assume um papel importante não só na transmissão, mas na inserção do individuo na feira e no saber. Deste modo o trabalho familiar no Ver-o-Peso também já foi constatado por outros autores, como Campelo (2002), Lima (2008) e Ferreira (2010), é impossível a partir de uma aproximação da feira não perceber a existência de parentes trabalhando juntos ou separados no mesmo setor ou em setores diferentes. Assim a família é ainda o principal meio pelo qual se chega e se estabelece no Ver-oPeso. “É meu caso aqui (...) é que o papai, o papai tinha cinquenta anos de Ver-oPeso... se aposentou, se aposentou daqui aí faleceu já vai fazer no caso 5 anos, 5 anos agora, aí eu assumi... assumi, mas eu já trabalhava com ele entendeu? (Trecho da entrevista com o senhor do setor de farinha, em Abril/2011) CAMPELO (2002) ao realizar estudos sobre o Ver-o-Peso antes da reforma de 2001, para elaboração de um dossiê organizado pela FUMBEL (Fundação Cultural de Belém) nos anos de 1999 a 2000 que na época tinha o objetivo de transformar o Ver-oPeso em Patrimônio da Humanidade, também destaca a importância da família, que ainda tem no pai o seu maior papel, entretanto acrescenta outros atores importantes como patrão e os amigos. “Há pessoas que vieram para a feira por intermédio de amigos, parentes ou patrão já estabelecidos no Ver-o-Peso. Todavia, quase todos aprenderam suas atividades com algum parente, geralmente o pai a quem ajudavam desde pequenos...” (CAMPELO, 2002. p. 160) 6 Outro estudo elaborado por Ferreira (2010) aponta para a questão do gênero nas relações de trabalho estabelecidas na feira, onde setores como o das ervas que a maioria das vendedoras são do gênero feminino é importante para a continuidade do trabalho da família a presença das filhas. Em setores onde há presença apenas de homens, o descendente precisa ser do sexo masculino para assumir o trabalho, isto baseia-se não nas relações de força como relatam os trabalhadores, mas na própria caracterização do espaço e nas relações de sociabilidade, como as “brincadeiras” que se diferenciam entre homens e mulheres. No setor de farinha há uma predominância masculina, entretanto já existem mulheres presentes no espaço, e a passagem da barraca e do saber no setor não precisa necessariamente ser para descendentes do mesmo gênero que o antecessor, pode ocorrer na forma pai/filho ou pai/filha e até mesmo esposo/esposa e recentemente encontrei a forma mãe/filha, mas como a maioria dos trabalhadores do setor são homens a principal tem ocorrido na forma pai/filho. A tabela a seguir mostra os responsáveis que participam deste processo de transmissão. Tabela 1: Mostra principal responsável pela transmissão da barraca Responsável Quantidade % Pai 8 40 Esposo 1 5 Amigo 4 20 Pai e amigo 1 5 Não tem 3 15 Outra situação 3 15 Total 20 100 Fonte: SANTOS, 2011, p. 36. Assim temos principalmente o pai com 40% e em segundo os amigos que aparecem com 20%. A figura do patrão não foi relatada nestas entrevistas, por isso não aparece no quadro. A mãe como transmissora da barraca também não aparece no quadro porque até o primeiro momento das entrevistas a mãe estava mais afastada da feira e a filha também acompanhava o marido que possui uma barraca no setor de mercearia. Somente recentemente a encontrei acompanhando a mãe na farinha. 7 Uma das situações relatadas é um senhor que fornecia farinha de tapioca no setor e um dos seus clientes ofereceu a barraca, ele aceitou e hoje vende e produz farinha de tapioca. Uma outra situação é de um rapaz A que ajudava o pai na feira e em troca recebia o pagamento em diárias, o rapaz A não tinha sua própria barraca, e como havia um senhor idoso B que pretendia se desfazer de duas de suas quatro barracas, passou as barracas ao rapaz A, que já era conhecido seu na feira. Quando partimos para a inserção no trabalho no Ver-o-Peso, temos: Tabela 2: Responsável pela inserção do permissionário na feira Responsável