Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 a revista do conhecimento humano publicada pela FACID Teresina - PI Semestral ISSN 2358-3142 Página 1 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Página 2 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 a revista do conhecimento humano publicada pela FACID Teresina-PI As opiniões e artigos expressos aqui são de inteira responsabilidade dos autores. Periodicidade Semestral Rua Veterinário Bugyja Brito, 1354 - Horto Florestal CEP: 64052-410 • Teresina (PI) • Brasil Fone: (086) 3216-7900 / 3216-7901 www.facid.edu.br Página 3 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Revista Facid http://www.facid.edu.br [email protected] Editor - responsável Cyntia Maria de Miranda Araujo Projeto Gráfico Castino Martins da Silveira Revisão Antonia Osima Lopes, Cyntia Maria de Miranda Araujo, Maria Rosilândia Lopes de Amorim. Jornalista Responsável Marcos Sávio Sabino de Farias - MTB 1005 Impressão Gráfica Capa Amanda Paiva e Silva Martins Catulo Coelho dos Santos George Mendes Ribeiro Sousa Juciara Freitas Ribeiro (ex-alunos do Curso de Publicidade e Propaganda da FACID) Revista Facid: Ciência & Vida / Faculdade Integral Diferencial. V. 9, N. 2, 2013 / Teresina: FACID, 2013. Semestral ISSN 2358-3142 1. Pesquisa científica. 2. Desenvolvimento científico. CDD 509 CDU 001.891 Página 4 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 a revista do conhecimento humano publicada pela FACID Teresina-PI FACID - Faculdade Integral Diferencial Integral - Grupo de Ensino Superior do Piauí S/C Ltda. Maria Josecí Lima Cavalcante Vale Diretora Geral Lucia Cristina Gauber Coordenadora Geral Acadêmica Cyntia Maria de Miranda Araujo Coordenador de Pesquisa e Pós-Graduação Conselho Editorial da Revista Antonia Osima Lopes Cyntia Maria de Miranda Araujo Hilris Rocha e Silva Isabel Cristina Cavalcante Moreira Maria do Carmo Bandeira Marinho Maria Josecí Lima Cavalcante Vale Nayana Pinheiro Machado de F Coelho Nivia Maria Ribeiro Rocha da Cunha Thais Barbosa Reis Valéria de Deus Leopoldino de Arêa Leão Conselho Consultivo Ana Célia Sousa Cavalcante - Benício Parentes de Sampaio Divana Maria Martins Parente Lira - Helder Ferreira de Sousa Página 5 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Izânio Vasconcelos Mesquita - José Guilherme Ferrer Pompeu José Carlos Formiga - Joseli Lima Magalhães Luis Nódgi Nogueira Filho - Maurício Batista Paes Landim Morgana Moreira Sales Maria Helena Barros Araújo Luz - Neiva Sedenho de Carvalho Sérgio Ibiapina Ferreira Costa - Tony Batista Waldília Neiva de Moura Santos Cordeiro Bibliotecária Marijane Martins Gramosa Vilarinho - CRB/3 – 1059 Página 6 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 EDITORIAL Página 7 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Página 8 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 EDITORIAL Apresenta-se nessa edição artigos que refletem a importância da pesquisa científica no avanço das decisões sobre eventos relacionados à saúde e a uma visão mais profunda dos problemas humanos. É inegável a importância da ciência na vida do homem contemporâneo, mesmo sendo ela, uma faca de dois gumes, não se pode ignorar que ela já salvou mais vidas do que as que se perderam. A..ciência hoje é uma maneira de pensar. Os estudos que compõem esta edição são os resultados das pesquisas cuidadosamente preparados e comunicados de uma maneira competente e atraentes. Trazem, informações relevantes com diferentes estratégias para auxiliar a compreensão de problemas, que ajudem a pensar e a conhecer a realidade , realidade esta, que costuma ser bastante complexa . Portanto os desafios atuais do exercício profissional exigem uma atitude indagativa, responsiva e sistemática já que as soluções para as questões não são óbvias. Trata-se de estudos relevantes. Pois neste editorial pensávamos realizar uma tarefa especialmente importante neste momento de renovação, voltar aos ideais que nos impulsionam , abrir possibilidades, ampliar e estender os espaços já conquistados. Espero, ainda, que seja de leitura agradável, pois dediquei meus esforços a isso. Ao terminar , transcrevo a frase do anatomista , Andreas Vesalius, 1514-1564. “Adeus, e faça bom uso de nossos bem-intencionados esforços” Cyntia Maria de Miranda Araujo Editor - responsável Página 9 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Página 10 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 SUMÁRIO Página 11 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Página 12 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 SUMÁRIO ARTIGOS PERFIL DAS URGÊNCIAS NOS PACIENTES PEDIÁTRICOS COM ANEMIA FALCIFORME EM DOIS HOSPITAIS PÚBLICOS DE TERESINA Daniella Denise Ribeiro Moura, Carlos Leonardo Evangelista Bento dos Santos............ 17 – 23 SATISFAÇÃO DO USUÁRIO DURANTE O TRATAMENTO ORTODÔNTICO EM UMA CLÍNICA PRIVADA EM CAMPO MAIOR – PI. 2013. Roselane Carvalho Bona Ramos, Acácia Mª Peixoto Ezequiel......................................... 24 – 34 TRATAMENTO CIRÚRGICO DA SÍNDROME DO TÚNEL DO CARPO: TÉCNICA ENDOSCÓPICA VS TÉCNICAMINI-OPEN: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA. Ciro José Cavalcante Nascimento; Alcimor Veras Viana................................................. 35 – 45 A ATUAÇÃO DO ESTADO NO TRATAMENTO JURÍDICO PENAL DO PSICOPATA OU PESSOA PORTADORA DE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL Ana Klenia Pereira de Sousa; Wirna Maria Alves da Silva.............................................. 46 – 54 HIPERBILIRRUBINEMIA NEONATAL: CONSIDERAÇÕES SOBRE FISIOPATOGENIA, MODALIDADES TERAPÊUTICAS E COMPLICAÇÕES Aurimar Bezerra Melo de Sousa; Danielly Savanna Lustosa Sena................................... 55 – 63 PERFIL DAS MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA DOMESTICA Ana Cláudia de Moura Barros; Joaquim José Marques da Silva..................................... 64 – 72 SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA ASSOCIADA À SEDOANALGESIA EM UNIDADES DE TERAPIA INTENSIVA PEDIÁTRICAS Emanuelly Olívia Queiroz de Maniçoba; Carlos Leonardo Evangelista Bento................... 73 – 82 FATORES DE RISCO PARA QUEDA EM IDOSOS ASSISTIDOS POR UMA EQUIPE DE SAÚDE DA FAMÍLIA Joana Elisabeth de Sousa Martins Freitas; Patrícia Borges da Fonseca Neto................... 83 – 92 LESÕES PRÉ-CANCEROSAS DE COLO UTERINO RASTREADAS POR UM LABORATÓRIO PÚBLICO DE REFERÊNCIA NO PIAUÍ Tércio da Silva Soares; Maria do Socorro Sousa Alves Barbosa..................................... 93 – 102 QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO E DIREITOS FUNDAMENTAIS Herberth dos Santos Silva; Willame Parente Mazza........................................................... 103 - 114 Página 13 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 A VEDAÇÃO DA PROVA ILÍCITA NO PROCESSO PENAL - ESTUDO DE CASOS: CRÍTICA A ALGUNS JULGADOS DA SUPREMA CORTE AMERICANA Nilvania Rodrigues da Silva; Wirna Maria Alves da Silva................................................. 115 - 122 PERFIL CLÍNICO DE PACIENTES COM CÂNCER DE PÊNIS SUBMETIDOS À LINFADENECTOMIA INGUINAL RADICAL Bruno Diego Meneses Brandao e Mendes; Giuliano Amorim Aita................................... 123 - 132 NORMAS EDITORIAIS ................................................................................................. 135 Página 14 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 ARTIGOS Página 15 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Página 16 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 PERFIL DAS URGÊNCIAS NOS PACIENTES PEDIÁTRICOS COM ANEMIA FALCIFORME EM DOIS HOSPITAIS PÚBLICOS DE TERESINA A PROFILE OF URGENCIES IN PEDIATRIC PATIENTS WITH SICKLE CELL ANEMIA IN TWO PUBLIC HOSPITALS IN TERESINA Daniella Denise Ribeiro Moura1, Carlos Leonardo Evangelista Bento dos Santos2 RESUMO Anemia falciforme é uma doença crônica caracterizada por uma alteração no gene 6 da β globina, resultando na formação de uma hemoglobina anormal, chamada hemoglobina S. O paciente falcêmico pode apresentar manifestações desde os 6 meses de idade e ter subsequentes internações ao longo da vida. Essa doença tem elevada morbimortalidade e a maioria dos óbitos se concentra em faixa etária jovem, dos quais 37,5% ocorrem antes dos nove anos de idade. Objetivou-se com esta pesquisa analisar o perfil das urgências nos pacientes pediátricos com anemia falciforme. Para isso, foi realizado um trabalho de natureza retrospectiva com abordagem quantitativa, avaliando prontuários de crianças e adolescentes, de 0 a 14 anos, internados por urgências decorrentes da anemia falciforme de 2009 a 2012 em dois hospitais públicos de Teresina—PI. A análise dos dados acerca do perfil epidemiológico destes pacientes foi feita considerando-se estas variáveis: idade, gênero, raça, procedência e tipo de urgência. Os resultados encontrados revelaram que a maioria dos pacientes pediátricos com anemia falciforme apresentaram crise álgica (45,5%) ou infecção (24,4%) como motivo da internação, com idade prevalente entre 5 e 10 anos (53,7%), pertencentes ao gênero masculino (65,9%) e procedentes do interior do Piauí (55,3%). Concluiu-se com esse trabalho que a urgência mais frequente nos pacientes pediátricos falcêmicos foi crise álgica, bem como a maioria pertencia ao gênero masculino com faixa etária entre 5 e 10 anos procedente do interior do estado. Palavras-chave: Pediatria. Anemia falciforme. Perfil epidemiológico ABSTRACT Sickle cell anemia is chronicle disease characterized by a modification in gene 6 from β globine, resulting in abnormal hemoglobin formation, called hemoglobin S. A patient with sickle cell anemia may show manifestation since 6 months old and subsequent hospital admission throughout life due to sickle cell anemia complications. This sickness has high morbid-mortality and major deaths concentrate in young age group, which 37,5% occur before nine years old. This work has as general objective analyze a profile of urgencies in pediatric patients with sickle cell anemia. Specific aims were: detect which urgency is more often in pediatric patients with sickle cell anemia and correlate age, gender, ethnics and origin, with urgency that has taken him to admission. In this regard it was held a retrospective nature work with qualitative approach, evaluating 123 children and adolescent medical records ranging from 0 to 14 years old, admitted because of urgencies resulting from sickle cell anemia from 2009 to 2012 in two public hospitals in Teresina-PI. Data analysis about epidemiological profile of these patients was done regarding these variables: age, race, origin, and 1 Aluna de Graduação (10o Período) do Curso de Medicina da Faculdade Integral Diferencial – FACID. Email: [email protected] Avenida Senador Area Leão, 2600. São CristóvãoCEP:64049-110 – Teresina – PI 2 Especialista em Terapia Intensiva Pediátrica pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual e Professor do Curso de Medicina da FACID. Email: [email protected] Página 17 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 urgency type. Among analyzed data 69,9% patients had algic crisis(45,4%) or infection (24,4%) as reason of admission. Prevalence in age group was between 5 and 10 years old (53,7%), belonging to male gender(65,9%) and coming from Piauí countryside(55,3%). We can conclude with this work that the most frequent urgency in pediatric patients with sickle cell anemia was algic crisis, as well as, most of them belonged to male gender, they were 5 to 10 years old and came from the countryside. Keywords: Pediatrics. Sickle cell anemia. Epidemiological profile. INTRODUÇÃO A doença falciforme é a doença hematológica hereditária mais comum no Brasil e no mundo. Ocorre devido a substituição na posição 6 do gene da β globina de uma adenina por uma timina, levando a formação de valina ao invés de ácido glutâmico. Com isso, dá-se origem a uma hemoglobina (Hb) anormal, conhecida como Hb S (MARTINS et.al, 2010). Doença falciforme é um termo genérico que engloba um grupo de anemias hemolíticas crônicas. De todos os subgrupos da doença falciforme, o mais importante e prevalente é a homozigose para Hb S ou anemia falciforme (AF), que se manifesta como o quadro de maior gravidade clínica e hematológica, apresentando danos orgânicos desde a infância (ANVISA, 2002). As manifestações clínicas da anemia falciforme incluem crises dolorosas, síndrome torácica aguda, AVC, alterações esplênicas, crise aplásica, úlceras de perna, manifestações osteoarticulares, hepatobiliares e oculares, síndrome renal, complicações cardiovasculares e infecções (MOUSINHO-RIBEIRO et.al, 2008). A crise álgica é considerada como o evento mais comum e a principal causa de morbidade na anemia falciforme. Já a infecção, também considerada principal causa de hospitalização, é a principal causa de mortalidade, geralmente, ainda durante a infância (TOSTES, 2009). A anemia falciforme é uma doença crônica e o tratamento, geralmente, consiste na profilaxia e em conter as manifestações clínicas apresentadas. Por isso, é importante que o diagnóstico seja feito precocemente e que tenha um acompanhamento subsequente adequado, visto que, o ideal seria que todos falcêmicos tivessem uma avaliação periódica dos diversos órgãos e sistemas (ANVISA, 2002). Entretanto, no Piauí, apesar do Ministério da Saúde desde 2001 considerar obrigatória e gratuita a triagem neonatal das hemoglobinopatias em todo território brasileiro, a fase 2 do programa de triagem neonatal não é realizada em nosso estado. Isso retarda ainda mais o diagnóstico e tratamento adequado e, consequentemente, diminui a qualidade e expectativa de vida desses pacientes (ARAÚJO et.al, 2011). Esta pesquisa teve como objetivo geral verificar o perfil das urgências nos pacientes pediátricos com anemia falciforme e, como objetivos específicos: detectar qual a urgência mais frequente em pacientes pediátricos falcêmicos e estabelecer relação entre idade, gênero, etnia e procedência com a urgência que levou à internação do paciente. A importância dessa pesquisa reside na necessidade do conhecimento do perfil das internações da anemia falciforme, que é considerada um problema de saúde pública no Brasil pela alta morbimortalidade. Além de se tratar de uma doença de alta prevalência no Piauí e, ainda assim, negligenciada pela falta de programas assistenciais e de políticas públicas voltadas para esses pacientes. Outro ponto que justifica a realização desse trabalho é que o mesmo pode servir de subsídio para outras pesquisas. 2 METODOLOGIA O presente estudo obedeceu à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), do Ministério da Saúde, foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa - CEP / FACID, do qual recebeu parecer de aprovação registro no 252/2013 . Solicitaram-se as autorizações da Página 18 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Fundação Municipal de Saúde e da Comissão de Ética do Hospital de Referência em Urgências para realização da pesquisa e liberação dos dados contidos nos prontuários. Trata-se de uma pesquisa documental, transversal, retrospectiva de caráter descritivo e abordagem quantitativa, realizada a partir de um levantamento de dados por meio da análise de prontuários de pacientes internados nas enfermarias ou unidades de urgência de dois hospitais públicos. Foram avaliados somente os prontuários de pacientes obedecem aos critérios acima. Por se tratar de um levantamento de dados a partir da análise de prontuários e, por ser uma pesquisa indireta, não representou riscos aos sujeitos da pesquisa. Os benefícios consistem em servir como base de dados para novos estudos. O estudo envolveu 123 prontuários de pacientes pediátricos, de 0 a 14 anos, com diagnóstico prévio de anemia falciforme, internados na urgência de dois hospitais públicos — Hospital Geral do Promorar e Hospital de Urgência de Teresina, admitidos de janeiro de 2009 a dezembro de 2012. Os dados foram coletados diretamente do prontuário médico por meio de uma ficha de coleta de dados confeccionada pelo pesquisador para direcionamento das informações necessárias ao estudo. As variáveis analisadas a partir dos prontuários foram: idade, gênero, procedência e tipo de urgência. A coleta de dados foi feita em março de 2013. Os dados coletados foram analisados pelo pesquisador, tabulados no programa EXCEL 2007 (Microsof Co., 2007), tratados por meio de análise de frequências e apresentados em gráficos e tabelas. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram analisados 123 prontuários de pacientes pediátricos com diagnóstico de anemia falciforme, internados em dois hospitais públicos de Teresina. Evidenciou-se uma maior prevalência de internações na faixa etária de 5 a 10 anos, correspondendo a 53,7% dos pacientes. Enquanto, que internações em menores de 5 anos correspondeu a 28,5% e de 10 a 14 anos teve uma menor percentagem (17,9%). A faixa etária mais encontrada neste trabalho assemelha-se a estudos como: um realizado na Bahia em que 63,6% dos casos de internação por pneumonia ocorrem entre 5 e 10 anos e, outro realizado também no estado do Piauí, que apresentou uma maioria de pacientes falcêmicos com idade entre 6 e 10 anos (OLIVEIRA JUNIOR et.al, 2011; ARAÚJO et.al, 2011). Entre os pacientes internados por complicações da anemia falciforme a maioria pertence ao gênero masculino, representando 65,9% das crianças e adolescentes do estudo. Apenas 34,1% pertenciam ao gênero feminino pouco mais da metade (55,3%) dos pacientes internados eram do interior do estado, 39% da capital do estado e uma amostra muito pequena (5,7%) eram procedentes de outros estados vizinhos. Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Doença Falciforme (2009), valores de hemoglobina abaixo de 7g/dl consiste em um dos doze critérios de inclusão para diagnóstico de anemia falciforme. Todavia, sabe-se que o valor considerado basal varia de paciente para paciente. Logo, o valor de Hb encontrado durante uma crise falcêmica pode ser crítico para um paciente e basal para outro, 38,2% dos pacientes hospitalizados com intercorrências consequentes da anemia falciforme apresentaram hemoglobina abaixo de 7g/dl; 29,3% com Hb entre 7 e 10 e apenas 5,7% com valores de hemoglobina um discretamente acima de 10g/dl. Entre os prontuários avaliados, em 26,8% não foi encontrado registro de valores hematimétricos nem solicitação dos mesmos. Na população analisada, um pouco mais da metade (52%) fez uso em algum momento da internação de concentrado de hemácias. Segundo o manual de hemocomponentes do Ministério da Saúde (2008), as anemias em que o nível de Hb é superior a 10 g/dl são bem toleradas, e só excepcionalmente, requerem transfusão. Inversamente, quando a Hb é inferior a 7 g/dl existe grande risco de hipóxia tecidual e comprometimento das funções vitais. Neste caso, o paciente se beneficia com a transfusão de CH. Página 19 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Entre 7 e 10 g/dl de Hb, a indicação de transfusão fica na dependência da avaliação do estado clínico do paciente. No paciente falcêmico, como os níveis hematiométricos basais variam de paciente para paciente, a indicação de concentrado de hemácias nos mesmos depende, essencialmente, do quadro clínico e do basal para ele. Em pesquisa feita por Martins e colaboradores (2010) em Uberaba—MG, a causa mais frequente de internação foi crise dolorosa afebril e a segunda mais frequente foi infecção de vias aéreas inferiores, semelhante ao encontrado nesta pesquisa. Na amostra avaliada (gráfico 06), 45,5% apresentaram como motivo da internação episódio de crise álgica e 24,4% foram hospitalizados com algum tipo de infecção (22% por pneumonia, 0,8% por infecção de pele, 1,6% infecção de outros locais). Ambas as urgências perfazem um total 69,9% das causas que levaram à internação dos pacientes falcêmicos, ratificando o que consta na literatura nacional e internacional. Dos outros pacientes internados 0,8% foi por crise aplástica, 15,4% crise hemolítica, 2,4% acidente vascular isquêmico, 0,8% insuficiência cardíaca, 4,1% outras urgências relacionadas à anemia falciforme e 6,5% outras urgências não relacionadas à anemia falciforme, tais como, traumatismo craniano, trauma abdominal e obstrução intestinal. Algumas das manifestações da AF têm uma acentuada predominância ou estão limitadas a uma faixa etária, sendo que os mecanismos subjacentes a essa predominância etária nem sempre são evidentes (HENNEY, 2005 apud SILVA, 2009). Por exemplo, os episódios agudos de dor e inchaço de mãos e pés (síndromes das mãos e pés ou dactilite) são mais frequentes em crianças entre 6 meses e 2 anos de idade e extremamente raras após os 7 anos (PASQUINI, 2004). Assim, as insuficiências cardíaca e renal e a retinopatia são manifestações tipicamente tardias, que exigem uma longa evolução da lesão tissular para se manifestarem. Já as lesões ostearticulares em portadores de anemia falciforme podem ocorrer em todas as faixas etárias ,tornando-se menos intensas após os 30 anos. No caso do sequestro esplênico geralmente, ocorre em crianças a partir dos 5 meses de idade e raramente após os 6 anos (ZAGO et.al 2007; SANTORO, 2010). O AVC em crianças com anemia falciforme ocorre, principalmente, em pré- adolescentes e mais velhas (NELSON, 2005). Na população avaliada, os pacientes que foram internados por crise álgica (45,5%): 57,1% (32 pacientes) tinham idade entre 5 e 10 anos, 28,6% (16 pacientes) eram menores de 5 anos e 14,3% (8 pacientes) apresentaram entre 10 e 14 anos. Apenas um paciente apresentou crise aplástica (0,8%) e o mesmo tinha entre 5 e 10 anos. Os que apresentaram crise hemolítica (15,4%): 42,1% (8 pacientes) pertenciam a faixa etária entre 5 e 10 anos, 36,9% (7 pacientes) entre 10 e 14 anos e 21% (4 pacientes) apresentaram à internação idade menor que 5 anos. Aqueles que foram hospitalizados por AVC isquêmico (2,4%): 66,7% (2 pacientes) apresentavam entre 10 e 14 anos, 33,3%(1 paciente) entre 5 e 10 anos e não houve nenhum registro de criança menor de 5 anos com AVC, confirmando a prevalência dessa urgência em crianças mais velhas ou pré- adolescentes. Nas infecções (24,4%): 50% (15 pacientes) estavam entre 5 e 10 anos, 40% (12 pacientes) eram menores que 5 anos e 10% (3 pacientes) tinham de 10 a 14 anos. Dos pacientes internados por pneumonia: 55,6% (15 pacientes) tinham entre 5 e 10 anos, 37% (10 pacientes) eram menores que 5 anos e apenas 7,4% (2 pacientes) apresentava entre 10 e 14 anos; um apresentava infecção de pele e era menor que 5 anos e, dois tiveram infecção em outros locais — um com menos de 5 anos e outro entre 10 e 14 anos. Esses resultados foram semelhantes aos da literatura brasileira, que constata o risco de adquirir infecções presente desde os primeiros anos de vida. Somente um paciente foi registrado com insuficiência cardíaca (0,8%) no momento da internação e este apresentava idade entre 5 e 10 anos. Daqueles que apresentaram outras urgências relacionadas à anemia falciforme (4,1%), tais como, convulsão e insuficiência renal, três eram menores de 5 anos, um tinha entre 5 e 10 anos e um entre 10 e 14 anos. Os que haviam sido hospitalizados por outras urgências não decorrentes da AF (6,5%): 87,5% (7 pacientes) estavam entre 5 e 10 anos , enquanto um (12,5%) tinha entre 10 e 14 anos, não houve registro de crianças com menos de 5 anos no estudo quanto à esta variável. Página 20 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Como na pesquisa houve prevalência pelo gênero masculino, a maioria das urgências, se analisadas separadamente, também ocorreram prevalentemente nesse gênero. Entretanto, não há estudos que demonstrem uma ligação entre o gênero e a complicação da anemia falciforme. Percebeu-se 35 pacientes (62,5%) que apresentaram crise álgica correspondem ao gênero masculino e 21 (37,5%) ao feminino; quatorze (73,7%) dos que foram admitidos com crise hemolítica eram do gênero masculino e cinco (26,3%) do feminino; dois pacientes (66,7%) internados por AVC foi do sexo feminino e um (33,3%) do masculino; 21 pacientes (70%) internados pelas infecções eram do gênero masculino e 9 (30%) do feminino; a insuficiência cardíaca acometeu apenas um paciente na população estudada e o mesmo pertencia ao gênero masculino; entre as outras urgências relacionadas à AF 60%(3) ocorrem no sexo feminino; e das urgências não relacionadas à AF 87,5%(7) dos pacientes eram do gênero masculino. Dos pacientes que apresentaram crise álgica 50% (vinte e oito) eram oriundos do interior do Piauí, 46,4% (vinte e seis) de Teresina e 3,6%(dois) de estados vizinhos. Esses valores expressam um fato relevante: a maioria de todas as internações é decorrente de crise álgica e a maioria dos pacientes vem do interior do estado, apontando para uma precária assistência aos pacientes nos outros municípios do estado, visto que, a crise álgica pode ser tratada com hidratação e analgesia, medidas disponíveis em hospitais de pequeno porte (Tabela 03). Daqueles que tiveram crise hemolítica 73,7% (quatorze) procedia do interior do estado e os cinco restantes procediam (26,3%) de Teresina. Os pacientes internados por AVC I dois pertenciam ao interior do Piauí (66,7%) e um paciente pertencia a outro estado (33,3%). Das internações por infecção, a maior parte também provinha do interior do estado (53,3%), 36,7% (onze) eram de Teresina e 10%(três) de outros estados. Um paciente apresentou insuficiência cardíaca e esse provinha do interior do Piauí. Dos cinco pacientes que apresentaram outras urgências relacionadas à AF três (60%) eram do interior do estado e dois (40%) de Teresina. Oito pacientes apresentaram outras urgências não relacionadas à anemia falciforme, metade residente em Teresina e 40% do interior do Piauí e os 10% restante de estados vizinhos. As urgências não relacionadas à AF, na realidade, reflete o número de pacientes atendidos no Hospital de referencia em urgência, não indica nenhuma relação com a enfermidade desses pacientes. É interessante que se destaque que algumas das ocorrências poderiam ser resolvidas nos hospitais de baixa ou média complexidade nos municípios do interior. Logo, observou-se o atraso na intervenção para complicações devido o transporte do paciente para centros mais especializados, o que pode levar a deterioração da condição clínica. Na amostra avaliada, a maioria (21) dos internados por crise álgica apresentou Hb entre 7 e 10g/dl, os que apresentaram crise aplástica, crise hemolítica ou infecção apresentaram, em geral, Hb menor que 7g/dl. Dos que apresentaram AVC I, dois tinham Hb entre 7 e 10g/dl, e um paciente não realizou ou não foi encontrado hemograma. O paciente que apresentou insuficiência cardíaca apesar de ter realizado hemotransfusão não foram encontrados registros dos valores hematimétricos, bem como, na maioria dos pacientes com outras urgências relacionadas ou não relacionadas com AF. Isso se deveu à falha em registrar nos prontuários, má conservação dos prontuários ou ainda inadequada condução dos pacientes . Nos prontuários avaliados não houve registro sobre a etnia dos pacientes, item que seria de grande importância pela incidência da anemia falciforme ser maior em negros e pardos, além do fato de grande parte dos afrodescendentes se concentrarem no Nordeste. 5 CONCLUSÃO Concluiu-se que as urgências mais comuns em pacientes pediátricos com anemia falciforme são as crises álgicas e as infecções. Dentre ambas, a principal foi a crise álgica. A maioria dos pacientes pediátricos internados por complicações da anemia falciforme pertenciam ao gênero masculino, eram procedentes do interior do Piauí e tinham entre 5 e 10 anos de idade. Em relação à crise álgica, infecção e crise hemolítica o perfil do paciente falcêmico foi condizente com a maioria das internações: idade entre 5 e 10 anos, gênero masculino e procedente Página 21 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 do interior do estado. Tal panorama evidencia a ausência de políticas públicas voltadas para uma assistência médica adequada em todo o estado e faz-se perceptível a necessidade da implantação da fase 2 na triagem neonatal no Piauí. Não houve registros quanto à raça nos prontuários avaliados, o que reflete uma precariedade nos dados colhidos nos prontuários, visto que, a doença falciforme tem uma incidência maior em negros e pardos e seria um dado de grande valia para pesquisas como esta. REFERÊNCIAS ANVISA. Manual de Diagnóstico e Tratamento de Doenças Falciformes. Brasília, 2001. Disponível em:http://fesfsus.web350.kinghost.net/Guiadotrabalhador/Biblioteca/Arquivos%20da% 20biblioteca/Anemias/2002.%20Doen%C3%A7a%20Falciforme%20%20manual%20de%20diagn%C3%B3stico%20e%20tratamento.%20Minist%C3%A9rio%20 da%20Sa%C3%BAde.pdf. Acesso em: 15 fev 2012. ARAÚJO, A.K.L. et.al. Características sócio-demográficas e epidemiológicas dos pacientes portadores de anemia falciforme de um hospital público, em Teresina-PI. 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Página 23 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 SATISFAÇÃO DO USUÁRIO DURANTE O TRATAMENTO ORTODÔNTICO EM UMA CLÍNICA PRIVADA EM CAMPO MAIOR – PI. 2013. USER SATISFACTION DURING ORTHODONTIC TREATMENT IN A PRIVATE CLINIC IN CAMPO MAIOR-PI, 2013. Roselane Carvalho Bona Ramos1, Acácia Mª Peixoto Ezequiel2 RESUMO Possui grande relevância os estudos a cerca das percepções dos pacientes a respeito dos serviços de saúde, uma vez que, através dessa avaliação de qualidade e satisfação, se devem conhecer as necessidades e os desejos do paciente, núcleo central do sistema de saúde. Por essa razão, o presente estudo avaliou o nível de satisfação ou insatisfação dos pacientes que realizam tratamento ortodôntico em uma Clínica Odontológica Privada em Campo Maior – PI, como verificou a existência da relação entre a satisfação e insatisfação dos pacientes, sentimentos de medo e ansiedade relacionados ao tratamento odontológico. Esta pesquisa foi um estudo de natureza qualitativa/ quantitativa, de natureza descritiva compreendendo o suo de um questionário contendo perguntas abertas e fechadas, foi respondido por 40 pacientes. Os dados foram analisados com o uso do software BioEstat 5.0, 2007 (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá; Belém, PA, Brasil). Justificando-se o presente estudo por possuir relevância social e por proporcionar benefícios diretos e indiretos aos pacientes avaliados. Os benefícios diretos poderão ser alcançados uma vez que a Clínica Odontológica poderá se adequar as exigências de sua clientela, dependendo do nível de satisfação e/ ou insatisfação que for detectado por meio do questionário aplicados no trabalho. Palavras-chave: Qualidade dos serviços de saúde. Satisfação. Ansiedade. ABSTRACT Has great relevance the studies about patients ' perceptions about health services, since, through this evaluation of quality and satisfaction, if you must know the needs and wishes of the patient, the central core of the health system. For this reason, the present study evaluated the level of satisfaction or dissatisfaction of patients who carry out orthodontic treatment in a Private dental clinic in Campo Maior-PI, as the existence of the relationship between satisfaction and patient dissatisfaction, feelings of fear and anxiety related to dental treatment. This research was a qualitative/quantitative study, descriptive nature comprising the sweat of a questionnaire with open and closed questions was answered by 40 patients. Data were analyzed using the software BioEstat 5.0, 2007 (Mamirauá Sustainable Development Institute; Belém, PA, Brazil). Justifying the present study for having social relevance and provide direct and indirect benefits to patients evaluated. The direct benefits can be achieved once the dental clinic will be able to suit the requirements of its Aluna de graduação (10° período) do Curso de Odontologia da Faculdade Integral Diferencial – FACID Rua Av. Marcelo Castelo Branco, 568 Bairro: Cidade Nova Campo Maior – Piauí CEP – 64280-000 Endereço eletrônico (e-mail): [email protected] Telefone(s) para contato: (86) 8865-9754 1 Professora Ms. do Curso de Odontologia da Faculdade Integral Diferencial – FACID Rua das Orquídeas,1000 Bairro: Fátima Endereço eletrônico (e-mail): [email protected] Telefone(s) para contato: (86)9990-8617 2 Página 24 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 customers, depending on the level of satisfaction and/or dissatisfaction that is detected by means of the questionnaire applied at work. Keywords: Quality of health services. Satisfaction. Anxiety. INTRODUÇÃO A Odontologia estética vem despontando recentemente ao restabelecer a harmonia do sorriso e dessa forma, a harmonia facial, que os indivíduos tanto objetivam. No mundo moderno e civilizado, dentes brancos, bem contornados, bem alinhados representam um padrão de beleza procurado pela sociedade (FEITOSA et al., 2009). Os estudos com a finalidade de verificar a satisfação de usuários de serviços de saúde destacaram-se na literatura principalmente na década de 1970, em países como Estados Unidos e Inglaterra (ESPERIDIÃO; TRAD, 2006). No Brasil, as pesquisas de satisfação do usuário tornaram-se frequentes a partir da segunda metade da década de 1990 (MENDES, 2003). A satisfação do paciente/ usuário é um dos fatores determinante para a qualidade do atendimento nos serviços de saúde e por meio da qual se obtêm dados sobre expectativas e buscamse soluções para a melhoria do serviço prestado (FERNANDES; COUTINHO; PEREIRA, 2008). Três aspectos essencialmente significativos envolvem a relação profissional/paciente, a conduta clínica, os aspectos éticos e os parâmetros legais. A conduta clínica do cirurgião-dentista visa à satisfação com a qualidade nos serviços prestados. Como consequência à ocorrência de um processo de transformação do comportamento social, que reflete na prática da cidadania, a preocupação com os aspectos legais transformou-se em um assunto relevante. Fato que se destaca como explicação para o ocorrido é o acesso ao Código de Defesa do Consumidor, adotado em nosso país com a Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990 (BRASIL, 1990). Em decorrência do aumento da conscientização de que a qualidade é fundamental para a sobrevivência dos serviços de saúde, a procura pela qualidade nos serviços de saúde transformou-se em um fenômeno mundial (ADAMI, 2000; MONDELLI et al, 2003). Além disso, constitui uma responsabilidade ética e social. No Brasil, o número de estudos a respeito de avaliação de serviços de saúde é reduzido. A pequena produção se limita praticamente a avaliação quantitativa dos serviços, sobrando pequenas informações sobre resolutividade e satisfação dos pacientes (CAMPOS, 1988). Na literatura, encontram-se relatos sobre a satisfação do paciente como uma construção multidimensional, onde o indivíduo pode estar satisfeito com um ou mais aspectos da assistência, mas ao mesmo tempo, insatisfeito com outros (MIALHE; GONÇALO; CARVALHO, 2008; FERNANDES; COUTINHO; PEREIRA, 2008). É de extrema importância estudos a cerca das percepções dos pacientes a respeito dos serviços de saúde, uma vez que, através dessa avaliação de qualidade e satisfação, se devem conhecer as necessidades e os desejos do paciente, núcleo central do sistema de saúde (BITTAR, 2001); sendo que um dos critérios para definir o nível de percepção que um usuário possui a respeito de um serviço de saúde esta relacionado com o nível de satisfação dos usuários com os serviços oferecidos (MIALHE; GONÇALO; CARVALHO, 2008). A satisfação do paciente é normalmente determinada como uma função das percepções do paciente e de suas expectativas, de maneira que a satisfação, percepção/expectativa, ou seja, “O paciente satisfeito e aquele que percebe que o atendimento de suas necessidades pela organização e pelo menos igual aquele que se esperava” (FERNANDES; COUTINHO; PEREIRA, 2008; DEMING, 1990). O paciente satisfeito estabelece uma fundamental opinião que vai colaborar para uma reflexão de diversos autores sobre o avanço continuo do trabalho em equipe (CAMPOS, 1988; BITTAR, 2001). Dessa forma, exige-se uma fiel investigação na busca de identificar os fatores que causam satisfação nos pacientes atendidos nos serviços. Página 25 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Nesse contexto, a satisfação do usuário é avaliada como uma meta a ser atingida pelos serviços, devendo, portanto, ser analisada objetivando a aperfeiçoamentos no sistema de serviço de saúde. Os elementos que interferem na satisfação do usuário durante o tratamento ortodôntico são a frequência do atendimento, a dor durante e após o procedimento da manutenção, evolução do tratamento, habilidade do Cirurgião Dentista, tempo de espera pelo atendimento. Por essa razão, este trabalho analisou o nível de satisfação ou insatisfação dos pacientes que utilizam aparelho fixo, que se encontram numa faixa etária de 18 a 45 anos, e que realizam tratamento ortodôntico em uma Clínica Odontológica Privada em Campo Maior – PI; identificou a satisfação do paciente em relação aos serviços prestados e verificou que existe relação entre a satisfação ou insatisfação dos pacientes em relação ao serviço prestado, em relação a confiança entre o paciente e o profissional, e em relação a informação sobre o atendimento. Quando o profissional emite as informações necessárias ao atendimento, procedimentos e resultados alcançados, o cliente sente-se acolhido afastando as reações de medo e ansiedade quanto ao serviço prestado. A importância deste estudo é proporcionar benefícios diretos e indiretos aos pacientes avaliados. Os benefícios diretos poderão ser alcançados uma vez que a Clínica Odontológica poderá se adequar as exigências de sua clientela, dependendo do nível de satisfação e/ ou insatisfação que for detectado por meio do questionário aplicado no trabalho. Os benefícios indiretos poderão ser alcançados após a divulgação dos resultados do trabalho, uma vez que o conhecimento do nível de satisfação e/ ou insatisfação dos pacientes e possíveis influências de outros fatores poderão guiar o tratamento ortodôntico proporcionando a redução da insatisfação, e consequentemente alcançando maior sucesso no tratamento. 1 MATERIAIS E MÉTODOS 1.1 Procedimentos éticos O presente trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa – CEP de uma IES, via Plataforma Brasil, sob o protocolo de no 130.471 (ANEXO A). Também obteve a autorização da diretora acadêmica e da chefe da clínica odontológica, para o livre acesso aos pacientes. 1.2 Método de Pesquisa O presente estudo é caracterizado como sendo do tipo exploratório descritivo e com uma abordagem quantitativa/ qualitativa. Escolheu-se esta metodologia por melhor atender aos objetivos de uma pesquisa voltada para uma análise de significados das relações, dos processos e dos fenômenos aos quais não podem ser reduzidos à operacionalização variáveis (MINAYO, 2006). A pesquisa foi realizada como um estudo de campo no qual utiliza-se de técnicas de observação direta intensiva (observação e entrevista) e procurará muito mais aprofundamento nas questões propostas. Quanto ao objeto do estudo a pesquisa foi do tipo exploratória. Conforme Andrade (2003) e Gil (2002) a pesquisa exploratória é o primeiro passo para todo trabalho científico, pois possui como finalidade proporcionar maiores informações sobre determinado assunto de acordo com as mais variadas fontes de referência, facilitando a delimitação do tema escolhido pelo pesquisador, pois possui a finalidade principal de desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e idéias, tendo em vista, a formulação de problemas mais precisos. Elas são desenvolvidas como objetivo de proporcionar visão geral, de tipo aproximativo, acerca de determinado fato. A pesquisa foi desenvolvida em uma Clínica Odontologica Privada em Campo Maior – PI, no período de Agosto a Setembro de 2012. Trata-se do método qualitativo e segundo Minayo (2006), esse tipo de análise trabalha com o universo de significados, valores, crenças e atitudes, correspondendo a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos aos quais Página 26 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 não podem ser reduzidos às operacionalização variáveis. Na medida em que, se está tratando de análise em pesquisa qualitativa, não se deve esquecer de que, apesar de se mencionar uma fase distinta com a denominação “análise”, durante a fase de coleta de dados a análise já poderá estar ocorrendo (MINAYO, 1994). A pesquisa quantitativa é caracterizada pela uso da quantificação, tanto na coleta quanto no tratamento das informações, utilizando-se técnicas estatísticas, objetivando resultados que evitem possíveis distorções de análise e interpretação, possibilitando uma maior margem de segurança (DALFOVO, 2008). 1.3 Cenário e participação do estudo A população pesquisada foi constituída por 40 pacientes na faixa etária de 18 a 45 anos, atendidos na Clínica Odontologia Privada em Campo Maior – PI. 1.3.1 Critérios de inclusão Foram incluídos todos os pacientes de uma Clínica Odontologica Privada em Campo MaiorPI que estivessem realizando tratamento ortodôntico com aparelhos fixos, não havendo cálculo amostral, que possuía discernimento para responder ao questionário e encontrava-se na faixa etária de 18 a 45 anos. E que concordassem em participar da pesquisa, procedimento realizado através de uma carta de esclarecimento que os pacientes receberam a respeito da natureza da pesquisa. 1.3.2 Critérios de exclusão Foram excluídos os pacientes que realizavam tratamento ortodôntico com aparelho removível, menores de 18 anos e maiores de 45 anos, e que não possuíam discernimento para responder ao questionário aplicado pela acadêmica autora do presente estudo e um baixo controle de higiene bucal. 1.4 Coleta de dados Foi utilizada uma entrevista semi-estruturada como instrumento para a coleta de dados. Esse tipo de entrevista incluiu um número pequeno de perguntas abertas nas quais a entrevistadora utilizou de forma livre, além de conter questões fechadas e diretas. Sua qualidade consiste em enumerar de forma mais abrangente possível questões que o pesquisador quer abordar no campo, por meio de suas hipóteses incididas, logicamente, na definição do objeto de investigação (MINAYO, 2006). O primeiro passo para a realização da coleta de dados foi a autorização da Clínica Odontológica Privada. Após essa etapa, foi estabelecido um contato com os entrevistados com o propósito de especificar os objetivos da entrevista e os procedimentos que foram realizados para o estudo. Após a aceitação da participação na pesquisa foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. As entrevistas foram realizadas individualmente, com cada participante, em um local, reservado, na sala de espera da clínica odontologia privada. Os dados foram coletados em uma clinica odontológica privada em Campo Maior – PI através de um questionário misto, no qual participaram 40 pacientes, sendo que somente foram incluídos pacientes na faixa etária de 18 a 45 anos que usam aparelho fixo, que possuíam maioridade civil e que possuíssem discernimento de fornecer todas as informações necessárias para atender aos objetivos do estudo. Aquelas que não possuisem discernimento para fornecer tais informações foram descartadas. O Termo de Consentimento Livre foi assinado pelo paciente (Apêndice A). O questionário contem 9 questões e foi aplicado durante o atendimento na sala de espera pela acadêmica de Odontologia que está desenvolvendo o presente estudo, de uma só vez, sendo que os paciente serão Página 27 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 divididos em 4 grupos de 10 pacientes de acordo com o atendimento que ocorre a cada quinze dias durante dois meses. 