1 DELAMAR APARECIDA DE SOUZA CORRÊA RELAÇÕES OCULTAS NAS CHAMINÉS ABANDONADAS DE UNIÃO DA VITÓRIA: A INDUSTRIALIZAÇÃO NA DÉCADA DE 50 CURITIBA 2008 2 DELAMAR APARECIDA DE SOUZA CORRÊA RELAÇÕES OCULTAS NAS CHAMINÉS ABANDONADAS DE UNIÃO DA VITÓRIA: A INDUSTRIALIZAÇÃO NA DÉCADA DE 50 Material apresentado como requisito parcial ao Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE2008-História) do Governo do Estado do Paraná: Caderno Temático/Pedagógico. Orientadora: Profª. Dra. Janaina Zito Losada CURITIBA 2008 3 DADOS DE IDENTIFICAÇÃO Professor PDE: DELAMAR APARECIDA DE SOUZA CORRÊA Área PDE: HISTÓRIA NRE: UNIÃO DA VITÓRIA Professor Orientador IES: JANAINA ZITO LOSADA IES vinculada: UFPR Escola de Implementação: COLÉGIO ESTADUAL JOSÉ DE ANCHIETA Público objeto da intervenção: PROFESSORES DO ENSINO MÉDIO TEMA DE ESTUDO DO PROFESSOR PDE: INDUSTRIALIZAÇÃO: FORMAÇÃO DA BURGUESIA E DO OPERARIADO TÍTULO: RELAÇÕES OCULTAS NAS CHAMINÉS ABANDONADAS DE UNIÃO DA VITÓRIA: A INDUSTRIALIZAÇÃO NA DÉCADA DE 50 4 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO......................................................................................................5 1 A INDUSTRIALIZAÇÃO: CONTEXTO E UMA LEITURA TEÓRICA....................6 2 O ESTUDO DA HISTÓRIA LOCAL E A NARRATIVA COMO POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO DA CONSCIÊNCIA HISTÓRICA................16 3 O USO DE FONTES DOCUMENTAIS.................................................................17 3.1 Organização da pesquisa com a fonte oral..................................................20 3.1.1 Roteiro de entrevista....................................................................................21 3.1.2 Carta de cessão de uso da entrevista........................................................24 3.1.3 - Carta de cessão de uso da imagem do entrevistado.............................25 3.1.4 - Carta de cessão de uso de imagem (fotografias) ...................................26 4 EM BUSCA DAS CHAMINÉS ABANDONADAS DE UNIÃO DA VITÓRIA: A INDUSTRIALIZAÇÃO NA DÉCADA DE 50......................................................28 5 POSSIBILIDADES DE ATIVIDADES...................................................................38 REFERÊNCIAS........................................................................................................39 FONTES DOCUMENTAIS.......................................................................................40 5 APRESENTAÇÃO O presente Caderno possui a estrutura Temática, porém com possibilidade Pedagógica. Direcionado para professores do Ensino Fundamental e principalmente do Ensino Médio, visto tratar dos Conteúdos Estruturantes Relação de Trabalho, Relação de Poder e Culturais relacionando-os ao Conteúdo Específico Industrialização, dentro da proposta de abordagem de ensino da “História Temática”. Além da fundamentação teórica da Industrialização, apresenta fundamentação teórica sobre a utilização de fontes nas aulas de História, quais sejam: fonte oral, periódicos e processos trabalhistas, da exploração da História local e da produção de narrativa como possibilidade de construção da consciência histórica, extrapolando o saber escolarizado e problematizando o passado. Apresenta ainda a narrativa histórica contextualizando o cotidiano da fábrica em União da Vitória na década de 50, as ações e relações estabelecidas entre a burguesia e o operariado. Como possibilidade pedagógica, trás algumas sugestões possíveis de serem vivenciadas nas aulas de História, colaborando para que o projeto elaborado como parte de atividades do PDE (Programa de Desenvolvimento Educacional do Estado do Paraná) e as DCE (Diretrizes Curriculares Estaduais) possam ser efetivados. 6 1- A INDUSTRIALIZAÇÃO: CONTEXTO E UMA LEITURA TEÓRICA “O historiador não pode inventar nada, e sim revelar o passado que controla o presente às ocultas.” Eric Hobsbawm FIGURA 1 - DESENHO DE TRABALHADOR FONTE:http://www.planetaeducacao.com.br/novo/imagens/artigos/historia/Desenhode-trabalhador_01.jpg Acesso em 02/12/2008 O conceito de industrialização está construído na memória coletiva pela cultura escolar nos remetendo à industrialização na Europa, notadamente à Revolução Industrial na Inglaterra. Para tanto, contribuir para que se construa consciência histórica acerca do tema, extrapolando estes limites e ocupando o espaço no estudo local, se faz necessário obrigatoriamente que estes conceitos sejam reestudados de forma a sustentar teoricamente o processo de consciência. Não apenas fixado no saber escolarizado, na história lida e apropriada como saber sistematizado, mas sobre tudo interpretado, ou seja, a história de tempos distantes ou não, revisitada com problematizações de modo a provocar a consciência histórica sobre este saber. Jörn Rüsen, se utiliza da Teoria da História para localizar a consciência histórica como fundamento da Ciência Histórica: Se entende por consciência histórica a suma das operações mentais com as 7 quais os homens interpretam suas experiências da evolução temporal de seu mundo e de si mesmos, de tal forma que possam orientar, intencionalmente, sua vida prática no tempo.( RÜSEN,2001: 57). Assim sendo, compreender as relações estabelecidas entre a burguesia e o operariado: o cotidiano da fábrica, a estrutura social, política, cultural, econômica que engendra esta relação em União da Vitória na década de 50 não pode ser estudada e analisada fora do contexto estadual, nacional e sem reportar o estudo aos séculos XVIII e XIX ao cotidiano da Revolução Industrial na Europa, notadamente a Revolução Industrial Inglesa e essencialmente sem interrogar o passado afim de que responda ao presente as indagações históricas pertinentes a este cotidiano. Neste contexto, serão conceituadas algumas das terminologias freqüentes no discurso acerca da industrialização. O termo Revolução Industrial, por exemplo, apresenta conceitos que por vezes na história se mistura com período ou com fato, escolhemos aqui alguns conceitos: Tal diversidade de experiências levou autores a questionarem tanto a noção de uma “Revolução industrial” quanto a de uma “classe operária”. Não precisaremos nos deter aqui na primeira discussão: O termo é suficientemente útil nas suas conotações atuais. Para a segunda, muitos autores preferem o termo classes trabalhadoras, que enfatiza a grande disparidade em status, conquistas, habilidades e condições no seio da mesma expressão polissêmica. (THOMPSON, 2002:16/17) A polêmica de discussão teórica está relacionada a utilização do termo “Revolução” como marco para este período de alterações estruturais na sociedade europeia. Nos séculos que antecedem ao período compreendido pela historiografia como Revolução Industrial, vão acontecendo mudanças e inovações cientificas que vão aos poucos modificando e gestando tanto o capitalismo quanto a industrialização. Para tanto a Europa feudal, aos poucos, em momentos mais lentamente e em outros abruptamente, modifica seus modos de produção e a organização social, política, cultural e econômica se modifica junto. Para Eric Hobsbawm: [...] significa que a certa altura da década de 1780, e pela primeira vez na história da humanidade, foram retirados os grilhões do poder produtivo das sociedades humanas, que daí em diante se tornaram capazes da multiplicação rápida, constante, e até o presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços. Este fato é hoje tecnicamente conhecido pelos economistas como a ‘partida para o crescimento auto-sustentável’. Nenhuma sociedade anterior tinha sido capaz de transpor o teto que uma estrutura 8 social pré-industrial, uma tecnologia e uma ciência deficientes, e conseqüentemente o colapso, a fome e a morte periódicas, impunham à produção. (HOBSBAWM, 2003: 50) A estrutura social retratada na transição do período feudal para o do capitalismo, não é homogênea e nem ocorre ao mesmo tempo em todos os países do globo. Até porque as estruturas divergem e em outros países fora da Europa não houve feudalismo e a passagem para o capitalismo na grande maioria dele foi gestada num regime escravocrata, como é o caso do Brasil. Theo Santiago define a passagem ao capitalismo: [...] Não podemos falar de verdadeira passagem ao capitalismo senão quando regiões suficientemente extensas vivem sobre um regime social completamente novo. A passagem