IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 Do presente miscigenado ao futuro embranquecido: a participação brasileira na Feira Internacional de Nova York- 1939/19401 Carolina Vieira Pelegrini Mestranda em Relações Internacionais da Universidade de Brasília, UnB Introdução O presente estudo discute por meio da investigação da participação brasileira na Feira Internacional de Nova York de 1939/1940, a projeção da cultura brasileira e seu papel na política externa do Brasil. A análise se concentra nas ideias de miscigenação e branqueamento, debatidas pela intelectualidade brasileira e incorporadas pelo Estado Novo no sentido de construção de uma identidade nacional. Para tal, o estudo é divido em três partes: na primeira, apresenta-se parte do debate a respeito da cultura nas relações internacionais tomando como ponto de partida o conceito de diplomacia cultural. A segunda é dedicada à análise do processo histórico de construção da ideia de miscigenação e branqueamento assim como a relação destas com a formação de uma identidade oficial da nação. Por fim, expomos o estudo de caso em questão para avaliarmos e debatermos a hipótese de que a participação brasileira no referido evento esteve relacionada ao ideal de branqueamento e miscigenação da população brasileira. Pensando a cultura nas Relações Internacionais Abordar a cultura na história da política externa implica pensar, no âmbito dos estudos em Relações Internacionais (RI), na reflexão que a própria disciplina construiu a respeito da variável cultural em seus desdobramentos teóricos. Embora no caso do presente estudo não se intente comprovar uma teoria, como é prática corrente nos estudos de política externa e relações internacionais, é necessário abordar algumas perspectivas sobre a cultura nas relações internacionais. Isso se faz necessário, principalmente, para esclarecermos o conceito 1 Este trabalho é um resumo de dissertação ainda em processo de conclusão sob a orientação da Prof.Dra. Norma Breda dos Santos. ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 1 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 de cultura adotado pela pesquisa, pois é por meio dessa reflexão que o objeto de estudo se faz inteligível. Não convém aqui, tanto em função dos objetivos como em função da narrativa, construir um histórico exaustivo a respeito da teoria das RI. Seria um desvio do foco cujo intuito é concentrar-se na questão cultural em sim mesma. Ou seja, é mais enriquecedor, tanto2para o presente trabalho, como para o leitor, apresentar e tomar contato com a produção acadêmica que analisa as questões culturais e como esta serve de suporte para o estudo aqui desenvolvido. Num primeiro momento, gostaria de tecer algumas considerações sobre aquilo que é definido como diplomacia cultural. O conceito é importante para o estudo de caso, porém, não exaure a complexidade do tema, não é suficiente para abarcar os objetivos, como veremos adiante. Para Edgar Telles Ribeiro (2011) a diplomacia cultural é o uso da cultura em prol dos objetivos do Estado, sejam estes políticos, comerciais, econômicos ou de cooperação. Neste sentido, a divulgação ou projeção da cultura de um Estado para o exterior ou internacionalmente, serve como suporte, adquirindo um caráter até mesmo estratégico, para a aquisição de demandas internas. Postura semelhante é adotada pelo também diplomata Ljuben Tevdovski (2009) para quem a cultura, enquanto ferramenta da diplomacia, não apenas pode fornecer o caminho para o atendimento de determinadas demandas, como, e principalmente, favorecer o entendimento entre os povos, contribuindo assim, para a estabilidade e a paz. Depreende-se dos autores acima citados, e este é ponto crucial de ambas as posições, que o maior ganho oriundo da diplomacia cultural é a compreensão entre os povos e, dessa forma, uma maior colaboração e fraternidade entre as diferenças uma vez que o contraponto alteridade/identidade permite, por meio da superação do estranhamento entre diferentes culturas, a sua consequente aceitação. Trata-se assim, de por meio da cultura, conhecer o outro e estabelecer o entendimento. Ainda, a cultura funcionaria como “arma” de influência, ou seja, divulgando ideias, valores e símbolos da cultura nacional, a capacidade dos Estados de influenciar a cena internacional, aumentaria. Ribeiro (2011), entretanto, diferencia diplomacia cultural de relações culturais internacionais. A primeira estaria diretamente vinculada ao Estado, possuindo o caráter de ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 2 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 propaganda e seria conduzida pelos agentes estatais. Já a segunda, abarcaria outros agentes além do Estado e estaria voltada a criação de laços de cooperação e amizade. Esta diferenciação é questionada por Mônica Herz (1987), que percebe esta distinção como insuficiente para explicar os projetos culturais dos Estados. Isto porque a cultura não pode ser tratada, para a autora, apenas a partir de uma perspectiva funcional frente aos demais pilares das RI. Isso implica pensar a cultura em termos mais amplos, sua presença nas RI vai além da atuação do Estado e de seus objetivos, ultrapassa, inclusive, a esfera de ação coletiva da sociedade civil uma vez que a própria cultura já está inserida na ação dos agentes das relações culturais e na política cultural. Aqueles que formulam e atuam no intento de estabelecer relações e políticas culturais, são definidos pela própria cultura. Por isto, Herz pensa as relações culturais de forma mais complexa: a projeção e disseminação de valores e sistemas simbólicos entre diferentes culturas não produz, na verdade, uma sociedade global mais homogênea, tampouco mais cooperativa, pois no contato entre culturas as diferenças são produzidas e reproduzidas. Em Searching for a Cultural Diplomacy, Jessica Gienow-Hecht e Mark Donfried (2011), apresentam um esforço voltado a explicitar os conceitos de diplomacia cultural e relações culturais internacionais, facilmente confundidos. Para os autores, as duas práticas se diferenciam tanto em relação aos agentes responsáveis por sua execução, como nos resultados adquiridos. A diplomacia cultural seria exercida pelo Estado com intuitos propagandísticos cujos objetivos iriam além dos interesses meramente culturais, atingindo outras esferas, como a econômica e política, e como tal, seria menos eficiente, posto que percebida pelos receptores em seu sentido de propaganda, ou seja, algo que oculta aspectos da realidade e exalta outros, criando assim, uma imagem propositalmente falseada daquele Estado que se pretende propagandear. Por sua vez, as relações culturais internacionais por serem promovidas por entidades civis, organizações não governamentais e pela circulação de pessoas, não contando com a participação estatal, trariam melhores resultados, sobretudo em termos de cooperação, uma vez que estimulariam trocas culturais mais consistentes e genuínas já que não vinculadas à propaganda, permitindo, dessa forma, uma melhor compreensão entre os povos (DONFRIED; GIENOW-HECHT:2011). ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 3 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 Para os efeitos do presente trabalho duas questões ressaltam da bibliografia aqui exposta e impõem o questionamento de alguns de seus pressupostos, pois dizem respeito ao que se entende por cultura e a como a cultura é percebida ou definida pelos agentes que atuam na diplomacia cultural. Ora, os autores citados, de maneira geral, conceituam cultura em seu sentido mais amplo, como os modos de ser e de viver de um determinado povo. Isto implica dizer que a cultura é coletivamente aceita e compartilhada, isenta de contradições internas e que, tampouco, essas contradições são perceptíveis quando a cultura é projetada para o exterior. Muito superficialmente se pensa a cultura, quando utilizada pelo Estado, como uma construção, como a adoção pelos agentes estatais de algumas peculiaridades ou particularidades culturais de acordo com o que estes pensam ser adequado e de acordo com as próprias visões que tais agentes possuem de sua própria cultura. A cultura é praticamente colocada como um elemento dado. Em segundo lugar, há um foco direcionado ao aspecto lúdico, artístico e educacional da cultura, ou seja, as representações literárias, musicais, linguísticas, as ações de educadores e instituições educacionais, que se confundem com erudição ou conhecimento, enfim, com o ser culto, servindo, obviamente, como estratagemas de divulgação de valores e ideias, mas não propriamente definidores de uma ideia de cultura. Ou seja, deixa de ser abordada a definição, por aqueles que praticam a diplomacia cultural ou as relações culturais, do que é o “nós”, pois não se pensa a própria cultura como o próprio outro, ou seja, nós somos outro também dentro de nossa própria teia cultural. Devemos perguntar, a nosso ver, quem é esse “nós” que projetamos? De quem, afinal, estamos falando? Quem, enfim, estamos projetando ou divulgando externamente? Essa pergunta esclarece, portanto, que os pressupostos da diplomacia cultural ou das relações culturais, como aqui apresentados, se revelam insuficientes para guiar o estudo. São perspectivas complementares, as quais definitivamente agregam argumentos e solucionam parte das questões, mas que não esgotam completamente os objetivos do trabalho, como será apresentado a seguir. Em contrapartida, diante do exposto, penso que abordar a questão racial por meio de uma narrativa histórica de um estudo de caso, como proposta de estudo, é um caminho promissor para desvendar quem fomos este “nós” e qual “nós” mostramos para o mundo na Feira Internacional de Nova York de 1939/1940 com o intuito de compreender o papel da cultura na política externa brasileira. ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 4 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 Adoto aqui parte da perspectiva de Mônica Herz apresentada anteriormente, mas penso que é possível ainda ir mais além e como propõe Akhil Gupta e James Fergunson (1997), expor uma visão mais sofisticada de cultura. Gupta e Fergunson (1997) obervam que a ideia de cultura geralmente pressupõe a adequação desta a um território integrado e contínuo, numa divisão espacial aparentemente desprovida de problemas e pouco problematizada, ou seja, a ideia de cultura liga-se a ideia de Estado, territorialmente definido de forma que essa configuração proporciona a formação de nações independentes e culturas autônomas. Os autores problematizam as relações entre espaço e cultura. A tese é de que desterritorializando a cultura e partindo do pressuposto que o espaço esteve sempre interconectado, é possível encontrar a produção da diferença assim como as contradições culturais internas que permitem uma comunidade identificar-se enquanto tal. Para os autores há uma tendência natural a se relacionar uma cultura a um povo e a um território. Argumentam que até mesmo para os antropólogos seria complicado dizer com clareza o que é a cultura americana, por exemplo, dada a diversidade de interações entre diferentes grupos de um mesmo povo dentro de um mesmo território. Se pensadas como uma unidade, as associações entre pessoas e lugares são, nesta perspectiva, colocadas como sólidas, compartilhadas e aceitas quando, de fato, são contestadas, incertas e fluidas, afirmam Gupta e Fergunson. Portanto, faz-se necessário questionar a unidade do “nós”. Para Gupta e Fergunson (1997) a análise da cultura nas relações internacionais deve modificar o enfoque da pergunta que orienta a pesquisa. Isto significa ter a alternativa de, ao invés de observarmos e questionarmos um mundo ordenado por povos e culturas diferentes já pré-estabelecidos, olharmos para um conjunto de relações de produção da diferença capaz de produzir uma análise que, de um estudo que apenas justapõe diferenças preexistentes parte para outro que explora a construção das diferenças no processo histórico. De maneira que a cultura e o espaço não podem ser tomados como elementos dados, seu processo de construção sócio política deve sempre ser considerado. Compreendemos aqui, a cultura como um processo historicamente construído que fornece identidade a um determinado grupo que compartilha dos mesmos valores, ideias e símbolos, sem, entretanto, confundir a cultura com o povo ou com o Estado. A identidade estará sempre contraposta à diferença a qual é também historicamente construída e pode ocupar o próprio interior de um mesmo Estado não sendo apenas percebida além das ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 5 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 fronteiras. O que implica dizer que o Estado pode unificar as diferenças internas, ao invés de pensarmos o Estado como a instância última de uma cultura unificada, de uma identidade coletivamente compartilhada e aceita. Diante disto, orientaremos a pesquisa em duas direções: os preceitos da diplomacia cultural servirão para analisar os interesses específicos da representação brasileira na Feira Internacional de Nova York; por sua vez, a ideia de cultura adotada aqui é útil para explicarmos o processo de construção da imagem brasileira pela representação no evento assim como as contradições que essa imagem revela sobre a realidade interna dos anos 1930 no Brasil no que diz respeito à questão racial, ou seja, o processo de construção