1.5 Organização e análise de dados A coleta dos dados foi realizada através de uma entrevista semi-estruturada, que foram transcrita e analisada utilizando-se a técnica de análises das comunicações através de procedimento sistemáticos e objetivos que tem como finalidade a descrição do conteúdo das mensagens e indicadores que permitam a interferência de conhecimentos relativos às condições de produção/ recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. A verificação e a análise do questionário foi aplicado aos pacientes e foram realizadas por um único aluno do curso de Odontologia. Foi elaborado um questionário misto, composto por perguntas abertas e fechadas. Uma planilha do Excel foi utilizada para a construção de um banco de dados alimentado pelas respostas obtidas nas questões levantadas nos instrumentos de coleta da pesquisa. As variáveis foram categorizadas e passaram por uma análise estatística descritiva com o uso do software BioEstat 5.0 2007 (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá; Belém, PA, Brasil). Estes procedimentos geraram uma descrição para o perfil dos sujeitos da pesquisa referentes ao serviço prestado, tempo de espera na clínica, avaliação do conforto oferecido pela clínica e informações sobre o serviço prestados pelos profissionais da clínica. Os níveis de probabilidade reais foram calculados para todos os coeficientes estimados. O nível de significância estatística para todas as análises será estabelecido em 5%. Não há nenhum risco/desconforto previsível aos indivíduos na participação da pesquisa, uma vez que somente foram aplicados os questionários descritos aos pacientes. Esses indivíduos já estavam agendados para receberem tratamento odontológico em uma clinica privada em Campo Maior - PI, e os questionários foram realizados um pouco antes de cada atendimento. Sendo assim, os atendimentos não foram prejudicados e nenhum gasto adicional com transporte ou outros materiais foram necessários para a realização dessa pesquisa. Além disso, somente foram avaliados os pacientes que concordaram com a participação na pesquisa e assinarem o TCLE. Os sujeitos que participaram da pesquisa não tiveram benefícios diretos, somente indiretos que poderão ser aplicados futuramente durante o tratamento ortodôntico oferecido em clínica privada em Campo Maior – PI, com os conhecimentos adquiridos por meio da atual pesquisa. 2 RESULTADOS E DISCUSSÃO No presente trabalho foi possível observar que os pacientes entrevistados se limitam a responder, ou seja, assinalar as repostas das perguntas fechadas, e que apenas uma minoria responde as questões abertas. TABELA 01 – Perfil de pacientes de acordo com o gênero e a faixa etária Sexo dos pacientes Numero % De pacientes 17 42,5 Masculino 23 57,5 Feminino Faixa etária 18 a 24 anos 25 a 31 anos 32 a 38 anos 39 a 45 anos Número 21 09 06 04 % De pacientes 52,5 22,5 15 10 Fonte: RAMOS, 2013 Página 28 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Na tabela 01, observa-se 42,5% dos pacientes pesquisados são do gênero masculino, enquanto 57,5% são do sexo feminino. Observa-se também que 52,5% dos pacientes pesquisados encontramse na faixa etária entre 18 e 24 anos, enquanto 22,5% encontram-se entre 25 a 31 anos, 15% entre 32 a 38 anos e apenas 10% de 39 a 45 anos. Ressalta-se que a escolha do cirurgião-dentista por parte do paciente está relacionada não apenas a fatores técnicos, mas também a fatores psicossociais, tais como o sexo, o grau de instrução, a faixa etária, insegurança, medo (ROBLES, GROSSEMAN, BOSCO, 2008). TABELA 02 – Qualidade do serviço quanto à marcação da consulta Qualidade do serviço quanto à Número % De pacientes marcação da consulta 14 35 Regular 22 55 Bom 04 10 Ótimo Fonte: RAMOS, 2013 Observa-se, na tabela 02 que 35% dos pacientes pesquisados consideram a qualidade do serviço quanto à marcação da consulta regular, enquanto 55% consideram bom, e apenas 10% consideram ótimo. Segundo Deming (1990) a satisfação do paciente é normalmente determinada como uma função das percepções do paciente e de suas expectativas, de maneira que a satisfação = percepção/expectativa, ou seja, “O paciente satisfeito e aquele que percebe que o atendimento de suas necessidades pela organização e pelo menos igual aquele que se esperava”. TABELA 03 – Qualidade do atendimento prestado pela recepção da clínica Qualidade do atendimento Número % Porcentagem prestado pela recepção da clínica Regular 04 10 Bom 18 45 Ótimo 18 45 Fonte: RAMOS, 2013 Na tabela 03, observa-se que 10% dos pacientes pesquisados consideraram o atendimento dado pela recepção da clínica regular, enquanto 45% consideram o atendimento bom, e 45% também dos pacientes pesquisados consideram o atendimento ótimo. Segundo Goes et al., (2010) é de extrema importância estudos a cerca das percepções dos pacientes a respeito dos serviços de saúde, uma vez que, através dessa avaliação de qualidade e satisfação, se devem conhecer as necessidades e os desejos do paciente, núcleo central do sistema de saúde; sendo que um dos critérios para definir o nível de percepção que um usuário possui a respeito de um serviço de saúde esta relacionado com o nível de satisfação dos usuários com os serviços oferecidos. TABELA 04 – O tempo aguardado para o atendimento pelo dentista Tempo aguardado para o Número % De pacientes atendimento pelo dentista 01 2,5 Ruim 25 62,5 Regular 14 35 Bom Fonte: RAMOS, 2013 Página 29 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Na tabela 04, observa-se que 62,5% consideram o tempo esperado para ser atendido pelo dentista como regular, enquanto 35% consideram bom, e apenas 2,5% consideram ruim. Segundo Zhang et al., (2008) a satisfação do usuário é avaliada como uma meta a ser atingida pelos serviços, devendo, portanto, ser analisada objetivando a aperfeiçoamentos no sistema de serviço de saúde. Os elementos que interferem na satisfação do usuário durante o tratamento ortodôntico são a frequência do atendimento, a dor durante e após o procedimento da manutenção, evolução do tratamento, habilidade do Cirurgião Dentista, tempo de espera pelo atendimento. TABELA 05 – Qualidade do serviço quanto ao conforto da clínica Qualidade do serviço quanto Número % De pacientes ao conforto da clínica Ruim 3 7,5 Regular 15 37,5 Bom 13 32 Ótimo 09 22,5 Fonte: RAMOS, 2013 Observa-se, na tabela 05, que 37,5% consideram o serviço quanto ao conforto da clínica como regular, enquanto 32% consideram bom, 22,5% consideram ótimo, e apenas 7,5% ruim. Conforme Goes et al., (2010), a satisfação do paciente estabelece uma fundamental opinião que vai colaborar para uma reflexão de diversos autores sobre o avanço continuo do trabalho em equipe Dessa forma, exige-se uma fiel investigação na busca de identificar os fatores que causam satisfação nos pacientes atendidos nos serviços. Castro (2000) sugeriu que os profissionais observassem as características não clínicas de seu trabalho, como: atendimento; qualidade de instalações e equipamentos; comunicação; confiança; educação odontológica; ambiente agradável; preços e prazos oferecidos; dias e horários de atendimentos, entre outras. São essas questões não clínicas que constituem toda a diferença entre os cirurgiões-dentistas e seus consultórios odontológicos TABELA 06 – Qualidade do serviço quanto às informações sobre o tratamento Qualidade do serviço quanto às informações sobre o Número % De pacientes tratamento Regular 18 45 Bom 22 55 Ótimo 0 0 Fonte: RAMOS, 2013 Na tabela 06, observa-se que 45% dos pacientes pesquisados consideram a qualidade do serviço quanto às informações sobre o tratamento regular, e 55% consideram como bom. De acordo com Elmor (2004), a boa técnica profissional não é mais um recurso suficiente para cativar os pacientes. Desta maneira, exige-se do profissional e da sua equipe maior empenho para proporcionar, além de qualidade do serviço oferecido, auxílio, informação e garantia, com o propósito de satisfazer e seduzir seus clientes (BRENNAN, GAUGHWIN, SPENCE, 2001). A primeira categoria encontrada foi a informação sobre o atendimento. Paciente sexo masculino, 25 anos, quando indagado sobre o serviço, responde: “O serviço do ortodontista é bom, porque tem a preocupação de explicar todo o tratamento”. Paciente sexo feminino, 30 anos, respondeu que: “no meu tratamento tem melhorado muito apesar de não freqüentar regularmente as minhas consultas”. Página 30 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Segundo Zhang et al., (2007, 2008), quando os pacientes ficam cientes sobre as consequências do tratamento, como por exemplo, o desconforto, desenvolvem expectativas mais realísticas, o que pode ajudá-los no incentivo à cooperação no transcorrer do tratamento, possibilitando ao paciente uma análise mais detalhada dos benefícios e da efetividade do tratamento ortodôntico. Qualidade do maneira geral Regular Bom Ótimo TABELA 07 – Qualidade do serviço de maneira geral serviço de Número % De pacientes 13 19 08 32,5 47,5 20 Fonte: RAMOS, 2013 Na tabela 07, observa-se que 32,5% considera de uma maneira geral, o serviço regular, enquanto 47,5% consideram bom, e 20% consideram ótimo. Conforme o Código de Defesa do Consumidor (BRASIL, 1990), três aspectos essencialmente significativos envolvem a relação profissional/paciente, a conduta clínica, os aspectos éticos e os parâmetros legais. Pois a conduta clínica do cirurgião-dentista visa à satisfação com a qualidade nos serviços prestados. Como consequência à ocorrência de um processo de transformação do comportamento social, que reflete na prática da cidadania, a preocupação com os aspectos legais transformou-se em um assunto relevante. Qualidade do ortodontista Regular Bom Ótimo TABELA 08 – Qualidade do serviço do ortodontista serviço do Número % De pacientes 05 14 21 12,5 35 52,5 Fonte: RAMOS, 2013 Na tabela 08, observa-se que 12,5% consideram o serviço do ortodontista regular, enquanto 35% consideram bom, e 52,5% consideram ótimo. Segundo Teixeira et al., (2006). uma visão empírica, que trata de um julgamento individual, subjetivo, sem critério técnico, compreendendo a relação saudável, o respeito e a confiança mutua entre profissional-paciente, alcançamos a visão das pessoas sobre percepção da qualidade, através da exposição das necessidades e anseios vividos pelo paciente. A segunda categoria encontrada foi a informação sobre a relação de confiança entre profissional/ Cliente. Observa-se as seguintes respostas: Paciente, do sexo feminino, 21 anos: “A relação profissional – paciente é importante, porque tem que haver confiança entre paciente e dentista”. Paciente sexo feminino, 30 anos: “A relação profissional – paciente é importante, porque é importante que o paciente se dê com seu ortodontista assim, sentimos mais segurança e a vontade na hora que a manutenção está sendo realizada”. Robles, Grosseman, Bosco (2008) ressaltam que a escolha do cirurgião-dentista por parte do paciente está relacionada não apenas a fatores técnicos, mas também a fatores psicossociais. Página 31 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 3 CONCLUSÃO Ouvir ao usuário é uma ferramenta fundamental no processo de avaliação e implementação de melhorias nos serviços prestados por Clínicas Odontológicas Privadas. A partir dos resultados obtidos, considera-se possível afirmar que os pacientes atendidos na Clínica Privada pesquisada estão: - Em sua maioria, satisfeitos com a qualidade da estrutura, funcionamento e atendimento prestado pela Clínica Odontológica Privada, uma vez que considera legal e aconchegante o ambiente de atendimento; - Encontram-se também satisfeitos com as variáveis que influenciam no índice de satisfação na questão pesquisada; Verificou-se que quando o profissional emite as informações necessárias ao seu cliente durante o atendimento, procedimentos e resultados o mesmo se sente acolhido, afastando as reações de medo e ansiedade quanto ao serviço prestado. Por essa razão, pode-se afirmar que os pacientes que utilizam aparelho fixo, e que se encontram numa faixa etária de 18 a 45 anos, e que realizam tratamento ortodôntico em uma Clínica Odontológica Privada em Campo Maior – PI, estão satisfeitos com seu tratamento; assim como estão contentes em relação aos serviços prestados e foi possível constatar que existe relação entre a satisfação dos pacientes em relação ao medo e as emoções de ansiedade relacionadas ao tratamento odontológico. Ressalta-se que durante a pesquisa foi possível observar que os pacientes entrevistados se limitam a responder, ou seja, a assinalar as respostas das perguntas fechadas, e que apenas uma minoria responde as questões abertas, mas respondendo apenas sim ou não, se ausentando de justificar a resposta como foi proposto no questionário. REFERÊNCIAS ADAMI, N. P. Melhoria da qualidade nos serviços de enfermagem. Acta Paul Enferm, V. 13, 2000, p 190-196. ANDRADE, M. M. de. 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Principal objetivo foi identificar a comparação existente entre estas técnicas, quanto as suas vantagens e desvantagens no tratamento cirúrgico da STC. Os objetivos específicos buscaram analisar a evolução dessa problemática no contexto atual, relatar as informações sobre o tempo depós-operatório, dor na cicatrização, sensibilidade, força de preensão da mão e retorno as atividades laborais. O presente estudo constitui-se de uma pesquisa bibliográfica desenvolvida através da análise de textos, selecionados por sua relevância e que estão diretamente relacionados com o tema da investigação. O conteúdo dessa revisão compreendeu uma base de dados composta de livros, periódicos, artigos científicos consagrados na literatura, assim como também aqueles adquiridos por meios eletrônicos tais como: Science direct, Scielo, Pubmed, dentre outros. O estudo dessa revisão envolveu 38 (trinta e oito) obras, sendo 34 (trinta e quatro) artigos publicados nos últimos 30 (trinta) anos em língua portuguesa, inglesa. 4 (quatro) livros de notória relevância acadêmica. Os descritores foram identificados através da Biblioteca Virtual em Saúde, Descritores em Ciências da Saúde, site: http://desc.bvs.br. Observou-se que tanto na técnica mini-open, quanto a endoscópica, chegaram a resultados semelhantes quando comparadas nos critérios tempo de pósoperatório, dor na cicatrização, sensibilidade, força de preensão da mão, retorno as atividades laborais. É indispensável chamar atenção para o atendimento humanizado. Sugere-se que se realizem mais estudos nesta área para reduzir incidência de complicações neurológicas, como também o retorno mais rápido as atividades laborais, melhor conforto e força de preensão da mão, baixo custo do tratamento e uma estética satisfatória, resultando em um acolhimento mais eficiente. Palavras-chave: STC. Comprações. Cirúrgia. ABSTRACT The present paper has as its theme the surgical treatment of STC with endoscopic and mini- open techniques. The main objective was to identify the comparison between these techniques related to their advantages and disadvantages in the surgical treatment of CTS. The specific objectives were to analyze the evolution of this problematic in the current context, to report the information about the postoperative time, wound healing pain, sensibility, hand grip strength and return to work activities. The present study consisted of bibliographical research developed through texts analysis, selected by their relevance and that are directly related to the theme of investigation. The content of this review also included a database made up of books, journals, papers devoted in the literature, as well as those acquired by electronic means such as direct Science, SciELO, PubMed, among others. The study of this review involved 38 (thirty-eight) works, 34 (thirty-four) articles published in the last thirty (30) years in Portuguese and English, 4 (four) notorious books of academic relevance. The 1 Aluno de graduação (10º período) do Curso de Medicina da Faculdade Integral Diferencial - FACID. Email: [email protected]. Médico ortopedista. Professor Esp. Em ortopedia do curso de Medicina da Faculdade Integral Diferencial - FACID. Email: [email protected] 2 Página 35 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 descriptors were identified through the Virtual Health Library, Descriptors in health science, site: http://desc.bvs.br. It was observed that both the mini-open technique as endoscopic technique reached similar results when comparing criteria like postoperative time, wound healing pain, sensibility, hand grip strength, return to work activities. It is essential to draw attention to humane care. It is suggested that further research in this area has to be made to reduce the incidence of neurological complications, as well as a faster return to work activities, better comfort and grip strength of the hand, a lower cost treatment and satisfactory aesthetic, resulting as well in a more efficient way . Keywords: CTS. comparative. Surgical. INTRODUÇÃO James Paget descreveu pela primeira vez, em 1854, uma compressão no nervo mediano após uma fratura do rádio distal. A síndrome do túnel do carpo (STC) é hoje o distúrbio de compressão do nervo mediano mais comum na extremidade superior. Em 2007, a Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AACO) criou uma diretriz de prática clínica que a define como uma neuropatia de compressão sintomático do nervo mediano ao nível do punho, caracterizadas fisiologicamente pela evidência do aumento da pressão dentro do túnel do carpo e diminuição da função do nervo mediano na mão (ACADEMIA AMERICANA DE CIRURGIÕES ORTOPEDICOS, 2007). Um fator determinante na escolha do tema abordado foi a constatação do reduzido número de pesquisas e trabalhos publicados nos últimos 30 anos, conforme dados que serão apresentados no decorrer desta revisão acerca de tais comparações. Tais circunstâncias geraram a curiosidade de conhecer mais profundamente este tema conduzindo à realização da presente investigação. O estudo possui como objetivo primordial comparar as técnicas cirúrgica mini-open e endoscópica no tratamento da STC e, como objetivos específicos, analisar a evolução dessa problemática no contexto atual assim como, relatar as informações sobre procedimentos que visam promover tanto as vantagens e desvantagens destas técnicas. A pesquisa foi realizada através da análise de textos que foram selecionados em uma base de dados de milhares de publicações composta por periódicos, artigos científicos e livros consagrados na literatura, inclusive, por aqueles adquiridos por meios eletrônicos como: Science direct, Scielo, Pubmed, dentre outros. Os critérios de composição do corpus de análise, compreenderam as obras publicadas nos últimos 30 anos que relatam a comparação das técnicasmini- open e endoscópica no tratamento cirúrgico na STC. Os descritores foram identificados através da ferramenta Descritores em Ciências da Saúde – DeSC (Disponível no site: http://desc.bvs.br) Na base de dados Science direct, com o descritor Syndrome Carpal, foram encontrados 16.433 artigos. Utilizando o mesmo descritor nos dados do Scielo, foram encontrado 89 artigos e no banco de dados do PubMed, foram encontrados 8.718 artigos. Foram selecionados apenas aqueles adequados para a realização deste trabalho, ou seja, que foram publicados nos últimos 30 anos e que trouxeram informações pertinentes ao tema em questão. Os dados coletados foram selecionados, lidos e analisados, preterindo-se estudos que não respeitaram a bioética. Portanto, foram analisados 38 obras publicados nos últimos 30 anos, em língua portuguesa e inglesa, entre estes, constam 32 artigos e 4 livros de notória relevância acadêmica. Obteve-se, desta maneira, um melhor entendimento das comparações das técnicas endoscópicas e mini-open no tratamento da STC, pois se observou um resultado semelhante entre estes procedimentos quanto ao tempo de pós-operatório, dor na cicatrização, sensibilidade, força de preensão da mão e o tempo de retorno as atividades laborais.) Espera-se que este estudo possa contribuir para que os profissionais da área ampliem as discussões acerca da importância de efetuar adequadamente as intervenções para tornar a assistência ao paciente mais segura e eficaz. Página 36 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 2 DISCUSSÃO 2.2 Fatores Epidemiológicos e Etiológicos STC é uma patologia frequente nos ambulatórios de ortopedia, especialmente, nos ambulatórios de cirurgia da mão. É a neuropatia compressiva mais comum e mais estudada do ser humano, tendo prevalência de 51 a 125.000 indivíduos (KOUYOUMDJIAN, 1999). Essa síndrome, também conhecida como túnel carpal foi descrita pela primeira vez por Paget, em 1854, constituindo-se uma neuropatia pelo encarceramento do nervo mediano em sua passagem no túnel carpal de rica sintomatologia que inclui sensações de queimação, dor, formigamento, agulhadas, hiperestesia, hipoestesia e até anestesia nos dermátomos pertencentes ao domínio do nervo mediano distalmente ao túnel do carpo. No domínio motor do nervo mediano, pode ocorrer atrofia da musculatura tênar e dificuldade na realização do movimento de oposição do polegar (SEVERO et al., 2001; ALVES, 2010; MINTALUCCI; LEINBERRY, 2012). Por se tratar da neuropatia de encarceramento mais comum e, também, a mais operada, a STC atinge de 0,1 a 10% da população geral, com acometimento maior do sexo feminino em comparação ao sexo masculino. Há vários fatores de risco envolvidos no surgimento da síndrome, dentre os quais podem ser destacados: doença renal, artrites inflamatórias, predisposição genética, idade avançada, tabagismo e flexão extrema e repetitiva do punho em atividades laborais (PARDINI JUNIO; FREITAS; TAVARES, 2009; ALVES, 2011). Há duas maneiras de ocorrer o encarceramento do nervo mediano em sua passagem por dentro do túnel do carpo: uma é a pressão que pode ser exercida sobre o nervo como resultado da redução da capacidade do túnel do carpo, ocorrendo em situações como edema ou lesões dos tecidos circunjacentes ao nervo, e a outra é o aumento de volume do conteúdo do túnel, como acontece nas tenossinovites dos tendões flexores (HOCBERG et al., 2011). 2.3 Quadro Clínico Na STC o comprometimento unilateral é mais frequente, sendo a mão dominante a mais afetada, correspondendo a 51% dos casos. A mão não-dominante equivale a 15% e, 35% afetam ambas as mãos (PARDINI, 1990). Geralmente queixam-se de parestesias constantes ou intermitentes ou dormência no território do nervo mediano que podem estar associados a dor. Dor noturna que acorda o paciente também é comum. Em casos severos, pode haver atrofia da musculatura tenar e fraqueza para oponência do polegar (PARISI; TRUMBLE, 2005). Pacientes com síndrome do túnel do carpo, na maioria das vezes, se queixam de formigamento, dor e parestesia na distribuição do nervo mediano na mão, principalmente, após movimentos intensos do punho ou à noite. Usualmente, os sintomas são descritos como formigamento ou queimação, podendo irradiar proximalmente. A piora noturna está relacionada com a estase venosa, hipotonia durante o sono e posturas de flexão ou extensão do punho. Geralmente os sintomas aliviam com a movimentação da mão (PEREIRA; MATTAR; AZZER, 2003; HUANG; ZAGER, 2004). 2.4 Diagnóstico O diagnóstico da síndrome do túnel do carpo é essencialmente clínico com obtenção de anamnese completa e exame físico. Juntados às queixas dos pacientes, os testes diagnósticos realizados ao exame físico, como os de Phalen (flexão em 90º dos punhos durante 60 segundos elicitando parestesias na mão) e Tinel (suave percussão do nervo mediano na face ventral do punho provocando pequenos “choques” no território de inervação do nervo na mão), são de grande utilidade no diagnóstico da STC (HOWARD, 2004; MINTALUCCI; LEINBERAY, 2012). A combinação da história clínica do paciente com testes diagnósticos de exame físico positivos é mais fidedigna no diagnóstico da síndrome do que apenas sinais ou sintomas isolados. A Página 37 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 acurácia do diagnóstico aumenta consideravelmente quando houver dor noturna, testes de Tinel e Phalen positivos e teste de Durkan (teste doloroso de compressão do túnel do carpo), este último sendo o mais sensível teste para detecção da STC ao exame físico (RENGACHARY; ELLENBOGEN, 2005; ALVES, 2010; HOCHBERG et al., 2011). Na avaliação clínica é possível testar a sensibilidade com monofilamentos de náilon deSemmes-Weistein para confirmar a hipoestesia no território do mediano. Da mesma forma, na neuropatia compressiva do nervo mediano há piora da sensibilidade discriminativa que pode ser testada pelo teste de discriminação entre dois pontos, estático e móvel (LAMA, 2009). 2.5 Tratamento O tratamento da síndrome do túnel do carpo pode clínico e cirúrgico, a depender da apresentação individualizada da doença em cada paciente. O tratamento clinico da STC é reservado para os casos recentes com mínima sintomatologia e nos quais se espera que a síndrome seja transitória. Inclui modificação de atividades, imobilização noturna do punho com órtese, injeção de corticosteróides no canal do carpo e medicações orais (HOWARD, 2004; PARISI; TRUMBLE, 2005; ALVES, 2011). O tratamento cirúrgico da STC consiste em diversas técnicas de descompressão. Este é indicado para pacientes que não tenham melhora com o tratamento conservador e para pacientes portadores de atrofia tenar ou evidências eletrofisiológicas de desnervação. Mesmo nos casos mais graves, como atrofia tenar, a liberação cirúrgica do nervo mediano por meio de incisão no ligamento transverso, proporciona certo alívio dos sintomas e alguma recuperação funcional (HENRIQUE, 2003; PEREIRA; MATTAR; AZZER, 2003). Em alguns casos, a liberação do nervo mediano pela incisão do retináculo dos flexores pode não ser suficiente devido à tenossinovites acentuadas ou doença granulomatosa, requerendo tenossinovectomias mais abrangentes com remoção de aderências (SEVERO et al., 2001; RENGASHARY; ELLENBOGEN, 2005; HOCHBERG et al., 2011). Há diversas modalidades de abordagens cirúrgicas da STC e, como exemplo, há o método clássico aberto, uso de retinaculótomos, endoscopica e mini- open. Dentre todas as técnicas utilizadas, duas se destacam pelo seu aspecto menos invasivo: a técnica endoscópica e a técnica mini-open (ou mini-incisão), proporciona melhor conforto e segurança ao paciente (SEVERO et al., 2001). 2.6 Técnica Mini-open A técnica mini-open, que traduzida do inglês significa mini-abertura ou mini- incisão, foi descrita por Green, em 1984, e modificada por Altissimi e Mancini, em 1988, com o objetivo de ser realizada sob anestesia local e de proporcionar menor morbidade e maior segurança e conforto para o paciente, seja no transoperatório ou no pós-operatório. A incisão cirúrgica é realizada no sentido transversal utilizando-se parâmetros de localização, como a base no ponto de encontro polpa-palma do dedo anular (representando o arco palmar superficial) sendo ao redor de 2,5cm de extensão e iniciada próximo à prega cutânea do punho sob a prega tênar. Após a incisão da pele, tecido subcutâneo e fáscia palmar, o ligamento transverso do carpo é aberto longitudinalmente, visualizando o interior. Observa-se o ramo motor do nervo mediano e tendões flexores, além de possíveis causas de dentro do canal, tais como cistos sinoviais, tumores ou alterações anatômicas. É aberta, proximalmente, cerca de 1 a 1,5cm da fáscia do antebraço, na continuação do ligamento transverso do carpo (FUKUSHIM et al., 2009). Procede-se, então, o término da cirurgia com o fechamento da ferida operatória com sutura. No pós-operatório o curativo é aplicado, o qual será substituído por outro na primeira semana, a mão é estimulada para as atividades diárias leves no pós-operatório imediato e os pontos são removidos na segunda semana (ALTISSIMI; MANCINI, 1988; SEVERO et al., 2001; PEREIRA; MATTAR; AZZER, 2003; ALVES, 2011 ). Página 38 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 2.7 Técnica Endoscópica O procedimento normalmente é iniciado com pequena incisão transversa de 1 a 1,5 centímetros, localizada entre o tendão do músculo flexor ulnar do carpo e o tendão do músculo palmar longo na prega proximal do punho, seguindo-se pela introdução de câmera de vídeo e sistema de secção do ligamento transverso por meio do disparo de um gatilho após localização exata da posição do equipamento através da visualização das estruturas e palpação externa das mesmas e do equipamento (FLORES, 2005). Após a abertura da fáscia antebraquial, identifica-se o nervo mediano e, com o auxílio de um dissector de sinóvia, procedi-se a “palpação” da face inferior do LTC, cujas fibras transversalmente orientadas determinam uma sensação de atrito com estrutura rígida. O próximo passo consisti na introdução de obturadores de tamanhos progressivamente maiores no túnel do carpo, com o objetivo de alargar o trajeto de passagem do endoscópio e permitir a identificação do gancho do hamato, garantindo desta forma que o canal de Guyon não seja erroneamente adentrado(FLORES, 2005). Introduz-se o endoscópio e visualiza-se o ligamento em toda sua extensão, tomandosecuidado para não avançar o aparelho por mais de quatro centímetros. Sob visãovídeoendoscópica, realiza-se a secção completa do referido ligamento, parti-se da sua porção distal em direção proximal. Após este momento, com visão direta, secciona-se quatro a cinco centímetros da fáscia antebraquial, proximalmente. Todo procedimento e relizado com garroteamento do membro superior (PEREIRA; MATTAR; AZZER, 2003; FLORES, 2005) 2.8 Técnica Mini-open Vs Endoscópica Na falha do tratamento clinico ou graus mais intensos de compressão do nervo mediano, a liberação cirúrgica do túnel carpal é indicada e, em geral, produz bons resultados (MINTALUCCI; LEINBERAY, 2012). De acordo com Bionka et al. (2010), Mintalucci e Leinberay (2012), dentre as técnicas cirúrgicas no tratamento da STC que possuem aspecto menos invasivo, destaca-se a técnica mini-open e endoscópica. A maioria das publicações a respeito de cirurgias vídeoendoscópicas relatam o melhor resultado estético como sendo uma das vantagens destes tipos de técnica (SAW et al., 2003). Uma vantagem anatômica da cirurgia endoscópica é a preservação da fáscia palmar superficial, estrutura esta que é habitualmente seccionada durante as cirurgias por descompressão do nervo mediano (BROOKS et al., 2003). Como nesta fáscia inserem-se os músculos tênares, com a técnica endoscópica não ocorre a diminuição da força de preensão da mão operada (MISSITZI; MISSITZIS, 2003). Além disso, esta técnica permite a utilização de incisões menores, menor manipulação de tecidos profundos e, como consequência, diminuição da dor no períodopósoperatório (BILGIN; SOYDAN; ADIYAMEU, 2003). Estes dois fatores associados atuaram para acelerar a recuperação do paciente, permitindo seu retorno mais rápido às atividades diárias e/ou laborais (WANG; HUTCHINGSON; VANDEHOOFT, 2003). Pereira, Mattar e Azzer (2003) relatam em seus estudos com 28 pacientes que, em uma escala visual analógica de zero a dez, o grupo endoscópico teve média de 9,29 para dorpré-operatória e de 1,71 na 12º semana após a cirurgia, enquanto que o grupo da mini-incisão teve média de 9,21 no pré-operatório e de 3,50 na 12º semana de pós-operatório. Em relação ao tempo necessário para retorno da força ao nível pos-peratório, o grupo endoscópico demorou, em média, 4,93 semanas (aproximadamente 35 dias) para recuperar a força, enquanto o grupo da mini-incisãodemorou, em média, 11,14 semanas (aproximadamente 78 dias). Dentre os benefícios da cirurgia endoscópica, minimamente invasiva, para tratamento da STC, verificam-se diminuição da morbidade pós-operatória, diminuição da dor após o procedimento e retorno mais rápido às atividades de vida diária, melhor resultado estético e recuperação mais rápida da força de preensão na mão após a cirurgia (FLORES, 2005). Segundo os autores, Pereira, Mattar e Azzer (2003) foi observado através dos monofilamentos de Semens Weinstein no período pré-operatório que ambos os grupos apresentaram, em média, uma Página 39 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 diminuição da sensibilidade protetora, apresentando recuperaçãopós-opertória, porém permaneceram com diminuição da sensibilidade tátil leve. Eles ainda constataram Pereira, Mattar e Azzer (2003) que o tempo de retorno ás atividades da vida diária foi por volta da 2,93 semanas (21 dias aproximadamente) no grupo endoscópico e de 8,42 semanas (59 dias aproximadamente) no grupo da mini-incisão. A presença de dor na borda ulnar da palma da mão após a cirurgia, chamada de dor pilar ulnar, foi constatada em quatro pacientes do primeiro grupo (28,57%) e em dez pacientes no segundo grupo (71,43). A curva de aprendizado para técnica endoscópica exige a necessidade de treinamento com vídeo-cirurgia, acostumar-se com visualização bidimensional de estruturas tridimensionais, além do aprendizado da anatomia endoscópica (SCHONAUER; VARMA; BELCHER, 2003). Os autores Pereira, Mattar e Azzer (2003), constataram que a presença de dor na região do pilar ulnar na palma da mão foi um achado constante no grupo da mini-incisão (71,42%), superior ao grupo endoscópico (28,57%). Este fato pode retardar o uso funcional da mão por prejudicar a pressão palmar no local. Uma das complicações mais temíveis na técnica mini-open é a lesão do ramo cutâneo do nervo mediano, responsável pela inervação da região intertenar da palma da mão. Flores (2005) relata, também, que a técnica endoscópica, embora relacionada com maior demanda tecnológica, depende de instrumentos e demonstra-se bastante segura com vantagens significativas a curto prazo. Berger (1994), Shinya et al. (1995) e Bozentka e Osterman (1995), relatam em seus estudos retrospectivos, mostraram que os procedimentos endoscópicos na liberação do túnel carpal podem causar lesão nervosa com frequência duas vezes maiores quando comparado com aminiopen. Outras complicações descritas pela via endoscópica são: liberação incompleta do ligamento transverso, laceração arterial do arco palmar superficial e artéria ulnar, hematoma, lesão de tendões flexores, distrofia simpático-reflexa e abertura do canal de Guyon acidentalmente (AGEE et al., 1995; SHINYA et al., 1995; FERNANDES et al., 1999). Pereira, Mattar e Azzer (2003), observaram também a diminuição da sensibilidade protetora, comum aos dois grupos antes do tratamento cirúrgico da STC. Após o tratamento houve uma diferença estatística significativa entre as técnicas endoscópica e mini-open, achado que reduz as conclusões de Palmer e Toinvonen (1999). A recuperação em ambas as técnicas, em média, não foi completa, pois o paciente permaneceu com redução da sensibilidade tátil livre. Este dado é importante, pois o prognóstico do retorno à sensibilidade esta relacionado com o tempo de compressão do nervo e com a idade do paciente. Dentre as complicações mais comuns relacionadas à técnica endoscópica, podemos ainda citar a lesão do ramo digital comum dos dedos, habitualmente na porção distal do ligamento transverso do carpo, e a lesão do nervo ulnar, devido a entrada inadvertida no canal de Guyon. A maioria das séries que tratam a respeito de descompressão endoscópica do carpo relata a incidência destas complicações em até 5% dos casos (MALAVIYA, 2004). Segundo Fukushima et al. (2009), relatam que a técnica mini-open tem a vantagem de propiciar ao paciente um excelente resultado estético-funcional, proporcionando uma exploração detalhada do túnel carpal e não somente a liberação do ligamento transverso do carpo, como descrito em procedimento endoscópico. A técnica cirúrgica da mini-incisão demonstra ser segura, eficaz e atraumática no tratamento da síndrome do túnel carpal. Apresenta prevalência de utilização no sexo feminino e no lado dominante. A técnica mini-open não necessita longa curva de aprendizado e apresenta probabilidade de uma a duas vezes menor de ocorrerem complicações, quando comparada com a via endoscópica (SEVERO et al., 2001). A técnica de mini-incisão transversa, realizada a um centímetro da prega de flexão do punho e proximal ao retináculo dos flexores, proporciona menor desconforto da cicatriz e menor taxa de persistência de dor no “pilar”, mas não mostra diferença significativa no tempo geral decorrido no pós-operatório para o retorno às atividades de vida diária e de trabalho dos pacientes (ALVES, 2011). Página 40 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Greco e Curtsinger (1993) descreveram complicações devastadoras pela técnicamini-open que devem ser lembradas na liberação do túnel carpal, como fascites necrotizantes que necessitam da transferência de retalho livre para cobertura. A técnica cirúrgica de mini- incisão permite retorno às atividades habituais em até duas semanas de pós-operatório. As complicações são evitadas com mais facilidade por essa técnica, pois o nervo mediano e as estruturas do túnel carpal podem ser visualizados diretamente. Em estudo Alves (2011), concluiu que a técnica de mini-incisão era um método efetivo para a cirurgia da STC associada com melhora significativa dos sintomas, menor incidência de complicações na cicatriz e evolução da função geral da mão, apesar de não permitir a realização de procedimentos adicionais. Existem poucos relatos de complicações com a utilização das mini-incisões e estas podem acontecer independentemente da técnica utilizada. Entretanto, na persistência de sinais e sintomas de compressão do nervo mediano e persistência de alterações eletrofisiológicas,recomenda-se o estudo por ressonância nuclear magnética do punho para avaliar a presença de divisão proximal do nervo mediano (FERNANDES et al., 1999). Segundo Kuchner et al. (1991), a secção das estruturas superficiais ao LTC (pele, tecido celular subcutâneo e aponeurose palmar) é uma característica inerente da descompressão porminiincisão. A cicatrização destes tecidos localizados na palma da mão pode resultar redução da sensibilidade no local da cicatriz por algum tempo, fato que acaba inibindo preensão palmar. Portanto, mesmo quando se obtêm sucesso completo na descompressão pela técnica mini-open, o tempo de incapacidade funcional e o intervalo de recuperação prolongado podem ser inconvenientes para o paciente. A técnica mini-open é um método preconizado por Bromley (1994), na qual demonstrou que incisões que cruzam o limite proximal da prega cutânea de flexão palmar do punho acarretam um tempo de recuperação pós-operatório mais prolongado. O posicionamento correto da incisão pode precaver eventuais lesões do ramo cutâneo palmar do nervo mediano. Pereira, Mattar e Azzer (2003) explanam que o futuro talvez nos reserve técnicas de descompressão do túnel do carpo ainda menos invasivas que possibilitem a visualização de todas as estruturas contidas no interior do túnel carpal. CONCLUSÃO A evolução das técnicas cirúrgicas no tratamento da STC faz com que os cirurgiões desenvolvam intervenções cada vez mais atraumatica, e que dessa forma diminua os corredores de acesso às estruturas-alvo e a consequente manipulação dos tecidos. Tudo isso, com o principal objetivo de tentar diminuir a dor e o tempo de recuperação após os procedimentos com uma menor incidência de complicações neurológicas, retorno mais rápido às atividades laborais, melhor conforto e força de preensão da mão, baixo custo do tratamento e uma estética satisfatória. Os fenômenos propostos, segundo as bibliografias abordados de forma satisfatória, puderam transmitir tal informação sobre o tratamento cirúrgico da STC, tanto pela técnicamini-open quanto pela endoscópica, chegando a resultados semelhantes quando comparadas nos critérios de tempo de pós-operatório, dor na cicatrização e sensibilidade, como também, força de preensão da mão e retorno às atividades laborais.Observou-se que a técnica mini-open tem um baixo custo,menor curva de aprendizado,sendo seus procedimentos realizados em tempo hábil e com menor complicação. REFERÊNCIAS ACADEMIA AMERICANA DE CIRURGIÕES ORTOPEDISTA. Clinical guidelines on diagnosis of carpal tunnel syndrome. Disponível em: <www.aaos.org/research/guidelines/CTS_ guideline.pdf>. Acesso em: 01 fev. 2013. Página 41 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 AGEE, J.M.; PEIMER, C.A., PYREK, J.D. WALSH W.E. 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Página 45 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 A ATUAÇÃO DO ESTADO NO TRATAMENTO JURÍDICO PENAL DO PSICOPATA OU PESSOA PORTADORA DE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL THE ROLE OF THE STATE IN THE LEGAL TREATMENT CRIMINAL OF THE PSYCHOPATH OR PERSON WITH ANTISOCIAL PERSONALITY DISORDER Ana Klenia Pereira de Sousa1, Wirna Maria Alves da Silva2 RESUMO Este trabalho versa sobre um assunto delicado e abrangente, o qual compreenderá o estudo da Psicopatia e sua devida responsabilização penal, abrangendo também alguns fatores gerais que influenciam no cometimento de ações ou omissões tipificadas como crimes praticados por estes indivíduos. A escolha do tema em questão é muito importante, sobretudo, no tocante às discussões, através das leis, jurisprudência e doutrina, sobre a natureza da psicopatia, isto é, se o indivíduo psicopata é ou não imputável e qual a punição “adequada”, no seu caso específico. Neste contexto, serão também analisados os resultados e as tentativas de soluções entre áreas de confronto, como a área penal e a psiquiátrica, tendo em vista que possuem um único resultado, que é a preservação do bem estar da sociedade com um todo, no que se refere ao tema abordado. Assim, será possível, através dos casos concretos ilustrados, analisar a forma como o Estado e a Legislação Penal Pátria tratam os indivíduos acometidos pela psicopatia, quando estes venham a cometer ações ou omissões tipificadas como crimes. Dessa forma, ao verificar seu comportamento bem como suas características, será demonstrado que o psicopata não assimila a punição, em outras palavras, a reeducação e a ressocialização não são alcançadas por tais indivíduos, posto que não aprendem pelos métodos correcionais nem pela experiência vivida por eles. Trocando em miúdos, o tempo deles na prisão ou casa de custódia nada significa e, inevitavelmente, incorrerão na reincidência de seus crimes. Palavras-chaves: Psicopatia. Transtorno de Personalidade. Crime. Atuação Estatal. ABSTRACT This work deals with a sensitive subject and comprehensive, which shall include the study of Psychopathy and criminal accountability, his proper covering also some general factors that influence in the Commission of such actions or omissions typified as crimes committed by these individuals. The choice of the theme in question is very important, especially with regard to the discussions, through the laws, jurisprudence and doctrine, about the nature of psychopathy, i.e. If the individual psycho is attributable or not and what the "appropriate" punishment, in your specific case. In this context, will be also analyzed the results and solutions attempts between areas of confrontation, as the penal and psychiatric area, in order to have a single result, which is the preservation of the welfare of the whole society, with regard to the topic discussed. Now you will be able, through concrete cases illustrated, analyze how the State Criminal laws and treat individuals affected by Homeland psychopathy, when these come to commit actions or omissions typified as crimes. Thus, to verify its behavior as well as their characteristics, it will be shown that the psychopath not assimilates the punishment, in other words, the re-education and resocialization are not reached by such individuals, since do not learn by experience or by correctional methods Aluna de Graduação (9º Período) do Curso de Direito da Faculdade Integral Diferencial – DeVry Brasil. Email: [email protected] 2 Professora do Curso de Direito da Faculdade Integral Diferencial – DeVry Brasil, Mestre em Direito. 