somente é decisiva quando as revoluções políticas sancionam juridicamente as mudanças de estrutura, e quando novas classes dominam o Estado. Por isso a evolução dura vários séculos. Ao final, é acelerada pela ação consciente da burguesia. (SANTIAGO, 1988: 37). Mais adiante ele descreve a transição para a era capitalista como: Substituição da ‘manufatura’ pela ‘maquinofatura’, ou seja, que permitirão multiplicar a produtividade do trabalho humano, reduzir este mesmo trabalho a um mecanismo cada vez mais barato, cada vez menos unido ao objeto produtivo (de forma contrária ao trabalho artesanal), e, por último, utilizar uma mão-de-obra de força reduzida, com a mobilização maciça do trabalho de mulheres e crianças. Estas invenções são as que concernem à metalurgia (fundição do carvão) e, por último à máquina a vapor. Este avanço das forças produtivas é necessário para subverter as estruturas econômicas e sociais. Daí em diante, a produção industrial em massa será a fonte essencial do capital, pela distância estabelecidas entre o vapor produzido pelo operário e o valor que lhe é restituído sob a forma de salário por aqueles que dispõem dos novos meios de produção (máquinas, fábricas). A era da acumulação ‘primitiva’ terminou. Tudo irá tornar-se ‘mercadoria’ e as relações sociais se estabelecerão exclusivamente em termos de dinheiro. Já não há mais ‘feudalismo’. (SANTIAGO, 1988: 47,48). No Brasil, assim que os escravos livres passam a serem trabalhadores assalariados das indústrias, se intensifica a passagem. Pois o trabalho assalariado passa a ser regulado por produção e outras estruturas são acionadas, por vezes inconscientemente e por vezes conscientemente pelas classes: burguesia e operariado. Karl Marx, conceitua na sociedade moderna como duas distintas e opostas classes: burguesia e proletariado: Burguesia significa a classe dos capitalistas modernos, que possuem meios de produção social e empregados assalariados. Proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, por não ter meios de produção 9 próprios, são reduzidos a vender a própria força de trabalho para poder viver.( MARX,1994: 09). Para Edward P. Thompson a palavra classe , pode ser conceituada como fenômeno histórico que se materializa nas relações: Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. Não vejo classe como uma ‘estrutura’, nem mesmo como uma ‘categoria’, mas com o algo que ocorre efetivamente e cuja ocorrência pode ser demonstrada nas relações humanas. (THOMPSON, 2004: 9) Relações estas que acabam por se estabelecer de maneira conflituosa por ser regulada por interesses que divergem. O da burguesia é obter o lucro e a maisvalia através da expropriação do trabalho. O da classe operária é o de obter salários e direitos que supram suas necessidades básicas de sobrevivência. Sendo que cada grupo social em tempos e espaços diferentes culturalmente exibem um padrão diferenciado de necessidades básicas. Com relação à formação da Classe Operária, Edward P. Thompson relata: Contudo, uma vez tomadas todas as precauções necessárias, o fato relevante do período entre 1790 e 1830 é a formação da ‘classe operária’. Isso é revelado, em primeiro lugar, no crescimento da consciência de classe: a consciência de uma identidade de interesses entre todos esses diversos grupos de trabalhadores, contra os interesses de outras classes. E, em segundo lugar, no crescimento das formas correspondentes de organização política e industrial. Por volta de 1832, havia instituições da classe operária solidamente fundadas e autoconscientes – sindicatos, sociedades de auxílio mútuo, movimentos religiosos e educativos, organizações políticas, periódicos – além das tradições intelectuais, dos padrões comunitários e da estrutura da sensibilidade da classe operária.(THOMPSON, 2002: 17). O que determina o limite entre a classe burguesa e a do operariado industrial é que a primeira detém os meios de produção enquanto a outra alimenta este sistema. Theo Santiago argumenta que “a produção maciça de mercadorias repousa sobre a exploração do trabalho assalariado, daqueles que nada possui, realizada pelos possuidores dos meios de produção”. (1988:138) Com relação ao surgimento da divisão entre as classes, relata Thompson: Nas décadas após 1795, houve uma profunda separação entre as classes na Inglaterra, e os trabalhadores foram lançados a um estado de apartheid cujos efeitos nos detalhes da discriminação social e educacional - podem ser sentidos até hoje. É nisso que a Inglaterra diferia de outras nações européias: o fluxo de sentimentos e disciplinas contra-revolucionárias coincidiu com o fluxo da Revolução Industrial; na medida em que avançavam novas técnicas e formas de organização industrial, recuavam os direitos sociais e políticos. A 10 aliança ‘natural’ entre uma burguesia industrial impaciente, com idéias radicais, e um proletariado em formação rompeu-se tão logo chegou a se formar. (THOMPSON, 2004: 196). Quanto aos conflitos no processo de industrialização, nas relações entre estas classes, presentes em diferentes recortes temporais e espaciais, nos reportando ao estudo dos séc.XVIII e XIX na Inglaterra, veremos que muitos destes males sociais presentes no contexto pesquisado, estão presentes no contexto da Revolução Industrial Inglesa: Podemos descobrir, em algumas das causas perdidas do povo da Revolução industrial, percepções de males sociais que ainda estão por curar. Além disso, a maior parte do mundo ainda hoje passa por problemas de industrialização e de formação de instituições democráticas, sob muitos aspectos semelhantes a revolução industrial. (THOMPSON, 2004: 13). No Brasil, o processo mais intensivo de industrialização ocorreu tardiamente se comparado com os séc. XVIII e XIX em que se intensificou na Europa, porém fatores presentes na estrutura e no cotidiano desta estão presentes, embora em tempo diferente. As relações entre a burguesia e o operariado se estabelecem no contexto do espaço físico da fábrica e ampliam ações no cotidiano cultural pertinente a estes grupos ou classes. Quanto à estrutura da fábrica, elementos presentes na atualidade apresentam semelhanças com o cotidiano da fábrica no séc. XVIII e XIX na Inglaterra. A fábrica surge como símbolo das energias sociais que estão destruindo o verdadeiro ’curso da natureza’. Ela incorpora uma dupla ameaça a ordem estabelecida. A primeira, proveniente dos proprietários da riqueza industrial, esses novos ricos que desfrutam de uma vantagem injusta sobre os proprietários da terra, cuja renda estava limitada aos arrendamentos. (THOMPSON, 2002: 11). Algumas representações marcam a memória individual e coletiva das pessoas, relacionando a estrutura física a conceitos. Exemplo desta representação é a chaminé. Uma estrutura de tijolos, na maioria das vezes alta a se destacar pela sua visibilidade principalmente em épocas em que a verticalização das construções tomava menos parte na paisagem. Para Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (2001:148) Chaminé é: “ Tubo que comunica a fornalha com o exterior e serve para dar tiragem ao ar e aos produtos da combustão.” Dentro da estrutura da fábrica, está ainda a presença da máquina. Esta 11 responsável potencialmente pela passagem da manufatura para a maquinofatura e por mudanças estruturais nas relações de trabalho. Karl Marx em seu célebre livro O Capital, descreve a presença da máquina como expropriadora da vida do trabalhador: A maquinaria aumenta o material humano explorável pelo capital, ao apropriar-se do trabalho das mulheres e das crianças; como confisca a vida inteira do trabalhador; ao estender sem medida a jornada de trabalho; e como seu progresso, que possibilita enorme crescimento da produção em tempo cada vez mais curto, serve de meio para extrair sistematicamente mais trabalho em cada fração de tempo, ou seja, para explorar cada vez mais intensivamente a força de trabalho. (KARL MARX, 2001: 476,479). O enorme crescimento da produção em tempo cada vez mais curto, é o que Marx toma por base para explicar a mais-valia, que é diferente de lucro e que apresenta diversas interfaces constituindo um capítulo inteiro de sua obra O Capital. Mesmo podendo parecer uma distância de tempo muito longo o estabelecido entre os elementos apresentados por Marx e a realidade da fábrica em União da Vitória na década de 50, a