UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA CENTRO DE ARTES - CEART PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA ALEXANDRE DA SILVA SCHNEIDER SOCIEDADE MUSICAL AMOR À ARTE: UM ESTUDO HISTÓRICO SOBRE A ATUAÇÃO DE UMA BANDA EM FLORIANÓPOLIS NA PRIMEIRA REPÚBLICA FLORIANÓPOLIS, SC 2011 ALEXANDRE DA SILVA SCHNEIDER SOCIEDADE MUSICAL AMOR À ARTE: UM ESTUDO HISTÓRICO SOBRE A ATUAÇÃO DE UMA BANDA EM FLORIANÓPOLIS NA PRIMEIRA REPÚBLICA Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Música UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Música, área de concentração Musicologia/Etnomusicologia. Orientação: Prof. Dr. Marcos Tadeu Holler FLORIANÓPOLIS, SC 2011 AGRADECIMENTOS Ao prof. Marcos Holler, pela orientação, dedicação e paciência com a qual conduziu este trabalho. Aos membros da banca examinadora, professores Luís Fernando Hering Coelho e Luiz Henrique Fiaminghi pelas valiosas observações e contribuições. Aos colegas, professores e secretárias do PPGMUS, pelas idéias, discussões e momentos compartilhados. Aos demais orientandos de mestrado e de iniciação científica do prof. Marcos, que, de alguma forma, contribuíram para este trabalho. À CAPES pela bolsa cedida para a realização desta pesquisa. A toda a Sociedade Musical Amor à Arte, especialmente ao seu presidente, Nélio Schmidt, pela atenção, dedicação e paciência, que permitiu com que este trabalho fosse realizado. À Helena, por sua ajuda na organização do acervo, pelas sugestões, idéias, carinho e risadas. À minha família por todo apoio ao longo desta caminhada. RESUMO SCHNEIDER, Alexandre da Silva. Sociedade Musical Amor à Arte: um estudo histórico sobre a atuação de uma banda em Florianópolis na Primeira República, 2011. 137 p. Dissertação (Mestrado em Música). Programa de Pós-Graduação em Música, Centro de Artes, Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2011. Em 1897 foi fundada na cidade de Florianópolis a orquestra da Sociedade Musical Amor à Arte, com o intuito de fornecer a seus sócios e ao público da cidade momentos de prazer por meio da música. Dois anos mais tarde, a orquestra tornouse uma banda, que permanece ativa até a atualidade. Este trabalho é um estudo histórico-musicológico sobre a atuação da Sociedade Musical Amor à Arte em Florianópolis no período conhecido como Primeira República ou República Velha (1889-1930), baseado na pesquisa de partituras e documentos de seu acervo, assim como em referências em periódicos da época. Procura-se, além de caracterizar a banda no período em questão, através da descrição de sua sede, repertório, apresentações, uniforme, dentre outros aspectos, verificar como ela se inseria e quais suas funções na sociedade florianopolitana da época. Palavras-chave: Sociedade Musical Amor à Arte, banda de música, música em Florianópolis. ABSTRACT In 1897 the orchestra of the Sociedade Musical Amor à Arte was founded in Florianopolis, in order to provide its members and the people of the city moments of joy through music. Two years later it turned into a band, which remains active until today. This work is a historical-musicological study about the activities of the Sociedade Musical Amor à Arte in Florianopolis in the period of time known as Primeira República or República Velha (1889-1930), based on scores and documents from its collection, as well as references in newspapers of the period. The chief purpose is to delineate the band by means of its repertoire, performances and uniforms, among others, and to define the band‟s functions in the society of Florianopolis at the time. Keywords: Sociedade Musical Amor à Arte, bands, music in Florianopolis. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Parte dos documentos encontrados no acervo da SMAA ................ 10 Figura 2 – Fotografia da banda da SMAA em data desconhecida .................... 39 Figura 3 – Cubos utilizados no processo de seleção de novos sócios .............. 41 Figura 4 – Atual sede da Sociedade Musical Amor à Arte ................................ 43 Figura 5 – Livro de presença – Outubro de 1916 .............................................. 48 Figura 6 – Banda da Sociedade Musical Amor à Arte em 1908 ........................ 51 Figura 7 – Flugelhorn. Chamado de bugle nos livros de presença da SMAA ... 53 Figura 8 – Barítono (saxhorne tenor) e eufônio (saxhorne barítono) respectivamente............................................................................... 54 Figura 9 – Bombardão (modelo sax) e contrabaixo (sousafone) respectivamente............................................................................... 54 Figura 10 – Marcha Fúnebre 11A...................................................................... 61 Figura 11 – Dobrado Dr. Adolpho Konder ......................................................... 62 Figura 12 – Dobrado Dr. Hercílio Luz ................................................................ 63 Figura 13 – Maxixe Canto das horas................................................................. 67 Figura 14 – Temas do Circo de Touros ............................................................. 71 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Instrumentos da banda da SMAA ................................................... 52 Quadro 2 – Gêneros musicais e número de partituras encontradas ................. 55 Quadro 3 – Compositores de Santa Catarina e gêneros musicais .................... 71 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 01 1.1 REFERENCIAL TEÓRICO .......................................................................... 03 1.2 REVISÃO DE LITERATURA ....................................................................... 06 1.2.1 A musicologia histórica em Santa Catarina ......................................... 06 1.2.2 Bandas civis e militares ....................................................................... 07 1.3 FONTES E ACERVOS ................................................................................ 08 1.3.1 Acervo da BPSC ................................................................................. 08 1.3.2 Acervo da SMAA ................................................................................. 09 1.3.2.1 Partituras impressas ................................................................ 10 1.3.2.2 Partituras manuscritas ............................................................. 11 1.3.2.3 Livros-caixa e documentos financeiros diversos ...................... 12 1.3.2.4 Livros de atas ........................................................................... 12 1.3.2.5 Livros de presença ................................................................... 13 1.3.2.6 Lista de sócios propostos e lista de contribuintes .................... 13 1.3.2.7 Relatórios do estado da sociedade .......................................... 13 1.3.2.8 Documentos da biblioteca da SMAA ........................................ 14 1.3.2.9 Documentos diversos enviados e recebidos pela SMAA ......... 14 1.3.2.10 Estatutos ................................................................................ 14 2 CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL DE FLORIANÓPOLIS NA PRIMEIRA REPÚBLICA ..................................................................................................... 16 2.1 POLÍTICA .................................................................................................... 16 2.2 SOCIEDADE ............................................................................................... 20 2.3 CULTURA E ENTRETENIMENTO .............................................................. 23 3 AS BANDAS .................................................................................................. 28 3.1 BREVE HISTÓRICO DAS BANDAS DE MÚSICA ...................................... 28 3.2 AS BANDAS NO BRASIL ............................................................................ 30 3.3 AS BANDAS EM FLORIANÓPOLIS ............................................................ 32 4 A SOCIEDADE MUSICAL AMOR À ARTE ................................................... 37 4.1 A SMAA NA PRIMEIRA REPÚBLICA ......................................................... 39 4.1.1 Constituição ........................................................................................ 39 4.1.2 Sede .................................................................................................... 42 4.1.3 Ensaios ............................................................................................... 43 4.1.4 Apresentações .................................................................................... 44 4.1.5 Fardamento ......................................................................................... 49 4.1.6 Instrumentação ................................................................................... 51 4.1.7 Repertório ........................................................................................... 54 4.1.7.1 Danças europeias .................................................................... 56 4.1.7.2 Marchas ................................................................................... 59 4.1.7.3 Dobrados ................................................................................. 61 4.1.7.4 Hinos ........................................................................................ 63 4.1.7.5 Arranjos de trechos de ópera ................................................... 64 4.1.7.6 Tangos, maxixes e sambas ..................................................... 64 4.1.7.7 Latinos e norte-americanos...................................................... 68 4.1.7.8 Música para circo ..................................................................... 69 4.1.7.9 Compositores de Santa Catarina ............................................. 70 4.2 FUNÇÕES DA SMAA DENTRO DA SOCIEDADE FLORIANOPOLITANA . 75 4.2.1 A SMAA como provedora de música e formadora de gosto................ 75 4.2.2 A SMAA como formadora e espaço para a atuação de músicos ........ 77 4.2.3 A SMAA como divulgadora da República ........................................... 78 4.2.4 A SMAA como ponto de interação entre classes ................................ 80 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 82 6 REFERÊNCIAS .............................................................................................. 84 6.1 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................ 84 6.2 DOCUMENTOS MANUSCRITOS ............................................................... 88 6.3 JORNAIS ..................................................................................................... 89 6.4 FONTES DAS ILUSTRAÇÕES ................................................................... 90 APÊNDICE ........................................................................................................ 91 Apêndice 1 – Estatuto da Sociedade Musical Amor à Arte de 1916 ................. 92 Apêndice 2 – Comunicados internos da Sociedade Musical Amor à Arte ......... 103 Apêndice 3 – Partituras encontradas no acervo da Sociedade Musical Amor à Arte ................................................................................ 104 ANEXOS ........................................................................................................... 121 Anexo 1 – Comunicado do Clube Recreativo 15 de Novembro à Sociedade Musical Amor à Arte. 12/11/1908 ................................... 122 Anexo 2 – Mapa demonstrativo das peças de fardamento que tem cada músico ............................................................................................. 123 Anexo 3 – Carta do Tiro de Guerra No. 40 à SMAA. 22/01/1917 ...................... 124 Anexo 4 – Carta do Tiro de Guerra No. 40 à SMAA. 22/01/1919 ...................... 128 Anexo 5 – Carta do Tiro de Guerra No. 40 à SMAA. 11/04/1919 ...................... 129 1 1 INTRODUÇÃO No século XIX e início do XX as bandas proviam música para os mais variados eventos sociais, tanto no âmbito sacro quanto no profano, serviam como formadoras de músicos e contribuíam para a evolução dos gêneros em voga no período. Hoje, apesar do número reduzido, as bandas ainda são atuantes na sociedade, especialmente no que se refere à formação de músicos, como afirma Cislaghi (2009): As bandas de música estão presentes em diversos contextos e estão relacionadas às manifestações e eventos sociais populares de naturezas diversas, encontrando-se bastante presentes nas comunidades e influenciando na vida das pessoas. Além disso, constituem um espaço importante de ensino e aprendizagem musical envolvendo muitas perspectivas de ensino. (CISLAGHI, 2009, p. 13) Uma banda, genericamente, é um conjunto formado por instrumentos de sopro e percussão. Existe, na historiografia musical brasileira, uma divisão entre bandas militares e civis. As bandas militares teriam aparecido no Brasil no início do século XIX com a chegada da Família Real em 1808 e, então, fornecido o modelo para as bandas civis que apareceriam mais tarde, em meados do século XIX, sob diversos nomes como Lira, Filarmônica, Associação, Corporação ou mesmo Banda (CARVALHO, 1998, p. 232). As bandas surgiram em Florianópolis também no século XIX, e tomaram força a partir da segunda metade do século, com o crescimento tanto do número de conjuntos quanto da sua atuação no cenário sócio-cultural da cidade. A Sociedade Musical Amor à Arte (SMAA), banda civil que foi oficialmente fundada em Florianópolis no ano de 1897, é uma das poucas sociedades musicais criadas no século XIX que permanecem ativas até hoje em Florianópolis. Com sua sede localizada no centro da cidade, a SMAA conta atualmente com 30 membros. A banda realiza ensaios todas as semanas e disponibiliza aulas de música gratuitas, tanto teóricas quanto práticas para crianças e adultos que queiram eventualmente fazer parte do grupo. Faz apresentações com freqüência em festas, cortejos e espetáculos. Destaca-se ainda que, em sua sede, existe um acervo particular, nunca antes estudado, que contém partituras e documentos relacionados à banda que datam desde as últimas décadas do século XIX. 2 A presente dissertação consiste num estudo histórico-musicológico sobre a atuação da Sociedade Amor à Arte em Florianópolis nos fins do século XIX e início do século XX, no período conhecido como Primeira República ou República Velha (1889-1930), por meio de seu acervo e de referências nos periódicos da época. Binder (2006) e Carvalho (1998) ressaltam a importância e a necessidade de estudos sobre bandas de música, que somente nos últimos anos começaram a adquirir certa força na musicologia brasileira, apesar da grande relevância que tiveram nos séculos XIX e XX. O primeiro acredita que por muito tempo os musicólogos brasileiros foram indiferentes à história desses conjuntos e que, em virtude de poucos estudos aprofundados, muitas informações são equivocadas sobre o assunto e muito ainda há a ser explorado. Carvalho (1998), por sua vez, aponta para o lado da preservação. O autor acredita que as bandas estão se tornando cada vez mais raras e que há a necessidade de um resgate destas instituições, que tiveram grande participação na história da música brasileira e são verdadeiros patrimônios vivos. Destaca-se também a importância do estudo, da preservação e da difusão do material conservado no acervo da SMAA. O acervo, que possui diversas informações e obras da música catarinense de todo o século XX e do final do século XIX, possui amplas possibilidades para outros estudos históricos e musicológicos, assim como um grande número de partituras, que podem contribuir para um melhor conhecimento dos compositores, composições, arranjos e músicos da cidade e do estado ao longo do século XX. Téo (2007) teve contato com o acervo e em seu livro, A vitrola nostálgica, apontou: A organização deste acervo é necessidade primordial, especialmente se considerarmos a ausência de arquivos destinados à música catarinense. É possível que sejam encontradas composições inéditas da lavra de músicos locais que, após a execução pela banda, tenham sido abandonadas junto a outros milhares de partituras. (TÉO, 2007, p. 138) O recorte temporal escolhido (a Primeira República) se deu, em primeiro lugar, em virtude da fundação oficial da SMAA ter sido em 1897, período em que a República começava a se consolidar. Destacam-se também as inúmeras menções às bandas nos jornais da capital da época encontrados na Biblioteca Pública de Santa Catarina (BPSC), assim como a abundância de documentos e partituras das primeiras décadas do século XX encontrados no acervo da SMAA. 3 Uma vez estabelecidos o recorte temporal e as fontes primárias, tanto impressas quanto manuscritas, como a principal fonte de pesquisa, procurou-se encontrar informações sobre a atuação das bandas na cidade, sobre o contexto histórico-social de Florianópolis na época e, sobretudo, a organização e atuação da Sociedade Musical Amor à Arte no período. Os documentos utilizados foram fotografados para que pudessem ser estudados fora do local em que se encontram. Foram igualmente gravados num DVD, que foi entregue a SMAA, para que possam ser disponibilizados a pesquisadores que tenham interesse no estudo da banda e do acervo da Sociedade. Aponta-se que o uso de fontes textuais para a pesquisa musicológica deve ser bastante cuidadoso. Os documentos são muitas vezes imprecisos e apresentam uma visão parcial dos assuntos que tratam. Para sua leitura e interpretação, destaco a necessidade de uma visão crítica, sempre tendo em mente quem os escreveu, para quem eram destinados e o motivo pelo qual foram escritos e mantidos. A presente dissertação encontra-se dividida em quatro capítulos. No primeiro capítulo, realizou-se uma descrição dos documentos encontrados nos acervos da BPSC e da SMAA. Todos os documentos foram descritos, mesmo aqueles que não tenham sido utilizados nesta dissertação. Isso foi feito com o intuito de fornecer informações sobre os acervos, em especial, o da SMAA, que é ainda desconhecido, que estimulem novas pesquisas e, possivelmente, uma catalogação. O segundo capítulo trata do contexto histórico e social de Florianópolis na Primeira República. Foram abordados pontos como a vida política, a sociedade, a cultura e o entretenimento na cidade. Procurou-se com esta contextualização um maior conhecimento da vida na capital, com a intenção de situar as bandas em meio a este cenário. O terceiro capítulo traz uma revisão da história das bandas: seu surgimento, o aparecimento das bandas no Brasil e a história das bandas na cidade de Florianópolis desde os primeiros registros até o início do século XX. No quarto e último capítulo, a Sociedade Musical Amor à Arte é estudada mais detalhadamente. Através das informações levantadas, procurou-se descrever as características da banda no início do século, como sua sede, os ensaios, as apresentações, a instrumentação, o fardamento e o repertório tocado. Num segundo momento, foi realizada uma discussão sobre as funções da banda na cidade de Florianópolis durante o período em questão. 4 1.1 REFERENCIAL TEÓRICO Kerman (1987), em seu livro Musicology, fez uma crítica à metodologia utilizada à época para a pesquisa musicológica, acusando-a de se basear demasiadamente no factual e no documental, seguindo uma linha ainda ligada ao pensamento positivista. Sugeriu como um novo caminho para a disciplina uma aproximação com a teoria literária e cultural, assim como uma orientação para a crítica. A partir da crítica do autor, a musicologia iniciou uma nova fase, que ficou conhecida como Nova Musicologia. Apoiada em ideias pós-modernistas, nesta nova fase da disciplina, a música não é mais vista como um produto, mas como um processo envolvendo compositor, intérprete e consumidor. A Nova Musicologia utiliza métodos de outras áreas como sociologia, antropologia, lingüística, e mais recentemente de campos de estudo como relações de gênero e política, sendo também freqüentemente associada à etnomusicologia (DUCKLES e PASLER, 2006). Trevor Herbert (2003) aponta como um dos caminhos interdisciplinares para a musicologia a associação da história da música com as atuais tendências da história, influenciadas pelo pensamento pós-moderno, como a história social, a história cultural e a micro-história. Segundo o autor (2003): “Em suas manifestações mais moderadas, o pós-modernismo oferece maneiras, com base nos métodos e preocupações dos historiadores sociais, de se lidar com aqueles com que a história da música costuma deixar de lado”1 (HERBERT, 2003, p. 151). A base filosófica de tais tendências, que ficaram conhecidas como a nova história, é de que a realidade é social ou culturalmente construída (BURKE, 2002, p. 11). O relativismo adotado por esta postura apresenta extensas possibilidades na área da musicologia histórica. Napolitano (2005) segue também a perspectiva apontada por Herbert (2003). O autor, aproximando a musicologia histórica da história cultural, crê na necessidade de se compreender as várias manifestações e estilos musicais dentro de sua época e da cena musical nos quais estão inseridos, “sem consagrar e reproduzir hierarquias de valores herdadas ou transformar o gosto pessoal em medida para a crítica histórica” (NAPOLITANO, 2005, p. 8). Segundo ele, as novas formas teórico- 1 In its more moderate manifestations, postmodernism offers ways of building upon the methods and concerns of social historians in dealing with those whom music history has often overlooked (HERBERT, 2003, p. 150, tradução minha). 5 metodológicas e historiográficas, que vêm sendo usadas nos estudos musicais, têm como característica “não hierarquizar questões sociais, econômicas, estéticas e culturais, mas articulá-las de modo a valorizar a complexidade do objeto estudado” (Ibidem, p. 8). Herbert (2003) aponta para a micro-história (LEVI, 1992; VAINFAS, 2002) quando exalta a ênfase em temas e práticas que se encontram fora dos padrões tradicionais da metodologia histórica. Segundo o autor, a micro-história vai no fluxo oposto das grandes narrativas. Os micro-historiadores “se apóiam no obscuro e no desconhecido em vez de no grande e no famoso [...] pegam incidente pequenos do cotidiano e os recontam como histórias, analisando-os como pistas simbólicas e metafóricas para coisas maiores”2 (EVANS apud HERBERT, 2003, p. 152). Geralmente tais estudos revelam relações entre o popular e a elite, estabelecendo um quadro histórico mais amplo. Castagna (2008) destaca ainda que a musicologia no Brasil, a partir da década de 1990, começou a ter um maior contato com a musicologia internacional, e sofreu mudanças que motivaram o surgimento de uma nova musicologia no país. Essa nova fase da disciplina acumula as conquistas da geração anterior, mas procura se preocupar com o aspecto crítico e reflexivo do movimento chamado Nova Musicologia. Aponta, no entanto, que a fase positivista da musicologia brasileira não produziu material suficiente para este avanço na disciplina e que atualmente a organização de informações é ainda uma necessidade: Isso não significa, entretanto, que a fase positivista [...] tenha produzido suficiente material para subsidiar interpretações e reflexões de fôlego sobre o passado musical brasileiro. Pelo contrário, ainda resta muito trabalho a ser feito no que se refere à catalogação de acervos, edição de obras, organização e sistematização de fontes, o que impõe à nova musicologia a responsabilidade de desenvolver trabalhos sistemáticos e, ao mesmo tempo reflexivos. (CASTAGNA, 2008, p. 50) Segundo o autor, “o grande problema da musicologia brasileira atual é a necessidade de um maior nível reflexivo a partir das fontes e fenômenos musicais, mas, ao mesmo tempo, a inexistência de uma quantidade suficiente de fontes organizadas” (CASTAGNA, 2008, p. 54). They build on the obscure and unknown rather than on the great and the famous […] [They] take very small incidents in everyday life and retell them as stories, analyzing them as metaphorical and symbolic clues to larger things (EVANS apud HERBERT, 2003, p. 152, tradução minha). 2 6 Holler (2008) destaca a importância de estudos musicológicos em regiões afastadas de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, principais focos de estudo da musicologia no Brasil. O autor menciona Lucas (1998), que frisa a necessidade de estudos nestas regiões: Quero [...] chamar a atenção para o fato de que não são de interesse musicológico apenas aquelas regiões de alta visibilidade histórico documental. As chamadas regiões periféricas da sociedade colonial, praticamente ausentes da historiografia musical brasileira, a exemplo da região sulina, representam elos importantes na compreensão [das mudanças na cultura musical]. (LUCAS apud HOLLER, 2008, p. 02). O autor aponta ainda que “Trabalhos recentes envolvendo essas periferias têm demonstrado várias possibilidades de estudo, e o levantamento de informações mostra que ainda existem grandes lacunas na historiografia da música no Brasil” (HOLLER, 2008, p. 9). Pesquisando a produção musical em Santa Catarina, região distante dos considerados grandes centros, busca-se trazer novas informações e questionamentos para os estudos musicológicos no país. 1.2 REVISÃO DE LITERATURA 1.2.1 A MUSICOLOGIA HISTÓRICA EM SANTA CATARINA Existem textos tratando de música no estado de Santa Catarina como A música em Santa Catarina no século XIX (1951) e Em matéria de artes plásticas e rítmicas, houve mais notas do que tintas (capítulo do livro Nossa Senhora do Desterro: Memória, de 1972), ambos de Oswaldo Rodrigues Cabral, este último trazendo vários relatos sobre o cenário musical na cidade nos séculos XVIII e XIX. Hélio Teixeira da Rosa (1991), no livro História Sócio-Cultural de Florianópolis, ainda trata da música na capital desde o século XVIII até a década de 1940, no capítulo intitulado A História da Música. O mesmo autor também organizou o Dicionário da música em Santa Catarina (2002), que contém inúmeros dos compositores, intérpretes e cantores que atuaram no estado desde o século XVIII. Os textos mencionados acima, no entanto, não foram realizados por um viés musicológico. Estão ligados a uma tradição historiográfica antiga, sendo bastante descritivos, na maioria das vezes enumerando datas, compositores, músicos atuantes e instituições 7 ligadas à música presentes no Estado. Não perdem seu valor como fonte para estudos da música em Santa Catarina, porém carecem do caráter crítico e reflexivo explorado pela Nova Musicologia. Os estudos musicológicos encontrados na área são bastante recentes. Podemos citar, dentre eles, o trabalho de conclusão de curso de Ana Ribamar Braga (2000), Levantamento de aspectos da cultura musical em Desterro nos séculos XVIII e XIX, e as dissertações de mestrado de Andrey Garcia Batista (2009), Frei Bernardino Bortolotti e a cena musical em Lages: uma contribuição para a historiografia da música na Serra Catarinense, de Roberto Rossbach (2009), As sociedades de canto da região de Blumenau no início da colonização alemã e de Simone Gutjahr (2010), Atuação de músicos em associações religiosas de desterro nos períodos colonial e imperial. O livro A vitrola Nostálgica de Marcelo Téo (2007), que aborda a música e constituição cultural na cidade de Florianópolis nas décadas de 1930 e 1940, também aparece como uma importante contribuição. Destacam-se ainda as pesquisas realizadas dentro do projeto Fontes sobre a história da música em Santa Catarina, realizadas através de um levantamento de dados de periódicos impressos em Desterro e presentes na Biblioteca Pública de Santa Catarina (HOLLER, 2008; FRECCIA e HOLLER, 2008; PIRES e HOLLER, 2008; VINCENZI e HOLLER, 2008; PAMPLONA e HOLLER 2010; GONÇALVES e HOLLER, 2010). Os levantamentos realizados em tal projeto também levaram a confecção de dois trabalhos de conclusão de curso: A programação no Theatro Santa Izabel e o gosto musical em Desterro no final do império (2008) por Gustavo Freccia e Atuação das sociedades musicais, bandas civis e militares em Desterro durante o Império (2008) por Débora Pires. 