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Livro de Graça na Praça
Manaus 20 autores
2013
PATROCÍNIO
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APOIO CULTURAL
REALIZAÇÃO
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MANAUS 20 AUTORES
Copyright © 2013 by Beto Vianna e Arthur Vianna (Org.)
Capa e Projeto gráfico
Arnaldo Stemberg
Ilustrações
Iuri Chacham
Diagramação
Casadecaba Design e Ilustração
Produção Gráfica-Editorial
EDITORA QUIXOTE
Rua Fernandes Tourinho, 274 – Savassi
30112-000 BELO HORIZONTE – MG
+55 31 3227-3077
[email protected]
Este livro foi produzido para o projeto Livro de Graça na Praça, a ser distribuído
gratuitamente em praça pública na cidade de Manaus. Venda proibida.
Catalogação na Publicação (CIP)
Manaus 20 autores / organizado por Beto Vianna e Arthur Vianna ;
ilustrado por Iuri Chacham. – Belo Horizonte: Quixote, 2013.
168 p. ilust.
ISBN: 978-85-66256-03-1
1. Conto brasileiro - Coletânea I. Vianna, Beto II. Vianna, Arthur III.
Chacham
CDD: B869.35
Bibliotecária responsável: Cleide A. Fernandes CRB6/2334
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Em praça cheia de gente, com livro como presente.
Edésio Batista
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Sumário
Prefácio................................................................................................... 9
O visitante ilustre...............................................................................13
Adrino Aragão
Desastre (menina, cadê minha perna?).....................................19
Aldísio Filgueiras
E.S. (Educação Sexual).....................................................................31
Allison Leão
Determinismo.....................................................................................43
Almir Diniz
Manaus, 20 de janeiro......................................................................49
Antonio Felipe
As unhas de fora................................................................................55
Astrid Cabral
BR-319...................................................................................................61
Edweine Loureiro
Medo fatal............................................................................................67
Elson Farias
O soldado da borracha....................................................................73
Francisco Vasconcelos
André vai ao teatro...........................................................................81
Inácio Oliveira
História de um vaqueiro perto do amor...................................89
João Pinto
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As atribulações de Jeremias..........................................................99
Márcio Souza
Mana Manaus.................................................................................. 109
Maria Elisa Souto Bessa
Manaus Moderna em três tempos........................................... 117
Neuton Correa
Cruzeta é cruzeta, em Manaus e em Portugal..................... 127
Pedro Lucas Lindoso
O barulho do mormaço................................................................ 137
Priscila Lira
Réquiem ........................................................................................... 147
Tenório Telles
Marieta............................................................................................... 151
Thiago de Mello
Maria Marieta .................................................................................. 157
Vera do Val
A raposa e as uvas ......................................................................... 161
Zemaria Pinto
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Prefácio
Tudo começou quando um grupo de escritores,
convidados pelo professor de literatura José Mauro da
Costa, decidiu produzir um livro e distribuí-lo de graça.
Com a publicação da coletânea Ouvindo estrelas, e logo depois o Atrás da porta, nasceu a ideia de,
anualmente, publicar uma nova obra e promover sua
distribuição gratuita em praça pública, com a presença
dos autores.
Como toda boa semente, o projeto germinou
nos canteiros da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Nos últimos 11 anos, o Livro de Graça na Praça
promoveu a distribuição de mais de 160 mil livros,
inéditos e de qualidade. No período, a participação
de mais de 150 autores, estreantes e consagrados, de
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contos, poemas e cordéis. Para os novos escritores, o
projeto instituiu um concurso literário, que inclui os
contos vencedores na edição da obra.
Agora, aprovado pela Lei de Incentivo do Ministério da Cultura, com o patrocínio da Oi e o apoio cultural da Oi Futuro, o Livro de Graça ganha mais uma
praça. Em Manaus encontramos terra fértil e o apoio
generoso da comunidade literária local, da Academia
Amazonense de Letras e da Prefeitura Municipal de
Manaus, por intermédio da Fundação Municipal de
Cultura e Artes – ManausCult.
E o Largo de São Sebastião se enche de graça
para receber um projeto que tem por finalidade democratizar e difundir o hábito da leitura e possibilitar a
interação entre autor e leitor.
Uma boa leitura de Manaus 20 autores, e até o
ano que vem.
Arthur Vianna
Coordenador do Livro de Graça na Praça – Brasill
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O visitante ilustre
Adrino Aragão
A casa do poeta Jorge ficava no final da rua, ou
seria no começo? Lembro que na época de enchente braba as águas do rio Negro invadiram o quintal e
quase sempre o porão da casa. “Olha lá a outra margem: não existe mais o terreno baldio onde a garotada
batia bola nos finais de tarde e as águas agora ameaçam
invadir a usina na ilha de Monte Cristo”.
Quando isso acontecia, um grupo de escritores perdia o espaço na casa do poeta onde se sentiam
melhor para mostrar seus poemas, contos e novelas, e
discutir os novos rumos da literatura amazonense e nacional. As reuniões em mesa de bar nem sempre eram
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tranquilas; as divergências entre os escritores acabavam
em calorosas discussões, ânimos exaltados pelo excesso
de consumo da cerveja.
Naquela manhã, o primeiro a chegar à casa de
Jorge foi o poeta Alencar. E logo notou a mudança na
decoração do porão. Lá estavam duas ou três telas de
expressivos pintores da terra. Um painel da vida ribeirinha fora pintado numa das paredes. O quadro-negro
exibia recortes de jornais com reportagens, depoimentos e fotos de importantes personalidades da cultura e
da arte que ressaltavam o trabalho do Clube da Madrugada, o único no mundo que não possuía estatutos
nem sede. Até a tosca mesa de cedro recebera toque
especial: uma toalha bordada de linho branco, vaso de
flores, cinzeiros de cristal, candelabro e Bíblia hebraicos, algumas peças de artesanato de madeira, álbum de
fotografias de visitantes ilustres e um minigravador –
todo aquele arranjo indicava acontecimento de muito
especial; mas o quê?
Será que entrei na porta errada? O local é esse
mesmo? Alencar olhou para o poeta Jorge: você acertou na Mega Sena, acertou?
Jorge sorri, alisa os fios do bigode, a mão repousada no ombro de Alencar, estás me gozando, meu irmão?
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Claro que não, sei que você não é dado a jogo
algum. Estou apenas intrigado e curioso também, com
a mudança radical do nosso sacrossanto porão de cultura. O que está acontecendo?
O bom da festa é a surpresa que nos aguarda,
responde Jorge. Um visitante ilustre, dos maiores, nos
honrará daqui a pouco.
Visitante ilustre? Quem? Eu não estou sabendo
de nada. Me diz de quem se trata. Agora é que estou
mesmo morrendo de curiosidade, falou Alencar.
Calma, meu irmão. A curiosidade matou o rato. As
coisas aconteceram muito rápido. Vamos receber... quase
não dá para acreditar, vamos receber aqui em nosso modesto Clube a visita do grande escritor Guimarães Rosa.
Alencar deu um leve tapa na testa, os olhos se
acenderam por trás das grossas lentes dos óculos, levantou as mãos como se agradecesse aos céus, Jorge,
você jura pra Deus que está dizendo a verdade, não
vale fazer figa, não se ofenda, me desculpe, mas é muita honra para todos nós do Clube, para o Amazonas,
para a cultura amazonense.
Também concordo, a presença de Guimarães
Rosa entre nós é um feito histórico, um marco na história do Clube. E o mérito é do Coronel Farofa, tão
bom contista quanto ótimo presidente do Clube.
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Começaram a chegar os outros companheiros,
Engrácio, Peninha, Antisthenis, Afrânio, Aluísio...
Súbito, o reboliço de escritores, jornalistas, personalidades da cultura invadiu o porão da casa, ou
Gruta do Sapo Verde.
As câmeras de televisão e fotográficas se voltam
para o homem alto, forte, rosto redondo, risonho, óculos de lentes grossas, gravata borboleta, camisa, calça e
sapatos brancos, suspensório e sem paletó.
Luzes. Palmas. Gritos de viva Guimarães Rosa.
É ele, o grande escritor de Grande Sertão: Veredas, pensei. O mito. A lenda viva. O escritor. Tão
grande quanto Machado de Assis. Não sei se sorrio ou
se choro de emoção. Estendo-lhe a mão trêmula. Ele a
acolhe com um sorriso nos lábios. Sinto que sua mão
é forte, firme, segura, como são os personagens de seus
livros, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Zé Bebelo,
Hermógenes, Cara-de-Bronze, Augusto Matraga...
Sentado à mesa, entre o poeta Jorge e Aluísio,
presidente do Clube da Madrugada, Guimarães Rosa:
O sertão é o mundo e o mundo é o sertão,
disse o escritor Guimarães Rosa. Caminhei
pelas veredas do sertão, segui rastros de igarités pelas intermináveis águas da Amazônia, me descubro em terras encantadas da
terceira margem do rio. Ou do lugar mítico
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que vocês chamam Gruta do Sapo Verde.
E concluo com Riobaldo: o sertão está em
toda parte, o sertão está dentro da gente. O
sertão somos todos. Somos todos o sertão.
Da beira do rio um sonoro croac croac croac quebrou por instantes o silêncio que ali reinava para se
ouvir a fala do ilustre diplomata-escritor brasileiro.
Vocês ouviram? Pois é, como eu digo: o homem
não morre, ele fica encantado.
Adrino Aragão nasceu em Manaus (1936). Reside em
Brasília. Formado em Direito, trabalhou no Banco do Brasil,
onde atuou como redator da revista Desed. Já ganhou prêmios
literários, tem trabalhos incluídos em diversas antologias e teve
sua obra como tese de pós-doutorado de Joaquim Branco na
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dentre os livros
publicados destacam-se Tigre no espelho, indicado ao vestibular
da Universidade do Amazonas; No dia em que Manuelzão se encantou, lançado no II Seminário Internacional Guimarães Rosa
(BH); O champagne e a mais recente publicação Caderno do Escritor, este lançado na Academia Amazonense de Letras.
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Desastre (menina, cadê minha
perna?)
Aldísio Filgueiras
ERA UMA VEZ EU e essa tal vez se deu no
meio de junho, quando não chove mais nas cabeceiras
dos grandes rios e a cidade, como um telão de cinema
mudo, se espreguiça mais do que caminha e só boceja,
para evitar gasto inútil de conversa fiada. Sob o abrigo
curto das marquises encardidas, um gesto substitui todos os colóquios verbais, que as pessoas usam quando
se cruzam na rua, de boa ou má vontade. Quando se
pensa que alguém abana as mãos é para afastar mosquitos, não; também não está nadando na densa umidade do ar: apenas esclarece que “já fui”, “estou muito
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ocupado em não fazer nada”, coisas simples e cotidianas. Um bocejo diz o que se diria, em tempos normais
– no verão, por exemplo –, com muitas palavras. Um
bocejo é uau, oi, bom-dia, obrigado, deus te guie, me
deves uma, pagas quantas, vamos todos bem lá em casa
e o teu pai ainda é o mesmo?
Uau!
Brincadeirinha, brincadeirinha...
Esse era o tempo em que a gente, desde cedo,
aprendia a andar e a nadar, com a mesma facilidade
com que respirávamos em terra e na água.
Éramos todos exímios anfíbios, nesse tempo que
faz da noite um dia inteiro, sob um teto de goteiras.
QUANDO PARA DE chover nas cabeceiras dos
grandes rios, o mundo fica plano e cinza. O verde escurece, como sangue pisado. As pessoas também ficam cinza e azedas. O céu esquece que um dia foi azul
com pinceladas de branco esparsas. Camelos, girafas,
tartarugas, cavalos, elefantes, rostos irreconhecíveis de
outros mundos, tudo que caminha pelos campos do
céu nas manhãs e nas tardes de sol e nas noites de lua
desaparece sob uma pincelada de cinza e única. Não
chove, porque não tem um só lugar na terra onde cair
um pingo da chuva. Até onde alcança a vista no fim
desse lago, em uma cortina pesada, também de água
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intransponível, o que é sólido desmancha no ar. É o
horizonte – nem o vento com a força de um raio pode
movê-lo. As palavras precisam aprender a andar sobre
as águas, se quiserem continuar vivas; as palavras morrem fácil, glub glub, encharcadas, às vezes na praia,
mudas e surdas, cuspindo areia e peixes pequenos.
Aí, a gente sabe que o mundo, as árvores, os pássaros, as pedras e mesmo as pessoas e todos os tipos de
caras e bocas nascem da água, são feitas de água e se
pode bebê-las, se for o caso. Os pensamentos nascem
da água. Olhando para cima, uma enorme mancha
cinza mal permite que o sol se descubra nem que seja
para dizer que ainda existe sob o traste cinzento.
Sim, até o sol nasce da água.
Até a areia nasce da água.
Daí que essa paisagem líquida me levava, como
em um confronto, a preenchê-la com os profetas e os
santos de quem só se sabia que existiram em algum
lugar do mundo com a triste história de que nunca
se fizeram entender, pois viviam encerrados em um
deserto sem tamanho, falavam sozinhos, sentados em
sua sombra e engoliam em seco o que diziam. Eu digo
santos e profetas, porque o padre, que rondava nossas
consciências e assombrava nossos pensamentos, com
seu manto negro, lembrava nas missas de domingo
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dessas figuras desgrenhadas que procuravam no deserto
a pureza que não existia mais nas cidades que ardiam sob
o sol, em busca de um consolo. Esse padre gostava de
pessoas que sofriam e a alegria, para ele, era morrer em
paz com Deus e encontrá-Lo em algum lugar fora das
vistas de todas as impurezas humanas. No deserto, era
domingo o tempo todo e eles podiam pensar e falar o que
pensavam a uma audiência de lagartos surdos. A pureza
era isso. Estar em paz com a consciência era isso. Mas o
que era isso? A areia seca do deserto, onde não nasce um
pentelho debaixo do sovaco, pois não tem água.
Profetas e santos não existem, existiram. Não se
fala deles, senão no passado. Eu queria muito conhecer
um santo ou um profeta, mas todos morreram com a
sede, coitada, de serem entendidos, pisando no seu entendimento, descalços ou com sandálias puídas, dentro
de umas roupas muito fedidas, com certeza. Mas nós
estamos em Manaus, onde uma pessoa pode morrer de
sede – na água, não na areia – sem dizer uma palavra.
Manaus ainda seria areia. Eu não sabia disso, mas minha vó Lola, em quem ninguém acreditava, sim, sabia
e tomava lá as suas precauções, porque esse dia chegaria montado na fúria dos ventos e no corcovado das
águas. Ela sabia. Mas quem acredita em uma velhinha
que já não pode responder com maldade a ninguém?
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QUANDO AS ÁGUAS param e descansam do
longo caminho desde as cordilheiras alheias até nossos quintais manchados de folhas mortas, o verde vira
uma placa de musgo grudada na paisagem e, sobre esse
verde, o céu cinza e sem graça nenhuma ameaça desabar sobre nossas cabeças. E o céu pode, sim, desabar
sobre nossas cabeças porque, em Manaus, é aconselhável atravessar uma rua, olhando também para cima,
onde os aviões, às vezes, ficam sem juízo e param de
funcionar, justo sobre nossas cabeças.
Nesse tempo de cachoeiras rasas e ruas alagadas, uma onda de frio viaja até a cidade e a cobre de
cima a baixo, deixando-a comprimida entre cobertores extravagantes, que os mais velhos e mais viajados referiam apenas como “roupas do sul” ou “roupas de frio”, ao folhear revistas amarrotadas que nos
chegavam, meses e meses depois da última edição de
primavera-verão ou verão-outono, como se soubéssemos o que fosse outono ou primavera e inverno não
fosse apenas chuva, chuva, chuva e calor. Eu achava
ridículo tudo o que me cobrisse o corpo, além do
que não podia e não pode ser visto, naqueles tempos
severos em que os pais e os vizinhos tinham o poder
de decidir o que podia ser dito e visto pelas crianças
e nas crianças.
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EU TINHA 10 ANOS de idade e queria ter
100, ao menos 11, porque aos 10 o tempo demora
muito a passar, e aos 100, ele já passou e nem lembra mais do que se trata e só lambe as marcas que se
acumulam na pele, a sua passagem. Eu não sei se ter
11 anos faz alguma diferença, mas 11 não são 10, ao
menos, e consola. E eu queria que fosse assim, logo, de
repente, de supetão, ou mais cedo ainda, a ocorrência
desse aniversário, da noite para o dia, ontem. É querer
muito? Não. É demais.
Sim, eu queria acordar sem pedir licença para
iniciar o dia e dormir sem o constrangimento de
quem fora sentenciado a dar um ponto parágrafo no
que estava fazendo ou deixara de fazer. Mas como é
que se cresce da noite para o dia? Como é que um
serzinho de nada se torna sólido, palpável, visível,
capaz de curar a cegueira de todos que compõem a
paisagem do mundo?
Não é assim que sucede, de repente. O tempo
não consegue ser rápido como se quer, nada o apressa,
quando se tem 10 anos de idade. Era assim que eu
pensava e me sentia, como se o tempo, e só o tempo,
fosse remédio para todas as dores e desconfortos.
Querer não é poder; poder depende de muitas
perguntas e respostas. Para crescer é preciso ter uma
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história a tiracolo, uma história de verdade, com muito recheio e tempero, mesmo que seja de mentira, antes, durante e depois do seu desempenho, com longos
intervalos de escuridão, outros de claridade, muitos
sem o menor sentido de claro e escuro, como o de
agora em que me debruço sobre o que foi ou pode ter
sido essa tal vez. Uma história como a que a sociedade
secreta dos adultos guardava a sete chaves, longe do
alcance das crianças, feito remédio que matasse em vez
de curar. A sociedade secreta dos adultos me deixava irritado, como se eu fosse um deles, mas sem uma
história. É assim que sucede: ter uma história, mesmo
que seja secreta, mesmo que fique soterrada pela incompreensão do deserto surdo dos lagartos, dos rios
parados, sem respirar, sem trocar de água. Os adultos
vivem a contar histórias, por isso são adultos.
SIM, PARA TER 100 anos de idade, ao menos
11, é preciso, primeiro, que eu conte os milagres e as
miragens da minha cidade, do meu bairro, da minha
rua até essa uma vez de eu ser um eu, para início de
conversa.
Entra em cena meu pai, por exemplo, e sua
incrível oficina de construir os sonhos que iriam cegálo; e minha mãe, a levitar pela casa (sim, porque tinha
a casa, nessa ronda), tonta, como uma barata que
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acabou de cheirar inseticida; e meus quatro irmãos –
três meninas tagarelas e um menino com uma grande
barriga –, inúteis, do princípio ao fim; e, por fim, ainda
que não finalmente, nem por ordem de importância,
minha avó que, sozinha, valia todo o meu filme em
preto e branco. Então, sim, sou eu. Eu e milhares de
extras e aquela namorada que não me via, ainda que
andasse de ponta cabeça pela cidade, rastreando sua
sombra, e nunca foi minha namorada, senão em sonho:
era um tempo de guerra e eu creditei a esse infortúnio
o seu desapego. Era uma judia que me judiava.
A REVISTA DESSA uma vez também confere a
imagem de um ponto final, que não contente em sua
encolha, se contorce e se contrai até que desenha uma
interrogação suspensa no ar e ela mal respira por entre
os pingos da chuva, porque é inverno. E como tudo
que era uma vez costuma ser, essa uma começa com
a suspeita de ser uma grande mentira e assim é que
termina, para não faltar com a verdade: começa com a
força de um susto, que me deixou de olhos tão abertos
e tão que só um cego pode olhar assim para o mundo,
com a mesma primeira incompreensão.
Bem aqui, diante da minha instantânea cegueira
estava escrito com letras tortas o que só mais tarde eu
saberia que era para sempre certo: desastre. E só. Eu
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não percebia que mesmo a uma palavra é impossível
ser só, pois estivera muito tempo cego, surdo e mudo
para a ciência das letras e as palavras escritas ainda não
passavam de um enigma feito de retalhos de tinta; “desastre” não era mais que um desenho sem rosto, cheio
de buracos e curvas, imprestável para a revelação de
um significado qualquer. Ficou, no entanto, gravado
em meus olhos espantados, sem precisar que eu aprendesse a ler para ser o que era. Era desastre e ponto.
Tateei aquelas curvas e aqueles buracos e era isso
mesmo: desastre, pois desastre era sem mim e só agora
me incorporava àquilo que sempre fora: uma palavra
exata, como um mapa cheio de acidentes – montanhas, campinas, rios e tudo que tenha calos nos pés e
nas mãos.
É assim que a gente nasce para o que não sabe o
que será; uma realidade alheia, que não te aceita. Só
depois é que a gente entende que aquele ponto escuro
ali no mapa – eu – é o desastre e se chama cidade, um
tipo de fome que devora qualquer paisagem e atropela
as pessoas, não importa que elas tenham 100 anos de
idade, não apenas 10 ou 11, ao menos.
POIS ENTÃO. EU nem atinava com isso de ser
um eu e até que tudo ia muito bem, obrigado, antes
que o mundo passasse a desabar em torno de mim,
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tal e qual me parece, agora, o mundo, sem mais nem
menos, um novelo de eus, todos feitos de talvez. Eu
não me dava conta, senão de que estava cortado ao
meio por uma interrogação e não sangrava e nem doía
nenhum dos meus pedaços.
