IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do
Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP)
de 05 a 08 de Novembro de 2013
ISSN 1984-9265
Do presente miscigenado ao futuro embranquecido: a participação brasileira na Feira
Internacional de Nova York- 1939/19401
Carolina Vieira Pelegrini
Mestranda em Relações Internacionais
da Universidade de Brasília, UnB
Introdução
O presente estudo discute por meio da investigação da participação brasileira na Feira
Internacional de Nova York de 1939/1940, a projeção da cultura brasileira e seu papel na
política externa do Brasil. A análise se concentra nas ideias de miscigenação e
branqueamento, debatidas pela intelectualidade brasileira e incorporadas pelo Estado Novo no
sentido de construção de uma identidade nacional.
Para tal, o estudo é divido em três partes: na primeira, apresenta-se parte do debate a
respeito da cultura nas relações internacionais tomando como ponto de partida o conceito de
diplomacia cultural. A segunda é dedicada à análise do processo histórico de construção da
ideia de miscigenação e branqueamento assim como a relação destas com a formação de uma
identidade oficial da nação. Por fim, expomos o estudo de caso em questão para avaliarmos e
debatermos a hipótese de que a participação brasileira no referido evento esteve relacionada
ao ideal de branqueamento e miscigenação da população brasileira.
Pensando a cultura nas Relações Internacionais
Abordar a cultura na história da política externa implica pensar, no âmbito dos estudos
em Relações Internacionais (RI), na reflexão que a própria disciplina construiu a respeito da
variável cultural em seus desdobramentos teóricos. Embora no caso do presente estudo não se
intente comprovar uma teoria, como é prática corrente nos estudos de política externa e
relações internacionais, é necessário abordar algumas perspectivas sobre a cultura nas
relações internacionais. Isso se faz necessário, principalmente, para esclarecermos o conceito
1
Este trabalho é um resumo de dissertação ainda em processo de conclusão sob a orientação da Prof.Dra.
Norma Breda dos Santos.
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de cultura adotado pela pesquisa, pois é por meio dessa reflexão que o objeto de estudo se faz
inteligível.
Não convém aqui, tanto em função dos objetivos como em função da narrativa,
construir um histórico exaustivo a respeito da teoria das RI. Seria um desvio do foco cujo
intuito é concentrar-se na questão cultural em sim mesma. Ou seja, é mais enriquecedor,
tanto2para o presente trabalho, como para o leitor, apresentar e tomar contato com a produção
acadêmica que analisa as questões culturais e como esta serve de suporte para o estudo aqui
desenvolvido.
Num primeiro momento, gostaria de tecer algumas considerações sobre aquilo que é
definido como diplomacia cultural. O conceito é importante para o estudo de caso, porém, não
exaure a complexidade do tema, não é suficiente para abarcar os objetivos, como veremos
adiante. Para Edgar Telles Ribeiro (2011) a diplomacia cultural é o uso da cultura em prol dos
objetivos do Estado, sejam estes políticos, comerciais, econômicos ou de cooperação. Neste
sentido, a divulgação ou projeção da cultura de um Estado para o exterior ou
internacionalmente, serve como suporte, adquirindo um caráter até mesmo estratégico, para a
aquisição de demandas internas. Postura semelhante é adotada pelo também diplomata Ljuben
Tevdovski (2009) para quem a cultura, enquanto ferramenta da diplomacia, não apenas pode
fornecer o caminho para o atendimento de determinadas demandas, como, e principalmente,
favorecer o entendimento entre os povos, contribuindo assim, para a estabilidade e a paz.
Depreende-se dos autores acima citados, e este é ponto crucial de ambas as posições,
que o maior ganho oriundo da diplomacia cultural é a compreensão entre os povos e, dessa
forma, uma maior colaboração e fraternidade entre as diferenças uma vez que o contraponto
alteridade/identidade permite, por meio da superação do estranhamento entre diferentes
culturas, a sua consequente aceitação. Trata-se assim, de por meio da cultura, conhecer o
outro e estabelecer o entendimento. Ainda, a cultura funcionaria como “arma” de influência,
ou seja, divulgando ideias, valores e símbolos da cultura nacional, a capacidade dos Estados
de influenciar a cena internacional, aumentaria.
Ribeiro (2011), entretanto, diferencia diplomacia cultural de relações culturais
internacionais. A primeira estaria diretamente vinculada ao Estado, possuindo o caráter de
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propaganda e seria conduzida pelos agentes estatais. Já a segunda, abarcaria outros agentes
além do Estado e estaria voltada a criação de laços de cooperação e amizade. Esta
diferenciação é questionada por Mônica Herz (1987), que percebe esta distinção como
insuficiente para explicar os projetos culturais dos Estados. Isto porque a cultura não pode ser
tratada, para a autora, apenas a partir de uma perspectiva funcional frente aos demais pilares
das RI. Isso implica pensar a cultura em termos mais amplos, sua presença nas RI vai além da
atuação do Estado e de seus objetivos, ultrapassa, inclusive, a esfera de ação coletiva da
sociedade civil uma vez que a própria cultura já está inserida na ação dos agentes das relações
culturais e na política cultural. Aqueles que formulam e atuam no intento de estabelecer
relações e políticas culturais, são definidos pela própria cultura. Por isto, Herz pensa as
relações culturais de forma mais complexa: a projeção e disseminação de valores e sistemas
simbólicos entre diferentes culturas não produz, na verdade, uma sociedade global mais
homogênea, tampouco mais cooperativa, pois no contato entre culturas as diferenças são
produzidas e reproduzidas.
Em Searching for a Cultural Diplomacy, Jessica Gienow-Hecht e Mark Donfried
(2011), apresentam um esforço voltado a explicitar os conceitos de diplomacia cultural e
relações culturais internacionais, facilmente confundidos. Para os autores, as duas práticas se
diferenciam tanto em relação aos agentes responsáveis por sua execução, como nos resultados
adquiridos. A diplomacia cultural seria exercida pelo Estado com intuitos propagandísticos
cujos objetivos iriam além dos interesses meramente culturais, atingindo outras esferas, como
a econômica e política, e como tal, seria menos eficiente, posto que percebida pelos receptores
em seu sentido de propaganda, ou seja, algo que oculta aspectos da realidade e exalta outros,
criando assim, uma imagem propositalmente falseada daquele Estado que se pretende
propagandear.
