UFT Universidade Federal
de Tocantins
Caminhadas de universitários de origem popular
UFT
UFT
Copyright © 2009 by Universidade Federal do Rio de Janeiro / Pró-Reitoria de Extensão.
O conteúdo dos textos desta publicação é de inteira responsabilidade de seus autores.
Coordenação da Coleção: Jailson de Souza e Silva
Jorge Luiz Barbosa
Ana Inês Sousa
Organização da Coleção:
Monique Batista Carvalho
Francisco Marcelo da Silva
Dalcio Marinho Gonçalves
Aline Pacheco Santana
Programação Visual:
Núcleo de Produção Editoria da Extensão – PR-5/UFRJ
Coordenação:
Claudio Bastos
Anna Paula Felix Iannini
Thiago Maioli Azevedo
C183
Caminhadas de universitários de origem popular : UFT / organizado por Ana Inês Souza,
Jorge Luiz Barbosa, Jailson de Souza e Silva. — Rio de Janeiro : Universidade Federal
do Rio de Janeiro, Pró-Reitoria de Extensão, 2009.
96 p. ; il. ; 24 cm. — (Coleção caminhadas de universitários de origem popular)
Ao alto do título: Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade. Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e
as Comunidades Populares.
Parceria: Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.
ISBN: 978-85-89669-51-1
1. Estudantes universitários — Programas de desenvolvimento — Brasil. 2. Integração
universitária — Brasil. 3. Extensão universitária. 4. Comunidade e universidade — Brasil. I.
Souza, Ana Inês, org. II. Barbosa, Jorge Luiz, org. III. Silva, Jailson de Souza e, org. VI.
Programa Conexões de Saberes : Diálogos entre a Universidade e as Comunidades Populares.
V. Universidade Federal do Tocantins. VI. Universidade Federal do Rio de Janeiro. VII.
Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.
CDD: 378.81
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares
Organizadores
Jailson de Souza e Silva
Jorge Luiz Barbosa
Ana Inês Sousa
UFT
Pró-Reitoria de Extensão - UFRJ
Rio de Janeiro - 2009
Coleção
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
Ministério da Educação
Fernando Haddad
Ministro
Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização e Diversidade – SECAD
André Luiz de Figueiredo Lázaro
Autores
Antônio Weliton Vieira da Silva
Adenauer Marques Cunha
Auro Silvestri
Crislane Maria da Silva
Cristiane da Silva Veras
Secretário
Deuzilene Mendes Marinho
Armênio Bello Schmidt
Édila Nunes dos Santos
Diretoria de Educação para a Diversidade - DEDI
Elda da Silva Costa
Leonor Franco de Araújo
Coordenação Geral de Diversidade – CGD
Geisy Gracielly Evangelista
Geovania da Silva Oliveira
Juliana Alves Araújo
Programa Conexões de Saberes:
diálogos entre a universidade e
as comunidades populares
Jorge Luiz Barbosa
Jailson de Souza e Silva
Coordenação Geral
Adriano Firmino V. de Araújo
Coordenação Geral do Programa Conexões de Saberes/UFT
Ana Flávia Santos Coelho
Coordenação Adjunta
Karylleila dos Santos Andrade
Coordenação de Produção Textual
Denilda Caetano de Faria
Coordenação Administrativa
Roseli Bodnar
Monitora da Articulação com o Programa Escola Aberta
Alan Kardec Martins Barbiero
Reitor
Flávia Lucila Tonani de Siqueira
Vice-Reitora
Ana Lúcia Pereira
Pró-Reitora de Extensão
Karla Adriana Rodrigues Coelho
Karliana Silva Oliveira
Marcela Ramos Alves
Marcelene Batista Cunha
Marco Antonio Costa Junior
Nádia Sousa Santos
Paulo André Rodrigues de Oliveira
Rafael Ataides de Suza Sobral
Roberta Alves de Oliveira
Rosilda Ferreira e Silva
Tayanna Fonseca Pimentel
Yanne Pereira da Silva Oliveira
Prefácio
A sociedade brasileira tem como seu maior desafio a construção de ações que permitam, sem abrir mão da democracia, o enfrentamento da secular desigualdade social e econômica que caracteriza o país. E, para isso, a educação é um elemento fundamental.
A possibilidade da educação contribuir de forma sistemática para esse processo implica uma educação de qualidade para todos, portanto, uma educação que necessita ser efetivamente democratizada, em todos os níveis de ensino, e orientada, de forma continua, pela
melhoria de sua qualidade. No atual governo, o Ministério da Educação persegue de forma
intensa e sistemática esses objetivos.
Conexões de Saberes é um dos programas do MEC que expressa de forma nítida a luta
contra a desigualdade, em particular no âmbito educacional. O Programa procura, por um
lado, estreitar os vínculos entre as instituições acadêmicas e as comunidades populares e,
por outro lado, melhorar as condições objetivas que contribuem para os estudantes universitários de origem popular permanecerem e concluírem com êxito a graduação e pós-graduação nas universidades públicas.
Criado pelo MEC em dezembro de 2004, o Programa é desenvolvido a partir da
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD-MEC) e representa a evolução e expansão, para o cenário nacional, de uma iniciativa elaborada, na
cidade do Rio de Janeiro no ano de 2002, pela Organização da Sociedade Civil de Interesse
Público Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Na ocasião constitui-se uma Rede de
Universitários de Espaços Populares com núcleos de formação e produção de conhecimento em várias comunidades populares da cidade. O Programa Conexões de Saberes criou,
inicialmente, uma rede de estudantes de graduação em cinco universidades federais, distribuídas pelo país: UFF, UFMG, UFPA, UFPE e UFRJ. A partir de maio de 2005, ampliamos
o Programa para mais nove universidades federais: UFAM, UFBA, UFC, UFES, UFMS,
UFPB, UFPR, UFRGS e UnB. Em 2006, o Ministério da Educação assegurou, em todos os
estados do país, 33 universidades federais integrantes do Programa, sendo incluídas: UFAC,
UFAL, UFG, UFMA, UFMT, UFPI, UFRN, UFRR, UFRPE, UFRRJ, UFS, UFSC, UFSCar,
UFT, UNIFAP, UNIR, UNIRIO, UNIVASF e UFRB.
Através do Programa Conexões de Saberes, essas universidades passam a ter, cada uma,
ao menos 251 universitários que participam de um processo contínuo de qualificação como
pesquisadores; construindo diagnósticos em suas instituições sobre as condições pedagógicas dos estudantes de origem popular e desenvolvendo diagnósticos e ações sociais em
comunidades populares. Dessa forma, busca-se a formulação de proposições e realização de
1
A partir da liberação dos recursos 2007/2008 cada universidade federal passou a ter, cada uma, ao
menos 35 bolsistas.
práticas voltadas para a melhoria das condições de permanência dos estudantes de origem
popular na universidade pública e, também, aproximar os setores populares da instituição,
ampliando as possibilidades de encontro dos saberes destas duas instâncias sociais.
Nesse sentido, o livro que tem nas mãos, caro(a) leitor(a), é um marco dos objetivos do
Programa: a coleção “Caminhadas” chega a 33 livros publicados, com o lançamento das 19
publicações em 2009, reunindo as contribuições das universidades integrantes do Conexões de Saberes em 2006. Com essas publicações, busca-se conceder voz a esses estudantes
e ampliar sua visibilidade nas universidades públicas e em outros espaços sociais. Esses
livros trazem os relatos sobre as alegrias e lutas de centenas de jovens, rapazes e moças, que
contrariaram a forte estrutura desigual que ainda impede o pleno acesso dos estudantes das
camadas mais desfavorecidas às universidades de excelência do país ou só o permite para os
cursos com menor prestígio social.
Que este livro contribua para sensibilizar, fazer pensar e estimular a luta pela construção de uma universidade pública efetivamente democrática, um sociedade brasileira mais
justa e uma humanidade cada dia mais plena.
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
Ministério da Educação
Observatório de Favelas do Rio de Janeiro
Sumário
Apresentação
Universidade Federal do Tocantins e o Programa Conexões de Saberes
Adriano Firmino V. de Araújo,
Ana Flávia Santos Coelho,
Karilleila dos Santos Andrade
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Introdução
Teias tecidas, Conexões de Saberes
Karilleila dos Santos Andrade
Memorial
Antonio Weliton Vieira da Silva
Memorial
Adenauer Marques Cunha
Meus relatos escolares
Auro Silvestri
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Meu nome é Maria
Crislane Maria da Silva
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Meus pais
Elda da Silva Costa
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Memorial
Juliana Alves Araújo
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Uma breve introdução de minha vida
Geisy Gracielly Evangelista
Memorial
Geovania da Silva Oliveira
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“O que sou é que me faz viver”
Deuzilene Mendes Marinho
Memorial
Édila Nunes dos Santos
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Luta – perseverança, vitória.
Cristiane da Silva Veras
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Memorial
Karla Adriana Rodrigues Coelho
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Memorial
Karliana Silva Oliveira
Lutas e vitórias
Marcela Ramos Alves
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O relógio de Deus
Marcelene Batista Cunha
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Memorial
Marco Antonio Costa Junior
“Só sei que foi assim...”
Nádia Sousa Santos
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Minha história
Rosilda Ferreira e Silva
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A história de uma vida
Tayanna Fonseca Pimentel
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Mudanças
Rafael Ataides de Souza Sobral
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A militância
Paulo André Rodrigues de Oliveira
Memorial
Roberta Alves de Oliveira
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Memorial
Yanne Pereira da Silva Oliveira
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Apresentação
Universidade Federal do Tocantins e o
Programa Conexões de Saberes
A formulação e a implementação de políticas destinadas à democratização do acesso
ao ensino superior e à promoção do “transbordamento” do conhecimento científico gerado
dentro das universidades para as comunidades, vem sendo um dos grandes desafios das
IFES, principalmente no campo da extensão universitária. Dentro desta perspectiva, afora
os problemas típicos enfrentados pela maioria destas instituições, a Universidade Federal
do Tocantins (UFT) enfrenta problemas inerentes as suas especificidades.
Até a década de 80, a região norte do estado de Goiás, carecia de políticas públicas
voltadas para seu desenvolvimento, sendo caracterizado pela pobreza e atraso econômico.
Essa realidade foi fruto, em grande parte, da grande distância entre esta região e os grandes
centros políticos (estadual e federal). Sua baixa densidade demográfica alargava ainda mais
esta distância, na medida em que impedia uma ampla participação na esfera política. Como
conseqüência, foi observado um crescente sentimento de abandono e insatisfação por parte
de sua população, dando origem a alguns movimentos que reivindicavam maior assistência
do poder público para esta região. Tais reivindicações culminaram na emancipação do
norte goiano através da criação do Estado do Tocantins, promulgada na Constituição de
1988. No entanto, mesmo hoje, é possível constatar algumas seqüelas desta política de
abandono, principalmente no norte do Tocantins, na região do “Bico do Papagaio”.
Pertencendo inicialmente à Região Centro-Oeste do Brasil, atualmente o Estado do
Tocantins faz parte na Região Norte, estando inserido no contexto da Amazônia Legal. Do
ponto de vista econômico, as bases do estado repousam no setor agrícola. Sua capital, o
município de Palmas, foi criado em 1990 a partir de um plano diretor, caracterizando-a
como uma “cidade planejada”. O desenvolvimento urbano desse município deve contemplar as diretrizes gerais desse plano diretor, repercutindo em uma formação diferenciada dos
espaços populares.
Criada em outubro de 2000, a UFT realizou o primeiro concurso para composição do
seu quadro docente no ano de 2003. Em 2004 houve a apreciação e convalidação dos
cursos de graduação e pós-graduação e os atos legais praticados até então pela Fundação
Universidade do Tocantins (UNITINS), sendo, posteriormente, homologado o Estatuto e o
Regimento da UFT e realizado o primeiro concurso para composição do quadro técnico
administrativo. Na ocasião, foram incorporados vinte e sete cursos de graduação nas áreas
das Ciências Sociais Aplicadas, Humanas, Educação, Agrárias e Ciências Biológicas, ofere-
Universidade Federal do Tocantins
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cidos em sete campi, nas cidades de Araguaína, Arraias, Gurupi, Miracema, Palmas, Porto
Nacional e Tocantinópolis e um curso de pós-graduação Stricto Sensu, até então oferecidos
pela UNITINS, em um total de mil estudantes.
A UFT nasceu com a missão de se tornar um diferencial na educação e no desenvolvimento de pesquisas e projetos inseridos no contexto socioeconômico e cultural do Estado.
Este se caracteriza por ser multicultural e, dessa maneira, esta instituição surgiu com o
desafio de promover práticas educativas que elevem o nível de vida de sua gente, por meio
dos cursos de graduação e licenciaturas e por atividades de extensão e de pesquisa. Isto
justifica a importância da sua descentralização. Os campi estão localizados em regiões
estratégicas do Estado, permitindo aos estudantes de várias regiões, não só do Tocantins, o
acesso ao ensino público superior. Hoje, a instituição conta com mais de 9 mil alunos.
Devido a sua localização, a UFT busca o investimento em ensino, pesquisa e extensão
em sintonia com as especificidades da Amazônia Legal, demonstrando, sobretudo, o compromisso social da Universidade. As áreas prioritárias de atuação são: Identidade, cultura e
territorialidade; Agropecuária e meio ambiente; Biodiversidade e mudanças climáticas; e
Educação e Fontes de energia renovada.
Dentro desse contexto, a Pró-Reitoria de Extensão, Cultura e Assuntos Comunitários
da UFT - PROEX tem como missão proporcionar condições para que a comunidade tenha
acesso às informações científicas, tecnológicas e culturais, cooperando com a construção
de novos conhecimentos e a integração da Universidade com a sociedade em geral.
O Programa Conexões de Saberes da UFT atua no sentido de criar meios e promover
ações para tornar o ensino superior acessível às populações de origem popular, de forma a
garantir uma melhor inserção e a permanência com qualidade dessa população nessa instituição, fazendo valer o princípio da universalização do conhecimento.
A coordenação do Programa procura elaborar e aplicar ações para o estreitamento dos
vínculos (conexões) entre os espaços (saberes) acadêmico e popular, de forma a garantir o
acesso e permanência com qualidade de estudantes oriundos deste último espaço na Universidade Federal do Tocantins.
Professor Adriano Firmino V. de Araújo
Coordenador Geral do Programa Conexões de Saberes da UFT
Professora Ana Flávia Santos Coelho
Coordenadora do Programa Conexões de Saberes da UFT
Professora Karylleila dos Santos Andrade
Coordenadora de Produção Textual do Programa Conexões de Saberes da UFT
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Caminhadas de universitários de origem popular
Introdução
Teias tecidas, Conexões de Saberes
Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã: ele
precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele e o
lance a outro; de um outro galo que
apanhe o grito de um galo antes e o lance a
outro; e de outros galos que com muitos
outros galos se cruzem os fios de sol de seus
gritos de galo, para que a manhã, desde
uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos
os galos.
E se encorpando em tela, entre todos, se
erguendo tenda, onde entrem todos, se
entretendendo para todos, no toldo (a
manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que,
tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto
Memória. Teia tecida. Fios se entrelaçam, prendem-se, cruzam-se. Rememória. É o passado
presente. Cada um no seu tempo e espaço: lutas, desafios, buscas, obstáculos, lágrimas, vitórias,
sonhos. Ver-se no espelho e identificar-se com sua história de vida. Fios emergem, misturando-se com as percepções do agora que passam a ocupar um novo espaço da consciência.
A teia constitui-se em um exercício de interrogação das experiências já vividas para
fazer aflorar não só recordações, mas também informações que possam configurar novos
sentidos ao presente. Saber aprender-apreender a refletir as lembranças da vida é um exercício de auto-conhecimento.
Ser convidado a rememorar é atividade incomum nos tempos de hoje, em que somos
constantemente estimulados a pensar no futuro e, nestes tempos de pós-modernidade, a
sorver infinitamente o presente. Muitas foram as questões que os bolsistas do Programa
Conexões de Saberes da UFT se fizeram ao produzir os memoriais: Por que relatar minha
vida a desconhecidos? Essa exposição é necessária? Por que tecer os fios?
No início, resistência e dificuldade em reviver o passado, compartilhar experiências.
Textos curtos, enunciados soltos. Com o tempo, os fios foram se encontrando, o que estava
Universidade Federal do Tocantins
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guardado, às vezes trancado, mutilado, preso, sufocado, foi se soltando, espraiando-se,
influenciando. In-fluir, fluir de dentro para fora. As experiências dos atores sujeitos dos
memoriais eram de confluências: duas correntes que se encontram, se reconhecem e se
misturam. Sabe quando duas taças de cristal estão em silêncio e batemos uma na outra, elas
se reverberam sonoramente. Como diz Rubem Alves, uma taça não influenciou a outra.
Uma taça fez a outra emitir o som que vivia, silencioso, no seu cristal. Rememorar: um toque
para provocar o outro a fazer soar a sua história de vida.
Ser Conexões de Saberes, ser UFT, viver universidade, sentir a diversidade, é o
instante do reencontro com uma trajetória especial de conquistas e sonhos de cada bolsista
do Programa.
Professora Karylleila dos Santos Andrade
Coordenadora de Produção Textual do Programa Conexões de Saberes da UFT
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Caminhadas de universitários de origem popular
Memorial
Antonio Weliton Vieira da Silva*
Meu nome é Antonio Weliton, tenho 21 anos e faço História na UFT. Irei contar um
pouco da minha vida neste memorial.
Meus pais se conheceram no período final da ditadura militar, em 1983. Na época, meu
pai era filiado ao Partido dos Trabalhadores-MA. Ele lutava junto com outros militantes do
partido para melhorar a vida do trabalhador. Passava muita necessidade, pois partido de
esquerda neste país nunca teve grande respaldo. Devido a ameaças de coronéis locais, meu pai
teve que ir para o Tocantins. Por causa dessa mudança e dos acontecimentos que ele vivia, me
mandou morar com a minha avó em Goiânia. Nessa época, eu tinha 6 anos. Com a estabilidade
que meu pai adquiriu morando no estado, eu e minha irmã voltamos a viver junto com meus
pais, foi quando comecei a estudar. Na escola, nunca arrumei confusão, pois tinha uma timidez profunda, o que foi abolida com o tempo por causa da socialização com os coleguinhas.
Aos 12 anos, consegui entrar em um Coral num colégio municipal da zona sul de
Palmas, capital do Tocantins. Eu desempenhava o papel de tenor, pois tinha uma voz um
pouco grave. Foi através do coral que a música entrou na minha vida. Sentia que com a
música podia ter a oportunidade de sair do anonimato: sonho de criança, é claro. Como
tinha um bom rendimento na escolinha de música, mas a voz não era uma das mais lindas
para participar de fato de um coral, a professora encaminhou-me para uma escola de música
da guarda metropolitana, onde davam aula de música e ensinavam a criança a tocar um
instrumento de sopro de sua escolha, na época já tinha 13 anos.
Gostava de ouvir Kenny G, Sandoval, por isso acho que me apaixonei pelo som do
sax, o que me ajudou na escolha do instrumento. Tive um aprendizado rápido. Em pouco
tempo já fazia parte da banda de música principal, deixando os colegas da escolinha para
trás. Conheci novos amigos bem mais experientes. Foi uma experiência incrível, já que eu
era o mais novo do grupo. Passei cinco anos na banda onde aprendi muita coisa sobre
postura, ética, moral e militarismo. A banda era parte de um grupo semi-militar: guarda
metropolitana.
Com a troca de prefeito de Palmas, o salário de todos os bolsistas da guarda foi
extinto. Ficaram somente os músicos concursados, o que pra mim representou um choque,
já que tinha passado 5 anos prestando serviços ao município. Foi por esse motivo que tive
que sair da guarda e abandonar por dois anos a música. Tinha 18 anos e acabara de concluir
o ensino médio. Por dois anos fiquei trabalhando informalmente como garçom, vendedor
pracista, caixa etc.
A leitura foi algo que depois dos 16 anos sempre esteve presente em minha vida, por
isso pensei na hipótese de cursar uma graduação. Na escola, tive notas muito boas em
* Graduando em História pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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Química e História, o que chega a parecer um paradoxo. Como no Tocantins não tem
faculdade que ofereça o curso de Química, a saída foi prestar o vestibular para História na
UFT, no Campus de Porto Nacional. No início, foi meio difícil entender o curso e sua
estrutura, mas percebi que o curso oferecia algo que eu sempre busquei desde o tempo do
ensino médio: senso crítico aguçado.
Hoje aos 21 anos e no 5º período de História, estou cada dia mais convencido em
seguir a carreira que escolhi. Quero me tornar um pesquisador na área e continuar com a
música, já que consegui adquirir um saxofone, o que era um sonho desde a adolescência.
Creio que ainda tenho muito a conquistar neste plano, mas isso só o tempo dirá.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Memorial
Adenauer Marques Cunha*
Sou fruto do amor perene entre Luiz Carlos Cunha e Miriam Alves Marques Cunha.
Aliás, devo dizer que somos frutos de tal sentimento, falo também de meu irmão, amigo e
cúmplice, Daniel. Acrescentando a esta tríade minha querida avó, Rosa Cunha, encerro meu
círculo familiar, já que nunca tive contato ou relações afetivas com os outros membros da
família – falando de uma forma geral. Aproveito para declarar a estas pessoas meu amor,
gratidão, dependência e completude.
Voltando a mim: nasci há 21 anos. Para ser mais exato, aos 4 dias de outubro de 1985.
Sou libriano e conceicioense, já que minha terra natal é a pequena Conceição do Araguaia.
Essa cidade se espalha ao longo das bucólicas margens do Rio Araguaia. Rio, que se fosse
dotado da habilidade humana da fala, discorreria muito melhor a meu respeito que este
hermético memorial. Conceição do Araguaia está localizada ao Sul do Pará e faz fronteira
com o estado do Tocantins – minha terra atual.
Em outros tempos, eu costumava escrever exasperadamente, mas confesso que me dói
redigir este memorial. Não sei ao certo o que este texto quer de mim, não gosto de escrever
por escrever, preciso preencher estas linhas com minha essência e não apenas com tinta,
seria desperdício de caneta e papel. E sei que não estou no caminho certo, o que escrevi até
agora não está a contento, pois meu pulso não começou a doer... mal sinal, meus textos
somente ficam bons quando meu pulso dói. Eu sei, me conheço.
