AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 1 Conservação de Solo e Água Práticas mecânicas para o controle da erosão hídrica. Cód. 10004 - 240p. 2008. R$35,00 Infiltração de Água no Solo (3.ed.) Cód. 10008 - 120p. 2006. R$18,00 Projetos de Empreendimentos Agroindustriais - Produtos de origem animal - Vol. 1 Cód. 10032 - 308p. 2003. R$40,00 Escoamento Superficial - 2.ed. Cód. 10007 - 87p. 2008. R$15,00 Legislação de Alimentos e Bebidas Cód. 10049 - 635p. 2008. R$75,00 Série Vestibular UFV 2008 Cód. 10481 - 200p. 2008. R$15,00 Pedidos: Visite o nosso site Editora UFV Edifício Francisco São José, s/n Campus Universitário 36570-000 Viçosa-MG. Tel. (0xx31)3899-2234 Tel./Fax (0xx31)3899-3113 [email protected] AÇÃOE-mail: AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 www.editoraufv.com.br 2 Apresentação Existem cerca de 7 mil espécies de peixes de água doce identificadas no planeta, das quais cerca de 20% estão extintas ou correm o risco de extinção. Grande par te das ameaças a essas espécies decorre de modificações ambientais causadas pela inter venção do homem, como a mudança do fluxo de rios; a construção de barramentos; o lançamento de resíduos industriais urbanos e agropecuários sem tratamento diretamente nas águas; o desmatamento ciliar e o aumento das taxas de erosão. There are almost 7000 identified species of freshwater fishes in the planet, about 20% of which are extinct or in risk of extinction. We can assert that a large amount of the threats to these species originate from environmental changes caused by human intervention such as change of river flow, building of dams, launching of untreated industrial, urban, cattle and agricultural waste directly in the waters, deforestation, and the increase of erosion taxes, and others. Clearly there exists a necessity for the sustainable use of fish biodiversity. Os peixes são altamente dependentes das características do ecossistema aquático que mantêm todas as suas funções biológicas. Essa dependência é ainda mais marcante para espécies migradoras, que necessitam de ambientes diferentes para as principais fases do seu ciclo de vida - reprodução, produção de juvenis, crescimento e maturação sexual. Não por acaso, essas espécies são as mais susceptíveis à extinção, em conseqüência de ações antrópicas. Fish population are highly dependent on the aquatic ecosystem characteristics that maintain all of their biological functions. The dependence is most marked on the migrator y species that depend on dif ferent environments for the main stages of their life cycle that are reproduction, juvenile production, growth and sexual maturity. No coincidence, these species are more susceptible to having their stock reduced as a consequence of anthropic actions. Minas Gerais é um dos estados brasileiros com maior disponibilidade hídrica. Esta riqueza que, por um lado, permite o desenvolvimento econômico do estado (instalação de diversos aproveitamentos hidrelétricos, agricultura irrigada e disponibilidade hídrica para o consumo urbano e industrial), por outro, traz consigo a responsabilidade pelo correto manejo dos recursos naturais associados aos corpos d’água explorados. Criar estratégias eficientes para a conservação dos recursos pesqueiros em consonância com as demandas crescentes de água pela população do estado é um desafio considerável e conjunto para a comunidade científica, organizações da sociedade civil, empresas e governos. Minas Gerais is one of the Brazilian States with the greatest water availability. This richness that on one hand brings with it the State´s economical development through the installation of various hydroelectric uses, irrigated agriculture and hydric availability for urban and industrial consumption, on the other hand, brings with it the responsibility of the appropriate use of natural resources associated with the exploited water beds. Create efficient strategies for the conservation of fishing resources in consonance with the growing demand on water by the State´s population is a considerable challenge for the scientific community, civil society organizations, public and private sectors. Esta edição da Ação Ambiental aborda os desafios para a conservação das espécies nativas de peixes em Minas Gerais. A revista traz uma série de artigos escritos por alguns dos maiores especialistas em conservação da ictiofauna do estado e do Brasil, além de profissionais que atuam diretamente na área. Estes artigos buscam responder à seguinte pergunta: “O que deve ser feito para garantir que as espécies de peixes nativas sofram o menor impacto possível em vir tude das ações antrópicas?”. The present edition of the “Revista Ação Ambiental” (Environmental Action Magazin) addresses the challenges of native fish species conser vation in Minas Gerais. This edition brings a series of ar ticles written by some of the State´s and Brazil´s greatest specialists on fish conservation, also several professionals that work directly in the field. These articles search to answer the following question: “What must be done in order to guarantee that the native fish species suffer the least impact possible in consequence of anthropic actions”. Não há uma resposta única a esta questão, que é bastante complexa e deve ser tratada de forma interdisciplinar. Acreditamos, no entanto, que as informações aqui apresentadas, apesar de não esgotarem o tema, serão de grande utilidade na formulação de estratégias mais eficientes para a conservação de uma das faunas mais diversas e belas do planeta. There is no unique answer to this question that is, without a doubt, very complex and must be dealt with in multidisciplinar y ways. We believe, however, that the information here presented, although does not exhaust the subject, will be of great usefulness on the formulation of more efficient strategies for the conservation of one of the planet´s most diverse and beautiful fauna. Boa leitura! AÇÃO AÇÃO AMBIENTAL AMBIENTAL -- Novembro/Dezembro Novembro/Dezembro 2008 2008 33 ISSN 1519-0552 Reitor da UFV Carlos Sigueyuki Sediyama Expediente Pró-Reitor de Extensão e Cultura Geraldo Antônio de Andrade Araújo Divisão de Extensão João Marcos Araújo Editores Altair Dias de Moura Ann Honor Mounteer Antônio Teixeira de Matos Claudio Lisias Mafra de Siqueira James Jackson Griffith Jorge Abdala Dergam dos Santos José Paulo Martins Lourdes Helena da Silva Raphael Bragança Alves Fernandes Editor-chefe e Jornalista Responsável João Batista Mota (Reg. Prof. 2.540 – MTb-MG) Coordenação Técnica dessa edição João de Magalhaes Lopes Projeto Gráfico / Diagramação Mauro Jacob Revisão Eliane Ventura Gerência Vera Daian Estagiária Miriam da Silva Batista Fotolito Delta Fotolitos Impressão Divisão Gráfica Universitária / UFV Tiragem 2.000 exemplares Redação / Distribuição Revista Ação Ambiental Divisão de Extensão - Pró-Reitoria de Extensão e Cultura Universidade Federal de Viçosa 36570-000 Viçosa - MG Telefax: (31)3899-2752 www.acaoambiental.ufv.br E-mail: acaoamb iental @ufv.br acaoambiental [email protected] 4 Representante em Belo Horizonte Affonso Paulo Ferreira da Silva Telefone: (31)3227-5233 Foto capa: João Marcos Rosa SUMÁRIO 3 Apresentação 5 Entrevista: Newton José Schmidt Prado 7 1o Simpósio de Passagens de América do Sul: avaliação e propostas 11 A gestão de recursos pesqueiros em reservatórios no Brasil 20 Passagens de peixes como ferramenta para a conservação de recursos pesqueiros 23 Breve história da ictiologia em Minas Gerais 26 Estudos hidráulicos e de bioengenharia no Centro de Transposição de Peixes 29 Opinião Debate 1 - Peixamento como medida ambiental mitigadora do impacto na ictiofauna 32 Opinião Debate 2 - Peixamento: benefícios e controvérsias de uma técnica de manejo Os conceitos, afirmações e opiniões nos artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores, AÇÃO não AMBIENTAL refletindo, -necessariamente, Novembro/Dezembro a opinião 2008 da Revista ou de seu Conselho Editorial. Entrevista Na edição que tem como tema a conservação de peixes nativos em Minas Gerais, não poderia haver entrevistado mais apropriado à Ação Ambiental do que Newton José Schmidt Prado, coordenador do programa Peixe Vivo, da Cemig. Isso porque o principal objetivo do programa é exatamente a criação e a expansão de ações voltadas para a preservação da fauna aquática nas bacias hidrográficas, onde existem empreendimentos da empresa. Newton Prado é engenheiro agrônomo por formação e, desde 1979, atua na Cemig, aonde vem exercendo cargos diversos, da área de eletrificação à de programas ambientais. Atualmente, é analista de meio ambiente da empresa. Programa Peixe Vivo da Cemig: menor impacto sobre a ictiofauna Quando foi lançado o Programa Peixe Vivo? A Cemig lançou, em junho de 2007, o Programa Peixe Vivo, que prevê a criação e a expansão de ações voltadas para a preservação da fauna aquática nas bacias hidrográficas onde existem empreendimentos da empresa. O programa procura ampliar as atividades de peixamentos, pesquisas e alternativas preventivas para as ações de geração de energia com o menor impacto possível sobre a ictiofauna, contando sempre com o envolvimento da comunidade. Quais os principais objetivos do programa? Criar mecanismos (equipamentos e procedimentos operacionais) para evitar e prevenir a possibilidade de morte de peixes associa- dos à operação e manutenção das usinas hidrelétrica, além de assegurar uma resposta rápida e eficiente em situações de emergência. Isso tudo com o envolvimento da comunidade científica, dos órgãos ambientais, das comunidades locais e da sociedade nas soluções a serem elaboradas. Esse trabalho, com uma equipe de profissionais da área biológica, engenharia e comunicação social, é uma iniciativa inédita AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Como foi formada a equipe do Peixe Vivo? Esse tipo de trabalho com uma equipe interdisciplinar, composta de profissionais da área biológica, engenharia e comunicação social, é uma iniciativa inédita. A junção dessas áreas nos permite desenvolver medidas mais eficientes para a prevenção e mitigação de impactos causados ao meio ambiente por construções e operação de usinas hidrelétricas. Quais os primeiros passos do programa para desenvolver políticas de preservação da ictiofauna? Com o objetivo de obter maior participação da sociedade nas decisões e ações a serem implementadas pelo programa, foram realizadas oito oficinas integradas com pesquisadores da Universidade Fe5 Entrevista deral de Minas Gerais ( UFMG); do Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aqüicultura (Nupelia) da Universidade Estadual de Maringá; Fundação Biodiversitas; Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente (AMDA); Segmento Pesqueiro Artesanal de Três Marias; Segmento da Sociedade de Três Marias; Projeto Manuelzão; Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf); Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), e consultores autônomos, biólogos e engenheiros. Durante os encontros, era apresentada a “Percepção da Cemig com relação à Ictiofauna”. Era explicada aos participantes a criação do Programa Peixe Vivo e seus objetivos: a experiência da empresa na reprodução artificial de espécies nativas em estações de piscicultura próprias e conveniadas, a parceria com produtores rurais nesse processo, peixamentos, trabalhos de pesquisa e desenvolvimento, explicação de manobras que geram impactos sobre os peixes (parada/partida de máquinas e drenagem da sucção), e os procedimentos operativos que já são adotados para minimizar ou evitar esses impactos. Posteriormente à apresentação, a dinâmica da oficina possibilitava aos participantes expressarem sua opinião sobre a apresentação e fazer sugestões para melhorar e proteger a ictiofauna de Minas Gerais e evitar e/ou prevenir a morte de peixes em usinas hidrelétricas da Cemig. Vocês procuraram conhecer as melhores práticas desenvolvidas por outras empresas, inclusive internacionais? Foi realizada uma consulta pelo Programa Peixe Vivo, que contou com a participação de especialistas nacionais e internacionais em 6 Foi elaborada uma série de procedimentos nas usinas da Cemig para prevenir e reduzir os impactos sobre a ictiofauna, nas manobras de operação e manutenção em usinas ecologia de peixes, transposição, engenharia hidráulica, representantes da UFMG, Nautilus Engenharia Ltda., Hidricon, Hydro Québec (Canadá), Silvio O Conte Anadromous Fish Research Center e US Bureau of Reclamation (Estados Unidos). Esses especialistas visitaram a Usina Hidrelétrica de Três Marias e assistiram à apresentação da “Percepção da Cemig com relação a Ictiofauna”. Durante os quatro dias do encontro, eles fizeram apresentações e sugestões para mitigar ou evitar morte de peixes nas usinas e melhorar os programas de conser vação da ictiofauna da empresa. Quais foram os principais resultados obtidos nas consultas realizadas nas oficinas integradas? Entre as propostas para a melhoria e proteção da ictiofauna: desenvolver estudos e ações de mitigação relacionadas à conservação e restauração de habitat e proteção de espécies de interesse para a melhoria da ictiofauna; assegurar a variabilidade genética de populações naturais de peixes e avaliar os repovoamentos (utilizando também outras técnicas), para mitigar e monitorar os impactos