observação nas pesquisas apontam para a necessidade de abordar estes elementos: Na manufatura, os trabalhadores são membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, eles se tornam complementos vivos de um mecanismo morto que existe independente deles. O trabalho na fábrica exaure os nervos ao extremo, suprime o jogo variado dos músculos e confisca toda a atividade livre do trabalhador, física e espiritual. (KARL MARX, 2001: 482, 483). Trazendo este contexto para a industrialização no Brasil no século XX, constatamos que a realidade foi calamitosa, como narra Jacob Gorender : Os salários eram muito baixos... A jornada de trabalho habitual se estendia de onze a doze horas e as condições higiênicas e de segurança, dentro das fábricas, só podem ser caracterizadas como calamitosas. Na indústria têxtil, em particular, proletariado era constituído, em sua maioria, por mulheres e crianças. Segundo testemunho insuspeito do começo do século XX, a idade mínima para o trabalho fabril era de... cinco anos! Numa das fábricas de Matarazzo, foram encontradas máquinas de proporções apropriadas ao manejo infantil. Pior ainda: os menores viam-se forçados a horários noturnos de onze horas e, com freqüência, sofriam espancamentos dentro das fábricas. (GORENDER, 1981: 48) Descrevendo os direitos do operariado, afirma Jacob Gorender que no inicio do século XX: Não havia descanso semanal remunerado, férias remuneradas, seguro contra acidentes, previdência social, nada enfim, que impusesse algum limite legal à taxa de exploração da força de trabalho.(GORENDER,1981:48). 12 Estes direitos vão sendo conquistados um a um e legitimados através da CLT (Consolidação das leis do trabalho-Decreto-lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943DOU de 09/08/1943). Porém com sérios comprometimentos na efetivação, seguindo um percurso de conflitos entre as classes. Quanto ao recorte temporal selecionado para a problematização local pode ser avaliado como uma nova fase, por Milton Santos (2003: 43): “A partir de 1945 e 1950 a indústria brasileira ganha novo ímpeto. (...) Registram-se no Brasil em 1950, 71.027 estabelecimentos industriais e 1.295.236 pessoas ocupadas”.Período relativo ao Pós 2º Guerra Mundial, em que algumas das estruturas nas políticas públicas promovem avanços capitalistas. Nesse mesmo sentido, segundo Cláudio Roberto Bragueto (Geografia, Londrina, v. 11, n. 1: 33/45, 2002): [...] foi na década dos 50 que o capitalismo monopolista entra em plena expansão no Brasil, dominando a acumulação do capital e modificando profundamente a fisionomia econômica e social do país. Inicialmente, ainda foi com o capital estatal que se criaram a Petrobrás, a Cosipa, a Usiminas e diversas companhias de eletricidade (Chesf, Furnas, etc.). Mas, no quadro de uma industrialização acelerada pela execução do Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek (1956-61), capitais multinacionais foram atraídos em grande escala ao país, tornando a hegemonia do capital monopólico definitiva no Brasil. No referido artigo, Bragueto se utilizou de dados estatísticos que propuseram análises da realidade. Justifica-se a escolha desta década por ter sido apontada pelos teóricos, Milton Santos e Bragueto dentre outros, como sendo um período de grande movimentação Industrial, no Estado do Paraná e no Brasil. Período pós 2ª Guerra Mundial, quando o capitalismo estende seus tentáculos nos países em que a Industrialização se apresentava timidamente e agora impulsionada por incentivos estruturais por parte dos Governos do Estado do Paraná1 e do Brasil2. Período em que, em nome do desenvolvimentismo, o capital estrangeiro amplia suas aplicações nos países em desenvolvimento e se evidenciam privilégios concedidos a determinada parcela da sociedade, a burguesia, e a influência da legitimação do poder burguês, ou seja, a influência de benefícios oriundos da criação de leis, nesta formação. 1 Moisés Lupion, Bento Munhoz da Rocha Neto, Antônio Anibelli, Adolpho de Oliveira Franco e novamente Moisés Lupion. 2 Gaspar Dutra, Getúlio Vargas, café Filho, Carlos Luz, Nereu Ramos e Juscelino Kubitschek. 13 O percurso da industrialização no Estado do Paraná concomitantemente a urbanização vai acontecendo dos centros maiores e a diversidade de necessidades de consumo a que o capitalismo vai submetendo a cultura nacional. Cultura esta também diversa devido aos povos todos que compõem este contexto “nacional”. As décadas que antecedem 1950, segundo Magnus Roberto de Mello Pereira (1996) é marcada de 1850 a 1940 por biografia orgânica do mate. Embora sofrendo críticas pelas terminologias, Magnus se utiliza da terminologia “Indústria do Mate” e “Burguesia do Mate” por considerar que a estrutura que alimentava esta produção extrapolava os limites do beneficiamento primário de um produto extrativo. Afirma o autor que “se não fosse pela utilização simultânea de mão de obra livre e escrava, a indústria ervateira, caso localizada na Europa, incluir-se ia sem qualquer ressalva entre tantos outros ramos indústrias que seguiram trajetórias similares.” Para Dennison de Oliveira (2001:24), alguns fatores são determinantes: “O início do processo de industrialização coincide com a intensificação das políticas imigratórias e com o auge do ciclo da erva-mate”. Porém, é quando o Estado aplica intervenções em defesa de políticas direcionadas a servir ao modelo capitalista é que o processo de industrialização se desenvolve mais rapidamente. Dennison de Oliveira complementa: Esse processo só ganhou impulso, verdadeiramente, a partir de 1960, quando as condições institucionais de intervenção do Estado brasileiro na promoção da industrialização já havia produzido expressivos resultados, no plano nacional e regional. Suas manifestações mais visíveis, contudo, como a transformação dos métodos de trabalho, a generalização das formas de pagamento assalariado e a incorporação de forma sistemática de inovações tecnológicas, podem ser observadas já no final do século XIX. Assim, por meio da exploração do mate, da madeira e do café é que a industrialização no Paraná começa a se forjar. (OLIVEIRA, 2001: 25) Ainda, fatores ligados a conjuntura nacional criados pelo governo de Getúlio Vargas influenciam de forma sistemática. Em 1945, apresenta um governo populista em que acima dos interesses das classes sociais, favorece o desenvolvimento do capitalismo. Durante o cenário político da transição da ditadura estadonovista para a redemocratização do país quando são visíveis no cenário nacional mudanças estruturais, sobressai no Estado do Paraná a figura política de Moyses Lupion que dominou este cenário por mais de 15 anos. De 1946 até 1964. Segundo Maria Cristina Colnaghi: 14 Sua geração não se vinculava à atividade extrativa da erva-mate, nem ao nascente cultivo do café, mas fundamentalmente ao Boom da madeira. A madeira foi o grande negócio do chamado “Grupo Lupyon”, que se dedicava à extração, beneficiamento e exportação. ( COLNAGHI, 1991: 10) O extrativismo vegetal marcou extensas regiões por modificação na paisagem, conflitos intensos relacionados destruição da natureza, a legalização de terra, ocupações, exploração desordenada ocasionando extinção de espécies nativas como a Imbuia por exemplo. O contexto explorado para a pesquisa, União da Vitória na década de 50, se sobressai no cenário estadual como região destaque na indústria madeireira. A realidade uniãovitoriense é narrada pela historiadora Leni T. Gaspari: A história das ‘Gêmeas do Iguaçu está ligada às características culturais dos seus primeiros povoadores, aliada a fatores ambientais próprios do espaço físico onde elas estão inseridas. A historicidade desse espaço e do seu povo entrelaça-se na constituição de relações sociais e relações de poder que irão configurar-se no desenvolvimento econômico e cultural da sociedade local. No século XVIII, inúmeras expedições fluviais desceram o Rio Iguaçu, passando pelos territórios onde hoje estão as cidades sem, entretanto, estabelecer núcleos de povoamento que caracterizassem a fixação do homem no local onde viria a ser a cidade de União da Vitória. União da Vitória tem sua história ligada a ocupação dos Campos de Palmas e à criação de gado naquele local. Em função desse povoamento, abriram-se novos caminhos para escoar produção, bem como para aquisição de suprimentos