Paro o trabalho, tomo café, ouço música, volto ao papel e não consigo concatenar as
idéias... sofro com isso, o escrito fica sem coesão. Sou genioso e subjetivo o suficiente para
interromper a minha história e relatar o seu processo. Isso é interessante e deve também ser
dito, de que vale o produto se você desconhece a produção?
Bem, isso não é de todo mal. Acho que encontrei o caminho. As idéias do parágrafo
acima me fizeram pensar: hoje eu sou o produto, minha caminhada é minha produção;
escrevo aqui sobre produto e produção... voltemos à produção.
O primeiro livro da minha vida, foi um livrinho infantil do Ursinho Puff. Considero isso
o marco inicial da minha alfabetização, se hoje sou capaz de ler e compreender Hegel, Nietzsche,
Habermas e companhia é graças ao livrinho do Puff. O mais interessante é que eu sequer li o tal
livro quando o adquiri. Lembro-me de que fiz meu pai ler e reler a historinha algumas dezenas
de vezes, durante uma viagem que fizemos de Conceição do Araguaia a São Paulo.
Uma viagem de mais de 40 horas devido às estradas de terra do Norte. O ônibus era
pouco veloz e um tanto sucateado. As estradas esburacadas, o ônibus velho e minha curiosidade pueril cansaram meu pai durante aquela viagem, mas ele o fez de muito bom grado.
Por que então isso simboliza o início da minha alfabetização se eu sequer li o tal livro?
* Graduando em Comunicação Social-Jornalismo pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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Simples, alguns poucos anos após àquela viagem eu já havia entrado na escola e estava
devidamente alfabetizado quando encontrei o livrinho no meio entre papéis velhos dentro
de uma caixa. Me surpreendo agora em me lembrar que na capa do livro eu havia escrito
meu nome, que meu pai me ensinara a escrever. E ao longo de todo livro eu havia transcrito
a letra de forma bem tremida várias palavras e frases que compunham a história. Qual a
surpresa? Toda criança faz isso, mas para mim é mágico me lembrar e ter a certeza de que foi
aí que tudo começou, e culminou no acadêmico de jornalismo que sou hoje, se preparando
para fazer monografia. Espero fazer isso com a mesma simplicidade, facilidade, curiosidade
e dedicação da criança de três anos que acabo de lhes contar.
Meu pulso começa a doer. Graças aos céus!
Creio que o mais impressionante na vida de todos nós é se dar conta de que somos
elementos sociais e históricos do complexo sistema que é o mundo. Quero dizer, quase
ninguém percebe, que qualquer pessoa nasceu e cresceu em um dado contexto, às vezes
nascemos em um contexto e vivemos em outro, ou outros. Somos observadores e agentes
ativos na construção da história do mundo. E não é somente isso, vivemos em sociedade e
comungamos diversos signos, símbolos, costumes e morais com nossos semelhantes.
Não obstante, o que quero dizer é que poucas são as pessoas que se dão conta disso e
conseguem traçar paralelos ao ponto de analisar suas próprias vidas de cima desses píncaros.
Talvez esteja sendo complicado demais, mas vou me fazer entender. Quem é capaz de
se lembrar dos anos que viveu a adolescência, recordar de qual momento histórico se tratava
e se ver como espectador de tudo isso? E mais, delimitar até que ponto esses acontecimentos interferiram na sua formação?
Outra intriga: nossa vida social é tão impregnada de ideologias igualitárias e meritocráticas que não nos damos conta das artimanhas e estratagemas utilizados pelos opressores
para nos controlar. Somos classificados e posicionados socialmente quanto ao nosso gênero, raça, sexo, cultura, classe, mas quem é suficientemente esclarecido ao ponto de perceber
que isso tudo não é nada salutar?
Digo isso tudo não apenas para divagar, o que acontece é que estou tentando contextualizar minha vida, enquadrá-la no mundo que vivi e vivo. Entender o quê significa ser uma
pessoa de origem popular dentro disso tudo. Meu intuito com isso é compreender quem sou e
como sou, mas não consigo fazê-lo, acho que tive a percepção tapada durante estes anos.
Bem, já que não consigo me inserir na história do mundo, não porque me julgue a par
desta, mas porque de fato não consigo isto de forma cognoscível, vou voltar somente à
minha história.
Minha mãe é tocantinense de Arapoema. Na década de 70 migrou do Norte para o
estado de São Paulo, lá conheceu meu pai, se casaram e após algum tempo mudaram para o
Pará, pois minha mãe tinha um pé por lá. E 1985 nasci, em 88 foi a vez de meu irmão, e em
1990, com a família já constituída, meus pais decidiram que nos mudaríamos para São
Caetano do Sul – terra natal do meu pai. Então, migramos do interior do interior do Brasil
para a região metropolitana de São Paulo, coração econômico do país.
Em São Caetano, moramos em uma casa onde meu pai passou parte de sua juventude,
é o mesmo lugar no qual minha avó mora até hoje. Às vezes, durante os períodos de férias,
nós voltamos lá para visitá-la.
Minha mãe, que até então trabalhara para ajudar na renda familiar, passou a desempenhar a função de dona-de-casa. Meu pai saía muito cedo para trabalhar, raramente o via sair.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Foi então, com cinco anos de idade, que iniciei minha vida escolar. Mamãe me levava à
escola todo dia de manhã e me lembro do primeiro dia de colégio, chorei desesperadamente
porque não queria largar da minha mãe, chorei porque não sabia o que iria encontrar por lá,
com quem eu iria lidar e não sabia como agir.
O nome da escolinha era Escola Municipal de Educação Infantil Otávio Tegão (EMEI).
Me recordo pouco do que vivi por lá, lembro bem que apesar de ser uma escola municipal
era muito bem cuidada, funcionava adequadamente e as professoras eram donas de uma
didática exemplar. Já se passaram 16 anos desde que estudei no EMEI e tenho apenas flashs
na cabeça, não consigo me lembrar de muita coisa.
Enfim, em 1992 regressamos ao Pará, voltamos a morar na mesma casa de antes e,
como eu já havia começado a estudar, meus pais me matricularam em uma escola municipal
perto de casa. O nome do colégio era Escola Municipal Teófilo Aguiar. Como eu já havia
cursado a pré-escola, fui matriculado direto na 1ª série, aliás a dita escola sequer tinha préescola. Quando minha mãe me deixou pela primeira vez no Teófilo Aguiar eu chorei. Era
um mundo novo, bastante diferente daquilo que tinha conhecido há pouco tempo. Chorei
porque não queria largar da minha mãe, chorei porque não sabia o que iria encontrar por lá,
com quem eu iria lidar e não sabia como agir.
As diferenças entre esta e aquela escola eram gigantescas, a começar pela classe social
e situação econômica das crianças que freqüentavam os dois colégios. O Teófilo funcionava em uma espécie de galpão que abrigava anteriormente uma usina de beneficiamento de
arroz. A infra-estrutura do estabelecimento era completamente inadequada para o funcionamento de uma escola. Não havia playground e nenhuma outra área que servisse de lazer às
crianças nas horas de intervalo, os alunos se divertiam pelos arredores da escola que não
tinha nenhum piso ou gramado, era terra grossa e suja.
Na escola anterior, eu me sentava em um local apropriado para lanchar em companhia de todos os meus colegas, agora eu me deparava com uma escola precária, sem
cantina ou assentos para que os alunos pudessem lanchar. O pior, o lanche servido era
uma espécie de papa feita com leite-em-pó e água, não havia pratos e nem talheres para
os alunos comerem, os alunos improvisavam recipientes em folhas de caju que eles
pegavam por ali mesmo.
A escola ficava no subúrbio, uma das regiões menos favorecidas da cidade e as crianças que a freqüentavam eram muito pobres, muitos dos pais eram analfabetos e a maioria
não havia concluído sequer o primário. Meus colegas não tinham materiais escolares, as
roupas eram velhas e gastas e me recordo que muitos andavam descalços.
As professoras trabalhavam com pouco ou nenhum afinco. Mesmo que quisessem
desempenhar um bom trabalho não conseguiriam, não havia a mínima estrutura para que o
ensino fosse considerado algo descente. Não havia livros e até hoje não há biblioteca, não
havia nada que pudesse ser chamado de material didático, havia mal papel para que atividades e provas pudessem ser impressas.
A diferença entre o EMEI e o Teófilo Aguiar poderia ser mensurada em anos luz,
apesar das duas escolas serem ambas municipais. Entrei nesta escola praticamente alfabetizado, sabia escrever e ler muita coisa enquanto meus colegas davam os primeiros passos no
antiquado bê-a-bá. Por esta razão, eu era visto, ora como um santo, ora como um pecador.
Meus colegas me olhavam com admiração, por isso tinham muito apreço por mim. Já a
professora me excluía um pouco, não me tratava como as outras crianças, não me deixava
Universidade Federal do Tocantins
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fazer certas atividades e parecia decepcionada com o fato de que não conseguir fazer com
que os outros, alguns não conseguissem chegar no nível em que eu estava.
Me lembro que certa vez ela me deu uma bronca porque eu havia ultrapassado os
limites de uma atividade que ela havia passado. Tratava-se de algo como ter que contornar
algumas letras que estavam tracejadas na cartilha, descontente em ter que fazer isso eu
escrevi o alfabeto inteiro no meu caderno sem seguir tracejado algum. A mulher não só me
deu uma bronca como me obrigou a ficar de castigo na sala depois do final da aula. Até hoje
tento compreender o porquê disto.
Estudei no Teófilo Aguiar de fevereiro a junho de 1992. Em agosto do mesmo ano,
minha mãe conseguiu me matricular na Escola de Ensino Fundamental e Médio Ministro
Jarbas Gonçalves Passarinho, ou somente Fundação Bradesco. Mas eu fui obrigado a iniciar
novamente a pré-escola porque eu era novo demais para ser matriculado no segundo semestre da 1ª série, pelo menos foi esse o argumento que eles utilizaram. Quando entrei na
Fundação Bradesco eu chorei novamente pelos mesmos motivos das vezes anteriores. Sempre choro frente a um novo desafio, mas sempre me saio bem. Acho que meu choro é uma
forma infantil de entrar com o pé direito em cada momento da vida.
Comecei tudo de novo, até hoje considero isto um atraso, mas as coisas aconteceram
como deveriam ser. Foi na Fundação Bradesco que construí toda minha vida escolar, estudei
lá da pré-escola ao 3º ano do Ensino Médio, foram doze anos de vivência e durante todo este
tempo a escola foi minha segunda casa. Ela ficava praticamente no meu quintal, era só atravessar a rua. Os amigos que conquistei lá, e que tenho até hoje, foram também minha família.
A Fundação Bradesco não é uma escola pública, mas não pode ser considerada uma
escola particular, é uma instituição filantrópica do Banco Bradesco destinada a educar crianças e adolescentes populares. Ainda é a melhor escola do sul do Pará e foi muito bom ter
estudado lá. Eles preparam muito bem os estudantes para o vestibular, mas não para a vida,
não dão muita noção de cidadania e do quê é o mundo além dos portões da escola. Apesar de
ser destinada a acolher estudantes de origem popular, havia gente de todas as classes sociais
estudando comigo, de filhos de médicos e de gerente do banco a filhos de faxineiros que
trabalhavam na própria escola. Apesar das diferenças de classe existirem e nós convivermos
com isso todo dia, nossa visão era tapada, eles insistiam em fingir que todos eram iguais e não
havia distinções entre nós. Todos usavam o mesmo uniforme, o mesmo material didático e até
o mesmo caderno, o mesmo lápis, a mesma borracha. Isso acontecia porque a escola dava todo
início de semestre uniforme e materiais para os alunos, da borracha ao livro didático.
O lugar era ótimo, havia quadra poli-esportiva, oficina de artes, laboratório de química e informática, atendimento odontológico e a biblioteca do colégio até hoje é melhor que
a biblioteca da universidade local. Tudo isso de graça, porém eles se esqueceram de dizer
que o vestibular não é o maior desafio desta vida, há piores.
Saí de lá preparado para entrar na universidade pública, mas não preparado para
continuar nela e enfrentar uma vida adulta.
Durante 12 anos minha vida foi assim, casa e escola, família e amigos. Quando terminei o 3º ano do Ensino Médio fui aprovado em dois vestibulares, um para o curso de Letras
da UEPA, e outro para Jornalismo aqui na UFT. Isso me deu duas opções, continuar na
minha cidade, na casa dos meus pais ou pôr a cara no mundo com 18 anos, ou vir para a
capital do Tocantins, morar sozinho e levar uma vida adulta cheia de responsabilidades,
que eu sequer sabia que existiam.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Optei ignorantemente pela segunda alternativa, como se isto fosse uma questão objetiva do vestibular e bastava assinalar um x. Me matriculei neste curso de jornalismo e vim
morar em Palmas, longe de casa e da minha família, apesar da minha cidade natal estar a
pouco mais de 300 km de distância daqui. Nunca experimentei na vida tantas mudanças.
Meu mundo virou ao avesso, passei a provar o doce e o amargo de uma vida “independente”. Foi aí que precisei amadurecer, ou isso, ou eu desistia de vez. E devo confessar que me
senti impelido a abandonar tudo e voltar voando para o conforto do meu lar.
Para quem acha que é difícil entrar na universidade, é melhor saber que o mais difícil
é permanecer nela. O pior de tudo sempre foi a falta de condições financeiras para continuar
por aqui, cheguei ao ponto de ter que decidir entre comprar passes de ônibus para ir para a
universidade ou comida para poder passar a semana, perdi muita nota, porque não tinha
dinheiro para tirar cópias para estudar ou fazer trabalhos.
Sempre chorei quando pisei o pé pela primeira vez em uma escola, e desta vez não foi
diferente, chorei quando entrei na universidade, chorei porque não queria largar da minha
mãe, porque não sabia o que iria encontrar, com quem eu iria lidar e como agir. E desta vez,
chorei mais porque era irreversível, porque não era mais criança, porque tinha que aprender
muita coisa sozinho.
Não me envergonho de dizer que até hoje choro, porque descobri que também é difícil
sair da universidade. Estou no quarto ano e quase terminando o curso. Nestes quase quatro
anos aprendi muita coisa, mudei e amadureci muito, conheci meus amigos BM’s (Bons e
Modestos) que são minha família aqui e não sei pra onde vão quando tudo terminar, não sei
se vou vê-los de novo no futuro. É tudo muito incerto e isso me dá um pouco de medo, não
sei bem ao certo nem mesmo o quê será de mim, e o pior é saber que vou sentir muita
saudade disso tudo, muita lágrima ainda virá. Espero não secar. Esta é minha vida até aqui.
Universidade Federal do Tocantins
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Meus relatos escolares
Auro Silvestri*
Minhas primeiras experiências em sala de aula deram-se na pré-escola, na qual
passei dois anos, um para cada série. A primeira, conhecida como jardim de infância,
freqüentei com quatro anos de idade em que, segundo me recordo, brincávamos boa parte
do tempo com os brinquedos da escola. Também nos assentávamos em grupinhos ao
redor de pequenas mesas para as atividades. Na segunda série, chamada “pré”, o que
mudou um pouco foi o teor das atividades. Lembro-me de algumas com desenhos em
papel para fazer o contorno, entre outras. Bom era, por um lado, não ter a preocupação
com deveres quanto a pesquisas e tarefas. Mas por outro, havia os conflitos instantâneos
de não se ter o que se quer às vezes.
Depois passei para a primeira série do ensino fundamental. Daí até a quarta, estudando
na mesma instituição, pude ir conhecendo mais disciplinas e, assim, vivenciando uma nova
fase escolar. Neste tempo, freqüentava ora o turno matutino, ora o vespertino. Diminuíamse as brincadeiras e aumentavam as aplicações de conhecimento mais abstrato. Principalmente, me lembro das matérias de Língua Portuguesa e Matemática.
Recordo-me de que no pátio da escola havia, além de pelo menos uma árvore, um bom
espaço de concreto em que, por vezes, nos ocupávamos em atividades recreativas, isto é,
nas brincadeiras do intervalo. O pátio, apesar do seu tamanho médio, era suficiente para os
corre-corres que se fazia. Considero essa etapa escolar como se fosse a base de praticamente
todo o restante do processo educacional pelo qual passei, pois foi aí que se deram os
aprendizados fundamentais do conhecimento abstrato, em sua maior parte, que serviram de
elementos estruturantes para os subseqüentes. E assim por diante, até o fim do ensino médio
e, depois, a faculdade.
Na quinta série, lembro-me de que começava a ter mais de um professor para a mesma
classe. E da sexta em diante já eram, quase sempre, um professor ou professora por disciplina. Foi aí também, a partir da sexta, que comecei no ensino público. Sendo que até a oitava,
freqüentei uma escola estadual. O segundo grau, hoje ensino médio, o fiz numa instituição
federal, concluindo esta fase no início do ano de 1999, ultrapassando um pouco o calendário escolar por causa de greves. Considerando que, além disso, ao invés de três anos, freqüentei um a mais, pois se tratava do segundo grau técnico, cuja carga horária se cumpria
em quatro anos. Nesse caso, optei pelo curso técnico em turismo. Hoje, essa escola técnica
é conhecida como CEFET.
Ainda no período do ginasial, isto é, segunda fase do ensino fundamental, também
tive mais contato com uma realidade sociocultural de maior diversidade, de forma a ampliar-me a noção do mundo escolar.
* Graduando em Comunicação Social pela UFT.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Depois disso, durante a etapa escolar do ensino médio, lembro-me de rumores que
tratava de algumas rupturas no sistema educacional vigente. No país, se estou certo, ocorriam reconsiderações sobre o sistema de ensino que se tinha até então, inclusive na parte
didático-pedagógica, se não me engano. Houve, por exemplo, a dissociação entre o ensino
regular e o ensino técnico. O que depois de um tempo também foi reconsiderado, voltando
a ser como era. Nos meus tempos de secundarista, também me recordo que dediquei alguns
esforços ao movimento estudantil, envolvendo-me num e outro momento com os trâmites
da militância.
Uma vez terminada esta etapa da infância e adolescência escolar e, após experiências
mal sucedidas com um e outro vestibular, tendo freqüentado inclusive cursinho, somente
no ano de dois mil e três é que ingresso na faculdade, no curso de Comunicação Social.
Vale ressaltar, entretanto, que, até o ano de 2001, estive residindo na cidade de onde
sou natural, Cuiabá-MT, passando aí por todas estas etapas escolares até a conclusão do
ensino médio. Percorrido dois anos e alguns meses após isso, passei a residir em Palmas,
capital do Tocantins, onde tenho cursado a faculdade de então.
Quanto ao Programa Conexões de Saberes, estava já no sétimo período quando pude
conhecê-lo e nele ingressar-me. O fato de já ter participado de uma e outra mobilização
organizada de caráter social, penso que me serviu de proveito e currículo para que pudesse
participar também desse Programa.
Participando desse Programa, poderei acrescentar aindà mais a minha gama de experiências de aprendizado. De modo que assim possa ter mais coisas para me lembrar, contar e
servir de exemplos para as novas vivências. Tanto para correções como para aprimoramentos.
Quando se entra numa faculdade, surge a sua volta um novo plano social ou meio de
convívio em que se tem a ocasião de exercer uma interação mútua de troca de expectativas, de
realizações e de idéias no sentido nem sempre só acadêmico. E isso faz com que tenhamos
boas oportunidades de desenvolvimento não só profissional, mas também pessoal. Ainda
mais quando se está inserido em espaços como esse proporcionado pelo Conexões de Saberes.
Pois se tem aí um subsídio tanto financeiro como humano que auxilia o estudante a continuar
interagindo nos diversos tipos de relações próprias do universo acadêmico, isto é, não somente em sala de aula, mas também nas atividades extra classe, por assim dizer.
Ter entrado na faculdade também representou uma boa ocasião para que pudesse por
em prática o aprendizado obtido no tempo de ensino médio. Passei a exercitar aquilo que
estava guardado na memória, quanto aos conhecimentos anteriormente adquiridos. Foi aí
também que se pôde ter certo contato com as outras áreas e ramos acadêmicos, através da
biblioteca e outras atividades, como as interdisciplinares. Aprendi que não se precisa ficar
isolado numa só área do conhecimento científico, por exemplo.
Outra coisa é a oportunidade que se passa a ter de enriquecer as vivências por se
conhecer pessoas, com suas diferentes formas de lidar com o meio universitário. Isso contrapõe os eventuais tédios que se tem às vezes, por ocasião de contínuas atividades em salas de
aula. Posso apontar os programas universitários como o Conexões de Saberes como vantajosos, nesse sentido. Já que através deles temos, em alguns momentos, certas dinâmicas
envolvendo mais indivíduos numa só coletividade.
Para concluir, deixo registrado um sentimento de socialização nessas recordações,
devidos agradecimentos aos que participaram desses processos direta e indiretamente, como
professores(as), colegas, familiares, que porventura tomarem parte desse relato.
Universidade Federal do Tocantins
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Meu nome é Maria
Crislane Maria da Silva*
Quem tem na pele essa marca, possui a
estranha mania de ter fé na vida.
Milton Nascimento e Fernando Brant
Crislane Maria da Silva, assim me chamam. Sou tocantinense, filha de dois alagoanos,
a caçula de uma família de nove irmãos. Somos seis irmãs e três irmãos. Aos gostos de meu
pai, o nome das meninas tinham que começar com a letra C, e o segundo nome Maria
(Cremilda, Creuza, Cleunice, Claudenice, Claudinete e Crislane), todas Maria. Os meninos
com a letra D, e o segundo Francisco (Dorgival, Davi e Duardo), todos Francisco. Não sei o que
ele viu de tão especial nessas letras. Talvez nada. Na sua simplicidade escolheu nomes também simples para compor com Maria e Francisco, o Silva, a soar pela vida também simples.
Meu pai, Francisco José da Silva, e minha mãe, Maria Lourdes Silva, um dia
casaram lá no interior de Alagoas. Assim, começou nossa história. Sempre viveram da
terra e do que ela pode se tirar. Moravam no sítio do meu avô paterno, plantavam,
colhiam, vendiam. Depois o sítio foi vendido para um grande plantador de cana-deaçúcar e puseram uma mercearia onde vendia de pinga a panelas. Com muitas dificuldades, muito trabalho e pouco resultado, resolveram ir embora para Goiás. Um irmão de
meu pai estava morando lá. Eu dizia que lá água e terra eram boas, era preciso só semear
que tudo dava, sem mais trabalho algum.
Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana
sempre..
Milton Nascimento e Fernando Brant
E lá se foram Francisco e Maria e seus quatro filhos ainda pequenos, mais um de colo
e outro na barriga. Como muitos retirantes, com a fé e a esperança de terra, água e tempos
melhores. Venderam tudo que tinham, receberam uma parte do dinheiro; a outra ia ser paga
com um prazo. Foram com o dinheiro contado para viagem, que quase foi esquecido no
balcão de uma lanchonete da rodoviária. O dinheiro restante era para comprar um “pé de
chão”. Dinheiro esse que até hoje não recebeu. Essa história aconteceu em 1975.
Chegaram ao povoado de Combinado, no então Goiás, depois Tocantins. Com muito
trabalho, já que o tal dinheiro nunca recebera, comprou um lote na serra, zona rural de
Combinado. O tempo foi passando, o povoado virou município.
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
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Caminhadas de universitários de origem popular
A família cresceu, mais três filhos chegaram...
Quando eu nasci, já morávamos na zona urbana. Vim ao mundo em tempos de vacas
gordas: tive berço, enxoval, nasci no hospital... minha mãe já tinha 36 anos, não pensava
em ter mais filhos, “sem querer, querendo,” eu nasci...
Acho que é por isso que hoje não gosto de dar trabalho a ninguém, odeio incomodar,
até mesmo quando é necessário.Vivi ali até meus seis anos, guardo poucas lembranças, mas
há coisas que a gente não esquece e nem quer se esquecer. Lembro-me da praça da igreja,
das amoreiras, do mingau da escola, da Serra, das goiabeiras do fundo do quintal...
Tem lugares que me lembram minha vida por onde andei
as histórias, os caminhos, o destino que eu mudei
cenas do meu filme em branco e preto
que o vento levou e o tempo traz...
Rita Lee
Meu pai é um sonhador e não se inquieta, está sempre em busca. E é preciso o bom
senso de minha mãe para estar-lhe puxando para realidade. Em uma dessas invenções de
meu pai, “encucou” que íamos morar no Pará, “que lá era terra boa e barata”, bateu o pé
dizendo que íamos e a minha mãe batia o pé dizendo que não, que se fosse era para ele ir
sozinho e com a “renca” de filhos. Minha mãe ganhou a guerra e o meu pai desistiu de ir
morar no Pará.
Herdei de meu pai esse coração sempre em busca, embora acredite que não tenho tanta
fé como ele, talvez seja mais receosa como minha mãe. Me preocupo demais com o “se” e aí
não faço vôos tão altos, mas acredito que a utopia é imprescindível para viver. A utopia é
como as estrelas, não podemos nunca alcançá-las, mas elas estão sempre lá no céu iluminando a noite escura, como diz Leonardo Boff, “enchem de reverência o espírito humano. Ela
mantém a esperança aberta pra cima e para frente, assim como as estrelas”.
Com a esperança aberta, meu pai resolveu que não ia para o Pará, e sim para Palmas, a
capital do novo estado, a cidade das oportunidades, diziam. E sobre as bênçãos de minha
mãe, fomos. Percebo hoje que fora uma decisão acertada. Combinado era muito bom, mas
Palmas para nós, seus filhos, seria bem melhor. “Quando se deseja o abismo é preciso ter
asas”, já dizia Nietzsche.
E voamos pra Palmas, em abril de 1992. Chegamos à noite em uma casinha de palha.
Ali seria nossa casa, o choro foi geral, menos o pai, “as coisas vão melhorar”. Palmas era uma
cidade recém-criada, mas já existia periferia. Aqui moramos no Bairro Aureny III. Poeira,
água de carro de pipa; girassóis, poeira; carcaça de frango, esperança; poeira, desemprego,
fé em Deus... tempos difíceis aqueles.
Tudo esta guardado em la memoria,
sueño de la vida y de la história.
Leon Gieco
Aos poucos as coisas foram se ajeitando. Construímos uma casa, todo mundo estudando, alguns trabalhando, meu pai conseguiu uma terra para trabalhar de meia (planta, cuida
colhe e reparte a metade com o proprietário), depois conseguiu uma chácara própria. Enfim,
Universidade Federal do Tocantins
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seu sonho!! A chácara ficava a 4 km do bairro. O pai e a mãe ficavam lá e vinham no domingo
para vender na feira e ir para missa à noite. Eu morava na nossa casa com meus irmãos e
irmãs e passava minhas férias na chácara.
E eu fui crescendo junto com essa cidade, no meu bairro, na minha rua, na minha
casa, na vizinhança, na igreja, na chácara. Estudava, fazia catequese, brincava na rua e na
casa das vizinhas. Estudei da 1ª a 8ª série no colégio Estadual Liberdade, fica perto da
minha casa. Sempre fui uma boa aluna, mas nunca ganhei prêmios ou “estrelinhas” por
causa das minhas boas notas. Era uma criança tímida, até a 4ª série era muito chorona.
Uma de minhas irmãs, Claudenice (a Clau), trabalhava e ainda trabalha em um escritório
de contabilidade e sempre trazia pra mim o almanaque do Jornal do Tocantins. Toda segundafeira, minhas mãozinhas se apertavam, ansiosas para que ela chegasse para poder pegar mais um
almanaque e devorá-lo. Nele havia uma sessão de correspondência. Cheguei até a me corresponder
com algumas pessoas. Isso tudo me ajudou a exercitar o gosto pela leitura, quanto ao desenvolvimento da escrita. Depois de algum tempo, desisti de enviar as cartas. Era difícil pô-las no
correio, já que no bairro não tinha e ainda não tem nenhum posto dos correios. Dependia da boa
vontade das minhas irmãs e irmãos que trabalhavam no centro para ir aos correios para mim. É
chato depender dos outros e eu desconfiava que elas liam as minhas cartas.
Em 2000, a nossa chácara foi desapropriada para a construção do aeroporto e da usina
hidrelétrica. Foi uma confusão, um desrespeito, uma mixaria que pagaram de indenização.
Mas “ordem e progresso”, é o que eles dizem.
Depois de muito procurar e até ficar doente sem ter uma chácara para plantar, colher,
cuidar, viver, meu pai comprou uma no município de Divinópolis, que fica a uns 120 km
de Palmas. E lá se foram Francisco e Maria, dessa vez, só os dois. Os filhos, em sua
maioria, já haviam se casado e um deles trabalhando no Maranhão. Ficaram em casa eu a
Cleu e o Du. Antes a distância que nos separava do pai e da mãe era 4 km. Íamos na
chácara todo final de semana e voltávamos no domingo, além dos feriados, férias e a
qualquer hora podíamos ir de bicicleta ou a pé. Mas agora era 120 km. É muito chão.
Agora, só nos feriados e nas férias. Antes eu chorava escondida, hoje não choro mais,
aprendi a caminhar com as minhas próprias pernas, eles me ensinaram e a vida também.
Minha mãe ainda chora.
Já que você não está aqui,
o que posso fazer é cuidar de mim...
Renato Russo
Do ensino fundamental guardo as melhores lembranças da 8ª série. Foi a melhor série que
cursei, não porque o colégio tinha melhorado a didática, ou estrutura, mas tive uma professora
ótima de geografia e nossa turma sabia se divertir. Normalmente, tínhamos aulas até a hora do
recreio, faltava sempre professor, aí sobrava tempo suficiente para fazer até um jornal. Eu e uma
outra colega iniciamos essa aventura. Nessa época queria ser jornalista. O jornal era escrito à
mão, tirávamos cópia e vendíamos, chegamos à 2ª edição e paramos: fomos ameaçadas de
surra por uma garota que não gostou de uma notícia sobre ela na coluna de recadinhos.
O ensino médio eu cursei no CEM Santa Rita de Cássia, fica em outro Bairro no
Aureny I, como cursava pela manhã, ia a pé 2,5 km, aproximadamente, e voltava de ônibus.
Dessa época, agradeço a todos os colegas que me deram carona de carro ou bicicleta, ou
mesmo a companhia a pé. À Cleu, por pagar meus passes estudantis.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Gostava de me envolver em outras atividades. Participava da vida comunitária e da
igreja, nos movimentos, na catequese me preparando para crisma, nas missas. Em 2001,
entrei em um grupo de jovens e assim conheci a PJ (Pastoral da Juventude) e o Hítalo, me
apaixonei pelos dois. Desde então nunca saí: “Juventude, já!”. E estamos juntos até hoje.
No ano seguinte, ajudei a formar o grupo de jovens Kerígma, nesse caminho fui fazendo
meu caminho.
Um dia acordei, me olhei no espelho e vi que havia crescido, não no tamanho,
claro. Mas havia crescido. Estava terminando o ensino médio e aí: o que vou ser, já
que cresci?
Comecei a buscar respostas. Decidi que precisava trabalhar. Conversando sobre isso
com a Irmã Leida, ela me sugeriu entrar no grupo de Geração de Renda, “Farmácia Viva
Saúde e Vida”. É um projeto que nasceu com as líderes da Pastoral da criança, para
preparar multimistura e xaropes caseiros, e depois virou um grupo de geração de renda. A
partir do conhecimento popular, do uso de algumas plantas medicinais fazem remédios
baratos, atendendo muitas famílias de baixa renda do bairro. Todo dinheiro que entrava
era dividido com os cincos componentes, era pouco, mas era muito digno. Caí de páraquedas, trabalhava à tarde e estudava de manhã. Foi uma grande escola para mim.
Mas a tal pergunta eu ainda não havia me respondido. Me encantei pela vida religiosa
e quis ser uma Irmã de Notre Dame, tenho um imenso carinho e respeito por elas. Parte da
minha formação pastoral devo a essa congregação.
Chegava ao final do ano e eu precisava decidir: ir para casa de formação ou prestar o
vestibular. Decidi nem sim nem não. Embora eu quisesse fazer uma experiência vocacional
me preocupava se esse era o caminho certo. Não me permitia apenas tentar, eu tinha que ter
certeza. Mal sabia eu que as incertezas são mais constantes na vida que as certezas e seguranças. E há sempre que se decidir. E eu decidi não decidir.
Nesse meio tempo, fiz o vestibular para Engenharia de Alimentos, queria fazer Farmácia, mas só tinha na faculdade particular. Fiz o vestibular tranqüila, não exigia de mim a
aprovação, não havia feito cursinho, intensivão ou coisa assim. Lancei os dados e deixei o
destino decidir por mim.
No dia do resultado, estávamos eu e a Isaurina trabalhando e conversando sobre
qualquer coisa que não lembro mais. Tocou o telefone no escritório da Pastoral da Criança,
que ficava ao lado, era para mim. Fui atender. Era a minha irmã no outro lado dizendo que
eu havia passado no vestibular. Minha reação foi não acreditar, só podia ser brincadeira.
Voltei e continuamos o nosso trabalho.
Com a dúvida e um misto de sentimentos, fui para casa. Os amigos e o namorado
começaram a ligar e caiu a ficha. Eu era mais uma universitária da UFT. E de certa forma fiz
minha escolha e a minha resposta.
Eu fui a primeira da família a entrar na Universidade, logo eu a caçula de nove
irmãos. Meu pai mal escreve o próprio nome, minha mãe cursou até a terceira série. Era um
orgulho para eles ter uma filha universitária. Eu tenho orgulho de ser filha deles, pois o
que eles me ensinaram, livro nenhum ensina. O saber deles não tem diploma nem status,
mas é mais precioso.
Por isso eu pergunto a você no mundo,
se é mais inteligente o livro ou a sabedoria?
Universidade Federal do Tocantins
25
O mundo é uma escola; a vida é um circo;
amor palavra que liberta, já dizia o profeta...
Marisa Monte
Com muito medo e toda a minha vontade, fui ao meu primeiro dia na universidade.
Teve o trote, uma bobeira que um dia alguém inventou e começaram a repetir e ninguém
sabe dizer o porquê. O primeiro período, até agora, foi o mais difícil. Não estava acostumada a percorrer todos os dias duas horas de ônibus, ficar o dia todo estudando e comer
comida fria. Assistir às aulas de Cálculo e não conseguir acompanhar o raciocínio do
professor. Era uma decepção, uma vez que nunca tive dificuldade em matemática, mas
muitos conceitos eu não havia visto. E eu pensava: “Não vou me adaptar!!!”
As coisas, como na natureza, tendem ao equilíbrio. Aos poucos fui me adaptando
àquele novo ambiente. Conseguia me sair bem em todas as matérias, inclusive em Cálculo.
Comecei a vender cosmético, pra garantir uma graninha (quase nada), meus irmãos e
irmãs me ajudavam com as despesas. Tentei monitoria, não consegui. Tentei BITEC, não
consegui. Tentei PIBIC, quase consegui.
Vi o cartaz sobre a seleção para bolsistas do Programa Conexões de Saberes. Era
perfeito. Contemplava minhas necessidades acadêmica e financeira, ao passo que estaria
dando um retorno à minha comunidade. No dia que saiu o resultado da seleção para o
Programa, surgiu a oportunidade de enviar um projeto para concorrer uma bolsa no PIBIC.
Mais uma vez tive que tomar uma decisão. Fiquei com o que já era certo, e o que mais me
entusiasmava. Cá estou escrevendo meu memorial.
O Programa tem me possibilitado ousar vôos mais altos, como ver a questão universitária brasileira a partir de uma outra ótica. Até pouco tempo, eu mal sabia o que era lógica
meritocrática. Embora, já no terceiro ano, considerasse o sistema de acesso ao ensino superior federal excludente e um direito de apenas alguns que avalia apenas o mérito: isso é
meritocracia. Escrevia no jornal da escola, um dos meus artigos dizia: “Pensar só no problema não resolve nada, é preciso ver além dele. Saber as respostas certas, como exige o
vestibular, nem sempre é o essencial, é importante fazer as perguntas certas. É aí que as
coisas começam a mudar.”
Estar no Programa não é apenas uma circunstância. Eu devo isso a uma teia de fatos
que eu já havia tecido, através de minhas relações, dos meus amigos e amores, da minha
família, da minha fé, da minha militância, dos livros que eu li e das músicas que me
embalaram. E por pensar a partir do chão que eu piso. Mais que ser moradora de um bairro
de periferia e vir de origem popular é importante se identificar com esse território, com as
lutas e dores do local.
Como diz Leonardo Boff: “A situação é formada por opções e decisões que me
antecederam. Estou jogado dentro de uma situação que não escolhi. Dentro dessa
situação me auto-determino e faço caminhada da minha realização. A situação é o
meu limite (...) é também chance e oportunidade, pois dentro dela vigem inúmeras
possibilidades.”
E assim eu vou vivendo, tentando me integrar naquilo que penso, vejo e sinto. Eu vejo
o mundo e as pessoas no mundo, eu vejo a injustiça e a beleza. Aí eu penso; logo sinto.
26
Caminhadas de universitários de origem popular
Embora com minhas ações eu não mude o mundo e nem as pessoas, mas quem sabe a mim
tente ser e florescer.
Assim vivendo minha utopia
Eu vou levando a vida,
Eu vou viver bem melhor,
Doido pra ver o meu sonho teimoso
Um dia se realizar.
Milton Nascimento e Fernando Brant
Universidade Federal do Tocantins
27
Luta – perseverança, vitória
Cristiane da Silva Veras*
Meu nome é Cristiane da Silva Veras. Nasci em Altamira, Pará, no ano de 1980. De seis
irmãos, sou a mais velha. Meu pai, Raimundo Nonato, lavrador e vigilante noturno, não
teve a oportunidade de ir à escola; não sabe ler e escrever. No entanto, em meio aos obstáculos aprendeu a ler e escrever seu nome e algumas outras palavras. Mas nunca deixou de
incentivar e de se esforçar para que os filhos tivessem um bom estudo. Minha mãe, Maria
Aparecida, merendeira escolar e coordenadora infantil, depois de muito esforço e luta,
concluiu o ensino médio. Minha mãe ama estudar e sonha em fazer ainda um curso superior.
Por amor aos estudos, meus pais não mediram esforços para os filhos estudarem e, assim,
terem melhores oportunidades no mundo letrado.
Meu percurso escolar começou em 1986 no jardim de infância. No ano de 1988 cursei
a 1ª série do ensino fundamental, os primeiros anos de estudo da minha vida ocorreram na
escola Estadual Oneide de Souza Tavares, na cidade onde nasci.
Em 1989, eu já estava morando em Morada Nova, Marabá, estado do Pará. Minha
família e eu permanecemos por 3 anos, onde estudei a 2ª, 3ª e 4ª série na escola municipal
1º grau Pedro Peres Fontinelle. Em seguida, no ano de 1992, já estávamos morando em
Palmas. Aqui vivi os maiores acontecimentos da minha vida, no âmbito escolar.
No ano de 1992, cursei a 5ª série no Colégio Estadual Santa Rita de Cássia, mas tive
que mudar de escola, porque mudamos de bairro. Então fui estudar na Escola Estadual
Novo Horizonte, onde estudei a 6ª, 7ª e 8ª série. Para cursar o 2º grau tive que retornar ao
Colégio Estadual Santa Rita de Cássia. Era o único colégio que tinha ensino médio na
região Sul de Palmas. No ensino médio optei pelo magistério. Era o desejo de meus pais.
Eles questionavam que era o melhor curso, com maiores chances de trabalho para pessoas
de baixa renda.
Mas o meu desejo era o curso de contabilidade. Abri mão das minhas vontades e cursei
o magistério. Conclui o ensino médio no ano de 1998. Quando terminei esta fase não tive
possibilidades de fazer um cursinho pré-vestibular, então resolvi estudar novamente outro
curso de 2º grau para não ficar parada por dois anos, escolhi o curso científico, o colegial.
Após os dois anos, foi possível fazer um cursinho pré-vestibular particular, que com
muito esforço dos meus pais e meu, conseguimos pagar por 4 meses. O sonho dos meus pais
era ter os filhos(as) na universidade, fazendo um curso superior. Como eu sou a filha mais
velha, eles achavam que por obrigação eu tinha que fazer um curso superior. Para realizar o
sonho deles, me empenhei o máximo nos meus estudos e no cursinho preparatório, para
* Graduanda em Pedagogia pela UFT.
28
Caminhadas de universitários de origem popular
assim ser bem sucedida no vestibular. Quando eu fiz o vestibular em 2001, eu já estava
noiva, planejava casar no final do ano.
A escolha do curso foi minha. No momento da inscrição do vestibular escolhi o curso
de Pedagogia, era o que mais se aproximava do magistério, pois aprendi a gostar da área de
humanas quando cursei o magistério. Então resolvi aprofundar os meus conhecimentos em
relação à docência, planejamento, didática, metodologia e a supervisão. O curso de Pedagogia tem todo um suporte para esse aprofundamento.
Fui aprovada na vigésima quarta colocação no meu primeiro vestibular. Meus pais
ficaram numa alegria sem explicação, acho que eles ficaram mais alegres do que eu mesma.
Eles contaram para todos os amigos e conhecidos que agora tinha uma filha na universidade. Comecei o curso de pedagogia no ano de 2001, em agosto, quando era ainda Fundação
Universidade do Tocantins, campus Universidade de Palmas, onde tinha que pagar uma
taxa a cada período. Ao final de 2001, em dezembro, foi realizado o meu casamento. Quando me casei com Adriano, eu estava no 1º período do meu curso. Ao final do 3º período,
tranquei o curso porque fiquei grávida. Em janeiro de 2003, chegou ao mundo minha filha,
Jhessica Michelle.
Por desejo meu e de meu esposo, resolvemos que eu ficaria um ano sem estudar. Mas
os meus pais acharam que eu não retornaria para a faculdade. Pensaram que o sonho de ter
uma filha com curso superior não seria realizado. No início de 2004, eu retornava a faculdade e a alegria dos meus pais se restaurava: minha filha havia completado um ano de idade.
Tive dificuldades para retornar à faculdade, pois encontrei problemas para fazer o
destrancamentro do curso. Consegui, mas retornei ao curso com apenas duas disciplinas.
Para ter um bom desempenho nos meus estudos, fiz alguns sacrifícios como, estudar em dois
períodos diários, manhã e tarde, tarde e noite, sacrificando meus momentos familiares com
meu marido e filha. Mas contei com o apoio e a compreensão do meu esposo.
Mas os acontecimentos de minha vida acadêmica não acabaram. Em abril de 2006, fiz
a inscrição para seleção de bolsista para o Programa Conexões de Saberes, para alegria
minha fui selecionada. No primeiro momento, achei que não seria contemplada, pois nunca
tive sorte em programas e projetos realizados na universidade. Dessa vez foi diferente, fui
contemplada como um dos 25 bolsistas para compor o grupo do Programa Conexões de
Saberes da UFT.
Estar nesse Programa é de grande prazer e satisfação. É de muita valia para o meu
crescimento profissional, intelectual e pessoal. Estou tendo a oportunidade de aprender a
lidar com vários acontecimentos diferentes e de construir novos conhecimentos com um
grupo de estudo diferente do convencional da sala de aula. Posso dizer que estou tendo uma
conexão de saberes em minha vida.
Espero que quando eu estiver atuando na área da educação, saiba usar as experiências
adquiridas na minha formação acadêmica e no Conexões de Saberes. Desejo atuar no campo de trabalho com determinação, sabedoria e desenvoltura. Estou aprendendo muito e
espero aprender muito mais nesse Programa. Tenho consciência de que serei uma profissional capacitada e flexível no campo de trabalho, pois estou aproveitando as oportunidades dadas a mim, em relação à formação profissional e pessoal. O Conexões e o curso de
Pedagogia me proporcionam crescimento intelectual, determinação, conhecimento de mundo
e o saber enciclopédico.
Universidade Federal do Tocantins
29
“O que sou é que me faz viver”1
Deuzilene Mendes Marinho*
Pela memória é possível afirmar as dificuldades enfrentadas, bem como as alegrias
adquiridas ao longo da nossa trajetória. Falar sobre o nosso passado nos remete não apenas
aos momentos felizes, mas também aos fatos que afloram alguns ressentimentos que ficam
marcados e guardados nas raízes dos nossos pensamentos. Colocar esses acontecimentos na
ponta do lápis não é uma tarefa fácil, ainda mais quando se trata de um passado marcado por
incertezas. Apesar das palavras limitarem meus sentimentos, pretendo relatar a minha caminhada da melhor forma possível, para que assim todos a compreendam, inclusive eu...
