ANGÉLICA APARECIDA LARA DA SILVA MORAES
“CAUSOS” DE LAQUICHO: ANÁLISE DO DISCURSO DA
REGIÃO DE DOURADOS-MATO GROSSO DO SUL
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MATO GROSSO DO SUL
UNIDADE DE DOURADOS
DOURADOS
2004
ANGÉLICA APARECIDA LARA DA SILVA MORAES
“CAUSOS” DE LAQUICHO: ANÁLISE DO DISCURSO DA
REGIÃO DE DOURADOS-MATO GROSSO DO SUL
Trabalho
de
apresentado
conclusão
como
de
curso
requisito
para
graduação do Curso de Letras –
Habilitação
Português/Espanhol,
da
Universidade Estadual de Mato Grosso
do
Sul
–
UEMS,
tendo
como
orientadora a profª Drª Maria José de
Toledo Gomes.
DOURADOS – MS
2004
Agradeço à professora Maria José de Toledo Gomes, por sua dedicação e compreensão
em todo o período de execução deste trabalho.
Agradeço ao professor Wilson Valentim Biasotto, pelo empréstimo de seu material de
pesquisa referente aos “causos” de Laquicho.
E também a Lucila pela atenção e carinho dedicados aos meus filhos enquanto este
trabalho estava sendo realizado.
Dedico este trabalho a meus pais, Arlindo e Ana Maria, que sempre estiveram ao meu
lado.
Às minhas irmãs Alessandra e Ana Andréia por serem fiéis amigas.
Ao meu marido Marcelo pelas palavras de incentivo.
E aos meus filhos, Gabriela e Henrique que me fazem crescer a cada dia.
“Dentro de uma proposta metodológica
baseada na investigação e na
comunicação com o meio, a utilização
das fontes e das tradições orais é
fundamental, já que permitem buscar o
testemunho vivo, popular, geralmente
mais espontâneo, fresco, próximo e
sincero. Através da consulta às fontes
orais, podem ser reconstruídas, ainda
hoje, partes da história (familiar, local,
nacional). A escrita fixa no papel, a
oralidade fica na memória; ambos os
códigos permitem nomear o que já não
existe, revivê-lo, reordenar nossa
experiência presente”. (Reyzábal, 1999:
260)
RESUMO
É sobre o tema, análise do discurso dos causos da região de Dourados-Mato Grosso do
Sul, limitando-se aos causos de Liberato Leite de Farias, o "Laquicho", o propósito
deste trabalho. Para realizá-lo, foi feita uma revisão bibliográfica pertinente ao assunto,
a fim de fazer um resgate histórico cultural da região de fronteira do sul de Mato Grosso
e da região de Dourados. Selecionamos vários “causos” de Laquicho. Destes
escolhemos dois, apresentados em duas versões para serem analisados. Também foi
feita uma pesquisa sobre os conceitos de discurso e “causo”, levando em consideração a
metodologia usada para análise de narrativas. Como resultados obtivemos um resgate
dos aspectos culturais da região de fronteira do Mato Grosso do Sul e identificamos
algumas categorias da análise do discurso dentro dos “causos” de Laquicho. Também
foi caracterizada, de forma geral, a região de fronteira do Mato Grosso do Sul, como era
a região ocupada hoje pelo município de Dourados, desde sua colonização até seu
desmembramento de Ponta Porã, quem foi Laquicho e como foi sua vinda para
Dourados.
Resgate histórico/Dourados/Análise do discurso
RESUMEN
Es sobre el tema, análisis del discurso de los “causos” de Liberato Leite de Farias, el
Laquicho, el propósito de este trabajo. Para realizarlo, se hizo una revisión pertinente al
asunto, a fines de hacer un rescate histórico cultural de la región de frontera del sur de
Mato Grosso y de la región de Dourados. Seleccionamos varios “causos” de Laquicho.
De estos escogimos dos, presentados en dos versiones para que sean analizados.
También fue hecha una búsqueda sobre los conceptos de discurso y causo, llevando en
consideración la metodología usada para análisis de narrativas. Como resultados
obtuvimos un rescate de los aspectos culturales de la región de frontera de Mato Grosso
do Sul e identificamos algunas categorías del análisis del discurso dentro de los
“causos” de Laquicho. También fue caracterizada de forma general, la región de
frontera de Mato Grosso do Sul, como era la región ocupada hoy por el municipio de
Dourados, desde su colonización hasta su desmembramiento de Ponta Porã, quien fue
Laquicho y como fue su venida para Dourados.
Rescate histórico/Dorados/Análisis del discurso
INTRODUÇÃO
Pesquisar sobre a cultura popular do Mato Grosso do Sul é contribuir para o
desenvolvimento regional do Estado. É divulgar e manter viva a tradição do povo sul-
mato-grossense, é resgatar memórias e divulgar uma linguagem com aspectos
morfológicos e fonéticos característicos de uma região de grande miscigenação, daí um
linguajar característico do Estado, principalmente no interior.
Analisar o discurso de uma narrativa folclórica, especificamente os “causos” da
região de fronteira, é interpretar a linguagem folclórica e vocabulário regional tão pouco
explorados em projetos de pesquisa.
É sobre este tema, análise do discurso dos “causos” da região de Dourados-Mato
Grosso do Sul, delimitando-se aos causos de Liberato Leite de Farias, o "Laquicho", o
propósito deste projeto.
"Em seus 68 anos de vida e de andanças por este sertão de meu
Deus, acabou recolhendo vasto material para sua produção
oral. A personagem das narrativas do Laquicho, em geral ele
próprio, é um homem que está acima da realidade e de suas
restrições; é capaz de transgredir as normas naturais mais
elementares, submerso por mais de uma hora nas águas de um
rio, a pitar um cigarrinho de palha..., como se fora a afirmação
da superioridade de um homem que se perdeu na sombra dos
tempos e na necessidade de mostrar desempenho e
competência". (Biasotto: 1998: 8)
Direcionar esta pesquisa aos "causos de Laquicho" é retornar a Dourados das
décadas de 20 a 40, época em que esse pioneiro viveu nesta região, juntamente com sua
família e seus descendentes que até hoje se orgulham do espirituoso contador de causos
que era seu patriarca.
Esta pesquisa tem como objetivo analisar o discurso de narrativas folclóricas
(“causos” de Laquicho); resgatar aspectos culturais da região de fronteira do Mato
Grosso do Sul; e identificar algumas categorias da análise do discurso dentro dos
“causos” de Laquicho. Trabalharemos com “causos” escritos e transcritos recolhidos de
entrevistas a pessoas que conheceram Laquicho, ou que apenas reproduziam as histórias
que eram contadas por ele.
No primeiro capítulo, será caracterizada de forma geral, a região de fronteira do
Mato Grosso do Sul, como era a região ocupada hoje pelo município de Dourados,
desde sua colonização até seu desmembramento de Ponta Porã, quando obteve sua
emancipação, e também quem foi Laquicho e como foi sua vinda para Dourados.
No segundo capítulo, temos os fundamentos teórico-metodológicos com os
conceitos que serão aplicados nas análises dos “causos” selecionados e, finalizando, o
capítulo três apresenta a análise de discurso de dois “causos” de Laquicho: “Até aqui o
Laquicho vai bem” e também um “causo” de pescador. Com riqueza de detalhes e com
a transformação do absurdo em real é que serão apresentadas algumas histórias de um
contador de “causos”, pioneiro em nossa cidade que tanto marcou uma época em que as
pessoas viviam de forma simples, convivendo de harmoniosamente nos portões de suas
casas, nas reuniões familiares, mesclando uma cultura fronteiriça entre Brasil e
Paraguai, que muito diz respeito à memória de nossa região, em específico de nosso
município.
I. O CONTADOR E SEU CONTEXTO
Neste capítulo faremos um resgate histórico-cultural da região de fronteira do sul
de Mato Grosso, desde a guerra do Paraguai até sua colonização. Em seguida teremos
um resgate cronológico de Dourados desde o início do século XVIII até quando
oficialmente tornou-se município, seguindo com a descrição de quem foi Laquicho e
como ele veio para nossa região, tornando-se um de nossos pioneiros e que nos deixou
uma grande contribuição para a memória cultural do município de Dourados.
1. A região de fronteira de Mato Grosso do Sul: caracterização geral
Com o fim da Guerra do Paraguai, a fronteira sul de Mato Grosso, recebeu um
significativo número de estrangeiros, sendo a maior parte ex-combatentes paraguaios,
que por serem a maior fatia da frente demográfica que se instalavam por aqui,
permaneceram em maior evidência no desenvolvimento histórico da região. Recebeu
também grande fluxo de migrantes gaúchos, mineiros e paulistas, resultando em uma
efervescência cultural.
Pereira (2000/2001: 25) assim descreve o fronteiriço do sul-fronteira de Mato
Grosso na época de 1927:
“Dos typos de brazileiro, o que predomina e logo se torna
evidente, pelo falar, pelo agir, por tudo enfim, é o’guasca’.
GUASCA é o rio-grandense da fronteira . Todo habitante do Sul
de Matto Grosso, se não fala correntemente o guarany, fala um
pouco, e se fez comprehender nessa língua. Assim tem que ser,
porque quasi todo camarada das fazendas, campeiros,
carreiros, etc. são paraguayos. Pela razão que acima relatamos
é que a linguagem está cheia de termos gaúchos, guaranys e
castelhanos. A vida da fronteira obedece portanto a uma
confraternização de brasileiros e paraguayos que viajam
livremente pelo Brasil ou pelo Paraguay. Em Ponta Poran onde
a fronteira é secca, isto é, a linha divisória passa pelo centro de
uma rua, Avenida Internacional, se vêm taboletas em portugues
de um lado e em castelhano do outro. Nas duas cidades, Ponta
Poran e Pedro Juan Caballero, os habitantes vivem a mesma
vida , partilham as mesmas alegrias e os mesmos prazeres”.
A região sul do Mato Grosso atraiu migrantes de várias regiões do país devido aos
campos propícios à pecuária. No final do século XIX e início do século XX, as
migrações intensificaram-se. Mineiros, gaúchos, paulistas e também paranaenses e
goianos vieram para o sul de Mato Grosso trabalhar com a atividade pecuarista.
Recebemos também a imigração de paraguaios e bolivianos, como descreve Pereira na
citação abaixo:
“O sul do estado de Mato Grosso era, desde a formação
histórica, o lugar da heterogeneidade em todos os sentidos. No
ir e vir da fronteira, as vozes, falas, cores, roupas, risos,
cheiros, sons e rostos lembravam o Paraguai, a Bolívia, as
regiões andinas, um pouco de cada região do Brasil e das
populações indígenas locais”. (Pereira, 2000/2001: 155)
No início da colonização do sul de Mato Grosso, os produtos eram transportados
através de carro de bois de vários tipos: à mineira, paulista, gaúcha e paraguaia. Os
bailes da região de fronteira eram animados por músicos paraguaios que tocavam harpa,
violão e sanfona, sendo que o repertório era em sua maioria polcas e guarânias.
