ENTREVISTA
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Mota & Teixeira
ENTREVISTA
Mota
& Teixeira
Uma posição de liderança
e pioneirismo na automação
Constituída há 57 anos, a Mota &
Teixeira caracteriza-se, hoje, pela
sua posição de liderança no
mercado dos componentes, uma
situação para a qual muito tem
contribuído a parceria com a
FESTO, marca que a Mota &
Teixeira já representa, há longos
anos, no mercado português.
Apoiada na qualidade dos produtos
que comercializa e na preocupação
com que sempre encarou a
formação, a Mota & Teixeira
enfrenta a mudança do milénio com
vontade e capacidade para se
manter no pelotão da frente da
automação industrial nacional.
E n t r e v
p o r J .
Te x t o d e
F o
i s t a c o n d u z i d
N o r b e r t o P i r e
R i c a r d o B r a g
t o g r a f i a s P a u l
G o n ç a l v e
a
s
a
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s
........
Luís Teixeira Mota, administrador, e Jorge Martins, director do
Departamento de Automação, explicaram à revista ROBÓTICA - em entrevista conduzida pelo seu director, J. Norberto
Pires –, como é que a Mota & Teixeira chegou à liderança do
mercado, porque se considera pioneira na área da formação
e de que forma é que a empresa poderá acompanhar a evolução do mercado no futuro. Em curso está já o processo de
certificação segundo a norma ISO 9002
Na MOTA & TEIXEIRA, o Departamento de Automação Industrial representa uma fatia importante da facturação da empresa, um resultado para o qual não é alheia a forte ligação à
FESTO, uma marca que lidera o mercado europeu dos componentes na área da automação.
Segundo os seus responsáveis, é na garantia de qualidade,
vulgarmente ligada a produtos de marcas como a FESTO,
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que se encontra o maior trunfo da MOTA & TEIXEIRA, relativamente aos seus competidores mais directos. Para Luís Teixeira Mota, o preço e o tempo de entrega de um produto têm
também a sua quota-parte
de responsabilidade na
qualidade do serviço. “A
FESTO está, seguramente,
entre as melhores marcas de
pneumática do mercado
mundial actual. Quando
uma grande empresa tem
de negociar um contrato vai
falar com dois ou três fabricantes de pneumática e de
certeza que um deles é a
FESTO. Trata-se de uma
marca incontestavelmente
líder de mercado na Europa, e líder mundial em inovação e tecnologia.”
Fabricante de componentes pneumáticos desde a
década de 50, a FESTO encontra-se ligada à MOTA & TEIXEIRA desde finais da década de sessenta. “Em termos efectivos
a FESTO tem uma experiência de 45 anos na área da pneumática” e, como recorda Luís Teixeira Mota, “nós temos
uma experiência de trinta e tal anos nesta área. Estamos a
falar de uma empresa (a FESTO) que tem uma gama extremamente alargada de produtos, neste momento temos catálogos com cerca de 45 mil artigos”.
Numa época em que a competitividade se joga nos mais
insignificantes pormenores, as vertentes preço e qualidade
assumem um especial relevo na altura de cativar clientes. O
administrador da MOTA & TEIXEIRA defende a sua «dama» e
exemplifica. “Quando há testes de qualidade, a FESTO é sempre a primeira ou a segunda em termos de prestações de
longevidade. Em ensaios de cilindros, a FESTO pode situar-se
em 16 mil quilómetros, num determinado ensaio, enquanto
que o cilindro que mais se aproxima só faz 8 ou 9 mil quilómetros. De uma maneira geral, a FESTO é sempre considerada
como uma empresa com produtos de primeira qualidade”.
Contudo, a concorrência tem elevado a fasquia relativamente
à relação preço/qualidade. Luís Teixeira Mota recorda que,
“se há 10 ou 15 anos havia um fosso enorme de preços entre
os produtos de boa e de má qualidade, hoje, os fabricantes
de primeira linha, que têm uma responsabilidade para com o
mercado de só apresentarem produtos de qualidade, sabem
que já não os podem vender ao dobro do preço como acontecia na altura”.
