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Memória, espaço e relações de gênero a partir das ruas Generina Vale e Júlia
Medeiros
Manoel Pereira da Rocha Neto
Universidade Potiguar
Cláudia Medeiros de Araújo
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Os nomes das ruas estão ligados à memória da cidade. Posto isto, é importante destacar que Caicó (RN) só
passou a possuir ruas com denominações femininas a partir do ano de 1973. Essas ruas se denominam
Generina Vale e Júlia Medeiros. Nesse sentido, o que sugerimos nessa comunicação é tomar dois
antropônimos como lugar de memória, ou seja, o espaço e a sua nomeação como mensageiros e difundidor
da memória coletiva da cidade. Assim, dividiremos esse artigo em dois momentos. No primeiro,
discutiremos o porquê dos lugares serem nomeados, a prática de nomear os lugares, como também
abordaremos o processo de escolha dos nomes dos lugares de uma cidade. No segundo momento, por sua
vez, apresentaremos as trajetórias de vida de Generina Vale e Júlia Medeiros, enfatizando a configuração
social. Destacamos também os motivos pelos quais elas foram homenageadas com nomes de ruas, como
também encontraremos a possibilidade de discutir sobre as questões de gênero, da realidade da mulher
brasileira e por extensão a mulher caicoense.
Palavras Chave: Toponímia feminina. Caicó. Gênero.
O QUE SE ENCONTRA POR TRÁS DOS NOMES DOS LUGARES?
Quando vamos a primeira vez em algum lugar, que não conhecemos, a primeira
coisa que fazemos é saber o endereço, certo?!. A partir dessa realidade tão comum no
nosso dia a dia, passamos a questionar por que nomeamos todos os lugares? Conforme
Santos (2008, p.27), “a nominação de lugares acompanha a atividade humana desde
tempos imemoriais. Nomeiam-se tanto os seres humanos quanto os lugares, permitindose a individualização e a conseqüente identificação unívoca das pessoas e dos lugares”.
Santos (2008) ainda assinala que os nomes dos lugares se constituem em
documentos históricos que revelam acontecimentos ocorridos em outros períodos. Ou
seja, podemos afirmar que os nomes presentes nos mapas apresentam aspectos da
história, simboliza grandes feitos, homenageia nossos “heróis”, representa nossa
identidade cultural enfim, podemos assegurar que o tempo e a memória se inscrevem
através desses nomes no espaço.
Ainda é importante enfocar que a prática de nomear lugares deu origem à
toponímia1 que possibilita reconstruir aspectos do passado histórico e de valores culturais
de um grupo social que residiu ou reside numa determinada área. De acordo com Sousa
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Toponímia (Topos: lugar + Onyma: nome). Disciplina que estuda a origem e a significação dos nomes de lugares, a
qual compete à disciplina Onomástica que é uma seção da filologia que pesquisa os nomes próprios. Localiza-se no
âmbito da Lingüística designado Lexicologia.
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(2008), a língua conjetura as expressões sócio-culturais, as perspectivas e os ideais de
um povo. Assim o estudo da língua, possibilita descobrirmos acontecimentos históricos.
Sendo os topônimos concebidos como sendo bens patrimoniais, eles estão sujeitos
às implicações do tempo: às permanências, às mudanças, ao esquecimento do seu
sentido original, uma vez que se esquiva dos acordos e da memória do povo. Esses
aspectos possibilitam afirmar que a Toponímia possui duas dimensões: uma que se refere
a nomeação de dado espaço geográfico (função toponímica) e outra no que diz respeito
ao tempo (memória toponímica).
A prática de nomear locais públicos gerou uma tradição que ganhou importância
fazendo com que os locais deixem de ser simplesmente equipamentos utilizados pela
população, para tornarem-se monumentos espaços de celebração e inscrição de uma
dada memória, fabricada em certo período. A memória
[...] é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; [...] a memória
não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas,
telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as
transferências, cenas, cesuras ou projeções. (NORA, 1993, p. 09).
E o monumento tem o papel de reavivar as lembranças do morto, afastando-o da
possibilidade do esquecimento, tranquilizando-o no tempo. Busca-se com isso, legitimar
determinado passado homenageando personalidades políticas como presidentes,
governadores, coronéis, deputados e exaltados como heróis nacionais, por meio de
monumentos.
A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime
uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (meminí). O verbo
monere significa 'fazer recordar', de onde 'avisar', 'iluminar', 'instruir'. O
monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o
monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação,
por exemplo, os atos escritos. Quando Cícero fala dos monumenta hujus ordinis
[Philippicae, XIV, 41], designa os atos comemorativos, quer dizer, os decretos do
senado. Mas desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializarse em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura:
arco de triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc.; 2) um monumento funerário destinado
a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é
particularmente valorizada: a morte (LE GOFF, 1990, p.462).
Entende-se que os logradouros públicos se tornam monumentos visto que
recordam práticas dos indivíduos que um dia teriam colaborado para a edificação de uma
localidade. O logradouro público, por ser uma obra pública, dificilmente se desliga de seu
caráter monumentalizante, tanto para quem fica como responsável pela sua construção,
como para quem ele pode servir de tributo com sua designação.
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Percebe-se deste modo, a partir do exposto acima que quem é, e o que é
significante para um país, estado, região ou cidade é, de certa maneira aludido na
toponímia. Daí, o estudo dos nomes dos lugares possibilitar a investigação do modo de
vida, a ideologia e os valores culturais dos indivíduos que viveram ou vivem numa certa
região. No que se refere aos topônimos eles funcionam como representantes ou símbolos
da identidade de um dado grupo.
O topônimo não pode ser considerado apenas como uma unidade léxica genérica
porque recobre funções sintagmáticas, de verdadeiros enunciados modais. Vários
fatores concorrem para sua manifestação e fixação como vetor, ou seja, o tempo da
enunciação e a efetivação do uso, quando o nome entra, de fato, na corrente
onomástica. Passa-se, assim, do plano expressivo ao cognitivo propriamente dito,
que conduz aos planos informativo e afetivo; este estágio garante a manutenção do
emprego, num continuum. (DICK, 2003, p.183).