1.2.2 BANDAS CIVIS E MILITARES As bandas de música, tanto civis quanto militares, são ainda assunto recente e pouco explorado dentro da musicologia. Destaca-se, dentre os trabalhos realizados na área, a dissertação de mestrado de Fernando Binder (2006), intitulada Bandas Militares no Brasil: difusão e organização entre 1808-1889, que trata da atuação das bandas militares desde a chegada da Família Real no Brasil ao fim do Império. 8 A pesquisa de Pires e Holler (2008), Atuação das sociedades musicais e bandas civis em Desterro durante o Império, assim como o trabalho de conclusão de curso de Pires (2008), ambos mencionados anteriormente, aparecem como contribuições para o estudo das bandas na cidade de Florianópolis no século XIX. O capítulo As bandas de cá, capítulo presente no também já mencionado livro A vitrola nostálgica de Marcelo Téo (2007), apresenta relevantes informações sobre as bandas em Santa Catarina, principalmente entre as décadas de 1930 e 1940. Ressalta-se também, no terreno da antropologia social, a dissertação de Maria Luísa Páteo (1997), Bandas de música e cotidiano urbano, que aborda a atuação das bandas e música no final do séc. XIX e início do séc. XX em Campinas (SP). Existem ainda trabalhos sobre bandas nas áreas de educação e educação musical, que de acordo com Cislaghi (2009) se intensificaram nos últimos anos (DUTRA, 1992; CAJAZEIRA, 2004; HIGINO, 2006; CAMPOS, 2008). Dentre os trabalhos citados pelo autor, dá-se destaque à dissertação de mestrado de Elizete Higino (2006), Um século de tradição: a banda de música do Colégio Salesiano Santa Rosa (1888-1988), que possui cunho histórico, tratando de um período de 100 anos (1888-1988) da banda de música do Colégio Salesiano Santa Rosa em Niterói, no estado do Rio de Janeiro. 1.3 FONTES E ACERVOS A seguir encontra-se uma breve descrição dos documentos encontrados nos dois acervos utilizados para este trabalho: o acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina e o acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 1.3.1 ACERVO DA BPSC O acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina, localizado na capital, contém grande parte dos periódicos que circularam na cidade e no estado nos séculos XIX e XX. Este acervo tem sido explorado e, a partir dele, contribuições importantes têm sido feitas para a musicologia catarinense. Os estudos realizados como atividade do projeto de pesquisa Fontes sobre a história da música em Santa Catarina, assim como as dissertações de mestrado de Batista (2009) e de Gutjahr 9 (2010) se utilizaram do acervo e levantaram informações relevantes para a história da música no estado. Além das informações levantadas no projeto de pesquisa citado anteriormente, que foram retiradas de diversos jornais da capital durante o império, como O Conservador, O Despertador, Opinião Catarinense e Jornal do Comércio, os periódicos consultados foram basicamente jornais que circularam na capital entre os anos de 1897 e 1930. Dentre eles, destacam-se A República, O Estado, A Gazeta e O Dia. 1.3.2 ACERVO DA SMAA A Sociedade Musical Amor à Arte possui um acervo que conta com documentos e partituras guardados desde sua fundação em 1897. No momento da pesquisa o acervo encontrava-se debaixo de um tablado na sala de ensaio da banda, em condições longe de ideais, principalmente em virtude da falta de espaço na sede para o armazenamento de arquivos. Parte dos documentos encontrava-se em caixas de papelão, mas a grande maioria apenas empilhada sob o tablado, juntamente com outros utensílios não mais utilizados como capas para instrumentos, estandartes antigos, caixas, sacolas e copos. Com o andamento da pesquisa, procurei retirar estes documentos do local em que se encontravam, separando-os conforme seus diferentes tipos e guardando-os em caixas de arquivo, que deverão ser realocadas futuramente. Embora não tenha sido possível fazê-lo, pela falta de tempo hábil, acredito que o acervo será organizado, catalogado e guardado em local apropriado, haja vista sua relevância para novos estudos históricos e musicológicos, assim como sua importância como fonte de composições. Apesar das condições precárias em que se encontrava o acervo, aponto para o interesse por parte da banda em sua preservação, mesmo que com a falta de recursos. Ao contrário do que se encontrou na SMAA, em outras bandas da cidade, algumas até mais antigas, poucos documentos e partituras foram preservados. Aponto ainda que, durante a pesquisa, houve interesse por parte de docentes e acadêmicos da área de história em trabalhar com o acervo futuramente, organizando-o e catalogando-o. Acredito que devam existir outros acervos como 10 este, não sistematizados, espalhados pelo país, que podem ser relevantes no estudo das bandas e da música brasileira nos séculos XIX e XX. Observa-se na figura 1, parte do material encontrado no acervo. Para sua consulta, a SMAA cedeu um espaço de sua sede, usado normalmente para reuniões e confraternizações. Ainda que improvisada e não exatamente adequada para a análise e conservação dos documentos, esta sala permitiu que fosse possível fotografá-los e estudá-los. Segue abaixo a lista de todos os documentos encontrados no acervo da SMAA. Ressalto que, mesmo que nem todos tenham sido utilizados para a elaboração desse trabalho, acredito que seja importante mencionar, ainda que brevemente, quais são os documentos disponíveis no acervo como um todo. Figura 1 – Parte dos documentos encontrados no acervo da SMAA. Fonte: Foto do autor. 1.3.2.1 Partituras impressas As partituras impressas encontradas podem ser divididas basicamente em três tipos: avulsas, coletâneas e óperas. As avulsas são visivelmente mais recentes, aparentando terem sido impressas nos últimos 30 anos, e contêm músicas de variados compositores, possivelmente tocadas pela banda devido ao sucesso alcançado no rádio ou na 11 televisão. As coletâneas, principalmente dos anos 60, 70 e 80 trazem, em livros, temas e letras de canções dedicadas a festas e ao carnaval. Além destes dois tipos de partituras foram encontradas, ainda, três reduções de óperas para piano e voz, duas destas pertencentes ao Club Beethoven.3 As partituras, aparentemente importadas da Europa, trazem na íntegra as óperas La Traviata de Verdi, Ruy Blas de Marchetti e Lohengrin de Wagner. 1.3.2.2 Partituras manuscritas Sem dúvida, as partituras manuscritas são o tipo de documentação mais abundante no acervo da SMAA. Apesar de parte das partituras se encontrar misturadas umas às outras, desorganizadas ou incompletas, a maior parcela destas se encontra completa, organizada e separada em pequenas pastas de papelão. Geralmente consistem de arranjos para banda, divididos em folhas (normalmente por volta de 20), uma destinada a cada instrumento do conjunto. Procurou-se dividi-las de acordo com o gênero musical, uma vez que foi o critério considerado mais apropriado para facilitar e agilizar seu estudo. Pensou-se em outros critérios como a separação por datas e por compositores, porém tais divisões se tornaram inviáveis, uma vez que nas obras encontradas, um número extensivo não apresentava seus respectivos compositores e um número ainda maior de obras não mostrava datas de suas respectivas composições ou cópias. Pouco menos de 400 partituras foram separadas e estudadas durante a pesquisa. As partituras que aparecem datadas, aproximadamente 30% destas, apresentam em sua grande maioria datas entre 1900 e 1935. A mais antiga encontrada, a Valsa O 1º Beijo, composta por George Lamette, possui cópia datada de 1884 e a mais recente, o samba Na Aba, cópia do ano de 1985. Tais datas, no entanto, mesmo quando aparecem, pouquíssimas vezes mostram quando as obras foram compostas de fato. Geralmente apresentam a data em que a cópia da partitura foi feita e, por outras vezes, apresentam apenas a assinatura datada de algum membro da banda. Embora não se possa precisar a data de composição das obras a partir das datas das cópias e assinaturas, é possível saber que tais obras faziam parte do repertório da banda no período em que foram datadas. 3 O Club Beethoven era uma sociedade musical florianopolitana, que promovia concertos e recitais. Aparece com freqüência nos jornais do fim do século XIX e início do século XX. 12 Os compositores aparecem em pouco mais de metade das partituras. Estes são os mais variados, mas aparecem com maior freqüência aqueles locais como José Brasilício de Souza (1854-1910, autor do Hino de Santa Catarina), seu filho, Álvaro Souza (1879-1939), o Maestro Pedro Pavão do Nascimento (?-1940), regente da SMAA no início do séc. XX, além de outros instrumentistas da SMAA que também compunham. Em inúmeras partituras, no entanto, como a exemplo das datas, não há informações sobre quem as compôs. Destaca-se que na grande maioria das peças, o nome da obra vem acompanhado do gênero musical a que corresponde. Esses são muito diversos, com destaque para as valsas, marchas e dobrados que aparecem com maior freqüência. Além destes, estão presentes também danças populares do início do século como polcas, mazurcas, schottisches e maxixes. Nota-se também um número considerável de hinos pátrios e de estabelecimentos locais como o Clube 12 de Agosto, a Escola Alferes Tiradentes e a União Beneficente dos Artistas. O samba aparece com alguma freqüência, principalmente após a década de 1920, e em pequeno números outros gêneros, latinos como boleros e habaneras, americanos como one-step, ragtime e cakewalk, além de outros como batuques e cateretês. Foram encontrados ainda alguns arranjos de trechos de óperas e obras sinfônicas para banda. Informações sobre as partituras manuscritas encontradas no acervo e mencionadas no trabalho se encontram no Apêndice 2. 1.3.2.3 Livros-caixa e documentos financeiros diversos Dentre os documentos relativos à organização da banda, os livros-caixa foram aqueles encontrados em maior número. Contendo os registros de recebimentos e pagamentos da banda em ordem cronológica, os livros-caixa tinham como objetivo controlar as despesas e receita da sociedade. Junto a estes livros, foram encontrados também outros livros menores contendo os dividendos de tocatas, que registravam quanto cada músico devia receber ou mesmo pagar à banda, para aqueles que estavam em dívida com a SMAA. Inúmeros recibos ainda foram encontrados tanto para comprovar pagamentos recebidos pela SMAA, como pagamentos feitos por ela. 1.3.2.4 Livros de atas 13 Foram encontrados no acervo livros contendo atas dos encontros realizados pelos membros da diretoria da SMAA que revelam informações sobre o funcionamento da sociedade, como reuniões, posses de novas diretorias e homenagens prestadas a fundadores da sociedade. 1.3.2.5 Livros de presença Hábito preservado até hoje na banda da SMAA, os livros-presença registram quais músicos compareceram aos ensaios da banda, assim como às mais variadas apresentações realizadas. Os livros-presença apresentam informações muito relevantes a esta pesquisa, pois além de conterem o nome dos músicos e seus respectivos instrumentos, mostram as datas dos ensaios, das apresentações e qual a natureza dos eventos em que a banda se apresentava, assim como se tocava recebendo pagamento ou de maneira gratuita. 1.3.2.6 Lista de sócios propostos e lista de contribuintes Estas duas listas apresentam informações muito relevantes ligando a banda a diversos membros da elite da cidade. A lista de sócios propostos é dividida em colunas, as quais trazem o nome do sócio que está sendo convidado a fazer parte da sociedade, o sócio que propôs seu nome e se este aceitou se associar/foi aceito pela sociedade. A lista de contribuintes traz os nomes dos atuais sócios, o endereço em que podem ser encontrados e a contribuição em dinheiro feita por cada um deles mensalmente. 1.3.2.7 Relatórios do estado da sociedade Estes relatórios eram feitos no início de todos os anos para demonstrar o que havia acontecido no ano anterior. Foi possível recuperar apenas dois desses relatórios, datados de 1937 e 1938, em que os seguintes aspectos eram abordados: secretaria, tesouraria, biblioteca, caixa beneficente dos músicos, tocatas por contrato e diretoria. Os relatórios tinham como objetivo transmitir à nova diretoria da SMAA informações sobre o estado em que a sociedade e a banda se encontravam no momento de sua posse. 14 1.3.2.8 Documentos da biblioteca da SMAA A Sociedade Musical Amor à Arte possuiu durante muito tempo uma biblioteca. Segundo seu atual presidente, Sr. Nélio Schmidt, o acervo foi doado a Fundação Catarinense de Cultura. Em meio ao acervo da SMAA foram encontrados documentos relacionados à biblioteca como catálogos dos livros disponíveis e registros dos livros retirados e devolvidos pelos sócios. 1.3.2.9 Documentos diversos recebidos e enviados pela SMAA Um grande número de documentos, como circulares, comunicados e convites, foi encontrado no acervo. Através deles, foi possível conhecer as relações entre a SMAA e outras instituições como outras bandas, clubes, irmandades e associações, geralmente da cidade, mas por vezes do estado ou mesmo de outros estados. Entre tais documentos são mais comuns aqueles que acusam o recebimento e agradecem o envio de comunicação da SMAA sobre mudanças em sua diretoria. Também foram encontrados comunicados de outras instituições sobre eleição e posse de suas novas diretorias. Em um número menor, foram encontrados convites para que a banda e/ou a diretoria compareça a festas e solenidades. Ainda puderam ser observados documentos internos da SMAA, em que músicos ou sócios solicitam licenças, pedem retorno à sociedade ou que sejam excluídos da lista de sócios. Alguns destes documentos, quando mencionados no texto, se encontram nos anexos desta dissertação. 1.3.2.10 Estatutos da SMAA Dois estatutos foram encontrados. O primeiro deles é o estatuto da caixa beneficente dos músicos, que teve seu início em 1912. A caixa beneficente tinha como objetivo “[...] socorrer aos músicos quando as causas forem dignas de ser atendidas, bem como as suas famílias, como único legado a quantia de 150#000 a requerimento da parte interessada após o falecimento do sócio músico” (SMAA. EstCai., 1912). Neste estatuto, estão explicitadas as normas de funcionamento, assim como os beneficiários e os motivos que seriam aceitos para o uso da caixa. 15 O outro estatuto é o da própria SMAA. Uma transcrição desse documento, manuscrito e datado de 1916, se encontra no Apêndice 1. Dividido em nove capítulos, o estatuto traz como tópicos os fins da sociedade, as normas de eleição, posse, composição e atribuições da diretoria, a admissão, direitos e deveres dos sócios, a caixa beneficente dos músicos, as tocatas e o capital social, além de disposições gerais sobre a banda e seu mestre. Este estatuto, segundo suas próprias disposições, só poderia ser alterado após 10 anos de sua aprovação. Demonstra-se, então, um documento fundamental para o entendimento do funcionamento da SMAA em parte do período estudado neste trabalho. 16 2 CONTEXTO HISTÓRICO E SOCIAL DE FLORIANÓPOLIS NA PRIMEIRA REPÚBLICA 2.1 POLÍTICA Segundo Piazza e Hübener (2003), a monarquia entrou em decadência no Brasil na década de 1870. As mudanças de ordem econômica e as alterações sociais, como o crescimento da população urbana, o aumento da classe média urbana e a maior escolarização, geraram insatisfação com o regime monárquico. Segmentos da sociedade como os militares, produtores de café, e funcionários públicos e liberais se organizaram e após a publicação do Manifesto Republicano ainda em 1870, criaram o Partido Republicano. Os mesmos autores destacam que o Partido Republicano inicialmente se consolidou em províncias como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Nas demais províncias, as propagandas e os movimentos eram realizados através de clubes e jornais. “O Clube Republicano foi fundado em Desterro em 1885 para fazer propaganda das ideias republicanas através da fundação de jornais republicanos e candidaturas políticas” (NECKEL, 2003, p. 9). O jornal A Voz do Povo era o meio utilizado para a divulgação de suas ideias. Vale destacar, contudo, que em meados de 1887, o Clube Republicano na capital era pequeno, contando com apenas 17 membros. O Partido Liberal e o Partido Conservador foram as principais forças políticas no período imperial. No momento da proclamação da república, os liberais detinham o poder em Santa Catarina. A instabilidade causada pela instauração do novo regime fez com que os conservadores vissem uma oportunidade de retornar ao governo. Embora ambos os partidos tenham manifestado seu apoio à república, a mudança de regime não foi tranqüila. (NECKEL, 2003, p. 10). Neckel (2003) afirma que, em 17 de novembro de 1889, uma junta formada pelo comandante do 25º BI (Batalhão de Infantaria), o presidente do Clube Republicano e um membro do Partido Conservador, se dirigiu ao Palácio do Governo, onde tomou posse. A autora destaca a participação da banda do 25º BI no ato. A banda se encontrava em frente ao palácio juntamente com oficiais, soldados e populares. No dia seguinte, o Clube Republicano promoveu uma retreta em homenagem ao novo regime. A banda do 25º BI, que havia realizado a retreta, ao 17 retornar ao quartel, foi obrigada por um motim de soldados a sair às ruas em passeata promovendo e dando vivas ao Império. Os membros do motim foram presos e alguns baleados em seu retorno. Ainda em 1889, Lauro Müller foi nomeado governador provisório do Estado pelo presidente Deodoro da Fonseca e embarcou no Rio de Janeiro com destino a Desterro. Ao chegar, foi recebido pelos membros do Clube Republicano, acompanhado de uma grande multidão e da banda do 25º BI. Neckel (2003) destaca que a insistência dos jornais e documentos oficiais da época em apontar a tranqüilidade da instalação da república indica a ocorrência de disputas políticas. “[Estudos recentes] destacam a existência de uma nova elite urbana, atenta, influente e aberta ao novo regime, que não pertencia à antiga elite partidária do regime Imperial e que via na República a possibilidade de sua inserção na política” (NECKEL, 2003, p. 11). Inúmeras solenidades, discursos e obras foram realizadas e veiculadas com o intuito de mostrar a irreversibilidade do novo regime. Apesar da indicação de tranqüilidade e de um apoio generalizado à república, ela foi inicialmente marcada por conflitos e agitações. Seu caráter militar provocou insatisfação por parte dos simpatizantes da monarquia e, também, dos republicanos, que viram a república se afastar dos seus ideais. Passado o momento inicial da proclamação da república, os conflitos e as tensões tornaram-se evidentes demais para que pudessem ser escondidos. Quando os ex-liberais e ex-conservadores perceberam que suas pretensões em ocupar cargos no novo regime não se tornariam realidade, juntaram-se no Partido da União Nacional para concorrer contra a situação (Ibidem, p. 17). Os veículos usados para a divulgação de suas ideias foram o Jornal do Comércio e a Tribuna Popular. Travouse uma batalha entre os ex-monarquistas e os republicanos através de artigos, panfletos e boatos. Quando chegadas as eleições para senadores e deputados federais, os republicanos foram eleitos para todos os cargos disputados, gerando uma insatisfação ainda maior por parte dos ex-monarquistas. Lauro Müller foi um dos eleitos para a câmara dos deputados, deixando o cargo de governador para o 2º vice-governador, Gustavo Richard. Com a instalação do novo regime, procurou-se mudar tudo aquilo que lembrasse o regime antigo. Antes mesmo da proclamação, membros do Clube Republicano já pensavam em uma nova bandeira e hino. Foram trocados os nomes de inúmeras ruas, da Praça Barão de Laguna, que passou a se chamar Praça XV de 18 Novembro e em 1892, o nome do Teatro Santa Isabel, que se tornou o Teatro Álvaro de Carvalho. E, como pôde ser observado em inúmeras das comunicações encontradas no acervo da SMAA, os documentos oficiais passaram a ser redigidos com a saudação “Saúde e Fraternidade” no lugar de “Deus guarde sua majestade”, utilizada durante o Império (CHEREM, 1998, p. 16). Segundo Neckel (2003), após o fechamento do congresso por Deodoro da Fonseca em 1891, Lauro Müller, então deputado federal, reassumiu o governo do estado. Sob a alegação de que havia apoiado o golpe de Deodoro, Müller, após pouco tempo, se viu forçado a renunciar. Uma Junta Governativa Provisória, então, assumiu o governo estadual. Essa junta, composta e apoiada por ex-conservadores e ex-liberalistas, agora unidos no Partido Federalista, dissolveu o Congresso Representativo do Estado, formado por republicanos. Foi o retorno da antiga elite ao poder. Os federalistas ganharam força e o apoio do interventor enviado do Rio de Janeiro, vencendo as eleições de 1892 para o Congresso Estadual. Em 1893, teve início a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, contra o governo de Floriano Peixoto e de Júlio de Castilhos. Com a adesão dos revoltosos da Armada no Rio de Janeiro, a Revolução Federalista culminou com o estabelecimento em Desterro do Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil. A reação florianista teve o apoio republicano e foi bastante violenta. Em abril de 1894, os federalistas foram derrotados e o coronel Moreira César foi enviado do Rio de Janeiro para governar o estado. Seu governo ficou conhecido pelas inúmeras prisões e pelos fuzilamentos, nos quais vários membros da elite antiga foram mortos. O Partido Republicano Catarinense, “agrupando republicanos históricos e representantes da classe média urbana em que se incluíam militares graduados, profissionais liberais e representantes rurais” (NECKEL, 2003, p. 34), reorganizou-se e com a convocação de eleições por Moreira César, Hercílio Luz foi eleito governador do estado. No início de seu governo, que foi de 1894 a 1898, mudou o nome da capital para Florianópolis, em homenagem a Floriano Peixoto e como símbolo da vitória das elites republicanas (Ibidem, p. 34). A antiga elite política ficou afastada da política local até 1902, quando os ex-federalistas retornaram aos cargos públicos, após sua união com os republicanos. O partido republicano, no entanto, já em 1900, passou a apresentar uma divisão. Aqueles liderados por Hercílio Luz passaram a atacar o 19 então governador, Felippe Schimdt (1898-1902), através do jornal República, enquanto Schmidt e seus partidários se defenderam através do jornal O Dia. O partido foi apenas se reunificar no governo Lauro Müller (1902-1906). Este, convidado a participar do governo de Rodrigues Alves, como ministro da viação e obras públicas, deixou o cargo de governador para seu vice, Vidal José de Oliveira Ramos Jr. Entre 1906 e 1910, assumiu o governo Gustavo Richard, trazendo para Florianópolis o serviço telefônico, o serviço de abastecimento de água e o de iluminação elétrica. (PIAZZA e HÜBENER, 2003, p. 161) Vidal Ramos retornou ao governo em 1910 e dedicou sua administração à grande reforma do ensino primário no estado, além de lidar com a disputa do Contestado. Felippe Schmidt tomou posse mais uma vez em 1914, aprovando o acordo de limites entre Paraná e Santa Catarina, e, também, instalando a rede de esgotos para a capital. Após o governo de Schmidt, Müller foi mais uma vez eleito, porém quem tomou posse foi seu vice Hercílio Luz. Luz foi eleito novamente em 1922, governando o estado até 1924, quando faleceu. No período de seus dois mandatos, entre 1918 e 1926, realizou uma série de obras na capital, destacando-se o saneamento da ilha, assim como a construção de uma ponte ligando ilha e continente, ponte esta que levou seu nome. O último governador da Primeira República foi Adolfo Konder (1926-1930), em cuja administração houve uma ênfase na melhoria dos portos e a remodelação da Polícia Militar do Estado. (PIAZZA e HÜBENER, 2003, p. 162) Como destaca Neckel (2003), pode-se dizer que as primeiras décadas do regime republicano, período em que a SMAA foi fundada oficialmente, foram marcadas pela aliança entre as duas principais lideranças do Partido Republicano Catarinense, Lauro Müller e Hercílio Luz, com um acordo entre os dois políticos, em que Müller indicava os candidatos aos cargos federais e Luz, os candidatos aos cargos estaduais. A autora ainda aponta que a política, após a proclamação da República, tanto em Santa Catarina, como no Brasil, esteve muito mais ligada à questão de definição e controle do estado do que à preocupação com os destinos da nação. Em virtude da crise econômica em Desterro no fim do século XIX, havia uma disputa entre as famílias abastadas pelo controle dos cargos políticos administrativos. Com a abertura de cargos públicos, devido à implantação do novo regime, as famílias que compunham a elite política do Império e aquelas que passaram a ocupar cargos no 20 governo republicano iniciaram uma intensa luta. Com as dificuldades financeiras da época, os cargos públicos representavam “não somente influência política, mas também uma alternativa para a manutenção das rendas familiares” (PEDRO apud NECKEL, 2003, p. 25). Com o intuito de parecer civilizado, as famílias abastadas importavam as modas e hábitos do Rio de Janeiro, procurando no moderno e no metropolitano uma forma de desqualificar seus concorrentes. Pode-se notar até a década de 1920, apesar do acordo entre as duas forças, Müller e Luz, uma clara divisão de lideranças políticas no estado. Müller predominou até a I Guerra Mundial, quando foi acusado de simpatizante da Alemanha, em virtude de suas raízes alemãs. Hercílio Luz, com sua ascendência bandeirante e açoriana, passou a impor-se como maior liderança no período que se seguiu. 