Apesar de tudo reconhece que “não estamos de maneira
nenhuma inseridos entre os mais baratos do mercado, mas
temos consciência que se dividirmos o preço do produto
pelo número de ciclos que efectua, isto é, se compararmos as
prestações e o preço útil, encontramos a razão da nossa liderança no mercado português que, desde 1974/75 temos sabido conservar”.
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O Departamento de Automação Industrial da MOTA & TEIXEIRA tem como função principal colocar no mercado os componentes FESTO, normalmente utilizados nas máquinas de
automação industrial fabricadas em Portugal.
Nas palavras de Luís Teixeira Mota, “sempre nos distinguimos
da maioria da concorrência porque, embora possamos funcionar apenas como fornecedores de componentes, já que
possuímos referências e preços para isso, temos também
uma equipa de engenharia, uma equipa de técnicos de montagem, e uma equipa de técnicos comerciais perfeitamente
qualificados, pelo que não oferecemos apenas os componentes, mas um serviço completo a alguém que quer fazer um
trabalho de automação, que sabe o que quer, mas que não
faz a mínima idéia de como o conseguir”. Como faz questão de realçar, “temos uma gama muito alargada e competitiva, para além de que a relação preço/qualidade é das melhores do mercado, sempre com marcas de topo e
de qualidade indiscutível”.
Apesar dos fabricantes de máquinas
nem sempre necessitarem de uma relação de assessoria tão estreita, existem muitos que, em colaboração com
a MOTA & TEIXEIRA, têm conseguido
optimizar o funcionamento das máquinas, nomeadamente,
através do uso de materiais adequados. Luís Teixeira Mota
aponta uma das vantagens da relação dos fabricantes com a
MOTA & TEIXEIRA. “Nós conhecemos a totalidade do catálogo da FESTO, que tem uns 10 ou 12 centímetros de altura, o
equivalente a duas ou três listas telefónicas, pelo que é humanamente impossível para alguém que trabalhe com pneumática, com hidráulica, com motores eléctricos, ou com rolamentos, conhecer o catálogo da Festo tão bem como os nossos
técnicos. Temos especialistas em accionamentos electromecânicos, em terminais de válvulas, ou seja, pessoas que se
vão especializando em cada ramificação dentro da automação industrial, porque a evolução é de tal maneira grande que
é impossível alguém conseguir obter uma especialização em
todas as áreas”.
Confiança:
o resultado de um bom serviço
No Departamento de Automação estão envolvidas cerca de
40 pessoas, distribuídas por Lisboa e Porto.
“Para além de sermos líderes à custa dos componentes, acho
que é na capacidade dos nossos recursos humanos que
mais se justifica a nossa posição de liderança”, afirma convictamente Luís Teixeira Mota.
Para dar razão a esse sentimento, o administrador da MOTA
& TEIXEIRA não esconde que é no bom relacionamento que
se consegue entre todas as partes envolvidas nesta actividade que está o maior trunfo comercial da empresa. “Oferecemos o aconselhamento comercial gratuito aos nossos clientes, para que saibam o que fazer numa determinada situação.
Temos a capacidade de execução de que o cliente não dispõe, uma vez que temos o software e os especialistas para
cada uma das áreas em que normalmente actuamos.”
Para além de tudo isto, Luís Teixeira Mota destaca um valor
essencial na relação comercial: a confiança. “Os fabricantes
de máquinas nacionais conhecem-nos e sabem como trabalhamos, o que facilita uma colaboração mais estreita, algo que
só se consegue porque têm confiança em nós. Esta situação
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dá-nos o incentivo necessário para abordarmos o cliente. Ele
vai escolher-nos não apenas porque somos representantes
da Festo, pelo preço dos nossos produtos, ou porque temos
um stock maior que o dos nossos concorrentes, mas porque
temos o interlocutor adequado para as solicitações do nosso
cliente.”