Mas afinal, quem sou eu?
Meu nome é Deuzilene Mendes Marinho. Sou caçula de seis filhos. Nasci em agosto de
1984, na cidade de Palmeirópolis, interior do Tocantins. Sou amiga, brincalhona, mas infelizmente sou muito teimosa. Fisicamente, sempre fui magrinha. E quem não me conhece, vê em
mim apenas uma menina frágil. Nem se quer imagina o que passei no percurso da minha vida.
Pensando na minha história de vida, a sensação que eu tenho é de que não deixei de
ser ainda a “menininha” que adorava brincar na rua, confeccionava seus próprios brinquedos, se aventurava nas árvores mesmo com medo de cair, tinha medo do “bicho papão”, ia
a pé para a escola, chorava por qualquer motivo, tocava a campainha da casa do vizinho e
saia correndo... todas essas lembranças, na maioria das vezes, são esquecidas. Mas eu estou
tendo a oportunidade de resgatá-las através da memória.
Toda minha infância morei em Palmeirópolis. Ô “terrinha” boa! Foi uma fase marcada
por limitações de todas as ordens. Apesar disso, tinha uma alegria muito grande de viver.
Como uma boa calanga do cerrado, na minha infância comi muita macaúba, piqui, murici,
carnaúba, buriti, tudo com farinha.
A minha vida na escola começa em 1989, quando sou matriculada na Pré-Escola
Municipal Elda Silva Barros, em Palmeirópolis. Minha mãe mandou confeccionar meu
uniforme, saia pregueada verde e blusa branca. Para adquirir esse dinheiro ela teve que
vender uma vasilha de plástico para uma vizinha. Entrar na escola foi algo tão marcante que
ainda me lembro do meu primeiro dia de aula como se estivesse acabado de acontecer.
Muito cedo eu caminhava orgulhosa de mãos dadas com minha mãe, sentia uma felicidade
enorme, e ao mesmo tempo o medo se apresentava com grande intensidade.
1
William Shakespeare
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
30
Caminhadas de universitários de origem popular
Ao chegar ao colégio, entrei para sala e me sentei. Assim que minha mãe foi embora,
eu chorei muito. Só parei de chorar quando a professora me colocou sentada ao seu lado. E
esse episódio se repetiu nos primeiros dias de aula. Depois eu me adaptei e comecei a
explorar aquele ambiente, até então desconhecido por mim.
Nos intervalos, eu gostava muito de brincar de escorregar pelos corredores. Isso durou
até eu conhecer o mundo encantado da biblioteca. A partir daí, troquei as brincadeiras pelas
fascinantes viagens nos livros de histórias. Como não sabia ler, ficava apenas admirando as
figuras. Passados alguns meses de encantamento, aquele mundo aos poucos foi se transformando em decepção. Muito rápido, fui sentindo um isolamento. Comecei a me achar feia e
burra porque era pobre. No final da primeira série, de acordo com o resultado final, eu tinha
sido aprovada para a série seguinte. Mas eu fui impedida de recomeçar o novo ciclo por
falta de vagas. A direção da escola alegou que o critério usado para passar os alunos foram
as notas. Todos os alunos que ficaram atrasados junto comigo, coincidência ou não, eram
pobres, assim como eu. Como essa era a única escola que disponibilizava essa série, tive
que repetir a primeira para não ficar parada.
A partir daí comecei a me esforçar para ser a melhor aluna da classe. Lembro-me de que
me sentia vitoriosa quando superava em nota a menina que era preferida pelos professores,
a mais rica da classe e considerada a mais inteligente. Na sala de aula era rotina a leitura
individual e em voz alta. Nesse momento, deixar de aplicar a entonação correta, era motivo
de correção impaciente da professora. Eu gostava e ainda gosto de estudar matemática, o
que mais assustava era o dia de sabatina, os alunos tinham que decorar a tabuada. Cometer
um erro, era fatal.
Em 1994, passei pelo primeiro momento de transição da minha vida escolar. Fui
estudar no Colégio Estadual Zulmira Nogueira Avelino, depois chamado Professora Oneides
Rosa de Moura. Ia cursar a temida terceira série, onde todos diziam que era uma das mais
difíceis. No começo, eu senti um pouco com a mudança de ambiente. A timidez tomou
conta de mim, tinha medo de perguntar e ser perguntada em sala de aula, não gostava de
sofrer olhares de desprezo de minhas colegas. Hoje eu sei, era a discriminação de classe que
estava me anulando. Mas eu não abria mão de buscar ser aceita como todas. Passei a me
dedicar cada vez mais aos estudos. Naquele momento, isso representava a busca da valorização atribuída pelo professor aos alunos que tivessem os melhores desempenhos e significava também entrar no jogo da competição entre os colegas pelas melhores notas.
A nota era vista, e, infelizmente, ainda é como prova de aquisição do conhecimento.
Apesar de boas notas e de não apresentar dificuldades com o aprendizado, não me sentia
parte da escola. Achei-me de fato pertencente aquele meio, quando passei a ser representante de sala. A partir daí, comecei a construir vínculos com os professores e colegas. Aos
poucos, fui deixando o complexo de lado e passei então a participar das atividades que a
escola oferecia como grêmios estudantis, gincanas, atividades esportivas, entre outras.
A competição pelas melhores notas resultou em uma discussão entre uma colega e eu.
Do nada, ela começou a me insultar. Não me recordo muito bem as palavras usadas por ela.
Só sei que na hora o sangue me subiu a cabeça e quando percebi a menina estava no chão.
Eu a empurrei. Isso resultou na minha primeira visita à diretoria. Na presença da Diretora, eu
tremia tanto que mal conseguia falar. Mesmo com muita dificuldade relatei (aos prantos) o
acontecido. Aparentemente tudo ficara resolvido. Passados dois dias, chega a minha casa
uma intimação pra minha mãe comparecer a escola o mais rápido possível. Expliquei o que
Universidade Federal do Tocantins
31
houve para ela, mas mesmo assim preferiu ir até o colégio certificar-se dos fatos. Quanto
a mim? Fiquei em casa à espera do meu castigo. Depois de muita tensão, minha mãe
chega. E para minha surpresa, chega aos prantos. Ansiosa por saber logo o motivo do
choro, não hesitei em lhe perguntar. Como resposta, minha mãe me deu um forte abraço.
Em seguida, disse que eu tinha sido destacada como a melhor aluna do colégio e tinha
sido premiada com um micro-system.
O fato de ter sido destacada como melhor aluna fez com que eu me dedicasse obsessivamente aos estudos. Eu estudava, não na intenção de adquirir conhecimentos, e sim pelo
prazer da competição pelas melhores notas. Nem imaginava os problemas que isso viria me
trazer futuramente. Dedicando-me tanto aos estudos, meus familiares e amigos criaram uma
expectativa de sucessos profissional e escolar muito grande a meu respeito. E isso, de certa
forma, me atrapalhou muito, pois eu tinha medo de decepcioná-los. Com isso estudava cada
vez mais, até o ponto de esquecer de comer.
Até a oitava série, os valores da prática pedagógica tradicionais estavam presentes, os
professores tinham uma postura autoritária. As aulas praticamente não se diferenciavam
quanto à estrutura de apresentação de conteúdo, os conceitos e fórmulas tinham que ser
memorizadas. Nessa época, em um outro horário eu freqüentava o Programa Pioneiros Mirins, onde eram realizadas atividades ligadas ao convívio social, atividades esportivas,
artísticas e culturais. Foi aí que comecei a compartilhar o meu conhecimento com outras
pessoas. Passei a dar aulas de reforço para outros integrantes do programa. Devido a minha
obsessão por estudar, me destaquei também no programa, sendo titulada como Pioneira
Mirim nota 10. Mas uma vez fui premiada, dessa vez, ganhei uma bicicleta.
Na passagem para o Ensino Médio, a cada novo dia, eu vivenciava diferentes relações,
passei a ter uma grande diversidade de colegas. Eram marcantes os momentos de recreação,
as atividades culturais, na biblioteca, onde nos reuníamos pra estudarmos juntos.
Em 2001, passei pelo segundo momento de transição da minha vida escolar. Os
professores, bem como o diretor, tentaram me alertar sobre as conseqüências em optar em
estudar à noite. Mas foi em vão... eu já estava decidida. Nessa época, eu estava no segundo ano do ensino médio e ainda não tinha nenhuma perspectiva acerca do vestibular.
Logo nos primeiros dias de aula, senti na pele as conseqüências. Com a mudança, apareceram alguns problemas. A turma era quase que totalmente desinteressada. Toda quintafeira eles se reuniam e combinavam para ninguém aparecer no colégio na sexta. Eu era a
única que aparecia, mas de nada adiantava... os professores não contribuíam com a minha
vontade de estudar.
Comecei a me preocupar com outro problema: continuar no interior dificultaria o meu
acesso ao ensino superior. Pensando nisso, em 2003 passei pelo mais difícil e ao mesmo
tempo decisivo momento de transição da minha vida escolar. No intuito de traçar novos
horizontes, fui morar em Porto Nacional, na casa de uma tia minha. Deixei amigos, cidade
natal, família, tudo isso para tentar realizar o sonho universitário.
Fui estudar o terceiro ano no Colégio Estadual Professor Florêncio Aires. No decorrer
do ano letivo senti nas notas a diferença do ensino. Quantos assuntos eu não conhecia? A
sensação que eu tive foi de recomeço. Para acompanhar os outros alunos, tive que correr
atrás do prejuízo. A saudade da família aliada a minha desmotivação fizeram com que eu
entrasse em início de depressão. Por várias vezes cheguei a chorar em sala de aula, sem se
quer ter um motivo muito forte para isso. Lembro-me com muita emoção, em um dos meus
32
Caminhadas de universitários de origem popular
momentos de nostalgia, meus amigos contando pra mim: amigo é coisa pra se guardar / no
lado esquerdo do peito / dentro do coração / assim, falava a canção que na América ouviu.
Graças a essas amizades que fiz, consegui sair da fossa em que eu me encontrava.
Se em Palmeirópolis eu quase não ouvia falar de vestibular, em Porto Nacional esse
era o principal assunto do colégio. Antes de prestar vestibular fiz um teste vocacional e
descobri que eu tinha vocação para Serviço Social. Pensei em seguir essa carreira, só que o
curso era oferecido apenas por uma faculdade particular na capital. Fazer um curso particular estava fora de cogitação e longe da condição financeira da minha família.
Assim que terminei o ensino médio, fui morar com meus irmãos (com exceção da
minha irmã mais velha) em Taquaralto, bairro de Palmas. Quando fui prestar meu primeiro
vestibular, meu precedente de boa aluna fez com que criassem uma expectativa muito
grande quanto ao meu ingresso na universidade. Apesar de ser esforçada e de isso ser um
plano de vida, não passei no primeiro nem no segundo. Além de lidar com uma tristeza
interna, ainda tive que me deparar com críticas e observações sobre minhas derrotas.
Ao sentir a necessidade de uma melhor preparação para o vestibular, me matriculei
num cursinho popular da paróquia de Taquaralto. Fiz a inscrição para o vestibular da UFT
para o curso de Engenharia de Alimentos. Fiz as provas e sem levantar expectativa fui
aguardar o resultado.
Chega o tão esperado dia. Eu não estava muito ansiosa para saber o resultado; pelo
menos disfarçava que não. Um colega de cursinho me ligou para dar a notícia de que eu
havia passado. Mas a ficha não caiu no primeiro momento, só foi cair quando fui até a
universidade e vi com meus próprios olhos o meu nome no listão dos aprovados.
Alguns conhecidos reagiram negativamente diante da decisão de ser Engenheira de
Alimentos. Queriam que eu continuasse os estudos em cursos mais valorizados socialmente. No entanto, o que significava uma desnecessária frustração de expectativas para alguns,
era considerado uma grande vitória para mim. Eu fui a primeira da minha família a conseguir tal façanha.
Em 2004, ingressei na UFT. Desde então o curso transcorre entre descobertas, reflexões, mudanças de visão do mundo. No começo foi muito difícil, mas o simples fato de estar
na Faculdade, nos corredores, escadas, auditório, biblioteca, laboratórios é indiscutivelmente um convite à alegria de aprender. Nesse ano, o Programa Conexões de Saberes só veio
somar a minha vontade de viver cada vez mais a universidade, de produzir conhecimento,
de pensar e viver o mundo.
Foi muito importante pra eu começar o ano pensado “quem sou eu”. Apensar do receio
inicial quando parei para pensar em minha história, nos mais variados aspectos, nas experiências que vivenciei e nos conceitos que vieram por elas. Parece besteira, mas quando olho
para trás, percebe como estou crescendo e como estou direcionando minha vida.
O que busquei nesse memorial não foi somente pontuar informações sobre minha
vida, mas sim, estimular em todos que dele se sentem personagens, o despertar de outras
histórias, para que se produzam outros sentidos, outras relações, outros nexos.
Universidade Federal do Tocantins
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Memorial
Édila Nunes dos Santos*
Se fosse um artigo, uma matéria, uma reportagem... seria muito fácil de escrever. Falar
da própria vida não é uma tarefa muito simples, eu particularmente não me sinto à vontade.
Primeiramente, muito prazer, meu nome é Édila, nasci em 5 de maio de 1986, sou
Tocantinense nata, o que é raro por aqui, curso Comunicação com habilitação em Jornalismo e sou apaixonada pelo meu curso.
Não tenho muitas lembranças dos primeiros anos de minha vida escolar, comecei a
estudar com 6 anos de idade, em Gurupi-TO, no Henrique de Santana. Estudei lá até a
primeira série, depois fui morar em Redenção – PA (meus pais são separados, e, nessa
época, fui morar com minha mãe). Nessa escola, estudei apenas a segunda série, depois
voltei para Gurupi-TO. Comecei estudar no Educandário Evangélico Ebenézer, onde
permaneci até a oitava série.
Foi uma época muito boa, tenho amigos ainda desse tempo, foi no ensino fundamental que comecei a ter ojeriza por cálculos e amar a área de humanas. Tive uma boa formação
de base, e devo à escola todo o meu conhecimento básico. O ensino médio eu cursei no
Centro de Ensino Médio Ary Ribeiro Valadão Filho. Quero ressaltar que eu odiava ter que
escrever esse cabeçalho, muito grande! Foi um choque pra mim, eu nunca gostei de mudar
de escola. Nesse caso foi pior porque todos os meus amigos foram pra outra escola. Mas
eram os três últimos anos de colégio, foi quando eu comecei a me preocupar mais com o
vestibular. Sempre gostei de me envolver em gincanas, lideranças de sala, e essa foi uma
época bem ativa em feiras de ciências, desfile de 7 de setembro, na rádio da escola.
Surgiu nessa época o meu interesse por jornalismo, já que eu sempre tive muita facilidade de me comunicar. As matérias que estudávamos, mas me aproximavam do curso que
faço hoje, mas muito devo a professora Vera que me fez gostar de Química, a professora
Marlene que me fez entender a funcionalidade da Física e a professora Wandiara que me fez
entender que a Língua Portuguesa seria uma ferramenta que eu utilizaria por toda vida. Fiz
também ótimos amigos no meu ensino médio, cito Raquel, que hoje é minha amiga, e será
por toda a vida. Começamos a estudar para o vestibular também em casa, eu e Raquel, no
final do ano eu fiz a prova da UFT, então foi só esperar, foram os dois meses mais longos da
minha vida! Eu nunca tinha achado meu nome tão lindo como o dia em que eu o vi na lista
de aprovados: Édila Nunes dos Santos! Eu fiquei eufórica, meus pais ficaram felicíssimos,
mas foi uma correria enorme porque o resultado saiu numa sexta-feira, e na segunda eu tinha
que estar em Palmas. Eu correndo, arrumando as malas e a papelada pra fazer matrícula,
meus amigos correndo, organizando festa de despedida, minha irmã caçula chorando porque eu iria embora. Deu-me um friozinho na barriga de pensar em morar sozinha, em uma
cidade que eu não conhecia ninguém, exceto minha prima!
* Graduanda em Comunicação Social pela UFT.
34
Caminhadas de universitários de origem popular
Entrei na Universidade com 17 anos, tive o mesmo sentimento que senti aos 6 anos ao
ir a escola pela primeira vez: medo. Era um universo totalmente diferente de tudo que eu já
tinha visto, foi amor a primeira vista. A maior diferença entre a Universidade e a escola era
que na Universidade as pessoas se expressavam da maneira que elas eram, todas as tribos
reunidas cada um no seu espaço e interagindo entre si.
O primeiro período foi o mais difícil, eu sentia muitas saudades de casa, ainda sinto
até hoje, dos amigos... morar sozinha foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, porque
me fez crescer, ter responsabilidades, trabalhar pra me manter. Tinha dificuldades com
algumas disciplinas, era tudo muito teórico, e eu comecei a pensar se não teria feito a
escolha errada, mas com o passar do tempo passei a gostar muito de filosofia e todas as
“gias” (psicologia, antropologia, sociologia) que estudávamos. Ainda no primeiro período fiz os melhores amigos que alguém poderia ter, que durante esses quase quatro anos de
curso (hoje estou no 7° semestre) foram minha família, carinhosamente chamados de
“família BM”.
A universidade me fez ver o mundo de outra forma, acredito que a formação pra ser
completa, deva conter ensino, pesquisa e extensão, o tripé da universidade, acreditando
nisso, participei de muitos encontros do meu curso, conheci pessoas maravilhosas Brasil a
fora, e entrei no Programa Conexões de Saberes, que é o programa de extensão mais atuante
de nossa Universidade. Vejo nos projetos uma forma de retornar à sociedade o acesso que
temos ao ensino superior, que ainda é tão difícil em nosso país.
Levo desses anos de academia além da minha formação como comunicóloga, formação de caráter, e acima de tudo sou grata por ter aprendido a pensar. Pensar no mundo como
um todo, na sociedade, na função social de cada um de nós. Pensar é o que nos faz ir adiante,
nos torna pessoas melhores. Termino com uma célebre frase de Descartes: “Cogito, Ergo
Sun” (Penso, logo existo).
Universidade Federal do Tocantins
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Meus pais
Elda da Silva Costa*
Antes de começar a contar a minha história, não poderia deixar de falar de duas
pessoas que foram e são muito importante na minha vida. Eles me ensinaram que para
vencer na vida é preciso ter garra, coragem; me fizeram aprender que mesmo diante dos
problemas e dificuldades que aparecem devemos dar a volta por cima, lutar pelos nossos
objetivos e nunca desistir: ir até o fim, até alcançar o objetivo que queremos conquistar.
Estou falando de meus pais que são pessoas humildes e trabalhadoras: Maximiano
Ribeiro da Costa, meu pai, e Ester da Silva Costa, minha mãe.
Ele nasceu na cidade de Pedro Afonso-TO e é o segundo dos seis filhos de Maria
Ribeiro, minha avó, e Manoel Otaviano Ribeiro, meu avô. Morou em Pedro Afonso até os 17
anos, depois passou a morar em várias outras cidades. Em 1965, mudou-se Colinas, na época
era Norte de Goiás, juntamente com seus pais. Começou a trabalhar como alfaiate, comerciante e com imobiliária por algum tempo. Trabalhava para o sustento da família e para manter
seus irmãos mais novos na escola. Em 1975, foi morar em Tucuruí-PA onde começou a
trabalhar na Usina Hidrelétrica. Lá exercia a profissão de motorista na Construtora Camargo
Corrêa. Aos 64 anos, mais uma demonstração de garra e vitória, voltou a estudar e já concluiu
o Ensino Médio. Esse é um exemplo de luta, perseverança e determinação.
Minha mãe é natural de Tucuruí-PA e é a quinta dos sete filhos de Sebastiana Loiola
da Silva, minha avó, e Manoel Cândido da Silva, meu avô. Durante sua infância sempre
morou na mesma cidade onde nasceu. Estudava e trabalhava no sindicato dos trabalhadores
rurais e na Construtora Delphas Engenharia como secretária. Estudou no Colégio das Freiras, Nossa Senhora da Conceição, até a 8ª série do Ensino Fundamental. Morava com seus
pais e irmãos, o que ganhava trabalhando ajudava no sustento da família.
Os dois se conheceram em Tucuruí-PA e se casaram no ano de 1979. Até hoje vivem
bem, graças a Deus. Meus pais estão casados há 28 anos. Dessa união, nasceram seis filhos:
Maristela, Mirian, Maria Eunice, Elda, Ana Lúcia e Eliel.
Meus irmãos
Todas as minhas irmãs concluíram o Ensino Médio e sempre estudaram em escolas
públicas. A Maristela e a Mirian cursaram o curso Técnico de Enfermagem no SENAC-TO.
Atualmente, trabalham como enfermeiras em um hospital público. Maria Eunice, casou-se
e dessa união nasceu meu sobrinho lindo e maravilhoso, o Marcos Paulo. Ana Lúcia e o
Eliel estão estudando na Escola Técnica Federal do Tocantins: ela faz Saneamento Ambiental,
e ele Eletrônica. Graças a Deus somos todos unidos.
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Minha origem
Nasci no dia 11 de março de 1985 às 23 h, no Hospital Geral da Vila Permanente em
Tucuruí-PA. Pesei 4 kg e 160 g, uma menina saudável. Ah, de parto normal com a Dr.ª
Fátima. Nasci em um lar evangélico, por isso minha mãe quis me dar um nome bíblico: Elda
da Silva Costa. Sou a quarta dos seis irmãos que meus pais tiveram. Com dois dias de nascida, minha mãe me levou para a casa da minha avó, pois a nossa casa estava com a energia
cortada. Foi um momento muito difícil, pois não tínhamos dinheiro para pagar a conta, tudo
na nossa vida foi com muita luta e dificuldade.
Quando tinha um ano de idade, meus pais resolveram se mudar para cidade de
Parauapebas, no Pará. O motivo era porque estavam desempregados. Chegando lá, tudo
estava começando, não tinha escolas, energia, água encanada e nem asfalto. Tudo era muito
difícil, meu pai começou trabalhar fazendo frete em uma caminhonete levando diariamente
os feirantes de Parauapebas para a Serra dos Carajás. Chegava em casa por volta de 1h da
manhã. Morávamos em casa de aluguel e não tínhamos quase nada: só um fogão, uma cama,
nossas roupas e nada mais. Minha mãe ia buscar água para beber nos poços dos vizinhos.