1 Página 46 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 experienced by them. Simply put, their time in prison or custody House means nothing and, inevitably, will incur in the recurrence of his crimes. Keywords: Psychopathy. Personality disorder. Crime. State Performance. INTRODUÇÃO Este trabalho visa a realização de um estudo acerca dos autores de homicídios que são acometidos pela psicopatia ou transtorno de personalidade antissocial quando do cometimento de ações ou omissões tipificadas como crimes e sua punibilidade no atual sistema penal brasileiro. Assim, é importante saber que os psicopatas sofrem de um distúrbio conhecido como Transtorno de Personalidade Antissocial e, por conta disso, são seres, geralmente, frios, cruéis, perversos, sem consciência e destituídos de qualquer senso de responsabilidade ética ou moral. Almeida (2012) avaliando o comportamento de tais sujeitos observou o alto nível de inteligência, competitividade, ambição e egocentrismo que possuem, conseguindo manter bons contatos com as pessoas, sendo muitos deles empreendedores e bem-sucedidos na vida social e política. São indivíduos deste “porte” que transitam todos os dias no meio social, no trabalho, nas escolas, na academia, no supermercado etc, passando tranquilamente despercebido aos nossos olhos. A este respeito, acrescenta Silva (2008) que eles vivem entre nós, parecem fisicamente conosco, mas são desprovidos deste sentido tão especial: a consciência. Tendo em vista que são verdadeiros “atores” da vida real, que mentem com a maior tranquilidade, como se estivessem contando a verdade mais cristalina. É esta a realidade com a qual se depara a sociedade e, consequentemente, o judiciário brasileiro, pois as ações desses indivíduos quando passam a ser criminosas, necessitam de uma medida punitiva que visa-lhes dar um tratamento adequado para que não voltem a reincidir. Dessa forma, esclarece-se que a psicopatia é considerada uma doença mental até certo ponto, pois no dizer de Maranhão (2008) “a psicopatia [...] trata-se muito mais de um defeito do que um distúrbio[...]”. Fato é que, independente, da natureza do seu distúrbio, se patológico ou defeito de personalidade por má formação de caráter, quando do cometimento de crime são urgentes medidas necessárias por parte do Estado para tratar o caso concreto de acordo com suas especificidades. Cumpre salientar que o judiciário brasileiro se depara com esta realidade, pois as ações desses indivíduos quando passam a ser criminosas, necessitam de uma medida punitiva que visa-lhes dar um tratamento adequado para que não voltem a reincidir. Dessa forma, esclarece-se que a psicopatia é considerada uma doença mental até certo ponto, pois no dizer de Maranhão (2008) “a psicopatia [...] trata-se muito mais de um defeito do que um distúrbio[...]”. Fato é que, independente, da natureza do seu distúrbio, se patológico ou defeito de personalidade por má formação de caráter, quando do cometimento de crime são urgentes medidas necessárias por parte do Estado para tratar o caso concreto de acordo com suas especificidades. O objetivo deste estudo é mostrar a atuação estatal no tratamento jurídico do psicopata ou pessoa portadora de transtorno de personalidade antissocial que venha a cometer crime, no Brasil. Para tanto, fez-se uma revisão bibliográfica com uma abordagem qualitativa sobre o tema em foco. O estudo teve como base materiais já publicados, constituídos principalmente de livros, artigos científicos publicados, revistas e fontes confiáveis disponibilizadas na internet em sites oficiais, no período de 2000 a 2013. Ressaltando-se que a maioria dos autores da bibliografia pesquisada são juristas, psicólogos e psiquiatras, dada a particularidade do assunto. 2 MATERIAS E MÉTODOS A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica com uma abordagem dedutiva tendo em vista que partiu-se de um entendimento geral para se chegar a um fim específico. A pesquisa foi Página 47 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 realizada através de consultas em livros, artigos científicos, legislação aplicada ao tema e internet (sites confiáveis). 3 A PSICOPATIA: UMA MACRO-VISÃO A psicopatia sempre foi um fenômeno complexo e intrigante, preocupando muitos profissionais que estudam o comportamento humano, a exemplo dos psicólogos, sociólogos, antropólogos, psiquiatras, bem como os profissionais do direito. Para estes, debruçar-se sobre o tema vai, além de compreendê-lo, buscar encontrar uma forma de tratamento adequado que vise amenizar e ou minorar a ação dos psicopatas (sujeitos portadores de transtorno de personalidade antissocial) pelas razões que abordaremos neste estudo. De início, para entender melhor o assunto abordado, faz-se necessário analisar a etimologia da palavra. Assim, o termo psicopata significa doença da mente (do grego, psyche = mente; e pathos = doença). Mas, contrapondo-se a isso, Silva (2008) afirma que “em termos médico-psiquiátricos, a psicopatia não se encaixa na visão tradicional das doenças mentais.” E corroborando com esta ideia, Maranhão (2008) ressalta que “a psicopatia trata-se muito mais de um defeito do que um distúrbio” Então, com base na doutrina especializada, entende-se que a psicopatia não se trata de uma doença física, genética ou hereditária, mas de um transtorno de personalidade, desvio comportamental ou distúrbio de caráter adquirido, em alguns casos, por tramas na infância, em outros, pela desestruturação familiar, educação deficitária etc. No entanto, pode-se vislumbrar que os psicopatas não são considerados loucos, no sentido psiquiátrico do termo, ao contrário são indivíduos “inteligentes” e espertos. Com base nessa premissa, Silva (2008) acrescenta que “são indivíduos tão astutos que sua parte racional ou cognitiva é perfeita e íntegra, por isso sabem perfeitamente o que estão fazendo”. Com este mesmo raciocínio, Trindade (2009, p.129) explicita que: A psicopatia não é um transtorno mental como a esquizofrenia ou a depressão, mas um transtorno de personalidade e devido a forma devastadora de comportamento destes indivíduos perante a sociedade, nos levam a crer que os psicopatas são os mais severos predadores da espécie humana, não obstante, constroem uma verdadeira carreira de crimes que se iniciam na infância até atingirem a vida adulta, desenvolvendo maior grau de perversidade a cada crime cometido. Deste modo, quando se trata de psicopatia, logo nos vem à mente um sujeito mau, grosseiro, com aparência descuidada, suspeito, transtornado, enfim, um assassino em série; contudo, são pessoas comuns, de aparência normal, que estão ao nosso redor, no trabalho, na faculdade, na família etc., sem que ninguém desconfie da sua má-fé e do seu caráter transgressor. Neste sentido, Silva (2008, p.16 e 17) afirma que: Por serem charmosos, eloquentes, “inteligentes”, envolventes e sedutores, não costumam levantar a menor suspeita de quem realmente são. Podemos encontrá-los disfarçados de religiosos, bons políticos, bons amantes, bons amigos. Em vista disso, percebe-se que a psicopatia é um transtorno de personalidade em que o indivíduo é insensível, pobre de sentimento, ausente de afeto, cruel, egoísta, não tem semelhante porque é incapaz de se colocar no lugar do outro e, sobretudo, traiçoeiro, uma vez que faz de tudo para atingir o seu propósito, sem se preocupar com nenhuma consequência. Assim, é importante que se faça menção ao primeiro estudo sobre psicopatas publicado em 1941, com o livro The Mask of Sanity (A máscara da sanidade) do psiquiatra americano Hervey Cleckley. Segundo ele: A psicopatia é um problema “muito conhecido, mas ao mesmo tempo ignorado pela sociedade como um todo”. Os psicopatas apresentavam um charme acima da média, uma capacidade de convencimento muito alta e ausência de remorso ou arrependimento em relação às suas atitudes. Cleckley (1941 apud SILVA et al., 2008). Página 48 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 A propósito disso, percebe-se algumas características básicas do psicopata ou indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial com o fim de facilitar a identificação e o reconhecimento desse tipo de pessoa que, por ventura, esteja ao nosso redor. 3.1 Como Conhecer um Psicopata Diante das considerações feitas, cumpre destacar que o psicopata ou indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial age, constantemente, sob uma máscara de sanidade, utilizando-se de quaisquer meios e métodos para alcançar seus objetivos. Concordando com isso, Silva (2008, p.16) reitera que: Os psicopatas enganam e representam muitíssimo bem! Seus talentos teatrais e seu poder de convencimento são tão impressionantes que chegam a usar as pessoas com a única intenção de atingir seus sórdidos objetivos. Tudo isso sem qualquer aviso prévio, em grande estilo, doa a quem doer. Sob esta ótica, é importante esclarecer que, além de psicopatas, eles também recebem outras denominações, quais sejam: sociopatas, personalidades psicopáticas, personalidades antissociais, personalidades dissociais, personalidades amorais, inferioridades psicopáticas, entre outras. O que importa saber é que todas essas denominações se referem ao mesmo sujeito, o qual possui um desvio comportamental e, consequentemente, ações devastadoras que chocam à sociedade. A este respeito, citamos, ilustrativamente, o caso do famoso “bandido da luz vermelha”, um serial killer que, com uma lanterna de luz vermelha, aterrorizava as noites da capital paulistana, só atacava mansões, roubava e obrigava as vítimas a cozinharem para ele. Estuprava e, às vezes, assassinava. Foi julgado e condenado a 351 anos de prisão, cumpriu 30 anos (a pena máxima no Brasil) e após 4 meses e 5 dias depois de ser libertado, durante uma briga com um pescador foi assassinado, por ter tentado estuprar a mãe do pescador que o tinha acolhido em sua casa. Em virtude disto, observa-se, de maneira clara, que o tempo que “Luz Vermelha” passou recluso nada serviu para que ele mudasse o rumo da sua vida, voltando às práticas criminosas de antes. Corroborando com o exposto acima, Hungria (2002, p.03) alega que “a modificação da personalidade, no sentido do seu reajustamento social, pode ser, e muitas vezes o é, apenas fingida ou meramente superficial, não atingindo o substrato da intimidade psíquica do indivíduo.” E, ainda, no dizer de Ballone (2008), “esta característica – incapacidade de aprender com a punição – é chamada de incorrigibilidade, vez que psicopatia e reeducação são conceitos que caminham em sentidos opostos.” Neste aspecto, o curioso é que quando eles se encontram presos, apenas sentem que suas ações estão neutralizadas naquele espaço de tempo e acumulam forças para agir do mesmo modo e ir além do que praticavam antes. 3.2 A Natureza dos Crimes dos Psicopatas No que concerne às ações ou omissões tipificadas como crimes cometidos por psicopatas ou indivíduos portadores de transtorno de personalidade antissocial, cabe destacar que, geralmente, são crimes violentos, cruéis, socialmente reprováveis, nos quais se verifica a “coisificação” do ser humano causando repercussão e revolta na sociedade. Neste sentido, frisa-se também, que na personalidade transtornada de tal indivíduo há um desejo de não simplesmente matar, mas também humilhar e causar dor física e psíquica na vítima, a qual é vista na condição de objeto que proporciona prazer à sua prática doentia. Nesta seara, para entender melhor a natureza das ações ou omissões tipificadas como crimes cometidos por psicopatas ou indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial, é Página 49 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 importante citar, de forma meramente ilustrativa, certos casos que chocaram à sociedade e foram manchetes nos jornais, brasileiros e mundiais. O primeiro deles é o caso da Suzane Von Richthofen, uma jovem de situação econômica estável, bom nível social, boa aparência e universitária que arquitetou cruelmente a morte de seus próprios pais, pelo fato de não aceitarem o seu namoro com Daniel Cravinhos, o executor do crime. Neste Contexto, Silva (2008, p.112) relembra: Os irmãos Cravinhos mataram o casal Von Richthofen (pais de Suzane) com pancadas de barras de ferro na cabeça, enquanto dormia. Simularam um latrocínio, espalharam objetos e papéis pela casa e levaram todo o dinheiro e joias que conseguiram encontrar. Para tanto, é importante relembrar que o fato que mais impressionou a todos foi a frieza que a jovem demonstrou após o ocorrido. Quer dizer, o comportamento dela não era, nem de longe, de alguém que acabara de perder os pais, muito pelo contrário, ela estava mais preocupada com a herança e a venda da casa do que com a morte de seus pais. Percebe-se que além da frieza, notada pelo comportamento emocional “inabalável”, a jovem demonstrava outras características que a enquadrava, sem dúvida nenhuma, na esteira da psicopatia. Outro caso que ilustra muito bem a problemática da psicopatia é o do Francisco da Costa Rocha, mais conhecido como “Chico Picadinho”, um dos criminosos mais conhecidos que sofrem de distúrbio de personalidade. Assim, em meados do ano de 1966, envolveu-se com uma bailarina, com quem manteve relações sexuais e acabou matando-a enforcada. Na tentativa de se livrar do corpo, mutilou-a e cortando-a em pedaços. Chico foi preso, condenado a 30 (trinta) anos de prisão e, após o cumprimento de um terço da pena, foi posto em liberdade condicional. Mas, em 1976, voltou à criminalidade cometendo outro delito idêntico, assassinando e esquartejando outra mulher, fazendo jus ao seu apelido de “Chico Picadinho”. Consoante descrito acima, ambos os criminosos cometeram crimes de natureza aterrorizante e com o mesmo animus necandi e modus operandi, foram presos, condenados e, quando postos ,em liberdade, voltaram a praticar crimes da mesma natureza demonstrando mais uma vez que os psicopatas não aprendem com a punição, ou seja, esta é apenas uma maneira de paralisá-los, temporariamente. Entretanto, quando livres, eles se sentem tão à vontade que voltam a fazer aquilo que lhes dá prazer, ou seja, aquilo que a sua natureza os impele a fazer. 3.3 A Responsabilidade Penal do Psicopata Para se verificar a responsabilidade penal, no tocante às ações ou omissões tipificadas como crimes cometidos por pessoas portadoras de transtornos de personalidade antissocial, em especial o psicopata, faz-se necessário um breve esclarecimento sobre o que vem a ser a culpabilidade e seus elementos. Assim, pode-se dizer que a culpabilidade significa a “reprovabilidade da conduta do agente, que praticou um fato típico e ilícito, quando o direito lhe exigia um comportamento diferente daquele praticado ou não.” (Mirabete, 2010). Dessa forma, é preciso não só que o agente pratique um fato típico e ilícito reprovável socialmente (culpabilidade), mas também que tenha a capacidade de entender o caráter ilícito do fato e agir conforme esse entendimento (imputabilidade), pois esta é elemento, pressuposto ou requisito daquela. Então, segundo este entendimento, percebe-se que para se atribuir imputabilidade a alguém, este deve ter condições biológicas e psicológicas de entender plenamente a tipicidade e a ilicitude do ato cometido e, ainda, agir de acordo com este entendimento. Neste contexto, verifica-se que além da culpabilidade, temos a imputabilidade. Esta é pressuposto daquela; e além do agente considerado imputável ou inimputável, pode também ser ele considerado semi-imputável, aquele que tem alguma consciência da ilicitude de seu ato, mas sua culpabilidade é diminuída em razão de suas condições pessoais, vez que não tem a plenitude da Página 50 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 capacidade intelectiva e volitiva, sendo, via de regra, mais perigosos que os inimputáveis (insanos). Têm eles a imputabilidade diminuída, por serem semi-imputáveis. De acordo com isto, é perceptível que o indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial, sobretudo o psicopata, se enquadra na condição de imputabilidade diminuída ou, segundo alguns doutrinadores, restrita. Em outras palavras, o psicopata é considerado semiimputável. Assim sendo, percebe-se que é fundamental o diagnóstico preciso do indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial para se determinar a pena a ser utilizada ou o tratamento adequado a ser dado na situação específica, vez que a pena no Brasil apresenta uma tríplice finalidade, qual seja, a retribuição, a prevenção e a ressocialização. Porém, o grande problema encontrado em relação à pena ou tratamento dispensado pelo Estado aos indivíduos com personalidade antissocial é o fato destes não assimilarem a punição, mesmo porque a função ressocializadora só ocorre se o preso se esforçar para isso, ou seja, o esforço não deve ser proveniente somente do sistema penal. Assim, o apenado precisa se arrepender e mudar suas atitudes e posturas para voltar ao convívio sócio-familiar. 4 O TRATAMENTO JURÍDICO ADOTADO PELA LEGISLAÇÃO PENAL BRASILEIRA AO PSICOPATA OU PESSOA PORTADORA DE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL De acordo com a abordagem feita até o momento, depreende-se que o psicopata ou indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial sofre de um distúrbio comportamental que pode ser leve (aquele que aplica pequenos golpes e engana pessoas de boa índole); moderado (aquele que envolve muitas vítimas em grandes golpes) e o grave (aquele que comete assassinatos a sangue frio, sejam em série ou não; praticando estupros, tortura etc). Dessa maneira, quando tais indivíduos passam a cometer ações ou omissões tipificadas como crimes, então o Estado é obrigado a interferir na tentativa de coibir e penalizar tais atos para proteger a sociedade. Com base nisso, Bitencourt (2004, p.46) assinala que: A partir do cometimento de um crime, o Estado deve exercer o seu direito de punir, e o faz pela cominação de uma punição. Muito se discute acerca da pena, mas a grande maioria dos doutrinadores acredita que esta justifica-se por sua necessidade. Partindo disso, no intuito de dar um tratamento "adequado" ao Psicopata, a Legislação Penal Brasileira prevê a aplicação das Medidas de Segurança, as quais mantém semelhança com a pena no que se refere à diminuição de um bem jurídico, tratando-se de uma sanção penal. Contudo, a diferença entre ambas consiste no fato de que o fundamento da aplicação da pena reside na culpabilidade do agente, enquanto a medida de segurança fundamenta-se na questão da periculosidade do agente. Sob este prisma, afirma (Damásio, 2000 p.189), Enquanto a pena é retributiva-preventiva, tendendo atualmente a readaptar socialmente o delinquente, a medida de segurança possui natureza essencialmente preventiva, no sentido de evitar que um sujeito que praticou um crime e se mostra perigoso venha a cometer novas infrações penais. Destarte, os pressupostos fundamentais para a aplicação das medidas de segurança são tanto a prática de fato previsto como crime, quanto a periculosidade do agente, conforme se verifica nos artigos 97 e 98 do Código Penal Vigente. (BRASIL, 1940). Dessa forma, tipificou-se duas modalidades de medida de segurança: a retentiva(internação) e a restritiva(tratamento ambulatorial). A internação deverá ser feita em hospital de custódia e Página 51 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 tratamento psiquiátrico, ou na falta dele, em outro estabelecimento adequado, sendo destinada ao indivíduo que tiver cometido fato punível com pena de reclusão. Já o tratamento ambulatorial é aquele em que o indivíduo é tratado com acompanhamento cuidadoso dos médicos, inclusive com uso de medicação apropriada, mas sem internação, sendo este tipo de tratamento destinado aos autores de fato que se comine pena de detenção. Lembrando que tanto a internação quanto o tratamento ambulatorial são efetivados em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico (os antigos manicômios). A propósito disso, "a história da menina-vampiro do Piauí" constitui exemplo oportuno de tais medidas, pois logo após o cometimento dos crimes foi ela conduzida ao hospital psiquiátrico, em Teresina, para internação, avaliação e condução das providências necessárias para o seu caso. A este respeito, (Barros, 2013) argumenta que "a internação tentava evitar que ela viesse a praticar o suicídio ou que outros crimes contra terceiros fossem praticados", tendo em vista a barbárie do crime por ela cometido. Logo após, a menina seguiu internada com acompanhamento psiquiátrico por alguns poucos anos, mas como a mesma não havia expressado sintomas psiquiátricos significativos, nem manifestado agressividade ou periculosidade, recebeu alta médica devendo continuar em tratamento e observação psiquiátrica em regime ambulatorial. Nos dias atuais ela está livre, mesmo não estando apta, em nenhum aspecto (sobretudo o mental), ao convívio sócio-familiar, pois o próprio médicopsiquiatra afirmou que “o caso dela é irreversível e que, posta em liberdade, poderá voltar a cometer delito semelhante, desde que seja provocada. É só uma questão de tempo.” Fato como este demonstra o quanto o tratamento adotado pelo aparelhamento estatal a pessoas nessa situação é “falho”, pondo em risco toda a sociedade. 5 A “(IN) ADEQUAÇÃO” DO TRATAMENTO JURÍDICO ADOTADO PELA LEGISLAÇÃO PENAL BRASILEIRA AO PSICOPATA OU INDIVÍDUO PORTADOR DE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL Feitas as considerações do item anterior, vimos claramente que há a atuação estatal no sentido de dar um tratamento diferenciado ao apenado de acordo com suas especificidades, a exemplo das medidas de segurança e conforme o artigo 5º da Constituição Federal de 1988, o qual regula a individualização da pena adotada, bem como seu cumprimento em estabelecimentos distintos. Mas o que se vê, de fato, é que muitas situações só encontram resolubilidade no texto da lei, como se posiciona Nollêto (2010 apud BARROS et al., 2013): ‘15:50’ mostra que a realidade de alguém que busca tratamento para problema de baixa afetividade, ainda está muito distante. É um sonho. Sonho parecido vive uma legião de custodianos que,em situação sub-humana, tenta aumentar o espaço de uma cela, cuja capacidade é para a metade. Essas pessoas clamam por um básico mínimo: acompanhamento médico-psicológico, celas com iluminação, com ventilação e com espaço onde possam pensar sem compartilhar. Não há como negar tal realidade, vez que está estampada no dia-a-dia dos apenados, sendo urgente a adoção de políticas públicas ou de mecanismos que propiciem as condições básicas de sobrevivência naquele recinto onde passarão muito tempo. O que se busca explica é que, embora o aparelhamento estatal, bem como a Legislação Penal Brasileira preveja um tratamento diferenciado para os apenados (sobretudo, para os portadores de transtorno de personalidade antissocial), efetivamente, esse fato ainda deixa muito a desejar. Ilustrativamente, volta-se a citar “o caso da menina-vampiro do Piauí” para relembrar que apesar da barbárie que cometeu, com diagnóstico F60.2 (Transtorno da Personalidade Antissocial) e nunca ter mostrado nenhum sinal de arrependimento, encontra-se atualmente livre porque, segundo alguns institutos para os quais foi encaminhada, já cumpriram sua finalidade em atendê-la exaurindo-se os recursos de tratamento para a mesma. Página 52 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Da mesma forma, aconteceu com o caso Damião Ximenes, posto que foi morto por maus tratos e tortura ocorridos dentro da instituição na qual o mesmo estava internado, coube ao Estado reparar o dano à família com indenização por danos materiais e imateriais. Neste caso, Damião era considerado inimputável porque, de fato, era portador de doença mental grave. Além disso, não tinha cometido nenhum crime, mesmo assim foi vítima de um sistema estatal inerte, negligente, omisso e “despreparado” para tratar indivíduos com necessidades especiais como a sua. Já no caso da “Menina-vampiro”, observa-se um caso de semi-imputabilidade ou imputabilidade diminuída, vez que assassinou, de forma cruel, a tia e as primas e foi diagnosticada pelos médicos como psicopata amoral. Com base nisso, Barros (2013) afirma que “o pedido de Habeas Corpus foi negado pelo Tribunal de Justiça e os laudos médicos continuavam apontando-a como psicopata amoral.” Isto posto, confirma-se, sobremodo, que o psicopata ou indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial, quando do cometimento de ações ou omissões tipificadas como crime, não pode voltar ao convívio social, sem acompanhamento psicológico contínuo, porque a punição sofrida por eles não alcançou seu objetivo, de modo que não houve reeducação. CONCLUSÃO Logo, à luz de todo o exposto, sobre o mundo complexo do psicopata, percebeu-se que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, ele não é apenas aquele que mata “a sangue frio”, e sim todo aquele conhecido como “ mau caráter”, vez que a psicopatia, conforme demonstrado no decorrer deste trabalho, não se trata de uma doença mental propriamente dita, mas de um distúrbio de personalidade antissocial, isto é, um defeito comportamental. Pois na concepção de Maranhão ( 2008), “a psicopatia trata-se muito mais de um defeito do que um distúrbio.” Por conta disso, diagnosticá-los é um desafio muito grande, até mesmo, para os profissionais especializados, posto que uma das suas maiores características é a dissimulação aliada à mentira, principalmente quando cometem um crime, sendo capazes de fingir, com tranquilidade, certas doenças mentais como a psicose, a esquizofrenia etc, no intuito de minorar a pena ou, até mesmo, eximir-se dela. Neste contexto, procurou-se demonstrar a psicopatia, trazendo à tona alguns aspectos históricos, classificações e peculiaridades, demonstrando ainda a periculosidade do psicopata ou indivíduo portador de transtorno de personalidade antissocial e sua grande tendência para reincidir no crime. Primou-se também por mostrar de que forma tais indivíduos são tratados perante o Estado quando do cometimento de seus crimes, vez que são considerados semi-imputáveis. Neste caso, será aplicada a medida de segurança, sendo estes internados em hospitais de custódia com tratamento psiquiátrico, e anualmente ou conforme disposto pelo juiz da execução, deverão passar pela perícia para verificar a cessação da periculosidade, não excedendo o prazo máximo da pena determinada na Constituição Federal de 1988 que é de 30 anos, ou então caso sejam considerados imputáveis, ficarão reclusos em penitenciárias comuns com os outros condenados, enganando e manipulando a todos até o fim de suas penas para que quando postos em liberdade, voltem a reincidir na prática criminosa. Partindo deste pressuposto, buscou-se demonstrar as celeumas jurídicas da psicopatia, visto que, segundo alguns doutrinadores, as punições são “ineficazes”, já que acabam recolocando o indivíduo novamente na sociedade. Logo, diante da análise dos casos mencionados e também do clamor da sociedade, torna-se imperativo a urgente necessidade de uma política criminal específica para os psicopatas, na qual contenha meios e formas peculiares de tratá-los juridicamente de acordo com suas necessidades físicas e psicológicas, a saber: reformas psiquiátricas que assegurem os direitos das pessoas que sofrem de transtorno mental, tanto os inimputáveis quanto os semi-imputáveis, bem como os deveres do Estado com relação a estas pessoas. Assim, no que se refere aos semi-imputáveis, já que, Página 53 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 como visto, as medidas de segurança no mais das vezes se mostram “ineficazes”, vez que os psicopatas não assimilam a punição, faz-se necessário que o Estado faça uma rediscussão sobre as medidas de segurança, e passe a implantar ou implementar meios de tratamentos eficazes aos psicopatas, como por exemplo: a criação de penitenciárias específicas, com tratamento psicológico contínuo, incluindo terapia ocupacional visando, acima de tudo, um tratamento digno às necessidades físicas e psicológicas dos indivíduos que sofrem de transtorno de personalidade a fim de salvaguardar a sociedade dos atos reincidentes destes indivíduos. REFERÊNCIAS BARROS .E. 15:50. A história da menina-vampiro do Piauí. 2 ed. Teresina: Nova Aliança, 2013. BITENCOURT. C.R. Tratado de Direito Penal. 9. Ed. São Paulo: Saraiva, 2004. BRASIL. Decreto-Lei 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. HUNGRIA. N. Métodos e Critérios para a Avaliação da Cessação de Periculosidade. Revista Jurídica, v. 4. n. 39 ago. 2002 JESUS. D.E. Código Penal Anotado. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2000. MARANHÃO. O. R. Psicologia do crime. 2 .ed. São Paulo : Malheiros. MIRABETE. J. F. Execução Penal, Revista e Atualizada por Renato N. Fabbrini, 11. edição, Atlas, 2004 SILVA. A.B.B. Mentes Perigosas: O psicopata mora ao lado. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. TRINDADE. J. Psicopatia - a máscara da justiça. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editoria, 2009. Página 54 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 HIPERBILIRRUBINEMIA NEONATAL: CONSIDERAÇÕES SOBRE FISIOPATOGENIA, MODALIDADES TERAPÊUTICAS E COMPLICAÇÕES NEONATAL HYPERBILIRUBINEMIA: CONSIDERATIONS ON PATHOGENESIS, TREATMENT MODALITIES AND COMPLICATIONS Aurimar Bezerra Melo de Sousa1, Danielly Savanna Lustosa Sena2 RESUMO A hiperbilirrubinemia neonatal é uma patologia prevalente na pratica clinica em pediatria. O conhecimento a cerca da mesma é importante para que um diagnóstico precoce seja realizado, reduzindo o risco do aparecimento de complicações, onde a encefalopatia bilirrubinica é a mais temida . Esta decorre de uma exposição prolongada a altos níveis séricos de bilirrubina pelo Sistema Nervoso Central em desenvolvimento dos Recém Nascidos. A prevenção dessa patologia passa pela realização de uma terapêutica correta seja pela realização de exsanguineotransfusão, fototerapia ou pelo uso de medicações como o fenobarbital e as metaloporfirinas, desde que devidamente indicadas. Este trabalho teve como objetivo avaliar a literatura atual, bem como os avanços recentes no campo da fisiopatologia, terapêutica, e das complicações buscando dados de relevância acerca de epidemiologia, etiopatogenia, terapêutica, fisiopatologia e complicações da mesma. Para tal, o método utilizado foi a pesquisa na literatura e, em acervos científicos eletrônicos, como Scielo, Bireme, PubMed, utilizando um espaço de tempo de 20 anos. Concluiu-se que a chave para a redução da apresentação desta patologia passa pela atenção individualizada, exame físico criterioso e, anamnese minuciosa para que o diagnóstico etiológico seja firmado precocemente e uma terapêutica eficiente seja estabelecida. Observou-se ainda que a fototerapia é a principal medida terapêutica e vem evoluindo ao longo dos anos e, que a encefalopatia bilirrubínica é a sua principal e mais temida complicação possuindo terapêutica baseada na multiprofissionalidade alem disso, com o advento de novas tecnologias, a qualidade de vidas dos pacientes com algum grau de sequela tende a melhorar. PALAVRAS-CHAVE: Hiperbilirrubinemia neonatal. Icterícia. Kernicterus. Tratamento de Icterícia. Complicações. ABSTRACT The neonatal hyperbilirubinemia is a prevalent disease in clinical practice in pediatrics. The knowledge about the same is important for the early diagnosis is performed, reducing the risk of onset of complications, where bilirubin encephalopathy is the most feared. This results from prolonged exposure to high serum levels of bilirubin in the central nervous system development of the Newborn. The prevention of this condition is achieved by undertaking a proper treatment is the realization of exchange transfusion, phototherapy or by the use of medications such as phenobarbital and metalloporphyrins, duly noted. This work aimed to evaluate the current literature and recent advances in the field of pathophysiology, treatment, complications and seeking relevant ______________________ 1 Professor do curso de Pediatria da FACID, Especializado em Pediatria. Aluna de graduação (12°período) do Curso de Medicina da Faculdade Integral Diferencial-FACID. Email: [email protected] Rua 31 de Março, 1131, BL 13, Apto° 201- ININGA CEP: 64049-700 Telefone: (86) 3237-1483 2 Página 55 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 data on epidemiology, pathogenesis, therapy, pathophysiology and complications thereof. To this end, the method used was the research literature, and scientific collections electronics as SciELO, BIREME, PubMed, using a span of 20 years. It was concluded that the key to reducing the presentation of this disease goes through individualized attention, careful physical examination and detailed history for the etiologic diagnosis is executed early and effective therapy is established. It was also observed that phototherapy is a major therapeutic measure and has been evolving over the years, and that bilirubin encephalopathy is its main and most feared complication of therapy based on having multiprofessionality moreover, with the advent of new technologies, quality of life of patients with any degree of sequel tends to improve. KEY WORDS: Neonatal Hyperbilirubinemia. Jaundice. Kernicterus. Jaundice Treatment. Complications. INTRODUÇÃO Em meados do século XVIII a Hiperbilirrubinemia ou icterícia foi descrita por Baumes, que acreditava ser em decorrência do retardo da eliminação de mecônio, a coloração amarelada da pele e mucosas dos recém-nascidos (RN). Em 1907 no Osler’s Modern Medicina textbook a icterícia é descrita como um sinal clínico, entretanto, não o relaciona com nenhuma patologia específica, somente na edição de 1963 do Cecil’s Textbook of Medicine finalmente se evidencia a relação entre a elevação dos níveis séricos de bilirrubina com a icterícia clinicamente detectável. A Hiperbilirrubinemia ou icterícia constitui-se em uma síndrome cuja principal característica é a elevação de bilirrubina no sangue e apresenta sua principal exteriorização clinica na coloração amarelada da pele, mucosa e líquidos orgânicos. Quando acomete RN é denominada Hiperbilirrubinemia neonatal. Espera-se que uma criança nascida a termo, nutrida, não portadora de malformações maiores e sem intercorrências clinicas logo após o nascimento não apresente risco para episódios mórbidos que justifiquem a readmissão hospitalar no período neonatal(MOURA, et al, 2006). Entretanto não é o que se observa vivencia da pratica clinica diária. E o principal motivo de internação e reinternação neonatal é a icterícia e, por isso ela merece atenção no entendimento fisiopatológico e terapêutico de modo a prevenir suas complicações, que tem no kernicterus a sua principal e mais grave complicação. Portanto um estudo atualizado das modalidades terapêuticas e o manejo das complicações assim como da fisiopatologia da icterícia neonatal é de grande importância para os profissionais de saúde obterem informações atuais, possibilitando uma melhor abordagem terapêutica e resultados mais favoráveis. 2. MATERIAIS E METODOS Foi realizada uma revisão de literatura na forma de pesquisa descritiva, utilizando os descritores: hiperbilirrubinemia neonatal, icterícia, kernicterus, tratamento de icterícia, complicações. Buscou-se publicações dos últimos 20 anos que serviram como embasamento para esse estudo. Usando pesquisas na literatura e em acervos eletrônicos como Pubmed, Scielo e Bireme. Assim foram filtrados todos esses trabalhos e os que apresentavam contribuições favoráveis ao desenvolvimento do tema, permitindo aquisição de informações atualizadas ou conceitos clássicos e possibilitaram a comparação entre os pontos de vista dos inúmeros autores pesquisados foram extraídas as informações mais relevantes no tocante a fisiopatogenia, terapêutica e complicações inerentes a hiperbilirrubinemia neonatal. Página 56 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 3. DISCUSSÃO Hiperbilirrubinemia ou icterícia é uma síndrome cuja principal característica é a elevação de bilirrubina no soro tendo sua exteriorização clinica principal na coloração amarelada da pele, mucosas e líquidos orgânicos e quando acomete o RN é denominado Hiperbilirrubinemia Neonatal ou Icterícia Neonatal (PORTO, 2005). A icterícia é uma patologia muito frequente no período neonatal, aproximadamente 60% dos RN desenvolvem hiperbilirrubinemia detectável clinicamente nos primeiros dias de vida, sendo na maioria dos casos um fenômeno fisiológico e passageiro, na necessitando de tratamento especifico (VIEIRA et al.; 2004). Entretanto em algumas situações especificas onde há um aumento exacerbado de bilirrubina, pode acarretar em lesão em alguns tecidos, dentre eles o sistema nervoso ganha destaque já que, pode apresentar impregnação dos núcleos da base, o que acarreta a principal e mais temida complicação da hiperbilirrubinemia neonatal, o que é denominado “Kernicterus” (RAMOS, 2002). Observou-se que os estudos científicos sobre icterícia datam de meados do século XVIII, com Baumes e suas observações, o qual acreditava que a coloração amarelada de pele e mucosas decorresse do retardo na eliminação do liquido meconial (LUCHESE et al.,2010). A icterícia neonatal foi reconhecida há, pelo menos, 100 anos. O termo kernicterus foi introduzido em 1900 para descrever a coloração amarela dos gânglios basais observada em RN que morreram com icterícia acentuada (LUCHESE et al., 2010). De 1950 até 1970, devido à elevação da incidência de doença hemolítica Rh e de kernicterus, os pediatras passaram a ser agressivos no tratamento dessa condição. Desde então, vários fatores mudaram no manejo da icterícia (SILVA et al., 2009). Estudos nas décadas de 80 e 90 sugeriam que o kernicterus era raro e que muitos RNs, principalmente os nascidos à termo, estavam sendo tratados desnecessariamente, o que indicaria a necessidade de uma abordagem menos intervencionista na avaliação e tratamento da icterícia. No mesmo período, os recém-nascidos passaram a permanecer por tempo mais curto no hospital (<48hs), o que limitou a habilidade do médico de detecção visual de icterícia em um período em que a bilirrubinemia se eleva em grande parte dessas crianças (RAMOS, 2002). A principal causa de icterícia do RN é fisiologia e consiste em um aumento da fração indireta ou não-conjugada da bilirrubina. Quando a fração predominante é a direta ou conjugada, temos a icterícia colestática, que sempre é patológica. E ainda pode ocorrer o aumento de ambas as frações, o que pode ser observado nas infecções congênitas (SEGRE,2009). Uma historia perinatal completa é de grande importância para o entendimento da causa da icterícia, assim como o uso de medicações que levem risco de ocorrência de hiperbilirrubinemia como o diazepam e a ocitocina, além de partos traumáticos com complicações com a ocorrência de perdas sanguíneas consideráveis aumentam a degradação de hemoglobina e consequentemente elevam a formação de bilirrubina(MAILSELS et al., 2007). Entre 25 e 50% de todos os RNs a termo e uma maior porcentagem de prematuros manifestam icterícia clinica. Em torno de 6,1% dos RNs a termo e sadio apresentam nível sérico de bilirrubina superior a 12,9 mg/dl e um nível acima de 15mg/dl é encontrado em aproximadamente 3% do recém – nascidos a termo e normais (SEGRE,2009). Sabe-se que a incidência de icterícia significativa nas RN esta associada a inúmeros fatores, como sexo, etnia do individuo, variabilidade do nível sérico de bilirrubina e aleitamento materno (MAILSELS et al., 2007). Os fatores de risco para hiperbilirrubinemia severa são muitos e merecem atenção na identificação dos mesmos para uma melhor condução do caso, estes estão apresentas abaixo. (ver Quadro 01) Página 57 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 QUADRO 01: Fatores de Risco para Hiperbilirrubinemia Severa - Icterícia presente antes de 24hrs de vida; - Incompatibilidade sanguínea com teste de Coombs direto positivo ou outra doença hemolítica; - IG entre 35 e 38 semanas - Irmão prévio com historia de icterícia e necessidade de tratamento - Presença de equimoses e céfalo-hematoma - Aleitamento materno exclusivo (se não estiver indo bem e a perda de peso for excessiva) - Idade materna > 25 anos - Mãe diabética - Tabagismo materno - Multiparidade - Pré-natal insatisfatório - Aminiorrexe prolongada - Uso de oxitocina na mãe - Uso de Pancurônio no RN - Cesárea - Trauma obstétrico - Distorcia - Apgar no 1°’ < 7 - Apgar no 5°’ < 7 - Baixo peso ao nascer - Eliminação de Mecônio > 24hr - Acidemia – pH< 7,2 - Albuminemia < 2,5mg/dl - Sepse - Deficiência de G6PD - Etnia Asiática - Gênero Masculino - Altitude SENA, 2012. Hiperbilirrubinemia Neonatal: Considerações sobre Fisiopatogenia, Modalidades Terapêuticas e Complicações Algumas particularidades do metabolismo da bilirrubina ocorrem no período neonatal, o que justifica a ocorrência da icterícia fisiológica, entre elas: Maior produção de bilirrubina, Imaturidade hepática, Maior reabsorção intestinal. Entretanto essas não são todas as causas de icterícia, já que existe a icterícia não fisiológica e nesses casos o leque de causas é bem maior e bem mais complexo. Dentre as causa de hiperbilirrubinemia não fisiológica estão: I. Aumento de Produção II. Deficiência de captação pelo hepatócito III. Deficiência de conjugação IV. Deficiência de conjugação hepática V. Reabsorção intestinal exagerada Alguns critérios devem ser observados para investigação do RN com icterícia, tais como: coloração amarelada da pele as primeiras 24horas de vida, aumento da concentração da bilirrubina superior a 5mg/dl em 24horas ou superior a 0,5mg/dl/hora, icterícia que persista após 8 dias no RN a termo e 14 dias no RN prematuro, qualquer elevação de bilirrubina que necessite fototerapia, Página 58 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 bilirrubina direta maior que 2mg/dl (SEGRE, 2009). Evidências de alterações no exame físico como palidez, hepatoesplenomegalia, petéquias, micro ou macrocefalia, edemas, catarata congênita ou corriorretinite e presença de colúria e hipo ou acolia fecal (FALCÃO et al.,1997). O número de hipóteses diagnósticas para a hiperbilirrubinemia neonatal é muito amplo, portanto o primeiro passo na abordagem de um RN ictérico consiste em uma anamnese cuidadosa e um exame físico minucioso, já que é de grande importância para o diagnóstico correto de sua etiologia, assim com para a determinação terapêutica. Devendo-se, portanto descrever a intensidade e zoneamento. Este último sendo determinado através da utilização da Classificação das zonas dérmicas de Kramer (FALCÃO et.al., 1997). O tratamento da hiperbilirrubinemia apresenta três possibilidades terapêuticas: fototerapia, exosanguineotransfusão e agentes farmacológicos. A exosanguineotransfusão foi a primeira terapia de sucesso para o tratamento de icterícia neonatal grave e, embora seja um procedimento considerado seguro, apresenta riscos e uma mortalidade eu chega a mais de 3%. Os níveis de bilirrubina para sua indicação terapêutica ainda são controversos, já que a ocorrência de encefalopatia bilirrubínica também necessita de outras variáveis individuais dos RNs. Por isso atualmente o seu uso esta atrelado a um balanço entre risco e beneficio da técnica para o RN (SÁ, 2009). Esse método consiste em uma das terapêuticas mais eficazes para o tratamento de hiperbilirrubinemia indireta neonatal, é uma técnica fácil de ser realizada, desde que dentro dos padrões estabelecidos para a realização da mesma e habilitação pelo profissional que ira realizar a mesma. A técnica consiste na remoção de hemácias hemolisadas e cobertas de anticorpos e, anticorpos livres através da troca do sangue no RN em torno de 85% do volume total de sangue o que é suficiente para se obter uma boa eficácia no processo (FALCÃO et al., 1997). A fototerapia é a modalidade terapêutica mais utilizada na atualidade no tratamento de hiperbilirrubinemia neonatal indireta. E sua eficácia depende da absorção de fótons de luz pelas moléculas de bilirrubina. Em detrimento da evolução pela qual a técnica vem passando nas últimas décadas sua eficácia vem aumento e consequentemente diminuindo as indicações de exsanguineotransfusão. O principio básico da fototerapia é a utilização de energia luminosa na transformação de bilirrubina em produtos hidrossolúveis passiveis de eliminação renal e hepática (MARTINS et al., 2006). Em estudos recentes pode-se demonstrar que o uso de fototerapia de alta intensidade ou BiliBerço tem um efeito maior na diminuição dos níveis de bilirrubina, já que proporciona uma maior área de irradiação (MAISELS, 2007). A utilização de LED para tratamento de hiperbilirrubinemia neonatal tem sido tema de estudos como o Seidman et al.