da diferença no Brasil e a projeção de uma suposta unidade racial para o exterior. Miscigenação e branqueamento no Brasil: da inviabilidade do Estado à formação da identidade nacional O pensamento sobre a miscigenação e o branqueamento no Brasil pode ser divido em dois grandes momentos onde, em linhas gerais, prevalecem posturas distintas e opostas. Em fins do século XIX e início do século XX, predominou a perspectiva, encontrada em autores como Nina Rodrigues e Silvio Romero, que dava a miscigenação um caráter negativo que não apenas denegria o indivíduo brasileiro como punha em cheque a possibilidade de consolidação de um Estado desenvolvido e civilizado. Num segundo momento, que tem como marcos, o movimento Modernista e a obra Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, a miscigenação é resignificada e perde seu tom pejorativo, passando a caracterizar o brasileiro de forma positiva e a ser utilizada pelo Estado como discurso de coesão social e de fortalecimento do mesmo. Há assim, uma inversão no pensamento sobre a miscigenação, uma resignificação, a qual, no entanto, não implica a ausência de conflitos raciais e de preconceitos. Para autores como Silvio Romero e Nina Rodrigues, cada qual a sua maneira, a miscigenação era um problema, até mesmo um fardo nacional, que necessitava ser resolvido. Isto porque viam na mistura das três raças formadoras do homem brasileiro, a justificativa do atraso do país. Ancorados por teorias evolucionistas, pelo racismo científico do século XIX ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 6 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 que tratava as diferenças entre as raças humanas com argumentos biológicos e propagava a ideia de superioridade da raça branca sobre as demais, parte da intelectualidade brasileira incorporou tais teses estrangeiras para explicar a realidade e a formação do povo brasileiro. (SCHWARTZ: 1993) A adoção desses pressupostos deu a miscigenação uma interpretação demasiadamente negativa. Para tais autores o contato entre as três raças, negros, brancos e índios, resultou na formação de um indivíduo cujas características advinham daquilo que era considerado, preconceituosamente, como natural do indivíduo negro e indígena. Preconceituosamente, porque era dada a estas raças a responsabilidade pelos “defeitos” da população brasileira, personificada no mulato: preguiça, insolência, desobediência, luxúria, inaptidão ao trabalho, entre outras. O elemento branco, representado pela figura do colonizador, oferece aquilo que salva: tanto o gene capaz de embranquecer a raça, como por meio desse processo, a salvação nacional já que ligado à ideia de civilidade ( RODRIGUES: 1938; ROMERO: 2001). A reflexão sobre a miscigenação não apenas voltava-se à definição do homem brasileiro, como estava vinculada à ideia da viabilidade do Estado. Questionava-se se um país com uma população miscigenada seria possível, se um país com tais características poderia direcionar-se ao progresso e a civilização, compreendida então nos moldes e parâmetros da civilização branca ocidental. A resposta dada pelos pensadores do Brasil do século XIX era negativa, até mesmo pessimista, e o Brasil, enquanto Estado, apenas uma possibilidade futura, um ideal a ser imaginado e elaborado no presente daquele momento. Restava ao Brasil e ao seu povo, para sua própria sobrevivência, legitimidade e viabilidade, embranquecer. Para autores como Nina Rodrigues e Silvio Romero, diz Renato Ortiz (1994), a mestiçagem é apresentada como um dilema uma vez que é dela que deve ser extraída uma identidade nacional. A mestiçagem é, ao mesmo tempo, real e simbólica, se refere às condições concretas da construção do brasileiro, históricas e sociais, e representa a construção de uma nacionalidade, de uma identidade nacional. Esta perspectiva passa a ser questionada ao longo da década de 1920, com o movimento Modernista, e sofre uma resignificação, que se consolidará ao longo dos anos 1930, onde a miscigenação, de problema passa a ser louvada. Os problemas brasileiros, anteriormente oriundos de sua formação racial, passam a ser analisados como problemas sociais, ou seja, não é mais a raça que define a condição do homem, mas as condições sociais ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 7 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 nas quais este homem se insere que definirão sua situação. A solução não é mais, em tese, tornar o indivíduo brasileiro branco, a solução é educar, sanear, higienizar a sociedade, oferecer os meios para que os sujeitos construam o próprio progresso e, consequentemente, o progresso do Estado (SKIDMORE: 2012). A principal obra que repensa e resignifica a miscigenação oferecendo a ela um sentido positivo e de exaltação da identidade brasileira, Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre (2006), publicada em 1933, é um estudo sobre o processo de miscigenação no Brasil que constrói a ideia de democracia racial. Segundo Ortiz (1994), Gilberto Freyre, ao substituir a ideia de raça pela de cultura, interpreta o contato entre as três raças formadoras do mestiço como um contato entre culturas onde a assimilação, a troca e o sincretismo, constroem uma nação onde o que prevalece é a chamada democracia racial. Gilberto Freyre (2006), por meio do conceito de luso-tropicalismo, analisa a adaptação do colonizador português no Brasil e sua maleabilidade ao tomar contato com negros e índios, apesar destes últimos não serem tão profundamente abordados na referida obra. O contato entre a casa grande e a senzala se deu, para Freyre, de maneira tão íntima e direta que ambas as culturas, portuguesa e africana, sofreram processos de assimilação cultural gerando a cultura nacional. Freyre chega a esta conclusão por meio do estudo dos hábitos alimentares, religiosos e sexuais, por exemplo. A senzala complementaria a casa grande gerando como consequência sociocultural, a miscigenação. Outro fator que desponta da tese de Freyre é o mito do bom senhor e do escravo submisso, ou seja, nas relações inter-raciais e interculturais brasileiras, o conflito não teria predominado, mas sim uma espécie de assimilação pacífica das diferentes culturas. O negro para Gilberto Freyre (2006) não é aquele que degenera a raça, pelo contrário, ele contribui para a sua formação, complementa o homem branco, influencia-o, dá a ele costumes e características que são suas e, ao mesmo tempo, incorpora a cultura portuguesa. Isso gera um homem novo, o brasileiro, o mestiço, que carrega em si o exemplo de tolerância racial e a capacidade de construir nos trópicos, uma civilização. A miscigenação passou assim por um processo histórico que lhe conferiu sentido