Luís Teixeira Mota deixa a certeza de que a capacidade de
intervenção da empresa na resolução de qualquer problema
é imediata, assegurando que “inclusivamente podemos resolver problemas de máquinas importadas, em que não
fomos nós a fazer o sistema de comando”.
O serviço mundial de apoio da FESTO constitui uma mais
valia na hora de convencer o mercado, tanto mais que, segundo o administrador da MOTA &
TEIXEIRA, “podemos intervir tecnicamente na resolução de problemas de
clientes que têm máquinas de comando pneumático ou de comando electrónico”, destacando que “sem esta
assistência teriam de vir engenheiros
ou técnicos especializados do exterior, com os custos elevados que essa
situação implicaria.
“Mesmo num domingo, se houver
uma avaria na máquina de uma fábrica, a MOTA & TEIXEIRA tem sempre um técnico preparado
para essas situações”, garante o director do Departamento
de Automação, Jorge Martins.
Luís Teixeira Mota reconhece que muitas vezes as avarias
acontecem porque os empresários se esquecem que “a diferença de preço entre um produto de maior ou de menor qualidade se torna insignificante quando comparada com o eventual prejuízo que pode provocar a paragem de uma máquina
numa instalação industrial”.
Para o administrador da MOTA & TEIXEIRA, “às vezes a diferença de preço é justificada pela fiabilidade ou longevidade de
uma peça”, pelo que, como faz questão de salientar, “só trabalhamos com produtos de primeira qualidade”.
“É preciso estabelecer uma relação de confiança com o utilizador final, através da criação de um vínculo que garanta a continuidade da colaboração, o que se pode conseguir sendo-se
um fornecedor qualificado”, defende Jorge Martins.
Pioneirismo na formação
A aposta na formação dos colaboradores e dos clientes é um
dos motivos de orgulho dos responsáveis da MOTA & TEIXEIRA que, há já algum tempo, criaram um departamento
destinado à formação dos clientes, com salas em Lisboa e
no Porto, onde se transmitem alguns ensinamentos na área
de Pneumática, Electropneumática, Electricidade, PLC’s e Hidráulica. A este propósito, e como explica Luís Teixeira Mota,
“um conhecimento geral destas diferentes tecnologias utilizadas em automação é fundamental para qualquer técnico compreender o funcionamento de qualquer máquina moderna.”
O administrador da MOTA & TEIXEIRA destaca a qualidade
da formação que tem sido ministrada, e que já é reconhecida
por muitas das empresas portuguesas cujos profissionais
têm passado por estes cursos. “Estamos capacitados para
dar acções de formação, seja nas nossas salas, seja deslocando os nossos técnicos às empresas, com o intuito de
esclarecermos desde os técnicos de manutenção aos projectistas, passando pelos operadores de máquinas.”
Jorge Martins defende a ideia de que a MOTA & TEIXEIRA
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foi pioneira na área da formação, isto porque, como lembra, “ainda o conceito de formação profissional era uma
coisa muito vaga e distante, e nós em 1966/67 já tínhamos
um programa regular de formação profissional”.
Nos finais da década de 60, os responsáveis da MOTA
& TEIXEIRA aperceberam-se que era importante que
houvesse um
maior número
de pessoas a
saber pneumática. O director do Departamento
de Automação, Jorge
Martins acredita
que
“numa determinada fase colmatámos uma lacuna que existia no ensino e na indústria”.
Mecânica e electrónica:
o casamento perfeito
Durante a entrevista conduzida pelo director da revista ROBÓTICA, J. Norberto Pires, o administrador da MOTA &
TEIXEIRA, Luís Teixeira Mota, e o director do Departamento
de Automação, Jorge Martins, abordaram a actual situação da automação industrial em Portugal, percorrendo algumas questões de índole técnica, numa toada de pergunta e resposta que deixa algumas pistas...
Norberto Pires – Que tipo de relação MOTA &
TEIXEIRA mantém com o utilizador final?