genéticos e os seus re- sultados; avaliar a per tinência de implantação e de funcionamento de sistemas de transposição para a conser vação e melhoria da ictiofauna; ampliar a divulgação e a discussão sobre a ictiofauna (inclusive a sua interação com as usinas) para a sociedade. Propostas para mitigação de eventos que levem à morte de peixes: assegurar a existência e fortalecer o Programa Peixe Vivo, com proposição de procedimentos e alternativas para a redução do risco de morte de peixes, avaliação de informações de monitoramento, maior detalhamento dos eventos de mortalidade, capacitação contínua dos empregados da empresa pela Escola de Formação Profissional em Sete Lagoas; avaliar e propor medidas de proteção de peixes em usinas para a redução dos riscos de mortandade. Quais as ações implantadas ou em implantação pelo programa para evitar morte de peixes decorrentes da operação de usinas hidrelétricas? Foi elaborada e revista uma série de procedimentos nas usinas hidrelétricas da Cemig para prevenir e reduzir os impactos ambientais sobre a ictiofauna, nas manobras de operação e manutenção em usinas. Outra ação foi a implantação de barreira física no tubo de sucção que impede a entrada de peixes, quando há parada de máquinas programadas na Usina de Três Marias. Encontra-se em fase de projeto a automação dos sistemas de grade e a sua utilização em conjunto com a comporta de jusante. Isto impede que peixes fiquem aprisionados durante operações de paradas de máquina e diminui sensivelmente o risco de acidentes ambientais durante estas operações. AÇÃO AÇÃOAMBIENTAL AMBIENTAL--Novembro/Dezembro Novembro/Dezembro2008 2008 1o Simpósio de Passagens de América do Sul: avaliação e propostas Exemplo de elevador de peixes, construído na Usina Hidrelétrica de Santa Clara Paulo dos Santos Pompeu Departamento de Biologia Universidade Federal de Lavras. [email protected] Hersília de Andrade e Santos Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – Cefet-MG Carlos Bernardo Mascarenhas Alves Centro de Transposição de Peixes Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) A fauna de peixes de água doce da América do Sul é a mais diversa do planeta, com pelo menos 4.500 espécies válidas. Embora apenas uma pequena fração delas apresente compor tamento migrador, devido à sua abundância e grande porte, elas são as mais importantes para a pesca. A redução nos estoques pesqueiros, detectada em muitos rios da América do Sul, é atribuída, entre outros fatores, a falhas no recrutamento devido à interrupção da migração dos peixes. Entre as estratégias utilizadas para diminuir os efeitos do bloqueio causado por barragens na migração, está a construção de mecanismos de transposição ou passagens para peixes. Eles são, essencialmente, condutos de água que, através ou à volta de um obstáculo, dissipam a energia hidráulica para permitir que o peixe possa subi-lo sem estresse. Exemplos de mecanismos de transposição de peixes (MTP) são as escadas, eclusas e elevadores. Os registros mais antigos das estruturas para a transposição de peixes datam do século XVIII, na Europa, quando já possibilitavam às espécies migradoras, principalmente os salmões, atingir os locais de repro- AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 dução e desova à montante de barragens, quedas d‘água e correntezas. No Brasil, a primeira escada de que se tem relato foi construída em 1906, no rio Atibaia, na barragem de Salto Grande, em Campinas (SP), e era do tipo com degraus. Na América do Sul, já existem mais de 50 escadas em operação, distribuídas pelas diversas bacias hidrográficas. Elevadores e eclusas, porém, são menos comuns; alguns exemplos são os elevadores de Yacyretá, Funil e Por to Primavera na bacia do Paraná; a eclusa de Salto Grande, no rio Uruguai, e o elevador com caminhão-tanque da Usina de Santa Clara, no rio Mucuri. Depois de quase 100 anos da construção da primeira escada no Brasil, apenas recentemente, com o aumento de usinas hidrelétricas em implantação e a cria7 Distribuição do número de hidrelétricas e MTPs com trabalhos apresentados por estado ção de legislações estaduais específicas, é que este assunto tem recebido maior atenção. Reflexo disso foi o Simpósio Internacional sobre “Passagens para Peixes na América do Sul”, realizado na Universidade Federal de Lavras (UFLA-MG), entre 30 de julho e 3 de agosto de 2007, que contou com um público de profissionais e estudantes que atuam no monitoramento e na pesquisa sobre migração e passagens para peixes. Participaram dos trabalhos mais de 160 representantes de 10 estados brasileiros (Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Tocantins, Espírito Santo, Distrito Federal), e de 7 países (Argentina, Chile, França, Itália, Alemanha, Canadá e Estados Unidos). Dentre os brasileiros, cabe ressaltar a presença de pesquisadores ligados a 15 universidades e representantes de nove empresas do setor elétrico, dez empresas de consultoria, além do Instituto Estadual de Florestas (IEF) de Minas Gerais e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O evento surgiu da necessidade de se tratar interdisciplinarmente o estudo do impacto de usinas hidrelétricas sobre os peixes e suas implicações ecológicas. O programa reu8 Número de universidades com representantes em trabalhos apresentados por estado niu sessões plenárias, apresentação de trabalhos técnicos na forma tradicional e contou também com as palestras dos especialistas convidados: Christos Katopodis (Depar tment of Fisheries and Oceans, Canadá) - Mecanismos de transposição para montante - e Glenn Cada (Oak Ridge National Laboratory, Estados Unidos) - Transposição para jusante e turbinas amigáveis. Foram apresentados ainda 30 trabalhos, posteriormente publicados em volume especial da revista Neotropical Ichthyology e nos anais do evento. Apesar do grande número de trabalhos, ficou evidente a concentração de estudos de poucos estados. Minas Gerais, por reunir o maior número de empreendimentos hidrelétricos e por ter sediado o evento, foi o que expôs o maior número de MTP estudados. Em relação ao número de mecanismos, também se destacaram Paraná, São Paulo, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Outros estados, porém, cuja geração é bastante importante na matriz hidroenergética brasileira (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Rio de Janeiro) não apresentaram estudos ligados à transposição em seus empreendimentos. Este panorama também reflete diretamente a distribuição dos grupos de pesquisas que vêm traba- lhando com transposição de peixes no Brasil, com concentração em alguns poucos estados. A maior par te dos trabalhos concentrou-se na avaliação de aspectos biológicos e hidráulicos dos MTPs, indicando nosso conhecimento incipiente sobre o seu funcionamento e eficiência. Em alguns casos, a própria conveniência da operação do mecanismo foi questionada. Isso porque os MTPs para montante quando não têm condições adequadas para a descida de adultos, ovos e larvas - podem atuar como armadilhas ecológicas (ecological traps), direcionando boa par te da população para áreas menos apropriadas para completarem seu ciclo de vida, ou deplecionando os estoques de jusante. Também foram apresentados estudos sobre a biologia de espécies migradoras, incluindo genética de populações, padrões migratórios e capacidade natatória, aspectos básicos para o projeto e a operação de passagens para peixes. Dentre eles, foi proposta uma nova configuração de escada, além da discussão sobre a aplicabilidade de novas ferramentas utilizadas para a avaliação de passagens para peixes da América do Nor te em rios brasileiros. AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 No Simpósio, pesquisadores que atuam no monitoramento sobre migração e passagens para peixes Recomendações Ao final do encontro, foi elaborado um conjunto de recomendações sobre a manutenção da ictiofauna migradora e a construção e estudo de MTPs para peixes na América do Sul. Entre elas: • Urgente necessidade de estudos prévios à construção de barragens, ainda na fase de inventário de partição de quedas de rios brasileiros, para melhor subsidiar as tomadas de decisão; • Necessidade de estudos, incluindo os de impacto ambiental, que considerem toda a bacia de drenagem (calha, afluentes e várzeas), e não apenas as regiões diretamente afetadas pelos empreendimentos; • Definição clara do real propósito para a construção de MTP; • Mapeamento de cada habitat crítico para o ciclo de vida de espécies migradoras; • Avaliar os efeitos da fragmentação de habitat sobre toda a comunidade, incluindo espécies migradoras e não migradoras; • Exigência de estudos de monitoramento de longo prazo, em especial dos efeitos da ausência ou presença de um MTP para as comunidades de montante e jusante do barramento; • Implementação de novas técnicas para estudos de movimentos de peixes, considerando todas as fases do ciclo de vida; • Manejo adequado dos MTPs existentes com base nos resultados de pesquisa e monitoramento; • Incentivo ao estudo de capacidade natatória de espécies nativas sul-americanas; Referências bibliográficas Clay, C. H. Design of Fishways and Other Fish Facilities. Second Edition, CRC Press, Boca Raton, Florida. 248p, 1995. Godoy, M. P. Aquicultura – Atividade Multidisciplinar, Escadas e Outras Facilidades para Passagens de Peixes, Estações de Piscicultura, Eletrosul – Centrais Elétricas do Sul do Brasil S.A., Florianópolis, 1985. AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 • Disseminação de informações para órgãos de licenciamento e fiscalização; • Desenvolvimento de tecnologias para a passagem de peixes de fundo e grandes bagres; • Avaliar a necessidade de passagem de peixes não migradores de pequeno porte e exóticos pelo MTP; • Urgente necessidade de desenvolvimento e aplicação de passagens para jusante: ovos/larvas, jovens e adultos; • Incentivos e estudos de MTP que permitam o manejo (manipulação) e a seleção da quantidade de peixes transpostos; • Caracterização dos aspectos genéticos das populações de peixes nos rios; • Avaliação das taxas de mortalidade de ovos, larvas, jovens e adultos durante a sua passagem pelas estruturas da barragem; • Considerar a viabilidade de transposição de macroinvertebrados bentônicos, quando aplicável; • Observar, no momento da tomada de decisão sobre a implantação ou não de um mecanismo de transposição, a existência de populações auto-sustentáveis à montante e à jusante da barragem. Em alguns casos, a transposição pode não ser recomendada, e em outros só deve ser feita com monitoramento contínuo. Neotropical Ichthyology, v.5 n.2 – Por to Alegre, Sociedade Brasileira de Ictiologia. 2007. 150p. (www.eventos.ufla.br/fishpassages/trabalhos/ resumos.zip) Pompeu, P. S; Santos, H. A & Alves, C. B. M. (Orgs). Proceedings of the International Symposium on Fish Passages in South America. Lavras: Universidade Federal de Lavras, 2007. 100p. (www.ufr gs.br/ni/ contents5-2.htm) 9 A gestão de recursos pesqueiros em reservatórios no Brasil Angelo Antonio Agostinho Universidade Estadual de Maringá, DBI-Nupelia Paraná [email protected] Fernando Mayer Pelicice Pós Graduação em Ecologia de Ecótonos, Universidade Federal do Tocantins [email protected] Luiz Carlos Gomes Universidade Estadual de Maringá, DBI-Nupelia Paraná [email protected] Os grandes reservatórios são uma das principais fontes de impacto sobre os recursos pesqueiros e, provavelmente, a principal ameaça à conser vação de peixes migradores de água doce. Mais de 600 represamentos (40 mil quilômetros quadrados de área total alagada) estão distribuídos por todas as grandes bacias brasileiras, com maior concentração mais a leste da América do Sul. O impacto mais evidente das barragens está na fragmentação do habitat, com bloqueio do acesso entre os locais de desova e de desenvolvimento inicial, com conseqüências sobre o recrutamento das espécies migradoras. Além disso, são igualmente danosos os efeitos sobre os ecossistemas de jusante, por meio do controle das cheias, retenção de nutrientes, incremento das taxas de erosão e redução do habitat crítico ao desenvolvimento das espécies. Em função disso, nas últimas décadas, populações de peixe migradores vêm se reduzindo nas regiões influenciadas por barragens. A busca por medidas que reduzam esses impactos está na pauta das empresas concessionárias e dos órgãos ambientais, mas não é uma tarefa fácil. Dentre as dificuldades, des10 tacam-se a falta de informações profundas e apropriadas para subsidiar as medidas, a alta variabilidade natural das populações e comunidades, as interações entre os processos que se seguem ao represamento e que elevam o grau de complexidade do sistema, além da histórica precariedade dos monitoramentos. Na falta de informações básicas, as decisões de manejo são tomadas com base no “senso comum”, procedimento de maior apelo midiático e político, mas que falha, na maioria dos casos. Histórico e legislação O manejo dos recursos pesqueiros no Brasil, historicamente, foi centrado em algumas ações isoladas, sem o amparo de informações técnicas e de monitoramento que avaliasse a efetividade e fornecesse informações para o seu aper feiçoamento. Raramente, essas ações fizeram par te de um planejamento fundamentado na demanda e com abrangências temporal e espacial