Pai Marido Amigos Irmão Tio Total Fonte: SANTOS, 2011, p. 37. Quantidade 10 4 2 2 2 20 % 50 20 10 10 10 100 Quando perguntamos quem o (a) trouxe para feira a figura do pai ainda permanece como a mais importante com 50%, em seguida vem a categoria marido (engloba somente a relação esposo/esposa e não os filhos), os amigos foram responsáveis por 10%. A transgressão no processo de transmissão em relação ao que é regulamentado por lei parece muito com algumas situações encontrada no campesinato, como Moura (1978), que em sua obra trata da questão da herança da terra entre os trabalhadores rurais de São João da Cristina em Minas Gerais, se aproximando de certa forma das transições das barracas no Ver-o-Peso, em termos de uma continuidade do trabalho familiar, que em São João da Cristina o pai (responsável pelas terras) divide sua propriedade legal em pequenos lotes como forma de manutenção da terra na família e de continuação de trabalho, neste caso de uma continuidade por parte do filho. A questão colocada neste livro é que por lei o pai tem que dividir igualmente entre os filhos, mas para manter a integridade das terras eles acabam fazendo outros arranjos, reinterpretando a lei. No Ver-o-Peso a preocupação é com a barraca como patrimônio da família, em determinadas situações há famílias quase que completas trabalhando com a farinha, onde o pai não precisou ausentar-se para que os filhos assumissem o trabalho, mesmo 8 que o decreto só preveja a herança em caso de morte ou após a aposentadoria, nesta situação o pai assim como em São João da Cristina mantem-se como a figura principal a reger o negócio da família. Deste modo Moura mostra as estratégias encontradas no campo para a reprodução da própria classe, estratégias que encontramos no Ver-o-Peso não de modo igual, mas de formas que se aproximam. Outro aspecto na transmissão está na passagem para os amigos. Esta passagem está relacionada a vendas de barracas na feira, que acontece em menor proporção que a familiar, mas que está presente no cotidiano do Ver-o-Peso e que já foi constatado em trabalhos anteriores como LIMA (2008) que considerou esta forma de “forma prática”. A venda de barracas não é prevista no decreto regulamentador do Ver-o-Peso, não há uma legislação que trate claramente sobre isso. Tal como não há nada que impeça diretamente que terceiros assumam a barraca, a partir do seguinte situação: Art. 46. Falecendo o permissionário ou resultando inválido, poderá o SecretárioMunicipal de Economia, ressalvados os interesses da administração, e ouvido o condomínio participativo deferir a permissão de uso ao seu cônjuge. Parágrafo único. Na desistência do cônjuge poderá da mesma forma ser atribuída a permissão a outrem obedecendo à seguinte ordem de preferência e desde que se comprove, pelo interessado, estar capacitado para o exercício do comércio. III – diretamente a terceiros interessados após desistência expressa de todos os herdeiros. . Como podemos observar um terceiro pode receber a barraca desde que todos os herdeiros desistam e atendam as seguintes especificações: Art. 20. Para habilitar-se ao exercício de feirante é necessário opreenchimento de formulário com os seguintes dados: Nome, endereço, número da Carteira de Identidade, número do CIC, Sexo, Idade, Ocupação Principal, Produtos que deseja comercializar, Carteira de Saúde, Carteira de Manipulador de Alimentos, 02 (duas) fotos 3x 4, instruindo requerimento ao Secretário Municipal de Economia. Art. 27. Verificadas vagas de feirantes, a Secretaria Municipal de Economia – SECON publicará edital, com o prazo de 15 (quinze) dias, para convocação de interessados. As vagas serão preenchidas com observância dos seguintes critérios técnicos sucessivamente: I – por feirante, que já estejam operando na mesma feira e desejem obter outra permissão; II – por feirantes que desejem alterar o seu ramo de comércio; III – por feirantes que estejam operando em outras feiras e delas desejem ser transferidos, respeitando o inicio da atividade, onde o feirante mais antigo terá a preferência do ramo do comércio; IV – por aqueles que, pela primeira vez, requererem a permissão de uso, observada a ordem cronológica de entrada dos requerimentos. 