transformado e resignificado ao longo do tempo. Da ideia de degeneração da raça, de mal da nação, motivo de atraso, desenvolvida em fins do século XIX, início do XX, sustentada pelas teorias evolucionistas, passa-se à positivação da miscigenação nos anos 1930 a qual, por sua ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 8 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 vez, oculta os conflitos raciais e preconceitos existentes na sociedade brasileira. Este pensamento que caminha da necessidade de branqueamento à democracia racial, é construído pela elite intelectual brasileira. Parte significativa desta elite ocupará as instituições brasileiras ao longo dos anos 1930 e durante o Estado Novo levando às instâncias do poder perspectivas sobre as raças e a formação nacional. Deste breve histórico sobre a miscigenação do Brasil há uma continuidade nesta ruptura da degeneração para a valorização, do branqueamento para a democracia racial: a vinculação entre a miscigenação e a identidade nacional, entre a miscigenação e a nação. Como observam Ortiz (1994), Schwarcz (1994) e Oliveira (1982) os ideólogos da miscigenação e do branqueamento, assim como os intelectuais que ocuparam as esferas do poder, preocupavam-se em definir uma identidade brasileira. Esta identidade quando ligada à miscigenação simbolizava uma unidade. Ao definir quem eram os brasileiros, esta intelectualidade visava também dizer o que era o Brasil e se, tendo um povo formado por mestiços, o Brasil seria capaz de construir uma civilização e se tornar um Estado viável. Nestas circunstâncias a miscigenação se torna a construtora da identidade nacional se não a própria identidade. O que se transforma ao longo do debate que aqui apresentamos é o valor dado à miscigenação: da degeneração à regeneração, da depreciação à valorização, de uma nação possível e imaginada a uma nação real. Os anos 1930 são marcados por transformações políticas e sociais que se expressam no mundo das ideias e que, em contrapartida, incorporam estas novas ideias, dando a elas um status de posição oficial da nação, definindo assim, a identidade nacional. Os intelectuais se definem como porta vozes desta nova identidade dos anos 1930. São eles, em virtude de sua formação, aqueles considerados capazes de guiar a nação. De certa forma, os intelectuais se colocam acima da grande massa, responsabilizando-se, quase num sentido missionário, pela construção desta identidade que define o que é o Brasil (VELLOSO: 1982). O nacionalismo do Estado Novo centralizou o país politicamente e administrativamente e construiu uma identidade nacional tomando modelos regionais que convivem numa visão de um todo unificado e formam um projeto ufanista do Brasil. Os intelectuais abraçam este projeto porque comungam de duas características básicas do Estado Novo: um regime que é novo e é nacional, daí sua inserção nas esferas do poder e a convivência de ideologias diferentes dentro de um mesmo projeto de país. A centralização é ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 9 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 assegurada de tal forma pelo Estado que os regionalismos e a diversidade de posições não ameaçam o todo, pelo contrário, reafirmam e corroboram a diversidade. O Estado Novo articulou cultura e política fazendo da produção, realização e incentivo de bens culturais uma atividade do Estado. Trouxe assim, intelectuais com posições distintas para o mesmo debate, operando num nível ideológico, explicando o passado e o presente de maneira a legitimar o sistema político e orientar os cidadãos. Esta articulação deixou marcas na cultura brasileira e interferiu no processo de socialização das gerações que se seguiram ao Estado Novo, sobrevivendo, dessa forma, ao próprio regime. Dos anos 1920 ao Estado Novo aproximações sucessivas entre intelectuais e política definem uma identidade nacional baseada na tradição e no ideal de modernização, identidade esta que também utilizará dos argumentos que tratam a formação do homem brasileiro, a miscigenação e a diversidade cultural, como uma de suas diretrizes (OLIVEIRA: 1990). No Estado Novo, os intelectuais não apenas rompem com o ideal de que, por serem aqueles que pensam a sociedade devem estar distanciados da práxis política para serem capazes de criticá-la, explicá-la e decifrá-la, como criam uma relação simbiótica com o Estado porque passam a falar em nome da sociedade e a expressar os anseios da mesma. Isto porque percebem que o conhecimento sobre a singularidade e especificidade da cultura de uma nação é o que permite a criação de suas instituições (OLIVEIRA: 1999). O pensamento intelectual, diverso, é unificado pelo Estado e utilizado por ele em vias de criação de uma identidade nacional oficial: a miscigenação, apreendida, a partir de então, como aquilo de singular que a cultura brasileira comporta. A reflexão intelectual sobre o novo brasileiro, ou a nova brasilidade, materializada na estrutura política do Estado Novo, passava, obrigatoriamente, pela questão racial. A argumentação sofre uma inversão: da heterogeneidade como fator de degradação nacional, a mestiçagem passa a ser vista como o fator de unidade e de originalidade da cultura brasileira. A formação do homem brasileiro era importante para a definição de uma identidade social, condição necessária para a construção de um projeto político sob a égide de uma unidade nacional (VELLOSO: 1982). O discurso oficial, da miscigenação como característica ímpar da identidade nacional, convive, entretanto, com políticas eugênicas que são instituídas ao indivíduo negro, ambas respaldadas pela intelectualidade e por um discurso científico da nascente antropologia ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 10 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 brasileira que buscava desvincular-se do racismo científico, mas que, entretanto, não deixava de pensar a questão racial como uma questão científica. Para Olivia Maria Gomes da Cunha (1999) a coexistência da miscigenação com a eugenia se apresenta no pensamento que divide o negro enquanto raça constitutiva da nacionalidade e o negro enquanto indivíduo, sujeito a intervenções científicas, jurídicas e regulações morais. O que a autora nos mostra é que a miscigenação foi pensada voltada à melhoria do homem. Ao miscigenar-se o homem brasileiro, e daí a intervenção do Estado nas políticas migratórias, por exemplo, deveria se misturar com os “melhores tipos raciais”. Neste caso, o negro, enquanto indivíduo deveria ser melhorado, deveria sofrer intervenções que o tornassem mais qualificado, o que ocorreria por meio de medidas educacionais e sanitaristas. Depreende-se daí que o reconhecimento da