apropriadas. Na maioria das vezes, foram executadas sob constrangimento legal. A primeira legislação relacionada ao manejo da pesca em reser vatório foi a de nº. 2.250, de 28 de dezembro de 1927, do estado de São Paulo. Em seu ar tigo 16, ela tornava obrigatória a instalação de escada para a transposição de peixes em todas as barragens - o que foi ampliado para todo o país por meio de Lei Federal, em 1934. Em 1938, quando a efetividade das escadas para a conser vação dos recursos ictiofaunísticos já era objeto de controvérsias, uma nova lei propunha a construção de estações produtoras de alevinos para o repovoamento. Nos anos seguintes, diversas estações foram construídas no país. Em 1967, o Decreto Lei nº. 221 (28/02/67) delegou à Superintendência para o Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) a tarefa de determinar o melhor mecanismo para a proteção da fauna aquática. Essa agência, que tinha como finalidade o desenvolvimento da piscicultura e da pesca, tornou obrigatória (Resolução 46, de 27/01/71) a construção da estação de piscicultura em cada uma das subbacias que tivessem represamentos. O Estudo Prévio de Impacto Ambiental e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA), um instrumento da Política Nacional de Meio Ambiente, foi instituído pela Resolução Conama 001/86, de 23/01/ 1986, e é um procedimento obrigatório para a obtenção de licença a empreendimentos com relevante potencial de degradação do meio ambiente. Além da descrição do empreendimento, esse relatório inclui o diagnóstico ambiental da área, alternativas para a obra e a identificação, análise e predição dos impactos das ações propostas, bem como a definição das medidas mitigadoras e um programa de monitoramento. A elaboração desses relatórios representa impor tante evolução na gestão dos recursos, visto que implica na tomada de decisões a partir de estudos e avaliações. Por outro lado, tendências recentes, inferidas a partir da obrigatoriedade estabelecida da construção de escada em legislações estaduais (exceto se comprovada sua inadequação), indicam um retorno ao manejo da primeira metade do século passado. As razões desse retorno, entretanto, não são baseadas em dados concretos de falhas nas ações de manejo vigentes, nem no sucesso das transposições como medida apropriada à conservação dos recursos. AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Ainda com relação à legislação, existe uma série de regulamentações que limitam o exercício da pesca, proibindo-a durante a estação de desova e restringindo o uso de equipamentos, locais e esforço. Estocagem A estocagem de peixes, também conhecida como peixamento ou repovoamento, é uma das ações de manejo mais utilizadas em todo o mundo, principalmente no Brasil. A prática se constitui na soltura deliberada de peixes em determinado corpo d’água, utilizando espécies provenientes de estações de piscicultura ou capturados em outros sistemas naturais. A progressiva degradação dos ecossistemas aquáticos faz da estocagem um importante instrumento para a solução de problemas socioambientais, uma vez que podem provocar alterações demográficas nas populações residentes, modificando seu contingente ou sua taxa de crescimento. Apesar da perspectiva otimista, sua efetividade tem sido questionada, com falhas e insucessos relatados em diferentes partes do mundo. No Brasil, ao lado de relatos isolados de sucesso, existem comprovações de grandes fracassos, resultantes de protocolos inadequados. Os programas de estocagem começaram nos açudes nordestinos, ainda na primeira metade do século passado, quando foram bem sucedidos com o uso de espécies não nativas - tilápias, tucunarés e corvinas. Posteriormente, os programas passaram a ser aplicados em bacias do Sul e Sudeste, onde espécies não nativas foram massivamente empregadas até o início da década de 1990. A atual proliferação de tucunarés e corvinas, por exemplo, se deve a escapes ou estocagens clandestinas, já que essas espécies não compunham as listagens oficiais. Massivamente utilizada nos programas de peixamento, a tilápia estabeleceu-se apenas em pequenas represas. Curiosamente, sua pesca em grandes reser vatórios da bacia do Tietê ganhou relevância uma década após sua estocagem ter sido suspensa, fato atribuído aos escapes freqüentes de inúmeros pesque-e-pagues que se instalaram na região. Os programas também utilizaram espécies nativas, mas que pouco contribuíram no incremento Fatores do processo decisório sobre estocagem de peixes em reservatórios Requisitos para uma estocagem bem-sucedida Impactos potenciais das atividades de estocagem Avaliação técnica da necessidade da estocagem Fatores densidade dependentes Objetivos e metas claras e quantificáveis Uso de peixes de populações distintas Avaliação do status do(s) estoque(s) Seleção com intensidade e direção distinta Conhecimento da capacidade de suporte do sistema (limitações) Introdução da fauna acompanhante Amplo conhecimento da biologia da espécie-alvo Introdução de parasitas e patógenos Clareza metodológica (espécie, tamanho, onde e quando liberar) Degradação genética do estoque nativo Monitoramento Fonte: Agostinho et al., 2007 AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Repovoamento (estocagem) em cinco reservatórios da bacia do rio Paraná e captura por unidade de esforço na pesca profissional Dados (não publicados) baseados em 10 anos de estocagem e monitoramento de desembarque da pesca realizada pela AES dos estoques selvagens, como mostram os dados históricos da Cesp e AES-Tietê. Não há qualquer relação positiva entre o esforço de estocagem dessas espécies e sua abundância nos desembarques da pesca profissional. Dentre as razões do insucesso, destacam-se a falta de clareza de objetivos e metas e o desconhecimento da demanda pela estocagem, ambos relacionados à escassez de informações sobre o status dos estoques. Pouco se soube sobre os motivos pelos quais as espécies-alvo tiveram suas populações deplecionadas (Habitat crítico? Capacidade de suporte do ambiente?), além da ausência de um protocolo de estocagem adequado para cada espécie. E o pior: na maioria dos casos, nenhum monitoramento foi realizado, embora o programa tenha sido conduzido durante décadas. Por muito tempo, a falta de avaliação ou a inobservância das evidências fornecidas pelo monitoramento (inclusive do desembarque pesqueiro) possibilitou ações equivocadas, com desperdício de esforços, recur11 sos e oportunidades. Embora os protocolos atuais tenham sido melhorados, muito esforço ainda é aplicado na estocagem com objetivos vagos melhorar a pesca ou recuperar o ambiente -, sem que as ações sejam corretamente avaliadas. Entretanto, o amplo emprego e a aceitação da prática por par te de especialistas, técnicos, mídia, autoridades e público em geral se devem ao seu histórico no país. No final da década de 1960, constrangimentos legais fizeram com que muitas estações de piscicultura para estocagem fossem construídas junto às usinas hidrelétricas. Obras suntuosas foram erguidas e, depois de algum tempo, passaram a atuar também no fomento, pois não podiam ficar ociosas. Além do desperdício de esforços públicos, inclusive -, o uso inapropriado da estocagem tem a capacidade de provocar impactos adicionais sobre o ecossistema. Na verdade, os programas de estocagem foram responsáveis pela introdução de quase uma dezena de espécies em diversas bacias do país. A baixa qualidade genética do plantel de reprodutores de parte das concessionárias Participação relativa das principais espécies no repovoamento (espécies estocadas) e nas capturas da pesca experimental em cinco reservatórios do rio Tietê, considerando o período de 2000 a 2006. Dados não publicados fornecidos pela AES deve ter contribuído para a aceleração da degeneração genética dos estoques naturais. Atualmente, a busca por alevinos na piscicultura convencional se constitui numa preocupação adicional, visto que é desejável a simplificação genética dos organismos para o cultivo (melhoramento dos atributos zootécnicos), enquanto que há exigência de manutenção de sua variabilidade para a estocagem (resistência a mudanças ambientais). Além desses problemas, a banalização da estocagem pode ter contribuído para a disseminação de parasitas e patógenos em águas públicas. Nos últimos anos, vem se verificando uma crescente preocupação com a qualidade genética do plantel e algumas estações têm substituído anualmente as matrizes por indivíduos selvagens. Os cuidados em relação à sanidade, aos locais de soltura e ao tamanho liberado vêm sendo implementados em várias concessionárias no manejo de seus reservatórios. Há, entretanto, um longo caminho até a per feição, destacandose a racionalização da tomada de decisão sobre a espécie-alvo, quanto, quando e onde realizar a estocagem, e qual o tamanho adequado dos peixes. Isso pressupõe amplo conhecimento do status populacional, do nível de exploração, da capacidade de supor te do ambiente e/ou fatores que restringem o crescimento da população silvestre. A avaliação dos resultados realizada com bases técnica e científica adequadas e o estabelecimento de critérios rigorosos na produção de alevinos para estoca- Principais espécies registradas em escadas e elevadores para peixes e percentual em relação ao número total de indivíduos RESERVATÓRIO (Tipo de STP*) Espécies % Fonte Lajeado (escada) Rhaphiodon vulpinus-cachorra Psectrogaster amazonica-branquinha Oxydoras niger-cuiu-cuiu 67% Agostinho et al. (2007) Itaipu (escada) Prochilodus lineatus-curimba Pimelodus maculatus-mandi Leporinus obtusidens-piapara 65% Fernandez et al. (2004) Rhinelepis aspera-cascudo-preto Astyanax altiparanae-lambari Serrasalmus marginatus-piranha 98% Makrakis et al. (2007 Pimelodus maculatus-mandi Oxydoras kneri-cuiu-cuiu Rhinodoras d’orbignyi-armado 85% Oldani et al. (2007) Astyanax intermedius-lambari Prochilodus vimboides-curimba Leporinus conirostris 79% Pompeu & Martinez (2006) Porto Primavera (escada) Yacyretá (elevador) Santa Clara (elevador) * STP = Sistema de Transposição de Peixes 12 AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 gem ainda são apenas avanços desejados. Mecanismos de transposição Os mecanismos de transposição, também conhecidos como passagens de peixes, são estruturas de engenharia construídas com o objetivo de religar trechos de rio fragmentados por obstáculos, geralmente barragens. Na Europa e América do Norte, berço da técnica, a construção de passagens foi motivada pela interferência dos barramentos na migração de salmonídeos – espécies que desempenham longas migrações do mar para a cabeceira dos rios (locais de desova), com o posterior retorno dos juvenis para o oceano. Atualmente, existem centenas dessas estruturas pelo mundo, incluindo elevadores, caminhões com caçamba especial, canais seminaturais de migra- ção, eclusas e, principalmente, escadas de peixes. Apesar de originalmente projetadas para a transposição de salmonídeos, as escadas foram implantadas em muitos ambientes para permitir o deslocamento de peixes migradores com ciclo de vida diferenciado, cuja movimentação ocorre exclusivamente dentro do ambiente de água doce. Essas espécies requerem diferentes tipos de habitat para desova (geralmente a montante), desenvolvimento de juvenis (áreas alagadas) e alimentação (rios e ambientes marginais). Na presença de barramentos, o trânsito entre essas áreas pode ser bloqueado. Esse fato motivou a construção de escadas no Brasil. Desde a primeira (Itaipava, em 1911), apesar de não existir censo oficial, acredita-se que existam mais de 50 mecanismos de transposição no país. A A eficiência das escadas sob a perspectiva da conser vação da ictiofauna é motivo de controvérsias. Contribuíram para isso o fato de terem sido concebidas e implantadas sem o necessário conhecimento básico da biologia e ecologia das populações, nem indicações precisas da localização e distribuição espacial de cada habitat crítico - desova, desenvolvimento inicial e alimentação/crescimento. Prejudicadas pelo caráter difuso de seus objetivos e metas, as avaliações das escadas não ocorreram ou foram limitadas. Na verdade, não se sabe se a sua concepção visa à ampla permeabilidade na passagem, à transposição apenas das espécies migradoras ou de alguma espécie em particular. Estudos que extrapolam o âmbito do próprio mecanismo de transposição tiveram início apenas na última década C Densidade de ovos e larvas de peixes ao longo do rio Tocantins, antes (A) e após (B) a formação do reservatório de Lajeado e as condições de transparência da água após o represamento (C) B AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 (Modificado de Agostinho et al., 2007) 13 Condições em que um mecanismo de transposição pode atuar como armadilha ecológica (Modificado de Pelecice & Agostinho, 2008) (para detalhes ver artigos no periódico Neotropical Ichthyology, v. 5, n. 2 http://www.ufrgs.br/ni/). Em geral, as passagens falharam devido à ocorrência de duas limitações básicas: elevada seletividade e deficiências na migração descendente dos peixes adultos e sua prole através do reservatório. Características bioecológicas das espécies formam a base dessas limitações. No primeiro caso, as espécies neotropicais apresentam mor fologia, compor ta14 mento e hidrodinâmica muito heterogênea, o que torna