Por sua vez, as relações culturais internacionais por serem promovidas por entidades
civis, organizações não governamentais e pela circulação de pessoas, não contando com a
participação estatal, trariam melhores resultados, sobretudo em termos de cooperação, uma
vez que estimulariam trocas culturais mais consistentes e genuínas já que não vinculadas à
propaganda, permitindo, dessa forma, uma melhor compreensão entre os povos (DONFRIED;
GIENOW-HECHT:2011).
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Para os efeitos do presente trabalho duas questões ressaltam da bibliografia aqui
exposta e impõem o questionamento de alguns de seus pressupostos, pois dizem respeito ao
que se entende por cultura e a como a cultura é percebida ou definida pelos agentes que atuam
na diplomacia cultural. Ora, os autores citados, de maneira geral, conceituam cultura em seu
sentido mais amplo, como os modos de ser e de viver de um determinado povo. Isto implica
dizer que a cultura é coletivamente aceita e compartilhada, isenta de contradições internas e
que, tampouco, essas contradições são perceptíveis quando a cultura é projetada para o
exterior. Muito superficialmente se pensa a cultura, quando utilizada pelo Estado, como uma
construção, como a adoção pelos agentes estatais de algumas peculiaridades ou
particularidades culturais de acordo com o que estes pensam ser adequado e de acordo com as
próprias visões que tais agentes possuem de sua própria cultura. A cultura é praticamente
colocada como um elemento dado.
Em segundo lugar, há um foco direcionado ao aspecto lúdico, artístico e educacional
da cultura, ou seja, as representações literárias, musicais, linguísticas, as ações de educadores
e instituições educacionais, que se confundem com erudição ou conhecimento, enfim, com o
ser culto, servindo, obviamente, como estratagemas de divulgação de valores e ideias, mas
não propriamente definidores de uma ideia de cultura. Ou seja, deixa de ser abordada a
definição, por aqueles que praticam a diplomacia cultural ou as relações culturais, do que é o
“nós”, pois não se pensa a própria cultura como o próprio outro, ou seja, nós somos outro
também dentro de nossa própria teia cultural. Devemos perguntar, a nosso ver, quem é esse
“nós” que projetamos? De quem, afinal, estamos falando? Quem, enfim, estamos projetando
ou divulgando externamente?
Essa pergunta esclarece, portanto, que os pressupostos da diplomacia cultural ou das
relações culturais, como aqui apresentados, se revelam insuficientes para guiar o estudo. São
perspectivas complementares, as quais definitivamente agregam argumentos e solucionam
parte das questões, mas que não esgotam completamente os objetivos do trabalho, como será
apresentado a seguir. Em contrapartida, diante do exposto, penso que abordar a questão racial
por meio de uma narrativa histórica de um estudo de caso, como proposta de estudo, é um
caminho promissor para desvendar quem fomos este “nós” e qual “nós” mostramos para o
mundo na Feira Internacional de Nova York de 1939/1940 com o intuito de compreender o
papel da cultura na política externa brasileira.
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Adoto aqui parte da perspectiva de Mônica Herz apresentada anteriormente, mas
penso que é possível ainda ir mais além e como propõe Akhil Gupta e James Fergunson
(1997), expor uma visão mais sofisticada de cultura. Gupta e Fergunson (1997) obervam que
a ideia de cultura geralmente pressupõe a adequação desta a um território integrado e
contínuo, numa divisão espacial aparentemente desprovida de problemas e pouco
problematizada, ou seja, a ideia de cultura liga-se a ideia de Estado, territorialmente definido
de forma que essa configuração proporciona a formação de nações independentes e culturas
autônomas. Os autores problematizam as relações entre espaço e cultura. A tese é de que
desterritorializando a cultura e partindo do pressuposto que o espaço esteve sempre
interconectado, é possível encontrar a produção da diferença assim como as contradições
culturais internas que permitem uma comunidade identificar-se enquanto tal. Para os autores
há uma tendência natural a se relacionar uma cultura a um povo e a um território.
Argumentam que até mesmo para os antropólogos seria complicado dizer com clareza o que é
a cultura americana, por exemplo, dada a diversidade de interações entre diferentes grupos de
um mesmo povo dentro de um mesmo território. Se pensadas como uma unidade, as
associações entre pessoas e lugares são, nesta perspectiva, colocadas como sólidas,
compartilhadas e aceitas quando, de fato, são contestadas, incertas e fluidas, afirmam Gupta e
Fergunson. Portanto, faz-se necessário questionar a unidade do “nós”.
Para Gupta e Fergunson (1997) a análise da cultura nas relações internacionais deve
modificar o enfoque da pergunta que orienta a pesquisa. Isto significa ter a alternativa de, ao
invés de observarmos e questionarmos um mundo ordenado por povos e culturas diferentes já
pré-estabelecidos, olharmos para um conjunto de relações de produção da diferença capaz de
produzir uma análise que, de um estudo que apenas justapõe diferenças preexistentes parte
para outro que explora a construção das diferenças no processo histórico. De maneira que a
cultura e o espaço não podem ser tomados como elementos dados, seu processo de construção
sócio política deve sempre ser considerado.
Compreendemos aqui, a cultura como um processo historicamente construído que
fornece identidade a um determinado grupo que compartilha dos mesmos valores, ideias e
símbolos, sem, entretanto, confundir a cultura com o povo ou com o Estado. A identidade
estará sempre contraposta à diferença a qual é também historicamente construída e pode
ocupar o próprio interior de um mesmo Estado não sendo apenas percebida além das
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fronteiras. O que implica dizer que o Estado pode unificar as diferenças internas, ao invés de
pensarmos o Estado como a instância última de uma cultura unificada, de uma identidade
coletivamente compartilhada e aceita.
Diante disto, orientaremos a pesquisa em duas direções: os preceitos da diplomacia
cultural servirão para analisar os interesses específicos da representação brasileira na Feira
Internacional de Nova York; por sua vez, a ideia de cultura adotada aqui é útil para
explicarmos o processo de construção da imagem brasileira pela representação no evento
assim como as contradições que essa imagem revela sobre a realidade interna dos anos 1930
no Brasil no que diz respeito à questão racial, ou seja, o processo de construção da diferença
no Brasil e a projeção de uma suposta unidade racial para o exterior.