(2000, 2003), onde estes tem demonstrado uma semelhança com a lâmpada halógena, na velocidade da queda de bilirrubina sérica (MARTINS, 2007). Outra opção de fototerapia são os sistemas de fibra óptica, disponível desde os anos 1980. Desde então a forma com que as fibras são tecidas vem apresentando melhorias, podendo ser encontradas na forma de almofadas e cobertores de luz, entretanto a lâmpada halógena continua a ser utilizada como fonte de luz que entra no cabo de fibra óptica. Como as almofadas e os cobertores emitem níveis insignificantes de calor, eles podem ser colocados em contato direto com o bebê. Observou-se ainda outra vantagem do uso da fibra óptica, não é necessária a cobertura ocular do RN. Esta modalidade pode ser considerada um beneficio para o mercado de fototerapia domiciliar, entretanto muitas vezes só são fornecidas doses homeopáticas de luz. Portanto esta tem sua principal finalidade como terapia adjuvante à fototerapia convencional, fornecendo assim uma “dupla” fototerapia, que tem uma maior eficácia já que haverá uma maior área de pele exposta à luz. (VREMAN, 2004) Entretanto a fototerapia também apresenta efeitos adversos como perda insensível de água, principalmente em prematuros; diarreia; hipocalcemia; escurecimento da pele; eritema cutâneo; danos retinianos, letargia; alterações nas hemácias; diminuição do crescimento na segunda infância; lesões no nariz e olhos, em detrimento da colocação errada do protetor e; alterações no DNA foram observadas in vitro, mas não no uso clinico (VIEIRA, et al., 2004). Página 59 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 O tratamento medicamentoso da hiperbilirrubinemia indireta pode ser dividido de acordo com etapa do metabolismo que atue. Sendo assim se dispõe de substancias ainda em fase experimental que atuam na produção de bilirrubina, as porfirinas metálicas (SEGRE,2009). Apesar de sua grande eficácia, algumas metaloporfirinas são fotoquimicamente ativas, tendo sido demonstrado em estudos com ratos que quando há a exposição destes à fototerapia e à determinadas doses da substancia havia mortalidade representativa, o que não aconteceu com os animais mantidas na escuridão, independente da dose. Também foi observada hemólise. Entretanto no ser humano poucos efeitos adversos foram observados, em alguns estudos foi evidenciado o aparecimente de eritema nos RN que utilizaram metaloporfirinas e foram expostos à fototerapia, tendo sido este leve, transitório e sem sequelas. (DENNERY, 2002) O fenobarbital também pode ser utilizado já que o mesmo acelera as vias metabólicas normais da depuração da bilirrubina. (MAILSELS et al., 2007). O fenobarbital tem como efeito secundário imediato sonolência e ate mesmo esturpor nos lactentes e nas mães. Este constitui o maior problema nos prematuros que apresentam insuficiência respiratória podendo contribuir para dependência da ventilação mecânica pelo RN. Outro fator é que o fenobarbital pode alterar a oxidação da bilirrubina aumentando sua neurotoxicidade, entretanto estudos randomizados demonstraram não haver diferenças no neurodesenvolvimento de RN cujas mães receberam fenobarbital e RN quer não fizeram uso dessa terapêutica. (DENNERY, 2002) Há ainda a possibilidade de se atuar na inibição da hemólise com o uso da Imunoglobulina Intravenosa (LUCHESE et al., 2010). A Gamaglobulina endovenosa em altas doses pode inibir a hemólise e, portanto, a formação de bilirrubina em RN com isoimunização, provavelmente por bloqueio de receptores na membrana do eritrócito. É possível que os riscos desta medida terapêutica sejam menores que os da EXT (KAPPAS, 1995). Outra possibilidade são as drogas que impedem ou diminuem a reabsorção intestinal de bilirrubina como o ágar e a colesteramina (RAMOS, 1993) O uso de Agar pode resultar em constipação, se utilizado em doses elevadas, isso porque reduz a secreção de sodio e água, alem disso efeitos benéficos à longo prazo não tem sido demonstrados. (DENNERY, 2002) A presença por tempo prolongado de grandes quantidades de bilirrubina pode levar a lesão definitiva de estruturas do SNC como o globo pálido, núcleos subtalâmicos, hipocampo e núcleo óculo-motor, entre outras, dando origem ao kernicterus ou encefalopatia bilirrubínica (PORTO,2005). Vários fatores podem aumentar o risco para o desenvolvimento da encefalopatia bilirrubínica (EB) entre estes a Deficiencia de glicose-6-fosfato desidrogenase (G-6-PD), que se constitui de um defeito enzimático apresenta importante papel. Nos Estados Unidos cerca de 20% dos casos de EB estão relacionados à tal defeito enzimático. (KAPPLAN AND HAMMERMAN,2002) O quadro agudo de kernicterus apresenta 3 fases. Inicialmente com hipotonia, letargia, choro agudo e sucção débil, seguida de opistótono, rigidez de nuca, febre e convulsão, que caracteriza a segunda fase. Na terceira fase, a hipotonia substitui a hipertonia após aproximadamente uma semana (VINHAL et al., 2009). Devido a gravidade desta complicação cada vez mais estudos vem sendo realizados no intuito de diminuir sua ocorrência, a classe médica especializada em esforço conjunto com os outros membros que constituem o atendimento ao RN, vem tentado estabelecer condutas de modo a prevenir a ocorrência deste evento tão grave e potencialmente mortal (VINHAL et al, 2009). Existe uma contradição quanto ao diagnostico da EB, muitas vezes os pais são informados de o diagnostico só pode ser feito na autopsia. Embora não esteja incorreto tecnicamente, já que o diagnostico se dá pela presença do “kernicterus”, que é a impregnação dos glanglios da base por bilirrubina. Entrtanto este conflito existe devido à confusão ainda existente diante da utilização dos termos EB e “kernicterus”. É importante observar eu a EB pode ser diagnosticada clinicamente e Página 60 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 com a observação de lesões características da patologia à Ressonância Nuclear Magnética. (SHAPIRO et al., 2006) O tratamento das sequelas inerentes à EB evolve fisioterapia ocupacional e da fala, onde o “discurso cued”, que é uma combinação de leitura labial e linguagem de sinais tem papel importante. Observa-se na pratica clinica diária que algumas técnicas de fisioterapia parecem funcionar melhor com a EB que em outros tipos de paralisia estática, geralmente a cooperação com a terapia é muito boa, uma vez que a inteligência na maioria das vezes se apresenta normal nestes pacientes. Em casos de deficiencia auditiva programas de educaçõ adaptados como o Programa de Leitura Wilson, podem ser utilizados. (JONHSON et al., 2002) Tratamento medicamentoso principalmente é utilizado para melhorar distonia podendo se fazer uso de Benzodiazepínicos, Artane e Baclofen. Deve-se ainda avaliar a necessidade de suplementação alimentar quando a criança não apresentar desenvolvimento nutricional adequado. Outra modalidade terapêutica utilizada são os procedimentos cirúrgicos, nesse caso principalmente nos casos graves de EB, incluídos nesta categoria estão a colocação de tubos de gastrostomia com fundoplicatura Nisson para tratar refluxo gastresofágico. Injeções de Botox tem sido estimuladas quando da presença de contraturas. E em casos de distonia severa e cãibras musculares, quando da falha da medicação, bombas de Baclofeno intratecais têm sido utilizadas. No caso das deficiências auditivas o implante coclear que já apresenta sucesso quando utilizado nas deficiências decorrentes de outras disfunções, tem sido estudado. Acredita-se que o futuro da terapêutica desta patologia encontra-se na estimulação cerebral profunda, capaz que trazer grandes ganhos de qualidade de vida nestes pacientes. Entretanto o conhecimento atual ainda não é capaz de determinar a localização precisa da implantação dos estimuladores. (SHAPIRO et al., 2006) CONCLUSÃO O atendimento ao neonato ictérico é muito frequente na prática clínica diária em pediatria. Cerca de 50% dos RN nascido a termo e 80% dos pré-termos tornam-se ictéricos nos primeiros dias de vida. Por isso o entendimento da fisiopatologia e o rápido estabelecimento de um diagnóstico etiológico auxiliam na definição de uma melhor conduta frente ao neonato ictérico, pois nesta fase da vida a exposição prolongada a altos níveis séricos de bilirrubina pode ser deletério ao SNC em desenvolvimento do RN e promover o aparecimento da tão temida Encefalopatia Bilirrubinica. Observou-se que o nível de bilirrubina por si só é um indício pobre para indicar risco de kernicterus. E a supervisão médica na primeira semana de vida e o esclarecimento de parentes e mães sobre a icterícia são muito importantes para evitar a hiperbilirrubinemia e suas consequências severas. A conduta médica diante da hiperbilirrubinemia neonatal se dá de forma muito variável entres os serviços e entre os diferentes profissionais de um mesmo serviço, e essa falta de uniformidade dos atendimentos leva a um retardo no uso de terapias mais invasivas e eficazes no tratamento da hiperbilirrubinemia neonatal. Observou que a terapêutica vem evoluindo, entretanto a fototerapia continua sendo a principal terapia empregada, muito diferente da utilizada em meados dos anos 50 quando foi instituída, com o advento do LED acredita-se que a mesma se tornará ainda mais eficaz e segura. Pode-se ainda relacionar o aumento do aparecimento das complicações inerentes à hiperbilirrubinemia com a alta hospitalar precoce, já que um período mais prolongado de observação se faz necessário, para que se tenha segurança do aparecimento ou não de icterícia, e assim estabelecer conduta terapêutica ou profilática de modo que o aparecimento do EB seja evitado. Página 61 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 REFERÊNCIAS DENNERY, P,A. Pharmacological interventions for the treatment of neonatal jaundice. Semin Neonatol, vol. 7, p. 111-119, 2002. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12208095. Acesso em: 24 jun 2012. FALCÃO, M. C. et al.Abordagem clínica, laboratorial e terapêutica do recém-nascido ictérico. Revisão e Ensaios – Pediatria, São Paulo, vol. 19, n. 4, p. 280-287, 1997. Disponível em: http://www.pediatriasaopaulo.usp.br/upload/html/287/body/09.htm. Acesso em: 17 jan 2012. JOHNSON LH, Bhutani VK, Brown AK. 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OBJETIVOS: Determinar qual a raça, faixa etária, estado civil, escolaridade e ocupação das mulheres que sofreram violência doméstica e dos seus agressores; Caracterizar a violência quanto ao mês de ocorrência, horário, local, tipo e meios empregados na agressão; Conhecer a relação dos agressores com o uso de drogas lícitas e ilícitas; Verificar quais os principais tipos de lesões que acometem as mulheres. Averiguar a dependência econômica das mulheres em relação ao cônjuge ou companheiro. MÉTODOS: Foi realizado um estudo retrospectivo, descritivo, de abordagem quantitativa, no Instituto médico Legal (IML) da cidade deTimon-MA e as informações foram armazenadas e analisadas através de uma ficha de coleta de dados. RESULTADOS: A avaliação do perfil epidemiológico das mulheres vítimas de violência domésticas realizada com 189 prontuários no período de Janeiro/2011 a Julho/2012 mostrou uma incidência maior em mulheres jovens na faixa etária de 25 a 34 anos (41%), solteira (33%), parda (67%) com baixo nível de escolaridade e de renda e dependentes economicamente do marido. CONCLUSÃO: Deste modo, ficou evidente que a violência é um problema presente no dia a dia das mulheres de Timon-MA, notando-se que o perfil pesquisado era de mulheres jovens, solteiras e que possuem baixo nível de escolaridade. Palavras-chave: Violência. Violência contra a Mulher. Violência Doméstica. ABSTRACT Violence against women is a social phenomenon that was silenced throughout history and became more evident and become a public health problem in Brazil. This concern is present in several scenes, whether public or private, affecting women of different social classes. OBJECTIVES: Determine the race, age, marital status, education and occupation of women who have suffered domestic violence and their aggressors; Characterize the violence as the month of occurrence, time, location, type and the means employed in aggression; Identify the relationship of aggressors to the use of legal or illegal drugs; Verify what are the main types of lesions that affect women; Check the economic dependence of women compared to the spouse or partner. METHODS: A retrospective study was carried out, descriptive, quantitative approach, in the Legal Medical Institute (LMI) in a city in Maranhão and the information were stored and analyzed by means of a data collection. RESULTS: The evaluation of the epidemiological profile of women victims of domestic violence performed with 189 records from January/2011 to July/2012 showed a higher incidence in young _____________________________ 1 Acadêmica do Curso de Medicina(10 período) da Faculdade Integral Diferencial Endereço eletrônico [email protected] 2 Professor Especialista em Medicina Legal do Curso de Medicina da Faculdade Integral Diferencial. Endereço eletrônico [email protected] Página 64 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 women aged 25-34 years (41%), single (33%), brown (67%) with low levels of education and finance, economically dependent on their husbands. CONCLUSION: Thus, it became clear that violence is a problem present in the daily lives of women of Timon-MA, noting that the researched profile was from young women, single and who completed elementary school mostly. Key words: Violence. Violence against women. Domestic Violence INTRODUÇÃO: A violência é uma constante na natureza humana que ocorre em toda a parte do mundo, acompanha passo a passo a humanidade desde a antiguidade clássica (greco-romana) até os dias atuais. Esse problema de saúde pública vem se apresentando como uma das principais causas de morbimortalidade mundial. Seu crescimento proeminente tem influenciado bastante nas altas taxas de mortalidade, chegando, em algumas regiões ou faixas etárias, a ultrapassar doenças crônicodegenerativas, infecciosas e neoplasias. O vocábulo Violência vem do latim violentia e significa caráter violento oubravio. O termo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. Não se tem um conceito bem estabelecido sobre o que é violência, mas podemos afirmar que o ato violento é qualquer conduta de brutalidade, constrangimento, abuso, proibição, desrespeito, discriminação, imposição, invasão, ofensa, agressão física, psíquica, moral ou patrimonial contra alguém, caracterizando relações que se baseiam na ofensa e na intimidação pelo medo e pelo terror. A violência constitui atualmente uma grande pre¬ocupação para a saúde da população brasileira, já que representa a segunda causa de mortalidade no obituário geral. A primeira causa ocorre nas faixas dos 5 aos 39 anos provocando lesões, traumas físicos e emocionais, perfazendo um lastro de problemas, alguns diagnosticáveis, outros difusos, no entanto, todos de elevada magnitude, afetando indivídu¬os, famílias, grupos e a sociedade como um todo. Existem três grandes tipos de violência que são: a dirigida contra si mesmo, a interpessoal e a coletiva. Esses tipos são divididos em subtipos para melhor caracterizar especificamente cada ato violento. A dirigida contra si mesmo pode ser suicida ou de auto- abuso; a interpessoal pode ser doméstica ou comunitária e a coletiva pode ser social, política ou econômica. Dando um enfoque maior à violência doméstica, pode-se dizer que ela representa toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um membro da família. Considerando que todo ato violento é exercido contra um indivíduo que está em posição de desvantagem, os mais acometidos com esse tipo de violência são os idosos, crianças, adolescentes e mulheres. A natureza da violência pode ser física, psicológica e sexual. A violência física ocorre quando um indivíduo está em posição de vantagem em relação a outro, exercendo certa forma de poder que provoque ou somente tente causar um dano não acidental por meio do uso da força física ou de algum tipo de arma que possa provocar lesões externas, internas ou ambas. A violência sexual esta relacionada às relações sexuais forçadas ou qualquer forma de coação sexual. A prática da violência psicológica é qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima. Ela compreende intimidação, constante desvalorização e humilhação. Nota-se que há muito pouco tempo veio à tona esse tipo de violência cometida contra a mulher. Anteriormente, visto como um problema privado, hoje, já se tem uma consciência que não deve ser resolvido entre “quatro paredes”, mas que é um problema social e que deve ser preocupação toda a sociedade. Rotineiramente noticia-se na mídia a ocorrência de novos casos de violência dos mais diversos tipos, em diferentes espaços e formas de agressão, muitas delas já resultantes em mortes. Cada vez mais as mulheres inte¬gram os números de vítimas de violência doméstica, cujos maridos ou companheiros são os agressores. Diante dos fatos mencionados e da necessidade de melhor caracterizar o problema da violência contra a mulher em realidades específicas de cada serviço, surgi¬ram diversos Página 65 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 questionamentos: Qual o perfil dessas mulheres que são violentadas? Quem são os agressores? Quais os motivos acarretam a violência doméstica? Sabe-se que diante dos diversos resultados de trabalhos que abordam essa temática, a violência doméstica acomete mais mulheres na faixa etária jovem, dependentes economicamente do cônjuge ou companheiro, com prole numerosa, com baixo nível de escolaridade e moradoras da periferia da cidade. Neste sentido, este trabalho buscou responder aos questionamentos surgidos durante a elaboração do mesmo, cujos objetivos foram avaliar qual o perfil epidemiológico das mulheres vítimas de violência doméstica de uma cidade do Maranhão, determinar a raça, faixa etária, estado civil, escolaridade e ocupação das mesmas e dos seus agressores, identificar agressores, meios empregados na agressão, caracterizar a violência quanto ao mês de ocorrência, horário, local e tipo, conhecer a relação dos agressores com o uso de drogas lícitas e ilícitas; verificar quais os principais tipos de lesões que acometem as mulheres e averiguar a dependência econômica das mulheres em relação ao cônjuge ou companheiro 2 METODOLOGIA O estudo respeitou as disposições éticas advindas da resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde/ Ministério da Saúde referente a estudos envolvendo seres humanos (Brasil, 1996). Esta resolução incorpora sob a ótica do indivíduo e da coletividade, os quatros referenciais básicos da bioética: autonomia, justiça, beneficência, não maleficência, garantindo os direitos e deveres do Estado, da comunidade científica e dos sujeitos da pesquisa. Para tanto, a pesquisa foi submetida à avaliação pelo Comitê de Ética (CEP) da Faculdade Integral Diferencial (FACID) através da sua inserção na Plataforma Brasil, obtendo-se parecer favorável, sendo aprovado. Solicitou-se também, a autorização do fiel depositário dos laudos, para total acesso aos dados neles contidos . A coleta de dados iniciou- se, após ser autorizada pelo Fiel Depositário dos prontuários e ser aprovada pelo CEP da FACID. O anonimato dos sujeitos da pesquisa foi garantido, pois, os dados divulgados não identificaram pacientes e todas as informações foram mantidas sob sigilo, sendo utilizadas apenas para o estudo. Optou-se pelo IML para realizar o trabalho, porque as mulheres que denunciam a violência doméstica na delegacia da mulher são encaminhadas a ele, principalmente no caso de lesão corporal, para a realização do exame de corpo de delito. Portanto, a escolha da referida instituição como local de coleta de dados justifica-se por ser o local que se depara com mulheres com perfil proativo. Inicialmente, tinha-se a proposta de serem analisados 300 prontuários. Entretanto, devido à falta de denúncias suficientes, a amostra foi reduzida para 189 prontuários analisados e revisados, tendo como critério de inclusão os documentos que contenham descrição de violência contra mulheres maiores de 12 anos, uma vez que, indivíduos abaixo dessa faixa etária, são considerados crianças pelo o Estatuto de Defesa dos Direitos da Criança e do adolescente. As informações armazenadas na ficha de coleta de dados contêm os caracteres referentes a idade, raça/cor, estado civil, escolaridade, ocupação das mulheres que sofreram violência doméstica e dos seus agressores, meios empregados na agressão, mês de ocorrência, horário, local e tipo de violência sofrida pelas mesmas e suas dependências econômicas em relação ao cônjuge ou companheiro. Em relação ao autor da violência, verificar se ele faz uso ou não de drogas ilícitas. Após a coleta das informações, os dados foram organizados em planilha do programa Excel e os resultados obtidos foram mostrados por meio de tabelas e/ou gráficos. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO A pesquisa realizada englobou um número de 189 prontuários com dados referentes à vítima, ao agressor e à agressão. Vale ressaltar mais uma vez que nem todas as vítimas se pronunciaram e tiveram a coragem de denunciar os atos de atrocidade. De acordo com Raimundo (2010), o ministério da saúde estima que apenas 10% das mulheres que sofreram violência denunciaram o seu Página 66 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 agressor frente ao sistema judiciário ou ao sistema de saúde. As outras 90% se mantiveram em segredo e não tiveram a iniciativa de registrarem os casos. Várias são as hipóteses de não denunciarem, dentre elas podemos citar medo, vergonha e sensação de falta de segurança pessoal e dos filhos. A fim de se estabelecer um perfil epidemiológico dessas mulheres que não se mantiveram caladas, a idade foi o primeiro fator a ser analisado. A faixa etária das mulheres variou entre 12 a 65 anos de idade, onde a maioria tinha idade entre 25 a 33 anos com uma porcentagem de 41%, seguida de 34 a 54 anos com 33%, como é vista na tabela 01. Segundo dados da Delegacia da Mulher (DM) de João Pessoa, no ano de 2006, em relação à variável idade dos sujeitos da pesquisa, observou-se semelhança nos resultados com uma maior incidência de agressão em mulheres na faixa etária compreendida entre 20 e anos (70,38%). Com 4,51% na faixa etária de menor que 20 anos. Tabela 01 - Distribuição das mulheres que sofreram violência segundo a faixa etária, IML, Timon-MA, Janeiro de 2011 a Julho de 2012 FAIXA ETÁRIA Nº TOTAL (%) 12 A 17 21 11 18 A 24 42 22 25 A 34 77 41 35 A 55 63 33 55 A 65 7 4 Total 189 100 Fonte: BARROS (2013) Verificou-se que o estado civil da maioria das mulheres era solteiro, seguidas daquelas que possuíam algum tipo de união estável com seus companheiros, sendo respectivamente 33% e 30% dos casos como mostra a tabela 02. Tabela 02 - Distribuição das mulheres que sofreram violência segundo o estado civil, IML, Timon-MA, Janeiro de 2011 a Julho de 2012 Estado Civil Nº Total (%) Solteira 21 33 Casada 42 19 União estável 77 30 Divorciada 63 15 Viúva 7 4 Total 189 100 Fonte: BARROS (2013) Os resultados pertinentes ao estado civil das mulheres vítimas de violência são concordantes com o que ocorre nas demais áreas do Brasil. Um estudo brasileiro realizado em Curitiba, que envolveu 117 pacientes vítimas de violência sexual, evidenciou que 82% das mulheres eram Página 67 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 solteiras. Outro estudo realizado no Rio de Janeiro mostrou que 45,7% das mulheres vítimas de violência, atendidas em dois hospitais públicos daquela cidade eram solteiras. O estudo realizado pelo Serviço de Apoio à Mulher (SAM) da Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco, que funciona nas dependências do Hospital Agamenon Magalhães (HAM) na cidade do Recife/PE, revelou 57,4% pacientes solteiras vítimas de violência (HENRIQUES, 2004). Quanto à escolaridade, nota-se um baixo nível de ensino dessas mulheres que foram vítimas de violência, como se pode ver na tabela 03. Sendo que 52% tinham o ensino fundamental, 22% tinham o ensino médio, 19% eram analfabetas, 4% tinham o ensino superior incompleto e 4% tinham ensino superior completo. Essa estatística também pode ser comprovada com o resultado de outra pesquisa muito semelhante que ocorreu no período de janeiro de 2011 a agosto de 2012 na Delegacia de Polícia do município de Taguara, no estado do Rio Grande do Sul. O ensino fundamental prevaleceu entre as mulheres (62,7%), enquanto aquelas que tinham ensino superior era uma pequena parte da população em estudo (2,9%). Inferindo-se que as mulheres geralmente possuem um nível de instrução de ensino reduzido, muitas vezes não reconhecem a violência como algo que deveria ser denunciado e punido. No entanto, há um aumento no número de mulheres com apenas o ensino fundamental como base de estudo, porque elas passaram a denunciar mais devido ao surgimento da Lei Maria da Penha que lhes trouxe uma maior proteção. Tabela 03 - Distribuição das mulheres que sofreram violência segunda a Escolaridade, IML, Timon- MA, Janeiro 2011 a julho 2012 ESCOLARIDADE Nº Total (%) Analfabeto 35 19 Ensino fundamental 98 52 Ensino médio 42 22 Ensino superior incompleto 7 4 Ensino Superior completo 7 4 189 100 Total Fonte: BARROS (2013) A tabela abaixo mostra os dados sociais do agressor, como faixa etária, estado civil, escolaridade e ocupação. De acordo com os resultados referentes à idade do agressor, observouseque a mesma variava entre 16 e 65 anos, com uma prevalência entre 34 e 54 anos, um pouco discordante da maioria dos estudos que citam uma faixa etária mais jovem no que diz respeito aos agressores. O estudo de Henrique (2004) mostra que a maior parte dos agressores cuja idade era conhecida, encontrava-se na faixa etária de adulto jovem (20 – 35 anos), embora a idade de muitos agressores fosse desconhecida das vítimas. Os casados foram maioria no estudo, com 33% dos casos, também ocorrendo uma incidência muito grande de indivíduos solteiros e amasiados compondo 30% dos homens. Resultado semelhante podemos encontrar na pesquisa de Andrade e colaboradores (2011), que se desenvolveu por meio da análise de prontuários e coleta de dados de mulheres adultas assistidas no pronto socorro do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC/UFU) após sofrerem violência doméstica, revelando que 38% (5 mulheres) foram vítimas dos maridos e 38% (5 mulheres) foram agredidas por amásios (ANDRADE, 2011). Página 68 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Em relação à escolaridade, notou-se o mesmo nível de ensino comparado ao das mulheres. Ambos os grupos possuíam um baixo nível de escolaridade, com 63% dos indivíduos do gênero masculino possuindo apenas o ensino fundamental. Fica claro e evidente o que foi suspeitado na hipótese, os casais de baixo nível de escolaridade têm maior número de desentendimentos, o que leva muitas vezes ao homem partir para a agressão. Assim, desenvolveu-se uma pesquisa na qual se observou que a escolaridade dos agressores foi, na maioria dos casos, menor que oito anos, correspondendo ao ensino fundamental incompleto (HENRIQUE, 2004). Sabe-se que a maioria dos agressores eram os provedores da casa, desempenhando as mais diversas ocupações, sendo responsável pelo sustento diário de toda a família. A ocupação mais encontrada com mais da metade da população em estudo, foi a profissão de autônomo. Dentre os vários estudos relacionados com as diversas profissões que o autor da agressão pode desempenhar, temos a pesquisa de Henrique (2004), a qual, apesar de não retratar em si as situações de empregos dos agressores, fornece a situação financeira dos mesmos. Na maioria dos casos (53,6%) a renda do agressor era desconhecida, embora muitos deles fossem conhecidos pelas pacientes. Dentre os que tinham renda conhecida (18,3%), esta somava no máximo dois salários mínimos (HENRIQUE, 2004). Tabela 04 - Distribuição dos agressores segundo a faixa etária, estado civil e escolaridade, IML, Timon-MA, Janeiro de 2011 a Julho de 2012 Variáveis Nº Total (%) Faixa etária Nº % 21 16 a 24 49 25 a 34 84 35 a 54 55 a 65 Total 11,11 25,93 44,44 35 19 189 100 Estado civil Nº % Solteiro 56 29,63 63 Casado 33,33 União estável 56 29,63 Divorciado 7 3,70 Viúvo Total 7 3,70 189 100 Escolaridade Nº % Analfabeto 28 14,81 119 62,96 Ens. Médio 42 22,22 Ens. superior incompleto 0 0,00 Ens. Fundamental Ens. superior completo Total Ocupação Nº 0 0,00 189 100 % Página 69 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Em relação à agressão, podemos caracterizá-la quanto ao mês de ocorrência, horário, local e tipo de violência. O mês de maior ocorrência foi Janeiro, não havendo nenhuma correlação com o ato de violência em si e apesar de uma ampla pesquisa, não foi possível encontrar nenhum estudo que explicasse a analogia entre o mês da ocorrência e a violência contra a mulher. Questionadas quanto ao tipo de violência sofrida, em poucos casos, apenas um tipo de violência isolada foi relatada como forma de agressão. Isto pode ocorrer em detrimento do fato de que a violência contra a mulher é caracterizada de acordo com os danos que podem causar em seus aspectos físicos, psicológicos, da saúde sexual e reprodutiva, social e patrimonial, porém, essa caracte¬rização se torna complexa, pois, em muitos casos, essas “violências” se imbricam de tal forma que é impossível delimitar apenas um tipo de manifestação (COSTA et al,2011). O estudo realizado para o seguinte trabalho revelou que 56 % das mulheres que foram fazer o exame de corpo de delito no IML sofreram violência física, 26% sofreram violência física e psicológica e 19% sofreram violência sexual, como mostra a tabela 05. Tabela 05 - Distribuição das mulheres que sofreram violência segundo o tipo de violência sofrida, IML, Timon-MA, Janeiro/2011 a Julho/2012 Tipo de violência Nº Total (%) Física 105 56 Física + Psicológica 49 Sexual 35 26 19 De acordo com o local, como o próprio título do trabalho sugere – Violência Doméstica só haveria dois ambientes onde ela poderia suceder: dentro da casa da própria vítima (74%) ou dentro da casa do agressor (15%). Em outras situações, esses atos violentos ocorriam em bares, nas ruas, em motéis, dentre outros, que não caberia dentro da linha de pesquisa do trabalho. Ao analisar os outros trabalhos pôde-se evidenciar que o local da violência, na maioria dos casos (84,3%), foi a própria residência da mulher, cujas agressões eram perpetradas pelo companheiro que residia com esta (81,2%) (COSTA et al, 2011). O uso de substâncias lícitas (álcool) ou ilícitas (drogas) pelo agressor é uma variável bastante interessante desse estudo, pois em uma quase totalidade dos casos, o mesmo encontrava-se alcoolizado ou em uso de drogas. As pacientes referiram uso de álcool pelos agressores em 112 (59,26%) dos casos. Relacionando ao horário mais comum de ocorrência da violência, constatou-se por meio dos dados obtidos por essa pesquisa que, em 59% dos casos, as agressões eram efetuadas durante a noite. Os resultados evidenciados nesta pesquisa assemelham-se aos encontrados na literatura em geral. Um estudo realizado em uma unidade de urgência localizada em Teresina no Piauí mostra que 19% dos agressores encontravam-se sob efeito do álcool (MONTEIRO et al, 2006). Da mesma maneira, outra pesquisa desenvolvida no período de novembro de 2011 a agosto de 2012 na delegacia de polícia de Taguara, Rio Grande do Sul, com 343 inquéritos, 31% das mulheres relatou o uso de drogas pelo companheiro no momento da ocorrência, sendo que o álcool corresponde a 77% e o crack a 11%, com a possibilidade de o agressor fazer uso de mais de um tipo de droga (BERZ et al, 2012). Página 70 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 4 CONCLUSÃO Constatou-se a partir dos dados coletados nos prontuários, que o perfil epidemiológico das vítimas de agressão doméstica são mulheres jovens, solteiras, da raça parda, com baixo nível de escolaridade e de renda, tendo como principal ocupação de domesticas. Obtivemos a prole numerosa como um dos principais fatores de dependência do companheiro, sendo esta na maioria dos casos de mais de quatro filhos. Verificou-se que os agressores eram em sua maioria conhecidos da mulher que os denunciavam, a maior parte vivia uma relação consensual com as mulheres. Observou-se que os mesmos eram jovens, casados e também possuíam um baixo grau de instrução e baixa renda eles eram responsáveis por prover a casa e tinham como ocupação a de autônomo. Em relação às agressões pode-se averiguar que eram em sua maioria de caráter físico e psicológico, ocorriam mais no período noturno e em quase uma totalidade dos casos os agressores estavam sobre o efeito do álcool. Considerando a importante relevância social deste tema, acredita-se que seja necessário um olhar mais cuidadoso e atento das autoridades governamentais, através da criação e desenvolvimento de políticas públicas visando combater este fenômeno, assim como proporcionar uma assistência mais adequada às vítimas desta violência. É imperioso que este fenômeno não seja compreendido em nível individual e privado, mas sim como uma questão de direitos humanos, pois, além de afrontar a dignidade da pessoa humana, impede o desenvolvimento pleno da cidadania da mulher. REFERÊNCIAS BENFICA, Francisco Silveira; VAZ, Márcia. Medicina legal. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 201-5. Brasil (2003) Lei Federal nº 10778, de 24 de Novembro de 2003, estabeleceu a notificação compulsória, no território nacional, do caso de violência contra a mulher que atendida em serviços de saúde pública ou privada. Diário Oficial de União. Brasil (2006) Lei Federal nº 11340, de 07 de Agosto de 2006, que dispõe sobre mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Diário Oficial de União. 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Página 72 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA ASSOCIADA À SEDOANALGESIA EM UNIDADES DE TERAPIA INTENSIVA PEDIÁTRICAS WITHDRAWAL SYNDROME ASSOCIATED WITH SEDACION AND ANALGESIA IN PEDIATRIC INTENSIVE CARE UNIT Emanuelly olívia queiroz de maniçoba1, Carlos Leonardo evangelista bento2 RESUMO A síndrome de abstinência consiste em um conjunto de sinais e sintomas que surgem com a súbita retirada de uma substância da qual o indivíduo é dependente físico. Ela modifica o manejo clínico da criança criticamente enferma, prolonga o tempo de internação, eleva os custos e está associada a um maior número de comorbidades. Contudo, há escassez de trabalhos nacionais acerca do tema e não há uma abordagem clínica universalmente aceita. O que levanta questionamentos sobre os métodos existentes de diagnóstico, prevenção e tratamento, quais os fatores de risco associado ao surgimento da abstinência, e quais são as novas perspectivas sobre o assunto. O presente estudo visa revisar e analisar criticamente a literatura disponível, objetivando identificar os fatores de risco para o surgimento da síndrome de abstinência, expor os métodos de prevenção, diagnóstico e tratamento, e indicar as novas perspectivas sobre o assunto. Foi realizada uma extensa revisão bibliográfica com a inclusão de trabalhos da literatura nacional e internacional, através dos descritores: síndrome de abstinência, unidade de terapia intensiva pediátrica, sedativos e analgésicos, nas bases de dados SciELO, LILACS, MEDLINE e Pubmed, além da inclusão de livros e monografias como fonte de pesquisa. A incidência de síndrome de abstinência está atrelada a altas doses acumulativas de sedoanalgésicos, tempo de sedação maior que cinco dias e rápido desmame. Futuros estudos precisam ser realizados para o fornecimento de dados que permitam meta- analálises sobre melhores formas de manejo e diagnóstico da síndrome de abstinência iatrogênica em unidades de terapia intensiva pediátricas. Palavras-chave: Pediatria. Analgésicos. Hipnóticos e Sedativos. Tolerância a medicamentos. Síndrome de Abstinência a Substâncias. ABSTRACT Withdrawal syndrome consists in a set of signs and symptoms that emerges with an unexpected retreat of a substance which the person is a physical addicted. The withdrawal syndrome modifies the clinical management of critical ill child, prolongs hospitalization, increases the costs, and it is associated with a huge number of comorbidities. However, there is not a lot of national works about this topic and there is no universal clinic approach accepted. Therefore, this brings questions about the diagnosis, prevention and treatment, the risk factors associated to the addiction outbreak and what might be the new perspectives about the topic. This academic work wants to review and analyze critically the available literature focusing on identify the risk factors of the withdrawal syndrome outbreak, show the prevention methods, diagnosis and treatment, and indicates the new perspectives about the topic. It was made an extensive bibliographic review with an inclusion of national and international literature using describing terms such as: withdrawal syndrome, pediatric 1 1Aluno de graduação (12º período) do Curso de Medicina da Faculdade Integral Diferencial – FACID. e-mail: [email protected] 2 Professor do Curso de Medicina da FACID, Especialista em Pediatria e-mail: [email protected] Página 73 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 intensive care unit, sedatives and analgesics, in the database SciELO, LILACS, MEDLINE and Pubmed, besides books and monographs as a research source. The incidence of the withdrawal syndrome is related to high accumulative doses of sedoanalgesics, time of sedation more than five days and fast weaning. Future studies need to be made to offer data that allow the achievement ofmeta-analysis about the best ways and diagnosis of the abstinence syndrome iatrogenic in pediatric intensive care units. Keywords: Pediatrics. Analgesics. Hypnotics and Sedatives. Drug Tolerance. Substance Withdrawal Syndrome. INTRODUÇÃO Um dos principais objetivos da equipe médica nas unidades de terapia intensiva pediátrica (UTIP) é garantir que o período crítico de intervenção seja o mais ameno, o menos traumático e o mais rápido possível. Assim, o uso de analgésicos e sedativos é de grande importância para a eliminação de fatores como a ansiedade, medo, agitação e dor, garantindo conforto ao paciente, redução do estresse e melhora na adaptação à ventilação mecânica (VM), caso essa seja necessária. Durante a VM, e outros procedimentos, é indispensável que o paciente não apresente agitação ou dor, condições que elevam o risco de auto-extubação, retirada indevida de cateteres, não cooperação em atividades terapêuticas, contusões, lacerações ou fraturas, o que pode complicar o quadro clínico do paciente e prolongar seu tempo de internação na unidade de terapia intensiva (UTI). Entretanto, apesar de todos os benefícios gerados, analgésicos e sedativos são substâncias que possuem efeitos secundários e seu uso prolongado e indiscriminado está relacionado ao desenvolvimento da síndrome de abstinência. Tolerância, dependência física e síndrome de abstinência estão correlacionadas e são decorrentes de altas doses e do uso prolongado de um mesmo fármaco. Tolerância é a redução da resposta à droga, sendo necessárias doses cada vez maiores para manifestar o mesmo efeito. Já dependência física é o estado que se desenvolve mediante o processo de tolerância, no qual o organismo se defende estabelecendo um novo equilíbrio neurofisiológico, adaptado a níveis elevados da droga. Quando ocorre a interrupção súbita da administração da substância, a homeostase é rompida e o organismo passa a demonstrar sinais e sintomas de dependência. Assim, a síndrome de abstinência é a manifestação e a evidência física da dependência. A síndrome de abstinência modifica o manejo clínico da criança criticamente enferma, prolonga o tempo de internação, eleva os custos e está associada a um maior número de comorbidades. Apesar de sua repercussão clínica, a síndrome de abstinência é um assunto controverso, não havendo atualmente consenso sobre seus mecanismos, real incidência e qual melhor método de diagnóstico e tratamento. Além disso, existem poucos trabalhos nacionais referentes ao tema relacionado à UTIP. O que levanta questionamentos sobre os métodos existentes de diagnóstico, prevenção e tratamento, quais os fatores de risco associado ao surgimento da abstinência, e quais são as novas perspectivas sobre o assunto. Tornando-se necessário, portanto, a elaboração e execução de pesquisas que permitam elucidar as lacunas existentes e extenuar o tema. O presente estudo tem por objetivo revisar e analisar criticamente a literatura disponível, objetivando identificar os fatores de risco para o surgimento da síndrome de abstinência, expor e comparar os métodos de prevenção, diagnóstico e tratamento, e identificar as novas perspectivas sobre o assunto. 