9 Parágrafo único. Se, após a observância dos critérios técnicos estabelecidos neste artigo, ainda sobrarem vagas, serão expedidos novos editais. (Decreto Municipal Nº 26579/1994). Podemos considerar também a vontade dos pais de que os filhos não continuem o trabalho na feira. Tabela 3: Desejo dos pais em relação a continuidade dos filhos no setor de farinha Desejo dos pais Quantidade % Não 8 40 Sim 7 35 Não pensou/Não sabe 2 10 Não respondeu 2 10 Não tem filhos 1 5 Total 20 100 Fonte: SANTOS, 2011, p. 39. Estes 40% que responderam não, em maior parte está continuando o trabalho da família, tem filhos ainda crianças e adolescentes e preferem não vê-los trabalhar na feira, justificam estar trabalhando para que o futuro dos filhos seja melhor, por considerarem um trabalho pesado. Aqueles que preferem os filhos dando continuidade ao trabalho da família demonstram a vontade de manter o patrimônio que foi construído para eles. Com a análise dos questionários algumas da justificativa para a escolha do filho é mais voltada para o filho desempregado ou que não tem um estudo. Quando olhamos para a falta de desejo dos pais para que os filhos continuem na feira, temos também uma visão do que eles próprios (trabalhadores) pensam sobre seu trabalho. “Ninguém quer vim pra cá, todo mundo só vem pra cá, vem por necessidade, ninguém vem folgado, todo mundo que vem pra cá vem sem nada (...) o Vero-Peso é assim só pra pessoas necessitadas esta é a realidade.” (trecho de entrevista realizada com senhor de mercearia realizada em Maio/2011). A fala deste senhor de mercearia mostra um pouco das respostas que outros entrevistados. Essa visão de necessidade e até mesmo sacrifício, hoje considerando ter sustentado ou mesmo quem ainda sustenta o filho não deseja estes no espaço. O Decreto 26.579/94 é o regulamentador de todas as feiras da cidade de Belém, e exemplifica melhor como funciona a burocracia para trabalhar na feira. Chamando a atenção aqui para o item IV, o seguimento de uma ordem cronológica de entrada de 10 requerimentos, observamos que na feira funciona mais a lógica do feirante, que já escolhe o seu sucessor. Deste modo, as amizades são importantes para conseguir uma barraca na feira e para se manter no espaço, em situações em que não há parentes, esses são os mais próximos. “Eu tenho um amigo meu que conversou comigo, Y tu não quer ficar nessa barraquinha? Eu fiquei, era uma caixinha assim no chão, eu disse quero.” (Trecho de entrevista realizada em Abril/2011). O termo amigo também pode variar em seu significado, pode ser um vizinho de rua; vizinho de feira, ou seja, que trabalha próximo e por alguma razão deseja sair da feira e não tem para quem deixar este negocia com alguém que está próximo a ele; apenas um conhecido não tão próximo, e um amigo próximo propriamente dito. É possível negociar uma barraca também através de parentes, estes intermediam a negociação com o permissionário (interessado em vender). Como o regulamento que não atende todas as necessidades dos feirantes, estes buscam estratégias para a transferência da barraca quando não há como descendentes os parentes prescritos no decreto 39.326, e esses trabalhadores precisam vender a barraca, transformam amigos em parentes diante da SECON (Secretaria Municipal de economia), deste modo ocorre uma transferência por preferencias. Assim é estabelecido um código entre os amigos. “Os códigos sociais existem independentes de querermos utilizá-los ou não,o Ver-o-Peso como um todo é complexo e bem delimitado em sua estrutura social, criando suas próprias regras para permanência dos atores sociais envolvidos neste espaço.” (FERREIRA, 