Como não havia energia, não tínhamos ferro para passar roupa. Minha mãe conta que usava
como ferro uma panela de cabo que esquentava no fogo para passar as roupas melhores
quando íamos sair. Lá passamos mais de um ano, foram muitos sofrimentos e vitórias.
Quando meus pais conseguiram ganhar um dinheiro trabalhando diariamente para quitar
nossas dívidas, resolvemos retornar novamente para Tucuruí, onde tínhamos casa própria
na Rua Kleber Beliche, em frente à casa da minha avó materna.
Vida escolar
Em 1988, aos quatro anos de idade, começou minha vida escolar. Minha mãe me
matriculou na escola Municipal Ursinho Feliz que existe até hoje. Ficava na Vila Pioneira
em Tucuruí-PA. Sempre tive muita vontade de estudar e não gostava de faltar um dia de
aula: era uma aluna exemplar. Aprendi a escrever o meu nome ainda aos quatro aninhos de
idade. Na hora do recreio gostava muito de brincar no parquinho da escola, participava dos
eventos. Quando chegavam as datas comemorativas, como o dia do índio e páscoa, eu
chegava em casa toda pintada. Achava muito engraçado quando eu ganhava ovos de páscoa
na escola, as coleguinhas me tomavam no caminho: eu era uma criança muito quieta, nunca
fui agressiva com ninguém. Eu ia a pé todos os dias sem medir esforços, da nossa casa até a
escola não ficava tão perto. A minha mãe era quem me deixava e buscava, às vezes era
minha irmã Maristela. Nesta mesma escola fiz o jardim I e II.
Em 1991 meus pais resolveram se mudar para Goiânia por questões familiares. Minha
avó, mãe de meu pai e seus irmãos já estavam morando lá, por isso ele fez mais questão de
ir. Então saímos de Tucuruí, vendemos nossa terra e tudo que tínhamos e fomos para Goiânia
em uma caminhonete. Meu pai mandou fazer uma cobertura para cobrir a carroceria e dentro
colocamos um fogão, colchão, roupas, panelas e fomos. À noite, meu pai não dirigia, achava muito perigoso. Então dormíamos nos postos de gasolina dentro da caminhonete. Nessa
trajetória passamos seis dias viajando de Tucuruí a Goiânia.
Nessa época, meu pai estava desempregado e minha mãe gestante de quatro meses do
meu irmão mais novo, o Eliel. Fomos morar em uma casa próximo da minha avó e ficamos
nesta capital quatro meses. Meu pai ouvia falar da cidade de Palmas: a mais nova capital do
Brasil no Estado do Tocantins e que lá estava bom para ganhar dinheiro. Saímos de Goiânia
Universidade Federal do Tocantins
37
e fomos para Palmas. Chegamos no dia 1º de julho de 1991. A capital estava recém-fundada
e tudo estava começando. Não tinha asfalto nas ruas, era uma poeira que cobria as casas
quando os carros passavam; energia não tinha, usávamos lampião e lamparina que enchia
toda a casa de fumaça; água encanada não tinha, era o caminhão pipa que vinha abastecer
em todas as casas; os hospitais estavam em construção.
Minha mãe estava perto de dar a luz, por isso foi encaminhada a uma cidade mais
próxima, Porto Nacional. Fomos para Palmas em busca de novas conquistas e uma vida
melhor. No início, como nem tudo são flores, passamos por muitas dificuldades, não chegamos a passar fome porque Deus estava sempre conosco suprindo nossas necessidades. Meu
pai trabalhou muito nas políticas com a sua caminhonete. Já faz 30 anos que ele tem o
mesmo carro: continua sendo sua ferramenta de trabalho. Fomos morar em uma casa de
aluguel no setor Bela Vista. Ela ficava perto da escola infantil “Os Pioneirinhos” e tinha
como diretora a tão conhecida Tia Dedê. Nesta mesma escola minha mãe me matriculou
para fazer o Jardim III.
Ensino fundamental
Aos sete anos de idade, comecei a estudar a 1ª série e cheguei até a 4ª série na Escola
Municipal Tiago Barbosa, que passou a se chamar Benedita Galvão, situada no setor Bela
Vista, onde morávamos e estamos até hoje.
Fiz a 5ª e 6ª séries nesta mesma escola. Percorria a pé todos os dias, pois ficava perto
da casa onde morávamos. Minha mãe me matriculou na Escola Municipal Luiz Rodrigues
Monteiro para fazer a 7ª e 8ª séries porque a outra escola que ficava próximo a minha casa
só tinha até a 6ª série. Ia para a aula todos os dias de bicicleta, mas às vezes pegava carona
com meu pai, já que a escola não ficava muito perto de casa, situava-se no centro de
Taquaralto, cerca de 3 km.
Lembro-me de quando fazia a 7ª série que eu tinha um professor de Geografia chamado Osvaldo. Certo dia, ele pediu que os alunos fizessem uma redação com tema livre, todos
eles entregaram menos eu. Sempre tive dificuldade para fazer redação, nunca fui muito boa.
O professor disse que eu teria uma chance e perguntou o que eu sabia fazer e respondi que
sabia cantar: era acostumada a cantar desde muito pequena nas igrejas. Na próxima aula
dele, levei o meu Play Back e cantei. O professor e todos os alunos gostaram, não sabiam
que eu tinha aquele grande talento.
Ensino médio
No ano de 2000 comecei a estudar o 1ª ano do Ensino Médio no Colégio Estadual
Santa Rita de Cássia. Era um dos melhores colégios de Palmas. Ainda funciona até hoje.
Estudava à noite, pois de dia freqüentava aula de música. O colégio ficava muito distante
da minha casa, mas eu ia sempre de bicicleta e às vezes de ônibus com minha irmã Maria
Eunice. Ela estudava o 2º ano nesta mesma escola. No ano seguinte em 2001, cursei o 2º ano
até o mês de junho no mesmo Colégio.
Estávamos passando por problemas financeiros e devido a isso, minha irmã e eu
resolvemos voltar para Tucuruí-PA em busca de melhorias. Fomos no período das férias,
mês de julho do mesmo ano. Chegando lá, fomos morar na casa da minha avó Sebastiana.
Logo, minha mãe me matriculou na Escola Estadual Raimundo Ribeiro de Souza, pois tinha
que concluir o 2º ano. O Colégio não ficava muito perto de casa, mas eu ia todos os dias a
38
Caminhadas de universitários de origem popular
pé no período da tarde. Gostei muito! Os alunos e professores me receberam muito bem, mas
não gostava muito dessa caminhada longa que eu fazia de casa para o colégio.
Nunca me esqueço de um festival de paródia que a professora de geografia, Carmem,
fez. O tema era sobre a Amazônia. Os alunos dividiram em grupos de cinco componentes.
Fiquei responsável pelo meu grupo de fazer a paródia e conseguir os músicos. O meu grupo
ficou em 2º lugar. Foi muito legal e divertido e até hoje guardo o certificado desse festival.
Lá, passei a freqüentar uma igreja onde tinha uma banda de música. Como sabia tocar
saxofone, aproveitei a oportunidade para me exercitar. Falei com o maestro Ribamar que eu
era musicista, mas estava sem instrumento. Ele logo conseguiu um instrumento para mim.
Passei a fazer parte da banda de música que se apresentava todos os finais de semana.
Sempre viajávamos para fazer apresentações nas cidades vizinhas. Foi muito maravilhoso
esse tempo. Entrei na fanfarra da prefeitura de Tucuruí por intermédio de duas colegas de
aula que não me recordo os nomes. Eu tocava pratos e tínhamos ensaios todas as noites.
Estávamos nos preparando para apresentar no desfile do dia 7 de Setembro. Foi muito linda
essa apresentação e uma experiência muito boa, pois nunca havia participado de uma
fanfarra. Passados seis meses por lá e retornamos a Palmas-TO.
De volta, em 2002, dei início ao 3° e último ano do Ensino Médio no mesmo colégio
onde havia iniciado o 1° ano. Sempre gostei de participar dos eventos que aconteciam no
colégio. Gostava muito dos festivais de música que se realizavam todos os anos. Já cheguei
até a ganhar alguns troféus. Recordo-me da nossa formatura, como hoje. Eu, com aquela
beca enorme, minha família toda presente. Convidei a escola de música da Guarda Metropolitana para dar abertura com o Hino Nacional brasileiro. Meu pai foi quem entrou comigo
como paraninfo. Cheguei até a apresentar um número musical para todos os formandos, a
música Esperança. Foi muito bonito.
Esperança
Quem aqui chegou... quem aqui chegar
Trás sempre um sonho de algum lugar
Vem de peito aberto sem saber o que será
Com coragem de se aventurar
Quem aqui chegou... quem aqui ficar
Por esses caminhos há de encontrar
Sonhos tão iguais corações a se entregar
Recriando a vida.
(Refrão)
Vida, dias esperança
Sonho, sonho, sonhos esperança
E paz, paz, paz esperança
E paz, paz...
Quem aqui chegou ficará.
Marcelo Barbosa, Luís Schiavon e Nil Bernardes
Antes de ingressar na universidade, participei por dois anos do Programa Força Jovem, onde atuávamos nas escolas diariamente, auxiliando os professores com atividades e
Universidade Federal do Tocantins
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dinâmicas. Participava também nas comunidades populares, dando palestras educativas de
orientação cultural. Toda essa experiência foi muito importante para mim. Aprendi a conviver com pessoas diferentes e a interagir com outros conhecimentos e novas visões de
mundo.
Ensino superior
No final de dezembro de 2002, tentei o meu primeiro vestibular na UFT, que na época
era UNITINS, para o curso de Direito. Mas infelizmente não passei. Mesmo sem ter condições para fazer cursinho, tentei outro vestibular para o curso Normal Superior, mas fui
reprovada novamente. O que eu queria mesmo era estudar em universidade pública, não
importava em estar fazendo um curso que não tinha vocação. Nunca prestei vestibular em
universidade particular, porque meus pais não tinham condições de me manter estudando.
No final de 2004, resolvi fazer o vestibular. A inscrição era R$ 75,00 e o curso era
Engenharia de Alimentos, com entrada para o segundo semestre de 2005. Entrei com o
pedido de isenção da referida taxa, pois não tinha este valor para cobrir a despesa. Consegui
a redução para R$ 10,00. Recordo-me de que estava na casa de minha irmã, Mirian, e de meu
cunhado quando resolvemos verificar acerca do resultado do vestibular. Como não me
lembrava do semestre que havia escolhido, selecionamos o semestre errado. Na mesma
hora, minha outra irmã, Maria Eunice, nos avisa por telefone que recebeu a informação de
um amigo que meu nome constava na lista de aprovados. Na dúvida e no intuito de ter
certeza, verificamos novamente.
Para mim, era um sonho. Não sabia se sorria ou se chorava de tanta emoção. A alegria
foi tanta que naquela noite não consegui dormir. No dia seguinte, pela manhã, voltei para
minha casa feliz da vida, dando a notícia para todos que eu conhecia.
No 2º período, fui admitida no Programa Conexões de Saberes. Recebo uma bolsa que
me é muitíssimo útil para pagar minhas despesas, já que o curso que estudo é diurno. Como
parte desse Programa, participei do II Seminário Nacional do Programa Conexões de Saberes, no Rio de Janeiro-RJ. Foi uma experiência incrível.
Hoje, estou no 4° período do curso de Engenharia de Alimentos. Um curso muito
difícil, mais ainda por ser integral, tornando-se quase impossível a possibilidade de ser
admitida no mercado de trabalho durante o curso, mas nem por isso eu desisti.
Ao longo da minha vida como estudante, tenho observado como a informação e o
conhecimento são importantes e essenciais na vida, sobretudo, quando pensamos na dinâmica do senso crítico, conhecimento enciclopédico, que deve constantemente ser ampliado. Enquanto o profissional detém a informação intelectualizada, conhecimento científico
através de sua jornada de aprendizagem, o leigo detém o conhecimento de senso comum,
resultado da sua experiência de vida e de sua cultura de mundo. Ele repassa essas experiências de uma geração para outra. Para que a Engenharia e as outras ciências alcançassem o
nível que possuem hoje, foi necessário que homens e mulheres se dedicassem por uma vida
inteira em busca de informações e conhecimentos colhidos das experiências de várias comunidades. Assim, fica fácil afirmar que as pessoas simples e comuns, podem ser uma fonte
riquíssima e inesgotável de informação e conhecimento.
Tenho muitos planos para o futuro. Quero concluir esse curso e quando eu conquistar
todos os meus sonhos, quero chegar ao final dizendo: eu venci. Aliás, pensando bem, já sou
uma vencedora, mais que vencedora, sou guerreira.
40
Caminhadas de universitários de origem popular
Uma breve introdução de minha vida
Geisy Gracielly Evangelista*
Sou Geisy Gracielly Evangelista, filha de Maria das Graças Evangelista. Meu pai
biológico jamais o conheci, mas nunca senti sua falta, porque meu tio Francisco, irmão
de mamãe, o substituiu e até me registrou como filha. Nasci no dia 24 de janeiro de
1985, na cidade de Imperatriz, no estado do Maranhão, cidade essa que amo muito e
que vivi até os meus vinte anos. Sai quando fui aprovada no vestibular da UFT - Universidade Federal do Tocantins - para o curso de Ciências Contábeis, na cidade de Palmas-TO.
Alfabetização: a descoberta de um novo mundo
Não me lembro do meu primeiro dia de aula, mas me recordo que ficava fascinada
com tudo aquilo que era novo para mim e receosa, pois estava longe de minha mãe e
junto de pessoas estranhas. Eu tinha cinco anos e estudava na Escolinha Sonho de
Criança, no ano de 1990, na cidade de Imperatriz-MA.
Meu tio Silva, também irmão de mamãe, sempre me levava para a escola, ela
passava a maior parte do dia trabalhando. Enquanto íamos pelo caminho, eu o amontoava de minhas perguntas infantis. Em casa, sempre fui o xodó de todos: era a única
criança em casa, morava com a minha mãe e seus quatro irmãos, tios maravilhosos e que
os amo muito.
Como filha única, sempre fui muito mimada e fazia pirraças, tanto em casa como
na escola. Algumas vezes, na escolinha, inventava de querer ir embora com o pretexto
de que não gostava daquele lugar. A professora, muito paciente, inventava de me fantasiar de chapeuzinho vermelho, bruxa ou fada, isso dependia da minha escolha. Eu não
era a melhor aluna da classe e não me interessava em fazer as atividades da escola, mas
tudo isso era só para chamar a atenção da turma.
Algumas vezes, quando titio ia me buscar na escola, a professora advertia-o de que eu
não estava indo bem, mas que tinha potencial e precisava de ajuda. Ao chegar em casa ele
comentava com a mamãe e ela me ajudava, mas não tinha muita paciência. O que eu mais
gostava na escola era folhear as revistas em quadrinhos, algumas vezes, chegava a pegá-las no
colégio e levá-las para casa com o objetivo de recortá-las.
No ano seguinte, minha tia, Jesus, também irmã de mamãe, conseguiu uma bolsa
integral em uma escola particular da cidade, a escola São Francisco Xavier. Era a primeira série, mas mamãe ao ver que a sala comportava alunos maiores do que eu, resolveu pedir a diretora da escola para que eu ficasse na alfabetização, como mãe protetora,
queria garantir minha segurança.
* Graduanda em Ciências Contábeis pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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Ensino fundamental: desleixo 0 x superação 10
No ano de 1992, estava na primeira série e continuava na mesma instituição. Voltei
para casa tão feliz: estava descobrindo um mundo novo, o mundo das letras. Um dia, a
professora de português pediu para eu ler em voz alta um texto, mas ainda não sabia ler e
passei a maior vergonha, já que alguns dos meus coleguinhas já sabiam ler. Cheguei ao
final de ano sabendo ler, não foi um aprendizado fácil, por isso hoje valorizo tanto a leitura.
Passei de ano “raspando”, como dizem. Agora já estava na segunda série. O assunto
começou a complicar e as minhas notas que já não eram boas, só pioraram. A minha família
só tomou conhecimento disso a partir de minhas notas e das reuniões escolares. Como sabia
que não era a melhor aluna da sala, acabei por me desleixar mais ainda, chegando a não
estudar para as provas.
Em razão disso, quase fui reprovada, mas a escola percebeu que tudo acontecia por
desleixo meu e entrou em contato com minha mãe, que se comprometeu de que eu iria
melhorar. Em seguida, me matriculou em uma escola de reforço e, a partir de então, comecei
a me esforçar e a estudar mais. Passei de ano não mais “raspando”, mas com boas notas.
Chegando à terceira série tive umas das melhores professoras da minha vida, a tia
Severa. Apesar do nome, ela era muito divertida e a partir de suas aulas maravilhosas, passei
a estudar mais e a me interessar por leitura e matemática. Sempre pedia para mamãe comprar
gibis, como ela sabia que leitura é fundamental, comprava sempre para me incentivar a ler.
No ano de 1996, minha tia, Francisca, irmã de mamãe, conseguiu uma bolsa parcial
para eu estudar no Sesi, uma das instituições mais rígidas de minha cidade. Lá me sentia
inferior a todos os outros alunos. A grande maioria tinha uma condição financeira melhor
que a minha e também os achava mais inteligentes do que eu.
Certo dia, a professora de português pediu para que todos os alunos levassem um
dicionário para a aula seguinte. Eu fiquei fascinada quando minha mãe chegou com
aquele minidicionário: logo, lhe pedi que me ensinasse a manuseá-lo. Mamãe sempre
quis me garantir uma boa educação, apesar da dificuldade ela sempre dava um jeitinho. Lembro-me ainda hoje de quantas vezes ela vendeu seus pertences para comprar
meus livros.
Mas comecei a sentir dificuldades na escola, minha família falava que eu ainda não
estava adaptada a nova escola, mas também sabia que a metodologia de ensino do Sesi era
mais rigorosa. No dia em que recebi a minha nota de matemática fiquei apavorada, pois
tinha tirado exatamente quatro, só então percebi que precisava me esforçar mais.
Lembro-me até hoje do primeiro livro de literatura infantil que a professora exigiu: “A
felicidade não tem cor”. Sei que para mim esse livro foi uma grande lição de moral. A partir
dele comecei a valorizar e a amar as pessoas como elas são, sejam elas negras, brancas,
ruivas ou morenas.
Ao iniciar as provas do segundo bimestre, determinei a mim que não mais tiraria uma
nota vermelha em matemática; assim aconteceu. Com isso aprendi que para conquistarmos
o que desejamos, devemos nos esforçar e determinar a que ponto queremos alcançar, e não
desistir diante dos obstáculos, já que são eles que nos ajudam a crescer e nos aperfeiçoar.
A primeira aula de Inglês, ainda me recordo, estava na quinta série e tinha onze anos.
A professora Bhet, muito fluente na língua, ensinou-nos a pronunciar o alfabeto através de
uma música. Foi uma aula muito divertida, principalmente para mim que estava ansiosa por
aprender essa nova língua.
42
Caminhadas de universitários de origem popular
Nessa série, conheci a Maksandra, uma das minhas melhores amigas que considero
até hoje, nós gostávamos das mesmas coisas, freqüentávamos a mesma igreja e éramos
muito estudiosas. Até hoje, somos muito amigas, apesar de morarmos longe, já que ela
continua na mesma cidade.
No ano seguinte, sexta série, foi um ano conturbado para mamãe, porque pela primeira
vez me apaixonei, logo pelo garoto mais popular da escola. Com isso, deixei de lado os
estudos e passei a suspirar pela minha paixão infantil. Um dia ao chegar da escola, ela me
chamou para uma conversa séria, falou que as minhas professoras entraram em contato com
ela, para informá-la que eu, como aluna exemplar, estava deixando muito a desejar. Contei
então que estava gostando de um menino, ela replicou e disse que era para deixar isso de
lado. Mamãe queria que eu me dedicasse com afinco aos estudos, para não ser no futuro
igual a ela: que só tinha o antigo segundo grau e trabalhava o dia todo para ganhar no final
do mês apenas um salário-mínimo, logo a compreendi.
Chegando a sétima série, ainda estudando no Sesi, estava tão adaptada à escola que já
a sentia como minha segunda casa, mas ao chegar ao final do ano, ficamos sabendo que a
escola não iria mais ter de quinta a oitava série: estava com um prejuízo e a única solução
era não abrir para essas turmas. Fiquei muito triste, gostava muito do colégio, dos professores e dos meus amigos.
Quando contei para minha mãe que não teria mais a oitava série, ela logo me falou que
não teria condições de me colocar em uma escola particular. Fiquei triste porque a grande
maioria dos meus colegas iria estudar em escola particular, mas entendi a situação.
Ao iniciar o outro ano, ela conseguiu para mim uma vaga em uma escola pública da
cidade. Sinceramente, não gostei muito da escola, o ensino era muito fraco, os professores
só queriam marcar ponto e passar os alunos, mesmos que não soubessem de nada. Eu era
uma excelente aluna, os professores me elogiavam, contudo, havia colegas que não gostavam de mim porque os professores me tinham como exemplo da turma. Apesar de tudo isso,
passei a estudar ainda mais. No final do ano, queria fazer o seletivo do CEFET-MA, concorrendo a uma vaga para o ensino médio, sabia que se não passasse continuaria estudando na
mesma escola, então a única solução era estudar o máximo possível.
Ensino médio: a maturação
Estava dormindo quando meu tio Cláudio telefonou avisando que eu tinha sido aprovada, foi um dos dias mais felizes da minha vida, o dia 16 de janeiro de 2001, data de
aniversário de mamãe.
O primeiro dia de aula no CEFET fui com ela, pegamos o primeiro ônibus, queria chegar
o mais cedo possível no colégio. Ao chegarmos lá, fiquei fascinada com o lugar, tinha uma
infra-estrutura ótima e o prédio era enorme. Houve uma solenidade de abertura, apresentação
dos professores e boas vindas aos alunos. Em seguida, fomos para a sala de aula.
Como todos da sala haviam passado por uma seleção e tinham vindo de escolas diferentes, quase ninguém se conhecia, mas depois de alguns dias, já estávamos íntimos. Os meus
professores eram bastante formais e tinham uma linguagem culta, principalmente o professor
Bosco, que ministrava as aulas de física. Nesse primeiro ano de ensino médio, senti dificuldades, a metodologia de ensino da instituição era rigorosa. Passei a estudar o máximo que
pude, pois deveria superar mais esse obstáculo. Conheci pessoas maravilhosas, como o
Anísio, a Marly, a Thalita e o Wellington, sempre estudávamos e fazíamos trabalhos juntos.