“A política do Brasil, Paraguai e Bolívia interessavam aos
fronteiriços. Muitos brasileiros residentes em Ponta Porã
interessavam-se pela política interna do Paraguai, inclusive
com posição partidária definida. A preponderância paraguaia,
manifestava-se na música, na circulação da moeda paraguaia,
nas festividades, na alegria e no culto cívico aos heróis
paraguaios”. (Pereira, 2000/2001: 168)
2. O município de Dourados
A colonização de Dourados teve início em princípios do século XVIII. No
entanto, sabe-se da existência de índios Terena e Caiuás e também da passagem por
aqui de bandeiras paulistas ainda no século XVIII, que teriam trazido para cá os
primeiros homens brancos.
No início do século XX, foram abertas as primeiras fazendas e estabeleceu-se
aqui a Companhia Mate-Laranjeira, que contratava principalmente índios e paraguaios
para a exploração da erva-mate.
Em 1935, quando Dourados se desligou do município de Ponta Porã, já tinham
chegado nesta região, paulistas, mineiros, gaúchos e tinham sido construídas as
primeiras casas.
Os primeiros imigrantes enfrentavam a dificuldade para aqui adentrarem devido à
precariedade dos meios de transporte e ao péssimo estado de nossas estradas. O acesso a
cidades circunvizinhas era através de carretas e caminhões que transportavam ervamate. O trajeto de Dourados a Campo Grande era feito de quatro a dez dias, dependendo
das condições climáticas e, para ir até São Paulo, deveria ir até Campo Grande e, de lá,
tomar o trem.
Isso retardou por algum tempo, o crescimento da cidade. A partir de 1922, com a
implantação dos Correios e Telégrafos, Dourados começa uma nova etapa de
modernização dos veículos de comunicação, pois durante muito tempo as notícias
chegavam através de viajantes ou por intermédio de um único rádio a pilha do lugar, de
propriedade do Sr. João Rosa Góes. Antes da colonização pelos brancos, as terras que
hoje pertencem ao município de Dourados, eram habitadas pelas tribos Terena e Kaiwá,
cujos descendentes ainda podem ser encontrados em reserva indígena ao lado do
perímetro urbano de Dourados.
Após o término da Guerra do Paraguai (1870), deu-se início a um povoamento
mais efetivo, principalmente pela fixação de ex-combatentes, pela vinda de gaúchos, em
sua maioria fugitivos das conseqüências da revolução federalista ocorrida no Rio
Grande do Sul entre 1893 e 1895, pelo desenvolvimento da pecuária, principalmente
por famílias mineiras, pela construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (1904 a
1914), que atraiu paulistas para a região e também pela ação da Companhia MateLaranjeira S/A, cujo monopólio da exploração dos ervais em toda região durou de 1882
a 1924.
Em 1909, uma meia centena de pioneiros, iniciou um trabalho para a criação de
um patrimônio, apesar da interferência desencorajadora exercida pela Companhia MateLaranjeira, arrendatária das terras.
Em 1922, Dourados recebeu impulso no seu crescimento, com a criação da
Agência de Correios e Telégrafos, com a organização de uma comissão para a
construção da igreja e a formação do primeiro time de futebol.
As ruas, muito largas, grandes e sem trânsito, possibilitavam as reuniões na frente
das casas, brincadeiras ao luar, as serenatas, os serões.
As festas juninas tinham notas singulares em Dourados. Individualizavam pelas
fogueiras em praça pública e em residências de alguns moradores.
Registra-se como primeiro carnaval de rua de Dourados o de 1925, realizado no
centro da cidade, hoje Praça Antônio João. Duravam três dias, apresentando diversas
atividades, entre elas as cavalhadas. Os participantes das corridas vestiam-se a caráter e
usavam enfeites feitos de flores e fitas de papel. Os cavalos também eram enfeitados. À
noite, geralmente, havia bailes e também duravam três dias, com exceção do domingo.
“Além das brincadeiras e danças, animavam as festas os
contadores de casos, destacando-se na época, o sr. Liberato
Leite de Farias, ou Laquicho, como o chamavam. Mineiro,
Laquicho radicou-se em Dourados em 1890. Humorista, seus
causos atraíam o interesse de grande número de pessoas, que
estavam sempre dispostas a ouvi-lo, fosse em reuniões em
lugares públicos, fosse em sua residência. Ali o procuravam e,
atentos, se deliciavam com estórias que ele inventava na hora”.
(Loro e Ferreira, 1985: 20)
Nessa época, o interesse pelas atividades intelectuais quase não existia. As
famílias que queriam dar uma melhor formação educacional a seus filhos, se reuniam e
pagavam gente da própria comunidade que possuísse um melhor nível de instrução.
“De 1914 a 1935, uma seqüência de fatos, dignos de registro,
atestaram o desenvolvimento e progressão do então Patrimônio,
tais como: o Juizado de Paz, a Agência Postal Telegráfica e a
Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do povoado”.
(Carmelo, A. S. Dourados, Terra Prometida).
Em 20 de dezembro de 1935, pelo Decreto Estadual nº 30, desmembrou-se de
Ponta Porã e tornou-se município. Em 11 de outubro de 1977, essa região passa a fazer
parte do recém-criado Estado de Mato Grosso do Sul no governo do então presidente da
república General Ernesto Geisel.
3- Quem foi “Laquicho”
Segundo Biasotto, ninguém sabe explicar por que Liberato Leite de Farias recebeu
o apelido de Laquicho. Uma de suas filhas, Cecília, disse que ele seria batizado com
esse nome, mas o padre não consentiu. Sendo assim, ficou Liberato, ao menos no
batistério, porque na prática do dia a dia sempre foi chamado Laquicho.
Com relato de Honório Almirão (Biasotto, 1998:19), Laquicho nasceu em
Frutal, Minas Gerais, em 1868, e chegou em nossa região em 1898. Laquicho era filho
de João Leite de Farias e Rita Carolina Azambuja. Seu pai, João, tinha fazenda de
criação de gado.
Em 1893, Laquicho casou-se com Amélia Luiza de Freitas (D. Melica), filha de
Pedro Luis de Almeida e Rita Luiza de Freitas. Tiveram dois filhos: Antônio e Pedro
(Realino).
Em 1898, se mudaram para Mato Grosso, fixando-se primeiramente em Campo
Grande. E, depois, no início do século, vieram para Dourados, onde moraram na
Fazenda Alvorada, hoje, Altos do Indaiá.
Laquicho plantava arroz, feijão, milho, frutas e criava gado. Já em Mato Grosso,
nasceram os outros treze filhos: Licurgo, Raul, Tarquínio, Nancy, Joana, Vicente, Ilka,
Rita Carolina, Cecília, Maria Luíza (Cotinha), Ilda (Didi), Adolfo e Astúrio.
Segundo Dona Ilka, filha de Laquicho, antes de estabelecerem residência
definitiva em Dourados, eles andaram muito, moravam em fazenda, num lugar, no
outro. E, segundo Miguel Ângelo do Amaral, foi nas imediações do Saltinho, na chácara
Santo Antônio (até hoje propriedade da família), numa região próxima ao bairro Vila
Cachoeirinha, em Dourados, que acabaram por fixar residência. (Biasotto, 1998: 21).
Através dos entrevistados, para a publicação do livro “Até aqui o Laquicho vai
bem”, puderam-se conhecer as qualidades do Laquicho. Arino Braga do Amaral
afirmou que Laquicho era um homem muito benquisto porque ele era uma pessoa
honesta, era uma pessoa que vivia do trabalho dele e ele não contava piadas que
ofendessem a moral das pessoas, por isso ele era considerado um homem de bem, muito
respeitado na época. (Biasotto, 1998: 21).
Segundo Biasotto, não foi possível registrar, através das entrevistas, o aspecto
do Laquicho menino, jovem ou adulto, porém, resgataram-se muitos dos detalhes de sua
aparência quando velho.
Ele era um ancião branquinho, miúdo, magrinho, rostinho fino, olhos azuis e
pequenos e muito alegres; era animado, expansivo, conversava muito. Era muito
prestativo. Nele não havia tristeza; era atencioso com todos.
Para contar seus “causos” e mesmo para fazer negócios, Laquicho ficava de
cócoras, encostado em uma parede. Outra marca registrada era o seu cigarrinho de
palha, que lhe inspirou algumas saídas para as suas histórias.
Quando contava os seus causos, ficava sério, não esboçava sequer um sorriso,
para dar ares de verdade às suas histórias, mas “todo mundo sabia que era uma piada,
que era uma brincadeira dele só pra passar o tempo”, segundo relato de Jeonel Capilé
a Biasotto (1998: 24).
Laquicho não era um mentiroso, mas um exímio contador de “causos”. As
mentiras não estavam nele, mas em suas histórias que muitas vezes eram absurdas.
3.1. A vinda de Laquicho para Dourados
Ele foi um dos pioneiros em Dourados, e ficou muito conhecido na região de
Ponta Porã e Dourados pelos causos que contava. Tinha alguns parentes em Mato
Grosso, que se fixaram por aqui na época do desbravamento da fronteira do Paraguai.
Assim, Laquicho veio tentar vida nova junto aos parentes e, por isso, deixou Campo
Belo – MG.
“Muniu-se de um burro gordo e bom, dinheiro no bolso, bom
poncho e bons arreios, despediu-se da noiva, dos parentes que
ficavam e dos amigos. Largou-se, mundo afora, rumo a
Uberaba, atravessou o triângulo e veio sair em Santana do
Paranaíba, em Mato Grosso”. (Lima, 1985: 89-90)
Para não maltratar seu burro de estimação e chegar ao destino sem contratempos,
valia-se da fresca da madrugada e de um pedaço da noite, até chegar num lugar próprio
para pousada. A sesteada também era longa para que o burro pudesse descansar e pastar
à vontade. “Para tanto era mister usar o relógio – e o tinha – um velho Omega, que
herdara de sua avó”. (Lima, 1985: 90)
Finalmente, um dia, encontrou em Santana do Paranaíba,uma fazenda onde a zona
era deserta e as demais bem longe. Foi recebido com cordialidade pelo velho Garcia,
dono da fazenda, família conhecida e tradicional em nosso Estado. Propôs permanecer
por mais alguns dias para que seu burro descansasse e ofereceu ajuda ao fazendeiro em
qualquer serviço.
“Contou, então, que até aquela idade não havia encontrado nenhum animal –
fosse burro ou cavalo – que o derrubasse”. (Lima, 1985: 90) Contou também ao
fazendeiro a sua vida em Minas - por alto - e o juramento à noiva: de voltar dentro de
cinco anos para o casamento. Dias depois, seguiu viagem, rumo à fronteira ao encontro
dos parentes. “Entrava assim, novamente, em zona despovoada, levando - como sempre
– o seu relógio Omega, que usava no bolso de porta-lenço do casaco”. (Lima, 1985:
91) À noitinha, parou para a pousada. Cuidou do burro e “puxou da matula que o
coronel Garcia lhe havia suprido em quantidade. Dormiu um bom sono, e depois,
levantando-se, consultou o Omega: duas horas da madrugada”. (Lima, 1985: 91)
Seguiu viagem sem perceber que seu Omega havia caído quando se abaixou para
juntar o último pelego que serviu de colchão durante a noite.