Luís Teixeira Mota – Temos um contacto muito forte com
o utilizador final. Há muitos utilizadores finais que têm
departamentos preparados para o desenvolvimento de
máquinas específicas, uma vez que a máquina standard
não lhes resolve todos os problemas. São departamentos de engenharia que desenvolvem o projecto, ou mesmo o projecto e a execução. Temos uma colaboração
muito directa com esse tipo de departamentos. São os
clientes que melhor se adaptam ao perfil da nossa empresa, até porque lhes podemos fornecer qualquer serviço, seja de aconselhamento, de aconselhamento e
projecto, ou de aconselhamento, projecto e execução.
Além disso, também temos a capacidade de ir até aos
nossos clientes, instalar os componentes de automação, ligá-los uns aos outros, fazer os quadros de
comando, fazer o software para os quadros de comando, se necessário fazer visualização industrial,
e fazer a ligação à rede
para os computadores de
controlo de produção...
N.P. – Em colaboração
com os fabricantes
de máquinas?
L.T.M. – Pode, ou não, ser
em colaboração com os
fabricantes de máquinas.
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Se o cliente tiver a capacidade de execução mecânica,
nessa altura não necessita da colaboração de um fabricante de máquinas.
Nestes últimos anos, a evolução tecnológica fez com
que a automação industrial tivesse cada vez menos a
ver com cilindros, mas sim com componentes mais
completos. Hoje em dia, a máquina moderna é de perfil
de alumínio, tem drives,pneumáticos ou electromecânicos, com guiamentos, peças de interligação standard
em alumínio e de preferência já maquinadas. Esse é o
espírito da máquina moderna de automação industrial.
N.P. – O uso de PLC’s implica uma concepção
geral de todo o sistema, o que quer dizer que
a MOTA & TEIXEIRA terá de trabalhar com o
fabricante de máquinas ou com a equipa de
design na parte de concepção e programação
do sistema/arquitectura do software e respectiva instalação, e não só como adviser?
L .T.M. – Podemos dar a solução e responsabilizarmonos pala execução e montagem.
N.P. – E a parte de programação?
L.T.M. – O software também.
N.P. – Em que tipo de plataforma?
L .T.M. – Temos dois tipos de software. O software de
trabalho, um software típico de PLC que já tem uns anos
e que hoje está mais do que popularizado em
Portugal,eainda um software que está entre o PLC e os
sistema de controlo da própria fábrica.
N.P. – Com quantos tipos de fabricantes de
PLC’s é que trabalham?
L.T.M. – A FESTO comprou a BECK, que é essencialmente um fabricante de PC’s industriais, e que está vocacionado para oferecer equipamentos, embora tenha
também uma pequena gama de PLC’s. No entanto, a
gama de PC’s industriais é muitíssimo alargada.
Jorge Martins – Tem-se verificado alguma evolução ao
nível dos protocolos de comunicação. A maioria das
empresas, que desconfiavam dessa tecnologia, está
hoje a investir seriamente nestes protocolos de comunicação, criando uma compatibilidade entre a linguagem de carácter administrativo e a linguagem de programação industrial. Não sendo tradicionalmente uma
empresa da área da electrónica, a FESTO também conseguiu marcar uma tendência neste sector específico.
L.T.M. – A BECK, logo também a FESTO, disponibilizam
já no mercado um autómato que custa 50 ou 60 contos
que já pode comunicar por Ethernet. Esta característica, pioneira em PLC’s de baixo custo, permite a troca
de informações de por exemplo, contadores de
produção,informações horárias, parâmetros de funcionamento, de ou para sistemas de controlo superior, ou
para a rede da Internet para comunicar à distância.
N . P. – S ó q u e e s s a n ã o é a g e n e r a l i d a d e
dos casos?
L.T.M. – O número de clientes é capaz de duplicar todos
os anos nesse tipo de aplicações. Havia uma forte desconfiança, há uns anos atrás, de que em Portugal não
havia mercado neste sector. É falso!