Universidade Federal do Tocantins
43
No segundo ano, já estava bem familiarizada com a escola e, especialmente, com os
meus colegas. Minhas notas eram boas, mas não as melhores. Dentre as várias matérias, as
que eu menos gostava eram biologia, história e espanhol, as que amava eram matemática,
português e inglês. Filosofia foi incluída em nosso currículo, ao passo que foram excluídas
as disciplinas de artes e sociologia.
No ano de 2003, terceiro ano, foi uma fase de expectativas, ao final do ensino médio
iria prestar vestibular. Fiz três testes vocacionais para saber qual profissão me identificava.
O resultado só dava Psicologia e vários cursos da área de exatas. Estava um pouco triste,
uma vez que iria me separar dos meus amigos e da escola que já amava. Aprendi que a vida
é mesmo assim e que cada um segue seu rumo.
Chegando ao final do ano, prestei vestibular para psicologia na UFMA - Universidade Federal do Maranhão e na UESPI - Universidade Estadual do Piauí. A concorrência para
o curso nas duas instituições era enorme, acabei não estudando o suficiente: estava muito
ansiosa, caso não conseguisse corresponder às expectativas da minha família. Como resultado, não passei em nenhum.
Pré-vestibular: a motivação
Não desisti, teria que tentar outra vez, “só os fracassados desistem de tentar”, dizia
mamãe. Em agosto de 2004, resolvi me matricular em um cursinho pré-vestibular, logo
fiquei muito animada, porque os professores motivavam muito os vestibulandos e passei a
estudar bastante. Quando começaram as inscrições do vestibular da UFT, decidi me inscrever por incentivo de uma amiga, a Roberta, que conheci no cursinho pré-vestibular, concorrendo a uma vaga para o curso de Ciências Contábeis, em Palmas-TO, era o único curso que
me interessava.
Me inscrevi também outra vez no vestibular da UFMA, concorrendo a uma vaga no
curso de Desenho Industrial. Agora, já não estava tão ansiosa como no último vestibular e
sabia que tinha estudado o suficiente. Em decorrência disso, acabei passando nos dois
vestibulares. Optei por contabilidade por dois motivos: o mercado de trabalho ser mais
amplo e por não conhecer ninguém em São Luís, já que o curso de Desenho Industrial era lá.
Ensino superior: um sonho alcançado
Estava me preparando para ir a mais uma aula no cursinho pré-vestibular, quando a
Roberta me ligou avisando que eu e ela havíamos sido aprovadas no vestibular da UFT.
Esse com certeza foi o melhor dia da minha vida, pois foi a realização de um sonho para
mim, minha mamãe e minha família.
Ao mudar para a cidade de Palmas, no Tocantins, senti dificuldades no início. Primeiro, pela mudança de estado e separação da família, a saudade era enorme. Segundo, porque
não me identifiquei de imediato com o curso.
Nesse meio tempo, um pouco desentusiasmada, fiquei muito feliz quando a Roberta
comentou comigo sobre o Programa Conexões de Saberes, vinculado ao MEC. Ela era bolsista e falou-me que abririam novas inscrições para mais vagas, logo fiquei entusiasmada.
Hoje, me sinto lisonjeada em ser bolsista de um Programa como esse que só vem
contribuir e incentivar as pessoas de origem popular no sentido de criar meios e promover ações para tornar o ensino superior acessível, fazendo valer o princípio da
universalização do conhecimento.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Com o passar do tempo, acabei por me apaixonar pelo meu curso e quem mais
colaborou para que isso ocorresse foi a professora Selma, professora de contabilidade que
nos ensinava com determinação e muita dedicação. Quanto à distância da família, acabei
me adaptando, mas algumas vezes ainda bate aquela vontade de querer estar junto da
mesma. Hoje, divido aluguel de uma pequena casa perto da universidade com duas amigas, a Suellem e a Suiane, que as considero como minhas irmãs, aprendi com elas o valor
do respeito às diferenças.
Aprendi que na vida nunca temos tudo que queremos, sempre temos que abdicar de
alguma coisa. Com relação ao futuro, é um pouco incerto, mas pretendo terminar o curso e
me especializar na área. Enfim, quero buscar melhorias para mim, minha querida mamãe e
minha maravilhosa família, pois se até aqui cheguei, foi porque todos me ajudaram.
Universidade Federal do Tocantins
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Memorial
Geovania da Silva Oliveira*
Família
Sou a quarta filha, a caçula de uma família de quatro irmãos, dois homens e duas
mulheres. Meu pai, homem trabalhador que sempre deu “duro” na vida para sustentar a
família, estudou só até a 5º série do ensino fundamental, pois precisou começar a trabalhar
muito cedo para ajudar seus pais na roça. Minha mãe, estudou mais do que meu pai. Ela
concluiu a 8º série do ensino fundamental, depois de casada terminou o ensino médio.
Meus pais foram os grandes incentivadores para que eu e meus irmãos estudássemos,
nunca colocaram obstáculos ou nos impediram de nos dedicarmos aos estudos. Eles tiveram
grande participação na minha vida escolar, em nenhum momento eles se opuseram aos
estudos. Sempre fizeram, mesmo com muito esforço, um jeito de comprar meus cadernos,
minha farda escolar. Permanecem até hoje me apoiando nos estudos.
Vida escolar
Comecei a estudar as séries iniciais na escola São José de Ribamar, junto com um dos
meus irmãos, o que proporcionava ótima amizade entre nós, pois sempre andávamos juntos,
tanto fora quanto dentro da escola. Como as escolas públicas não oferecem a fase educacional de alfabetização, essa foi a única série em que estudei em escola privada. Tenho boas
lembranças desse período, adorava ouvir histórias, pintar os desenhos com lápis de cor,
brincar com os amigos.
Ingressei na primeira série novamente com meu irmão na Escola Municipal Dorgival
Pinheiro de Sousa. Esse colégio era bem maior do que aquele em que estudei, permaneci lá
até a 6º série. Fiquei um pouco assustada na 1º série com tudo o que via. Tudo era bastante
diferente daquilo que eu estava acostumada: os coloridos da sala não existiam mais. Aos
pouco, fui me adaptando com o ambiente, visto que a professora era muito carinhosa e
paciente comigo. Foi com ela que aprendi a gostar de ler.
As outras séries foram diferentes, não foram tão boas assim, os professores sempre
mudavam. Eles não tinham a mesma paciência e atenção. Só que a cada “degrau” de série ia
aprendendo cada vez mais. Eu sempre fui uma aluna estudiosa e dedicada com os estudos.
Quando passei para a sétima série, fui para o colégio Estadual Amaral Raposo que
ficava mais próximo de minha casa. Permaneci nele até o meio do ano do 3º ano do
ensino médio.
Eu me lembro que queria muito estudar nesse colégio porque meus irmãos mais velhos já estudavam lá. E também, tinha um ensino melhor do que o outro em que tinha
estudado. Isso foi uns dos meus motivos de querer estudar nele. Quando minha mãe conse-
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
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Caminhadas de universitários de origem popular
guiu me matricular, foi uma alegria só. Fiquei muito feliz, pois sabia que ia me dedicar mais
aos estudos. Foi lá que fiz algumas amizades que permanecem até hoje, que inclusive uma
delas permanece comigo no Conexões de Saberes.
Foi nessa escola que comecei a gostar de história e ciência, as que menos simpatizava
eram física e matemática. Tive um pouco de dificuldade em aprender, não era bem dificuldade, não tinha interesse em aprender mesmo. Pensei que nunca iria prestar um vestibular
na área de exatas, pelo fato de não gostar da disciplina. Só que nunca fiquei reprovada em
nenhuma delas.
Antes de terminar o ensino médio, precisamente no dia 15 de junho de 2001, um
acontecimento marcou muito a minha vida e de minha família, a morte do meu irmão, um
jovem de apenas 21 anos que tinha muitos sonhos pele frente, mas que foi assassinado
covardemente. Naquele ano, um mundo desmoronou na vida de minha família, uma perda
inexplicável, uma dor incomparável. Nesse mesmo ano, tive que deixar os estudos no
“meio” do ano porque fomos morar em outra cidade.
Logo que nos mudamos para Aparecida de Goiânia, em Goiás, minha mãe logo conseguiu um colégio pra mim. Ela me disse que eu não podia perder o ano, mais eu estava tão
desanimada para ir ao colégio que para mim tanto fazia eu estudar ou não, estava meio
angustiada com a vida. Mas mesmo assim fui para o colégio. Chegando lá me sentia como
“peixe fora da água”, como diz a expressão. As pessoas eram esquisitas: mal se olhavam.
Elas não tinham aquele companheirismo.
Os professores passavam as matérias numa correria, nem perguntavam aos alunos se
tinham dúvida. Sem falar que tinha um menino que dizia que eu falava engraçado por causa
do meu sotaque. Não podia falar nada para ele, pois era motivo de piada, sempre ria de mim.
Isso era muito chato, mas aos poucos fui me acostumando. Eu não via a hora daquele ano
acabar para sair daquele lugar.
Vestibular
Quando terminou o ano letivo, não quis prestar vestibular, porque não me sentia
preparada. Então, primeiro fui fazer cursinho. Foi lá que veio minha escolha para o curso,
tive uma professora de química que fazia Engenharia de Alimentos na Universidade Católica de Goiás. Na aula, ela me falou sobre o curso e disse que era ótimo, tinha suas dificuldades, mas era muito bom. Quando ela falou isso, eu me interessei em saber mais sobre o
curso. Já que nunca tinha ouvido ninguém falar sobre esse curso. Pensei! “Por que não
prestar vestibular para Engenharia de Alimentos?” Percebi também que se fizesse essa
escolha, teria que lidar durante todo o curso com as disciplinas que menos gostava: matemática e física. E isso me pôs mais em dúvida se fazia ou não.
Era chegada a hora da inscrição do vestibular, porém, não estava completamente
certo do que fazer. Pensei em dois cursos: Medicina Veterinária e Engenharia de Alimentos, mas logo desisti de Medicina Veterinária, pois a UFT, em Palmas, não oferecia esse
curso. Foi aí que escolhi Engenharia de Alimentos. Ainda sem muita vontade, decidi que
seria a melhor opção.
Primeiro vestibular foi na UNITINS, hoje é a atual Universidade Federal do Tocantins.
Minha inscrição foi meu irmão quem fez porque ele estava morando em Palmas. Quando ele
me ligou perguntando se eu queria fazer vestibular lá, eu disse sim. Foi aí que ele me disse
que a UFT oferecia o curso que eu queria.
Universidade Federal do Tocantins
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Como eu estava em Goiânia tive que viajar para Palmas para o vestibular. Chegando
lá, no dia anterior do vestibular, eu e meu irmãos fomos procurar onde seria o local da minha
prova. Descobrimos que seria na própria faculdade. No dia da prova, fiquei muito ansiosa,
pois nunca havia feito o vestibular antes, quando comecei a ler a prova, percebi que as
matérias de português, história, química e biologia estavam muito boas, pois tinha estudado realmente aquilo que estava ali, mais a prova de espanhol não tinha sido tão boa.
O resultado
No dia seguinte viajei para Goiânia, mas meu pensamento só estava no resultado do
vestibular, antes de viajar meu irmão me disse que só me telefonava se eu tivesse passado,
pois não ia gastar com interurbano se não fosse aprovada. Na noite anterior ao resultado,
tive um sonho que me revelou que eu tinha passado no vestibular. Quando acordei a primeira coisa que fiz foi falar do sonho para meus pais. O resultado seria naquele mesmo dia pela
manhã. Fiquei esperando o meu irmão me telefonar. Chegou a tarde, nada dele me telefonar.
Pensei que não tinha passado. Fui ao supermercado comprar alguma coisa para minha mãe,
que não me lembro o que era, quando estou dentro do supermercado vejo a minha mãe
branca e sem fôlego me dizendo: “Teu irmão acabou de ligar dizendo que você foi aprovada”. Naquele momento, eu senti uma alegria que não sei nem passar para o papel. Foi muito
bom o que eu senti.
Minha família estava toda orgulhosa de mim, pois minha mãe dizia para todo mundo
que a filha caçula tinha passado no vestibular. Minha alegria só não estava completa porque meu irmão não estava conosco, mas uma coisa eu sabia, onde quer que ele estivesse
estaria muito feliz pela minha vitória.
Universidade
A necessidade de uma vida melhor, o sonho de cursar uma faculdade e o desejo de um
dia poder ajudar meus pais, dando-lhes uma vida melhor, me motivaram para que continuasse minha caminhada no estudo. Como diz o ditado popular: “nem tudo na vida são
flores”. Foi na faculdade que começaram aparecer minhas reprovações em cálculo e física
devido não ter tido uma boa base na escola pública.
Mas nunca pensei em desistir por causa das dificuldades que tive, fui atrás do tempo
perdido em querer aprender sobre essas matérias. Hoje, eu posso dizer quer batalhei muito
para aprender as disciplinas que fazem parte de minha vida acadêmica.
Estou no 8º período de Engenharia de Alimentos. Eu só posso elogiar esse curso. Não
me decepcionei nem um pouco, ao contrário, ele excedeu minhas expectativas, pois eu
estou amando o curso. Foi na faculdade que tive o privilégio de ser uma bolsista do Conexões de Saberes. Um Programa ótimo que dá oportunidade aos acadêmicos de origem popular, garantindo sua permanência com qualidade na universidade.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Memorial
Juliana Alves Araújo*
Tenho 21 anos, nasci em Paraíso do Tocantins, morava com minha mãe, meu pai e
mais dois irmãos, uma irmã de 23 anos e um irmão de 25 anos.
Recordo-me de que aos quatro anos, todos os dias minha mãe levava meus irmãos na
escola, que ficava próxima a minha casa. Como meu pai levantava cedo para trabalhar, não
tinha ninguém para ficar comigo, então minha mãe me levava com ela. Eu gostava muito de
ir acompanhando meus irmãos e minha mãe. Lembro-me de que a escola era muito bonita,
eu sentia muita vontade de estudar também, tinha muita curiosidade de entrar para saber
como era lá dentro. Meus irmãos me falavam muito bem das aulas que tinham.
No segundo semestre do mesmo ano, minha mãe me matriculou no jardim. Eu estava
muito feliz, ganhei uma roupa igual à da minha irmã que ela vestia todos os dias para ir à
escola, chamada de uniforme: era uma blusa branca de manga e uma saia rodada azul.
Ganhei também uma mochila e uma lancheira que todos os dias minha mãe preparava um
lanche para eu comer no recreio.
Eu fiquei encantada quando entrei na escola, as paredes eram todas desenhadas e
tinha também um parquinho no pátio, a sala era muito bonita, cada aluno sentava em uma
mesa. E tinha uma professora que eu a chamava de tia como os demais alunos.
No ano seguinte, meus pais tiveram que trocar eu e meus irmãos de escola. Essa escola
em que a gente estudava era particular. A renda da família ficou curta e tivemos que ir para
uma escola pública. Meus irmãos se adaptaram na nova escola, eu não consegui me adaptar.
Eu sentia muita falta dos colegas que tinha feito na outra escola. A sala era muito grande e
tinha muitos alunos, a professora demorava muito para ir até minha mesa quando eu a
chamava. Eu me sentia muito sozinha. Comecei a perder a vontade de estudar, não me
sentia bem naquele lugar e acabei desistindo de estudar. Minha mãe tentou de tudo para
que eu não perdesse o ano, mas de nada adiantou.
Com seis anos eu voltei a estudar, agora com a mesma vontade de quando tinha meus
quatro anos. Minha mãe me matriculou no pré, na mesma escola de antes e aos poucos fui
me acostumando.
Passei boa parte da minha vida escolar nessa escola, Colégio Presbiteriano Vale do
Tocantins. Estudei todo meu ensino fundamental e ensino médio. Ah, da 1ª a 4ª série,
estudei com a mesma turma. Quando passei para a 5ª série, como era um colégio público e
tinha muitos alunos, a minha turma de antes ficou dividida, alguns colegas meus ficaram
comigo em uma turma A, os outros na turma B. Eu achei muito ruim. Eu e meus colegas
resolvemos nos reunir para conversar com a coordenadora para não dividir a nossa turma.
De nada adiantou! Ela falou que a partir daquela série as salas tinham turmas A e B, que eram
divididas por idade. Com o passar dos dias fui conhecendo os novos colegas de turma e fui
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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fazendo novas amizades. No recreio, nos reuníamos com todas os colegas. A cantina era o
lugar mais procurado na hora do recreio, tinha merenda escolar para todos.
Na minha 8ª série, descobri o esporte. Foi algo maravilhoso na minha vida. Comecei
a treinar vôlei, três vezes por semana. No começo, foi um pouco difícil, pois eu não era uma
das melhores, mas tinha muita vontade de ser. Às vezes, ficava desanimada, mas nunca
desistia de ir aos treinos, meu treinador e também professor de Educação Física sempre me
entusiasmava muito, falava que por ser uma das mais altas eu seria uma boa jogadora, assim
poderia ajudar o time da escola a ser campeão nos campeonatos.
Realmente, meu professor tinha razão, com o tempo eu fui melhorando. De reserva
passei a ser titular em todos os jogos. Não vou mentir que sempre sentia um friozinho na
barriga quando estava na quadra para jogar e olhava as arquibancadas do ginásio lotadas,
com todos meus colegas da escola. Eu sentia uma grande responsabilidade em ganhar, para
que todos os presentes ali sentissem orgulho da nossa escola. Quando perdíamos, eu me
sentia muito triste.
Quando estava no ensino médio, sentia uma grande responsabilidade de estudar muito para passar no primeiro vestibular, porque me sentia atrasada nos estudos, meus colegas
terminariam com um ano a menos do que eu. Isso porque eu perdi um ano quando eu desisti
e tive que fazer o pré no ano seguinte novamente.
Pensei em parar de jogar vôlei, mas como me sentia muito bem quando estava nos
treinos e jogando, resolvi continuar treinando só duas vezes na semana à noite. E à tarde,
deixei reservada para fazer as tarefas de casa e revisar um pouco de cada matéria.
Meus pais, sempre me cobravam muito, falavam que eu tinha que estudar bastante
para passar no vestibular da Universidade Federal do Tocantins. Eles não tinham condições financeiras para pagar uma faculdade particular. Eu nunca fui a aluna mais inteligente da turma, mas sempre me esforçava para tirar notas boas, sempre consegui passar direto,
sem recuperações.
Meu 3º ano foi um desastre! Começamos o ano sem dois professores, um de matemática e outro de português. Recordo-me de que depois de quase três meses de aulas que
começamos a ter aulas de matemática e português. O professor de matemática era muito
bom, explicava a matéria muito bem e todos os alunos da sala gostavam dele. Já a professora de português não era muito boa, ela era muito lenta com a matéria. Então a sala
começou a desanimar. Esse foi um dos anos na escola em que eu menos estudei e acabei
sentindo as conseqüências disso quando prestei o meu primeiro vestibular, foi uma decepção não ter passado.
No ano seguinte, entrei em um cursinho público, onde eu pagava apenas uma taxa.
Com dois meses, esse cursinho teve que fechar, por questões políticas. Entrei então em um
cursinho particular, não era o melhor, mas era muito bom.
Quando fiz o meu segundo vestibular para Engenharia de Alimentos, consegui passar.
Nossa! Me recordo de que eu fiquei tão feliz que chorei de tão emocionada.
Quando entrei pela primeira vez na sala da faculdade, senti uma grande sensação de
conquista, de ter vencido uma etapa muito importante na minha vida. Hoje, cursando o 3º
período, vejo que ainda preciso vencer muitas outras etapas que estão por vir. A vida
dentro da Universidade não é fácil, mas graças a Deus tenho minha família que está me
ajudando a vencer cada etapa. Tenho muitas perspectivas boas para meu futuro. A escola
me ensinou a ser a pessoa que sou hoje e a faculdade está me ensinando a caminhar com
“minhas próprias pernas”.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Memorial
Karla Adriana Rodrigues Coelho*
Quem sou eu?
Será que eu mesma sei quem sou eu na verdade? Vou tentar me descobrir aqui e farei
o possível para que vocês me conheçam melhor depois deste memorial. Chamam-me de
Karla, sou morena clara, olhos verdes, cabelos meio ruivos, tenho 1.60 m, 52 kg, 28 anos e
solteira. Considero-me uma mulher bonita (aahhh!!!). Bom, isso é o que dizem. Sou amiga,
trabalhadora e leal. Estou agora cursando o 6º semestre de Pedagogia na Universidade
Federal do Tocantins. Moro sozinha, no centro da cidade, bairro próximo à universidade.
Nasci na cidade de Goiatins -TO no dia 31/03/1978, de parto natural, vim ao mundo por
meio de uma parteira.
A origem
Eita meu Deus do céu! Dizem que Goiatins é o lugar onde “Judas perdeu as botas”, por
ser tão longe e sem perspectivas de vida. Mas eu acho que não é bem assim, pois existem
lugares ainda muito mais distantes. Pode-se chegar a Goiatins por meio de ônibus ou avião,
mas não pensem naquelas grandes aeronaves como um Boeing 737, por exemplo. Lá só
existe um pequeno campo de pouso para pequenas aeronaves, esse campo nem pavimentado é. Daí vocês imaginem o tamanho proporcional da cidade.
Meu pai é Antonio Lima Coelho, estudou até a 4ª série do ensino fundamental. Segundo a minha avó, ele dizia que não tinha nascido para estudar e que se minha avó insistisse,
ele iria sumir no mundo sem deixar notícias. Minha mãe é Raimunda Rodrigues da Costa
Neta, estudou até a 8ª série. Sou filha de mãe solteira, como se diz por aí. Minha mãe já tinha
outro filho quando nasci, sou a segunda dos 9 que ela gerou, vivos são apenas 8, contando
comigo. A família de minha mãe é bem humilde. Quando nasci, ela vivia em dificuldades,
ganhava a vida como manicura. Sendo eu a primeira neta da minha avó paterna, ela pediu
que minha mãe deixasse eu ser criada por ela, ou seja, que minha mãe abrisse mão de minha
criação. A família de meu pai tinha melhores condições e uma certa tradição na cidade,
sendo assim, eu poderia ter melhores oportunidades na vida, pensou a minha avó.