2010, p. 164). A própria terminologia passagem apresentada para definir a venda da barraca, é uma forma de estratégia, em um primeiro momento e sem contextualização não quer dizer nada. Outra estratégia é transformar este amigo em parente, geralmente em primo. E por fim e ficando na barraca até conseguir que pelos “direitos adquiridos” ela passe para o seu nome. “Tu me conhece já mais de vários meses (...) é como se você viesse hoje aí eu falo assim, digo Suellen dá pra ti ficar aqui pra mim? (...) aí tu fica, tal dia tu fica o dia inteiro, aí tu vai ficando e eu vou chamando. (...) aí chega um dia eu digo Suellen tu não quer fazer negócio comigo? Aí chega uma pessoa e pergunta cadê o Y? ele não tá saiu (...) é aí que começa o negocio.” (Trecho de entrevista realizada em Abril/2011). 11 Neste primeiro aspecto, podemos perceber que não há a intervenção da SECON, a pessoa que negocia não vai até o polo da secretaria na feira avisar a desistência, ela apenas se retira da feira, com o tempo a própria secretaria passa a barraca para quem está trabalhando no local. Mas em conversas informais fui informada desta transmissão também por outro aspecto: Deste modo o jogo da passagem de barracas a amigos ocorre com uma negociação direta entre os interessados na própria feira, onde o permissionário (vendedor) vai até o posto da SECON comunicar que deseja parar de trabalhar no Ver-o-Peso e assim ele preenche um termo de desistência ao mesmo tempo que indica a pessoa que esta interessada a ficar no seu lugar, iniciando-se o processo de transferência da barraca e da burocracia documental e de verificação por parte da secretaria que administra a feira. (SANTOS, 2011, p. 43). Essa transmissão então ocorre por “debaixo dos panos”, com uma aparente obediência as normas da feira. 2.2. TRANSMISSÃO DE SABERES Quando se deixa uma barraca ao filho (a) ou a um amigo se deixa bem mais do que um patrimônio material, com ela se transmite deveres e direitos e um conjunto de práticas e saberes que vão desde a forma de tratamento aos fregueses, com as técnicas que o pai ou mãe costumava usar para atrai-los, como agradá-lo e melhor atende-lo, conhecer com quem se comercializa, quem são os fornecedores, os clientes e no caso da farinha, quais os tipos do produto. Este aprendizado pode começar ainda na infância, com pequenas tarefas, e que serve de preparação para o futuro dono da barraca. “Eu e as minhas filhas tudinho, eu ensino pra eles, olha é do freguês que nós vivemos, não faça nada que o freguês não gosta, se quer uma sacolinha dai a mais, se quer mais um pouquinho a gente bota...” (Trecho da entrevista com senhora do setor de farinha, em maio de 2011). A partir de algumas conversas com os feirantes percebemos como os pais procuram ensinar aos filhos o modo de tratar bem o cliente, considerando este bom atendimento a principal tática para atrair e cativa-lo. Levando em consideração o próprio termo “freguês” empregado pelos feirantes como forma de nomear o cliente, podemos considerar também um ensinamento familiar, onde os antecessores já os nomeavam assim e foram passando aos filhos. “O papai sempre agrada o freguês com meio litro de farinha de tapioca, meio litro de... farinha d’água o que dá chama assim um pouquinho a mais fora o que a pessoa tá pesando, então põe um pouquinho a mais pra agradar o freguês” (Trecho de entrevista com senhor no setor de farinha, em maio de 2011). 