Ao raiar do sol, às seis da manhã, foi consultar o relógio para averiguar se os
ponteiros estavam ajustados com o sol. Percebeu então que havia perdido o seu Omega.
Parou o burro e pensou: “Mas eu voltar agora cinco léguas para trás e outras cinco de
volta, não é possível! Que fique o Omega!”. (Lima, 1985: 91)
Seguiu viagem, atravessou o rio Verde, o Pardo, o Anhanduí, o Vacaria, o
Brilhante, o Santa Maria e, por fim, chegou onde estavam os parentes. Dia de imensa
alegria para todos, deu notícias dos parentes de Minas, contou sobre a noiva saudosa
que deixou banhada em prantos, relatou minuciosamente a viagem e depois disse quais
eram seus planos e o motivo de sua vinda para Mato Grosso. “Contava a todos que duas
coisas o apoquentavam enormemente: a saudade da noiva querida e o relógio que
perdera na pousada”. (Lima, 1985: 91)
Amparado pelos parentes começou a trabalhar. E, cinco anos depois, já com
situação remediada retornou a Campo Belo para se casar e trazer a moça que tanto
amava, cumprindo assim, o trato de honra feito antes da viagem para Mato Grosso.
Na viagem de volta seguiu pela mesma estrada. E nem mais se lembrava do seu
Omega, apenas da noiva encantadora, pois nela pensava dia e noite e a saudade partialhe o peito.
Após muitos dias de viagem, casualmente chegou ao mesmo lugar onde havia
perdido o seu Omega, e reconheceu tudo em detalhes. Acomodou os animais, estendeu
os pelegos no gramado e em seguida se deitou.
De repente, começou a ouvir um tic-tic-tic, pensou que fosse uma jararaquinha
pronta para atacar e saiu dali apressadamente, indo acomodar-se longe. Ao amanhecer,
lembrou-se da cobra e decidiu matá-la. Pegou seu facão e cautelosamente, aproximou-se
do lugar.
Sentiu que o tic-tac continuava. Abriu uma ramagem e quase caiu para trás. Ali
estava seu Omega e com a hora combinando com a saída do sol que vinha apontado.
Com mais esse dia de viagem, chegou à fazenda do coronel Garcia. Relatou além
da história do relógio, tudo o que conheceu na fronteira do Brasil: suas lendas
apavorantes de onças, de imensos sucuris com 80 metros de comprimento, que
engoliam boiadeiros com bombacha, botas e esporas, relatou sobre os capões de matos
verdejantes, dos córregos de águas cristalinas, das caçadas que fizera com os parentes,
tudo em minúcias e euforismo, e de sua fama de domador de animais.
A senhora do fazendeiro, que também participava da conversa, sugeriu ao marido
que desse o cavalo Quebra-Costelas para o Laquicho amansar. Tal cavalo era
considerado indomável. E o coronel contou para o amigo a história do Quebra-Costelas,
sobre os peões que ele já havia machucado. Mas Laquicho não se intimidou e prometeu
domá-lo quando voltasse de Campo Belo, retribuindo assim a hospitalidade que havia
recebido naquela fazenda.
Partiu numa madrugada, indo satisfazer o mais sério compromisso de sua vida:
casar-se. Durante a viagem, relembrava da viagem que fizera rumo ao Mato Grosso em
busca de uma nova vida, dos parentes, da nova terra que conhecera e sempre cheio de
saudades, da noiva amada.
Chegando em terras mineiras, pensou na possibilidade de a noiva não estar mais
esperando por ele, o que lhe seria um golpe terrível. Logo a dúvida foi desfeita pela
confiança que nela havia depositado.
Quando chegou a Campo Belo, entrando na primeira rua, encontrou um amigo de
infância. Abraçou-o comovidamente e em seguida, não se contendo, perguntou da
noiva. E o amigo respondeu: “- Tá ti esperando, lá na mesma casa... e muito mais
bonita do que antes... (...) Pode tá certo, rapaiz, essa moça é mais firme que a Serra da
Mantiqueira!” (Lima, 1985: 98)
A chegada à casa da noiva foi um espetáculo quase indescritível. Todos choraram
de alegria. Passado o impacto, a donzela robusta com 22 primaveras floridas, disse: “Tava ti esperando!” (Lima, 1985: 98)
Um mês depois, realizava o enlace matrimonial. Foi uma festa de arromba e
algum tempo depois, despedindo-se dos parentes e amigos, iniciaram a viagem para o
Mato Grosso. Ao longo da viagem, Laquicho contou à esposa sobre a hospitalidade do
coronel Garcia e da sua gratidão em relação a ele. Por isso, a decisão de domar o
Quebra-Costelas. Seria uma forma de agradecimento.
Quando chegaram à fazenda do coronel Garcia, permaneceram por alguns dias e
certa manhã, falou ao dono da casa:
“- Coronel, vou encilhar o cavalo!... (...) A jovem esposa, que já
ouvira, entre os picantes gracejos da peonada, a história do
cavalo indomável, ficou desorientada e começou a pedir, em voz
súplice, ao marido que desistisse do temerário intento.
- Não é possível atender ao seu pedido, já cumprimos um
compromisso de amor, agora deixe que eu cumpra um
compromisso de gratidão”. (Lima, 1985: 99)
Assim sendo, preparou o cavalo com extremo cuidado, montando-o, tranqüilo e
corajosamente. De saída, o cavalo pinoteou para o alto, para a esquerda, para a direita e
começou a rodopiar em corcovos consecutivos, tentando derrubar Laquicho. Não
conseguindo derrubá-lo, correu a toda disparada, campo a fora, sempre com toda
velocidade tentando derrubar o domador.
Iam já muito longe quando Laquicho lembrou-se de sua querida e fiel
companheira e o quanto ela estaria preocupada.
“Buscando na imaginação um meio de sossegá-la, teve a
retentiva do aproveitamento de, na hora exata em que o bagual
se apegava a corcovos baixos num areal apropriado, registrar a
sua passagem por ali. Tirando o pé do estribo, firme no
lombilho, mesmo ante os pulos rápidos e desconcertantes do
Quebra-Costelas, deixou na areia fofa o seguinte aviso: ‘ATÉ
AQUI VOU BEM’ .(Lima, 1985: 100)
E Laquicho não se enganara, sua meiga e dedicada senhora, indo até o areal e
encontrando ali, em letras legíveis o aviso do marido, voltou para casa mais tranqüila.
Quase ao meio dia chegou, alegre e vitorioso, o Laquicho com o Quebra-Costelas
amansado. “Nunca mais pulou o potro, julgado sem possibilidades de domação. Estava
dominado”. (Lima, 1985: 101). Esta é a história que ficou mais conhecida na época em
que Laquicho contava os seus “causos”.
Laquicho morreu em 5 de março de 1946, segundo relatos de Ramão Adolfo
Torraca e uma de suas filhas, Ilda Freitas Arriola (Biasotto, 1998: 19). E, segundo essas
mesmas fontes, Dona Melica morreu uma semana antes.
“Laquicho e Melica eram tão apegados que haviam combinado
de morrer juntos. Quando adoeceram da póstuma dor, Melica
realmente faleceu e foi pro céu. Laquicho, entretanto, só
apareceu por lá uma semana depois. São Pedro, que sabia do
combinado, perguntou o que tinha acontecido. Laquicho
respondeu: É que me dei conta que era carnaval, então
aproveitei a última alegria da vida e deixei pra vir uma semana
depois”. (Relato de João Palhano in Biasotto, 1998: 20).
II. FUNDAMENTOS TEÓRICOS - METODOLÓGICOS
Este capítulo destina-se a formalizar os conceitos teóricos básicos referentes à
análise de discurso de narrativas que, posteriormente, serão aplicados nas análises dos
“causos” de Laquicho.
1. Conceito de discurso
Para estabelecer o conceito de discurso, começamos pelos dicionários de língua
portuguesa gerais. Assim segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa, discurso
é:
“Uma mensagem oral, cujos enunciados são significativos e que
expressam formalmente a maneira de pensar e de agir e ou as
circunstâncias identificadas com um certo assunto, meio ou
grupo. É um raciocínio que se realiza por meio de movimento
seqüencial que vai de uma formulação conceitual a outra,
segundo um encadeamento lógico e ordenado. É a língua em
ação, tal como é realizada pelo falante”.
Conforme o dicionário Aurélio, discurso é:
“A peça oratória proferida em público ou escrita como se
tivesse de o ser. Uma exposição metódica sobre certo assunto.
Unidade lingüística maior do que a frase, enunciado, fala”.
O conceito de discurso tem a ver, então, com o uso concreto da língua. Segundo
essas definições, o discurso tanto pode ser escrito quanto oral.
No dicionário de lingüística, (Dubois, Jean et al, 2001: 192) discurso é:
“Unidade igual ou superior à frase, constituído por uma
seqüência que forma uma mensagem com um começo, um meio
e um fim, portanto, um enunciado. Considera que na acepção
lingüística moderada, o termo“discurso” designa todo
enunciado superior à frase, considerado do ponto de vista das
regras de encadeamento das seqüências de frase. Conceitua que
o discurso caracteriza-se por uma enunciação que supõe um
locutor e um ouvinte, e pela vontade do falante em influenciar
seu interlocutor”.
Portanto, refere-se à situação concreta da fala.
Em Como analisar narrativas (Gancho, 1997: 33), a autora chama de discursos
“às varias possibilidades de que o narrador dispõe para registrar as falas dos
personagens”, considerando que a linguagem dos personagens varia de acordo com as
condições sócio-econômicas de seu meio, a idade, o grau de instrução e ainda a região
em que vivem.
O discurso subdivide-se em: direto, indireto e indireto livre. O primeiro caso é a
fala direta do personagem, onde não há intervenção do narrador, caracteriza-se pela
presença dos verbos dicendi: dizer, afirmar, perguntar, ordenar, etc. Tais verbos podem
aparecer tanto no início, como no meio ou no fim do enunciado. O segundo caso é o
registro da fala do personagem através do narrador. Neste caso, o narrador usa o verbo
na terceira pessoa para identificar ao leitor que a fala é do personagem, e não dele. O
terceiro caso é um meio termo entre o discurso direto e o indireto, onde a fala do
personagem é registrada, mas também há interferências do narrador. É caracterizado
pela ausência do verbo dicendi e geralmente é usado para transcrever pensamentos.