necessários aos moradores. A comercialização era feita em Palmeira e Sorocaba e o abastecimento de víveres e de sal era feito por Curitiba e Paranaguá. O caminho era longo e difícil, Surge, então, a necessidade de encurtar o trajeto entre Palmas e Palmeira por onde seriam conduzidas as tropas de gado...Entre esses agrupamentos humanos surge Porto da União da vitória ( nome primitivo) como ponto de travessia do rio e como porto de desembarque do sal e outros produtos, constituindo-se assim, sua formação inicial ancorada no processo econômico. Junto ao vau estabeleceu-se o pouso dos tropeiros, nascendo nos arredores os primeiros estabelecimentos comerciais tendo entre outros produtos, artesanatos e artigos de couro para abastecer os viajantes. (GASPARI, 2005:92) Na década de 50, o comércio prosperava e o processo de urbanização avançava conjuntamente ao da industrialização da madeira, alterando o contexto natural, político, social e econômico da cidade. Porém, o acervo bibliográfico existente é difuso, as informação encontram-se espalhadas e da forma que se apresentam, não contextualizam a situação das indústrias em União da Vitória na década de 50. Quais eram as indústrias, suas implicações de impacto na natureza visto que o produto de matéria-prima era com tudo, exclusivamente a madeira. Também os impactos sociais, políticos, culturais, econômicos advindos da 15 relação entre as classes operariado e burguesia, durante o período em que ocorre o processo de industrialização e de urbanização. Porém as fontes estão disponíveis à pesquisa. As chaminés de fábricas desativadas, a grande maioria delas localizadas nas margens do Rio Iguaçu estão hoje solitárias na paisagem, revelando que em algum momento da História de União da Vitória elas movimentaram uma estrutura que está oculta. A sociedade uniãovitoriense na década de 50, notadamente as indústrias de extração e beneficiamento da madeira, estabelecidas e ou que expandiram seu capital e sua produção nesta década, foram investigadas através da pesquisa em registros nos processos trabalhistas existentes no acervo da FAFI (Faculdade Estadual de Filosofia Ciências e Letras) de União da Vitória, doado pelo Ministério do trabalho; nos Jornais locais “O Comércio” e “O Caiçara” de União da Vitória, o Jornal “Gazeta do Povo” de Curitiba, e ainda em entrevistas com trabalhadores que vivenciaram esta década, no cotidiano da fábrica e foram partícipes dos conflitos oriundos da relação entre operariado e burguesia. 2- O ESTUDO DA HISTÓRIA LOCAL E A NARRATIVA COMO POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO DA CONSCIÊNCIA HISTÓRICA Estudar o local, o espaço imediato de ocupação humana, pode trazer elementos que extrapolam o micro, e dialogam com elementos de outros tempos e espaços históricos, superando uma visão reducionista de história mundial mais importante que história nacional e local: Sem situar devidamente os problemas nacionais e ampliar o conhecimento sobre a realidade brasileira. Pode-se reforçar a idéia de que os conflitos internos e seus agentes sociais desempenham papel secundário na construção da nação. (BITTENCOURT, 2004: 158) Porém, de pouco adianta para a produção do conhecimento histórico se elementos da consciência histórica não estiverem acionados. Para Jörn Rüsen, o processo de consciência histórica está intrinsecamente ligado a produção da 16 narrativa histórica. Só se pode falar de consciência histórica quando, para interpretar experiências atuais do tempo, é necessário mobilizar a lembrança de determinada maneira: ela é transposta para o processo de tornar presente o passado mediante o movimento da narrativa. A mera subsistência do passado na memória ainda não é constitutiva da consciência histórica. Para a constituição da consciência histórica requer-se uma correlação expressa do presente com o passado- ou seja, uma atividade intelectual que pode ser identificada e descrita como narrativa (histórica). (RÜSEN, 2001: 64) Para que o aprofundamento da história local aconteça, com ele se realize a inter-relação de elementos inseridos nos demais contextos e que a narrativa histórica possa ser produzida esta história local que não está registrada como escrita e nem sistematizada, se fundamentará em fontes. Trabalho com fontes, para além de estruturação técnica, mas como diálogo com registros escritos e orais de experiências humanas. 3 - O USO DE FONTES DOCUMENTAIS: HISTÓRIA LOCAL FIGURA 2 - PROCESSO TRABALHISTA 17 Foto: Delamar Aparecida de Souza Corrêa FIGURA 3 - ENTREVISTA ORAL FIGURA 4 – ENTREVISTA ORAL VICTOR FERNANDES DOS SANTOS AFRÂNIO BERTIER Foto: Delamar Aparecida de Souza Corrêa FIGURA 5 – JORNAL “O COMÉRCIO” Foto: Delamar Aparecida de Souza Corrêa 18 Foto: Delamar Aparecida de Souza Corrêa FIGURA 6 – JORNAL “GAZETA DO POVO” - MÁQUINA PARA LEITURA MICROFILMADA BIBLIOTECA PÚBLICA DO PARANÁ Foto: Delamar Aparecida de Souza Corrêa A utilização de documentos como possibilidade metodológica para análise e estudo da década, traz subsídios que contribuem subjetivamente na produção da narrativa histórica e na compreensão do processo histórico. “O uso de documentos nas aulas de História justifica-se pelas contribuições que pode oferecer para o desenvolvimento do pensamento histórico.” (BITTENCOURT, 2004: 333). A utilização de periódicos na pesquisa requer alguns levantamentos prévios. 19 no caso da presente pesquisa, em União da Vitória na década referenciada, existiam os periódicos: “O Comércio” e “O Caiçara”. O acesso ao Jornal “O Caiçara” é restrito ao professor, mediante documento da instituição e para leitura no local. Já o Jornal “O Comércio” possui espaço estruturado para pesquisa em grupo e sendo acompanhado pelo professor acolhe grupo de 10 alunos em sala específica, cujo acervo é amplo, um encadernamento por ano da década. Porém também só está disponível para consulta sem possibilidade de fotocopiar. Quanto ao Jornal “Gazeta do Povo”, em Curitiba na Biblioteca Pública do Paraná, existe acervo cuja organização está digitalizada em filmes possibilitando a leitura em máquina específica, conforme ilustra a figura de número 6, podendo ser fotocopiada. Após a leitura em diversas edições dos periódicos, constata-se a dificuldade de juntar informações suficientes para obtenção de subsídios que possibilitem a produção de narrativa histórica. Os processos trabalhistas estão em acervo do departamento de História da FAFI, a disposição da pesquisa e cuja possibilidade está ao acesso de professores e alunos, desde que agendada a consulta, porém em espaço que possibilita apenas pequenos grupos. Fonte importantíssima, processos que retratam os mais diversos conflitos entre as classes, onde queixas trabalhistas estão expostas, o cotidiano retratado de forma muito dura, e com amplas possibilidades de abordagens. Quanto a fonte oral, na medida em que começam os contatos para seleção dos entrevistados, a quantidade vai se multiplicando e acaba exigindo até uma seleção a fim de diversificar e delimitar o número deles. Enquanto fonte, trás do passado informações preciosas que permitem serem conflitadas, comparadas, exploradas de tal forma que a junção com as das demais fontes, permite com muita propriedade e sutileza propiciar dados possíveis para que se efetive a narrativa histórica do tema. A presente pesquisa se valeu da metodologia qualitativa, utilizando a entrevista “temática”, ou seja, da memória do entrevistado são objetivadas as experiências individuais e coletivas relativas ao tema proposto e a década em questão. Lucília de Almeida Neves conceitua história oral: A história oral é um procedimento metodológico que busca, pela construção de fontes e documentos, registrar, através de narrativas induzidas e estimuladas, testemunhos, versões e interpretações sobre a História em suas múltiplas dimensões: factuais, temporais, espaciais, conflituosas, consensuais...Portanto, a a história oral é um procedimento, um meio, um 20 caminho para a (NEVES: 2003, 27/38 ) produção do conhecimento histórico. Alguns encaminhamentos são propostos pelos autores José Carlos Sebe B. Meihy e Fabíola Holanda (2007:16-17) como prescrição para o êxito do trabalho com fonte oral: seleção dos entrevistados; local apropriado e da concordância do entrevistado; tempo previsto adequado; aparelho tecnológico testado com antecedência; transcrição e conferência da informações; pedido de autorização em carta de cessão de uso da transcrição da fala; compromisso com a devolução da produção ao entrevistado. As entrevistas objetivam fornecer elementos, informações, versões e interpretações sobre a vida cotidiana em fábricas da década de 50 em União da Vitória e as relações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos neste cotidiano, notadamente a burguesia e o operariado. As versões são comparadas, analisadas e acrescidas às informações obtidas nos periódicos e processos trabalhistas a fim de possibilitar a produção de narrativa histórica contextualizando, dentro do tema Industrialização: a formação da burguesia e do operariado em União da Vitória na década de 50. 