2 MATERIAIS E MÉTODOS Foi realizada uma extensa revisão bibliográfica com a inclusão de trabalhos da literatura nacional e internacional, através dos descritores síndrome de abstinência, unidade de terapia Página 74 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 intensiva pediátrica, sedativos e analgésicos, nas bases de dados Scielo, LILACS, Medline e Pubmed. Além da inclusão de livros e monografias como fonte de pesquisa. Não foi utilizada delimitação quanto à data de publicação dos trabalhos utilizados, devido à grande relevância de artigos do inicio da década de setenta, o que resultaria em uma janela de tempo extremamente abrangente. A existência de conflitos de interesse ou o não respeito à bioética foram utilizados como critérios de exclusão. A pesquisa resultou em 3.473 artigos. O cruzamento dos descritores e a utilização dos critérios de exclusão reduziram o número para um total de 92 artigos. Também foram inclusos 13 livros e 2 monografias. 3 DISCUSSÃO A síndrome de abstinência refere-se ao aparecimento de sinais e sintomas variados após a retirada da sedoanalgesia em pacientes que desenvolveram tolerância e dependência física com o uso dos mesmos. Sua ocorrência está relacionada com as mais diversas drogas utilizadas em UITP, como midazolam, diazepam, morfina, fentanil, etc. A abstinência em crianças foi inicialmente observada e descrita em recém- nascidos de mães viciadas em opióides. Ainda nas primeiras 72 horas após o parto, os lactentes apresentavam alterações somáticas como choro contínuo, tremores, vômitos, diarreia, etc. Sendo desenvolvido em 1972 o critério de Finnegan para diagnóstico de síndrome de abstinência em recém- nascidos. Em 1990, Arnold et al, foram os primeiros a descrever a síndrome de abstinência em crianças internadas em UITP após o uso prolongado de sedativos e analgésicos. (TOBIAS, 2000). Sua sintomatologia é bastante variada, sofrendo a influência de fatores como: fármaco utilizado, idade do paciente, estado cognitivo e condição clínica. Além disso, diversos autores salientam a dificuldade em relacionar sintomas específicos para cada droga utilizada, uma vez que em UTIs usualmente se faz a associação de dois ou mais fármacos. Dentre os sinais e sintomas,pode-se destacar; irritabilidade, tremores, hipertonicidade, delírios, convulsões, náuseas, vômitos, diarreia, taquicardia, taquipnéia, hipertensão, etc. (BARTOLOMÉ, 2007). Franck, Naughton e Winter (2004), afirmaram que a síndrome de abstinência causada por benzodiazepínicos difere da causada por opióides pela presença de alterações motoras mais exacerbadas e ausência de sintomas gastrointestinais. Porém, tal fato só observa-se em adultos (não há relatos na literatura descrevendo disfunção do trato gastrointestinal como sintoma de abstinência por benzodiazepínicos em adultos). Ao analisar crianças submetidas à sedoanalgesia com fentanil e midazolam Bicudo et al. (1999) constataram que insônia, tremores, taquipnéia e frebre foram os sintomas mais prevalentes na vigência da síndrome (100%, 100%, 100% e 83,3%). Já Franck, Naughton e Winter (2004), encontraram prevalência de 82% para febre, 52% para insônia, 32% para tremores e 43% para diarréia. A relação entre o tempo de sedação e analgesia à qual a criança é submetida e o desenvolvimento da síndrome de abstinência está sólido na literatura. Avaliação de diferentes estudos revela que as crianças submetidas à sedoanalgesia por 5 dias ou mais apresentam riscos maiores para a síndrome. Duração maior que 7 dias apresenta preditivo de 100% para a síndrome. (CUNLIFFE; MCARTHUR; DOOLEY, 2004; ESPER et al, 2010; SFOGGIA, 2003). No estudo de Sfoggia (2003), entre os 92 pacientes com tempo médio de uso de drogas de 6,8 ± 5,0 dias, a síndrome de abstinência foi diagnosticada em 49% da amostra, contra apenas 3% nos 32 pacientes que utilizavam um tempo médio de 3,9 ± 3,3 dias. Os trabalhos revisados demonstraram uma importância maior para a dose total acumulada que a dose diária. E que a associação de fentanil aos esquemas de sedoanalgesia aumenta o tempo de sedação e a incidência da síndrome de abstinência. (FRANCK, NAUGHTON E WINTER, 2004; SOFOGGIA et al., 2003; WANZUITA, 2011;). Segundo Tobias (2000), o diagnóstico da síndrome de abstinência é um diagnóstico de exclusão. Sintomas como febre, náuseas, tremores, choro inconsolável, etc, não devem ser Página 75 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 atribuídos inicialmente à retirada de sedoanalgésicos, devendo ser investigado outras causas. Para aperfeiçoar e facilitar seu diagnóstico, várias ferramentas de avaliação foram desenvolvidas, como tabelas de pontuações com a discriminação de diversos sintomas, cujo escore final auxilia o diagnóstico da abstinência. Os estudos apontam um melhor desempenho clínico com a utilização de ferramentas avaliativas do que com a simples constatação subjetiva dos sintomas da síndrome de abstinência, já que muitos desses sintomas se apresentam de maneira sutil ou mimetizam outras condições, podendo ser confundidos como resposta a outros fatores, como desconforto ou piora clínica decorrente da patologia de base. (ANAND et al, 2010; FRANCK; NAUGHTON; WINTER, 2004; MOLON, 2007). O Escore de Abstinência Neonatal de Finnegan, elaborado na da década de 70, é ainda a ferramenta de avaliação para sinais e sintomas da síndrome de abstinência mais utilizada. Porém essa ferramenta tem diversas limitações. Tal escala foi desenvolvida para ser aplicada em RN de mães viciadas em opióides, inclui, por exemplo, reflexos não observados em crianças maiores de três meses, não apresenta ponto de corte para outras faixas etárias e não inclui abstinência por outros fármacos, como benzodiazepínicos. Não sendo, portanto, validada em crianças maiores de 28 dias. (ISTA et al., 2009b). Todos os autores revisados questionaram sua eficácia em pacientes de UITP, sugerindo a atual tendência do seu desuso com a elaboração de novos métodos de avaliação e diagnóstico mais adequados. Atualmente destacam-se quatro sistemas de pontuação para avaliação dos sintomas e diagnóstico da síndrome de abstinência em UTIP.. O Sedation Withdrawal Score (SWS), Opioid and Benzodiazepine Withdrawal Scale (OBWS), Withdrawal Assessment Tool version 1 (WAT-1)e a Sophia Observation withdrawal Symptoms-scale (SOS). Entretanto, não há consenso entre os trabalhos revisados sobre qual dos métodos é mais eficaz, além de alguns desses métodos estarem ainda em processo de validação. (ISTA et al., 2009b). O SWS foi elaborado para ser utilizado em crianças de todas as faixas etárias. Porém, por não possuir dados sobre sua sensibilidade e especificidade, não apresenta confiabilidade comprovada. O OBWS é um instrumento validado através de um estudo prospectivo realizado em 15 pacientes pediátricos, com especificidade de 87% e com apenas 50% de sensibilidade. Sua eficácia é questionada devido sua baixa sensibilidade e por incluir o reflexo de Moro. (BIRCHLEY, 2009). Recentemente dois escores foram elaborados, o WAT-1 e o SOS. Ambos mostramsepromissores, porém mais pesquisas precisam ser realizadas para confirmar pontos de corte, sensibilidade e especificidade. Não sendo ainda métodos validados. (FRANK et al, 2008; ISTA et al, 2009a; ISTA et al., 2009b). As estratégias de prevenção da síndrome de abstinência em UTIP consistem na: promoção de uma adequada sedoanalgesia (com o uso de doses adequadas e ajustadas para os objetivos terapêuticos), evitar superdosagens, evitar o prolongamento do período de administração das drogas, evitar a retirada súbita de sedativos e analgésicos, redução cuidadosa e progressiva dos sedoanalgesicos, utilização de protocolos de sedação, utilização de escalas para monitoração do nível de sedação e analgesia, etc. (ANAND et al., 2010; ESPER et al, 2007; MOLON, 2007) A diminuição gradual das doses de sedativos e analgésicos através da utilização de protocolos de sedação é a conduta mais utilizada em UTIP, juntamente com a monitoração dos níveis de sedação e analgesia, para tentar evitar a tolerância. Ela impede a retirada brusca de tais substâncias, otimiza o desmame e diminui a incidência da síndrome de abstinência. Não há um protocolo de sedação ideal ou aceito universalmente para esse fim, cada serviço utiliza um protocolo próprio e adequado à sua realidade de trabalho. (ANAND et al., 2010). Outras medidas como a utilização de bolus de sedativos ao invés de sedação contínua, interrupção diária da infusão de sedativos, alternância programada entre diferentes classes de sedoanalgésicos, administração de opióides associados à cetamina ou baixas doses de naloxa, uso de fluoxetina, etc, são condutas mencionadas em trabalhos isolados e que teoricamente diminuem o tempo de ocupação do receptor neurológico pelo sedativo ou opióide utilizado, podendo tem Página 76 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 impacto no desenvolvimento da síndrome de abstinência. (CHEUNG et al., 2007; DARNELL et al., 2008; GIRARD et al., 2008; KRESS et al., 2000; LIGINBÜL et al., 2003; MOLON, 2007; SHING; JAIN; KULKARNI, 2003). As manifestações clínicas da síndrome de abstinência decorrentem principalmente da exacerbação do sistema nervoso simpático. E podem ser combatidas através de algumas medidas. O primeiro passo é o reajuste na dose da droga que está sendo retirada e a revisão do planejamento do processo de desmame. O segundo é a introdução de substâncias alfa-2 agonistas ou de antagonistas do receptor NMDA. (WANZUITA, 2011). A metadona é uma das mais antigas e estudadas drogas para o tratamento da síndrome de abstinência causada pela dependência de opióides. Assemelha-se à morfina atuando nos receptores μ e foi inicialmente utilizada em adultos dependentes de ópio e posteriormente em RN de mães usuárias de tais substâncias. Atualmente o uso de metadona em crianças pediátricas para manejo no desmame da sedoanalgesia está bastante consolidado na literatura, onde se mostrou eficaz no tratamento dos sintomas de abstinências, além de acelerar o tempo de desmame da ventilação mecânica. Não há um protocolo padrão para o desmame de opióides utilizando a metadona, em geral ela é introduzida antes de iniciar a diminuição do analgésico opióide, com posterior diminuição progressiva do mesmo. (JEFFRIES, 2012). A clonidina, um agonista alfa-2-adrenérgico, é utilizada desde a década de 70 no combate dos sinais e sintomas da síndrome de abstinência. Por agir nos receptores centraisalfa2-adrenérgicos, ela consegue diminuir o nível de catecolaminas e minimizar as manifestações de abstinência. Além de eficaz no tratamento, a clonidina também tem se mostrado eficiente na prevenção, quando introduzida durante todo o processo de desmame da sedação. (MOLON, 2007). A dexmedetomidina, outro alfa-2-adrenérgico, oito vezes mais potente que a clonidina, tem sido sendo apontada em alguns trabalhos como uma alternativa no tratamento e prevenção da síndrome de abstinência. Quando utilizada como droga co-adjuvante na sedação, a dexmedetomidina alivia a ansiedade, reduz a necessidade de opióides, previne a síndrome de abstinência e não produz depressão respiratória. Há relatos de seu uso por mais de sete dias em pacientes adultos criticamente enfermos, sem exacerbação da atividade noradrenérgica. Quanto ao tratamento, não existe ainda nenhum trabalho prospectivo ou com uma população representativa, as evidências são baseadas apenas em relatos de caso e em um estudo retrospectivo. (AFONSO; REIS, 2012; PANDDHARIPANDE et al., 2007). Estudos adicionais precisam ser realizados para avaliar o real papel da dexmedetomidina em UTIP, uma droga que apesar de não causar depressão respiratória e provocar menos bradicardia e hipotensão que a clonidina, apresenta elevado custos e estudos insuficientes na faixa etária pediátrica. 4 CONCLUSÃO A síndrome de abstinência é o conjunto de sinais e sintomas que se manifestam com a retirada de um fármaco em indivíduos que desenvolveram tolerância e dependência física ao mesmo. É comumente observada em crianças criticamente enfermas após longos períodos de infusão de sedativos e analgésicos. Ela modifica o manejo clinico dos pacientes, aumenta o tempo de internação, eleva os custo e as comorbidades. Sua incidência na literatura varia de 15% à 57%, variabilidade atribuída às diferentes de condutas de sedação e desmame, e aos distintos métodos de diagnóstico, aplicados em cada serviço de terapia intensiva pediátrica. Altas doses de sedoanalgesicos, tempo de sedação maior que cinco dias, dose total acumulada, associação de fentanil aos esquemas de sedoanalgesia, e retirada abrupta de sedativos e analgésicos, são fatores de risco atrelado ao seu surgimento. Foram observadas incidências com valores preditivos de 100% para sedações e analgesias maiores que sete dias. A estratégia mais utilizada na prevenção da síndrome de abstinência é a adequada sedoanalgesia e a diminuição progressiva e cuidadosa dos fármacos infundidos, através da Página 77 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 utilização de um protocolo de sedação e do monitoramento do nível de sedação e analgesia, evitando, assim, superdoses ou o prolongamento desnecessário na administração de sedativos e analgésicos. Não há um protocolo de sedação ideal ou aceito universalmente, cada serviço utiliza um protocolo próprio e adequado à sua realidade. A clonidina e metadona são comumente utilizadas para o tratamento das manifestações simpáticas da síndrome de abstinência. Além de eficazes no tratamento, elas mostram-se eficazes na prevenção, quando introduzidas no início do desmame sedoanalgesico. O escore de Finnegan permanece como o método de diagnóstico mais utilizado. Porém sua eficácia em não neonatos é questionada, acarretando na tendência ao seu desuso. WAT-1 e SOS são novas escalas elaboradas para diagnóstico da abstinência em UTIP, em alternativa ao escore de Finnegan, mas ainda necessitam de mais estudo quanto à validação e comprovação da eficácia. Condutas como: alternância de fármacos, interrupção diária da sedação, utilização de bolus ao invés de infusão contínua, sedoanalgesia baseada na utilização de cetamina ou naloxona associada à opóides, utilização de fluoxetina, foram mencionadas em estudos isolados e sua eficácia e segurança não foram comprovadas em crianças criticamente enfermas. A dexmetomidina tem sido apontada em alguns estudos como uma alternativa futura no tratamento da abstinência em pacientes pediátricos. Não há até o momento nenhum consenso ou medida aceita universalmente para o diagnóstico e tratamento da síndrome de abstinência iatrogênica em unidades de terapia intensiva pediátricas. Novas pesquisas ainda precisam ser desenvolvidas para o fornecimento de dados que permitam meta-análises sobre a melhor forma de manejo e diagnóstico. REFERÊNCIAS AFONSO, J.; REIS, F. Dexmetomidina: Papel atual em anestesia e cuidados intensivos. Revista Brasileira de Anestesiologia. Campinas, v.62, n.1, p.118-133, 2012. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-70942012000100015&script=sci_arttext>. Acesso em: 04 fev. 2012. ANAND, K. J. et al. Tolerance and Withdrawal From Prolonged Opioid Use in Critically Ill Children. Pediactrics, [S.I], v.125, n.5, p.1208-25, maio, 2010. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3275643/>. Acesso em: 15 dez. 2012. BARTOLOMÉ, S. M.; CID, J. L.; FREDDI, N. Sedação e analgesia em crianças: uma abordagem prática para as situações mais frequentes. Jornal de Pediatria, Rio de Janeiro, v.83, n.2, p.7182,maio, 2007. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S002175572007000300009>. Acesso em: 23 set. 2012 BICUDO, J. N. et al. Síndrome de abstinência associada à interrupção da infusão de fentanil e midazolam em pediatria. Revista Associação Médica Brasileira, São Paulo, v.45, n.1, p.15- 18, jan. 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010442301999000100004>.Acesso em: 14 nov. 2012 BIRCHLEY, G. Opioid and benzodiazepine withdrawal syndromes in the paediatric intensive care unit: a review of recent literature. Nursing in Critical Care, [S.I], v.14, n.9, p.26-37, jan., 2009. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1478- 5153.2008.00311.x/pdf>. Acesso em: 09 dez. 2012. CHEUNG, C. L. S. et al. 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Repercussão da substituição da infusão venosa de fentanil por metadona enteral sobre o tempo de desmame da ventilação mecânica em pacientes graves internados em unidades de terapia intensiva de adultos. 2011. 108 f. Tese (Doutorado em Ciências) – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. 2011. ANEXO A – Escore de Abstinência Neonatal (NAS) Escore de Abstinência Neonatal de Finnegan Sinais e Sintomas Escore Choro: Excessivo 2 Contínuo 3 Dormir após alimentação: <1 hora 3 <2 horas 2 <3 horas 1 Reflexo de Moro: Hiperatividade 2 Marcadamente Hiperativo 3 Tremores: Grave 4 Página 80 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Moderado a Grave 3 Leve 2 Ausente 1 Aumento do tônus muscular 2 Bocejos frequentes 1 Escoriações 1 Convulsões 5 Sudorese 1 Febre: 37,8 – 38,3 ºC 1 > 38, 3 ºC 2 Cútis Marmórea 1 Espirros Frequentes 1 Prurido nasal 1 Batimento de asa de nariz 2 Frequência respiratória: >60 rpm 1 > 60 rpm + tiragem 2 Sucção excessiva 1 Come Pouco 2 Regurgitação 2 Vômitos em jato 3 Fezes: Sem pastosas 2 Liquidas 3 ANEXO B – Sedation Withdrawal Score (SWS) SWS SINAIS OU SINTOMAS PONTUAÇÃO: 0 (Ausente), 1 (Moderado) OU 2 (Severo) Tremores Irritabilidade Hipertonia Hiperatividade Vômitos Choro Agudo Espirros Dispneia Febre Diarreia Sudorese Convulsões Total: Página 81 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Pontuação maior que 6 indica Síndrome de Abstinência. Maior que 12 indica Síndrome de Abstinência moderada. Maior que 18 indica Síndrome de Abstinência grave. ANEXO C – WITHDRAWAL ASSESSMENT TOOL VERSION 1 (WAT-1) Withdrawal Assessment Tool version 1 (WAT-1) Uma pontuação maior que três indica Síndrome de Abstinência ANEXO D – ESCALA DE RAMSAY 1 Ansiedade e /ou agitação 2 Tranqüilidade, cooperação e orientação 3 Responsividade ao comando verbal 4 Resposta franca à estimulação auditiva intensa ou compressão da glabela 5 Resposta débil à estimulação auditiva intensa ou compressão da glabela 6 Irresponsividade Página 82 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 FATORES DE RISCO PARA QUEDA EM IDOSOS ASSISTIDOS POR UMA EQUIPE DE SAÚDE DA FAMÍLIA RISK FACTORS TO FALLS IN ELDERLY PATIENTS ASSISTED BY A HEALTH FAMILY TEAM Joana Elisabeth de Sousa Martins Freitas1 Patrícia Borges da Fonseca Neto2 RESUMO O envelhecimento populacional ocorrido no Brasil no final do século XX traz consigo inúmeras preocupações em relação aos eventos incapacitantes a que os idosos estão expostos, a queda é um deles, e é de fundamental importância o estudo dos fatores de risco associados a este evento. O presente trabalho tem como objetivos traçar o perfil de risco para quedas em idosos assistidos por uma equipe de saúde da família. Trata-se de um estudo quantitativo, descritivo, retrospectivo, realizado com idosos assistidos por uma equipe de saúde da família, com área de abrangência na zona norte de Teresina-PI. A amostra foi composta de 76 pessoas, com idade maior ou igual a 160 anos, não institucionalizados e de ambos os gêneros, escolhidos aleatoriamente numa população de 224 idosos. Os resultados obtidos mostraram que 53,9% da população era do gênero feminino, 94,7% menores de 80 anos, 50% com auto percepção da saúde regular e. 81% são independentes para as atividades básicas de vida diária. Dos 18 (23,7%) que sofreram quedas nos últimos 12 meses, 83,3% eram do gênero feminino; 83,3% menores de 80 anos; 83,3% com auto percepção da saúde regular e em uso de em média três medicações. Os resultados encontrados servem como orientação para elaboração de medidas preventivas na vigilância ambiental, no controle das doenças crônicas degenerativas, estimulando hábitos saudáveis de vida no sentido de proporcionar o bemestar físico, psíquico e social e de políticas públicas para garantia de um envelhecimento ativo e saudável com independência e autonomia PALAVRAS – CHAVE: Queda. Fatores de risco. Idosos. ABSTRACT The populational aging in Brazil at the end of XX Century brings with it countless concerns about events that lead to incapacity to which the elderly are exposed to, the fall is one of them, and it is fundamentally important the research about the risk factors related to this event. This research intention is to draw up the risk profile for falls in elderly patients assisted by a team in Family Health. This is a quantitative, descriptive, retrospective research carried out with elderly assisted by a health team which includes the North area from Teresina – PI. The sample consisted of 76 people whose ages were more than or equal 60, non institutionalized and both of genders, occasionally chosen in a population consisted of 53,9% female gender, 94,7% less than 80, 50% with self perception of regular health and 81% are independent in relation to their daily activities. From 18 (23,7%) to whom falls had occurred in the last 12 months, 83,3% are female gender; 83,3% are less than 80, 83,3% with self perception of health regular and in use for an average of three medications. Results found are used as orientation to preventive measurements and public policies elaboration in environmental vigilancy, in degenerative chronic diseases control , stimulating with it health life 1 Médica especialista em Saúde Pública, professora do curso de graduação em Medicina da Faculdade Integral Diferencial – FACID. Email: [email protected] Tel: 86) 99880940 2 Acadêmica do curso de graduação em Medicina da Faculdade Integral Diferencial – FACID. Email: [email protected] Tel:(86) 99030773 Página 83 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 habits in order to promote the physical, psychical and social well-being to the elderly and public policies which guarantee an active and health aging with independence and autonomy. KEYWORDS: Falls. Risk factors. Elderly. INTRODUÇÃO A transição demográfica é um processo evidente no cenário mundial. É uma resposta à mudança de alguns indicadores de saúde, especialmente a queda da fecundidade e da mortalidade e o aumento da esperança de vida (BRASIL, 2007). De acordo com dados publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (2006), a expectativa de vida do brasileiro cresceu 32,4%,o que significa 17 anos, 8 meses e 1 dia, em um período de 46 anos, indo dos 54,6 anos, em 1960, para 72,3 anos, em 2006. O envelhecimento é uma fase universal para os seres vivos, consistindo em um processo comum, dinâmico e progressivo, sendo em que fatores biológicos, doenças e causas externas, segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) a queda é um deles, podem influenciar a forma em que essa ele se dá. Em 2005 no Brasil, ocorreram 61.368 hospitalizações por queda de pessoas com 60 anos ou mais de idade, de ambos os sexos, representando 2,8% de todas as internações de idosos no país e 54,4% das internações por todas as lesões e envenenamentos neste grupo etário (RIBEIRO et al., 2008). Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, a estimativa da incidência de quedas por faixa etária no ano de 2008 foi de 28% a 35% nos idosos com mais de 65 anos e 32% a 42% naqueles com mais de 75 anos, sendo que aproximadamente 40% a 60% destes episódios levam a algum tipo de lesão, sendo 30% a 50% de menor gravidade, 5% a 6% injúrias mais graves (não incluindo fraturas) e 5% de fraturas. As quedas normalmente ocorrem por consequência de perda total do equilíbrio e postura, estando intimamente relacionadas à deficiência súbita das estruturas neurológicas, sensoriais e musculoesqueléticas envolvidas na manutenção postural. No idoso esses mecanismos de conservação da postura estão naturalmente enfraquecidos em decorrência das modificações morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas que determinam diminuição de capacidade e adaptação do individuo ao meio, tornando-o mais vulnerável, com maior incidência de processos patológicos (SBGG, 2010). A valorização da Atenção Primária de Saúde tem permitido o acompanhamento dos idosos pelos profissionais na Estratégia da Saúde da Família (ESF) e assim maior conhecimento da população adstrita, possibilitando o desenvolvimento das ações de promoção de saúde, prevenção de doenças, cura e reabilitação. A atividade de visita domiciliar pelas equipes de saúde da família, oportunizam a vigilância ambiental intra e extra domiciliar, com a identificação e redução dos fatores de risco para quedas. Sabendo-se que as quedas em idosos são um problema de saúde pública devido à alta frequência com que ocorrem, a morbidade e mortalidade advindas desse evento, ao elevado custo social e econômico decorrentes das lesões provocadas, e por serem eventos passíveis de prevenção, é importante pesquisar os fatores de risco associados a estes e a partir daí medidas preventivas serem adotadas para a manutenção da integridade física, mental e emocional e assim melhorar a qualidade de vida da pessoa idosa, aumentando sua expectativa de vida com autonomia e independência. Dessa forma o presente trabalho tem como objetivo geral traçar o perfil de risco para quedas em idosos assistidos por uma equipe de saúde da família e como objetivos específicos, conhecer a população acima citada quanto ao gênero, faixa etária, situação familiar, hábitos de vida, saúde auto-referida, condições de saúde, número de medicamentos utilizados, e quedas no último ano, assim como, identificar a situação epidemiológica e clínica dessa mesma população, os fatores Página 84 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 de risco associados à ocorrência de quedas e determinar a capacidade funcional da população estudada. 2 MATERIAIS E MÉTODOS Trata-se de uma pesquisa descritiva de natureza retrospectiva, quantitativa, direcionada à análise da possível relação do fenômeno de quedas em pacientes idosos da comunidade (60 anos ou mais). A pesquisa foi realizada através de visitas domiciliares em uma área atendida por uma equipe de saúde da família em Teresina – PI, no período de março de 2013 a abril de 2013. O instrumento de coleta de dados foi constituído de formulários aplicados a 76 pacientes de uma amostra de 224 idosos da comunidade, considerando-se como critério de inclusão o indivíduo ser idoso de acordo com o conceito da Organização Mundial de Saúde (OMS) - os indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos. Apresentando como variáveis: idade, gênero, estado civil, situação familiar, hábitos de vida, uso de medicações, doenças diagnosticadas, evidência de queda em último ano, avaliação da marcha e ambiente domiciliar, execução de atividades de vida diária, presentes em um formulário elaborado pela autora baseado em dados da literatura acerca do assunto (apêndice). Os dados serão tabulados em planilha específica e serão analisados por pacote estatístico SPSS 20.0. e o protocolo foi aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa sob o número 237/2013, conforme resolução 196/96. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Neste estudo foi aplicado questionário a 76 pacientes idosos atendidos por uma equipe de saúde da família. Destes, 53,9% eram do gênero feminino e 46,1% eram do sexo masculino. A prevalência de pacientes do gênero feminino na amostra avaliada é condizente com os dados demográficos com relação à população idosa urbana no município de Teresina – PI, segundo dados do IBGE (2010). A predominância do gênero feminino em relação à população masculina pode ser justificada por diversos fatores como uma menor exposição das mulheres aos fatores de risco, como tabagismo e etilismo, ao fato destas apresentarem condutas menos agressivas, maior atenção ao surgimento dos problemas de saúde e maior procura e utilização dos serviços de saúde, segundo Lemos, Sousa e Mendes (2006 apud ROCHA et al.,2011). Segundo a tabela 3, a faixa etária predominante foi entre 60 a 69 anos, em 52,62% dos idosos, seguido da faixa entre 70 a 79anos com 42,1%, sendo a idade média de 69 anos, o idoso de menor idade tinha 61 anos e o de maior idade, 82 anos. Em relação à situação conjugal, 60,5% da amostra era constituída de pessoas casadas ou que vivem com companheiro, 22,3% eram viúvos e 11,8% separados ou divorciados. Quanto aos hábitos comportamentais evidenciou-se que 73,6% eram ex fumantes, 92,1% não consumiam bebida alcoólica há pelo menos 2 anos. Em relação à prática de atividade física, 68,4 % se diziam sedentários ou praticavam atividade física irregularmente e 31,6% praticavam atividade física pelo menos três vezes por semana (Tabela 1). Tais dados assemelham-secom uma pesquisa realizada por Rocha et al. (2011) em idosos do município de Teresina –PI. Por fim, 93,3% moravam com familiares e 50,00% referiram uma percepção de sua saúde regular (Tabela 1). De acordo com o Ministério da Saúde, aqueles indivíduos que consideram seu estado de saúde como sendo ruim ou muito ruim, tem maior risco de agravos sérios em sua vida e é considerado pessoa idosa frágil ou em processo de fragilização (BRASIL, 2007). Página 85 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Tabela 1: Características dos pacientes atendidos por uma equipe de saúde da família conforme variáveis demográficas, comportamentais e de saúde. Teresina, 2013 Variável Sexo Masculino Feminino Idade 60 a 69 70 a 79 80 ou mais Situação Conjugal Casado ou vive com companheiro Solteiro Separado/ Divorciado Viúvo Tabagismo Nunca fumou Ex Fumante Fumante atual Etilismo Não consome bebida alcoólica Consome bebida alcoólica Prática de Atividade Física Sedentário Irregular Regular Percepção de Saúde Excelente Boa Regular Ruim Muito ruim N % 35 40 46,1 53,9 40 32 4 52,6 42,1 5,3 46 4 9 17 60,5 5,3 11,8 22,4 10 56 10 13,2 73,6 13,2 70 6 92,1 7,9 26 26 24 34,2 34,2 31,6 0 23 38 5 10 0,0 30,2 50,0 6,6 13,2 No tocante ao diagnóstico médico referido de alguns agravos crônicos não transmissíveis, 65,8% relataram ser hipertensos, 27,6% ser diabéticos, 53,9% dos idosos referiram sofrer de dores nas costas ou terem problemas de coluna, 29,3% relataram ter depressão, 59,2% referiram artropatias, 37,3% apresentavam algum grau de obesidade, 55,3% relataram apresentar distúrbios do sono e 71,1% revelaram algum grau de dificuldade visual. Quanto à utilização de medicações, 73,1% disseram fazer uso, 34,6% faziam uso contínuo de três medicamentos e 7,7% faziam uso de cinco ou mais medicamentos. Fazendo uma discriminação dos medicamentos utilizados, o resultado é o seguinte: 65,3% antihipertensivos, 28% hipoglicemiantes orais, 20% diuréticos, 13,3% analgésicos, 25,3% estatinas, 8% benzodiazepínicos, 26,6% outros. Em relação à realização de suas AVD’S, 88,1% dos idosos relataram serem independentes, 3,9% dependentes totais e 7,9% dependentes parciais, de acordo com a pontuação obtida na escala de Katz presente no formulário aplicado (APÊNDICE A). Esses dados discordam do estudo realizado por Costa, Nakatani e Bachion (2006), onde os resultados encontrados evidenciaram que 42,1% dos idosos apresentavam algum grau de dependência para a realização de suas AVD’S. Dessa forma pode incorrer-se que apesar das condições socioeconômicas adversas, a população de idosos estudada encontra-se em boas condições de saúde, aliado ao fato de que é a partir dos 80 anos que espera-se algum grau de comprometimento fisiológico na capacidade de realização das AVD’S e apenas uma minoria dos idosos da pesquisa apresentava idade acima de 80 anos. Da situação da marcha pode incorrer-se que 92,2% dos idosos caminhavam sem necessidade de ajuda, 3,9% necessitavam de ajuda frequente para a realização da marcha e 3,9% necessitavam de ajuda ocasional. Página 86 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 A frequência de quedas na amostra estudada foi de 23,7%, valor ligeiramente menor que o encontrado em outro estudo brasileiro compreendendo idosos não institucionalizados, realizado por Carvalho, Luckow e Siqueira (2011) cujo resultado foi de 34,8%. Tal resultado pode ser explicado pelo fato dos idosos da amostra apresentarem idade média de 70 anos, valor menor que o da população estudada na pesquisa de Carvalho, Luckow e Siqueira (2011), fato que por si só diminui a prevalência de comorbidades associadas, número de medicações utilizadas e incapacidades relativas às alterações fisiológicas do envelhecimento. Todos os pacientes que apresentaram algum episódio de queda relataram a ocorrência de evento único nos últimos 12 meses, sendo que 13,3% tiveram fratura como consequência (75% nos membros superiores e 15% nos membros inferiores), o que corrobora os achados de Rúbio, Zunzunegui e Béland (1997 apud CARVALHO; LUCKOW; SIQUEIRA, 2011), que encontraram a prevalência de 16,5%, enquanto outro estudo realizado também na Espanha encontrou o equivalente a 11% de fraturas decorrentes de quedas. Mais de dois terços das quedas, 83,3%, ocorreram no próprio domicílio. Tabela 2: Características dos pacientes que sofreram queda nos últimos 12 meses por uma equipe de saúde da família conforme variáveis demográficas, comportamentais e de saúde. Teresina, 2013 Variáveis Gênero Masculino Feminino Faixa Etária 60 a 69 70 a 79 80 ou mais Situação Conjugal Casado ou vive com companheiro Solteiro Separado/ Divorciado Viúvo Tabagismo Nunca fumou Ex Fumante Fumante atual Etilismo Não consome bebida alcoólica Consome bebida alcoólica Prática de Atividade Física Sedentário Irregular Regular Percepção de Saúde Excelente Boa Regular Ruim Muito ruim N % 3 15 16,7 83,3 6 9 3 33,3 50,0 16,7 6 0 3 9 33.3 0,0 16,7 50 6 6 6 33,3 33,3 33,3 18 0 100,0 0,0 6 12 0 33,3 66,7 0,0 0 0 15 3 0 0,0 0,0 83,3 16,7 0,0 Página 87 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 As quedas foram mais frequentes no gênero feminino com 83,3% dos casos, ficando o sexo masculino com apenas 16,7% do total de quedas. Os resultados de diversos estudos mostram que ser do sexo feminino é fator de risco adicional para quedas. Os mecanismos para elucidar esse fato são pouco claros e controversos. Admitem-se como causa alguns fatores: maior perda de massa óssea causada pela diminuição do estrógeno circulante, aumentando o risco de osteoporose, quantidade de massa magra e de força muscular menor do que homens da mesma idade, maior prevalência de doenças crônicas, maior exposição a atividades domésticas e por consequência comportamento de maior risco, e por fim, maior longevidade (CRUZ, D. et al., 2011). A faixa de idade entre 70 a 79 anos foi a mais prevalente para quedas com 50,0% dos casos, seguido da faixa etária entre 60 a 69 anos com 33,3%, tendo como situação conjugal a viuvez e residentes em casa com familiares (Tabela 2). A literatura tem demonstrado que a incidência dos eventos aumenta com o avançar da idade. De acordo com Siqueira (2007 apud MUNIZ et al., 2011), o envelhecimento ocasiona alterações fisiológicas que favorecem o acontecimento das quedas, como redução da força muscular, alterações na massa óssea, no equilíbrio e no balanço do corpo, lentificação do tempo de reação, redução dos reflexos, déficit do controle postural, da coordenação motora, da flexibilidade, além de deficiências de visão, propriocepção, vibração e do sistema vestibular. Quanto aos hábitos comportamentais evidenciou-se igualdade entre os parâmetros, com 33,3% de ex fumantes, 33,3% de fumantes atuais e 33,3% dos idosos nunca fumaram. Quanto ao etilismo, 100,0% dos idosos que caíram não consumiam bebida alcoólica há pelo menos 2 anos. Em relação à prática de atividade física, 33,3% diziam-se sedentários e 66,7% praticavam atividade física irregularmente, não houve idosos exposta à queda com prática regular de atividade física. Em relação à percepção de saúde, 83,3% destes idosos se referiram à sua saúde como regular, enquanto 16,7% referiram-se como ruim (Tabela 2). Além das características acima citadas, a população exposta a algum episódio de queda, apresentou comorbidades associadas. Hipertensão arterial sistêmica e dificuldades visuais foram as mais frequentes, ambas com 83,3% de prevalência, seguidas por distúrbios do sono e artropatias, ambas com 66,6%, diabetes apresentando 50%, e por fim depressão, incontinência urinária e obesidade, ambas com 33,3%. Em comparação com a população estudada que não sofreu queda, verificou-se que há uma maior incidência de hipertensão arterial, diabetes e obesidade. Como consequência a essa maior prevalência de patologias, tem-se o maior uso de medicações e a exposição a seus efeitos colaterais. A hipertensão arterial sistêmica é a patologia crônica mais comum entre os idosos, de forma que sua prevalência aumenta progressivamente com a idade e consiste no principal fator de risco para os acidentes vasculares cerebrais, segundo Menezes e Bachion (2012). Associado ao risco de AVC tem-se o fato de que a presença de hipertensão arterial leva ao uso de medicamentos e expõe os idosos aos efeitos colaterais dos mesmos, como hipotensão, evento que por si só leva à ocorrência de quedas. A depressão é uma doença frequentemente relacionada a quedas, segundo Ferreira e Yashitome (2010), a presença de sintomas depressivos é um importante fator preditor para duas ou mais quedas, em consequência do efeito de medicações antidepressivas e sedativas, da diminuição da capacidade funcional, declínio da autoconfiança, indiferença ao meio ambiente, reclusão e inatividade. A acuidade visual associou-se a ocorrência de queda, Perracini e Ramos (2002) em estudo que analisava os fatores associados a quedas em idosos residentes na comunidade, apontou a visão deficiente como um dos fatores de risco para quedas entre esses indivíduos. De acordo com este estudo, idosos com diminuição leve, moderada e severa na acuidade visual apresentaram, respectivamente, 1,4; 1,0; e 2,2 vezes mais chances de caírem. Na idade avançada há incidência elevada de doenças como catarata, glaucoma e retinopatia, que podem comprometer a capacidade de julgar uma queda iminente e proceder à ação corretiva. A acuidade visual pode diminuir em 80% aos 90 anos de idade e afeta a capacidade de perceber o Página 88 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 contraste dos objetos e detalhes espaciais (sensibilidade de contraste) (FARINATTI; GUIMARÃES, 2005). Indivíduos com diabetes geralmente possuem alterações neurológicas afetando o sistema nervoso periférico, alterando o tempo de reação do indivíduo, a capacidade de detectar e reagir ao movimento, interferindo na realização adequada de detectar e prevenir os deslizamentos e quedas do idoso (RICHERSON et al., 2005). O uso de medicamentos é um fator intrínseco de forte relação com as quedas. Em função da diversidade de doenças apresentadas pelos idosos, é comum encontrarmos a polifarmácia entre os residentes, o que é preocupante, uma vez que os efeitos da interação medicamentosa são mais acentuados nos idosos devido às alterações na absorção, metabolismo e eliminação das drogas que decorrem do envelhecimento (SECOLI, 2010). Com relação ao uso de medicações contínuas os pacientes que caíram faziam uso em média de 3 medicações, sendo que 66% usavam antihipertensivos, 50% estatinas, 50% analgésicos, 33,3% diuréticos e 16,6% benzodiazepínicos. Quanto aos medicamentos cardiovasculares, as diferenças observadas na prevalência de quedas em relação aos pacientes que não sofreram quedas não foram significativas. No entanto, essa possibilidade não deveria ser descartada, em virtude de efeitos colaterais como bradicardia, hipotensão, sonolência e fadiga. O grupo dos diuréticos pode facilitar quedas devido à fadiga, ou distúrbio hidroeletrolítico. Moura et al. (1999 apud GUIMARÃES; FARINATTI, 2005) associam os diuréticos às quedas pela depleção de volume e hipocalemia, que podem causar hipotensão ortostática e arritmias. Este estudo parece confirmar essa possibilidade. Por outro lado, Coutinho e Silva (2002) registraram uma redução do risco de quedas seguidas de fraturas entre os idosos que faziam o uso de diuréticos. Para estes, o possível efeito protetor dos diuréticos seria atribuído a uma redução na excreção urinária de cálcio, com consequente aumento da densidade óssea. Já os psicoativos são apontados como causadores de quedas em virtude de hipotensão postural, podendo também causar sedação, arritmias, tremores, relaxamento muscular ou fraqueza. Diversas investigações associaram sua utilização às quedas. Um estudo pioneiro de Prudham e Evans (1981 apud GUIMARÃES; FARINATTI, 2005) comparou grupos de indivíduos com e sem registro de quedas e identificou uma relação entre estas e o uso de drogas que atuam sobre o SNC (benzodiazepínicos e antipsicóticos), agrupadas sob a denominação de tranquilizantes dada a sua capacidade de produzir sedação. Outra característica presente entre os idosos que apresentaram quedas é em relação às AVD’S, onde 22,2% apresentavam algum grau de dependência, de forma que 16,7% apresentavam dependência total e 5,5% dependência parcial. Gráfico 3: Caracterização do ambiente domiciliar, em idosos que sofreram quedas, assistidos por uma equipe de saúde da família. Teresina, 2013 Fonte: NETO (2013). No tocante à situação da marcha evidenciou-se que 66,6% da população de idosos que caiu não necessitava de ajuda e 33,4% necessitavam de auxílio humano ou dispositivo auxiliar, sendo Página 89 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 16,7% necessitavam de ajuda frequente e 16,7% de ajuda ocasional. Esses valores assemelhamse ao estudo realizado por Cruz, D. et al. (2011). onde 11% da população que caiu necessitava de ajuda ocasional para marcha. Estudos mostram relação entre a utilização do dispositivo para auxílio da marcha e a presença de queda. De acordo com Menezes e Bachion (2008), a necessidade de ajuda para locomoção, seja por outra pessoa, seja por dispositivo auxiliar, pode estar associada a maior comprometimento do padrão de marcha e dos mecanismos de controle postural, podendo ser considerado um indicador da fragilidade do idoso. Em relação ao local de ocorrência, 100% ocorreram em ambiente domiciliar não adaptado à idosos, sendo 100% dos casos, associados a 50% de áreas desimpedidas (ausência de cadeiras, bancadas e/ou outros móveis que dificultem o livre trânsito), 33,3% casas com pisos antiderrapante, 0% com presença de barras de apoio, 33,3% com presença de tapetes, 83,3% com presença de degraus, 0% com presença de escadas e 66,6% cômodos claros. Em contrapartida, nos pacientes que não sofreram quedas os números demonstram que 53,8% eram áreas desimpedidas, 46,1% casas com piso antiderrapante, 0% com barras de apoio, 11,5% com presença de tapetes, 81,1% com presença de degraus, 0% com presença de escadas e 69,2% cômodos claros. A partir desses números pode-se incorrer que o ambiente domiciliar tem grande influência na ocorrência de quedas, sendo considerado assim fator extrínseco para a ocorrência de quedas. Lopes et al. (2007) realizaram um estudo descritivo exploratório com 20 idosos não institucionalizados do município de Ângulo - Paraná, e verificaram que 55% já haviam sofrido algum tipo de queda nos últimos tempos. Os autores verificaram que a maior parte das quedas na comunidade ocorre no ambiente doméstico, devido a fatores extrínsecos, especialmente tapetes, chão molhado, degraus e obstáculos no quintal. Além dos fatores citados pelas autores acima, tem- se ainda o fato de que cômodos com menos claridade dificultam mais ainda a visão e o equilíbrio deficiente dos idosos. CONCLUSÃO O presente estudo demonstrou que o perfil da população idosa assistida por uma equipe de saúde da família é composto por idosos do gênero feminino, idade média 69 anos, casados, ex tabagistas, não etilistas, residentes com familiares, com auto percepção da saúde regular. Identificou-se ainda que tratavam-se de idosos portadores de comorbidades sendo as mais frequentes hipertensão arterial, dificuldades visuais, distúrbios do sono e artropatias e que em sua maioria faziam uso de três ou mais medicações. Por fim, pode- se perceber que estes eram independentes em relação às suas AVD’S. Em relação aos fatores de risco para quedas, os mais frequentemente encontrados foram gênero feminino, auto percepção de saúde regular, dificuldade visual, doenças crônicas associadas, número de medicações utilizadas e ambiente domiciliar inadequado. Desse modo, pode-se concluir que o perfil de pacientes de risco para ocorrência de quedas são mulheres, viúvas, residentes com familiares, não etilistas, com prática irregular de atividade física e percepção regular de sua saúde. Os agravos crônicos presentes entre idosos que sofreram quedas foram dificuldade visual, hipertensão arterial, artropatias e distúrbios do sono, e os idosos apresentavam mais de uma doença associada. Estes utilizam em média três medicações diárias e residem em moradias não adaptadas à idosos. Dessa maneira, é fundamental que a equipe de saúde da família implemente mais ações para a redução de quedas através da informação, educação continuada, palestras, visitas domiciliares e maior controle das comorbidades e assim proporcionando o bem-estar físico, psíquico e social do idoso, almejando alcançar a melhoria da qualidade de vida sem restrições das atividades de vida diária, garantindo sua independência e autonomia. Página 90 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Normas e manuais técnicos cadernos de atenção básica.Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. 1 ed. n. 19. Brasília. Editora do Ministério da Saúde, 2007. Disponível em: < http://bvsms.saude. gov.br/bvs/publicacoes/abcad19.pdf>. Acesso em: 27 de mai. de 2013. CARVALHO, M. P.; LUCKOW, E. L. T.; SIQUEIRA, F. V. 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Dos 15.671 laudos considerados satisfatórios para análise, 15.237 (97,2%) foram classificados como negativos e 434 (2,8%) positivos. Estes ficaram distribuídos assim: 29 /1,86% com células atípicas de significado indeterminado: escamosas - possivelmente não neoplásicas (CASIE-NN), 25/0,16% com células atípicas de significado indeterminado: escamosas - não se pode afastar lesão intraepitelial de alto grau (CASIE-AG), 29/0,19% com células atípicas de significado indeterminado: glandulares - possivelmente não neoplásica (CASIG-NN), 5/0,03% com células atípicas de significado indeterminado: glandulares - não se pode afastar lesão intraepitelial de alto grau(CASIG-AG), 40/0,26% com lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LIEBG), 34/0,22% com lesão intraepitelial escamosa de alto grau (LIEAG) e 10/0,06% com lesão intraepitelial escamosa de alto grau, não podendo excluir microinvasão (LIEAG-MI). Os resultados permitiram concluir que a incidência de atipias celulares foi de 2,77% e mostraram que células atípicas de significado indeterminado: escamosas, possivelmente não neoplásica (CASIE-NN) foi a alteração citopatologica mais frequente. É inquestionável a necessidade de mais estudos a respeito do assunto. Palavras-chaves: Prevalência. Lesões pré-cancerosas Câncer do colo do útero ABSTRACT This studying aimed to analyze the data relating to the results of cytopathology exams of the patient’s cervix in the public laboratory reference in Teresina-PI, to identify the percentage of cervical intraepithelial lesions and correlates them with the age range of the women attended in this service. The data were obtained by consulting the data base of the Information System Cancer Cervical Health System of Piauí.15.671 reports satisfactory to research, 15.237 (97.2%) were classified as negative and 434 (2.8%) positive. These were distributed as follows: 291/ 1.86% with atypical squamous cells of undetermined significance, possibly not neoplasic (ASC-US), 25 / 0.16% with atypical squamous cells, cannot exclude high grade lesion (ASC-H), 29 / 0.19% with atypical glandular cells of undetermined significance, possibly not neoplasic (AG-US), 5/ 0.03% with atypical glandular cells, cannot exclude high grade lesion, 40 / 0.26% with low grade squamous intraepithelial lesion (LSIL), 34 / 0.22% with high grade squamous intraepithelial lesion (HSIL), 10 / 0.06% with high grade squamous lesion, cannot exclude microinvasion. The results showed that 1 2 Graduando em Medicina-FACID, Teresina-PI, [email protected] Graduada Medicina - UFPB, Teresina -PI, Especialista em Ginecologia e Obstetricia - UFPB, Joao Pessoa - PB, [email protected] Página 93 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 the incidence of atypical cells was 2.77% and showed that the atypical squamous cells of undetermined significance, possibly not neoplasic (ASC-US) was the most frequent cytological changes. It is an unquestionable need for more research regarding that subject. Keywords: Prevalence. Precancerous lesions. Cancer of the cervix INTRODUÇÃO Conforme estimativas do Instituto Nacional de Câncer, para o Brasil, no ano de 2012, esperavam-se 17.540 casos novos de câncer do colo do útero, com um risco estimado de 17 casos a cada 100 mil mulheres. O câncer do colo do útero ocupa a segunda posição mais frequente na região Nordeste (18/100 mil). No Piauí, as estimativas para o ano de 2012 eram de 370 casos novos e em Teresina de 100 casos novos (BRASIL, 2011a). A fase inicial da evolução do câncer do colo do útero é uma fase sem sintomas. É nessa fase que a detecção de lesões precursoras pode ser realizada através do exame citológico, o Papanicolaou. Quando essas lesões são detectadas precocemente as chances de evolução para um câncer são quase zero. De acordo com Irion e Buffon (2009), o teste de papanicolaou é um método desenvolvido para identificação de células esfoliadas do colo do útero, atípicas, malignas ou prémalignas. O conceito de lesões precursoras do câncer cervicouterino tem evoluído desde o século XIX. Neste período, os diagnósticos sombrios eram prevalentes, tanto pela precariedade de conhecimento anatômico-fisiológico, como pela dificuldade sociocultural de exposição da mulher. Importante ressaltar que a evolução do câncer do colo do útero incluiu várias fases que foram descritas por diversos estudiosos, desde a clássica categorização das alterações cervicais definidas por George Papanicolaou até a atual Nomenclatura Brasileira (CARVALHO ; QUEIROZ, 2010). O exame citológico é uma das principais ferramentas utilizada pelo Ministério da Saúde (MS) do Brasil para diagnóstico e detecção precoce do câncer de colo uterino. O exame é rápido, simples e indolor, no máximo provoca um leve desconforto e deve ser realizado em mulheres de 25 a 59 anos de idade, uma vez por ano. Pode ser feito em postos de saúde ou unidades de saúde pública com profissionais capacitados e é relativamente barato quando se leva em consideração a relação custo/benefício. Portanto, é importante que ocorra uma sensibilização da população feminina, para que estas passem a procurar mais os postos de saúde para a realização do exame preventivo. Isso permite a detecção precoce de lesões pré-cancerosas e previne a incidência de novos casos de câncer de colo uterino. Além disso, com a importância do tema e a escassez de pesquisas nessa área com a população desta região, este trabalho serve de subsídio para eventuais ações na área educacional, social e sanitária do Estado. A partir da observação da crescente demanda na realização de exames citológicos pelo Sistema Único de Saúde em um laboratório público de referência do Estado do Piauí, o Laboratório Central do Piauí (LACEN-PI), essa pesquisa procurou partir do seguinte questionamento: qual a lesão intraepitelial cervical mais prevalente nas pacientes atendidas neste laboratório? E elaborou a seguinte hipótese: Atipias escamosas de significado não determinado é a lesão intraepitelial cervical mais frequente nessas pacientes. Diante da relevância dessas informações, este estudo teve como objetivo principal analisar os dados referentes aos resultados dos exames citopatológicos de colo uterino realizados em 2011 em um laboratório público de referência no Piauí. Especificamente objetivou-se identificar a prevalência das lesões intraepiteliais cervicais e relacioná-las com a faixa etária das mulheres atendidas nesse serviço. Página 94 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 2 METODOLOGIA A pesquisa foi realizada respeitando os princípios éticos estabelecidos pela resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, incluindo à análise pelo Comitê de Ética em Pesquisa CEP/FACID registrado junto ao SISNEP e à Plataforma Brasil. O estudo em questão analisou os resultados de 15.734 laudos citopatologicos, de pacientes que buscaram atendimento preventivo para câncer do colo do útero em um laboratório público de referência do estado do Piauí, no período de janeiro de 2011 a dezembro de 2011. O LACEN-PI é responsável pela realização dos exames de citologia oncótica do colo de útero do Programa Nacional do Câncer do Colo do Útero, coordenado pelo INCA/MS. A partir disso e da analise dos dados, foi possível traçar um perfil demonstrando as principais lesões intraepiteliais cervicais entre as pacientes. Foi realizado um estudo do tipo retrospectivo, transversal e descritivo, através da análise de dados secundários registrados no setor de Citopatologia de um Laboratório público de referência no Piauí. Os dados foram obtidos através de consulta no banco de dados do Sistema de Informações do Câncer do Colo do Útero – SISCOLO (Ministério da Saúde). Os resultados dos exames citológicos foram classificados de acordo com a Nomenclatura Brasileira para Laudos Cervicais e Condutas Preconizadas: Recomendações para Profissionais de Saúde (NBLC). Teve como critério de inclusão, laudos de amostras consideradas satisfatórias oriundos de pacientes residentes no estado do Piauí; e de exclusão, os de amostras insatisfatórias de pacientes residentes no Piauí e laudos de pacientes residentes em outros estados. Os resultados obtidos foram organizados em gráficos e tabelas. As variáveis categóricas foram expressas por “n” e porcentagem. Foi realizada a analise comparativa de Pearson. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO No período de janeiro de 2011 a dezembro de 2011, o laboratório da pesquisa em questão recebeu material cervicovaginal de 15.734 pacientes, para realização dos preventivos ginecológicos, material esse oriundo de municípios do estado do Piauí. Dos laudos analisados, conforme tabela 1, pode-se observar o percentual de laudos considerados insatisfatórios, para avaliação citológica. Isso, devido presença excessiva de hemácias e ou polimorfonucleares, dessecamento ou áreas espessas do material e presença de artefatos, causas estas que interferem na adequabilidade da amostra citológica. Observam- se, também, a partir da amostra elegível do estudo (considerados satisfatórios) os laudos considerados negativos (“dentro dos limites de normalidade”) e os classificados como positivos, isto é, com alterações citológicas. Segundo BRASIL (2012), dos 223 municípios do Piauí, apenas 2 apresentam percentual de amostras insatisfatórias acima do limite tolerável de 5% determinado pela OrganizaçãoPanAmericana de Saúde (OPAS). E como se pode observar, o percentual encontrado na analise em questão encontra-se abaixo dos encontrados na maioria dos estados brasileiros e do limite tolerável determinado na literatura. Portanto, é de extrema importância manter a qualidade da coleta. Tabela 1 - Distribuição dos esfregaços citopatológicos de acordo com a adequabilidade da amostra e presença ou não de lesões intraepiteliais cervicais em um laboratório público de referência no Piauí no período de janeiro a dezembro/2011. Adequabilidad e da amostra Frequência N % INSATISFATÓRIA SATISFATÓRIA NEGATIVO POSITIVO 63 0,4 15237 99,60 TOTAL 434 100 15734 Página 95 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 A positividade encontrada nesta pesquisa está de acordo com o esperado pelo Programa Nacional de Combate ao Câncer do Colo do Útero do Ministério da Saúde, para quem, este percentual é em torno de 4%. Outras publicações têm registrado prevalências como, 4% (SOUSA et al., 2011); 3,53% (SILVEIRA; CRUZ; FARIA, 2008) e 1,14% (UCHIMURA et al. , 2009). Já para o Sistema Bethesda, o número total de casos com alterações citológicas deve corresponder de 4 a 6% do total de casos avaliados (SOLOMON ; NAYAR, 2005). Para uma melhor compreensão das tabelas e texto, optou-se por utilizar siglas para representar a classificação das lesões pré-cancerosas, conforme NBLC são estas: CASIE-NN(células atípicas de significado indeterminado: escamosas - possivelmente não neoplásicas);CASIE-AG (células atípicas de significado indeterminado: escamosas - não se pode afastar lesão intraepitelial de alto grau); CASIG-NN (células atípicas de significado indeterminado: glandulares - possivelmente não neoplásicas); CASIG-AG (células atípicas de significado indeterminado: escamosas - não se pode afastar lesão intraepitelial de alto grau); LIEBG (lesão intraepitelial escamosa de baixo grau compreendendo efeito citopático pelo HPV e neoplasia intra-epitelialcervical grau I); LIEAG (lesão intraepitelial escamosa de alto grau - neoplasias intra-epiteliaiscervical grau II e III); LIEAGMI (lesão intraepitelial escamosa de alto grau, não podendo excluir microinvasão) Na Tabela 2 observa-se a distribuição dos laudos considerados positivos, ou seja, com alterações citológicas. Os resultados obtidos foram semelhantes aos observados no estudo de Sousa et al. (2011), que foram CASIE-NN- 1,13%; CASIE-AG- 0,20%;CASIG-NN - 0,09%;CASIG-AG0,04%; LIEBG - 1,60%; LIEAG - 0,86% e LIEAG-MI - 0,04%. Porém, observa-seuma discordância com relação as LIEBG, onde o percentual encontrado neste trabalho foi significativamente mais baixo. Tabela 2 - Distribuição dos resultados dos laudos citológicos de um laboratório público de referência no Piauí no período de janeiro a dezembro/2011 Diagnóstico citológico n % NEGATIVOS 15.237 97,23 CASIE-NN 291 1,86 CASIE-AG 25 0,16 CASIG-NN 29 0,19 CASIG-AG 5 0,03 LIEBG 40 0,26 LIEAG 34 0,22 LIEAG-MI 10 0,06 TOTAL 15.671 100 CASIE-NN (células atípicas de significado indeterminado: escamosas - possivelmente não neoplásicas); CASIE- AG (células atípicas de significado indeterminado: escamosas - não se pode afastar lesão intraepitelial de alto grau); CASIG-NN (células atípicas de significado indeterminado: glandulares - possivelmente não neoplásicas);CASIG-AG (células atípicas de significado indeterminado: glandulares - não se pode afastar lesão intraepitelial de alto grau); LIEBG (lesão intraepitelial escamosa de baixo grau - compreendendo efeito citopático pelo HPV e neoplasia intra-epitelial cervical grau I); LIEAG (lesão intraepitelial escamosa de alto grau - neoplasias intra- epiteliais cervical grau II e III); LIEAG-MI (lesão intraepitelial escamosa de alto grau, não podendo excluir microinvasão) Analisando a prevalência das lesões pré-cancerosas, separadamente, verificou-se que o percentual de CASIE-NN, motivo de muitas divergências a respeito do abuso deste diagnóstico,encontra-se semelhante ao percentual encontrado por Silveira, Cruz e Faria (2008), que foi de 1,60%, em dois hospitais da rede pública de São Luís – MA, mas alto se comparado ao estudo de Bueno (2009), onde o percentual foi de 0,32%. Consta na literatura, que em populações de baixo risco, como é o caso deste trabalho, o percentual de CASIE-NN não deve representar mais que 5% de todas as amostras citológicas encaminhadas a um serviço de citopatologia (MORAES et al., 2011). Portanto, a frequência deCASIE-NN observada neste trabalho, está dentro do limite esperado. Com relação à categoria CASIE-AG, segundo as alterações feitas na última revisão do Página 96 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 sistema de Bethesda em 2001, esta categoria representa 5-10% dos diagnósticos de células escamosas atípicas, mas com maior probabilidade da presença de lesões pre- invasivas. O percentual encontrado por este trabalho (tabela 2) pertinente a esta categoria apresentou-se dentro da faixa esperada em relação ao numero de CEASIs, estando condizente com a literatura consultada. Para Marques et al. (2011), as categorias de atipias glandulares (CASIG-NN eCASIGAG) em esfregaços cervicovaginais é um achado citológico na rotina de rastreamento do câncer cervical, que tem aumentado nas últimas décadas. Na literatura, o relato de incidência varia de 0,1% a 2,1%. A constatação dessas atipias é importante clinicamente, pois a percentagem de casos associados com doença cervical e endometrial de alto grau e câncer são maiores que paraCASIGNN. De fato, 9% a 38% das mulheres com atipias glandulares apresentam lesões significativas e de 3% a 17% têm carcinomas invasivos. O diagnóstico de atipias glandulares é um diagnóstico de exclusão, feito quando não é possível definir o caráter da lesão, não tendo como ser eliminado nos laudos citológicos. A incidência encontrada que denotou CASIG-NN/CASIG-AG (tabela 2)apresentou-se de acordo com a literatura. Importante ressaltar, que a incidência de atipias escamosas cervicais em citologia é significativamente maior em relação às atipias glandulares, sendo a primeira cerca de 10 vezes mais frequente que a segunda. Dessa maneira, não é de se surpreender que menor número de informações em relação a essas últimas alterações citológicas estejam disponíveis na literatura. As anormalidades não invasivas, cervicais, escamosas associadas ao papilomavírus humano (HPV) correspondem às lesões intraepiteliais escamosas, que variam desde alterações celulares associadas a uma infecção transitória do HPV até alterações celulares anormais que representam precursores de alto grau para um câncer escamoso invasivo. Estas anormalidadesdividem-se em lesões de baixo grau (LIEBG) e de alto grau (LIEAG) (SOLOMON ; NAYAR, 2005). Na grande maioria dos casos, a LIEBG regride espontaneamente, daí o questionamento de alguns autores se essa seria realmente uma lesão precursora do câncer do colo do útero, pois apenas 11% destas lesões parecem progredir para LIEAG, que seria a verdadeira lesão precursora. A prevalência de LIEBG identificada na população atendida pelo laboratório em questão (tabela 2) está abaixo dos relatos na literatura brasileira, que variam de 0,42% a 2,0% (SILVEIRA; CRUZ ; FARIA, 2008 BUFFON et al., 2006). As lesões escamosas intraepiteliais de alto grau abrangem displasia moderada, grave e carcinoma in situ ou NIC (neoplasia intraepitelial cervical) 2, 3 (SOLOMON e NAYAR, 2005). Por isso, e por possuírem maior probabilidade de evolução para um câncer, essas lesões merecem um cuidado maior dos profissionais. A prevalência de lesões de alto grau deve ser observada com relação às amostras satisfatórias e as positivas. Portanto, segundo a tabela 2 e tabela 3, os valores encontrados neste trabalho corroboram com a literatura, já que conforme Brasil (2011b) a prevalência desse diagnóstico citopatológico no Brasil, em 2010, foi de 0,25% de todos os exames realizados e 9,7% de todos os exames classificados como positivos. Tabela 3 - Distribuição de laudos citológicos com presença de lesões pré-cancerosas do colo do útero em um laboratório público de referência no Piauí no período de janeiro a dezembro/2011 Alterações CASIECASIECASIGCASIGLIEAGLIEBG LIEAG TOTAL Frequência NN AG NN AG MI n 291 25 29 5 40 34 10 434 % 67,1 5,8 6,7 1,1 9,2 7,8 2,3 100 CASIE-NN (células atípicas de significado indeterminado: escamosas - possivelmente não neoplásicas); CASIE- AG (células atípicas de significado indeterminado: escamosas - não afastando lesão de alto grau); CASIG-NN(células atípicas de significado indeterminado: glandulares - possivelmente não neoplásicas); CASIG-AG (células atípicas de significado indeterminado: escamosas - não afastando lesão de alto grau); LIEBG (lesão intraepitelial escamosa de baixo grau compreendendo efeito citopático pelo HPV e neoplasia intra-epitelial cervical grau I); LIEAG (lesão intraepitelial escamosa de alto grau - neoplasias intra-epiteliais cervical grau II e III); LIEAG-MI(lesão intraepitelial escamosa de alto grau, não podendo excluir microinvasão) Página 97 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Consideradas potencialmente malignas, as lesões neoplásicas LIEAG, LIEAG-MI são raras e confirmam-se eventualmente como câncer invasivo. A proporção encontrada dessas lesões nos exames realizados pelo laboratório desta pesquisa, mostra-se quase três vezes menor que a frequência de 0,89% (26/12.014) encontrada por Sousa et al. (2011) em LACEN do Estado do Paraná. Segundo BRASIL (2011b), o diagnóstico citopatológico de lesão de alto grau não podendo excluir microinvasão é infrequente. Foi registrada no Brasil, em 2010, uma incidência em 0,025% dos exames citopatológico considerados satisfatórios e em 0,95% dos exames alterados. Sendo assim, a incidência encontrada nesta pesquisa, estão acima dos resultados esperados. Entre as pacientes que apresentaram alterações precursoras do câncer de colo do útero, analisando , verifica-se as faixas etárias que apresentaram os maiores percentuais de lesões precursoras. Motivo pelo qual o programa de rastreamento do câncer de colo do útero prioriza a faixa etária entre 25 a 64 anos, como população alvo, pois é nesta que ocorre maior incidência de lesões passíveis de serem tratadas efetivamente para não evoluírem para o câncer (BRASIL, 2011c). Tabela 4 – Frequência de pacientes com presença de lesões pré-cancerosas do colo do útero por faixa etária em um laboratório público de referência no Piauí no período de janeiro a dezembro/2011 Faixa etária Frequência n % ≤ 20 21 - 30 31 - 40 41 - 50 51 - 60 61 - 70 > 70 TOTAL 12 2,8 70 16,1 77 17,7 83 19,1 106 24,4 59 13,6 27 6,2 434 100 No gráfico 1 observa-se a correlação do percentual de lesões precursoras do câncer de colo uterino por faixa etária das pacientes atendidas. Gráfico 1 - Laudos citológicos com presença de lesões pré-cancerosas do colo do útero por faixa etária em um laboratório público de referência no Piauí no período de janeiro a dezembro/2011 Fonte: banco de dados do sistema de informações do câncer do colo do utero – SISCOLO (Ministério da Saúde) do setor de citopatologia do laboratório central de saúde pública do Piauí “Dr. Costa Alvarenga” - LACEN-PI Moraes et al. (2011) relatam que a informação da idade da paciente proporciona certa tranquilidade na análise da lâmina com suspeita de CASIE-NN. Informações clínicas são de extrema relevância e sevem como um alerta visando maior atenção dos detalhes da lâmina, colaborando na conclusão da interpretação. Na literatura, o que se verifica é que a maioria dos Página 98 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 autores relata encontro decrescente de diagnósticos CASIE-NN ao longo de faixas etárias crescentes. Poucos autores mostram incremento na taxa de CASIE-NN com o aumento da idade. A partir do exposto e observando o gráfico 4 conclui-se que a distribuição das CASIE- NN por faixa etária das pacientes, onde a maioria dos casos foi identificado dentre a faixa etária de 51 a 60 anos, contradiz a maioria dos autores. Em um estudo de corte transversal, realizado por Fernandes et al. (2012), analisou-se a frequência de mulheres com laudos citopatológicos de células atípicas escamosas de significado indeterminado em arquivos de banco de dados do sitec/inca no período compreendido entre janeiro de 2007 e dezembro de 2010. Neste estudo encontrou-se o maior número de casos de CASIEAGdentro da faixa etária de 25 a 59 anos. Tratando-se das atipias glandulares, na população geral, o encontro dessas à citologia é pouco frequente. Mesmo a incidência dessa anormalidade citológica podendo variar de um serviço para outro, seus valores oscilam, podendo ser maior em séries com pacientes mais velhas (CAMPENER et al., 2007). A distribuição observada em nosso trabalho com relação às CASIG-NN corrobora com a literatura anteriormente citada, pois se apresentou com baixa frequência e o maior número de casos em pacientes mais velhas. No entanto, as CASIG-AG foram observadas em pacientes mais jovens, fato preocupante, devendo esse diagnóstico citológico ser descrito cuidadosamente, principalmente em pacientes com menos de 30 anos, com o intuito de se evitar excessos de diagnósticos e tratamentos (SCHEIDEN, et al., 2004). Nosso estudo também demonstra a faixa etária que apresentou o maior número de LIEBG, o que encontra-se condizente com a literatura consultada, onde esta é a faixa etária com maior número de infecção primária pelo HPV e a incidência das lesões intraepiteliais escamosas de baixo grau é alta na mulher jovem e diminui progressivamente à medida que a idade aumenta (CARVALHO ; QUEIROZ, 2011). A maior prevalência de LIEAG em determinada faixa etária pode ser observada no gráfico 1 e pode-se concluir que os resultados encontrados estão semelhantes a alguns estudos da literatura, como exemplo o de Heck et al. (2010). Já o estudo de Costa e Barros (2011) constatou que o aumento do risco de desenvolvimento de lesões de intraepiteliais de alto grau do colo uterino é diretamente proporcional ao aumento da idade. Sobre as LIEAG-MI, Sousa et al. (2011) constataram que dos resultados sugestivos de lesões malignas invasivas, a maioria destas ocorreu em mulheres com idade igual ou superior a 40 anos, com a maior frequência sendo observada na faixa etária de 60 anos ou mais. Observando o gráfico 1, percebe-se resultados discrepantes, em parte, com relação à literatura. Os dados até aqui coletados foram submetidos à uma analise de correlação denominada “r de Pearson”, com o objetivo de relacionar as lesões intraepiteliais cervicais identificadas com a faixa etária das mulheres atendidas. A direção do relacionamento entre duas variáveis pode ser positiva, se valores altos em uma variável se associarem à valores altos na outra variável (o mesmo se aplica para valores baixos), negativa, se os valores altos em uma variável estiverem associados à valores baixos na outra variável e zero se não existir relacionamento linear entre as variáveis. A força de um relacionamento linear é determinada por um dado estatístico chamado coeficiente de correlação que varia de -1 a +1, onde -1 traduz um relacionamento negativo perfeito, 0 traduz que não há relação linear e +1 traduz um relacionamento positivo perfeito (DANCEY; REIDY, 2006). Pode-se perceber, , que a correlação entre as lesãopré-cancerosas do colo do útero e a faixa etária das pacientes de um laboratório público de referência em questão é próxima de zero com uma leve tendência negativa. Isso nos leva a concluir que estas duas variáveis se correlacionam de forma negativa, porém, de uma forma muito fraca, ou seja, de uma forma geral, as lesões tendem a diminuir com o avançar da idade. É importante lembrar que esta análise nos fornece informações diretas sem a interferência de qualquer outro fator, como por exemplo, o aspecto epidemiológico de cada alteração citológica, fator esse importantíssimo para a análise segmentar dos dados coletados. Página 99 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 CONCLUSÃO Os resultados permitiram concluir que a incidência de atipias celulares, ao exame citopatologico do colo uterino, das pacientes atendidas no LACEN-PI, no período de Janeiro/2011 a Dezembro/2011 foi de 2,77%, assim distribuídas: 1,86% com CASIE-NN; 0,16% comCASIEAG; 0,19% com CASIG-NN; 0,03% com CASIG-AG; 0,26% com LIEBG; 0,22% com LIEAG e 0,06% com LIEAG-MI. Mostraram também, que a CAESI-N foi a alteração citopatologica mais frequente, independente da faixa etária analisada, perfazendo 1,86% de todos os laudos considerados satisfatórios e 67,1% das atipias encontradas. Através da análise comparativa de Pearson não foi possível afirmar que existe uma relação linear forte entre lesões epiteliais cervicais e faixa etária das pacientes, pois tais índices começam a declinar a partir de determinado intervalo de idade. Tal resultado se deve, provavelmente, às pacientes dessa faixa etárias estarem fora do público alvo preconizado pelo Ministério da Saúde, realizando poucos exames preventivos. Entretanto, em uma analise segmentar dos dados, pode perceber que a maioria das lesões aumenta, quase que uniformemente, ate as faixas entre 41 - 50 / 51 - 60 anos, visto este ser quase o limite etário superior do publico alvo e, portanto com maior numero de diagnósticos, porém um pouco mais tardios. O câncer de colo de útero já responde por um grande percentual dos cânceres que atinge a população feminina no Brasil, configurando-se um problema de saúde pública. Para equacionar esse problema o país deve lançar mão de estratégias para o controle dessa enfermidade, sendo o acesso das mulheres ao exame citopatológico do colo uterino, a principal. Pode-se, observar no decorrer dessa pesquisa, que a cobertura para a prevenção do câncer do colo do útero ainda está abaixo da meta determinada pelo Ministério da Saúde. Tal objetivo só será alcançado se políticas públicas forem implementadas eficientemente e se a população feminina for conscientizada da importância do exame preventivo. Apesar do tema abordado já ter descrito em inúmeras fontes literárias e já discutidos em diversos encontros científicos, é inquestionável a necessidade de mais estudos a respeito do referido assunto na tentativa de uniformizar interpretações citológicas e fornecer subsídios para a implementação de medidas educacionais, sociais e preventivas no nosso país. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de câncer. Estimativa 2012: incidência de câncer no Brasil – Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde, 2011a. Disponível em:<http://www.inca.gov.br/estimativa/2012/estimativa20122111.pdf>. Acesso em: 15 Mar. 2012. _____________________. Instituto Nacional de câncer. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. – Rio de Janeiro. Brasília: Ministério da Saúde, 2011b. 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Acesso em: 26 Abr. 201 Página 102 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO E DIREITOS FUNDAMENTAIS BREACH OF BANKING SECRECY AND FUNDAMENTAL RIGHTS Herberth dos Santos Silva1 Willame Parente Mazza2 RESUMO Através deste trabalho realizou-se uma abordagem do sigilo bancário numa perspectiva tributárioconstitucional, analisando a possibilidade atribuída ao Fisco de quebrar o sigilo financeiro dos contribuintes sem que para tanto haja autorização judicial, conforme se verifica no artigo 6º da Lei Complementar nº 105/2001. Nesse estudo, fez-se uma análise histórica e conceitual do sigilo bancário, da intimidade e da vida privada, bem como do posicionamento da jurisprudência e doutrinário acerca da vigente legislação. O problema dessa pesquisa consubstancia-se em descobrir se a Lei Complementar 105/2001 é constitucional ou não. Os objetivos são verificar a constitucionalidade da quebra de sigilo sem autorização judicial, descobrir o fundamento jurídico do sigilo, verificar como a doutrina tem enfrentado esse tema e descobrir a importância para o fisco da obtenção dos dados dos contribuintes. Realizou-se uma revisão bibliográfica, onde foram analisados vários livros, revistas e artigos que já abordaram o tema, além disso, cuidou-se de fazer uma pesquisa de cunho qualitativo tendo vista que possibilitou uma maior aproximação com a realidade, permitindo a construção de um saber compreensivo e interpretativo. E, finalmente, concluiu-se que a quebra de sigilo bancário nos termos da Lei Complementar nº 105/2001 é perfeitamente compatível com o Texto Constitucional, em contrariedade à última decisão proferida pela Corte Constitucional sobre o tema. Palavras-Chave: Sigilo Bancário. Privacidade. Fisco. Poder Judiciário. Constitucionalidade. ABSTRACT Through this work was carried out one approach to banking secrecy perspective tax-constitutional, examining the possibility given to the Treasury to break the secrecy financial taxpayers without providing much there is judicial authorization, as per Article 6 of the Supplementary Law No. 105 / 2001. In this study, it was a historical and conceptual analysis of banking secrecy, intimacy and privacy as well as the positioning of the jurisprudence and doctrine about the current legislation. The problem of this research is embodied in whether the Complementary Law 105/2001 is constitutional or not. The goals are to determine the constitutionality of the breach of secrecy, without judicial authorization, to discover the legal basis of confidentiality, see how the doctrine has faced this issue and discover the importance of the treasury to collect data from taxpayers. We conducted a literature review, which analyzed several books, magazines and articles that have addressed the issue, moreover, tended to make a qualitative research with a view that enabled a closer approximation to reality, allowing the construction of a knowledge and interpretive understanding. And finally, it was concluded that the financial disclosure under the Supplementary 1 Advogado graduado pela FACID-DeVry, email: [email protected] Doutorando em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS – RS), Mestre em Direito com ênfase em Tributário pela Universidade Católica de Brasília (UCB), Especialização em Direito tributário e Fiscal, Especialização em Direito Público e Especialização em Controle na Administração Pública. Auditor Fiscal da Fazenda Estadual do Estado do Piauí, Professor no curso de Direito da Universidade Estadual do Piauí e FACID. Email: [email protected]. 2 Página 103 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Law No. 105/2001 is perfectly compatible with the constitutional text, in contradiction to the last decision of the Constitutional Court on the subject. Keywords: Banking Secrecy. Privacy. Fisco. Judiciary. Constitutionality. INTRODUÇÃO A Lei Complementar 105/2001, em seu artigo 6º, permitiu a quebra do Sigilo Bancário pelo Fisco sem autorização do Poder Judiciário, fazendo com que surgisse o debate sobre possível violação à intimidade e à vida privada do contribuinte, insculpidos na Constituição Federal no artigo 5º, X. O problema central dessa pesquisa é saber se a forma como é feita a quebra de sigilo bancário, repassando as informações ao Fisco, sem autorização judicial, fere os sobreditos direitos. Os objetivos se consubstanciam em saber se há necessidade de autorização judicial para a quebra de sigilo bancário, descobrir o fundamento jurídico desse instituto; verificar como a doutrina e a jurisprudência abordam a matéria em questão e entender a importância da referida quebra para o Estado, com a consequente obtenção de informações dos contribuintes. O trabalho justifica-se pelo interesse decorrente das enormes discussões sobre a polêmica a respeito da nova regulamentação trazida ao instituto jurídico, com o advento da Lei Complementar 105/2001, pois embora já decorra mais de dez anos da publicação dessa lei, somente no final de 2010 é que o STF se manifestou sobre o tema, não estando pacificado o problema de sua constitucionalidade. 2 INTIMIDADE E VIDA PRIVADA: HISTÓRICO, CONCEITO E DISTINÇÕES O anseio pelo respeito à vida privada e à intimidade surgiu como uma necessidade moderna, pois nos tempos antigos o Estado exercia uma forte influência na vida particular dos indivíduos. Segundo Baltazar Jr (2005), no Mundo Greco Romano, embora o homem tivesse livre participação na política, nos debates acerca do destino da polis, no âmbito familiar deveria agir conforme as regras ditadas pelo Estado e o critério para distinguir o público do particular estava na utilidade: aquilo que era de utilidade pública, era público e aquilo que era de utilidade particular, era particular. Com a chegada da classe burguesa, em que aparece o liberalismo exigindo a mínima intervenção do Estado, na transição da Idade Média para a Idade Moderna, passou-se a exigir um espaço privado, notadamente em decorrência da propriedade, daí por que se afirma que a proteção à vida privada teve inicialmente um caráter eminentemente patrimonialista e era um privilégio exclusivo da burguesia, vez que para o povo trabalhador, que vivia e laborava no mesmo espaço físico, era quase que impossível a preservação da privacidade (BALTAZAR JR, 2005). Essa busca pela proteção da vida privada se fortaleceu com a doutrina civilista dos direitos da personalidade, na época dos grandes Códigos Civis, anterior ao surgimento das Constituições. Após a fase civilista, veio a época da positivação da proteção à intimidade e à vida privada no âmbito internacional, em vários documentos internacionais que trouxeram a obrigação de não interferência do Estado e nem dos indivíduos nesses direitos, é o que preceitua a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, no artigo 12: Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra ou reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda pessoa tem direito à proteção da lei. Assim, o dispositivo citado acima demonstra a preocupação do meio internacional com os aspectos concernentes à privacidade, buscando combater invasões arbitrárias na família, honra e reputação das pessoas. Página 104 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Hodiernamente, a maioria dos Textos Constitucionais traz à baila a proteção à privacidade, seja implícita ou explicitamente, tendo por característica a mudança do caráter patrimonialista da proteção para a personalidade humana, pois se tornou um direito de todo e qualquer cidadão, independentemente de suas posses (SAMPAIO, 1998). No que se refere às Constituições brasileiras, verifica-se que somente a Constituição Federal de 1988, trouxe expressamente a previsão da proteção à intimidade e à vida privada do cidadão, pois as anteriores se referiam apenas à inviolabilidade da correspondência e do domicílio. Em relação aos aspectos conceituais e diferenciais, há uma grande discussão sobre os contornos da vida privada e da intimidade, pois alguns autores os identificam como sinônimos enquanto outros os diferenciam. Estes, mais cautelosos, levam em consideração a certeza de que a lei não tem palavras inúteis, daí, pelo fato de a Constituição citar os dois direitos no mesmo artigo art.5º, X, entenderem que o legislador quis diferenciá-los. Segundo o eminente doutrinador Silva (2009), a distinção entre vida privada e intimidade não é algo fácil, aquela tem um significado mais abrangente, pressupondo que a vida das pessoas possui dois aspectos, sendo um deles voltado para o âmbito exterior e o outro voltado para o interior. Para esse jurista, o aspecto exterior envolveria as pessoas nas suas relações sociais, podendo ser objeto de pesquisas e exteriorizações por parte de terceiros, já o aspecto interior, que recai sobre o mesmo indivíduo, sobre sua família e seus amigos, faz parte do conceito de vida privada, sendo expressão de sua própria personalidade, evitando a divulgação não autorizada de seus segredos familiares. O motivo dessa confusão conceitual tem suas origens no caráter cultural que vincula esses direitos. Em outras palavras, trata-se de conceitos relativos, pois aquilo que se insere como privado em certa sociedade poderá ser público em outras e vice-versa, bem como deve ser levado em consideração cada momento histórico e geográfico na aferição daquilo que se enquadra como público ou privado. Os alemães deram importante contribuição para a definição dessas duas expressões jurídicas, através do desenvolvimento da teoria das esferas. Segundo essa teoria, a intimidade se diferencia da vida privada em termos de grau de exclusividade, sendo que naquela, o grau é maior do que nesta. Intimidade faz parte da vida privada, entretanto, diferencia-se desta por não poder ser compartilhada por um grupo, se não for do desejo de seu titular, dizendo respeito ao sentimento, emoções, convicções, enquanto a vida privada pode ser compartilhada por pessoas autorizadas, embora não possa ser exposta ao público. 