12 Evidentemente atender bem é só uma das formas de saber do trabalho, mas há outros componentes importantes como a manipulação do produto, principalmente se levarmos em consideração as exigências do mercado atualmente, com controle de qualidade do produto pondo em cheque práticas culturais como o costume de se provar a farinha colocando as mãos nas sacas que antigamente podiam ficar abertas sem proteção pela feira, hoje alguma barracas não expõe a farinha colocando plásticos para evitar que abelhas pousem na farinha, assim como ao invés de tocar com a mão, o (a) feirante pegam o litro e coloca na mão do cliente. Saber conservar o produto também é importante, já que a farinha só estraga se esfriar, é preciso está renovando o estoque, ter cuidado na hora de guardar ao fechar a barraca, neste caso não só com a farinha, mas com a própria goma ou fécula de mandioca que necessita ser molhada e depois seca para poder peneirar. Por fim a negociação feita com fornecedores e fregueses, que em casos de herança acabam passando do pai para filho (a). Entre amigos o saber não é necessariamente passado do ascendente ao sucessor como na família, não é necessariamente quem passa a barraca que transmite o conhecimento, esse precisa ser apreendido já na prática do trabalho na vida adulta, na família há como uma preparação na infância, entre amigos se conta com a ajuda de companheiros do setor, assim a aceitação por parte destes é imprescindível para quem deseja ter sucesso no local, as amizades que serão construídas ali ajudam no aprendizado. Durante as entrevistas formais e informais nenhum dos entrevistados que comprou uma barraca tinha acesso antes ao Ver-o-Peso, eles já tinham certa circulação no espaço, pode ser ajudando um outro amigo, um conhecia o produto devido a produção, dois já tinham alguns parentes no local, uma senhora já havia trabalhado em outra feira. 3. CONCLUSÃO O Ver-o-Peso quando relatado nas entrevistas é lembrado por muito dos feirantes como uma “universidade” ou uma “escola” que traz consigo ensinamentos de sobrevivência, para se estabelecer não basta somente a comercialização, é preciso saber quem são as pessoas que estão ali, existem códigos estabelecidos que muitas vezes não precisam de palavras para que haja entre eles comunicação e que somente os que estão acostumados ao cotidiano do espaço conhecem. Aqui foram tratados principalmente o saber do trabalho familiar, mas existem outras formas de aprender e de chegar ao Ver-o13 Peso e uma destas está ligada as amizades. Depois da família os amigos são os principais na transmissão do saber, assim como facilitadores da entrada de novos trabalhadores na feira. A diferença está no tempo em que se leva para aprender até que se possa chegar a ser dono da barraca. Com a família é um processo mais lento, começa como uma brincadeira na infância, o filho vai ajuda o pai, faz pequenas atividades, compra uma sacola aqui, o lanche na barraca do amigo do pai, um cafezinho no seu José e assim vai. Já entre os amigos este processo de aprendizagem precisa ser mais rápido, e para apreender necessita-se da ajuda dos companheiros de trabalho e aí entra outro ponto que é antes de tudo estabelece-se no espaço e ser aceito pelo grupo. Não basta apenas chegar e comercializar, pois senão há um conhecimento do produto e não há a inserção inseri no grupo dificilmente sobrevive no lugar. A pesquisa ainda está sendo realizada, mas já é possível ter uma visão parcial dos dados aqui apresentados e perceber que atualmente dificilmente encontramos crianças e adolescentes no local, as que encontramos geralmente vão visitar o pai ou mãe e os avós, não estão presentes todo dia e dificilmente fazem alguma atividade, ao contrário de como era antes. Um dos fatores relatados por um entrevistado para esta quase ausência das crianças está na proibição do trabalho infantil através da lei 8.069/90 conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Entendendo que tanto a transição familiar quanto a passagem entre amigos, mesmo parecendo desejos individuais fazem parte de uma necessidade de reprodução de classe, a classe de feirantes do Ver-o-Peso e que de certo modo os leva a resistir por tanto tempo no centro da cidade. 14 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA CAMPELO, Marilu Marcia. Feira do Ver-o-Peso: cartão postal da Amazônia ou patrimônio da humanidade? 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