2.2 SOCIEDADE O enriquecimento de alguns comerciantes e o aparecimento de uma elite administrativa fizeram com que a diferença entre classes se tornasse, na segunda metade do século XIX, mais acentuada. Junto às mercadorias importadas da Europa, que decoravam as casas das classes mais abastadas, também apareceram novos hábitos e gostos que acentuaram ainda mais a diferença entre ricos e pobres. Com tal mudança, os mais abastados passaram a associar as classes mais pobres com o perigo, os maus hábitos, e o surgimento das epidemias e desordem na cidade. As ideias dos higienistas europeus, na virada do século XIX começaram a aparecer nos discursos dos administradores públicos de Desterro no último quarto do século XIX. Porém, apenas após a Revolução Federalista e a Revolta da Armada que esses debates se intensificaram e algumas obras começaram a ser realizadas. Novas ruas foram abertas, antigas ruas ganharam nomes de republicanos, a bandeira e hino do estado foram cunhados, procurando associar a república com o novo e o moderno. Apesar da realização dessas obras, apenas nos primeiros anos do século XX a paisagem da cidade se modificou significativamente. Segundo Neckel, 21 Ao lado da abertura e do calçamento de ruas, de organização de praças, de limpeza de logradouros públicos, acentuaram-se as preocupações dos administradores em dotar a cidade de obras de saneamento que garantissem a manutenção de uma nova ordem e de um novo modo de vida. [...] Para o poder público e setores mais abastados, tornou-se essencial dar um aspecto “agradável e sadio” para Florianópolis. [...] As insistências dos administradores em transformar Florianópolis em uma cidade “moderna e civilizada” sugere que “a antiga vila” era incompatível com a nova ordem política e social que se instaurava. (NECKEL, 2003, p. 53) A área central da cidade passou por inúmeras reformas e melhoramentos nas primeiras décadas do século XX. Como destacado anteriormente, foram instaladas as primeiras redes de água encanada e iluminação pública com energia elétrica. Construiu-se, também, a primeira avenida da cidade e, em 1922, uma ponte para ligar a ilha ao continente, que foi concluída em 1926. Apesar dos melhoramentos, vale destacar que a economia de Florianópolis continuava em declínio. Tais reformas foram apenas possíveis devido à força de sua elite política. Essa, no entanto, a partir de 1910 passou a perder, em parte, suas forças com a ascensão dos políticos pecuaristas da região do planalto catarinense. Intervenções no cotidiano da população e para a alteração da paisagem urbana continuaram a acontecer, especialmente entre 1910 e 1930. Ruas foram alongadas, redefinidas e calçadas, e inúmeros prédios e casas foram demolidos sob o discurso do bem estar público. Como já mencionado, ao mesmo tempo em que a distinção entre abastados e pobres se acentuava com os novos gostos e hábitos, observavam-se intervenções sociais, baseadas numa política médico-sanitarista, que procurava “regenerar” a população pobre, considerada doente e atrasada, esforços com o intuito de fazer com que Florianópolis alcançasse o ideal de modernidade que os políticos e abastados desejavam. Conforme resume Neckel (2003): Alteravam-se as paisagens da cidade ao mesmo tempo que eram promovidas interferências nos hábitos e atitudes de seus habitantes que, ultrapassando os limites das práticas repressivas, pretenderam atingir não só os corpos, mas também as mentes dos indivíduos, visando modificar modos de vida. Passar das proibições e sanções para intervenções educativas foi outra dimensão desta modernidade urbana, que ganhou força no contexto das forças políticas republicanas. (NECKEL, 2003, p. 64) As mudanças provocadas pela modernidade fizeram com que muitos habitantes de Florianópolis perdessem seus referenciais, uma vez que a demolição 22 de casas, que deram lugares a avenidas, praças e prédios, além de modificar a paisagem urbana do centro da cidade, forçou esses moradores a se mudarem para morros e regiões periféricas. Além das modificações no cenário, o comportamento e hábitos da população deveriam ser mudados, para que Florianópolis chegasse ao status de cidade moderna que sua elite desejava. Maiores cuidados com o corpo, alimentação e limpeza, além de padrões que caracterizavam uma boa conduta eram propagados pela imprensa da época. Artigos sobre más condutas, abordando vícios como o álcool e o jogo eram igualmente freqüentes. Pessoas que se situavam fora do padrão do mercado de trabalho, como bicheiros e vendedores ambulantes, eram taxados de vagabundos pela imprensa local. Neckel (2003) ainda destaca que: [...] entre 1910 e 1930, observam-se várias mudanças no aparato policialjudiciário, no sentido de aprimorar formas de vigilância e de intervenções sobre a cidade e seus habitantes, para não só abolir condutas indesejáveis, como produzir indivíduos adaptados aos padrões de conduta urbana então em circulação. (NECKEL, 2003, p. 75) No entanto, apesar de todas as mudanças ocorridas, a desobediência às novas regras de conduta continuou a acontecer. O problema da insalubridade não foi resolvido e de um modo geral, não se estabeleceu uma nova ordem urbana e social como se desejava. A situação econômica no início do século XX era bastante ruim. O porto continuava em declínio, assim como o comércio, que se restringia ao consumo local. A produção industrial era pequena e a produção agrícola não conseguia abastecer toda a população, sendo que alimentos vinham de outras partes do estado. O mercado de trabalho era reduzido e pouco diversificado. A população mais pobre da cidade tinha, então, que recorrer a subempregos como biscateiros, ambulantes e carregadores (NECKEL, 2003, p. 79). As mudanças ocorridas na cidade causavam dificuldades ainda maiores de sobrevivência, gerando tensões entre os grupos dominantes e os populares. Outro fator, que também dificultou o envolvimento dos mais pobres com atividades regulamentadas, foram os elevados impostos, responsáveis pela constante alta de preços. Neckel (2003) procura destacar em seu livro como as operações urbanas efetuadas em Florianópolis no início do século XX, “acabaram afastando dos olhos 23 das elites parcelas pobres da população, bem como os riscos e as ameaças que representavam” (Ibidem, p. 95). As preocupações com estes segmentos, que se afastaram do centro urbano, reapareceram com as epidemias, que ultrapassaram os limites dos morros e periferias, mais uma vez “perturbando” as elites. Para a autora, “A República legitimou-se não com base no apoio do povo, mas com base na constituição do novo regime como emblema de modernidade e de civilização” (Ibidem, p. 99). 2.3 CULTURA E ENTRETENIMENTO Segundo Côrrea, o período entre 1896 e 1930 foi um dos mais produtivos intelectualmente para a cidade de Florianópolis, pois, “paralelamente ao desenvolvimento urbano e a modernização, houve a preocupação do delineamento da definição da estrutura cultural em Santa Catarina, a partir da sua capital” (CÔRREA, 2008, p. 300). Diversos acontecimentos contribuíram para a definição de uma cultura catarinense republicana. A fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC), a criação de inúmeras revistas voltadas a assuntos culturais e sociais preocupadas com o registro do passado desterrense, a criação de revistas literárias e da Academia Catarinense de Letras (ACL) foram ajudadas pela unificação política do Estado e a concentração das lideranças sociais e culturais de Florianópolis no mesmo partido, o Partido Republicano (Ibidem, p. 300). A intelectualidade da época era dividida em dois grupos, não oponentes, mas voltados a interesses distintos. O grupo ligado a assuntos relacionados ao Estado era liderado por Hercílio Luz e José Boiteux, além de contar com desembargadores, comerciantes, profissionais liberais, militares como Felippe Schmidt e políticos como Vidal Ramos e Gustavo Richard. Este grupo foi responsável por fundar o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina em 1896 e lançar o primeiro número de sua Revista Trimensal em 1903. O outro grupo, que fundou a revista literária Terra e em 1920, a Academia Catarinense de Letras, era formado em grande parte por jornalistas e professores ligados à rede estadual de ensino. Faziam parte dele Othon Gama D‟Eça, Francisco Barreiros Filho, Altino Flores, Ivo D‟Aquino Fonseca, Antônio Mâncio da Costa e, também José Boiteux (Ibidem, p. 301). 24 Entre 1916 e 1920, algumas revistas ilustradas foram lançadas por jornalistas da capital, cedendo espaço para que os jovens pudessem mostrar seus poemas e sua verve irônica. Em março de 1920, surgiu a revista Terra, de Artes e Letras, que segundo Côrrea (2008), refletiu, mais do que qualquer outra revista, o pensamento da intelectualidade florianopolitana da época. A revista, que inicialmente se preocupava mais com os problemas literários e a qualidade da língua nacional, foi se preocupando cada vez mais com os problemas políticos da cidade e do estado. Em 1924, com o falecimento de Hercílio Luz, a Academia Catarinense de Letras, fundada em 1920, perdeu seu maior protetor e incentivador. Assumiu o governo em seu lugar, o vice-governador Antônio Pereira e Oliveira, que tinha maior proximidade com Lauro Müller e Vidal Ramos. Os intelectuais florianopolitanos da Academia Catarinense de Letras perderam seu prestígio perante o novo governador, que se voltou para um grupo considerado pelos acadêmicos como de menor importância literária, o Centro Catarinense de Letras. Deste outro grupo faziam parte mulheres e negros como Ildefonso Juvenal, Antonieta de Barros, Sebastião Vieira, Trajano Margarida e outros. O Centro Catarinense de Letras, em 1925 lançou o primeiro número de sua revista, com o apoio do governo do estado, algo que a ACL não havia conseguido fazer em cinco anos de existência. O governador e seu secretariado tinham grande prestígio pelas atividades do grupo, que realizou também o Festival Lítero-Musical no Teatro Álvaro de Carvalho em 1925 (Ibidem, p. 308). Apesar de ter cessado suas atividades no mesmo ano, o Centro teve grande importância na vida cultural da cidade, uma vez que, além de representar uma oposição às ideias estéticas da ACL, tinha membros intelectuais mulheres e negros, numa época em que existia preconceito racial e de gênero acentuado. O teatro era também fonte de cultura e entretenimento na capital na Primeira República. Era comum a vinda de companhias dramáticas de outros estados e, por vezes, até de outros países, que passavam pela ilha representando peças de sucesso, com ênfase naquelas do chamado teatro ligeiro como operetas, zarzuelas, vaudevilles e revistas, como se pode observar nos jornais locais da época. Vale ressaltar que também existiam as sociedades dramáticas particulares, que eram locais e realizavam récitas com alguma freqüência. Collaço (2007) aponta a revista como o gênero do teatro musicado que mais ganhou popularidade entre a elite florianopolitana. Muitos dos jovens que faziam 25 parte da intelectualidade da cidade, membros da ACL ou do Centro Catarinense de Letras, passaram a escrever para este tipo de espetáculo. Segundo a autora, a ausência de uma casa editora na capital fez com que o teatro se tornasse um excelente veículo para a divulgação da produção da intelectualidade da cidade. O gênero revista foi escolhido, pois era aquele de maior aceitação na capital federal e nas demais províncias do país, além de ser o mais representado por companhias em excursão que passavam pela cidade, fazendo com que os escritores e público tivessem familiaridade com este gênero. O cinema, que chegou à cidade por volta de 1900, passou a dividir espaço com o teatro nas primeiras décadas do século XX, principalmente a partir da década de 1910. Foi possível observar nos jornais propagandas de sessões, geralmente trazidas por companhias de fora e apresentadas no Teatro Álvaro de Carvalho. Côrrea (2008) aponta que os divertimentos, na virada do século, eram poucos e que além das corridas de cavalo que ocorriam na Trindade, ou Trás do Morro, pouco existia. O autor cita Virgílio Várzea que aborda, em seu livro A Ilha de 1900, Florianópolis na última década do século XIX. Segundo Várzea: Comumente, as diversões no Desterro não vão além das partidas dançantes em clubes e casa de família, e a ausência de outros quaisquer divertimentos é de tal ordem que semelhantes reuniões se repetem frequentemente duas, três e mais vezes por semana. [...] A tal respeito, é de justiça mencionar aqui, dentre as distintas associações desterrenses, o Clube Doze de Agosto, que conta com cerca de 30 anos de existência, o Clube Germânia, também de fundação antiga e o Clube Dezesseis de Abril. Estas agremiações compõem-se do que Florianópolis tem de mais seleto e elevado, e dão festas dançantes e sessões de jogos de salão para famílias, que são o que há de mais apreciável e digno. (VÁRZEA apud CÔRREA, 2008, p. 286) O autor ainda destaca as praças e largos, que apesar de em pequeno número, apresentavam aspecto agradável, atraindo famílias da cidade. Em tais locais aconteciam normalmente as retretas, tanto por bandas militares, como civis. Segundo Várzea: Excelente ponto de atração e recreio, é o passeio público das famílias desterrenses (?), que nele se reúnem aos domingos de tarde, em grupos graciosos e alegres, com crianças em volta, arejando e expandindo-se em curtos mas continuados passeios pelas aléias, ao som de uma ou mais músicas militares (VÁRZEA apud CÔRREA, 2008, p. 282) 26 Conforme a cidade se modernizava, as corridas de cavalo cediam espaço ao remo, que acontecia principalmente na Baía Sul. Três clubes náuticos foram fundados, o Clube Náutico Riachuelo e o Clube Náutico Francisco Martinelli, ambos em 1915, e o Clube de Regatas Florianópolis, depois renomeado Aldo Luz, em 1918. A rivalidade entre os clubes era grande e nos dias de páreo, geralmente aos domingos, a orla marítima sul se enchia de torcedores (CÔRREA, 2008, p. 293). O futebol era, na época, pouco difundido pelo público, sendo até mesmo proibido em 1919 pelas autoridades estaduais. O primeiro jogo que se tem notícia aconteceu em 1910 entre equipes amadoras e os times do Avaí e Figueirense foram fundados apenas em 1921 e 1922 respectivamente (Ibidem, p. 293). Quanto à música, além das já mencionadas retretas realizadas pelas bandas em locais públicos como praças e largos, clubes da cidade promoviam concertos, recitais e soirées, em que instrumentistas e cantores locais, assim como outros que estivessem de passagem pela cidade, apresentavam-se. O repertório dessas apresentações era bastante variado. Executavam-se trechos de obras de compositores renomados como Carlos Gomes, Verdi, Mozart e Donizetti, assim como peças de compositores locais como José Brasilício de Souza, Álvaro Souza, Pedro Alves Pavão, João Augusto Penedo e Adolfo Mello, como se pode observar nos jornais locais da época. Destaca-se ainda o carnaval na cidade, que aumentava o número de bailes, mas que tinha como principal destaque, os desfiles das sociedades carnavalescas. Pamplona e Holler (2010), em estudo sobre o carnaval em Desterro na segunda metade do século XIX aponta sobre: Os desfiles eram o ponto alto do carnaval desterrense. Neles as sociedades superavam-se, ano após ano, na beleza, criatividade e luxo dos carros alegóricos, fantasias, iluminação e fogos de artifício. Esmeravam-se na música executada pelas bandas e nas críticas e sátiras que apresentavam. De acordo com a imprensa local, proporcionavam um espetáculo exuberante e ordeiro que não deixava a desejar se comparado aos carnavais de outras cidades brasileiras, inclusive a Capital do Império (PAMPLONA e HOLLER, 2010, p. 10). Os jornais do final do século XIX e das primeiras décadas do século XX destacam os bailes, festas e desfiles promovidos pelas sociedades carnavalescas, que eram por muitas vezes “puxados” pelas bandas da cidade. 27 3 AS BANDAS Polk (s.d.), no dicionário Grove Music Online, afirma que a palavra banda possui inúmeros usos dentro da música e que pode se referir a praticamente qualquer conjunto de instrumentos. Quando o termo é utilizado sem nenhum adjetivo que o complemente, normalmente, se refere a conjuntos de metais e percussão ou madeiras, metais e percussão. O autor afirma que as bandas podem ser classificadas pelo instrumento ou família dominante no conjunto. Podem ser chamadas de uma banda de metais, de acordeões, de flautas, etc. Também podem ser classificadas de acordo com sua função, como banda militar, banda marcial e banda de teatro ou ainda pelo estilo de música que tocam: banda de jazz, banda de rock, banda pop. Neste trabalho, como explicado anteriormente, quando se menciona banda, refere-se aos conjuntos de instrumentos de sopro e percussão, tão populares no Brasil na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. Abaixo encontra-se uma breve retrospectiva sobre a história das bandas, primeiramente de maneira mais genérica, depois focando no Brasil e por último na cidade de Florianópolis. 3.1 BREVE HISTÓRICO DAS BANDAS DE MÚSICA Brum (1988) divide a história das bandas em cinco períodos distintos, caracterizados pela aparição de novos instrumentos. O primeiro desses vai da Antiguidade à Idade Média. O autor destaca que neste período os tocadores prestavam serviços relevantes aos povos, principalmente religiosos. Afirma, igualmente, que existiam inúmeros conjuntos de sopro e percussão, mas que esses não podiam ainda ser chamados de bandas de música. O segundo período se estende do fim da Idade Média ao fim do século XVII. Brum destaca a indústria do metal como fator importante nessa época. O avanço dessa indústria possibilitou a construção de novos instrumentos como trompas, trompetes, flautas e oboés. O autor destaca que no final do século XIII, ainda neste período, “já com o nome de banda de música, as tropas militares passaram a incluir grupos de executantes de instrumentos musicais em tipos diferentes: para serviços de infantaria e de cavalaria” (BRUM, 1988, p. 10). 28 Binder (2006, p. 15) menciona que “foi no reinado de Luis XIV (1638-1715) que surgiu o modelo de banda do qual se derivaram os padrões instrumentais posteriores utilizados em boa parte da Europa”. Este novo conjunto implementado na corte francesa, no qual os oboés substituíram as charamelas utilizadas no modelo alemão, ficou conhecido como banda de oboés. Sua formação consistia de três oboés, baixão ou fagote e tambor. Os três oboés tomaram o lugar das duas charamelas soprano e uma tenor do modelo alemão. O autor ainda destaca que em meados do século XVIII, houve uma transição das bandas de oboé para os grupos conhecidos como Harmoniemusik, por ele chamados de bandas de harmonia. Estes grupos, que se espalharam por entre a aristocracia europeia, possuíam como característica “a fixação de um par de trompas, a diminuição de três para dois oboés e o emprego de clarinetes e flautas, adicionados ou em substituição aos oboés” (BINDER, 2006, p. 16). Segundo o autor, as bandas de harmonia, influenciadas pela moda turca que se disseminou pela Europa no século XVIII, agregaram instrumentos de percussão aos sopros, provocando uma nova transformação no instrumental. Após a adição dos instrumentos de percussão, para equilibrar a sonoridade do conjunto, aumentouse o número de clarinetes e adicionaram-se flautins, requintas e trombones. Esta nova formação foi denominada como banda mista ou militar. Este modelo e suas variações foram utilizados em diversos lugares até meados do século XIX, antes do grande impulso provocado pela introdução dos instrumentos de válvulas e pistões nas bandas. Brum (1988) apresenta uma divisão diferente e mais generalizada do que a apresentada por Binder (2006) para o mesmo intervalo. Segundo o autor, o terceiro dos cinco períodos que propôs para apresentar a história das bandas, se dá durante o século XVIII, no Classicismo. Em virtude da evolução dos instrumentos de sopro e percussão nesta época, muitos instrumentos de madeira foram suprimidos das bandas, com exceção do oboé e do fagote. Ainda neste período, Brum (1988) destaca a invenção da família dos saxhornes por Adolph Sax, a invenção das válvulas para instrumentos de bocal e a instituição de bandas nas usinas e fábricas, fatores que contribuíram para o crescimento e propagação das bandas. O quarto período, coincidente com o Romantismo, aconteceu no século XIX, com a adoção dos clarinetes, saxofones e tubas, dentre outros instrumentos, que, segundo o autor, aumentaram as possibilidades de variação timbrística dentro da 29 banda. No século XIX também se estabeleceram as famílias dos instrumentos e o efetivo das bandas em diversos países foi regulado por lei, inclusive no Brasil. No quinto período, o século XX, a banda “passou a contar com executantes de todos os instrumentos de sopro de interesse, e de percussão” (BRUM, 1988, p. 11). 3.2 AS BANDAS DE MÚSICA NO BRASIL Diniz (2007) aponta para o fato de que já no século XVIII existiam, no Brasil, grupos musicais que se assemelhavam às bandas. Formados por escravos, obrigados por seus senhores a aprenderem novos ofícios, essas bandas eram denominadas de barbeiros, única profissão que permitia tempo vago para a aprendizagem de outras funções. Os barbeiros tocavam dobrados, quadrilhas e fandangos em festas, tanto religiosas quanto profanas. As bandas no Brasil, na concepção que temos atualmente, começaram a aparecer nos fins do século XVIII e início do século XIX. Carvalho destaca que “a primeira banda militar brasileira se apresenta em 1808 com a vinda da família real para o Brasil, quando chega com esta a „Música Marcial da Brigada Real da Marinha‟ de Portugal, que depois vai dar origem a Banda dos Fuzileiros Navais” (CARVALHO, 2008, p. 5). Binder (2006) aponta, no entanto, que existem indícios de que já havia bandas no Brasil com padrões instrumentais semelhantes àquelas de Portugal, mesmo antes da chegada da corte portuguesa ou da banda da Brigada Real da Marinha. Binder afirma que, ao contrário do que autores como Tinhorão (1998) apontam, já existiam bandas de música nos moldes das bandas de harmonia antes de 1808. Essas, no entanto, passaram despercebidas pelos pesquisadores por não serem chamadas de bandas, mas por outros nomes, como música, instrumentos músicos e música marcial. O termo banda, segundo o autor, aparece na legislação administrativa e, também, em relatos sobre eventos da corte somente em 1810, porém apontando para a existência de bandas no país antes desta data. A pesquisa de Binder (2006) tem seu foco na capital do país na época, a cidade do Rio de Janeiro. É possível, contudo, constatar também a presença de bandas em inúmeros outros locais do país. Nos fins do século XVIII e início do 30 século XIX, em Recife, Olinda e João Pessoa, denominada então de Paraíba, percebe-se a presença de conjuntos com instrumentos muito similares aos estabelecidos para o exército português no decreto de 1802.4 Salles (1985), em seu estudo sobre a atuação das bandas na região Norte do país, aponta que não havia bandas de música no Pará antes de 1836. Binder (2006), no entanto, assinala um possível equívoco do autor, no qual menciona a presença de músicas dos regimentos já em 1823, que como visto anteriormente, pode estar se referindo às bandas de música. Carvalho (1998) constata que, no estado de Minas Gerais, com a decadência do ouro no século XIX, também houve uma redução no pagamento dos serviços musicais, causando uma diminuição no número de instrumentistas. Este fator aliado à dificuldade de formação de orquestras e o surgimento de uma nova organização social fez com que novas bandas fossem formadas, principalmente, por músicos militares. Segundo o autor, “essas bandas assumiram os serviços eclesiásticos antes executados pelas orquestras. Os músicos cumpriam assim, suas funções militares e religiosas” (CARVALHO, 1998, p. 232). Prossegue abordando o surgimento das bandas civis, que se tornaram numerosas no final do século XIX. Segundo o autor: A partir daí começaram a surgir as bandas civis, as quais proliferaram no final do século XIX, quase sempre duas em cada povoado. Ostentando nomes iniciados, em geral, por Lira, Filarmônica, Associação, Corporação ou mesmo Banda, com uniformes que lembram o dos militares e com os tradicionais quepes, as bandas de cada cidade concorriam entre si, como outrora faziam as irmandades, e eram conhecidas como Banda do Coronel Fulano ou Banda da Igreja do Rosário. Rara era a localidade que não as possuía. (CARVALHO, 1998, p. 232) As bandas tocavam nas mais variadas ocasiões como procissões, festas de padroeiros, funerais e festas religiosas, assim como nas comemorações cívicas, mais freqüentes após a Independência. Faziam a função antes realizada pelas orquestras, e em vez das obras orquestrais executadas anteriormente, tocavam marchas, dobrados, valsas, mazurcas, dentre outros gêneros (CARVALHO, 1998, p. 232). 4 Este decreto, citado por Binder (2006) e Brum (1988), especifica a formação instrumental das bandas de música do exército português na época. 31 O autor ainda destaca que, com a reforma litúrgica da Igreja Católica, iniciada em 1868 e estendida até o início do século XX, as bandas perderam seu espaço na igreja. Sua música era considerada profana, uma vez que apenas o canto gregoriano e a polifonia palestriniana eram considerados obras sacras. As ideias da reforma chegaram rapidamente ao Brasil, e as bandas foram proibidas de tocar no interior das igrejas. Com tal proibição, essas passaram a ocupar o espaço externo às igrejas, e, principalmente, os coretos das praças, nas quais normalmente as igrejas se localizavam. Nos coretos, as bandas executavam gêneros tradicionais como valsas, marchas, dobrados e polcas nas tão populares retretas. Binder (2006) apresenta duas funções para as bandas militares no Império, uma função simbólica, como sendo “o brasão sonoro” da monarquia brasileira e uma infra-estrutural, uma vez que as bandas, através do ensino de música, dos instrumentos, dos músicos e do repertório, forneciam à sociedade os meios para que pudessem continuar existindo. Acredito que essas funções possam ser extrapoladas para as bandas civis e, também para o período inicial da República. As bandas civis, assim como as militares, também forneciam os meios para que pudessem ter continuidade e como detalharei no capítulo dedicado à SMAA, participavam de comemorações cívicas e apresentações dedicadas a políticos renomados, o que lhes fazia funcionar como símbolo de poder e status. 3.3 AS BANDAS DE MÚSICA EM FLORIANÓPOLIS O primeiro relato de uma banda em Florianópolis trata de uma banda sob a batuta do capitão Francisco Luiz do Livramento no ano de 1816. Contudo, Rosa (1991) não cita a fonte de onde retirou tal informação, nem dá maiores detalhes sobre o assunto. De acordo com o mesmo autor, no ano de 1845, Nossa Senhora do Desterro recebeu a visita do então imperador, Dom Pedro II. Por julgar não haver nenhuma banda digna para recepcioná-lo na cidade, na véspera de seu desembarque, a Legião da Música, banda da Fragata Constituição, aportou na cidade com o objetivo de enriquecer os atos festivos. Em 1850, o Comendador João Francisco de Souza Coutinho fundou e dirigiu uma Sociedade Filarmônica como destaca Rosa (1991). Pires (2008) ressalta que tal 32 banda ficou praticamente abandonada por quatro anos até que o Sr. Félix Noronha se propôs a ensinar música a um pequeno grupo de jovens da elite, que passaram a se apresentar em bailes recebendo elogios. O Sr. Félix resolveu, então, formar sua própria banda, ensinando música aos escravos. Segundo Rosa (1991) “os negros começam a receber lições de música de um cidadão [...] e formam uma banda que passou a ser conhecida pelo título de „Farinha‟, já que a maioria dos músicos fazia o carregamento no porto de sacos deste alimento” (ROSA, 1991, p. 168). Cabral (1972) aponta que as bandas de música foram muito numerosas, principalmente na segunda metade do século XIX. Pires (2008), em seu trabalho de conclusão de curso, realiza uma análise minuciosa sobre a história das bandas no Império em Desterro, tanto civis quanto militares, através dos registros em periódicos da época. Utilizarei aqui o estudo realizado pela autora para discorrer mais detalhadamente sobre as bandas na cidade na segunda metade do século XIX. Pires (2008) destaca que viajantes estrangeiros já relatavam a existência de música no meio militar em Desterro no fim do século XVIII. Referências sobre bailes e pequenos concertos de música instrumental realizados por militares foram encontrados em inúmeros relatos de viajantes que passaram pela capital. A autora afirma, no entanto, que a primeira referência sobre músicos dentro de bandas militares nos jornais da capital aparece em 1849. Trata-se dos vencimentos da força policial, dentro dos quais aparece o soldo da corneta. Os relatos sobre apresentações de bandas militares começaram a aparecer poucos anos mais tarde. A autora fala sobre a dificuldade na identificação das bandas, em virtude da falta de detalhes fornecidos nos jornais. Conseguiu, contudo, relacionar 11 diferentes bandas militares, dentre elas: o Batalhão do Depósito, a Sociedade Harmonia Militar, a banda do 17º Batalhão de Infantaria, e o 1° Batalhão de Artilharia da Guarda Nacional. A notícia mais antiga envolvendo a participação de uma banda militar em um evento na cidade que a autora pôde encontrar foi no ano de 1854 no jornal O Conservador. Nessa, a última banda anteriormente citada, “participou da comemoração da transladação dos enfermos do Imperial Hospital de Caridade, acompanhada pela Sociedade Philarmônica” (PIRES, 2008, p. 20). Acredita-se que essa seja a Sociedade Filarmônica fundada e dirigida por João Francisco de Souza Coutinho, mais um motivo para se crer que se trata de uma banda. Destaca-se ainda a fundação da Banda de Música da Força Pública do Estado de Santa Catarina em 21 de setembro de 1893. Aponta-se, contudo, que em 33 decreto de 1º de junho de 1894,5 a Força Pública passou a se chamar Corpo de Segurança e é por este nome que é chamada até 1916, quando a Lei nº. 1137 de 1º de setembro transforma o Corpo de Segurança novamente em Força Pública. A banda em discussão é a atual Banda da Polícia Militar de Santa Catarina, que recebeu o apelido de “Piano Catarinense”, em virtude de sua popularidade. Enfatizase aqui esta banda uma vez que, segundo o Sr. Nélio Schmidt, atual presidente da SMAA, em sua fundação, a Sociedade Musical Amor à Arte contava com membros da Banda da Força Pública. As bandas civis, por sua vez, tomaram grande força principalmente após a década de 1870, embora, como já foi destacado, houvesse uma Sociedade Filarmônica e uma banda formada por escravos já na década de 1850. Listo abaixo algumas das bandas civis presentes na capital e suas respectivas datas de fundação, como citadas por Pires (2008) e Cabral (1972): Panteon Musical: fundada em 1868. Segundo Cabral, a sociedade possuía uma banda. Philarmonica Commercial: Cabral aponta a inauguração dessa sociedade como 25 de julho de 1868. Pires, no entanto, segue a nota do jornal A Regeneração de 15 de outubro de 1874, que marca a data de organização da sociedade como outubro do mesmo ano. Santa Cecília: encontradas referências sobre a banda entre 1875 e 1877. Esthelita: duas referências são encontradas sobre a banda no jornal A Regeneração, ambas de 1875. Uma trata da participação da banda na festa de São Sebastião, e a outra, da participação na inauguração de uma fábrica de sabão. Sociedade Musical Trajano: possui referências nos periódicos locais entre 1875 e 1885. Seu nome foi dado em homenagem ao Tenente Capitão Trajano Augusto de Carvalho (1830-1898), construtor naval brasileiro oriundo de Desterro. Associação Musical Tymbiras: apresenta referências somente no ano de sua fundação, 1875. Sociedade Musical Lyra Artystica Catharinense: fundada também em 1875, apresenta referências até o ano de 1881. Sociedade Guarany: tanto o jornal do Comércio de 11 de agosto de 1880, quanto o Despertador de 20 de outubro do mesmo ano, apontam a Sociedade 5 Cronologia das datas importantes para a Polícia Militar de Santa Catarina. Disponível em: <http://www.pm.sc.gov.br/website/rediranterior.php?act=1&id=246>. Acesso em: 04 jan. 2011. 