difícil ajustar propriedades da escada, como a declividade, turbulência e atração, a fim de maximizar a passagem. Embora melhorias no desenho e localização possam minimizar o problema, a otimização da transposição para certas espécies automaticamente desfavorece outras, o que torna o problema insolúvel, pelo menos com o nível de conhecimento atual. É comum, por exemplo, que duas ou três espé- cies - incluindo algumas que pela abundância e distribuição na bacia, não seriam prioritárias na transposição - componham entre 80% e 95% das amostras obtidas nos mecanismos de transposição. A ausência de migração descendente de ovos, larvas e adultos impõe restrições ainda mais sérias ao sucesso das passagens. Até hoje, inexistem evidências que atestem o retorno dos peixes transpostos ou de seus produtos de reprodução para AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 ambientes de jusante. No caso da migração descendente de ovos e larvas, a situação também é muito complicada. Diferentemente da descida dos salmonídeos em direção ao mar, feita por jovens de tamanho considerável, as espécies neotropicais descem os rios ainda em estágios iniciais e vulneráveis (ovos e lar vas), carreados passivamente pela turbulência da água - é comum desaparecerem nos primeiros quilômetros do reservatório. A migração descendente também é um problema para peixes adultos de espécies migradoras. Em geral, eles têm comportamento reofílico e evitam ingressar nos pon- tos mais internos de grandes reservatórios. Por esse comportamento, os peixes transpostos rio acima não retornam à região da barragem, onde poderia ocorrer a transposição em sentido descendente. As limitações à migração descendente podem ter conseqüências nefastas à conser vação das populações de jusante, promovendo imbalanços populacionais ou deplecionando os estoques abaixo da barragem. Um quadro ainda pior e que poderia ser caracterizado como crime ambiental ocorre quando há um hábitat crítico à jusante, mas inexiste outro acima da barra- gem (situação possível em bacias com cascatas de reser vatórios), e mesmo assim um mecanismo é construído. Algumas iniciativas vêm tentando mudar esse quadro (consultar edição especial da Neotropical Ichthyology, v. 5 nº. 2). Monitoramentos e estudos conduzidos na região de influência da escada da barragem de Lajeado, no rio Tocantins, é um bom exemplo. Por meio da parceria entre a concessionária responsável pela hidrelétrica (Investico S.A.) e a Universidade Federal do Tocantins, o papel dessa obra na conservação dos peixes tem sido objeto de avaliação sistemática. Alternativas de controle da pesca em uso no Brasil e aplicabilidade Tipo Característica Situações apropriadas Considerações • Prática que deve ser implementada quando o monitoramento da atividade pesqueira e do estoque recomendar e com clareza acerca do recurso que se quer proteger. Proibição da atividade durante períodos críticos (época de desova, sobrepesca, migração, outros). Depleção dos estoques relacionados ao recrutamento ou crescimento. Interdição espacial Proibição da pesca em locais onde os estoques são vulneráveis à sobrepesca. A jusante de barragens, obstáculos naturais, canais de migração, em criadouros naturais ou áreas de desova coletiva. • Requer conhecimento preciso da distribuição e ciclo de vida dos estoques a proteger. Interdição de aparelhos de pesca Proibição do uso de aparelhos ou métodos de pesca não seletivos. Depleção dos estoques pela pesca. • Requer o monitoramento da pesca e do estoque, bem como conhecimentos da seletividade dos aparelhos. Interdição temporal Controle do tamanho do pescado Controle do tamanho do pescado desembarcado. Prevenir depleção de pesca e sobrepesca. Controle do esforço de pesca Restrições ao número de pescadores e/ou aparelhos de pesca. Depleção da pesca. • Conhecimento acerca do ciclo reprodutivo das espécies (época de desova) é imprescindível. • Requer informações do ciclo de vida das espécies, principalmente da fase jovem à maturidade. • Eficiente para os estoques em que a pesca é intensa e o recrutamento é baixo. • Requer o monitoramento dos estoques e da atividade pesqueira. (Agostinho et al., 2007) AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 15 Outras comprovações da preocupação são os estudos de marcação/ recaptura, radiotelemetria e avaliação do potencial de recrutamento, conduzidos em parceria com a Cemig em seus reservatórios. Aqüicultura A aqüicultura é uma atividade produtiva que não se enquadra como modalidade de manejo de recursos pesqueiros. Historicamente, entretanto, as estações produtoras de alevinos implantadas em cumprimento à legislação estiveram mais envolvidas com o fomento dessa atividade do que com os programas de estocagem. Além disso, as atuais políticas preconizam o cultivo de peixes em águas públicas, como forma de reduzir as pressões de pesca sobre os estoques naturais, tanto pelo envolvimento de pescadores com a produção, quanto pelo afrouxamento da pressão de exploração. Embora considerada uma atividade econômica importante e eficiente de produzir alimento, a aqüicultura como a maioria das formas de produção - afeta o ambiente com uma intensidade que varia de acordo com a modalidade utilizada (extensiva, semi-intensiva e intensiva) e da espécie cultivada. Isso é particularmente claro quando o cultivo é desenvolvido diretamente nos mananciais, como tanques-redes, prática que recebeu muito incentivo dos órgãos públicos nos últimos anos. É consenso que a piscicultura em águas públicas pode ser uma estratégia para aproveitamento dos recursos hídricos locais, contribuindo para a geração de renda e trabalho para as comunidades. Entretanto, seus gestores devem se precaver dos riscos de transformar a atividade em ferramenta de acumulação de riquezas e, em conseqüência, vetor de miséria e degradação ambiental. Diferentemente dos recursos pesqueiros naturais, a produção da aqüicultura em águas públicas não se constitui em bem coletivo. 16 Embora o sistema de cultivo em tanques-redes não esteja ainda completamente entendido, estudos preliminares já evidenciam algumas distorções de objetivos, conflitos de uso e fontes de degradação ambiental que devem ser considerados pelo gestor: 1. Seleção do local de cultivo: boa qualidade de água, proteção de ventos e correntes/profundidades moderadas são critérios desejáveis na escolha das áreas para implantação de tanques redes. A seleção de locais apropriados geralmente recai sobre braços protegidos e áreas litorâneas dos reservatórios, importantes para a desova, desenvolvimento inicial e alimentação da maioria das populações nativas. Isso pode acarretar problemas com circulação da água, sedimentação excessiva e eutrofização, além de conflitos de uso do espaço - áreas de pesca, desembarque pesqueiro, deplecionamento do reser vatório. A limitação do cultivo em parques aqüícolas, que tem como critério a capacidade do ambiente em receber cargas orgânicas, não tem sido obedecida. Roubo e vandalismo não são raros nesse sistema de cultivo. 2. Deterioração na qualidade da água: sistemas de cultivo artificiais são alimentados por insumos externos ao sistema, como rações. Cargas elevadas de nutrientes, associadas aos excrementos e eventuais resíduos de biocidas ou biostáticos, têm reflexos na eutrofização e/ou proliferação de algas cianofíceas, muitas vezes tóxicas. 3. Disseminação de doenças: o ingresso de alevinos ou jovens originários de estações de piscicultura, nem sempre com controle eficiente de doenças, pode contribuir para a disseminação de parasitas, bactérias, fungos e/ou vírus. A elevada densidade de peixes em cultivo e nas imediações dos tanques e o estresse ambiental decorrente do confinamento contribuem para a propagação de parasitas e patógenos. 4. Atração de predadores: a atração de peixes da fauna nativa pelas perdas de alimento pode provocar grandes concentrações que, por sua vez, atraem outros ver tebrados piscívoros facultativos ou obrigatórios - répteis, aves e mamíferos. Esses animais elevam a predação e podem promover avarias nas estruturas dos tanques-redes, promovendo escapes. Além disso, a concentração de peixes nas imediações do cultivo atrai pescadores e se constitui em fonte plausível de conflitos. 5. Introdução de espécies ou híbridos: para os casos em que a espécie cultivada não seja nativa, esse talvez seja o principal dano ambiental, uma vez que a ocorrência de escapes é um fenômeno universal e inevitável. Isso pode acontecer durante o manejo do cultivo ou na despesca, bem como por avarias promovidas nas estruturas dos tanques. Em relação ao cumprimento das finalidades na geração de renda e emprego, bem como na redução da pressão sobre os estoques selvagens, a prática vem revelando que nem sempre é eficaz. O uso da estratégia para incrementar a renda de pescadores não se revela promissor, pelo menos com o emprego de espécies nativas, fato atribuído aos custos de produção, dificuldades na comercialização e pela escala reduzida de cultivo inerente à capacidade de investimento dos pescadores. Agravantes em relação à sua sustentabilidade ambiental são comprovados pelo uso ilegal de madeira da área de preservação permanente no preparo do alimento dos peixes, ou mesmo no uso de recipientes de pesticidas como bóias. Sua finalidade como estratégia para segurança alimentar do pescador é também controversa, visto que as espécies rejeitadas na comercialização, antes utilizadas como fonte de proteína nas refeições das famílias, agora são destinadas ao preparo da ração dos peixes. Além disso, juvenis de espécies de maior porte - geralmente recusados na venda e, em AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 parte, devolvidos aos corpos de água - passaram também a ser retidos e empregados no preparo da ração. Apesar dos muitos pontos negativos, a aqüicultura em águas públicas pode ser ambientalmente sustentável e promover o desenvolvimento social, gerando renda e emprego. Para isso, não deveria ser pautada apenas pelo lucro, comumente inviável na produção em pequena escala, ou incentivada por interesses políticoeleitoreiros. Deveria ser um programa com ampla articulação com as demais ações ligadas à gestão dos recursos pesqueiros e concebido dentro de um amplo planejamento, amparado por estudos técnicos de produção, impacto e mercado. Controle da pesca A intensificação na exploração dos recursos naturais de água doce pode levar à diminuição nos estoques, comprometendo a sua sustentabilidade. Regulamentações e formas de controle da pesca mostram-se necessárias para impor regras que minimizem os potenciais problemas e garantir a manutenção, em longo prazo, do recurso explorado, promovendo também melhor distribuição entre os usuários. No Brasil, o controle da pesca tem sido considerado uma opção barata de manejo amplamente utilizada. Porém, existem várias dificuldades relacionadas com esta ação. Em primeiro lugar, é entendida apenas como regulamentação que, por si só, irá resolver o problema da sustentabilidade dos recursos. Isso realmente não ocorre, pois as ações de manejo devem atuar de forma complementar. Além disso, para conduzir um controle adequado da pesca, é necessário um grande investimento financeiro no planejamento e execução do ordenamento, regulamentação e fiscalização, etapas que devem ser amparadas com informações fidedignas obtidas sobre o sistema. A interdição temporal é uma das formas de controle da pesca utilizadas no Brasil. Ela consiste na proibi- Fatos já registrados em programas de fomento de cultivo de peixes em tanques redes em reservatórios, destinados a pequenos produtores e a pescadores, sem adoção de um manejo técnico adequado (Agostinho et al., 2007) ção da atividade pesqueira na época da piracema, quando ocorre a desova, visando assegurar a reprodução para garantir a perpetuação dos estoques. Porém, os peixes apresentam certa flexibilidade no período de desova, com atrasos ou antecipações, dependendo de fatores ambientais. Apesar de anualmente empregada, não há informações disponíveis sobre sua a efetividade e parece ter maior impacto na redução do esforço de pesca. A interdição espacial, por sua vez, é a proibição da pesca em locais onde os estoques são mais vulneráveis à sobrepesca (próximo a obstá- AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 culos naturais e barragens), há elevada captura de jovens (lagoas, planícies de inundação) ou em regiões de reprodução coletiva (áreas de desova). A interdição espacial também tem impacto positivo sobre o uso compartilhado dos estoques. Já a interdição de aparelhos é a proibição de petrechos ou métodos de pesca que resultem em capturas massivas ou não-seletivas de jovens de espécies raras ou ameaçadas. Entretanto, a proibição completa de certos aparelhos pode criar dificuldades ou comprometer o exercício da pesca profissional em alguns ambientes, como acontece em reservató17 rios de alguns estados brasileiros, que proíbem o uso de redes de espera. A ausência de informações e monitoramento impede que as interdições sejam avaliadas e revistas, com prejuízo para os pescadores. O uso de iscas, por outro lado, deve ser objeto de maior controle, uma vez que pode levar à introdução de espécies. Na Instrução Normativa nº. 43 do Ibama (de 23/07/2004), estão listados os aparelhos de pesca proibidos no Brasil. O