Desse modo, os nomes estão intensamente associados com o trajeto de vida dos
homens que edificam e residem nos lugares, com a ocupação e o desenvolvimento
socioeconômico desses lugares e com a origem etnolinguística dos indivíduos. Assim,
Lévi-Strauss observou que no Estado de Santa Catarina; as cidades de Joinville e
Blumenau possuíam ruas com nomes alemães. Ou seja, podemos afirmar que os nomes
desses lugares se constituem em testemunhos históricos do povoamento dessa região. E
ele ainda deixou registrado em “Tristes Trópicos”, a prática dos fazendeiros doarem:
[...] terras a uma paróquia. Assim nascia um patrimônio, aglomeração colocada sob
a invocação de um santo. Outros patrimônios têm um caráter laico, quando um
proprietário decidia fazer-se povoador e mesmo plantador de cidade. Batizava,
então, a cidade com o seu nome: Paulópolis, Orlândia; ou, por cálculo político,
punha-a sob o patrocínio duma personalidade celebre: Presidente Prudente,
Cornélio Procópio, Epitácio Pessoa [...]. (LÉVI-STRAUSS, 1957, p.116).
Nessa perspectiva, podemos dizer que Lévi-Strauss (1957) observou que
diferentes vilas ou cidades nasceram ao redor de capelas, igrejas ou monumentos de
religiosidade e, no decorrer do tempo, vieram a gerar municípios, revelando o feitio
antropológico da fé de nossos antepassados, como também a importância e o poder da
Igreja. Poder esse que excede aos domínios religiosos. Além disso, podemos afirmar que
o ato de conceder terras aos bens de um santo era mais uma expressão dos vínculos
entre as elites rurais - com seus negócios políticos e econômicos - e as construções
materiais e simbólicas do catolicismo.
Também podemos afirmar que ao homenagear vultos municipais, os nomes dessas
pessoas passam a fazer parte da história oficial da cidade. Bem como aquilo, que eles
representaram em vida é congregado à identidade da sociedade a qual ele serviu para
receber a homenagem. Assim, ruas, praças e monumentos com nomes de pessoas
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conservam a memória coletiva do tempo passado e levam consigo sentidos que
geralmente não são compreendidos, quando os lemos, ouvimos ou vemos andando pelos
logradouros públicos de nossas cidades.
Segundo Nora (1993), há duas espécies de memória: uma memória tradicional
(imediata) e uma memória modificada por sua passagem em história. À medida que a
memória tradicional é apagada, nós nos sentimos obrigados a reunir indícios,
depoimentos, documentos, representações, falas, impressões visíveis do que foi.
É por meio desta memória convertida em história, desta memória oficial, que se
instituem os “lugares de memória”. Ainda segundo o autor, a alguns objetos é conferido
uma importância enquanto símbolo, a fim de fortalecer, ou mesmo arquitetar, uma
identidade coletiva e resguardar sua memória. Ainda de acordo com Nora (1993), esses
lugares de memória existem na percepção material, funcional e simbólica. Eles são
compreendidos como museus, cemitérios, arquivos, festejos, aniversários, monumentos,
templos, clubes. Os lugares de memória surgem e existem do sentimento de que não
existe memória espontânea, que é necessário produzir arquivos, que é necessário
conservar aniversários, estabelecer comemorações, proferir exaltações fúnebres, pois
essas intervenções não são naturais.
A memória é a capacidade de lembrar e resguardar circunstância de consciências
passadas, ela é a junção entre a capacidade de perceber e o individuo que percebe,
sendo inseparável de um filtro afetivo o qual, é modelado pelo social. Cada pessoa
percebe a memória de uma forma, ela o faz inconscientemente elegendo informações que
a cerca em razão de suas necessidades. A cada componente a memória e a inteligência
impõem uma importância.
Mas, é a linguagem que possibilita exteriorizar e modelar a memória, pois a mesma
retém ou armazena as informações. Maurice Halbwachs inventou, no ano de 1925, a
expressão memória coletiva para defender que o social está inscrito na memória
individual. Deste modo, a memória de qualquer individuo é social, pois seus quadros são
feitos de conhecimentos os quais conjeturam uma significação e a visão de mundo de um
grupo. A memória é um objeto de manuseio e de agenciamento político e ideológico.
Portanto, podemos afirmar que a leitura do tempo e do espaço nos possibilita
conjeturar a respeito da dimensão da memória da cidade. Também é percebível, que os
nomes dados aos lugares fazem parte de uma disputa pela fala e pela memória, pelo
interesse da coletividade a uma história própria, construída com suas próprias palavras.
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As instituições e espaços que os indivíduos optam por nomear são retirados da memória
social.
Santos (2008) afirma que há uma relação sentimental entre o lugar e o ato de
nomear. Possibilitando-nos pensar as origens psicossociais dos nomes dos lugares.
Num mapa de cidades fugazes e errantes [encontrou] nomes que designavam
também sonhos renovadamente dissipados pelos naufrágios fluviais e demais
desastres da mãe-natureza, como Remate dos Males, Novo Lugar, Forte de
Veneza, Talismã, Novo Amparo, Boa Esperança, Novo Destino, Novo Triunfo,
Silencio de Cima, Novo Mirador, ultrapassada a tênue linha demarcatória
daquelas ‘ilhas da Consciência’, já não havia mais espaço-tempo para as ilusões
do progresso evolutivo. (HARDMANN, 2009, p.80).