34 Guarany como o novo nome da Sociedade Musical Trajano. É possível notar, no entanto, referências em diversos periódicos entre 1880 e 1885, em que ambas as sociedades são mencionadas, por vezes até participando do mesmo evento. Sociedade Musical Amor à Arte: será amplamente explorada no capítulo 4. Sociedade Musical União Artística: sociedade musical que também possuía uma banda. Referências nos periódicos citam a banda entre os anos de 1881 e 1889.6 Além das bandas acima, outras ainda podem ser encontradas nos periódicos da época, como Recreio Josephense e Sociedade Igualdade e Fraternidade. Vale destacar ainda que existiam diversas outras sociedades que não necessariamente possuíam bandas. Essas sociedades musicais se destinavam à organização de concertos, recitais e bailes, dentre outros eventos. Temos como exemplos: Club Harmonia Lyrica e o Club Euterpe 4 de Março. Dentre as bandas militares atuantes nas primeiras décadas do século XX, a Banda do Corpo de Segurança e as bandas do 37º Batalhão e do 14º Batalhão de Caçadores são as que aparecem com maior freqüência nos jornais da cidade. Dentre as civis, destacaram-se sete bandas: a SMAA, a já citada Filarmônica Comercial, a banda Nossa Senhora da Lapa (do Ribeirão da Ilha, fundada em 1897), a União Artística e a banda filarmônica da Liga Operária, além de duas bandas da cidade de São José, a União Josefense e a Sociedade Musical Adolfo Mello. As bandas, tanto no final do século XIX, quanto no início do século XX, proviam música para os mais variados eventos sociais. Téo (2007) destaca a carência de grupos musicais, principalmente orquestras na cidade, uma das razões da participação das bandas nas mais diversas ocasiões. Segundo o autor: [...] ideais musicais europeus eram defendidos nos jornais como a forma ideal de elevação de um povo, negando uma possível brasilidade musical em prol de um objetivo claro de transformação e modelamento, através da educação da expressão popular, Por outro lado, pouco se investia nesse sentido. Algumas bandas de música – e nenhuma orquestra, pelo menos até meados da década de 40 – constituíam o universo interpretativo da capital (TÉO, 2007, p. 127). 6 Apesar da pesquisa de Pires (2008) se delimitar ao Império, foram encontradas referências à União Artística também no início do século XX. 35 Pires (2008) separa três tipos de evento em que as bandas, tanto civis, quanto militares participavam, por vezes, até juntas. São estes: os eventos profanos, as solenidades cívicas e os eventos religiosos. Dentre os eventos profanos, ganham destaque os bailes, que tinham grande importância na vida social da época. Contavam com a participação das bandas civis e militares. Eram organizados e patrocinados por membros da elite florianopolitana, e, normalmente, realizados para comemorar a visita de pessoas ilustres ou datas especiais. O carnaval era outro evento que possuía a participação ativa das bandas. Unindo-se às sociedades carnavalescas, também muito comuns na época, percorriam as ruas, procurando animar as festas. Também muito comuns na época eram as retretas. As bandas costumavam realizar tais apresentações, por vezes, com datas fixas como o caso da Sociedade Trajano, que realizava suas retretas aos domingos à tarde, segundo o Jornal do Comércio de agosto de 1880. As retretas ocorriam em diversos lugares, como em frente ao palácio da Presidência, ou nos coretos, existentes em algumas praças. Segundo Dutra (1992), “Geralmente, antes da apresentação, elas [as bandas] desfilam pelas ruas principais como uma espécie de chamamento. As pessoas chegam à janela e aplaudem. Outras saem e acompanham a banda” (DUTRA, 1992, p. 35). As bandas ainda participavam de apresentações teatrais, tocando música incidental ou nos intervalos das peças. Também tocavam em inaugurações de estabelecimentos, e, como se pode observar em diversos registros nos jornais, acompanhavam enterros. Outro tipo de evento destacado por Pires (2008) são as solenidades cívicas. Tais eventos também contavam com a participação de bandas militares e civis, muitas vezes tocando juntas. Datas como o aniversário do imperador, a Independência, as vitórias na Guerra do Paraguai, e posteriormente, a proclamação da República, dentre outras importantes ocasiões cívicas, eram comemoradas com retretas, bandas percorrendo as ruas, ou mesmo com a execução de hinos pátrios no teatro. Era de costume das bandas ainda tocar em outros acontecimentos, como posses, visitas, despedidas e homenagens a autoridades. O terceiro tipo de evento citado pela autora são aqueles religiosos. Era comum as bandas participarem de eventos sacros como missas, festas de oragos e 36 procissões. Pires (2008) destaca a ativa participação das bandas militares em procissões, apontando inúmeras referências nos jornais. As comemorações da Semana Santa também tinham grande engajamento por parte das bandas, assim como festas e feriados religiosos, como a festa do Divino Espírito Santo e o dia de Corpus Christi. 37 4 A SOCIEDADE MUSICAL AMOR À ARTE Cabral (1972) aponta o ano de fundação da SMAA como 1876, ano em que a sociedade teria se organizado pela primeira vez e apenas por um breve tempo. De acordo com o autor, há duas possíveis datas para a estreia da banda da sociedade, 30 de janeiro e 13 de fevereiro do mesmo ano. Pires (2008), por sua vez, coloca que a notícia de sua instalação encontra-se em O Conservador de 9 de outubro de 1875 e na Opinião Catarinense de 14 de outubro de 1875, e que ambos apontam a data de criação da sociedade como 3 de outubro do mesmo ano. Referências sobre a SMAA são encontradas nos jornais da capital pelos cinco anos seguintes, estando a última presente em O Conservador de 14 de Fevereiro de 1880, que relatou a participação da banda nos festejos carnavalescos. Lembra-se aqui que a data de fundação oficial da SMAA é 12 de outubro de 1897. Esta data aparece no prédio e no estandarte da sociedade, assim como em diversos anúncios em jornais da cidade, crônicas e livros. Para Cabral (1972), esta data representa uma reorganização da sociedade. Aponto, no entanto, que em nenhum dos documentos pesquisados, que tratam da SMAA após a data de sua fundação em 1897, foi possível encontrar menção a esta primeira organização da sociedade em 1875, o que nos leva a crer que existe a possibilidade de se tratarem de sociedades distintas. Téo (2007) aponta para o artigo escrito por Álvaro Souza no jornal O Estado de 13 de outubro de 1937 sobre a fundação da banda. Segundo Souza, a banda se originou de um “grupo de amadores da divina arte, a que deram, na década de 1890, o título depreciativo de Orquestra dos Cupins, a qual mais tarde se transformaria na Amor à Arte” (SOUZA apud TÉO, 2007, p. 261). Téo (2007) destaca que essa orquestra era formada por seis indivíduos e apresentava profundas diferenças com relação aos ideais da Sociedade em sua fundação. Os Cupins contavam com dois violões, dois violinos, duas flautas e, eventualmente, um clarinete. A transição para a Amor À Arte, segundo o autor, indica um novo intento, no qual o violão perdeu seu espaço. Téo (2007) ainda destaca uma outra carta publicada n‟A Gazeta de 5 de novembro de 1946, escrita por Indalício Pires, um dos fundadores da SMAA, em que este fala sobre a fundação da Sociedade: 38 Na minha mocidade eu, Hermínio Jacques e Álvaro Souza mantínhamos um pequeno conjunto musical que, naqueles tempos, fazia as delicias de Florianópolis com as suas boas serenatas nas noites aluaradas. Mais tarde, em 12 de outubro de 1897, em casa de minha vó reunia os meus amigos Hermínio Jacques, Álvaro Souza, João Caldeira de Andrade, Antônio Machado, Virgílio Garcia, Tenente João Torres, Max Freysleben, Leopoldo Pires, Francisco Cunha e Felipe Rosa. Aberta a seção, expus o fim do meu convite, apresentando aos presentes a minha idéia: a firmação de uma sociedade musical. Discutindo o assunto, ficou deliberada a formação de uma sociedade musical denominada Amor à Arte. (PIRES apud TÉO, 2007, p. 135) Após a eleição da diretoria, a sociedade deu inicio à formação de uma orquestra, que integrasse indivíduos que correspondessem às expectativas dos fundadores. O grupo se chamava de orquestra e não banda, mais em função da intenção inicial do que da formação em si. Como Álvaro Souza destaca em artigo escrito n‟O Estado em 12 de outubro de 1922: Durante cerca de dois annos foi a Amor á Arte, orchestra, e, depois desse biennio, devido a iniciativa de varios socios, passou a ser banda. Tal transformação foi acareada pela falta quase absoluta de instrumentos de corda, que ressentia-se, então, a orchestra.” (O ESTADO, 12/10/1922) Téo (2007) afirma a especificidade dos ideais expressos pelos fundadores da sociedade, na mesma carta de Indalício Pires citada anteriormente. A nossa sociedade tem a sua tradição, a tradição da boa música, da música da nossa terra, dos nossos conterrâneos, com as suas belas valsas que eram peritos: Santos Barbosa e o grande catarinense amigo Adolfo Mello, com a sua inesquecível Noturna, que fez época no tempo que em nossa terra se cultivava a verdadeira música. (PIRES apud TÉO, 2007, p. 135) A SMAA surge, então, no final do século XIX, inicialmente como orquestra, depois se tornando uma banda (figura 2), com o objetivo de cultivar o que seus fundadores consideravam a “boa música”, fosse ela de renomados compositores europeus que apreciavam ou de compositores locais por quem tinham apreço. 39 Figura 2 – Fotografia da banda da SMAA em data desconhecida (estima-se entre 1920-1930). Fonte: Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 4.1 A SMAA NA PRIMEIRA REPÚBLICA 4.1.1 Constituição O estatuto da SMAA de 1916 afirma que a sociedade era formada por uma banda de música e pelo número de sócios contribuintes que a diretoria julgasse necessário. A banda contava com aproximadamente 30 músicos no período estudado. A diretoria possuía a seguinte formação: um presidente, um vicepresidente, um primeiro secretário, um segundo secretário, um primeiro tesoureiro, um segundo tesoureiro, um orador, um bibliotecário e dois procuradores.7 Segundo o estatuto, as principais funções da diretoria eram promover o desenvolvimento da SMAA, resolver sobre propostas de admissão de sócios, recorrer aos meios legais para resolver questões relativas à sociedade quando 7 Embora o estatuto de 1916 mencione somente dois procuradores, há referência a um terceiro no Livro de Atas de 1908-1909. 40 preciso e cumprir aquilo determinado pelo estatuto. Cada membro da diretoria possuía outras funções inerentes a seus cargos, porém estas não serão aqui aprofundadas. Os sócios, por sua vez, eram divididos em cinco classes: fundadores, de estante, contribuintes, beneméritos e honorários. Fundadores eram aqueles que concorreram para a fundação da SMAA. Sócios de estante eram os músicos que faziam parte da banda. Os contribuintes eram aqueles que foram admitidos após a instalação da sociedade. Beneméritos e honorários eram “as pessoas que, pelos serviços prestados a Sociedade, tenham feito jus a esta distinção, ou aqueles que fizeram doação a Sociedade da quantia de 500#000 mil réis, pelo menos” (SMAA.Est., 1916). Como o próprio estatuto indica, o número de sócios contribuintes ficava a cargo da diretoria, não havendo um número limite. Estes sócios deveriam contribuir mensalmente para a SMAA com uma quantia de mil réis (1#000). De acordo com as listas de sócios, no ano de 1924 os contribuintes beiravam os 200 e em 1925 se aproximaram dos 300. A lista de 1924 ainda aponta dois sócios beneméritos e nenhum honorário. Creio que a lista de 1924 possa estar incompleta, uma vez que indica apenas seis sócios de estante, e sabe-se através das listas de presença que no ano em questão esses eram quase 30. Segundo o estatuto de 1916, as propostas para novos sócios deveriam ser assinadas pelo proponente, (creio que todos os sócios poderiam propor, uma vez que nada é explicitado sobre o assunto) e enviadas à diretoria. O método para aceitação do sócio, após sua proposição, foi descrito por Téo (2007): Sempre que apresentados novos candidatos para integrar a Amor à Arte, eram distribuídos aos membros da diretoria dois cubos de madeira – um escuro e outro claro. Passava-se um saco e cada um, segurando os dois cubos, colocava a mão no saco e largava, sem que ninguém pudesse ver, um dos dois cubos. Abandonavam o cubo claro aqueles que absolutamente nada tinham contra o candidato. Os cubos negros indicavam algum antecedente desqualificador (bebida, dívidas, etc.) conhecido pelo membro que o depositou no saco. A presença de um só cubo escuro impedia a entrada do candidato. O veto não era discutido ou justificado pelo(s) depositante(s), o que deveria abrir margem para implicações pessoais e criações fantasiosas acerca dos antecedentes – por vezes – inexistentes – do candidato. Dados obtidos em entrevista com Nélio Schmidt, concedida no dia 4/8/2004, nas dependências da Sociedade Amor à Arte. (TÉO, 2007, p. 262) 41 Observa-se na figura 3 os cubos mencionados pelo autor, que ainda hoje se encontram presentes na sede da banda. Figura 3 – Cubos utilizados no processo de seleção de novos sócios. Fonte: Foto do autor. Existe a possibilidade de o entrevistado ter se equivocado, no entanto, ao afirmar que este método era utilizado para o ingresso de músicos na banda. Segundo o estatuto de 1916, existiam duas maneiras para que um músico entrasse no conjunto. Na primeira, poderia entrar como aprendiz, fazendo as aulas que eram oferecidas pela SMAA e coordenadas pelo mestre da banda, tornando-se parte dela após adquirir certa desenvoltura. Na segunda, quando vindo de outras corporações e já capacitado, deveria ser aprovado pela banda em escrutínio secreto que seria comunicado à diretoria após sua realização. Em meio aos documentos encontrados na SMAA, existem dois comunicados do mestre da banda à diretoria sobre o ingresso de novos sócios de estante. Em um deles, o mestre afirma que um membro foi aceito por unanimidade de votos, enquanto no outro, afirma que certo membro foi aceito por 20 dentre os 24 músicos presentes (Apêndice 2). Isto nos leva a crer que a banda possuía certa autonomia na escolha de seus músicos e que as regras para aceitação de novos membros na banda eram diferentes daquelas utilizadas para a entrada de novos sócios na SMAA. Também existe a possibilidade de que o processo descrito pelo atual presidente da SMAA tenha sido utilizado posteriormente ao período aqui estudado. 42 Os membros da banda, como destaca Téo (2007), eram inicialmente membros de famílias tradicionais da cidade e já possuíam considerável conhecimento musical. Com o passar dos anos, a banda foi sofrendo uma “popularização”, na qual indivíduos de camadas menos favorecidas passaram a integrá-la. Embora não tenha encontrado nenhuma informação sobre o porquê dessa mudança, levanto algumas hipóteses sobre as razões pelas quais ela possa ter ocorrido. O fato de o projeto inicial de uma orquestra não ter se consolidado pode ter feito com que alguns de seus membros, advindos da elite, tenham perdido o interesse na SMAA. Destaca-se também o fato de que muitos dos indivíduos da elite local estavam ligados a cargos administrativos na cidade e no estado, sendo, por vezes, enviados a trabalho para outras cidades, impossibilitando-os de continuar na banda, como foi possível observar nas inúmeras cartas, solicitando licença ou afastamento, encontradas no acervo. As aulas de música realizadas dentro da SMAA e abertas à população, por sua vez, tornaram possíveis que membros das classes mais pobres da cidade pudessem eventualmente se tornar músicos da banda. Com o passar do tempo, estes foram tomando o lugar dos membros das famílias tradicionais, que podem ter saído pelas razões previamente citadas. 4.1.2 Sede A atual sede da SMAA (figura 4), localizada na Rua Tiradentes 181, no centro da cidade, foi adquirida em 1911 pelo valor de 3:000$000 (três contos de réis) como uma casa térrea. Essa passou por uma reforma no Governo de Adolfo Konder (1926-1930), ganhando um andar extra. Embora não se saiba exatamente a duração da reforma, a estréia do novo salão para ensaios foi realizada no dia 13 de dezembro de 1929, conforme consta no livro de presença daquele ano. Além de sua utilização como local para ensaios, a sede foi utilizada para reuniões da diretoria e também cedida ocasionalmente para festas e reuniões de outras instituições. Cito como exemplo o comunicado enviado pela diretoria do Club Recreativo 15 de Novembro (Anexo 1), em que convida a diretoria da SMAA a participar do baile de comemoração do primeiro aniversário do clube que ocorreria nos próprios salões da SMAA. 43 Ressalto que não foi encontrada nenhuma informação sobre a localização da sede da SMAA antes de 1911 ou se havia de fato uma sede. Figura 4 – Sede da SMAA. Fonte: Foto do autor. 4.1.3 Ensaios Não foi possível encontrar registros dos ensaios da banda anteriores ao ano de 1915. Porém, no Livro de Atas de 1908-1909, foi encontrada a ata de uma sessão em que o mestre da banda solicitou que os ensaios de segunda-feira fossem cancelados, pela ausência de muitos músicos. O 1º secretário sugeriu que estes ensaios fossem utilizados para os músicos que estavam com dificuldades, e que se mantivessem os outros dois ensaios como ensaios gerais, opinião aprovada por unanimidade de votos entre diretoria e banda. Isto nos leva a crer que, neste período, a banda tinha como costume ensaiar três vezes por semana, com a utilização do primeiro ensaio da semana para os músicos que estivessem com alguma dificuldade. Embora não se tenha encontrado informações sobre essa distinção entre os ensaios nos livros de presença, destaca-se que estes registraram tanto ensaios 44 quanto apresentações, desde 1915 até 1930. De acordo com o estatuto da SMAA de 1916, os ensaios da banda deveriam ocorrer três vezes por semana, nas segundas, quartas e sextas entre sete e nove horas no inverno e entre oito e 10 horas no verão. Foi possível observar nos livros de presença, no entanto, que a banda mantinha uma média de aproximadamente 10 ensaios mensais, raramente ultrapassando os 12 ensaios (três semanais) e em pouquíssimas situações realizando menos do que oito (dois ensaios semanais). Pôde-se constatar que o número de ensaios era reduzido caso houvesse um grande número de apresentações numa mesma semana. Cito como exemplo os meses entre fevereiro e outubro de 1916, em que a banda ficou encarregada de tocar no teatro conforme registrado: “No dia 30 [de janeiro de 1916] a banda foi contractada pelo Sr. Julio para tocar no theatro as terça, quintas, sabbados e talvez domingos das 7 ou 6 horas da tarde (conforme a estação) até a entrada do espectaculo pela quantia de 20#000 cada tocata” (SMAA.RegFeq2., 1916). Foi possível também observar que tanto ensaios quanto tocatas foram cancelados por motivos de doença. Em novembro de 1918, a influenza espanhola fez com que todas as tocatas fossem canceladas e os ensaios ficassem reduzidos a apenas quatro. Em janeiro de 1927, o mestre da banda adoeceu e foi operado, fazendo com que todos os ensaios e eventos daquele mês não ocorressem. 4.1.4 Apresentações As bandas, no final do século XIX e início do século XX, realizavam as mais variadas apresentações, estando presentes nos mais diversos eventos sociais. Como resume Dutra (1992), quando fala das bandas de maneira geral: A banda participa dos momentos mais significativos das comunidades, ou seja, nas retretas ou tocatas, campanhas políticas, saudações de personagens ilustres, festas cívicas, procissões e festa do padroeiro, bailes, circo, desfilando nas ruas ou sobre um tablado ou em um coreto na praça. (DUTRA, 1992, p. 35) Através dos livros de presença, dos artigos em jornais e dos comunicados enviados e recebidos por outras instituições, foi possível verificar a presença da banda da SMAA em inúmeras ocasiões, tanto no âmbito sacro, quanto no profano. 45 No âmbito sacro, notou-se a presença da banda tanto em eventos litúrgicos quanto em eventos paralitúrgicos, como procissões e romarias. A banda, a convite das irmandades da capital, tomou parte nas mais diversas procissões. Dentre elas podem-se mencionar a procissão de Corpus Christi e do enterro, ressurreição e coroação, organizadas pela Irmandade do Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora das Dores, e as procissões do Senhor Jesus dos Passos, de Nossa Senhora do Parto e de Nossa Senhora da Conceição, realizadas pelas irmandades com os respectivos nomes. Ainda se encontraram registros da procissão de São Sebastião, na qual várias irmandades tomaram parte, além de procissões realizadas no Estreito, dentre outras, sobre as quais não houve maiores especificações. Destacase ainda que neste tipo de evento, a banda da SMAA tocava em conjunto com outras bandas. Conforme O Estado de 20 de janeiro de 1923, na procissão de São Sebastião ocorrida no dia anterior à publicação do jornal “as bandas musicaes do 14 Batalhão, Força Publica e Amor a Arte tocaram durante o trajecto” (O ESTADO, 20/01/1923). As bandas, pelo que informa o jornal, se revezavam na execução de marchas religiosas. Das romarias, em número menor do que as procissões, em que a SMAA tomava parte entre três e seis vezes por ano, foram encontrados apenas dois registros. Um deles de maio de 1916, de uma romaria ao túmulo do Marechal Guilherme e outro em novembro de 1922, em que haveria uma romaria ao cemitério na qual a banda acompanharia a Irmandade do Rosário, porém tal evento não chegou a acontecer por falta de um padre, conforme escrito no livro de presença. Destaca-se que oito registros da presença da banda em missas foram encontrados entre os anos de 1915 e 1930. As missas em que a banda participava eram geralmente realizadas em homenagem a membros da sociedade florianopolitana que haviam falecido, ou mesmo a ilustres brasileiros. Destacam-se, dentre as missas em que a banda da SMAA estava presente, a realizada no dia 28 de janeiro de 1919, em homenagem a Olavo Bilac um mês após sua morte e aquela realizada no dia 31 de outubro de 1924, em homenagem ao governador Hercílio Luz, dez dias após seu falecimento. Também foram observadas duas missas em homenagem a Aldo Luz,8 um ano e cinco anos após seu falecimento 8 Aldo Firmino da Luz (ou Aldo Luz I) foi filho de Hercílio Luz. Nascido em 1896, foi oficial de gabinete da Secretaria do Interior e Justiça do Estado, no Governo de Felipe Schmidt. Dedicou-se ao esporte de regatas. O Clube de Regatas Florianópolis trocou seu nome para Clube de Regatas Aldo Luz em 46 respectivamente. Questiona-se, no entanto, se a igreja local estaria desobedecendo às ordens estabelecidas na reforma litúrgica da Igreja Católica, que, em meados do século XIX, proibiu a presença das bandas no interior dessas, como destaca Carvalho (1998). Aponta-se ainda que a banda da SMAA, assim como outras bandas da capital, possuía o hábito de acompanhar o enterro de seus sócios e parentes próximos, assim como de figuras ilustres da cidade, como, por exemplo, o enterro de João Augusto Penedo (organizador da Banda de Música da Força Pública) em agosto de 1923 e de outros como os de Carl Hoepcke e do Governador Hercílio Luz. Fora do âmbito religioso, as apresentações eram as mais diversas. As retretas, realizadas em locais como o Jardim Oliveira Bello, a praça XV de novembro e o trapiche do Estreito, geralmente nos domingos, aconteciam normalmente uma vez por mês, eram gratuitas e bem aceitas pelo público. As demais apresentações, chamadas de tocatas, ocorriam nos mais diversos lugares. Encontraram-se registros de tocatas em bares, cafés, clubes, lojas maçônicas e em inúmeros bairros da cidade como Trindade, Saco dos Limões e Santo Antônio. A banda se fazia presente também em festas e quermesses, assim como em bailes, realizados pelos diversos clubes e associações da cidade, que ocorriam mensalmente, sendo intensificados durante o carnaval. Pôde-se verificar também a contratação da banda para que tocasse no teatro, geralmente apresentando-se no início e nos intervalos das peças. Não foi encontrada nenhuma informação sobre a banda tocando durante a apresentação de peças teatrais. Os contratos eram feitos por vezes para eventos isolados e, por vezes, por períodos mais extensos. No ano de 1916, a banda foi contratada para apresentar-se três vezes por semana, entre os meses de fevereiro e outubro, segundo consta no mês de janeiro de 1916 do livro de presença do respectivo ano. Embora não se tenha encontrado nada sobre contratos para os anos de 1918 e 1919, observou-se nesses anos também um grande número de apresentações no teatro, muitas vezes ultrapassando 10 apresentações mensais. Encontraram-se também registros da banda da SMAA apresentando-se em circos que passavam pela cidade. Estes aparecem com grande freqüência nos livros de presença da o sua homenagem, após seu falecimento prematuro no Rio de Janeiro em 1 de maio de 1918. Disponível em: <http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/Hercilio/953sc015.htm>. Acesso em 20 dez. 2010. 