Manaus 20 autores projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 1 03/09/2013 15:14:24 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 2 03/09/2013 15:14:24 Livro de Graça na Praça Manaus 20 autores 2013 PATROCÍNIO projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 3 APOIO CULTURAL REALIZAÇÃO 03/09/2013 15:14:25 MANAUS 20 AUTORES Copyright © 2013 by Beto Vianna e Arthur Vianna (Org.) Capa e Projeto gráfico Arnaldo Stemberg Ilustrações Iuri Chacham Diagramação Casadecaba Design e Ilustração Produção Gráfica-Editorial EDITORA QUIXOTE Rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi 30112-000 BELO HORIZONTE – MG +55 31 3227-3077 [email protected] Este livro foi produzido para o projeto Livro de Graça na Praça, a ser distribuído gratuitamente em praça pública na cidade de Manaus. Venda proibida. Catalogação na Publicação (CIP) Manaus 20 autores / organizado por Beto Vianna e Arthur Vianna ; ilustrado por Iuri Chacham. – Belo Horizonte: Quixote, 2013. 168 p. ilust. ISBN: 978-85-66256-03-1 1. Conto brasileiro - Coletânea I. Vianna, Beto II. Vianna, Arthur III. Chacham CDD: B869.35 Bibliotecária responsável: Cleide A. Fernandes CRB6/2334 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 4 03/09/2013 15:14:25 Em praça cheia de gente, com livro como presente. Edésio Batista projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 5 03/09/2013 15:14:25 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 6 03/09/2013 15:14:25 Sumário Prefácio................................................................................................... 9 O visitante ilustre...............................................................................13 Adrino Aragão Desastre (menina, cadê minha perna?).....................................19 Aldísio Filgueiras E.S. (Educação Sexual).....................................................................31 Allison Leão Determinismo.....................................................................................43 Almir Diniz Manaus, 20 de janeiro......................................................................49 Antonio Felipe As unhas de fora................................................................................55 Astrid Cabral BR-319...................................................................................................61 Edweine Loureiro Medo fatal............................................................................................67 Elson Farias O soldado da borracha....................................................................73 Francisco Vasconcelos André vai ao teatro...........................................................................81 Inácio Oliveira História de um vaqueiro perto do amor...................................89 João Pinto projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 7 03/09/2013 15:14:25 As atribulações de Jeremias..........................................................99 Márcio Souza Mana Manaus.................................................................................. 109 Maria Elisa Souto Bessa Manaus Moderna em três tempos........................................... 117 Neuton Correa Cruzeta é cruzeta, em Manaus e em Portugal..................... 127 Pedro Lucas Lindoso O barulho do mormaço................................................................ 137 Priscila Lira Réquiem ........................................................................................... 147 Tenório Telles Marieta............................................................................................... 151 Thiago de Mello Maria Marieta .................................................................................. 157 Vera do Val A raposa e as uvas ......................................................................... 161 Zemaria Pinto projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 8 03/09/2013 15:14:25 9 Prefácio Tudo começou quando um grupo de escritores, convidados pelo professor de literatura José Mauro da Costa, decidiu produzir um livro e distribuí-lo de graça. Com a publicação da coletânea Ouvindo estrelas, e logo depois o Atrás da porta, nasceu a ideia de, anualmente, publicar uma nova obra e promover sua distribuição gratuita em praça pública, com a presença dos autores. Como toda boa semente, o projeto germinou nos canteiros da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Nos últimos 11 anos, o Livro de Graça na Praça promoveu a distribuição de mais de 160 mil livros, inéditos e de qualidade. No período, a participação de mais de 150 autores, estreantes e consagrados, de projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 9 03/09/2013 15:14:26 10 contos, poemas e cordéis. Para os novos escritores, o projeto instituiu um concurso literário, que inclui os contos vencedores na edição da obra. Agora, aprovado pela Lei de Incentivo do Ministério da Cultura, com o patrocínio da Oi e o apoio cultural da Oi Futuro, o Livro de Graça ganha mais uma praça. Em Manaus encontramos terra fértil e o apoio generoso da comunidade literária local, da Academia Amazonense de Letras e da Prefeitura Municipal de Manaus, por intermédio da Fundação Municipal de Cultura e Artes – ManausCult. E o Largo de São Sebastião se enche de graça para receber um projeto que tem por finalidade democratizar e difundir o hábito da leitura e possibilitar a interação entre autor e leitor. Uma boa leitura de Manaus 20 autores, e até o ano que vem. Arthur Vianna Coordenador do Livro de Graça na Praça – Brasill projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 10 03/09/2013 15:14:26 20 autores projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 11 03/09/2013 15:14:26 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 12 03/09/2013 15:14:26 13 O visitante ilustre Adrino Aragão A casa do poeta Jorge ficava no final da rua, ou seria no começo? Lembro que na época de enchente braba as águas do rio Negro invadiram o quintal e quase sempre o porão da casa. “Olha lá a outra margem: não existe mais o terreno baldio onde a garotada batia bola nos finais de tarde e as águas agora ameaçam invadir a usina na ilha de Monte Cristo”. Quando isso acontecia, um grupo de escritores perdia o espaço na casa do poeta onde se sentiam melhor para mostrar seus poemas, contos e novelas, e discutir os novos rumos da literatura amazonense e nacional. As reuniões em mesa de bar nem sempre eram projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 13 03/09/2013 15:14:26 14 tranquilas; as divergências entre os escritores acabavam em calorosas discussões, ânimos exaltados pelo excesso de consumo da cerveja. Naquela manhã, o primeiro a chegar à casa de Jorge foi o poeta Alencar. E logo notou a mudança na decoração do porão. Lá estavam duas ou três telas de expressivos pintores da terra. Um painel da vida ribeirinha fora pintado numa das paredes. O quadro-negro exibia recortes de jornais com reportagens, depoimentos e fotos de importantes personalidades da cultura e da arte que ressaltavam o trabalho do Clube da Madrugada, o único no mundo que não possuía estatutos nem sede. Até a tosca mesa de cedro recebera toque especial: uma toalha bordada de linho branco, vaso de flores, cinzeiros de cristal, candelabro e Bíblia hebraicos, algumas peças de artesanato de madeira, álbum de fotografias de visitantes ilustres e um minigravador – todo aquele arranjo indicava acontecimento de muito especial; mas o quê? Será que entrei na porta errada? O local é esse mesmo? Alencar olhou para o poeta Jorge: você acertou na Mega Sena, acertou? Jorge sorri, alisa os fios do bigode, a mão repousada no ombro de Alencar, estás me gozando, meu irmão? projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 14 03/09/2013 15:14:26 15 Claro que não, sei que você não é dado a jogo algum. Estou apenas intrigado e curioso também, com a mudança radical do nosso sacrossanto porão de cultura. O que está acontecendo? O bom da festa é a surpresa que nos aguarda, responde Jorge. Um visitante ilustre, dos maiores, nos honrará daqui a pouco. Visitante ilustre? Quem? Eu não estou sabendo de nada. Me diz de quem se trata. Agora é que estou mesmo morrendo de curiosidade, falou Alencar. Calma, meu irmão. A curiosidade matou o rato. As coisas aconteceram muito rápido. Vamos receber... quase não dá para acreditar, vamos receber aqui em nosso modesto Clube a visita do grande escritor Guimarães Rosa. Alencar deu um leve tapa na testa, os olhos se acenderam por trás das grossas lentes dos óculos, levantou as mãos como se agradecesse aos céus, Jorge, você jura pra Deus que está dizendo a verdade, não vale fazer figa, não se ofenda, me desculpe, mas é muita honra para todos nós do Clube, para o Amazonas, para a cultura amazonense. Também concordo, a presença de Guimarães Rosa entre nós é um feito histórico, um marco na história do Clube. E o mérito é do Coronel Farofa, tão bom contista quanto ótimo presidente do Clube. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 15 03/09/2013 15:14:26 16 Começaram a chegar os outros companheiros, Engrácio, Peninha, Antisthenis, Afrânio, Aluísio... Súbito, o reboliço de escritores, jornalistas, personalidades da cultura invadiu o porão da casa, ou Gruta do Sapo Verde. As câmeras de televisão e fotográficas se voltam para o homem alto, forte, rosto redondo, risonho, óculos de lentes grossas, gravata borboleta, camisa, calça e sapatos brancos, suspensório e sem paletó. Luzes. Palmas. Gritos de viva Guimarães Rosa. É ele, o grande escritor de Grande Sertão: Veredas, pensei. O mito. A lenda viva. O escritor. Tão grande quanto Machado de Assis. Não sei se sorrio ou se choro de emoção. Estendo-lhe a mão trêmula. Ele a acolhe com um sorriso nos lábios. Sinto que sua mão é forte, firme, segura, como são os personagens de seus livros, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Zé Bebelo, Hermógenes, Cara-de-Bronze, Augusto Matraga... Sentado à mesa, entre o poeta Jorge e Aluísio, presidente do Clube da Madrugada, Guimarães Rosa: O sertão é o mundo e o mundo é o sertão, disse o escritor Guimarães Rosa. Caminhei pelas veredas do sertão, segui rastros de igarités pelas intermináveis águas da Amazônia, me descubro em terras encantadas da terceira margem do rio. Ou do lugar mítico projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 16 03/09/2013 15:14:26 17 que vocês chamam Gruta do Sapo Verde. E concluo com Riobaldo: o sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente. O sertão somos todos. Somos todos o sertão. Da beira do rio um sonoro croac croac croac quebrou por instantes o silêncio que ali reinava para se ouvir a fala do ilustre diplomata-escritor brasileiro. Vocês ouviram? Pois é, como eu digo: o homem não morre, ele fica encantado. Adrino Aragão nasceu em Manaus (1936). Reside em Brasília. Formado em Direito, trabalhou no Banco do Brasil, onde atuou como redator da revista Desed. Já ganhou prêmios literários, tem trabalhos incluídos em diversas antologias e teve sua obra como tese de pós-doutorado de Joaquim Branco na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dentre os livros publicados destacam-se Tigre no espelho, indicado ao vestibular da Universidade do Amazonas; No dia em que Manuelzão se encantou, lançado no II Seminário Internacional Guimarães Rosa (BH); O champagne e a mais recente publicação Caderno do Escritor, este lançado na Academia Amazonense de Letras. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 17 03/09/2013 15:14:26 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 18 03/09/2013 15:14:26 19 Desastre (menina, cadê minha perna?) Aldísio Filgueiras ERA UMA VEZ EU e essa tal vez se deu no meio de junho, quando não chove mais nas cabeceiras dos grandes rios e a cidade, como um telão de cinema mudo, se espreguiça mais do que caminha e só boceja, para evitar gasto inútil de conversa fiada. Sob o abrigo curto das marquises encardidas, um gesto substitui todos os colóquios verbais, que as pessoas usam quando se cruzam na rua, de boa ou má vontade. Quando se pensa que alguém abana as mãos é para afastar mosquitos, não; também não está nadando na densa umidade do ar: apenas esclarece que “já fui”, “estou muito projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 19 03/09/2013 15:14:26 20 ocupado em não fazer nada”, coisas simples e cotidianas. Um bocejo diz o que se diria, em tempos normais – no verão, por exemplo –, com muitas palavras. Um bocejo é uau, oi, bom-dia, obrigado, deus te guie, me deves uma, pagas quantas, vamos todos bem lá em casa e o teu pai ainda é o mesmo? Uau! Brincadeirinha, brincadeirinha... Esse era o tempo em que a gente, desde cedo, aprendia a andar e a nadar, com a mesma facilidade com que respirávamos em terra e na água. Éramos todos exímios anfíbios, nesse tempo que faz da noite um dia inteiro, sob um teto de goteiras. QUANDO PARA DE chover nas cabeceiras dos grandes rios, o mundo fica plano e cinza. O verde escurece, como sangue pisado. As pessoas também ficam cinza e azedas. O céu esquece que um dia foi azul com pinceladas de branco esparsas. Camelos, girafas, tartarugas, cavalos, elefantes, rostos irreconhecíveis de outros mundos, tudo que caminha pelos campos do céu nas manhãs e nas tardes de sol e nas noites de lua desaparece sob uma pincelada de cinza e única. Não chove, porque não tem um só lugar na terra onde cair um pingo da chuva. Até onde alcança a vista no fim desse lago, em uma cortina pesada, também de água projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 20 03/09/2013 15:14:26 21 intransponível, o que é sólido desmancha no ar. É o horizonte – nem o vento com a força de um raio pode movê-lo. As palavras precisam aprender a andar sobre as águas, se quiserem continuar vivas; as palavras morrem fácil, glub glub, encharcadas, às vezes na praia, mudas e surdas, cuspindo areia e peixes pequenos. Aí, a gente sabe que o mundo, as árvores, os pássaros, as pedras e mesmo as pessoas e todos os tipos de caras e bocas nascem da água, são feitas de água e se pode bebê-las, se for o caso. Os pensamentos nascem da água. Olhando para cima, uma enorme mancha cinza mal permite que o sol se descubra nem que seja para dizer que ainda existe sob o traste cinzento. Sim, até o sol nasce da água. Até a areia nasce da água. Daí que essa paisagem líquida me levava, como em um confronto, a preenchê-la com os profetas e os santos de quem só se sabia que existiram em algum lugar do mundo com a triste história de que nunca se fizeram entender, pois viviam encerrados em um deserto sem tamanho, falavam sozinhos, sentados em sua sombra e engoliam em seco o que diziam. Eu digo santos e profetas, porque o padre, que rondava nossas consciências e assombrava nossos pensamentos, com seu manto negro, lembrava nas missas de domingo projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 21 03/09/2013 15:14:26 22 dessas figuras desgrenhadas que procuravam no deserto a pureza que não existia mais nas cidades que ardiam sob o sol, em busca de um consolo. Esse padre gostava de pessoas que sofriam e a alegria, para ele, era morrer em paz com Deus e encontrá-Lo em algum lugar fora das vistas de todas as impurezas humanas. No deserto, era domingo o tempo todo e eles podiam pensar e falar o que pensavam a uma audiência de lagartos surdos. A pureza era isso. Estar em paz com a consciência era isso. Mas o que era isso? A areia seca do deserto, onde não nasce um pentelho debaixo do sovaco, pois não tem água. Profetas e santos não existem, existiram. Não se fala deles, senão no passado. Eu queria muito conhecer um santo ou um profeta, mas todos morreram com a sede, coitada, de serem entendidos, pisando no seu entendimento, descalços ou com sandálias puídas, dentro de umas roupas muito fedidas, com certeza. Mas nós estamos em Manaus, onde uma pessoa pode morrer de sede – na água, não na areia – sem dizer uma palavra. Manaus ainda seria areia. Eu não sabia disso, mas minha vó Lola, em quem ninguém acreditava, sim, sabia e tomava lá as suas precauções, porque esse dia chegaria montado na fúria dos ventos e no corcovado das águas. Ela sabia. Mas quem acredita em uma velhinha que já não pode responder com maldade a ninguém? projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 22 03/09/2013 15:14:26 23 QUANDO AS ÁGUAS param e descansam do longo caminho desde as cordilheiras alheias até nossos quintais manchados de folhas mortas, o verde vira uma placa de musgo grudada na paisagem e, sobre esse verde, o céu cinza e sem graça nenhuma ameaça desabar sobre nossas cabeças. E o céu pode, sim, desabar sobre nossas cabeças porque, em Manaus, é aconselhável atravessar uma rua, olhando também para cima, onde os aviões, às vezes, ficam sem juízo e param de funcionar, justo sobre nossas cabeças. Nesse tempo de cachoeiras rasas e ruas alagadas, uma onda de frio viaja até a cidade e a cobre de cima a baixo, deixando-a comprimida entre cobertores extravagantes, que os mais velhos e mais viajados referiam apenas como “roupas do sul” ou “roupas de frio”, ao folhear revistas amarrotadas que nos chegavam, meses e meses depois da última edição de primavera-verão ou verão-outono, como se soubéssemos o que fosse outono ou primavera e inverno não fosse apenas chuva, chuva, chuva e calor. Eu achava ridículo tudo o que me cobrisse o corpo, além do que não podia e não pode ser visto, naqueles tempos severos em que os pais e os vizinhos tinham o poder de decidir o que podia ser dito e visto pelas crianças e nas crianças. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 23 03/09/2013 15:14:26 24 EU TINHA 10 ANOS de idade e queria ter 100, ao menos 11, porque aos 10 o tempo demora muito a passar, e aos 100, ele já passou e nem lembra mais do que se trata e só lambe as marcas que se acumulam na pele, a sua passagem. Eu não sei se ter 11 anos faz alguma diferença, mas 11 não são 10, ao menos, e consola. E eu queria que fosse assim, logo, de repente, de supetão, ou mais cedo ainda, a ocorrência desse aniversário, da noite para o dia, ontem. É querer muito? Não. É demais. Sim, eu queria acordar sem pedir licença para iniciar o dia e dormir sem o constrangimento de quem fora sentenciado a dar um ponto parágrafo no que estava fazendo ou deixara de fazer. Mas como é que se cresce da noite para o dia? Como é que um serzinho de nada se torna sólido, palpável, visível, capaz de curar a cegueira de todos que compõem a paisagem do mundo? Não é assim que sucede, de repente. O tempo não consegue ser rápido como se quer, nada o apressa, quando se tem 10 anos de idade. Era assim que eu pensava e me sentia, como se o tempo, e só o tempo, fosse remédio para todas as dores e desconfortos. Querer não é poder; poder depende de muitas perguntas e respostas. Para crescer é preciso ter uma projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 24 03/09/2013 15:14:26 25 história a tiracolo, uma história de verdade, com muito recheio e tempero, mesmo que seja de mentira, antes, durante e depois do seu desempenho, com longos intervalos de escuridão, outros de claridade, muitos sem o menor sentido de claro e escuro, como o de agora em que me debruço sobre o que foi ou pode ter sido essa tal vez. Uma história como a que a sociedade secreta dos adultos guardava a sete chaves, longe do alcance das crianças, feito remédio que matasse em vez de curar. A sociedade secreta dos adultos me deixava irritado, como se eu fosse um deles, mas sem uma história. É assim que sucede: ter uma história, mesmo que seja secreta, mesmo que fique soterrada pela incompreensão do deserto surdo dos lagartos, dos rios parados, sem respirar, sem trocar de água. Os adultos vivem a contar histórias, por isso são adultos. SIM, PARA TER 100 anos de idade, ao menos 11, é preciso, primeiro, que eu conte os milagres e as miragens da minha cidade, do meu bairro, da minha rua até essa uma vez de eu ser um eu, para início de conversa. Entra em cena meu pai, por exemplo, e sua incrível oficina de construir os sonhos que iriam cegálo; e minha mãe, a levitar pela casa (sim, porque tinha a casa, nessa ronda), tonta, como uma barata que projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 25 03/09/2013 15:14:26 26 acabou de cheirar inseticida; e meus quatro irmãos – três meninas tagarelas e um menino com uma grande barriga –, inúteis, do princípio ao fim; e, por fim, ainda que não finalmente, nem por ordem de importância, minha avó que, sozinha, valia todo o meu filme em preto e branco. Então, sim, sou eu. Eu e milhares de extras e aquela namorada que não me via, ainda que andasse de ponta cabeça pela cidade, rastreando sua sombra, e nunca foi minha namorada, senão em sonho: era um tempo de guerra e eu creditei a esse infortúnio o seu desapego. Era uma judia que me judiava. A REVISTA DESSA uma vez também confere a imagem de um ponto final, que não contente em sua encolha, se contorce e se contrai até que desenha uma interrogação suspensa no ar e ela mal respira por entre os pingos da chuva, porque é inverno. E como tudo que era uma vez costuma ser, essa uma começa com a suspeita de ser uma grande mentira e assim é que termina, para não faltar com a verdade: começa com a força de um susto, que me deixou de olhos tão abertos e tão que só um cego pode olhar assim para o mundo, com a mesma primeira incompreensão. Bem aqui, diante da minha instantânea cegueira estava escrito com letras tortas o que só mais tarde eu saberia que era para sempre certo: desastre. E só. Eu projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 26 03/09/2013 15:14:26 27 não percebia que mesmo a uma palavra é impossível ser só, pois estivera muito tempo cego, surdo e mudo para a ciência das letras e as palavras escritas ainda não passavam de um enigma feito de retalhos de tinta; “desastre” não era mais que um desenho sem rosto, cheio de buracos e curvas, imprestável para a revelação de um significado qualquer. Ficou, no entanto, gravado em meus olhos espantados, sem precisar que eu aprendesse a ler para ser o que era. Era desastre e ponto. Tateei aquelas curvas e aqueles buracos e era isso mesmo: desastre, pois desastre era sem mim e só agora me incorporava àquilo que sempre fora: uma palavra exata, como um mapa cheio de acidentes – montanhas, campinas, rios e tudo que tenha calos nos pés e nas mãos. É assim que a gente nasce para o que não sabe o que será; uma realidade alheia, que não te aceita. Só depois é que a gente entende que aquele ponto escuro ali no mapa – eu – é o desastre e se chama cidade, um tipo de fome que devora qualquer paisagem e atropela as pessoas, não importa que elas tenham 100 anos de idade, não apenas 10 ou 11, ao menos. POIS ENTÃO. EU nem atinava com isso de ser um eu e até que tudo ia muito bem, obrigado, antes que o mundo passasse a desabar em torno de mim, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 27 03/09/2013 15:14:26 28 tal e qual me parece, agora, o mundo, sem mais nem menos, um novelo de eus, todos feitos de talvez. Eu não me dava conta, senão de que estava cortado ao meio por uma interrogação e não sangrava e nem doía nenhum dos meus pedaços. Foi quando eu tinha esses 10 anos de idade e comecei a querer ter aqueles 100, ao menos 11. Éramos eu e meus sete parentes de sangue, no preciso momento em que meu pai, de nome Ismail, me destaca da tribo e mantém sua primeira conversa séria comigo, enquanto os seis outros cuidavam das suas tarefas ordinárias. Ele me disse, não olhando para mim direto, que era assim que falava a sério, mirando um ponto distante que só ele via, quando queria anunciar algo eventualmente ruim, para não ferir os brios do ouvinte: “Precisamos ter uma conversa de homem para homem”. Pousou a mão direita no meu ombro estreito, com o cuidado de não esmagá-lo, e começou sem pressa de acabar ou de começar: “Filho meu, em verdade vos digo”. E disse, que não era ele de entortar palavras ou vesti-las de verniz para corrompê-las e confundir ouvidos. ‒ Meu filho meu, em verdade vos digo: o homem que diz eu, eu, eu, eu, todo tempo e o tempo todo não passa de um sujeito ressentido, sem o menor crédito na praça. Eu faço e desfaço, eu ato e desato, eu projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 28 03/09/2013 15:14:26 29 sou uma pessoa que... Esse tipo, esse gênero de sujeito não vale o que o gato enterra. O que disseste, hoje, no café da manhã, me fez pensar no que andas pensando, me preocupou o teu futuro. Se havia alguma coisa para entender, não era comigo nem era agora. ‒ Que história é essa de “eu sou um grande escritor?” Eu sou teu pai e prefiro que aprendas com quantos paus se faz uma jangada do que seres um escritor. A partir de agora, depois que saíres da escola, em vez de caçar passarinho com teus colegas, que vivem ao deusdará, sairás direto para a oficina, aprender um ofício. Está bem? ‒ Está ‒ aquela mão começava a pesar no meu ombro e se havia alguma coisa para entender, ainda não era agora. Quem poderia me explicar o que é um homem ressentido? Mas foi assim que foi e se deu. Depois... bom, depois... Aldisio Filgueiras nasceu em Manaus, Amazonas, Brasil, em 1947, dois anos depois da guerra mundial, para integrar a geração paz, amor, rock in roll e preguiça. Inimigo figadal da sociedade de consumo, decidiu ser poeta: ninguém compra nem consome poesia. Este conto ou o que quer seja esta narrativa (Mário de Andrade dizia que conto é tudo aquilo que projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 29 03/09/2013 15:14:26 30 você chama de conto... e conta) surgiu de uma solicitação para esta coleção feita pelo dramaturgo, poeta, ensaísta e-mais-oque-seria-se-tivesse-mais-tempo, Zemaria Pinto, já devidamente informado de que nunca mais será atendido. Ai, que preguiça! projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 30 03/09/2013 15:14:26 31 E.S. (Educação Sexual) Allison Leão Ao completar doze anos, Felipe de Oliveira Borboleta (F.O.B.) percebeu que estava apto a iniciar atividades sexuais que envolvessem outra pessoa além de si mesmo. Pelas amplas informações obtidas nos livros de ciências, F.O.B. podia reconhecer os sinais dessa disposição física. Quanto à disposição psicológica, o conhecimento caseiro, obtido através de incansáveis instruções, deixava-o à vontade para determiná-la. Um dia (era uma sexta-feira), seu pai (psiquiatra) despiu a esposa (psicóloga) em frente ao menino. Para F.O.B., não era novidade alguma ver a mãe assim, pois a nudez, nessa casa, sempre fora tratada como projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 31 03/09/2013 15:14:27 32 natural – cientificamente natural. Mas algo diferente, algo como um acréscimo, estava prestes a acontecer. Ao som da Última Primavera de Grieg – pois é sabido que a música favorece a memorização –, Doutor (Dr.) Papai sentou F.O.B. numa cadeirinha e passou a explanar, demorada e detalhadamente, uma palestra sobre o funcionamento do aparelho reprodutor feminino. Para obter uma compreensão mais imediata, Dr. Papai desenhou, com incrível perfeição, os órgãos internos na pele nua da barriga de Doutora (Dra.) Mamãe. Quanto aos órgãos externos, obviamente eles já se expunham por sua própria natureza de externalidade. F.O.B. acabava de comer o indigesto mas necessário fruto de sua árvore do conhecimento. Acabava de saber que as pessoas, por dentro e no fim das contas, são uma mecânica. Isso aconteceu no dia em que completava 5 anos de idade. Na semana seguinte, Dr. Papai e Dra. Mamãe trocaram de função. E não houve a necessidade de tantos desenhos. Assim, desde aquela primeira enxurrada de informações e durante anos, semana após semana – sempre às sextas e com Grieg –, a vida de F.O.B. foi um irrefreável acumular de informações. Para não correr riscos com a típica seletividade da memória juvenil, Dr. Papai e Dra. Mamãe entregavam, ao final projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 32 03/09/2013 15:14:27 33 de cada palestra, um manual ou uma revista científica a F.O.B., a partir de cujo conteúdo se sabatinaria o aprendiz, na semana seguinte. Se a sociedade estava impressionada com as mortes precoces de gente como Cazuza e Freddie Mercury, os pais de F.O.B. quase estavam a comemorar por esse cenário. Para eles, era necessário tratar com mais responsabilidade e rigor a saúde do corpo, e o medo poderia ser o melhor agente para o conhecimento. Nestes tempos de AIDS e gravidez precoce, quanto mais e mais cedo os jovens tiverem informações, melhor para a nossa sociedade, repetiam esse irrefutável preceito o Dr. e a Dra. Anos depois, quando a voz de F.O.B. principiou a dar repiques, quando lhe eclodiram as primeiras espinhas, quando os braços, longuíssimos e desajeitados, pareceram pertencer a outra pessoa, não houve dúvida: por decisão própria, F.O.B. foi a uma drogaria e comprou seu primeiro pacote de camisinhas. Erotic – testadas eletronicamente. F.O.B. sabia que estava preparado, mas o resto do mundo sequer desconfiava de sua plenipotência sexual. Mesmo assim, não se desesperou, pois os manuais diziam que, uma vez iniciado o processo, a natureza nunca retrocede. E, naturalmente, seguindo o que diziam os manuais, F.O.B. aguardou o momento projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 33 03/09/2013 15:14:27 34 inevitável. Até lá, ficaria a camisinha Erotic no bolso, inseparável. Sua iniciação, pensava F.O.B., era mais do que iminente. Enquanto isso, nosso pequeno homem não descuidava de cultivar uma penugem no queixo, que passava por cavanhaque, como um aviso de masculinidade e prontidão para as fêmeas. Mas eis que aos quinze anos cá estava F.O.B., com um pouco mais de pelo no queixo, é verdade, mas tão virgem como quando nascera. Consultara várias vezes os manuais, mas eles eram sempre muito vagos sobre a data específica do evento. Uns diziam que por volta dos 12 anos. Outros, até os 18. Na escola, nas aulas de Ensino Religioso, o professor enfatizava a preservação da castidade até o casamento. Felizmente, essa opinião não contava para F.O.B., pois nela não havia a menor sombra de base científica. A espera ficou mais angustiante quando F.O.B. passou no exame de seleção para o Colégio Militar de Manaus (C.M.M.), onde deveria cursar de forma brilhante o 2º grau, passando direto pelo vestibular, até a faculdade de Medicina. Havia sido assim com o Dr. Papai. Uma pessoa que passa em uma seleção é uma pessoa melhor. Esse seria o caminho natural de F.O.B. Contudo, o C.M.M, colégio para garotos e que somente agora admitia uma ou outra aluna, trazia certo projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 34 03/09/2013 15:14:27 35 mal para F.O.B., pois com tantos rapazes mais velhos o que era evidência para ele sobre si mesmo, para os outros era piada. Felizmente, o C.M.M. possuía no universo sua contraparte feminina – o Instituto de Educação do Amazonas (I.E.A.). Parecia uma obra da natureza: as alunas do I.E.A. e os alunos do C.M.M. Era fácil divisarem-se ali os casamentos: o médico e a professora, o advogado e a professora, o general e a professora. No fim da manhã, tudo isso se ensaiava na Praça do Congresso. Mesmo na feira de diferenças que se tornava a praça – pois os diferentes também a frequentavam –, os alunos do C.M.M. e as alunas do I.E.A. só enxergavam sua própria completude prevista. Diariamente, F.O.B. conhecia algumas dessas possibilidades. Prioritariamente, ele queria uma cópula, mas agora, sem saber por que, a objetividade da natureza parecia-lhe às vezes faltar. Não poderia ser com qualquer uma dessas? Já não sabia. Aos poucos, deixou o tempo passar. Para tudo no universo, a natureza criou um par, poderia ter pensado F.O.B. E se não pensou, indubitavelmente o sentiu quando por fim conheceu Aseta Michele dos Anjos (A.M.A.). Mesmo em meio ao infindável mar de saias e pernas nas escadarias do I.E.A., para F.O.B., A.M.A. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 35 03/09/2013 15:14:27 36 se destacava. Às vezes F.O.B. ficava no fim baixo da escadaria, olhando para o alto. Regozijava-se em poder identificar A.M.A. apenas pelo par de pernas. Primeiro, pelo método da negação: aquela com cicatriz de queimadura feita em escapamento de moto era Ana Célia; uma cabeluda, que não se depilava nunca, era Ivete; os joelhos mais ossudos eram de Dolores; as pernas gordas e sempre suadas, de Úrsula; as mais manchadas, de Telma; umas que pareciam parênteses, de Cibele; as cobertas pela longa saia, da pentecostal Jussara; as nem um pouco cobertas, da desinibida Irene. Depois, o método positivo: as pernas de A.M.A. Os olhos de F.O.B. as identificavam com facilidade. Seu olhar subia a partir das meias soquete, desenhava o sinuoso contorno até perder-se em imaginações por debaixo da saia azul-marinho. Subia estonteado pela cintura até os seios na provocadora contraluz do tergal branco. F.O.B. demorava-se na diáfana curva dos seios, como se já os conhecesse. E enfim, o rosto... Para F.O.B., que crescera videando angelicais apresentadoras de programas infantis, A.M.A. era obviamente bela. Parecia que não suava, de tão perfeita (F.O.B. odiava suor.). Os olhos verdes, a pele branca e os longos cachos dourados da moça-princesa, no entender de F.O.B., naturalmente combinavam com ele. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 36 03/09/2013 15:14:27 37 Pois se ele não tinha nariz chato, pele escura nem cabelo crespo, era mais do que natural, era lógico, que ela seria dele. Na média, pensava F.O.B., os iguais ficam com os seus. Foi assim que, naturalmente, aquele ano passou. E naturalmente eles se aproximaram. Frequentemente, F.O.B. acompanhava A.M.A. até a casa da moça, que ficava no Centro. Algumas vezes, trocaram beijos na praça. Mesmo ali, entre guetos de góticos, metaleiros, hippies e surdos – gente suja e burra, como ele os via –, F.O.B. não se aborrecia: seus neurônios só se concentravam na sua áurea namorada. F.O.B. pressentia que A.M.A. seria a primeira. Mas, por algum desconhecido, ele não passava de certos limites. Tímidos limites. No último dia de escola, ele a acompanhou mais uma vez no caminho para casa. A.M.A. estava linda. Não estava fardada. Usava uma camisa verde com uma rosa em róseo bordada sobre o seio esquerdo, o que realçava sua delicada beleza de moça loira. Uma semana antes, quando F.O.B. completara 15 anos, A.M.A. havia lhe prometido uma surpresa, e essa era a hora. Neste dia, naturalmente os passos foram lentos. E erraram o caminho de casa, naturalmente. Até que o casal se viu numa construção abandonada, quase sem saber como havia chegado ali. Como se projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 37 03/09/2013 15:14:27 38 seus corpos os tivessem conduzido. Não tardou para o calor lhes subir entre ambos, o que também é coisa muito natural. A.M.A., semidespida, o rosto em fogo vermelho, já não era mais simplesmente a angelical figura de minutos antes; e algo como a vaga ideia de uma pureza conspurcada atordoou F.O.B. Mas entendamos: F.O.B. não chegou a saber se a ideia era boa ou ruim. Sequer reconheceu aquela confusão como uma ideia. Deleitar-se com a possibilidade de violar uma pureza: isso era um prazer vergonhoso. Tão confuso e excitado estava F.O.B., que ignorou os suores de ambos os corpos. Pela primeira vez, F.O.B. sentia que poderia ser excessivamente físico. O coice da vontade aplacando a razão. Lúcido, como, agora? Imaginando que F.O.B. soubesse o que fazer, mas talvez não soubesse como fazer, A.M.A. seguroulhe o pênis e tentou conduzi-lo até sua áurea vagina, delicadamente, como e nesse gesto ela tinha o corpo inteiro de F.O.B. em suas mãos. F.O.B. ainda teve uma nesga de razão, o suficiente para se lembrar de sua até então inseparável Erotic – testada eletronicamente. Enquanto A.M.A. se contorcia excitada, F.O.B. executava os procedimentos técnicos com o preservativo, tantas vezes repassados projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 38 03/09/2013 15:14:27 39 em lições semanais com Dr. Papai e Dra. Mamãe. Enfim, após três anos de uma longa mas natural expectativa!... Três anos. Três anos. Três anos. E F.O.B. ligaria, automático, o tempo da espera sexual ao prazo de validade da camisinha. Na precária iluminação do ambiente, F.O.B. confirmou a desgraçada suspeita. Havia 8 dias a validade de sua Erotic expiara. E o pênis de F.O.B. voltou, teso e virginal, para a gaveta das expectativas. A.M.A. foi compreensiva. Apesar da frustração, a fria cautela de F.O.B. – oito dias são 8 dias – era correta. F.O.B. de repente pareceu a A.M.A. um daqueles admiráveis homens que podem passar a vida inteira sem jamais sentir os sobressaltos que as surpresas e as desgraças dão ao comum da gente. F.O.B. garantiu que no dia seguinte iria à farmácia comprar novas camisinhas. E que se encontrassem ao fim da tarde, talvez ali mesmo... E obteve de A.M.A. a promessa de um telefonema confirmando o encontro, agora muito melhor planejado. Mas ela não telefonou. Nem nunca telefonaria. Quando se reiniciaram as aulas, F.O.B. soube que A.M.A. se transferira para o Colégio Estadual, onde a proporção entre moças e rapazes era bem equilibrada, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 39 03/09/2013 15:14:27 40 e seu coração foi sacudido por mais um sentimento desconhecido, que ele não soube compreender. Poucos meses depois, viu-a de longe na mesma praça onde um dia a beijara. Ela estava de costas, em meio a um grupo de jovens, e vestia roupas escuras. Mas a silhueta ainda era inconfundível, apesar dos cabelos agora curtos. F.O.B. já caminhava resoluto em direção a A.M.A quando uma série confusa de sentimentos o atingiu: um outro rapaz beijou duas vezes o rosto que ele um dia fizera arder. Entalado pelo choque, deixaria que suas pernas o levassem para longe dali. Não pela chegada do oponente, que bem podia ser apenas um amigo. Também o cigarro entre os dedos de A.M.A. era-lhe, naquele momento, irrelevante – apesar de ser um hábito nada saudável, observaria depois. Impossível para F.O.B. era aproximar-se de A.M.A. enquanto ela vestia a camiseta cuja estampa ele agora divisava com exatidão: a imagem, a careta de Janis Joplin flagrada no instante de um rouco, grotesco e assombroso Cry Baby! A.M.A. não servia mais para F.O.B. Naturalmente. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 40 03/09/2013 15:14:27 41 Allison Leão é escritor e professor. Nasceu em Manaus no dia 24 de fevereiro de 1978. Contista, publicou Jardim de silêncios (2002) e O amor está noir (2004). Tem um monte de ideias, mas muita preguiça. Por isso, tem mais projetos na mente do que livros escritos. Está preparando, há séculos, o livro 11 – um bestiário, do qual faz parte o conto E.S. (Educação Sexual). projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 41 03/09/2013 15:14:27 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 42 03/09/2013 15:14:27 43 Determinismo Almir Diniz Era o tempo da ocupação definitiva do Lugar da Barra pelo colonizador. Segundo os registros consultados, pode-se afirmar que o período enfocado girava em torno dos anos 20 de 1.700. As diversas etnias ocupavam a extensa área rionegrina, a partir da foz do importante afluente do Amazonas definida à jusante pelo conhecido fenômeno “Encontro-das-águas” e, à montante, pelas nascentes do rio Hiaá, além das cachoeiras, nos contrafortes das grandes montanhas ao Norte do País. Eram: os baré, tarumã, baniba, daraé, passé, mayapena, e a mais importante, manáo, as quais estavam sendo empurradas projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 43 03/09/2013 15:14:27 44 para o interior, algumas, de logo dizimadas, extintas, pelo drama dos descimentos e resgates, sob o fantasma das chamadas “guerras justas’’ propiciadoras da vida escrava. Os manáo, que dariam seu nome à sede da Capitania de São José do Rio Negro, após as ações determinadas pelo governador do Estado do Maranhão e Grão-Pará João da Maya da Gama e executadas inicialmente por Belchior Mendes Moraes e depois por João Paes do Amaral, encontravam-se desorientados após a queda do herói Ajuricaba. Uns seguiram rio acima procurando o apoio dos mayapena, protegidos pelas cachoeiras. Outros aldearam-se em núcleos provisórios, ao norte da Capitania, na esperança do retorno de Ajuricaba, pois que se recusavam a crer que o famoso guerreiro houvesse falecido. Um desses núcleos localizava-se em área do território rionegrino, faixa compreendida entre os rios Tarumã, Tarumãzinho (envolvida neste a turística Cachoeira Alta do Tarumã) e Cuieiras, além de vários igarapés e lagos. É neste cenário que vamos encontrar a bela Aruna, filha de mãe índia com um nobre português, a qual herdara deste os olhos azulados e dela, a pele brônzea do corpo rijo e elástico. Aruna mantinha idílio secreto com certo guerreiro mayapena, antigo aliado de Ajuricaba, o qual para ficar projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 44 03/09/2013 15:14:27 45 próximo de seu amor, decidira permanecer em algum ponto do Tarumã, recusando-se a acompanhar os seus companheiros em fuga para o Hiaá. Assediada, de um lado pelos missionários sob cuja proteção fora criada, e de outro por varões aquartelados no lugar da Barra, que a queriam para esposa, Aruna manteve-se fiel aos seus princípios. A partir do soturno rengue de ciprestes o caminho tomava a direção do lago. Mas, estreitava-se a cada passo, ganhando, em determinado ponto, feição de vereda, à medida que a exuberância da vegetação nativa, explodindo em cobertura verde, denunciava a proximidade da ribanceira. Ao atingir a curvatura do barranco uma pequena clareira como que definia territórios: até ali, a floresta; descendo, a capoeira velha onde outrora vicejara uma roça consociada de mandioca e milho. Num ponto dessa trilha aberta na mata, somente visível a olhos perspicazes, meio encoberto pela vegetação luxuriante, um sulco cavado no terreno firme pelos pés de animais, nas caminhadas de todos os dias para dessedentar-se numa fonte que manava da falda do abarrancado. Semelhava-se a discreto túnel serpeando por entre troncos, raízes, pedras e cipós, o piso alisado pela descida constante das águas pluviais. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 45 03/09/2013 15:14:27 46 A nativa, cauta, rastejava, que andar não podia, pela estreita passagem, sombria e tortuosa, como o caçador que, indiferente e percalços, segue o rasto da presa. O que rastrearia a jovem solitária com tanta determinação e em condições tão adversas? O corpo elástico, tingido de urucu e barro para despistar possíveis curiosos, deslizava pelo sulco sinuoso com agilidade de cobra, lisa como enguia, as mãos crispadas, respiração ofegante, os olhos de lince esquadrinhando tudo ao seu redor, desde a copa das árvores novas à ramagem farta que se estendia até a margem do lago, protegida esta por fofa e farta camada de arbustos, a perder de vista. Ao fim do peri, o espraiado levava ao lago, àquela altura límpido e liso, encantador, poético. Por breve espaço de tempo ela se manteve imóvel, quieta, feito estátua brônzea, esbanjando morenice integral trabalhada pela incidência do sol, sem anteparos. Depois, sabendo-se sozinha naquele paraíso secreto, Aruna, a deusa-mulher, moveu a cabeça para um lado e outro, alongou o olhar de pesquisa até aonde a vista alcançava, estudou os arredores. E somente após certificar-se de que não era observada entrou n’água. E rápida e lépida, mas sem expor os braços fora da projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 46 03/09/2013 15:14:27 47 lâmina líquida, dirigiu-se a uma espécie de falésia oculta naquela paisagem encantatória. Protegida pelo pedral e pela ramagem beijando a água, corpo trêmulo, coração aos saltos, enfocou, na estreita curva da pequena angra, o objeto de seu interesse, responsável por toda aquela caminhada secreta para além dos limites do aldeamento provisório de seu povo, em debandada, vagando, desorientado, desde a perda do grande líder, o principal Ajuricaba, em busca de pouso definitivo, em sua própria terra... E descansou. Depois, decidida e ousada, esplêndida no seu determinismo, coerente com seu projeto de vida – sem horizonte visível –, lançou-se, novamente, ao lago, na direção da enseada visualizada, na busca da concretização de seus sonhos... Almir Diniz – Nascido há 84 anos no município de Careiro da Várzea, quando este ainda pertencia a Manaus, foi o primeiro prefeito do lugar. Advogado, jornalista premiado com o Esso duas vezes, é autor de 25 livros, entre poesia, conto e crônica. Membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, dirigiu as revistas de ambas as instituições. Atualmente, colabora em diversos jornais literários. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 47 03/09/2013 15:14:27 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 48 03/09/2013 15:14:27 49 Manaus, 20 de janeiro Antonio Felipe Manaus é um ovo, dizem. Culpam a cidade por círculos limitados, previsíveis e pouco diversos de amigos. Abandonamos qualquer contato, mas sempre ouço falar de ti, mesmo indiretamente. Além dos conhecidos em comum, cliques entregam notícias. Estou doente. Escrevo deste leito de dor em meu peito, respiro feito quem sobe barrancos. Não é a primeira tentativa, descanso quando minhas mãos tremem e meus punhos doem. Mas a manhã trouxe disposição e enquanto for possível pensar claramente, continuo. Por que carta? Porque quero te deixar grafada a minha versão de nós, tão perduravél quanto letra projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 49 03/09/2013 15:14:27 50 em papel. Aliás, não quero tanto quanto preciso. Não mudei, continuo sentimental... Tu engravidou meu pensamento. Lembro bem, reparei em ti quase nove meses antes daquele início de noite, sentados à margem sideral do Rio Negro. Das mesmas coordenadas, agora assoma à vista a estratosférica constelação brilhante em forma de ponte. Eu não notei tua aproximação, o boto surpreendeu a virgem. Guardo o espanto do teu sorriso ao se jogar ao meu lado. Assustou não tanto por estar pouco movimentado e silencioso ali ao redor, mas principalmente por ser tu chegando assim. Dei à luz, começamos a conversar. Desde então, quis bem à Ponta Negra inteira. Lá te conheci, por ali passávamos muito tempo, lar a céu aberto. Às vezes, ouvia tu com teus assuntos masculinos pouco interessantes, só por prolongar as horas. Queria mesmo era continuar a observar teus lábios fluentes e teus olhos de correnteza. Nunca perguntei por que te surgiu a vontade de ir até mim. Achou a imagem muito solitária? Foram meses bons, por algumas semanas até esperei qualquer atitude tua. Demorei a aceitar, seríamos apenas amigos, eu não era quem tu procurava. Ainda assim, gostava quando tu preferia estar comigo ao invés de sair com outra garota, mais uma, eram tantas em cima. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 50 03/09/2013 15:14:28 51 Pensei em me afastar de ti. Não iria fazer bem a nós dois, previ. Tu poderia encontrar alguém e me ferir e, por tua causa, parei de prestar atenção em qualquer outro. Meu apego era completamente explicável, mas o teu confundia. Tu nunca foi ingênuo, percebeu a aproximação afetuosa demais, mas manteve. Era ciente e gostava. Demorou, mas não consegui tentar criar algum distanciamento antes de tu começar a falar sobre ela. Estar contigo tornou-se incômodo, percebi ser sério com o passar dos dias. Uma toalha tua ficou dentro da minha bolsa. Quis voltar depois da tua descrição excitada e sem pudor da primeira transa, guardei minhas coisas e saí, lembra? Levei ali. Agarrei aquele pano por estar com teu cheiro. Minha vingança foi abusar dos fios, lavei por nojo. Foi difícil ignorar tuas mensagens e ligações, durante a madrugada fazia a contagem progressiva das horas insones, passando o dia inteiro sem ânimo algum. Teu erro foi ir à minha casa, mas queria e esperava algo assim de ti, confesso. Ao menos tu não foi cínico a ponto de me perguntar o porquê de estar te evitando, outra evidência. Percebeu o ciúme porque tinha consciência da natureza do meu afeto. Tirou proveito ao aparecer por saber da ausência de todos, obviamente projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 51 03/09/2013 15:14:28 52 tiraria por ser o único a me conhecer a ponto de poder atirar minhas contradições em uma discussão. Mas mesmo depois de tanta ofensa, tu permanecia craque em me quebrar com teu abraço. Sozinhos e teu corpo perto do meu, sussurros lentos das tuas desculpas em minha orelha, igual a suspiros adormecidos. Cansei de refrear minha vontade. Tu cedeu, o mais prazeroso, tu se deu. Finalmente confluímos e irriguei meu rosto com teu gosto. O arrependimento precisa do ato, a culpa não. Muitas vezes me culpei por sonhar contigo, mas ali percebi não ser apenas meu o desejo. Tuas mãos em meu cabelo, forçando minha cabeça, dividiram meu fardo. Contudo, após gemer todas aquelas frases, tu se arrependeu e foi embora, não quis mais conversar e ficamos assim, mal resolvidos. Ainda te vi em alguns dias, de longe. O mesmo deve ter acontecido contigo, é impossível não esbarrar com o passado em Manaus. Dividimos a mesma sala de cinema, certa vez. Saí antes de o filme acabar, não suportei ela sentada em meu lugar. Muito depois, quando cometia filicídios diários da tua memória, cheguei e encontrei o convite. Pensei em não ir, mas eu quis. Tanto tempo distantes e ainda assim... Tua expressão quando cheguei foi ótima, não projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 52 03/09/2013 15:14:28 53 precisava gaguejar e ser tão formal, partisse direto ao abraço sísmico. Meu martírio em continuar ali e te assistir casando foi minimamente recompensado quando ela caiu andando em direção ao altar, não houve vexame maior dentro da Igreja de São Sebastião, o templo com o nome do santo tão conveniente à cerimônia. O rasgo do vestido da noiva sou eu. Demorei a retomar meus esforços sísifos em te superar após teu casamento. É inútil lamentar a roleta de pedra das escolhas antigas. Fiquei sabendo via internet da tua aprovação, chequei a lista do resultado quando saiu. Comemorei contigo sem tu saber, tu sempre quis sair daqui. Queria ter me despedido, se soubesse o dia do teu voo, teria ido ao aeroporto. Quanto à tua esposa, ela te trai. Alega sentir tanta saudade da família assim ou tu não questiona tantas viagens sozinha a Manaus por não aguentá-la mais mesmo? Antes de ti, ela tinha terminado com o namorado de anos, não é? Por coincidência manauara, o Heitor e ele se conhecem e nós os vimos juntos compondo o retrato do casal apaixonado em dezembro. Tu não seria tão menos feliz comigo quanto és mais infeliz sem mim. Sou tua mulher ideal, mas tu temeu o mundo, porque sou homem. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 53 03/09/2013 15:14:28 54 Antonio Felipe Oliveira Rodrigues (23 de dezembro de 1991) nasceu e mora em Manaus. Tornou-se leitor inicialmente através de histórias em quadrinhos e livros infantojuvenis. Por incentivo familiar cristão, desde criança conhece a Bíblia e teologia. Durante a adolescência intensificou o interesse por filosofia e literatura e a partir de então começou a escrever textos diversos, dentre eles, contos. Vencedor do I Concurso Livro de Graça na Praça Manaus. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 54 03/09/2013 15:14:28 55 As unhas de fora Astrid Cabral Dona Dadá, nossa nova vizinha, chegou à cidade acompanhada de muitas malas e móveis, um cachorrão preto e um jabuti. Parecia uma pessoa séria. Logo descobrimos que não. Ela era mesmo era severa, o que é bem diferente. Berrava com as meninotas que trabalhavam pra ela e, coitadas, andavam sempre assustadas. Cara amarrada, dona Dadá não sorria nunca. A gente desconfiava que ela não tivesse um só dente na boca, porque sua fala era toda embrulhada. Mal dava pra entender. – Cambada, caba já quessa agunça. Ulha qui num si pude nem sistiá. Bico calado, quiançada. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 55 03/09/2013 15:14:28 56 Tinha cara redonda de pires e olhar duro de prego. E pose era o que não lhe faltava, por conta das trunfas que usava, uma de cada lado da cabeça. Além de antipática era preguiçosa. Passava horas e horas aboletada na janela, fiscalizando a rua, os braços moles e redondos apoiados numa almofada vermelha de cetim. Fazia questão de exibir a coleção de anéis. Só que ao mostrar tantas pedras e ouro, mostrava também as unhas encardidas onde o sujo punha uma risca preta. Aos poucos foi também botando outras unhas de fora. Primeiro foram as mangas e goiabas que começaram a sumir de nosso quintal. Eu e as manas ficávamos assuntando as frutas madurarem para desaparecerem de repente, num passe de mágica, justo quando estavam ficando no ponto. Nenhuma chuva as derrubara e a gente não dava a menor notícia de moleque invasor, bando de curica bicando, ou macaco pulando nos galhos. Pensávamos que podia ser arte de algum morcego faminto que aparecia de noite enquanto a gente dormia. Mas nunca se achou caroço pelo chão. Até que numa noite de luar vimos por cima da cerca uma vara com paneiro na ponta, a forquilha torcendo o galho onde estava a manga espada madurinha. Ficamos assustadas com aquela visão ao longe. Seria projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 56 03/09/2013 15:14:28 57 coisa de fantasma? A gente guardou silêncio e ficou à espreita, até que tudo se aquietou imóvel e a vara se encostou na parede da casa de dona Dadá. Um dia a cozinheira lá de casa veio avisar à vovó que não podia deixar pronta a galinha pro domingo porque ela fugira. Já tinha revistado tudo. Vovó só disse: – Qu’é qu’é isso, Luzia? Galinha não voa. Já compro de asa cortada. Só que as galinhas começaram a sumir. Hoje era a carijó ruiva, daí a dias as de pena branca, compradas na feira já gordinhas. Aconteceu que, certa manhã bem cedo, ainda meio escuro, Luzia viu um vulto jogando milho num cantinho da cerca. Mais tarde, ao varrer o quintal, deu com o arame da cerca levantado e fora do lugar. Então, logo pensou, é por aqui que elas escapam. Pôs-se a observar o quintal alheio e viu que na criação de dona Dadá havia muitas galinhas de pescoço pelado. Tirando duas galinhas da Angola, as outras todas eram pirocas. Olhando melhor acabou por reconhecer quatro, uma branca e três ruivas que haviam desaparecido do lado de cá e agora estavam todas de pescoço depenado. Luzia nos contou a descoberta. Achamos aquilo um desaforo. Para nós ladrão era um ser sem cara, alguém difícil de se botar os olhos em cima. E agora ali projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 57 03/09/2013 15:14:28 58 estava aquela dona bem nas nossas ventas. Com certeza ela dava ordens àquelas pobres meninas para agirem daquele jeito. Armamos um plano. A primeira vez que víssemos dona Dadá, saindo com o marido, toda empiponada para a missa de domingo, íamos pedir licença para apanhar nossas galinhas que haviam fugido por baixo da cerca. Dito e feito. Bancamos as inocentes e falamos: Bom dia, doutor Nicolau, o senhor dá licença pra gente ir pegar nossas galinhas que passaram pro seu quintal? Era um homem afável, respeitado de todos. Ele apenas disse: – Peçam às empregadas pra prender o cachorro. Dona Dadá, de braço dado com o marido, olhou-nos com uma cara de ódio fuzilante, mas não abriu a boca. Trouxemos de volta três das nossas galinhas, as que a gente conseguiu reconhecer, porque muitas delas já estavam há muito tempo no bucho dos vizinhos. Tempos depois um compadre de vovô esteve em visita lá em casa e perguntou: – Então, compadre, tava gostosa a tartaruga que lhe mandei de aniversário? Vovô ficou surpreso, que tartaruga, homem? O compadre foi atrás do caboclo encarregado de levar o presente. E ele contou que quando ia chegando com projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 58 03/09/2013 15:14:28 59 a encomenda, uma senhora gorda na janela da casa ao lado disse: – É aqui mesmo, moço, estou à espera dessa bichinha. Nossa raiva foi geral. Lidar com gente safada é coisa por demais difícil. Ainda mais que doutor Nicolau era gente boa. Fazia festa pra meninada e, além disso, era juiz de direito, um homem importante, mas sem orgulho besta. Uma vítima daquela mulher falsa, daquela megera. A questão agora era saber que lição a gente podia dar àquela bruxa de vassoura escondida. Era difícil pegá-la com a boca na botija. Quem podia entender que uma dona que nem ela, com tanta posição e tantos anéis, cobiçasse e avançasse no alheio? O avô sempre dizia que não se podia nunca fazer do mesmo que se censurava aos outros. Questão de coerência. Mas a mãe sempre achou que a tolerância excessiva só servia para alimentar o erro e que não se perdia nada por tomar as providências de uma correção. Assim, o bendito dia em que o jabuti de estimação de dona Dadá, depois de bancar tatu cavando um túnel, deu com os costados lá em casa, perto do pé de graviola, mamãe não titubeou. Deu ordem à Luzia para prepará-lo com todos os temperos, sem esquecer coentro, chicória, pimenta murupi e cheiro verde, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 59 03/09/2013 15:14:28 60 como se fosse uma tartaruga de verdade. Comemos sem remorso e com bastante gosto, porque a justiça feita sempre alegra. Nem vovô reclamou. Seria uma ocasião para dona Dadá vir tomar satisfação e a gente botar tudo em pratos limpos, criando uma boa vizinhança e acabando de vez com ressentimentos. Mas ela nem piou. Dessa vez quem ficou de bico calado foi ela, pois a gente continuou fazendo bagunça na hora da sesta. Amazonense, Astrid Cabral é poeta e contista. Adolescente saiu de sua terra para estudar línguas e literatura no Rio de Janeiro, onde se fixou. Neste conto, afloram recordações de sua infância decorrida na Manaus dos anos 40, pequena cidade ainda bem próxima da natureza. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 60 03/09/2013 15:14:28 61 BR-319 Edweine Loureiro Nauseada – uma vontade de vomitar o misto da cachaça e do gozo daquele estranho que fora forçada a engolir –, e ainda agachada, virou-se, para pegar os dez reais que o homem lhe atirara ao asfalto. Enquanto agradecia, lembrou-se da mãe: – A senhora acha que eu vou ser bonita quando crescer? – Bonita? Sim, minha filha. Mas quero que essa beleza também te traga felicidade – respondeu a lavadeira, cujos dedos cansados ainda tinham forças para afagar os cabelos da única filha com que Deus a havia abençoado. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 61 03/09/2013 15:14:28 62 Viu o caminhão partir e, limpando dos joelhos a poeira da beira da estrada, seus olhos fixaram-se naquela imensidão chamada BR-319. De uma solidão infinita. Uma solidão que parecia separá-la mais que nunca de sua hoje tão distante Manicoré. – Vai para Manaus, sua boba! Vai ficar fazendo o quê no interior? Lá em Manaus é que se ganha a vida… Já ouviu falar no distrito industrial? Pois é: tem um monte de amigo nosso indo pra lá, trabalhar nas fábricas estrangeiras. Ou vai que tu encontra a sorte num casamento com um rico de lá? Até com um gringo mesmo! Tu é bonita! Pretendente é que não vai faltar. Lá, dizem, tá cheio de homem endinheirado! Aqui, teu destino vai ser arrebentar o peito e a juventude num tanque de roupa! Que nem tua mãe, desculpa a sinceridade! Não, menina… vai embora! Melhor: vamos as duas juntas. Assim uma faz companhia pra outra, nos momentos de aperto. E, enquanto caminhava, limpando o suor do rosto com um lenço – naquele calor de mais de quarenta graus! – lembrou-se de Ana, a melhor amiga. Haviam ido, de fato, juntas, para Manaus. Mas Ana havia se desviado muito, desde que se envolvera com um marginal: e hoje vagava pelas praças da capital amazonense, drogada e esquecida. Por exemplo, a útima vez que projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 62 03/09/2013 15:14:28 63 a havia visto, ela estava oferecendo o corpo a dois carregadores do porto, em troca de uma carteira de cigarros. Ritinha ainda tentara convencê-la a retornar para o quartinho que as duas haviam alugado, ainda no mês anterior, na periferia; mas Ana negou-se a acompanhá-la. Depois disso, não mais tivera notícias do paradeiro da amiga. – Me deixa, Ritinha. Eu não presto pra mais nada! Vai viver tua vida, sua certinha, e me esquece – disse Ana, empurrando-a, para, em seguida, desaparecer, com os dois carregadores, engolidos pela multidão do porto. O calor intenso perturbava-a, mas, ainda assim, continuou a caminhada, enquanto buscava uma sombra para descansar. – Vai para Manaus fazer o quê? Cair na vida? Não foi para isso que passei esses anos todos arrebentando o peito num tanque de lavar: para criar mulher-dama!... Não, isso não – gritou-lhe a mãe, tossindo sangue na bacia depositada ao lado da cama. – Mãezinha, não diga isso. Assim, a senhora me amaldiçoa. Não, senhora. Vou estudar. Ser gente. Ouviu risadas. Eram motoqueiros, conversando e bebendo à margem da pista. Passou cabisbaixa, tentando não chamar atenção. Foi quando um deles gracejou: projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 63 03/09/2013 15:14:28 64 – Por que não vem sentar com a gente, belezura? Tem lugar na garupa da minha máquina. – E completou: – Ou, se preferir, no meu colo! Sabia que o melhor era calar-se; não reagir. E começou a andar depressa, temerosa. Afinal, não eram poucos os casos de garotas violadas e assassinadas por maníacos de beira de estrada. Assim, beijou a medalha da Virgem, pedindo proteção. E, naquele instante, lembrou-se do envelope que recebera, em uma tarde chuvosa, das mãos da dona da pensão onde se instalara nos primeiros meses – antes que a miséria e os desenganos a jogassem pelas ruas de Manaus. No interior do envelope, a medalha e um bilhete. Ritinha. Espero que esta mensagem chegue a tuas mãos. Copiei o endereço que estava no envelope da última carta por ti escrita, há mais de um mês. Filha, tua mãe foi enterrada ontem, depois de uma semana de convalescença. Não tínhamos como te avisar, pois nem teu telefone sabíamos. Não te preocupa. Cuidei de tudo e ela foi sepultada, como era o desejo dela, na campa onde também estão teus avós. Ritinha, te peço: volta, um dia, nem que seja apenas para visitar o túmulo de tua mãe. Foi o teu nome projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 64 03/09/2013 15:14:28 65 que ela falou no momento de entregar a alma a Deus. Horas antes, ela me fez prometer que eu faria chegar a tuas mãos esta medalhinha, que foi de tua avó. Como não sabia se voltaria a te ver, a única forma que encontrei foi esta. Fica com Deus, minha filha, e dá notícias. Tua madrinha, Dora. Enxugou as lágrimas, enquanto caminhava pela margem da pista. E, olhando para o sol que nascia no horizonte, esboçou um sorriso. Sim, senhor, estava resolvida: trabalharia por mais algumas noites e voltaria para Manicoré. Mais alguns clientes e teria o dinheiro necessário para a passagem de volta. E deixaria aquela vida de riscos; retornando ao lar, como era o desejo de sua mãe. Decisão tomada, essa era, ironicamente, a primeira vez que se sentia realmente feliz, desde que chegara à cidade-sorriso. E fechou os olhos por um instante, imaginando um futuro melhor, de volta às raízes. Nesse momento, porém, escutou um barulho. Abriu novamente os olhos e, virando-se para trás, viu duas motos que aceleravam em sua direção. Foi quando Ritinha, desesperada, começou a correr. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 65 03/09/2013 15:14:28 66 A perseguição durou apenas alguns segundos. Até que as motos, desaparecendo no horizonte, silenciaram. Deixando para trás um rastro de sangue e a imagem de uma virgem despedaçada. Edweine Loureiro nasceu em Manaus em 1975. É advogado e professor, residindo no Japão desde 2001. Premiado no Brasil, Portugal, Espanha e Japão (incluindo o Brazilian International Press Awards em 2013), é autor dos livros: Sonhador Sim Senhor! (2000), Clandestinos (2011) e Em Curto Espaço (2012). Vencedor do I Concurso Livro de Graça na Praça Manaus. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 66 03/09/2013 15:14:28 67 Medo fatal Elson Farias Mal caía a noite, Manaus ficava silenciosa e os jovens saíam para brincar na rua. Inácio era o líder de um grupo que vivia sempre atrás de algo novo para fazer. Ele é quem decidia sobre as brincadeiras. Mas todos sugeriam coisas, propondo as mais curiosas aventuras. Os desafios os excitavam muito. Foi então que venceu a ideia de fazer uma visita ao cemitério da cidade numa noite dessas. Mas não podia ser uma noite qualquer, noite de lua, por exemplo. Não queriam a paisagem da luz prateada batendo sobre as lápides, sombreando as inscrições sob o perfil das cruzes e das estatuetas dos mausoléus. Uma noite assim, muito romântica, não projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 67 03/09/2013 15:14:28 68 servia. Para aquela brincadeira eles queriam uma noite escura, sem lua e sem estrelas, se possível, uma noite ameaçada de temporal, naquele momento em que a natureza apronta-se para explodir, deixando, no ar, um clima tétrico de expectativa mortal. Essa noite, afinal, chegou. Tudo estava mais escuro ainda. As lâmpadas acesas nos postes pareciam tímidos vaga-lumes. A turma correu então à porta do cemitério e combinou a brincadeira. Quem teria coragem de entrar e atravessar o campo-santo até a última sepultura, do outro lado, junto ao muro da outra rua? Os companheiros que eram geralmente ousados, afrontando a tudo e a todos, recolheram-se, agora, no mais cerrado mutismo. Ninguém se apresentou para enfrentar a façanha. Inácio, portanto, querendo afirmar-se cada vez mais na liderança do grupo, dispôs-se a responder à provocação. Bem, mas para provar a realização da tarefa, Inácio teria de levar consigo um punhal e enfiá-lo na última sepultura. Sem maiores comentários Inácio tomou da arma, escalou o muro e as grades do cemitério, e partiu. Estava tão escuro que, nos primeiros passos, o rapazinho saiu tropeçando nos túmulos. Não tinha o hábito de visitar aqueles lugares, por isso era-lhe estranha aquela topografia, principalmente de projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 68 03/09/2013 15:14:28 69 noite e numa noite escura como aquela. Saiu tateando, entre os jazigos, até alcançar um caminho mais contínuo. A cidade terminava praticamente no Boulevard Amazonas, que não se chamava ainda Álvaro Maia, endereço do cemitério de São João Batista, na Manaus dos idos de 1950. Lugar deserto, portanto, e, por volta da meia-noite, habitado só pelos sons soturnos dos grilos, sapos, corujas e de outros pequenos animais notívagos, que viviam ciciando por ali. O medo subia pelas pernas do Inácio que apressou os passos. As imagens das tumbas, pequenas capelas e raras obras de arte, em mármore, vidro gradeado e mosaicos, desintegravam-se na escuridão, aos olhos esbugalhados do rapaz. A partir desse momento o nosso herói já não mais caminhava, desandava em desabalada correria, como um relâmpago entre as cruzes e as caixas dos jazigos rasos, deixando no rastro o vulto branco da camisa do Inácio que voava como bandeira de paz de uma batalha que apenas começava, pelo destemor daquele general, postado na linha de frente da luta, face à indisposição e à covardia dos seus comandados. Voltemos agora à porta do cemitério para ver o que acontecia ali. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 69 03/09/2013 15:14:29 70 Os companheiros esperavam pela volta do Inácio. Tagarela, aos poucos, a garotada vai calando o bico. Logo mais não se ouve mais nada. Inácio não voltou no tempo esperado. Pensavam: Que terá acontecido com ele? Será que o espertalhão, após cumprir a tarefa, escalou o muro e se mandou pelos caminhos dos fundos, pela Rua do Beco do Macedo? Só pode ser isso. Porque nada poderia deter o Inácio na sua determinação. Ele foi o maior incentivador dessa ideia, acalentada no grupo por muito tempo. O certo é que os meninos já estavam preocupados. Bateu meia-noite, no relógio da Igreja de São Sebastião, e nada do Inácio. Resolveram, então, voltar para casa e procurar o amigo amanhã, para saber o que de fato lhe acontecera. Ao amanhecer, a primeira coisa que fizeram foi procurar pelo Inácio em casa. Os seus pais estavam apreensivos. Já tinham avisado a polícia, pois o rapaz não voltara da rua até àquela hora, contrariando os costumes da família. Os meninos contaram, então, a história da brincadeira. Voltemos ao cemitério, na noite anterior, para descobrir o que em verdade aconteceu. Próximo à reta final Inácio deparou-se com umas sepulturas recentes, ornadas de coroas de flores projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 70 03/09/2013 15:14:29 71 e recendendo do mau odor de velas queimadas. Na velocidade com que ia movido pelo medo, agora pavor, passou a ouvir sons que transcendiam aos ruídos dos sapos e dos grilos, vozes que vinham de dentro dele próprio. Com o sentimento de culpa de que ali praticava um sacrilégio, em pânico, enfiou o punhal na sepultura, de acordo com o combinado. Na pressa com que ia, prendeu a barra da camisa que desabotoara na ponta do punhal sobre a sepultura. No impulso da volta teve a sensação de que alguém esticara o braço para fora da cova e o prendera ali, causando-lhe morte súbita. Assim foram dar com o Inácio, fulminado pelo medo fatal. Elson Farias, nasceu a 11 de junho de 1936, em Roseiral, Itacoatiara, Amazonas. Dedicou-se ao serviço público e à Literatura. Agora todo voltado para a Literatura. Possui editados 57 títulos de poesia, prosa de ficção, ensaios e infanto-juvenis. Tem poemas selecionados em 16 antologias nacionais e estrangeiras, com versos vertidos para o espanhol, francês e inglês. Foi Presidente da Academia Amazonense de Letras. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 71 03/09/2013 15:14:29 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 72 03/09/2013 15:14:29 73 O soldado da borracha Francisco Vasconcelos O grito do seringueiro Valdemar ecoou floresta adentro, fazendo calar os ruidosos sons da bicharada noturna. Cearense, acostumado à dureza dos sertões nordestinos, aquele homem era um dos que passaram a viver isolados na misteriosa e, para muitos, fantasmagórica hiléia, lá no “centro”, como era costume falar das regiões mais centrais e distantes daquele mundo sem fim da Amazônia Ocidental produtora de borracha. Para ali fora atraído pela colorida propaganda espalhada Brasil afora, o verde e o amarelo da bandeira nacional predominando na policromia de bem elaborados cartazes; as estradas de seringa, certinhas, limpas projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 73 03/09/2013 15:14:29 74 de quaisquer obstáculos; as seringueiras, enfileiradas, uma pertinho da outra, em linha reta, era só cortar. Na verdade, riscar a madeira e logo ver o leite jorrar e seguir o sulco aberto na casca do ubertoso caule, até alcançar a tijelinha de flandres estrategicamente colocada a alguns centímetros abaixo. Que poderia haver de melhor e mais certo? Valdemar lembrava tudo aquilo com grande indignação e maior tristeza. Por que caíra na esparrela de acreditar em tamanha mentira? Fora enganado, sim. De qualquer modo, aquela escolha o livrara de bandear-se para o cangaço que, à época, embora já sem força, ainda constituía atração e alguma esperança para a moçada de seu tempo, ele, um quase adolescente ainda. Que outro futuro poderia ter no agreste sertão onde nascera e onde vivia? – Vou, mãe. Vou, sim, pro Norte, lembrava-se de como respondera às advertências maternas, feitas em razão de outras sentidas perdas que já tivera, os filhos, aos poucos, debandando para aquelas lonjuras do Sul, lugares tão distantes, de onde sequer notícias lhe chegavam. Isso era o pior de tudo. Por onde andariam os filhos? Viveriam ainda? Para Valdemar, todavia, nada de mal haveria de acontecer-lhe. Tornar-se-ia, como tantos que estavam partindo para a guerra, igualmente projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 74 03/09/2013 15:14:29 75 um soldado, “soldado da borracha”, como oficialmente eram chamados quantos demandavam os distantes seringais para a extração do precioso látex, indispensável ao fabrico de inúmeros artefatos de guerra. Que mais honrado lhe poderia acontecer? Até carteirinha de identidade receberia, documento que jamais conhecera, mas de cuja serventia, também, nunca necessitara. Ganharia fama e dinheiro, sem correr o risco de morrer atravessado por uma bala de fuzil ou estraçalhado por fragmentos de granada, sem falar no perigo das destruidoras bombas que haveriam de cair dos aviões inimigos. Sabia muito bem que outro não seria o fim de muitos que estavam partindo para a guerra. Então não eram essas as notícias que corriam de boca em boca, ouvidas diariamente no rádio da prefeitura? Era, assim, definitiva a decisão de Valdemar. Extremamente motivado pela campanha de aliciamento que então se fazia, chegava a orgulhar-se de ser mais um soldado a lutar, participando do grande esforço de guerra que então se fazia com o propósito de vencer as diabólicas forças que ameaçavam o mundo. Por tudo isso, iria. Sim, iria. Que risco haveria de correr? Mais tarde, na velhice, se necessário, teria até como provar sua condição de herói daquela guerra que tanto abalo causava à humanidade. Além do mais, se sorte não projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 75 03/09/2013 15:14:29 76 lhe faltasse, poderia ganhar dinheiro e voltar rico ou bem remediado aos pagos da infância, como sabia ter acontecido a muitos que, alguns anos antes, fugindo do rigor das secas, haviam escolhido a Amazônia como suporte maior de um promissor amanhã. Seus assentamentos constariam de sua emblemática carteira que, além de registrar seus dados pessoais, indicaria o ânimo de luta que tivera, para orgulho de seus conterrâneos e de quantos filhos viesse a ter. Poderia, até mesmo, como a tantos nordestinos acontecera, chegar à condição tão desejada de patrão, dono de seringais, senhor de um mundão de terras, mais um coronel, enfim. Fora esse o sonho de Valdemar. Sua grande saída, não tinha a menor dúvida, era a borracha, produto, aliás, sobre o qual pouco sabia, e que jamais vira de perto, a não ser o que diziam ser a parte superior dos lápis com que, na infância, apagava no caderno os erros que a professora mandava corrigir. Ah! Quanta ilusão passeou pela cabeça de Valdemar a partir das informações constantes dos coloridos cartazes, enganosa estratégia que o atraíra, definitivamente, ao processo de produção do tão desejado látex. Como admitir fosse mentira o que tanto chegou a ser oficialmente apregoado? Igualmente, jamais chegara a imaginar que, passado o tempo e terminada a guerra, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 76 03/09/2013 15:14:29 77 cessaria também a atividade a que se dera com tanto entusiasmo. Assim, de uma hora para outra, perdido e isolado naquele mundo verde e, sobretudo, hostil, nem chegara a se dar conta de que o tempo passara e que a pouco e pouco aquele estranho mal que o atingira fora se agravando, até prostrá-lo de vez, tornando-o um ser inútil, sem qualquer serventia. Isso, sem falar na incômoda fraqueza que lhe bambeava as pernas em constantes tremores, enfermidade que diziam ser beribéri ou coisa parecida. Nem sabia também quantas vezes a malária o deixara sem poder sair pro corte, o corpo moído, aquele frio de fazer tremer a própria alma. E que dizer da conta no barracão, o débito crescendo a cada dia, a ponto de lhe negarem até o de comer? Nada pior, porém, que aquela dor a arrancar lá de dentro, da alma e do corpo, o estranho e horripilante grito, após incontáveis e incômodos gemidos, um após outro, gemidos que, de algum modo, amorteciam um pouco a terrível impressão de que algo lhe destroçava as entranhas. – Sossega, homem! Toma este chá – muitas vezes lhe dissera a mulher, ao tempo em que lhe dava a beber morno cozimento de cascas de pau d´arco e de folhas de carajuru, além de raízes e outras folhas colhidas na floresta, receita que prescrevera o curador, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 77 03/09/2013 15:14:29 78 único socorro que costumava acudir quem de socorro carecesse por aquelas brenhas. Nada, porém, nem reza nem promessa, fora capaz de, pelo menos, mitigar-lhe o sofrimento. Exatamente na noite em que ecoara aquele pavoroso grito, fazendo calar a bicharada noturna da floresta, bem longe dali, outros gritos também se fizeram ouvir mundo afora. Esses, entretanto, eram gritos de incontida alegria, em razão da tão esperada comemoração da vitória. A partir daquele dia, não mais haveria dor. Tampouco a morte amedrontaria os que tanto haviam lutado. Acabara-se a guerra. A paz, finalmente, fora alcançada, e o mal, por fim, vencido. Para tanto, quantas mortes foram necessárias? Mas, entre elas, ninguém cogitou de computar a morte de Valdemar, número simplesmente esquecido, que nem sequer chegou a constar do rol dos que lutaram, como lutou ele e quantos, iguais a ele, na condição de seringueiros, soldados da borracha, perderam a vida nos mais distantes e agrestes seringais. De que lhe valera a caderneta que guardara com tanto zelo? Valdemar, na verdade, nada mais fora além de um simples número. Número errado, que jamais chegara a expressar qualquer valor, por isso mesmo que apagado pela enorme borracha da indiferença e do esquecimento. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 78 03/09/2013 15:14:29 79 Bem distante dali, sons de heróicos dobrados animavam os corações, em regozijo pelo fim da guerra e num tributo aos heróis que, sob aplausos intermináveis, desfilavam garbosos. Francisco Vasconcelos – Amazonense de Coari, transferiu-se para Manaus ainda adolescente. Foi presidente do Clube da Madrugada (1964/65) e pertence à Academia Amazonense de Letras. Publicou os seguintes livros: O palhaço e a rosa (contos), Regime das águas (novela), Casa ameaçada (memória), Meus barcos de papel (crônicas), Coari – um retorno às origens (memória) e O menino e o velho (novela). projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 79 03/09/2013 15:14:29 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 80 03/09/2013 15:14:29 81 André vai ao teatro Inácio Oliveira Quando ia começar a Voz do Brasil, o avô aumentava o volume do rádio ao máximo e ficava ouvindo, embevecido, a vinheta do noticiário. Durava alguns segundos, quando começavam as notícias ele baixava o volume outra vez. Morreu sem saber que aquela música era a protofonia d’O Guarani de Carlos Gomes. Muitos anos mais tarde quando André for ao Teatro Amazonas assistir a O Guarani pela primeira vez, ele vai se lembrar desse gesto tão simples do seu avô. A lembrança feito pedra descerá por sua garganta, a mulher que estará ao seu lado pensará que ele se emociona com a exuberância do tenor interpretando projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 81 03/09/2013 15:14:29 82 Peri, mas André estará com os pensamentos muito distantes. Estará numa longínqua tarde de abril. O avô fuma um tabaco que ele mesmo plantara, longas baforadas de fumaça se desfazem na calma azul da tarde. Ele observa o teto donde pendem teias de aranha. André lê num livro amarelado de capa dura coisas que estão além da sua compreensão, ainda é uma criança, mas já sabe que não deseja o duro destino de um homem da várzea. André fará qualquer coisa para que sua vida não repita a do seu pai que por sua vez repetiu a do seu avô, ali sentado à sua frente. Observa o rosto cravado de rugas do avô, sabe que ali se escondem histórias de uma vida inteira. Histórias nem sempre felizes. Não entende como uma vida atravessa quase um século para dar em nada. André lê no livro de biologia do colégio: “os seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem”. Igual a seu avô, seu pai, sua mãe; igual a todo mudo que ele conhece. Seres vivos, ele pensa amargurado. Mas ele não, ele não é apenas um ser vivo, ele é diferente, sabe disso. A ideia de que é uma pessoa diferente vai acompanhá-lo para o resto da vida, isso o tornará um homem solitário e por vezes amargo. A ópera já está no segundo ato, ele nunca gostou muito de óperas, mas O Guarani provoca nele uma projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 82 03/09/2013 15:14:29 83 sensação que não sabe identificar. Certo desconforto, como se algo muito íntimo seu fosse exposto. André moldou sua personalidade para ser um homem sério e sóbrio. Fala com convicção, tem um aperto de mão firme e olha nos olhos de seus interlocutores, alguém em quem se pode confiar. Incomoda-o seu embaraço na plateia. A obra de Carlos Gomes parece ter a capacidade de conduzir André a sua ancestralidade, a um estado de preexistência. Há algo de bárbaro e selvagem nesta música ao qual André de alguma forma se sente conectado. André vê a si mesmo como numa tela crescendo em força e músculos contra o céu da sua infância. Agora pode se dizer que André é um homem, alguém recém-saído da meninice. Ele ainda não sabe a força que tem, mas possui uma expressão desafiadora. Todos os seus gestos estão comprometidos com o futuro e tudo o que ele faz ganha um caráter de missão. Como alguém que está morrendo, André é capaz de lembrarse de tudo: o rosto angustiado da mãe e a tristeza no rosto do pai, um intervalo no meio disso tudo; então eles sorriem. A resignação do avô e a intolerância da avó, a algazarra dos primos e dos irmãos. Araras riscam o céu da tarde, os ocasos encerram os dias e a infância de André. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 83 03/09/2013 15:14:29 84 André vai deixar para trás todas essas coisas: a mãe, o pai e o avô; os igarapés de água fria, as árvores e o canto das cigarras. Na verdade o lugar onde ele nasceu e cresceu é feio e desprezível, as pessoas são tristes e miseráveis, a vida é dura e difícil. No entanto, quando André se lembra daquele lugar é com saudade que ele lembra, e o que é feio e miserável lhe parece idílico e belo. André tenta se concentrar na ópera, não entende o que se passa no palco. Certa vez leu o romance de José de Alencar, mas isso foi há muito tempo e ele não lembra direito do enredo, sabe apenas que não gostou. Mesmo que lembrasse isso não faria diferença, a adaptação do romance para a ópera se tornou uma coisa diferente. Mentalmente André refaz todos os passos que fizeram com que este momento aqui neste teatro fosse possível. Na velocidade que o pensamento de um homem é capaz ele vê cada vez que disse sim ou disse não; cada vez que foi para a esquerda ou para a direita; cada vez que esperou ou decidiu ir em frente. Sabe que até mesmo as coisas mais insignificantes e idiotas que já fez na vida contribuíram de maneira decisiva para que ele agora estivesse sentado ao lado desta bela mulher, vestido num terno muito justo e bem cortado assistindo a esta ópera. Como se houvesse um imenso projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 84 03/09/2013 15:14:29 85 espelho à sua frente, ele vê a si mesmo e à mulher ao seu lado, seu rosto de homem vivido e experimentado que ele estranha como se não fosse seu. A mulher toca sua mão feliz de vê-lo comovido com a ópera. Ele olha para ela, mas não a vê; vê outra coisa. Vê todas as mulheres que ele um dia já amou; muitas das quais já não lembra o nome, nem a cor do cabelo ou cheiro da pele. Mulheres de uma noite, de um fim de semana, ou de um mês. Tudo o que restou é uma coisa difusa e incompreensível, essa ingratidão da memória. A soprano que interpreta Ceci faz André lembrar-se da mãe, ele sente uma espécie de remorso cada vez que pensa nela. As noites maldormidas para cuidar da frágil saúde do menino que ele foi. Imagina que expressão a mãe ia adquirir se usasse um desses vestidos que as mulheres ostentam na plateia, seu corpo marcado de sofrimento e tristeza comportado dentro de tanto luxo. Sua mãe que morou os últimos anos em Manaus, mas nunca entrou no Teatro Amazonas. O que ela acharia desta ópera? Seria capaz de se comover com algo que jamais entenderia? André por um momento se diverte com esse devaneio, mas a lembrança da mãe vem sempre carregada de uma antiga tristeza. Lembra-se quando ele, ainda estudante de direito, a viu pela última vez. A mãe forte e batalhadora, que projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 85 03/09/2013 15:14:29 86 criara os filhos sozinha, sem ajuda do marido alcoólatra, agora reduzida a um trapo humano num leito do Hospital Beneficente Português. A maior tristeza de André é que sua mãe nunca o tenha visto usando a toga de advogado. Do pai ele não gosta de lembrar-se. No dia da sua formatura ele estava lá, quando o abraçou seu hálito de cachaça rescendia. André lembra-se de quando veio do interior para Manaus pela primeira vez. Ficou impressionado com as ruas, os automóveis e os prédios em construção. Tantas pessoas diferentes em um só lugar. Muitas vezes, sozinho no quarto alugado, André sentiu saudades das tardes mansas de onde viera. Sua rede preguiçosa dava lugar a uma cama dura e mal cheirosa, ali passou noites inteiras estudando para o vestibular. Nunca vai esquecer a imensa alegria que sentiu ao entrar para Universidade Federal do Amazonas, cada vez que entrava na floresta do campus sentia-se vitorioso. Agora, no teatro, ele pode ver o quanto foi difícil o caminho que trilhou até aqui. Está no fim da ópera, no palco música e cantores convergem para uma apoteose. André sente-se tenso. Depois de certo tempo André adquiriu um cacoete, cada vez que está tenso ou ansioso ele esfrega o polegar na palma da outra mão onde ainda se pode projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 86 03/09/2013 15:14:29 87 perceber os leves sulcos deixados pela enxada e pela juta. André sabe que essas marcas jamais desaparecerão mesmo que ninguém mais possa vê-las. As cortinas se fecham. Aplausos irrompem. André afrouxa um pouco o laço da gravata. Ao sair do teatro a mulher o acompanha, parece feliz. André observa o céu de Manaus onde uma ou duas estrelas se insinuam na escuridão. Neste momento André recorda uma lembrança antiga que ele jamais esquecerá: o avô, no seu passo vacilante, aproxima-se lentamente do rádio de pilha, aumenta o volume e fica ouvindo, embevecido, a vinheta do noticiário. Inácio Oliveira nasceu no dia 13 de julho de 1989, na cidade de Óbidos – Pará. Escreve poemas, crônicas e contos. Seus textos foram selecionados para a Antologia Novos talentos da crônica contemporânea e Novos talentos da poesia contemporânea da Câmara do Jovem Escritor do Rio de Janeiro nos anos de 2006 e 2007. Entre outras antologias, foi selecionado pelo concurso anual do SESC no Amazonas para compor a antologia de contos no ano de 2008. É formado em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas e mora em Manaus desde o ano de 2007. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 87 03/09/2013 15:14:29 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 88 03/09/2013 15:14:29 89 História de um vaqueiro perto do amor João Pinto ESTA HISTÓRIA conta a minha ânsia de vaqueiro, doído de um amor inesperado; já que a mulher do desejo tinha fugido com outro homem talvez numa noite na cela de um cavalo azulão. Mas, hoje, o que conto a vocês é sobre esse amor, de uma noite, chovia quando me encontrava no quarto da filha do meu Padrim. O quarto dava vista ao carnaubal com a lagoa e ao redor o capim, uma maravilha de limpar a vista. De manhã ao nascer a vida ali, as garças, as curicas, os xexéus acordavam a gente ainda com os nossos favos cheios de sono. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 89 03/09/2013 15:14:30 90 Ao falar da Doquirinda, a dona do quarto, era uma mulher espetacular com os seus seios portentosos, pelos cabelos na cintura, o olho singelo nas duas cavas da vista e as coxas bem arrumadas. Doca era comentada por todo mundo, uma manchete espalhada de boca a boca que alguém tivesse lido num jornal e foi passando. Mas como sou analfabeto, deixarei o jornal sobre a mesa do patrão que só a ele pertence. Vou folhear as minhas páginas numa angústia, que até hoje não consigo esquecer. Houve um tempo que a carnaúba fez maravilha no mundo. Meu Padrim então aproveitou o momento para encher sua casa de pedreiros e carpinteiros e de uma hora para outra a casa ganhou mosaicos na varanda e os tacos pelos quartos. E era numa varanda dessas ao lado que muita gente ficava esparramado para escutar Luiz Gonzaga, numa vitrola nos discos de vinis. E, no centro dessa gente, ficava meu Padrim especulando a cera no mercado e por perto a filha, a moça de encantos primaveris na paisagem por todo o lado. Falava pouco e curtia sua vida com várias gaiolas cujos cantos assoviavam nas manhãs de domingo. A mãe morreu numa manhã de abril quando meu Padrim jamais pensava nessa tragédia. Mas a projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 90 03/09/2013 15:14:30 91 sementinha de olhos azuis sobreviveu ao parto. Cresceu com as vitaminas da cozinha e virou um espigão de beleza, bem definida; uma boa proposta para quem quisesse casar, mas aparecer uma fôrma ideal para ela que era o negócio. Por esses tempos meu Padrim deu uma grande festa para comemorar o bom momento da cera, o dinheiro andava fácil. E o caboco no carnaubal era disponível e mal pago. Cheio de andrajos a morar num barracão cheio de morcegos e vida cheia de quizília. Congregou os amigos, enviou convites, e sua casa ficou cheia das falas, a festa durou três dias. Passaram pela mão do açougueiro dois bois, muita comida e bebida, alguém trouxe a sanfona e o pandeiro, os casais dançavam dentro de um luar cheio de pinga e cigarro. O velho inaugurou um pau-de-sebo no meio do pátio e na ponta um lenço branco com o retrato da filha, o vitorioso que arrancasse o pano ganharia um par de bois e um beijo da filha A menina, criada entre cactos e as cascavéis, era o sertão mais atraente, que qualquer rapaz nas encostas sonhava deitar com ela para ser herdeiro de tudo. A fazenda era um canto da fartura. Foram tantos inscritos que o pai, num momento de inspiração, soltou entre as pessoas que quem projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 91 03/09/2013 15:14:30 92 arrancasse o retrato dela teria chance de noivar com a filha. Mas a filha descartou ao dizer em público: O pai é um brincalhão em cheio, diverte-se por qualquer coisa, daí ter feito o pau-de-sebo, mas não é ruim os pretendentes sonharem comigo. E brincou que se aparecesse um príncipe talvez a piada do pai tornasse coisa real. Naquele dia, a festa significava o maior divertimento da gente, a nossa poesia com muita comilança. E começa tudo. Subiu no pau-de-sebo um boçal chamado Zé Tranqueira, que tinha um bigode fino ocultado no canto da boca, vaias e assovios; subiu o Luiz do Vale, um bonitão que só existia no chapéu-de-couro, montado num cavalo achatado cujas patas tiravam faísca do chão, vaias; subiu também eu derretido de paixão pela dona da festa com meus 20 anos de suor e aboios, as vaias se duplicaram. Aí meu Padrim conclamava mais gente para subir no pau-de-sebo. Ainda há algum rapaz? E relanceava a vista entre a multidão. Nisso surgia um cavaleiro que ninguém dava uma peteca por ele, de jaqueta preta e calça colada. Nunca ninguém soube de onde esse sujeito era. Eu subo, disse o enigmático apalpando o pau. O Padrim consentiu, mas passou a fazer mal juízo dele, Parece um maricas, maricas só gosta mesmo é de trepar em pau. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 92 03/09/2013 15:14:30 93 O Padrim ria e entornava um copo na boca, mas o maricas parece que tinha nos pés cola arábica, colava os pés no pau liso, subia sem demonstração de queda, só olhava para o retrato, até o sanfoneiro deitou sua rabeca nas pernas e espiava com interesse, e logo mais houve aquela explosão de gritos e palmas no momento em que arrancava com valentia o pano branco. De repente Doquirinda viu-se amarrada à calça colada do maricas, era bater os olhos nela e ver a sujeita que capitulava à figura estranha daquele homem. Até os cascos do cavalo dele eram medonhos e pisavam o chão num rumor estrondoso quando tinha aparecido de repente ao lado do pau-de-sebo. O rosto do Padrim mudou de cor, as mãos suavam, gritou então, Traga o maricas e os bois. Foi quando o rapaz atravessou o pátio e foi ao alpendre, fez um gesto de respeito ao Padrim. Desse maricas saía um macho bem talhado que deixou Doquirinda num peixe flechado por sorte. Ele tomou as mãos dela emocionado e falou: Te beijar é muito pouco para mim. O pai logo se juntou à conversa, De onde você é, Não importa a minha origem, importa o meu desempenho na competição, Então tome uma pinga comigo, Pai, que modos são estes, recriminava a filha. Não posso, bebida me deixa esquentado, também projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 93 03/09/2013 15:14:30 94 mande levar os bois para o seu curral de volta pois dispenso eles. Logo ele se ajoelhou, tomou uma das mãos da garota e beijou, Posso falar um particular? Doquirinda saiu de um banco para uma parte do alpendre, assim a conversa nervosa: Topa deixar a tua família? A moça talvez se sentiu um curió perdido com a proposta. Tremia muito. Volto de madrugada e te levo, Acho arriscado, Quem não arrisca não petisca, Mas meu pai é homem de respeito na região, Mas chegou a hora da tua mudança. Essas foram algumas palavras que ouvia com tanta raiva. Daí pra frente foi o que se sucedeu, ele saltou no cavalo, e quando desapareceu da festa, a sua figura esguia e apertada das roupas virou o dilema do Padrim com toda controvérsia no ar. A chuva se derramava nas bicas, metia a chave na porta do quarto, grande escuridão na zona de conflito. E me lembrei da conversa que tinha tido com dona Chagas pela manhã, a empregada deles. Você gostava dela, vaqueiro? Eu sei, mas era um amor que nada de certeza poderia te dar por causa da tua condição. Via dona Chagas nesse momento devolver a chave do quarto à gaveta do armário na cozinha. Foi de lá que depois tirei. Mas dona Chagas ela fugiu, nem projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 94 03/09/2013 15:14:30 95 teve consideração com o meu Padrim, imagine com um vaqueiro que nem choupana tem para morar, Ah, isso é verdade, também não faz mal alimentar, pois no fundo quem não alimenta não pode ser poeta. De vez em quando os relâmpagos riscavam com pequenas luzernas que caíam e batiam no lençol da cama dela. Daí pra frente comecei a beijar tudo que havia pelo quarto. Numa ânsia desmedida. E ao fazer isso cavalgava com as patas do meu cavalo atrás da bezerra fujona. Tirei do guarda-roupa a rede dela, a varanda tocava pelo taco, deitei-me, que sol-a-sol macia, meus amigos. Logo mais estando ali, ouvi alguém empurrar a porta e entrar também no cenário. Fez-se um silêncio no alpendre da casa do vaqueiro e alguém perguntava: Quem era, vaqueiro, Não sei, Joca, mate a charada no final da história. Fiquei de orelhas em pé. A chuva retina nas telhas. Pulei da rede enquanto o invasor aproximava a mão aos objetos que havia tocado. Me salvei debaixo da cama; a respiração bem pouca e uma emoção dos diabos. Daí ouvi uma voz bem lamentosa. Esqueceram de fechar a porta, com certeza os dois estão brocos. Quem estaria broco, seria eu ou dona Chagas? Eu estava ali no quarto pela primeira vez, no dia seguinte iria deixar a casa do meu Padrim. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 95 03/09/2013 15:14:30 96 O sujeito puxou o tamborete da penteadeira, depois um ruído de pinga no copo; também fumava. Daí a pouco ele deu um soco na mesa, e começou a chorar. Essa ingrata nem teve coração, mas você amanhã vai saber da minha notícia, só então desconfiei que era o Padrim que havia se recolhido ao quarto pra prantear a sua desilusão. Cuidei dela desde os cueiros, lavei a bunda, coloquei talco entre as pernas por causa das assaduras. Depois da fuga da Doca a fazenda entrou em crise. Cada um chorava seu choro inesperado, mas o meu era por um amor quase impossível. O Padrim ia secando mais garrafas, tempos depois voltou da viagem fracassada. Saiu numa tarde num cavalo cilhado, todo um cavaleiro medieval das carnaúbas, um chapéu de palha, na cinta um revólver, logo atrás um capanga com as munições e as provisões da viagem, em busca do seu santo graal, dizia. Vou atrás da minha Doca. Frequentou as estalagens desertas; o paraíso das tentativas e cobriu-se de poeira e fome, perguntando sempre. Alguém viu essa moça? O retrato pendurado no pescoço, Não senhor, todos diziam, depois de vários meses voltou, como um pescador cuja tentativa do anzol nunca visgava o peixe. A barba cresceu; virou alcoólatra. O soluço aumentava com as batidas na mesa, o copo se enchia, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 96 03/09/2013 15:14:30 97 logo mais o espelho da penteadeira quebrou, vários socos na mesa novamente, levantou-se com dificuldade, talvez troncho, ou bambo, atravessou a porta e devolvia a porta ao trinco com violência. Lá fora a chuva batia, era ver o conjunto radiante de uma chuva. O vulto saía, pulei de volta à rede, na rede da Doca me encontrava casado, quem numa hora dessas não cria uma mulher com os peitos duros e o batom. Dormi por pouco tempo aos sobressaltos, teria sido o pai mesmo ao violar os objetos que tanto cobiçava. Há anos eu a imaginava só minha na tela árida do sertão com meus espinhos de vaqueiro. Grandes lágrimas me rolaram naquele momento, fechei os olhos, agora não queria estar perto da chuva mas dentro dela. Mais tarde acordei, o dia já clareava num céu que tinha se salvado com a chuva, foi quando ouvi um disparo de um rifle 44, que vinha de algum lugar da casa, em seguida vieram os gritos pela casa, pulei da rede e saí correndo pelo corredor. O que foi isso dona Chagas, perguntava à doméstica com igual veneno de espanto, Também não sei, ela me dizia, toda trêmula, a cara mais mofina do mundo, Então vamos atrás do Padrim lá para o quarto dele, É melhor a gente passar primeiro pelo quarto da Doca, Não, de lá já venho, Ah, então foi você quem tirou a chave da gaveta, Tirei projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 97 03/09/2013 15:14:30 98 mesmo e não me arrependo embora uma pessoa tenha entrado lá depois que entrei, E quem era, Não sei, agora pouco importa isso, Mas o que você fez foi feio, rapaz. Ó dona, deixa eu viver do meu jeito de homem que ama. João Pinto é piauiense. Migrou para o Amazonas, morou no interior do estado. Foi professor na rede estadual de ensino ao lecionar língua e literatura brasileira. Enquanto lecionava, escrevia seus três livros de contos: Luzes Esvaídas, O ditador da terra do sol e Contos de uma aula no vermelho, este aborda as mazelas da sala de aula. É casado com Elis Regina Rebelo e tem três filhos. Aposentado, nesse momento escreve seu primeiro romance O porão de Luzilândia, obra que destaca como tema principal o mal de Alzheimer. É formado pela Universidade Federal da Paraíba em Letras. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 98 03/09/2013 15:14:30 99 As atribulações de Jeremias Márcio Souza Aleluia, irmãos. Aleluia! Boa noite, meu nome é Jeremias, bispo Jeremias. Bem, ainda não sou bispo, mas chego lá. Em nome de Jesus. Qual a minha igreja? Olha, pessoal, esse é o problema. Eu quero muito pertencer a uma igreja. Quero mesmo. O problema é que as pessoas não me compreendem. Desde pequenininho que eu sonho em ser pastor, pregar a palavra do Senhor, converter as almas desgarradas, ter o meu rebanho, ser missionário... Ah! Como seria bom! Estudei a Bíblia inteirinha, li várias vezes, do começo ao fim. E este é o meu problema. As pessoas dizem que eu sei demais, que eu li demais, que tenho uma forma muito projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 99 03/09/2013 15:14:30 100 minha, muito pessoal, de ler as sagradas escrituras. Quando eu completei 18 anos, fui procurar o pastor que pregava ali na Praça da Saudade. Vocês sabem quem é? Aquele baixinho, narigudo, de óculos fundo de garrafa? Conhecem? Um bom homem temente a Deus, bom pai de família. Foi muito atencioso comigo, pelo menos no começo. Ele conhece muito a doutrina, e eu acabei me empolgando. Foi assim: abri aqui o livro e plaft, caiu no Gênesis, primeira página. É a coisa mais difícil cair na primeira página, mas foi como um sinal. Plaft, na primeira página. Ali, na minha cara, o Gênesis. O começo. Bem, achei que não podia ter outra maneira melhor de começar. O Gênesis é o primeiro dos cinco livros do Pentateuco, certo? Pentateuco! Sabem o que quer dizer? Quer dizer a “lei” ou “a lição”. Vejam só, traduzir o Pentateuco como “lei” ou “lição”, pode parecer certo, mas para mim a palavra “lei” tem um sentido completamente diferente da palavra “lição”. Não acham? Será que isso não quer dizer que os tradutores andaram se confundindo. Ficaram mais perdidos que a Dilma com as manifestações. Daí que eu andei pesquisando, fazendo meus estudos e cheguei à conclusão que a palavra tem duas partes, o Penta, que quer dizer cinco – Brasil pentacampeão –, e Teuco, que quer dizer “tacada”. Pentateuco quer dizer projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 100 03/09/2013 15:14:30 101 cinco tacadas, como a nossa seleção, poxa, ta na cara! Mas o pastor lá da Praça da Saudade discordou da minha tradução, e me mandou circular. Circulando, circulando – ele disse, em nome de Jesus, circulando. Eu ainda disse: seu pastor, me ouça, não é verdade que o Pentateuco foi escrito pelo Moisés? E então, será que Moisés não merecia um penta? Ainda mais que ele foi um escritor e tanto, capaz de contar a criação do mundo, quando ninguém tinha nascido, nem a costela de Adão existia, passando pelo nascimento dele no Egito, e todo o roteiro que ele escreveu pro Cecil B. De Mille fazer aquele filme, “Os 10 Mandamentos”. O Moisés era um escritor diferente mesmo, pois também descreve a própria morte e o próprio enterro. É, o próprio enterro, o velório e o escambau. Mas vou logo dizendo que o Moisés não foi o único autor que continuou escrevendo depois de morto. Tem aí a Janet Clair, por exemplo, só pra citar uma que nem era profeta. Se o Moisés não merece o título de pentacampeão, então quem merece? O certo é que o Pentateuco conta tudinho desde a criação até o fim da gestão do Moisés na governança de Israel. Todo mundo sabe que os dois primeiros capítulos do Gênesis falam da criação do universo em seis dias, depois dos quais Deus descansou. Bem, se ele era o todo poderoso, cansou de quê? projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 101 03/09/2013 15:14:30 102 Cansou mesmo? Ou tirou um dia pra umas cervejinhas e uma balada? É, porque sendo todo poderoso, não dá pra entender como pôde se cansar. Mas o caso é que esse descanso já deu muito rolo. A gente que é cristão acha que o sétimo dia cai num domingo, já os judeus dizem que foi num sábado. Para evitar confusão inventaram o fim de semana. Bem, eu ficava dizendo essas coisas ao pastor lá da Praça da Saudade e ele me respondia: por que você não procura outro pastor? Por que eu, em nome de Jesus? Ele era realmente um sujeito muito gozado. E que senso de humor. Ele até se sentou num banco e ficou mordendo a capa de couro da Bíblia dele, quando eu comecei a analisar dia a dia a criação. Tá escrito que Deus levou seis dias. Seis dias! Tem político que leva bem menos tempo para se dar bem. No primeiro dia ele criou o céu e a terra, dividiu a noite do dia. Daí vem aquela história de que antes as coisas estavam informes, ou seja, antes dele criar alguma coisa, já tinha coisa lá. É o que um vizinho meu ateu chamou de paradoxo, antes de levar uma porrada minha. O cabra teve a audácia de me dizer que era que nem a história da galinha e do ovo: o que tinha vindo primeiro? Não merecia levar uma porrada? Bem, deixa pra lá. No segundo dia, Deus fez o firmamento, onde colocou o sol, a lua, as estrelas e os pássaros. Daí veio projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 102 03/09/2013 15:14:30 103 os outros dias, cada dia com suas coisas sendo criadas. E eu pergunto, pô, se ele era Deus, se era o bambambã e tudo o mais, por que levou seis dias? Convenhamos, é um bocado de tempo para um Deus. Por que não estalou os dedos e zaz, a coisa tava criada, não é mesmo? Estalava os dedos e pronto. E a gente hoje só trabalhava na segunda-feira. Realmente não dá pra entender. Olha, minha gente, o pastor já tinha roído quase toda a capa de couro da Bíblia dele, e eu fiquei preocupado, quis saber se ele estava com fome, ofereci um cachorro-quente. Mas ele só fazia gemer, gemer, coitado. Eu ali, sem saber o que fazer, quando ele deu um pulo em cima de mim, parecia ter no couro uns cinco capetas, e agarrou o meu pescoço. E gritava: eu vou acabar com a tua raça, seu filho de uma puta. É, o homem tinha esse dom, sabia das coisas. Como tinha adivinhado que a minha mãe era puta? Fiquei embatucado e com a garganta irritada uma semana. Pô, gente, ninguém sabia disso. Eu nem sou daqui, nasci no Maranhão, mamãe era puta no Maranhão, não tinha contado pra ninguém aqui e ele me joga na cara que sou filho de uma puta! Olha, fiquei arrasado. Sim, mamãe era puta, mas era mais honesta do que toda a família Sarney, que passa o tempo todo enrabando os maranhenses e ninguém reclama. É, isso mesmo! Mas eu projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 103 03/09/2013 15:14:30 104 não desisti, peguei a minha Bíblia e fui procurar Jesus. Andei, andei, quase fui atropelado porque a porra dessa cidade não tem calçada. Perdão, Jesus! Daí eu vi uma igrejinha bem pequenininha, bem ali na terceira etapa da Cidade Nova, naquela invasão que tem o nome da mãe de um político daqui, que dizem que era puta, também. Sabem onde é? Ali, logo ali, você pega o expresso no terminal da Constantino Nery, fica umas duas horas com os nego cafungando no teu cangote e na terceira parada depois da locadora de vídeo Deus é Fiel, tá a igrejinha, linda linda. Missão Evangélica Quadrangular Redonda de Jesus. É assim que está escrito. Entrei e o pastor tava cobrando o dízimo, dei o meu último dinheiro, uns vinte centavos, e o homem me olhou com dois olhos assim de quem tinha visto o anjo Gabriel fazendo o que não devia. Mas eu não liguei. Sentei num banco bem do fundo e esperei a coisa acabar. Era umas dez da noite quando o pastor foi fechar a porta do templo e me viu ali sentado. O que aconteceu, meu filho? Ele quis saber. Nada, eu disse. Tá tudo bem, meu pastor. É que meu sonho é ser pastor como o senhor. Acho que ele me reconheceu, lembrou dos vinte centavos e disse: cai fora, em nome de Jesus. Um instante, por favor. É que estava lendo a Bíblia no ônibus, antes de chegar aqui, e fiquei muito projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 104 03/09/2013 15:14:30 105 preocupado com a situação de Adão e Eva. O quê! Ele berrou. Adão e Eva! Adão e Eva! O que tem Adão e Eva? Se eles fossem depender de gente como você, de gente de vinte centavos, teriam morrido de fome. Não é isso, eu disse, é que sendo eles os nossos primeiros pais e nós os seus descendentes, a coisa já começou mal, o senhor não concorda? Concordar? Meus amigos, aquele homem tinha um pulmão. Uma voz. Quando abria a boca parecia ter um caixa de som entalada na goela. Eu só faltava me borrar todo, tinha de me controlar. O senhor sabe, acho que o Adão e a Eva formavam uma família meio esquisita. Se vivessem hoje seria um escândalo, (falando baixo) se aquilo não era incesto! Faz sentido, não faz? Mas não para aquele pastor. O bicho me respondia aos gritos. Só que eu não sou de esmorecer: eles são produtos de um lar desfeito, que cresceram sem a presença maternal para compensar a forte presença paterna. É, e que pai. Na primeira desobediência botou os dois para fora de casa. Até parece o meu avô, que deu um pontapé na bunda da minha mãe quando descobriu que ela dava pra toda a vizinhança. Adão e Eva não eram exatamente irmãos, mas tinham uma tremenda intimidade, não é mesmo? O certo é que quando Eva apareceu, os problemas de pai Adão começaram. Eva ficava no pé dele para que projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 105 03/09/2013 15:14:30 106 trocasse a folha de parreira todos os dias, reclamava que ele passava muito tempo dando nome aos animais. Um dia Eva reclamou que Adão já não amava ela como antes, e que ela estava se sentindo sufocada, necessitando um espaço só para ela, e coisa e tal. E olha que eles ainda nem tinham comido da fruta proibida. Aliás, falando da fruta proibida, Deus deu ordens a Adão e Eva que não comessem os frutos da tal árvore do bem e do mal, ou eles morreriam. Vejam só que péssima psicologia. Será que ele não sabia que proibir alguma coisa para uma criança é tornar aquela coisa irresistível? Vocês vão concordar comigo que tem aí uma daquelas boas armadilhas teológicas, não tem? Aqui Deus é quase sempre chamado de Deus Pai. Não seria melhor chamar de Deus, o Criador? Afinal ele não era exatamente um pai no sentido biológico do termo, pois não fazia como aqueles deuses do Olimpo grego, como Zeus, que não podia ver rabo de saia que já saia azarando. Tá bem... tem aquele caso com a Virgem Maria. Mas não creio que se possa dizer que aquilo teve a ver com sexo. Afinal, a definição de sexo é aquela que diz que se trata de um ato consensual entre adultos, em que ambos percebem o que está acontecendo e lembram-se depois. Acho que se alguém perguntasse pra Maria como ela engravidou – aliás, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 106 03/09/2013 15:14:30 107 pergunta que o José deve ter feito um monte de vezes – vai ver que ela responderia que Jeová não era exatamente um amante no bom sentido terreno, já que ela só se deu conta do acontecido quando o anjo anunciou o feito. Eis o nosso Deus, onisciente, onipotente e ausente. Pois bem, eu tava falando esses leves comentários à margem do Gênesis, quando eu sinto um troço desabar na minha cabeça. Era o pastor querendo fazer a minha cabeça ficar quadrangular, tascando um pedaço do tabernáculo na minha cuca. Fiquei meio zonzo e desabei. Acordei na cadeia com um cara me sacudindo e dizendo: aleluia, irmão, abre os olhos para Jesus. Márcio Souza nasceu em Manaus, em 1946. Aos 14 anos, começou escrevendo críticas de cinema para um jornal local, e em 1965 foi estudar Ciências Sociais na USP. Seu primeiro romance, Galvez, imperador do Acre, foi um enorme sucesso de crítica e de vendas. Outros romances, ensaios e textos teatrais foram lançados com o mesmo impacto. É também roteirista e diretor de cinema, dramaturgo e diretor de teatro e de ópera. Atualmente, dirige o Teatro Experimental do SESC - AM (TESC-AM), grupo teatral pioneiro na luta pela preservação da Amazônia. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 107 03/09/2013 15:14:30 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 108 03/09/2013 15:14:30 109 Mana Manaus Maria Elisa Souto Bessa Era uma vez uma linda cidade no meio da maior floresta do planeta, cortada por pontes e igarapés de águas cristalinas. Homens e mulheres elegantes desfilavam em suas ruas limpas e arborizadas. Crianças brincavam soltas, tranquilamente, com a vizinhança. Meninos empinavam papagaio, jogavam pião, andavam de bicicleta sem medo de serem atropelados. Meninas arrumavam suas casinhas de boneca na entrada da casa de portas abertas, sem riscos de serem sequestradas. Todos se divertiam pulando corda e amarelinha, que na época se dizia “pular macaca”. A vida era como um longo rio tranquilo. Aos domingos, os “banhos” projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 109 03/09/2013 15:14:30 110 públicos eram o divertimento das famílias. Saíam de casa, de mala e cuia: peixe, farinha, gelo, bebidas, pratos, copos e colheres, redes etc. Passava-se o dia inteiro brincando dentro d’água, comendo peixe assado na brasa, jogando bola, subindo em árvores, saltando dos galhos, colhendo frutos das árvores: buriti, açaí, ingá, maracujá do mato, jatobá, sorva etc. Aproveitava-se das límpidas águas e do sol até desaparecer o último raio de luz sobre a mata cerrada que iluminava o caminho de volta. Quando não iam aos banhos, iam ao “cinema das 4” (matinê) ou aos domingos de manhã à “matinal das 9”. À noite os jovens, moças e rapazes organizavam as chamadas “brincadeiras” - pequenos bailes em casas de família - para ouvir música e dançar ao som da eletrola, com discos de vinil. As pessoas moravam no centro da cidade, até porque os poucos bairros que existiam eram praticamente no centro. Havia uma linha do bonde, cujos trilhos atravessavam as ruas de paralelepípedos, hoje escondidos sob camadas de asfalto. Ao cair da tarde era comum se ver as pessoas sentadas em cadeiras de balanço nas calçadas das casas, conversando com amigos e familiares até a hora do jantar. E nas noites de lua cheia, as rodas de violão projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 110 03/09/2013 15:14:30 111 entravam pela madrugada adentro, principalmente nos fins de semana. E quando os rapazes queriam conquistar uma pretendente, faziam serenatas sob a janela do seu quarto, no meio da noite, com o risco de receberem água ou algo menos inodoro, enviado pelos pais das moças. Assim era Manaus nas décadas de 1950/60. Quando a família de Edvaldo se mudou para o bairro novo ele tinha oito anos de idade. Gerardo, seu irmão, já ia fazer sete. A casa ficava em um conjunto residencial que tinha acabado de ser construído. O bairro era deserto e poeirento, isolado do resto do mundo. Não havia televisão, nem telefone, nem mesmo luz elétrica. A casa era iluminada por uma espécie de motor de luz que funcionava das 7 às 9 da noite. Depois, só lampiões, velas ou lamparinas a querosene. Com esse tipo de iluminação não se podia ler muito, então as crianças se divertiam com jogos de luz e sombra. Com as mãos, faziam formas de animais que se projetavam na parede. Às vezes escutavam música no rádio a pilha. Às vezes, quando tinha mais gente, principalmente meninas, brincavam de roda, corre-corre macuchila, caí no poço, esconde-esconde e outras brincadeiras coletivas. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 111 03/09/2013 15:14:30 112 Como as noites eram frescas, apesar do clima tropical, os pais costumavam acender fogueiras no quintal, que serviam tanto para se aquecer quanto para clarear o ambiente. Às vezes contavam-se histórias de assombração ao redor da fogueira... A cada história as crianças iam chegando mais perto dos pais... E fechavam os olhos e se assustavam com as sombras das árvores e o com o piar da coruja. Ninguém tinha coragem de se levantar dali nem pra fazer xixi. Mesmo morrendo de medo, pediam pra contar outra e mais outra e mais outra... Conclusão: na hora de dormir, iam todos para a cama da mamãe! Durante o dia, o único barulho que se ouvia era o do ônibus de madeira, pintado com cores extravagantes, que circulava no bairro a cada duas horas. A casa ficava quase no ponto final da linha, que sem dúvida, era também o ponto final do mundo! O bonde não chegava até lá. Havia poucas casas habitadas no conjunto. Mas como eram famílias numerosas tinha criança de tudo que era idade. As outras casas permaneciam vazias e sem chaves, à disposição da meninada que brincava de esconde-esconde e outras brincadeiras, em noite de lua cheia. Além do conjunto em que moravam viamse apenas alguns casebres, espalhados, quilômetros de projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 112 03/09/2013 15:14:30 113 distância entre um e outro. Para quem estava acostumado a viver no centro da cidade, o lugar parecia mágico! Um silêncio absoluto reinava naquela espécie de vale sem montanhas, interrompido, ora pelo canto de toda espécie de pássaros, ora por concertos, em duas vozes, de sapos e cigarras, à boca da noite. À noite, o pisca-pisca dos vaga-lumes iluminava os caminhos secretos que os levavam a lugar nenhum. Fazia quase frio de madrugada. Os meninos pareciam felizes, vestidos em seus pijamas de mangas compridas, especialmente confeccionados para serem usados na casa nova. Antes eles moravam num casarão antigo que alugavam no centro histórico da cidade. Lá havia pelo menos uma dezena de cômodos: quartos, banheiros, copa e cozinha, sala de jantar e um imenso corredor onde se passeava de bicicleta. No final do corredor, depois da copa, ficava o terraço (onde o pai tocava bandolim, todos os dias, ao cair da tarde). No fundo havia um enorme quintal, cheio de árvores frutíferas, entre elas uma mangueira centenária. A casa nova, ao contrário, era pequena, com apenas três quartos, uma sala, cozinha, banheiro e um pequeno hall de entrada. No entanto, havia bastante terreno ao redor e todo o resto do bairro. A rua pertencia a eles, como uma extensão da casa. E do outro projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 113 03/09/2013 15:14:30 114 lado da estrada de poeira era a floresta, mata virgem e misteriosa: o paraíso proibido ao alcance das mãos. Hoje é um bairro movimentado, barulhento e poluído, e as crianças não brincam mais nas ruas. Os piões, os papagaios e as bicicletas foram substituídos por i-pads, i-pods e videogames. Não há mais calçadas para as cadeiras de balanço, que se contentam em embalar por detrás das grades de ferro e portões a cadeado. O centro da cidade está entregue aos camelôs e vendedores ambulantes, onde a comilança corre solta sem as mínimas condições de higiene. Às 8h30 da manhã, subindo a Avenida Eduardo Ribeiro, um pipoqueiro mija descaradamente no muro do Teatro Amazonas, patrimônio arquitetônico e cultural-mor da cidade. Homens e mulheres, não tão elegantes como antigamente, caminham apressadamente pelas ruas desviando de “lanches” fincados nas estreitas calçadas descalças e dos incontáveis automóveis estacionados dos dois lados das ruas. Camelôs desenrolam suas barracas amarradas em grandes plásticos imundos, ironicamente azuis e vermelhos, quando as cores ainda permanecem visíveis. Manaus amanhece com seu mormaço de 30° à sombra, quando tem. As árvores foram trocadas por projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 114 03/09/2013 15:14:30 115 ar condicionado, asfaltos e estacionamentos. Os límpidos igarapés se transformaram em depósito de lixo e esgotos a céu aberto, pedaços de isopor, sofás e geladeiras e, predominantemente, uma infinidade de garrafas plásticas, um verdadeiro igaraPET. Assim é a Manaus século XXI. Mana Manaus, agora você rima com caos. Maria Elisa Souto Bessa, amazonense desde os seis meses de idade, nasceu, por acaso, em São Luis do Maranhão. Fez bacharelado em Administração na Universidade Federal do Amazonas, licenciatura e Mestrado em Linguística na Universidade de Toulouse (França) e Doutorado em Literatura na Universidade de Grenoble (França). Lecionou língua e literatura francesa na graduação e literatura brasileira no Mestrado em Letras da Universidade Federal do Amazonas. Atualmente dedica-se à produção literária e às artes visuais (cinema, vídeo, animação), tendo assinado roteiro e direção de doze curtas-metragens, em vídeo. Vencedora do I Concurso Livro de Graça na Praça Manaus. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 115 03/09/2013 15:14:30 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 116 03/09/2013 15:14:30 117 Manaus Moderna em três tempos Neuton Correa Domingo, após deixar o 422, para repetir o que faço desde que cheguei à capital (pegar encomenda no barco e receber gente querida), flagrei-me filosofando sobre o tempo. Imaginava que o tempo era coisa da cabeça do homem. Ocorreu-me isso depois que passei a observar cenas, cenários e personagens que habitam a Manaus Moderna. Nada diferente do que vi no dia 16 de novembro de 1989, quando a Manaus Moderna ainda era a Manaus Antiga. Antes de seguir a narração, convém um parêntese para um registro histórico. A Manaus Moderna chamava-se Porto da Escadaria dos Remédios. Por ali, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 117 03/09/2013 15:14:31 118 desde o século 19, também desembarcou parte da riqueza explorada da floresta e do povo da região para ostentar o luxo dos senhores e senhoras da borracha. Pois bem, naquele dia, não havia entrado em nenhum portal do tempo nem mesmo imaginado coisas, mas o passado ainda permanecia presente: um homem, de cócoras, banqueteava-se ao lado de uma lixeira de cheiro insuportável para muitos. Do outro lado da montanha das sobras da feira, uma mulher de cabelos brancos, com uma criança de vestido encardido, catava cebola, tomate e repolho para colocar em um carrinho de mão. Na beira do rio, oito homens, velhos e jovens que discutiam entre si, colocavam lenha em uma fogueira que cobria com suas labaredas uma panela de pressão mais preta do que o Negro do rio que passava a dois metros deles. Enquanto aguardavam a comida, revezavam-se na boca de uma garrafa de aguardente. Um pouco mais distante, sentado, um homem tomava banho nas águas grossas de lixo jogado pelos barcos que atracam naquele porto. Ele escondeu as intimidades até onde pôde, mas, ao deixar o rio, teve que exibir a nudez para vestir a mesma roupa que tirou antes de entrar na banheira. Assim que penteou os cabelos, pegou as muletas e foi-se juntar projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 118 03/09/2013 15:14:31 119 ao bando de bêbados que cercava a panela e a garrafa de Corote. Tentei ouvir o que os “orelhas secas” (assim eles são conhecidos) discutiam, mas entre eles e mim, que estava no parapeito de uma das escadarias enferrujadas, um caminhão atolado na lama do esgoto roncava alto. O motorista tentou de tudo, mas desistiu. Bom para os carregadores contratados para substituir com tração humana o que os motores fariam com pouco esforço. O atoleiro do caminhão também foi bom para um rapaz que se peava com mochila, cintos e colete cheios de bolsos e uma câmera fotográfica como um canhão apontado para os homens que, lentamente, escalavam as rampas íngremes carregados de sacas e mais sacas de macaxeira. O fotógrafo mirou e clicou de todo jeito e ainda pediu um sorriso dos carregadores, que riam, mas talvez da atitude do retratista. O navio motor Novo Aliança (em que vinham minha irmã, minha farinha baguda e alguns amigos), previsto para atracar às 9h, já estava atrasado e, quando eu estava para perder a paciência, uma moradora do porto sai debaixo de uma tenda de papelão, gritando com alguém que acabara de lhe importunar: “Sai daqui, animal, tu quer é pegar HIV!” projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 119 03/09/2013 15:14:31 120 Antes de receber a embarcação, que já estava aportando, por reflexo, olhei para as ruínas da arquitetura inglesa do mercado Adolpho Lisboa e vi o nome de uma loja que poderia ser a definição do lugar: “Casa fim do mundo”. *** Da estação de ônibus da Matriz, no Centro, já se podia observar o navio atracado no cais. Não dava para vê-lo inteiramente, mas, pelos botes salva-vidas pendurados a boreste e mastros com duas bandeiras estrangeiras que ultrapassavam o telhado dos armazéns do Porto de Manaus, podia-se concluir que um novo grupo de visitantes havia acabado de desembarcar na cidade. Tive a certeza da presença estrangeira, assim que o 422 parou em frente à estação hidroviária. Os turistas ainda desciam a rampa que dá acesso ao setor de embarque e desembarque. Eram jovens falantes, de olhos espichados, tomando os ônibus que os aguardavam no estacionamento, e gente de pele avermelhada, senhores e senhoras de cabelos brancos, que ficaram ali mesmo pelo Centro. Naquela manhã de domingo, havia ido ao porto para esperar meus pais, que também desembarcariam projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 120 03/09/2013 15:14:31 121 ali, não do Cruzeiro, mas do Novo Aliança, que vinha de Parintins cheio da caboclada. O problema é que o Anel de Noiva, que geralmente chega às 9h, já estava atrasado uma hora. Então, resolvi fazer dos turistas minha atração. De longe, passei a segui-los, curioso para captar de seus olhares e gestos a impressão que tinham da cidade. Não adiantaria chegar mais perto: primeiro, poderia incomodar os visitantes; depois, não entenderia nada, mal arranho o português. Aliás, ainda tentei captar o idioma com o qual se expressavam, no entanto quase nada eles falavam. O que se ouvia mesmo era o tradutor, que mais balançava os braços do que falava. Por causa disso, pude perceber a distância as coisas que ele mostrava. A igreja de Nossa Senhora da Conceição, por exemplo, foi a primeira atração apresentada. De lá, o tradutor conduziu o grupo de velhinhos branquelos para o prédio da Alfândega e depois para o Relógio Municipal da Eduardo Ribeiro. Da posição em que eu estava, seria possível notar o brilho dos olhos verdes e azuis, porém não consegui notar neles nenhuma expressão de encanto. Pareciam pedras de gelo se movendo intactos sob o calor dos trópicos. A frieza dos visitantes aumentou em mim a projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 121 03/09/2013 15:14:31 122 vontade de poder ouvi-los. Por alguns instantes, até imaginei que o coração deles estivesse nas máquinas fotográficas que carregavam no pescoço, já que o clique que faziam era a única coisa que deles brilhava. Pensando nisso, desisti de segui-los. Eu fui rumo à Manaus Moderna à espera do Novo Aliança e eles subiram a Eduardo Ribeiro. Supus que estivessem a caminho do Teatro Amazonas. Afinal, vir a Manaus e não conhecer o prédio símbolo da exploração do leite dos caboclos e arigós do tempo da borracha é a mesma coisa que ir a Roma e não acenar para o papa. Mas eu estava enganado. Descobri isso quase uma hora depois, quando estava à beira do rio Negro, sugando a terceira latinha ao lado de uma caixa de isopor. Não fui eu quem notou a presença dos turistas por ali. Foi a dona da venda, uma senhora com parcos dentes, que cobria a cabeça com uma touca rubro-negra, com um urubu bordado à frente, que me cutucou: – O que essa velha vem fazer aqui? Olhei para trás e vi a cena que já tinha visto antes. Ela estava apontando para uma mulher fina como uma tala de papagaio, com a coluna ondulada como costas de camelo, que caminhava curvada para o chão e chutando a perna direita. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 122 03/09/2013 15:14:31 123 Em seguida, quando o tradutor olhou para as ruínas do mercado Adolpho Lisboa e começou a falar, a vendedora de água e cerveja começou a traduziu para mim a conversa: – Ele está dizendo que o mercado foi destruído pelo prefeito que passou e que o atual não tá nem aí. Por isso, esse prédio, construído pelos parentes de vocês (dos ingleses), está se acabando. Ri da imaginação da tradutora e pedi mais uma lata d’água. *** Para captar melhor o cenário, tentei anotar quadro a quadro, mas, no mesmo instante, ouvi que importunava os moradores do lugar: “O que é, filho da puta? Nunca viu?”. Virei para trás e localizei o protesto: era uma mulher que vestia um sutiã vermelho, esgarçado, sentada ao lado de uma fogueira que assava duas matrinxãs. Assim que fiquei de frente para ela, levantei as mãos e as baixei colocando a caderneta no bolso de trás da bermuda e a caneta, na gola da camiseta, pedindolhe desculpas. Entendia que a boca da ponte que engole carros, caminhões e gente de todo tipo é também o mundo para um grupo de pessoas que mora ali. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 123 03/09/2013 15:14:31 124 Ela não foi a única a reclamar. Notei isso quando outro morador, que dormia sobre caixas de isopor, despertou-se com os gritos da mulher. Ainda deitado, ele olhou sonolento para mim; rolou; e, debaixo da cabeça, tirou um embrulho que lhe servia de travesseiro; e, de lá, puxou uma garrafa PET, ajoelhou-se contra o paredão da ponte, arriou o cós dianteiro da bermuda e, depois de algum tempo, enroscou a tampa da garrafa, embrulhou o travesseiro novamente, afofou-o e o agasalhou sob sua cabeça. Mas nem tudo era hostilidade, ainda mais na banca de venda de doses de cachaça, a dez metros de onde a mulher berrava. Lá, quase fui recebido com festa. Ganhei até o olhar faceiro de uma morena vaidosa que enfeitava os braços com pulseiras de miçangas coloridas. Não sei se a recepção foi porque pedi um gole de cinquenta centavos ou porque todos ali já estavam embalados. Talvez nem uma coisa nem outra. Talvez todo mundo seja bem tratado por ali. Quem sabe não foi esse tratamento que fez o Francisco de Assis da Silva, 62, trocar a vida de uma casa, o calor da mulher e dos filhos, pela umidade debaixo da ponte. “Eu era casado e tinha sete filhos: um morreu e os outros seis me abandonaram”, contou-me Francisco, depois de me queixar uma dose. O Francisco contava projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 124 03/09/2013 15:14:31 125 sua história como se há muito estivesse esperando alguém para falar de sua biografia. Deves, agora, estar duvidando que eu não tenha perguntado nada, mas é verdade: não perguntei nada a ele. Nem anotei. Mas ainda hoje lembro-me de que o Francisco nasceu no dia 12 de agosto de 1948, no Município de Tefé. Veio para Manaus, quando tinha 12 anos. Aqui casou e formou duas famílias, incluindo a da ponte. Voltou a Tefé nas eleições de 2002, mas só para votar: “Fui votar no Lula. Hoje ele não precisa mais do meu voto”. Enquanto conversava com o Francisco, apareceu outro morador da ponte. Também queria uma dose, porém achei que ele não suportaria nem cheiro de aguardente. O bêbado desistiu e o Francisco não perdeu oportunidade. Relatou-me que sua vida foi marcada por um acidente quando trabalhava como marinheiro regional: “A proa bateu no meu peito. É por isso que tenho o peito aberto”. Quando ele ia me contar o que aconteceu, outro morador dali apareceu. Era um homem de óculos de grau, vestindo uma camisa vermelha e usando chapéu de palha. Chamei-o de “Jonas Boca de Ouro”. A dentadura dele era toda assim: cheia de ouro. Também não lhe perguntei nada, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 125 03/09/2013 15:14:31 126 mas logo ele disse: “Eu vendo peixe aqui na ‘Boca da Onça’”. – Boca da Onça? Esse é o nome deste lugar? – perguntei. – É, aqui é a Boca da Onça e não me pergunte o porquê. Nessa hora, minha mulher, que retornava da Feira da Manaus Moderna, puxou-me pelo braço e disse: “Vamos, senão tu não vai conseguir subir no ônibus”. E assim aconteceu. Neuton Correa – jornalista, natural de Parintins, tem dois livros de publicados: Entrelinhas e A poesia do Homem Cavalo. Sua matéria-prima é a cidade de Manaus. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 126 03/09/2013 15:14:31 127 Cruzeta é cruzeta, em Manaus e em Portugal Pedro Lucas Lindoso Mano Velho é um caboclo manauara daqueles que se ufana da nossa cidade sorriso. E olha que é razoavelmente bem viajado. Morou uns tempos no Rio de Janeiro. De tanto falar em nossa terra foi apelidado de “Manaus”. Conhece a Isla Margarita e outras do Caribe, como muitos por aqui. Claro, Mano Velho já foi também a Miami. Mas é categórico. Não troca nenhuma dessas cidades por sua querida Manaus. A grande novidade é que Mano Velho foi exercer sua pavulagem viajando para Portugal. E apaixonou-se por Lisboa. De hoje em diante Portugal é seu destino projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 127 03/09/2013 15:14:31 128 de eleição! Filho e neto de portugueses, encantou-se com a terrinha. Principalmente com as diferenças do Português de Manaus com o falado em Lisboa. Tudo para Mano Velho lembrava seus falecidos pais e avós. Pegou o voo TAP PORTUGAL em Fortaleza. Em pleno Atlântico, ao começar as turbulências, uma jovem portuguesa comenta: Isso vai abanar! Sussurrou para Manazinha, sua esposa, Viu? o avião abana e não balança. Mantenham os cintos apertados. Para aterrar e descolagem, endireitar as cadeiras do avião. No Brasil coloca-se na posição vertical. E a tripulação chama a aeronave gostosamente de avião. No aeroporto, após aterrar em Lisboa, pegou seu casaco na bagageira. Depois da Imigração sua maleta encontrava-se num dos tapetes do aeroporto. Porque esteira aqui é para usar na praia. Ainda no aeroporto, Mano Velho e Manazinha tomaram um sumo de laranja, com palhinhas,os canudinhos em Portugal. Fim de tarde. Hora de ponta em Lisboa. Chamase o taxista na paragem de táxi. Mais adiante o motorista dá aquela freada. Desculpem-me senhores, mas tive que usar o travão. Manazinha pergunta o que é travão. E Mano Velho lembrou-se de seu tio Quincas, que só usava travão, ao invés de freio. Para ele trem era comboio, trilho era carris, crianças eram os miúdos, que projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 128 03/09/2013 15:14:31 129 gostavam de chupa-chupa, que em Manaus é pirulito. Fogo é lume! E meias eram peúgas! Mano Velho aprendera com seu pai que existem bebidas espirituosas e bebidas alcoólicas. Estas, que no Brasil chamamos de fermentadas, são proibidas para menores de 16 anos. E aquelas, as destiladas, para 18 anos. E ainda, whisky 8 anos é whisky novo e o de 12 em diante, whisky velho. Os portugueses são maravilhosos. Não se volta de Lisboa sem conhecer o castelo de São Jorge. Como dizem os jovens portugueses, o castelo é um giro. Very nice, para os gringos.O pastel de Belém é um dos doces mais famosos de Portugal, também conhecido como pastel de nata. Mano Velho aproveitou. Comeu tantos que lembrou-se de sua tia Joaquina; que dizia: Fartei-me de comê-los! O Mosteiro dos Jerônimos, em estilo manuelino, é testemunho monumental da riqueza dos descobrimentos. Nesse dia, chovia a cântaros. Mesmo ensopados, visitaram a Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos. Valeu a pena. Ao final do dia Mano Velho tomou um delicioso caldo verde e vinho português do Douro, que ninguém aqui é parvo, ou leso, como diz o manauara. No dia seguinte atravessaram a ponte 25 de Abril para ver a estátua do Cristo Rei. Sem querer fazer projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 129 03/09/2013 15:14:31 130 afirmações de ânimo leve ou seja, levianas, Mano Velho acha que os portugueses fizeram o Cristo Rei com inveja do nosso Cristo do Corcovado. Ora pois pois, ficou um sítio muito giro. Na visita, Manazinha recebeu uma ligação de Manaus em seu telemóvel. Ficou espavorida, mas graças a Deus estava tudo bem por aqui. Visitar os mirantes de Santa Luzia, Nossa Senhora dos Montes e Portas do Sol e ver as colinas de Lisboa por esses miradouros, como dizem, é muito giro! No final do dia Mano Velho foi conhecer o Parque Eduardo VII, o maior do centro de Lisboa, em homenagem ao rei Inglês. Havia uma tripla de gajos suspeitos. E lembrou-se de que onde há turistas há carteiristas. Mano Velho foi advertido a ter cuidado com os carteiristas, mas roubo por esticão eram raros. Graças a Deus. Fazia calor. Manazinha e Mano Velho saborearam um delicioso gelado de ananás, porque sorvete de abacaxi só tem na sorveteria Glacial de Manaus. Ah! Vir a Lisboa sem uma noite de fado na Alfama seria um falhanço. Manazinha comprou um par de sapatos de tacão, vestido novo e pintou as unhas com verniz vermelho. Estava linda. Mano velho pensou; Quando estiver reformado, quer dizer aposentado, vai morar uns tempos em Lisboa. E Manazinha vai ter que aprender a demolhar o bacalhau! projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 130 03/09/2013 15:14:31 131 E foram parar na Alfama. Apreciar um fado vadio, jantar e tomar um bom vinho do Douro enquanto o fado ecoa. Quando a fadista cantou “Mouraria”, Mano Velho lembrou-se de seu velho pai e chorou. Manazinha disse que ia contar aos miúdos em Manaus. Ah é? Vais fazer coscuvilhice, porque fofoca é coisa de brasileiro. Cardápio em Portugal chama-se Ementa. Manazinha escolheu Sopa alentejana como entrada e Mano Velho sugeriu Bacalhau à Zé do Pipo como prato principal. Mano Velho foi advertido a não pedir farinha nem pimenta murupi, pois bacalhau não é pirarucu. A sobremesa escolhida foi ovos moles d’Aveiro. Como estava tudo uma delícia, Manazinha quis ter as receitas. Mas não foi possível obtê-las pois eram segredos da casa. Foram também a Sintra, e lá Manazinha viu um lindo vaso de samambaia, que na terrinha se chama fetus. Mas desistiu de comprá-las. Não iria correr o risco de fintar a alfândega e pagar multas no Brasil. De volta ao hotel, Manazinha precisou de mais uma cruzeta. No Rio de Janeiro e em São Paulo todos chamam cruzeta de cabide. Manazinha lembrou-se de uma amiga em Brasília que se riu ao ouvi-la pedir uma cruzeta. Como será que os portugueses chamam cruzeta? Mano Velho foi enfático: Cruzeta é cruzeta em Manaus e em Portugal. Ora, pois, pois. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 131 03/09/2013 15:14:31 132 P.S. Mano Velho não sabe como, mas Manazinha retornou para Manaus com as três receitas da Ementa da Casa de Fados de Lisboa. Vejamos: Sopa alentejana (açorda) Ingredientes 1 molho de Coentros 2 dentes de Alho 4 Ovos Pão alentejano ou de 2ª, duro Água e sal 2 colheres de sopa de vinagre. Preparação Ponha ao lume cerca de litro e meio de água com sal. Descasque os alhos, corte o pé e lave rapidamente os coentros, que perdem aroma com lavagens demoradas, meta alhos e coentros no almofariz com um pouco de sal grosso e esmague até ficar uma pasta. Se quiser despachar o assunto, faça-o no copo com a varinha, aqui sem o sal, e com um pouco de água para ajudar. Quando a água da panela ferver, apague o lume e deite na panela os coentros e os alhos moídos. Deixe projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 132 03/09/2013 15:14:31 133 infundir. Entretanto, ponha numa panelinha à parte água com sal e o vinagre, com uma altura de cerca de três dedos e deixe ferver. Apague o lume e deposite nesta água, com todo o cuidado, os ovos previamente abertos para uma chávena de café, um a um. Tape e deixe ficar assim. Corte o pão em pedaços, em falha, de modo a que todos os pedaços tenham côdea e miolo, para dentro de uma terrina, tendo em atenção que vão aumentar de volume. O pão não deve ultrapassar a meia altura da terrina. Regue com um fio de azeite virgem. Despeje a água onde infundiu os coentros, bem quente sobre o pão e deixe ensopar, ajudando com uma colher de pau, se necessário. Verifique o estado dos ovos que devem estar com a clara totalmente cozida e dura, mas a gema ainda mole, cremosa. Tire-os e disponha-os sobre o pão. Sirva logo. Bacalhau à Zé do Pipo Ingredientes: 1 lombo de bacalhau 2 cebolas médias 1 litro de leite 4 colheres de sopa de azeite projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 133 03/09/2013 15:14:31 134 1 folha de louro sal e pimenta q.b. 1 tigela de maionese (feita com 2 gemas e 4 dl de azeite) 750 grs de batatas em puré azeitonas pretas Preparação Depois de bem demolhado, corta-se o bacalhau em postas. Leva-se a cozer com leite. Entretanto, picam-se as cebolas e levam-se a estalar com o azeite, o louro, sal e pimenta e um pouco de leite de cozer o bacalhau. A cebola deve ficar branca e macia e nunca loura. Depois de cozido, escorre-se o bacalhau e coloca-se num recipiente de barro ou, o que é preferível, cada posta num recipiente de barro individual. Deita-se a cebola sobre as postas de bacalhau, que depois se cobrem completamente com a maionese. Contorna-se com o puré de batata passado pela seringa ou saco e leva-se a gratinar. Enfeita-se com azeitonas pretas. Receita de uma célebre casa de pasto que existiu no Porto a cujo proprietário davam o nome de Zé do Pipo. Embora levando maionese, esta receita faz parte da culinária tradicional do Porto. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 134 03/09/2013 15:14:31 135 Ovos moles d’Aveiro Ingredientes 500 g de açúcar; 30 gemas de ovos; 300 ml de água. Preparação Levar o açúcar ao lume com 300 ml de água. Deixar ferver, sem mexer, por mais ou menos um quarto de hora (contar o tempo assim que começar a ferver), até dar ponto de cabelo (ponto de cabelo é quando escorrem fios finos e estaladiços da colher). Tirar do lume e deixar esfriar. Separar as gemas das claras e rebentar as gemas com uma faca, NÃO SE DEVE BATER. Juntar as gemas na calda de açúcar. Levar ao lume até obter a consistência desejada. Não se deve mexer em círculos, mas sim em movimento de vai-e-vem e de um lado para o outro. Se desejar, no final pode-se juntar um pouco de canela. Pedro Lucas Lindoso é amazonense, advogado e licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Em 2008 recebeu o Prêmio Literário Cidade de Manaus. Em 2009, Prata da Casa PETROBRAS, com premiação em conto e poesia. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 135 03/09/2013 15:14:31 136 Contemplado com a Bolsa Literária FUNARTE, publicou, em 2012, o romance Oremos pela Guerra – Manaus de Chopin e Mussolini. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 136 03/09/2013 15:14:31 137 O barulho do mormaço Priscila Lira Tu não sabe o que é conviver com o Diabo a vida inteira, conviver com o Diabo a vida inteira é duvidar de Deus a cada segundo. O Diabo, quando te odeia, te prende e algema tudo ao teu redor: tua mãe, que ama o Diabo, e teus irmãos. É assim que ele consegue te fazer ficar. Lama, lama e lama tinha gosto a minha vida. Nasci na lama, feito um porco. Burra que era a minha mãe (de ter uma ninhada, de ter olhos de bicho que não enxerga xyz, que não sabe o que é o Diabo, que não sabe nem o que é a loucura de viver na lama com uma ninhada e o Diabo), burra que era eu, menos que a minha mãe, burros e esfomeados que eram meus projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 137 03/09/2013 15:14:32 138 irmãos, burro que era o Diabo, burro e cruel, burro e tarado, burro e nojento. Porca que eu sou, porque convivi na lama com o Diabo a vida inteira. (T3 – Cidade Nova: – Eu acho lindo tatuagem, até tenho vontade de fazer uma, um símbolo do infinito nas costas. Mas minha mãe disse que vai arrancar meu couro se eu fizer isso. Coloca o Bonde das Maravilhas pra tocar aí no teu celular. Ai, elas são demais. Já vi o vídeo umas cinquenta vezes. Viu que elas vêm pra cá no fim de semana? Vai a galera do bairro, já avisei pra mamãe que eu vou. Ela disse que queria me ver fazendo o quadradinho de oito, falei que eu faço é redondinho.) Quando era criança e, na catequese, me ensinaram o que era o Diabo, logo vi que ele estava na minha casa, escondendo comida, me comendo, quebrando garrafa, quebrando a burra da minha mãe, esbugalhando de medo os olhos esfomeados dos meus irmãos. Quando o Diabo vive contigo, ele nunca mais sai de ti. (Tribunal do povo I – Avenida Paraíba: – Odeio quem descumpre a lei. A lei está aí para ser cumprida, sabe? As regras foram feitas por isso. Pra que descumprir?) Eu corria para a esquina e tentava fugir do Diabo. Subia na mangueira e gritava o nome do meu pai, mas só ouvia o barulho do sol quebrando as folhas. Porque projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 138 03/09/2013 15:14:32 139 meu pai morava com Deus, ele nunca me responderia, a gente trocou ele pelo Diabo. Eu gritava o nome do meu pai, gritava que ele tinha me abandonado e me deixado na lama, no inferno, ele não respondia, estava feliz, no céu, com Deus, sem fome, dormindo nas nuvens e decepcionado com a gente, que dormia com o Diabo. (Universidade do Estado do Amazonas – Cachoeirinha: – Eu quero casar. Um dia desses fui ver preço de apartamento e, meu Deus, que absurdo. Se eu quiser morar em um lugar daqueles, não vou ter como pagar sozinha.) Meu pai não respondia, mas meu estômago gritava, meus irmãos choravam na minha lembrança e eu, pequena e burra, presa na lama, lesma inútil, voltava para o inferno. Se tu pensa que o Diabo sempre maltrata, tu é mais burro que eu. O Diabo engana, te abraça, te dá pão e café com leite, corre contigo no quintal, depois te come, te bate, te joga no chão e quebra garrafa. O Diabo toma banho, passa perfume, vai na igreja, reza o pai nosso, aperta a mão dos irmãos, conta histórias inventadas da vida, diz que ama, diz que cuida, depois te fode, te todos os lados, de todos os jeitos, de todas as formas. Fode, fode, fode. É nojento o Diabo, feito de barro por dentro e por fora, com projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 139 03/09/2013 15:14:32 140 cheiro de fossa e pele de pedra. Eu via o desgraçado passar perfume, mas aquilo, no meu nariz, era essência de esgoto, cheiro de raiva guardada, que rasgava meu olfato feito gilete, chegava na goela e dava ânsia. Barro e enxofre formavam aquele monstro com a Bíblia debaixo do braço apertando a mão da vizinha burra, que me olhava de cara feia e dizia pros filhos não andarem comigo, que eu era indecente. (Casa: – Filha, lembra daquela tua amiga maluquinha da sétima série? Virou puta, teve um filho e foi assassinada. Vi num desses programas sensacionalistas do meio-dia.) Indecente eu era na minha rua, na minha escola, a indecente, burra, estranha, muda, feia, suja preta fedida, mas não era surda. O Diabo me chafurdou na lama, eu era toda lama, assim ele fez da minha vida um inferno, até longe do inferno, porque suja de lama que não tinha água que limpasse, o Diabo fez de mim o Diabo. Ninguém tinha medo de mim Diabo, tinha ódio, nojo, eu não era bem-vinda no céu da vida dos outros, nem por meu pai, Deus o tenha. (T3 – Cidade Nova: – No meu aniversário de quinze anos eu quero uma festa bem bonita, com quinze cavalheiros pra dançar comigo e dois vestidos. Ficou sabendo que o Tiaguinho foi preso ontem? É, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 140 03/09/2013 15:14:32 141 foi por causa daquela história lá de que ele matou o João por causa da Safadinha da Baixada. Só esse ano já morreram dois lá da rua, né? Daqui a pouco vai ser o Daniel. Acho que amanhã vou visitar o Tiaguinho, até mudei meu nome do bate-papo em homenagem a ele: Pistoleira_14.) Por isso fugia e me escondia, até a fome bater, no escuro empoeirado da sala de livros da escola, porque lá ninguém sentia meu cheiro, nem via minha cara diaba, lá eu não ouvia me gritarem de muda. Foi lá que tive a ideia de matar o Diabo, mal eu sabia que uma vez na tua vida, nunca mais ele sai. (Entrevista I – Redenção: – Quando eu casei achei que fosse ser só empregada dele, né? Lavar roupa, fazer comida, arrumar a casa. Nem sabia dessas coisas, quando a gente deitou pra dormir é que eu me assustei. Pedi na hora pra voltar pra casa, mas depois fui acostumando.) Mas o Diabo tinha a herança do céu, do tempo que Deus o criou do barro. O Diabo gostava de doce, de suspiro. Todo dia comprava suspiro na padaria. E ficava feliz, sorridente, comendo suspiro. Dava café com leite e pão pra mim e meus irmãos, corria com a gente no quintal, mas aquilo era a porta do inferno, a gente sabia e aproveitava, não havia como correr da projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 141 03/09/2013 15:14:32 142 porta do inferno, só nos restava aproveitar o prelúdio da desgraça. A gente não tinha raiva do anúncio que o suspiro trazia da padaria nas mãos do Diabo, porque sabíamos que o suspiro era o que restava do paraíso naquele enxofre de homem. Uma vez o Diabo me obrigou a fazer uma receita de suspiros, porque a padaria não abriu. Eu coloquei purgante no suspiro para me vingar, e depois o Diabo se vingou de mim, em mim, na minha mãe e nos meus irmãos. Nesse dia eu corri do inferno e no dia seguinte, na sala de livros, decidi matar o Diabo. Não seria uma morte cruel, como as que eu fantasiava para ele todos os dias, porque eu não queria ver ele morrer, eu queria o Diabo morto! (Na rua – Redenção: – Moça, eu estou perdido. Não falo português bem, tem 15 dias que estou no Brasil, vim sozinho. Onde fica a bica? Não! Não é essa bica! É outra, que fica perto da minha casa. Não sei o nome da rua, tem 15 dias que eu cheguei. Não lembro o caminho, me ajuda mocinha. Faz três horas que eu saí pra comprar carne de porco e não achei mais minha casa, tava feliz que ia fritar carne de porco e agora não acho minha casa. É, eu tenho que ir no médico, ia ontem, mas esqueci. Vim sozinho pra cá, minha mulher me deixou, aquela vagabunda, não quis mais cuidar projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 142 03/09/2013 15:14:32 143 de mim. Subir na moto? Quanto vai custar até a bica? Ainda bem, dois reais é o que eu tenho no bolso. Obrigada, mocinha. Qual o seu nome? Não quer casar comigo? Eu preciso de uma mulher pra cuidar de mim.) Eu, a indecente, suja, nojenta, rasgada, roxa, muda, lesma inútil, não queria voltar para casa depois do terror da noite inferno passada. Não queria ver a cara de paraíso dos outros. Queria morrer, mas se morresse, iria para o inferno eterno e nunca mais veria meu pai. Por isso resolvi matar o Diabo, assim teria tempo de pagar meus pecados e finalmente dormir nas nuvens. (Entrevista II – Redenção: – Seu rg, cpf e Comprovante de Residência, por favor. – Tá aqui... Mocinha, posso te fazer uma pergunta? A tua menstruação dura quantos dias mais ou menos? Uma semana é normal? É que eu tô namorando um rapaz bem mais novinho que eu, sabe. Ele quer fazer sexo toda hora e disse que se isso demorar muito ele vai me largar. Será que eu posso tomar algum remédio? Se eu trabalho? Avulso. Se tem luz na minha casa? Gato, que o moço da Manaus Energia ficou com pena de cortar quando eu atrasei os pagamentos.) Escureceu, ninguém deu por minha falta, voltei para casa e o Diabo dormia virado de costas para a projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 143 03/09/2013 15:14:32 144 burra da minha mãe. Matando o Diabo, eu fugia, e ela podia ser burra e feliz com a ninhada de infelizes longe daquele inferno, enquanto eu pagaria os pecados e depois encontraria meu pai. Uma faca de cozinha no peito, ele arregalou os olhos e me agarrou o braço. Foi virando água e me largando len... ta... men ...t... ... ... e. Roubei o saco de pão na cozinha (mais um pecado para pagar nessa vida desgraçada), corri e subi na mangueira da esquina, a esperar que o inferno final se armasse lá em casa com gritos e polícia. Silêncio. (Na rua – Cidade Nova: – Oi, princesa! Já te disse que um dia largo o mundo do crime e caso contigo? Me arranja uns trocados, preciso resolver umas broncas, tô meio encrencado. Valeu, princesa!) O que eu não sabia é que a vida é um formigueiro de infernos e que o Diabo me perseguiria, agarrado no meu braço com os olhos assustados, para sempre. Fugi, mas a fome, a rua, a chuva, o sol, o frio, me transformaram no Diabo e eu não conseguia terminar de pagar meus pecados. Jamais chegaria no céu, meu pai se esqueceria de mim ou rezaria para que a Diaba que ele um dia chamou de filha, nunca mais aparecesse na sua frente. O mundo me fodia, fodia, fodia, de todos os jeitos, todos os lados, todas as formas, cuspia em mim, na porca, nojenta, fedida, burra, Diaba. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 144 03/09/2013 15:14:32 145 Numa noite, sem dormir, com medo do Monstro que matei, percebi que inferno maior que esse não havia, que o inferno estava na minha cabeça e de lá não sairia sozinho. (Tribunal do povo II – Avenida Paraíba: – Se eu encontrasse com esse estuprador na rua, acabava com ele, tenho ódio de estuprador. Só não dou um soco na cara dele agora porque sou jurada.) Por isso deixei que um homem sorridente me fodesse pela última vez, por um saco de suspiros. O que eu farei depois? O que devia ter feito desde o ínicio, mas burra que sou, não percebia: Abrir a minha cabeça com a faca ainda suja de sangue do Diabo, tirar aquele ninho de enxofre lá de dentro e encher o vazio com suspiros. Os suspiros, resto de céu que sempre esteve na minha vida, me levarão até meu pai, com quem dormirei nas nuvens, a esperar o dia em que minha burra mãe e a ninhada façam o mesmo. O formigueiro continuará aqui embaixo, misturado aos sangues da faca. (Em casa – Cidade Nova: – Filha, acorda. – Hoje vai ter greve de ônibus, mãe, não vou trabalhar. Me deixa dormir mais um pouquinho.) projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 145 03/09/2013 15:14:32 146 Priscila Lira tem 22 anos, vive em Manaus e é licenciada em letras pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Não tem livros de papel, mas publica em blogs que apaga com certa frequência (o atual é sonambuloesquilo.blogspot.com) e lançou um e-book recentemente, chamado Manual de Feitiçaria (basta buscar no Google), também escreveu para o site escritorassuicidas.com.br. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 146 03/09/2013 15:14:32 147 Réquiem Tenório Telles Não consigo te esquecer, Cachorrinho. Tuas correrias na rua, mordendo os outros cães numa alegria inocente. Não suspeitavas dos perigos que rondavam tua vida flutuante. Viver é arriscado para todos os seres. Para os passarinhos, as plantas, os humanos... E também para os cachorros. A ingenuidade com que brincavas era cativante. Habitavas aquela rua – teu território e lugar de convívio com os outros bichos. Como cão deserdado, aquele pedaço da cidade era a tua casa. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 147 03/09/2013 15:14:32 148 Passavas o dia fazendo estripulias. Mal amanhecia, saías para a rotina da sobrevivência. Ias à caça na feira da Manaus Moderna. Retornavas habitualmente ao passeio da casa de dona Isabel. Naquele dia vi tua sombra em movimento. Era final de tarde. A noite se misturava às águas do rio Negro. Corrias para a calçada onde descansavas. Ouvia teus latidos, a algazarra que fazias com os outros cachorros. Naquele dia a sorte fechou a porta. Um barulho de vidro partido – vida e morte colidiram. Um latido cortou o ar. Da porta, vi que estavas no chão. Ouvi o alarme de dona Isabel: – Meu Deus, o Cachorrinho... Os vizinhos surgiram das janelas. Dona Isabel puxou-lhe o corpo para a calçada. Um lampejo de vida animava teu coração, enquanto travavas uma luta surda com a morte. Uma tristeza sem nome escureceu meus olhos ao vê-lo ferido. Chorei ao perceber que estava tudo perdido para ti. Que tudo chegara ao fim. Que em silêncio partias deste mundo. Tudo vale tão pouco. Quem se importa com a vida de um cão sem dono? projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 148 03/09/2013 15:14:32 149 A noite inundou a rua. Dona Isabel retomou seus afazeres. Os outros cachorros procuraram no parque próximo um lugar seguro. A noite foi sem algazarra. Sentiam a morte do companheiro. *** A vida de todos ficou diminuída com teu destino. O motorista não reduziu a velocidade. Tinha pressa. Ao passar por mim, olhei seu rosto e vi que era jovem... Acenei-lhe: “O que fizeste?”. Seguiu. Meu Deus, o que foi feito dele? Que estranhos sentimentos habitam seu coração enlodaçado? Jamais me esquecerei de seus olhos – duas poças transbordantes de indiferença. Sua expressão denunciava algo terrível. Levantou as mãos do volante, como se dissesse: “Era apenas um cachorro!”. Seguiu em sua máquina de morte. Como se uma parte de mim tivesse se perdido, fiquei um bom tempo pensando em ti. Imaginei tua história, como vieste ao mundo. A casa em que nasceste, tua mãe, teus irmãos. Ser flutuante, as águas te levaram. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 149 03/09/2013 15:14:32 150 Pra onde? Tua existência – pequeno lampejo – nas águas negras do rio – que se fez noite. Tenório Telles nasceu na localidade de São Tomé (rio Purus), no Amazonas. É licenciado em Letras (1989), pela Universidade Federal do Amazonas, onde também bacharelou-se em Direito, em 1996. Primeiros fragmentos, seu livro de estréia, foi publicado em 1988. Desde 1997, dedica-se ao trabalho com o livro, como editor e livreiro. Em 26 de outubro de 2001 tomou posse na Academia Amazonense de Letras. Cronista militante, é autor de diversas obras: Estudos de Literatura Brasileira e Amazonense (ensaio) – 1995; O Amazonas em Sua Literatura (CD-ROM) – 1996; Antologia do conto do Amazonas (em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger) – 2003; Poesia e poetas do Amazonas (em parceria com o professor Marcos Frederico Krüger) – 2003; O Anjo cético e o sentimento do mundo – 2003; Introdução à literatura brasileira – 2003; Estudos de literatura do Amazonas – 2004; A Derrota do Mito – 2003; Viver – 2011; Canção da esperança & outros poemas – 2011. Foi durante 16 anos coordenador editorial da Valer Editora. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 150 03/09/2013 15:14:32 151 Marieta Thiago de Mello Quero agora contar a história de um dolorido fracasso: pela primeira vez nesta viagem, e acho que pela primeira vez na minha vida, não consegui me comunicar com uma criança. Ela se chama Marieta, tem 9 anos, é filha da Zilda da farinha. Veio a bordo a mando da mãe, buscar um remédio que eu prometera para a irmãzinha de 4 anos, que há muitos dias arde de febres noturnas e se desmancha em diarreia, já obrou sangue três vezes. Eu vi a meninazinha deitada no chão em cima de uns panos encardidos: um fio de gente. Zilda Isidório vem cuidando da filhinha com chás e infusões de ervas, sem resultado. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 151 03/09/2013 15:14:32 152 Quando Marieta chegou ao barco, magrinha e suja, o vestido que um dia foi estampado de flores, sentou-se na ponta de um banco do tombadilho e ali ficou, silenciosa, sem falar com ninguém, no meio da caboclada que invade o barco em todo lugar que a gente chega, menino que não acaba mais. O barco já para largar, perguntei quem ali viera para apanhar um remédio. Ninguém respondeu. Perguntei quem conhecia dona Zilda, que morava ali pertinho, estava trabalhando na casa de farinha. Uma cabocla respondeu que conhecia e que ali estava a filha dela – e me apontou Marieta. Marieta era um animalzinho ferido, olhando para o chão. Fiz no banco um espaço a seu lado e ali me sentei, o remédio na mão. Marieta não se moveu. Senti meu coração bater mais forte. Decidi não lhe falar imediatamente. Fiquei olhando o barranco vermelho, escarpado, uns vinte metros íngremes, a terra faiscando no sol. Então lhe falei, bem devagarinho, meu rosto pertinho do dela. Aqui está o remédio, maninha, o remédio para a tua irmã, como é mesmo o nome dela? Marieta não se moveu, não disse nada, Marieta nem me olhou. Continuou de cabeça baixa, o seu pezinho esquerdo alisava a madeira do assoalho. Estás projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 152 03/09/2013 15:14:32 153 me ouvindo, Marieta? Marieta não levantou a cabeça, então eu fiz silêncio, havia umas oito ou dez pessoas ao redor, junto à casa de máquinas do barco. Passei o braço em torno dos seus ombros, sentilhe os ossos tristes da omoplata, acariciei os seus cabelos castanhos queimados. Ela continuou imóvel, silenciosa, como se seu corpo fosse feito de pedra e amargura. Constrangido, levantei o olhar para a outra margem do rio, lá longe uns três quilômetros. É forte e doce no meio da manhã o vento que corre no centro do Solimões. Nuvens alvíssimas e baixas passeiam pelo céu. De repente me lembro de minha filha Isabella, nascida no Chile no tempo de Allende e que hoje mora no Rio de Janeiro. Nítida, na lembrança, a figura de minha filha alegre, desenvolta, conversadora, e mais uma vez aprendo que o ser humano é um ser social, resultante da estrutura da sociedade que o formou. Levantei-me, disse vamos, tomei Marieta pela mão, desci a prancha estendida entre o barco e o barranco e caminhei com ela, de mãos dadas, o sol ardendo sobre nossas cabeças, para a choupana de sua mãe. Subimos o barranco, eu de vez em quando dizia alguma coisa, tu já almoçaste, maninha?, queres viajar comigo no barco?, Marieta não me respondia. Não falava, mas subitamente senti que ela de algum modo projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 153 03/09/2013 15:14:32 154 se comunicava comigo, através de sua mão na minha, que ela começou a apertar com a força dos seus dedinhos magros. Chegamos. Entreguei o remédio, recomendei que se fervesse a água para a criança beber, para ela e para todo mundo: na falta de filtro, era ferver a água. No ar impregnado pelo perfume da farinha fresca, Teresa e Zilda recolhiam a farinha do forno, havia muito mais crianças do que de manhã cedinho. Me despedi, ouvi gritos do barco me chamando. Procurei por Marieta, queria abraçá-la de despedida, perguntei por ela, Marieta sumira. Voltei para o barco. Sozinho. Na hora de desatracar, fui para a amurada do tombadilho superior. O barco começava a se afastar da terra, quando, de repente, vejo, sentada num degrau da escada cavada no bar ranco, a silenciosa e miúda figura de Marieta. Estava a uns dez metros da beirada. Então gritei o seu nome, adeus Marieta, adeus maninha. Pela primeira vez, e lá de longe, Marieta me olhou, Marieta me olhou bem nos meus olhos, eu tornei a gritar – adeus Marieta, tu és muito linda, maninha! – e Marieta então sorriu, era um sorriso, sim, o sorriso mais dolorido que já vi na minha vida. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 154 03/09/2013 15:14:33 155 Thiago de Mello – amazonense de Barreirinha, é remanescente de um grupo que marcou profundamente a literatura brasileira, a chamada “Geração de 45”. Com mais de duas dezenas de livros publicados, sua obra foi traduzida para vários idiomas. Entre seus poemas mais conhecidos, destaca-se “Estatutos do Homem”, um hino de amor à liberdade, contra o regime militar. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 155 03/09/2013 15:14:33 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 156 03/09/2013 15:14:33 157 Maria Marieta Vera do Val Quem atravessasse lá pelos lados de Alagados deparava com um espetáculo invulgar. Naquela casa esverdeada de chuva, bem ali no entroncamento da rua, se podia ver a velha Maria debruçada na janela. Maria Marieta era o nome dela; quem sabe nome dobrado trouxesse consigo a sina de toda aquela esperança que Maria Marieta quedava no olhar. Aparatada de noiva, trazendo véu e grinalda, entra dia e sai dia, chuva ou sol, claro ou escuro, da janela Maria não arreda. Diziam os mais antigos que tinha sido bonita, moça prendada e faceira, mas quem via não acreditava. Não que fosse sisuda, isso não era não. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 157 03/09/2013 15:14:33 158 Mas gorda não se podia negar. Maria se esparramava como pudim desandado, tremelicando as carnes, um sorriso plantado na boca, a pele já fenecida, cabeleira desbotada aparecendo por baixo dos véus encardidos e as florinhas da grinalda espetadas na cabeça já estavam cheias de titica das andorinhas dos beirais. Mas Maria não percebia, se achava ainda faceira como nos antigamente, quando rodava pela casa, soluçando amor quebranto, costurando o vestido e esperando os esponsais. O noivo, moço viçoso, era o Joaquim da farmácia, isso todo mundo sabia. Mas Joaquim mudou de ideia e escafedeu no mundo sem dizer o porquê. Maria Marieta continuou urdindo o sonho que esta história de sumiço não lhe entrava na cabeça e ela não podia aceitar. Um dia engalanou a casa, o vestido estava pronto, a saia toda rodada, o buquê carregado de fitas e assim toda vestida ela foi pra janela e debruçou-se a esperar. Toda a vizinhança sabia que noivo ela não tinha mais e causava estranhamento todo aquele preparativo. Veio o vento, veio a chuva, veio o tempo que não perdoa, veio verão, primavera, mas o inverno instalou-se e os olhos de Maria grudados no fim da rua que dali viria o noivo e mais dia menos dia ele havia de chegar. Entra ano e sai ano o povo cochichava pelos cantos que Maria Marieta, projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 158 03/09/2013 15:14:33 159 coitadinha, endoidou, que de noivo ninguém tinha notícia. Ela ficou famosa, vinha gente das redondezas para espiar aquele espanto. Para todos ela acenava e sorria e o visitante ficava na dúvida se ria ou se chorava. Um dia, logo no comecinho das chuvas, oh surpresa! Ela desceu da janela andando com dificuldade, toda aquela gordura empoleirada em sapato de salto fino, a cauda do vestido se arrastando pelo chão enlameado e despencou rua afora. A meninada da vila logo se juntou atrás aos gritos. Maria Marieta caminhava ereta, despercebida do mundo, um sorriso de delícias, ia ela e seu cortejo estalando ao sol no rumo da igreja. O padre, quando foi avisado que Maria Marieta vinha chegando esbaforiu e não teve tempo de nada, que a noiva já apontava na esquina. Sem palavras ela entrou pela nave central sorrindo para um lado e outro como se ali estivesse todo o aparato de casamento. Quando chegou ao altar, o padre, assombrado, já estava lá. Maria ajoelhou estremecendo, suada e descabelada naquele vestido de noiva, botando a alma pela boca, mas trazendo nas faces um rubor radiante. Por um momento o tempo parou, passarinho emudeceu, o sino que repicava calou-se expectante. Quem sabe o nome dobrado trouxesse consigo a sina de toda aquela esperança que Maria Marieta trazia àquele altar. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 159 03/09/2013 15:14:33 160 Então Maria Marieta ergueu os olhos para os santos e com um suspiro fundo e sentido tombou de lado. O padre mal teve tempo de lhe dar a Extrema Unção. Vera do Val é paulista radicada em Manaus. Ganhadora de vários prêmios nacionais, (inclusive um Jabuti, por Histórias do rio Negro, e dois selos de Altamente Recomendável, dados pelo MEC), tem 13 livros publicados, a maioria deles infantojuvenil. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 160 03/09/2013 15:14:33 161 A raposa e as uvas Zemaria Pinto O velho senador chega pontualmente à mansão da velha1 cafetina, sendo recebido com a pompa e a circunstância que a casa reserva aos notáveis. O senador fizera história em Manaus mais pelos seus clandestinos amores escandalosos2 do que propriamente pela sua ação, digamos, parlamentar. O seu currículo, digno de um velho fauno das fábulas de antanho, relacionava, sem escrúpulos sexuais excludentes, desde 1 Releva, leitor/a; trata-se de uma fábula sobre a velhice. 2 Clandestinos até se tornarem escandalosos, claro. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 161 03/09/2013 15:14:33 162 viçosos garotinhos até respeitáveis e engelhadas matronas, passando pelas candidatas a miss, as próprias, e toda sua parentalha horizontal e vertical.3 Naquela tarde, o senador parece mais descontraído que de costume, exibindo magnânimo sua formidável dentadura fundida em platina da África do Sul, com um pequeno e reluzente detalhe em ouro de Roraima incrustado na resina canadense. Impossível não se deixar seduzir por aquele simpático tio-avô. A um sinal de madame, as meninas começam a descer a larga escada de mármore, uma a uma, numa coreografia harmoniosa, como num conto de Sherazade, enchendo a sala de exóticos aromas e sabores.4 Diante de tanta formosura, o senador semelha um menino num parque de diversões aberto só para si. Ali estão alguns belos exemplares de alguns de seus brinquedos favoritos. Usando uma metáfora do reino animal, o senador estava mais para um ser imaginário de Borges, misto de boto, urubu e veado, que para raposa. 3 A metáfora óbvia é algo belo, cheiroso e gostoso de comer: tâmaras, por exemplo. Mas eu nunca vi uma tâmara na vida. Digamos então que as meninas formam um singular cacho de tenras uvas. 4 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 162 03/09/2013 15:14:33 163 A distinta senhora faz espoucar5 a garrafa do vinho espumante que logo é servido aos convivas – incluídos os discretos acompanhantes do senador, dois apolíneos rapazes louros, seus seguranças, talvez. O movimento no salão de festas da decadente mansão assemelha-se a um discreto carnaval veneziano, com suas enigmáticas máscaras. O senador despe-se do blazer azul-marinho e entrega-o a um dos rapazes. As meninas, oito no total, uma para cada década de vida do velho cacique, disputam-lhe a atenção. Sempre sorrindo, ele arregaça as mangas da camisa de linho, dobrando-as com cuidado, e abre dois botões abaixo do colarinho, deixando entrever um tufo de brancos pelos6, que em nada combinam com os ralos fios castanho-avermelhados que lhe borram a pronunciada calva. Novo espoucar (!), mais espumante a todos. O senador recusa polidamente, preferindo o malte escocês envelhecido por dezoito anos, idade que a mais velha das meninas só completará em algumas dezenas de meses. O concerto de Vivaldi que servia apenas de contraponto às gargalhadas é substituído pela voz tonitruante Essa variante só deve ser usada quando relacionada diretamente à onomatopéia: pou! 5 6 Pêlos, leitor/a. Ai, que saudades do trema e do acento diferencial! projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 163 03/09/2013 15:14:33 164 de Vicente Celestino, ribombando pelo vasto salão. As meninas gracejam – não entendem o porquê da chiadeira que a tecnologia a laser não conseguiu eliminar. O senador ensaia alguns passos de dança, ora com uma ora com outra, mas elas não encontram o tempo certo das senatoriais e bailarinas pernas. Ele então toma nos braços a elegante dama senhora do lugar e os dois rodopiam por um bom par de minutos ao som de “Ontem, ao luar”. Ao final, todos aplaudem a performance do senador, que mantém arreganhado o seu sorriso marfinoso7, numa demonstração explícita de impudente felicidade. Chico Alves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, revezam-se na crepuscular trilha sonora. Levados pela anfitriã, os jovens jônios (ou seriam helenos?) passam a um outro cômodo da casa. O garçom deixa o litro de uísque, ainda muito acima da metade, em local bem visível, juntamente com um balde farto de gelo, feito de Perrier, uma exigência de sua excelência, que se recusa a por na boca água de origem caboca, veículo natural de inúmeras mazelas nativas, Não há aqui, leitor/a, nenhuma tentativa de trocadilho ou insinuação malévola: é um sorriso de marfim, só, nada mais. 7 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 164 03/09/2013 15:14:33 165 do fatal cholera morbus8 ao mórbido piriri9. Ao sair, apaga algumas das lâmpadas, envolvendo o salão em suave e apaziguadora penumbra. O senador, sozinho com as oito meninas, começa a tirar os sapatos. Os três dias que se seguiram foram de total comoção. O velho senador morrera serenamente, com um imenso sorriso nos lábios finos. Seu corpo foi velado por mais de 50 horas na sede da Assembleia Legislativa do Estado, onde recebeu a última visita de dezenas de milhares de pessoas do povo. Os jornais de todo o país publicaram notas de pesar pelo falecimento do grande “estadista”, ocorrido no “âmago do lar”, no “seio imaculado da família”. Os discursos lembraram o homem público abnegado, o intelectual fecundo, o esposo amantíssimo, o pai de família extremado. O cortejo fúnebre formava uma única fila de mais de sete quilômetros, do início da 7 de Setembro até o cemitério de São João Batista. O governador decretou feriado estadual. O presidente da república desceu de helicóptero em pleno Boulevard Amazonas, a tempo de fazer o emocionado discurso derradeiro. 8 Mais fatal em latim. 9 A mais humilhante de todas as doenças tropicais. projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 165 03/09/2013 15:14:33 166 No castelo da velha cortesã, oito princesas, os delicados corpos adolescidos, choravam em silêncio, vertendo sinceras lágrimas sentidas pela prematura perda do novo amigo.10 Zemaria Pinto – 56 anos, mestre em Estudos Literários, tem mais de 15 livros publicados, entre poesia, teatro, infantojuvenis, ensaios e teoria literária. O texto “A raposa e as uvas” faz parte de um livro de contos que está produzindo, dando um viés literário e mal-humorado a fatos miseravelmente reais, arquivados em sua cada vez menos confiável memória. Desde 2004, é membro da Academia Amazonense de Letras. Agora, leitor/a, me faz um favor: relê o texto, sem parar nestas tolas notas pseudoacadêmicas. Terás outra impressão. Ou não. 10 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 166 03/09/2013 15:14:33 Equipe do Projeto Livro de Graça na Praça/Brasil 2013 Arthur Vianna Coordenador geral Antônio Augusto Martins Salles Coordenador administrativo-financeiro José Roberto Penido de Toledo Produtor Beto Vianna Diretor de arte Clarice de Assis Libânio Consultora Maurício Libânio Consultor projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 167 03/09/2013 15:14:33 Este livro foi impresso na Gráfica e Editora Del Rey, em papel Supremo 250g (capa) e Polen Bold 90g (miolo), usando tipologia Myriad Pro (títulos e autores) e Adobe Pro Garamond (textos). Belo Horizonte . Primavera . 2013 projeto manaus_imp_ALT 14x21cm.indd 168 03/09/2013 15:14:33