Foi quando eu tinha esses 10 anos de idade e comecei a querer ter aqueles 100, ao menos 11. Éramos
eu e meus sete parentes de sangue, no preciso momento
em que meu pai, de nome Ismail, me destaca da tribo e
mantém sua primeira conversa séria comigo, enquanto
os seis outros cuidavam das suas tarefas ordinárias. Ele
me disse, não olhando para mim direto, que era assim
que falava a sério, mirando um ponto distante que só
ele via, quando queria anunciar algo eventualmente
ruim, para não ferir os brios do ouvinte: “Precisamos
ter uma conversa de homem para homem”. Pousou a
mão direita no meu ombro estreito, com o cuidado de
não esmagá-lo, e começou sem pressa de acabar ou de
começar: “Filho meu, em verdade vos digo”. E disse,
que não era ele de entortar palavras ou vesti-las de verniz para corrompê-las e confundir ouvidos.
‒ Meu filho meu, em verdade vos digo: o homem que diz eu, eu, eu, eu, todo tempo e o tempo
todo não passa de um sujeito ressentido, sem o menor
crédito na praça. Eu faço e desfaço, eu ato e desato, eu
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sou uma pessoa que... Esse tipo, esse gênero de sujeito
não vale o que o gato enterra. O que disseste, hoje, no
café da manhã, me fez pensar no que andas pensando,
me preocupou o teu futuro.
Se havia alguma coisa para entender, não era comigo nem era agora.
‒ Que história é essa de “eu sou um grande escritor?” Eu sou teu pai e prefiro que aprendas com quantos paus se faz uma jangada do que seres um escritor. A
partir de agora, depois que saíres da escola, em vez de
caçar passarinho com teus colegas, que vivem ao deusdará, sairás direto para a oficina, aprender um ofício.
Está bem?
‒ Está ‒ aquela mão começava a pesar no meu
ombro e se havia alguma coisa para entender, ainda
não era agora. Quem poderia me explicar o que é um
homem ressentido?
Mas foi assim que foi e se deu. Depois... bom,
depois...
Aldisio Filgueiras nasceu em Manaus, Amazonas,
Brasil, em 1947, dois anos depois da guerra mundial, para
integrar a geração paz, amor, rock in roll e preguiça. Inimigo
figadal da sociedade de consumo, decidiu ser poeta: ninguém
compra nem consome poesia. Este conto ou o que quer seja esta
narrativa (Mário de Andrade dizia que conto é tudo aquilo que
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você chama de conto... e conta) surgiu de uma solicitação para
esta coleção feita pelo dramaturgo, poeta, ensaísta e-mais-oque-seria-se-tivesse-mais-tempo, Zemaria Pinto, já devidamente
informado de que nunca mais será atendido. Ai, que preguiça!
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E.S. (Educação Sexual)
Allison Leão
Ao completar doze anos, Felipe de Oliveira Borboleta (F.O.B.) percebeu que estava apto a iniciar atividades sexuais que envolvessem outra pessoa além de
si mesmo. Pelas amplas informações obtidas nos livros
de ciências, F.O.B. podia reconhecer os sinais dessa
disposição física. Quanto à disposição psicológica, o
conhecimento caseiro, obtido através de incansáveis
instruções, deixava-o à vontade para determiná-la.
Um dia (era uma sexta-feira), seu pai (psiquiatra) despiu a esposa (psicóloga) em frente ao menino.
Para F.O.B., não era novidade alguma ver a mãe assim,
pois a nudez, nessa casa, sempre fora tratada como
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natural – cientificamente natural. Mas algo diferente,
algo como um acréscimo, estava prestes a acontecer.
Ao som da Última Primavera de Grieg – pois é sabido que a música favorece a memorização –, Doutor
(Dr.) Papai sentou F.O.B. numa cadeirinha e passou
a explanar, demorada e detalhadamente, uma palestra
sobre o funcionamento do aparelho reprodutor feminino. Para obter uma compreensão mais imediata, Dr.
Papai desenhou, com incrível perfeição, os órgãos internos na pele nua da barriga de Doutora (Dra.) Mamãe. Quanto aos órgãos externos, obviamente eles já
se expunham por sua própria natureza de externalidade. F.O.B. acabava de comer o indigesto mas necessário fruto de sua árvore do conhecimento. Acabava de
saber que as pessoas, por dentro e no fim das contas,
são uma mecânica. Isso aconteceu no dia em que completava 5 anos de idade.
Na semana seguinte, Dr. Papai e Dra. Mamãe
trocaram de função. E não houve a necessidade de tantos desenhos. Assim, desde aquela primeira enxurrada
de informações e durante anos, semana após semana
– sempre às sextas e com Grieg –, a vida de F.O.B.
foi um irrefreável acumular de informações. Para não
correr riscos com a típica seletividade da memória juvenil, Dr. Papai e Dra. Mamãe entregavam, ao final
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de cada palestra, um manual ou uma revista científica
a F.O.B., a partir de cujo conteúdo se sabatinaria o
aprendiz, na semana seguinte. Se a sociedade estava
impressionada com as mortes precoces de gente como
Cazuza e Freddie Mercury, os pais de F.O.B. quase
estavam a comemorar por esse cenário. Para eles, era
necessário tratar com mais responsabilidade e rigor a
saúde do corpo, e o medo poderia ser o melhor agente para o conhecimento. Nestes tempos de AIDS e
gravidez precoce, quanto mais e mais cedo os jovens
tiverem informações, melhor para a nossa sociedade,
repetiam esse irrefutável preceito o Dr. e a Dra.
Anos depois, quando a voz de F.O.B. principiou
a dar repiques, quando lhe eclodiram as primeiras espinhas, quando os braços, longuíssimos e desajeitados,
pareceram pertencer a outra pessoa, não houve dúvida:
por decisão própria, F.O.B. foi a uma drogaria e comprou seu primeiro pacote de camisinhas. Erotic – testadas eletronicamente.
F.O.B. sabia que estava preparado, mas o resto
do mundo sequer desconfiava de sua plenipotência
sexual. Mesmo assim, não se desesperou, pois os manuais diziam que, uma vez iniciado o processo, a natureza nunca retrocede. E, naturalmente, seguindo o
que diziam os manuais, F.O.B. aguardou o momento
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inevitável. Até lá, ficaria a camisinha Erotic no bolso,
inseparável. Sua iniciação, pensava F.O.B., era mais do
que iminente. Enquanto isso, nosso pequeno homem
não descuidava de cultivar uma penugem no queixo,
que passava por cavanhaque, como um aviso de masculinidade e prontidão para as fêmeas.
Mas eis que aos quinze anos cá estava F.O.B.,
com um pouco mais de pelo no queixo, é verdade, mas
tão virgem como quando nascera. Consultara várias
vezes os manuais, mas eles eram sempre muito vagos
sobre a data específica do evento. Uns diziam que por
volta dos 12 anos. Outros, até os 18. Na escola, nas
aulas de Ensino Religioso, o professor enfatizava a
preservação da castidade até o casamento. Felizmente,
essa opinião não contava para F.O.B., pois nela não
havia a menor sombra de base científica.
A espera ficou mais angustiante quando F.O.B.
passou no exame de seleção para o Colégio Militar de
Manaus (C.M.M.), onde deveria cursar de forma brilhante o 2º grau, passando direto pelo vestibular, até
a faculdade de Medicina. Havia sido assim com o Dr.
Papai. Uma pessoa que passa em uma seleção é uma
pessoa melhor. Esse seria o caminho natural de F.O.B.
Contudo, o C.M.M, colégio para garotos e que somente agora admitia uma ou outra aluna, trazia certo
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mal para F.O.B., pois com tantos rapazes mais velhos
o que era evidência para ele sobre si mesmo, para os
outros era piada.
Felizmente, o C.M.M. possuía no universo sua
contraparte feminina – o Instituto de Educação do
Amazonas (I.E.A.). Parecia uma obra da natureza: as
alunas do I.E.A. e os alunos do C.M.M. Era fácil divisarem-se ali os casamentos: o médico e a professora, o
advogado e a professora, o general e a professora. No
fim da manhã, tudo isso se ensaiava na Praça do Congresso. Mesmo na feira de diferenças que se tornava a
praça – pois os diferentes também a frequentavam –,
os alunos do C.M.M. e as alunas do I.E.A. só enxergavam sua própria completude prevista. Diariamente,
F.O.B. conhecia algumas dessas possibilidades. Prioritariamente, ele queria uma cópula, mas agora, sem
saber por que, a objetividade da natureza parecia-lhe às
vezes faltar. Não poderia ser com qualquer uma dessas?
Já não sabia. Aos poucos, deixou o tempo passar.
Para tudo no universo, a natureza criou um par,
poderia ter pensado F.O.B. E se não pensou, indubitavelmente o sentiu quando por fim conheceu Aseta
Michele dos Anjos (A.M.A.).
Mesmo em meio ao infindável mar de saias e
pernas nas escadarias do I.E.A., para F.O.B., A.M.A.
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se destacava. Às vezes F.O.B. ficava no fim baixo da
escadaria, olhando para o alto. Regozijava-se em poder
identificar A.M.A. apenas pelo par de pernas. Primeiro, pelo método da negação: aquela com cicatriz de
queimadura feita em escapamento de moto era Ana
Célia; uma cabeluda, que não se depilava nunca, era
Ivete; os joelhos mais ossudos eram de Dolores; as pernas gordas e sempre suadas, de Úrsula; as mais manchadas, de Telma; umas que pareciam parênteses, de
Cibele; as cobertas pela longa saia, da pentecostal Jussara; as nem um pouco cobertas, da desinibida Irene.
Depois, o método positivo: as pernas de A.M.A.
Os olhos de F.O.B. as identificavam com facilidade.
Seu olhar subia a partir das meias soquete, desenhava
o sinuoso contorno até perder-se em imaginações por
debaixo da saia azul-marinho. Subia estonteado pela
cintura até os seios na provocadora contraluz do tergal branco. F.O.B. demorava-se na diáfana curva dos
seios, como se já os conhecesse. E enfim, o rosto...
Para F.O.B., que crescera videando angelicais
apresentadoras de programas infantis, A.M.A. era obviamente bela. Parecia que não suava, de tão perfeita
(F.O.B. odiava suor.). Os olhos verdes, a pele branca
e os longos cachos dourados da moça-princesa, no entender de F.O.B., naturalmente combinavam com ele.
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Pois se ele não tinha nariz chato, pele escura nem cabelo crespo, era mais do que natural, era lógico, que ela
seria dele. Na média, pensava F.O.B., os iguais ficam
com os seus.
Foi assim que, naturalmente, aquele ano passou.
E naturalmente eles se aproximaram. Frequentemente,
F.O.B. acompanhava A.M.A. até a casa da moça, que
ficava no Centro. Algumas vezes, trocaram beijos na
praça. Mesmo ali, entre guetos de góticos, metaleiros,
hippies e surdos – gente suja e burra, como ele os via –,
F.O.B. não se aborrecia: seus neurônios só se concentravam na sua áurea namorada. F.O.B. pressentia que
A.M.A. seria a primeira. Mas, por algum desconhecido, ele não passava de certos limites. Tímidos limites.
No último dia de escola, ele a acompanhou mais
uma vez no caminho para casa. A.M.A. estava linda.
Não estava fardada. Usava uma camisa verde com uma
rosa em róseo bordada sobre o seio esquerdo, o que
realçava sua delicada beleza de moça loira. Uma semana antes, quando F.O.B. completara 15 anos, A.M.A.
havia lhe prometido uma surpresa, e essa era a hora.
Neste dia, naturalmente os passos foram
lentos. E erraram o caminho de casa, naturalmente.
Até que o casal se viu numa construção abandonada,
quase sem saber como havia chegado ali. Como se
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seus corpos os tivessem conduzido. Não tardou para
o calor lhes subir entre ambos, o que também é
coisa muito natural. A.M.A., semidespida, o rosto
em fogo vermelho, já não era mais simplesmente
a angelical figura de minutos antes; e algo como
a vaga ideia de uma pureza conspurcada atordoou
F.O.B. Mas entendamos: F.O.B. não chegou a
saber se a ideia era boa ou ruim. Sequer reconheceu
aquela confusão como uma ideia. Deleitar-se com
a possibilidade de violar uma pureza: isso era um
prazer vergonhoso. Tão confuso e excitado estava
F.O.B., que ignorou os suores de ambos os corpos.
Pela primeira vez, F.O.B. sentia que poderia ser
excessivamente físico. O coice da vontade aplacando
a razão. Lúcido, como, agora?
Imaginando que F.O.B. soubesse o que fazer,
mas talvez não soubesse como fazer, A.M.A. seguroulhe o pênis e tentou conduzi-lo até sua áurea vagina,
delicadamente, como e nesse gesto ela tinha o corpo
inteiro de F.O.B. em suas mãos.
F.O.B. ainda teve uma nesga de razão, o suficiente para se lembrar de sua até então inseparável Erotic
– testada eletronicamente. Enquanto A.M.A. se contorcia excitada, F.O.B. executava os procedimentos
técnicos com o preservativo, tantas vezes repassados
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em lições semanais com Dr. Papai e Dra. Mamãe. Enfim, após três anos de uma longa mas natural expectativa!...
Três anos. Três anos. Três anos.
E F.O.B. ligaria, automático, o tempo da espera
sexual ao prazo de validade da camisinha. Na precária
iluminação do ambiente, F.O.B. confirmou a desgraçada suspeita. Havia 8 dias a validade de sua Erotic expiara. E o pênis de F.O.B. voltou, teso e virginal, para
a gaveta das expectativas.
A.M.A. foi compreensiva. Apesar da frustração,
a fria cautela de F.O.B. – oito dias são 8 dias – era correta. F.O.B. de repente pareceu a A.M.A. um daqueles
admiráveis homens que podem passar a vida inteira
sem jamais sentir os sobressaltos que as surpresas e as
desgraças dão ao comum da gente.
F.O.B. garantiu que no dia seguinte iria à farmácia comprar novas camisinhas. E que se encontrassem ao fim da tarde, talvez ali mesmo... E obteve de
A.M.A. a promessa de um telefonema confirmando o
encontro, agora muito melhor planejado. Mas ela não
telefonou. Nem nunca telefonaria.
Quando se reiniciaram as aulas, F.O.B. soube que
A.M.A. se transferira para o Colégio Estadual, onde a
proporção entre moças e rapazes era bem equilibrada,
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e seu coração foi sacudido por mais um sentimento
desconhecido, que ele não soube compreender.
Poucos meses depois, viu-a de longe na mesma
praça onde um dia a beijara. Ela estava de costas, em
meio a um grupo de jovens, e vestia roupas escuras.
Mas a silhueta ainda era inconfundível, apesar dos
cabelos agora curtos. F.O.B. já caminhava resoluto
em direção a A.M.A quando uma série confusa de
sentimentos o atingiu: um outro rapaz beijou duas
vezes o rosto que ele um dia fizera arder. Entalado
pelo choque, deixaria que suas pernas o levassem
para longe dali. Não pela chegada do oponente,
que bem podia ser apenas um amigo. Também o
cigarro entre os dedos de A.M.A. era-lhe, naquele
momento, irrelevante – apesar de ser um hábito
nada saudável, observaria depois. Impossível para
F.O.B. era aproximar-se de A.M.A. enquanto ela
vestia a camiseta cuja estampa ele agora divisava com
exatidão: a imagem, a careta de Janis Joplin flagrada
no instante de um rouco, grotesco e assombroso Cry
Baby!
A.M.A. não servia mais para F.O.B. Naturalmente.
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Allison Leão é escritor e professor. Nasceu em Manaus no
dia 24 de fevereiro de 1978. Contista, publicou Jardim de silêncios (2002) e O amor está noir (2004). Tem um monte de ideias,
mas muita preguiça. Por isso, tem mais projetos na mente do
que livros escritos. Está preparando, há séculos, o livro 11 – um
bestiário, do qual faz parte o conto E.S. (Educação Sexual).
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Determinismo
Almir Diniz
Era o tempo da ocupação definitiva do Lugar da
Barra pelo colonizador. Segundo os registros consultados, pode-se afirmar que o período enfocado girava
em torno dos anos 20 de 1.700.
As diversas etnias ocupavam a extensa área rionegrina, a partir da foz do importante afluente do Amazonas definida à jusante pelo conhecido fenômeno “Encontro-das-águas” e, à montante, pelas nascentes do rio
Hiaá, além das cachoeiras, nos contrafortes das grandes montanhas ao Norte do País. Eram: os baré, tarumã, baniba, daraé, passé, mayapena, e a mais importante, manáo, as quais estavam sendo empurradas
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para o interior, algumas, de logo dizimadas, extintas, pelo
drama dos descimentos e resgates, sob o fantasma das
chamadas “guerras justas’’ propiciadoras da vida escrava.
Os manáo, que dariam seu nome à sede da Capitania de São José do Rio Negro, após as ações determinadas pelo governador do Estado do Maranhão e
Grão-Pará João da Maya da Gama e executadas inicialmente por Belchior Mendes Moraes e depois por João
Paes do Amaral, encontravam-se desorientados após
a queda do herói Ajuricaba. Uns seguiram rio acima
procurando o apoio dos mayapena, protegidos pelas
cachoeiras. Outros aldearam-se em núcleos provisórios, ao norte da Capitania, na esperança do retorno de
Ajuricaba, pois que se recusavam a crer que o famoso
guerreiro houvesse falecido.
Um desses núcleos localizava-se em área do território rionegrino, faixa compreendida entre os rios
Tarumã, Tarumãzinho (envolvida neste a turística
Cachoeira Alta do Tarumã) e Cuieiras, além de vários
igarapés e lagos. É neste cenário que vamos encontrar
a bela Aruna, filha de mãe índia com um nobre português, a qual herdara deste os olhos azulados e dela, a
pele brônzea do corpo rijo e elástico.
Aruna mantinha idílio secreto com certo guerreiro
mayapena, antigo aliado de Ajuricaba, o qual para ficar
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próximo de seu amor, decidira permanecer em algum
ponto do Tarumã, recusando-se a acompanhar os seus
companheiros em fuga para o Hiaá.
Assediada, de um lado pelos missionários sob
cuja proteção fora criada, e de outro por varões aquartelados no lugar da Barra, que a queriam para esposa,
Aruna manteve-se fiel aos seus princípios.
A partir do soturno rengue de ciprestes o caminho tomava a direção do lago. Mas, estreitava-se a
cada passo, ganhando, em determinado ponto, feição
de vereda, à medida que a exuberância da vegetação
nativa, explodindo em cobertura verde, denunciava
a proximidade da ribanceira. Ao atingir a curvatura
do barranco uma pequena clareira como que definia territórios: até ali, a floresta; descendo, a capoeira
velha onde outrora vicejara uma roça consociada de
mandioca e milho. Num ponto dessa trilha aberta na
mata, somente visível a olhos perspicazes, meio encoberto pela vegetação luxuriante, um sulco cavado
no terreno firme pelos pés de animais, nas caminhadas de todos os dias para dessedentar-se numa fonte
que manava da falda do abarrancado. Semelhava-se
a discreto túnel serpeando por entre troncos, raízes,
pedras e cipós, o piso alisado pela descida constante
das águas pluviais.
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A nativa, cauta, rastejava, que andar não podia,
pela estreita passagem, sombria e tortuosa, como o
caçador que, indiferente e percalços, segue o rasto da
presa.
O que rastrearia a jovem solitária com tanta determinação e em condições tão adversas?
O corpo elástico, tingido de urucu e barro para
despistar possíveis curiosos, deslizava pelo sulco sinuoso com agilidade de cobra, lisa como enguia, as mãos
crispadas, respiração ofegante, os olhos de lince esquadrinhando tudo ao seu redor, desde a copa das árvores
novas à ramagem farta que se estendia até a margem
do lago, protegida esta por fofa e farta camada de arbustos, a perder de vista.
Ao fim do peri, o espraiado levava ao lago, àquela altura límpido e liso, encantador, poético.
Por breve espaço de tempo ela se manteve imóvel,
quieta, feito estátua brônzea, esbanjando morenice integral trabalhada pela incidência do sol, sem anteparos.
Depois, sabendo-se sozinha naquele paraíso
secreto, Aruna, a deusa-mulher, moveu a cabeça para
um lado e outro, alongou o olhar de pesquisa até aonde
a vista alcançava, estudou os arredores. E somente após
certificar-se de que não era observada entrou n’água.
E rápida e lépida, mas sem expor os braços fora da
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lâmina líquida, dirigiu-se a uma espécie de falésia
oculta naquela paisagem encantatória.
Protegida pelo pedral e pela ramagem beijando
a água, corpo trêmulo, coração aos saltos, enfocou, na
estreita curva da pequena angra, o objeto de seu interesse, responsável por toda aquela caminhada secreta para
além dos limites do aldeamento provisório de seu povo,
em debandada, vagando, desorientado, desde a perda
do grande líder, o principal Ajuricaba, em busca de pouso definitivo, em sua própria terra... E descansou.
Depois, decidida e ousada, esplêndida no seu determinismo, coerente com seu projeto de vida – sem
horizonte visível –, lançou-se, novamente, ao lago, na
direção da enseada visualizada, na busca da concretização de seus sonhos...
Almir Diniz – Nascido há 84 anos no município de Careiro
da Várzea, quando este ainda pertencia a Manaus, foi o primeiro
prefeito do lugar. Advogado, jornalista premiado com o Esso
duas vezes, é autor de 25 livros, entre poesia, conto e crônica.
Membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, dirigiu as revistas de ambas as
instituições. Atualmente, colabora em diversos jornais literários.
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Manaus, 20 de janeiro
Antonio Felipe
Manaus é um ovo, dizem. Culpam a cidade por
círculos limitados, previsíveis e pouco diversos de
amigos. Abandonamos qualquer contato, mas sempre
ouço falar de ti, mesmo indiretamente. Além dos conhecidos em comum, cliques entregam notícias.
Estou doente. Escrevo deste leito de dor em
meu peito, respiro feito quem sobe barrancos. Não é
a primeira tentativa, descanso quando minhas mãos
tremem e meus punhos doem. Mas a manhã trouxe
disposição e enquanto for possível pensar claramente,
continuo. Por que carta? Porque quero te deixar grafada a minha versão de nós, tão perduravél quanto letra
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em papel. Aliás, não quero tanto quanto preciso. Não
mudei, continuo sentimental...
Tu engravidou meu pensamento. Lembro bem,
reparei em ti quase nove meses antes daquele início de
noite, sentados à margem sideral do Rio Negro. Das
mesmas coordenadas, agora assoma à vista a estratosférica constelação brilhante em forma de ponte. Eu não
notei tua aproximação, o boto surpreendeu a virgem.
Guardo o espanto do teu sorriso ao se jogar ao meu
lado. Assustou não tanto por estar pouco movimentado e silencioso ali ao redor, mas principalmente por ser
tu chegando assim. Dei à luz, começamos a conversar.
Desde então, quis bem à Ponta Negra inteira. Lá
te conheci, por ali passávamos muito tempo, lar a céu
aberto. Às vezes, ouvia tu com teus assuntos masculinos pouco interessantes, só por prolongar as horas.
Queria mesmo era continuar a observar teus lábios
fluentes e teus olhos de correnteza.
Nunca perguntei por que te surgiu a vontade de
ir até mim. Achou a imagem muito solitária? Foram
meses bons, por algumas semanas até esperei qualquer
atitude tua. Demorei a aceitar, seríamos apenas amigos, eu não era quem tu procurava. Ainda assim, gostava quando tu preferia estar comigo ao invés de sair
com outra garota, mais uma, eram tantas em cima.
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Pensei em me afastar de ti. Não iria fazer bem a
nós dois, previ. Tu poderia encontrar alguém e me ferir
e, por tua causa, parei de prestar atenção em qualquer
outro. Meu apego era completamente explicável, mas
o teu confundia. Tu nunca foi ingênuo, percebeu a
aproximação afetuosa demais, mas manteve. Era ciente e gostava.
Demorou, mas não consegui tentar criar algum
distanciamento antes de tu começar a falar sobre ela.
Estar contigo tornou-se incômodo, percebi ser sério
com o passar dos dias. Uma toalha tua ficou dentro da
minha bolsa. Quis voltar depois da tua descrição excitada e sem pudor da primeira transa, guardei minhas
coisas e saí, lembra? Levei ali. Agarrei aquele pano por
estar com teu cheiro. Minha vingança foi abusar dos
fios, lavei por nojo.
Foi difícil ignorar tuas mensagens e ligações, durante a madrugada fazia a contagem progressiva das
horas insones, passando o dia inteiro sem ânimo algum. Teu erro foi ir à minha casa, mas queria e esperava
algo assim de ti, confesso. Ao menos tu não foi cínico a
ponto de me perguntar o porquê de estar te evitando,
outra evidência. Percebeu o ciúme porque tinha consciência da natureza do meu afeto. Tirou proveito ao
aparecer por saber da ausência de todos, obviamente
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tiraria por ser o único a me conhecer a ponto de poder atirar minhas contradições em uma discussão. Mas
mesmo depois de tanta ofensa, tu permanecia craque
em me quebrar com teu abraço. Sozinhos e teu corpo
perto do meu, sussurros lentos das tuas desculpas em
minha orelha, igual a suspiros adormecidos. Cansei de
refrear minha vontade. Tu cedeu, o mais prazeroso, tu
se deu. Finalmente confluímos e irriguei meu rosto
com teu gosto.
O arrependimento precisa do ato, a culpa não.
Muitas vezes me culpei por sonhar contigo, mas ali
percebi não ser apenas meu o desejo. Tuas mãos em
meu cabelo, forçando minha cabeça, dividiram meu
fardo. Contudo, após gemer todas aquelas frases, tu
se arrependeu e foi embora, não quis mais conversar e
ficamos assim, mal resolvidos.
Ainda te vi em alguns dias, de longe. O mesmo
deve ter acontecido contigo, é impossível não esbarrar
com o passado em Manaus. Dividimos a mesma sala
de cinema, certa vez. Saí antes de o filme acabar, não
suportei ela sentada em meu lugar.
Muito depois, quando cometia filicídios diários
da tua memória, cheguei e encontrei o convite. Pensei
em não ir, mas eu quis. Tanto tempo distantes e ainda
assim... Tua expressão quando cheguei foi ótima, não
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precisava gaguejar e ser tão formal, partisse direto ao
abraço sísmico. Meu martírio em continuar ali e te assistir casando foi minimamente recompensado quando
ela caiu andando em direção ao altar, não houve vexame maior dentro da Igreja de São Sebastião, o templo
com o nome do santo tão conveniente à cerimônia. O
rasgo do vestido da noiva sou eu.
Demorei a retomar meus esforços sísifos em te
superar após teu casamento. É inútil lamentar a roleta de pedra das escolhas antigas. Fiquei sabendo via
internet da tua aprovação, chequei a lista do resultado quando saiu. Comemorei contigo sem tu saber, tu
sempre quis sair daqui. Queria ter me despedido, se
soubesse o dia do teu voo, teria ido ao aeroporto.
Quanto à tua esposa, ela te trai. Alega sentir
tanta saudade da família assim ou tu não questiona
tantas viagens sozinha a Manaus por não aguentá-la
mais mesmo? Antes de ti, ela tinha terminado com o
namorado de anos, não é? Por coincidência manauara,
o Heitor e ele se conhecem e nós os vimos juntos compondo o retrato do casal apaixonado em dezembro.
Tu não seria tão menos feliz comigo quanto és mais
infeliz sem mim. Sou tua mulher ideal, mas tu temeu
o mundo, porque sou homem.
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Antonio Felipe Oliveira Rodrigues (23 de dezembro de 1991) nasceu e mora em Manaus. Tornou-se leitor
inicialmente através de histórias em quadrinhos e livros infantojuvenis. Por incentivo familiar cristão, desde criança conhece a
Bíblia e teologia. Durante a adolescência intensificou o interesse
por filosofia e literatura e a partir de então começou a escrever
textos diversos, dentre eles, contos.
Vencedor do I Concurso Livro de Graça na Praça Manaus.
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As unhas de fora
Astrid Cabral
Dona Dadá, nossa nova vizinha, chegou à cidade
acompanhada de muitas malas e móveis, um cachorrão preto e um jabuti. Parecia uma pessoa séria. Logo
descobrimos que não. Ela era mesmo era severa, o que
é bem diferente. Berrava com as meninotas que trabalhavam pra ela e, coitadas, andavam sempre assustadas.
Cara amarrada, dona Dadá não sorria nunca. A
gente desconfiava que ela não tivesse um só dente na
boca, porque sua fala era toda embrulhada. Mal dava
pra entender.
– Cambada, caba já quessa agunça. Ulha qui
num si pude nem sistiá. Bico calado, quiançada.
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Tinha cara redonda de pires e olhar duro de prego. E pose era o que não lhe faltava, por conta das
trunfas que usava, uma de cada lado da cabeça. Além
de antipática era preguiçosa. Passava horas e horas
aboletada na janela, fiscalizando a rua, os braços moles
e redondos apoiados numa almofada vermelha de cetim. Fazia questão de exibir a coleção de anéis. Só que
ao mostrar tantas pedras e ouro, mostrava também as
unhas encardidas onde o sujo punha uma risca preta.
Aos poucos foi também botando outras unhas
de fora.
Primeiro foram as mangas e goiabas que começaram a sumir de nosso quintal. Eu e as manas ficávamos
assuntando as frutas madurarem para desaparecerem
de repente, num passe de mágica, justo quando estavam ficando no ponto. Nenhuma chuva as derrubara e
a gente não dava a menor notícia de moleque invasor,
bando de curica bicando, ou macaco pulando nos galhos. Pensávamos que podia ser arte de algum morcego
faminto que aparecia de noite enquanto a gente dormia. Mas nunca se achou caroço pelo chão.
Até que numa noite de luar vimos por cima da
cerca uma vara com paneiro na ponta, a forquilha torcendo o galho onde estava a manga espada madurinha.
Ficamos assustadas com aquela visão ao longe. Seria
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coisa de fantasma? A gente guardou silêncio e ficou
à espreita, até que tudo se aquietou imóvel e a vara se
encostou na parede da casa de dona Dadá.
Um dia a cozinheira lá de casa veio avisar à vovó
que não podia deixar pronta a galinha pro domingo
porque ela fugira. Já tinha revistado tudo. Vovó só disse: – Qu’é qu’é isso, Luzia? Galinha não voa. Já compro de asa cortada.
Só que as galinhas começaram a sumir. Hoje era
a carijó ruiva, daí a dias as de pena branca, compradas
na feira já gordinhas.
Aconteceu que, certa manhã bem cedo, ainda
meio escuro, Luzia viu um vulto jogando milho num
cantinho da cerca. Mais tarde, ao varrer o quintal, deu
com o arame da cerca levantado e fora do lugar. Então, logo pensou, é por aqui que elas escapam. Pôs-se a
observar o quintal alheio e viu que na criação de dona
Dadá havia muitas galinhas de pescoço pelado. Tirando duas galinhas da Angola, as outras todas eram pirocas. Olhando melhor acabou por reconhecer quatro,
uma branca e três ruivas que haviam desaparecido do
lado de cá e agora estavam todas de pescoço depenado.
Luzia nos contou a descoberta. Achamos aquilo
um desaforo. Para nós ladrão era um ser sem cara, alguém difícil de se botar os olhos em cima. E agora ali
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estava aquela dona bem nas nossas ventas. Com certeza ela dava ordens àquelas pobres meninas para agirem
daquele jeito.
Armamos um plano. A primeira vez que víssemos dona Dadá, saindo com o marido, toda empiponada para a missa de domingo, íamos pedir licença
para apanhar nossas galinhas que haviam fugido por
baixo da cerca. Dito e feito. Bancamos as inocentes e
falamos: Bom dia, doutor Nicolau, o senhor dá licença
pra gente ir pegar nossas galinhas que passaram pro
seu quintal?
Era um homem afável, respeitado de todos. Ele
apenas disse: – Peçam às empregadas pra prender o
cachorro. Dona Dadá, de braço dado com o marido,
olhou-nos com uma cara de ódio fuzilante, mas não
abriu a boca.
Trouxemos de volta três das nossas galinhas, as
que a gente conseguiu reconhecer, porque muitas delas
já estavam há muito tempo no bucho dos vizinhos.
Tempos depois um compadre de vovô esteve
em visita lá em casa e perguntou: – Então, compadre,
tava gostosa a tartaruga que lhe mandei de aniversário? Vovô ficou surpreso, que tartaruga, homem? O
compadre foi atrás do caboclo encarregado de levar o
presente. E ele contou que quando ia chegando com
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a encomenda, uma senhora gorda na janela da casa ao
lado disse: – É aqui mesmo, moço, estou à espera dessa
bichinha.
Nossa raiva foi geral. Lidar com gente safada é
coisa por demais difícil. Ainda mais que doutor Nicolau era gente boa. Fazia festa pra meninada e, além
disso, era juiz de direito, um homem importante, mas
sem orgulho besta. Uma vítima daquela mulher falsa,
daquela megera.
A questão agora era saber que lição a gente podia dar àquela bruxa de vassoura escondida. Era difícil
pegá-la com a boca na botija. Quem podia entender
que uma dona que nem ela, com tanta posição e tantos
anéis, cobiçasse e avançasse no alheio?
O avô sempre dizia que não se podia nunca fazer
do mesmo que se censurava aos outros. Questão de coerência. Mas a mãe sempre achou que a tolerância excessiva só servia para alimentar o erro e que não se perdia
nada por tomar as providências de uma correção.
Assim, o bendito dia em que o jabuti de estimação de dona Dadá, depois de bancar tatu cavando um
túnel, deu com os costados lá em casa, perto do pé
de graviola, mamãe não titubeou. Deu ordem à Luzia
para prepará-lo com todos os temperos, sem esquecer coentro, chicória, pimenta murupi e cheiro verde,
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como se fosse uma tartaruga de verdade. Comemos
sem remorso e com bastante gosto, porque a justiça
feita sempre alegra. Nem vovô reclamou.
Seria uma ocasião para dona Dadá vir tomar satisfação e a gente botar tudo em pratos limpos, criando
uma boa vizinhança e acabando de vez com ressentimentos. Mas ela nem piou. Dessa vez quem ficou
de bico calado foi ela, pois a gente continuou fazendo
bagunça na hora da sesta.
Amazonense, Astrid Cabral é poeta e contista. Adolescente saiu de sua terra para estudar línguas e literatura no Rio
de Janeiro, onde se fixou. Neste conto, afloram recordações de
sua infância decorrida na Manaus dos anos 40, pequena cidade
ainda bem próxima da natureza.
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BR-319
Edweine Loureiro
Nauseada – uma vontade de vomitar o misto da
cachaça e do gozo daquele estranho que fora forçada
a engolir –, e ainda agachada, virou-se, para pegar os
dez reais que o homem lhe atirara ao asfalto. Enquanto
agradecia, lembrou-se da mãe:
– A senhora acha que eu vou ser bonita quando
crescer?
– Bonita? Sim, minha filha. Mas quero que essa
beleza também te traga felicidade – respondeu a lavadeira, cujos dedos cansados ainda tinham forças para
afagar os cabelos da única filha com que Deus a havia
abençoado.
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Viu o caminhão partir e, limpando dos joelhos
a poeira da beira da estrada, seus olhos fixaram-se naquela imensidão chamada BR-319. De uma solidão
infinita. Uma solidão que parecia separá-la mais que
nunca de sua hoje tão distante Manicoré.
– Vai para Manaus, sua boba! Vai ficar fazendo
o quê no interior? Lá em Manaus é que se ganha a
vida… Já ouviu falar no distrito industrial? Pois é: tem
um monte de amigo nosso indo pra lá, trabalhar nas
fábricas estrangeiras. Ou vai que tu encontra a sorte
num casamento com um rico de lá? Até com um gringo mesmo! Tu é bonita! Pretendente é que não vai faltar. Lá, dizem, tá cheio de homem endinheirado! Aqui,
teu destino vai ser arrebentar o peito e a juventude
num tanque de roupa! Que nem tua mãe, desculpa
a sinceridade! Não, menina… vai embora! Melhor:
vamos as duas juntas. Assim uma faz companhia pra
outra, nos momentos de aperto.
E, enquanto caminhava, limpando o suor do rosto com um lenço – naquele calor de mais de quarenta
graus! – lembrou-se de Ana, a melhor amiga. Haviam
ido, de fato, juntas, para Manaus. Mas Ana havia se
desviado muito, desde que se envolvera com um marginal: e hoje vagava pelas praças da capital amazonense, drogada e esquecida. Por exemplo, a útima vez que
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a havia visto, ela estava oferecendo o corpo a dois carregadores do porto, em troca de uma carteira de cigarros. Ritinha ainda tentara convencê-la a retornar para
o quartinho que as duas haviam alugado, ainda no mês
anterior, na periferia; mas Ana negou-se a acompanhá-la. Depois disso, não mais tivera notícias do paradeiro
da amiga.
– Me deixa, Ritinha. Eu não presto pra mais nada!
Vai viver tua vida, sua certinha, e me esquece – disse
Ana, empurrando-a, para, em seguida, desaparecer, com
os dois carregadores, engolidos pela multidão do porto.
O calor intenso perturbava-a, mas, ainda assim,
continuou a caminhada, enquanto buscava uma sombra para descansar.
– Vai para Manaus fazer o quê? Cair na vida? Não
foi para isso que passei esses anos todos arrebentando o
peito num tanque de lavar: para criar mulher-dama!...
Não, isso não – gritou-lhe a mãe, tossindo sangue na
bacia depositada ao lado da cama.
– Mãezinha, não diga isso. Assim, a senhora me
amaldiçoa. Não, senhora. Vou estudar. Ser gente.
Ouviu risadas. Eram motoqueiros, conversando e bebendo à margem da pista. Passou cabisbaixa,
tentando não chamar atenção. Foi quando um deles
gracejou:
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– Por que não vem sentar com a gente, belezura?
Tem lugar na garupa da minha máquina. – E completou: – Ou, se preferir, no meu colo!
Sabia que o melhor era calar-se; não reagir. E começou a andar depressa, temerosa. Afinal, não eram
poucos os casos de garotas violadas e assassinadas por
maníacos de beira de estrada. Assim, beijou a medalha da Virgem, pedindo proteção. E, naquele instante,
lembrou-se do envelope que recebera, em uma tarde
chuvosa, das mãos da dona da pensão onde se instalara
nos primeiros meses – antes que a miséria e os desenganos a jogassem pelas ruas de Manaus. No interior do
envelope, a medalha e um bilhete.
Ritinha. Espero que esta mensagem chegue a tuas mãos. Copiei o endereço que estava
no envelope da última carta por ti escrita, há
mais de um mês. Filha, tua mãe foi enterrada
ontem, depois de uma semana de convalescença.
Não tínhamos como te avisar, pois nem teu telefone sabíamos. Não te preocupa. Cuidei de tudo
e ela foi sepultada, como era o desejo dela, na
campa onde também estão teus avós. Ritinha, te
peço: volta, um dia, nem que seja apenas para
visitar o túmulo de tua mãe. Foi o teu nome
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que ela falou no momento de entregar a alma a
Deus. Horas antes, ela me fez prometer que eu
faria chegar a tuas mãos esta medalhinha, que
foi de tua avó. Como não sabia se voltaria a te
ver, a única forma que encontrei foi esta. Fica
com Deus, minha filha, e dá notícias.
Tua madrinha,
Dora.
Enxugou as lágrimas, enquanto caminhava pela
margem da pista. E, olhando para o sol que nascia no
horizonte, esboçou um sorriso. Sim, senhor, estava resolvida: trabalharia por mais algumas noites e voltaria para
Manicoré. Mais alguns clientes e teria o dinheiro necessário para a passagem de volta. E deixaria aquela vida de
riscos; retornando ao lar, como era o desejo de sua mãe.
Decisão tomada, essa era, ironicamente, a primeira vez que se sentia realmente feliz, desde que chegara à cidade-sorriso. E fechou os olhos por um instante, imaginando um futuro melhor, de volta às raízes.
Nesse momento, porém, escutou um barulho. Abriu
novamente os olhos e, virando-se para trás, viu duas
motos que aceleravam em sua direção. Foi quando Ritinha, desesperada, começou a correr.
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A perseguição durou apenas alguns segundos.
Até que as motos, desaparecendo no horizonte, silenciaram. Deixando para trás um rastro de sangue e a
imagem de uma virgem despedaçada.
Edweine Loureiro nasceu em Manaus em 1975. É advogado e professor, residindo no Japão desde 2001. Premiado no
Brasil, Portugal, Espanha e Japão (incluindo o Brazilian International Press Awards em 2013), é autor dos livros: Sonhador Sim
Senhor! (2000), Clandestinos (2011) e Em Curto Espaço (2012).
Vencedor do I Concurso Livro de Graça na Praça Manaus.
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Medo fatal
Elson Farias
Mal caía a noite, Manaus ficava silenciosa e os jovens saíam para brincar na rua. Inácio era o líder de um
grupo que vivia sempre atrás de algo novo para fazer.
Ele é quem decidia sobre as brincadeiras. Mas todos
sugeriam coisas, propondo as mais curiosas aventuras.
Os desafios os excitavam muito. Foi então que venceu
a ideia de fazer uma visita ao cemitério da cidade numa
noite dessas. Mas não podia ser uma noite qualquer,
noite de lua, por exemplo. Não queriam a paisagem da
luz prateada batendo sobre as lápides, sombreando as
inscrições sob o perfil das cruzes e das estatuetas dos
mausoléus. Uma noite assim, muito romântica, não
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servia. Para aquela brincadeira eles queriam uma noite
escura, sem lua e sem estrelas, se possível, uma noite
ameaçada de temporal, naquele momento em que a
natureza apronta-se para explodir, deixando, no ar, um
clima tétrico de expectativa mortal.
Essa noite, afinal, chegou. Tudo estava mais escuro ainda. As lâmpadas acesas nos postes pareciam
tímidos vaga-lumes. A turma correu então à porta do
cemitério e combinou a brincadeira. Quem teria coragem de entrar e atravessar o campo-santo até a última sepultura, do outro lado, junto ao muro da outra
rua? Os companheiros que eram geralmente ousados,
afrontando a tudo e a todos, recolheram-se, agora, no
mais cerrado mutismo. Ninguém se apresentou para
enfrentar a façanha. Inácio, portanto, querendo afirmar-se cada vez mais na liderança do grupo, dispôs-se
a responder à provocação.
Bem, mas para provar a realização da tarefa,
Inácio teria de levar consigo um punhal e enfiá-lo
na última sepultura. Sem maiores comentários Inácio
tomou da arma, escalou o muro e as grades do cemitério, e partiu. Estava tão escuro que, nos primeiros
passos, o rapazinho saiu tropeçando nos túmulos.