Deste modo, os nomes dos lugares podem ser tomados como objeto cultural os
quais concebem a si mesmos os conteúdos imaginários que se constituem em herança
deixada a gerações futuras. Certeau (1994), ainda nos auxilia a refletir a respeito de
toponímia ao estabelecer a diferença entre espaço e lugar. No tocante ao espaço, o autor
afirma que o mesmo não é algo fixo, estático, estável, mas prático, mutável e em
permanente movimento, pois ele é construído de vivências, de ações e de atos. Para isso,
ele faz uma distinção entre o natural e o construído, percebendo que o espaço não está
inscrito na natureza, ele se faz em interação com o ser humano em algum lugar. Esta
idéia conforme Certeau (1994) aproxima o espaço da linguagem, já que provêm como
possibilidade a partir de uma dada enunciação.
O espaço, do mesmo modo que a língua é relacional, subordinado a influência
mútua do homem. Desse modo, podemos afirmar que o espaço é uma série de
influências mútuas em uma determinada conjuntura, o que se assinala como uma prática
social. Já, o lugar faz alusão
[...] a ordem ( seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas relações
de coexistência. Aí se acha portanto excluída a possibilidade para duas coisas, de
ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei do “próprio”: os elementos considerados
se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar “próprio” e distinto
que define . Um lugar é, portanto, uma configuração instantânea de posições.
Implica uma indicação de estabilidade. (CERTEAU, 1994, p. 201).
Desse modo, duas coisas não podem ocupar o mesmo lugar, ao mesmo tempo,
mas quando conseguem comunicar-se convertem o lugar em espaço, Conforme Certeau
(1994, p.202), “[...] o espaço é um lugar praticado”. Nesse sentido, usaremos esse modo
de compreender o espaço, pois ela nos possibilita pensar a toponímia como fruto de certa
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memória social. Daí a importância de compreendermos a mentalidade do nomeador
como projeção do seu grupo social.
Portanto, depois de discutirmos a prática de nomear lugares passamos a nos
questionar como os nomes dos lugares de uma cidade são escolhidos?
A nomeação de logradouros públicos é papel do Poder Público Municipal. Ou seja,
geralmente um vereador apresenta um projeto de lei, na Câmara Municipal, esse projeto
vai para Comissão de Legislação e Justiça para receber um parecer. E se aprovado ele
vai para o Prefeito para sancionar ou vetar esse projeto de lei. Nesse sentido esses
projetos de lei, quando são analisados, nos possibilitam investigar o que e quem são os
homenageados, por conseguinte, escolhidos como alusão para os cidadãos. Bem como
sua importância para a cidade e seus habitantes.
Nesse sentido, os espaços construídos e nomeados pelo poder público são
capazes de contar histórias. Nomes de ruas, avenidas, praças, espaços públicos tornados
privados pela imposição de um nome. O discurso do crível, ao nomear a cidade,
transforma seus espaços em habitáveis. Os nomes são outorgados pelo governo da
cidade. Essa administração fixa códigos, leis, propaga projetos e tenta desempenhar atos
circunspectos nesses espaços urbanos, ou seja, eles são imaginados para a consolidação
de práticas supervisionáveis.
Em outros termos, “Satura de significados alguns lugares e os reduz a eles, a ponto
de os tornar irrespiráveis” (CERTEAU, 1994, p. 187). A nomeação dos logradouros
públicos acaba estimulando uma relação de poder, a qual nos ajudará a interpretar a
procedência do nome de um lugar bem como o propósito e o poder que se encontra por
trás do ato de nomear um logradouro público. Nesse sentido, a cidade é um lugar de
recordações, memórias, ausências e poderes.
Para o filósofo Michel Foucault (2003), uma sociedade sem relações de poder é
uma ilusão. Para ele, a estrutura social, seria percorrida por inúmeras relações de poder,
as quais não se centram somente em um local particular, pois são como uma força que
permeia todo o corpo social. O poder não é apenas uma instância negativa, mas, também
uma força produtiva capaz de produzir coisas, gerar prazeres, construir saberes e
produzir discursos. As relações de poder se acham nas mais diferentes práticas sociais a
exemplo dos nomes da cidade, aqui entendidos no aspecto de estarem atravessados por
relações de poder. Neste sentido, a existência do componente poder se encontra na ação
de escolher o nome dos lugares.
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Deste modo, Oliveira e Isquerdo (2011), defendem que ao longo da história a
Toponímia não tem registrado números expressivos de nomes femininos, fenômeno
motivado por causas histórico-ideológicas que suplantam as discussões toponímicas.
Também Nader (2007) se dedicou a investigar a busca da relação existente entre a
discriminação de gênero e a terminologia de logradouros públicos da cidade de Vitória. No
decorrer de sua pesquisa a autora percebeu que a discriminação pode se configurar de
maneira astuciosa, insidiosa, quase que insignificante. Deslindar a discriminação mais
sutil, menos visível ao senso comum, foi o propósito de seu trabalho.
A autora concluiu que duplicou a quantidade de logradouros públicos com nomes
de mulheres na cidade de Vitória, após os anos 1970, levando em conta o período
anterior. Entretanto, esse acréscimo do número de logradouros com nomes femininos,
ainda não revela o fim da sub-representação feminina em analogia à quantidade de
nomes de homens. Ao lado da inferioridade numérica de logradouros públicos com nomes
de mulheres, há também a superioridade masculina, no que se refere ao porte e valor
deles diante da população.
Assim, a partir dessas discussões percebemos que apesar dos representantes do
poder público, serem representantes de homens e mulheres, no tocante a categoria dos
antropônimos
predominam
topônimos
com
nomes
masculinos.
Nesse
sentido,
observamos que a cidade de Caicó não foge a essa regra.
As principais praças, avenidas e ruas consideradas de grande importância para o
fluxo viário e atividades comerciais possuírem nomes masculinos (Avenida Coronel
Martiniano, Rua Renato Dantas, Praça José Augusto, Praça Dinarte Mariz e Praça
Monsenhor Walfredo Gurgel). Assim, para termos uma idéia, no ano de 2006, dos 616
logradouros públicos apenas 89 tem denominação feminina. Ainda é importante destacar
que as primeiras ruas com denominações femininas só surgiram no ano de 1973. Neste
sentido, nos questionamos quem foram elas? E o que elas fizeram para ser
homenageadas, com nomes de ruas?