miscigenação não implicava a noção de igualdade entre as raças e tampouco, entre os homens. A memória histórica construída a respeito das raças na formação do homem brasileiro ocultava os conflitos, preconceitos e a hierarquia social. A Abolição não foi seguida por um processo de inclusão social, igualou os homens apenas juridicamente dando ao negro a culpa ou responsabilidade por suas “falhas” dentro do sistema (DOMINGUES: 2005). Ademais, as políticas eugênicas, voltadas ao aperfeiçoamento da raça, do homem brasileiro, baseavam-se na ideia de uma superioridade branca, ou seja, cabia ao Estado fornecer ao negro, as condições necessárias à aquisição de uma “alma” branca. A miscigenação louvada pelo Estado e incorporada por ele como discurso oficial para a criação de uma identidade nacional e de um sentimento de nacionalidade, que unificava a diversidade em torno de um Estado centralizador e autoritário, foi também, ainda que uma aceitação do passado em si, uma construção voltada a definir um presente e um futuro para o Brasil. No Estado Novo, a miscigenação é valorizada, é representada como uma característica positiva da nação que não a prejudica, pelo contrário, simboliza a sua originalidade, as suas raízes, que baseadas no passado histórico resignificado, permitem a formação de uma nação viável uma vez que ciente de sua formação, mas é apenas um estágio num longo processo. A miscigenação, contudo, tem como contraponto, dentro da própria estrutura do Estado, a eugenia, o branqueamento, compreendido como o processo natural da formação do homem brasileiro, ainda incompleto. Embranquecer significava não apenas um tom de pele mais claro adquirido pelo mulato ao longo do tempo, significava também, adotar a cultura branca como ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 11 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 norte, suas práticas sociais, educacionais, sanitárias e culturais e enfim, assumir a sua superioridade cultural sobre as demais raças responsáveis pela formação nacional. Abraçar a miscigenação é, assim, não apenas uma alteração de fato no pensamento nacional, como um recurso necessário para a própria existência do Estado. Retirar da questão racial a culpa pelo atraso nacional é, em contrapartida, transferir esta responsabilidade a uma estrutura política falha, ineficiente, incapaz de gerar o progresso da nação, de maneira que a nova configuração do poder, o Estado Novo, ganha respaldo e força porque é ela que solucionará os problemas do país. Além disso, a propagação da ideologia do Estado e a união do povo em torno da estrutura que lhe é imposta deve carregar um sentindo de pertencimento, um sentido de nação. A miscigenação aparece então como o conceito que reconhece, une e aglutina as diferenças, formando uma identidade nacional. A miscigenação é o conceito construído e utilizado pelo Estado para a definição do “nós”, para a afirmação da cultura e da identidade nacional. No entanto, o reconhecimento da diversidade cultural, substituto da ideia de raça como quer Gilberto Freyre (ORTIZ: 1994), não pressupõe a ausência de conflitos e preconceitos de ordem racial, nem tampouco, o abandono do ideal de branqueamento. Deixar de definir a desigualdade entre os homens pelo racismo científico, assumir as diferenças e não usá-las como argumentos para justificar superioridades raciais, não significa que as culturas negra e indígena tenham sido consideradas tão civilizadas como a cultura branca. O ideal de branqueamento (SKIDMORE: 2012) ainda permanece não como necessidade, mas como consequência, ocupa o corpo e o espírito, ou seja, a cultura civilizada e moderna que o Brasil pretendia ser era baseada nos modelos da cultura branca ocidental. Os anos 1930 e o Estado Novo abraçam a ideia de miscigenação como uma característica positiva e original do Brasil cuja previsão futura é de uma nação cada vez mais branca consequente da própria miscigenação, corroborando assim, veladamente, uma ideia de superioridade não muito distante daquela explicitada pelos pensadores do século XIX e que com tanto empenho os atores políticos e intelectuais do período afirmavam ter rompido. Resta analisar como este cenário afetou e transpareceu na participação brasileira na Feira Internacional de Nova York. ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 12 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 O Brasil na Feira Internacional de Nova York: nação miscigenada de futuro embranquecido No dia sete de abril de 1940, em seu discurso para a abertura da segunda temporada da Feira Internacional de Nova York, Oswaldo Aranha, então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, expunha o significado daquele evento assim como os pressupostos da participação brasileira no mesmo. Dizia o ministro: A essa parte da humanidade que se acha dividida e entregue à obra da destruição, as Nações representadas na Feira de Nova York dão o exemplo do devotamento às conquistas pacíficas do espírito e do desejo de cooperar que é o segredo das grandes realizações. A ciência, as artes, e os diversos produtos do gênio humano devem sua existência à cooperação de homens nascidos em diferentes países e de diferentes raças (...). É pela cooperação e pela persuasão e não pela violência que a humanidade realizará seu grande destino. O progresso como resultado de cooperação internacional é uma das melhores tradições do Brasil e do povo brasileiro. É este o significado da nossa participação na Feira de Nova York. Possa esse grande empreendimento produzir os seus frutos, ensinando aos homens a esplêndida lição da cooperação e da persuasão3. Um evento da magnitude da Feira de Nova York significava para Aranha, portanto, a reafirmação dos valores de solidariedade e cooperação arraigados na diplomacia brasileira e na condução de sua política externa. Aranha revela, entretanto, mais que um clamor pela persuasão e pela cooperação. Propositalmente ou não, conscientemente ou não, Aranha desenha e afirma aquilo que conceitualmente é definido como diplomacia cultural. Retomemos o trecho: A ciência, as artes, e os diversos produtos do gênio humano devem sua existência à cooperação de homens nascidos em diferentes países e de diferentes raças . Chama a atenção aqui, a ideia de que a produção humana, a arte, a ciência, a técnica, resulta da cooperação entre os diferentes. Mais que afirmação de uma identidade do Brasil, o ministro destaca a cooperação entre desiguais como a produtora do “gênio humano”. Ou seja, é a conexão entre diferentes culturas, e aqui na fala de Aranha entende-se a cultura vinculada à noção de Estado e raça, que permite o desenvolvimento da humanidade como uma totalidade diversa e plural. 