Não tinha o hábito de visitar aqueles lugares, por isso
era-lhe estranha aquela topografia, principalmente de
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noite e numa noite escura como aquela. Saiu tateando, entre os jazigos, até alcançar um caminho mais
contínuo.
A cidade terminava praticamente no Boulevard
Amazonas, que não se chamava ainda Álvaro Maia,
endereço do cemitério de São João Batista, na Manaus
dos idos de 1950. Lugar deserto, portanto, e, por volta da meia-noite, habitado só pelos sons soturnos dos
grilos, sapos, corujas e de outros pequenos animais notívagos, que viviam ciciando por ali.
O medo subia pelas pernas do Inácio que apressou os passos. As imagens das tumbas, pequenas capelas e raras obras de arte, em mármore, vidro gradeado
e mosaicos, desintegravam-se na escuridão, aos olhos
esbugalhados do rapaz.
A partir desse momento o nosso herói já não
mais caminhava, desandava em desabalada correria,
como um relâmpago entre as cruzes e as caixas dos jazigos rasos, deixando no rastro o vulto branco da camisa do Inácio que voava como bandeira de paz de uma
batalha que apenas começava, pelo destemor daquele
general, postado na linha de frente da luta, face à indisposição e à covardia dos seus comandados.
Voltemos agora à porta do cemitério para ver o
que acontecia ali.
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Os companheiros esperavam pela volta do Inácio. Tagarela, aos poucos, a garotada vai calando o
bico. Logo mais não se ouve mais nada. Inácio não
voltou no tempo esperado. Pensavam: Que terá acontecido com ele? Será que o espertalhão, após cumprir
a tarefa, escalou o muro e se mandou pelos caminhos
dos fundos, pela Rua do Beco do Macedo? Só pode
ser isso. Porque nada poderia deter o Inácio na sua determinação. Ele foi o maior incentivador dessa ideia,
acalentada no grupo por muito tempo. O certo é que
os meninos já estavam preocupados. Bateu meia-noite,
no relógio da Igreja de São Sebastião, e nada do Inácio.
Resolveram, então, voltar para casa e procurar o amigo
amanhã, para saber o que de fato lhe acontecera.
Ao amanhecer, a primeira coisa que fizeram foi
procurar pelo Inácio em casa. Os seus pais estavam
apreensivos. Já tinham avisado a polícia, pois o rapaz
não voltara da rua até àquela hora, contrariando os
costumes da família.
Os meninos contaram, então, a história da brincadeira.
Voltemos ao cemitério, na noite anterior, para
descobrir o que em verdade aconteceu.
Próximo à reta final Inácio deparou-se com
umas sepulturas recentes, ornadas de coroas de flores
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e recendendo do mau odor de velas queimadas. Na
velocidade com que ia movido pelo medo, agora
pavor, passou a ouvir sons que transcendiam aos ruídos
dos sapos e dos grilos, vozes que vinham de dentro
dele próprio. Com o sentimento de culpa de que ali
praticava um sacrilégio, em pânico, enfiou o punhal
na sepultura, de acordo com o combinado. Na pressa
com que ia, prendeu a barra da camisa que desabotoara
na ponta do punhal sobre a sepultura. No impulso da
volta teve a sensação de que alguém esticara o braço
para fora da cova e o prendera ali, causando-lhe morte
súbita.
Assim foram dar com o Inácio, fulminado pelo
medo fatal.
Elson Farias, nasceu a 11 de junho de 1936, em Roseiral,
Itacoatiara, Amazonas. Dedicou-se ao serviço público e à Literatura. Agora todo voltado para a Literatura. Possui editados 57
títulos de poesia, prosa de ficção, ensaios e infanto-juvenis. Tem
poemas selecionados em 16 antologias nacionais e estrangeiras,
com versos vertidos para o espanhol, francês e inglês. Foi Presidente da Academia Amazonense de Letras.
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O soldado da borracha
Francisco Vasconcelos
O grito do seringueiro Valdemar ecoou floresta
adentro, fazendo calar os ruidosos sons da bicharada
noturna. Cearense, acostumado à dureza dos sertões
nordestinos, aquele homem era um dos que passaram
a viver isolados na misteriosa e, para muitos, fantasmagórica hiléia, lá no “centro”, como era costume falar
das regiões mais centrais e distantes daquele mundo
sem fim da Amazônia Ocidental produtora de borracha. Para ali fora atraído pela colorida propaganda espalhada Brasil afora, o verde e o amarelo da bandeira
nacional predominando na policromia de bem elaborados cartazes; as estradas de seringa, certinhas, limpas
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de quaisquer obstáculos; as seringueiras, enfileiradas,
uma pertinho da outra, em linha reta, era só cortar.
Na verdade, riscar a madeira e logo ver o leite jorrar e
seguir o sulco aberto na casca do ubertoso caule, até
alcançar a tijelinha de flandres estrategicamente colocada a alguns centímetros abaixo. Que poderia haver
de melhor e mais certo?
Valdemar lembrava tudo aquilo com grande indignação e maior tristeza. Por que caíra na esparrela de
acreditar em tamanha mentira? Fora enganado, sim.
De qualquer modo, aquela escolha o livrara de bandear-se para o cangaço que, à época, embora já sem
força, ainda constituía atração e alguma esperança para
a moçada de seu tempo, ele, um quase adolescente
ainda. Que outro futuro poderia ter no agreste sertão
onde nascera e onde vivia?
– Vou, mãe. Vou, sim, pro Norte, lembrava-se de
como respondera às advertências maternas, feitas em
razão de outras sentidas perdas que já tivera, os filhos,
aos poucos, debandando para aquelas lonjuras do Sul,
lugares tão distantes, de onde sequer notícias lhe chegavam. Isso era o pior de tudo. Por onde andariam os
filhos? Viveriam ainda? Para Valdemar, todavia, nada
de mal haveria de acontecer-lhe. Tornar-se-ia, como
tantos que estavam partindo para a guerra, igualmente
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um soldado, “soldado da borracha”, como oficialmente eram chamados quantos demandavam os distantes
seringais para a extração do precioso látex, indispensável ao fabrico de inúmeros artefatos de guerra. Que
mais honrado lhe poderia acontecer? Até carteirinha
de identidade receberia, documento que jamais conhecera, mas de cuja serventia, também, nunca necessitara. Ganharia fama e dinheiro, sem correr o risco de
morrer atravessado por uma bala de fuzil ou estraçalhado por fragmentos de granada, sem falar no perigo das destruidoras bombas que haveriam de cair dos
aviões inimigos. Sabia muito bem que outro não seria
o fim de muitos que estavam partindo para a guerra.
Então não eram essas as notícias que corriam de boca
em boca, ouvidas diariamente no rádio da prefeitura?
Era, assim, definitiva a decisão de Valdemar. Extremamente motivado pela campanha de aliciamento
que então se fazia, chegava a orgulhar-se de ser mais
um soldado a lutar, participando do grande esforço de
guerra que então se fazia com o propósito de vencer as
diabólicas forças que ameaçavam o mundo. Por tudo
isso, iria. Sim, iria. Que risco haveria de correr? Mais
tarde, na velhice, se necessário, teria até como provar
sua condição de herói daquela guerra que tanto abalo causava à humanidade. Além do mais, se sorte não
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lhe faltasse, poderia ganhar dinheiro e voltar rico ou
bem remediado aos pagos da infância, como sabia ter
acontecido a muitos que, alguns anos antes, fugindo
do rigor das secas, haviam escolhido a Amazônia como
suporte maior de um promissor amanhã. Seus assentamentos constariam de sua emblemática carteira que,
além de registrar seus dados pessoais, indicaria o ânimo
de luta que tivera, para orgulho de seus conterrâneos
e de quantos filhos viesse a ter. Poderia, até mesmo,
como a tantos nordestinos acontecera, chegar à condição tão desejada de patrão, dono de seringais, senhor
de um mundão de terras, mais um coronel, enfim.
Fora esse o sonho de Valdemar. Sua grande saída,
não tinha a menor dúvida, era a borracha, produto,
aliás, sobre o qual pouco sabia, e que jamais vira de
perto, a não ser o que diziam ser a parte superior dos
lápis com que, na infância, apagava no caderno os erros que a professora mandava corrigir.
Ah! Quanta ilusão passeou pela cabeça de Valdemar a partir das informações constantes dos coloridos
cartazes, enganosa estratégia que o atraíra, definitivamente, ao processo de produção do tão desejado látex.
Como admitir fosse mentira o que tanto chegou a ser
oficialmente apregoado? Igualmente, jamais chegara a
imaginar que, passado o tempo e terminada a guerra,
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cessaria também a atividade a que se dera com tanto
entusiasmo.
Assim, de uma hora para outra, perdido e isolado
naquele mundo verde e, sobretudo, hostil, nem chegara
a se dar conta de que o tempo passara e que a pouco e
pouco aquele estranho mal que o atingira fora se agravando, até prostrá-lo de vez, tornando-o um ser inútil, sem qualquer serventia. Isso, sem falar na incômoda fraqueza que lhe bambeava as pernas em constantes
tremores, enfermidade que diziam ser beribéri ou coisa
parecida. Nem sabia também quantas vezes a malária o
deixara sem poder sair pro corte, o corpo moído, aquele
frio de fazer tremer a própria alma. E que dizer da conta no barracão, o débito crescendo a cada dia, a ponto
de lhe negarem até o de comer? Nada pior, porém, que
aquela dor a arrancar lá de dentro, da alma e do corpo,
o estranho e horripilante grito, após incontáveis e incômodos gemidos, um após outro, gemidos que, de algum
modo, amorteciam um pouco a terrível impressão de
que algo lhe destroçava as entranhas.
– Sossega, homem! Toma este chá – muitas vezes lhe dissera a mulher, ao tempo em que lhe dava
a beber morno cozimento de cascas de pau d´arco e
de folhas de carajuru, além de raízes e outras folhas
colhidas na floresta, receita que prescrevera o curador,
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único socorro que costumava acudir quem de socorro
carecesse por aquelas brenhas. Nada, porém, nem reza
nem promessa, fora capaz de, pelo menos, mitigar-lhe
o sofrimento.
Exatamente na noite em que ecoara aquele pavoroso grito, fazendo calar a bicharada noturna da floresta, bem longe dali, outros gritos também se fizeram
ouvir mundo afora. Esses, entretanto, eram gritos de
incontida alegria, em razão da tão esperada comemoração da vitória. A partir daquele dia, não mais haveria
dor. Tampouco a morte amedrontaria os que tanto haviam lutado. Acabara-se a guerra. A paz, finalmente,
fora alcançada, e o mal, por fim, vencido. Para tanto,
quantas mortes foram necessárias? Mas, entre elas,
ninguém cogitou de computar a morte de Valdemar,
número simplesmente esquecido, que nem sequer chegou a constar do rol dos que lutaram, como lutou ele e
quantos, iguais a ele, na condição de seringueiros, soldados da borracha, perderam a vida nos mais distantes
e agrestes seringais. De que lhe valera a caderneta que
guardara com tanto zelo? Valdemar, na verdade, nada
mais fora além de um simples número. Número errado, que jamais chegara a expressar qualquer valor,
por isso mesmo que apagado pela enorme borracha da
indiferença e do esquecimento.
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Bem distante dali, sons de heróicos dobrados
animavam os corações, em regozijo pelo fim da guerra
e num tributo aos heróis que, sob aplausos intermináveis, desfilavam garbosos.
Francisco Vasconcelos – Amazonense de Coari,
transferiu-se para Manaus ainda adolescente. Foi presidente do
Clube da Madrugada (1964/65) e pertence à Academia Amazonense de Letras. Publicou os seguintes livros: O palhaço e a rosa
(contos), Regime das águas (novela), Casa ameaçada (memória),
Meus barcos de papel (crônicas), Coari – um retorno às origens
(memória) e O menino e o velho (novela).
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André vai ao teatro
Inácio Oliveira
Quando ia começar a Voz do Brasil, o avô
aumentava o volume do rádio ao máximo e ficava
ouvindo, embevecido, a vinheta do noticiário. Durava
alguns segundos, quando começavam as notícias ele
baixava o volume outra vez. Morreu sem saber que
aquela música era a protofonia d’O Guarani de Carlos
Gomes. Muitos anos mais tarde quando André for ao
Teatro Amazonas assistir a O Guarani pela primeira
vez, ele vai se lembrar desse gesto tão simples do seu
avô. A lembrança feito pedra descerá por sua garganta,
a mulher que estará ao seu lado pensará que ele se
emociona com a exuberância do tenor interpretando
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Peri, mas André estará com os pensamentos muito
distantes. Estará numa longínqua tarde de abril. O
avô fuma um tabaco que ele mesmo plantara, longas
baforadas de fumaça se desfazem na calma azul da
tarde. Ele observa o teto donde pendem teias de
aranha. André lê num livro amarelado de capa dura
coisas que estão além da sua compreensão, ainda é
uma criança, mas já sabe que não deseja o duro destino
de um homem da várzea.
André fará qualquer coisa para que sua vida não
repita a do seu pai que por sua vez repetiu a do seu avô,
ali sentado à sua frente. Observa o rosto cravado de rugas do avô, sabe que ali se escondem histórias de uma
vida inteira. Histórias nem sempre felizes. Não entende como uma vida atravessa quase um século para dar
em nada. André lê no livro de biologia do colégio: “os
seres vivos nascem, crescem, se reproduzem e morrem”. Igual a seu avô, seu pai, sua mãe; igual a todo
mudo que ele conhece. Seres vivos, ele pensa amargurado. Mas ele não, ele não é apenas um ser vivo, ele
é diferente, sabe disso. A ideia de que é uma pessoa
diferente vai acompanhá-lo para o resto da vida, isso o
tornará um homem solitário e por vezes amargo.
A ópera já está no segundo ato, ele nunca gostou
muito de óperas, mas O Guarani provoca nele uma
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sensação que não sabe identificar. Certo desconforto,
como se algo muito íntimo seu fosse exposto. André
moldou sua personalidade para ser um homem sério
e sóbrio. Fala com convicção, tem um aperto de mão
firme e olha nos olhos de seus interlocutores, alguém
em quem se pode confiar. Incomoda-o seu embaraço
na plateia. A obra de Carlos Gomes parece ter a capacidade de conduzir André a sua ancestralidade, a um
estado de preexistência. Há algo de bárbaro e selvagem
nesta música ao qual André de alguma forma se sente
conectado.
André vê a si mesmo como numa tela crescendo em força e músculos contra o céu da sua infância.
Agora pode se dizer que André é um homem, alguém
recém-saído da meninice. Ele ainda não sabe a força
que tem, mas possui uma expressão desafiadora. Todos
os seus gestos estão comprometidos com o futuro e
tudo o que ele faz ganha um caráter de missão. Como
alguém que está morrendo, André é capaz de lembrarse de tudo: o rosto angustiado da mãe e a tristeza no
rosto do pai, um intervalo no meio disso tudo; então
eles sorriem. A resignação do avô e a intolerância da
avó, a algazarra dos primos e dos irmãos. Araras riscam
o céu da tarde, os ocasos encerram os dias e a infância
de André.
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André vai deixar para trás todas essas coisas: a
mãe, o pai e o avô; os igarapés de água fria, as árvores
e o canto das cigarras. Na verdade o lugar onde ele
nasceu e cresceu é feio e desprezível, as pessoas são
tristes e miseráveis, a vida é dura e difícil. No entanto, quando André se lembra daquele lugar é com
saudade que ele lembra, e o que é feio e miserável
lhe parece idílico e belo. André tenta se concentrar
na ópera, não entende o que se passa no palco. Certa
vez leu o romance de José de Alencar, mas isso foi há
muito tempo e ele não lembra direito do enredo, sabe
apenas que não gostou. Mesmo que lembrasse isso
não faria diferença, a adaptação do romance para a
ópera se tornou uma coisa diferente.
Mentalmente André refaz todos os passos que
fizeram com que este momento aqui neste teatro fosse possível. Na velocidade que o pensamento de um
homem é capaz ele vê cada vez que disse sim ou disse
não; cada vez que foi para a esquerda ou para a direita;
cada vez que esperou ou decidiu ir em frente. Sabe
que até mesmo as coisas mais insignificantes e idiotas
que já fez na vida contribuíram de maneira decisiva
para que ele agora estivesse sentado ao lado desta bela
mulher, vestido num terno muito justo e bem cortado
assistindo a esta ópera. Como se houvesse um imenso
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espelho à sua frente, ele vê a si mesmo e à mulher ao
seu lado, seu rosto de homem vivido e experimentado que ele estranha como se não fosse seu. A mulher
toca sua mão feliz de vê-lo comovido com a ópera. Ele
olha para ela, mas não a vê; vê outra coisa. Vê todas as
mulheres que ele um dia já amou; muitas das quais já
não lembra o nome, nem a cor do cabelo ou cheiro da
pele. Mulheres de uma noite, de um fim de semana,
ou de um mês. Tudo o que restou é uma coisa difusa e
incompreensível, essa ingratidão da memória.
A soprano que interpreta Ceci faz André lembrar-se da mãe, ele sente uma espécie de remorso cada
vez que pensa nela. As noites maldormidas para cuidar
da frágil saúde do menino que ele foi. Imagina que
expressão a mãe ia adquirir se usasse um desses vestidos que as mulheres ostentam na plateia, seu corpo
marcado de sofrimento e tristeza comportado dentro
de tanto luxo. Sua mãe que morou os últimos anos em
Manaus, mas nunca entrou no Teatro Amazonas. O
que ela acharia desta ópera? Seria capaz de se comover
com algo que jamais entenderia? André por um momento se diverte com esse devaneio, mas a lembrança
da mãe vem sempre carregada de uma antiga tristeza.
Lembra-se quando ele, ainda estudante de direito, a
viu pela última vez. A mãe forte e batalhadora, que
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criara os filhos sozinha, sem ajuda do marido alcoólatra, agora reduzida a um trapo humano num leito
do Hospital Beneficente Português. A maior tristeza
de André é que sua mãe nunca o tenha visto usando a
toga de advogado. Do pai ele não gosta de lembrar-se.
No dia da sua formatura ele estava lá, quando o abraçou seu hálito de cachaça rescendia.
André lembra-se de quando veio do interior para
Manaus pela primeira vez. Ficou impressionado com
as ruas, os automóveis e os prédios em construção.
Tantas pessoas diferentes em um só lugar. Muitas vezes, sozinho no quarto alugado, André sentiu saudades
das tardes mansas de onde viera. Sua rede preguiçosa
dava lugar a uma cama dura e mal cheirosa, ali passou noites inteiras estudando para o vestibular. Nunca
vai esquecer a imensa alegria que sentiu ao entrar para
Universidade Federal do Amazonas, cada vez que entrava na floresta do campus sentia-se vitorioso. Agora,
no teatro, ele pode ver o quanto foi difícil o caminho
que trilhou até aqui.
Está no fim da ópera, no palco música e cantores convergem para uma apoteose. André sente-se
tenso. Depois de certo tempo André adquiriu um cacoete, cada vez que está tenso ou ansioso ele esfrega o
polegar na palma da outra mão onde ainda se pode
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perceber os leves sulcos deixados pela enxada e pela
juta. André sabe que essas marcas jamais desaparecerão
mesmo que ninguém mais possa vê-las. As cortinas se
fecham. Aplausos irrompem. André afrouxa um pouco
o laço da gravata. Ao sair do teatro a mulher o acompanha, parece feliz. André observa o céu de Manaus
onde uma ou duas estrelas se insinuam na escuridão.
Neste momento André recorda uma lembrança antiga
que ele jamais esquecerá: o avô, no seu passo vacilante,
aproxima-se lentamente do rádio de pilha, aumenta
o volume e fica ouvindo, embevecido, a vinheta do
noticiário.
Inácio Oliveira nasceu no dia 13 de julho de 1989, na
cidade de Óbidos – Pará. Escreve poemas, crônicas e contos.
Seus textos foram selecionados para a Antologia Novos talentos
da crônica contemporânea e Novos talentos da poesia contemporânea da Câmara do Jovem Escritor do Rio de Janeiro nos anos
de 2006 e 2007. Entre outras antologias, foi selecionado pelo
concurso anual do SESC no Amazonas para compor a antologia
de contos no ano de 2008. É formado em Biblioteconomia pela
Universidade Federal do Amazonas e mora em Manaus desde o
ano de 2007.
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História de um vaqueiro perto do amor
João Pinto
ESTA HISTÓRIA conta a minha ânsia de vaqueiro, doído de um amor inesperado; já que a mulher
do desejo tinha fugido com outro homem talvez numa
noite na cela de um cavalo azulão.
Mas, hoje, o que conto a vocês é sobre esse amor,
de uma noite, chovia quando me encontrava no quarto
da filha do meu Padrim. O quarto dava vista ao carnaubal com a lagoa e ao redor o capim, uma maravilha
de limpar a vista.
De manhã ao nascer a vida ali, as garças, as curicas, os xexéus acordavam a gente ainda com os nossos
favos cheios de sono.
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Ao falar da Doquirinda, a dona do quarto, era
uma mulher espetacular com os seus seios portentosos,
pelos cabelos na cintura, o olho singelo nas duas cavas
da vista e as coxas bem arrumadas.
Doca era comentada por todo mundo, uma
manchete espalhada de boca a boca que alguém tivesse
lido num jornal e foi passando. Mas como sou analfabeto, deixarei o jornal sobre a mesa do patrão que só a
ele pertence.