Partindo dessas definições citadas acima, pode-se dizer que discurso é uma
interação entre o eu e o outro e que não constitui apenas um conjunto de signos servindo
como instrumento de comunicação, mas sim, como um modo de produção social, onde
o homem está sempre interagindo com o seu meio expondo seus pensamentos perante a
realidade na qual vive. Podemos justificar esta afirmativa, com a seguinte citação:
“Como elemento de mediação necessária entre o homem e sua
realidade e como forma de engajá-lo na própria realidade, a
linguagem é lugar de conflito, de confronto ideológico, não
podendo ser estudada fora da sociedade uma vez que os
processos que a constituem são histórico-sociais. Seu estudo
não pode estar desvinculado de suas condições de produção”.
(Brandão, 1994: 12).
Para Benveniste:
“...é no discurso que a língua, sistema social, é assumida por
uma instância individual, sem, porém, se dispersar em infinitas
falas particulares. O autor caracteriza o discurso pelas relações
que se estabelecem entre indicadores de pessoa, tempo, espaço
do enunciado e a instância de sua enunciação”. (apud Barros:
1998: 3)
Podemos dizer, então, que é no uso concreto da língua que interagimos um com o
outro, cada um fazendo seu uso individual da língua, que recebe influência do seu meio
social, e utiliza-se do discurso para as relações sociais.
Para Barros (1988: 3), os três pontos decisivos para a concepção de discurso e sua
análise, são: “a relação do discurso com a enunciação e com as condições de produção
e de recepção; o discurso como lugar, ao mesmo tempo, do social e do individual, a
articulação entre narrativa e discurso, isto é, o discurso constituído sobre estruturas
narrativas que o sustentam”.
Foucalt define discurso como: “um discurso é um conjunto de enunciados que
tem seus princípios de regularidade em uma mesma formação discursiva”, (apud
Brandão, 1994: 28) e a análise desta consistirá, então, na descrição dos enunciados que
a compõem. Sendo assim, o discurso seria concebido, como uma família de enunciados
pertencentes a uma mesma formação discursiva.
Em relação às citações acima, podemos dizer que a análise do discurso pode ser
conceituada como uma forma de conhecimento da linguagem teórica crítica que trata
dos processos e condições de produção do texto. E este é conceituado como uma
unidade da análise do discurso, sendo que sua produção está condicionada ao contexto
histórico-social, ao contexto situacional e aos seus interlocutores.
Segundo Orlandi (2001: 24), o discurso pode ser de vários tipos: autoritário: tende
para a paráfrase, que vem a ser a produção do mesmo sentido sob várias formas, e a
polissemia, que permite a possibilidade de sentidos diferentes, é contida, e o seu
referente, o objeto do discurso, fica dominado pelo próprio dizer.
O discurso polêmico equilibra-se entre a polissemia e a paráfrase, há uma disputa
entre os interlocutores, havendo assim, possibilidade de mais de um sentido e a
polissemia é controlada.
Já o discurso lúdico, o qual podemos classificar as narrativas do Laquicho, tende
para a total polissemia, onde o objeto do discurso se mantém tal como no discurso;
“O discurso polêmico seria aquele que procura a simetria, o
autoritário procura a assimetria de cima para baixo e o lúdico
não colocaria o problema da simetria ou assimetria”.(Orlandi,
1987: 154)
Portanto, os critérios para que se estabeleça a tipologia dos discursos, polêmico, lúdico
e autoritário são derivados da noção de polissemia e de interação. Assim, com o
conceito de interação, pode-se incorporar a dimensão histórica e social da linguagem e
através do conceito de polissemia, procura-se dar ênfase a idéia de pluralidade de
formas e sentidos diferentes da linguagem.
A autora expõe em outra obra que:
“Não creio que se devam estabelecer relações categóricas entre
os tipos. É preferível, antes, falar-se em tendências: há
discursos que tendem para o tipo autoritário, ou tendem para o
lúdico, etc. Não há assim, tipos puros, a não ser idealmente”.
(Orlandi, 2001: 25).
A análise do discurso tem como proposta básica considerar como primordial
relação da linguagem com a exterioridade e sua produção está relacionada ao falante, ao
ouvinte e ao contexto sócio-histórico.
“Nos anos 60, a análise do discurso é herdeira da lingüística, do
Marxismo e da psicanálise. Apóiam-se os conceitos e métodos
de lingüística, mas dela se afasta ao considerar outras dimensões
como as condições de produção: o contexto imediato e o
contexto sócio-histórico, ideológico; a história, enfim a chamada
exterioridade. Quanto ao marxismo, a análise do discurso
procura seguir L. Althusser na nova leitura de Marx e, no
referente à psicanálise, apóia-se sobre Lacan na sua releitura de
Freud. Na análise do discurso o lingüístico não é o central”.
(Michel Pêcheux e André Dubois – A dupla fundação da análise
do discurso/mini curso ministrado pela professora Rocha: 2002)
2. Conceito de causo
De acordo com o dicionário Houaiss da língua portuguesa, causo quer dizer: o
que aconteceu, acontecido, caso ocorrido. Narração geralmente falada, relativamente
curta, que trata de um acontecimento real, caso, história, conto. Sua etimologia provém
do cruzamento de caso e causa; é um dialeto brasileiro.
O dicionário Aurélio conceitua causo como uma variação popular de caso;
conto, história, caso.
Em “O conto popular” (2000: 85), a autora Maria Flora Guimarães destaca que:
“Os contos populares fazem parte de uma literatura
originalmente oral, viva e sonora, destinada a um auditório que
não sabia ler, mas que determinava a técnica da exposição da
própria narrativa: exposição simples, que segue a seqüência
lógica, sem pormenor que demore ou que não seja
indispensável. Raramente se abandona a ação principal pela
secundária. O que conta é a ação dramática. Prende-se ao
imaginário ou à memória coletiva, que serve de repertório
comum ao maior número de ouvintes”.
Um conto é narrado, de diferentes formas se dirigido a um auditório, por colegas
de trabalho, por familiares, dependendo do espaço físico e histórico em que essa
narração acontece. Este conjunto de fatores, os analistas do discurso chamam de
condições de produção, ou seja, as condições que irão determinar o tipo de enunciação
que será produzida.
A citação a seguir descreve de forma clara um contador de causos como
“Laquicho”, que realmente prendia a atenção do ouvinte com seu discurso lúdico que
tomava forma verídica quando contados por ele: “A marca constante do contador é sua
intenção de prender a atenção dos ouvintes, a ponto de contagiá-los a uma
participação apreciativa, durante a própria enunciação” (Guimarães, 2000: 86).
Guimarães (1984: 87), distingue três itens como necessários para caracterizar a
técnica da narrativa popular: a primeira é o ambiente propício, que oferece uma
atmosfera tranqüila para o ouvinte. A segunda cita o uso das fórmulas, assim como “era
uma vez”, “diz-se que aconteceu um dia”, as quais criam uma expectativa sobre o que
irá ser contado. E a terceira é a narrativa em si, que deve ser contada de forma viva e
encantar o ouvinte, em que o narrador deve contar a história de forma linear psicológica.
Essas considerações são importantes para entender que, na ordem oral, a fala é
caracterizada pela presença corporal do destinatário, interagindo e co-construindo o
sentido do que é narrado.
“Cabe, portanto, refletir, neste momento, sobre o fato de
trabalharmos com narrativas transcritas do oral, que, pela,
natureza, deixam a situação do diálogo face a face para o
discurso escrito de interação mediada. Da simultaneidade do
corpo junto da palavra passamos para a sucessividade da
verbalização do não verbal”. (Guimarães, 2000: 88)
As narrativas populares estão muito ligadas às origens histórico-culturais e
também às circunstâncias sociais que envolvem as comunidades por onde circulam.
“Os contos conservam, basicamente, os “motivos” dos relatos
tradicionais, modificando-os ou enriquecendo-os com inovações,
provindas das peculiaridades regionais das diferentes
comunidades por onde são transmitidos de geração a geração
pelos narradores locais ou estrangeiros”. (Guimarães, 2000:
88)
Os analistas de discurso (Guimarães 2000: 91) vêem as diferentes formações
discursivas a partir de seu interdiscurso, ou seja, há um processo incessante no qual uma
formação discursiva é levada a incorporar elementos pré-construídos, produzidos fora
dela, com eles provocando sua redefinição e redirecionamento, repetindo, apagando,
esquecendo, substituindo elementos.
Em Sigrist (2000: passim), a autora reúne alguns causos regionais do estado de
Mato Grosso do Sul e em todos eles predominam características místicas ou fatos
inverossímeis, caracterizando assim, as narrativas folclóricas orais. E destaca: “Saber
ler a cultura popular é compreender as linguagens que ela se utiliza para movimentarse dentro da história”.
3. Metodologia de análise
Hoje há uma evolução dispersiva na análise do discurso. Não há uma abordagem
única e fechada, centrada numa só metodologia, num só tipo do corpus nem organizada
em torno de uma só grande escola. A natureza diversa do objeto discurso, os múltiplos
nele projetados, possibilitam a existência de escolas distintas e uma fundamentação
teórica com pressupostos mais amplos.
Não há uma conceituação teórica que aponte para um tipo de corpus. A seleção
depende do que queremos localizar, dos fenômenos que queremos analisar. A respeito
dos meios para se analisarem os discursos:
“A partir da perspectiva de que o social é constituído por uma
pluralidade de discursos que possuem temporalidades diversas,
identidades próprias e que interagem, transformando-se,
algumas vezes se hierarquizando, o recorte discursivo que o
analista deve efetuar para realizar seu trabalho é um momento
importante e de definitivas conseqüências para suas conclusões.
Este recorte constitui o corpo discursivo que será trabalhado”.
(Pinto: 1989: 57)
E esclarece também:
“Tendo, portanto, um corpo discursivo claramente delineado, o
analista está frente à frente com uma linguagem a ser decifrada,
com um conjunto de signos. Neste momento conta com dois
instrumentais: de um lado, tem a própria teoria sociológica e o
conhecimento histórico para lhe dar suporte, de outro, não pode
escapar do reconhecimento que se está deparando com uma
linguagem que tem uma lógica própria e que cria significados
através desta lógica”. (Pinto: 1989: 57).
Portanto, o analista de discursos deve ter a priori a construção de um corpo
discursivo, que atenda suas necessidades referentes ao assunto pesquisado e também a
organização dos textos enquanto realidade semântica.
Para realizar este trabalho, foi feita uma revisão bibliográfica pertinente ao tema, a
fim de fazer um resgate histórico cultural da região de fronteira do sul de Mato Grosso e
da região de Dourados. Selecionamos vários “causos” de Laquicho, alguns coletados
pelo professor Biasotto, através de história oral, outros coletados de livros que
contavam as histórias de Laquicho. Destas selecionamos dois “causos” apresentados em
duas versões para serem analisados. Também foi feita uma pesquisa sobre os conceitos
de discurso e “causo”, levando em consideração a metodologia usada para análise de
narrativas.Pois esta, foi a última etapa deste trabalho, cumprindo assim, o cronograma
de execução entregue no relatório semestral.