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É certo que Portugal, tal como muitos outros países até mais
desenvolvidos que nós, está a dar os primeiros passos. Contudo, existem já alguns equipamentos na nossa indústria, ainda que na maioria venham já montados em máquinas importadas, portanto, de Engenharia não portuguesa. Quando é
necessário integrar mais um módulo deve ser a nossa engenharia a realizar o trabalho, devendo, por esse facto,
estar capacitada para, alterar, aumentar e até criar algum
desse equipamento.
N.P. – É um departamento que está em crescimento dentro da MOTA & TEIXEIRA?
J.M. – A nossa empresa fez um trabalho de adaptação a
esta nova realidade. O que aconteceu também noutros
países onde a FESTO está instalada e onde os técnicos
tinham uma formação em engenharia
mecânica.
Com a evolução da
pneumática inteligente, relacionada
com o conceito de
pneumática proporcional, os engenheiros mecânicos
perceberam que não tinham a preparação suficiente para
dominarem este novo campo de aplicação e desenvolvimento.
Na MOTA & TEIXEIRA, paralelamente à formação em engenharia mecânica, implementámos um corpo técnico de especialistas que colmatasse as insuficiências de suporte tecnológico dos engenheiros mecânicos. Penso que nisso
fomos diferentes de qualquer outra empresa deste sector.
Hoje, existe a tendência para se passar da Engenharia Mecânica pura para a Engenharia Mecânica, com fortes ligações à Electromecânica, Electrónica e Software. Na MOTA
& TEIXEIRA foram criadas as condições de engenharia suficientes para também podermos abarcar esse campo.
N.P. – Recomendam, então, que até nas universidades os engenheiros mecânicos adquiram conhecimentos nessa área?
L.T.M. – Há uns anos atrás, a Universidade do Minho foi pioneira ao criar um curso de mecatrónica. Eu estou muito de
acordo com o conceito da mecatrónica.
N.P. – Actualmente, há uma enorme discussão
não só em termos nacionais como europeus, a
propósito da reformulação dos cursos, quer dos
engenheiros mecânicos tradicionais, quer daqueles que querem evoluir na tendência da mecatrónica, no sentido de fazer com que os engenheiros mecânicos abranjam uma maior área de
conhecimentos.
L.T.M. – Obviamente que tem de haver engenheiros mecânicos profundamente conhecedores de cálculos de estruturas
e por aí fora... No entanto, o engenheiro mecânico que o
mercado precisa neste momento para o ramo da automação
tem de ser uma pessoa com conhecimentos fortes de electrónica. Os conhecimentos de electrónica, mesmo que não
sejam muito profundos, são sempre fundamentais.
J.M. – Há um esforço dentro da empresa para habilitar todos
os colaboradores com a maior quantidade de formação possível. O nosso ideal seria pôr todas as pessoas a pensar
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como mecânicos, mas que, como complemento aos seus
conhecimentos, dominassem também a electrónica, indo
ao encontro da tendência actual de integração da electrónica na mecânica.
L.T.M. – Há uns anos começou-se a falar também na pneutrónica, que é a ligação da pneumática com a electrónica, termo
que reflecte o estado da pneumática actual.
A este propósito, e retomando o assunto da ligação da universidade à indústria, visitei duas ou três vezes um instituto
em Estugarda onde os trabalhos de fim de curso dos alunos
eram realmente construídos. Os trabalhos eram feitos em
parceria com empresas mundialmente conhecidas, para quem
as máquinas, assim que concluídas, eram enviadas, e supervisionados por professores muito bem preparados.
É óbvio que numa máquina destas, e estamos a falar de
alunos de Engenharia Mecânica, encontramos pneumática,
electrónica de comando, servo motores, motores passo a
passo, software, mas também vibradores de alimentação
cuja preparação das suas pistas é um trabalho puramente
mecânico e experimental.
Em Portugal é difícil encontrar pessoas que saibam preparar
um vibrador, algo que é tão necessário em automação industrial. Nessas visitas que eu fiz quase todas as celas de produção tinham não um vibrador, mas quatro ou cinco com peças
complicadíssimas para poder fazer a selecção.
Que caminho?