Miscigenação e branqueamento no Brasil: da inviabilidade do Estado à formação da
identidade nacional
O pensamento sobre a miscigenação e o branqueamento no Brasil pode ser divido em
dois grandes momentos onde, em linhas gerais, prevalecem posturas distintas e opostas. Em
fins do século XIX e início do século XX, predominou a perspectiva, encontrada em autores
como Nina Rodrigues e Silvio Romero, que dava a miscigenação um caráter negativo que não
apenas denegria o indivíduo brasileiro como punha em cheque a possibilidade de
consolidação de um Estado desenvolvido e civilizado. Num segundo momento, que tem como
marcos, o movimento Modernista e a obra Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, a
miscigenação é resignificada e perde seu tom pejorativo, passando a caracterizar o brasileiro
de forma positiva e a ser utilizada pelo Estado como discurso de coesão social e de
fortalecimento do mesmo. Há assim, uma inversão no pensamento sobre a miscigenação, uma
resignificação, a qual, no entanto, não implica a ausência de conflitos raciais e de
preconceitos.
Para autores como Silvio Romero e Nina Rodrigues, cada qual a sua maneira, a
miscigenação era um problema, até mesmo um fardo nacional, que necessitava ser resolvido.
Isto porque viam na mistura das três raças formadoras do homem brasileiro, a justificativa do
atraso do país. Ancorados por teorias evolucionistas, pelo racismo científico do século XIX
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que tratava as diferenças entre as raças humanas com argumentos biológicos e propagava a
ideia de superioridade da raça branca sobre as demais, parte da intelectualidade brasileira
incorporou tais teses estrangeiras para explicar a realidade e a formação do povo brasileiro.
(SCHWARTZ: 1993)
A adoção desses pressupostos deu a miscigenação uma interpretação demasiadamente
negativa. Para tais autores o contato entre as três raças, negros, brancos e índios, resultou na
formação de um indivíduo cujas características advinham daquilo que era considerado,
preconceituosamente, como natural do indivíduo negro e indígena. Preconceituosamente,
porque era dada a estas raças a responsabilidade pelos “defeitos” da população brasileira,
personificada no mulato: preguiça, insolência, desobediência, luxúria, inaptidão ao trabalho,
entre outras. O elemento branco, representado pela figura do colonizador, oferece aquilo que
salva: tanto o gene capaz de embranquecer a raça, como por meio desse processo, a salvação
nacional já que ligado à ideia de civilidade ( RODRIGUES: 1938; ROMERO: 2001).
A reflexão sobre a miscigenação não apenas voltava-se à definição do homem
brasileiro, como estava vinculada à ideia da viabilidade do Estado. Questionava-se se um país
com uma população miscigenada seria possível, se um país com tais características poderia
direcionar-se ao progresso e a civilização, compreendida então nos moldes e parâmetros da
civilização branca ocidental. A resposta dada pelos pensadores do Brasil do século XIX era
negativa, até mesmo pessimista, e o Brasil, enquanto Estado, apenas uma possibilidade futura,
um ideal a ser imaginado e elaborado no presente daquele momento. Restava ao Brasil e ao
seu povo, para sua própria sobrevivência, legitimidade e viabilidade, embranquecer. Para
autores como Nina Rodrigues e Silvio Romero, diz Renato Ortiz (1994), a mestiçagem é
apresentada como um dilema uma vez que é dela que deve ser extraída uma identidade
nacional. A mestiçagem é, ao mesmo tempo, real e simbólica, se refere às condições concretas
da construção do brasileiro, históricas e sociais, e representa a construção de uma
nacionalidade, de uma identidade nacional.
Esta perspectiva passa a ser questionada ao longo da década de 1920, com o
movimento Modernista, e sofre uma resignificação, que se consolidará ao longo dos anos
1930, onde a miscigenação, de problema passa a ser louvada. Os problemas brasileiros,
anteriormente oriundos de sua formação racial, passam a ser analisados como problemas
sociais, ou seja, não é mais a raça que define a condição do homem, mas as condições sociais
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nas quais este homem se insere que definirão sua situação. A solução não é mais, em tese,
tornar o indivíduo brasileiro branco, a solução é educar, sanear, higienizar a sociedade,
oferecer os meios para que os sujeitos construam o próprio progresso e, consequentemente, o
progresso do Estado (SKIDMORE: 2012).
A principal obra que repensa e resignifica a miscigenação oferecendo a ela um sentido
positivo e de exaltação da identidade brasileira, Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre
(2006), publicada em 1933, é um estudo sobre o processo de miscigenação no Brasil que
constrói a ideia de democracia racial. Segundo Ortiz (1994), Gilberto Freyre, ao substituir a
ideia de raça pela de cultura, interpreta o contato entre as três raças formadoras do mestiço
como um contato entre culturas onde a assimilação, a troca e o sincretismo, constroem uma
nação onde o que prevalece é a chamada democracia racial.
Gilberto Freyre (2006), por meio do conceito de luso-tropicalismo, analisa a adaptação
do colonizador português no Brasil e sua maleabilidade ao tomar contato com negros e índios,
apesar destes últimos não serem tão profundamente abordados na referida obra. O contato
entre a casa grande e a senzala se deu, para Freyre, de maneira tão íntima e direta que ambas
as culturas, portuguesa e africana, sofreram processos de assimilação cultural gerando a
cultura nacional. Freyre chega a esta conclusão por meio do estudo dos hábitos alimentares,
religiosos e sexuais, por exemplo. A senzala complementaria a casa grande gerando como
consequência sociocultural, a miscigenação. Outro fator que desponta da tese de Freyre é o
mito do bom senhor e do escravo submisso, ou seja, nas relações inter-raciais e interculturais
brasileiras, o conflito não teria predominado, mas sim uma espécie de assimilação pacífica
das diferentes culturas.
O negro para Gilberto Freyre (2006) não é aquele que degenera a raça, pelo contrário,
ele contribui para a sua formação, complementa o homem branco, influencia-o, dá a ele
costumes e características que são suas e, ao mesmo tempo, incorpora a cultura portuguesa.
Isso gera um homem novo, o brasileiro, o mestiço, que carrega em si o exemplo de tolerância
racial e a capacidade de construir nos trópicos, uma civilização.
A miscigenação passou assim por um processo histórico que lhe conferiu sentido
transformado e resignificado ao longo do tempo. Da ideia de degeneração da raça, de mal da
nação, motivo de atraso, desenvolvida em fins do século XIX, início do XX, sustentada pelas
teorias evolucionistas, passa-se à positivação da miscigenação nos anos 1930 a qual, por sua
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vez, oculta os conflitos raciais e preconceitos existentes na sociedade brasileira. Este
pensamento que caminha da necessidade de branqueamento à democracia racial, é construído
pela elite intelectual brasileira. Parte significativa desta elite ocupará as instituições brasileiras
ao longo dos anos 1930 e durante o Estado Novo levando às instâncias do poder perspectivas
sobre as raças e a formação nacional.