3.1 - ORGANIZAÇÃO DA PESQUISA COM A FONTE ORAL 1 - Levantamento bibliográfico do trabalho com a fonte oral, comparando informações com periódicos e processos trabalhistas; 2 - Definição do “Perfil” dos entrevistados, sua atuação no contexto das preocupações com relação ao tema; 3 - Realização de roteiro de entrevistas; 4 - Aplicação das entrevistas; 5 - Transcrição das gravações, que aconteceram com gravador digital; 6 - Conferência de fidelidade; 7 - Análise comparativa das entrevistas e destas com as outras fontes, quais sejam: periódicos e processos trabalhistas; 8 - Retorno aos depoentes e ou as outras fontes caso seja necessário para que as informações sejam precisas, as evidências construídas e os objetivos alcançados; 9 - Produção de narrativa histórica acerca das relações estabelecidas entre o 21 operariado e a burguesia na década de 50 em União da Vitória no contexto da fábrica (industrial) 10 – Possibilidades de atividades 3.1.1 - Roteiros de entrevista Seguindo orientações do (CPDOC) Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea do Brasil a pesquisa oral terá: •Um roteiro Geral; •Uma quantidade de roteiros individuais correspondentes ao número de entrevistados, ( neste caso atenderá às especificidades das funções que ocuparam no cotidiano da fábrica); Após a análise, interpretação, comparação dos dados, serão incluídas informações pesquisadas nos periódicos e processos trabalhistas, podendo haver retorno aos questionamentos feitos aos entrevistados a fim de ampliar qualitativamente as informações e possibilitar a produção de narrativa histórica sobre o tema. Realização das entrevistas: Roteiro de entrevista aos depoentes que, aplicado de forma oral, em entrevista aberta e gravada. PERFIL 1 - OPERÁRIO Ter trabalhado como operário em fábricas de União da Vitória na década de 50. ROTEIRO DE ENTREVISTA – PERFIL 1 1) No seu setor, na sua função, pode descrever o seu trabalho? 2) Pode descrever a estrutura física interna e externa da fábrica? 3) Como era os arredores? 4) Em quantos turnos funcionava a fábrica? 5) Em que turno trabalhava? 6) Qual a carga horária que era obrigada em seu setor? 7) Existia alguma forma de compensação por trabalho fora do horário estabelecido? 8) Seu tempo para a produção do seu trabalho era livre ou regulado por 22 tempo/produção? 9) Na época, tinha conhecimento claro de seus direitos e deveres para com o seu trabalho e para com a fábrica? 10) Que direitos trabalhistas destes que são efetivados na atualidade que já eram na década de 50: férias, décimo terceiro salário, seguro desemprego, seguro para acidentes de trabalho,outros; 11) Tem lembrança da idade mínima que a fábrica admitia trabalhadores? 12) Como agia com relação às ordens a serem cumpridas? 13) Como era punido o trabalhador que de alguma forma deixasse de cumprir parcial ou totalmente as ordens estabelecidas? 14) Como era seu vínculo empregatício?(contrato, carteira assinada) 15) Onde trabalhava antes da fábrica? 16) Como chegavam até os operários as informações sindicais? 17) Onde morava? distância da residência/fábrica 18) Como era a sua relação com os outros operários, encarregado, guarda-livros e Patrão? 19) Qual a sua opinião hoje sobre o trabalho e a fábrica em que trabalhou na década de 50? 20) Os operários usavam algum tipo de equipamento para prevenção de acidentes? 21) Aconteciam muitos acidentes de trabalho? 22) Qual o encaminhamento era dado aos casos? PERFIL 2 – ENCARREGADO Ter exercido a função de encarregado de setor no cotidiano da fábrica na década de 50 em União da Vitória; ROTEIRO DE ENTREVISTA - PERFIL 2: 1)Qual era a sua função no cotidiano da fábrica? 2)Qual era a sua jornada de trabalho? 3)A fábrica funcionava por turnos? qual o seu turno? 4)Obtinha quais benefícios comparados aos dos operários por exercer este cargo? 5)Como era seu salário se comparado aos demais? 6)Como agia a fim de obter a execução do seu trabalho? 23 7)Como era a sua relação com os operários, guarda-livros e patrão? 8)Quais e em que ocasiões eram aplicadas sansões(punições,ganchos)? 9)Como agia com relação ao sindicato e representante dele dentro da fábrica? 10) Em que trabalhava antes de ser encarregado? 11) Tinha algum poder de decisão sobre as demissões ou nas mudanças de setores dos operários? 12) Haviam trabalhadoras mulheres? 13) Qual a idade mínima que a fábrica exigia para os operários? 14) Haviam diferenças na exigência do cumprimento do trabalho aplicados às mulheres e menores? 15) Tem conhecimento dos regimes de contratos trabalhistas dos operários?(carteiras assinadas, trabalho informal) 16) Qual o regime do seu contrato de trabalho? 17) O operariado usava algum equipamento de prevenção contra acidentes? 18) Aconteciam muitos acidentes de trabalho? Quais? ROTEIRO GERAL (APLICADO A AMBOS) 1)Qual seu nome? 2)Sexo 3)Etnia 4)Em quais indústrias trabalhou na década de 50 em União da Vitória? 5)Qual função que exerceu neste contexto? 6)Quanto tempo trabalhou? 7)Qual o produto final fabricado na fábrica em que trabalhou? 8)Qual a matéria-prima utilizada pela fábrica? 9)Tem idéia das formas utilizadas pela fábrica para aquisição da matéria prima? 10) Em que turno trabalhava? 11) Que direitos trabalhistas eram efetivados: férias, jornada de trabalho, seguro para casos de acidentes de trabalho, dentre outros; 3.1.2 - Carta de cessão de uso da entrevista 24 União da Vitória, ..................................................... de 2008. Eu,................................................................................. estado civil.......................RG.................................,declaro concordar que meu depoimento oral seja transcrito e colabore na produção de Narrativa Histórica e demais produções referentes ao Projeto: A Industrialização em União da Vitória na década de 50: formação da burguesia e do operariado. Projeto este da autoria da Professora de História Delamar Aparecida de Souza Corrêa, aluna do PDE (Programa de Desenvolvimento Educacional) -2008 da SEED (Secretaria de Estado da Educação), NRE/UVA (Núcleo Regional de Educação-União da Vitória) e orientado pela Prof. Dra. Janaina Zito Losada da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Concordo em participar voluntariamente, com acesso às produções obtidas com base no meu e demais depoimentos, sabendo que não será utilizada para fins lucrativos. __________________________ Participante da Pesquisa ____________________________ Pesquisadora Nome completo: Nome completo: CPF: CPF: Endereço: Endereço: Cidade: Cidade: Telefone: Telefone 3.1.3 - Carta de cessão de uso da imagem do entrevistado 25 União da Vitória, ..................................................... de 2008. Eu,................................................................................. estado civil.......................RG.................................,declaro concordar que minha imagem sendo entrevistado pela pesquisadora seja publicada e colabore na produção de Narrativa Histórica e demais produções referentes ao Projeto: A Industrialização em União da Vitória na década de 50: formação da burguesia e do operariado. Projeto este da autoria da Professora de História Delamar Aparecida de Souza Corrêa, aluna do PDE (Programa de Desenvolvimento Educacional) -2008 da SEED (Secretaria de Estado da Educação), NRE/UVA (Núcleo Regional de EducaçãoUnião da Vitória) e orientado pela Prof. Dra. Janaina Zito Losada da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Concordo em participar voluntariamente, com acesso às produções, sabendo que não será utilizada para fins lucrativos. __________________________ ____________________________ Participante da Pesquisa Pesquisadora Nome completo: Nome completo: CPF: CPF: Endereço: Endereço: Cidade: Cidade: Telefone: Telefone 3.1.4 - Carta de cessão de uso de imagem (fotografias) 26 União da Vitória, ..................................................... de 2008. Eu,................................................................................. estado civil.......................RG.................................,declaro concordar que minhas imagem (fotografias)........................................................................ publicadas, sendo para tal citada minha autoria, sejam utilizadas e colaborando na produção de Narrativa Histórica e demais produções referentes ao Projeto: A Industrialização em União da Vitória na década de 50: formação da burguesia e do operariado. Projeto este da autoria da Professora de História Delamar Aparecida de Souza Corrêa, aluna do PDE (Programa de Desenvolvimento Educacional) -2008 da SEED (Secretaria de Estado da Educação), NRE/UVA (Núcleo Regional de EducaçãoUnião da Vitória) e orientado pela Prof. Dra. Janaina Zito Losada da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Concordo em ceder as imagens, desde que meu nome seja citado como autoria, voluntariamente, com acesso às produções, sabendo que não será utilizada para fins lucrativos. __________________________ ____________________________ Participante da Pesquisa Pesquisadora Nome completo: Nome completo: CPF: CPF: Endereço: Endereço: Cidade: Cidade: Telefone: Telefone Terminadas as entrevistas, as transcrições são comparadas entre elas, e cruzadas com as demais fontes, com a fundamentação teórica e assim os subsídios para a produção da narrativa vão completando uma espécie de quebra-cabeça da 27 História das relações estabelecidas entre a burguesia e o operariado em União da Vitória na década de 50. 4 – EM BUSCA DAS CHAMINÉS ABANDONADAS DE UNIÃO DA VITÓRIA: INDUSTRIALIZAÇÃO NA DÉCADA DE 50 Seguindo itinerário que contorna o Rio Iguaçu, cujo formato se assemelha a uma ferradura quando observado em foto aérea, perdidas ou solitárias na paisagem 28 estão as chaminés. Chaminés que no passado, principalmente na década de 50, movimentaram a estrutura de fábricas que já não existem mais, ou mudaram de proprietários e ou de endereços. Para além da estrutura física que está posta nos tijolos das chaminés, quando investigadas as estruturas relacionadas às relações sociais vão saindo do esquecimento e sendo resgatadas, interrogadas e narradas como história. História, advinda da memória individual e coletiva do operariado de diversos setores, suas ações e relações estabelecidas entre os iguais e principalmente com a burguesia. Neste contexto, o cotidiano da fábrica é descrito pelos entrevistados: a matéria-prima utilizada (madeira na maioria dos casos), o transporte, os diversos setores, a produção, a jornada de trabalho, as horas extras, o regime de trabalho e as demais outras questões descritas pelo roteiro de entrevistas, e que constam nos processos trabalhistas. Ao confrontar as transcrições das gravações com as matérias selecionadas nos periódicos e os processos trabalhistas, com as fontes teóricas consultadas, as informações vão se encaixando como um quebra-cabeça e as chaminés ocultas agora revelam uma parte da história de União da Vitória, de uma parcela de sujeitos sociais, o operariado. Na década de 50 em União da Vitória o comércio prosperava e a burguesia industrial intensificava o processo de extração e beneficiamento da madeira. Outras indústrias como a de produção de tapetes, sementes agrícolas, da produção da erva-mate, mas essencialmente a madeira toma conta do cenário municipal. Apresentam estrutura semelhantes entre si e também permanências se comparadas às da Europa nos séculos referenciados pela historiografia como a Revolução Industrial. Os setores eram diversos, neles trabalhavam operários homens e mulheres, por vezes menores de idade. As formas de contratos trabalhistas eram regulamentados por registros em carteira de trabalho e empregos informais, quais sejam: contratos diários, por empreitada e outras formas. Cada operário era responsável por determinada parte da produção. Diferindo do sistema da manufatura, onde o operário acompanha o produto desde a matéria prima até o produto final. A aquisição da matéria-prima incluía na maioria das vezes a compra da terra. Processo conflituoso devido a situações como: a relação entre o preço e a 29 realidade de mercado; proprietários que não possuíam escrituras das terras (posseiros); o sistema de fiscalização dos registros de terra que facilitava regulamentações indevidas por parte de cartórios em benefício dos donos do capital; sistema de medição de terras sem muito controle, auferindo problemas relacionados às cercas de limite das terras. Motivos estes que facilitavam a aquisição da matériaprima. A matéria-prima utilizada era o Pinheiro (Araucária Augustifólia), a Imbuia (Ocotea Porosa), o Cedro (Cedrela Odorata), dentre outras madeiras. FIGURA 7 - TRANSPORTE DE IMBUIA – Década de 50 Foto: Acervo Foto Íris ltda. Quanto a trajetória da matéria-prima, é descrita em detalhes pelos entrevistados, seguindo uma estrutura semelhante: no “mato” as firmas tinham serrarias, com gerentes e operariado diverso, que residiam em casas da serraria. Os operários que moravam no “mato” obtinham alimento em armazéns que eram de propriedade do patrão, na maioria das vezes. Os alimentos eram marcados em sistema de cadernetas. Sistema este que também aparece nos relatos referentes às fábricas na cidade. Inclusive no processo de número 4291, consta um conflito envolvendo um gerente que foi demitido por justa causa e reivindicava na justiça explicação do que seria a “justa causa”, e num dos argumentos do patrão consta: [...] as ordens tem de ser feitas em nome do operário e não em nome de n/ firma, a ordem que estiver em nome da firma nós pagamos.Ordem do operário- A ordem que for dada ao, operário, e que ele não tenha crédito quer diser, não tenha “haver”, também não pagamos, o gerente da serraria é o responsável.- assim não dê, ordem para ninguém quando ele não tem haverAssim o operário sabendo que si ele não compra si não tiver haver, ele então 30 trata de trabalhar, ou então que passe fome.- assim é o único meio dele trabalhar, - porque nós não temos obrigação de sustentar quem não quer trabalhar, não acha? (Processo nº4291 de 18/5/1955) Seguindo o mesmo processo, mais adiante vem os depoimentos de operários trazidos pelo gerente para testemunhar a seu favor, afirmam que nem todos tinham carteira assinada por mês, muitos deles trabalhavam por dia (emprego informal) e que em muitos dias por diversos motivos não havia trabalho para eles e portanto não havia registro de haver. O advogado do gerente argumenta: [...] o declarante informa que a firma reclamada deixava de trabalhar em virtude da falta de gazolina - óleo -correias e até mesmo por falta de mantimentos aos operarios; que os operarios em geral recebem o pagamento em base de troca de alimentos e dificilmente com pagamento em dinheiro... (Processo nº 4291/57) Quando perguntado a um dos entrevistados porque se submetiam ao sistema de cadernetas, afirma que não tinham outras alternativas e que os salários eram baixos. Com relação aos salários nos chama a atenção a manchete do Jornal “O Comércio” de 17 de janeiro de 1959- nº 594- 2ª página: “Salário Mínimo somente em fins de fevereiro. Muitas indústrias em situação precária em face do desproporcional aumento de ordenados ultrapassar o próprio lucro auferido pelas firma”. Discurso este muito utilizado pela burguesia para ocultar seu enriquecimento e justificar os baixos vencimentos do operariado. Retornando à trajetória da matéria-prima até chegar na fábrica, em casos vinham por caminhão, trajeto bastante dificultado pela precariedade das estradas, principalmente em dias de chuva. Os entrevistados descrevem um outro sistema de transporte da madeira, muito utilizado na década, que é a jangada, onde as toras eram amarradas umas nas outras e vinham pelo rio com uma pessoa sobre elas guiando. Chegando nas margens da fábrica, seu Afrânio Bertie descreve o percurso dela: era descarregada na margem do rio, tinha um guincho que tirava as toras do rio, levantava encima do vagonete de uns 100 metros de distância e daí era descarregado já no pátio. .. Naquele tempo a tora era cozida. A Imbuia levava dois dias cozinhando. Não podia cozinhar com muita pressão e nem muito rápido por causa que se não ela partia.Ela rachava. Mas a madeira principal mesmo era o Pinho.O pinheiro,esse era a principal matéria prima que tinha para fazer compensado antigamente. No Bernardo Stamm fazia compensado e fábrica de caixas para a Cônsul. (Operário Afrânio Bertier em entrevista no dia 11-11-2008) FIGURA 8 - JANGADA USADA PARA TRANSPORTE DE TORAS – Década de 50 31 Foto: Acervo Foto Íris Ltda. Depois de pronto, os produtos eram transportados de trem para São Paulo na maioria das vezes, porém haviam outros destinos, Rio Grande do Sul por exemplo. Esta trajetória envolve uma relação enorme de cargos e funções, como: torno, colagem, estufas, esquadradeira e outras. Seu Victor narra seu trabalho em uma das empresas: [...] Entonce nóis trabaiava o dia inteiro aqui e tinha o carregamento de vagão, daí nóis ia carrega e nóis trabaiava até a meia noite. As veiz até a uma da madruga, nóis trabaiava e no outro dia às 7 hora outra veiz. Não ganhava hora extra...