O que se encontra por trás dos nomes das placas das Ruas Generina Vale e Júlia
Medeiros?
Buscaremos aqui pensar Júlia Medeiros e Generina Vale a partir de um vai-e-vem
entre o dado e o vivido, o individual e o coletivo. Um vai-e-vem no qual se registra o
projeto de duas vidas, que recuperam sem cessar, diretamente ou indiretamente uma
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série de acontecimentos que aqui se transformam em espécies de linhas com as quais
teceremos a trama da vida de Júlia Medeiros e Generina Vale.
Segundo Félix, Moreira e Freire (1997), Júlia Medeiros provém de uma família de
prestígio e poder no Seridó norte-rio-grandense. Ela era sobrinha do Padre Sebastião
Constantino Medeiros, o mesmo ingressou na Companhia de Jesus em 1878 e entre 1882
e 1883, foi professor de português no Colégio Pio Latino Americano de Roma, vindo a
falecer em 1886.
O padre era irmão de Antônio Cesino de Medeiros, o mesmo “[...] nasceu na
Fazenda Umari, município de Caicó, propriedade de seus pais, em 1º de novembro de
1858, conhecido também por Tonho de Umari [...]”. ( LAMARTINE, 2005, p. 65). Ele
casou-se três vezes: sua primeira esposa chamava-se Ana Filgueira de Araújo Medeiros,
a segunda Ana Amélia de Araújo Medeiros, e sua última esposa foi Otávia Benigna de
Medeiros. Desses três matrimônios foram gerados 16 filhos. Júlia Medeiros é filha do
segundo casamento, e nasceu em 31/08/1896. Sua mãe morreu em 1902, proveniente de
problemas na gravidez.
Generina Vale, por sua vez, nasceu em Caicó, no dia 30 de outubro de 1897, era
filha de Belmira Benigna Vale e Manoel Gonçalves de Medeiros Vale. Ela era sobrinha de
Olegário Vale que esteve a frente do Poder Executivo de Caicó entre 1882- 1890, foi
Comandante do Corpo da Polícia Militar, Delegado, advogado, abolicionista e republicano
e redator do Jornal “O Povo”. Esse jornal era de propriedade de José Bernardo de
Medeiros e foi utilizado por Manoel Gonçalves de Medeiros Vale, irmão de Olegário Vale
e pai de Generina Vale para fazer propaganda do seu comércio a Casa Apolo e dos
serviços prestados pelo mesmo, já que o mesmo além de comerciante também era
advogado sendo incumbido “[...] de preparar todos os documentos precisos para o
levantamento de empréstimos sob hipoteca de prédios urbanos e rurais, perante o Banco
Emissor de Pernambuco. Podendo para isso ser procurado em sua casa de residência a
Praça do Mercado nesta cidade”(MEDEIROS, 2009, p.173).
No entanto, Manoel Medeiros Valle morreu, em 1906, e a viúva Belmira Benigna
Valle, conhecida por todos por D. Sinhá Vale, transformou sua casa em uma hospedaria,
além de fornecer refeições a vultos destacados da cidade, a exemplo do padre e do Juiz
de Direito da Comarca. E foi desse modo, que o Juiz de Direito Augusto Carlos de
Vasconcelos Monteiro, conheceu a jovem Maria Valle, irmã mais velha de Generina Vale,
casando-se com ela no dia 30 de março de 1911, antes mesmo dela completar 16 anos.
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Em 1912, Augusto Monteiro foi eleito deputado federal e em 1914 foi transferido
para o Acre para assumir o poder executivo daquele estado. Entretanto, em 09 de março
de 1919 ele morreu em uma viagem de Manaus (AM) com destino a Natal, vítima da gripe
espanhola.
Sua esposa que se encontrava em Goianinha, conforme o senhor Francisco de
Assis Medeiros nos relatou “[...] enfrentou a tragédia de vir para Caicó como uma pessoa
viúva [...]” e foi morar com sua mãe e os irmãos Olegário Valle e Generina Valle. Viúva e
com duas filhas para criar, a exemplo de sua mãe, a mesma organizou-se para
desempenhar o ofício de modista, chegando a ir “[...] a Recife exclusivamente fazer um
curso de corte e costura” (ROCHA NETO, 2007, p. 106) e instalou um ateliê de alta
costura em casa, sendo Generina Valle a responsável pelo trabalho burocrático.Segundo
as irmãs Eldy Monteiro e Maria Euza Monteiro de Araújo, Júlia Medeiros:
[...] foi [...] às vezes manequim para D. Maria Vale, pois ela recebia muita costura
de fora; as pessoas mandavam as medidas e como queria, e às vezes pra dar
uma prova botava [...] em dona Julia. Dona Julia tinha o corpinho assim de uma
pessoa “normal”.
Nesse sentido, podemos dizer que Júlia Medeiros e Generina Vale eram
descendentes de famílias tradicionais, tiveram suas vidas marcadas pela orfandade, eram
contemporâneas, amigas, solteiras e trabalhavam fora. Também não podemos deixar de
ressaltar que elas podem ser compreendidas como figuras em transição. Ou seja, elas
nasceram no final do século XIX, período em que os intelectuais e políticos se voltavam
para colocar o país em compasso com o ritmo europeu realizando a passagem de uma
sociedade dita tradicional, agrária e escravista para uma sociedade definida como
moderna, urbana e capitalista. Assim, os impulsos de modernização nas primeiras
décadas do século XX, compuseram um modo de vida diferente, que solicitava
modificações e novas peculiaridades em todos os setores da sociedade, ou seja:
[...] a modernidade trouxe consigo novas formas de governar as cidades, os
espaços, a vida das pessoas, seus corpos e seus movimentos. Ela trouxe também
sua inconsistência entre os princípios de liberdade-igualdade e controleconformação, pois, ao mesmo tempo em que pretendia liberar a sociedade, o
indivíduo e a cultura de vínculos e tradições , fez funcionar minuciosas engrenagens
e micro-poderes que passaram a agir sobre os sujeitos assujeitando-os segundo um
modelo socialmente definido e aceito, a partir de várias instituições [...] ( MAIA,
2007, p. 05).
