REcc;Ao (REGEN CIA) E VALENCIA NUMA ANALISE DOS COMPLEMENTOS VERBAlS PREPOSICIONADOS DO PORTUGuES. The object of this paper is to discuss the d!fference between the concepts of grammatical Dependency (Rektion) and Valenz, established by Helbig for the German language, in order to apply the conclusions of this discussion to the verbal complements known as Actant 4 in the Valence Grammar Theory. ABSTRACT: O. Introdw;ao Do ponto de vista fun<;ional, a gramatica de uma lingua se caracteriza pela natureza especifica das restril;oes combinat6rias dos monemas, ou signos minimos. Uma forma particular de restril;ao gramatical C 0 principio comumente conhecido por regencia. A importiincia desse conceito esta nao s6 no dominio gramatical da lingua materna mas tambem no aprendizado da gramatica de uma segunda lingua. Contudo, 0 conceito de regencia nao e preciso e, muitas das vezes, e confundido com 0 conceito de valencia, principio introduzido mais recentemente nos estudos modernos da linguagem. Por essa razao, a aplical;ao objetiva do conceito de regencia demanda antes uma distinl;ao entre este principio e 0 da valencia verbal. I. As definil;oes de regencia A regencia tern sido concebida em sentido amplo e em sentido restrito. " ...a relal;ao necessaria que liga entre si duas palavras de tal modo que uma depende gramaticalmente de outra ..." (Lazaro Carreter apud Nascentes, 1960). " ...a relal;ao de subordinal;ao, ou seja, de dependencia outros ..." (Mendes de Almeida, 1957). dos termos urn dos "oo.aregencia e 0 movimento l6gico e irreversivel de urn regente a urn regido" (Hjelmslev, 1939). " ...a propriedade que uma palavra (Marouzeau apud Nascentes, 1960). n( . .,) la rection [regencia] est Ie mouvement 1939: 155). 1 tern de chamar logique et irreversible I, a si complemento ..." d'un regissant II un regin (Hjelmslev, " ...a propriedade de ter uma palavra, sob sua dependencia, Ihe completem 0 sentido." (Mendes de Almeida, 1957). outra ou outras que " ...rela~ao necessaria que se estabelece entre duas palavras, serve de complemento a outra." (Cunha & Cintra, 1985). uma das quais " ...a expressao da dependencia entre urn verbo de predica~ao incompleta e seu complemento." (Nascentes, 1960) 0 Nota-se, portanto, que a regencia numa acep~ao ampla prima pela vacuidade da defini~ao. Parece que, nessa perspectiva, este termo traduz, de um modo geral, a rela9ao de subordina9ao que caracteriza a estrutura gramatical de urn enunciado. Numa acep9ao restrita, regencia refere-se mais precisamente a rela9ao de complementariio entre duas unidades quaisquer, ou entre 0 verbo e o(s) seu(s) subordinado(s). A acep~ao restrita de regencia e mais precisa do que a acep~ao ampla, porem c freqOentemente confundida com 0 conceito de valencia. Segundo Helbig (1978), embora se superponham na expressao lingOistica, regencia e valencia sao fenomenos bem distintos. 2. 0 conceito de valencia A teoria das valencia funda-se no pressuposto primordial da centralidade do verbo no enunciado, formulado pela primeira vez pelo lingiiista franees Tesniere (1953). Este postulado se justifica pelo fato de 0 verbo determinar a estrutura de base da ora<;ao, seja no nivel morfossintatico seja no nivel semantico. E esse dinamismo verbal que, de urn modo geral, se tern designado por valencia do verbo. A valencia sinlolica refere-se "a capacidade do verbo de abrir determinados lugares vazios na senten~a, e de preenche-los com actantes (=participantes) obrigat6rios ou facultativos" (Helbig apud Hanish, 1992:. 23). Os actantes (alem. Erganzungen) sao os termos oracionais que estao ligados, pela valencia, ao verbo, e consolidados no plano de lugares (StelIenplan) do verbo, sendo, por isso, determinados em nllmero e especie2; ou ainda, sao os "grupos de palavras que coocorrem s6 com uma subclasse de palavras [po ex., verbos]" (Engel apud Hanish, 1992: 36). A valencia semontica diz respeito as caracteristicas significativas dos actantes. Tais caracteristicas sao, basicamente, de dois tipos: 12) as nm90es 16gico-semanticas desempenhadas pelos participantes da a~ao verbal, como "agente", "paciente", "experienciador", etc.; 22) as restri<;oes de sele<;ao dos nomina is que preenchem 0 plano de lugares do verbo. Esta restri~ao e