Minha família
Meu pai nunca viveu junto com a minha mãe, hoje ele é casado com outra mulher e
com ela tem 3 filhas, sempre morou em Goiatins. Minha mãe também se casou, com o meu
padrasto e teve 8 filhos, atualmente ela mora em Paruapebas-PA. Bem, ao todo tenho 11
irmãos (5 homens e 6 mulheres).
* Graduanda em Pedagogia pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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Fui criada desde os meus 3 meses de vida pela minha avó paterna, Leonides, a quem,
depois de Deus, eu devo tudo. Ela é a pessoa mais importante na minha vida, sou o que sou
graças a ela. Meu pai só me registrou como filha, mas nunca morei com ele. Minha mãe foi
embora de Goiatins para o estado do Pará tentar uma vida melhor, quando eu tinha mais ou
menos uns 2 anos. Eu conheci a minha mãe quando eu tinha quase 18 anos. Quando ela saiu
de Goiatins eu era muito bebê e não guardei nenhuma lembrança dela. Respeito a minha
mãe e nos vemos mais ou menos de 2 em 2 anos, mas não sinto nenhum amor por ela, não é
nenhum tipo de ressentimento pelo fato dela ter me dado para a minha avó. Ressalto aqui
que minha vó já me disse que ela não queria de forma alguma abrir mão de mim, depois de
muita insistência da parte dela, minha mãe cedeu.
Como fui criada pela minha avó paterna, eu nunca a chamei de vó, eu a chamo de mãe.
Hoje ela está com 76 anos, ainda é bem lúcida, mas tem a saúde frágil. Ficou viúva muito
nova, acho que com uns 42 anos. Teve que criar os 11 filhos dos 14 que gerou, fora eu, ela
ainda criou mais uns 3.
A infância
Vivi na fazenda, bem próximo a Goiatins, com minha avó até os 7 anos, idade em que
fui para escola. Já era alfabetizada quando fui à escola pela primeria vez, isso ocorreu
porque minha vó era professora, hoje ela é aposentada. Com 7 anos, fui para Goiatins para
estudar e morar com minha tia Anady que também é minha madrinha de batismo. Desde
cedo, comecei a aprender a trabalhar, sempre tive que ajudar minha vó, isso dentro dos
limites de uma criança. Pensando bem, hoje eu posso dizer que fui criada e preparada para
ser aquela famosa mulher, a tão conhecida “Amélia”. Sei que isso sempre foi uma preocupação da minha avó: me preparar para a vida, ou seja, antes de mais nada, aprender as tarefas
domésticas. Isso pelo fato dela saber que o meu pai nunca se importou comigo, e que
quando ela se fosse eu poderia me virar sozinha ou poderia estar amparada por um casamento. Então, quando fui morar com minha tia, tive que ajudar em casa nos afazeres domésticos.
Minha avó, só veio morar na cidade, quando eu estava na 5ª série, trabalhava muito e
ficava doente com freqüência. Quando ela veio, eu saí da casa da minha tia, “graças a Deus”,
porque eu me sentia como uma empregada. A minha infância não foi tão feliz, desde cedo
comecei a ter responsabilidades, mas brinquei muito, nunca fui cercada de cuidados e
festas. Aniversário com festa mesmo eu só tive um. Mesmo não tendo uma infância como
muitas crianças têm hoje, não posso deixar de dizer que sempre fui e sou muita amada pela
avó, que sempre tentou me dar o melhor, mesmo eu tendo que ajudá-la em casa ela sempre
tentava me poupar o máximo.
A vida escolar
Entrei na 1ª série do ensino fundamental com 7 anos, em Goiatins mesmo, no Colégio
Estadual Adá de Assis Teixeira. Conclui a 8ª série nesse colégio, no final do ano de 1993.
Fui passear no fim do ano na casa da minha tia Arely, irmã do meu pai, em Colinas-TO. Ela
conversou comigo dizendo que eu deveria ir morar lá para estudar, pois assim teria melhores
oportunidades, já que era uma “cidadezinha” mais desenvolvida. Ela ligou para minha avó
e acertou tudo, nem voltei mais pra Goiatins.
Iniciaram-se as aulas e minha tia me matriculou no Colégio João XXIII, para fazer o
magistério, à noite, pois assim eu poderia trabalhar durante o dia. O único trabalho que ela
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Caminhadas de universitários de origem popular
conseguiu arranjar foi o de empregada doméstica na casa de uma conhecida dela. Fiquei
morando com minha tia só até julho de 1994. Isso porque comecei a namorar. Ela tinha
medo que eu engravidasse, visto que não poderia ficar me controlando 24 horas. Ah! Na
família tinha uma tradição que as meninas só poderiam namorar depois dos 15 anos. Por
esses motivos, ela resolveu que ia me mandar para morar em Goiânia-GO, com minha tia
Altair, essa era considerada um general. Achavam que ela poderia dar um jeito em mim, ou
seja, me controlaria mesmo. Cheguei em Goiânia e tia Altair conseguiu que eu fosse morar
com uma amiga dela, dona Aparecida. Eu teria que pagar a minha estadia lá com serviço
doméstico. Minha tia me matriculou no Instituto de Educação de Goiás, onde dei seqüência
ao meu curso técnico em magistério. O curso lá era de 4 anos e não de 3 como era de costume
na época. Já quase no final do ano, dona Aparecida não quis que eu ficasse em sua casa,
porque eu arranjei um namoradinho. Disse para tia Altair que não podia me controlar. Fui
então morar com minha tia. Lá permaneci até o final de 1997, quando concluí o 4º ano de
magistério, ou seja, o 2º grau. Fiz cursinho no meu último ano do 2º grau. Tia Altair pagava
com muita dificuldade aulas num dos melhores cursinhos de Goiânia. Não estava mais
dando certo a minha relação com ela e como minha avó não permitia que eu morasse
sozinha e também não tinha condições de me manter lá, voltei para Goiatins.
As batalhas na vida
Quando estava terminando o 2º grau, fiz a minha primeira tentativa no vestibular em
Goiânia, me inscrevi em 3 universidades, para minha frustração não passei em nenhum.
Decidi voltar para Goiatins em 1997. Nesta época eu fiquei muito preocupada com o meu
futuro, pois morando lá eu não poderia fazer um curso superior. Eu achava mais difícil ainda
porque eu não me sentia capaz de passar em uma universidade Federal e sabia que não teria
condições de estudar em uma particular. Minha avó não teria condições de pagar e me de
manter, ainda que ela desejasse muito realizar este sonho. Meu pai se quisesse poderia
ajudar. Ele é um fazendeiro bem-sucedido e é o dono do único posto de combustível que
existe na cidade. Mas sempre soube que nunca poderia contar com ele.
Quando cheguei a Goiatins, logo comecei a procurar trabalho. Fui convidada para dar
aula no Instituto Educacional Turminha Feliz. Trabalhei lá como professora o ano todo de
1998. No final de 1998, eu tentei novamente o vestibular em Araguaína/TO, na UNITINS,
mais uma vez não passei. Em 1999, eu não quis mais continuar dando aulas, recebi nesse
período o convite feito pelo Secretário da Administração da Prefeitura para trabalhar na
área de informática. Em junho de 1999 me inscrevi novamente no vestibular, fiz minha
inscrição para Pedagogia, pois era um curso de custos mais acessível, só que dessa vez era
em uma faculdade particular, em Araguaína, passei, mas pensei logo, “o que fazer agora?”
Trabalhei na Prefeitura até julho de 1999, nesse período fui morar em Colinas novamente com a minha tia Arely. Colinas fica a 100 km de Araguaína, aí eu poderia morar em
Colinas e estudar em Araguaína. Diante dessa situação, meu pai me ajudou a pagar a minha
matrícula na faculdade e ajudaria até eu conseguir um trabalho que pudesse arcar com as
despesas. Meu pai só me ajudou depois de muita insistência da minha avó. Estudei só até o
fim do ano de 1999, pois não conseguia trabalho e não dava conta de pagar a mensalidade
que já estava em atraso. Meu pai não queria pagar as mensalidades. Sei que essa atitude dele
sempre se deu pelo fato da minha madrasta manipulá-lo para que ele não me ajudasse. Ela
é muito ambiciosa e quer tudo só para ela e minhas outras irmãs, nunca gostou de mim,
apesar de ter se casado com ele sabendo da minha existência.
Universidade Federal do Tocantins
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Parei de estudar e fiquei em Colinas até julho de 2000. Aí, mais uma vez, eu voltei
para Goiânia com a cara e a coragem como se diz. Fui tentar a vida! Fiquei morando “de
favor” na casa da dona Aparecida até quando eu conseguisse um trabalho que pudesse me
manter. Fiquei morando lá uns três meses, depois fui morar com uma colega, onde dividíamos as despesas. Trabalhei como recepcionista, garçonete, atendente de telemarketing em
uma escola de inglês, onde cheguei ao cargo de supervisora de marketing.
Em abril de 2002, dei uma avaliada na minha vida durante aqueles quase 2 anos em
Goiânia e concluí que não estava satisfeita com os resultados na minha vida pessoal e
profissional: não estava estudando e não via perspectiva de fazer um curso superior. Maio
de 2002, eu resolvi voltar para Goiatins, um dos motivos que me levou a tomar essa decisão
foi o fato de minha avó estar sozinha e adoecendo com freqüência.
A grande vitória
Foi em novembro de 2003 que minha tia Anady, que já estava morando em PalmasTO, me ligou e me incentivou a me inscrever no vestibular na UFT, que por sinal foi em
2004 que a UFT se consolidou como instituição federal, antes era UNITINS, Fundação
Universidade do Tocantins. Inscrevi-me e fui para Palmas no dia 18 de janeiro de 2004, já
fui decidida a ficar lá passando ou não. Tentaria arranjar boas oportunidades de trabalho e
estudar de alguma forma.
A prova do vestibular foi logo em seguida, dia 23. Fiquei feliz porque achei a prova
fácil: uma voz no meu interior me dizia que eu iria passar. Chegou o dia do resultado do
vestibular e fui cedo para universidade, não tive coragem de comprar o jornal. Quase não
consegui me aproximar das listas afixadas nas paredes, tinha muita gente, mas com muita
dificuldade eu consegui me aproximar da lista e pude ver o meu nome. Não queria acreditar
naquilo que os meus olhos viam, fiquei quase em estado de choque, depois de algum tempo
eu me recuperei e gritava em voz alta “EU PASSEI, PASSEI, PASSEI”. Peguei o celular e
comecei a ligar para todas as pessoas que eu considerava importante para mim.
A universidade e o Conexões
Foi e está sendo um período de lutas. Com uns 3 meses que estava aqui em Palmas na
casa da minha tia Anady, eu fui convidada por uns amigos a ir morar com eles, minha relação
com minha tia não estava boa. Mas tive muitos problemas, dentre eles, não tinha como
contribuir com as despesas no quesito (R$). O jeito foi contribuir com serviços domésticos.
Minha avó me ajudava com R$ 100,00 ao mês. Esse dinheiro era para minhas despesas na
faculdade (livros, xerox, passe estudantil, lanche e outros) e também produtos para higiene
pessoal. Para complementar a minha renda eu comecei a vender catálogos (Avon, Demilus,
Hermes) e cosméticos, faço isso até hoje. Depois de muitos problemas com esses amigos, eu
resolvi morar sozinha. Foi muito difícil no começo, passei muitas dificuldades e necessidades, mas graças a Deus e com muita coragem eu superei os obstáculos. Hoje posso dizer que
tudo está mais calmo.
Estou aqui hoje na Universidade Federal do Tocantins, antes tão distante, sendo
formada para ser uma cientista da educação e docente. Esta não é só uma escolha profissional, como também uma posição de luta perante a vida e as injustiças sociais. Acredito e
concordo com Paulo Freire, quando ele diz que “educar é um ato político”. Diante de todas
as minhas dificuldades, e da maioria da população brasileira empobrecida, tenho a necessi-
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Caminhadas de universitários de origem popular
dade e obrigação de fazer algo para amenizar essa situação. O meu caminho até aqui foi
longo e cheio de obstáculos como vocês já puderam perceber, ainda tenho obstáculos a
vencer, como me manter na universidade, pois dependo só de mim.
Desde que ingressei no ambiente acadêmico, procurei me envolver em atividades de
pesquisa, no intuito de seguir a carreira acadêmica. Não tive muito sucesso em minhas
tentativas, porém, continuei e continuo tentando. Hoje, estou no 6º semestre e a desejada
oportunidade para pesquisar só veio aparecer no final do 4º semestre com o Programa
Conexões de Saberes.
Estou muito satisfeita e empolgada com esse Programa. Espero absorver o que puder
dessa oportunidade. Com o Conexões de Saberes, eu já fiz muitos amigos e conheci pessoas
com histórias de vida magníficas e que passaram por grandes dificuldades também para
chegar até aqui. A minha missão hoje, eu acredito que seja, fomentar em outros jovens o
desejo de ingresso na universidade, fazendo com que deixem de lado a baixa auto-estima
que os impede de visualizar o ingresso na faculdade. Se o meu maior desafio antes era entrar,
hoje é permanecer nessa instituição que me mostra o tempo todo que não foi feita para mim.
Seja pelos seus campos descentralizados ou por seu corpo docente que não entende ou não
quer entender que viemos de escolas públicas e, por isso, não vimos em nossas aulas de
português como fazer uma resenha, seguindo as normas da ABNT. E mais, de que precisamos trabalhar para nos manter dentro dela. Ao escrever este memorial, procurei contar a
minha história de forma leve e com bom humor. Tentei registrar aqui o que foi mais importante na minha caminhada. A minha intenção é mostrar que mesmo os momentos difíceis
podem ser contados de forma alegre, pois acredito que é dessa forma que devemos contar os
momentos tristes pelos quais passamos. Assim, me despeço deste memorial, não esquecendo de agradecer a minha avó, Leonides, e a todos que acreditaram e me ajudaram nessa
trajetória.
Universidade Federal do Tocantins
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Memorial
Karliana Silva Oliveira*
Sempre contei trechos e passagens da minha vida para várias pessoas, mas nunca
pensei que um dia ela se tornaria capítulo de um livro em que poderei contá-la por completo. Nas minhas conversas sempre gostava de ressaltar muito a força e a coragem de minha
mãe, pessoa que tenho imensa admiração e orgulho. Vamos lá... era uma vez...
E como todo povo da roça, meus pais se casaram cedo. Minha mãe com 17 anos, meu
pai com pouco mais de 20. Os dois nunca tiveram muito estudo, pois com o casamento
precoce e os filhos ainda na adolescência era difícil de prosseguir na vida escolar. Isso fez
com que eles quisessem uma vida diferente para seus três filhos.
Iniciei a minha vida escolar aos 3 anos de idade, ainda no maternal. Lembro-me com
muita clareza daquele tempo, chorava bastante e não queria saber de escola, mas meus pais,
que não tiveram essa oportunidade, queriam insistentemente que eu começasse a estudar o
quanto antes. Foi assim com todos os meus irmãos. Depois do maternal, vieram os Jardins I, II,
e III. Após toda essa jornada eu já estava bem acostumada com a escola e também já estava
crescidinha, era hora de mudar de escola e de série. Nessa nova escola comecei a alfabetização. Foi onde eu conheci uma professora que se tornou minha grande paixão na época, Tia
Auxiliadora, era como a chamávamos. Nunca me esqueço daquela pessoa doce, carinhosa,
atenciosa, paciente. Me apeguei tanto a ela que não suportava a idéia de mudar de série para
não ter que mudar de professora. Passaram-se os anos e continuei a estudar nesta escola até a
segunda série. Esses foram os únicos anos que estudei em escola particular.
O ano era 1993 e nossa família teve que mudar de casa e de bairro, conseqüentemente
mudamos de escola. E aí começava toda uma fase de adaptação, novos colegas, novos
professores, novo endereço. Aos poucos, fomos nos adaptando aquele ambiente, gostei
muito da escola e fiz muitas amizades.
No ano seguinte, 1994, a nossa vida mudaria completamente, pois mudamos para
outra cidade, precisamente para Redenção no Pará. Meu pai, que não tinha serviço fixo e
trabalhava como camelô na época, estava em condições financeiras muito difíceis. A convite de um irmão, resolveu mudar para aquela cidade. Essa mudança para mim e meus
irmãos foi um choque. Meu Pai, que só estudou até a 8ª série, e minha mãe, que tinha feito
parte do segundo grau, não tinham muitas opções de emprego. O jeito era se virar com o que
aparecia, então os dois resolveram trabalhar num “pit dog”, vendendo lanches preparados
na hora. Eu, minha irmã e meu irmão, íamos iniciar nossa fase de adaptação. Mas agora não
só com a escola, mas também com a cultura daquele povo. Tudo para gente era muito novo,
pois nunca havíamos saído da nossa terra natal. Começamos a estudar e tudo era muito
confuso, até que nos acostumamos.
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT,
56
Caminhadas de universitários de origem popular
Enquanto isso, meus pais davam duro no “pit dog”. Nossa ajuda era fundamental. Eu
e minha irmã mais velha ficávamos acordadas até tarde ajudando nossos pais, o grande
movimento do “lanche” era à noite. Foi aí que começaram as dificuldades para ir à escola.
Ficar acordada até altas horas, ajudando meus pais, dificultava muito acordar cedo para ir à
aula e por pouco não ficamos de recuperação. Mas graças ao empenho da minha mãe, conseguimos vagas para mudar de turno e assim recuperar as notas e passar naquele semestre.
E com toda essa questão de ficarmos acordados até tarde e quase ficarmos reprovados,
meus pais decidiram abandonar aquela atividade, que estava trazendo muitos transtornos
para nós no âmbito escolar e na vida pessoal também.
Em julho deste mesmo ano de 1994, o casamento dos meus pais, que já não ia tão bem,
chega ao fim. Minha mãe, aquela mulher que aparentava tão frágil e insegura, toma a
seguinte decisão: sair de casa e levar seus três filhos. Ela que se casou tão nova e não tinha
formação escolar completa e que depois de casada não teve a oportunidade de estudar,
resolveu encarar o mundo de frente e ir à luta.
Então voltamos para nossa cidade natal Imperatriz. A separação dos meus pais para
mim foi muito difícil. No começo, eu não conseguia assimilar bem o que se passava e tudo
ficou muito confuso. Minha mãe tentava nos explicar e nos confortar. Afinal ainda éramos
muito crianças para entender. Estávamos de volta para começarmos tudo do zero. Isso foi
muito marcante para mim, pois meu pai não nos viu partir, ele viajava e minha mãe viu
naquele momento a oportunidade de dar um novo sentido a sua vida. Meu pai era muito
machista e não permitia que minha mãe estudasse e nem trabalhasse. Aquela situação a fazia
muito infeliz, mas mesmo meu pai agindo dessa maneira minha mãe nunca desistiu de
tentar. E ao longo do período em que ficou casada procurou fazer alguns cursos como:
manicura, depiladora, isso já prevendo uma eventual necessidade no futuro.
E graças a essa perseverança e força que conseguiu nos manter quando voltamos para
Imperatriz. Estávamos na pior, não tínhamos nada, apenas algumas peças de roupas. O apoio
dos parentes e amigos foi fundamental naquele momento. Como estávamos de férias, ficamos
uns dias na casa da minha bisavó, numa cidadezinha próxima, até que minha mãe arrumasse
um cantinho para gente morar. Faltando poucos dias para iniciar as aulas, minha mãe conseguiu arrumar um emprego num salão de beleza de uma amiga, onde ela trabalhava de manicura e depiladora, conseguiu também alugar uma quitinete e nos matricular na escola.
Essa já era a quinta escola que eu estudava e nem precisa falar, pois o início de
adaptação foi terrível igual a todos os outros. Estudei nessa escola durante todo o segundo
semestre de 1994. E a nossa situação financeira estava muito difícil, minha mãe tinha que
nos sustentar sozinha, não tínhamos nada: nem camas e nem geladeira, vivíamos com o que
dava. Vendo essa situação que minha mãe atravessava no momento, eu e meu irmão mais
novo resolvemos ir morar com meu pai, até que a situação de minha mãe melhorasse. Isso
aconteceu em 1995. Meu pai já havia se mudado de cidade e de Estado novamente, dessa
vez ele foi para Porto Alegre do Norte-MT. Ele já estava morando com outra mulher, com o
seu irmão e família.
Eu sofri com o choque cultural mais uma vez, eu estava com 11 anos de idade e não foi
nada fácil aqueles tempos que eu passei lá sem a presença da minha mãe. Meu pai resolveu
trabalhar novamente como camelô vendendo roupas. Ele tinha seu irmão como sócio que o
ajudava com as vendas. Morávamos as duas famílias na mesma casa, o que era bastante
complicado, pois o espaço era muito pequeno. Na escola, as pessoas me olhavam torto e
Universidade Federal do Tocantins
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riam do meu jeito de falar, eu bastante tímida quase não fiz amizades, eu também não procurei
me apegar muito, sabia que no ano seguinte eu voltaria para a casa da minha querida mãe.
No ano seguinte, 1996, eu e meu irmão retornamos para casa de minha mãe, que nos
esperava ansiosa. E pude perceber que naquele momento minha mãe estava feliz, já estava
trabalhando e aos poucos conseguindo se recuperar.
Mais uma vez vou para um novo colégio. Nessa escola eu consegui me fixar por 3
anos. Estudei lá até a 8ª série, pois lá não tinha o segundo grau. Durante o tempo em que
fiquei estudando, pude descobrir a emoção de reencontrar as amigas, depois de longas
férias, reencontrar os professores, fiz amizades inesquecíveis e usufruí de tudo que aquela
escola podia me oferecer. Nela pude consolidar a minha base escolar. Terminei a 8ª série e
precisava encontrar um novo colégio onde pudesse cursar o 2° grau. Foi aí que me inscrevi
para o processo seletivo do CEFET-MA que era concorridíssimo, pois todos os alunos da
rede pública e particular almejavam uma vaga naquela escola. Depois de muitas horas de
dedicação aos estudos, lá estava meu nome na lista dos aprovados, quase não acreditei,
minha mãe ficou muito orgulhosa com aquela conquista.
E só para não perder a conta, essa já era a oitava escola que eu estudava, por sinal os
3 anos de Ensino Médio foram os melhores para mim. Eu adorava a escola que estudava,
tinha ótimos professores e fiz amizades eternas. Foi nessa escola que despertei muito a
vontade de ingressar numa faculdade, pois todos os meus professores davam aulas em
universidades. Eles nos incentivavam muito a buscar algo mais além. A escola era extremamente organizada, tinha um ambiente muito acolhedor. Eu tinha um imenso prazer de ir à
aula todos os dias, até mesmo quando estava doente.