controle do tamanho do pescado durante os desembarques ou em diferentes etapas da comercialização visa assegurar que jovens das diversas espécies alcancem a maturidade e se reproduzam. Essa alternativa é recomendada quando a pesca é intensa e o recrutamento baixo. Mas o tamanho mínimo de captura deve ser determinado a partir de informações do crescimento, reprodução e seletividade dos aparelhos de pesca que capturam a espécie. Após determinado o tamanho, portarias do Ibama são expedidas para as diversas regiões do país. Tal opção passou a ser questionada recentemente, pois a remoção histórica de indivíduos de grande porte pode provocar conseqüências inesperadas ao estoque. Peixes maiores são diferentes geneticamente e produzem descendentes com maior probabilidade de sobrevivência; sua remoção dos estoques altera a dinâmica de sustentabilidade da população. Finalmente, o controle do esforço tem como objetivo diminuir a quantidade de aparelhos utilizados na pesca. A emissão de licenças para pesca é exigida pelo Decreto-Lei nº. 221/ 67, obrigatória ao pescador profissional, e não necessária à condução da pesca de subsistência. Lacres também podem ser emitidos pelos órgãos para controlar os equipamentos de pesca, que servem para identificar e controlar a quantidade de aparelhos, bem como facilitar a fiscalização. Também são necessárias licenças para as embarcações, que devem estar inscritas no Cadastro Naci18 onal de Embarcações da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca. Com exceção da pesca amadora desenvolvida no Pantanal do Mato Grosso do Sul, a determinação de quotas não é muito utilizada no Brasil, especialmente na pesca profissional. Perspectivas Embora protocolos equivocados de manejo ainda estejam em vigor, houve avanços na gestão dos recursos pesqueiros na última década, com melhorias nos procedimentos e na busca de informações antes da tomada de decisões. Nesse sentido, contribuíram a intensificação de estudos científicos, os novos instrumentos legais e a ampla discussão realizada no âmbito dos Seminários sobre a Fauna Aquática e o Setor Elétrico Brasileiro. É evidente que o manejo racional dos recursos pesqueiros requer um amplo conhecimento de todos os componentes do sistema, compreendendo os peixes, outros organismos, o ambiente, as pessoas envolvidas com a pesca e aquelas cujas atividades afetem esses recursos; um planejamento com metas e objetivos claros e ar ticulados entre si, contemplando diferentes escalas temporais e com flexibilidade suficiente para incorporar novos conhecimentos, e o monitoramento contínuo das comunidades, como estratégia de aferição das ações de manejo pretéritas, e das mudanças a longo prazo que possam ocorrer na biota. A avaliação dos resultados é uma etapa indissociável da ação de manejo, e sua falta aumenta a chance de insucessos, perda de recursos e esforços, ou pior: pode permitir graves impactos ambientais sobre os recursos. No caso de ambientes alterados, é necessário entender que qualquer decisão de manejo, mesmo a sua ausência, tem conseqüências sobre a biota. A decisão por qualquer medida mitigadora ou de recuperação, consequentemente, deve ser um ato de extrema consciência e responsabilidade. Referências bibliográficas Agostinho, A.A.; Gomes, L.C.; Pelicice, F.M. (2007). Ecologia e manejo de recursos pesqueiros em reservatórios do Brasil. EDUEM, Maringá. 501 p. Agostinho, C.S.; Agostinho, A. A.; Pelicice, F.M.; Almeida, D.A.; Marques, E.E. (2007b). Selectivity of fish ladders: the first bottleneck in fish movement. Neotropical Ichthyology 5(2): 205-213. Alzuguir, F. (1994). Histórico da legislação referente à proteção dos recursos ícticos de água doce. In: Seminário sobre fauna aquática e o setor elétrico brasileiro: reuniões temáticas e preparatórias. Rio de Janeiro: ELETROBRÁS: COMASE. p. 19-32. (Caderno 2: legislação). COMASE (1994). Seminários sobre fauna aquática e o setor elétrico: reuniões temáticas preparatórias, 1993. Rio de Janeiro: ELETROBRÁS:COMASE. 4 cadernos. Fernandez, D. R.; Agostinho, A. A.; Bini. L. M. (2004). Selection of an experimental fish ladder located at the dam of the Itaipu Binacional, Paraná River, Brazil. Brazilian Archives of Biology and Technology 47: 579-586. Makrakis, S.; Makrakis, M. C.; Wagner, R. L.; Dias, J. H. P.; Gomes. L. C. (2007). Utilization of the fish ladder at the Engenheiro Sérgio Motta Dam, Brazil, by long distance migrating potamodromous species. Neotropical Ichthyology 5(2): 197-204. Oldani, N.O.; Baigún, C.R.M.; Nestler, J.M.; Goodwin, R.A. (2007). Is fish passage technology saving fish resources in the lower La Plata River basin? Neotropical Ichthyology 5(2): 89-102. Pelicice, F.M.; Agostinho, A.A. (2008). Fish-passage facilities as ecological traps in large Neotropical rivers. Conser vation Biology 22:180-188. Pompeu, P.S.; Martinez, C.B. (2007). Efficiency and selectivity of a trap and truck fish passage system in Brazil. Neotropical Ichthyology 5(2): 169-176. Quirós, R. (1999). 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A seta à direita mostra a entrada da escada, e a seta à esquerda, a saída, já no reservatório da usina Alexandre Lima Godinho Centro de Transposição de Peixes Universidade Federal de Minas Gerais [email protected] Muitos dos mais importantes peixes do Brasil realizam migrações complexas e ainda pouco conhecidas - ao longo dos rios, em diferentes fases da vida. Essa migração pode ser descrita resumidamente da seguinte forma: os adultos vão dos sítios de alimentação para os sítios de desova. Os ovos produzidos nos sítios de desova são carreados rio abaixo, pela correnteza, por dezenas e, às vezes, milhares de quilômetros até alcançarem os seus berçários. Posteriormente, os jovens peixes mi- gram de volta aos sítios ocupados pelos adultos, num movimento conhecido na bacia do rio São Francisco como “arribação”. Algumas espécies impor tantes, como o robalo, porém, migram do mar para os rios e vice-versa. Passagens de peixes Passagens de peixes, como também são conhecidos os mecanismos de transposição, possibilitam que as espécies ultrapassem obstáculos - barragens, por exemplo - construídos em suas rotas migratórias. Elas podem ser para montante - escadas e elevadores - ou para jusante, estruturas hidráulicas especialmente projetadas para fazer com que os peixes desçam a barragem em segurança. AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Passagens para montante têm sido usadas na conser vação de peixes desde o século XVII. Somente no Japão, há cerca de 1.400 delas; no Brasil, existem poucas dezenas, muitas construídas em meados do século passado, e todas de pequeno por te. Mais recentemente, grandes passagens para montante foram instaladas em Mato Grosso, Paraná, Tocantins, Minas Gerais e São Paulo – esse dois últimos têm legislações específicas que exigem a sua construção em determinadas usinas. Por essa razão, somente em Minas Gerais foram construídas passagens para montante nas barragens de Aimorés, Candonga, Igarapava, Funil e Santa Clara. 19 Passagens para montante são tão impor tantes na conser vação de peixes quanto as para jusante. A migração entre os sítios de alimentação e de reprodução realizada pelos adultos é normalmente um fenômeno de ida e volta: quando um peixe sobe uma escada para o sítio de desova, freqüentemente retorna, voltando para o sítio de alimentação. A escada, porém, não é o caminho que a maioria dos peixes utiliza para descer a barragem; os mais usados são os ver tedouros e as turbinas - nessas últimas, a mor talidade pode ser muito elevada. Por isso, oferecer uma via segura para as espécies descerem é tão importante quanto a alternativa para subir. No Brasil, a prioridade absoluta tem sido dada às passagens para montante e, por tanto, nenhuma para jusante ainda foi instalada no país. Isso porque são estruturas bem mais complexas e difíceis de projetar, o que exige ainda mais estudos a respeito. Alguns exemplos Conhecer as migrações é fundamental para planejar e operar passagens de peixes. As barragens a serem construídas no rio Madeira, por exemplo, irão impedir que jovens de dourada (Brachyplatystoma Foto: Alexandre L. Godinho As novas passagens para montante brasileiras são bem modernas, especialmente as mineiras. O monitoramento do trânsito de peixes por elas tem mostrado que são usadas por grande variedade de espécies, que sobem as passagens em grandes quantidades - já foi documentada a subida de milhões de peixes em apenas uma única estação chuvosa. Mas para determinadas espécies, particularmente os grandes peixes de couro, como surubim (Pseudoplatystoma) e jaú (Zungaro), as passagens para montante ainda não são adequadas. São necessários estudos, testes e melhorias nas passagens para solucionar alguns problemas. Elevador de peixes da Usina de Funil, rio Grande (MG). Os peixes acessam o elevador pela entrada localizada no canto inferior à direita na foto. São içados por uma caçamba e liberados na calha aérea (na figura, no alto à esquerda) para terem acesso ao reservatório. 20 AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Foto: Alexandre L. Godinho Vista para jusante da escada de peixes da Usina Hidrelétrica de Igarapava, rio Grande (MG/SP). O peixe sobe a escada passando de um tanque para outro pela ranhura vertical que ocupa toda a altura da parede transversal do tanque. rousseauxii) cheguem aos sítios ocupados pelos adultos. A dourada atinge quase 2 m e é o peixe de couro mais importante da pesca na bacia Amazônica. Se não forem fornecidas passagens adequadas para essa espécie nas futuras barragens, é possível que seja extinta no alto rio Madeira, inclusive em território boliviano. Exemplo disso ocorreu com o robalo (Centropomus spp.) - peixe de grande por te e impor tante para a pesca e culinária - no rio Doce. A pequena barragem de Mascarenhas, construída entre 1968 e 1973, tem impedido que os peixes migrem dos sítios de desova para os de alimentação localizados à montante. Uma passagem para os jovens peixes da arribação também é necessária na bar ragem de Três Marias. Anualmente, jovens de algumas das mais impor tantes espé- cies do rio São Francisco, como zulega (Prochilodus argenteus) e dourado (Salminus franciscanus), migram rio acima em quantidades que estão aparentemente associadas às cheias. Esses peixes atingem a barragem de Três Marias e, pela falta de uma passagem para montante, acabam aglomerando-se no canal de fuga por semanas e até meses. Após cer to tempo ali, desistem da busca por uma passagem, movendo-se para jusante. A ausência de uma passagem para montante na barragem de Três Marias parece ser uma das principais causas para a pesca far ta na região. Nas primeiras dezenas de quilômetros à jusante da barragem, a pesca é a mais produtiva do rio São Francisco, sustentada em parte pelos peixes da arribação aprisionados à jusante. Outra par te impor tante é fornecida pelos grandes AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 predadores, dourado e sur ubim (Pseudoplatystoma corr uscans), que migram de jusante para se alimentar dos peixes da arribação. Devido à maior produtividade de peixes, os pescadores da região da barragem de Três Marias têm renda anual superior à de outras localidades do rio São Francisco. Por tanto, a construção de uma passagem de peixes no local irá contribuir para o fim da concentração de renda para esses pescadores, mas criará outro problema: a redução drástica na quantidade de peixes afetará o rendimento da pesca, desestruturando uma cadeia produtiva que está instalada ali há décadas. Embora ainda existam perguntas sob o ponto de vista biológico sobre a eventual passagem de peixes na represa de Três Marias, cer tamente a maior questão é sobre o aspecto social da medida. Com a implementação de passagens, tem-se obtido sucesso na conser vação de recursos pesqueiros, mesmo quando não há o conhecimento sobre as migrações dos peixes. Normalmente, essas informações não estão disponíveis no momento da construção de passagens no Brasil. Este foi o caso da represa de Igarapava, no rio Grande, cuja escada evitou a redução ou, até mesmo, a extinção local do mandi (Pimelodus maculatus) - o principal peixe da pesca comercial -, do piau-flamengo (Leporinus octofasciatus) e do curimbatá (Prochilodus lineatus). As passagens têm grande potencial como ferramenta para a conservação de peixes, mas o seu uso não é recomendável em qualquer situação. Por isso, deve-se ter conhecimento básico sobre os peixes para balizar a tomada de decisão quanto à sua necessidade ou não. O monitoramento do trânsito das espécies e suas conseqüências para a fauna local são fundamentais para a avaliação dos eventuais benefícios e malefícios causados pela passagem de peixes. 21 Vista aérea da estação de piscicultura de Volta Grande, inaugurada em 1976 Breve história da ictiologia em Minas Gerais Hugo P. Godinho Professor o Programa de Pós-graduação em Zoologia de Vertebrados - PUC Minas Telefone: (31) 9976-4204 A história de Minas Gerais está intimamente associada aos seus rios. A ocupação da terra mineira e a exploração de seus recursos naturais tiveram neles a base de seu desenvolvimento. Rios de 17 diferentes bacias hidrográficas correm em parte ou na totalidade do estado. Cerca de 10 delas, em razão do porte significativo, têm presença marcante na geografia mineira: juntas, cobrem mais de 90% da sua área. As demais são bacias de pequeno por te que contribuem modestamente para a malha fluvial. 