A qualidade das narrativas de Laquicho reside no humor. As histórias são muito
divertidas e contadas de forma direta pelo narrador, usando sempre a terceira pessoa
verbal. Os acontecimentos são, em sua totalidade, inverossímeis, mas tão ricos em
detalhes que fazem com que pareçam a mais absoluta verdade. A linguagem tem muitos
regionalismos e formas coloquiais da época na qual eram contadas.
O leitor certamente é envolvido pelo excelente contador de “causos” que foi
Laquicho e se divertirá muito com as peripécias acontecidas com ele. Ou melhor, que
ele dizia ter acontecido com ele.
Laquicho é um personagem envolvente. Um homem simples, sempre alegre,
mestre em contar “causos” absurdos, mas, que nem por isso deixava de ser um homem
sério. Pelo contrário, sua pessoa era respeitada e honrada por todos que o conheciam.
Suas histórias eram contadas, nas décadas de 30 e 40, época em que ele ainda era vivo, e
que as pessoas tinham como hábito se reunirem nas varandas ou frente das casas para
conversarem, pois televisão não era daquele tempo e rádio havia apenas um na cidade
de Dourados. No primeiro “causo” a ser analisado, temos a ocorrência de flashback, nas
lembranças de Laquicho em relação à noiva por repetidas vezes. Suas histórias
aconteciam sempre em ambiente rural, e se passavam com ele próprio, portanto
Laquicho era o protagonista. Seus conflitos geralmente eram com animais que o
afrontavam ou o colocavam em situação perigosa, mas, como ele fazia por merecer sua
fama de contador de “causos”, ele sempre acabava bem.
Em Koch (1997: 15), o discurso é caracterizado quanto ao plano da enunciação
como:
“... de ordem totalmente diversa: num determinado momento,
em determinado lugar, um indivíduo se “apropria” da língua,
instaurando-se como “eu” e , concomitantemente, instaurado o
outro como “tu”: é uma enunciação que pressupõe um locutor e
um ouvinte e, no primeiro, a intenção de influenciar o outro de
alguma maneira”.
Podemos dizer então que as narrativas a serem analisadas são todas consideradas
discurso, e serão analisadas de acordo com sua estrutura. A situação inicial, que
introduz a narrativa, a dificuldade apresentada que dará início a um clímax da narrativa,
o confronto entre o personagem principal com um adversário, que vem a ser o clímax
em si, a resolução encontrada pelo protagonista e a situação final de cada uma delas.
Serão descritos os tempos e pessoas verbais e explicado o porquê de cada um
deles em suas respectivas orações. Serão levados em consideração o contexto histórico,
as linguagens coloquiais e os costumes da época a qual as narrativas eram contadas.
III. DOIS “CAUSOS” DE LAQUICHO
Neste capítulo serão apresentados os dois “causos” selecionados para análise.
“Até aqui o Laquicho vai bem”, escolhido por ser o “causo” que leva o nome do livro
escrito pelo professor Wilson Biasotto sobre os “causos” de Laquicho e também por ser
o que mais leva ênfase nos livros que contam sobre Laquicho e suas histórias absurdas e
divertidas. O outro “causo” é uma história de pescador, selecionado por ter uma das
versões contada por um neto de Laquicho.
1. Até aqui o Laquicho vai bem
Esta primeira versão consta do livro de Astúrio Monteiro de Lima, cujo título é
Mato Grosso de outros tempos: pioneiros e heróis,(s. d.), que tem por objetivo não
especificamente relatar seus “causos”, mas sobretudo a identificação do contador.
Destaca a vinda de Laquicho para Dourados, o amor dele por Melica, um outro “causo”
referente a um relógio que está entremeado com a história principal e mostra também o
quanto Laquicho era um homem de honra.
“Longa fora a conversa que mantivera com o velho coronel Garcia, cuja amizade
conquistara naquele ermo do sertão de Mato Grosso, terra das lendas apavorantes, de
onças que comiam transeuntes desocupados, dos imensos sucuris de oitenta metros de
comprimento que engoliam, vorazmente, os boiadeiros com bombacha, botas e esporas.
Relatou tudo, em minúncias, o que lhe fora dado a conhecer naquelas bandas
fronteiriças do Brasil: as suas lindas e ondulantes coxilhas, salpicadas de capões de
matos verdejantes; os seus córregos de água cristalina que irrompem em terreno
declinoso, afluindo para a bacia do rio Paraná, numa sucessão de corredeiras
intercaladas de estirões levemente remançosos.
Citou, no entusiasmo da narrativa atraente, um ribeirão que conhecera,
denominado Sete Voltas, cujas voltas em determinado lugar têm a forma perfeita do
ubre de uma vaca holandesa bem nutrida.
Relatou, com visível euforismo, as caçadas que fizera com a parentalha,
minudenciando as cenas das antas grandalhonas, mortas a carabina nos
“cortados”entre um e outro capão de mato. Detalhou tudo das lembradas caçadas,
desde o “levante”ao “toque”da cachorrada, o “pulo” da caça desorientada ao “pintar
a orelha”fora do mato, até o certeiro tiro final.
Confirmou a sua fama de domador com o relato dos terríveis corcovos que
suportou sem usar os estribos na primeira encilhada, como era de seu hábito, ao
montar qualquer bagual.
A senhora do fazendeiro, gentil e bondosa, também tomava parte na conversa,
cuja roda se formara na sala.
Tomando fôlego, olhar penetrante, o viajeiro pôs-se a relatar os episódios
restantes.
Aparteando, em dado momento, a senhora disse ao marido:
_ Por que você não dá ao nosso amigo para amansar, o Quebra-Costelas?
Quebra-Costelas era o nome de um cavalo “aporreado” que se tornara célebre
naquela fazenda em virtude de ser considerado indomável. Já havia derrubado quase
uma dezena de peões, conhecidos como excelentes ginetes, mas que não conseguiram
agüentar mais que três pulos no afamado pingo corcoveador.
Nos seus corcovos desconcertantes, e em doidos ziguezagues, o bucéfalo
edemoniado já havia quebrado as costelas de dois peões de fama no lombilho; a
clavícula de um que muito bravateara, e a perna de outro que beijara a terra logo nos
primeiros pinotes.
Cheio de cuidados pelo amigo, que de tão longe viera, o Cel. Garcia espelhando
a sua reconhecida sinceridade, colocou o mineiro itinerante a par de tudo, pois
conhecendo de sobejo o cavalo diabólico, temia, em verdade, pela sorte do filho das
Gerais.
Laquicho ouviu em silêncio as explicações do coronel.
Sabia que era e conhecia a sua classe de domador, razão pela qual não se
intimidara com as considerações do fazendeiro. Era um homem tarimbado nas coisas
de domação...
Disse então, aos donos da casa, que tanta hospitalidade lhe prodigalizaram:
-Estejam certos que ao voltar de Campo Belo, após o meu casamento, falharei
dois meses aqui e domarei o Quebra-Costelas.
E, envaidecido das suas qualidades campeiras, ajuntou num sorriso rasgado de
confiança:
-Vou lhe tirar a cisma a “rabo-de-tatu”; irei surrá-lo desde a ponta do focinho
até o “encavador’ do rabo.
Concluiu, por fim, com estas palavras:
-A domação não custará nada. Desejo, apenas, retribuir um pouco o bom trato
que aqui já recebi por duas vezes. Aguardem a minha volta...
Fez o cálculo da viagem e das falhas: trinta dias.
Na fronteira, entre os parentes, deixara tudo acertado.
Estava refeito das canceiras.
Devia viajar. Qual o seu itinerário? Minas Gerais, via Santana-Uberaba-Campo
Belo.
Partiu numa madrugada.
Ia satisfazer, na terra distante, o mais sério compromisso de sua vida: casar-se.
Quando partira rumo a Mato Grosso, dissera à noiva querida que voltaria dentro
de cinco anos para o casamento, e, agora regressava orgulhoso e satisfeito, para
cumprir com a palavra empenhada na hora cruciante da despedida.
Quando se aprestava para o prosseguimento da viagem, Laquicho tomou uma
resolução: deixar na fazenda o seu cavalo que ainda estava basteirado e vencer o
complicado itinerário, cavalgando, unicamente, o seu burro pra tudo e de confiança.
Essa medida, além de tudo, serviria também de garantia do seu regresso, para a
prometida doma do Quebra-Costelas.
O dono da fazenda, cavalheirescamente, encheu-lhe o alforje de queijo,
rapaduras, costelas fritas de porco misturadas com farinha de milho, e tudo o mais
para que nada faltasse durante o trajeto ao mineiro amigo e de boas falas, que lhe
conquistara a amizade e a estima.
O espirituoso galhofeiro, o homem das lorotas e dos chistes, vai vencendo a
vastidão enorme, trotando em seu burro de boa andadura. É um cristão quase que
pervertido, varando as brenhas, falando consigo mesmo, como que acarinhando no
pensamento uma profusão de idéias, para a grande e emocionante festa da chegada, a
festa do retorno dignificante e enobrecedor.
Às vezes, gargalha baixinho, para o eco sibilante ir furar o âmago da mata negra
e forfalhante.
Recordava-se, assim, do dia em que partira, da descrença dos amigos, da pouca
seguridade dos parentes na volta a seus pagos, tal como havia prometido poucos dias
antes do audacioso arranco, imposto pelo selvagerismo das terras mato-grossenses.
Meneou a cabeça, suspirou profundamente ao vir-lhe à lembrança a lágrima
furtiva que brotara nos olhos serenos e doces, como pérolas de beleza rara, da noiva
amada, que sabia nele confiar, acima tudo e de todos.
Sentiu mesmo, enquanto aperta (...)1, o calor da mão amiga naquele instante duro
da despedida em frente à1[1] casa, ao largo do terreiro varrido...
1[1]
Esta frase, como todo o texto, foi rigorosamente transcrita. Respeitamos inclusive a falha de
impressão contida no texto em referência.
Mas desviou o pensamento. Se estava regressando, para que reviver o passado,
aumentando a ansiedade e o sofrimento? E pôs-se a assoviar uma velha e
enternecedora moda campeira.
No terceiro dia de viagem, Laquicho fazia a travessia do paranaíbae, em plena
terra mineira, o seu burro, um pouco varado, caía em cheio no pasto de capim gordura,
tão abundante nas plagas do triângulo zebuíno do grande Estado montanhês.
Cheio de saudades, coração aos saltos, o mineiro andante perlustrava as mesmas
paragens da saudosa terra natal e, ia, numa seqüência recordativa, relembrando os
caminhos, as cabeceiras de ribeirões, os cômoros, as voltas de estradas, as
encruzilhadas, as fazendas e os panoramas que deslumbraram os seus olhos há mais de
quatro anos, quando, numa arrancada cheia de arrojo, demandava rumo a Mato
Grosso, a fim de incorporar-se aos parentes, para início de uma nova vida.
Sabia que voltava para junto de sua noiva, dos parentes amoráveis, dos seus
amigos, do seu povoado, antevia mesmo um largo contentamento, uma alegria
inusitada, ao adentrar as ruas de Campo Belo. Entrementes, sentia dentro de si, uma
saudade que se repartia entre um e outro dos extremos da estrada, duas vezes
percorrida.