47 SMAA. Entre os anos de 1915 e 1930, registrou-se a presença de mais de dez passagens de circos pela cidade. Em alguns, a banda da SMAA tocou apenas poucas vezes, creio que por terem permanecido pouco tempo na cidade, ou, por possivelmente terem contratado outra banda. Em outros, a banda tocou por períodos mais longos, como no Circo Japonês, que contou com apresentações da banda do final do mês de novembro e durante todo o mês de dezembro de 1919 e, novamente, em março e abril de 1922. Notou-se igualmente a presença da banda da SMAA em eventos esportivos. Há registros da participação da banda em eventos relacionados aos clubes náuticos da cidade, como o batismo de ioles, a distribuição de medalhas por conta das regatas e nas próprias regatas. Também foram encontrados registros da participação da banda em eventos relacionados a clubes de futebol. Acredito que se trate de jogos de fato, porém não foram encontradas maiores informações sobre tais apresentações. Houve registros ainda da participação da banda em touradas no Estreito. Embora não se tenha encontrado maiores informações sobre tais touradas, acreditase que sejam o que conhecemos atualmente como farra-do-boi. Conforme afirma Lacerda (1993), as lacunas na história da farra-do-boi em Santa Catarina são bastante grandes e são poucas as informações sobre estes eventos na época. Um fato curioso que destaco, no entanto, é que segundo o autor, a farra-do-boi nunca foi um espetáculo público, sendo feita geralmente na clandestinidade. Isso nos leva a questionar se este tipo de evento era mais popular no início do século XX, haja vista o registro da contratação de uma banda para participar em tais ocasiões. A banda realizava também homenagens, tocando em eventos como aniversários, casamentos de seus sócios, assim como recepcionando membros da elite catarinense, e também batalhões do exército, que chegavam ou partiam da cidade. Cumprimentos a clubes e associações que faziam aniversário também eram feitos regularmente. Além destes, ainda foram encontrados registros da presença da banda em inaugurações de placas de ruas, cafés, estátuas e em eventos cívicos como a abertura do congresso e alvoradas realizadas em frente ao palácio na comemoração da Independência. Destaca-se que os livros de presença registravam diferentemente os eventos em que a banda tocava gratuitamente e os que os músicos eram pagos para tocar (figura 5). A letra E, como se pode observar, indica aqueles que compareceram aos 48 ensaios. A letra C indica os que compareceram às apresentações remuneradas e a letra C cortada indica os presentes nas apresentações não remuneradas. Figura 5 – Livro de presença – Outubro de 1916. Fonte: Foto do autor. Segundo o Estatuto de 1916, “A banda só poderá ser cedida gratuitamente para a Procissão de Passos, kermesses em benefícios a estabelecimentos prós, ou a casos imprevistos tambem de caridade e festas de grande data a juizo da directoria” (SMAA.Est., 1916). Foi possível observar que a banda tocava de forma gratuita basicamente em quatro tipos de ocasiões: eventos religiosos, beneficentes e nas já mencionadas retretas e homenagens. Nas ocasiões religiosas em que a banda tocava sem que houvesse pagamento, as irmandades apelavam para os sentimentos religiosos dos diretores e sócios da SMAA, solicitando à diretoria a participação da banda com o objetivo de abrilhantar as procissões. Registrou-se, no entanto, alguns casos em que a SMAA recebeu para que a banda tocasse em tais eventos, como, por exemplo, a Procissão de Nossa Senhora do Parto em janeiro de 1916, na qual a sociedade ganhou a quantia de 40#000 pela participação da banda. Os eventos beneficentes também ocorriam com freqüência. Esses poderiam ser em benefício de instituições ou de particulares. Nestas ocasiões a banda da SMAA participaria de um evento no qual dinheiro ou doações seriam arrecadados e repassados aos beneficiários, que poderiam ser clubes, sociedades, artistas, ou 49 pessoas em necessidade, como era o caso das apresentações feitas no Natal dos Pobres no Asilo de Mendicidade Irmão Joaquim, realizadas inúmeras vezes no período estudado. Do mesmo modo que nos eventos religiosos, a presença da banda era solicitada para trazer mais brilho aos eventos. 4.1.5 Fardamento Como Binder aponta em sua dissertação (2006), a atuação e influência das bandas militares a partir da década de 1830 pareceu contribuir para a criação de hábitos característicos que podem ser encontrados nas bandas civis até hoje. A adoção de tais características foi chamada pelo autor de um éthos militar. Esse éthos se refletia além de nos nomes dos conjuntos e no repertório, na aparência destas bandas. Seus uniformes até hoje se inspiram nas fardas militares e são muitas vezes chamados de fardamento. Segundo Pires (2008), as bandas militares foram predominantes em Desterro até a década de 1870, quando passaram a ser gradualmente substituídas pelas bandas civis. Além da inauguração do Teatro Santa Isabel no ano de 1875, que gerou uma renovação na vida cultural da cidade, a autora levanta como motivos prováveis para esta substituição: [...] o desenvolvimento econômico da cidade nesse período, causado pelo desenvolvimento do comércio de abastecimento urbano e o crescimento da população; além disso, a partir desse período foi evidente a desmilitarização da cidade, o que fez também com que as bandas militares fossem progressivamente desativadas. Dessa forma, as bandas civis surgiram em um espaço criado e aberto pelas bandas militares, tendo inclusive atuado em conjunto com estas, porém progressivamente ocuparam o espaço que as bandas militares não podiam ou não tinham interesse em ocupar, até que as substituíram, embora mantendo ainda algumas de suas características, como por exemplo os uniformes, e a execução de dobrados e marchas militares. (PIRES, 2008, p. 42) Conforme a autora destaca, apesar da substituição das bandas militares pelas civis, estas mantiveram certas características das primeiras. No caso da SMAA, como é possível observar na figura 6, já no ano de 1908 a banda possuía uniforme inspirado nas fardas militares. Um documento encontrado no acervo, datado de março de 1916, sob o título de Mappa demonstrativo das peças de fardamento que tem cada musico (Anexo 2), aponta para três cores de fardamento utilizadas pela sociedade: branca, parda e preta. Os trajes aparecem divididos em quatro partes: 50 capas, dólmãs e calças nas três cores mencionadas anteriormente, e sapatos, que eram exclusivamente brancos. Ao observar a mesma figura, é possível perceber também o uso de quepes e polainas pelos membros da banda. Destaca-se ainda que o uniforme atual da SMAA se encontra igualmente dentro dos moldes do fardamento militar, porém duas cores são utilizadas hoje: cinza e azul-marinho. No estatuto de 1916, a única menção ao uniforme encontrada foi no item h do artigo 24: “Os músicos são obrigados a faserem uniformes de brim a sua custa, podendo a sociedade auxilial-os se estiver em condições” (SMAA.Est., 1916). Destaca-se, no entanto, uma relação ainda mais profunda com os militares no caso da SMAA. Foi encontrada no acervo uma carta pedindo que a banda da SMAA fosse incorporada ao Tiro Brasileiro de Florianopolis9 (Sociedade n. 40 da Confederação do Tiro Brasileiro). Segundo a carta encontrada no acervo (Anexo 3): Como deveis saber o Tiro 40 teve autorisação do Snr. Ministro de Guerra para organisar com seus sócios uma Companhia de atiradores a qual, pelos regulamentos militares vigentes, pode ter uma banda de musica. Attendendo às difficuldades a vencer com a compra do instrumental, o ensino de musica aos atiradores que se quizessem inscrever na banda do Tiro e ao prejuízo soffrido pela instrução militar com o tempo destinado aos ensaios, parece-nos mais pratico a incorporação à nossa Companhia de uma banda já organisada, a exemplo do que tem feito a maioria das Sociedades de Tiro, e, notadamente em nosso Estado, as de Laguna, Joinville e São Francisco, onde essa medida deu optimos resultados com vantagens para ambas as partes. Resolvendo fazer a actual proposta a essa Sociedade, levamos em conta, principalmente, o bom conceito que a “Amor à Arte” goza em nosso meio social, o espírito de ordem e disciplina reinante entre os seus músicos, facto que não escapou a observação dos responsáveis pela direção do Tiro 40, e a bôa vontade manifesta em muitos dos seus associados de virem ao encontro dos nossos desejos. (SMAA.Com4., 22/01/1917) Acredita-se que tal incorporação tenha tomado lugar, pois foram encontrados dois documentos (Anexos 4 e 5), em que se observou uma solicitação da SMAA ao Tiro para que pudesse tocar fardada e armada em retreta no Jardim Oliveira Bello em janeiro de 1919, e uma solicitação do Tiro para que a banda da SMAA comparecesse com o uniforme militar para o desembarque do presidente e 9 Os tiros de guerra são instituições militares do exército brasileiro responsáveis por formar reservistas para o exército. Segundo o site do exército brasileiro: “Outra forma de prestar o serviço militar é por meio dos Tiros-de-Guerra (TG) – órgãos de formação de reserva que possibilitam aos convocados, mas não incorporados em organizações militares da ativa, prestar o serviço militar inicial nos municípios onde estão residindo. Desse modo, os jovens convocados recebem instrução, conciliando-a com o trabalho e estudo. No Tiro-de-Guerra, o Atirador deverá permanecer por um período de 6 (seis) a 10 (dez) meses participando de atividades específicas das Forças Armadas, ao término do período o referido militar é licenciado das fileiras do Exército” <http://www.exercito.gov.br/web/ingresso/tiro-de-guerra >. Acesso em: 12 nov. 2010. 51 comandante, Capitão Joe Collaço em abril de 1919 respectivamente. Nota-se ainda que em outubro de 1918, foi registrado no livro de presença da SMAA o recebimento do fardamento do Tiro, que contava com perneira, quepe e cinturão. Figura 6 – Banda da Sociedade Musical Amor à Arte em 1908. Fonte: Coleção Helbio Cabral. 4.1.6 Instrumentação Como mencionado no início deste capítulo, segundo artigo escrito por Álvaro Souza no jornal O Estado, a ideia inicial da SMAA era formar uma orquestra. No entanto, a falta de instrumentos de cordas em seu conjunto fez com que seus sócios optassem pela denominação de banda dois anos após sua fundação (O ESTADO, 12/10/1922). Pires (2008) aponta para o fato de que no século XIX, bandas civis eram freqüentemente chamadas de orquestras nos jornais da capital. Nota-se, no entanto, no artigo de Álvaro Souza, uma clara distinção entre banda e orquestra, em virtude da ausência de instrumentos de cordas. Acredita-se que essa distinção tenha sido feita em virtude de uma maior diferenciação entre os dois conjuntos na entrada do século XX do que aquela feita durante o século XIX. Segundo Téo (2007), a então orquestra da SMAA entre os anos de 1897 e 1899, contava com 25 membros mais o maestro Felipe Rosa. Conforme pode ser 52 observado na fig. 6, que traz a banda em 1908, a banda, por volta de 10 anos mais tarde possuía 19 membros. Abaixo segue um quadro comparativo entre o instrumental presente na banda em outros dois momentos da Primeira República e na atualidade. Instrumentos Abril de 1915 Dezembro de 1929 Atualidade Bugle 1 1 Flautim 1 Requinta 1 1 Flauta 1 Clarinete 4 5 8 Trompete (Pistão) 2 1 5 Barítono 1 1 Sax soprano 1 Sax alto 1 3 Sax tenor 2 Bombardão 1 Bombardino 1 1 1 Trompa 4 3 1 Cors/Coris 1 2 Trombone 3 1 3 Contrabaixo 2 2 1 Bombo 1 1 1 Caixa surda (Surdo) 1 1 Caixa 1 1 1 Pratos 3 2 Triângulo 1 Bateria completa 1 TOTAL 29 26 28 Quadro 1 – Instrumentos da banda da SMAA. Como é possível observar, houve certa variação nos instrumentos presentes na banda, porém seu efetivo permaneceu mais ou menos constante. Entre 1915 e 1930, anos em que foram encontrados registros, o número foi em média de 30 músicos, com um mínimo de 26 e um máximo de 37 instrumentistas. Nota-se também a presença de nomes pouco usuais atualmente dentre os instrumentos registrados na época, como o bugle, o barítono e certo tipo de trompa que foi abreviado como “cors.” ou “coris”. O bugle, que era tocado pelo mestre Pedro Pavão do Nascimento no período em questão, é o instrumento atualmente chamado de Flugelhorn, segundo o Sr. Nélio Schmidt, atual presidente da banda (figura 7). Brum ainda utiliza o termo bugle 53 em seu livro (1988) e o define da seguinte maneira: “Mesma constituição, extensão e formato do Trompete em Sib. Seu som é um pouco mais encorpado, porém soam ao uníssono, na mesma escrita. A sonoridade é doce e vibrante, tão possante quanto o Trompete [...]” (BRUM, 1988, p. 41). Figura 7 – Flugelhorn. Chamado de bugle nos livros de presença da SMAA. Fonte: Woodbrass homepage. O barítono, segundo Brum (1988), é um saxhorne barítono que possui o mesmo formato, composição e extensão do saxhorne. Segundo Oliveira (s.d), no entanto, existe grande confusão na nomenclatura dos instrumentos da família dos saxhornes, principalmente na distinção entre eufônio, barítono e bombardino, que são classificados equivocadamente pelo número de válvulas do instrumento e não por suas dimensões. O barítono, para Oliveira (s.d), seria, na verdade, um saxhorne tenor (figura 8). Como não se possui maiores informações sobre o instrumento utilizado na banda da SMAA no período, não se sabe ao certo se seria um saxhorne barítono ou tenor, ou ainda, se os autores falam do mesmo instrumento, porém tendo se equivocado em sua nomenclatura. Não foi possível saber especificamente qual a diferença entre a trompa e o instrumento abreviado como “cors.” ou “coris”. No entanto, pôde-se perceber que em certos momentos, este instrumento foi registrado também pelo nome de trompa. Foram encontrados arranjos que contêm trompas em Mib, logo surge a hipótese que a abreviação “cors.” tenha sido usada para diferenciar as trompas em Mib das trompas em Fá. 54 Figura 8: Barítono (saxhorne tenor) e eufônio (saxhorne barítono). Fonte: Bob Beecher homepage. Aponto ainda para uma distinção muito utilizada ainda hoje nas bandas, entre as tubas, que são chamadas respectivamente de contrabaixo e bombardão, de acordo com sua forma. O contrabaixo é um sousafone, enquanto o bombardão apresenta o modelo de sax (figura 9). Figura 9 – Bombardão (modelo sax) e contrabaixo (sousafone) respectivamente. Fonte: Opus5 homepage. 4.1.7 Repertório O repertório da banda da SMAA era bastante diverso, abarcando muitos gêneros, em virtude da grande variedade de eventos em que a banda se apresentava. 55 As partituras encontradas no acervo, associadas às informações presentes nos jornais, possibilitaram uma amostra da constituição do repertório da banda na época. Os gêneros musicais foram o critério utilizado para a reconstrução do repertório, porém tendo em mente que as fronteiras entre tais gêneros são bastante nebulosas. Foram encontrados casos em que folhas diferentes de uma mesma partitura apontavam dada obra como um maxixe e um tango, ou um tango e uma habanera, ou ainda uma marcha militar e um dobrado. No quadro 2, pode se observar os principais gêneros encontrados nas partituras do acervo, com o intuito de possibilitar uma noção da constituição do repertório da banda no período em questão, haja vista que grande parte das partituras encontradas data de antes de 1930, ou apresenta semelhanças com as que datam deste período. Gênero Musical Número de Partituras Valsa 87 Dobrado 72 Marcha 66 Polca 39 Samba 31 Tango 19 Mazurca 10 Maxixe 10 Hinos 09 Schottisch 07 Galope 07 Arranjos de trechos de ópera 07 Fox-trot 05 One-step 03 Quadrilha 03 Ragtime 02 Canção blue 01 Cakewalk 01 Habanera 01 56 Bolero 01 Rumba 01 Sertanejo 01 Cateretê – Toada sertaneja 01 Batuque 01 Batucada 01 Pasodoble 01 Pas-de-quatre 01 Polonaise 01 Sem gênero especificado 03 TOTAL 392 Quadro 2 – Gêneros musicais e número de partituras encontradas. 4.1.7.1 Danças europeias Segundo Castagna (2003a), no período que compreendeu o II Império (18411889), o panorama musical brasileiro sofreu transformações significativas em relação às primeiras décadas do século XIX, não em virtude dos rumos que a monarquia tomava, mas devido ao processo de urbanização e à internacionalização da cultura das elites brasileiras. Com o centro cultural no Rio de Janeiro, o interesse pela ópera cresceu e a música religiosa iniciou um lento processo de decadência. O autor destaca que: Paralelamente, desenvolvia-se a prática de canções - modinhas e lundus – desde 1834 impressas em grande quantidade no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras (especificamente destinadas a ambientes domésticos) e a prática de danças de salão importadas da Europa para execução em bailes sofisticados e grandes eventos sociais, sendo as principais a quadrilha, a polca, a valsa, a redowa, a schottisch e a mazurca. Essas danças, introduzidas no Brasil desde o final da primeira metade do séc.XIX, tornaram-se tão comuns nas diversões da elite brasileira da segunda metade desse século que contaram com a contribuição da grande maioria dos autores que atuaram até o final do período monárquico, mesmo quando preferencialmente dedicados à ópera ou à música religiosa. Eram principalmente executadas ao piano - instrumento já comum nas casas ricas a partir da década de 1830 - ou em pequenos conjuntos instrumentais que mesclavam cordas e sopros. (CASTAGNA, 2003a, p. 1) 57 As danças acima citadas, pelo que se pôde constatar estudando as partituras do acervo, juntamente às marchas e aos dobrados, dominaram o repertório da banda até a década de 1920, quando o samba começou a crescer, assim como gêneros latinos e norte-americanos começaram a aparecer. Valsas, polcas, mazurcas, schottisches, quadrilhas e galopes correspondem a 40% de todas as partituras encontradas no acervo. De todos os gêneros musicais encontrados nas partituras, o que apareceu com maior freqüência foram as valsas. 20% de todas as partituras do acervo são valsas, o que equivale a mais de 50% das danças europeias encontradas. A valsa, segundo Castagna (2003a), tornou-se comum no século XIX. Inicialmente foi uma dança lenta em compasso ternário, mas a partir de 1870, surgiu uma modalidade rápida, popularizada por Josef Lanner e Johann Strauss. A Enciclopédia da Música Brasileira (1977) afirma sobre a valsa: Dança de pares independentes e enlaçados, originária da Áustria (meados do séc. XVIII). Música de ritmo ternário e andamento rápido (vienense) ou moderado (francesa). Teve grande difusão nas capitais européias no fim do séc. XVIII. No Brasil a primeira voga da valsa de salão deu-se com a vinda da família real portuguesa ao Brasil. Sigismund Neukomm - que viveu no Rio de Janeiro RJ de 1816 a 1821 – deixou anotado no seu catálogo de obras duas Fantasias a grande orquestra, sobre pequenas valsas de S. A. R., o príncipe D. Pedro. A partir de então dá-se a popularização da valsa. Por influência desta, e para os fins do século, a modinha toma ritmo ternário. Através dos conjuntos de choro, a valsa tornou-se no Brasil um gênero seresteiro. Nos salões era gênero obrigatório para os aprendizes do teclado, e nas composições de Ernesto Nazaré aclimatou-se ao instrumento, guardando traços já sedimentados da criação musical brasileira. No início do séc. XX foi cultivada em salas de diversão e confeitarias. O gênero esteve representado nas primeiras gravações realizadas no Brasil. Na década de 1930 reapareceu nas composições de autores populares. A valsa chamou a atenção dos compositores eruditos brasileiros desde Carlos Gomes, que compôs valsas para concerto, até, mais recentemente, Camargo Guarnieri, Radamés Gnattali e Francisco Mignone, o qual escreveu para piano as séries Valsas de esquina e Valsaschoro. (ENCICLOPÉDIA DA MÚSICA BRASILEIRA, 1977, p. 271) O segundo gênero das danças europeias que mais se destacou dentre as partituras encontradas foram as polcas. De todas as partituras estudadas, 10% são polcas, ou, 25% das danças europeias encontradas. Segundo a Enciclopédia da Música Brasileira (1977): Originalmente dança rústica da Boêmia (parte do império áustrohúngaro e atual província da Checoslováquia), chegou à capital Praga em 1837. Nesse ano, editou-se a primeira partitura para piano da dança que iria espalhar-se 58 rapidamente pela Europa. Binária de andamento allegro, a polca apresenta melodia saltitante e configuração rítmica baseada em colcheias e semicolcheias com pausas no segundo tempo do binário. No Brasil foi apresentada pela primeira vez em 3 de julho de 1845, no Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro RJ. Tornou-se mania, a ponto de ocasionar a formação da Sociedade Constante Polca, no ano seguinte. Começando como dança de salão, a polca logo ganhou teatros e ruas, tornando-se música eminentemente popular. Praticaram-na conjuntos de choro e grandes sociedades carnavalescas. [...] Fundindo-se com outros gêneros, chegou a ser polca-lundu, polca-fadinho, polca-militar. Completando o ciclo, ganhou a polca o mundo rural, folclorizando-se. (ENCICLOPÉDIA DA MÚSICA BRASILEIRA, 1977, p. 619) Outras três danças são responsáveis por praticamente todo o resto das danças europeias encontradas, a mazurca, o schottisch e o galope. A mazurca “foi uma dança de origem polonesa, em compasso ternário, porém mais lenta e cavalheiresca que a valsa. Apesar de ser conhecida já desde o séc. XVI, popularizou-se apenas no séc. XIX, caindo em desuso no início do séc. XX” (CASTAGNA, 2003a, p. 10). Segundo o autor, foi introduzida no Rio de Janeiro em meados do século XIX como uma dança de espetáculos teatrais, sendo mais tarde difundida como dança de salão. O schottisch “foi uma dança de roda em compasso quaternário, chegada ao Brasil na Regência, tornando-se comum nos salões da segunda metade do séc. XIX” (CASTAGNA, 2003a, p. 9). Segundo o autor, assemelhava-se com a polca, porém possuía um andamento mais lento. Sua versão oitocentista caiu em desuso no início do século XX, porém, a partir de então, popularizou-se com o nome de chotis, sendo praticada até os dias de hoje. O galope, por sua vez, “é uma “rápida dança em compasso binário executada nos salões europeus a partir do final do Classicismo” (DOURADO, p. 144, 2004). Destaca-se que os galopes encontrados geralmente estavam associados à música para circo. Tinhorão (1998) aponta sobre o repertório das bandas do final do século XIX, fato que pode ser extrapolado para as primeiras décadas do século XX, quando se trata da SMAA: Na verdade, uma das poucas oportunidades que a maioria da população das principais cidades brasileiras tinha de ouvir qualquer música instrumental, nessa segunda metade do século XIX, era de fato a música domingueira dos coretos das praças ou jardins, proporcionada pelas bandas marciais. Pois foi exatamente pela necessidade de entremear as marchas militares e dobrados com músicas do agrado do público de gosto popular que essas bandas de corporações fardadas começaram a incluir em seus 59 repertórios os gêneros mais em voga àquele tempo ou seja, as valsas, polcas, schottisches e mazurcas importadas da Europa para atender aos propósitos de modernidade das novas camadas da pequena burguesia. (TINHORÃO, 1998, p. 182) Poucos programas de apresentações da SMAA foram encontrados. O jornal República de 09 de outubro de 1928 destaca uma retreta em homenagem ao compositor Álvaro Souza, um dos fundadores da sociedade. Segundo o artigo intitulado Concerto de Musicas Catharinenses: Sob a regencia do maestro sr. Pedro Pavão, aquella banda tocou as seguintes composições: as marchas: Sonho de Maria, Demosthenes Segui, Jerusalem (Symphonica); valsas: Herondina, Hydée. Olinda; fantasias: Florianopolis núa e crua, Caprichosa; dobrado: Belisario; variação de clarinete. (REPUBLICA, 09/11/1928) Nota-se, no programa, associadas às marchas e dobrados, gêneros bastante tradicionais das bandas de músicas, a presença de três valsas, que foram importante parte do repertório da SMAA no período em questão. 4.1.7.2 Marchas De acordo com Rocha (s.d.), era uma antiga tradição militar que a cadência da marcha dos soldados fosse marcada por bombos e tambores, acompanhados de pífanos, flautins, trombetas e de outros instrumentos musicais. “Por evidente analogia, a marcha, ou seja, o deslocar-se a pé ou montado, com o passar do tempo, passou a ser sinônimo da música produzida pelo grupo que marcava a cadência, durante esses deslocamentos” (ROCHA, s.d.). Segundo Dourado (2004), a marcha é “uma peça instrumental em compasso binário ou quaternário fortemente acentuado, em andamento compatível com o passo militar, cujo acompanhamento rítmico é feito por instrumentos de percussão como tambores, bombos e caixas” (DOURADO, 2004, p. 194). As marchas foram encontradas em grande número no acervo da SMAA (aproximadamente 20% de todas as partituras estudadas) e divididas em quatro tipos: marchas militares, marchas carnavalescas, marchas fúnebres e marchas religiosas. Embora muitas das marchas não possuam esta caracterização nas partituras, é possível enquadrá-las em um dos quatro estilos. 60 As marchas militares foram encontradas em pequena quantidade dentre os quatro tipos de marcha do acervo. Embora não se tenha feito uma análise detalhada das partituras, ou encontrado uma definição específica para marchas militares, acredita-se que este tipo de marcha se encaixe na descrição de Dourado (2004), e possua um andamento mais lento do que o dobrado, porém possua um caráter marcial, ao contrário do caráter solene apresentado nas marchas fúnebres. Ainda existe a possibilidade que estas marchas sejam de fato dobrados, porém não é possível fazer tal afirmação, uma vez que nenhuma das marchas militares encontradas apresenta o andamento presente na partitura. As marchas carnavalescas, muito tocadas em bailes e desfiles, com andamento rápido e caráter vivo, foram encontradas em número maior do que as militares, fúnebres e religiosas, correspondendo a aproximadamente 50% de todas as marchas. Conforme Pamplona e Holler (2010), até o final do século XIX não existia um repertório específico para o carnaval em Florianópolis. Esse era formado por habaneras, polcas, valsas, mazurcas, quadrilhas e schottisches. Acredita-se que a grande maioria destas marchas tenha sido composta ainda mais tarde, na década de 1930 ou posteriormente, não integrando o repertório da banda no período aqui em questão. Castagna (2003b) afirma sobre as marchas carnavalescas: Derivadas das marchas militares, a marcha ou marchinha carnavalesca, nome que indicava o caráter ingênuo e alegre das composições, surgiu com Ó abre alas, de Chiquinha Gonzaga (1899). Penetraram as “orquestras típicas” da década de 20 e tiveram seu andamento acelerado por influência das jazz-bands norte-americanas. Derivadas das marchinhas carnavalescas, surgiram as marchas-rancho, em fins da década de 10, peças eram executadas nas “orquestras” de ranchos carnavalescos. As marchas-rancho eram mais lentas e valorizavam mais o aspecto melódico, com textos mais bucólicos e, às vezes, mais sentimentais. A partir de 1927 começaram a ser compostas marchas já denominadas marchas-rancho. (CASTAGNA, 2003b, p. 4) As marchas fúnebres, por sua vez, possuíam andamento lento e caráter solene, sendo muito utilizadas no acompanhamento de enterros. Sendo chamadas por vezes de marchas graves ou solenes, foram, após as marchas carnavalescas, as mais abundantes dentre as marchas presentes no acervo. Por último ainda destaco as marchas religiosas. Foram encontradas em pequeno número e eram executadas principalmente em procissões. Segundo o atual presidente da SMAA, Nélio Schmidt, estas marchas, apesar de lentas como as fúnebres, não apresentam o mesmo caráter “pesado” e solene dessas. Schmidt 61 destacou ainda que os mais antigos membros da banda falavam sobre uma rivalidade entre a banda da SMAA e a banda da Força Pública, visível nas procissões, nas quais várias bandas da capital se revezavam na execução de marchas, como pode-ser constatar pelos jornais. A banda da SMAA, nessas ocasiões substituía o nome das marchas que iria tocar por letras ou números (figura 10), para que as outras bandas não soubessem qual seria seu repertório. Figura 10 – Marcha 11A. Fonte: Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 4.1.7.3 Dobrados O dobrado, talvez o gênero mais típico das bandas de música, foi grande parte do repertório da SMAA, ficando atrás apenas das valsas no número de 62 partituras encontradas no acervo. Segundo Rocha (s.d.), o gênero teve origem no passo dobrado das marchas militares europeias e, mesmo que tenha herdado características destas marchas, ganhou um caráter próprio, tornando-se um gênero brasileiro, a exemplo das danças europeias que deram origem ao choro. De acordo com o autor, o ritmo do dobrado é binário, com forte acentuação do tempo forte do compasso, que usualmente é o compasso simples 2/4. Caracterizase por uma harmonia com uso de poucas dissonâncias e andamento por volta dos 112 bpm. Destaca-se ainda o fato de que muitos dos dobrados encontrados no acervo da SMAA foram escritos em homenagem a membros do exército e da política catarinense, como pode ser observado nas figuras 11 e 12. Figura 11 – Dobrado Dr. Adolpho Konder. Fonte: Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 63 Figura 12 – Dobrado Dr. Hercílio Luz. Fonte: Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 4.1.7.4 Hinos Segundo Castagna (2003c), ao contrário do que aconteceu no Império, período em que os hinos eram feitos para serem executados a solo ou por coros com orquestra, no período republicano eram escritos para que fossem cantados pelo povo. Nove arranjos de hinos para banda foram encontrados no acervo da SMAA, sendo um desses para ser tocado em conjunto com um coro de meninos, enquanto os demais apenas por instrumentos. Tais arranjos eram tocados pela banda especialmente em ocasiões cívicas ou em homenagens a instituições, por conta de aniversários, festas ou posse de novas diretorias. Dentre eles, o Hino Nacional (para banda e coro de meninos, como indica a partitura), da Independência, ao Duque de Caxias e do Estado de Santa Catarina, de caráter cívico, e os hinos da SMAA, do Clube Doze de Agosto, da União Beneficente dos Artistas e da Escola Alferes Tiradentes (este último consideravelmente mais recente e fora do período em questão nesta dissertação) de 64 caráter institucional, além do Hino Universitário Brasileiro, composto por Carlos Gomes. 