22 A grande diversidade de bacias hidrográficas de Minas Gerais proporciona habitat a mais de 400 espécies conhecidas de peixes, número inferior apenas ao da região Amazônica. Desde o final do século XVIII, essa valiosa riqueza natural tem despertado o interesse científico internacional, graças às famosas expedições que coletaram nossos peixes e os enviaram para museus estrangeiros. Foi apenas a partir da metade do século XX que trabalhos de pesquisa locais passaram a ser desenvolvidos. Alguns momentos do século passado foram marcantes no desenvolvimento da ictiologia mineira. O Código de Pesca, de 1967, disciplinou o uso legal dos recursos pesqueiros brasileiros, incluindo-se a regulamentação da pesca científica. Já a necessidade de reparos compensatórios decorrentes da construção de barramentos hidrelétricos em rios foi responsável pela instalação das três primeiras estações de hidrobiologia e piscicultura institucionais de Minas Gerais, na década de 1970. Em decorrência de suas atividades, essas unidades – as da Cemig e Furnas, ambas localizadas em diferentes trechos do rio Grande, e a da Codevasf, no Alto São Francisco - constituíramse ao longo dos anos em importantes bases de pesquisas. O ambiente propício ao desenvolvimento científico da ictiologia em Minas Gerais foi estimulado por outro acontecimento impor tante: a re- AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 alização, em Belo Horizonte (MG), do I Encontro Nacional sobre Limnologia, Piscicultura e Pesca Continental, em 1975, patrocinado pela Fundação João Pinheiro. Esse evento reuniu pesquisadores brasileiros que, com suas apresentações, discussões e recomendações, despertaram na comunidade científica mineira a necessidade de se estabelecer programas de pesquisa para a exploração racional da aqüicultura e da pesca do estado. Nessa época, a Epamig implementou um arrojado projeto de incentivo à piscicultura no estado, no qual se incluiu o interesse pela pesquisa, estimulando cientistas a desenvolverem projetos em parceria com a empresa. Os programas de pesquisa eram discutidos em reuniões anuais de avaliação e programação, das quais participavam instituições convidadas. Já no 3º Encontro, realizado em 1981, o número de participantes havia crescido e, em função do interesse, o grupo presente decidiu fundar a Associação Mineira de Aqüicultura - AMA. Durante os 15 anos seguintes, a entidade tornou-se o principal fórum de debates e de apresentações de trabalhos científicos em ictiologia e piscicultura do estado. Deve-se ressaltar o papel que as universidades, especialmente as federais de Lavras (UFLA), de Viçosa (UFV) e de Minas Gerais (UFMG), representaram no desenvolvimento da ictiologia mineira com seus programas de pósgraduação em áreas afins. Novas instituições par ticipam desse esforço, especialmente a PUC Minas, que juntamente com UFV, UFLA e UFMG constituem o principal produtor de conhecimento científico relativo a peixes no estado. Ressalte-se ainda a valiosa contribuição ao desenvolvimento cien- tífico da ictiologia estadual por instituições e pesquisadores de fora, principalmente os cientistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Conhecimento científico O conhecimento científico acerca de nossos peixes tem aumentado significativamente nas últimas quatro décadas. Todavia, ainda não está generalizado no que se refere aos peixes e suas respectivas bacias hidrográficas. Entre os fatores responsáveis, está o fato de que os peixes das bacias de grande porte situadas em regiões mais ricas do estado, naturalmente, são mais conhecidos do que daquelas situadas em áreas menos privilegiadas - as bacias do rio Grande e do Alto São Francisco, por exemplo, fazem parte do primeiro grupo e as do Jequitinhonha e Mucuri compõem o segundo. Estação de piscicultura de Furnas (MG) AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 23 Estação de piscultura de Três Marias (MG) O trabalho das primeiras estações de pisciculturas mineiras se voltou para a produção de alevinos para repovoamento, com o conseqüente esforço nas áreas de reprodução induzida e de larvicultura. O interesse maior da Epamig, porém, concentrou-se no desenvolvimento de tecnologias de produção comercial de espécies tradicionais, como tilápias e carpas, e na pesquisa de espécies nativas potencialmente aptas ao cultivo comercial. O futuro Há questões bioecológicas importantes a serem abordadas nos diferentes rios mineiros. O desenvolvimento econômico estadual continua a provocar impactos negativos na ictiofauna nativa. Por exemplo, barramentos transformaram importantes rios do estado numa sucessão de grandes lagos artificiais, alterando a fisionomia fluvial original. A drás24 tica mudança ambiental - caracterizada pela perda de habitat, interrupção e transformações no fluxo natural das águas dos rios - alterou a abundância e a composição das populações de peixes. As espécies de piracema (que se movimentam de um ambiente para outro para a reprodução) foram as mais afetadas pelos barramentos. Sob essas condições, elas não têm Publicações do “I Encontro Nacional sobre Limnologia, Piscicultura e Pesca Continental”, realizado em 1975. como cumprir a necessidade inata de se deslocar para cada habitat específico de reprodução. Por tanto, há enorme tarefa a ser desenvolvida quanto à manutenção de populações de peixes de piracema em rios barrados. Outros impactos negativos ao ambiente (poluição, desmatamento, expansão das cidades e das fronteiras agrícolas e industriais) têm efeitos deletérios na ictiofauna do estado. Além disso, a fauna de pequenos rios de cabeceiras não tem sido devidamente estudada, dado também preocupante face ao interesse crescente na exploração do potencial energético desses nichos. Portanto, a palavra-chave agora é conservação das populações afetadas. Como aplicar de modo eficaz o saber acumulado em benefício da conser vação de nossos recursos naturais, porém, é um dos grandes desafios dos próximos anos. AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Estudos hidráulicos e de bioengenharia no Centro de Transposição de Peixes Vista geral do Laboratório de Hidráulica do CTPeixes Carlos Barreira Martinez & Alexandre Lima Godinho Centro de Transposição de Peixes Universidade Federal de Minas Gerais E-mail: [email protected] A crescente demanda por recursos hídricos tem exigido inter ferências humanas sobre os meios físico e biótico, que afetam diretamente os peixes, com a redução na quantidade e qualidade do seu habitat e, conseqüentemente, na sua abundância. Além disso, essas inter ferências têm induzido a sociedade a refletir sobre diversas questões relativas ao meio ambiente. Em função disso, atitudes vêm sendo tomadas para a conservação e a restauração dos recursos naturais. Atenta a essas mudanças e em resposta às exigências da sociedade, o Funbio e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) financiaram a implantação do Centro de Transposição de Peixes (CTPeixes), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2000. Situado no Campus Pampulha, ele conta com AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 laboratórios nos institutos de Ciências Biológicas (ICB) e Exatas (ICEX) e ainda na Escola de Engenharia (EEUFMG). O CTPeixes tem como missão o desenvolvimento de pesquisas, a formação de pessoal qualificado e a prestação de ser viços para a solução dos principais problemas da transposição de peixes. Também fornece ambiente para a interação e a troca de conhecimento entre biólogos e engenheiros na busca de uma linguagem comum entre esses profissionais. 25 Linhas de Pesquisa O CTPeixes desenvolve pesquisas sobre diferentes aspectos da transposição de peixes. Os trabalhos são direcionadas à obtenção de respostas para perguntas fundamentais, como: Quais barragens necessitam transpor peixes? Quais espécies necessitam ser transpostas? Quando e para que os peixes precisam ser transpostos? Quais são os critérios de engenharia mais indicados para cada mecanismo? Quais são os benefícios ecológicos, sociais e econômicos advindos da transposição de peixes e o seu respectivo custo? As pesquisas desenvolvidas pelo CTPeixes para responder a essas questões estão agrupadas nas áreas de biologia, hidráulica, bioen- genharia, computação visual e socioeconomia. Em hidráulica e bioengenharia, por exemplo, incluem estudos em modelo reduzido, dissipadores de energia compactos, critérios para projetos de mecanismos de transposição de peixes (MTP), compor tamento das espécies no canal de fuga das barragens e em dissipadores de energia, transposição para jusante e por turbinas. Estudos realizados Aqui, são apresentados alguns trabalhos do CTPeixes realizados no Centro de Pesquisas Hidráulicas e de Recursos Hídricos (CPH) da EEUFMG, relacionados às linhas de hidráulica e bioengenharia. O primeiro estudo é a determinação da ca- pacidade natatória do mandi-amarelo (Pimelodus maculatus), peixe muito comum em nossas águas, na qual foi utilizado um aparato experimental baseado no respirômetro de Brett. Concluiu-se que a capacidade natatória do mandi-amarelo é superior à do salmão (Oncorhynchus nerka), provavelmente devido às temperaturas maiores em que vive o nosso peixe. Os dados obtidos representam uma impor tante contribuição para a conservação dessa espécie, oferecendo critérios de projeto para serem aplicados na construção de MTPs e sistemas de proteção e orientação. O segundo trabalho é o estabelecimento da regra operativa de um MTP do tipo elevador, com caminhão- Aparato para estudos de capacidade natatória de peixes. 26 AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Aparato para estudo de barreira elétrica. tanque, para maximizar o número de exemplares transpostos e minimizar o consumo de água. Para isso, monitorou-se a operação do mecanismo da barragem de Santa Clara, no rio Mucuri, de novembro de 2003 a março de 2004. Concluiu-se que a operação do MTP deve ser prioritariamente feita durante o dia – à noite, somente em períodos chuvosos - ou aumentá-la em dias de maior vazão. A regra proposta, que não prevê a intensificação da operação em períodos de maior vazão, poderá representar o acréscimo de até 35% no número de peixes transpostos das espécies migradoras. Além disso, promoverá a economia de até R$ 547.000,00, considerando-se taxas de juros anuais de 8% e vida útil do empreendimento de 30 anos. Ainda com relação ao MTP da barragem de Santa Clara, estudou-se a possibilidade de gerar energia elétrica a partir da água na atração de peixes. A inserção de uma turbina de pequeno porte no MTP apresenta uma série de vantagens, principalmente por possibilitar a geração de energia em situação de baixa vazão em um ponto de rendimento elevado. Essa estratégia tem como benefícios a melhoria da atratividade do MTP, além do aumento do rendimento global dos grupos geradores e da energia total gerada pelo empreendimento. Trabalho bastante interessante foi o estudo de metodologia para a determinação do efeito da intensidade de turbulência sobre os peixes. Primeiramente, foi necessário o desenvolvimento de aparato experimental que permitisse gerar em laboratório a turbulência com intensidade e escala conhecidas. Assim, é possível testar as respostas biológicas dos peixes em vários estágios da vida a diferentes níveis de turbulência. As respostas biológicas são medidas em termos de mor talidade direta, de cur to e longo prazos, grau e freqüência de injúrias, desorientação ou redução da capacidade natatória - aspectos que podem conduzir ao aumento da predação em condições naturais. AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Para a conser vação da fauna dos rios brasileiros, estudou-se o uso de barreiras elétricas no tubo de sucção de usinas hidrelétricas para impedir a entrada de peixes nas turbinas. Os experimentos foram realizados em um aparato que permite obser var a influência do campo elétrico sobre o compor tamento dos peixes, composto da seguinte estrutura: um canal de vidro, em formato longo e estreito, de 150 cm de comprimento por 40 cm de altura e 15 cm de largura, similar ao tubo de sucção de uma pequena usina hidrelétrica. O que se alterou da forma original foram os contornos arredondados além da altura média estabelecida para a simplificação do modelo. Devido à simplicidade da geometria do aparato, a introdução dos mecanismos responsáveis pela produção dos campos elétricos foi facilitada, reduzindo os esforços para estudar o compor tamento dos peixes. A espécie testada no aparato foi a Piaractus mesopotamicus, popularmente conhecida como pacu-caranha, devido à facilidade de manutenção e resistência ao manejo. Antes dos experimentos, eles foram mantidos em tanque de 500 l e alimentados à base de ração flocada, gema de ovo e larvas de insetos. Nos experimentos, os peixes - de pequeno porte (média de 8 cm) - foram testados em lotes de três, cinco ou sete indivíduos, sempre de tamanhos próximos. Cada lote foi utilizado em cinco testes consecutivos e cada teste teve a duração de 1 a 2 minutos, com intervalo entre eles de 10 a 12 minutos. Finalizada a série de cinco testes, o lote era transferido para um tanque de recuperação. Os resultados preliminares são promissores na busca de soluções para prevenir a mortandade de peixes nos tubos de sucção de usinas hidrelétricas, bloqueando sua entrada com barreira elétrica. Além disso, eles também indicam a possibilidade da evacuação dos peixes, em caso de parada do grupo gerador para a manutenção. 