3 SIGILO BANCÁRIO: EVOLUÇÃO HISTÓRICA E CONCEITO A evolução histórica do sigilo bancário pode ser estudada levando em consideração três fases: a embrionária, a institucional e a capitalista. A fase embrionária é aquela em que os valores, antecipações e mediações de pagamentos eram confiadas aos sacerdotes, os quais deixavam guardados nos templos, sob a proteção dos deuses, os valores recebidos, como por exemplo, na Babilônia, onde nos templos eram depositados como se fossem coisas sagradas, resguardados na intimidade dos santuários, sendo apenas acessíveis aos depositantes, aos depositários e aos seus guardadores (BOUCINHAS FILHO, 2005). Na Idade Média, o sigilo se consolidou definitivamente como regra de conduta a ser seguida pelos bancos, os quais se institucionalizaram e a obrigação de guardarem segredo sobre os dados financeiros foi imposta a todos os seus empregados, os quais prestavam juramento de manterem discrição sobre as informações e documentos dos clientes da instituição. No que concerne à fase capitalista, que vem do Renascimento aos dias atuais, o surgimento da classe burguesa e do Estado Moderno deram grande impulso à expansão do crédito e dos depósitos de valores mobiliários, surgindo grandes banqueiros (BALTAZAR JR, 2005). Na Renascença surgiram as primeiras normas de regulamentação das atividades dos bancos, dentre estas, estão as relativas ao dever de segredo, como o decreto editado por Luís XIII, em 1639, Página 105 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 bem como surgiram as tributações bancárias e que desde então, passaram a serem positivadas as normas referentes aos dados financeiros, deixando o sigilo bancário de ser apenas norma costumeira, para se transformar em norma jurídica. Em relação ao conceito, diz-se que constitui uma obrigação imposta pela lei e pelos princípios constitucionais aos bancos e prepostos destes a não revelar a terceiros sem justificativa plausível, os dados de seus clientes que chegarem ao seu conhecimento por conta da relação jurídica que os vinculam. O sigilo bancário, conforme a dicção legal, constitui um dever atribuído às instituições financeiras de guardarem sigilo sobre as operações financeiras, ativas e passivas e serviços prestados aos clientes, sendo infração penal a sua quebra sem motivo justificado (BARBEITAS, 2003). 4 FUNDAMENTO BRASILEIRO DO SIGILO BANCÁRIO NO ORDENAMENTO JURÍDICO Consoante Barbeitas (2003) o fundamento do sigilo bancário não é unânime na doutrina, vez que neste campo várias teorias foram desenvolvidas, dentre elas podem ser citadas: teoria do uso do costume comercial; contratual, decorrente da vontade das partes; extracontratual, por gerar responsabilização civil das partes em caso de dano; criminal, por constituir crime a sua violação; segredo profissional; legal, quando previsto em lei e constitucional, por conta da proteção conferida à intimidade e à vida privada. Segundo o supramencionado autor, a Teoria do Costume Comercial, aponta as práticas comerciais como origem do sigilo bancário, no entanto, critica-se tal posição, pois esse entendimento faz com que os limites desse instituto fiquem indefinidos e somente a lei é quem mais amplamente delineia seus aspectos. Em relação àqueles que afirmam que o sigilo tem sua causa nos contratos e, portanto, da vontade das partes, essa afirmação também é falha, pois na relação banco-cliente já há implícita a cláusula do dever de segredo como resultado da relação de confiança entre as partes. Ademais, a obrigação de resguardar o segredo rege também as relações pré e pós – contratuais (BALTAZAR JR, 2005). Sobre a teoria extracontratual que afirma ter a Instituição responsabilidade pelos prejuízos decorrentes da divulgação indevida dos dados dos clientes, fundamentando-se na responsabilidade civil extracontratual do artigo 927 do CC/02, essa teoria é criticada pelo fato de centralizar nas conseqüências jurídicas da violação do sigilo o seu próprio fundamento. Dizer que o fundamento do sigilo bancário é criminal, implica confundir o fundamento com suas formas de proteção, daí porque é outra teoria falha. Em se tratando da teoria do segredo profissional, esta pode ser perfeitamente afastada, pois: nem todos os indivíduos que trabalham em bancos são profissionais do banco e este não é um profissional que exerce uma atividade individualmente, ele é uma empresa comercial. Sobre a teoria legal, que afirma ser a lei o fundamento do sigilo bancário por estar previsto na norma positivada de forma expressa, esta é insuficiente, por reduzir muito o alcance desse instituto, que sempre esteve ligado a tradição, costumes, religião, personalidade humana, dentre outros valores. E finalmente, a teoria que mais ênfase teve na doutrina nacional foi a do fundamento constitucional, que afirma que o sigilo financeiro decorre da proteção da intimidade e da vida privada, previstos no Texto Magno no artigo 5º, X, sendo seguidores dessa teoria os doutrinadores Alexandre de Morais, José Afonso da Silva, Pedro Lenza, Miguel Reale Jr, dentre outros. Página 106 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 5 SIGILO BANCÁRIO NO ÂMBITO INFRACONSTITUCIONAL Neste momento será feita uma análise mais voltada às disposições legais do que ao entendimento doutrinário, pois realiza-se um comentário sobre os aspectos gerais da Lei Complementar nº 105/2001, sua abrangência, e aplicações práticas. A sobredita lei dispõe sobre o sigilo das operações financeiras e dá outras providências. Tal diploma legal inovou no ordenamento jurídico brasileiro, pois atribuiu ao Fisco a possibilidade de quebrar o sigilo bancário sem prévia apreciação judicial, tendo o artigo 13 revogado expressamente o artigo 38 da Lei 4.595/64 que exigia que tal devassa deveria ocorrer somente por decisão judicial. O artigo 1º traduziu o que se pôde chamar de regra geral, pois preceitua que “as instituições financeiras conservarão sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados”, assim, a regra em matéria de sigilo bancário é a preservação dos dados bancários do contribuinte, sendo a quebra sua exceção (BRASIL, LC nº 105/2001). Pelo que se retira da sobredita lei, verifica-se que o dever de guardar segredo reporta-se aos dirigentes dos bancos, empregados, e quaisquer outras pessoas que, em virtude de contratos ou trabalho temporário, bem como terceirizado, venham a obter informações dos clientes. Já se sabe as pessoas a quem se dirige a obrigação de resguardar o sigilo financeiro, mas é necessário saber a que operações a lei impõe a proteção. Para isso, quando se volta ao previsto na lei, verifica-se que ela usa a expressão “operações ativas e passivas dos clientes e serviços prestados, bem como contas de depósitos, aplicações, investimentos, contas correntes e operações em outras instituições financeiras.” Nessa esteira, cabe esclarecer o que seriam operações ativas e passivas e serviços prestados, valendo-se da belíssima exposições de Baltazar Júnior (2005, p. 76), para quem: Operações ativas caracterizam-se pela distribuição de recursos, como o mútuo, o desconto de títulos, a antecipação, a abertura de crédito, e a carta de crédito, figurando a instituição financeira como credora. Já as operações passivas são aquelas consubstanciadas em atividade de captação de recursos, como o depósito, a conta corrente e o redesconto, que tornam a instituição financeira devedora. Serviços, por fim, são o aluguel de cofres de segurança, cobrança de títulos, prestação de informações, etc. Ainda no que concerne à abrangência da proteção, indaga-se se a LC nº 105/01 abrange os dados referentes à identificação dos clientes, como o nome, estado civil, profissão, endereço, dentre outros aspectos. Sobre esse questionamento há na doutrina e na jurisprudência certa controvérsia, porém temse entendido que os dados identificadores, necessários ao próprio convívio social não estão abrangidos pelo sigilo, entretanto os dados sobre as relações privadas, interrupção e motivos da cessação, bem como fatos negativos que podem afetar a honra e a imagem, além de débitos em atraso, estes ficam sob sigilo, não podendo ser objeto de divulgação, exceto autorização do Poder Judiciário. Em posição contrária, o mesmo STJ, já defendeu que em qualquer caso deve haver apreciação judicial para obter informações, aduzindo que “qualquer informação em poder de estabelecimento bancários, mesmo que não descreva movimentação bancária, deve ser obtida através do Poder Judiciário”. Continuando sobre o alcance do direito ao resguardo dos dados financeiros, conclui-se que estão acobertadas as pessoas físicas e jurídicas, brasileiros e estrangeiros, residentes ou não no Brasil, estes últimos por interpretação extensiva do caput do artigo 5º da CF/88 e pelo fato de a própria lei complementar não fazer qualquer distinção. O dispositivo da lei que mais trouxe discussão na doutrina e na jurisprudência, é justamente o que traz a previsão para a obtenção de informações sobre os dados dos contribuintes, previsto no artigo 6º, que assim dispõe: Página 107 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Art. 6º As autoridades e agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Parágrafo único. O resultado dos exames, as informações e os documentos a que se refere este artigo serão conservados em sigilo, observada a legislação tributária. O aspecto da constitucionalidade dessa lei, notadamente do dispositivo acima, será analisado adiante, onde serão expostos os posicionamentos prós e contra a quebra diretamente pelo Fisco, além dos princípios apontados como norteadores da discussão. 6 ANÁLISE DA CONSTITUCIONALIDADE DA QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO NO PROCESSO ADMINISTRATIVO. A grande questão a ser descoberta é a constitucionalidade do artigo 6º da Lei Complementar 105/01, que passou a autorizar a quebra do sigilo bancário pela administração fazendária, sem que para tanto houvesse uma permissão do Poder Judiciário. A discussão envolve basicamente quatro princípios constitucionais, o princípio da reserva de jurisdição, o princípio da imparcialidade, o princípio do devido processo legal e finalmente o princípio da ponderação de interesses. Segundo Wambier (2002) princípios são normas que dão coerência e ordem a um conjunto de elementos, sistematizando-o. Aduz ainda que os princípios fazem com que exista um sistema e que os princípios jurídicos são também normas jurídicas. Para fins didáticos, serão analisadas as várias posições que defendem a inconstitucionalidade da lei complementar 105/2001, bem como dos que defendem a constitucionalidade, citando os princípios constitucionais que servem de base para cada posicionamento. 7 POSICIONAMENTOS CONTRÁRIOS À LEI COMPLEMENTAR 105/2001 Em relação ao princípio da reserva de jurisdição, argumenta-se que matéria relativa a sigilo bancário, por ter fundamento nos direitos fundamentais, como a vida privada e intimidade, somente seriam passíveis de apreciação pelo Poder Judiciário, sendo inclusive cláusula pétrea, não podendo uma lei infraconstitucional atribuí-la a outro Poder (LENZA, 2007). Para quem defende estar o sigilo bancário sujeito a esse princípio, a LC 105/2001 é inconstitucional, posto que retira do Poder Judiciário matéria que somente este pode interferir, ferindo os preceitos ditados pelo Poder Constituinte Originário, ferindo inclusive, o disposto no artigo 5º, XXXV da CF/88, que preceitua que “não se excluirá da apreciação do Poder Judiciário Lesão ou ameaça a direito”. Os defensores dessa corrente afirmam de forma veemente que o sigilo bancário só pode ser quebrado por determinação judicial, por fazer parte daqueles direitos fundamentais, assim diz Navarro (2001, p.3): A quebra do sigilo por motivos políticos é inaceitável e odiosa. A quebra por motivos fiscais deve cercar-se dos maiores cuidados e dar-se excepcionalmente, somente quando estejam configurados tipos delituais contra a ordem tributária. A quebra do sigilo para combater o crime organizado admite-se cum modus in rebus, pois a tal pretexto não se pode vulnerar - como tem sido feito - o direito dos cidadãos republicanos, acusados apenas de serem suspeitos. Provas e indícios veementes ao invés de suspeições, freqüentemente imaginárias é o que a sociedade requer, daí a inevitabilidade de uma apreciação judicial prévia e responsável, eis que até mesmo os juízes têm sido levianos. Estão a quebrar o sigilo bancário e de dados em sigilo, obstando aos advogados o inteiro conhecimento das medidas penais cautelares. A regulamentação da quebra do sigilo entre nós, ao meu sentir, deu-se de forma inconstitucional e paradoxal. Página 108 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Assim, o entendimento acima é no sentido de que não bastam meras suspeitas, mas é necessária uma prévia apreciação judicial com provas e indícios extremamente legitimadoras da devassa. Moraes (2007, p. 62) traz as características básicas das garantias dos sigilos bancário e fiscal nos seguintes termos: Os sigilos bancário e fiscal, consagrados como direitos individuais constitucionalmente protegidos, somente poderão ser excepcionados por ordem judicial fundamentada ou de Comissões Parlamentares de Inquérito, desde que presentes requisitos razoáveis, que demonstrem, em caráter restrito e nos estritos limites legais, a necessidade de conhecimento dos dados sigilosos. As características básicas dos sigilos bancário e fiscal são: Indispensabilidade dos dados constantes em determinada instituição financeira. Assim, a quebra do sigilo bancário ou fiscal só deve ser decretada, e sempre em caráter de absoluta excepcionalidade, quando existentes fundados elementos de suspeita que se apóiem em indícios idôneos, reveladores de possível autoria de prática ilícita por parte da quele que sofre a investigação;Individualização do investigado e do objeto da investigação;Obrigatoriedade de manutenção do sigilo em relação às pessoas estranhas ao procedimento investigatório;Utilização dos dados de maneira restrita, somente para a investigação que lhe deu causa;(...); impossibilidade de quebra do sigilo bancário por requisição fiscal de informações bancárias, havendo necessidade de intervenção judicial. Assim, estas são as características apontadas como legitimadoras da manutenção do sigilo bancário, vez que são tidos como direitos constitucionais garantidos, o que impõe a intervenção judicial na quebra dos dados financeiros. No mesmo sentido, cabe colacionar trecho da decisão do STJ, 1ª Turma, apontada por Moraes (2007, p. 63): O Sigilo bancário do contribuinte não pode ser quebrado com base em procedimento administrativo – fiscal, por implicar indevida intromissão na privacidade do cidadão, garantia esta expressamente amparada pela Constituição Federal, artigo 5º, inciso X (STJ1ªT. Resp. nº 121.642/DF-Rel. Min. Demócrito Reinaldo, Diário da Justiça, Seção I, 22 set.1997, p. 46.337). Essa decisão só fortalece o argumento daqueles que entendem que o sigilo faz parte do conceito de vida privada prevista na Lei Maior e também no Código Civil. Segundo Lenza (2007), o artigo 6º da Lei Complementar nº 105/2001 cuida-se de autorização não estabelecida pelo Poder Constituinte Originário e por se tratar de norma de eficácia plena, não necessitaria de regulamentação por lei complementar, sendo matéria de cláusula pétrea, por isso, diz o autor que a inconstitucionalidade é formal e material. Nesse mesmo sentido aduziu Lacombe (2000, p. 218) O sigilo bancário constitui um direito e garantia individual, uma espécie de conceito genérico da intimidade, amparado constitucionalmente por norma de eficácia plena e imediata. Por conseguinte, nenhuma Lei Complementar poderá limitar o alcance desta garantia constitucional para permitir sua quebra por determinação do Ministério Público ou de autoridade administrativa. A quebra do sigilo bancário só poderá ser feita por autorização Judicial em razão da Supremacia do interesse público. É, portanto, cláusula pétrea. Dessa forma, estes são os principais argumentos dos que defendem a impossibilidade de quebra com base no princípio da reserva de jurisdição, como sendo espécie de intimidade e privacidade amparada por norma constitucional de eficácia plena. Em relação à imparcialidade, entende-se que não podem os órgãos ou poderes não autorizados pela Constituição quebrarem diretamente o sigilo bancário e assim afastarem o direito à privacidade, sob o pretexto de defenderem o interesse público, principalmente quando não tem o dever de imparcialidade, pois no caso do Fisco, este atua na qualidade de parte na relação jurídica, esse é o entendimento do Ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Página 109 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Sobre o princípio do devido processo legal, a Carta Magna diz que “ninguém será privado da sua liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”, art. 5º, LIV. Devido processo legal abrange todos os demais princípios constitucionais, como o princípio da reserva de jurisdição, da imparcialidade, da legalidade, dentre outros. Assim, argumenta-se, com base nesse princípio, que eventual prova obtida em decorrência da quebra de sigilo bancário sem a autorização judicial, fere o devido processo legal, caracterizando-se como prova ilícita, não sendo admissível no processo, por imperativo constitucional (ROCHA, 2010). Nesse ponto, cumpre esclarecer que apesar da existência de várias Adins contra o artigo 6º da Lei complementar, o Fisco cada vez mais vem quebrando o sigilo bancário dos contribuintes, o que culminou com as recentes decisões da Corte Constitucional, em matéria de sigilo bancário. Em recente decisão, o STF, julgando o RE nº 389.808-PR, no dia 15/12/2010, cujo relator foi o Ministro Marco Aurélio, que questionava a constitucionalidade do artigo 6º da Lei complementar 105/2001, julgou que a Fazenda/Receita não pode quebrar o sigilo bancário sem a intervenção do Poder Judiciário. Nesse julgamento, importante destacar o voto do Ministro Celso de Mello, conforme trecho abaixo: Esse tema ganha ainda maior relevo, se se considerar o círculo de proteção que o ordenamento constitucional estabeleceu em torno das pessoas, notadamente dos contribuintes do Fisco, objetivando protegê-los contra ações eventualmente arbitrárias praticadas pelos órgãos estatais da administração tributária, o que confere especial importância ao postulado da proteção judicial efetiva, que torna inafastável, em situações como a dos autos, a necessidade de autorização judicial, cabendo ao Juiz, e não à administração tributária, a quebra do sigilo bancário. Assim, entendeu-se que somente pode-se afastar o sigilo dos dados bancários por determinação do Poder Judiciário, até mesmo por que não há por parte do Fisco, em relação ao contribuinte, a posição de eqüidistância, não dispondo de imparcialidade, e ainda mais porque o artigo 145, § 1º da Carta Magna exige que se respeitem os direitos fundamentais dos contribuintes. Assim, entendeu-se que os direitos do Estado encontram limites nos direitos dos indivíduos, não podendo o Fisco se utilizar de prerrogativas que ofendam os princípios constitucionais. A jurisprudência do STF reconhece o direito de romper o sigilo às CPI´s, porque estas tem expressa previsão constitucional dando-lhes poderes próprios das autoridades judiciais sempre havendo controle do Poder Judiciário para evitar excessos (CF/88, art. 58, § 3º),. Entende-se, naquele Excelso Pretório, que nem mesmo o Ministério Público pode, apesar de fiscal da lei, quebrar o sigilo sem autorização judicial, pois não lhe é conferido pelo artigo 129, III da Magna Carta, por isso pergunta-se: se nem o Ministério Público, mesmo agindo como fiscal da lei, tem o direito de quebrar o sigilo financeiro sem intervenção do Poder Judiciário, o que dizer então dos agentes do Fisco que são parte interessada na relação tributária? Argumenta-se que o dispositivo contido no artigo 6º não encontra amparo na Constituição Federal, pois a quebra do sigilo bancário do contribuinte somente pode ocorrer através de ordem judicial e não por meio de ato da Administração, assim, considera-se que a referida quebra pela Receita violadora do sigilo de dados, da intimidade e da privacidade (ROCHA , 2010). 8 POSICIONAMENTO FAVORÁVEL À LEI COMPLEMENTAR Argumenta-se que não há previsão expressa na Constituição protegendo o sigilo bancário e que, além disso, não há direito absoluto, intocável, que seja incapaz de ser restringido, pois nem mesmo o direito à vida é inatingível (PAULSEN, 2010). Nesse sentido, aduziu Barroso (2006) que não há na Constituição Federal qualquer previsão expressa de reserva de jurisdição em relação ao sigilo, nem sobre a intimidade e vida privada, e entender diversamente seria inserir cláusula que não está prevista na Lei Maior. Página 110 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Desse modo, não há que se falar em matéria de interferência exclusiva do Poder Judiciário, posto que os agentes da Administração somente estão exercitando um poder que lhe é atribuído pela constituição, ademais, não se retira da apreciação do Judiciário quaisquer excessos eventualmente praticados. Embora haja o acesso do Fisco, sigilo se mantém, pois o que ocorre é apenas a transferência das informações bancárias aos agentes da fiscalização, não sendo razoável que sempre que se tenha necessidade de investigações sobre os dados financeiros dos contribuintes, seja provocado o Judiciário, e caso os investigados entendam terem sido lesados, podem sim provocar a atuação jurisdicional para fazer valer seus direitos. Diz-se ainda que é perfeitamente preservado o devido processo legal, pois a quebra somente pode se dar se houver procedimento fiscal em curso e se resguardados as garantias da ampla defesa e do contraditório, visto que ao sujeito passivo é dado o direito de contradizer, informar seus dados, impugnar e produzir provas. E por fim, defende-se que não há que se falar em quebra do dever de imparcialidade, pois nesse caso, o Fisco estará agindo como ente impessoal, haja vista que busca a proteção do interesse público, não podendo prejudicar nem beneficiar outras pessoas. O entendimento dessa segunda corrente é no sentido de que a Lei pode autorizar outras autoridades do Poder Público a relativizarem a privacidade e a intimidade, desde que estejam presentes os requisitos da indispensabilidade da medida, que o procedimento seja sigiloso e que a providência busque unicamente a finalidade pública. 9 PONDERAÇÃO DE INTERESSES Carvalho Filho (2008) aduziu que a doutrina moderna busca obter a melhor interpretação quando do estudo da configuração das normas. Segundo ele, as normas em conflito resultam na prevalência de uma em detrimento de outra, enquanto que no conflito entre princípios utiliza-se a ponderação de interesses, e nesse caso não ocorrerá a nulidade de um sobre o outro. Segundo esse princípio, havendo conflito entre dois ou mais direitos e garantias fundamentais, é necessário buscar a harmonização, procurando sempre evitar o total detrimento de um em face do outro para dar harmonia aos comandos constitucionais. Se o direito ao sigilo bancário não é absoluto, tampouco é o Poder de Fiscalização, devendo o operador do direito, ao se deparar com um caso assim, agir com razoabilidade, evitando excessos, abusos e se pautando pela proporcionalidade. Esse princípio foi invocado no julgamento do seguinte caso pelo TJ/DF, cuja relatoria ficou a cargo do Des. Lécio Resende: CIVIL – INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS – DIREITO À PRIVACIDADE – DEVIDO PROCESSO LEGAL – PONDERAÇÃO – QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO – DANO MORAL NÃO CONFIGURADO – SENTENÇA MANTIDA. Em casos de aparente conflito entre princípios constitucionais, ao julgador incumbe o dever de, em exercício de ponderação corroborado com as circunstâncias concretas do caso analisado, fazer com que prevaleça um dos direitos em detrimento do outro. Embora o processo judicial tenha, em regra, como um de seus princípios basilares a publicidade, importa ressaltar a inexistência de provas de que a quebra de seu sigilo bancário tenha sido em proporção tal ao ponto de culminar com o alegado dano moral. Assim, trata-se da necessidade de compatibilização de princípios, a fim de evitar antinomias entre eles. Cumpre ao aplicador do direito verificar que em certos casos um princípio apresenta peso menor que o de outro, não podendo haver a conclusão de que um é superior ao outro, pois todos os princípios devem viver equilibrados e na permanente busca de harmonia. Deve-se ter em mente que não é a Lei Complementar objeto deste estudo inconstitucional, pois na verdade sempre deve ser verificada a proporcionalidade entre o meio utilizado e o fim a ser alcançado, devendo evitar-se a utilização de mecanismos excessivos, que sejam além dos limites permitidos no caso concreto. Página 111 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 CONCLUSÃO Após esse estudo, chegou-se à conclusão de que embora não haja previsão expressa do sigilo bancário na Constituição Federal, o STF entende que encontra fundamento nessa Carta Magna, no artigo 5º, X, consubstanciado na proteção que se dá à intimidade e à vida privada. Esse mesmo entendimento vem sendo adotado pelo tribunais pátrios e pela maioria da doutrina e utilizado para fundamentar a inconstitucionalidade da Lei Complementar nº 105/2001. Não há na doutrina consenso sobre a distinção entre a intimidade e a vida privada, sendo estes direitos marcados pela relatividade. Intimidade e vida privada são conceitos relativos e muito próximos, mas diferentes, pois intimidade está ligado aos aspectos mais profundos de um indivíduo, que não pode ser compartilhados sem que o seu titular autorize, enquanto que a vida privada, possui um âmbito de abrangência maior, podendo ser compartilhada com outras pessoas, mesmo sem autorização de seu titular, mas exige que sejam afastados do público. Assim, a intimidade seria um dos elementos da vida privada. Sobre o sigilo bancário, verificou-se que a maioria dos tribunais brasileiros tem entendido que constitui direito fundamentado nos dispositivos constitucionais previstos no artigo 5º, X, apesar de haver posicionamentos que defendem não haver norma expressa que traduza o sigilo na Constituição Federal. Em relação à constitucionalidade da Lei Complementar número 105/2001, conclui-se que ela é perfeitamente constitucional, visto que embora o sigilo bancário tenha por fundamento aqueles direitos previstos no Texto Constitucional, deve-se observar que não tem caráter absoluto, pois nem mesmo o direito à vida o tem. Ademais, verificou-se que o patrimônio não se confunde com intimidade e nem com privacidade. A intimidade e a privacidade derivam dos direitos da personalidade, fazem parte dos direitos naturais, enquanto que o sigilo bancário deriva do poder econômico, estando intrinsecamente ligados aos aspectos financeiros das pessoas. A quebra de sigilo pela autoridade fiscal, sem ordem do Poder Judiciário reveste-se de constitucionalidade, pois na verdade o que são obtidos são apenas números, não havendo divulgação desses resultados nem identificação da forma como esses valores foram gastos. Outrossim, é constitucional porque embora o fisco possa ter acesso sem ordem judicial, fica claro que o Poder Judiciário tem o controle dos atos abusivos, ficando os agentes da administração sujeitos às sanções civis e criminais em caso de quebra injustificada do sigilo. Ademais, trata-se de mera transferência de informações das instituições financeiras aos entes de fiscalização, e que a própria Carta Magna prevê essa possibilidade quando trata da permissão aos agentes do fisco de identificação dos bens, rendimentos e patrimônio do sujeito passivo, para fins de avaliação da capacidade contributiva dos indivíduos. Assim, entende-se que o sigilo bancário não pode ser considerado dogma constitucional, vez que nenhum direito e garantia individual o é, além disso, não deve servir como escudo para a prática de delitos, principalmente diante dos crimes de sonegação fiscal e de lavagem de dinheiro, onde vultosas quantias são retiradas ilicitamente dos cofres públicos e acabam saindo do país rumo aos paraísos fiscais do exterior. Diante disso, discorda-se do entendimento do Supremo Tribunal Federal em matéria de sigilo bancário, vez que a LC 105/2001 reflete a supremacia do interesse público sobre o interesse particular, quando busca garantir ao Estado a possibilidade de analisar extrajudicialmente os dados bancários do contribuinte para fins apuração de práticas criminosas e sonegação fiscal, desde que haja procedimento administrativo em curso e verificando-se que ao sujeito passivo é garantido o contraditório a ampla defesa. A importância da quebra de sigilo previsto na lei complementar nº 105/2001 está justamente na garantia do interesse público sobre o particular, onde, de modo geral, toda a sociedade é beneficiada, além disso, preserva-se o Estado contra os crimes financeiros. Página 112 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 REFERÊNCIAS AMARO, Luciano. Direito Tributário brasileiro. 14. ed.rev- São Paulo: Saraiva 2008. BALTAZAR JÚNIOR, José Paulo. Sigilo Bancário e Privacidade. Porto Alegre:Livraria do Advogado, 2005. BARBEITAS, André Terregno. O Sigilo Bancário e a necessidade de ponderação dos interesses. São Paulo: Malheiros, 2003. BARROSO, Renata Fernandes. A Constitucionalidade da transferência direta do sigilo bancário para o Fisco. RFDT 20, mar-abr/2006. BOUCHINHAS FILHO, Jorge Cavalcanti. O Sigilo Bancário como Corolário do Direito à Intimidade.Jus Navigandi, Teresina, a. 5, n. 51, out. 2001. 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Página 114 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 A VEDAÇÃO DA PROVA ILÍCITA NO PROCESSO PENAL - ESTUDO DE CASOS: CRÍTICA A ALGUNS JULGADOS DA SUPREMA CORTE AMERICANA THE SEALING OF ILLEGAL EVIDENCE IN CRIMINAL PROCEEDINGS-CASES STUDY: CRITICISM OF SOME U.S. SUPREME COURT JUSTICES Nilvania Rodrigues da Silva11 Wirna Maria Alves da Silva2 RESUMO Este trabalho explora a tensão jurídica entre a vedação constitucional da prova ilícita no processo como direito fundamental do indivíduo e a exigência de efetividade da prestação jurisdicional, principalmente em duas situações polêmicas já enfrentadas pela Suprema Corte Americana. Ao contrário, será ilícita a prova quando sua proibição for de natureza material, vale dizer, quando for obtida ilicitamente. Sob o cenário do atual contexto social, direcionado à concretização de direitos fundamentais, é verificada a possibilidade de utilização de prova ilícita no processo em caráter excepcional nos dois casos debatidos, quando no caso concreto se constatar a preponderância do direito à efetividade da jurisdição penal para conferir segurança à sociedade em contraponto à proteção do direito à intimidade numa perspectiva meramente individualista. Os objetivos a analisar são como os meios lícitos ou ilícitos na busca da verdade das provas apresentadas ao magistrado serão aceitos no processo penal em cada estudo de caso, objetivando a análise critica em alguns julgados da Suprema Corte Americana. A abordagem específica é a compreensão dos meios de ilicitudes que contaminam a produção de uma prova penal. O método utilizado no trabalho é o dialético com revisão bibliográfica. A crítica da vedação da prova ilícita no processo penal nos casos julgados pela Suprema Corte Norte Americana, refere-se à impossibilidade de aplicação das permissões ao uso da prova ilicitamente obtida constante desses julgados pelos magistrados no Brasil. Palavras– chaves: Prova Ilícita. Suprema Corte Americana. Direitos. Atuação Estatal. ABSTRACT This paper explores the legal tension between the constitutional seal of illegal evidence in the proceedings as a fundamental right of the individual and the requirement of effectiveness of judicial assistance , mainly in two controversial situations ever faced by the U.S. Supreme Court . Rather, the proof will be illegal when his ban is material in nature , that is, when obtained illegally . Under the scenario of the current social context , directed the implementation of fundamental rights , is investigating the possibility of using illegal evidence in the process exceptionally in both cases discussed , when in this case it appears the preponderance of the right to effective criminal jurisdiction to providing security to society in counterpoint to the protection of the right to privacy in a purely individualistic perspective . The objective are to examine how legal or illegal in search of the truth of the evidence presented to the magistrate in criminal proceedings will be accepted in each case study media , aiming to critical analysis in some judged the U.S. Supreme Court . The specific approach is the understanding of the means of illegal activity that contaminate the Aluna de Aluna de graduação (9º período) do Curso de Direito da Faculdade Integral Diferencial – FACID – DEVRY Email: [email protected] 2 Professora Ma. Wirna Maria Alves da Silva Email: [email protected] 1 Página 115 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 production of a criminal trial. The method used in the work is the dialectic with literature review. The critique of sealing illegal evidence in criminal proceedings in cases tried by the Supreme Court Americana, refers to the impossibility of applying permissions to the use of evidence unlawfully obtained these constant judged by magistrates in Brazil. Key words: Illegal Evidence. U.s. Supreme Court. Rights. State Performance. INTRODUÇÃO A crítica da vedação da prova ilícita no processo penal - estudo de casos a alguns julgados da suprema corte americana, refere-se a não aplicabilidade das decisões desses julgados pelos magistrados no Brasil. As exceções da vedação da prova ilícita como a descoberta inevitável e a boa fé dos agentes públicos não podem ser aceitas no Brasil como subsídios numa tomada de decisão, para não fragilizar a garantia da vedação da prova ilícita. A abertura sistêmica torna possível a existência de princípios normo-positivados que, ao lado das regras, propiciam a sua contemporaneidade, diante do dinamismo da vida social. A convivência entre a norma-regra e a norma-princípio decorre da unidade sistemática do texto constitucional. Princípios são, portanto “normas que obrigam que algo seja realizado na maior medida possível, de acordo com as possibilidades fáticas e jurídicas, são, por conseguinte, mandamentos de otimização.” (AVILA, 2007). A partir deste conceito de princípio, as exceções da vedação da prova ilícita para sustentar uma condenação aceitas na jurisdição norte americana, como a descoberta inevitável e a boa fé dos agentes públicos, somente podem ser cogitadas de aceitação ou rejeição no Brasil a partir da determinação sobre que espécie de norma é (regra ou princípio) a disposição contida no inciso LVI, do art. 5º da Constituição Federal de 1988. Neste diapasão, altercamos: “ como ocorre a vedação da prova ilícita no Processo Penal em alguns julgados da Suprema Corte Americana?” As questões norteadoras a serem discutidas são o ordenamento jurídico brasileiro estaria pronto para aceitar as exceções à inadmissibilidade da prova ilícita consagradas nos EUA; as exceções à vedação da prova ilícita na jurisprudência americana são compatíveis com a proteção dos direitos fundamentais e como são avaliados pelo magistrado os meios utilizados para validar o ingresso das provas ilícitas no processo penal. A Suprema Corte dos Estados Unidos da América fornece exemplos mais sensíveis e pragmáticos sobre a caracterização do que seja um “meio ilícito” de obtenção de prova e as tensões concretas entre este meio de produção da prova e direitos individuais, como o direito à intimidade. O primeiro estudo de caso que será analisado é o julgamento do caso Nix v. Williams (Williams II), 1984, a jurisprudência da Suprema Corte norte-americana passou a considerar admissível a prova derivada de violação constitucional se tal prova tivesse sido descoberta “inevitavelmente” por meios de investigações lícitas e sem qualquer relação com dita violação (a chamada Descoberta Inevitável). Outra exceção reconhecida pela Suprema Corte norte-americana, ainda que muito questionada doutrinariamente, consistiu na denominada “Limitação da Boa-Fé” (good faith exception), que foi adotada inicialmente no julgamento do caso US v. León, 1984. A análise desta vedação na aplicação da prova ilícita no Processo Penal em alguns casos serão analisados onde a decisão da Suprema Corte Americana foi contra, e em outros casos, a favor da aceitação desta prova para condenar o réu. A abordagem das possibilidades de compreensão do que sejam alguns exemplos de ‘meios ilícitos’ de produção de uma prova e que acarretará sua inadmissibilidade num processo, mesmo que sua hipotética admissibilidade pudesse trazer a concretização aparente da justiça social por evidenciar o culpado de um crime. Página 116 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 O método utilizado foi o dialético com revisão bibliográfica. Como objetivo geral o estudo aborda de maneira específica a crítica à vedação da prova ilícita no processo penal em casos julgados da Suprema Corte Americana. Somado aos objetivos específicos que versam sobre a investigação de como são aceitas as exceções à inadmissibilidade da prova ilícita consagradas nos EUA; verificando as exceções à vedação da prova ilícita na jurisprudência americana se são compatíveis com a proteção dos direitos fundamentais. Identificar o ingresso das provas ilícitas no processo penal por parte do magistrado requer a verificação dos valores do caso julgado. 2 CONSTITUIÇÕES SINTÉTICAS DIFERENÇA NECESSÁRIA E CONSTITUIÇÕES ANALÍTICAS: UMA Após as digressões iniciais de embasamento, o autor, Fernandes (2010, p.18) fez as classificações constitucionais ainda usuais na doutrina brasileira. Primeiramente, fez-se uma análise descritiva e, posteriormente, uma reflexão, colocando algumas questões para análises de cunho crítico. Nesse sentido, a classificação tradicional quanto à extensão é a analítica e sintética. A Constituição Analítica também chamada de prolixa é aquela elaborada de forma extensa (formato amplo), com um cunho detalhista na medida em que desce a pormenores não se preocupando somente em descrever e explicar matérias constitucionais (tipicamente constitutivas do Estado e da sociedade). Portanto, acaba por regulamentar outros assuntos que entenda relevantes num dado contexto estabelecendo princípios e regras e não apenas princípios (ainda que os princípios e a estrutura chamada atualmente de principiológica possam ser dominantes). Como exemplos, podemos citar as atuais Constituições do Brasil (1988), Portugal (1976) e Espanha (1978). A Constituição Sintética é aquela elaborada de forma sucinta (resumida) e que estabelece os princípios fundamentais de organização do Estado e da sociedade preocupando-se em desenvolver no seu bojo apenas as matérias constitucionais típicas (Organização e estruturação do Estado e Direitos Fundamentais). Em regra são constituições eminentemente principiológicas. Como exemplo, EUA (1787). 2.1 A diferença entre regras e princípios na Constituição A proposta conceitual das regras e dos princípios foi proposta pelo autor Ávila (2006, p.78), em que detalha regras como normas imediatamente descritivas, primariamente retrospectivas e com pretensão de decidibilidade e abrangência, para cuja aplicação se exige a avaliação da correspondência, sempre centrada na finalidade que lhes dá suporte ou nos princípios que lhes são axiologicamente sobrejacentes, entre a construção conceitual da descrição normativa e a construção conceitual dos fatos. Os princípios são normas imediatamente finalísticas, primariamente prospectivas e com pretensão de complementaridade e de parcialidade, para cuja aplicação se demanda uma avaliação da correlação entre o estado de coisas a ser promovido e os efeitos decorrentes da conduta havida como necessária à sua promoção (AVILA, 2006). Mesmo considerando que a Constituição Brasileira de 1988 possui princípios e regras e, por isso, não pode ser qualificada como tendo adotado nem um modelo exclusivo de princípios, nem um arquétipo único de regras, qual seria o qualificativo mais adequado para representar o seu conjunto normativo, se um deles tivesse que ser escolhido para exprimir a espécie normativa típica do ordenamento constitucional: “Constituição principiológica” ou “Constituição regulatória”? Antes de responder a essa indagação, é preciso realçar um ponto: a Constituição Brasileira de 1988 tem princípios e regras, cada qual com funções diferentes, não se podendo falar, desse modo, da primazia de uma norma sobre outra, mas, tão-só, de funções e eficácias diferentes e complementares (AVILA, 2006). Página 117 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 No entanto, seguindo o modelo aqui criticado, caso se insista em escolher um rótulo que melhor represente a estrutura normativa típica da Constituição Brasileira de 1988, no aspecto quantitativo, ele deverá ser “Constituição principiológica” (AVILA, 2006). Se for verdadeira a afirmação no sentido de que a Constituição Brasileira de 1988, no aspecto quantitativo, é (mais) regulatória, em vez de principiológica, dois problemas surgem, um de natureza científica, outro de natureza metodológica. O obstáculo científico reside no fato de que a afirmação, no nível da meta-linguagem, de que a Constituição Brasileira de 1988 é composta mais de princípios do que de regras, é falsa, na medida em que não encontra corroboração na linguagem-objeto que procura descrever. Tal afirmação até pode ser verdadeira noutros sistemas, mas não no brasileiro (AVILA, 2006). No caso de regras constitucionais, os princípios não podem ter o condão de afastar as regras imediatamente aplicáveis situadas no mesmo plano. Isso porque as regras têm a função, precisamente, de resolver um conflito, conhecido ou antecipável, entre razões pelo Poder Legislativo Ordinário ou Constituinte, funcionando suas razões (autoritativas) como razões que bloqueiam o uso das razões decorrentes dos princípios (contributivas) (SCHAUER, 1998). Daí se afirma que a existência de uma regra constitucional elimina a ponderação horizontal entre princípios pela existência de uma solução legislativa prévia destinada a eliminar ou diminuir os conflitos de coordenação, conhecimento, custos e controle de poder. Por exemplo, se a Constituição possui uma regra vedando, de modo categórico, a utilização de prova ilícita, não cabe ao interprete, por meio de uma ponderação de princípios constitucionais eventualmente aplicáveis, permitir a sua utilização, pois, nesse caso, a própria Constituição fez uma escolha que não pode ser desconsiderada pelo interprete. Entender de modo contrário, é interpretar como descartáveis normas que a Constituição quis resistentes a uma ponderação horizontal, flexibilizando aquilo que ela quis objetivamente enrijecer. 