4.1.7.5 Arranjos de trechos de óperas Téo (2007) destaca que nas apresentações das bandas em eventos públicos e datas comemorativas da cidade, os repertórios das bandas civis e militares eram semelhantes. Estas últimas, no entanto, inseriam uma ou duas obras de danças em voga na época no seu repertório, dando preferência para arranjos de obras de música europeia, que eram geralmente trechos de óperas. As primeiras, como a SMAA, por sua vez, punham um número maior de danças em seus programas, relegando a segundo plano os arranjos de obras europeias. Havia ocasiões, no entanto, em que as apresentações eram dedicadas exclusivamente a compositores de renome internacional e sucesso na Europa. O jornal A Opinião de 20 de novembro de 1917 noticia um concerto público realizado pelas bandas Amor à Arte e da Força Pública reunidas sob a batuta ora do maestro Pavão, ora do maestro Pompeu10 no jardim Oliveira Bello durante a Festa da Bandeira. Além de tocar os Hinos Nacional e da Bandeira, as bandas executaram a Sinfonia do Guarani de Carlos Gomes e arranjos de obras de Verdi: a Fantasia da Força do Destino, e trechos das óperas Rigoletto e Simon Boccanegra. Foram encontrados, no acervo da SMAA, 10 arranjos de obras de música europeia, principalmente aquela com a estética da ópera italiana, de compositores como Verdi, Meyerbeer, Petrella e Carlos Gomes. Um número pequeno quando comparado às mais de 350 partituras de danças em voga, marchas e dobrados encontrados, porém dentro do esperado, uma vez que na maior parte dos eventos em que a banda se apresentava como festas, bailes e eventos paralitúrgicos, tais arranjos raramente deveriam ser executados. Como mencionado por Téo (2007), igualmente, as bandas civis costumavam optar por obras em voga no período, ao contrário das militares, que enfatizavam as obras de música europeia. Téo (2007) aponta, no entanto, para a interação entre esses dois repertórios, que acontecia de forma integral nas retretas. Segundo o autor, não havia distinção 10 Graciliano Guedes Pompeu foi mestre da banda da Força Pública no início do século XX. 65 entre uma peça e outra. Eram executadas alternadamente no que chamou de uma estética de banda sinfônica: [...] o público ouvia uma série de peças instrumentais de maneira razoavelmente homogênea, ou seja, imperava nas retretas destes conjuntos um modo de ouvir específico, que era comum tanto às peças do repertório para concerto quanto ao cancionário popular, tendo como palco a rua, a praça, o ar livre. (TÉO, 2007, p. 137). Téo (2007) ainda aponta que essa fusão não era bem vista por todos. João Barbosa, cronista e músico, responsável pela coluna De Arte d‟A Gazeta entre 1934 e 1939, escreve: Já vai longe o tempo em que se procurava dar alguma educação artística ao nosso povo, através de audições de boa música. Raro era o domingo em que a Força Pública, o 14º B.C., a Amor à Arte não nos proporcionassem um concerto público que sempre tinha grande auditório. Programas organizados a capricho, quase sempre tinham fiel interpretação. A música seleta escolhida já era para todas as camadas a música de preferência. Depois, não sei por que cargas d‟água, começaram a adulterar a programação dividindo-a: uma parte das peças e composições de valor artístico e outra de música barata e rampeira. Por exemplo, após Wagner, O teu cabelo não nega, e por aí afora (BARBOSA apud TÉO, 2007, p. 138). A música “barata e rampeira” a que o autor se refere são aquelas que fugiam aos moldes da música europeia, como os maxixes, sambas e marchas de carnaval, que passaram a entrar no repertório das bandas da cidade principalmente a partir da década de 1920. Nota-se também a entrada de gêneros latinos e norte-americanos no mesmo período. Esses gêneros serão explorados a seguir. 4.1.7.6 Tangos, maxixes e sambas Embora as partituras não estejam datadas, avalia-se que sejam, em sua maior parte, mais recente do que as danças europeias, marchas e dobrados encontrados, sendo poucas anteriores à década de 1910 e a grande maioria posterior a 1920. O tango, o maxixe e o samba, junto às marchas carnavalescas, foram os gêneros musicais que com maior freqüência apareceram dentre os gêneros que normalmente são considerados nacionais no acervo da SMAA. Foram encontrados manuscritos de 19 tangos, 10 maxixes e 31 sambas, que correspondem a aproximadamente 15% de todas as obras estudadas no acervo. 66 O tango, chamado também de tango brasileiro, “muitas vezes apontado por estudiosos como uma variante bem acabada e estilizada do maxixe, entrará definitivamente para a música popular brasileira representado pelas composições de Ernesto Nazareth” (ALBIN, s.d.). Segundo o dicionário, o tango apresenta elementos da habanera, introduzida no Brasil pelas companhias de teatro musicado, à qual foram incorporadas influências da polca e do lundu. Acredita-se que os tangos encontrados no acervo da SMAA tenham sido compostos a partir da década de 1910, embora se tenha encontrado um tango escrito por Pedro Pavão no Rio de Janeiro em 1896. Denominação presente na música brasileira desde as últimas décadas do século XIX, o tango foi por vezes utilizado para mascarar lundus ou maxixes, conforme Sandroni (2008) aponta, ao falar sobre a compositora Chiquinha Gonzaga: Sua obra é reconhecidamente a expressão mais autêntica do maxixe, embora nunca usasse esta rubrica no momento de editar uma música. Evitava um desastre comercial, pois assim nenhum pai de família se dignaria a comprá-la e nenhuma mocinha ousaria executá-la (DINIZ, 1984, p. 119). O maxixe, segundo Sandroni (2008), é uma dança popular urbana criada no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Influenciado pelas danças europeias e também pelos ritmos africanos presentes no país, como o lundu e o batuque, o maxixe teve suas primeiras manifestações entre 1870 e 1880. No início, era apenas uma maneira local de se dançar as músicas que faziam sucesso na época, como a polca, a habanera e o tango brasileiro. Porém, por volta de 1900, a música sobre a qual se dançava o maxixe foi tomando características próprias e passou a ser considerada também um gênero musical. Mais do que a polca, o maxixe era considerado indecente e chegou a ser proibido em certos locais, pois possuía um caráter muito sensual, trazendo o requebrado e os casais dançando “colados”. Sandroni (2008) afirma que há uma grande imprecisão na diferenciação dos gêneros sobre os quais se dançava o maxixe até meados da década de 1890. Embora tivessem características similares, eram chamados por diversos nomes como: polca, polca-lundu, tango, etc. No entanto, o que era comum entre estes e caracterizou o maxixe como gênero musical foi o compasso binário, o andamento 67 vivo, e aquilo que “[...] estimulasse o requebrado dos dançarinos através do sincopado” (SANDRONI, 2008, p. 81). Um dos maxixes encontrados no acervo foi composto por Vespasiano Souza para a Revista Ouro sobre Azul (figura 13), o que aponta para uma relação entre a música produzida localmente e o teatro de revista em Florianópolis, nos moldes do que acontecia no Rio de Janeiro. Figura 13 – Maxixe Canto das horas. Fonte: Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. O samba, segundo Castagna (2003b), surgiu na periferia carioca e foi uma manifestação radicalmente oposta à cultura da elite local. Assim como o choro, este samba inicial não era um gênero totalmente definido, “abrigando inúmeras manifestações de origem africana mescladas a contribuições portuguesas” (CASTAGNA, 2003b, p. 2). De acordo com o autor, o samba entrou na cidade no final do século XIX, mas apenas com a gravação de Pelo telefone em 1917, foi possível traçar sua história. No que Castagna (2003b) considera uma primeira fase do samba, entre 1917 e 1930, o gênero sofre uma urbanização. Sem perder o caráter de dança cantada, o samba urbano foi perdendo o caráter de dança de roda improvisado e se transformando em dança de pares nos salões ou dança de blocos nos bailes de carnaval. Além disso, seu canto foi sendo conformado aos padrões verificados nas danças de 68 salão ou de chorões, que exigia maior variedade harmônica e melódica e utilização de um instrumental cada vez mais rico, como o das “orquestras típicas” da década de 20. [...] Outro fator observado na transformação do samba de morro para o samba urbano foi o enriquecimento formal, aproximando-o das danças de salão da Belle Époque. Se, originalmente, o samba fora baseado em versos improvisados alternados por um refrão coral, o samba urbano exigia, além de uma harmonia e um instrumental mais ricos, também uma introdução e uma segunda ou até uma terceira parte, como ocorria nos tangos, valsas e polcas. (CASTAGNA, 2003b, p. 3) Esta aproximação do samba com as danças da elite da época aponta para uma razão pela qual o samba pode ter passado a integrar o repertório das bandas a partir da década de 1920. Tinhorão (1998) procura explicar a razão pela qual a música das camadas mais pobres ganhou espaço na sociedade, principalmente após a década de 1920, da seguinte maneira: Esse momento, imediatamente posterior ao fim da Primeira Grande Guerra, aliás, era o mais apropriado para essa espécie de cooptação dos artistas populares pela classe média emergente e das camadas mais altas, pois, com o equilíbrio das finanças externas do país, a partir de 1924, a importação de artigos de luxo e a imitação das modas européias e norteamericanas levava as minorias dos grandes centros a enxergarem as classes mais baixas com o distanciamento de estrangeiros em seu próprio país. A música dos „nossos negros‟ ou do „nosso povo‟ – como então as classes mais altas diziam – valia pelo exotismo, pelo cultivo dos „ritmos barbáros‟, que se recebia como „novidade‟, já que os norte-americanos também assim o faziam em relação às camadas mais baixas, igualmente com predominância de negros, em seu país. (TINHORÃO, 1998, p. 280) A afirmação de Tinhorão (1998) vai de encontro às partituras encontradas no acervo da SMAA, entre as quais se nota um crescimento no número de maxixes, e principalmente sambas, a partir da década de 1920. Estes gêneros passaram a integrar o repertório da banda da SMAA, assim como os gêneros latinos e norteamericanos, que serão abordados a seguir. 4.1.7.7 Gêneros latinos e norte-americanos11 Segundo Tinhorão (1998), a passagem da monarquia para a república marcava coincidentemente a passagem do Brasil da esfera de dependência dos capitais ingleses para a dos capitais norte-americanos. Este processo se consolidou 11 Gostaria de destacar que as categorias latina e norte-americana foram aqui utilizadas como uma maneira de reunir certos gêneros oriundos de países latino-americanos, como a rumba e o bolero, e norte-americanos, como o cakewalk, o ragtime e o foxtrot, embora se saiba que a questão de suas origens e chegada ao Brasil sejam consideravelmente mais complexas. 69 durante a Primeira Guerra Mundial e se tornou visível em 1921 com o primeiro empréstimo oficial pedido pelo governo brasileiro a banqueiros americanos (TINHORÃO, 1998, p. 207). Como o autor destaca, relacionando a infusão de capitais estrangeiros no país às tendências na música: Assim, ao período de predomínio dos capitais ingleses iniciado em 1808 com a vinda do príncipe D. João iriam correspondeu, no plano cultural do I e II Impérios às modas francesas – representadas na música popular pela valsa, a polca, a schottisch, a mazurca e as quadrilhas divulgadas via-Paris. E o período de crescimento dos capitais norte-americanos, a partir da I República, a importação sucessiva das modas musicais do ragtime, do cake-walk, do one step e do blackbottom no inicio do século, do fox-trot e do charleston desde a Primeira Guerra Mundial, do shimmy, swing, boogiewoogie e be-bpo até a Segunda Guerra (quando a política da Boa Vizinhança do governo Roosevelt patrocinou ainda a exportação de rumbas, congas, mambos, cha-cha-chás e calipsos vagamente latino-americanos), e finalmente, a partir de inícios da década de 1950, do rock‟n‟roll até hoje dominante. (TINHORÃO, 1998, p. 207) Notou-se, através dos jornais e das partituras encontradas, que os gêneros latinos e norte-americanos sobre os quais Tinhorão (1998) fala, passaram a fazer parte do repertório das bandas de Florianópolis, especialmente após o fim da Primeira Guerra Mundial, com o crescimento da influência americana na cidade, principalmente através do cinema. O autor aponta: A partir da década de 1920, quando o impacto da Primeira Grande Guerra e as imagens do cinema mudo tornaram acessível às grandes camadas das cidades a visão de um novo mundo (que a era do capitalismo industrial em sua moderna fase de rápidos avanços tecnológicos), os músicos chorões puderam perceber que o seu tempo tinha passado. De fato, após o maxixe ter suplantado polcas e mazurcas, viria logo a emergir o samba como a primeira contribuição das camadas mais baixas, enquanto a classe média já dividia seu interesse com a música dos jazz-bands imitados dos norteamericanos. (TINHORÃO, 1998, p. 202) Acredita-se que as bandas na cidade, num esforço para continuar executando obras de agrado do público, principalmente da elite ilhoa, passou a integrar em seu repertório obras de música com características norte-americanas, que estavam em voga no período. Embora as partituras de gêneros latinos e norte-americanos não estejam datadas, pelos compositores e estado em que se encontram, foi possível perceber que a maior parte delas são mais recentes do que as demais partituras do acervo, provavelmente escritas e tocadas entre as décadas de 1920 e 1940. 70 Apesar da incorporação destas obras no repertório da banda, elas ainda são em número bastante pequeno quando comparadas às danças européias, dobrados e marchas ou mesmo aos tangos, maxixes e sambas. Logo, conclui-se que tais gêneros passaram a fazer parte do repertório, porém não invadiram e dominaramno, como Tinhorão (1998) sugere. 4.1.7.8 Música para circo Aponto ainda que foram encontradas músicas para circo, que abarcavam diversos gêneros já aqui apresentados como valsas, polcas, schottisches e galopes. Como foi observado, a presença de circos na cidade era constante no período estudado e a SMAA foi convidada inúmeras vezes para tocar durante os espetáculos. Pelo que se pôde pesquisar, no teatro e no cinema, as bandas tocavam antes das apresentações ou nos intervalos, porém não musicavam os espetáculos em si, como ocorria no circo. Destaca-se que, em meio às músicas que estavam destacadas como destinadas ao circo, foi encontrada uma folha com os temas que deveriam ser tocados durante a apresentação do Circo de Touros (figura 14), que realizou espetáculos em Florianópolis em maio de 1927. 71 Figura 14 – Temas do Circo de Touros. Fonte: Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 4.1.7.9 Compositores de Santa Catarina Embora aproximadamente metade das obras presentes no acervo da SMAA não apresente seus compositores, nas que apresentam, foi possível perceber uma predominância de certos compositores, em sua maioria da região de Florianópolis. Os compositores locais recebiam críticas elogiosas da imprensa local. Retomando a afirmação de Indalício Pires presente em Téo (2007): 72 A nossa sociedade tem a sua tradição, a tradição da boa música, da música da nossa terra, dos nossos conterrâneos, com as suas belas valsas que eram peritos: Santos Barbosa e o grande catarinense amigo Adolfo Mello, com a sua inesquecível Noturna, que fez época no tempo que em nossa terra se cultivava a verdadeira música. (PIRES apud TÉO, 2007, p. 135) O quadro 3 apresenta uma lista dos compositores locais dos quais foram encontradas obras no acervo, assim como os gêneros musicais de suas peças; o texto a seguir traz informações sobre tais compositores retiradas do Dicionário da Música em Santa Catarina de Rosa (2002). Valsa Polca Mazurca Schottisch Dobrado Marcha Samba Outros TOTAL Pedro Pavão 04 04 01 01 04 05 - 07 26 Álvaro Souza 05 01 - - 01 03 - - 10 Júlio Cardoso 02 - - - 01 04 - - 07 Hugo Freyesleben - - - - - 02 01 04 07 Vespasiano Souza - - - - 01 - 02 01 04 J. Brasilício de Souza - - - - - 01 - 02 03 Raimundo Bridon 01 - - - - 02 - - 03 Hermínio Jacques 02 - - - 01 - - - 03 Hermínio Millis - 02 - - - - - - 02 João Augusto Penedo - - - - - 02 - - 02 Abelardo Souza - - - - - 01 01 - 02 Adolfo Mello 02 - - - - - - - 02 Geraldo Martins 01 - - - - - - - 01 Felipe Rosa 01 - - - - - - - 01 TOTAL 18 07 01 01 08 20 04 14 73 Quadro 3 – Compositores de Santa Catarina e gêneros musicais. Pedro Pavão do Nascimento (?-1940): Foi mestre da banda de música do Corpo de Segurança e da Sociedade Musical Amor à Arte, além de regente do coro da Igreja Presbiteriana de Florianópolis. Dentro da SMAA ainda tocava bugle. O registro mais antigo encontrado de Pavão como fazendo parte da SMAA se encontra no jornal O Dia de 28/10/1902, que afirma: “Fez hontem uma passeiata por varias ruas desta cidade a sociedade musical Amor á Arte, executando no trajecto, afinadissimamente, apreciadas peças de seu repertório. É seu professor o inteligente mestre de musica Pavão do Nascimento.” (O DIA, 1902). Pavão foi mestre da SMAA até o ano de 73 1940, quando faleceu. É o compositor de quem mais foram encontradas obras no acervo da sociedade. 26 das pouco mais de 200 obras que apresentam compositores encontradas no acervo foram compostas por ele. Entre suas obras, além dos gêneros acima destacados, foram encontrados quatro galopes, dois tangos e uma habanera. Foram ainda encontrados três arranjos seus para valsas, sendo duas delas de Émile Waldteufel. Álvaro Souza (1879-1939): Filho de José Brasilício de Souza. Flautista, pianista, compositor e professor de música. Escreveu música sinfônica, de câmara, religiosa, para peças de teatro e hinos, além de quatro obras sobre teoria musical. Era membro da Orquestra dos Cupins e foi um dos fundadores da SMAA. Das obras estudadas neste trabalho, é o segundo compositor que com mais freqüência aparece, com 10 peças. Júlio Cardoso: Embora não tenham sido encontradas informações sobre o compositor, acredita-se que tenha forte ligação com a SMAA e com a música em Florianópolis, uma vez que sete obras suas se encontram presentes no acervo, uma destas, uma marcha intitulada Álvaro Souza, o que reforça a ideia de que o compositor fizesse parte do cenário musical local. Hugo Freyesleben (1895-1976): Pianista, professor de piano e compositor. Sua família possuía inúmeros músicos. Era neto de Guilherme Hautz, médico conceituado e pianista. Oito obras suas foram encontradas no acervo. Nenhuma destas se encontrava datada. Pelos gêneros musicais (foram encontrados um arranjo de um batuque sobre motivos da Rapsódia de Liszt, um fox-trot, uma rumba e um tango dentre suas obras), estado de conservação das partituras e maneira como foram escritas, acredita-se que tais obras sejam dos anos 1930 ou ainda mais tardias. Vespasiano Souza: De acordo com os livros de presença da SMAA, tocou clarinete e requinta entre os anos de 1915 e 1922 na banda da sociedade e novamente entre os anos de 1925 e 1929. Foram encontradas quatro composições suas, uma delas o maxixe Canto das Horas, escrito para a revista Ouro sobre Azul. 74 José Brasilício de Souza (1854-1910): Pianista, violinista, regente e compositor. Compôs o Hino de Santa Catarina. Regeu orquestras e coros no teatro e nas igrejas São Francisco e São Sebastião da Praia de Fora. Foi também professor de História e Geografia da Escola Normal e do Ginásio Catarinense. Três obras suas foram encontradas na SMAA: uma marcha fúnebre, o Hino do Clube Doze de Agosto e o Hino de Santa Catarina. Raimundo Bridon: Violinista e compositor, foi um dos fundadores da SMAA. Foram encontradas três obras suas, além de um arranjo para o dobrado Florianópolis, composto por Hermínio Jacques. Hermínio Jacques: Violinista, professor do instrumento, compositor e copista. Fez parte da Orquestra de Cupins e foi um dos fundadores da SMAA. Três composições suas foram encontradas no acervo. Hermínio Millis: Fundador da Sociedade Musical Lyra do Iguaçu em Porto União, SC. Tocou flauta na SMAA entre os anos de 1916 e 1919. Duas obras suas foram encontradas no acervo, além de um arranjo para uma valsa de Álvaro Souza. João Augusto Penedo: Foi mestre da Banda Musical da Polícia Militar de Santa Catarina. Duas marchas suas foram encontradas no acervo da SMAA. Abelardo Souza (1920-1986): Neto de José Brasilício e filho de Álvaro Souza, foi pianista, compositor, arranjador e dirigente de orquestra. Duas partituras suas foram encontradas no acervo. Apesar dessas obras serem posteriores ao período estudado, cita-se aqui o compositor, por sua atuação no cenário musical florianopolitano nas décadas seguintes. Adolfo Mello (1861-1927): Regente, violinista e compositor. Fundou a primeira Orquestra de Concerto em Florianópolis, no Clube Doze de Agosto. Fez parte do Grupo Mozart e participou da instalação do Instituto de Bellas Artes em 1908. O atual teatro da cidade de São José leva seu nome. Duas obras suas foram encontradas, a Valsa Josephense e a Valsa Nocturna. 75 Geraldo Martins: Segundo Téo (2007), foi mestre da banda do 14º Batalhão de Caçadores (BC). Uma valsa sua foi encontrada em meio às partituras do acervo. Felipe Rosa: 1º mestre da SMAA. Uma valsa sua foi encontrada em meio ao acervo. 4.2 FUNÇÕES DA SMAA DENTRO DA SOCIEDADE FLORIANOPOLITANA O estatuto de 1916, em seu segundo artigo, revela a finalidade da SMAA: §1º Cultivar a arte da musica proporcionando aos seus associados e ao publico, quando possível momentos de gosos, por meio de retretas e outra execuções. §2º por occasião de anniversarios de seus socios, estes poderão solicitar a Directoria, o comparecimento em suas residencias, da mesma banda. §3º As solicitações do § anterior só serão atendidas quando não tenha a banda compromissos. (SMAA. Est., 1916) Como se pode observar, o principal objetivo da sociedade, segundo seu estatuto, era proporcionar momento de prazer, através de apresentações de sua banda para seus sócios e para o público em geral. Percebe-se, no entanto, que a SMAA tinha outras funções na sociedade florianopolitana. Binder (2006) apresenta duas funções para as bandas militares no Império, como mencionado no terceiro capítulo. Segundo o autor, as bandas tinham uma função simbólica. Eram “o brasão sonoro” da monarquia brasileira, uma vez que proviam a música para seus rituais, como casamentos, batizados, aniversários e também para aclamações, vitórias militares e celebrações cívico-políticas em geral. Possuíam igualmente uma função infra-estrutural, pois forneciam, através do ensino de música, dos instrumentos, dos músicos e do repertório, à sociedade os meios para que pudessem continuar existindo. Acredito que tais funções possam ser extrapoladas para as bandas civis na Primeira República em Florianópolis, período em que as bandas continuaram provendo infra-estrutura, através de aulas, composições, instrumentos e músicos, para que pudessem ter continuidade e, de certa forma, passaram a ser o brasão sonoro da república dentro da cidade. 4.2.1 A SMAA como provedora de música e formadora de gosto 76 Téo (2007) relata a escassez de conjuntos instrumentais além das bandas até a década de 1940 em Florianópolis, o que acarreta em grande participação dessas instituições nos eventos sociais, assim como no ensino de músicos, dando às bandas função relevante na sociedade da capital. Como se pôde verificar nas listas de presença da SMAA e jornais, as bandas na Primeira República proviam música para os mais variados eventos. Tocavam junto às atrações que vinham à capital, como circos, sociedades dramáticas, companhias de teatro musicado e cinematógrafos; participavam de solenidades cívicas, recepções, embarques e homenagens a políticos e membros da elite local; acompanhavam eventos litúrgicos e paralitúrgicos; realizavam retretas em locais públicos e tocatas em inúmeros bairros da cidade, assim como muitas vezes proviam música para bailes, e mesmo “touradas” e partidas de futebol. Como Páteo (1997) destaca: [...] conforme a cidade se modernizava com a iluminação pública com transportes menos precários, saneamento, urbanização das praças, uma série de equipamentos e opções culturais (clubes, circos, espetáculos teatrais, espetáculos itinerantes, etc) iam se instalando e se multiplicando, aumentando o trânsito social e cultural, principalmente nas regiões centrais da cidade. Neste contexto, as bandas, diferentemente destes equipamentos culturais que quase sempre se restringiam suas atividades ao local em que estavam estabelecidos, rompiam e extrapolavam territórios, demonstrando uma surpreendente capacidade de circulação e integração nas diversas situações, acontecimentos, redes culturais e sociais. (PÁTEO, 1997, p. 185) Apesar de a autora abordar as bandas na cidade de Campinas (SP) no início do século XX, pode-se perceber que seu raciocínio vale igualmente para Florianópolis pelo que se verificou nas fontes aqui encontradas. Páteo (1997) ainda aponta para o importante papel das bandas na popularização da música de compositores europeus, que até então eram restritas aos ambientes das elites, assim como na divulgação de gêneros que chamou de música popular, que seriam as danças de origem europeia na transição do século XIX para o XX e alguns anos mais tarde os gêneros latinos e norte-americanos, assim como o maxixe e o samba. A forte atuação dentro da sociedade florianopolitana, associada ao apoio da imprensa e de inúmeros sócios que faziam parte da elite ilhoa, nos leva a crer que a SMAA funcionava como símbolo de poder de uma elite econômica, política e cultural e, portanto, como formadora de gosto na cidade. Através da execução das danças em voga na Europa e, por conseguinte, no Rio de Janeiro, como a valsa, a polca e a 77 mazurca, a SMAA, assim como outras bandas da capital, divulgava hábitos e gostos adquiridos pela elite, no final do século XIX e início do século XX, que até então eram praticamente inacessíveis à população mais pobre. Para a maior parte da população, as bandas eram uma das poucas formas de escutar música no período aqui estudado e, por seu prestígio e atuação na cidade, acabavam por se tornar referência no que diz respeito àquilo que seria a “boa” música. Com a chegada do cinema e da influência americana nas primeiras décadas do século XX, adaptaram seu repertório, continuando a divulgar para a população das classes mais pobres os gostos e hábitos das elites. 