27 Opinião debate Captura de matrizes nos tanques de alevinagem de Volta Grande Peixamento como medida ambiental mitigadora do impacto na ictiofauna Alessandra Gomes Bedore Professora de Morfologia-Universidade de Uberaba; Mestre em Morfologia pela Universidade Federal de Minas Gerais [email protected] João de Magalhães Lopes Biólogo da CEMIG Geração e Transmissão, Coordenador Técnico da Estação de Piscicultura de Volta Grande [email protected] A energia gerada no início do século XXI atingiu 15 mil TWh por ano, dos quais 20% vêm de usinas hidrelétricas. O volume de geração das fontes hidrelétricas excede as de28 28 mais energias renováveis, como a aeólica, a geotérmica ou a fotovoltaica. Apesar de poder gerar gases para o efeito estufa pela decomposição de material orgânico, os reser vatórios ainda são muito menos poluentes do que as usinas térmicas ou nucleares – essas últimas de grande risco. Mas os impactos locais da instalação de hidrelétricas são altos: cerca de 60% das bacias hidrográficas mundiais são afetadas por essa construção. Os principais efeitos são modificações no regime hidrológico, barreiras à migração de espécies aquáticas, aprisionamento de nutrientes e diminuição da fertilidade de planícies. Inicialmente, os represamentos brasileiros tinham objetivos restritos: na maioria eram destinados ao abastecimento de água e irrigação, especialmente no Nordeste. Posteriormente, com a construção de grandes barragens, o uso das águas represadas se diversificou, incluindo, além de abastecimento e irrigação, o controle da vazão, a estocagem de peixes, a aqüicultura, a recreação, o turismo, AÇÃO AÇÃOAMBIENTAL AMBIENTAL--Novembro/Dezembro Novembro/Dezembro2008 2008 Opinião debate o uso industrial, a navegação e a produção de energia elétrica em larga escala. Mesmo não implicando em consumo efetivo, o uso da água para a geração de energia elétrica inter fere no volume que pode ser destinado a outros fins. Isso porque requer a manutenção de uma vazão média estável que permita a continuidade do fornecimento de determinada quantidade de eletricidade ao sistema distribuidor, o que implica na construção de barramentos. A construção de seqüências de barramentos transformou a maioria dos grandes rios brasileiros em uma sucessão de reser vatórios, mudando a categoria dos ambientes aquáticos de lóticos (de água corrente) para lênticos (de água parada) e pro- movendo a interrupção da rota migratória de várias espécies de peixes. Esse acontecimento aliado a outras atividades humanas que modificam a qualidade de qualquer habitat, como a poluição e o desmatamento, promoveram uma redução gradativa dos estoques pesqueiros, incluindo a redução drástica ou desaparecimento local de peixes migradores e a profusão de espécies opor tunistas. Fatores ambientais (temperatura da água, taxa de par tículas em suspensão, oxigênio dissolvido, correnteza, etc.) são determinantes no sucesso da propagação dos peixes, principalmente para as espécies de piracema. O advento da estação apropriada desencadeia o desenvolvimento da gônada, o que finalmente resulta em desova. Os peixes tropicais e subtropicais desovam durante a estação chuvosa, quando a prole tem melhores chances de sobrevivência nas águas tur vas de fluxo rápido. A instalação de barragens de usinas hidrelétricas impede a subida de algumas espécies durante o período de reprodução (piracema), o que impossibilita a quebra de dormência gonadal e resulta na não-desova. Em geral, é esperado que a riqueza regional desses peixes diminua e a dominância de poucas espécies opor tunistas se acentuem. Um pouco de legislação No Brasil, a busca por formas de mitigação dos impactos de represamentos hidrelétricos sobre a ictiofauna e de conser vação dos recursos pesqueiros teve seu início com os primeiros reservatórios, no começo do século passado. Tal fato ocorreu em 1911, com a conclusão da construção da escada de peixes no reservatório de Itaipava, no rio Pardo, bacia do rio Paraná. A partir dos anos 1950, o foco passou a ser o estímulo à criação de estações de hidrobiologia ou piscicultura, vinculados às concessionárias de energia. O primeiro Código de Pesca do Brasil (Decre- AÇÃO AÇÃOAMBIENTAL AMBIENTAL--Novembro/Dezembro Novembro/Dezembro2008 2008 to-Lei nº. 794, de 19/10/1938) já previa que “as represas dos rios, ribeirões e córregos devem ter, como complemento obrigatório, obras que permitam a conservação da fauna fluvial, seja facilitando a passagem de peixes, seja instalando estações de piscicultura”. A finalidade dessas estações era a produção de alevinos para repovoamento. As ações de estocagem de peixes ganharam impulso após a promulgação do Decreto-Lei nº. 221 (28/02/ 1967) e a publicação da Portaria nº. 46/Sudepe (27/01/1971). Esses instrumentos delegaram à Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (Sudepe) a função de determinar o melhor mecanismo de proteção à fauna a ser utilizado por proprietário ou concessionário de represa em cursos de água, além de outras resoluções legais. O resultado foi a criação de estações de estocagem de espécies nativas e não-nativas destinadas ao repovoamento. As resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) 001/86 e 237/97 previam a realização de estudos e relatórios dimensionando os impactos causados pela instalação de reser vatórios, bem como a proposição de projetos de manejo e de monitoramento de suas alterações. O correto monitoramento de um reservatório pode demonstrar qual a melhor medida de manejo a ser adotada (transposição, peixamentos, etc) e identificar os problemas do uso múltiplo dos recursos da bacia. O artigo 20 da Lei 12265, de 24/07/1996, por sua vez, estabelece o condicionante legal para a obtenção de licenciamento ambiental na construção de barragens hidrelétricas: a instalação de sistemas de transposição e de estações de hidrobiologia que visem à produção de alevinos destinados ao repovoamento do trecho afetado. A Lei estadual nº. 14578, de 16/ 01/2003, reforça a intenção do poder público em estimular a preservação da ictiofauna em bacias hidrográficas estaduais e a implantação de estações 29 29 Opinião debate Procedimentos nas incubadoras para produção de alevinos de piscicultura para pesquisas de recomposição das espécies afetadas: “Ar t 3º - Compete ao Poder Executivo, na implementação e na execução do Programa Estadual de Incentivo à Piscicultura: V – incentivar o desenvolvimento de pesquisas para aper feiçoamento científico da reprodução e da criação em cativeiro de espécies da ictiofauna mineira;” O Decreto de Minas Gerais nº. 43713, de 14/01/2004, considera ainda, no artigo 22, a execução de peixamentos como medida compensatória para os autores de danos e modificações ao meio ambiente de maneira mais ampla, e não apenas no caso da construção de barragens de usinas hidrelétricas. Estratégias para o uso de técnicas de repovoamento A história dos programas de repovoamento de peixes em bacias hidrográficas brasileiras não está livre de erros metodológicos. Inicialmente, esses programas implementaram a soltura de espécies não-nativas (exóticas). Incluem-se aqui também aqueles peixes provenientes de outras bacias brasileiras e não existentes na bacia da soltura. O objetivo era o de manter a pesca nos trechos de rio afetados por barramentos. Mas sabe-se hoje que essas medidas tendem a produzir 30 Técnicos e biólogos fazem o manejo para reprodução de peixes um alto impacto ambiental, pois as espécies exóticas introduzidas podem competir e/ou predar as nativas, aumentando ainda mais as pressões negativas sobre esses peixes. Exemplo disso foi a introdução da cor vina, do tambaqui, do apaiari e da tilápia em bacias hidrográficas do Sudeste. A partir da década de oitenta, os propósitos dos programas de repovoamento das concessionárias hidrelétricas se alterou. O objetivo principal passou a ser a soltura de espécies nativas para a sua manutenção em ambientes aquáticos impactados. Esta nova visão permitiu o desenvolvimento de técnicas de reprodução artificial e cultivo de diversas espécies nativas, notadamente as de piracema. O impacto da mudança foi notável no aumento de conhecimento sobre fisiologia, anatomia e ecologia das espécies nativas. Hoje, os desafios para a realização de um programa de repovoamento eficiente e sério são outros. A geração de conhecimento traz consigo mais responsabilidade para os técnicos e gestores da área. Para que um programa de repovoamento ofereça ganhos ambientais à bacia hidrográfica, algumas premissas devem ser observadas: 1 - O primeiro ponto é a determinação clara dos objetivos do programa. A princípio, os peixamentos feitos em trechos de rios barrados de- veriam servir para recompor estoques de peixes de interesse ecológico (espécies nativas ameaçadas de extinção pelo empreendimento, por exemplo), de forma a suplementar as populações já existentes naquela região. De acordo com os propósitos do programa, são escolhidas as espécies e os pontos de soltura dos alevinos. É importante salientar que os objetivos devem ser traçados com base em informações científicas de qualidade. Assim, pode-se chegar à conclusão, por exemplo, que o programa de repovoamento não deverá ser feito, pois as populações naturais de espécies de piracema conseguem se manter com reprodução natural. Nesse caso, os recursos devem ser investidos em outras estratégias de conservação, como a manutenção de todos os tipos de habitat críticos para a reprodução destas espécies. 2 - Ao se escolher a técnica de repovoamento para mitigação dos impactos sobre a ictiofauna nativa, é importante avaliar a sua eficiência, por meio de trabalhos voltados para o acompanhamento dos alevinos soltos no reservatório. È necessário responder a perguntas como: Qual a contribuição do repovoamento para a abundância de determinada espécie? Os peixes soltos por meio dos peixamentos estão alcançando a maturidade sexual e se reproduzindo? Neste caso, fica evidente que a eficiência de um programa de repo- AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 Opinião debate voamento está diretamente ligada aos objetivos iniciais traçados. 3 - Outro aspecto a ser avaliado são os impactos decorrentes do próprio programa. É importante avaliar se a soltura de alevinos em determinado corpo d´água não irá agravar impactos ecológicos ligados à dinâmica da comunidade ictiofaunística daquele ecossistema. Um dos impactos mais comuns é a depleção genética de determinada população de peixes devido ao cruzamento com alevinos de menor variabilidade genética provenientes de estações de piscicultura. Devem ser realizadas avaliações da diversidade genética dos peixes nativos no ambiente de realização do repovoamento e a determinação do programa de manejo genético específico para cada espécie e bacia hidrográfica em que são realizadas as solturas. 4 – Por fim, é importante se ter em mente que apenas um programa de repovoamento não é suficiente para a conservação da ictiofauna. A conservação e restauração de qualquer habitat crítico, o plantio e a conservação de mata ciliares ao longo de rios e reservatórios, a construção de sistemas de transposição de peixes onde forem necessários, o controle do lançamento de poluentes e matéria orgânica na bacia hidrográfica e a realização de programas de educação ambiental e gerenciamento da pesca na região são fundamentais para o sucesso do programa. Neste contexto, percebemos que o foco de gerenciamento pesqueiro deve ser na pesquisa, com geração e aplicação de conhecimentos em programas cada vez mais eficientes. Somente com esforços conjuntos de empresas, universidades, órgãos fiscalizadores e da sociedade poderemos garantir programas de repovoamento e conservação ictiofaunísticas eficientes e geradores de ganhos ambientais reais. Referências bibliográficas AGOSTINHO, A.A ., GOMES, L.C., PELICICE, F.M. Ecologia e Manejo de recursos pesqueiros em reservatórios do Brasil. Maringá: Editora da Universidade Estadual de Maringá, 501p., 2007. BRATRICH, C., TRUFFER, B., JORDE, K., MARKARD, J., MEIER, W., PETER, A., SCHENEIDER, M. WEHRLI, B. Green hydropower: a new assessment procedure for river management. River Research and Applications. 