Uma dúvida, porém, o assediava, enquanto pensava nos pequenos negócios que
deixara em Mato Grosso: a possibilidade da noiva não mais o estar esperando, o que
seria para si um golpe terrível.
Fustigou a montaria, e, como por encanto, o pensamento espezinhador foi
totalmente desfeito pela sublimação de confiança nela depositada.
Depois de passar por Uberaba, comprou outro animal numa fazenda conhecida,
deixando ali o seu burro com recomendação especial para que o conservassem em boa
pastagem, pois iria utilizá-lo na volta para uma viagem que seria engalanada pelos
galanteios e pela ternura de quem se apossara definitivamente de seu coração brando e
sensível.
Tocou de batida firme, pressuroso e resoluto.
Mais uns dias de marcha, e reconheceu o estirão que atravessava.
Suspirou entre alegre e receoso. Botou os olhos em derredor.
Estava chegando ao povoado de Campo Belo.
Ao entrar na boca da primeira rua, encontrou um amigo de infância. Abraçou-o
comovidamente, e não se conteve, largando a pergunta, cuja resposta bem poderia
matá-lo de dor:
-E a minha noiva?
O amigo vacilou:
-Tá ti esperando, lá na mesma casa... e muito mais bonita do que antes!...
O chegante sorriu aliviado. O coração saltitante aquietara-se.
O informante voltou à carga. Queria contentar ainda mais o companheiro de
infância, e ponderou, agitando os braços:
-pode ta certo, rapaiz, essa moca é mais firme qui a Serra da Mantiqueira!
A chegada do moço à casa da noivaapaixonada foi um espetáculo quase
indescritível.
Todos choraram de alegria.
Por fim, vencendo o brutal impacto, a donzela robusta, carregando vinte e duas
primaveras floridas, gaguejou uma frase:
-Tava ti esperando!...
O amigo não o enganara: ela estava mais bela do que nunca... e muito mais
consciente ainda das responsabilidades que assumiria com o casamento.
Um mês depois, realizava-se o enlace matrimonial.
Festão de arromba no povoado. Os nubentes não chegavam para os abraços. E
para os elogios também.
O comportamento de ambos fora magnífico, e esse fato auspiciava uma vida
repleta de ventura, paz e harmonia.
Vinte dias depois, os recém-casados despediam-se dos parentes e amigos,
iniciando, imediatamente, a longa e penosa viagem rumo a Mato Grosso.
Batendo a mesma estrada, viajava o jovem casal em marchas curtas evitando,
assim, maiores canseiras, até que atingiram a fazenda onde havia ficado o burro de
confiança do moço mineiro.
Em Uberaba, fizeram um razoável descanso, para dias depois, atravessarem o
Paranaíba e chegarem a Santana.
Ao longo da viagem, solícito e atencioso, Laquicho interessou-se em demonstrar
à esposa o quanto ficara a dever, em justificável gratidão, ao Cel. Garcia e família; daí
sua inabalável decisão de domar o Quebra-Costelas – seria a paga, embora
insignificante, pela régia hospitalidade recebida.
A falha na fazenda por alguns dias para reposição das montarias era mais que
necessária, e nada melhor do que o aproveitamento desse tempo, para dar
cumprimento ao que prometera.
Certa manhã, falou ao dono da casa:
-Coronel, vou encilhar o cavalo!...
-Muito bem! Respondeu-lhe o amigo hospedeiro.
A jovem esposa, que já ouvira, entre os picantes gracejos da peonada, a história
do cavalo indomável, ficou desorientada e começou a pedir, em voz súplice, ao marido,
que desistisse do temerário intento.
-Não é posível atender ao seu pedido; jácumprimos um compromisso de amor,
agora deixe que eu cumpra um compromisso de gratidão.
Estavam aboletados em uma boa casinha a uns quinhentos metros da fazenda,
onde o Cel. Garcia os acomodara, e foi para lá que o Laquicho, diante de duas dezenas
de olhares curiosos e incrédulos, levou o pingo desabusado.
Tocou-o no capricho, aparou-lhe cuidadosamente os cascos e começou a
trabalha-lo para o necessário desaguache.
No segundo dia, sem dar ouvidos às rogativas da meiga consorte, arreou o
cavalo com extremo cuidado, montando-o, tranqüilo e corajosamente.
De saída, o manhoso aporreado deu alguns pinotes para o alto, para a esquerda,
para a direita, depois passou a rodopiar em corcovos consecutivos procurando tontear
o ginete.
Vendo que nada conseguia, resolveu correr a toda disparada, campo a fora,
para, mais distante, de súbito surpreender o domador em negaceios corcovos rasteiros,
em volteios bruscos e rasantes, onde os pés do mineiro guapo se arrastavam pelo chão,
amassando a macega e destruindo o al;ecrim ressequido.
Iam já, muito longe, em repetidas tentativas de sabridas disparadas contidas a
custo pelo pulso firme do domador, quando o nosso herói lembrou-se de sua querida e
fiel companheira.
Estava certo que ela, com a demora prolongada, já estaria a essas horas
rasteando na sua batida em angustiantes sobressaltos, ansiosa por encontrá-lo vivo ou
morto naqueles campos imensos de baixadas e infindáveis coxilhas. (Ao contar essa
passagem, o Laquicho limpava a garganta – sinal conhecido para largar a peta).
Buscando na imaginação um meio de sossegá-la, teve a retentiva do
aproveitamento de, na hora exata em que o bagual se apegava a corcovos baixos num
areal apropriado, registrar a sua passagem por ali.
Tirando o pé do estribo, firme no lombilho, mesmo ante os pulos rápidos e
desconcertantes do Quebra-Costelas, deixou na areia fofa o seguinte aviso: “ATÉ
AQUI VOU BEM”.
Não se enganara o destro e corajoso domador, pois a meiga e dedicada senhora
veio ter ao areal, encontrando ali, em letras legíveis, o genial aviso do marido, com o
que se tranqüilizou, voltando para casa.
Quase ao meio-dia, lá vinha chegando, alegre e vitorioso, o Laquicho e o
desabusado e famoso Quebra-Costelas.
O indóci aporreado estava transmudado: mansarrão, orelhas caídas, lavado de
suor, em passadas lentas chegava ao ponto de partida.
Por todo o corpo, inclusive focinho e nascedouro do rabo, trazia sinais de
esporeadas e rabo-de-tatu.
Laquicho continuou a empreitada: encilhadas diárias, banho frio pela manhã,
galopeada ao entardecer, tiração de cócegas, e volteio em pequeno círculo para
obediência ao freio.
Nunca mais pulou o potro, julgado sem possibilidades de domação.
Estava dominado.
Era um rei que caía...
Quinze dias após, refletindo serenidade no olhar, o Quebra-Costelas, trotando
macio, elegante no porte, levava até à sede da fazenda a esposa de seu domador.
Esta, orgulhosa da façanha do companheiro, deu-se ao luxo de levar na garupa
uma saca de abobrinhas para presentear à senhora do fazendeiro.”
Começaremos nossa análise, observando que já no título “Até aqui o Laquicho
vai bem” já podemos destacar uma das qualidades do personagem principal, o
Laquicho. Ele sempre saía vencedor das peripécias por ele contadas.
Guimarães (2000: 101) nos diz que:
“nos chistes é comum valer-se de personagens com contornos
bem definidos, com defeitos ou fraquezas que caracterizam
certos tipos.Tornam-se, pois, esses defeitos como pontos
negativos, ou como insuficiências, que no decorrer do conto
devem ser corrigidos ou eliminados”.
Nos “causos” de Laquicho as fraquezas sempre pertencem aos animais ou a um
outro personagem que confronta com ele. Como é o caso do cavalo Quebra-Costelas
que, para definir sua rivalidade com Laquicho ganha vários adjetivos: aporreado,
bucéfalo endemoninhado, cavalo diabólico, desabusado. Todos os adjetivos pejorativos
eram para o cavalo e nunca para Laquicho.
Como situação inicial temos a conversa de Laquicho com o coronel Garcia
relatando em minúcias sobre suas caçadas e também da sua fama de domador. Essa
conversa é narrada no pretérito perfeito, que marca uma atividade acabada,
caracterizando uma das qualidades de Laquicho que era não deixar nada por fazer.
Podemos perceber também o regionalismo da época: “ terra das lendas apavorantes, de
onças que comiam transeuntes desocupados, dos imensos sucuris de oitenta metros de
comprimento, dos boiadeiros de bombacha, e também das gírias usadas na época: toque
da cachorrada, pintar de orelha.
Em seguida temos a apresentação da senhora do fazendeiro que é caracterizada
como gentil e bondosa que entra no enredo aparteando a conversa do marido e do
hóspede para dar início ao fato principal deste “causo” e que desencadeará a seqüência
da narrativa, a domação do cavalo Quebra-Costelas. O diálogo entre ela e o marido,
assim também como a resposta de Laquicho, é de forma direta.
Ao referir-se ao cavalo Quebra-Costelas, o narrador apresenta todas as
características pejorativas ao animal, “aporreado, indomável, pingo corcoveador,
bucéfalo endemonhiado”, enfim, usou todos esses adjetivos para confrontar o animal
com Laquicho, o herói da narrativa, e a terem um julgamento negativo do cavalo.
Afinal, quanto mais perigoso o adversário, maior será o valor do herói.
Já temos, então, a situação inicial e o confronto, que parte da necessidade de o
Laquicho agradecer a hospitalidade recebida pelo coronel Garcia. A resposta a qual o
Laquicho dá ao coronel e sua senhora aceitando a domação do cavalo é de forma direta
e o tempo verbal é o futuro do presente, porque ele aceita domar o cavalo mas não de
imediato e sim, quando voltar de Campo Belo onde irá cumprir um outro compromisso
acertado antes da vinda para Mato Grosso, o casamento com sua amada Melica.
Na partida de Laquicho para Campo Belo, quando ele se despede do coronel
Garcia, o narrador caracteriza de forma específica o contador de “causos” quando diz: O
espirituoso galhofeiro, que significa uma pessoa gracejadora, brincalhona, zombeteira,
o homem das lorotas e dos chistes, que nada mais é do que uma conversa fiada, uma
piada. Durante a viagem de retorno a Minas, o narrador descreve a paisagem, que nos
causos de Laquicho, são quase todas externas, descreve o relevo das estradas, de modo a
levar o leitor a diferenciar o estado de Mato Grosso e o de Minas Gerais.
O encontro de Laquicho com a noiva, que o esperava como o prometido, foi um
ponto muito emocionante na narração. O narrador se utiliza de um discurso direto entre
Laquicho e um amigo de infância para caracterizar a noiva. –Tá ti esperando, lá na
mesma casa... e muito mais bonita do que antes!... e também: - Pode tá certo rapaiz,
essa moça é mais firme qui a Serra da Mantiqueira! Na segunda frase, o narrador
utiliza-se de uma comparação para afirmar a fidelidade e o amor de Melica a Laquicho.