Neste contexto, a antropóloga Regina Abreu discutiu a passagem de Miguel
Calmon pela Escola Politécnica no final do século XIX, destacando a relação que o
processo de modernização gerou na individualização dos sujeitos. Nesse sentido, ela
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enfatizou que na Europa medieval não existia escolas para crianças e o processo de
socialização e de aprendizagem se dava durante a execução dos ofícios em conjunto com
os adultos. Daí o aparecimento das escolas ser considerado um marco de intenção
individualizante.
Elas vão constituir o espaço público onde crianças – indivíduos em formação –
passariam a travar contato, se relacionar num mundo de indivíduos. Sob esse
prisma, a escola foi se opondo à casa- espaço da hierarquia, onde a criança se
encontra subordinada a uma ordem predeterminada [...] Nas sociedades modernas,
a escola configura o primeiro passo para a longa trajetória dos indivíduos,
fornecendo as chaves, introduzindo o aprendiz nas novas regras de um mercado
onde indivíduos autônomos e livres terão que transacionar e disputar. No
individualismo, a concepção de público foi cada vez mais distanciando-se [...] à de
privado, e associando-se à idéia de um amplo mercado de circulação de indivíduos.
(ABREU, 1996, p.89-90)
Neste sentido, a exemplo de Miguel Calmon, a ida de Júlia Medeiros para Natal e
seu ingresso na escola pode ser vista como a “[...] passagem [da mesma] de um mundo
hierarquizado (a família) para um mundo individualizado (a nação-coletivo de indivíduos)”
(ABREU, 1996, p. 90). Já Generina Vale realizou seus estudos no Grupo Escolar Senador
Guerra. É importante destacar que Caicó foi uma das primeiras cidades a ingressar na
campanha de expansão da oferta de ensino, sendo contemplada com a construção do
Grupo Escolar Senador Guerra. Apesar de ter sido um empreendimento do Prefeito Cel.
Joel Damasceno, a construção viabilizou-se através de recursos estaduais. O Grupo
Escolar Senador Guerra foi criado pelo Decreto nº 189 de 16 de fevereiro de 1909. Neste
período quem ocupava o governo do Estado era Alberto Frederico de Albuquerque
Maranhão, o qual atendeu o pedido do Cel. Joaquim Martiniano Pereira, então prefeito de
Caicó. “Coube ao Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, na época exercendo
interinamente o cargo de Diretor-Geral da Instrução Pública do Estado, instalá-lo
solenemente”. (MEDEIROS, 2003, p.38). O Grupo Escolar começou a funcionar em 2503-1909, nos salões da Intendência Municipal e no governo de José Augusto ganhou
sede própria no ano de 1925 onde permanece até o presente momento.
Neste sentido, a partir do discurso de modernização a tarefa das escolas foi
reformulada e designada a excitar valores tais como a condição própria de cidadão
brasileiro, a disciplina, a força física, o trabalho, a moderação na alimentação e a
moralidade, bem como ensinar assuntos usuais, a exemplo da matemática e da língua
francesa, demonstrando, assim, que as escolas tinham a missão de preparar tanto
profissionais habilidosos, como sujeitos capazes de pôr os interesses da nação acima dos
seus próprios interesses pessoais, necessários ao desenvolvimento da economia e à
segurança da nação, ou seja:
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Cabe às escolas formarem crianças fortes, sadias, esportivas, bem preparadas
em matemática, francês, aptas a se tornarem engenheiros, técnicos, capitães da
indústria, suficientemente inteligentes para transformarem o Brasil num grande
país industrial, comercial, de ‘homens práticos’. Emerge uma nova cartografia de
saber baseada nos ‘modos de produção capitalista’, nos valores da ordem do
capital, das ‘semióticas monetárias’, funcionando mediante um modo de
subjetivação (OLIVEIRA, 2002, p.240, grifos do autor).
Assim, a partir dessa passagem, nos questionamos em um país que deveria ser
formado por ‘homens práticos’, que lugar(es) as mulheres deveriam ocupar? Conforme
José Murilo de Carvalho no Brasil, as mulheres não foram reconhecidas com a
proclamação da República. Para isso, o autor faz uma comparação entre a representação
da República na figura de uma mulher na França, onde ela é evocada a partir da figura de
Marianne sendo no Brasil, freqüentemente, evocada a partir da figura de Maria; assim, no
primeiro momento o autor discute a simbologia presente em Marianne e sua criação,
possuindo como apoio algumas reproduções feitas por artistas franceses do século XVIII,
para depois apresentar como essa reprodução da República-mulher se situou no Brasil.
O empenho inicial foi dos caricaturistas da imprensa periódica, a maior parte
atraída pela República, porém os pintores positivistas foram os únicos a persistirem na
experiência de empregar a mulher como símbolo patriótico, mas, como ocorrido na
França, à representação feminina logo passou a ser empregada para chacotear a
República. Também prontamente os caricaturistas brasileiros começaram a empregar a
figura feminina para ridicularizar a República.