é que ali, a senhora sabe como é que é?era classificado porque como tem o ditado dos caboclo que “o cavalo mais manso é ocupado mais mesmo e é o que mais luta”. Então tinha otros que não. (Operário Victor Fernandez dos Santos em entrevista no dia 07-11-2008) Já o encarregado entrevistado tem na lembrança a idéia de que a fábrica pagava adequadamente os encargos de hora extra. Ainda neste sentido, constam diversas reclamações a este respeito em processos trabalhistas movidos contra a referida fábrica. O conflito relacionado à hora extra está diretamente ligado aos mais diversos conflitos constantes nos processos trabalhistas, dentre eles, reclamações por demissões alegando justa causa, pedidos de indenização por acidentes de trabalho, dentre outras. A este respeito, dentre os inúmeros processos está o de nº 4111/56, onde uma menor, efetiva reclamação trabalhista através de seu pai e representante legal, por pedido de pagamento de hora extra e demais benefícios no momento do acerto de demissão onde é alegada justa causa. Quanto às demissões, são relatados que haviam notificações, no caso de 32 faltar uma vez com os cumprimentos de trabalho, recebiam um dia de “gancho“ , ou seja, o afastamento do trabalho por um dia sem remuneração, na segunda vez três dias e assim se sucediam na base de três avisos para que o operário viesse a ser demitido por justa causa. Os motivos das demissões variam desde falta no trabalho até faltas disciplinares por desacato ao encarregado, gerente ou patrão. Com relação aos direitos trabalhistas, o Jornal o Comércio nº 601-7 de março de 1959 traz uma matéria que na verdade é um deboche às leis trabalhistas vigentes e aos operários: A amiga de todos, decreta a nova lei do trabalho para a felicidade de todos. Art.1º- O empregado deve estar no serviço às 8 horas havendo uma Tolerância de 2 horas, considerando-se as dificuldades de transporte, atrazo de despertador, etc. § único- Antes de iniciar o serviço será servido café acompanhado de doces no bar da churrascaria Mascote. Art.2º Durante o serviço o empregado pode fumar, cantar, assobiar,pular, dançar, jogar palito, e manter conversações. Art.º 3º- Fica estabelecido um horário de três (3) horas para o almoço que deve ser servido por donas boas, no refeitório do Estabelecimento ou na churrascaria Mascote. § 1º- Durante o almoço tocará uma pequena orquestra e as quinta-feiras, haverá “schow” com artistas nacionais e estrangeiros. ...Art 4º- Devido ao alto preço de ferramentas e materiais pertencentes ao empregador, todos os empregados, deverão usá-las o menos possível a fim de evitar rápido desgaste nunca fazendo em uma hora o que se pode fazer em uma semana. ...Art. 6º - O empregador é obrigado a aceitar vales dos empregados, a qualquer dia ficando proibido os descontos nas folhas de pagamento. Art. 7º ...§ 2º- As moças poderão ir até a esquina conversar com os namorados. Art. 8º- O empregado que pegar no sono durante o serviço não poderá ser acordado em hipótese alguma a não ser na hora da saída. Art.9º- Duas vezes por ano o empregado terá direito em 90 dias de férias, para um merecido repouso em Brasília. Nessa ocasião o empregador será obrigado a emprestar seus automóveis, malas, máquinas fotográficas etc. E ainda fornecer trajes necessários para um merecido repouso. Art. 11º- Tratamento de doenças, dentes, manicures, engraxates, etc. devem ser feitos de preferência nas horas do expediente, concorrendo o empregador com 110 % das despesas. Art. 12º - Revogadas as disposições em contrário. Sala das sessões, 3-1-59. 33 José Cansado do trabalho. (Jornal ‘O Comércio” nº 601-7 de março de 1959) O conteúdo desta matéria, juntado aos depoimentos e aos processos trabalhistas, retratam relações bastante conflituosas estabelecidas entre a burguesia e o operariado na década e possíveis motivos das causas de “indisciplina” do operariado. Confrontando situações trabalhistas do operariado reivindicando direitos salariais, com a referida matéria que retrata o poder aquisitivo da burguesia, nos parece que de fato as classes diferem quanto ao poder aquisitivo de uma e de outra e que há uma exploração por parte de quem detém os modos de produção e os empregados, para com a do operariado que fornece através do trabalho, do salário e benefícios expropriados a mais valia responsável pelo enriquecimento da burguesia em questão. Uma matéria no periódico Gazeta do Povo, divulgando propaganda de escritório especializado em defender os direitos trabalhistas, em Curitiba, reafirma a idéia dos conflitos referentes a efetivação dos direitos trabalhistas legitimados dela CLT desde 1943: “Trabalhador do Paraná Você tem uma questão trabalhista para resolver? Tem férias, horas extraordinárias, aviso prévio ou indenização a pleitear na Justiça do trabalho? Então consulte o BUREAL DE ASSISTÊNCIA LEGAL TRABALHISTA. Uma organização a serviço dos trabalhadores com um corpo de advogados técnicos especializados, sob a direção do Dr. Milton Vianna. Expediente:- das 13 às 18 horas- Rua 28 de setembro, 46- Fone 2923. (Curitiba – PR - Gazeta do Povo sexta feira, 6 de janeiro de 1950) Os conflitos nas relações capital trabalho eram marcados pela desarticulação do operariado que no caso de União da Vitória, na década de 50, não contava com sindicato para fortalecer e organizar a categoria. Os entrevistados alegam desconhecer a existência de sindicatos na década e que se existia não tinha participação e envolvimento nenhum com o operariado. Verificando junto ao Sindicato dos Trabalhadores da Indústria e da Construção Mobiliária de União da Vitória, constata-se que o mesmo foi instituído enquanto Sindicato, em 23 de abril de 1971. No cotidiano da fábrica, as relações estabelecidas entre operários e a burguesia, eram intermediadas por encarregados e gerentes, em relações por vezes harmoniosas e por outras conflituosa. Os encarregados e gerentes usufruíam de 34 benefícios que os tornavam responsáveis direto pelo bom funcionamento, aumento de produção e enriquecimento do patrão. Motivo este que em partes lhe destituía do sentimento de pertença à classe operária propriamente dita. Um dos processos trabalhistas, movido por um operário é contra a empresa Matarazzo e nos causa estranhamento, pois pelo que consta funcionou por décadas uma fábrica filial , em Dorizzon município de Mallet, das S.A. Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo com sede em São Paulo, cujo escritório era aqui em União da Vitória. Indústria esta citada na revisão bibliográfica como sendo expropriadora do trabalho infantil no início do século e também presente aqui na região. É significante a quantidade de ações de reclamações trabalhistas constantes no acervo de processos. A empresa era administrada por um gerente que em um dos processos, de nº 68-4188/56, trava uma luta muito intensa contra um operário que denuncia as Indústrias Matarazzo por não recolher as contribuições do fundo de pensão: Em meados de 1954, o reclamante apresentou uma queixa ao Instituto de aposentadoria e pensões dos industriários (I. A. P. I), pelo fato de sua empregadora nunca recolher aos cofres desta instituição de previdência as suas contribuições. Ésta queixa, ensejou uma fiscalização severa por parte do instituto, que comprovou sérias irregularidades na reclamada, que foi autuada e obrigada a recolher as contribuições atrasadas dos demais empregados. (Processo nº 68-4188/56 União da Vitória) Em conseqüência desta denúncia trabalhista, o operário sofreu perseguições, foi impedido de retornar ao trabalho, despejado da casa da indústria, que residia, inclusive foi indiciado por acusação de ameaça de morte ao gerente, dentre outros conflitos citados nos autos do processo. Outras indústrias são citadas nos processos envolvendo inúmeras ações trabalhistas desta década, dentre elas: Bernardo Stamm, Dissenha & Cia, Rutemberg S/A, Irmãos Fernandes S.A, Bozanello, Nunes e Passos & Cia, Stefan & Thomasi Ltda, Ind. Jararaca, dentre outras. Retomando as descrições do cotidiano da fábrica, este é descrito e relembrado pelos entrevistados com detalhes. São indivíduos do tempo presente olhando para o passado. Portanto, em diversos momentos de suas falas, comparam os tempos vividos com expressões como: Naquele tempo era assim, hoje em dia é diferente. Outro detalhe é que por vezes afirmam que naquele tempo tudo era melhor e em outras afirmam que era tudo mais difícil e valorizam o progresso em momentos e negam em outros. Por exemplo quanto a abundância da madeira, o entrevistado Victor Fernandes dos Santos apresenta uma consciência crítica com 35 relações a destruição ambiental: “ eu fui um destruidor de Imbuia. Eu naquela época eu tava com 16 ou 17 ano, eu conto prá minha Lurde.” Ou com relação aos acidentes de trabalho como afirma seu Afrânio Bertier: “Naquele tempo não tinha obrigação nenhuma de usar equipamento de segurança de trabalho. Acontecia bastante acidente de trabalho naquele tempo.” Nos processos trabalhistas, são freqüentes as reclamações envolvendo pedidos de indenização por perda de partes do corpo em acidentes de trabalho, principalmente dedos das mãos, como o auto nº 4473/57, em que uma operária, pede indenização à seguradora (pelo que aparecem nos processos e no depoimento de seu Afrânio, as empresas pagavam uma seguradora que garantia os seguros para acidentes de trabalho), por “incapacidade parcial permanente devida a acidente de trabalho“. Seu Victor afirma que em uma das empresas que trabalhou na década, haviam alguns equipamentos como luvas, mas que não conseguiam desempenhar o trabalho no tempo necessário que precisavam, utilizando o equipamento. Somente quando sabiam que viria alguém do ministério visitar a fábrica eram obrigados a se equiparem. Ainda, em seu relato seu Victor demonstra consciência de que seu trabalho era explorado, quando afirma: “Eles nos pagavam todo dia prá corta nossos direito...nóis trabaiava todos os dias, mas não tinha férias, não tinha nada. Tiravam nosso dinheiro e nossos direito.” A realidade da fábrica está presente na cultura da região visto que embora a matéria prima, madeira, na atualidade esteja escassa, o principal modelo industrial ainda vigente na região envolve a extração, beneficiamento e fabricação de produtos relacionados à madeira. Uma das Indústrias que teve seu cotidiano destacado na pesquisa pelo fato dos entrevistados terem trabalhado em momentos da década nela, de constar nos processos e em propagandas nos jornais, é a Indústria Bernardo Stamm. A mesma se localizava às margens do Rio Iguaçu, no bairro São Bernardo, cuja urbanização se deu em decorrência da instalação da referida indústria e do contexto que foi se formando por conseqüência. Inclusive, uma das chaminés abandonadas na paisagem de União da Vitória, está nas proximidades do campo de futebol “Bernardo Stamm”, popularmente chamado de campo do São Bernardo, e no pátio da antiga fábrica, hoje em ruínas. Na lembrança dos entrevistados algumas situações do contexto da década e da referida indústria estão presentes, como o fato de que todo operário que viesse buscar emprego na fábrica Bernardo Stamm, desde que estivesse interessado em trabalhar em algum dos setores, se jogasse bem futebol, 36 seria contratado. O próprio entrevistado Afrânio Bertier afirma que teve seu emprego assegurado por ter sido indicado como bom jogador de futebol. Destaca-se ainda que seu proprietário enriqueceu muito, teve um único filho e vendeu-a pelo fato de seu filho, então Juiz de Direito não querer continuar com a indústria. Para tanto, a realidade das fábricas, da década de 50 para o tempo presente se modificou, a matéria-prima “a madeira” escasseou, máquinas surgiram e modelos são acrescentados. Algumas representações permanecem como símbolos, como é o caso das chaminés, cujas estruturas estão ainda na paisagem abandonadas, mas vivas na lembrança de quem viveu sob sua estrutura de funcionamento. Seu Afrânio Bertiê descreve a importância da chaminé na década, com propriedade e sabedoria: A chaminé é alta por causa do volume de fogo que tem na caldeira, porque é muito.A madeira que vai numa caldeira são madeiras grandes né. Pedaços de madeira grande. Hoje não, hoje já mudou e ta com o tal cavaco [...] Naquele tempo era comprado a lenha de um metro de comprimento. Vinha e aquela lenha era jogada dentro da fornalha. Então é por isso que a chaminé tinha que ser alta. Quanto mais alta mais puxava, né porque se não, não fazia o calor que precisava para fazer a temperatura. Precisava ter que esquentar o fogo. Então aquela era a função da chaminé, isto é, tirar o excesso de fumaça e puxar o calor para dentro da caldeira, porque a caldeira tem uns tubos, de mais ou menos, hoje não sei, mas antes era de 7 cm, e era cheio deles. Ali o fogo passava por dentro desses tubos para esquentar a água que passava em volta, prá depois ser distribuído para as partes, as prensas e o tanque..(Afrânio Bertier em entrevista no dia 11-11-2008). O que mais importa nestes depoimentos, são os saberes repassados para gerações que não viveram este cotidiano tal qual é descrito e as perguntas que podem ser feitas para este passado e respondidas através das fontes, dentre elas as pessoas que viveram este cotidiano. Diante destes relatos, o passado visita o presente e vice-versa, numa construção histórica que supera a reprodução escolarizada de história e contribui para que se construa consciência histórica a cerca das relações estabelecidas entre a burguesia e o operariado em União da Vitória na década de 50, projetando no pensamento dos sujeitos, perspectivas de futuro. FIGURA 9 - CHAMINÉ ABANDONADA DA ANTIGA FÁBRICA BERNARDO STAMM 37 Foto: Delamar Aparecida de Souza Corrêa 5 - POSSIBILIDADES DE ATIVIDADES 1 - Aplicação da pesquisa, utilizando as mesmas fontes, porém com outros entrevistados e outros processos trabalhistas; 2 - Problematização da realidade do contexto da industrialização no município em que o aluno reside, no cotidiano do presente, ou mesmo em décadas passadas; 3 - Investigação e organização de consultas a outras possibilidades de fontes existentes no município; 4 - Comparação do cotidiano do presente através de visitação em fábricas, com a 38 realidade narrada no material apresentado; 5 - Utilização do filme “Germinal”, que contextualiza a fábrica durante o processo de industrialização na Europa. O filme se passa na França do Século XIX e é baseado no romance de Émile Édouard Charles Antoine Zola, possui 170 min. de duração, seu gênero é Drama e foi produzido em 1993. O referido filme oportuniza que o contexto da fábrica no período da Revolução Industrial seja comparado com o contexto da fábrica narrado e ou com seu cotidiano no presente. FIGURA 10- CAPA DO FILME GERMINAL FONTE:http://www.sharedsite.com/hlmderenaud/hlm/comedien/affiche_germinal.jpghttp://www.sharedsite.com/hlm 6 - Produção de “charge” retratando a industrialização: as relações estabelecidas entre a burguesia e o operariado. 7 – Discussão a partir de letras de músicas referentes aos temas: operário, trabalhador, burguesia, indústria, etc. REFERÊNCIAS BARCA, Isabel. (ORG). Educação Histórica e Museus. Actas das Segundas Jornadas Internacionais de Educação Histórica. Braga,2003. BITTENCOURT, Circe. (ORG). O saber Histórico na sala de aula. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2005. BLACKBURN, Robin. A Brief History Of new Left Review. Revista New Left Review .Página inicial–História. Disponível no site: http://www.newleftreview.es/?page=history.Acesso em 24/8/2008. BLOCH, Marc. 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