Vou folhear as minhas páginas numa angústia,
que até hoje não consigo esquecer.
Houve um tempo que a carnaúba fez maravilha
no mundo. Meu Padrim então aproveitou o momento
para encher sua casa de pedreiros e carpinteiros e de
uma hora para outra a casa ganhou mosaicos na varanda e os tacos pelos quartos. E era numa varanda dessas
ao lado que muita gente ficava esparramado para escutar Luiz Gonzaga, numa vitrola nos discos de vinis. E,
no centro dessa gente, ficava meu Padrim especulando
a cera no mercado e por perto a filha, a moça de encantos primaveris na paisagem por todo o lado. Falava
pouco e curtia sua vida com várias gaiolas cujos cantos
assoviavam nas manhãs de domingo.
A mãe morreu numa manhã de abril quando
meu Padrim jamais pensava nessa tragédia. Mas a
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sementinha de olhos azuis sobreviveu ao parto. Cresceu
com as vitaminas da cozinha e virou um espigão de
beleza, bem definida; uma boa proposta para quem
quisesse casar, mas aparecer uma fôrma ideal para ela
que era o negócio.
Por esses tempos meu Padrim deu uma grande
festa para comemorar o bom momento da cera, o dinheiro andava fácil. E o caboco no carnaubal era disponível e mal pago. Cheio de andrajos a morar num
barracão cheio de morcegos e vida cheia de quizília.
Congregou os amigos, enviou convites, e sua
casa ficou cheia das falas, a festa durou três dias. Passaram pela mão do açougueiro dois bois, muita comida e
bebida, alguém trouxe a sanfona e o pandeiro, os casais
dançavam dentro de um luar cheio de pinga e cigarro.
O velho inaugurou um pau-de-sebo no meio do
pátio e na ponta um lenço branco com o retrato da
filha, o vitorioso que arrancasse o pano ganharia um
par de bois e um beijo da filha
A menina, criada entre cactos e as cascavéis, era
o sertão mais atraente, que qualquer rapaz nas encostas
sonhava deitar com ela para ser herdeiro de tudo. A
fazenda era um canto da fartura.
Foram tantos inscritos que o pai, num momento
de inspiração, soltou entre as pessoas que quem
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arrancasse o retrato dela teria chance de noivar com a filha.
Mas a filha descartou ao dizer em público: O pai é um
brincalhão em cheio, diverte-se por qualquer coisa, daí
ter feito o pau-de-sebo, mas não é ruim os pretendentes
sonharem comigo. E brincou que se aparecesse um
príncipe talvez a piada do pai tornasse coisa real.
Naquele dia, a festa significava o maior divertimento da gente, a nossa poesia com muita comilança.
E começa tudo. Subiu no pau-de-sebo um boçal chamado Zé Tranqueira, que tinha um bigode fino ocultado no canto da boca, vaias e assovios; subiu o Luiz
do Vale, um bonitão que só existia no chapéu-de-couro, montado num cavalo achatado cujas patas tiravam
faísca do chão, vaias; subiu também eu derretido de
paixão pela dona da festa com meus 20 anos de suor e
aboios, as vaias se duplicaram.
Aí meu Padrim conclamava mais gente para subir no pau-de-sebo. Ainda há algum rapaz? E relanceava a vista entre a multidão. Nisso surgia um cavaleiro
que ninguém dava uma peteca por ele, de jaqueta preta e calça colada. Nunca ninguém soube de onde esse
sujeito era. Eu subo, disse o enigmático apalpando o
pau. O Padrim consentiu, mas passou a fazer mal juízo
dele, Parece um maricas, maricas só gosta mesmo é de
trepar em pau.
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O Padrim ria e entornava um copo na boca, mas
o maricas parece que tinha nos pés cola arábica, colava
os pés no pau liso, subia sem demonstração de queda,
só olhava para o retrato, até o sanfoneiro deitou sua
rabeca nas pernas e espiava com interesse, e logo mais
houve aquela explosão de gritos e palmas no momento
em que arrancava com valentia o pano branco.
De repente Doquirinda viu-se amarrada à calça
colada do maricas, era bater os olhos nela e ver a sujeita que capitulava à figura estranha daquele homem.
Até os cascos do cavalo dele eram medonhos e pisavam
o chão num rumor estrondoso quando tinha aparecido de repente ao lado do pau-de-sebo.
O rosto do Padrim mudou de cor, as mãos
suavam, gritou então, Traga o maricas e os bois. Foi
quando o rapaz atravessou o pátio e foi ao alpendre,
fez um gesto de respeito ao Padrim. Desse maricas
saía um macho bem talhado que deixou Doquirinda
num peixe flechado por sorte. Ele tomou as mãos
dela emocionado e falou: Te beijar é muito pouco
para mim. O pai logo se juntou à conversa, De onde
você é, Não importa a minha origem, importa o meu
desempenho na competição, Então tome uma pinga
comigo, Pai, que modos são estes, recriminava a filha.
Não posso, bebida me deixa esquentado, também
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mande levar os bois para o seu curral de volta pois
dispenso eles.
Logo ele se ajoelhou, tomou uma das mãos da
garota e beijou, Posso falar um particular? Doquirinda
saiu de um banco para uma parte do alpendre, assim
a conversa nervosa: Topa deixar a tua família? A moça
talvez se sentiu um curió perdido com a proposta. Tremia muito. Volto de madrugada e te levo, Acho arriscado, Quem não arrisca não petisca, Mas meu pai é
homem de respeito na região, Mas chegou a hora da
tua mudança.
Essas foram algumas palavras que ouvia com
tanta raiva. Daí pra frente foi o que se sucedeu, ele
saltou no cavalo, e quando desapareceu da festa, a sua
figura esguia e apertada das roupas virou o dilema do
Padrim com toda controvérsia no ar.
A chuva se derramava nas bicas, metia a chave
na porta do quarto, grande escuridão na zona de conflito. E me lembrei da conversa que tinha tido com
dona Chagas pela manhã, a empregada deles. Você
gostava dela, vaqueiro? Eu sei, mas era um amor que
nada de certeza poderia te dar por causa da tua condição. Via dona Chagas nesse momento devolver a chave do quarto à gaveta do armário na cozinha. Foi de
lá que depois tirei. Mas dona Chagas ela fugiu, nem
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teve consideração com o meu Padrim, imagine com
um vaqueiro que nem choupana tem para morar, Ah,
isso é verdade, também não faz mal alimentar, pois
no fundo quem não alimenta não pode ser poeta.
De vez em quando os relâmpagos riscavam com
pequenas luzernas que caíam e batiam no lençol da
cama dela. Daí pra frente comecei a beijar tudo que
havia pelo quarto. Numa ânsia desmedida. E ao fazer isso cavalgava com as patas do meu cavalo atrás da
bezerra fujona. Tirei do guarda-roupa a rede dela, a
varanda tocava pelo taco, deitei-me, que sol-a-sol macia, meus amigos. Logo mais estando ali, ouvi alguém
empurrar a porta e entrar também no cenário.
Fez-se um silêncio no alpendre da casa do vaqueiro e alguém perguntava: Quem era, vaqueiro, Não
sei, Joca, mate a charada no final da história. Fiquei de
orelhas em pé. A chuva retina nas telhas.
Pulei da rede enquanto o invasor aproximava a
mão aos objetos que havia tocado. Me salvei debaixo
da cama; a respiração bem pouca e uma emoção dos
diabos. Daí ouvi uma voz bem lamentosa. Esqueceram
de fechar a porta, com certeza os dois estão brocos.
Quem estaria broco, seria eu ou dona Chagas? Eu estava ali no quarto pela primeira vez, no dia seguinte iria
deixar a casa do meu Padrim.
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O sujeito puxou o tamborete da penteadeira, depois um ruído de pinga no copo; também fumava. Daí
a pouco ele deu um soco na mesa, e começou a chorar.
Essa ingrata nem teve coração, mas você amanhã vai saber da minha notícia, só então desconfiei que era o Padrim que havia se recolhido ao quarto pra prantear a sua
desilusão. Cuidei dela desde os cueiros, lavei a bunda,
coloquei talco entre as pernas por causa das assaduras.
Depois da fuga da Doca a fazenda entrou em crise. Cada um chorava seu choro inesperado, mas o meu
era por um amor quase impossível.
O Padrim ia secando mais garrafas, tempos depois voltou da viagem fracassada. Saiu numa tarde
num cavalo cilhado, todo um cavaleiro medieval das
carnaúbas, um chapéu de palha, na cinta um revólver,
logo atrás um capanga com as munições e as provisões da viagem, em busca do seu santo graal, dizia.
Vou atrás da minha Doca. Frequentou as estalagens
desertas; o paraíso das tentativas e cobriu-se de poeira
e fome, perguntando sempre. Alguém viu essa moça?
O retrato pendurado no pescoço, Não senhor, todos
diziam, depois de vários meses voltou, como um pescador cuja tentativa do anzol nunca visgava o peixe.
A barba cresceu; virou alcoólatra. O soluço aumentava com as batidas na mesa, o copo se enchia,
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logo mais o espelho da penteadeira quebrou, vários socos na mesa novamente, levantou-se com dificuldade,
talvez troncho, ou bambo, atravessou a porta e devolvia a porta ao trinco com violência.
Lá fora a chuva batia, era ver o conjunto radiante
de uma chuva. O vulto saía, pulei de volta à rede, na
rede da Doca me encontrava casado, quem numa hora
dessas não cria uma mulher com os peitos duros e o
batom. Dormi por pouco tempo aos sobressaltos, teria
sido o pai mesmo ao violar os objetos que tanto cobiçava. Há anos eu a imaginava só minha na tela árida
do sertão com meus espinhos de vaqueiro. Grandes lágrimas me rolaram naquele momento, fechei os olhos,
agora não queria estar perto da chuva mas dentro dela.
Mais tarde acordei, o dia já clareava num céu
que tinha se salvado com a chuva, foi quando ouvi um
disparo de um rifle 44, que vinha de algum lugar da
casa, em seguida vieram os gritos pela casa, pulei da
rede e saí correndo pelo corredor. O que foi isso dona
Chagas, perguntava à doméstica com igual veneno de
espanto, Também não sei, ela me dizia, toda trêmula,
a cara mais mofina do mundo, Então vamos atrás do
Padrim lá para o quarto dele, É melhor a gente passar
primeiro pelo quarto da Doca, Não, de lá já venho,
Ah, então foi você quem tirou a chave da gaveta, Tirei
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mesmo e não me arrependo embora uma pessoa tenha entrado lá depois que entrei, E quem era, Não sei,
agora pouco importa isso, Mas o que você fez foi feio,
rapaz. Ó dona, deixa eu viver do meu jeito de homem
que ama.
João Pinto é piauiense. Migrou para o Amazonas, morou
no interior do estado. Foi professor na rede estadual de ensino ao
lecionar língua e literatura brasileira. Enquanto lecionava, escrevia seus três livros de contos: Luzes Esvaídas, O ditador da terra
do sol e Contos de uma aula no vermelho, este aborda as mazelas
da sala de aula. É casado com Elis Regina Rebelo e tem três filhos. Aposentado, nesse momento escreve seu primeiro romance
O porão de Luzilândia, obra que destaca como tema principal
o mal de Alzheimer. É formado pela Universidade Federal da
Paraíba em Letras.
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As atribulações de Jeremias
Márcio Souza
Aleluia, irmãos. Aleluia! Boa noite, meu nome é
Jeremias, bispo Jeremias. Bem, ainda não sou bispo,
mas chego lá. Em nome de Jesus. Qual a minha igreja?
Olha, pessoal, esse é o problema. Eu quero muito pertencer a uma igreja. Quero mesmo. O problema é que
as pessoas não me compreendem. Desde pequenininho que eu sonho em ser pastor, pregar a palavra do
Senhor, converter as almas desgarradas, ter o meu rebanho, ser missionário... Ah! Como seria bom! Estudei
a Bíblia inteirinha, li várias vezes, do começo ao fim. E
este é o meu problema. As pessoas dizem que eu sei
demais, que eu li demais, que tenho uma forma muito
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minha, muito pessoal, de ler as sagradas escrituras.
Quando eu completei 18 anos, fui procurar o pastor
que pregava ali na Praça da Saudade. Vocês sabem
quem é? Aquele baixinho, narigudo, de óculos fundo
de garrafa? Conhecem? Um bom homem temente a
Deus, bom pai de família. Foi muito atencioso comigo, pelo menos no começo. Ele conhece muito a doutrina, e eu acabei me empolgando. Foi assim: abri aqui
o livro e plaft, caiu no Gênesis, primeira página. É a
coisa mais difícil cair na primeira página, mas foi como
um sinal. Plaft, na primeira página. Ali, na minha cara,
o Gênesis. O começo. Bem, achei que não podia ter
outra maneira melhor de começar. O Gênesis é o primeiro dos cinco livros do Pentateuco, certo? Pentateuco! Sabem o que quer dizer? Quer dizer a “lei” ou “a
lição”. Vejam só, traduzir o Pentateuco como “lei” ou
“lição”, pode parecer certo, mas para mim a palavra
“lei” tem um sentido completamente diferente da palavra “lição”. Não acham? Será que isso não quer dizer
que os tradutores andaram se confundindo. Ficaram
mais perdidos que a Dilma com as manifestações. Daí
que eu andei pesquisando, fazendo meus estudos e
cheguei à conclusão que a palavra tem duas partes, o
Penta, que quer dizer cinco – Brasil pentacampeão –, e
Teuco, que quer dizer “tacada”. Pentateuco quer dizer
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cinco tacadas, como a nossa seleção, poxa, ta na cara!
Mas o pastor lá da Praça da Saudade discordou da minha tradução, e me mandou circular. Circulando, circulando – ele disse, em nome de Jesus, circulando. Eu
ainda disse: seu pastor, me ouça, não é verdade que o
Pentateuco foi escrito pelo Moisés? E então, será que
Moisés não merecia um penta? Ainda mais que ele foi
um escritor e tanto, capaz de contar a criação do mundo, quando ninguém tinha nascido, nem a costela de
Adão existia, passando pelo nascimento dele no Egito,
e todo o roteiro que ele escreveu pro Cecil B. De Mille
fazer aquele filme, “Os 10 Mandamentos”. O Moisés
era um escritor diferente mesmo, pois também descreve a própria morte e o próprio enterro. É, o próprio
enterro, o velório e o escambau. Mas vou logo dizendo
que o Moisés não foi o único autor que continuou escrevendo depois de morto. Tem aí a Janet Clair, por
exemplo, só pra citar uma que nem era profeta. Se o
Moisés não merece o título de pentacampeão, então
quem merece? O certo é que o Pentateuco conta tudinho desde a criação até o fim da gestão do Moisés na
governança de Israel. Todo mundo sabe que os dois
primeiros capítulos do Gênesis falam da criação do
universo em seis dias, depois dos quais Deus descansou. Bem, se ele era o todo poderoso, cansou de quê?
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Cansou mesmo? Ou tirou um dia pra umas cervejinhas e uma balada? É, porque sendo todo poderoso,
não dá pra entender como pôde se cansar. Mas o caso
é que esse descanso já deu muito rolo. A gente que é
cristão acha que o sétimo dia cai num domingo, já os
judeus dizem que foi num sábado. Para evitar confusão inventaram o fim de semana. Bem, eu ficava dizendo essas coisas ao pastor lá da Praça da Saudade e ele
me respondia: por que você não procura outro pastor?
Por que eu, em nome de Jesus? Ele era realmente um
sujeito muito gozado. E que senso de humor. Ele até se
sentou num banco e ficou mordendo a capa de couro
da Bíblia dele, quando eu comecei a analisar dia a dia
a criação. Tá escrito que Deus levou seis dias. Seis dias!
Tem político que leva bem menos tempo para se dar
bem. No primeiro dia ele criou o céu e a terra, dividiu
a noite do dia. Daí vem aquela história de que antes as
coisas estavam informes, ou seja, antes dele criar alguma coisa, já tinha coisa lá. É o que um vizinho meu
ateu chamou de paradoxo, antes de levar uma porrada
minha. O cabra teve a audácia de me dizer que era que
nem a história da galinha e do ovo: o que tinha vindo
primeiro? Não merecia levar uma porrada? Bem, deixa
pra lá. No segundo dia, Deus fez o firmamento, onde
colocou o sol, a lua, as estrelas e os pássaros. Daí veio
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os outros dias, cada dia com suas coisas sendo criadas.
E eu pergunto, pô, se ele era Deus, se era o bambambã
e tudo o mais, por que levou seis dias? Convenhamos,
é um bocado de tempo para um Deus. Por que não
estalou os dedos e zaz, a coisa tava criada, não é mesmo? Estalava os dedos e pronto. E a gente hoje só trabalhava na segunda-feira. Realmente não dá pra entender. Olha, minha gente, o pastor já tinha roído
quase toda a capa de couro da Bíblia dele, e eu fiquei
preocupado, quis saber se ele estava com fome, ofereci
um cachorro-quente. Mas ele só fazia gemer, gemer,
coitado. Eu ali, sem saber o que fazer, quando ele deu
um pulo em cima de mim, parecia ter no couro uns
cinco capetas, e agarrou o meu pescoço. E gritava: eu
vou acabar com a tua raça, seu filho de uma puta. É, o
homem tinha esse dom, sabia das coisas. Como tinha
adivinhado que a minha mãe era puta? Fiquei embatucado e com a garganta irritada uma semana. Pô, gente,
ninguém sabia disso. Eu nem sou daqui, nasci no Maranhão, mamãe era puta no Maranhão, não tinha contado pra ninguém aqui e ele me joga na cara que sou
filho de uma puta! Olha, fiquei arrasado. Sim, mamãe
era puta, mas era mais honesta do que toda a família
Sarney, que passa o tempo todo enrabando os maranhenses e ninguém reclama. É, isso mesmo! Mas eu
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não desisti, peguei a minha Bíblia e fui procurar Jesus.
Andei, andei, quase fui atropelado porque a porra dessa cidade não tem calçada. Perdão, Jesus! Daí eu vi
uma igrejinha bem pequenininha, bem ali na terceira
etapa da Cidade Nova, naquela invasão que tem o
nome da mãe de um político daqui, que dizem que era
puta, também. Sabem onde é? Ali, logo ali, você pega
o expresso no terminal da Constantino Nery, fica umas
duas horas com os nego cafungando no teu cangote e
na terceira parada depois da locadora de vídeo Deus é
Fiel, tá a igrejinha, linda linda. Missão Evangélica
Quadrangular Redonda de Jesus. É assim que está escrito. Entrei e o pastor tava cobrando o dízimo, dei o
meu último dinheiro, uns vinte centavos, e o homem
me olhou com dois olhos assim de quem tinha visto o
anjo Gabriel fazendo o que não devia. Mas eu não liguei. Sentei num banco bem do fundo e esperei a coisa acabar. Era umas dez da noite quando o pastor foi
fechar a porta do templo e me viu ali sentado. O que
aconteceu, meu filho? Ele quis saber. Nada, eu disse.
Tá tudo bem, meu pastor. É que meu sonho é ser pastor como o senhor. Acho que ele me reconheceu, lembrou dos vinte centavos e disse: cai fora, em nome de
Jesus. Um instante, por favor. É que estava lendo a
Bíblia no ônibus, antes de chegar aqui, e fiquei muito
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preocupado com a situação de Adão e Eva. O quê! Ele
berrou. Adão e Eva! Adão e Eva! O que tem Adão e
Eva? Se eles fossem depender de gente como você, de
gente de vinte centavos, teriam morrido de fome. Não
é isso, eu disse, é que sendo eles os nossos primeiros
pais e nós os seus descendentes, a coisa já começou
mal, o senhor não concorda? Concordar? Meus amigos, aquele homem tinha um pulmão. Uma voz.
Quando abria a boca parecia ter um caixa de som entalada na goela. Eu só faltava me borrar todo, tinha de
me controlar. O senhor sabe, acho que o Adão e a Eva
formavam uma família meio esquisita. Se vivessem
hoje seria um escândalo, (falando baixo) se aquilo não
era incesto! Faz sentido, não faz? Mas não para aquele
pastor. O bicho me respondia aos gritos. Só que eu
não sou de esmorecer: eles são produtos de um lar desfeito, que cresceram sem a presença maternal para
compensar a forte presença paterna. É, e que pai. Na
primeira desobediência botou os dois para fora de casa.
Até parece o meu avô, que deu um pontapé na bunda
da minha mãe quando descobriu que ela dava pra toda
a vizinhança. Adão e Eva não eram exatamente irmãos,
mas tinham uma tremenda intimidade, não é mesmo?
O certo é que quando Eva apareceu, os problemas de
pai Adão começaram. Eva ficava no pé dele para que
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trocasse a folha de parreira todos os dias, reclamava
que ele passava muito tempo dando nome aos animais.