Podemos dizer até que é um conceito moralizante, e com intenção de chamar a atenção
do leitor para os atributos positivos daquela que será companheira de Laquicho até o
final de sua vida. Uma outra frase do narrador que tem efeito moralizante quanto ao
casal, e que é apresentada logo após o enlace matrimonial é: O comportamento de
ambos fora magnífico, e esse fato auspiciava uma vida repleta de ventura, paz e
harmonia. Com isso o narrador conclui que o casamento de Laquicho e Melica seria
sólido, tal qual eram os casamentos da época, em que a mulher sempre era fiel e
obediente ao marido, além de boa dona de casa e mãe.
Partimos então, para o clímax da narrativa, o confronto em si. Na volta de Minas,
após o casamento, acontece então o confronto entre Laquicho e o Quebra-Costelas, e é
neste ponto que acontece a característica mais marcante nos “causos’de Laquicho: o
absurdo. Vários peões, considerados muito bons cavaleiros já haviam tentado domar o
cavalo e nada haviam conseguido a não ser tombos, machucados, costelas e clavículas
quebradas. Mas, como Laquicho é o herói de todos seus “causos”, ele encara esse
desafio.
Certa manhã, Laquicho disse ao dono da casa:
- Coronel, vou encilhar o cavalo!...
- Muito bem! Respondeu-lhe o amigo hospedeiro”.
Nesta passagem, o narrador utilizou o novamente o discurso direto, registrando a
fala integral do personagem, utilizando o verbo na terceira pessoa do presente do
indicativo na voz de Laquicho e na terceira pessoa do pretérito perfeito a fala do
coronel. Laquicho levou o cavalo para sua casa, mesmo com os apelos da esposa, que já
sabia da terrível fama do cavalo. Começou a preparar o cavalo para o “necessário
desaguache”. O narrador emprega a palavra necessário, porque realmente o Laquicho
necessitava domar o animal para cumprir a promessa feita ao coronel Garcia, e também,
porque não poderia simplesmente montar o cavalo e sair a galope sem antes exercitar o
cavalo que deve ter passado muito tempo desocupado, exatamente por ser indomável e
ninguém conseguir montá-lo.
No dia seguinte, Laquicho arreou o cavalo com extremo cuidado, montando-o,
tranqüilo e corajosamente. Aqui, o narrador usa a palavra extremo como uma hipérbole
para chamar a atenção do leitor para o quanto o Laquicho foi cuidadoso em relação ao
Quebra-Costelas. Em seguida ele usa os adjetivos tranqüilo e corajoso para identificar
as qualidades pessoais de Laquicho. No parágrafo seguinte, novamente o narrador usa
adjetivos pejorativos para se referir ao cavalo, que tentava derrubar Laquicho e descreve
ao leitor todas as tentativas do cavalo em derrubar Laquicho: pinotes para o alto, para a
esquerda, para a direita, e rodopios em corcovos consecutivos. Mesmo assim, Laquicho
continuava montado, deixando o cavalo ainda mais arredio que correu a toda disparada
e tentando novamente derrubar seu domador com corcovos rasteiros em volteios
bruscos e rasantes. Mas como Laquicho era muito esperto, tirou proveito dessa atitude
do cavalo para escrever na areia fofa por onde passavam: “ATÉ AQUI VOU BEM”.
Esta famosa frase de Laquicho foi escrita para sua esposa Melica, a qual ele tinha
certeza de que iria rasteá-lo, ansiosa por encontrá-lo vivo ou morto. De fato, quando
Melica encontrou a frase escrita no areal, tranqüilizou-se e voltou para casa.
Na chegada de Laquicho com o cavalo, o narrador descreve somente o estado
físico do cavalo, (o pior possível, é claro): mansarrão, orelhas caídas, lavado de suor,
com sinais de esporeadas e rabo-de-tatu. O que significa que Laquicho nada sofreu,
apesar das inúmeras tentativas do Quebra-Costelas em derrubá-lo. Essas características
atribuídas ao cavalo demonstram que, apesar dele ter iniciado como um cavalo
indomável, ao final das contas acabou domesticado e submisso ao seu domador,
tornando-se obediente dali por diante e não mais fazendo valer sua fama de “QuebraCostelas”. E isso o narrador descreve bem quando diz: Estava dominado. Era um rei
que caía...
Sendo assim, eleva o heroísmo de Laquicho frente a seu adversário. Pois quanto
mais perigoso o adversário, maior o valor do herói.
A segunda versão consta no livro “Até aqui o Laquicho vai bem”, do autor
Wilson Valentim Biasotto(1998) e serão identificadas as semelhanças e diferenças
existentes entre esta e a primeira versão.
“No caminho de Mato Grosso a Minas, contava-se a história de um potro
indomável, um cavalo aporreado. Ninguém parava em cima; era um cavalo guerreiro,
até a maneira dele pular era diferente, não ficava pulando e rodeando: ele seguia em
linha reta, corcoveando, ladeando. Não tinha como ficar em cima. Por isso o cavalo
ganhou grande fama. Dizem que tinha matado uns oito peões.
Laquicho ficou sabendo dessa história no pernoite que fez em uma fazenda,
quando ia buscar Melica. Após o jantar, todos sentados na varanda, os fazendeiros e os
vizinhos não tinham outro assunto, todos falavam no majestoso tordilho.
No outro dia, ao despedir-se, Laquicho agradeceu aos hospedeiros e prometeu:
na volta de Minas passaria por lá novamente e montaria o potro indomável. Só não o
fazia naquele momento porque tinha um compromisso muito maior: buscar Melica.
Dito e feito. Num sábado, pela hora do almoço, Laquicho chegou com a
companheira. Almoçaram, descansaram um pouco, e o Laquicho foi logo dizendo que
queria cumprir a sua promessa. Perguntou onde estava o tordilho.
O fazendeiro, sem muito entusiasmo, pois aquele não seria o primeiro vivente
disposto a montar o potro, pediu que o Laquicho esperasse até o domingo. Nesse dia
toda a vizinhança se reuniria ali na expectativa de que alguém se aventurasse a montar
o tordilho.
Tarde de domingo. Peões, moças bonitas, a vizinhança toda ali na fazenda.
Parecia um dia de festa. O cavalo estava preso no curral, mas ninguém conseguia laçálo. Então o Laquicho falou: “Olha, vou deixar a porteira semi-aberta e ficar em cima,
vocês soltem o bruto, quando ele passar eu saio em cima”.
Assim foi feito. Quando os peões livraram um caminho no curral, o tordilho saiu
desembestado. Ao passar pela porteira, o Laquicho caiu-lhe no lombo. Incrível!
Tamanha era a rapidez do cavalo que ninguém soube explicar como Laquicho
conseguiu essa proeza, ainda mais montado em pêlo, sem rédea, sem nada.
O certo é que a platéia pouco vira. O cavalo disparou deixando um rastro de
poeira.
A peonada presente, a maior parte com os cavalos encilhados, saiu atrás. “Já
caiu” – diziam uns. “Vamos pegar logo” – repetiam outros.
Foi indo, foi indo, a turma começou a se preocupar... Laquicho também estava
preocupado. Não preocupado consigo, pois apesar dos corcoveios do cavalo, se
agüentava bem. Sua preocupação era com Melica. O que estaria ela pensando lá no
meio daquela gente, todos estranhos? Ele logo imaginou que, com toda a certeza, a
peonada sairia atrás dele. Então, o que fez? Começou a deixar recado. Quando
encontrava um lugar propício, em cada corcoveada, cada ladeada que o cavalo dava,
ele, com o dedão do pé, escrevia na areia: “Até aqui o Laquicho vai bem”.
Seguindo os recados, os peões perceberam que o cavalo estava cansado: o último
recado estava em letras góticas, sinal que o Laquicho, tivera tempo para caprichar na
letra.
Mais um pouco, a peonada encontrou o Laquicho com um lenço, enxugando o
suor da cara do cavalo, que deixara exausto.
Enquanto a platéia o cumprimentava pela idéia de escrever “Até aqui o Laquicho
vai bem”, ele lembrou-se de que era analfabeto.”
Observamos, na versão de Biasoto, que a narrativa é mais curta, sem detalhes
minuciosos, sobre a vida de Laquicho e os personagens secundários tornam-se pouco
importantes na narrativa. Ao contrário da primeira versão, escrita por Lima. Nesta, o
leitor fica conhecendo a história da vinda de Laquicho para Mato Grosso, sobre os
lugares por onde ele passou, sobre o Coronel Garcia, dono do cavalo indomável, e
principalmente sobre sua história de amor com Melica.
Na segunda versão, o narrador refere-se ao cavalo apenas como potro indomável,
um cavalo aporreado. Embora os adjetivos pejorativos caracterizando o cavalo
diminuam muito, chega-se até mesmo a dizer que o cavalo era um guerreiro por não se
deixar domar. Portanto, logo de início, temos o cavalo como herói, deixando o Laquicho
como um desafiador do cavalo guerreiro, e não como um famoso domador de cavalos,
como na outra versão.
No segundo parágrafo, podemos observar que o narrador resumiu muito a história
de como Laquicho ficou sabendo sobre o cavalo, o qual o narrador dá o adjetivo, neste
parágrafo, de majestoso tordilho. Novamente um outro adjetivo de qualidade e não
pejorativo como na outra versão. Novamente desafiando o personagem principal da
narrativa, Laquicho. Dando a entender que o cavalo era superior e não se deixaria domar
por ele.
Ainda nesse parágrafo, a frase Após o jantar, todos sentados na varanda, o
narrador chama a atenção para o tempo que se passou a história. Hoje, as pessoas não
têm mais o hábito de reunirem-se na varanda para conversar. Portanto esse é um
passado bem distante, marcado por essa característica comum na época em que
Laquicho viveu em Dourados.
No terceiro parágrafo, Laquicho promete domar o cavalo quando voltar de Minas,
após o casamento com Melica. Na primeira versão esse trecho se dá com o diálogo
direto entre Laquicho e o coronel Garcia, já nesta, a narração é de forma indireta e
resumida.Passando em seguida para o ápice da narrativa, a volta de Laquicho de Minas
a Mato Grosso e o cumprimento da promessa: amansar o tordilho.
No quinto parágrafo, novamente Laquicho é colocado como um personagem
secundário, quando o narrador usa a frase: O fazendeiro, sem muito entusiasmo, pois
aquele não seria o primeiro vivente a montar o potro. Nesta oração, Laquicho é visto
pelo coronel como um peão qualquer que muito provavelmente também não conseguiria
domar o cavalo, assim como outros já haviam tentado. Diferente da primeira versão, na
qual ele sempre se mostra um domador superior aos outros e ele desafia o cavalo, e não
é desafiado pelas pessoas, como nesta segunda versão.