Deste breve histórico sobre a miscigenação do Brasil há uma continuidade nesta
ruptura da degeneração para a valorização, do branqueamento para a democracia racial: a
vinculação entre a miscigenação e a identidade nacional, entre a miscigenação e a nação.
Como observam Ortiz (1994), Schwarcz (1994) e Oliveira (1982) os ideólogos da
miscigenação e do branqueamento, assim como os intelectuais que ocuparam as esferas do
poder, preocupavam-se em definir uma identidade brasileira. Esta identidade quando ligada à
miscigenação simbolizava uma unidade. Ao definir quem eram os brasileiros, esta
intelectualidade visava também dizer o que era o Brasil e se, tendo um povo formado por
mestiços, o Brasil seria capaz de construir uma civilização e se tornar um Estado viável.
Nestas circunstâncias a miscigenação se torna a construtora da identidade nacional se
não a própria identidade. O que se transforma ao longo do debate que aqui apresentamos é o
valor dado à miscigenação: da degeneração à regeneração, da depreciação à valorização, de
uma nação possível e imaginada a uma nação real.
Os anos 1930 são marcados por transformações políticas e sociais que se expressam
no mundo das ideias e que, em contrapartida, incorporam estas novas ideias, dando a elas um
status de posição oficial da nação, definindo assim, a identidade nacional. Os intelectuais se
definem como porta vozes desta nova identidade dos anos 1930. São eles, em virtude de sua
formação, aqueles considerados capazes de guiar a nação. De certa forma, os intelectuais se
colocam acima da grande massa, responsabilizando-se, quase num sentido missionário, pela
construção desta identidade que define o que é o Brasil (VELLOSO: 1982).
O
nacionalismo
do
Estado
Novo
centralizou
o
país
politicamente
e
administrativamente e construiu uma identidade nacional tomando modelos regionais que
convivem numa visão de um todo unificado e formam um projeto ufanista do Brasil. Os
intelectuais abraçam este projeto porque comungam de duas características básicas do Estado
Novo: um regime que é novo e é nacional, daí sua inserção nas esferas do poder e a
convivência de ideologias diferentes dentro de um mesmo projeto de país. A centralização é
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assegurada de tal forma pelo Estado que os regionalismos e a diversidade de posições não
ameaçam o todo, pelo contrário, reafirmam e corroboram a diversidade. O Estado Novo
articulou cultura e política fazendo da produção, realização e incentivo de bens culturais uma
atividade do Estado. Trouxe assim, intelectuais com posições distintas para o mesmo debate,
operando num nível ideológico, explicando o passado e o presente de maneira a legitimar o
sistema político e orientar os cidadãos. Esta articulação deixou marcas na cultura brasileira e
interferiu no processo de socialização das gerações que se seguiram ao Estado Novo,
sobrevivendo, dessa forma, ao próprio regime. Dos anos 1920 ao Estado Novo aproximações
sucessivas entre intelectuais e política definem uma identidade nacional baseada na tradição e
no ideal de modernização, identidade esta que também utilizará dos argumentos que tratam a
formação do homem brasileiro, a miscigenação e a diversidade cultural, como uma de suas
diretrizes (OLIVEIRA: 1990).
No Estado Novo, os intelectuais não apenas rompem com o ideal de que, por serem
aqueles que pensam a sociedade devem estar distanciados da práxis política para serem
capazes de criticá-la, explicá-la e decifrá-la, como criam uma relação simbiótica com o Estado
porque passam a falar em nome da sociedade e a expressar os anseios da mesma. Isto porque
percebem que o conhecimento sobre a singularidade e especificidade da cultura de uma nação
é o que permite a criação de suas instituições (OLIVEIRA: 1999). O pensamento intelectual,
diverso, é unificado pelo Estado e utilizado por ele em vias de criação de uma identidade
nacional oficial: a miscigenação, apreendida, a partir de então, como aquilo de singular que a
cultura brasileira comporta.
A reflexão intelectual sobre o novo brasileiro, ou a nova brasilidade, materializada na
estrutura política do Estado Novo, passava, obrigatoriamente, pela questão racial. A
argumentação sofre uma inversão: da heterogeneidade como fator de degradação nacional, a
mestiçagem passa a ser vista como o fator de unidade e de originalidade da cultura brasileira.
A formação do homem brasileiro era importante para a definição de uma identidade social,
condição necessária para a construção de um projeto político sob a égide de uma unidade
nacional (VELLOSO: 1982).
O discurso oficial, da miscigenação como característica ímpar da identidade nacional,
convive, entretanto, com políticas eugênicas que são instituídas ao indivíduo negro, ambas
respaldadas pela intelectualidade e por um discurso científico da nascente antropologia
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brasileira que buscava desvincular-se do racismo científico, mas que, entretanto, não deixava
de pensar a questão racial como uma questão científica. Para Olivia Maria Gomes da Cunha
(1999) a coexistência da miscigenação com a eugenia se apresenta no pensamento que divide
o negro enquanto raça constitutiva da nacionalidade e o negro enquanto indivíduo, sujeito a
intervenções científicas, jurídicas e regulações morais. O que a autora nos mostra é que a
miscigenação foi pensada voltada à melhoria do homem. Ao miscigenar-se o homem
brasileiro, e daí a intervenção do Estado nas políticas migratórias, por exemplo, deveria se
misturar com os “melhores tipos raciais”. Neste caso, o negro, enquanto indivíduo deveria ser
melhorado, deveria sofrer intervenções que o tornassem mais qualificado, o que ocorreria por
meio de medidas educacionais e sanitaristas.
Depreende-se daí que o reconhecimento da miscigenação não implicava a noção de
igualdade entre as raças e tampouco, entre os homens. A memória histórica construída a
respeito das raças na formação do homem brasileiro ocultava os conflitos, preconceitos e a
hierarquia social. A Abolição não foi seguida por um processo de inclusão social, igualou os
homens apenas juridicamente dando ao negro a culpa ou responsabilidade por suas “falhas”
dentro do sistema (DOMINGUES: 2005). Ademais, as políticas eugênicas, voltadas ao
aperfeiçoamento da raça, do homem brasileiro, baseavam-se na ideia de uma superioridade
branca, ou seja, cabia ao Estado fornecer ao negro, as condições necessárias à aquisição de
uma “alma” branca.