No nosso país, as inquietações em nome dos direitos das mulheres só vieram
aparecer em meio aos grupos anarquistas das primeiras décadas do século XX, os quais
exigiam, do mesmo modo como em outros países, melhores condições de trabalho e de
vida. Neste sentido, as mulheres das primeiras décadas do século XX vão ganhando
espaço e prestígio nas ruas, nas fábricas, nos escritórios e no comércio; o trabalho fazia
com que elas conquistassem autonomia individual, autonomia esta que no século XIX era
quase impossível de ser vivida, pois a mulher estava ainda “presa aos grilhões”
masculinos. Entretanto, conforme Rago (1997), essa autonomia não era tão fácil assim de
ser conquistada no início do século XX, já que
as barreiras enfrentadas pelas mulheres para participar do mundo dos negócios
eram sempre muito grandes, independentemente da classe social a que
pertencessem. Da variação salarial a intimidação física, da desqualificação
intelectual ao assédio sexual, elas tiveram sempre de lutar contra inúmeros
obstáculos para ingressar em um campo definido – pelos homens – como
‘naturalmente masculinos’. Esses obstáculos não se limitavam ao processo de
produção; começavam pela própria hostilidade com que o trabalho feminino fora
do lar era tratado no interior da família. Os pais desejavam que as filhas
encontrassem um ‘bom partido’ para casar e assegurar o futuro, e isso batia de
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frente com as aspirações de trabalhar fora e obter êxito em suas profissões
(RAGO apud DEL PRIORI, 1997, p.581-582).
Diante dessa realidade, o ingresso da mulher no mercado de trabalho teve grande
ímpeto sob suas expectativas de desempenho a partir do final do século XIX. Deixar o
ambiente familiar para estudar ou para assegurar uma formação mais sólida de
autonomia financeira e subjetiva, transformava-se em algo cada vez mais freqüente.
Ainda segundo Rocha Neto (2005), nas primeiras décadas do século XX, várias
mulheres buscaram realizar uma revolução nas atitudes, exigindo a participação no
espaço público, assim a luta feminina começou a ganhar força com o movimento das
sufragistas.
Nesse sentido, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino conduzida pela
bióloga Bertha Lutz e as sufragistas acharam no senador Juvenal Lamartine um aliado na
batalha pelo voto. Assim, o movimento implicou numa lei que aprovava, no Rio Grande do
Norte, o cadastro de eleitores sem diferença de sexo. Como decorrência, desse processo
Júlia Medeiros se tornou a primeira eleitora de Caicó no ano de 1928.
Albuquerque Júnior (2001) ressalta que as transformações ocorridas no país, no
início do século XX, comprometeu a visão dos homens da região Nordeste, acabando por
restringir seu espaço de ação. Assim, nesse processo de mudanças sociais “[...] as
mulheres começavam a ocupar lugares que antes não eram a elas destinados”
(ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001, p. 97).
O autor ainda destacou que a urbanização e o peso de uma nova sociabilidade
parece levar a diminuição dos espaços dos homens, ao mesmo tempo que os limites do
mundo se abrem para as mulheres. Ou seja, nas primeiras décadas do século XX, as
mulheres passaram a ser mais reconhecidas por parte da sociedade. No entanto, não nos
iludamos, pois o preconceito contra elas continuou por um longo tempo; mas, apesar do
preconceito tornar o cotidiano delas bastante difícil, as mulheres, por exemplo, da elite e
da classe média, que viviam nas cidades, passaram a encurtar as saias e os vestidos, a
descobrir o pescoço e os braços, a usar cabelos mais curtos e tornar a silhueta mais
delgada, seguindo, assim, as regras da moda francesa; com isso mulheres passavam a
abandonar as roupas escuras, simples e bem-comportadas.
Iranilson Buriti de Oliveira ainda nos lembra que após a década de 1920, as
mulheres em Recife começaram a realizar verdadeiras corridas “[...] às modistas, aos
estilistas e aos magazines, obedecendo aos frêmitos do tempo presente e registrando o
último sucesso em Londres ou Paris [...]” (OLIVEIRA, 2002, p.67). Em Caicó, como já
discutimos acima, a mais renomada e procurada modista foi a senhora Maria do Vale
13
Monteiro, irmã de Generina Vale. Ainda é significante afirmar que esse caminho da
moda Paris/ Londres – Recife - Caicó representa o processo de passagem do antigo
regime para o capitalismo industrial, no qual o Estado-Nação ocupou um lugar
significativo, suscitando a necessidade de atrair mercados mundiais gerando uma forte
circulação de traços culturais, que procedia dos países centrais, condutores do processo,
e conseqüentemente possuidores de forte prestígio e ímpeto nas culturas locais. Ainda
podemos dizer que a moda estava ligada, diretamente, aos ideais de liberdade de uma
nova geração que lutava pela emancipação feminina.
Maria Julieta Dantas de Faria, sobrinha de Júlia Medeiros, nos revelou em
entrevista, que sua tia ia ao Rio de Janeiro com certa freqüência visitar suas duas irmãs
que moravam lá e possivelmente a sua amiga Bertha Lutz com quem a mesma sempre se
comunicava por cartas.
Sua sobrinha ainda lembrou que uma dessas irmãs era modista e quando esta
voltava do Rio de Janeiro sempre trazia roupas muito bonitas confeccionadas pela sua
irmã, além de bolsas e sapatos de couro revestido com um tecido “diferente” para os
padrões da época na cidade. Vestida assim, Júlia Medeiros ia ministrar suas aulas no
Grupo Escolar Senador Guerra, freqüentava o Cine-Theatro Avenida, o Café Commercial,
as praças públicas da cidade, recebia autoridades como a feminista Bertha Lutz e o
presidente Getúlio Vargas, discursava em público e viajava.
Também é importante destacar que conforme relatos do Monsenhor Antenor
Salvino de Araújo, Júlia Medeiros foi à primeira mulher em Caicó a usar costas nua e usar
cor preta simbolizando luxo. Ou seja, ela pactuava com os deslumbramentos modernos
de veneração ao físico, ajudada pelos feitios de independência empregados pelo discurso
feminista.