N. P. – Os alunos que saem da universidade quererão saber o que esperar do mercado de trabalho, da mesma forma que as pessoas ligadas à
indústria ainda não sabem muito bem com o que
podem contar? Que tipo de evolução é que prevêem que venha a acontecer no mercado da automação em Portugal, a curto e a médio prazo?
L. T. M. – Nos últimos anos apareceram alguns investimentos de empresas
estrangeiras que, de
uma maneira indirecta, tiveram efeitos positivos na
área da automatização em Portugal,
nomeadamente
através da compra
de componentes a
empresas portuguesas, como no caso da indústria automóvel.
O fornecimento de equipamento para as empresas de capital estrangeiro que estão em Portugal foi extremamente
positivo para o sector da automação, digo isto, porque as
exigências das empresas fornecedoras de produtos para
o mercado global já têm níveis de produção fortemente
automatizados.
J. M. – Ao nível da concepção das máquinas, creio que
hoje há uma tendência para que as máquinas sejam mais
flexíveis, isto porque a duração de vida do produto final é
cada vez mais curta, pelo que a máquina tem de ser readaptada a essa situação.
N.P. – Prevêem, então, que o crescimento do mercado se venha a manter?
L.T.M. – Dizem os livros que o crescimento do mercado de
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automação num país medianamente industrializado é de cerca do dobro do crescimento da produção industrial.
N.P. – A MOTA & TEIXEIRA está a preparar alguma
iniciativa no sentido de acompanhar esta tendência de aumento do mercado da automação?
L.T.M. – Achamos que o mercado da automação industrial
tem tendência para aumentar ainda mais.
O nosso plano é tentar adivinhar quais as futuras evoluções
técnicas do sector da automação, no sentido de ficarmos
capacitados para podermos responder correctamente às
solicitações do mercado.
Por exemplo, um produto de alta tecnologia que é lançado
numa feira internacional, e que é caro, pode estar perfeitamente adequado ao mercado suíço ou alemão, noutro mercado pode não ter saída, pelo que não vale a pena investir em
marketing, stocks, ou formação muito detalhada desse produto, se o mesmo não tiver aplicação em Portugal. Ainda
assim, não podemos olhar apenas para os produtos mais
antiquados, porque o mercado em Portugal está a evoluir
muito bem.
N.P. – Como é que vêem a evolução deste mercado, numa altura em que estão aparecer outras
marcas provenientes do Oriente e da Europa, com
outras filosofias competitivas?
L.T.M. – A concentração de empresas é uma evolução natural
do mercado mundial.
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Na pneumática, como noutros sectores do mercado global,
as pequenas e as grandes empresas têm-se vindo a fundir,
de maneira que, actualmente, existem três ou quatro grandes
grupos de pneumática a nível mundial.São marcas com uma
grande agressividade comercial, que têm vindo a ocupar o
seu espaço no mercado, nomeadamente no mercado nacional, em detrimento dos mais pequenos, não em nosso detrimento, uma vez que temos crescido nos últimos 4 a 5 anos
bastante acima do esperado aumento do mercado pneumático, o que quer dizer que, no mínimo, temos mantido a nossa
quota de mercado.
Comentário final (J. Norberto Pires):
A visita à MOTA & TEIXEIRA foi duplamente agradável.
Por um lado, mantivemos uma conversa sobre uma empresa
de sucesso com tradição no mercado, portanto numa posição algo conservadora e institucional, mas que se mantém
alerta sobre o mercado e procura liderá-lo não só em cota
mas também introduzindo novos conceitos e filosofias dentro da sua área de actuação.
Por outro lado, e a par disso falou-se do presente e do futuro
projectando um pouco a forma como as coisas evoluirão
nesta área da automação industrial quer em termos de oportunidades quer em termos de evolução do mercado.
E as opiniões manifestadas podem ser muito úteis para quem
perspectiva algum tipo de actividade profissional na área.
Foi sem dúvida uma conversa muito agradável.
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Entrevista Mota e Teixeira (FESTO)