A miscigenação louvada pelo Estado e incorporada por ele como discurso oficial para
a criação de uma identidade nacional e de um sentimento de nacionalidade, que unificava a
diversidade em torno de um Estado centralizador e autoritário, foi também, ainda que uma
aceitação do passado em si, uma construção voltada a definir um presente e um futuro para o
Brasil. No Estado Novo, a miscigenação é valorizada, é representada como uma característica
positiva da nação que não a prejudica, pelo contrário, simboliza a sua originalidade, as suas
raízes, que baseadas no passado histórico resignificado, permitem a formação de uma nação
viável uma vez que ciente de sua formação, mas é apenas um estágio num longo processo. A
miscigenação, contudo, tem como contraponto, dentro da própria estrutura do Estado, a
eugenia, o branqueamento, compreendido como o processo natural da formação do homem
brasileiro, ainda incompleto. Embranquecer significava não apenas um tom de pele mais claro
adquirido pelo mulato ao longo do tempo, significava também, adotar a cultura branca como
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norte, suas práticas sociais, educacionais, sanitárias e culturais e enfim, assumir a sua
superioridade cultural sobre as demais raças responsáveis pela formação nacional.
Abraçar a miscigenação é, assim, não apenas uma alteração de fato no pensamento
nacional, como um recurso necessário para a própria existência do Estado. Retirar da questão
racial a culpa pelo atraso nacional é, em contrapartida, transferir esta responsabilidade a uma
estrutura política falha, ineficiente, incapaz de gerar o progresso da nação, de maneira que a
nova configuração do poder, o Estado Novo, ganha respaldo e força porque é ela que
solucionará os problemas do país. Além disso, a propagação da ideologia do Estado e a união
do povo em torno da estrutura que lhe é imposta deve carregar um sentindo de pertencimento,
um sentido de nação. A miscigenação aparece então como o conceito que reconhece, une e
aglutina as diferenças, formando uma identidade nacional. A miscigenação é o conceito
construído e utilizado pelo Estado para a definição do “nós”, para a afirmação da cultura e da
identidade nacional.
No entanto, o reconhecimento da diversidade cultural, substituto da ideia de raça como
quer Gilberto Freyre (ORTIZ: 1994), não pressupõe a ausência de conflitos e preconceitos de
ordem racial, nem tampouco, o abandono do ideal de branqueamento. Deixar de definir a
desigualdade entre os homens pelo racismo científico, assumir as diferenças e não usá-las
como argumentos para justificar superioridades raciais, não significa que as culturas negra e
indígena tenham sido consideradas tão civilizadas como a cultura branca.
O ideal de branqueamento (SKIDMORE: 2012) ainda permanece não como
necessidade, mas como consequência, ocupa o corpo e o espírito, ou seja, a cultura civilizada
e moderna que o Brasil pretendia ser era baseada nos modelos da cultura branca ocidental. Os
anos 1930 e o Estado Novo abraçam a ideia de miscigenação como uma característica positiva
e original do Brasil cuja previsão futura é de uma nação cada vez mais branca consequente da
própria miscigenação, corroborando assim, veladamente, uma ideia de superioridade não
muito distante daquela explicitada pelos pensadores do século XIX e que com tanto empenho
os atores políticos e intelectuais do período afirmavam ter rompido. Resta analisar como este
cenário afetou e transpareceu na participação brasileira na Feira Internacional de Nova York.
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O Brasil na Feira Internacional de Nova York: nação miscigenada de futuro
embranquecido
No dia sete de abril de 1940, em seu discurso para a abertura da segunda temporada da
Feira Internacional de Nova York, Oswaldo Aranha, então Ministro das Relações Exteriores
do Brasil, expunha o significado daquele evento assim como os pressupostos da participação
brasileira no mesmo. Dizia o ministro:
A essa parte da humanidade que se acha dividida e entregue à obra da
destruição, as Nações representadas na Feira de Nova York dão o exemplo
do devotamento às conquistas pacíficas do espírito e do desejo de cooperar
que é o segredo das grandes realizações. A ciência, as artes, e os diversos
produtos do gênio humano devem sua existência à cooperação de homens
nascidos em diferentes países e de diferentes raças (...). É pela cooperação e
pela persuasão e não pela violência que a humanidade realizará seu grande
destino. O progresso como resultado de cooperação internacional é uma das
melhores tradições do Brasil e do povo brasileiro. É este o significado da
nossa participação na Feira de Nova York. Possa esse grande
empreendimento produzir os seus frutos, ensinando aos homens a esplêndida
lição da cooperação e da persuasão3.
Um evento da magnitude da Feira de Nova York significava para Aranha, portanto, a
reafirmação dos valores de solidariedade e cooperação arraigados na diplomacia brasileira e
na condução de sua política externa. Aranha revela, entretanto, mais que um clamor pela
persuasão e pela cooperação. Propositalmente ou não, conscientemente ou não, Aranha
desenha e afirma aquilo que conceitualmente é definido como diplomacia cultural.
Retomemos o trecho: A ciência, as artes, e os diversos produtos do gênio humano devem sua
existência à cooperação de homens nascidos em diferentes países e de diferentes raças .
Chama a atenção aqui, a ideia de que a produção humana, a arte, a ciência, a técnica, resulta
da cooperação entre os diferentes. Mais que afirmação de uma identidade do Brasil, o
ministro destaca a cooperação entre desiguais como a produtora do “gênio humano”. Ou seja,
é a conexão entre diferentes culturas, e aqui na fala de Aranha entende-se a cultura vinculada
à noção de Estado e raça, que permite o desenvolvimento da humanidade como uma
totalidade diversa e plural.
3
OA pi Aranha, O 1940.04.07 CPDOC-FGV
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É possível ir ainda mais fundo e considerar o viés material da cultura, adquirido pelos
laços de cooperação estabelecidos na Feira Internacional. Oswaldo Aranha, em seu discurso,
ainda afirma:
Essa participação de todos no progresso comum da raça humana se encontra
não só no domínio do espírito mas também no domínio das cousas materiais.
Tomai como exemplo a tecnologia moderna. Ela se baseia em materiais
supridos por todas as regiões do globo, que um só continente não poderia
fornecer, porque distribuídos por todo o planeta. Não pode haver melhor
exemplo da natureza interdependente da civilização. Poderemos desprezar a
lição que nos dá o próprio mundo material?4
O discurso de Oswaldo Aranha une espírito e matéria. Como espírito compreende-se a
cultura, ou seja, é ela o espírito dos povos. É a cultura que revela aquilo que um povo é.
Interdependentes e diferentes, cada cultura contribui para o desenvolvimento da humanidade.
Por serem interdependentes, há a necessidade de compartilhamento de recursos materiais e
esses, por sua vez, são mais facilmente adquiridos por meio da cooperação e da persuasão.