Mas, o que defendia o discurso feminista? Conforme Perrot (2007, p.162) o
feminismo, foi um movimento social que “[...] constituiu as mulheres como atrizes na cena
pública, que deu forma a suas aspirações, voz a seu desejo. Foi um agente decisivo de
igualdade e de liberdade. Logo de democracia.” O feminismo surgiu no final do século
XIX, vindo se fortalecer entre as décadas de 1960 e 1970. Nesse sentido, podemos dizer
que o feminismo é um movimento social que pregava a liberdade e a igualdade da mulher
em relação à figura masculina.
O discurso feminista se constitui como uma ‘nova’ forma de dizer o feminino e o
masculino de pensar as relações de gênero. Dentro dessa formação discursiva é
possível ver diferentes maneiras de definir a mulher e o seu outro, geralmente, o
masculino.(SILVA, 2005, p.108).
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Ou seja, a feminilidade e a masculinidade não são determinadas
naturalmente por relações biológicas, pois como nos lembra Michel Foucault (2003) em
sua obra “História da Sexualidade: vontade de saber ” a sexualidade é um ‘dispositivo
histórico’, ou seja, a sexualidade é uma criação social, que se forma historicamente por
meio de muitos discursos sobre o sexo; discursos que têm o poder de estabelecer
normas, de regular e de organizar saberes, produtores/construtores de “verdades”. Desse
modo, questionamos: como as mulheres eram vistas pelo discurso feminista?
Segundo a historiografia, o discurso feminista exige que homens e mulheres
possuam exatamente os mesmos direitos no trabalho, na família e na política. Para isso,
há o combate à concepção de que a mulher é um ser inferior e submisso ao homem, ou
seja, o discurso feminista defendia a liberdade e a igualdade com o homem; para isso,
elas enfrentavam a segurança pública, e defendiam:
[...] uma mulher profissionalmente ativa e politicamente participante, comprometida
com os problemas da pátria, que debatia questões nacionais [e que] certamente
teria melhores condições de desenvolver seu lado materno (RAGO apud DEL
PRIORI, 2001, p.590)
No entanto, apesar de todas essas transformações, ainda predominava na
sociedade os valores masculinos. Assim, para os homens da mesma época as mulheres
deveriam ser libertadas da categoria de escrava do lar, entretanto o seu campo de ação
estaria restringido a este espaço, como esposa, mãe e dona-de-casa.
Também, nesse período é veiculada a “[...] idéia de incompatibilidade entre
casamento e trabalho remunerado para as mulheres, ou entre a constituição biológica do
corpo feminino para certas profissões e cursos de profissionalização [...]” (MAIA, 2007,
p.24). Assim, as únicas mulheres que podiam exercer trabalho remunerado eram as
solteiras, as viúvas e as casadas mediante a autorização.
Ainda devemos destacar que certas profissões eram vistas como indispensáveis ao
‘progresso social’ a exemplo, da profissão de professora que passou a ser considerada a
mais apropriada para as mulheres. Nesse sentido, a mulher passou a ser considerada
como meio potencial para o progresso, e como a grande responsável em aperfeiçoar a
mais ilustre tarefa de sua vida: educar o indivíduo. Compreensão esta que vinha da forte
necessidade de ordenar o Brasil.
Nesse contexto, a Escola Normal desenvolveu uma influente função na constituição
e profissionalização feminina. Conforme Marta Maria de Araújo, a Escola Normal (1979)
estava vinculada à questão do ensino primário, em razão do interesse pela
15
democratização da cultura e pela preocupação com o elevado índice de analfabetismo
da população.
Compreendemos, desse modo, que a Escola Normal foi instituída com a finalidade
de melhorar as questões educacionais, produzindo formas para solucionar a questão da
necessidade de formação de professores, criando assim probabilidades das mulheres
agirem no campo educacional. Deste modo, as professoras educadas nestes
estabelecimentos de ensino, iriam desempenhar seu papel nas escolas primárias
públicas.
Ainda é importante ressaltar que atuação da mulher no ensino primário só se deu
em razão da docência ser vista como uma continuidade das funções domésticas. Assim, a
profissão de Júlia Medeiros lhe impôs prestígio.
Ao concluir o curso a mesma retornou a Caicó com o projeto de fundar um
externato para crianças. “Não tendo concretizado o seu desejo, tornou-se inicialmente
professora particular na residência da irmã Julieta Medeiros, onde havia se hospedado”.
(ROCHA NETO, 2006, p.54). Meses depois, foi aprovada no exame de admissão e entra
para o quadro pedagógico do Grupo Escolar Senador Guerra, e começa a ensinar em 01
de julho de 1926. Juntamente com a professora Maria Leonor Cavalcante – co-autora do
Jornal das Moças (1926-1932)2. E, em novembro de 1926, ela assume a redação do
jornal.
Também Generina Vale substituiu sua mãe na Agência dos Correios de Caicó e
posteriormente segundo relatos das irmãs Eldi Monteiro e Euza Monteiro ela assumiu a
gerencia do Banco Rural na década de 1940.
[...] a Assembleia Geral do Banco [...] corria, geralmente, no mês de março para
analisar as contas do exercício anterior. Iolanda Dantas, nessa época, era a
pessoa que trabalhava no Banco Rural[...] Era só ela e o Coronel Celso Dantas
era o presidente. Mas Iolanda pediu pra sair e sugeriram Dona Generina para ser
a gerente. Dona Generina assumiu em março a gerência do Banco Rural.
Trabalhou até se aposentar [...].
É importante ainda ressaltar que Generina Vale também era solteira. A idéia de
“solteirona” surgiu no final do século XIX, quando as mulheres passam a ocupar de modo
mais ativo o mundo do trabalho remunerado, espaço até então ocupado pelos homens. A
sociedade da época cobrava que “[...] toda mulher deveria se casar, caso contrário, ficaria
no ‘caritó’”. (ROCHA NETO, 2002, p.66). Caritó era uma espécie de prateleira presente
2
Fundado em 07 de fevereiro de 1926, se voltava para o público feminino.