Um dia Eva reclamou que Adão já não amava ela como
antes, e que ela estava se sentindo sufocada, necessitando um espaço só para ela, e coisa e tal. E olha que eles
ainda nem tinham comido da fruta proibida. Aliás,
falando da fruta proibida, Deus deu ordens a Adão e
Eva que não comessem os frutos da tal árvore do bem
e do mal, ou eles morreriam. Vejam só que péssima
psicologia. Será que ele não sabia que proibir alguma
coisa para uma criança é tornar aquela coisa irresistível? Vocês vão concordar comigo que tem aí uma daquelas boas armadilhas teológicas, não tem? Aqui Deus
é quase sempre chamado de Deus Pai. Não seria melhor chamar de Deus, o Criador? Afinal ele não era
exatamente um pai no sentido biológico do termo,
pois não fazia como aqueles deuses do Olimpo grego,
como Zeus, que não podia ver rabo de saia que já saia
azarando. Tá bem... tem aquele caso com a Virgem
Maria. Mas não creio que se possa dizer que aquilo
teve a ver com sexo. Afinal, a definição de sexo é aquela que diz que se trata de um ato consensual entre
adultos, em que ambos percebem o que está acontecendo e lembram-se depois. Acho que se alguém
perguntasse pra Maria como ela engravidou – aliás,
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pergunta que o José deve ter feito um monte de vezes
– vai ver que ela responderia que Jeová não era exatamente um amante no bom sentido terreno, já que ela
só se deu conta do acontecido quando o anjo anunciou o feito. Eis o nosso Deus, onisciente, onipotente
e ausente. Pois bem, eu tava falando esses leves comentários à margem do Gênesis, quando eu sinto um troço
desabar na minha cabeça. Era o pastor querendo fazer
a minha cabeça ficar quadrangular, tascando um pedaço do tabernáculo na minha cuca. Fiquei meio zonzo e
desabei. Acordei na cadeia com um cara me sacudindo
e dizendo: aleluia, irmão, abre os olhos para Jesus.
Márcio Souza nasceu em Manaus, em 1946. Aos 14 anos,
começou escrevendo críticas de cinema para um jornal local,
e em 1965 foi estudar Ciências Sociais na USP. Seu primeiro
romance, Galvez, imperador do Acre, foi um enorme sucesso de
crítica e de vendas. Outros romances, ensaios e textos teatrais
foram lançados com o mesmo impacto. É também roteirista e
diretor de cinema, dramaturgo e diretor de teatro e de ópera.
Atualmente, dirige o Teatro Experimental do SESC - AM
(TESC-AM), grupo teatral pioneiro na luta pela preservação da
Amazônia.
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Mana Manaus
Maria Elisa Souto Bessa
Era uma vez uma linda cidade no meio da maior
floresta do planeta, cortada por pontes e igarapés de
águas cristalinas. Homens e mulheres elegantes desfilavam em suas ruas limpas e arborizadas. Crianças
brincavam soltas, tranquilamente, com a vizinhança.
Meninos empinavam papagaio, jogavam pião, andavam de bicicleta sem medo de serem atropelados. Meninas arrumavam suas casinhas de boneca na entrada
da casa de portas abertas, sem riscos de serem sequestradas. Todos se divertiam pulando corda e amarelinha,
que na época se dizia “pular macaca”. A vida era como
um longo rio tranquilo. Aos domingos, os “banhos”
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públicos eram o divertimento das famílias. Saíam de
casa, de mala e cuia: peixe, farinha, gelo, bebidas, pratos, copos e colheres, redes etc. Passava-se o dia inteiro
brincando dentro d’água, comendo peixe assado na
brasa, jogando bola, subindo em árvores, saltando dos
galhos, colhendo frutos das árvores: buriti, açaí, ingá,
maracujá do mato, jatobá, sorva etc. Aproveitava-se
das límpidas águas e do sol até desaparecer o último
raio de luz sobre a mata cerrada que iluminava o caminho de volta.
Quando não iam aos banhos, iam ao “cinema
das 4” (matinê) ou aos domingos de manhã à “matinal
das 9”. À noite os jovens, moças e rapazes organizavam as chamadas “brincadeiras” - pequenos bailes em
casas de família - para ouvir música e dançar ao som da
eletrola, com discos de vinil.
As pessoas moravam no centro da cidade, até
porque os poucos bairros que existiam eram praticamente no centro. Havia uma linha do bonde, cujos
trilhos atravessavam as ruas de paralelepípedos, hoje
escondidos sob camadas de asfalto.
Ao cair da tarde era comum se ver as pessoas
sentadas em cadeiras de balanço nas calçadas das casas,
conversando com amigos e familiares até a hora do
jantar. E nas noites de lua cheia, as rodas de violão
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entravam pela madrugada adentro, principalmente
nos fins de semana. E quando os rapazes queriam
conquistar uma pretendente, faziam serenatas sob a
janela do seu quarto, no meio da noite, com o risco de
receberem água ou algo menos inodoro, enviado pelos
pais das moças.
Assim era Manaus nas décadas de 1950/60.
Quando a família de Edvaldo se mudou para o
bairro novo ele tinha oito anos de idade. Gerardo, seu
irmão, já ia fazer sete.
A casa ficava em um conjunto residencial que
tinha acabado de ser construído. O bairro era deserto e poeirento, isolado do resto do mundo. Não havia televisão, nem telefone, nem mesmo luz elétrica.
A casa era iluminada por uma espécie de motor de
luz que funcionava das 7 às 9 da noite. Depois, só
lampiões, velas ou lamparinas a querosene. Com
esse tipo de iluminação não se podia ler muito, então as crianças se divertiam com jogos de luz e sombra. Com as mãos, faziam formas de animais que se
projetavam na parede. Às vezes escutavam música
no rádio a pilha. Às vezes, quando tinha mais gente,
principalmente meninas, brincavam de roda, corre-corre macuchila, caí no poço, esconde-esconde e
outras brincadeiras coletivas.
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Como as noites eram frescas, apesar do clima
tropical, os pais costumavam acender fogueiras no
quintal, que serviam tanto para se aquecer quanto para
clarear o ambiente. Às vezes contavam-se histórias de
assombração ao redor da fogueira... A cada história as
crianças iam chegando mais perto dos pais... E fechavam os olhos e se assustavam com as sombras das árvores e o com o piar da coruja. Ninguém tinha coragem
de se levantar dali nem pra fazer xixi. Mesmo morrendo de medo, pediam pra contar outra e mais outra e
mais outra... Conclusão: na hora de dormir, iam todos
para a cama da mamãe!
Durante o dia, o único barulho que se ouvia era
o do ônibus de madeira, pintado com cores extravagantes, que circulava no bairro a cada duas horas. A
casa ficava quase no ponto final da linha, que sem dúvida, era também o ponto final do mundo! O bonde
não chegava até lá.
Havia poucas casas habitadas no conjunto. Mas
como eram famílias numerosas tinha criança de tudo
que era idade. As outras casas permaneciam vazias e
sem chaves, à disposição da meninada que brincava
de esconde-esconde e outras brincadeiras, em noite de
lua cheia. Além do conjunto em que moravam viamse apenas alguns casebres, espalhados, quilômetros de
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distância entre um e outro. Para quem estava acostumado a viver no centro da cidade, o lugar parecia mágico! Um silêncio absoluto reinava naquela espécie de
vale sem montanhas, interrompido, ora pelo canto de
toda espécie de pássaros, ora por concertos, em duas
vozes, de sapos e cigarras, à boca da noite. À noite, o
pisca-pisca dos vaga-lumes iluminava os caminhos secretos que os levavam a lugar nenhum. Fazia quase frio
de madrugada. Os meninos pareciam felizes, vestidos
em seus pijamas de mangas compridas, especialmente
confeccionados para serem usados na casa nova.
Antes eles moravam num casarão antigo que alugavam no centro histórico da cidade. Lá havia pelo
menos uma dezena de cômodos: quartos, banheiros,
copa e cozinha, sala de jantar e um imenso corredor
onde se passeava de bicicleta. No final do corredor, depois da copa, ficava o terraço (onde o pai tocava bandolim, todos os dias, ao cair da tarde). No fundo havia
um enorme quintal, cheio de árvores frutíferas, entre
elas uma mangueira centenária.
A casa nova, ao contrário, era pequena, com
apenas três quartos, uma sala, cozinha, banheiro e um
pequeno hall de entrada. No entanto, havia bastante
terreno ao redor e todo o resto do bairro. A rua pertencia a eles, como uma extensão da casa. E do outro
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lado da estrada de poeira era a floresta, mata virgem
e misteriosa: o paraíso proibido ao alcance das mãos.
Hoje é um bairro movimentado, barulhento e
poluído, e as crianças não brincam mais nas ruas. Os
piões, os papagaios e as bicicletas foram substituídos
por i-pads, i-pods e videogames. Não há mais calçadas para as cadeiras de balanço, que se contentam em
embalar por detrás das grades de ferro e portões a cadeado.
O centro da cidade está entregue aos camelôs e
vendedores ambulantes, onde a comilança corre solta
sem as mínimas condições de higiene.
Às 8h30 da manhã, subindo a Avenida Eduardo Ribeiro, um pipoqueiro mija descaradamente no
muro do Teatro Amazonas, patrimônio arquitetônico
e cultural-mor da cidade. Homens e mulheres, não
tão elegantes como antigamente, caminham apressadamente pelas ruas desviando de “lanches” fincados
nas estreitas calçadas descalças e dos incontáveis automóveis estacionados dos dois lados das ruas. Camelôs
desenrolam suas barracas amarradas em grandes plásticos imundos, ironicamente azuis e vermelhos, quando
as cores ainda permanecem visíveis.
Manaus amanhece com seu mormaço de 30° à
sombra, quando tem. As árvores foram trocadas por
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ar condicionado, asfaltos e estacionamentos. Os límpidos igarapés se transformaram em depósito de lixo e
esgotos a céu aberto, pedaços de isopor, sofás e geladeiras e, predominantemente, uma infinidade de garrafas
plásticas, um verdadeiro igaraPET.
Assim é a Manaus século XXI. Mana Manaus,
agora você rima com caos.
Maria Elisa Souto Bessa, amazonense desde os seis
meses de idade, nasceu, por acaso, em São Luis do Maranhão.
Fez bacharelado em Administração na Universidade Federal
do Amazonas, licenciatura e Mestrado em Linguística na Universidade de Toulouse (França) e Doutorado em Literatura na
Universidade de Grenoble (França). Lecionou língua e literatura francesa na graduação e literatura brasileira no Mestrado
em Letras da Universidade Federal do Amazonas. Atualmente
dedica-se à produção literária e às artes visuais (cinema, vídeo,
animação), tendo assinado roteiro e direção de doze curtas-metragens, em vídeo.
Vencedora do I Concurso Livro de Graça na Praça Manaus.
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Manaus Moderna em três tempos
Neuton Correa
Domingo, após deixar o 422, para repetir o que
faço desde que cheguei à capital (pegar encomenda no
barco e receber gente querida), flagrei-me filosofando
sobre o tempo. Imaginava que o tempo era coisa da
cabeça do homem. Ocorreu-me isso depois que passei
a observar cenas, cenários e personagens que habitam
a Manaus Moderna. Nada diferente do que vi no dia
16 de novembro de 1989, quando a Manaus Moderna
ainda era a Manaus Antiga.
Antes de seguir a narração, convém um parêntese para um registro histórico. A Manaus Moderna
chamava-se Porto da Escadaria dos Remédios. Por ali,
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desde o século 19, também desembarcou parte da riqueza explorada da floresta e do povo da região para
ostentar o luxo dos senhores e senhoras da borracha.
Pois bem, naquele dia, não havia entrado em
nenhum portal do tempo nem mesmo imaginado
coisas, mas o passado ainda permanecia presente: um
homem, de cócoras, banqueteava-se ao lado de uma
lixeira de cheiro insuportável para muitos. Do outro
lado da montanha das sobras da feira, uma mulher de
cabelos brancos, com uma criança de vestido encardido, catava cebola, tomate e repolho para colocar em
um carrinho de mão.
Na beira do rio, oito homens, velhos e jovens
que discutiam entre si, colocavam lenha em uma fogueira que cobria com suas labaredas uma panela de
pressão mais preta do que o Negro do rio que passava
a dois metros deles. Enquanto aguardavam a comida,
revezavam-se na boca de uma garrafa de aguardente.
Um pouco mais distante, sentado, um homem
tomava banho nas águas grossas de lixo jogado pelos
barcos que atracam naquele porto. Ele escondeu as
intimidades até onde pôde, mas, ao deixar o rio,
teve que exibir a nudez para vestir a mesma roupa
que tirou antes de entrar na banheira. Assim que
penteou os cabelos, pegou as muletas e foi-se juntar
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ao bando de bêbados que cercava a panela e a garrafa de Corote.
Tentei ouvir o que os “orelhas secas” (assim
eles são conhecidos) discutiam, mas entre eles e
mim, que estava no parapeito de uma das escadarias
enferrujadas, um caminhão atolado na lama do esgoto roncava alto. O motorista tentou de tudo, mas
desistiu. Bom para os carregadores contratados para
substituir com tração humana o que os motores fariam com pouco esforço.
O atoleiro do caminhão também foi bom para
um rapaz que se peava com mochila, cintos e colete
cheios de bolsos e uma câmera fotográfica como um
canhão apontado para os homens que, lentamente, escalavam as rampas íngremes carregados de sacas e mais
sacas de macaxeira. O fotógrafo mirou e clicou de todo
jeito e ainda pediu um sorriso dos carregadores, que
riam, mas talvez da atitude do retratista.
O navio motor Novo Aliança (em que vinham
minha irmã, minha farinha baguda e alguns amigos),
previsto para atracar às 9h, já estava atrasado e, quando eu estava para perder a paciência, uma moradora do
porto sai debaixo de uma tenda de papelão, gritando
com alguém que acabara de lhe importunar: “Sai daqui, animal, tu quer é pegar HIV!”
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Antes de receber a embarcação, que já estava
aportando, por reflexo, olhei para as ruínas da arquitetura inglesa do mercado Adolpho Lisboa e vi o nome
de uma loja que poderia ser a definição do lugar: “Casa
fim do mundo”.
***
Da estação de ônibus da Matriz, no Centro, já se
podia observar o navio atracado no cais. Não dava para
vê-lo inteiramente, mas, pelos botes salva-vidas pendurados a boreste e mastros com duas bandeiras estrangeiras que ultrapassavam o telhado dos armazéns do Porto
de Manaus, podia-se concluir que um novo grupo de
visitantes havia acabado de desembarcar na cidade.
Tive a certeza da presença estrangeira, assim que
o 422 parou em frente à estação hidroviária. Os turistas ainda desciam a rampa que dá acesso ao setor
de embarque e desembarque. Eram jovens falantes, de
olhos espichados, tomando os ônibus que os aguardavam no estacionamento, e gente de pele avermelhada,
senhores e senhoras de cabelos brancos, que ficaram ali
mesmo pelo Centro.
Naquela manhã de domingo, havia ido ao porto
para esperar meus pais, que também desembarcariam
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ali, não do Cruzeiro, mas do Novo Aliança, que vinha
de Parintins cheio da caboclada. O problema é que o
Anel de Noiva, que geralmente chega às 9h, já estava
atrasado uma hora. Então, resolvi fazer dos turistas minha atração. De longe, passei a segui-los, curioso para
captar de seus olhares e gestos a impressão que tinham
da cidade.
Não adiantaria chegar mais perto: primeiro,
poderia incomodar os visitantes; depois, não entenderia nada, mal arranho o português. Aliás, ainda
tentei captar o idioma com o qual se expressavam,
no entanto quase nada eles falavam. O que se ouvia
mesmo era o tradutor, que mais balançava os braços
do que falava.
Por causa disso, pude perceber a distância as coisas que ele mostrava. A igreja de Nossa Senhora da
Conceição, por exemplo, foi a primeira atração apresentada. De lá, o tradutor conduziu o grupo de velhinhos branquelos para o prédio da Alfândega e depois
para o Relógio Municipal da Eduardo Ribeiro.
Da posição em que eu estava, seria possível notar
o brilho dos olhos verdes e azuis, porém não consegui
notar neles nenhuma expressão de encanto. Pareciam
pedras de gelo se movendo intactos sob o calor dos
trópicos. A frieza dos visitantes aumentou em mim a
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vontade de poder ouvi-los. Por alguns instantes, até
imaginei que o coração deles estivesse nas máquinas
fotográficas que carregavam no pescoço, já que o clique que faziam era a única coisa que deles brilhava.
Pensando nisso, desisti de segui-los. Eu fui rumo
à Manaus Moderna à espera do Novo Aliança e eles
subiram a Eduardo Ribeiro. Supus que estivessem a
caminho do Teatro Amazonas. Afinal, vir a Manaus e
não conhecer o prédio símbolo da exploração do leite
dos caboclos e arigós do tempo da borracha é a mesma
coisa que ir a Roma e não acenar para o papa.
Mas eu estava enganado. Descobri isso quase
uma hora depois, quando estava à beira do rio Negro,
sugando a terceira latinha ao lado de uma caixa de
isopor. Não fui eu quem notou a presença dos turistas por ali. Foi a dona da venda, uma senhora com
parcos dentes, que cobria a cabeça com uma touca
rubro-negra, com um urubu bordado à frente, que
me cutucou:
– O que essa velha vem fazer aqui?
Olhei para trás e vi a cena que já tinha visto antes. Ela estava apontando para uma mulher fina como
uma tala de papagaio, com a coluna ondulada como
costas de camelo, que caminhava curvada para o chão
e chutando a perna direita.
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Em seguida, quando o tradutor olhou para as ruínas do mercado Adolpho Lisboa e começou a falar, a
vendedora de água e cerveja começou a traduziu para
mim a conversa:
– Ele está dizendo que o mercado foi destruído
pelo prefeito que passou e que o atual não tá nem aí.
Por isso, esse prédio, construído pelos parentes de vocês (dos ingleses), está se acabando.
Ri da imaginação da tradutora e pedi mais uma
lata d’água.
***
Para captar melhor o cenário, tentei anotar quadro
a quadro, mas, no mesmo instante, ouvi que importunava os moradores do lugar: “O que é, filho da puta? Nunca
viu?”. Virei para trás e localizei o protesto: era uma mulher que vestia um sutiã vermelho, esgarçado, sentada ao
lado de uma fogueira que assava duas matrinxãs.
Assim que fiquei de frente para ela, levantei as
mãos e as baixei colocando a caderneta no bolso de trás
da bermuda e a caneta, na gola da camiseta, pedindolhe desculpas. Entendia que a boca da ponte que engole carros, caminhões e gente de todo tipo é também o
mundo para um grupo de pessoas que mora ali.
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Ela não foi a única a reclamar. Notei isso quando outro morador, que dormia sobre caixas de isopor,
despertou-se com os gritos da mulher. Ainda deitado,
ele olhou sonolento para mim; rolou; e, debaixo da cabeça, tirou um embrulho que lhe servia de travesseiro;
e, de lá, puxou uma garrafa PET, ajoelhou-se contra o
paredão da ponte, arriou o cós dianteiro da bermuda e,
depois de algum tempo, enroscou a tampa da garrafa,
embrulhou o travesseiro novamente, afofou-o e o agasalhou sob sua cabeça.
Mas nem tudo era hostilidade, ainda mais na
banca de venda de doses de cachaça, a dez metros de
onde a mulher berrava. Lá, quase fui recebido com festa. Ganhei até o olhar faceiro de uma morena vaidosa
que enfeitava os braços com pulseiras de miçangas coloridas. Não sei se a recepção foi porque pedi um gole
de cinquenta centavos ou porque todos ali já estavam
embalados. Talvez nem uma coisa nem outra.
Talvez todo mundo seja bem tratado por ali.
Quem sabe não foi esse tratamento que fez o Francisco
de Assis da Silva, 62, trocar a vida de uma casa, o calor
da mulher e dos filhos, pela umidade debaixo da ponte. “Eu era casado e tinha sete filhos: um morreu e os
outros seis me abandonaram”, contou-me Francisco,
depois de me queixar uma dose. O Francisco contava
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sua história como se há muito estivesse esperando alguém para falar de sua biografia.
Deves, agora, estar duvidando que eu não tenha
perguntado nada, mas é verdade: não perguntei nada
a ele. Nem anotei. Mas ainda hoje lembro-me de que
o Francisco nasceu no dia 12 de agosto de 1948, no
Município de Tefé. Veio para Manaus, quando tinha
12 anos. Aqui casou e formou duas famílias, incluindo
a da ponte. Voltou a Tefé nas eleições de 2002, mas só
para votar: “Fui votar no Lula. Hoje ele não precisa
mais do meu voto”.
Enquanto conversava com o Francisco, apareceu
outro morador da ponte. Também queria uma dose,
porém achei que ele não suportaria nem cheiro de
aguardente.
O bêbado desistiu e o Francisco não perdeu
oportunidade. Relatou-me que sua vida foi marcada
por um acidente quando trabalhava como marinheiro regional: “A proa bateu no meu peito. É por isso
que tenho o peito aberto”. Quando ele ia me contar
o que aconteceu, outro morador dali apareceu. Era
um homem de óculos de grau, vestindo uma camisa vermelha e usando chapéu de palha. Chamei-o de
“Jonas Boca de Ouro”. A dentadura dele era toda assim: cheia de ouro. Também não lhe perguntei nada,
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mas logo ele disse: “Eu vendo peixe aqui na ‘Boca da
Onça’”.
– Boca da Onça? Esse é o nome deste lugar? –
perguntei.
– É, aqui é a Boca da Onça e não me pergunte
o porquê.
Nessa hora, minha mulher, que retornava da Feira da Manaus Moderna, puxou-me pelo braço e disse:
“Vamos, senão tu não vai conseguir subir no ônibus”.
E assim aconteceu.
Neuton Correa – jornalista, natural de Parintins, tem
dois livros de publicados: Entrelinhas e A poesia do Homem
Cavalo. Sua matéria-prima é a cidade de Manaus.