Infere-se daí, que a cultura, o espírito, serve como recurso para a aquisição do material.
Para além dos interesses matérias e de cooperação destacados por Aranha, convém
questionar o que se compreendia ou se definia, em fins dos anos 1930, como cultura
brasileira, ou o espírito do Brasil, sobretudo em um ponto específico: a raça. Em seu discurso,
Oswaldo Aranha celebra a diferença entre as raças, mas seria esta celebração unânime entre
os atores envolvidos na elaboração da participação brasileira no evento? E mais, a visão
destes atores celebraria as diferenças internas no Brasil? Enfim, se o mundo é formado por
raças diferentes, como as diferenças eram pensadas em relação ao próprio Brasil e como este
pensamento foi projetado na Feira Internacional?
Em nota publicada no dia sete de julho de 1938, quando o Brasil ainda preparava sua
participação no evento, o jornal O Estado de São Paulo abordava o desvirtuamento que a
cultura brasileira poderia sofrer na Feira de Nova York:
4
Ibdem
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Quando o presidente Roosevelt falou por ocasião do lançamento da pedra
fundamental de uma exposição que se abrirá nos Estados Unidos, no ano que
vem, usou palavras e phrases que se estão tornando cada vez mais comuns
nos discursos dos diplomatas e estadistas de hoje, mas que, há pouco tempo,
eram raramente empregadas. Disse: “Nestes dias de vida moderna quando
tantos problemas econômicos e sociais reclamam uma revisão...as
(exposições)...são oportunas e contribuirão para estimular o intercambio
commercial e cultural, tão necessário hoje para o desenvolvimento das
relações entre os povos”.(...) A cultura de um povo, parece, tornou-se o
annuncio, o cartaz, o sinal luminoso que chama a attenção dos compradores
cortejados, não ao povo que vive e faz a cultura assim exhibida, mas sim aos
productos que esse povo tem para vender.
Parece ser uma prostituição da cultura.(...). Mas é da própria essência da
cultura, no sentido em que usamos a palavra, ser desinteressada: falamos
daquilo que synthetisa o melhor de uma civilização, daquillo que é honesto e
sincero e bello na vida de um povo. (...)O emprego da cultura exportada com
fins commerciais e diplomáticos pode, depois de algum tempo, resultar na
constante exportação ou intercambio de culturas de fins culturaes. Se a
presente situação for transitória nenhum mal desse abuso da cultura para fins
não culturaes. O reconhecimento franco da existência dessa nova techinica
diplomática e commmercial é, em si, um grande passo dado para
transformál-a. A cultura-propaganda deixa de ser cultura e perde o valor
como propaganda. Desmascaral-a é a primeira etapa para mudar a culturapropaganda em cultura-cultura5.
A longa nota publicada no referido jornal nos revela reflexões muito pertinentes
quanto ao nosso objeto de estudo. Chama a atenção a expressão “prostituição da cultura” e a
ideia de desvirtuamento da cultura. Isto significa, em primeiro lugar, o uso da cultura para a
aquisição de recursos materiais e em segundo, o sentido de construção de uma imagem que
não é a própria cultura, mas a cultura direcionada para um fim, a propaganda. A sua promoção
não revela exatamente o que é a cultura, mas aquilo considerado atraente ao público
internacional para favorecer a aquisição daquilo que o Estado procura. Este desvirtuamento
não deixou de ser notado na questão racial.
O Brasil confirmou sua participação no evento no dia 26 de agosto de 19376. A
representação brasileira ficou sob a responsabilidade do Ministério do Trabalho, Indústria e
Comércio e do Brasilian Information Bureau (BIB), escritório de propaganda do Brasil
sediado em Nova York. Tanto os funcionários do Ministério como do Bureau informavam ao
5
Intercambios Cultureas in O Estado de São Paulo, edição de 2/07/1938, p.14
Correspondência da Embaixada Brasileira em Washington, Arquivo Histórico do Ministério das Relações
Exteriores (AHMRE).
6
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Ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha7, o andamento dos trabalhos voltados à
construção do pavilhão brasileiro na exposição8.
Em 1938, Francisco Silva Junior, então membro da comissão criada para organizar a
participação do Brasil na Feira Internacional de Nova York e funcionário do BIB, fazia uma
afirmação surpreendente sobre a eventual exibição de obras de Aleijadinho (1730?-1814) na
exposição mundial. Em correspondência endereçada ao então Ministro do Trabalho,
Waldemar Falcão, expunha seus receios frente àquela possibilidade: Evitemos, portanto, que os
nossos folhetos (como no caso do de OURO PRETO) mencionem lepra e obras de um leproso como
atracção de turismo.9
Francisco Silva Junior não era o único a refletir sobre como o Brasil deveria ser
apresentado na Exposição. Em correspondência a Oswaldo Aranha e posteriormente
encaminhada a Armando Vidal, comissário geral do Brasil na Feira Internacional de Nova
York, Octávio Pinto aconselha:
Musica de Folklore. No pavilhão do Brasil penso deverá funcionar uma
orchestra typica nossa e vinda dahi, não composta de negros porem de bons
10
músicos o mais brancos possível .
.
Também em 1938, em correspondência para Oswaldo Aranha, Francisco Silva Junior
mais uma vez expunha seus temores. Desta vez, referentes à mostra do progresso literário,
artístico e científico do Brasil na Feira Internacional. Aparentemente, para o representante do
Brasil junto à organização do evento, não havia muito a ser exibido sobre as artes, as letras e a
7
O próprio Oswaldo Aranha cuidou dos arranjos iniciais para a participação brasileira na Exposição. Carta de
S.Stern à Oswaldo Aranha, 16/03/1938, CPDOC/ FGV, OA cp 1938.03.16.
8
As fontes mais reveladoras sobre a questão racial e comercial discutida ao longo do processo de elaboração do
pavilhão brasileiro e após a sua inauguração são as correspondências entre funcionários da representação
brasileira e Oswaldo Aranha, disponíveis no arquivo do Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil (CPDOC), assim como o Catálogo Oficial do Pavilhão do Brasil na Feira de Nova
York e o Relatório, ambos redigidos pelo Comissário Geral, Armando Vidal. Os telegramas e a correspondência
da embaixada brasileira em Washington mostram os trâmites burocráticos: remessa de verbas, deslocamento de
funcionários, contratação de arquitetos estrangeiros (o arquiteto naturalizado norte-americano Paul Wiener foi o
responsável pela organização dos mostruários do interior do pavilhão) construtores e engenheiros para o
acompanhamento das obras (Abel Ribeiro Filh), assim como os acordos com empresas de comunicação para a
transmissão via rádio da inauguração do pavilhão brasileiro para o Brasil.