3 OA pi Aranha, O 1940.04.07 CPDOC-FGV ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 13 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 É possível ir ainda mais fundo e considerar o viés material da cultura, adquirido pelos laços de cooperação estabelecidos na Feira Internacional. Oswaldo Aranha, em seu discurso, ainda afirma: Essa participação de todos no progresso comum da raça humana se encontra não só no domínio do espírito mas também no domínio das cousas materiais. Tomai como exemplo a tecnologia moderna. Ela se baseia em materiais supridos por todas as regiões do globo, que um só continente não poderia fornecer, porque distribuídos por todo o planeta. Não pode haver melhor exemplo da natureza interdependente da civilização. Poderemos desprezar a lição que nos dá o próprio mundo material?4 O discurso de Oswaldo Aranha une espírito e matéria. Como espírito compreende-se a cultura, ou seja, é ela o espírito dos povos. É a cultura que revela aquilo que um povo é. Interdependentes e diferentes, cada cultura contribui para o desenvolvimento da humanidade. Por serem interdependentes, há a necessidade de compartilhamento de recursos materiais e esses, por sua vez, são mais facilmente adquiridos por meio da cooperação e da persuasão. Infere-se daí, que a cultura, o espírito, serve como recurso para a aquisição do material. Para além dos interesses matérias e de cooperação destacados por Aranha, convém questionar o que se compreendia ou se definia, em fins dos anos 1930, como cultura brasileira, ou o espírito do Brasil, sobretudo em um ponto específico: a raça. Em seu discurso, Oswaldo Aranha celebra a diferença entre as raças, mas seria esta celebração unânime entre os atores envolvidos na elaboração da participação brasileira no evento? E mais, a visão destes atores celebraria as diferenças internas no Brasil? Enfim, se o mundo é formado por raças diferentes, como as diferenças eram pensadas em relação ao próprio Brasil e como este pensamento foi projetado na Feira Internacional? Em nota publicada no dia sete de julho de 1938, quando o Brasil ainda preparava sua participação no evento, o jornal O Estado de São Paulo abordava o desvirtuamento que a cultura brasileira poderia sofrer na Feira de Nova York: 4 Ibdem ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 14 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 Quando o presidente Roosevelt falou por ocasião do lançamento da pedra fundamental de uma exposição que se abrirá nos Estados Unidos, no ano que vem, usou palavras e phrases que se estão tornando cada vez mais comuns nos discursos dos diplomatas e estadistas de hoje, mas que, há pouco tempo, eram raramente empregadas. Disse: “Nestes dias de vida moderna quando tantos problemas econômicos e sociais reclamam uma revisão...as (exposições)...são oportunas e contribuirão para estimular o intercambio commercial e cultural, tão necessário hoje para o desenvolvimento das relações entre os povos”.(...) A cultura de um povo, parece, tornou-se o annuncio, o cartaz, o sinal luminoso que chama a attenção dos compradores cortejados, não ao povo que vive e faz a cultura assim exhibida, mas sim aos productos que esse povo tem para vender. Parece ser uma prostituição da cultura.(...). Mas é da própria essência da cultura, no sentido em que usamos a palavra, ser desinteressada: falamos daquilo que synthetisa o melhor de uma civilização, daquillo que é honesto e sincero e bello na vida de um povo. (...)O emprego da cultura exportada com fins commerciais e diplomáticos pode, depois de algum tempo, resultar na constante exportação ou intercambio de culturas de fins culturaes. Se a presente situação for transitória nenhum mal desse abuso da cultura para fins não culturaes. O reconhecimento franco da existência dessa nova techinica diplomática e commmercial é, em si, um grande passo dado para transformál-a. A cultura-propaganda deixa de ser cultura e perde o valor como propaganda. Desmascaral-a é a primeira etapa para mudar a culturapropaganda em cultura-cultura5. A longa nota publicada no referido jornal nos revela reflexões muito pertinentes quanto ao nosso objeto de estudo. Chama a atenção a expressão “prostituição da cultura” e a ideia de desvirtuamento da cultura. Isto significa, em primeiro lugar, o uso da cultura para a aquisição de recursos materiais e em segundo, o sentido de construção de uma imagem que não é a própria cultura, mas a cultura direcionada para um fim, a propaganda. A sua promoção não revela exatamente o que é a cultura, mas aquilo considerado atraente ao público internacional para favorecer a aquisição daquilo que o Estado procura. Este desvirtuamento não deixou de ser notado na questão racial. O Brasil confirmou sua participação no evento no dia 26 de agosto de 19376. A representação brasileira ficou sob a responsabilidade do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e do Brasilian Information Bureau (BIB), escritório de propaganda do Brasil sediado em Nova York. Tanto os funcionários do Ministério como do Bureau informavam ao 5 Intercambios Cultureas in O Estado de São Paulo, edição de 2/07/1938, p.14 Correspondência da Embaixada Brasileira em Washington, Arquivo Histórico do Ministério das Relações Exteriores (AHMRE). 6 ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 15 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 Ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha7, o andamento dos trabalhos voltados à construção do pavilhão brasileiro na exposição8. Em 1938, Francisco Silva Junior, então membro da comissão criada para organizar a participação do Brasil na Feira Internacional de Nova York e funcionário do BIB, fazia uma afirmação surpreendente sobre a eventual exibição de obras de Aleijadinho (1730?-1814) na exposição mundial. Em correspondência endereçada ao então Ministro do Trabalho, Waldemar Falcão, expunha seus receios frente àquela possibilidade: Evitemos, portanto, que os nossos folhetos (como no caso do de OURO PRETO) mencionem lepra e obras de um leproso como atracção de turismo.9 Francisco Silva Junior não era o único a refletir sobre como o Brasil deveria ser apresentado na Exposição. Em correspondência a Oswaldo Aranha e posteriormente encaminhada a Armando Vidal, comissário geral do Brasil na Feira Internacional de Nova York, Octávio Pinto aconselha: Musica de Folklore. No pavilhão do Brasil penso deverá funcionar uma orchestra typica nossa e vinda dahi, não composta de negros porem de bons 10 músicos o mais brancos possível . . Também em 1938, em correspondência para Oswaldo Aranha, Francisco Silva Junior mais uma vez expunha seus temores. Desta vez, referentes à mostra do progresso literário, artístico e científico do Brasil na Feira Internacional. Aparentemente, para o representante do Brasil junto à organização do evento, não havia muito a ser exibido sobre as artes, as letras e a 7 O próprio Oswaldo Aranha cuidou dos arranjos iniciais para a participação brasileira na Exposição. Carta de S.Stern à Oswaldo Aranha, 16/03/1938, CPDOC/ FGV, OA cp 1938.03.16. 