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Cruzeta é cruzeta, em Manaus e
em Portugal
Pedro Lucas Lindoso
Mano Velho é um caboclo manauara daqueles
que se ufana da nossa cidade sorriso. E olha que é razoavelmente bem viajado. Morou uns tempos no Rio
de Janeiro. De tanto falar em nossa terra foi apelidado
de “Manaus”. Conhece a Isla Margarita e outras do
Caribe, como muitos por aqui. Claro, Mano Velho já
foi também a Miami. Mas é categórico. Não troca nenhuma dessas cidades por sua querida Manaus.
A grande novidade é que Mano Velho foi exercer
sua pavulagem viajando para Portugal. E apaixonou-se
por Lisboa. De hoje em diante Portugal é seu destino
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de eleição! Filho e neto de portugueses, encantou-se
com a terrinha. Principalmente com as diferenças do
Português de Manaus com o falado em Lisboa.
Tudo para Mano Velho lembrava seus falecidos
pais e avós. Pegou o voo TAP PORTUGAL em Fortaleza. Em pleno Atlântico, ao começar as turbulências,
uma jovem portuguesa comenta: Isso vai abanar! Sussurrou para Manazinha, sua esposa, Viu? o avião abana
e não balança. Mantenham os cintos apertados. Para
aterrar e descolagem, endireitar as cadeiras do avião. No
Brasil coloca-se na posição vertical. E a tripulação chama a aeronave gostosamente de avião.
No aeroporto, após aterrar em Lisboa, pegou seu
casaco na bagageira. Depois da Imigração sua maleta
encontrava-se num dos tapetes do aeroporto. Porque
esteira aqui é para usar na praia. Ainda no aeroporto,
Mano Velho e Manazinha tomaram um sumo de laranja, com palhinhas,os canudinhos em Portugal.
Fim de tarde. Hora de ponta em Lisboa. Chamase o taxista na paragem de táxi. Mais adiante o motorista dá aquela freada. Desculpem-me senhores, mas
tive que usar o travão. Manazinha pergunta o que é
travão. E Mano Velho lembrou-se de seu tio Quincas,
que só usava travão, ao invés de freio. Para ele trem era
comboio, trilho era carris, crianças eram os miúdos, que
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gostavam de chupa-chupa, que em Manaus é pirulito.
Fogo é lume! E meias eram peúgas!
Mano Velho aprendera com seu pai que existem bebidas espirituosas e bebidas alcoólicas. Estas,
que no Brasil chamamos de fermentadas, são proibidas para menores de 16 anos. E aquelas, as destiladas, para 18 anos. E ainda, whisky 8 anos é whisky
novo e o de 12 em diante, whisky velho. Os portugueses são maravilhosos.
Não se volta de Lisboa sem conhecer o castelo
de São Jorge. Como dizem os jovens portugueses, o
castelo é um giro. Very nice, para os gringos.O pastel
de Belém é um dos doces mais famosos de Portugal,
também conhecido como pastel de nata. Mano Velho
aproveitou. Comeu tantos que lembrou-se de sua tia
Joaquina; que dizia: Fartei-me de comê-los! O Mosteiro dos Jerônimos, em estilo manuelino, é testemunho
monumental da riqueza dos descobrimentos. Nesse
dia, chovia a cântaros. Mesmo ensopados, visitaram a
Torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos. Valeu
a pena. Ao final do dia Mano Velho tomou um delicioso caldo verde e vinho português do Douro, que
ninguém aqui é parvo, ou leso, como diz o manauara.
No dia seguinte atravessaram a ponte 25 de Abril
para ver a estátua do Cristo Rei. Sem querer fazer
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afirmações de ânimo leve ou seja, levianas, Mano Velho
acha que os portugueses fizeram o Cristo Rei com inveja
do nosso Cristo do Corcovado. Ora pois pois, ficou
um sítio muito giro. Na visita, Manazinha recebeu uma
ligação de Manaus em seu telemóvel. Ficou espavorida,
mas graças a Deus estava tudo bem por aqui.
Visitar os mirantes de Santa Luzia, Nossa Senhora dos Montes e Portas do Sol e ver as colinas de Lisboa
por esses miradouros, como dizem, é muito giro! No final do dia Mano Velho foi conhecer o Parque Eduardo
VII, o maior do centro de Lisboa, em homenagem ao
rei Inglês. Havia uma tripla de gajos suspeitos. E lembrou-se de que onde há turistas há carteiristas. Mano
Velho foi advertido a ter cuidado com os carteiristas,
mas roubo por esticão eram raros. Graças a Deus. Fazia
calor. Manazinha e Mano Velho saborearam um delicioso gelado de ananás, porque sorvete de abacaxi só
tem na sorveteria Glacial de Manaus.
Ah! Vir a Lisboa sem uma noite de fado na Alfama seria um falhanço. Manazinha comprou um par de
sapatos de tacão, vestido novo e pintou as unhas com
verniz vermelho. Estava linda. Mano velho pensou;
Quando estiver reformado, quer dizer aposentado, vai
morar uns tempos em Lisboa. E Manazinha vai ter que
aprender a demolhar o bacalhau!
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E foram parar na Alfama. Apreciar um fado vadio,
jantar e tomar um bom vinho do Douro enquanto o
fado ecoa. Quando a fadista cantou “Mouraria”, Mano
Velho lembrou-se de seu velho pai e chorou. Manazinha
disse que ia contar aos miúdos em Manaus. Ah é? Vais
fazer coscuvilhice, porque fofoca é coisa de brasileiro.
Cardápio em Portugal chama-se Ementa. Manazinha
escolheu Sopa alentejana como entrada e Mano Velho
sugeriu Bacalhau à Zé do Pipo como prato principal.
Mano Velho foi advertido a não pedir farinha nem pimenta murupi, pois bacalhau não é pirarucu. A sobremesa escolhida foi ovos moles d’Aveiro. Como estava
tudo uma delícia, Manazinha quis ter as receitas. Mas
não foi possível obtê-las pois eram segredos da casa.
Foram também a Sintra, e lá Manazinha viu um
lindo vaso de samambaia, que na terrinha se chama fetus. Mas desistiu de comprá-las. Não iria correr o risco
de fintar a alfândega e pagar multas no Brasil.
De volta ao hotel, Manazinha precisou de mais
uma cruzeta. No Rio de Janeiro e em São Paulo todos
chamam cruzeta de cabide. Manazinha lembrou-se de
uma amiga em Brasília que se riu ao ouvi-la pedir uma
cruzeta. Como será que os portugueses chamam cruzeta? Mano Velho foi enfático: Cruzeta é cruzeta em
Manaus e em Portugal. Ora, pois, pois.
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P.S. Mano Velho não sabe como, mas Manazinha retornou para Manaus com as três receitas da Ementa da
Casa de Fados de Lisboa. Vejamos:
Sopa alentejana (açorda)
Ingredientes
1 molho de Coentros
2 dentes de Alho
4 Ovos
Pão alentejano ou de 2ª, duro
Água e sal
2 colheres de sopa de vinagre.
Preparação
Ponha ao lume cerca de litro e meio de água com
sal. Descasque os alhos, corte o pé e lave rapidamente os coentros, que perdem aroma com lavagens demoradas, meta alhos e coentros no almofariz com um
pouco de sal grosso e esmague até ficar uma pasta. Se
quiser despachar o assunto, faça-o no copo com a varinha, aqui sem o sal, e com um pouco de água para
ajudar. Quando a água da panela ferver, apague o lume
e deite na panela os coentros e os alhos moídos. Deixe
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infundir. Entretanto, ponha numa panelinha à parte
água com sal e o vinagre, com uma altura de cerca de
três dedos e deixe ferver. Apague o lume e deposite
nesta água, com todo o cuidado, os ovos previamente
abertos para uma chávena de café, um a um. Tape e
deixe ficar assim. Corte o pão em pedaços, em falha,
de modo a que todos os pedaços tenham côdea e miolo, para dentro de uma terrina, tendo em atenção que
vão aumentar de volume. O pão não deve ultrapassar a
meia altura da terrina. Regue com um fio de azeite virgem. Despeje a água onde infundiu os coentros, bem
quente sobre o pão e deixe ensopar, ajudando com
uma colher de pau, se necessário. Verifique o estado
dos ovos que devem estar com a clara totalmente cozida e dura, mas a gema ainda mole, cremosa. Tire-os e
disponha-os sobre o pão. Sirva logo.
Bacalhau à Zé do Pipo
Ingredientes:
1 lombo de bacalhau
2 cebolas médias
1 litro de leite
4 colheres de sopa de azeite
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1 folha de louro
sal e pimenta q.b.
1 tigela de maionese (feita com 2 gemas e 4 dl
de azeite)
750 grs de batatas em puré
azeitonas pretas
Preparação
Depois de bem demolhado, corta-se o bacalhau em postas. Leva-se a cozer com leite. Entretanto, picam-se as cebolas e levam-se a estalar com
o azeite, o louro, sal e pimenta e um pouco de leite
de cozer o bacalhau. A cebola deve ficar branca e
macia e nunca loura. Depois de cozido, escorre-se
o bacalhau e coloca-se num recipiente de barro ou,
o que é preferível, cada posta num recipiente de
barro individual. Deita-se a cebola sobre as postas
de bacalhau, que depois se cobrem completamente
com a maionese. Contorna-se com o puré de batata passado pela seringa ou saco e leva-se a gratinar.
Enfeita-se com azeitonas pretas. Receita de uma
célebre casa de pasto que existiu no Porto a cujo
proprietário davam o nome de Zé do Pipo. Embora
levando maionese, esta receita faz parte da culinária
tradicional do Porto.
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Ovos moles d’Aveiro
Ingredientes
500 g de açúcar;
30 gemas de ovos;
300 ml de água.
Preparação
Levar o açúcar ao lume com 300 ml de água.
Deixar ferver, sem mexer, por mais ou menos um
quarto de hora (contar o tempo assim que começar
a ferver), até dar ponto de cabelo (ponto de cabelo é
quando escorrem fios finos e estaladiços da colher).
Tirar do lume e deixar esfriar. Separar as gemas das
claras e rebentar as gemas com uma faca, NÃO SE
DEVE BATER. Juntar as gemas na calda de açúcar.
Levar ao lume até obter a consistência desejada. Não
se deve mexer em círculos, mas sim em movimento de
vai-e-vem e de um lado para o outro. Se desejar, no
final pode-se juntar um pouco de canela.
Pedro Lucas Lindoso é amazonense, advogado e
licenciado em Letras pela Universidade de Brasília. Em 2008
recebeu o Prêmio Literário Cidade de Manaus. Em 2009, Prata
da Casa PETROBRAS, com premiação em conto e poesia.
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Contemplado com a Bolsa Literária FUNARTE, publicou, em
2012, o romance Oremos pela Guerra – Manaus de Chopin e
Mussolini.
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O barulho do mormaço
Priscila Lira
Tu não sabe o que é conviver com o Diabo a vida
inteira, conviver com o Diabo a vida inteira é duvidar
de Deus a cada segundo. O Diabo, quando te odeia,
te prende e algema tudo ao teu redor: tua mãe, que
ama o Diabo, e teus irmãos. É assim que ele consegue
te fazer ficar. Lama, lama e lama tinha gosto a minha
vida. Nasci na lama, feito um porco. Burra que era a
minha mãe (de ter uma ninhada, de ter olhos de bicho
que não enxerga xyz, que não sabe o que é o Diabo,
que não sabe nem o que é a loucura de viver na lama
com uma ninhada e o Diabo), burra que era eu, menos
que a minha mãe, burros e esfomeados que eram meus
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irmãos, burro que era o Diabo, burro e cruel, burro
e tarado, burro e nojento. Porca que eu sou, porque
convivi na lama com o Diabo a vida inteira.
(T3 – Cidade Nova: – Eu acho lindo tatuagem,
até tenho vontade de fazer uma, um símbolo do infinito nas costas. Mas minha mãe disse que vai arrancar
meu couro se eu fizer isso. Coloca o Bonde das Maravilhas pra tocar aí no teu celular. Ai, elas são demais.
Já vi o vídeo umas cinquenta vezes. Viu que elas vêm
pra cá no fim de semana? Vai a galera do bairro, já
avisei pra mamãe que eu vou. Ela disse que queria me
ver fazendo o quadradinho de oito, falei que eu faço
é redondinho.)
Quando era criança e, na catequese, me ensinaram
o que era o Diabo, logo vi que ele estava na minha casa,
escondendo comida, me comendo, quebrando garrafa, quebrando a burra da minha mãe, esbugalhando de
medo os olhos esfomeados dos meus irmãos. Quando o
Diabo vive contigo, ele nunca mais sai de ti.
(Tribunal do povo I – Avenida Paraíba: – Odeio
quem descumpre a lei. A lei está aí para ser cumprida,
sabe? As regras foram feitas por isso. Pra que descumprir?)
Eu corria para a esquina e tentava fugir do Diabo.
Subia na mangueira e gritava o nome do meu pai, mas
só ouvia o barulho do sol quebrando as folhas. Porque
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meu pai morava com Deus, ele nunca me responderia,
a gente trocou ele pelo Diabo. Eu gritava o nome do
meu pai, gritava que ele tinha me abandonado e me
deixado na lama, no inferno, ele não respondia, estava feliz, no céu, com Deus, sem fome, dormindo nas
nuvens e decepcionado com a gente, que dormia com
o Diabo.
(Universidade do Estado do Amazonas – Cachoeirinha: – Eu quero casar. Um dia desses fui ver
preço de apartamento e, meu Deus, que absurdo. Se
eu quiser morar em um lugar daqueles, não vou ter
como pagar sozinha.)
Meu pai não respondia, mas meu estômago gritava, meus irmãos choravam na minha lembrança e
eu, pequena e burra, presa na lama, lesma inútil, voltava para o inferno. Se tu pensa que o Diabo sempre
maltrata, tu é mais burro que eu. O Diabo engana,
te abraça, te dá pão e café com leite, corre contigo no
quintal, depois te come, te bate, te joga no chão e quebra garrafa. O Diabo toma banho, passa perfume, vai
na igreja, reza o pai nosso, aperta a mão dos irmãos,
conta histórias inventadas da vida, diz que ama, diz
que cuida, depois te fode, te todos os lados, de todos
os jeitos, de todas as formas. Fode, fode, fode. É nojento o Diabo, feito de barro por dentro e por fora, com
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cheiro de fossa e pele de pedra. Eu via o desgraçado
passar perfume, mas aquilo, no meu nariz, era essência
de esgoto, cheiro de raiva guardada, que rasgava meu
olfato feito gilete, chegava na goela e dava ânsia. Barro
e enxofre formavam aquele monstro com a Bíblia debaixo do braço apertando a mão da vizinha burra, que
me olhava de cara feia e dizia pros filhos não andarem
comigo, que eu era indecente.
(Casa: – Filha, lembra daquela tua amiga maluquinha da sétima série? Virou puta, teve um filho e foi
assassinada. Vi num desses programas sensacionalistas
do meio-dia.)
Indecente eu era na minha rua, na minha escola, a indecente, burra, estranha, muda, feia, suja preta
fedida, mas não era surda. O Diabo me chafurdou na
lama, eu era toda lama, assim ele fez da minha vida
um inferno, até longe do inferno, porque suja de lama
que não tinha água que limpasse, o Diabo fez de mim
o Diabo. Ninguém tinha medo de mim Diabo, tinha
ódio, nojo, eu não era bem-vinda no céu da vida dos
outros, nem por meu pai, Deus o tenha.
(T3 – Cidade Nova: – No meu aniversário de
quinze anos eu quero uma festa bem bonita, com
quinze cavalheiros pra dançar comigo e dois vestidos.
Ficou sabendo que o Tiaguinho foi preso ontem? É,
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foi por causa daquela história lá de que ele matou o
João por causa da Safadinha da Baixada. Só esse ano já
morreram dois lá da rua, né? Daqui a pouco vai ser o
Daniel. Acho que amanhã vou visitar o Tiaguinho, até
mudei meu nome do bate-papo em homenagem a ele:
Pistoleira_14.)
Por isso fugia e me escondia, até a fome bater,
no escuro empoeirado da sala de livros da escola, porque lá ninguém sentia meu cheiro, nem via minha cara
diaba, lá eu não ouvia me gritarem de muda. Foi lá que
tive a ideia de matar o Diabo, mal eu sabia que uma
vez na tua vida, nunca mais ele sai.
(Entrevista I – Redenção: – Quando eu casei
achei que fosse ser só empregada dele, né? Lavar roupa,
fazer comida, arrumar a casa. Nem sabia dessas coisas,
quando a gente deitou pra dormir é que eu me assustei. Pedi na hora pra voltar pra casa, mas depois fui
acostumando.)
Mas o Diabo tinha a herança do céu, do tempo
que Deus o criou do barro. O Diabo gostava de doce,
de suspiro. Todo dia comprava suspiro na padaria. E
ficava feliz, sorridente, comendo suspiro. Dava café
com leite e pão pra mim e meus irmãos, corria com
a gente no quintal, mas aquilo era a porta do inferno,
a gente sabia e aproveitava, não havia como correr da
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porta do inferno, só nos restava aproveitar o prelúdio
da desgraça. A gente não tinha raiva do anúncio que o
suspiro trazia da padaria nas mãos do Diabo, porque
sabíamos que o suspiro era o que restava do paraíso
naquele enxofre de homem.
Uma vez o Diabo me obrigou a fazer uma receita
de suspiros, porque a padaria não abriu. Eu coloquei
purgante no suspiro para me vingar, e depois o Diabo
se vingou de mim, em mim, na minha mãe e nos meus
irmãos. Nesse dia eu corri do inferno e no dia seguinte,
na sala de livros, decidi matar o Diabo. Não seria uma
morte cruel, como as que eu fantasiava para ele todos
os dias, porque eu não queria ver ele morrer, eu queria
o Diabo morto!
(Na rua – Redenção: – Moça, eu estou perdido.
Não falo português bem, tem 15 dias que estou no
Brasil, vim sozinho. Onde fica a bica? Não! Não é essa
bica! É outra, que fica perto da minha casa. Não sei o
nome da rua, tem 15 dias que eu cheguei. Não lembro
o caminho, me ajuda mocinha. Faz três horas que eu
saí pra comprar carne de porco e não achei mais minha
casa, tava feliz que ia fritar carne de porco e agora não
acho minha casa. É, eu tenho que ir no médico, ia ontem, mas esqueci. Vim sozinho pra cá, minha mulher
me deixou, aquela vagabunda, não quis mais cuidar
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de mim. Subir na moto? Quanto vai custar até a bica?
Ainda bem, dois reais é o que eu tenho no bolso. Obrigada, mocinha. Qual o seu nome? Não quer casar comigo? Eu preciso de uma mulher pra cuidar de mim.)
Eu, a indecente, suja, nojenta, rasgada, roxa,
muda, lesma inútil, não queria voltar para casa depois do terror da noite inferno passada. Não queria
ver a cara de paraíso dos outros. Queria morrer, mas
se morresse, iria para o inferno eterno e nunca mais
veria meu pai. Por isso resolvi matar o Diabo, assim
teria tempo de pagar meus pecados e finalmente dormir nas nuvens.
(Entrevista II – Redenção: – Seu rg, cpf e
Comprovante de Residência, por favor.
– Tá aqui... Mocinha, posso te fazer uma pergunta? A tua menstruação dura quantos dias mais ou
menos? Uma semana é normal? É que eu tô namorando um rapaz bem mais novinho que eu, sabe. Ele quer
fazer sexo toda hora e disse que se isso demorar muito
ele vai me largar. Será que eu posso tomar algum remédio? Se eu trabalho? Avulso. Se tem luz na minha casa?
Gato, que o moço da Manaus Energia ficou com pena
de cortar quando eu atrasei os pagamentos.)
Escureceu, ninguém deu por minha falta, voltei
para casa e o Diabo dormia virado de costas para a
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burra da minha mãe. Matando o Diabo, eu fugia, e
ela podia ser burra e feliz com a ninhada de infelizes
longe daquele inferno, enquanto eu pagaria os pecados
e depois encontraria meu pai. Uma faca de cozinha no
peito, ele arregalou os olhos e me agarrou o braço. Foi
virando água e me largando len... ta... men ...t... ... ...
e. Roubei o saco de pão na cozinha (mais um pecado para pagar nessa vida desgraçada), corri e subi na
mangueira da esquina, a esperar que o inferno final se
armasse lá em casa com gritos e polícia. Silêncio.
(Na rua – Cidade Nova: – Oi, princesa! Já te
disse que um dia largo o mundo do crime e caso contigo? Me arranja uns trocados, preciso resolver umas
broncas, tô meio encrencado. Valeu, princesa!)
O que eu não sabia é que a vida é um formigueiro de infernos e que o Diabo me perseguiria, agarrado
no meu braço com os olhos assustados, para sempre.
Fugi, mas a fome, a rua, a chuva, o sol, o frio, me
transformaram no Diabo e eu não conseguia terminar
de pagar meus pecados. Jamais chegaria no céu, meu
pai se esqueceria de mim ou rezaria para que a Diaba
que ele um dia chamou de filha, nunca mais aparecesse na sua frente. O mundo me fodia, fodia, fodia, de
todos os jeitos, todos os lados, todas as formas, cuspia em mim, na porca, nojenta, fedida, burra, Diaba.