9
Carta de Francisco Silva Junior a Waldemar Falcão, 2/3/1938, CPDOC-FGV OA cp 1938.03.16.
10
Carta de Octávio Pinto a Oswaldo Aranha, 09/12/1938, Rio de Janeiro, Correspondência Política Nova
York/Rio de Janeiro Arquivo CPDOC/FGV OA cp 1938.03.16.
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ciência brasileiras e a tentativa de impressionar a comunidade internacional poderia se
transformar em um grande fiasco nacional em um momento em que o Brasil buscava
interesses comerciais no exterior e, mais especificamente, nos Estados Unidos:
Na verdade, as taes sub-comissões ahi já estão tratando de apresentar na
Feira a evolução das letras no Brasil, as sciencias, as artes!Dispenso
comentários, pois o bom amigo percebe o ridículo a que estaremos expostos
se viermos mostrar ao mundo o que gostaríamos de ter e de ser.11
As cartas de Francisco Silva Junior à Oswaldo Aranha e Waldemar Falcão são férteis
na temática racial e sobre como isto poderia ser recebido pelos norte-americanos de maneira
que suas sugestões são elaboradas sempre pensando na recepção do pavilhão brasileiro.
Nomeado chefe do Escritório de Propaganda do Brasil em Nova York (BIB) em decreto de 29
de abril de 1938, Silva Junior chegou à Nova York no início de maio de 1938 com duas
missões importantes: elaborar a participação do Brasil na Feira de Nova York e fazer do
escritório de propaganda algo eficiente e útil para propagandear o Brasil nos Estados Unidos.
Em 14 de julho de 1938 a pedra fundamental da exposição era lançada e no dia
seguinte, a pedra fundamental do pavilhão brasileiro. O jornal O Estado de São Paulo
publicou trecho de telegrama de Getúlio Vargas à Franklin Delano Roosevelt sobre o
episódio12:
Envio a V. Exa. Minhas sinceras congratulações por seu discurso que tão
bem exprime os sentimentos do povo brasileiro, feito por ocasião do
lançamento da pedra fundamental dos edifícios federais da Exposição
Internacional de Nova York. Nessa cerimônia, de grande significado para o
estreitamento das relações entre as nações, V. Exa. reafirmou a Política de
Boa Vizinhança, indicando a necessidade para os povos deste hemisfério de
praticá-la de maneira eficiente e durável no sentido de (...) amizade e maior
entendimento com todos os nossos vizinhos. Envio-lhe a segurança de minha
mais alta consideração e de minha calorosa estima pessoal.
11
12
Carta de Francisco Silva Junior a Oswaldo Aranha, 18/06/1938 CPDOC-FGV OA cp 1938.03.16
O Estado de São Paulo, 14/07/1938, p.2.
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A fala do Presidente Vargas reafirma os pressupostos da diplomacia cultural: estreitar
as relações entre as nações, aprofundar a Política de Boa Vizinhança, favorecer o
entendimento e a amizade entre os povos vizinhos.
Em maio de 1939 era inaugurado o Pavilhão Brasileiro na Exposição de Nova York.
No Catálogo Oficial do Brasil na Exposição, Armado Vidal afirma:
Em conjunto, os mostruários e os interiores se propõem interpretar uma
simfonia da dignidade e cordialidade governantes e a traduzir o caráter
mesmo do “Brasil de Amanhã”, respeitando tradições de onde evolve esse
futuro. A amalgama dessas condições materiais e psicológicas de forma de
desenho, procurando interessar favoravelmente a opinião publica
internacional nos produtos, recursos, atividades governamentais e
possibilidades do Brasil, foi a nossa meta13.
Essa sinfonia de dignidade e cordialidade baseava-se, nas palavras de Vidal, nos
seguintes critérios:
Países considerados de população indígena e negra, excessivamente
tropicais, de “easy and lazy life”. Tais países são responsáveis ou vítimas de
propaganda turística, que tentando atrair visitantes para regiões exóticas,
criam no fundo, para os mesmos, um conceito deprimente; qualquer coisa
para a qual se olha, interessa um momento, mas da qual se guarda uma
impressão de piedade ou desprezo.
Fiz questão, nas decorações e instalações, nas recepções, festas e
solenidades, na apresentação e trato dos funcionários entre si e com o
publico, de manter um cunho de civilização ocidental, de origem e cultura
latinas, acordes com a verdadeira feição tradicional do Brasil.14
A civilização de cunho ocidental, de origem e cultura latinas apresentada pelo Brasil
mostrou ao mundo o que tinha a oferecer, uma cultura miscigenada. O carro chefe dos
produtos foi o café, mas minerais, têxteis, tabaco, cera de carnaúba, entre outros, também
foram apresentados. Nas artes, destaque para os painéis de Cândido Portinari, Noite de São
João, Jangadas do Nordeste e Cena Gaúcha, e a escultura de Celso Antonio, Mulher
13
Catálogo Oficial da Representação do Brasil na Feira Internacional de Nova York CPDOC/FGV VF
061.43.339.52-P.338
14
MACEDO, 2012 apud VIDAL, 1941,p.27.
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Reclinada, artistas do movimento Modernista. Na música, sob a direção e regência do
Maestro Burle-Marx, dois concertos com a participação da cantora Bidu Sayão. Foram
gravados discos para serem distribuídos sob a coordenação musical de Heitor Villa-Lobos e
Francisco Mignone. Na música popular apresentaram-se Romeu Silva, o Bando da Lua e
Carmem Miranda. O pavilhão ainda apresentou aves brasileiras e amostras de sua vegetação,
como as vitórias-régias gigantes colocadas nos espelhos d’água no jardim. Outra grande
atração foi o restaurante. Ao som de samba e com um cardápio de comidas brasileiras que
incluía arroz, salada de palmito e feijoada, o restaurante recebeu e entreteve os visitantes
norte-americanos que puderam experimentar um pouco daquilo que foi exposto como a
cultura nacional.