efetuada a partir dos tra<;os inerentes dos lexemas, tais como "animado", "inanimado", "concreto", "abstrato", etc. Essas caracteristicas significativas sao determinadas tambem pelo lexema verbal. De urn modo gera!, 0 dinamismo verbal que consubstancia a valencia do verbo se resume a esses dois pianos, que podem ser ainda subdivididos em niveis mais precisos. ~ Hii tambem os "elementos livres", ou circunstantes, que niio estiio ligados ao verbo, pela valencia, mas que dependem dele, e podem ser eliminados, mi, quase sempre, ser acrescentados em qualquer senten9a. 3. As interliga~oes entre os conceitos de rec~ao (regencia) e valencia Segundo Helbig (1978), as fonnas de regencia (Rektion) descritas na lingUisticaalema sao de seis tipos: 12) 0 verbo detennina 0 caso da palavra regida (no exemplo abaixo, 0 dativo): (I) Er areh seine, Bruder. (Ele se parece com seu innao). (2) Die Emte h,ngt (3) Er d~ '0 dem Wetter ab. (A colheita depende do tempo.) an die Priifung. (Ele pensa na prova) L_+ 4 0 grupo verbo mais preposi~ao rege 0 caso do substantivo subordinado (no exemplo o caso acusativo): 2) (4) Er wartet auf den Freund. (Ele espera pelo amigo) -c= t (5) Sie erkundigt sich rCh df (6) Er lee das Blatt auf d; Wetter. (Ela se infonna sobre 0 tempo.) Tisch. (Ele poe a folha na mesa.) A partir do exame dos provaveis tipos de rec~ao, Helbig (1978: 69) constatou que: a) no tipo I, tem-se uma superposi~ao de conceitos, pois se trata ao mesmo tempo de valencia e rec~ao: de valencia pelo fato de 0 substantivo exigido ser urn complemento (actante), e de rec~ao, por ser tal substantivo portador de uma fonna casual; b) os tipos 3, 4 e 6 sao, por essa mesma razao, exc1uidosda rec~ao; c) apenas os tipos 2 e 5 - que se referem respectivamente aos verbos que detenninam uma preposi~ao e as preposi~oes que determinam os diversos casos morfol6gicos - configuram mais precisamente a no~ao de rec~ao, uma vez que estao restritos ao ambito morfossintatico. Para Helbig, portanto, a valencia e uma ocorrencia semanticosintatica no nivel dos tennos oracionais; a rec~ao, no entanto, e uma ocorrencia sintatico-morfologica dentro e/ou abaixo do mvel dos termos oracionais. (Helbig, 1978: 70). Nessa perspectiva as rela~oes sintaticas de regencia se revel am menos abrangentes, do que as rela~oes contraidas pela valencia, que supoem de alguma forma aspectos semanticos. A rec~ao e a valencia constituem, assim, duas formas de subordina~ao. A valencia diz respeito a rela~ao subordinativa na qual 0 verbo determina os termos oracionais que preenchem os espa~os vazios abertos por ele na senten~a, seja quanto as classes sintaticas, seja quanto aos significados relacionais e categoriais dos mesmos. A rec~iio, por sua vez, e 0 tipo de subordina~iio na qual 0 caso da palavra subordinada e determinado pela palavra subordinante (verbo), ou na qual 0 tipo da preposi~ao que introduz 0 complemento e determinado pelo verbo regente. Por sc tratar da determina~ao de monemas gramaticais, a rec~iio afigura-se sempre sob ou dentro do nivel dos actantes. 4. A rec~ao na gramatica da lingua portuguesa Aproximando as formas de rec~iio do alemiio com 0 portugues, temos a seguinte situa~ao: o portugues e uma lingua analitica, ou seja, nao se vale de flexoes nominais para indicar as fun~oes sintaticas dos termos oracionais. Por essa razao, os tipos de rec~ao 1,3,4 e 6 afiguram-se como expressoes de puros fenomenos de valencia. Neste caso, as acep~oes restritas deregencia, expostas acima, enquadram-se antes na defini~ao de valencia verbal, do que na de rec~ao propriamente dito. Sobra, portanto,como ocorrencia efetiva de regencia 0 tipo 2, vale dizer, a rela~ao na qual 0 verbo determina a forma da preposi9ao regida, e uma parte do tipo 4, que implica tambem rela9iio de regencia entre verbo e preposi9iio. 4.1. Rec9ao do tipo 2 E tipico das preposi~oes que introduzem 0 complemento verbal conhecido na gramatica de valencias por Actante 4. Trata-se daqueles complementos susceptiveis de se anaforizarem na terceira pessoa pela formula preposi~io+pronome pessoal (reto). Nestes sintagmas as preposi~oes funcionam freqiientemente com urna extensao do verbo. Por essa razao, seu emprego apresenta-se, it primeira vista, como alogico, ja que ele nao depende da vontade ou inten~ao significativa do falante. Mas, examinando a rela9ao de rec9ao entre verbo e preposi~ao verifica-se que a associa~ao de uma forma preposicional a urn verbo nao e aleatoria, mas obedece a certas restri~oes, inerentes it propria n09ao de regencia. 