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Numa noite, sem dormir, com medo do Monstro que
matei, percebi que inferno maior que esse não havia,
que o inferno estava na minha cabeça e de lá não sairia
sozinho.
(Tribunal do povo II – Avenida Paraíba: – Se eu
encontrasse com esse estuprador na rua, acabava com
ele, tenho ódio de estuprador. Só não dou um soco na
cara dele agora porque sou jurada.)
Por isso deixei que um homem sorridente me fodesse pela última vez, por um saco de suspiros. O que
eu farei depois? O que devia ter feito desde o ínicio,
mas burra que sou, não percebia: Abrir a minha cabeça
com a faca ainda suja de sangue do Diabo, tirar aquele
ninho de enxofre lá de dentro e encher o vazio com
suspiros. Os suspiros, resto de céu que sempre esteve
na minha vida, me levarão até meu pai, com quem
dormirei nas nuvens, a esperar o dia em que minha
burra mãe e a ninhada façam o mesmo.
O formigueiro continuará aqui embaixo, misturado aos sangues da faca.
(Em casa – Cidade Nova: – Filha, acorda.
– Hoje vai ter greve de ônibus, mãe, não vou
trabalhar. Me deixa dormir mais um pouquinho.)
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Priscila Lira tem 22 anos, vive em Manaus e é licenciada em letras pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA).
Não tem livros de papel, mas publica em blogs que apaga com
certa frequência (o atual é sonambuloesquilo.blogspot.com) e
lançou um e-book recentemente, chamado Manual de Feitiçaria
(basta buscar no Google), também escreveu para o site escritorassuicidas.com.br.
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Réquiem
Tenório Telles
Não consigo te esquecer, Cachorrinho. Tuas correrias na rua, mordendo os outros cães numa alegria
inocente. Não suspeitavas dos perigos que rondavam
tua vida flutuante.
Viver é arriscado para todos os seres. Para os passarinhos, as plantas, os humanos... E também para os
cachorros.
A ingenuidade com que brincavas era cativante.
Habitavas aquela rua – teu território e lugar de convívio com os outros bichos. Como cão deserdado, aquele pedaço da cidade era a tua casa.
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Passavas o dia fazendo estripulias. Mal amanhecia, saías para a rotina da sobrevivência. Ias à caça na
feira da Manaus Moderna. Retornavas habitualmente
ao passeio da casa de dona Isabel.
Naquele dia vi tua sombra em movimento. Era
final de tarde. A noite se misturava às águas do rio Negro. Corrias para a calçada onde descansavas.
Ouvia teus latidos, a algazarra que fazias com os
outros cachorros. Naquele dia a sorte fechou a porta.
Um barulho de vidro partido – vida e morte colidiram.
Um latido cortou o ar.
Da porta, vi que estavas no chão.
Ouvi o alarme de dona Isabel:
– Meu Deus, o Cachorrinho...
Os vizinhos surgiram das janelas. Dona Isabel
puxou-lhe o corpo para a calçada.
Um lampejo de vida animava teu coração, enquanto travavas uma luta surda com a morte. Uma
tristeza sem nome escureceu meus olhos ao vê-lo ferido. Chorei ao perceber que estava tudo perdido para
ti. Que tudo chegara ao fim. Que em silêncio partias
deste mundo.
Tudo vale tão pouco.
Quem se importa com a vida de um cão sem
dono?
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A noite inundou a rua. Dona Isabel retomou
seus afazeres. Os outros cachorros procuraram no parque próximo um lugar seguro. A noite foi sem algazarra. Sentiam a morte do companheiro.
***
A vida de todos ficou diminuída com teu destino. O motorista não reduziu a velocidade.
Tinha pressa.
Ao passar por mim, olhei seu rosto e vi que era
jovem... Acenei-lhe: “O que fizeste?”.
Seguiu.
Meu Deus, o que foi feito dele? Que estranhos
sentimentos habitam seu coração enlodaçado?
Jamais me esquecerei de seus olhos – duas poças
transbordantes de indiferença. Sua expressão denunciava algo terrível. Levantou as mãos do volante, como
se dissesse: “Era apenas um cachorro!”.
Seguiu em sua máquina de morte.
Como se uma parte de mim tivesse se perdido,
fiquei um bom tempo pensando em ti. Imaginei tua
história, como vieste ao mundo. A casa em que nasceste, tua mãe, teus irmãos.
Ser flutuante, as águas te levaram.
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Pra onde?
Tua existência
– pequeno lampejo –
nas águas negras do rio
– que se fez noite.
Tenório Telles nasceu na localidade de São Tomé (rio
Purus), no Amazonas. É licenciado em Letras (1989), pela Universidade Federal do Amazonas, onde também bacharelou-se em
Direito, em 1996. Primeiros fragmentos, seu livro de estréia, foi
publicado em 1988. Desde 1997, dedica-se ao trabalho com o
livro, como editor e livreiro. Em 26 de outubro de 2001 tomou
posse na Academia Amazonense de Letras. Cronista militante,
é autor de diversas obras: Estudos de Literatura Brasileira e Amazonense (ensaio) – 1995; O Amazonas em Sua Literatura (CD-ROM) – 1996; Antologia do conto do Amazonas (em parceria
com o professor Marcos Frederico Krüger) – 2003; Poesia e poetas do Amazonas (em parceria com o professor Marcos Frederico
Krüger) – 2003; O Anjo cético e o sentimento do mundo – 2003;
Introdução à literatura brasileira – 2003; Estudos de literatura do
Amazonas – 2004; A Derrota do Mito – 2003; Viver – 2011;
Canção da esperança & outros poemas – 2011. Foi durante 16
anos coordenador editorial da Valer Editora.
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Marieta
Thiago de Mello
Quero agora contar a história de um dolorido
fracasso: pela primeira vez nesta viagem, e acho que
pela primeira vez na minha vida, não consegui me
comunicar com uma criança. Ela se chama Marieta,
tem 9 anos, é filha da Zilda da farinha. Veio a bordo a
mando da mãe, buscar um remédio que eu prometera
para a irmãzinha de 4 anos, que há muitos dias arde de
febres noturnas e se desmancha em diarreia, já obrou
sangue três vezes. Eu vi a meninazinha deitada no chão
em cima de uns panos encardidos: um fio de gente.
Zilda Isidório vem cuidando da filhinha com chás e
infusões de ervas, sem resul­tado.
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Quando Marieta chegou ao barco, magri­nha e
suja, o vestido que um dia foi estampado de flores,
sentou-se na ponta de um banco do tombadilho e ali
ficou, silenciosa, sem falar com ninguém, no meio
da caboclada que invade o barco em todo lugar que
a gente chega, me­nino que não acaba mais. O barco
já para largar, perguntei quem ali viera para apanhar
um remédio. Ninguém respondeu. Perguntei quem
conhecia dona Zilda, que morava ali per­tinho, estava
trabalhando na casa de farinha. Uma cabocla respondeu que conhecia e que ali estava a filha dela – e me
apontou Marieta.
Marieta era um animalzinho ferido, olhando
para o chão. Fiz no banco um espaço a seu lado e ali
me sentei, o remédio na mão. Marieta não se moveu.
Senti meu coração bater mais forte. Decidi não lhe
falar imediatamente. Fiquei olhando o barranco vermelho, escarpa­do, uns vinte metros íngremes, a terra
faiscando no sol.
Então lhe falei, bem devagarinho, meu rosto
pertinho do dela. Aqui está o remédio, maninha,
o remédio para a tua irmã, como é mesmo o nome
dela? Marieta não se moveu, não disse nada, Marieta
nem me olhou. Con­tinuou de cabeça baixa, o seu
pezinho esquerdo alisava a madeira do assoalho. Estás
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me ouvin­do, Marieta? Marieta não levantou a cabeça,
então eu fiz silêncio, havia umas oito ou dez pessoas ao
redor, junto à casa de máquinas do barco.
Passei o braço em torno dos seus ombros, sentilhe os ossos tristes da omoplata, acariciei os seus cabelos
castanhos queimados. Ela con­tinuou imóvel, silenciosa, como se seu corpo fosse feito de pedra e amargura.
Constrangido, levantei o olhar para a outra margem
do rio, lá longe uns três quilômetros. É forte e doce no
meio da manhã o vento que corre no centro do Solimões. Nuvens alvíssimas e baixas pas­seiam pelo céu.
De repente me lembro de minha filha Isabella, nascida
no Chile no tempo de Allende e que hoje mora no Rio
de Janeiro. Nítida, na lembrança, a figura de minha
filha alegre, desenvolta, conversadora, e mais uma vez
aprendo que o ser humano é um ser social, resultante
da estrutura da sociedade que o formou.
Levantei-me, disse vamos, tomei Ma­rieta pela
mão, desci a prancha estendida entre o barco e o barranco e caminhei com ela, de mãos dadas, o sol ardendo sobre nossas cabeças, para a choupana de sua
mãe. Subimos o bar­ranco, eu de vez em quando dizia
alguma coisa, tu já almoçaste, maninha?, queres viajar comi­go no barco?, Marieta não me respondia. Não
falava, mas subitamente senti que ela de algum modo
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se comunicava comigo, através de sua mão na minha,
que ela começou a apertar com a força dos seus dedinhos magros.
Chegamos. Entreguei o remédio, recomendei
que se ferves­se a água para a criança beber, para ela e
para todo mundo: na falta de filtro, era ferver a água.
No ar impregnado pelo perfume da fari­nha fresca, Teresa e Zilda recolhiam a farinha do forno, havia muito
mais crianças do que de manhã cedinho. Me despedi,
ouvi gritos do barco me chamando. Procurei por Marieta, queria abraçá-la de despedida, perguntei por ela,
Marieta sumira.
Voltei para o barco. Sozi­nho. Na hora de desatracar, fui para a amura­da do tombadilho superior. O
barco começava a se afastar da terra, quando, de repente, vejo, sentada num degrau da escada cavada no bar­
ranco, a silenciosa e miúda figura de Marieta. Estava
a uns dez metros da beirada. Então gritei o seu nome,
adeus Marieta, adeus mani­nha. Pela primeira vez, e lá
de longe, Marieta me olhou, Marieta me olhou bem
nos meus olhos, eu tornei a gritar – adeus Marieta, tu
és muito linda, maninha! – e Marieta então sorriu, era
um sorriso, sim, o sorriso mais dolo­rido que já vi na
minha vida.
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Thiago de Mello – amazonense de Barreirinha, é remanescente de um grupo que marcou profundamente a literatura
brasileira, a chamada “Geração de 45”. Com mais de duas dezenas de livros publicados, sua obra foi traduzida para vários idiomas. Entre seus poemas mais conhecidos, destaca-se “Estatutos
do Homem”, um hino de amor à liberdade, contra o regime
militar.
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Maria Marieta Vera do Val
Quem atravessasse lá pelos lados de Alagados
deparava com um espetáculo invulgar. Naquela casa
esverdeada de chuva, bem ali no entroncamento da
rua, se podia ver a velha Maria debruçada na janela.
Maria Marieta era o nome dela; quem sabe nome
dobrado trouxesse consigo a sina de toda aquela
esperança que Maria Marieta quedava no olhar.
Aparatada de noiva, trazendo véu e grinalda, entra
dia e sai dia, chuva ou sol, claro ou escuro, da janela
Maria não arreda. Diziam os mais antigos que tinha
sido bonita, moça prendada e faceira, mas quem via
não acreditava. Não que fosse sisuda, isso não era não.
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Mas gorda não se podia negar. Maria se esparramava
como pudim desandado, tremelicando as carnes, um
sorriso plantado na boca, a pele já fenecida, cabeleira
desbotada aparecendo por baixo dos véus encardidos
e as florinhas da grinalda espetadas na cabeça já
estavam cheias de titica das andorinhas dos beirais.
Mas Maria não percebia, se achava ainda faceira como
nos antigamente, quando rodava pela casa, soluçando
amor quebranto, costurando o vestido e esperando
os esponsais. O noivo, moço viçoso, era o Joaquim
da farmácia, isso todo mundo sabia. Mas Joaquim
mudou de ideia e escafedeu no mundo sem dizer o
porquê. Maria Marieta continuou urdindo o sonho
que esta história de sumiço não lhe entrava na cabeça
e ela não podia aceitar. Um dia engalanou a casa, o
vestido estava pronto, a saia toda rodada, o buquê
carregado de fitas e assim toda vestida ela foi pra janela
e debruçou-se a esperar. Toda a vizinhança sabia que
noivo ela não tinha mais e causava estranhamento
todo aquele preparativo. Veio o vento, veio a chuva,
veio o tempo que não perdoa, veio verão, primavera,
mas o inverno instalou-se e os olhos de Maria
grudados no fim da rua que dali viria o noivo e mais
dia menos dia ele havia de chegar. Entra ano e sai ano
o povo cochichava pelos cantos que Maria Marieta,
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coitadinha, endoidou, que de noivo ninguém tinha
notícia. Ela ficou famosa, vinha gente das redondezas
para espiar aquele espanto. Para todos ela acenava e
sorria e o visitante ficava na dúvida se ria ou se chorava.
Um dia, logo no comecinho das chuvas, oh surpresa!
Ela desceu da janela andando com dificuldade, toda
aquela gordura empoleirada em sapato de salto fino,
a cauda do vestido se arrastando pelo chão enlameado
e despencou rua afora. A meninada da vila logo se
juntou atrás aos gritos. Maria Marieta caminhava
ereta, despercebida do mundo, um sorriso de delícias,
ia ela e seu cortejo estalando ao sol no rumo da igreja.
O padre, quando foi avisado que Maria Marieta vinha
chegando esbaforiu e não teve tempo de nada, que a
noiva já apontava na esquina. Sem palavras ela entrou
pela nave central sorrindo para um lado e outro como
se ali estivesse todo o aparato de casamento. Quando
chegou ao altar, o padre, assombrado, já estava lá.
Maria ajoelhou estremecendo, suada e descabelada
naquele vestido de noiva, botando a alma pela boca,
mas trazendo nas faces um rubor radiante. Por um
momento o tempo parou, passarinho emudeceu, o
sino que repicava calou-se expectante. Quem sabe o
nome dobrado trouxesse consigo a sina de toda aquela
esperança que Maria Marieta trazia àquele altar.
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Então Maria Marieta ergueu os olhos para os
santos e com um suspiro fundo e sentido tombou de
lado. O padre mal teve tempo de lhe dar a Extrema
Unção.
Vera do Val é paulista radicada em Manaus. Ganhadora de
vários prêmios nacionais, (inclusive um Jabuti, por Histórias do
rio Negro, e dois selos de Altamente Recomendável, dados pelo
MEC), tem 13 livros publicados, a maioria deles infantojuvenil.
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A raposa e as uvas
Zemaria Pinto
O velho senador chega pontualmente à mansão
da velha1 cafetina, sendo recebido com a pompa e a
circunstância que a casa reserva aos notáveis. O senador fizera história em Manaus mais pelos seus clandestinos amores escandalosos2 do que propriamente
pela sua ação, digamos, parlamentar. O seu currículo,
digno de um velho fauno das fábulas de antanho, relacionava, sem escrúpulos sexuais excludentes, desde
1
Releva, leitor/a; trata-se de uma fábula sobre a velhice.
2
Clandestinos até se tornarem escandalosos, claro.
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viçosos garotinhos até respeitáveis e engelhadas matronas, passando pelas candidatas a miss, as próprias, e
toda sua parentalha horizontal e vertical.3
Naquela tarde, o senador parece mais descontraído que de costume, exibindo magnânimo sua formidável dentadura fundida em platina da África do Sul,
com um pequeno e reluzente detalhe em ouro de Roraima incrustado na resina canadense. Impossível não
se deixar seduzir por aquele simpático tio-avô.
A um sinal de madame, as meninas começam a
descer a larga escada de mármore, uma a uma, numa
coreografia harmoniosa, como num conto de Sherazade, enchendo a sala de exóticos aromas e sabores.4
Diante de tanta formosura, o senador semelha um menino num parque de diversões aberto só para si. Ali
estão alguns belos exemplares de alguns de seus brinquedos favoritos.
Usando uma metáfora do reino animal, o senador estava mais para
um ser imaginário de Borges, misto de boto, urubu e veado, que para
raposa.
3
A metáfora óbvia é algo belo, cheiroso e gostoso de comer: tâmaras,
por exemplo. Mas eu nunca vi uma tâmara na vida. Digamos então que
as meninas formam um singular cacho de tenras uvas.
4
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A distinta senhora faz espoucar5 a garrafa do vinho espumante que logo é servido aos convivas – incluídos os discretos acompanhantes do senador, dois
apolíneos rapazes louros, seus seguranças, talvez. O
movimento no salão de festas da decadente mansão assemelha-se a um discreto carnaval veneziano, com suas
enigmáticas máscaras. O senador despe-se do blazer
azul-marinho e entrega-o a um dos rapazes. As meninas, oito no total, uma para cada década de vida do velho cacique, disputam-lhe a atenção. Sempre sorrindo,
ele arregaça as mangas da camisa de linho, dobrando-as
com cuidado, e abre dois botões abaixo do colarinho,
deixando entrever um tufo de brancos pelos6, que em
nada combinam com os ralos fios castanho-avermelhados que lhe borram a pronunciada calva. Novo espoucar (!), mais espumante a todos. O senador recusa
polidamente, preferindo o malte escocês envelhecido
por dezoito anos, idade que a mais velha das meninas
só completará em algumas dezenas de meses.
O concerto de Vivaldi que servia apenas de contraponto às gargalhadas é substituído pela voz tonitruante
Essa variante só deve ser usada quando relacionada diretamente à
onomatopéia: pou!
5
6
Pêlos, leitor/a. Ai, que saudades do trema e do acento diferencial!
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de Vicente Celestino, ribombando pelo vasto salão.
As meninas gracejam – não entendem o porquê da
chiadeira que a tecnologia a laser não conseguiu eliminar. O senador ensaia alguns passos de dança, ora
com uma ora com outra, mas elas não encontram o
tempo certo das senatoriais e bailarinas pernas. Ele então toma nos braços a elegante dama senhora do lugar
e os dois rodopiam por um bom par de minutos ao
som de “Ontem, ao luar”. Ao final, todos aplaudem a
performance do senador, que mantém arreganhado o
seu sorriso marfinoso7, numa demonstração explícita
de impudente felicidade.
Chico Alves, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, revezam-se na crepuscular trilha sonora. Levados pela anfitriã, os jovens jônios (ou seriam
helenos?) passam a um outro cômodo da casa. O garçom deixa o litro de uísque, ainda muito acima da metade, em local bem visível, juntamente com um balde
farto de gelo, feito de Perrier, uma exigência de sua
excelência, que se recusa a por na boca água de origem
caboca, veículo natural de inúmeras mazelas nativas,
Não há aqui, leitor/a, nenhuma tentativa de trocadilho ou insinuação
malévola: é um sorriso de marfim, só, nada mais.
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do fatal cholera morbus8 ao mórbido piriri9. Ao sair,
apaga algumas das lâmpadas, envolvendo o salão em
suave e apaziguadora penumbra. O senador, sozinho
com as oito meninas, começa a tirar os sapatos.
Os três dias que se seguiram foram de total comoção. O velho senador morrera serenamente, com
um imenso sorriso nos lábios finos. Seu corpo foi velado por mais de 50 horas na sede da Assembleia Legislativa do Estado, onde recebeu a última visita de
dezenas de milhares de pessoas do povo. Os jornais de
todo o país publicaram notas de pesar pelo falecimento do grande “estadista”, ocorrido no “âmago do lar”,
no “seio imaculado da família”. Os discursos lembraram o homem público abnegado, o intelectual fecundo, o esposo amantíssimo, o pai de família extremado.
O cortejo fúnebre formava uma única fila de mais de
sete quilômetros, do início da 7 de Setembro até o cemitério de São João Batista. O governador decretou
feriado estadual. O presidente da república desceu de
helicóptero em pleno Boulevard Amazonas, a tempo
de fazer o emocionado discurso derradeiro.
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Mais fatal em latim.
9
A mais humilhante de todas as doenças tropicais.
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No castelo da velha cortesã, oito princesas, os delicados corpos adolescidos, choravam em silêncio, vertendo sinceras lágrimas sentidas pela prematura perda
do novo amigo.10
Zemaria Pinto – 56 anos, mestre em Estudos Literários,
tem mais de 15 livros publicados, entre poesia, teatro, infantojuvenis, ensaios e teoria literária. O texto “A raposa e as uvas” faz
parte de um livro de contos que está produzindo, dando um viés
literário e mal-humorado a fatos miseravelmente reais, arquivados em sua cada vez menos confiável memória. Desde 2004, é
membro da Academia Amazonense de Letras.
Agora, leitor/a, me faz um favor: relê o texto, sem parar nestas tolas
notas pseudoacadêmicas. Terás outra impressão. Ou não.
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Equipe do Projeto
Livro de Graça na Praça/Brasil 2013
Arthur Vianna
Coordenador geral
Antônio Augusto Martins Salles
Coordenador administrativo-financeiro
José Roberto Penido de Toledo
Produtor
Beto Vianna
Diretor de arte
Clarice de Assis Libânio
Consultora
Maurício Libânio
Consultor
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Este livro foi impresso na Gráfica e Editora Del Rey,
em papel Supremo 250g (capa) e Polen Bold 90g
(miolo), usando tipologia Myriad Pro (títulos e
autores) e Adobe Pro Garamond (textos).
Belo Horizonte . Primavera . 2013
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