No entanto, o sucesso do pavilhão não era unânime tendo desagradado parte da
opinião publica brasileira sobre a participação do Brasil no certame. Em longa carta a
Oswaldo Aranha, Décio Moura, diplomata convocado a fazer parte da organização do
pavilhão já quando o processo estava encaminhado, nomeado Secretário Geral e encarregando
do restaurante, rebate as críticas. São muitos os trechos significativos:
III- “Não se tem uma ideia do Brasil e os mostruários são ridículos...” O Sr.
bem sabe o que brasileiro pensa de exposição. As vitrines da rua da Carioca
são o padrão de julgamento...Quanto mais cheias, melhor. Mas eu não
respondo siquer às opiniões dos leigos(...)a opinião de uns turistas bisonhos,
mudos, e que pela primeira vez saem do Brasil, para dizer que tudo no Brasil
é melhor do que nos E.U15
IV- ...não podemos preparar um café completamente “gout brésilien”, uma
vez que é para o americano, que paga. Fazemos um tipo um pouco mais forte
do que o que eles usam, mas certamente, muito mais fraco do que os nossos
patrícios estão acostumados. Por isso, provavelmente, eles acham que o café
não presta16.
O que nós temos tratado de fazer E TEMOS SUCEDIDO, é em sermos
apreciados pelos americanos. O Sr. bem conhece a mentalidade nacional de
não emprenhar e não sair de cima. Criticar é o passatempo nacional. Mas a
Feira, e o dinheiro que o Governo aqui empregou, é para vender o Brasil aos
americanos, e não a um punhado de brasileiros bisonhos que aqui veem,
15
16
Carta de Décio Moura a Oswaldo Aranha CPDOC/FGV OA cp 1939.01.18
Carta de Décio Moura a Oswaldo Aranha CPDOC/FGV OA cp 1939.01.18
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contando os vinténs e com a pretensa esperteza nacional de não se querer
deixar enganar.17
As fontes revelam um cenário complexo: claramente fica explícita a função da
participação do Brasil no evento, buscar e afirmar laços de cooperação, promover produtos,
principalmente o café, fazer-se reconhecido e conhecido no exterior, reafirmar a Política de
Boa Vizinhança, o que perfeitamente se enquadra no conceito de diplomacia cultural. Em
contrapartida é possível perceber que havia: 1) um sentimento de exclusão do Brasil ainda
evidente, o qual segundo Roberto Abdenur (1997) estaria nas raízes da formação nacional,
mas que teria sido superado nos anos 1930; 2) a representação brasileira baseou-se no olhar
do outro, adotando uma postura pragmática em relação aos seus objetivos comerciais, ou seja,
muito do que foi exposto teve como diretriz a perspectiva de ser aceito e de favorecer a
opinião pública internacional para construir uma imagem positiva do Brasil; 3) por fim, e
mais importante, pois se trata de nosso objetivo principal, a representação do Brasil
preocupou-se em apresentar uma cultura latina branca ocidental, o que nos leva a analisar tal
feito sob duas perspectivas não excludentes: é necessário levar em conta o tema da Exposição,
World of Tomorrow, uma projeção do mundo de amanhã. Portanto, quando Armando Vidal
fala de uma cultura latina ocidental, ele tanto recupera no passado a tradição latina brasileira
como a responsabiliza pelo futuro branqueamento da população. Significa dizer que negros e
índios são parte de um processo evolutivo do homem brasileiro, já em processo de superação.
Significa mostrar que apesar de integrantes da cultura brasileira, negros e índios não são o
brasileiro de amanhã, é o homem latino branco ocidental o responsável pela tradição
brasileira, por sua inserção no “mundo civilizado”, assim como pelo seu futuro enquanto país.
Significa afirmar que a miscigenação, enquanto discurso adotado pelo Estado para a
construção de uma identidade nacional, era apenas parte de um processo que levaria ao
branqueamento da população brasileira e que longe estava de uma democracia racial.
Conclusão:
17
Carta de Décio Moura a Oswaldo Aranha CPDOC/FGV OA cp 1939.01.18
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A cultura brasileira foi exposta na Feira Internacional de Nova York de 1939/1940 por
meio da ideia de miscigenação cujo processo histórico de construção passou de um
significado negativo, o qual quando vinculado à viabilidade do Estado condenava-o à
falência, para uma resignificação positiva ao longo dos anos 1930. O novo sentido adquirido
pela miscigenação teve, na figura de intelectuais institucionalizados na estrutura estatal, os
meios de inserção no discurso do Estado que a incorpora como cultura oficial e como discurso
que define a identidade do Estado Novo.
No que se refere à diplomacia cultural, a imagem da nação miscigenada serviu para
firmar laços de cooperação, propagandear o Brasil e divulgar produtos, especialmente o café,
cabendo aí a análise de que, para a política externa do Brasil, a participação do Brasil na Feira
de Nova York voltava-se à aquisição de tais objetivos, inserindo-se assim, no conceito de
diplomacia cultural.
Em contrapartida, pensando a cultura como uma unidade, define-se o “nós” do Brasil:
um país miscigenado. Porém, se desconstruirmos esta unidade e retiramos do conceito de
cultura seu vínculo com um Estado e com um território, como propõe Gupta e Fergunson
(1997), encontramos a produção da diferença: a miscigenação, enquanto discurso oficial do
Estado que define a identidade nacional, oculta o ideal de branqueamento enquanto
perspectiva futura do próprio Estado. Percebe-se assim que a ideia de cultura miscigenada
ocultou a complexidade e as diferenças das relações sociais e raciais do Brasil a fim de
fornecer uma unidade, uma ideia de pertencimento e uma identidade para o Brasil, projetada
na exposição internacional. Divulgou-se a miscigenação, mas esta, em seu bojo, carregava o
ideal de branqueamento e ocultava preconceitos.
Fontes
Arquivo Oswaldo Aranha (AOA), Centro de Pesquisa e Documentação em História
Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC, Rio de Janeiro).
Correspondência Política sobre os preparativos para a participação do Brasil na New York
World’s Fair (1939), Nova Iorque, Rio de Janeiro. De 16.03.1938 a 25.04.1939. 25(62).
Correspondência Secretaria de Estado das Relações Exteriores.
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Discurso irradiado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, em homenagem às Nações
representadas na Feira Mundial de Nova York. Rio de Janeiro. OA pi Aranha, O. 1940.04.07.
1(8folhas) rolo 20 fot. 632 a 633
Correspondência Política sobre a New York World’s Fair. OA cp 1939.01.18. 124 folhas.
ARQUIVO VALDEMAR FALCÃO (AVF), Centro de Pesquisa e Documentação em
História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC, Rio de Janeiro).
Feira Mundial de Nova York. 660:7(22). Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio
Vargas (CPDOC, Rio de Janeiro)
Pavilhão do Brasil: Feira Mundial de Nova York de 1939/Apresentação de Armando Vidal,
Commissário Geral do Brasil.
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IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do
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de 05 a 08 de Novembro de 2013
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