4.2.2 A SMAA como formadora e como espaço para a atuação de músicos Téo (2007) afirma que a maioria dos instrumentistas de Florianópolis nas primeiras décadas do século XX não freqüentava escolas de música ou conservatórios, até porque não havia nenhum na cidade. Segundo o autor: Grande parte dos instrumentistas deste círculo era ou pianista ou violinista, além de alguns flautistas conhecidos, como Álvaro Sousa, João Barbosa e Manoel Cruz. Não havia, durante toda a década de 30, nenhum conservatório na cidade, tampouco um projeto de ensino dedicado à formação coletiva (ensino musical associado à formação de orquestra e grupos de câmara). Essa falta de estrutura limitou as especialidades instrumentais dos músicos da cidade às aulas de piano, violino e flauta – além de eventuais exceções como o ensino de violão e cítara em escolas privadas. Estes cursos tinham duração efêmera e incerta, incapazes, portanto de viabilizar uma formação sólida. Vem daí a primeira dificuldade enfrentada pela cidade na consolidação de uma orquestra: a falta de instrumentistas. (TÉO, 2007, p. 143) Pelo menos desde 1908, e possivelmente desde sua fundação, a SMAA provia aulas de música para aprendizes que quisessem eventualmente se juntar à banda, conforme se pôde observar nos seus livros de atas e em comunicações de músicos que solicitavam licença ou sua desvinculação da sociedade. Segundo Téo (2007): A Sociedade Musical Amor à Arte oferecia aulas regulares direcionadas à população em geral, de onde sairiam os possíveis músicos da banda. O curso era ministrado por membros do conjunto e pelos maestros que por lá passavam. Eram ensinadas noções básicas de solfejo para leitura de pauta musical, algo de teoria musical, aulas gerais de instrumentos comuns à formação da banda – trompa, trombone, clarienta e similares (requinta e 78 clarone), trompete –, além de aulas de ritmo e percussão. (TÉO, 2007, p. 144) Como se pode verificar nas afirmações de Téo (2007) e nos jornais da capital, as bandas e os professores particulares eram os principais formadores de músicos na cidade. A ausência de orquestras, assim como a de conservatórios, fazia com que as bandas tivessem uma maior atuação na cidade, tanto como provedora de música , quanto como formadora de músicos. Segundo afirmação de Indalício Pires, destacada pelo mesmo autor, da SMAA saíram diversos musicistas, muitos dos quais se espalharam pelo país, alguns como mestres de bandas militares (apud TÉO, 2007, p. 135). Gutjahr (2010) destaca as irmandades em Desterro nos séculos XVIII e XIX como um espaço para a atuação dos músicos e compositores locais. Na segunda metade do século XIX e início do século XX, as bandas também aparecem como mais uma opção para a atuação dos músicos na cidade. Conforme destaca Téo (2007), os músicos que faziam parte das bandas, comumente integravam conjuntos para animação de bailes e clubes, além de participarem de cerimônias musicais religiosas e festivas de suas comunidades. As bandas ainda serviam como um importante espaço para a atuação de compositores, haja vista seu alcance e visibilidade dentro da cidade. Como foi possível verificar nas partituras encontradas na SMAA, vários compositores locais como Pedro Pavão, Hermínio Milles, Hermínio Jacques, Adolfo Mello e Álvaro Souza tinham composições para bandas. 4.2.3 A SMAA como divulgadora da República Téo (2007) destaca que no período imperial, outras localidades do Estado tinham ao menos duas bandas e que a política se encontrava presente dentro da música. Bandas ligadas aos liberais e aquelas ligadas aos conservadores raramente tocavam nas mesmas solenidades, e quando o faziam, eram movidas por um sentimento de rivalidade. Conflitos, brigas e pancadaria eram sempre uma possibilidade (TÉO, 2007, p. 128). Conforme verificado no capítulo 2, houve uma aliança entre as principais forças políticas do Estado na Primeira República, Lauro Müller e Hercílio Luz, e, apesar de eventuais disputas entre müllerianos e hercilistas, o partido republicano 79 não possuía nenhum partido rival no Estado no período aqui estudado, após a Revolta Federalista, e a consolidação do regime republicano e sua associação com a modernidade eram de grande interesse. Com o governo e a imprensa dominados pelos republicanos, nota-se o surgimento de um aparelho voltado para a consolidação do novo regime. Gasparini (2010), através do estudo de obras didáticas catarinenses da Primeira República, aponta para um esforço por parte da elite intelectual da época na formação de heróis e mitos na história do Estado, exaltando figuras importantes da república, numa tentativa de trazer estabilidade ao novo regime. Tal esforço pode ser igualmente percebido na imprensa, tanto em relação à exaltação dos políticos republicanos, assim como das bandas, que costumavam receber críticas elogiosas, como se pode observar no jornal O Dia de 15 de fevereiro de 1902: Esteve ante-hontem em festa a residencia do nosso amigo capitão João Carvalho, por motivo da passagem do seu anniversário. (…) À noite a philarmonica “Amor á Arte” foi comprimental-o, executando comm`il faut lindas peças do seu longo variado repertorio. Somente a alta noite retirou-se a sympathica banda musical, deixando patenteado o progresso notavel obtido em consequencia, em grande, da acção dirigente do habil maestro Pavão [...] (O DIA, 15/02/1902) Como foi possível perceber, a SMAA, em inúmeras ocasiões, participou de embarques, recepções, festas e missas homenageando políticos do estado. Dentre alguns dos exemplos retirados dos livros de presença da sociedade, destaco o cumprimento pela escolha para deputado de Alfredo Luz em 04 de junho, o cumprimento pelo aniversário de Hercílio Luz em virtude de seu aniversário em 29 de maio e o embarque e recepção de Hercílio Luz em maio e junho, todos no ano de 1920. As constantes tocatas em frente ao palácio do governo, as recepções na chegada de figuras republicanas ilustres e também a composição e execução de obras dedicadas a importantes nomes da política local nos levam a crer que a SMAA teve participação na exaltação dos ideais e das principais figuras republicanas catarinenses no início e durante o novo regime. Destaca-se igualmente que dentre seus sócios contribuintes, foi possível observar a presença de inúmeras figuras públicas da cidade e do estado, como Fúlvio Aducci, Germano Wendhausen, Nereu Ramos e Henrique Fontes. 80 Aponta-se que havia uma relação simbiótica entre os políticos e a SMAA. A última ganhava no momento em que importantes membros da elite se tornavam sócios, pois recebia, além de contribuições em dinheiro, distinção e prestígio por ter membros da elite como sócios. Os primeiros, por sua vez, obtinham visibilidade na cidade, por se tornarem patrocinadores de uma instituição tradicional, assim como através das homenagens prestadas pela banda da SMAA. 4.2.4 A SMAA como ponto de interação entre classes Assim como Téo (2007) destaca a mistura nos programas das retretas de músicas de origem europeia, apreciadas pela elite, com gêneros apreciados pelas classes mais pobres, como o samba, dentro de uma estética de banda sinfônica, sem que houvesse distinção entre estas e aquelas, é possível perceber também dentro dos próprios membros da banda, a presença dos mais variados indivíduos desde a elite às classes mais pobres. Páteo (1997) afirma sobre as bandas: Enquanto atividade cultural que fez da música seu instrumento de inserção e comunicação, as bandas expressaram também dimensões e contradições da sociedade naquele momento através do agenciamento de seus músicos: escravos, fazendeiros, comerciantes, barbeiros, italianos, alemães, negros, foliões, operários, são alguns dos agentes sociais que travestidos de músicos mostraram para a cidade um pouco de sua cara. (PÁTEO, 1997, p. 186) Dutra (1992) ainda aponta para declaração concedida pelo Sr. José Domingos Vieira, que, apesar de recente, pode refletir o que acontecia no início do século XX. Segundo o depoimento recolhido pela autora daquele que era o membro mais idoso da Sociedade Musical e Cultural Santo Amaro durante seu estudo: Eu me sinto muito bem com o grupo da banda. Não tem rico, não tem pobre, não tem preto, nem branco, todos são tratados por igual. Nós temos médico, engenheiro, comerciante, carpinteiro, tem eu que trabalho como servente, todos são iguais, lá junto eu faço uma hora de lazer, esquecendo as dificuldades da vida. (VIEIRA apud DUTRA, 1992, p. 36) Como foi constatado por Téo (2007) a SMAA teve seu início com membros de famílias tradicionais da cidade de Florianópolis, porém, com o passar do tempo foi aceitando membros de classes mais pobres dentro da banda, ainda que mantendo alguns membros da elite da cidade. Creio que a mesma interação descrita por Páteo 81 (1997) e Dutra (1992) tenha acontecido dentro da banda da SMAA, gerando uma interação entre classes pouco comum na época. Ainda destaco que não apenas dentro da banda tal interação acontecia. Em algumas das ocasiões em que a banda da SMAA tocava como recepções, homenagens, procissões e retretas, as apresentações eram abertas ao público, e o repertório bastante variado, indo desde a ópera italiana ao maxixe, gerando também uma interação entre repertórios e entre espectadores, que eram oriundos das mais diferentes classes e lugares da cidade. 82 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Procurei com essa dissertação, através da contextualização dentro da sociedade da época e de um histórico das bandas em Florianópolis, mostrar como se dava a atuação de uma banda na cidade durante a Primeira República. A documentação presente no acervo da Sociedade Musical Amor à Arte, associada aos jornais presentes no acervo da Biblioteca Pública de Santa Catarina, se mostrou uma rica fonte de informação para a pesquisa musicológica no estado de Santa Catarina. Foi possível perceber, através desse estudo, que as bandas tinham grande atuação na sociedade da época, participando dos mais diversos eventos sociais tanto no âmbito sacro quanto no profano. Destaca-se ainda o fato de que a Primeira República se mostrou uma época de transição, tanto na música quanto em outras áreas culturais, da influência europeia, até então predominante no país, para a norte-americana. Tal mudança pôde ser verificada tanto nos jornais, principalmente através do cinema, quanto nas partituras encontradas no acervo, que passaram a apresentar gêneros latinos e norte-americanos no lugar dos gêneros musicais europeus, que tinham grande popularidade no século XIX. Aponta-se que as bandas foram grandes divulgadoras destes gêneros, assim como da música europeia, principalmente aquela proveniente das óperas. Esta música, presente apenas nos salões da elite, passou a tomar as ruas e praças através das apresentações realizadas pelas bandas. Verificou-se ainda que a escassez de orquestras, escolas de música e conservatórios na capital até meados do século XX fez com que as bandas tivessem importante papel como formadoras de músicos na cidade. A SMAA forneceu aulas para um grande número de aprendizes, que por vezes se tornaram mestres de bandas militares em outras localidades do país. Notou-se também que a banda servia como um espaço, no período em questão, para a atuação de músicos e compositores locais. Estes músicos, oriundos das mais diversas classes, fizeram da banda um ponto de interação entre as camadas sociais existentes na cidade. Outro aspecto que pôde ser verificado foi a participação da SMAA como instituição divulgadora e propagadora dos ideais republicanos no início do século XX, época em que a república ainda estava se consolidando. As constantes 83 homenagens a políticos através de recepções, apresentações e composições ajudaram na exaltação das principais figuras republicanas do estado. Gostaria de destacar a importância dos acervos das bandas de música como fonte para pesquisas sobre a história da música tanto catarinense, quanto brasileira. As bandas foram instituições que tiveram ativa participação em nosso país tanto no século XIX, quanto no século XX. Algumas bandas, como no caso da SMAA, mantêm acervos, que possuem relevantes informações para a história da música em nosso país. Aponto ainda que existem amplas possibilidades para novos estudos musicológicos dentro do próprio acervo da SMAA. Há ainda um grande número de partituras e outros documentos que não foram explorados no acervo. Sua organização e catalogação são fundamentais e certamente levarão a um melhor conhecimento da história não somente da banda, mas da cidade de Florianópolis e da música composta e realizada na capital nos últimos 120 anos. 84 6 REFERÊNCIAS 6.1 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. 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Comunicados: Comunicado do Clube Recreativo 15 de Novembro à Sociedade Musical Amor à Arte. 12/11/1908. Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.Com4. Comunicados: Carta do Tiro de Guerra No. 40 à Sociedade Musical Amor à Arte. 22/01/1917. Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.Com5. Comunicados: Carta do Tiro de Guerra No. 40 à SMAA. 22/01/1919. Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.Com6. Comunicados: Carta do Tiro de Guerra No. 40 à SMAA. 11/04/1919. Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.Est. Estatuto da Sociedade Musical Amor à Arte (1916). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.EstCai. Estatuto da Caixa Beneficente dos Músicos (1912). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAALisSoc1. Proposta de Sócios. (1919-1923). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.LisSoc2. Índice de sócios em 1924. 1924. Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.LisSoc3. Lista de Sócios Contribuintes da Sociedade Musical Amor à Arte. 1925. Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.LivAct1. Livro de Actas. (1908-1909). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 89 SMAA.MapFard. Mapa demonstrativo das peças de fardamento que tem cada músico. Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.RegFeq1. Registro e freqüência dos músicos. (1915). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.RegFeq2. Registro e freqüência dos músicos. (1916-1918). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.RegFeq3. Registro e freqüência dos músicos. (1918-1926). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.RegFeq4. Registro e freqüência dos músicos. (1927-1940). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.RelSoc1. Sociedade Musical Amor à Arte – Relatório. (1936-1937). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. SMAA.RelSoc2. Sociedade Musical Amor à Arte – Relatório. (1937-1938). Acervo da Sociedade Musical Amor à Arte. 6.3 JORNAIS A Regeneração. Desterro, 1868 a 1889. Jornal do Comércio. Desterro, 1880 a 1894. O Conservador. Desterro, 1852 a 1855. O Conservador. Desterro, 1871 a 1883. O Cruzeiro do Sul. Desterro, 1858 a 1860. O Despertador. Desterro, 1863 a 1885. Opinião Catarinense. Desterro, 1874 a 1875. República. Florianópolis, 1899 a 1923. O Dia. Florianópolis, 1917. A Opinião. Florianópolis. 1917. Folha Nova. Florianópolis, 1928. O Estado. Florianópolis, 1922 a 1930. 90 6.4 FONTES DAS ILUSTRAÇÕES Coleção Helbio Cabral. Disponível em: <http://cerradoilha.blogspot.com/2009_06_01_archive.html>. Acesso em: 10 ago. 2010. Woodbrass homepage. Disponível em: <http://www.woodbrass.com/images/woodbrass/BUGLE+COURTOIS+159.JPG>. Acesso em: 10 dez. 2010. Bob Beecher homepage. Disponível em: <http://sites.google.com/site/beecherbob/music/barieuph-2>. Acesso em 12 dez. 2010. Opus5 homepage. <http://www.opus5.cl/irkins/tubas.htm>. Acesso em: 12 dez. 2010. 91 APÊNDICES 92 Apêndice 1 – Estatuto da Sociedade Musical Amor à Arte de 1916 f. 1 Estatutos da Sociedade Musical Amor à Arte Capitulo I Da Sociedade e seus fins Artº 1º - A Sociedade Musical “Amôr a Arte”, fundada / em Florianopolis, Capital do Estado de Santa Catharina / a 12 de Outubro de 1897, consta de uma banda musi- / cal, e do numero de sócios contribuintes que a Directo- / ria julgar necessario. Artº 2º - A Sociedade Musicalo “Amôr a Arte” tem por / fim: § 1º Cultivar a arte da musica proporcionando aos / seus associados e ao publico, quando possível mo- / mentos de gosos, por meio de retretas e outras exe- / cuções. § 2º Por occasião de anniversarios de seus socios, es- / tes poderão solicitar a Directoria, o comparecimento / em suas residencias, da mesma banda. § 3º As solicitações do § anterior só serão attendidas quando / não tenha a banda / compromissos. Capitulo II Artº 3º - A Sociedade Musical “Amôr a Arte” / terá uma Directoria composta dos seguintes / membros: f. 2 Um Presidente. Um Vice-Presidente. Um 1º Secretario. Um 2º Dito. Um 1º Thesoureiro. Um 2º Dito. Um Orador. Um Bibliothecario. Dois Procuradores. Artº 4º - Compete a Directoria: 93 a) Promover o desenvolvimento da Sociedade b) Resolver sobre propostas de admissão de socios. c) Usar de direito de petição em nome da / Sociedade dos poderes de Municipio, do Estado / e da União. d) Proceder judicialmente se os meios amiga- / veis forem improficuos, contra quem quer / que seja, em nome da Sociedade, e quando / o interesse tanto o exigir, auctorizando o / presidente a outorgar por procuração, poderes / especiaes ou geraes, á um advogado. e) Reunir-se em sessão ordinária uma vez por / semana e extraordinariamente sempre que o / presidente a convocar. f. 3 f) Concorrer por fiel execução do presente Es- / tatutos, cumprindo-o a seu turno e fazendo-o / prevalecer o que os mesmos determinar. Capítulo III Das attribuições peculiares a cada um dos / membro da Directoria Artº 5º - Ao presidente compete: § 1º Convocar e presidir as sessões da Directo- / ria e Assembléa Geral. § 2º Auctorizar com o Pague-se devidamente / rubricado pelo 1º Secretario, todas as contas de / despesas feitas pela Sociedade. § 3º Passar a presidencia a seu substituto legal / quando tenha de tomar a palavra para discutir / sobre qualquer assumpto. § 4º Rubricar os livros de escriptuação e encerral- / os. § 5º Dar annualmente conhecimento a sociedade / do seu estado financeiro, da segurabilidade de sua / escriptuação apresentando um relatorio cir- / cunstanciado de todo o movimento e occurren- / cias havidos em sua gestão. § 6º Designar socios para prehencherem os lugares vagos / quando os eleitos estiverem impedidos por mais de trez / meses. f. 4 § 7º Fiscar de accôrdo com os demais membros da / Directoria o ordenado do mestre da Banda. § 8º Contractar junctamente com o Thesoureiro e / o Mestre o preço das tocatas. 94 § 9º Chamar a ordem qualquer socio que se desviar / do cumprimento de seus deveres, reprehendendo-o na / primeira vez particularmente, na segunda em reunião / da Directoria e na terceira em Assembléa Geral, que / proporá a sua illiminação. § 10º Convocar ás Assembléas Geraes, desde que lhe / seja requerida por escripto, com assignatura pelo / menos de 25 socios quites. § 11º Nomear na primeira sessão, após a posse da nova / Directoria, uma commissão composta de trez membros / para examinar os livros e todos os documentos / que se prendam a thesouraria. § 12º Nomear associado ou associados que na / falta do orador tenham de representar a sociedade em / qualquer solemnidade. § 13º Auctorizar ao 2º Thesoureiro da sociedade que / será o da Caixa Beneficente da Musica a recolher / a um deposito bancario a quota que couber / a referida caixa das tocatas pela mesma effectua- / da, e retirar quando for necessário a quantia / estipulada para beneficio de algum musico, ou / f.5 quando autorizada a Directoria pela referida / banda, a tomar como emprestimo para a socie / dade. § 14º Quando para esse fim for necessário o presi- / dente convocará uma reunião da Banda e perante / a Directoria fará o pedido do emprestimo responsa- / bilizando-se pelo pagamento no prazo determinado / e mais os juros que se achava a mesma vencendo / em deposito. Artº 6º Ao Vice-presidente compete: § Único – Substituir o Presidente em qualquer im- / pedimento. Artº 7º Ao 1º Secretario compete: § 1º Substituir o presidente no impedimento do / vice-presidente. § 2º Ter a seu cargo e sob suainteira responsa- / bilidade o archivo da Sociedade entregando este / ao seu sucessor por meio de inventario. § 3º Abrir a correspondencia dirigida a socie- / dade bem como a corresponder-se com autori- / dade e demais associações em nome da / mesma. § 4º Organisar e registrar as actas das sessões fa- / zendo a leitura dos mesmos na sessão seguinte / f. 6 para submettel-os a votação e discussão. 95 § 5º Por o visto em todos os documentos de despesas / conferindo-os e verificando a procedencia dos mês- / mos. § 6º Annunciar as sessões pela imprensa todas as veses / que lhe for determinado pelo Presidente. Artº 8º Ao 2º Secretario compete: § 1º Substituir o 1º Secretario em seus impedimentos. § 2º Ler em sessão todo o expediente da sociedade. § 3º Encher os talões das mensalidades afim de se- / rem distribuídos no fim de cada mês. Artº 9º Ao Orador compete: § Único – Representar a Sociedade quando para esse / fim tenha sido convidada. Art 10º Ao 1º Thesoureiro compete: a) receber e dar quitação aos procuradores e pessoas / que contratarem a “Banda”. b) contractar junctamente com o presidente e o mestre / o preço das tocatas. c) contractar um cobrador quando for necessário / para coadjuvar os procuradores. d) Recolher a Caixa Economica-ou Banco, ás impor- / tancias liquidas das arrecadações. e) pagar as despesas feitas pela Sociedade prehenchi- / das as formalidades legaes. f. 7 f) Ter sob sua guarda e uimediata res- / posabilidade todos os dinheiros, títulos, moveis / uimoveis e mais haveres da Sociedade cujo / inventario será feito em um livro especial que / denominar-se-há Livro dos Capitaes da Sociedade / Musical “Amôr á Arte” g) Organizar e submetter a apreciação da Sociedade, / trimestralmente e annualmente um balanço de / Receita e Despesa. h) Fazer as retiradas que forem necessarias para as / despesas da Sociedade, depois das respectivas autori- / zações. i) Assignar os recibos mensaes e entregal-os aos / procuradores para a respectiva cobrança. Artº 11º Ao 2º Thesoureiro compete: 96 § 1º Substituir o 1º Thesoureiro em seus impedimentos. § 2º Ter sob sua inteira responabilidade um livro / especial da Receita e Despesa da “Caixa Bene- / ficente dos Musicos”. Artº 12º Aos procuradores compete: § 1º Receber mensalmente do thesoureiro os talões / de recibos para fazer a necessaria cobrança / entregando-lhes depois ás importancias dentro / do prazo de 10 dias. § 2º Entregarem o correspondencia da Sociedade. § 3º Substituirem ao Bibliothecario em seus im- / pedimentos. f. 8 Artº 13º Ao Bibliothecario compete: a) Ter sob sua inteira responsabilidade ás obras / pertencentes a Bibliotheca. b) Franquear os mesmos aos Associados mediante / recibo passado por elles na occasião da retirada / destas, responsabilisando-se pelo pagamento em / caso de extravio e obrigando-se a devolvel-os / no prazo maximo de quinze dias. c) Zelar pela conservação da mesma dando parte / ao Presidente, quando algum volume necessite / de concerto. d) Comparecer a sede da Sociedade das 19 ás 20 / horas, afim de poder attender os pedidos dos / associados. e) Catalogar e numerar os livros da Bibliothe- / ca, em livros especial. Capitulo IV Da eleição e posse da directoria Artº 14º As eleições se realisarão no primeiro / Domingo de Setembro, sendo permettida a / representação dos associados quites que, por / qualquer circunstancia justificarem a directo- / ria, o seu não comparecimento. Artº 15º Verificada a votação o Presidente convidará / a directoria eleita para tomar posse / em Assembléa Geral, no dia 12 de Outubro. f. 9 § Único – Reunida a Assembléa o Presidente, pro- / cederá a leitura do relatorio de sua gestão, / findo o que empossará a nova Directoria / que prestará o compromisso de bem cumprir / os seus deveres. 97 Capitulo V Da Admissão, deveres e direitos dos socios Artº 16º É illimitado o numero de socios contribuintes. § Unico - As propostas para socios serão assignadas / pelo proponente que ás enviará a directoria / para resolver como foi de justiça. Artº 17º Haverá cinco classes de socios a saber: 1) Fundadores; 2) Contribuintes; 3) Benemeritos; 4) Honorarios 5) E Musicos de Estante. Artº 18º - São socios fundadores os que concorreram para / a fundação da Sociedade. a) Contribuintes são considerados os que foram / admittidos depois da installação. b) Benemeritos e Honorarios, são as pessoas que / pelos serviços prestados a Sociedade, tenham / feito jus a esta distinção, ou aquelles que / fiserem doação a Sociedade da quantia de / 500#000 mil reis, pelo menos. f.10 c) Musicos de Estante são considerados os que fa- / zem ou venham a fazer parte da Banda. Art º 19º - Os socios contribuintes pagarão a mensali- / dade de um mil reis. (1#000). § Unico – Os socios Fundadores, Benemeritos, Honorarios / e os Musicos de Estante , não são sujeitos ao / pagamento de mensalidades, porem os Bene- / méritos e Honorarios, gosarão de todos os direitos / sociaes, menos de votarem e serem votados / para os cargos da Directoria. Art. 20º Compete aos socios: § 1º Desempenhar com dedicação todas as commissões / para que forem nomeados pela Directoria e os cargos / de eleição. § 2º Propôr em sessão de Assembléa Geral, ou da / Directoria qualquer medida julgada útil ao / progresso da Sociedade. 98 § 3º Protestar contra a Directoria, quando esta lhe / falte com a devida justiça e tambem quando / os interesse da Sociedade estejam sendo preju- / dicados, por má administração. § 4º Em qualquer desses casos não tomando a / Directoria as devidas providencias, poderão vinte e / cinco (25) socios quites, requererem a mesma / Directoria, a convocação de uma Assembléa Geral, / para tratar do assumpto. f. 11 § 5º Esta Assembléa não poderá ser negada nem / prolongada a sua convocação por mais de oito / dias, a contar da data de apresentação do requerimento. § 6º Se estas disposições não forem ainda cumpridas / pela Directoria, os representantes terão o direito de effectu- / ar a referida reunião de Assembléa Geral extraor- / dinaria por convite publicado pela imprensa, / designando dia e hora para esse fim. § 7º Compete a essa Assembléa, aclamar provisoriamente / uma mesa que se comporá de um presidente / um 1º secretario e um 2º dito para presidil-a, / sendo valida a resolução tomada pela maioria / dos membros presentes, o que se communicará / a Directoria para cumprir sem mais relutancia. § 8º As despesas feitas com a convocação dessa Assem / bléa Geral, serão pagos pelos representantes. Capitulo VI Das faltas e penas dos socios: Artº 20º Perdem o direito de socios: § 1º Os que se atrazarem em 3 mezes de / suas mensalidades, serão eliminados § 2º Os que extraviarem dinheiro ou qualquer / objectos pertencentes a sociedade, a quem fica o / direito de os rehaver judicialmente. f. 12 § 3º Os que promoverem embaraços a marcha / social ou pretendam intorpecel-a em seu desen- / volvimento. § 4º Os que procederem irregularmente no grêmio / da sociedade ou em desabono da mesma se depois / de admoestado pelo presidente persistirem no seu / abuso. § 5º Os que procederem com fraude ou má fé em / qualquer cargo que exercer. 