20:865-882, 2004. CONSTANTINO, C. E. Delitos ecológicos: A Lei ambiental comentada artigo por artigo.: aspectos penais e processuais penais. São Paulo: Lemos e Cruz, 311 p., 2005. Peixamento: benefícios e controvérsias de uma técnica de manejo Carlos Bernardo Mascarenhas Alves Biólogo, Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre, Consultor na área de ictiofauna; Coordenador do Subprojeto S.O.S. Rio das Velhas (Projeto Manuelzão - UFMG), Biólogo do Nuvelhas (Núcleo Transdisciplinar e Transinstitucional de Revitalização da Bacia do Rio das Velhas). [email protected] A piscicultura brasileira teve uma primeira fase áurea no Nordeste brasileiro, quando Rodolfo von Ihering desenvolveu a técnica de “hipofisação”: uso de extrato dos hormônios da hipófise para a indução da maturação final de peixes de piracema. Até então, essas espécies, mesmo que desenvolvessem suas gônadas (ovários e testículos) em cativeiro, não chegavam a desovar. Naquela época, com o objetivo de suprir as necessidades de proteína animal da população da região, o Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs) incentivou o grande avanço no conhecimento sobre a biologia e Vista geral de uma estação de piscicultura a reprodução em cativeiro de várias espécies de peixes. Novo impulso a essa atividade foi dado em 1967, com a promulgação do Decreto-Lei 221/67, regulamentado AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 pela Portaria 0046/71 da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Pesca (Sudepe), posteriormente revogada e atualizada pela Portaria 001/77. Por meio dela, ficava facultada a insta31 Opinião debate Tanques de piscicultura com tambaquis, instalado na Bacia do Rio Paraíba do Sul, favorecendo escapes lação de estações de piscicultura junto a usinas hidrelétricas como compensação aos impactos causados pelo bloqueio de rotas migratórias de espécies de piracema. Furnas, Cemig e Codevasf construíram estações nas usinas de Furnas, Volta Grande e Três Marias, respectivamente. Nesta fase, foi desenvolvida grande parte das tecnologias para a propagação de espécies migradoras na região Sudeste do Brasil, em especial dos gêneros Salminus (dourados), Pseudoplatystoma (surubim, pintado e cachara), Prochilodus (curimatás), Leporinus (piaus), Brycon (matrinchã, piracanjuba, pirapitinga) e Piaractus (pacu-caranha). Atualmente, em uma terceira fase, a atividade de piscicultura experimenta novo estímulo, em função da crescente demanda por proteína animal com baixos teores de gordura, do fornecimento para pesque-epague e da necessidade de produ32 32 ção em escala para abastecimento dos mercados interno e externo. Mas alguns equívocos continuam acontecendo. Iniciativas recentes têm consolidado a piscicultura em Minas Gerais. Uma delas é o Programa Estadual de Incentivo à Piscicultura, de 2004, que promove a proteção, a pesquisa e o desenvolvimento da ictiofauna das bacias hidrográficas, em especial do surubim, visando ao repovoamento do rio São Francisco. Outra ação é o Programa de Gestão Tecnológica de Recursos Hídricos, para a implantação de parques aqüícolas nos lagos das usinas hidrelétricas de Furnas e Três Marias, e que está sendo executado pela Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia e Ensino Superior (Sectes) de Minas Gerais e pela Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca da Presidência da República. Nas duas primeiras fases, porém, alguns erros foram cometidos, como a introdução de espécies em bacias hidrográficas das quais não eram originárias - as chamadas “espécies exóticas”. Os impactos já são bem conhecidos e incluem a extinção local de peixes nativos. Atualmente, apesar do maior conhecimento sobre os danos causados sobre a fauna nativa, do rigor da legislação e dos aparatos de fiscalização, as espécies exóticas continuam sendo propagadas em corpos d’água naturais (rios e lagos) ou artificiais (reservatórios e açudes). Grande parte desses peixes consegue se estabelecer, ou seja, manter populações viáveis nos novos ambientes, o que implica em uso dos recursos antes utilizados somente pelas espécies nativas. Entende-se por “recurso” não só o alimento, mas também os sítios de desova, reprodução e crescimen- AÇÃO AÇÃOAMBIENTAL AMBIENTAL- -Novembro/Dezembro Novembro/Dezembro2008 2008 Opinião debate to, locais de refúgio contra predação, áreas utilizadas como berçários, etc. Outros fatores de impacto sobre as espécies nativas são o aumento da competição por recurso alimentar comum e a própria predação, quando a introduzida é piscívora - alimenta-se de outros peixes. Como os recursos são limitados (finitos) nos ambientes, sempre haverá uma estabilização das populações em níveis diferentes anteriormente, com grande chance de prejuízo para as espécies nativas. Erros e conseqüências Em Minas Gerais, existem registros de 63 espécies introduzidas, a maioria estabelecida. Esse número coloca o estado entre as regiões do mundo mais infestadas por espécies exóticas, sejam elas de outros países ou continentes, ou mesmo das demais bacias brasileiras. O agravante é que o assunto não tem recebido a devida atenção, já que se consegue comprar alevinos de peixes de produtores espalhados pelo Brasil e entregá-los em qualquer lugar, sem que haja fiscalização. A disseminação recente de um híbrido de pintado e cachara é o melhor exemplo desta situação: alevinos comprados no Centro-oeste do Brasil já foram detectados nas bacias dos rios Paraíba do Sul, Doce, Jequitinhonha e São Francisco. Escapes acidentais de criatórios particulares, de açudes e lagos de fazendas também são comuns. No final de 1996 e início de 1997, uma grande cheia no Sudeste fez com que os rios ficassem excessivamente acima de seus níveis naturais. O rio Paraopeba, por exemplo, na ponte que liga a BR-040 à cidade de Pompéu, estava 14 metros acima do nível. Em trabalhos de campo posteriores, foi verificado o primeiro registro oficial do bagre-africano Clarias gariepinus em três das maiores bacias hidrográficas do estado: São Francisco, Doce e Paraíba do Sul. Outro exemplo que merece destaque é a maciça invasão de espécies de peixes ornamentais na região de Muriaé (MG). Banhada por rios per- Alevinos comprados no Centro-Oeste do Brasil já foram detectados nas bacias dos rios Paraíba do Sul, Doce, Jequitinhonha e São Francisco tencentes à bacia do Paraíba do Sul, a área é impor tante pólo de produção para aquariofilia. Mas a total falta de cuidado com a segurança dos criatórios permite registrar espécies de vários continentes e bacias brasileiras nos cursos d’água naturais. Por exemplo, até 2005, na região do rio Glória, afluente do rio Muriaé, foram identificadas 42 espécies exóticas contra 39 nativas. Além desses impactos, há também a questão da sanidade dos peixes trazidos de outros lugares ou de estações de piscicultura. As possibilidades de introdução de novos parasitas e disseminação de doenças também são reais: junto com a carpa, por exemplo, veio o parasita Lernaea cyprinacea, que já infestou espécies nativas. Recentemente, na revista Nature, um artigo alertou sobre a introdução de parasitas - provenientes de estações de piscicultura - que estão colocando em risco de extinção espécies de salmões selvagens na natureza. Sobre as espécies nativas produzidas em cativeiro, a preocupação é se os indivíduos utilizados em peixamentos - nos rios onde populações selvagens ainda existem - estão colaborando ou não para a manutenção da variabilidade e qualidade genética. Isso porque, na natureza, os mais aptos são selecionados, mas no tanque de piscicultura, em que a seleção é menos rigorosa, exemplares que eventualmente não vingariam nos rios podem sobreviver. Assim, a AÇÃO AÇÃOAMBIENTAL AMBIENTAL- -Novembro/Dezembro Novembro/Dezembro2008 2008 soltura de milhares de alevinos produzidos em cativeiro pode afetar a integridade genética das populações silvestres. Reflexões sobre o futuro Todas essas dúvidas e ressalvas já poderiam ter sido solucionadas se houvesse o monitoramento da eficiência dos peixamentos realizados. Porém, a regra é produzir alevinos e liberar no ambiente. Os aspectos genéticos são sistematicamente negligenciados e evitam-se apenas os endocruzamentos. A própria formação de plantéis de reprodutores não é rigorosa e é comum a busca de matrizes em áreas distantes dos futuros locais de soltura. Não há respostas para perguntas simples como: os alevinos atingiram a fase adulta? Se tiverem alcançado a maturidade sexual, chegaram a se reproduzir? O peixamento foi positivo no desembarque pesqueiro? Houve reflexos sociais na qualidade de vida da população local? Diante das incertezas, será que a utilização dos peixamentos como instrumento de educação ambiental é uma atividade adequada? Digo isto porque vemos com freqüência a liberação de alevinos por alunos de escolas próximas às áreas de soltura. Estamos ensinando a essas crianças, portanto, que a solução para a falta de peixe nos rios é a soltura de alevinos. Quando crescerem, esses cidadãos poderão manter a prática achando que estão fazendo o bem para os rios, mas, na verdade, estarão trazendo novas espécies exóticas, parasitas, doenças ou alevinos de má qualidade genética. Ao invés de ajudar, portanto, estarão prejudicando ainda mais as populações silvestres remanescentes. Um ponto de reflexão é: se a quantidade de peixes nos nossos rios vem diminuindo ao longo do tempo, a solução é soltar mais peixes ou minimizar os fatores que causaram esse declínio? Rios ricos em peixes no passado hoje recebem esgotos industriais e domésticos não tratados; agrotóxicos e fertilizantes da agricultura; têm suas 33 Corvina (Plagioscion squamosissim) matas ciliares eliminadas ou reduzidas a pequenas faixas de ár vores; são bloqueados por barragens; recebem rejeitos de minerações; são infestados por espécies exóticas, etc. Nessas condições, obviamente, é impossível que os rios tenham a produtividade e diversidade registradas no passado. Em algumas situações, a recuperação pode se dar naturalmente, sem a intervenção humana, como no rio das Velhas. A possibilidade de recuperação natural (sem a necessidade de peixamentos) é plausível porque o rio ainda tem conectividade entre áreas vitais para as populações, que ainda não perderam espécies. É o que se espera no rio das Velhas que, apesar de for temente poluído, não conta com barragens no seu leito principal. Neste caso, ele está naturalmente ligado ao rio São Francisco e aos seus afluentes, que se encontram em melhores condições ambientais, nos quais a maioria das espécies está preservada. Nos afluentes, foram registrados 75% de todas as espécies localizadas para esta subbacia do São Francisco. Por tudo isso, considero a propagação artificial de espécies de peixes, principalmente as migradoras (as mais afetadas pelas barragens e importantes na pesca), mais uma técnica de manejo e não uma solução em si, podendo funcionar como uma ferramenta complementar aos esforços de conservação da ictiofauna. A sua utilização deve vir acompanhada de outras ações que propiciem, em conjunto, uma maior capacidade34 34 Tucunaré (Cichla sp.) suporte do ambiente, sempre considerando que a condição não é mais natural. Se bem utilizada, a técnica pode ajudar a manutenção de populações prejudicadas pelas atividades antrópicas. Tudo isso deve ser inexoravelmente monitorado para medir se houve o efeito desejado. A simples soltura de peixes nos rios e reservatórios não implica em recuperar populações em declínio. O domínio das técnicas de propagação de várias espécies pode ser fator positivo na manutenção da diversidade. Há locais onde espécies utilizadas em peixamentos ocorrem em baixas densidades ou mesmo não são registradas - é o caso da matrinchã no rio Paraopeba. A espécie já foi utilizada em programas de peixamentos, mas a péssima condição da água a impede de se restabelecer. Enfim, o simples uso de peixamentos não garante que as espécies se mantenham ao longo do tempo nos nossos rios. Por outro lado, em ambientes onde houve a extinção local de peixes, caso outras intervenções não tornem possível a manutenção da população registrada no passado, a propagação em cativeiro e a reintrodução podem ser usadas. Temos ainda as espécies ameaçadas de extinção que podem ser produzidas para manutenção do estoque genético para futuras ações conservacionistas. Em conjunto com outras ações e com o devido cuidado, o peixamento pode ser uma ferramenta a mais para evitar o declínio da pesca e a extinção de espécies. Referências bibliográficas Agostinho, A.A. & Júlio Jr., H.F. 1996. Ameaça ecológica: peixes de outras águas. Ciência Hoje, 21(124):36-44. Alves, C.B.M., Vono, V. & Vieira, F. 1999. Presence of the walking catfish Clarias gariepinus (Burchell) (Siluriformes, Clariidae) in Minas Gerais state hydrographic basins, Brazil. Revista Brasileira de Zoologia 16: 259-263. Alves, C.B.M., Vieira, F. Magalhães, A.L.B. & Brito, M.F.G. 2007. Impacts of non-native fish species in Minas Gerais, Brazil: present situation and prospects. In: Theresa M. Bert. (Org.). Ecological and Genetic Implications of Aquaculture Activities. Dordrecht, The Netherlands: Springer, p. 291-314. Brasil, 1967. Decreto-Lei nº. 221, de 28 de fevereiro de 1967 (Lei da Pesca), regulamentado pela Por taria SUDEPE Nº. 001/77, que dispõe sobre a conser vação da ictiofauna em reservatórios, impondo às empresas hidrelétricas a instalação de pisciculturas, e às entidades possuidoras de barragens a executar o reflorestamento ciliar com espécies vegetais indicadas à conservação da fauna. Minas Gerais, 2004. Decreto 43854: Altera o decreto Nº 43.713, de 14 de Janeiro de 2004 que regulamenta a lei nº 14.181, de 17 de Janeiro de 2002, que dispõe sobre a política de proteção à fauna e à flora aquática e de desenvolvimento da pesca da aqüicultura no estado e dá outras providências. Rosenberg, A.A. 2008. The price of lice. Nature, 451:23-24. Vieira, F. & Pompeu, P.S. 2001. Peixamentos: uma ferramenta para conservação da ictiofauna nativa? Ciência Hoje, 30(175):28-33. AÇÃO AÇÃOAMBIENTAL AMBIENTAL-- Novembro/Dezembro Novembro/Dezembro 2008 2008 AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008 35 36 36 AÇÃO AMBIENTAL - Novembro/Dezembro 2008