3 DO DIREITO A PROVA NO PROCESSO A palavra “prova” vem do latim proba, probare (demonstrar, reconhecer, formar juízo de). Malatesta (2001, p 87), com maestria, assevera em sucintas palavras o conceito e a importância da prova: Como as faculdades perceptivas são a fonte subjetiva da certeza, as provas são um modo de apreciação da fonte objetiva, que é a verdade. A prova é, portanto, deste ângulo, o meio objetivo com que a verdade atinge o espírito, e o espírito pode, relativamente a um objeto, chegar por meio das provas, tanto à simples credibilidade, como à probabilidade e certeza; existirão, assim, provas de credibilidade, de probabilidade e de certeza. A prova, portanto, em geral, é a relação concreta entre a verdade e o espírito humano nas suas especiais determinações de credibilidade, probabilidade e certeza. Nesse diapasão, é que se pode afirmar, sem medo, que a prova é um dos, senão o tema mais importante do Direito, pois todo e qualquer debate acerca de uma controvérsia, sem respaldo em provas, torna-se uma discussão meramente teórica, sem qualquer resultado prático. Nessa toada, por ser amplo o campo em que se pode explorar o papel da prova no processo, e em especial da prova ilícita, é curial desde já, balizar o âmbito deste estudo na circunferência primordial do Processo Penal. Pela natureza dos interesses envolvidos na relação jurídica processual de cunho penal, que são indisponíveis, torna-se mais interessante limitar a pesquisa das implicações da prova ilícita ao núcleo processual penal (ALEXANDRE,1998). Feita esta ressalva imprescindível, cumpre desde já assinalar as diferenças conceituais que implicam as terminologias referentes à prova inadmitida no processo (Novolone apud Scarance Fernandes): a prova vedada é o gênero, de que são espécies a prova ilícita e a prova ilegítima. A primeira é qualquer prova que seja proveniente da prática de um ilícito penal, como por exemplo, uma confissão conseguida através de tortura. O segundo tipo é a prova conseguida através de infração a normas de caráter tão só processual, como por exemplo, a juntada de documentos aos Página 118 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 autos, na fase de alegações finais do sumário de culpa, primeira parte no procedimento dos crimes de competência do júri popular. Desse contexto, observa-se que a ilicitude material defluiu de uma conduta consistente num ilícito penal, que tem como resultado a consecução do elemento probatório. Este elemento é introjetado no processo de forma legítima durante sua instrução ou em outro momento ainda oportuno, e em sua essência é um dado válido, só que se torna inaproveitável por sua origem espúria. Já a ilicitude formal, caracterizadora da prova ilegítima não inquina o meio de obtenção da prova nem a prova em si mesma, mas o momento de sua apresentação no processo, ou seja, a intempestividade de sua aparição na relação jurídico-processual e em face desta mácula, sua impossibilidade de aproveitamento. Exemplo da primeira modalidade seria o conteúdo de uma interceptação telefônica sem autorização judicial, e exemplo da segunda modalidade seria a aparição de uma testemunha após o momento de apresentação do rol das testemunhas e estando o processo concluso para julgamento (ALEXANDRE,1998). De fato, não é fácil em vários casos averiguar se uma prova é ilícita, e em o sendo, recusá-la no processo. Muitas vezes, tal sensação se dá por uma visão calcada no senso comum de ver um material que comprova objetivamente um crime, que é uma conduta que repugna o senso humano e não poder utilizá-lo para incriminar um acusado que, por causa disto, pode não responder pelo ilícito que cometeu, ficando a sensação de impunidade no homem leigo aos ditames jurídicos. 4 A APLICAÇÃO DA VEDAÇÃO DE PROVA ILÍCITA NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA: ESTUDO DE CASOS Pela reforma do CPP (art. 157, § 1º), quanto à vedação da prova ilícita por derivação, cuja origem se situa na jurisprudência da Suprema Corte norte-americana (fruits of the poisonous tree), bem como quanto à sua exceção da fonte independente (independent source), prevista no art. 157, § 1º, parte final. Curioso é que, por uma obra destino, o art. 157, § 2º, ao conceituar fonte independente, acabou dando a definição de descoberta inevitável (inevitable discovery) no caso Nix c Williams, cuja diferença navega no plano hipotético, ou seja, no alto grau de juízo de probabilidade, provado pela acusação, de que a prova ilícita por derivação seria descoberta de qualquer modo pelos trâmites “típicos e de praxe” da investigação e do princípio da boa-fé no caso Florida x Jardines (2013) analisados neste trabalho. 4.1 O caso Nix v. Williams (1984): a exceção da descoberta inevitável No caso Nix v. Williams, 1984, a jurisprudencia da Suprema Corte norte-americana passou a considerar admíssivel a prova derivada de violação constitucional se tal prova tivesse sido descoberta “inevitavelmente” por meios de investigação lícitas e sem qualquer relação com a dita violação, a chamada descoberta inevitável. 4.2 O caso Florida x Jardines (2013): Princípio da boa-fé Neste caso, Flórida x Jardines (2013), o cumprimento do mandado não oficial revelou que a maconha estava sendo cultivada dentro da casa de Jardines. Ele foi preso. A pergunta sobre a prova coletada era se poderia se admitir o uso de um cão farejador de narcóticos no jardim de uma residência sem autorização do proprietário, mesmo que uma posterior apreensão de drogas fosse feita baseada num mandado legalmente expedido. É cada vez mais veemente o conflito entre a tutela da norma violada com a consecução da prova ilícita e a necessidade contemporânea da utilização imediata de todos os meios necessários ao alcance do escopo da atividade jurisdicional, como uma resposta sempre clamada pela sociedade, às vezes descurando-se dos direitos fundamentais no combate ao tráfico de entorpecentes e outros crimes igualmente com potencial degradante, ante o pavor provocado pela onda de violência que geram. Página 119 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 5 A PROIBIÇÃO DE PROVAS OBTIDAS POR MEIOS ILÍCITOS NO BRASIL A caracterização da prova ilícita é uma questão ainda tormentosa, no âmbito do direito processual, diz respeito à admissibilidade de provas obtidas por meio ilícito. Sua própria definição é alvo de controvérsia. Atualmente, a doutrina e a jurisprudência preferem resguardar a utilização do termo “prova ilícita” para aquelas provas que possuam vícios no momento de sua obtenção. A prova ilícita é obtida com a violação de normas de direito material (especialmente, direitos fundamentais). A prova ilegítima, de seu turno, caracteriza-se pela ofensa de preceitos processuais (PORTO, 2009). A redação da Constituição Federal, no sentido de que “são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos”, não deixa dúvidas de que o momento precípuo a ser focalizado no debate é justamente o da obtenção. Como regra, será lícita a prova, caso a parte, ao obtê-la, não tenha obrado na ilicitude. A jurisprudência brasileira já reconheceu a ilicitude da prova obtida através de violação de domicílio, de escuta telefônica clandestina, de quebra de sigilo bancário, sem a competente autorização judicial e de violação de segredo profissional. Para ultrapassar esse dilema, com apelo ao princípio da proporcionalidade (Verhaeltnismaessigkeitprinzip), parcela da doutrina entende que somente através de uma ponderação dos interesses envolvidos no litígio, conseguiríamos alcançar a solução do impasse (BERGMANN, 1992). Segundo tal posição, episodicamente, a prova ilícita poderia ser aproveitada para evitar a aplicação manifestamente equivocada do direito. Com base nessa diretriz, doutrinadores, admitem, em hipóteses específicas, a utilização de provas obtidas por meio ilícito, com o fito de prestigiar outros valores também protegidos pelo ordenamento. È emblemático o exemplo da gravação clandestina que comprova a inocência do réu em processo crime. Sua admissibilidade é tolerada pelo Supremo Tribunal Federal. Também o é pelo Superior Tribunal de Justiça. A regra é a inviabilidade da prova ilícita, obviamente. Logo, é a exceção que deve ser criteriosamente justificada, com a ultrapassagem exitosa de três momentos, pela aplicação da máxima da proporcionalidade incorporada no ordenamento constitucional (BARROSO, 2010). Por este princípio da proporcionalidade, o juiz poderá ponderar a validação da prova ilícita para beneficiar o réu das acusações do Estado. Como já foi exposto pelos doutrinadores, o princípio da proporcionalidade sopesa os valores distintos para alcançar a decisão final justa sobre a admissibilidade ou não de determinada prova obtida por meio ilícito. 5.1 A doutrina que admite a validade da prova ilícita Parte da doutrina entende que o objetivo do Estado, com o exercício da atividade jurisdicional, não deve sofrer restrições impostas pela inadmissibilidade da utilização das provas obtidas por meios ilícitos. Segundo Cuellar (2009 apud et al BEDAQUE , 2012), o afastamento da prova obtida ilicitamente implicaria reconhecer o predomínio dos direitos individuais sobre o interesse público consistente na efetividade do processo. Percebe-se, diante do posicionamento do autor, que o fundamento axiológico da vedação da prova ilícita é a proteção dos direitos fundamentais contra o abuso do poder do Estado. 5.2 A posição do Supremo Tribunal Federal A garantia da vedação da prova produzida por meios ilícitos foi e continua sendo objeto de debates no STF principalmente em razão da doutrina destacada no tópico anterior que considera legítima a relativização. Contudo, o STF tem sido firme ao considerar a vedação da prova ilicitamente produzida impassível de exceções para fins de condenação de réus. A conclusão do Página 120 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 julgado HC 90.298, Rel. Min. Cezar Peluso, julgamento em 8-9-2009, Segunda Turma, DJE de 1610-2009, confirma a posição do STF em garantir a vedação da prova obtida por meios ilícitos.. Segundo o STF a prova ilicitamente produzida só pode ser aceita se for pra inocentar o acusado e impedir uma prisão ou condenação injustas, ou seja, só é aceita se for para proteger mais ainda o cidadão e nunca para deixar prevalecer o poder do Estado sobre o indivíduo. CONCLUSÃO Ante a dimensão de todo o exposto, depreende-se que a Constituição Federal de 1988, recebeu o epíteto de “cidadã” exatamente por dar primazia ao ser humano como fonte, produtor e destinatário de toda a atividade estatal, seja ela legislativa, jurisdicional ou administrativa, trilhando o Estado sempre por uma trilha balizada pelos direitos e garantias individuais dos jurisdicionados. E outra não poderia ser a postura do legislador constituinte de 1988, ao constituir o Brasil num Estado Democrático de Direito, porque o contexto social era de saída de um regime ditatorial, onde o Estado praticamente não conhecia limites à sua atuação persecutória, reduzindo os direitos fundamentais individuais a um círculo limitadíssimo e meramente formal. Em vista disso, toda a índole libertária reprimida por anos de experiências autoritárias aflorou na Assembleia Constituinte de 1988, e um dos mais significativos exemplos desta expressão de mudança foi a instituição da inédita garantia na história do constitucionalismo brasileiro inserida no art. 5º, LVI, que declara serem proibidas no processo as provas obtidas por meios ilícitos. A crítica da vedação da prova ilícita no processo penal - estudo de casos a alguns julgados da Suprema Corte Americana refere-se a não aplicabilidade das decisões desses julgados pelos magistrados no Brasil. Nos EUA, a Constitucional é principiológica, com uma democracia consolidada há mais tempo que no Brasil, a nossa Constituição é uma norma-regra, ou seja, os direitos dos cidadãos são tutelados e protegidos contra abusos Estatais, vedado à aceitação de prova ilícita no ordenamento jurídico. A índole de preservação da segurança jurídica previamente à atuação jurisdicional do Estado ante as possíveis atuações arbitrárias ou influenciadas por interesses fisiológicos políticos ou econômicos ocasionais, fez o legislador constituinte originário fixar a vedação da prova obtida por meios ilícitos no Brasil a partir da Constituição de 1988 como uma regra e não como um princípio, o que afasta sua exceção em qualquer hipótese onde se busque a relativização desta garantia para justificar a condenação de um cidadão. Conclui-se que a vedação da prova obtida por meios ilícitos na Constituição Federal dos Estados Unidos é um princípio extraído do sistema protetivo dos diretos fundamentais constitucionais, já no Brasil a norma que veda a prova obtida por meios ilícitos é uma regra, é uma prescrição de conduta para os órgãos do estado que não deixa margem para ponderações e exceções para sua aceitação. REFERENCIAS ALEXANDRE, Isabel., Provas ilícitas em Processo Civil. Coimbra: Livraria Almedina, 1998. AVILA, Humberto Bergmann. “Teoria dos princípios da definição à aplicação dos princípios jurídicos”. 6ª Ed. São Paulo: Malheiros, 2006. BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Poderes Instrutórios do Juiz. 6ª Ed. Revista,atualizada e ampliada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros, 1993. ____________________, Constituição do Brasil Interpretada e legislação infraconstitucional. São Paulo: Atlas, 2013. 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A pesquisa consistiu em estudo retrospectivo e observacional com análise de série de casos de pacientes com câncer de pênis submetidos à linfadenectomia inguinal radical em hospital de referência de Teresina no período de 2008 a 2011. Entre os resultados obtidos, a idade média foi de 58 anos, a baixa escolaridade com 35% de analfabetos, e a maioria dos pacientes de cor parda. Em relação aos dados clínicos observou-se a maioria de tumores localizados na glande(55%), estadio III (35%), grau T2(35%), linfonodos N0(55%), grau histológico bem diferenciado(40%) e a prevalência de realização de penectomia parcial somada à linfadenectomia inguinal radical em 55% dos casos.Concluiu-se que a maioria dos pacientes apresentava baixo grau de instrução, o que corrobora a relação entre o câncer de pênis, baixos índices de desenvolvimento socioeconômico e a dificuldade de acesso à saúde. Em relação ao N0 histológico, constatou- se o percentual de 55% de linfadenectomias inguinais não terapêuticas. Dessa forma, faz-se necessário o estudo e a pesquisa de fatores preditivos do acometimento linfonodal, com o intuito de reduzir as linfadenectomias não terapêuticas. Palavras- chave: Pênis. Neoplasia. Linfadenectomia. ABSTRACT The penile cancer is a rare cancer that affects approximately 1/100.000 men in developed countries. The high incidence is observed in developing countries, including Brazil, where it is highest in the north and northeast. The objectives were to analyze the clinical profile of patients with penile cancer who underwent radical inguinal lymphadenectomy and identify the percentage of nontherapeuticlymphadenectomy in those patients with penile cancer. The research will consist of retrospective and observational case series analysis of patients with penile cancer who underwent radical inguinal lymphadenectomy in a referral hospital in Teresina during 2008-2011. Among the results, the average age was 58 years, low education with 35% illiterate, and most patients of mixed race. Regarding the clinical data observed most tumors in the glans (55%), stage III (35%), grade T2 (35%) lymph nodes N0 (55%), histological grade well differentiated (40%) and prevalence of performing partial penectomy added to radical inguinal lymphadenectomy in 55% of cases. It was concluded that most patients had low level of education, which supports the relationship between penile cancer, low levels of socioeconomic development and the difficulty of access to healthcare. Regarding histologic N0, we found the percentage of 55% of non-therapeutic inguinal 1 2 Acadêmico de Medicina da Faculdade Integral Diferencial, Teresina, Piauí. Email: [email protected]. Professor especialista da Faculdade Integral Diferencial, Teresina, Piauí. Email: [email protected] Página 123 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 lymphadenectomy. Thus, it is necessary to study and research of factors predictive of lymph node involvement, in order to reduce non-therapeutic lymphadenectomy. Keywords: Penis. Neoplasia. Lymphadenectomy. INTRODUÇÃO O câncer de pênis é uma neoplasia rara, de caráter mutilante e agressivo, acometendo, principalmente, homens na terceira idade, independentemente de sua origem étnica. Nos países em desenvolvimento são observadas as maiores taxas de incidência desta neoplasia, tendo a Índia taxas 3,32/100.000 habitantes, enquanto no Brasil a taxa de incidência de câncer de pênis é 2,9/100.000 habitantes. (FAVORITO et al., 2008). No Brasil, a frequência do câncer de pênis é variável segundo a região considerada e corresponde a 2% das neoplasias malignas do homem, sendo cinco vezes mais prevalente nas regiões Norte, com 5,3% dos casos, e Nordeste, com 5,7% dos casos, em comparação com as regiões Centro-Oeste, com 3,8% dos casos, Sul e Sudeste, e os maiores índices estão em pacientes maiores de 40 anos de idade (BRUNINI et al., 1982). Entre os fatores de risco para esta neoplasia estão a fimose, principalmente por impedir a exposição da glande por conta do estreitamento do prepúcio; o acúmulo de esmegma; a higiene precária; a falta de informação e os baixos níveis socioeconômicos e educacionais. Além disso, dados epidemiológicos pesquisam a relação entre a infecção pelo HPV e as causas do câncer de pênis. Manifestando-se, comumente, por meio de ferida ou úlcera persistente, ou ainda tumoração localizada na glande, prepúcio ou corpo do pênis, associados à esmegma, a neoplasia pode ser detectada também por meio da presença de gânglios inguinais, diretamente relacionados à metástase. O diagnóstico envolve exame clínico e biópsia. O tratamento depende da extensão dos tumores e envolve a retirada das lesões, podendo ser com postectomia, ou radioterapia, em casos selecionados ou penectomia parcial ou total. Os pacientes que apresentam metástase inguinal devem ser submetidos à linfadenectomia da região afetada. A quimioterapia é indicada nos casos de pacientes com doença avançada. O prognóstico dos pacientes com carcinoma de pênis tem relação com o estadio clínico inicial e o principal indicador de sobrevida é a presença de envolvimento de linfonodos inguinais. Dessa forma, torna- se evidente a investigação da seguinte discussão: qual o perfil clínico de pacientes com câncer de pênis submetidos à linfadenectomia inguinal radical? Quanto às hipóteses de trabalho, destacam-se: a confirmação do perfil clínico dos pacientes com câncer de pênis, sobretudo em relação aos baixos índices socioeconômicos e à idade, e a confirmação da importância da realização da linfadenectomia inguinal radical. Assim, os objetivos do trabalho foram analisar o perfil clínico de pacientes com câncer de pênis submetidos à linfadenectomia inguinal radical e identificar o percentual de linfadenectomias não terapêuticas nesses pacientes com câncer de pênis. Segundo PAULA et al.(2005) algumas dúvidas referentes ao manejo das regiões inguinais permanecem ainda sem resposta. Assim, Vários pacientes são submetidos à linfadenectomia desnecessariamente, enquanto uma parcela dos casos com doença inguinal oculta é colocada em vigilância, retardando-se o tratamento. Dessa forma, se vê a necessidade de fazer este trabalho, possibilitando uma melhor abordagem terapêutica, principalmente no que diz respeito à linfadenectomia inguinal radical. 2 METODOLOGIA A presente pesquisa foi submetida à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade Integral Diferencial (FACID), conforme definido na resolução 466/2012 do Conselho Página 124 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Nacional de Saúde (BRASIL, 1996). Esta pesquisa também obteve autorização do Hospital São Marcos para ter acesso aos prontuários dos pacientes analisados. A pesquisa consistiu em estudo observacional e retrospectivo com análise de série de casos de pacientes com câncer de pênis submetidos à linfadenectomia inguinal radical em hospital de referência de Teresina no período de 2008 a 2011. O universo da pesquisa correspondeu aos prontuários dos pacientes atendidos no Hospital de referência de Teresina com diagnóstico de câncer de pênis confirmados por biópsia submetidos à linfadenectomia inguinal radical no período de 2008 a 2011. Os dados coletados foram idade, escolaridade, cor, estadiamento, a localização do tumor, a abordagem cirúrgica da lesão primária, a presença de linfonodos comprometidos e o tratamento para os mesmos, sendo arquivados em planilhas do programa Microsoft Excel e submetidos à análise estatística descritiva. Para efeitos de análise dos dados do estudo foram utilizado gráficos e técnicas de estatística básica, com percentuais na base 100. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO Entre os pacientes investigados (Gráfico 1) foi constatada a média de idade de 58 anos, sendo 85% com idade superior a 40 anos, 45% com idade entre 41 e 60 anos, 30% entre 61 e 80 anos e 10% com idade superior a 80 anos e apenas 15% dos pacientes apresentavam idade inferior a 40 anos. Favorito et al (2008) apresenta que 78.96% dos pacientes foram mais de 46 anos de idade, enquanto apenas 7,41% eram menos de 35 anos de idade. Neste mesmo sentido, Fonseca et al. (2010) apresenta que a média de idade dos pacientes foi 54,8 anos, e 63,4% dos pacientes estavam na faixa etária entre 41 e 70 anos de idade. Gráfico 1- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação à idade, Teresina- PI, 2012. Fonte: Mendes, 2012. Quanto à escolaridade (Gráfico 2), nenhum dos pacientes investigados alcançou o ensino superior e somente 10% deles apresentava 2º Grau completo. A grande maioria (55%) alcançou somente o 1º grau, sendo que, deste total, 25% tinha este grau de instrução incompleto. Os outros 35% constam como analfabetos. Fonseca et al. (2010) não apresenta dados detalhados sobre o grau de instrução dos pacientes acometidos por esta neoplasia, mas revela que a maioria dos pacientes pertenciam a classes socioeconômicas baixas e com grau de instrução mais baixo. Página 125 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Gráfico 2- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação ao grau de instrução, Teresina- PI, 2012 Fonte: Mendes, 201 A grande maioria dos pacientes (50%) era de cor parda, seguida pelos pacientes de pele negra (30%) e de cor branca (20%). Favorito et al. (2008) apresenta que na sua pesquisa, de 283 pacientes com câncer de pênis, 75.61% eram caucasiano, 22.26% eram negros e apenas 2,12% eram orientais. Raça ou cor não constam como fator de risco determinante para a ocorrência deste tipo de tumor, mas os dados analisados refletem o perfil da própria população piauiense, sobretudo em sua parcela mais carente que é atentida pelo sistema público de saúde do estado. Gráfico 3- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação a raça ou cor, Teresina-PI, 2012. Fonte: Mendes, 2012. Passando para uma investigação mais específica sobre essa neoplasia, iniciamos pela análise da localização do tumor (Gráfico 4). Em 55% dos casos, observou-se o aparecimento de tumor na glande, em 25% dos casos foram encontrados tumores na glande e no prepúcio, em 15% dos casos Página 126 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 os tumores se estendiam por glande, prepúcio e corpo peniano e apenas em 5% dos casos foram identificados tumores somente no corpo peniano. Segundo Fonseca et al. (2010 ), as lesões primárias originadas na haste ou base do pênis representaram 15% dos casos analisados, já as lesões no prepúcio, glande ou ambos representaram 72%. Nas pesquisas de Favorito et al. (2010), os tumores localizados na glande e no prepúcio representaram 73.14% dos casos, em 16,96% o tumor afetou a glande, prepúcio e corpo cavernosa do pênis, em 9,89% casos o tumor afetou o pênis inteiro. Gráfico 4- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação à localização do tumor, Teresina- PI, 2012. Fonte: Mendes, 2012. Ainda nesta análise histopatológica, em relação ao estádio (Gráfico 5), do total de pacientes analisados, 20% apresentaram tumores de classe I, 30% apresentaram tumores classe II, 35% apresentaram tumores de classe III, e 15% apresentaram tumores de classe IV. Gil et al. (2001) acrescenta que a maior parte dos pacientes analisados na sua pesquisaapresentava-se com moléstia localizada, quando vistos da primeira vez, sendo que 65.5% dos pacientes estavam nos estádios I e II de Jackson e 34.5% nos estádios III e IV. Gráfico 5- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação ao estádio, Teresina- PI, 2012. Fonte: Mendes, 2012. Página 127 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Quanto à classificação TNM, foi possível observar que, em relação ao tumor primário (Gráfico 6), a maioria dos pacientes (35%) apresentou estágio T2, seguida pelos estágios T1 com 30%, T3 com 25%, Ta e Tis com 5%, cada um deles. Favorito et al., (2008) apresenta em sua pesquisa que 75.26% dos pacientes apresentou tumores nos estágios T1 ou T2 e apenas 3,18% deles apresentaram estágio 4. Gráfico 6- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação ao tumor primário,TeresinaPI, 2012. Fonte: Mendes, 2012. Já em relação aos linfonodos inguinais (Gráfico 7), dentre os pacientes pesquisados, 55% apresentaram grau N0, 15% apresentaram grau N1, 20% apresentaram grau N2 e 10 % apresentaram grau N3. Gráfico 7- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação aos linfonodos inguinais, Teresina- PI, 2012. Fonte: Mendes, 2012 Assim, tendo como base o percentual de N0 histológico (Gráfico 7), pode-se constatar o percentual (55%) de linfadenectomias inguinais não terapêuticas, ou seja, casos em que os pacientes foram submetidos ao procedimento, mas o anatomopatológico não confirmou o câncer metastático para linfonodos. Relacionando estes dados à presença ou não de linfonodos inguinais palpáveis (Tabela 3), pode-se observar que em 30% do total de pacientes analisados, foram identificados linfonodos Página 128 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 inguinais palpáveis que apresentavam metástase linfonodal (N1, N2 e N3). Tabela 3- Relação entre grau histológico dos linfonodos inguinais e a existência de linfonodos inguinais palpáveis ou não palpáveis entre os pacientes com câncer de pênis, Teresina- PI, 2012. N0 N1 N2 N3 Linfonodos inguinais palpáveis 10% 15% 10% 5% Linfonodos inguinais não palpáveis 45% 0% 10% 5% TOTAL 55% 15% 20% 10% Fonte: Mendes, 2012. Por outro lado, em 15% dos pacientes analisados não foram identificados linfonodos inguinais palpáveis, mas foram encontrados linfonodos comprometidos. Em pesquisas realizadas por Romanelli et al. (2013), dos 33 membros operados, 55% foram estágio clínico N0 e 45% tinham nódulos palpáveis mesmo após a antibioticoterapia. Em 30,3% das linfadenectomias tiveram adenopatias positivas para metástase. Barros et al. (2003) apresenta que aproximadamente 50% dos linfonodos palpáveis não apresentam comprometimento neoplásico e, por outro lado, cerca de 20% dos pacientes sem acometimento linfonodal detectável à palpação apresentam metástases. Estes dados confirmam a indicação de realização de linfadenectomia inguinal bilateral nos pacientes com carcinoma epidermóide para os casos de linfonodos inguinais palpáveis; tumores de alto grau (grau histopatológico II ou III) e estadiamento local avançado (T2 ou superior) (POMPEO et al., 2006). Quanto ao grau histológico (Gráfico 8), 40% dos pacientes analisados nesta pesquisa, apresentavam grau bem diferenciado enquanto 30% apresentavam grau indiferenciado e 30% apresentavam grau moderadamente diferenciado. A literatura consultada mostra que 80,8% dos casos eram bem diferenciados e 19,2% moderadamente diferenciados (WANICK et al., 2011). Gráfico 8- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação ao grau histológico, Teresina- PI, 2012. Fonte: Mendes, 2012. Página 129 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Fonseca et al. (2010) também apresenta que os tumores bem diferenciados representam a grande maioria em diversas séries, variando entre 50% a 70% dos casos; enquanto que as lesões indiferenciadas variaram entre 1% a 10%. Vale ressaltar que o comprometimento ganglionar, os tumores mal diferenciados e a invasão vascular consideram-se indicadores de mau prognóstico no câncer do pênis (FONSECA et al., 2010) Em relação à abordagem cirúrgica (Gráfico 9), a atual pesquisa relaciona 55% dos casos de penectomia parcial somada à linfadenectomia inguinal radical; 45% dos casos de penectomia total somada à linfadenectomia inguinal radical. Wanick et al. (2011) apresenta que dos casos de carcinoma epidermóide , 3 foi submetido a postectomia, 1 foi submetido a excisão simples,1foi submetido a criocirurgia, em 3 casos foram realizados tratamentos químicos locais e em 5 prontuários não foi relatado o tratamento, 16 foram submetidos à amputação parcial do pênis e 5 à amputação total. Gráfico 09- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação à abordagem cirúrgica, Teresina- PI, 2012. Fonte: Mendes, 2012. Analisando a metástase à distância (Gráfico 10), apesar do alto índice de metástases não avaliadas (65%), a pesquisa segue a tendência da literatura e mostra que a maioria dos casos (30%) indica a não ocorrência de metástases à distância. Gráfico 10- Distribuição dos casos de câncer de pênis em relação à metástase à distância, Teresina- PI, 2012 Página 130 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Fonte: Mendes, 2012. Pompeo (1993) ressalta que a avaliação criteriosa dos linfonodos constitui aspecto essencial no prognóstico dos tumores de pênis e que pacientes identificados com metástase à distância têm mau prognóstico e, raramente, sobrevida superior a um ano. Entre 70 % e 80% dos pacientes tem, no primeiro momento, doença restrita ao pênis, 20% dos casos apresentam linfonodos inguinais infiltrados e menos de 5% têm doença sistêmica e metástases à distância. CONCLUSÃO Dentre os pacientes analisados observou-se baixo grau de instrução e que a maioria dos pacientes era proveniente do interior do Estado o que corrobora a relação entre o câncer de pênis, baixos índices de desenvolvimento socioeconômico e a dificuldade de acesso à saúde. Também foi constatada idade média de 58 anos, já bastante relacionada no perfil clínico dos pacientes com esta neoplasia. Em relação ao N0 histológico, constatou- se o percentual de 55% de linfadenectomias inguinais não terapêuticas, casos em que o anatomopatológico não confirmou o câncer metastático para linfonados. Dessa forma, faz-se necessário o estudo e a pesquisa de fatores preditivos do acometimento linfonodal, com o intuito de reduzir as linfadenectomias não terapêuticas. REFERÊNCIAS BARROS, F. D. Linfadenectomia inguinal no câncer de pênis: análise retrospectiva de 34 pacientes tratados no Hospital de Câncer de Pernambuco. São Paulo:Universidade de São Paulo, 2003. BRUNINI, R. (Ed.) Câncer no Brasil: dados histopatológicos, 1976-80. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Câncer, 1982. FAVORITO, L. A. et al. Epidemiologic study on penile cancer in Brazil. Int. braz j urol., Rio de Janeiro, v. 34, n. 5, 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid= S167755382008000500007&lng=en &nrm=iso>. Acesso em: 14 dez 2012. Página 131 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 FONSECA, A. G. et al. Estudo epidemiológico do câncer de pênis no Estado do Pará, Brasil. RevPan-Amaz Saude, Ananindeua, v. 1, n. 2, jun. 2010. Disponível em: <http://scielo.iec.pa.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S217662232010000200010&lng=pt>. Acesso em: 12 dez. 2012. GIL A. O. et al. Analysis of the association between Human Papillomavirus with penile carcinoma.Braz J Urol. 2001. Disponível em: <http://www.brazjurol.com.br/outubro_2001 /Gil_461_468.pdf>. Acesso em: 02 abr. 2013. PAULA, A. A. P. de. et al. 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A Revista tem periodicidade semestral e está aberta à publicação de trabalhos na forma de ARTIGOS, ENSAIOS e RESENHAS, os quais devem falar sobre temas nas áreas da Saúde, Ciências Humanas, Ciências Sociais, Tecnologia, dentre outros, fomentando a análise e reflexão de idéias, experiências e resultados de pesquisas, experiências de vida e manifestações artísticoculturais, contribuindo para o desenvolvimento científico e cultural do País. ARTIGOS – Texto que discute um tema investigado para publicação de autoria declarada, que apresenta título em português e em inglês, nome dos autores, resumo e abstract do texto, palavraschave e key-words, introdução, material e métodos, resultados e discussão, conclusão, referências , apêndices e anexos (opcionais). Serão considerados “artigos de revisão” os textos que discutam temas com base em informações já publicadas. Quando se tratar de artigo de revisão esta deverá ser, preferencialmente, do tipo sistemática e deverá apresentar: título, autor, resumo, palavras chave, abstract, key-words, introdução, discussão do tema com base na pesquisa bibliográfica, conclusão, e referências. O artigo não deve ultrapassar 15 (quinze) laudas. Título - Deve ser conciso, claro e objetivo, evitando-se excesso de palavras ou expressões como: “Avaliação de...,” “Considerações acerca de.....” “Estudo sobre ....”. Deve ter no máximo 15 palavras. Apenas a primeira letra da primeira palavra deve ser maiúscula. Título em inglês - Transcrição do título em português. Nome dos autores - Devem ser apresentados os nomes completos, sem abreviatura, abaixo do título com somente a primeira letra maiúscula, um após outro, separados por vírgula e centralizados. Em nota de rodapé na primeira página deve-se apresentar de cada autor a afiliação completa (Titulação/ vinculação, instituição, cidade e Estado, endereço eletrônico). O número de autores não deverá ser maior que cinco. Os autores pertencentes a uma mesma instituição devem ser mencionados em uma única nota, utilizando o sobrescrito correspondente. Resumo e Abstract - Devem ter no máximo 250 palavras, descrevendo o objetivo, material e métodos, resultados e conclusão em um só parágrafo. O Abstract deve ser a transcrição do resumo. Palavras-chave e key-words - Devem ser no mínimo três e no máximo cinco termos para indexação, que identifiquem o conteúdo do artigo, os quais não deverão constar no título. Para a escolha dos termos para indexação (descritores) na área de saúde, deve-se consultar a lista de “Descritores em Ciências da Saúde – DECS” , elaborado pela BIREME (disponível em http://decs.bus.br) ou na lista da “Mesh-Medical Subject Headings” (disponível em http:// nlm.nih.gov/mesh/mbrowser.html). Introdução - Deve ser compacta e objetiva, definindo o problema estudado, demonstrando sua importância e lacunas do conhecimento que serão abordadas no artigo. As citações presentes devem ser atualizadas e pertinentes ao tema, adequadas à apresentação do problema, sendo empregadas para fundamentarem a discussão. Os objetivos e hipóteses deverão ser contextualizados nesta sessão. Não deve conter mais de 550 palavras. Página 135 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Material e Métodos - Os métodos bem como os materiais devem ser detalhados de modo que possam ser confirmados, incluindo os procedimentos utilizados, universo e amostra. Indicar os testes estatísticos utilizados. As questões éticas devem ser apresentadas nesta sessão. Resultados e Discussão podem conter figuras e/ou tabelas, contudo os dados nesta forma não devem ser repetidos no texto. Os resultados devem ser apresentados em uma sequência lógica. As tabelas e figuras devem trazer informações distintas ou complementares entre si. Os dados estatísticos devem ser descritos nesta sessão. A discussão deve ser pertinente apenas aos dados obtidos, evitando-se hipóteses não fundamentadas nos resultados. Deve-se relacionar-se aos conhecimentos existentes e aos apresentados por outros estudos relevantes. Deve, sempre que possível, incluir novas perspectivas de pesquisas. Conclusão - Deve estar fundamentada nas evidências disponíveis e pertinentes ao objeto de estudo. As conclusões devem ser claras e precisas. Deve-se relacionar os resultados obtidos com as hipóteses apresentadas. Podem ser apresentadas sugestões para outras pesquisas que complementem o estudo ou para outros problemas surgidos no desenvolvimento. Referências - O artigo deverá apresentar no máximo 25 citações, sendo a maioria, preferencialmente, em periódicos dos últimos cinco anos. No caso de artigos de revisão, deverão ser apresentadas no máximo 35 citações. Devem incluir todos os autores referenciados no texto. Apêndice - Informações complementares produzidas pelo autor, como o questionário aplicado, termo de consentimento livre e esclarecido, roteiro de entrevistas. É opcional. Anexos - Informações complementares, como documentos e ilustrações, retiradas da bibliografia. Ítem opcional. ENSAIOS – Texto que expõe estudos realizados com as conclusões a que se chegou. Pode ser de caráter informal, no qual se destaca a liberdade e emoção criadora do autor e pode ser caracterizado como formal, onde a brevidade, serenidade e o uso da primeira pessoa podem ser utilizados. Neste tipo de publicação é marcante a presença do espírito problematizador, sobressaindo o espírito crítico e a originalidade do autor. Deve apresentar temas atuais e de interesse coletivo. Pode ter até 10 (dez) páginas. RESENHAS – resumo crítico de livros publicados ou no prelo que podem suscitar no leitor o desejo de ler a obra integralmente. Este texto deve ter, no máximo 5 laudas e deve ser escrito informando o título da obra, nome completo do autor, editora e ano publicado. Instruções aos Colaboradores 1 Os trabalhos devem ser preferencialmente inéditos e redigidos em língua portuguesa, sendo seu conteúdo de inteira responsabilidade dos autores. 2 Os textos para publicação devem ser acompanhados de uma correspondência ao Editor solicitando que o texto seja publicado. Uma vez recebidos, os textos serão submetidos à apreciação do Conselho Editorial e dois conselheiros, no mínimo, decidirão sobre sua aprovação para publicação, podendo ocorrer que o texto seja devolvido ao seu autor para alterações e/ou correções. 3 O texto deve ser digitado na fonte Times New Roman tamanho 12, espaço 1,5 entre linhas, margens superior e esquerda de 3 cm, margem inferior e direita de 2 cm, papel formato A-4. No resumo e abstract o espaçamento deverá ser simples. Página 136 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 4 As tabelas para apresentação de dados devem ser numeradas consecutivamente com algarismos arábicos, encabeçadas pelo título, com indicação da fonte após a linha inferior. Todas as tabelas inseridas devem ser mencionadas no texto. O texto deve ser em fonte Times New Roman, estilo normal e tamanho 12. 5 Para a inserção de ilustrações (quadros, gráficos, fotografias, esquemas, algoritmos etc), deve-se numerá-las consecutivamente com algarismos arábicos, com indicação do título na parte superior e da fonte após o seu limite inferior e indicadas no texto em que devem ser inseridas. Gráficos, fotografias, esquemas e ilustrações devem ser denominados como figuras. O texto deve ser em fonte Times New Roman, estilo normal e tamanho nove. Devem ser inseridas logo abaixo do parágrafo em que foram citadas pela primeira vez. As figuras agrupadas devem ser citadas no texto como: Figura 1A; Figura 1B; Figura 1C; etc. As figuras devem ter no mínimo 300dpi. 6 As citações no texto devem ser organizadas de acordo com as normas vigentes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT - 10520) - formato autor-data. 7 A lista de referências deve ser organizada em ordem alfabética e de acordo com as normas ABNT – 6023 (espaço simples entre linhas e um espaço simples entre uma referência e outra). Modelos de referências bibliográficas Livros (um autor) SOARES, L. S. Educação e vida na República. 4.ed. São Paulo: Letras Azuis, 2004. Livros (dois autores) ROCHA, B.; PEREIRA, L. H. Cuidando do enfermo. São Paulo: Manole, 2001. Livros com mais de três autores POUPART, J. et al. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Rio de Janeiro: Vozes, 2008. Capítulos de livros OLIVEIRA, A. A. S. de; VILLAPOUCA, K. C. Perspectivas epistemológicas da bioética brasileira a partir da teoria de Thomas Kuhn. In: GARRAFA, V.; CORDÓN, J. (Orgs.). Pesquisa em bioética: bioética no Brasil hoje. São Paulo: Gaia, 2006. p.35-50. Artigos de periódicos empressos com mais de três autores PEREIRA, Q. L. C. et al. Processo de (re)construção de um grupo de planejamento familiar: uma proposta de educação popular em saúde. Texto e Contexto Enferm, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 320-5, abr/jun. 2007. Teses ABBOTT, M.P. Modificações oxidativas de proteínas em presença de complexos de cobre(II). 2007. 130f. Tese de doutorado (Programa de Pósgraduação em Química) Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Artigo de jornal assinado DIMENSTEIN, G. Escola da Vida. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 jul. 2002. Folha Campinas, p. 2. Artigo de jornal não assinado FUNGOS e chuva ameaçam livros históricos. Folha de São Paulo, São Paulo, 5 jul. 2002. Cotidiano, p. 2. Página 137 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Artigo de periódico formato eletrônico VRAKEN, M. V. Prevention and treatment of sexuality transmitted diseases: an updates. American Family Physican. v. 76, n. 12, p. 1827-1832, dez. 2007. Disponível em: < www.aafp.org/afp>. Acesso em: 29 de março de 2010. Decretos, Leis BRASIL. Decreto n. 2.134, de 24 de janeiro de 1997. Regulamenta o art. 23 da Lei n. 8.159, de 8 de janeiro de 1991, que dispõe sobre a categoria dos documentos públicos sigilosos e o acesso a eles, e dá outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, n. 18, p. 1435- 1436, 27. jan. 1997. Seção 1. Constituição Federal BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Trabalho publicado em Anais de Congresso MARTINS, I. S.; SILVA FILHO, F. J. V.; ALVES NETO, F. E. Abordagemcirúrgica em ginecomastia gigante em pseudo-hermafrodita masculino. In: I JORNADA DE MEDICINA DA FACID, 2005, Teresina. Anais da I Jornada de Medicina da FACID. Teresina, Gráfica do Povo, 2006, p.212. 8 Acompanha o texto uma folha com o título e nome completo do autor e/ou autores com a filiação profissional e a qualificação acadêmica do(s) autor(es), os endereços postal e eletrônico, inclusive o telefone (folha modelo). 9 O original do trabalho a ser publicado deve ser entregue em uma via impressa e em CD (processador Word for Windows), pelos correios ou via e-mail: [email protected]. Ao Conselho Editorial é reservado o direito de publicar ou não o trabalho. 10 A publicação do trabalho não implicará na remuneração de seus autores. O autor responsável pela submissão do artigo receberá um exemplar do fascículo por artigo publicado. 11 A revista não se obriga a devolver os artigos recebidos, publicados ou não. 12 O artigo a ser publicado deve ser entregue na FACID. O autor responsável pela submissão do artigo deverá anexar e assinar os seguintes documentos: Declaração de Responsabilidade e Transferência de Direitos Autorais. Página 138 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 Modelos de páginas (em separado) que devem acompanhar o artigo Página 139 Revista FACID: Ciência & Vida, Teresina, v. 9, n. 2, Setembro 2013 OBS: As submissões que não atenderem às normas acima apresentadas não serão encaminhadas para análise dos consultores, sendo imediatamente recusadas para publicação na Revista FACID Ciência & Vida. Conselho Editorial da Revista FACID Ciência & Vida A/C Esp. Cyntia Maria de Miranda Araújo Rua Veterinário Bugyja Brito, 1354 - Horto Florestal. Cep: 64049-410/ Teresina-PI. Email: [email protected] Página 140