16
nas residências sertanejas, onde eram guardados pequenos objetos passando a ser
visto no imaginário popular como o local onde ficavam as mulheres que não casavam.
Conforme a historiografia local as mulheres, quando solteiras eram dependentes do
pai, que escolhia com quem elas deveriam casar-se. Na ausência paterna, o irmão mais
velho assumia esse papel. O matrimônio representava, para a mulher, uma provável
emancipação a qual, na verdade, versava somente uma permuta de tutelas, do pai para o
marido. Quando alguma mulher, de classe inferior, praticava relações sexuais antes do
casamento essas, geralmente, caiam no mundo da prostituição. Já as mulheres de
classes mais abastadas, passavam a ser discriminadas na sociedade e na família,
constituindo-se como um ser infame. Ainda é importante ressaltar que havia diferentes
normas de procedimento feminino.
No tocante, a educação Muirakytan Kennedy de Macedo (2005) ressalta que no
ano de 1830, na Vila do Príncipe na escola das primeiras Letras só haviam 28 meninas
matriculadas. Omitindo-se assim, uma educação voltada para o aprendizado dos afazeres
domésticos e quando muito algumas noções de conteúdo escolar. Ainda é importante
lembrar que no espaço escolar as meninas eram afastadas dos meninos. A demarcação
dos espaços públicos era uma extensão da casa. Conforme Rocha Neto (2005, p.49), os
espaços públicos admitidos “[...] às mulheres eram a igreja , quando havia cerimônias
religiosas, casamentos, batizados e os eventos sociais, como os bailes, a festa de
Sant’Ana”. Entretanto, apesar da igreja ser o espaço permitido às mulheres mesmo assim,
existia segregação.
Na igreja, as mulheres sentavam do lado esquerdo, não podendo ter nenhuma
atuação no que se referisse a ler, a distribuir comunhão, e auxiliar o padre nos
rituais. Sua função era de zeladora, cantora, catequista, cuidando ainda dos
objetos de cultos e paramentos. (ROCHA NETO, 2005, p.49).
Também encontramos tanto na historiografia local quanto na memória oral a idéia
de uma educação baseada no recato, como falar baixo, vestir-se elegantemente, servir-se
bem à mesa, sentar com as pernas juntas e não cruzá-las na igreja. Assim, a senhora
Maria do Rosário Araújo Vale, afilhada de Generina Vale, lembra que quando ela tinha por
volta de 12 anos a senhora Generina Valle dizia a ela que :
[...] [eu] tinha que sentar direito, que moça não era para ficar gritando na praça
pois, eu já estava ficando uma mocinha . Eu dizia tia Generina é que eu estou
brincando de barra bandeira. Aí a gente tem que gritar. Mas, ela dizia: ‘É muito
feio, não grite mais não!’Aí, eu dizia então eu vou parar de brincar barra bandeira.
Aí, justamente quando eu brincava na praça eu não gritava que era para ela não
me ver gritando.
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A partir desse relato constatamos que apesar da senhora Maria do Rosário Araújo
Vale ter nascido no ano de 1958 D. Generina Vale, queria que sua afilhada possuísse a
mesma educação que ela teve nas primeiras décadas do século XX.
É importante
destacar que Generina Vale nasceu em 1897 e cresceu no momento em que a República
se estabelecia no Brasil, e com ela um padrão que ainda inseria uma moral que se
baseava nos antigos conhecimentos e atitudes que colocavam a mulher no que seria o
seu “devido lugar”. É também significante ressaltar que tanto o sistema de idéias judaicocristã como o positivismo definiram o padrão de comportamento feminino. Entretanto,
podemos dizer que apesar de Generina Vale ter possuído
juntamente com Júlia
Medeiros, entre outras, uma educação voltada para submissão da mulher elas foram
apresentadas, por Moacy Cirne, como mulheres fortes que ajudaram a tecer a história de
Caicó.
Também é oportuno destacar que ambas morreram no ano de 1972 e foram
homenageadas no ano posterior. A primeira foi Generina Vale conforme o ex-prefeito
Francisco de Assis Medeiros não existia em Caicó nenhuma rua com nome feminino daí a
idéia de renomear a Rua São José por Rua Generina Vale. O ex-prefeito ainda nos
relatou em entrevista que a população foi informada aceitando de bom grado a alteração.
Entretanto, não é difícil encontrarmos pessoas em Caicó que na época e até hoje
desconhecem quem foi a homenageada e as razões da alteração. Uma outra rua que teve
seu nome alterado com nome feminino, no ano de 1973, foi a Rua 6 de Julho para Rua
Júlia Medeiros. Conforme, o Senhor Adauto Guerra Filho nos relatou o mesmo morava
nessa rua na época em que o nome foi alterado. Ele ainda nos informou que um dos seus
tios construiu algumas casas daquela rua e em razão disso, disse um dia ao sobrinho: ‘Se
eu fosse rico essa rua ia ter meu nome’. Podemos dizer que com essa frase o tio do
senhor Adauto Guerra Filho atentou para o fato do poder público nomear os logradouros
com nomes de pessoas que pertencem a burguesia e que se destacam na cidade por
está conforme os paradigmas do poder político e econômico.
A partir desses dois casos também podemos constatar que a ausência de ruas com
denominação feminina em Caicó ate o ano de 1973 demonstra que a mulher não era
considerada uma força construtiva do poder local. Também foi verificado que os
topônimos anteriores eram um hagiotopônimimo e um historiotopônimo, ou seja, nenhum
dos dois topônimos homenageavam pessoas, no caso do sexo masculino.
Ainda
podemos dizer que o ex-prefeito ao alterar o topônimo Rua São José para Rua Generina
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Vale possibilitou que uma das ruas principais da cidade de Caicó ganhasse
denominação feminina.
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FONTES
JORNAL DAS MOÇAS, 15/07/1927
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