99 § 6º O socio elliminado por qualquer dos motivos / prescriptos nos paragraphos acima, jamais / poderão pertencer a Sociedade. Capitulo VII Da Caixa Beneficente dos Musicos Artº 21º Fica annexada a Directoria da Sociedade a existente / Caixa Beneficente, creada pelos músicos, cujo / fim continua a ser o soccorro exclusivamente / dos mesmos em casos extremos, isto é, a / [porpção] financeira que a mesma caixa com- / portar e a juízo da Banda. a) Os socios de estante são obrigados a contribui- / rem para a Caixa Beneficente com uma joia / de 12#000, de uma só vês, ou em prestações den- / tro de um anno. f. 13 b) Só tem direito as beneficências da Caixa / os músicos que tenham pago as joias estipu- / ladas a uma permanência pelo menos de / um anno na Banda. c) Os músicos com os direitos marcados na lettra / B) achando-se licenciados até um anno pela / Directoria, gosarão dos benefícios da Caixa se / pagarem a mensalidade de 1#000 mil réis, e / não se incorporarem a outra qualquer Banda. d) Se a licença se prolongar, cessarão os direitos de / beneficio, podendo no entretanto a Banda, reuni- / da em sessão, conceder aquellas regalias, se julgar / de justiça, ao musico que tiver licença maior / de um anno e isso tão somente quando a / licença for motivada por serias e justas rasões. e) O socio musico, que se invalidar e achar-se no goso dos / direitos sociaes, ficam com direito a uma pensão / estipulada pela banda, paga pela respectiva Caixa Be- / neficente. Capitulo VIII Das tocatas Artº 22º Das tocatas effectuadas a sociedade terá 20% / a Caixa Beneficente dos Musicos, 10%, dividindo- / se em partes igaues aos musicos o restante. 100 § Único – As tocatas de procissões, recepções etc etc, quando / for no perímetro urbano não haverá / dividendo para os musicos, revertendo 20% / unicamente, para a Caixa Beneficente e fora / deste será o dividendo feito de conformida- / de com o presente Artº. f. 14 Capitulo IX Do Capital Social Artº 23º O Patrimonio Social será illimitado e di- / vidir-se-há: em fundos permanentes e disponivel. § 1º O fundo permanente será constituído do que / formar o patrimônio da Sociedade como sejam, / moveis utensilios, e um prédio a Rua Tira- /dentes nº 37, no valor de Reis 5.000#000. § 2º O fundo disponível será formado da receita / que se verificar proveniente de entradas de novos / socios, mensalidades, juros de apolices, multas / e donativos, e qualquer receita extraordinaria / que a Sociedade tenha ou possa ter. Disposições Gerais Artº 24 – A Banda não será obrigada a fazer tocatas nos dias / úteis antes das 6 da tarde, no verão e antes / das 5 no inverno. a) Fazer retretas no logar determinado pela Directoria uma / ves no minimo por mes. b) A Banda ensaiará as segundas, quartas e sextas, / das 7 ás 9 horas no inverno, e das 8 às 10 no / verão. c) A Banda só poderá ser cedida gratuitamente / para a procissão de Passos, kermesses em be- / neficios a estabelecimentos Prós, ou a casos / imprevistos tambem de caridade e festas de / grande data a juízo da directoria. f. 15 d) Os musicos são obrigados a ceder as resoluções da / Directoria nos casos de compromissos da mesma, / salvo os impedimentos por força maior quando / justificado. 101 e) O Presidente não poderá comprometter-se com as / tocatas sem consultar ao mestre, se a banda acha- / se em condições. f) A Banda tocará em manifestações políticas por / meio de contractos. g) Os musicos promptos, vindos de outras corporações / só serão acceitos socios de estante com a appro- / vação da banda em escrutinio secreto communi- / cando a directoria. h) Os musicos são obrigados a faserem uniformes de / brim a sua custa, podendo a sociedade auxilial-os / se estiver em condições. Artº 25 – O Mestre da banda só poderá ser admittido / ou demitido depois de prévio accordo da banda / e directoria. Artº 26 – A Sociedade terá uma escola de musica / para augmento da banda, dirigida e fisca- / lisada pelo mestre, cujo regulamento uinterno / será feito pelo mesmo de accôrdo com / a directoria. § Unico – O Aprendiz de musica enquanto não passar a musico de estante está sujeito ao Artº / 18. Artº 27 – É dever do mestre: f. 16 § 1º Ensaiar a acompanhar a banda nas tocatas /e organisar o respectivo repertorio da mesma. § 2º Communicar a Directoria com antecedencia / o impedimento da banda. § 3º Revistar o instrumental todas as veses que se tornar / necessario, dando parte ao Presidente dessa / occurrencia, requisitando se preciso por ordem / para fazer os respectivos concertos. Artº 28 – Ao contra-mestre compete: Substituir o mestre em seu impedimento. Art. 29 – A Sociedade não poderá dissolver-se enquanto / contar cinco socios. Art. 30 – Não poderá ser substituidos os presentes Estatutos / sem terem occorido dez annos / de sua approvação. Artº 31 – Revoga-se as disposições em contrario. Sala das Sessões da Sociedade Musical “Amôr / à Arte” em 29 de Agosto de 1916. Á Directoria Ary Cabral – presidente 102 Roberto Moritz – vice-presidente Herondino Moreira – 1º Secretario João d‟Oliveira – 2º “ Nuno Gama d‟Eça – Orador Frederico J. de Sousa – 1º Thesoureiro Marçal Cardoso – 2º “ Orlando Conceição - Procurador José Fonseca – “ Edmundo José de Sousa – Bilbliothecario Á Commissão Adalberto Cidade João d‟Oliveira Barbosa Herondino de P. Moreira Leopoldo Pires Frederico José de Sousa 103 Apêndice 2 – Comunicados internos da Sociedade Musical Amor à Arte Comunicado do Mestre Pavão à Diretoria sobre a aceitação do músico Eugênio Souza Ilmos Srs membros da Directoria da / S. Mcal Amor a Arte Em resposta ao officio do musico Eugenio Souza / por voz enviado, o qual pede incorporação a / nossa banda; de accordo com os nossos estatutos, o / mesmo pedido dói submettido a votação por escru- / tinio secreto, tendo o mesmo sido aceito por 20 votos / tendo comparecido 24 musicos. Florianopolis 27 de Janeiro de 1919 Pedro Pavão do Nascimento Mestre da banda Comunicado do Mestre Pavão à Diretoria sobre a aceitação do músico Alcides Barreto da Silva De accordo com o artigo 25 lettra (g) de nossos / Estatutos, estando a banda reunida proce- / di a eleição por escrutinio, sendo approva- / da por unanimidade de votos a entra- / da do peticionário Sr Alcides Barretto da / Silva. Florianopolis 29 de Janeiro de 1919 Pedro Pavão do Nascimento Mestre da banda 104 Apêndice 3 – Partituras encontradas no acervo da Sociedade Musical Amor à Arte Neste apêndice apresento um quadro com algumas informações sobre as partituras encontradas no acervo da SMAA. Tais informações foram organizadas de acordo com o gênero musical de cada obra, dos gêneros mais aos menos abundantes. Como é possível perceber, em muitas obras, apenas parte das informações foram encontradas. As quatro primeiras colunas apontam respectivamente o gênero musical, o título da obra, seu compositor e o copista da partitura. Destaca-se que, através dos copistas, foi possível diversas vezes determinar em que época a banda executava a obra, pois muitas vezes quem fazia as cópias eram membros da banda da SMAA que apareciam nos livros de presença da Sociedade. Gostaria de apontar ainda que as informações encontradas sobre as datas geralmente estão acompanhadas de alguma outra descrição. Fez-se tal distinção, pois as datas presentes nas partituras foram escritas nos mais variados momentos, como quando a obra foi composta ou copiada; por vezes, assinada e datada por membros da banda da SMAA; oferecida à banda ou ainda registrada a quem pertencia numa determinada data. As datas presentes nas partituras foram essenciais para determinar o período em que as obras eram executadas pela banda, porém em poucos casos foi possível saber, de fato, quando foram compostas. Por fim, o item Outras informações apresenta dados como a quem pertencia a partitura, quem a ofereceu à SMAA, quem foi o arranjador, ou ainda, se foi impressa ou se possui grade. Por vezes ainda aparecem assinaturas de alguns membros da banda da SMAA, que, assim como os copistas, permitiram que se pudesse saber a época em que as obras eram executadas. Gênero Título Compositor Valsa (sem nome) Valsa 01º Beijo Valsa 27 de novembro Al Polo Nord, Sinfonica (Nº 15) Alcionei Lucas Antonio Amaral George Lamette, Opera – 68 Hermínio Jacques Mº Nicoletti Valsa Valsa Copista Data Outras informações 05/06/1884 – cópia [?] P. Pavão Possui grade Parece 105 Barcelos Valsa Ali dorate Valsa Valsa Valsa Altamiro Amar é soffrer Aorora Valsa Arlequin (impressa) Valsa Aure d‟amour Valsa Valsa Valsa Beijoca Café Natal Carolina Valsa Valsa Cecy Choro de Orminda Valsa Valsa Valsa Dama de ouros Declaration d‟amour Deliciosa Valsa Die hydropaten Valsa Dinath Capella Valsa Valsa Dulce sangno Edelvina Valsa Esposa e mãe Valsa Estefania Valsa Faiscas do céu Emil Waldteufel Valsa Feliz anniversario Feliz regresso Fine fleur M Rocha Valsa Valsa recente, escrita à caneta 11/09/1916 – Assinatura de Arlindo Rosa Ernesto Becucci Alamiro Prazeres 08/1905 Composição Impressa por Soutullo e Villanueva Editores, Carretera de Bayona, no. 70 Vigo. Ernesto Becucci P. Pavão P. Pavão João Eduardo E. Ferro Armando de Arruda Herminio Jacques 25/09/1908 Cópia Fpolis, 10/07/1917 Oferecimento Offereço a copia desta valsa a Harmoniosa Banda de Musica Amor à Arte Castro e Silva Campo Grande, 01/04/1929 Cópia Propriedade de Castro e Silva Polybio Pereira Bastos Meyer, 18/02/1891 Pertence a Manoel Pery G. Metallo Elesbão A. de Olympia P. Pavão Florianopolis, 16/08/1915 – Assinatura ilegível a lápis Norberto Mattos Major João Elias Pertence a P. Pavão Octacilio J. Santos al F. Roza Octacilio J. Santos Florianópolis, 08/06/1918 – Assinatura ilegível 14/06/1916 – Assinatura de Arlindo Rosa Arranjo de P. Pavão À Amor à Arte pela P. Lagunense 106 Valsa Flor de estrada Valsa Generosa Valsa Harmonias bizarras Valsa Helena Oscar de Oliveira Ramos Por A. Souza Valsa Herondina A. Souza Valsa Hydée A. Souza Valsa Intima lagrima (Parte impressa) Candido das Neves (Indio) Valsa Izaura Valsa Josephense Valsa Jucila Valsa Julieta e Romeu L‟areoplano Valsa Zequinha Abreu 1935 Empréstimo H. Millis Fortunato Medeiros Florianópolis, julho de 1921 - Cópia 21/08/1917 cópia Abril de 1909 composição 07/11/1915 Propriedade Propriedade de Francisco José [?] Emprestado do Senhor Oscar Ramos em 1935 Arranjo de H. Millis Pompilio Luz Filho oferece Ao digno collega Nestor Pereira Pinto Editores: Viuva Guerreiro & Cia. Rio de Janeiro. Carimbo: A Musical de F. Vilen e Cia. Florianopolis Propriedade do Musico Joaquim dos Santo Barretto. Muito digno musico do 57º Batalhão de Caçadores Aquartelado em Jaguarão. 24/07/1929 – Assinatura a lápis Fernando Alves. Adolpho Mello Octacilio Santos J.D. Machado Octacilio Santos Valsa “La” valsa de Venus Valsa Las perolas Valsa Laura Figueiredo Agerio Lins J.S.C. Silva Valsa Le retour a la vie Camillo Corrêa de Oliveira Targino Joaquim C. Valsa Valsa Lenta Magnolia J. Cardoso Octacilio Santos 06/10/1909, Visto A. T. C. minha querida Francisca Deus minha vida 25/05/1933 Cópia Florianopolis, 04/04/1918 Cópia Assinaturas de Arlindo Rosa, Otto e Arnaldo, consta ainda outras Pertence a P. Pavão por presente do amigo Freire 107 Valsa As magoas Valsa Valsa Manolo Maria E. Waldteufel J. R. Galvão Graciliano Guedes Pompeu H. Milles Castro e Silva Valsa Por Isauro G. Vieira Octacilio J. Santos Valsa Maria Bernardina Mariasinha Valsa Mércia A. Souza Valsa Valsa A. Lambertini Valsa Valsa Mococa Nelly, valsa americana No passeio Nocturna Valsa 13/05/1897 Cópia 06/07/1929 Cópia Pertence a Castro e Silva Octacilio Santos Fpolis, 01/02/1918 Cópia Noites velladas Julio Deziderio Florianópolis, 08/09/1916 – Assinatura ilegível Valsa Occhi languenti Octacilio Santos e Ernani Lopes Valsa Valsa Odete da Cunha Telles Olinda A. Souza Valsa Valsa Olindina Olindina H. Jacques A. Souza Valsa Pavoada José Geraldo Valsa Valsa A paz Porque minh‟alma soffre!... Pinos Quem tem amôres não dorme Recordando o passado Rubro negro Valsa Valsa Valsa Valsa Valsa Valsa Samuel Guimarães Saudades de S. Francisco do Sul Saudades de ti Valsa Sensível Valsa Sesinha Valsa Instrumentada por Pedro Pavão P. Pavão Adolpho Mello Porto União, 01/06/1930 02/1908 Composição Pertence a Alvaro Souza Aprendiz D.Segui Dedicada ao amigo Pavão Arranjo do Armando Garcia Christo A. Scorza Neto Geminiano Guimarães Nélio Schmidt B. Machado Florianopolis, 03/05/1920 27/08/1982 Cópia 1954 Recente, à caneta Lourenço Baptista Aurélio Cavalcante Joaquim Oferecido ao meu filho Elpidio em signal de lembrança. Desterro, 108 Bernardo da Silva Valsa Serenata Valsa Sôbre as ondas Valsa Sonhando com você Valsa Sonho de valsa Valsa Supplicação Valsa Sylvia Noronha G. Martins Valsa Theodomira d‟Avila Triste Abilio de Magalhães Modesto Tavares de Lima Emil Waldteufel Valsa 25/02/1902 Composição Vespaziano Souza Nélio Cícero Muniz Hegino Neves [?] Oscar Straus Edgardo R. Arlindo Roza Valsa Un premier bouquet Valsa Valsa Valsa Marcha Marcha União dos Artistas Urbina Valentina Nº 1 - Funebre Nº 1 - Religiosa Raymundo Bridon Julio Cardoso Marcha Nº 2 - Funebre W. Lüdecke Marcha Nº 3 - Funebre Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha nº 4 - Funebre 9 de fevereiro nº 10 11ª - Sinfonica Alvaro Souza Aprendiz Marinheiro B - Funebre Marcha Marcha Marcha Bandeirantes O bolina Brasil – Marcha Vespaziano Souza Florianópolis, 20/11/1962 Cópia Parece recente, escrita à caneta João Pessôa 17/12/1941 Cópia 21/04/1915 Cópia 13/11/1927 Cópia Pertence a Castro e Silva Otacilio Santos 11/09/1916 – Assinatura de Arlindo Rosa 18/06/10 26/11/1906 P. Pavão Octacilio J. Santos 13/01/1916 Cópia 01/04/1920 – Assinatura de Fernando Alves 26/03/1092 [1902?] – Archivista S. M. A. A., Juvintino Henrique Guerra Gomes Cruz e Souza. P. Pavão Julio Cardoso M. Mendonça 29/11/1906 Octacilio J. Santos 18/03/1918 Cópia Felicio Domit 01/06/1919 – Arranjo de P. Pavão 109 de guerra Marcha Brigada Lopes Marcha Marcha Cae fora – Marcha carnavalesca Carnaval Marcha C - Funebre Marcha Marcha Os Carecas Cirandinha Marcha Comigo não, violão Conceição Cresça e apareça Da cofap Dona Fracatina D. Carlos Grave Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Dr. Affonso Penna – Solene Eu vi (Impressa) Marcha Fim do Século Religiosa Marcha Foi ella – foi elle Garotas modernas – Marchinha Goivos e Saudade Funebre Marcha Marcha João da Rosa Abelardo Souza Octacilio J. Santos 05/04/1911 Cópia Parece recente, à caneta Julio Cardoso 10/1928 – Cópia [?] Cincinato Souza Impressa. Vencedora do Carnaval de 1926/Sucesso na revista-burleta Ai Zizinha no Theatro Carlos Gomes Peixoto 23/10/1957 – Cópia, contém folhas mais antigas Álvaro Souza Gratidão Julio Cardoso Marcha Grave - Glória a Deus Homenagem à Santa Cecília Funebre I. Moraes Luiz Barone Pertence a Castro e Silva Belém, PA, 09/07/1937 Cópia José Francisco de Freitas Marcha Marcha Pertence a P. Pavão 18/08/1920 Assinatura de Fernando Alves. Propriedade de João Augusto Penedo. A memória de Francisco Luiz dos S. Barbosa Pertence a Antonio Amaral 1957 110 Marcha Marcha Marcha Jardineiro do amor – Marchinha Jerusalem – Sinfonica A Lagrima – Funebre Marcha Liberdade Marcha Linda Primavera A lua veio ver Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Marcha Mariasinha Militar Minha America Não posso mais Não sei dizê – Marcha carnavalesca Novo Mobral O pranto da saudade Funebre Novo Século Primavera no Rio Prova de Amisade Marcha Pura ilusão Marcha Recordação de Alcides Pacheco Religiosa Relógio Parado – Marchinha São João Marcha Marcha Marcha Marcha Custodio Mesquita SMAA, 1944 Recente A. Souza Offerecido ao amigo Lili 11/04/25 R. Bridon P. Pavão P. Pavão Raymundo Bridon Eduardo Souto Marcha Marcha Marcha Triste Pierrot B. Lacerda e Marcha Pertence a A. Souza, A memória de Pedro I. do Brazil e Silva J. A. Penedo João de Barros João José da Roza Fernandez Hugo Freysleben Manoel Gomes de Lima S. Sebastião Senhor dos Passos Só teu amor – Marcha carnavalesca Tenho fé Marchinha Carnavalesca Tipo 7 Trem Blindado Marcha 05/12/1935 – Oferecida pela Liga Operaria José Brazilicio de Souza Benedito Lacerda V. Paiva e D. Esteves Irmão Valença J.A. Penedo Cópias antigas e também de 1955 e 1983. C. Amaral H. Freysleben Curitiba, 18/07/1933 111 B. de Oliveira P. Pavão Marcha Última hora Marcha Visconde de Ouro Preto Julio Cardoso Marcha Roque Vieira Dobrado O Voronoff chegou! – Marchinha Yes! Nós temos bananas (Sem nome) Dobrado 03 de Outubro Dobrado No.07 Dobrado Dobrado No. 37 Alferes Teixeira Dobrado Dobrado Alyrio Alcantara Amilcare Dobrado Amor à Arte H. Merttich Dobrado Dobrado Antonio Coelho Arnaldo L. Crespo Arthur Dutra P. Pavão Vespaziano Souza Bernardo Trapaga Berto Sirio J. R. Galvão Marcha Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Bombeiros Municipaes Brigada Muzio Cabreira Cadencia Militar Capitão Maurício Capitão Peixoto O Caradura Dobrado Cascaes a Lisbôa Dobrado Dobrado Celso Cidade de Blumenau Coronel Luiz Thomazi Dobrado Dobrado Dobrado Coronel Santos Filho Despedida Octacilio J. Santos 03/03/1921 – Assinatura de Fernando Lima João De Barros Americo de Lima Celso C[?], 25/03/1931 – [?] 14/09/15 [ou 18?] - Cópia João C. Machado Pertence a Antonio Amaral Octacilio J. Santos Vespaziano Souza Cópia de Castro e Silva 26/11/1929 – Cópia 06/07/1929 – Cópia Hortencio Berto Sirio José Belisario J. Côrrea P. Pavão Paulino Martins Gasparino Lago [?] Vieira - 5º Regimento de Infantaria Parece recente João José da Roza Fernandez Elpidio/Por Lorena Elesbão Izidro H. J. Ipameri, Propriedade de Castro e Silva 112 28/05/1933 – Cópia do autor Felipe de Moura Dobrado Dobrado Dr. Adolpho Konder Dr. Gercino Tavares Dr. Hercilio Luz Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado El Alabardero El Mono Sabio Euclides Euclydes Dobrado Fornalha Dobrado Florianópolis Dobrado Dobrado Dobrado As Glórias da França Gymnasticos Joinvillenses Integralista Ismael Brauso Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Jocoso Lembrança M9 Major Neves Manoelzinho Dobrado Marcia A La revista Marcia Militar Ricordo Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Marcia Militar Siena no. 9 (Impressa) Marcia Nel moto la vita no. 319 Marcha La Morena (Impressa) Marche des Gamins Natal Dobrado Palermo no. 336 Dobrado Presidente Antonio Prado P. Pavão do Nascimento Hermenegildo Bonfim Ernesto Júlio Ban[u?]gel Cópia Castro e Silva Por Alvaro Souza Herminio Jacques Paulino Martins Ismael Souza Narciso Araujo Julio Cardoso P. Pavão Antonio Orige Lobo Santos Antonio Reginaldo João Pedro Castello Leite Campo Grande, 25/06/1929 Desterro, 28/02/1905 03/01/1956 Cópia 23/03/1892 Pertence a Benvenuto B. Leite Ricardo Del M. Algobar Graiche[?] E. Pansini Impressa Copia de Octacilio J. Santos Pertence a P. Pavão S. de Benedictis Impressa Por R. Berger J. Graxa Arranjo de R. Bridon M. Barbosa Assinatura ilegível a lápis, 10/2/1926 06/12/1916 Composição Parece ligeiramente mais recente do que os outros. 12/08/1958 Pertence a Marciano Bonifacio Souza 113 Dobrado Recordações de Raul Oliveira Revista Naval São Lourenço Bonifacio Gil Sargento Batista Sargento Calhan Sargento Martins Antonio C. Passinha Sargento Nelson Sargento Torres Saudades de Cuiabá Norberto Mattos A. S. da S. Freire F. Medeiros Dobrado Silvino Rodrigues Dobrados Dobrados retirados dos fados portugueses: Soluços de Guitarra e Fados dos Olhos Tenente Christóvão Ten. Coronel J. Fernandes Orlando Campi, contramestre do 14 BIC Francisco Faria Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Dobrado Elias Teixeira Antonio Amaral Dobrado Ten. Cel. Pirineus de Souza Eusébio P. Lemos Dobrado Tenente Portugal Ramalho Triumpho Antonio C. Passinha J. D. Machado Dobrado Triumpho Sem Ventura Victoria Dobrado Viene Bleibt Dobrado Dobrado Aristides Almeida 18-04-1955 – Cópia 21-09-1927 – Cópia Florianopolis, 17/11/1905 – Cópia Campo Grande do Mato Grosso, 12/09/1917 – Composição Florianopolis, 19/08/1944 01/12/1925 Grade À caneta parece recente. Grade Roberto Lapagesse Filho – aprendiz de saxophone Blumenau, 14/09/1909 Pertence ao Octavio Cabral 02/10/1898, Assinatura de Estephanio Luiz dos Santos [compositor ou copista?] 114 Polca Polca Polca Polca Polca Viene (Sem nome) 10 de Setembro Acabou-se a encrenca Polca Polca Polca Agóra Amadores da Pelota – polka tango Apinagé Asteria Bigorna Polca A Brasileira Polca Polca Buena Madre Cadeiras Postiças Colombina Concerto para Piston Entrada ao Taquarussú Espanta Cachorro Polca Polca Polca Polca Polca Polca Polca Polca Feiticeira Fiasco Interessante A Japoneza Polca Polca Juventude La Grand Duchesse Maria Amalia Polca Polca Maroca e Bicota Polca Milita Polca Morena Polca Polca Piprioca Pode chorar (Impressa) Polaca e Nena Polca Barboza P. Pavão 11/11/1916 Assinatura de Arlindo Roza Geraldo Ribeiro/G. Metallo A. H. Leão J. F. Torres Florianopolis, 16/03/1910 Oferecimento Nicolau Tancredo da Silva offerece a Banda “Amor a Arte” Geovane Roës J. J. Barata Manoel Laurentino 14-03-1904 cópia or L Baptista. or J . Horácio Joaquim de Oliveira Enc. Riachuelo Herminio Pires Barbosa P. Pavão 05/12/1895 – Assinatura de [?] Assis Para orquestra, viola, 1ºs e 2ºs violinos Cunha A. Souza Herminio Milles Rosindo Motta Irineu de Almeida Desterro, 04/03/1904 – composição [?] 14-06-1902 Pertence Arranjo de Abbadia, Pertence ao Encarregado da banda, Manoel Felippe d‟Abbadia Arranjo de Octacilio dos Santos Pertence a P. Pavão Impressa. 115 Polca Polca Polca Polca Polca Polca Queira desculpar-me Recordações Revolução das Laranjas Sapatinho Russo Silenciosa Polca Souvenir de Rice Tanz Yubel Teu olhar Tout le monde a Paris Venezia Polca Zilda Samba Samba Samba Samba No. 8 Adeus morena Agora é cinza Aristides sáe da toca – Carnavalesco O casaco da mulata é de prestação Com que roupa Como eu te amei Polca Polca Polca Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba É peso Eu não sou Deus Falla meu louro Fubá Lá vae...taioba Maracangalha P. Pavão Manoel Timotheo P. Pavão H. Milles Joaquim B. da Silva Joaquim Bernardo da Silva 16/12/1900 – Cópia Desterro, 25/02/1902 – Composição José Napolitano Luiz Nunes de Sampaio André Filho Pavão Filho, músico do 15º B.C. Zé Pretinho J.B. Silva Romeu Silva Dorival Caymmi Mariquinha quero vê Moreninho Mau Na Aba Não pegue no meu braço – Samba-pesado O que é que há contigo? – Samba batuque Olá Seu Nicolau Pão de assucar Para me livrar do mal Pertence a Antonio Amaral Ao distinto amigo Vespasiano Souza Nélio Schmidt H. Freysleben Paulo Barbosa F. Alves 15/07/1985 – Cópia 116 Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Samba Pois não? – Carnavalesco Portela Solteiro é melhor O telefone do amor – Sambacanção As telhas corridas Tempinho bom A vadiagem Vilmar Eduardo Souto Arranjo Cap. Nilton T. da Silva Benedito Lacerda Vespaziano Souza D. Perlino Samba Vou-me embora Vespaziano Souza Abelardo Souza Tango 5 de janeiro J. Carvalho Tango Ai!Ai! – Tanguinho Barata com calor M.T. [Marcelo Tupinambá?] Chão parado – Tanguinho Sertanejo Club Martinelli Marcelo Tupinambá Tango Tango Tango Tango Tango Tango Tango Tango Tango Tango Tango Tango El irresistible – Tango argentino Falchi Frei Satanaz Gaucho sou – Tanguinho Já se acabo – Tanguinho sertanejo Lagrimas do Luar Manhoso Mocidade e Flores Morenita [?] Vieira – 5º Regimento de Infantaria el M Malaquias da Silva P. Lagatti 26/05/1959 – Cópia A. Jacomino João Affonso Oliveira Castro e Souza H. Freysleben R.L.F. Pertence a Feminella Tango Tango Olha a pedra Reforma ou Demissão P. Pavão Tango Se assim disser Tu choras Mo. Pedro dos Santos P. Pavão Tango Assinatura de Fernando Alves [?] Vieira – 5º Regimento de Infantaria Assinatura de Fernando Alves Fortaleza de S. João no Rio de Janeiro, 117 Mazurca Clementina Mazurca Mazurca Mazurca Mazurca Flor de Elisa Isabella Italia Jaloux et Coquette La riconoscenza Labba Coralline Mazurca Mazurca Mazurca Mazurca Mazurca Maxixe Maxixe Maxixe Maxixe Maxixe Maxixe Maxixe Maxixe Maxixe Maxixe Hino Hino Hino Hino Hino Hino Hino Original Perdido Santinha Tim tim por Tim tim Ah! Piratininga Adeus, adeus, eu vou-me embora Canto das horas – da Revista Ouro Sobre Azul Chocolate Essa mulhé que me tapiá Floraux Guayamú – Maxixecapoeira Meus Quitutes Não pego não Recordações da Ilha Do Clube 12 de Agosto Ao Duque de Caxias Oficial Escola Alferes Tiradentes Do Estado de Santa Catarina Da Independencia Nacional Da Sociedade Musical Amor à Arlindo Rosa Mº Sagliano 01/1896 21/04/1915 – Cópia D. Segui Curityba, 28/04/1909 Ernesto Ferreira da Silva 30/12/1900 – Cópia Agerio Lins 25/05/1933 Cópia E. Becucci P. Pavão Vespaziano Souza Agerio Lins Ary Caldeira de Andrade E. Nazareth Mº Pedro dos Santos Narciso Araujo José Brasilício de Souza F. Paulo Gomes Recente José Brasilício de Souza 23/09/1927, Assinatura de Fernando Alves 28/08/1922 – Data a lápis Pertence a P. Pavão por presente do amigo Freire 118 Hino Arte Da Sociedade União Beneficente dos Artistas Hino Universitario Brasileiro Schottisch Amôr no Deserto Beija Flôr Bello sexo Bayeense Schottisch Schottisch Schottisch Schottisch Schottisch Schottisch Galope Galope Lettra de Roberto Lopes e musica de Manoel Luis de Miranda Maestro Carlos Gomes P. Pavão Miguel Angelo Sarni[?] [cópia ou autoria?] Galope Galope Dodo Mildred As três Marias Zizinha [Sem nome] 07 - Circo Familiar 08 No. 09 - Circo Galope No. 29 - Circo Galope Retirada do Pando Ribas Damazio – Quarteto P. Pavão Ópera Il Trovatore Fantaisie Brilllante (Parte impressa) G. Verdi Ópera O Guarany Sinfonia da ópera Carlos Gomes Ópera I Due Foscari – Atto 1º Preludio e Cavatina Marco Visconti – Cavatina da ópera Poutte-porri – Poema Galope Ópera Ópera Ópera 21/04/04 P. Pavão P. Pavão Octacilio Santos 09/10/1916 – Cópia 09/10/1916 – Cópia P. Pavão Octacilio J. Santos Florianopolis, 06/07/1911 Cópia 18/11/1927 – Assinatura a lápis Fernando Alves 27/09/1922 Assinatura a lápis de Fernando Alves Grade Parte dela está impressa/Arranjo feito a partir de partitura impressa para flauta e acompanhamento de piano. Assinatura de V.S. [Vespaziano Souza seria o arranjador?] Pertence a P. Pavão, Grade à caneta Apenas sax e bombardino Pedro Borges 10/1899 – Pertence Carimbo da S. M. Luso Brasileira – Santos, SP Pertence a José Feminella 119 Ópera Fox-trot Fox-trot Fox-trot Sinfônico Robert Le Diable Fantasie sur lês motifs de l‟opera Frasquita Murmures (Whispering) (Parte impressa) Satanaz Fox-trot Talisman (Charleston) Fox-trot Tentação One-step One-step One-step In my harem Le Héros My heart Quadrilha És ciumenta? Quadrilha Ragtime La part du diable Os tambores da guarda Keramis Ragtime Sul Americano Cançãoblue Cakewalk Habanera Bolero Lôla Quadrilha Rumba Sertanejo Cateretê – Toada sertaneja Batuque Batucada Pasodoble Pas-dequatre Polonaise Maestro Meyerbeer Possui grade John Schonberger H. Freysleben Zequinha de Abreu Lourival de a Ol Instrumentado por Armando Pertence a Castro e Silva Gentil Gonçalves Octacilio J. Santos V. Turine Maior parte impressa Eduardo Sousa 16/09/1925, Escrito a lápis Assinatura de Fernando Alves Capoeira Bella Morena Cuida do Futuro Vamos ver a baleia Ai! Barbino O Roceiro Valério Vieira P. Pavão Sob motivo da rapisodia de List As cadeiras me doem Dedicado a Juan Iglesia Matador de Toros Helyanto Hugo Freysleben Noir sur le Blanc Barros Parece mais recente Hugo Freysleben P. Wagner Juan Gomez Octacilio Peixoto Ernani Lopes 19/02/1944 Cópia 120 Diana Mimosa – canção brasileira Temas do circo de touros Chitty Chitty Bang Bang Leopoldo Fróes Brasília DF 31/101976 Cópia Arranjo 3o Sg. Fn mv Renato Silveira 121 ANEXOS 122 Anexo 1 – Comunicado do Clube Recreativo 15 de Novembro à Sociedade Musical Amor à Arte. 12/11/1908. 123 Anexo 2 – Mapa demonstrativo das peças de fardamento que tem cada músico 124 Anexo 3 – Carta do Tiro de Guerra No. 40 para a SMAA. 22/01/1917. 125 126 127 128 Anexo 4 – Carta do Tiro de Guerra No. 40 à SMAA. 22/01/1919. 129 Anexo 5 – Carta do Tiro de Guerra No. 40 à SMAA. 11/04/1919.