0 lingiiista Lerot (1982) explica que ha uma rela~ao de concordancia semantica entre 0 regente verbal e sua preposi~ao. Alega que a rec9ao de uma preposi~ao atraves de urn verbo seria urn tipo de concordancia semelhante a outras ocorrencias de concordfmcia gramatical. Assim destacamos os seguintes tipos de concordancia semantica: 4.1.1. A preposi~ao repete a ideia do verbo a que se liga o conteudo semflOtico fundamental do verbo exige uma determinada Coincidir com Negociar com Privarde Demitirde Receberde Excluirde lncitara Condenara Visara Endere~ara lnterrogar-se sobre Repousarem Fundarem Apoiar-se em Transformar em Verbos compostos pedem uma preposilYao da me sma natureza semantica do seu prefixo: depender de introduzir em conversar com anexara desviarde concordar com confundir com comparar com compartilhar com coincidir com contentar-se com intrometer-se em atendera agarrar-se a desgarrar-se de 4.1.2. Sinonimia verbal A sinonimia verbal tambem influi no emprego da preposilYao. Se uma delas e empregada com um verbo, tambem 0 sera com seus eqiiivalentes. protestar com brigarcom disputar com llltar com negociar com conversar com falarcom discutir com 4.1.3. PreposilYoes com a mesma distribuilYao Trata-se das ambiencias contextuais em que 0 verba pode ocorrer com mais de uma preposilYao, uma delas pedida pelo sentido, portanto, concordando semanticamente com 0 verbo, e a outra ou outras, decorrentes da polissemia das preposilYoes mais freqiientes. Por exemplo, inscrever-se para/em, associar com/a, aplicar contra/a, etc. Alem desses casos de regencia de preposilYoes motivados semanticamentc, ha urn outro tipo de reclYao onde a preposi~ao funciona como simples liga~ao gramatical, ou como morfema distintivo do complemento verbal, quando 0 verba admite dupla construlYao: aspirar/ aspirar a, pensar/pensar em, etc. 4.2. ReclYao(parcial) do tipo 4 Trata-se daqueles empregos preposicionais em que a preposi~ao esta com 0 verba numa rela~iio [/Xa., constituindo urn to do significativo lexiealizado "verbo+preposilYao". Nesses casos, a primitiva fun~ao relacional e 0 proprio sentido da preposi<;ao se esvaziam profundamente, c a preposi<;ao altera a denota<;ao do verbo, funcionando como "sema" deste (cf. Borba, 1970: 132): Por exemplo, Dar (=transfcrir urn objeto a outra pessoa); Dar com (=encontrar); Dar por (=perceber, notar, rcparar); etc. 5. Considera<;oes finais Apos a distinlYao feita por Helbig entre valencia e regencia verfifica-se que a) as defini~6es de regencia em sentido restrito dizem respeito propriamente aos fatos de valencia, como se p6de notar nas defini~6es expostas acima (cf. I.); b) uma vez estabelecido esta diferen~a, a delimita~ao dos dados gramaticais toma-se mais objetiva; c) na lingua portuguesa, a rec~ao no ambito do Actante 4 se reduz a determina~ao da forma preposicional pelo verbo regente, que se afigura sob varias formas, motivadas ou nao semanticamente. RESUMO: Discussao sobre a diferen~a dos conceitos de "rec~ao" (regencia) e valencia, efetuada por Helbig na lingua alema, e aplica~ao dos resultados dessa reflexao aos complementos verbais conhecidos na Gramatica das Valencias por Actante 4. BORBA, Francisco da Silva. Sistemas de Preposi90es em Portugues. Tese de LivreDocencia. USP, Sao Paulo, 1971. CUNHA, Celso & CINTRA, Lindley. Nova Gramatica do Portugues Contemporaneo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985. HANISCH, Aluisia. As Preposi90es Regidas por Verbos em Alemao e em Portugues. Tese de Doutorado. UNESP, Araraquara, 1992. HELBIG, Gerhard. "Rektion,TransitivitatlIntransitivitat, Valenz Syn-/ Autosemantik". In: Deutsch als Fremdsprache, 2, 1978, p. 65-78. HJELMSLEV, Luis. "La notion de rection". In: Essais Linguistiques. Copenhague, Det Berlingske Bogtykkari, 1959, p. 139-151. MENDES DE ALMEIDA, Napoleao. "Regencia". Gramatica MetMica da Lingua Portuguesa. <)'J ed. Sao Paulo: Saraiva, 1957, p. 369-387. 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