8 As fontes mais reveladoras sobre a questão racial e comercial discutida ao longo do processo de elaboração do pavilhão brasileiro e após a sua inauguração são as correspondências entre funcionários da representação brasileira e Oswaldo Aranha, disponíveis no arquivo do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), assim como o Catálogo Oficial do Pavilhão do Brasil na Feira de Nova York e o Relatório, ambos redigidos pelo Comissário Geral, Armando Vidal. Os telegramas e a correspondência da embaixada brasileira em Washington mostram os trâmites burocráticos: remessa de verbas, deslocamento de funcionários, contratação de arquitetos estrangeiros (o arquiteto naturalizado norte-americano Paul Wiener foi o responsável pela organização dos mostruários do interior do pavilhão) construtores e engenheiros para o acompanhamento das obras (Abel Ribeiro Filh), assim como os acordos com empresas de comunicação para a transmissão via rádio da inauguração do pavilhão brasileiro para o Brasil. 9 Carta de Francisco Silva Junior a Waldemar Falcão, 2/3/1938, CPDOC-FGV OA cp 1938.03.16. 10 Carta de Octávio Pinto a Oswaldo Aranha, 09/12/1938, Rio de Janeiro, Correspondência Política Nova York/Rio de Janeiro Arquivo CPDOC/FGV OA cp 1938.03.16. ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 16 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 ciência brasileiras e a tentativa de impressionar a comunidade internacional poderia se transformar em um grande fiasco nacional em um momento em que o Brasil buscava interesses comerciais no exterior e, mais especificamente, nos Estados Unidos: Na verdade, as taes sub-comissões ahi já estão tratando de apresentar na Feira a evolução das letras no Brasil, as sciencias, as artes!Dispenso comentários, pois o bom amigo percebe o ridículo a que estaremos expostos se viermos mostrar ao mundo o que gostaríamos de ter e de ser.11 As cartas de Francisco Silva Junior à Oswaldo Aranha e Waldemar Falcão são férteis na temática racial e sobre como isto poderia ser recebido pelos norte-americanos de maneira que suas sugestões são elaboradas sempre pensando na recepção do pavilhão brasileiro. Nomeado chefe do Escritório de Propaganda do Brasil em Nova York (BIB) em decreto de 29 de abril de 1938, Silva Junior chegou à Nova York no início de maio de 1938 com duas missões importantes: elaborar a participação do Brasil na Feira de Nova York e fazer do escritório de propaganda algo eficiente e útil para propagandear o Brasil nos Estados Unidos. Em 14 de julho de 1938 a pedra fundamental da exposição era lançada e no dia seguinte, a pedra fundamental do pavilhão brasileiro. O jornal O Estado de São Paulo publicou trecho de telegrama de Getúlio Vargas à Franklin Delano Roosevelt sobre o episódio12: Envio a V. Exa. Minhas sinceras congratulações por seu discurso que tão bem exprime os sentimentos do povo brasileiro, feito por ocasião do lançamento da pedra fundamental dos edifícios federais da Exposição Internacional de Nova York. Nessa cerimônia, de grande significado para o estreitamento das relações entre as nações, V. Exa. reafirmou a Política de Boa Vizinhança, indicando a necessidade para os povos deste hemisfério de praticá-la de maneira eficiente e durável no sentido de (...) amizade e maior entendimento com todos os nossos vizinhos. Envio-lhe a segurança de minha mais alta consideração e de minha calorosa estima pessoal. 11 12 Carta de Francisco Silva Junior a Oswaldo Aranha, 18/06/1938 CPDOC-FGV OA cp 1938.03.16 O Estado de São Paulo, 14/07/1938, p.2. ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 17 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 A fala do Presidente Vargas reafirma os pressupostos da diplomacia cultural: estreitar as relações entre as nações, aprofundar a Política de Boa Vizinhança, favorecer o entendimento e a amizade entre os povos vizinhos. Em maio de 1939 era inaugurado o Pavilhão Brasileiro na Exposição de Nova York. No Catálogo Oficial do Brasil na Exposição, Armado Vidal afirma: Em conjunto, os mostruários e os interiores se propõem interpretar uma simfonia da dignidade e cordialidade governantes e a traduzir o caráter mesmo do “Brasil de Amanhã”, respeitando tradições de onde evolve esse futuro. A amalgama dessas condições materiais e psicológicas de forma de desenho, procurando interessar favoravelmente a opinião publica internacional nos produtos, recursos, atividades governamentais e possibilidades do Brasil, foi a nossa meta13. Essa sinfonia de dignidade e cordialidade baseava-se, nas palavras de Vidal, nos seguintes critérios: Países considerados de população indígena e negra, excessivamente tropicais, de “easy and lazy life”. Tais países são responsáveis ou vítimas de propaganda turística, que tentando atrair visitantes para regiões exóticas, criam no fundo, para os mesmos, um conceito deprimente; qualquer coisa para a qual se olha, interessa um momento, mas da qual se guarda uma impressão de piedade ou desprezo. Fiz questão, nas decorações e instalações, nas recepções, festas e solenidades, na apresentação e trato dos funcionários entre si e com o publico, de manter um cunho de civilização ocidental, de origem e cultura latinas, acordes com a verdadeira feição tradicional do Brasil.14 A civilização de cunho ocidental, de origem e cultura latinas apresentada pelo Brasil mostrou ao mundo o que tinha a oferecer, uma cultura miscigenada. O carro chefe dos produtos foi o café, mas minerais, têxteis, tabaco, cera de carnaúba, entre outros, também foram apresentados. Nas artes, destaque para os painéis de Cândido Portinari, Noite de São João, Jangadas do Nordeste e Cena Gaúcha, e a escultura de Celso Antonio, Mulher 13 Catálogo Oficial da Representação do Brasil na Feira Internacional de Nova York CPDOC/FGV VF 061.43.339.52-P.338 14 MACEDO, 2012 apud VIDAL, 1941,p.27. ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 18 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 Reclinada, artistas do movimento Modernista. Na música, sob a direção e regência do Maestro Burle-Marx, dois concertos com a participação da cantora Bidu Sayão. Foram gravados discos para serem distribuídos sob a coordenação musical de Heitor Villa-Lobos e Francisco Mignone. Na música popular apresentaram-se Romeu Silva, o Bando da Lua e Carmem Miranda. O pavilhão ainda apresentou aves brasileiras e amostras de sua vegetação, como as vitórias-régias gigantes colocadas nos espelhos d’água no jardim. Outra grande atração foi o restaurante. Ao som de samba e com um cardápio de comidas brasileiras que incluía arroz, salada de palmito e feijoada, o restaurante recebeu e entreteve os visitantes norte-americanos que puderam experimentar um pouco daquilo que foi exposto como a cultura nacional. No entanto, o sucesso do pavilhão não era unânime tendo desagradado parte da opinião publica brasileira sobre a participação do Brasil no certame. Em longa carta a Oswaldo Aranha, Décio Moura, diplomata convocado a fazer parte da organização do pavilhão já quando o processo estava encaminhado, nomeado Secretário Geral e encarregando do restaurante, rebate as críticas. São muitos os trechos significativos: III- “Não se tem uma ideia do Brasil e os mostruários são ridículos...” O Sr. bem sabe o que brasileiro pensa de exposição. As vitrines da rua da Carioca são o padrão de julgamento...Quanto mais cheias, melhor. Mas eu não respondo siquer às opiniões dos leigos(...)a opinião de uns turistas bisonhos, mudos, e que pela primeira vez saem do Brasil, para dizer que tudo no Brasil é melhor do que nos E.U15 IV- ...não podemos preparar um café completamente “gout brésilien”, uma vez que é para o americano, que paga. Fazemos um tipo um pouco mais forte do que o que eles usam, mas certamente, muito mais fraco do que os nossos patrícios estão acostumados. Por isso, provavelmente, eles acham que o café não presta16. O que nós temos tratado de fazer E TEMOS SUCEDIDO, é em sermos apreciados pelos americanos. O Sr. bem conhece a mentalidade nacional de não emprenhar e não sair de cima. Criticar é o passatempo nacional. Mas a Feira, e o dinheiro que o Governo aqui empregou, é para vender o Brasil aos americanos, e não a um punhado de brasileiros bisonhos que aqui veem, 15 16 Carta de Décio Moura a Oswaldo Aranha CPDOC/FGV OA cp 1939.01.18 Carta de Décio Moura a Oswaldo Aranha CPDOC/FGV OA cp 1939.01.18 ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 19 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 contando os vinténs e com a pretensa esperteza nacional de não se querer deixar enganar.17 As fontes revelam um cenário complexo: claramente fica explícita a função da participação do Brasil no evento, buscar e afirmar laços de cooperação, promover produtos, principalmente o café, fazer-se reconhecido e conhecido no exterior, reafirmar a Política de Boa Vizinhança, o que perfeitamente se enquadra no conceito de diplomacia cultural. Em contrapartida é possível perceber que havia: 1) um sentimento de exclusão do Brasil ainda evidente, o qual segundo Roberto Abdenur (1997) estaria nas raízes da formação nacional, mas que teria sido superado nos anos 1930; 2) a representação brasileira baseou-se no olhar do outro, adotando uma postura pragmática em relação aos seus objetivos comerciais, ou seja, muito do que foi exposto teve como diretriz a perspectiva de ser aceito e de favorecer a opinião pública internacional para construir uma imagem positiva do Brasil; 3) por fim, e mais importante, pois se trata de nosso objetivo principal, a representação do Brasil preocupou-se em apresentar uma cultura latina branca ocidental, o que nos leva a analisar tal feito sob duas perspectivas não excludentes: é necessário levar em conta o tema da Exposição, World of Tomorrow, uma projeção do mundo de amanhã. Portanto, quando Armando Vidal fala de uma cultura latina ocidental, ele tanto recupera no passado a tradição latina brasileira como a responsabiliza pelo futuro branqueamento da população. Significa dizer que negros e índios são parte de um processo evolutivo do homem brasileiro, já em processo de superação. Significa mostrar que apesar de integrantes da cultura brasileira, negros e índios não são o brasileiro de amanhã, é o homem latino branco ocidental o responsável pela tradição brasileira, por sua inserção no “mundo civilizado”, assim como pelo seu futuro enquanto país. Significa afirmar que a miscigenação, enquanto discurso adotado pelo Estado para a construção de uma identidade nacional, era apenas parte de um processo que levaria ao branqueamento da população brasileira e que longe estava de uma democracia racial. Conclusão: 17 Carta de Décio Moura a Oswaldo Aranha CPDOC/FGV OA cp 1939.01.18 ________________________________________________________________________________________________________________ Anais do IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa “San Tiago Dantas” (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) Disponível em: http://www.santiagodantassp.locaweb.com.br 20 IV Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) de 05 a 08 de Novembro de 2013 ISSN 1984-9265 A cultura brasileira foi exposta na Feira Internacional de Nova York de 1939/1940 por meio da ideia de miscigenação cujo processo histórico de construção passou de um significado negativo, o qual quando vinculado à viabilidade do Estado condenava-o à falência, para uma resignificação positiva ao longo dos anos 1930. O novo sentido adquirido pela miscigenação teve, na figura de intelectuais institucionalizados na estrutura estatal, os meios de inserção no discurso do Estado que a incorpora como cultura oficial e como discurso que define a identidade do Estado Novo. No que se refere à diplomacia cultural, a imagem da nação miscigenada serviu para firmar laços de cooperação, propagandear o Brasil e divulgar produtos, especialmente o café, cabendo aí a análise de que, para a política externa do Brasil, a participação do Brasil na Feira de Nova York voltava-se à aquisição de tais objetivos, inserindo-se assim, no conceito de diplomacia cultural. Em contrapartida, pensando a cultura como uma unidade, define-se o “nós” do Brasil: um país miscigenado. Porém, se desconstruirmos esta unidade e retiramos do conceito de cultura seu vínculo com um Estado e com um território, como propõe Gupta e Fergunson (1997), encontramos a produção da diferença: a miscigenação, enquanto discurso oficial do Estado que define a identidade nacional, oculta o ideal de branqueamento enquanto perspectiva futura do próprio Estado. Percebe-se assim que a ideia de cultura miscigenada ocultou a complexidade e as diferenças das relações sociais e raciais do Brasil a fim de fornecer uma unidade, uma ideia de pertencimento e uma identidade para o Brasil, projetada na exposição internacional. Divulgou-se a miscigenação, mas esta, em seu bojo, carregava o ideal de branqueamento e ocultava preconceitos. Fontes Arquivo Oswaldo Aranha (AOA), Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC, Rio de Janeiro). 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