Quando de fato Laquicho montou o cavalo, nesta versão se deu de forma direta e
sem nenhuma preparação do cavalo como na versão anterior. E, assim que Laquicho
montou o cavalo “em pêlo, sem rédea, sem nada”, o que demonstra a primeira diferença
de Laquicho em relação aos outros peões.
No parágrafo em que o cavalo dispara com Laquicho na tentativa de derrubá-lo, é
parecido com a mesma parte da história na primeira versão, continuando mais resumida.
As tentativas do cavalo em derrubá-lo e a preocupação de Laquicho com Melica que
havia ficado aflita esperando sua volta permanecem. Muda quando ele diz deixar o
recado para os peões que saem atrás dele e não para Melica que sai para rastreá-lo. E a
frase escrita na areia fica: “Até aqui o Laquicho vai bem” e não “Até aqui vou bem”,
como na primeira versão.
Para encerrar a história o narrador comenta que a última frase escrita por
Laquicho na areia foi em letras góticas, justificando que ele tivera tempo para caprichar
na letra, subtendendo-se que o cavalo já estaria domado. E também descreve que ao
receber os cumprimentos da platéia Laquicho lembrou-se de que era analfabeto. Ou
seja, dá-se aí a característica marcante nos “causos” de Laquicho, o absurdo e também,
o humor, é claro.
2. “Causo de pescador”
Este “causo” evidencia, um absurdo hilário contado nas histórias de Laquicho
como verdade, característica marcante dos “causos”de Laquicho. A primeira versão é
destacada do livro “Os pioneiros: viajantes da ilusão” da autora Maria Goretti Dal
Bosco.
“Eu estava pescando num rio ruim de peixe. Aproveitava e tomava uma
cachacinha. Na beira do rio tinha uma roçada nova, onde dava muita rã.
Fui pegar algumas para fazer isca. Eu estava na espera pra dar o bote na rã.
Nisso, uma cobra jibóia também estava de olho.
Então, a cobra pulou primeiro e abocanhou a rã.
Pensei um pouco e fiz o seguinte: atirei o copo de cachaça nos olhos da cobra.
Ela largou a rã.
Com essa rã de isca peguei um dourado de 12 quilos.
Meia hora depois, bateram nas minhas costas, olhei pra trás e lá estava a cobra
com duas rãzinhas na boca, querendo trocar por uma garrafa de cachaça”.
Começamos a análise dessa primeira versão do “causo” pescador, destacando o
próprio Laquicho como narrador. O causo é narrado de forma direta, sem rodeios,
objetivamente. No primeiro parágrafo, ele começa com a oração no pretérito imperfeito
na primeira pessoa do singular, indicando que ele estava praticando a ação: Eu estava
pescando num rio ruim de peixe. Em seguida, a próxima oração indica o estado
emocional, sempre calmo, de Laquicho: Aproveitava e tomava uma cachacinha. Ou
seja, mesmo o rio sendo ruim de peixe, ele pescava lá. Afinal, a pesca para Laquicho era
um lazer. E, a cachacinha vinha como complemento da pescaria. Ainda no mesmo
parágrafo ele descreve o ambiente onde estava. Ambiente externo, como ocorre em
quase todos os seus “causos”, na beira de um rio onde tinha uma roçada nova, fala
também que ali era um lugar onde dava muita rã. A rã certamente foi introduzida neste
primeiro parágrafo, porque será o objeto de disputa com o animal que confrontará com
ele, como em quase todos os seus “causos”. Podemos afirmar que esta é uma das
características marcantes dos “causos” de Laquicho.
O segundo parágrafo também é iniciado por um verbo no pretérito perfeito, e a
narrativa continua sendo realizada na primeira pessoa do singular. Aparece aqui o
motivo da rã estar na história. Serviria de isca para a pescaria. Em seguida, o confronto
da narrativa: uma cobra jibóia que também estava de olho na rã para alimentar-se.
No instante em que a cobra abocanhou a rã, antes de Laquicho pegá-la para isca,
acontece o absurdo da história. Mesmo com a rapidez com que uma cobra dá o bote,
Laquicho consegue pensar um pouco para tomar a decisão de atirar cachaça nos olhos
da cobra. Na narrativa, esse parágrafo é descrito também de forma direta no pretérito
perfeito: atirei o copo de cachaça nos olhos da cobra. E, como resultado da investida de
Laquicho contra a jibóia, ela larga a rã, a qual Laquicho consegue fazer de isca e pescar
um dourado de doze quilos. Qualquer outro pescador, pescaria um peixe de
aproximadamente três a quatro quilos, mas como foi Laquicho o pescador da história, é
certo que algum exagero haveria de ter.
Como situação final da narrativa, temos a característica mais marcante em todos
os seus “causos”. A situação sempre termina de modo muito favorável ao Laquicho:
nesta narrativa a cobra acaba por se viciar na cachaça e tenta negociar com Laquicho
duas rãzinhas por uma garrafa de cachaça.
Este último parágrafo descreve a situação absurda que chamava a atenção dos
ouvintes dos “causos” de Laquicho e que mesmo sendo claramente impossíveis de
acontecer, ganhavam um tom de verdade e tornavam-se possíveis nas narrativas de
Laquicho.
A segunda versão do “causo” pescador tem como narrador um neto de Laquicho,
Nielson Cristian Soorensen Júnior, filho de Dona Cecília Faria Soorensen. Versão esta,
contada em entrevista ao professor Biasoto em setembro de 1995. Observaremos aqui o
estilo familiar em contar “causos”.
“E Laquicho apareceu pra mim na beira do rio e falou assim: “meu neto dia que
você estiver pescando, você carrega pelo menos um pedacinho de fumo e uma garrafa
de pinga. Você está isento de todo mal”, tudo bem, tô pescando, tá tranqüilo, monte de
peixe. Quando fui pegar uma perereca para fazer isca pra pegar um dourado ou um
pintado, quando levei a mão para pegar uma perereca, tinha uma cobra, que é essa que
o senhor tá contando. Pulou na frente e pegou a perereca. Como eu tava com um copo
de pinga na mão eu joguei no olho na cobra. Ela largou a perereca e sumiu por que
ardeu. Peguei a pererequinha ponhei no anzol pá na corredeira peguei um dourado de
uns dezoito quilos mais ou menos. Daí a pouquinho, tô tentando vê se pego outro,
cutucou nas minhas costa. Quando eu olhei para trás a cobra com duas pererequinhas
para trocar por uma garrafa”.
Nesta segunda versão do “causo” Pescador, temos como narrador um neto de
Laquicho, Nielson, que, como podemos observar, obedece à mesma estrutura das
narrativas de Laquicho para contar “causos”. Nesta história, o absurdo começa a
acontecer logo na primeira frase da narrativa, “E Laquicho apareceu para mim na beira
do rio e falou assim...”. Nielson usa o verbo aparecer e falar na terceira pessoa do
singular no pretérito perfeito, indicando uma ação acabada onde seu avô já falecido há
mais de cinqüenta anos aparece para lhe dar umas dicas sobre pescaria. Segundo
Nielson, a aparição do avô tinha por finalidade lhe dar um conselho sobre pescaria, uma
vez que, segundo se dizia Laquicho era ótimo em tudo que se propunha fazer e, como
pescador, não era diferente. Quando Nielson reproduz a fala de Laquicho, usa do
discurso direto. E, quanto ao conselho:“meu neto, dia que você estiver pescando você
carrega pelo menos um pedacinho de fumo e uma garrafa de pinga. Você está isento de
todo mal”. Nesta fala, o pedacinho de fumo e a garrafa de pinga representam a forma
com que as pessoas mais velhas se habituavam a resolver determinadas dificuldades,
pois, o fumo e a pinga faziam parte dos costumes adotados na resolução de alguns
males, ambos poderiam servir como remédio para uma situação de emergência, a
fumaça do fumo para espantar insetos e, no caso de um corte na pele, a pinga servia
para desinfectar o local atingido. Na outra versão, aparece a cachaça como bebida e não
a pinga como nesta. A diferença está em que a cachaça é uma palavra mais antiga que
designa a aguardente extraída da cana. Em seguida, aparece na fala de Nielson, uma
linguagem coloquial falada: “tudo bem tô pescando tá tranqüilo”. Aqui, demonstra que
assim como o avô, ele também era uma pessoa calma. Na oração que aparece em
seguida, podemos observar uma diferença desta versão em relação à primeira: monte de
peixe quando fui pegar uma perereca ... Na primeira versão o rio no qual Laquicho
pescava era ruim de peixe e nesta, havia um monte de peixe. Aqui Nielson pega uma
perereca, na outra versão, Laquicho pega uma rã. A parte da narrativa que mostra a
cobra pegando a isca permanece igual. Assim também fica a atitude de jogar pinga no
olho da cobra, tendo a mesma resolução: a cobra soltou a perereca.
Quando Nielson continua dizendo: ...peguei a pererequinha ponhei no anzol pá
na corredeira... novamente ele usa a linguagem coloquial em sua fala, demonstrando
seu estilo de narrar o “causo”. Na frase seguinte, há uma característica em comum com
a outra versão, o absurdo: ...peguei um dourado de uns dezoito quilos mais ou menos,
esse tipo de peixe atinge no máximo vinte quilos de peso. Só mesmo um neto de
Laquicho poderia conseguir pescar um quase em seu peso máximo.
O resultado da história, com a cobra tentando trocar duas pererequinhas por uma
garrafa de pinga, permanece no mesmo sentido da primeira versão. Podemos observar
então que, com algumas sinonímias e algumas variações, Nielson respeita a estrutura
básica dos “causos” contados pelo avô.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos dizer que identidade cultural é um conjunto de hábitos, costumes,
comportamento social, obras artísticas, literárias e folclóricas que formam uma
sociedade. Neste trabalho procuramos resgatar uma parte da nossa identidade cultural
sul mato-grossense, em específico da região de Dourados.
Objetivando resgatar nossas raízes culturais, fomos em busca de um dos pioneiros
de nossa região que foi muito popular na Dourados dos anos 30 e 40. Com isso,
resgatamos não só seus “causos” hilariantes, mas também uma retrospectiva dos
primórdios dessa região de fronteira do sul de Mato Grosso. Nossos colonizadores, a
Companhia Mate Laranjeira, as festas animadas pelos nossos vizinhos paraguaios, que
mesclam sua cultura com a nossa. Enfim, um tempo onde as pessoas viviam de forma
simples e harmoniosa.
Destacamos neste trabalho, os “causos” de Liberato Leite de Farias, o Laquicho,
que foram contados e recontados em diferentes versões, de memória, através da
oralidade através de pessoas que foram próximas a ele ou que pertenciam à família.
Após a leitura de vários “causos” selecionamos dois, em duas versões cada para serem
analisados, levando em consideração os conceitos sobre análise de narrativas.
Identificamos através dessas narrativas, algumas categorias da análise do discurso
da região fronteiriça entre Brasil e Paraguai, que muito diz respeito à memória de nossa
região, em específico de nosso município.
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ANGÉLICA APARECIDA LARA DA SILVA MORAES