Assim que terminei o ensino médio, passei a ajudar minha mãe no salão, eu fazia de
tudo um pouco. Ela estava bastante empolgada, pelos estudos e pelo fato de estar lhe
ajudando no salão. Foi quando resolvi me inscrever em dois vestibulares: um na minha
cidade, outro no Tocantins. Fiz o primeiro processo seletivo em Imperatriz mesmo, mas não
tive êxito. Minha mãe sempre me deu bastante apoio para continuar tentando, mas ela não
suportava a idéia de eu ter que ir embora para outra cidade.
Preparei-me durante 6 meses num cursinho popular que ficava próximo da minha
casa, onde eu tinha aula todas as noites.
Enfim, chega o grande dia da prova! Graças a Deus, correu tudo muito bem. Saí da
prova bastante confiante e otimista. Chegando em casa contei para minha mãe que eu
estava muito empolgada e certa do meu sucesso. Ela me olhou com um olhar de tristeza e
disse: “infelizmente você não poderá estudar em Palmas se você passar no vestibular, pois
andei fazendo as contas e não terei condições de lhe sustentar naquela capital”. Naquele
momento, não tive outra alternativa a não ser concordar com ela.
Quando chegou o dia do resultado das provas, preferi não olhar. Passaram-se os dias e
de repente o telefone de minha casa toca, é a sobrinha do meu padrasto avisando que eu
havia passado na segunda chamada do vestibular da UFT. E havia um problema, eu precisava viajar naquele mesmo dia, porque no dia seguinte era o último dia de matrícula. Eu
fiquei muito eufórica e precisava dar a noticia para minha mãe. Ela não quis acreditar. Mas
eu estava bastante decidida e queria ir de qualquer jeito, não poderia desperdiçar aquela
oportunidade, minha mãe não sabia o que fazer e nem o que dizer.
Quando minha mãe chegou em casa eu já estava com as malas praticamente prontas.
Ela não tinha mais o que fazer a não ser me desejar sorte, nessa nova caminhada. Chegando
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Caminhadas de universitários de origem popular
a Palmas, fui morar com a sobrinha do meu padrasto e mais 3 pessoas, demorei um tempo até
me acostumar com aquela nova vida.
Com o início das aulas na UFT, me sentia bastante desconfortável, não conseguia me
enturmar e morria de medo dos famosos “trotes”. Sofri muito de saudades da minha família
e da minha casa. Agora eu teria que caminhar com minhas próprias pernas, as responsabilidades eram maiores.
Depois de 6 meses na faculdade, a minha mãe estava com muitas dificuldades de me
mandar o dinheiro das despesas mensais. E eu que havia optado por um curso integral não
podia trabalhar para ajudar nas contas. Mas minha mãe, que nunca foi de desistir, não queria
que eu parasse de estudar e fez o possível e o impossível para que eu continuasse estudando,
mesmo com todas as dificuldades que enfrentávamos.
No ano de 2003, minha mãe recebeu uma proposta para trabalhar fora do país, ela
ficou bastante indecisa quanto a essa proposta, pois poderia ter um melhor salário e poderia
dar uma vida melhor para seus filhos e eu não precisaria trancar a faculdade. Por outro lado,
ficaria longe de seus filhos por algum tempo. Ela resolveu levar o sonho adiante e foi em
busca de dias melhores para nossa família. Chegando em Portugal, as coisas não eram tão
fáceis quanto pareciam, minha mãe, como já foi com uma proposta de emprego certo na área
em que ela sempre trabalhou, logo começou a trabalhar. Mas o salário não era lá aquela
maravilha, e ela já não podia mais desistir, pois havia contraído uma enorme dívida para
fazer essa viagem. O dia de sua partida foi o pior dia da minha vida, sofri muito. O único
contato era apenas por telefone e não era sempre, pois as ligações custavam muito caro.
Foram se passando os anos. Meu irmão e minha irmã vieram morar comigo em Palmas,
minha irmã havia ficado desempregada e para diminuir as despesas minha mãe preferiu que
morássemos todos juntos.
E todos os anos sempre a mesma promessa de minha mãe voltar, mas nunca aconteceu,
pois ela não conseguia juntar dinheiro suficiente para vir embora, as despesas dela e a nossa
aqui consumiam todo o seu salário. E a volta sempre ficava adiada para o ano seguinte.
No ano de 2006 minha mãe ficou bastante doente da coluna, devido trabalhar muitas
horas seguidas na mesmo posição e ficou algum tempo sem trabalhar e conseqüentemente
sem receber. Foi aí que tive que arrumar um emprego, mas com um curso integral era difícil
de trabalhar em qualquer lugar. Através de uma amiga fiquei sabendo que a Universidade
estava precisando de estagiários para trabalhar. Deixei meu currículo e alguns dias depois
fui chamada para começar no emprego. “Deus ouviu minhas preces.”
Trabalhando dentro da universidade seria mais fácil de conciliar os horários das aulas
com o trabalho. E tudo parecia conspirar a meu favor, os horários do serviço encaixaram-se
perfeitamente nos meus horários vagos de aula. Fiquei trabalhando por 6 meses como
secretária numa coordenação de curso e a partir daquele emprego dentro da universidade
pude perceber o verdadeiro sentido de estar lá dentro. Passei a ter mais contato com professores de diversos cursos e a me interessar mais por assuntos da universidade que não tinha
conhecimento.
O meu estágio de 6 meses já estava chegando ao fim, quando fui informada de que o
contrato se renovaria. Trabalhar dentro da universidade para mim era um privilégio, mas eu
precisava ir mais longe. Foi quando ouvi falar do Programa Conexões de Saberes. Fiquei
bastante interessada, pois sempre quis participar de atividades que pudessem contribuir
Universidade Federal do Tocantins
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para minha formação. Efetuei minha inscrição e dias depois eu estava dentre os bolsistas
selecionados. Abandonei o meu estágio e passei a dedicar-me exclusivamente ao Programa
Conexões de Saberes, que se encontra em sua fase inicial dentro da UFT, mas que me enche
de boas expectativas não só para o meu futuro profissional, mas para a vida.
Hoje participar do Conexões foi a melhor coisa que me aconteceu nesses 4 anos de
universidade, pois já não tinha mais esperanças de participar de projetos de extensão. Este
é apenas o início de uma longa caminhada do Conexões e da universidade. Acredito que a
partir desse, outros surgirão para contribuir com a permanência de muitos alunos.
E agora, chegando na reta final para concluir o meu curso, posso sonhar e ter a certeza
de um reencontro com a pessoa mais importante da minha vida, minha querida mãe. Ela me
fez acreditar que tudo isso seria possível.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Lutas e vitórias
Marcela Ramos Alves*
Era novembro de 1987, em Itacajá, uma pequena cidade do interior do Tocantins, que
nascia Marcela Ramos Alves. Sou de uma família bastante humilde. Meu pai, Mariano, é
lavrador e só teve a oportunidade de estudar até a 2ª série do Ensino Fundamental. Minha
mãe, Madalena, é professora e atualmente faz o curso telepresencial de Pedagogia. Tenho
mais duas irmãs, Marcelina e Marcilene.
Morei desde que nasci em um povoado chamado Obrigado, onde meus pais vivem até
hoje. Com 4 anos de idade, comecei a estudar, era a fase da alfabetização. Antes, quando
ainda não tinha um local fixo, a escola funcionava na varanda da minha casa. Minha mãe
era a professora e dava aulas para todas as turmas, que nunca tinham mais que 15 alunos
cada. Eu estava sempre no meio dos alunos, por isso aquele meio jamais me foi estranho.
Ainda com 4 anos, aprendi a ler e a escrever, porém minha mãe exigiu que eu repetisse a
alfabetização, alegando que eu era muito pequena para fazer a 1ª série.
Assim, os anos se passaram, um ano a professora era a minha mãe, no seguinte, minha
tia. Tinha dias que a merenda que o município mandava acabava e todos os alunos se
reuniam no intervalo para comer o que traziam de casa. Lembro–me de que havia uma
pergunta que sempre fazíamos uns para os outros: “qual o teu lanche hoje?”
Fui sempre uma boa aluna, tirava boas notas, era sapeca como toda criança, mas
sempre gostei de estudar, principalmente ler. Foi uma barra quando terminei a 4ª série, pois
lá na fazenda já não tinha como estudar, teria que mudar para cidade. Minha mãe, então,
procurou alguma família na cidade que me acolhesse na sua casa. Graças a Deus ela encontrou. Então eu fui morar na cidade.
Foi muito difícil esta mudança, na verdade a vida que as pessoas da cidade levavam
era bem diferente da vida que eu estava acostumada a levar na zona rural, inicialmente, o
que mais gostei foi de assistir a TV e brincar com as novas amiguinhas.
Lembro–me muito bem do meu primeiro dia de aula, 10 anos, 5ª série. Sentia medo,
não sei de quê, não falava quase nada, não conhecia ninguém. E tinha uma coisa estranha:
a cada 45 minutos trocava de professor.
Com o passar do tempo, me adaptei a nova rotina e continuei com as boas notas.
Não era muito de estudar em casa, mas prestava atenção nas aulas e fazia todos os
trabalhos. Jamais me esqueço da Escola Estadual Almeida Sardinha, do professor de
Matemática, Deusdará, da professora de Português, Neyde, enfim de todos os professores, colegas e amigos.
* Graduanda em Comunicação Social pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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Assim, três anos se passaram. Como na minha escola só tinha 8ª série à noite, tive que
ser transferida para o Colégio Estadual de Itacajá, para estudar pela manhã. Minha turma era
considerada a mais baderneira do colégio, mas continuei com meu bom desempenho. Recordo-me de que estudava de manhã e à tarde cuidava de criança.
Quando o ano de 2002 começou, surgiu a proposta de ir morar em Brasilândia do
Tocantins, uma cidade ainda menor que Itacajá. Fui para lá e fiz todo o meu ensino médio.
Estudava no Colégio Estadual Sebastião Rodrigues Sales, o único colégio de ensino
médio da cidade.
Eu tinha 14 anos e fazia o 1º ano do ensino médio e nenhum grande sonho. Era
bastante envolvida com a escola, estudava à noite, mas todos os dias ia ao colégio em outro
horário ou na casa da Wellyta, uma amiga, para fazer algum trabalho ou exercício de casa ou
somente para conversar. Participava de todo evento da escola e da igreja.
Eu me lembro muito bem das aulas de Noções de Filosofia e Sociologia com a
professora Darlene, Matemática com Lauro César, Português e Inglês com Almerinda, as
broncas da diretora Sandra, de cada professor e de cada colega que tive. Assim, passou o
1º o 2º e já findava o 3º ano do ensino médio e eu nem imaginava que rumo tomaria a
minha vida no ano seguinte.
Fazia plano e mais plano com a Wellyta de morarmos as duas na casa dela em Palmas,
isso é claro, depois de passarmos no Vestibular 2005 da UFT, mas nem pensava que curso
fazer e nem como me manteria lá.
Passei o ensino médio inteiro ouvindo falar que aluno oriundo de escola pública, sem
cursinho, não passava no vestibular de universidade federal. Fiz a prova do Enem, obtive
uma nota que ainda dava para concorrer a uma vaga em uma faculdade particular pelo
Prouni, mas a falta de informação era tão grande que nem fiz inscrição. Não entendi que
aquela poderia ser a minha chance de fazer um curso superior, uma vez que acreditava que
não poderia passar no vestibular da UFT. Também tinha plena consciência de que minha
família com um salário de 450 reais mensal jamais poderia pagar uma faculdade para mim.
Peguei o edital do vestibular 2005 da UFT e procurei entre os cursos do Campus de
Palmas qual mais me interessava. Optei por Comunicação Social, habilitação em jornalismo. Considerei para essa escolha meu gosto pela área de lingüística, fiz a inscrição já na
prorrogação. Ah, quando peguei o edital, queria fazer letras, mas teria que escolher um
curso que tivesse em Palmas, pois poderia morar na casa da minha amiga, porque pagar
aluguel estava fora de cogitação.
Em novembro de 2004, comecei a trabalhar como repositora em um supermercado de
Brasilândia e estudava à noite. Estudar para prova do Vestibular nem passava pela minha
cabeça. Depois que as aulas acabaram, em vez de aproveitar para me dedicar ao vestibular,
saía todo dia para rua. Uma vez ou outra dava uma olhada nos livros e estudava um pouco
de Português. Não me preocupava. Nem sei o que eu pensava da vida.
Fiz a prova e quando recebi a notícia que tinha passado nem acreditei. Só então caí em
mim. Fiquei muito feliz e ao mesmo tempo triste. Era angustiante pensar que eu que sempre
pensei que não passaria no vestibular tinha passado. Casa para morar eu tinha, aliás minha
amiga tem, mas ninguém vive somente de teto. Eu dividiria as despesas da casa com ela,
teria que pagar passagem do coletivo para ir para faculdade e fazer as apostilas. Não via
como isso seria possível. Ah! Como chorei! Conversei com minha mãe e então começava o
sufoco: tirar do pouco salário que ela recebia uma parte para minhas despesas aqui.
62
Caminhadas de universitários de origem popular
Em 2005 minhas aulas começaram. Nova turma, nova cidade, tudo novo. Inicialmente, não tinha noção do quanto seria difícil aquele começo, sentia muita falta de conhecimento, não daquele de sala de aula, mas de conhecimento de mundo, coisas que se aprende
viajando, vivendo, navegando na internet, algo bem distante de mim até aquele momento.
Por várias vezes deixei de fazer algum trabalho porque não sabia como acessar a
internet para fazer as pesquisas, ficava sempre calada, tinha medo de dar minha opinião e as
pessoas sorrirem de mim. Foi então que conheci a realidade daqueles que tiram notas baixas. Nunca mais fui aquela ótima aluna.
Cresci acreditando que era uma pessoa com facilidade para aprender, tirava boas
notas, me destacava em sala de aula. Mas quando cheguei à faculdade, fui obrigada a
encarar a realidade. Eu me sentia inferior diante dos colegas que estudaram em escolas
particulares ou fizeram cursinhos, sentia-me a pior das alunas, aquela menina que saiu do
interior e o interior não saiu dela. Incomodava-me a idéia de achar que os outros poderiam
pensar que eu estava ali por uma tremenda sorte.
Alguns colegas deram-me muita força, me ensinaram o básico de internet e aí
então comecei a andar com as próprias pernas. Passei momentos difíceis quanto à falta
de um conhecimento enciclopédico, crítico, cultural mais intelectualizado, do mundo.
Chorei muito, mas em momento algum essas dificuldades podem ser comparadas às
dificuldades financeiras, as quais enfrento até hoje, mesmo depois do Programa Conexões de Saberes. (Lágrimas)
Apesar de não ser o curso que sempre sonhei, na verdade nunca sonhei com curso
algum, Comunicação Social hoje é a minha paixão. Por isso procuro levar a sério porque
gosto muito.
Quando minha colega me falou do Programa Conexões de Saberes me inscrevi e fui
selecionada. Ah, como fiquei feliz! Era como se eu tivesse me encontrado na universidade,
pois ali, além da bolsa de 300 reais todos os meses, eu poderia trabalhar com a comunidade,
fazer o que sempre gostei.
Tenho uma certeza: o Programa Conexões de Saberes tem me ensinado muito!
O rio atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar
obstáculos.
Quo Vadis
Universidade Federal do Tocantins
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O relógio de Deus
Marcelene Batista Cunha*
Rememorar minha trajetória não é tarefa fácil para mim que sempre fui uma pessoa
muito reservada. Nasci no ano de 1984, após 12 anos de casamento de meus pais que já não
esperavam mais ter filhos. Portanto, sou a terceira filha. Fruto do inesperado, nasci do ventre
da mulher guerreira que tem nome de Deusa por ser sinônimo de coragem e criação, fez das
dificuldades fortaleza.
Quando tinha quatro anos de idade, ganhei a minha primeira cartilha do seu Bejamim,
tinha páginas amareladas, na capa, uma típica normalista, saia de pregas, uma vara na mão,
um quadro negro escrito as letras iniciais do alfabeto. Com ajuda da minha mãe, aprendi a
ler antes mesmo de ir à escola. Na época, morávamos na fazenda Serra Pelada, próxima da
cidade de Novo Acordo, hoje, com menos de quatro mil habitantes.
Em função dos estudos dos meus irmãos, alternávamos a nossa estadia entre a nossa
casa na cidade e a roça nos finais de semana. No ano de 1989, fui pela primeira vez à escola
Estadual Pedro Macedo. Mãe me levou juntamente com a Vânia e o Paulinho, amigos com
quem partilhei as delícias da infância. A escola era próxima da minha casa. No pré-escolar,
minha professora se chamava Amália. Estudei lá por três anos, já estava na segunda série
quando minha mãe me transferiu para o colégio Estadual Dom Pedro I, onde estudei até
concluir o ensino médio.
Quando fiz sete anos, nasce meu irmão Ricarte. Na mesma época, meu pai vende a terra
e abre um bar. Foi de lá que retirou o sustento para nós estudarmos, o que não mudou muito
nossas vidas. Tudo era simples e não rendia muito. Em 1994, nasce a minha irmã Sâmara, no
mesmo período a minha irmã Marlene se casa. Então, eu precisei assumir algumas responsabilidades como, cuidar da casa dos meus irmãos e auxiliar no bar. Tarefas que pareciam
difíceis para uma criança.
No boteco, um ambiente tipicamente masculino, tive que criar mecanismo de auto
defesa e me tornar a singular menina que precisava auxiliar no sustento da família. Acho
que lá adquiri as primeiras idéias de eqüidade de gênero.
Foi por volta dos treze anos, quando me infiltrei nos movimentos sociais. Apesar da
pouca idade era muito madura e apresentava uma estatura de adulta. A igreja me possibilitou uma experiência muito boa através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e muito
dos valores, das ações. Enfim, boa parte do que eu sou hoje foi graças a esses trabalhos
comunitários, orientados pelas irmãs Elaine e Eronice.
* Graduanda em Pedagogia pela UFT.
64
Caminhadas de universitários de origem popular
Outra etapa que vale a pena lembrar foi a do ensino médio, período muito especial.
O colégio era tudo, não pelas aulas, mas pela diversão de estar com os amigos que mais
pareciam irmãos. Éramos uma turma bem diversificada, as aulas eram à noite, pois não
havia Ensino Médio diurno, tinha muitos sonhos e inseguranças. Foi também neste período que minha mãe ficou doente e passamos por muitas dificuldades, por falta de recursos
para fazer o tratamento.
Apesar das barreiras, considero que foi uma etapa de muitas aprendizagens. Me desprendi do egoísmo natural da adolescência e fortaleci meus laços com a minha família, do
mesmo modo que aprendi a reconhecer nas pessoas suas qualidades e valorizá-las, o que
depois foi fundamental para minhas relações inter-pessoais.
No final de 2001, concluí o ensino médio e prestei o meu primeiro vestibular para
Comunicação Social. Aliás, meu apelido era “repórter” no ensino médio, pois propagava
que seria jornalista. Confesso que falava muito, o que resultou em várias expulsões das
aulas de matemática, as quais detestava muito. Então, aproveitava para conversar com meus
amigos.
Claro que não passei, chorei muito e recordo das palavras do meu pai “espera minha
filha, tudo acontece no tempo certo quando Deus quer”. Talvez ele tivesse razão, o que eu
não compreendia porque o tempo de Deus não era permitido para mim. Inconformada com
o relógio de Deus que permite e justifica as desigualdades e a exclusão, fui trabalhar em
uma farmácia.
No final do ano seguinte, lá vou eu de novo fazer vestibular. Dessa vez, para História.
Mais uma vez o relógio de Deus não me permitiu passar. Decidi me mudar para Palmas. Foi
no dia 6 de janeiro de 2003 que me mudei, e “como mudei”. Foram cinco vezes em seis
meses; um mês na casa de cada parente. Tinha dificuldades de me adaptar, eu acho.
Tive sorte e arrumei um emprego em uma distribuidora de medicamentos. Era a única
menina no meu departamento, o que resultava em piadas machistas dos meus colegas.
No mês de julho de 2003, abriram as inscrições para o vestibular da UNITINS, não
tinha dinheiro para pagar minha inscrição e só fiz por insistência da minha prima e de um
amigo do trabalho que me emprestou o dinheiro para pagar a inscrição. Fui muito desanimada, estava enfrentando dificuldades financeiras e de me adaptar a nova cidade.
Escrevi-me para o curso Normal Superior, era o menos concorrido e tinha cansado de
ser “anormal e inferior”. No dia da prova, estava calma, mas achava improvável passar.
Aquele era o último vestibular da UNITINS que estava em processo de federalização.
Quando saiu o resultado eu não fui olhar. Só soube do resultado no outro dia, quando
estava no meu trabalho e os meus colegas me avisaram. Olhei e não acreditava no que via na
tela do computador. Corri para comprar um jornal. Lá estava meu nome, só então liguei para
meu pai. Foi muito legal dar a ele a notícia da minha aprovação. Começava ali outro
problema, o curso era vespertino e eu não podia deixar o trabalho. O meu pai mais uma vez
profetizava: “faça a matrícula Deus providenciará tudo”.
O meu tio cedeu uma casa para eu morar no Jardim Aureny IV, bairro periférico de
Palmas. Lá vou eu viver da “providência Divina”, que aliás ensina muito. Nesse tempo,
morando sozinha, aprendi a ser artesã, manicura, sacoleira, entre outras atividades para que
continuasse estudando. O desemprego é angustiante e por várias vezes pensei em desistir.
Hoje estou no sétimo período de Pedagogia, que deixou de ser Normal Superior.
Depois da federalização, a instituição unificou os cursos e mudou a nomenclatura.
Universidade Federal do Tocantins
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Leitores e leitoras, estes são alguns vestígios da garota da Joaquim Ribeiro, rua onde
cresci. Rememoro minha história com lágrimas, risos, saudades, gratidão e esperança que o
relógio de Deus permita a todos oriundos das camadas populares o acesso e a permanência
na universidade.
Fui agraciada por ter uma família que sempre me incentivou a estudar. Acho que dela,
herdei a coragem e a perseverança de uma mulher além do seu tempo. Do meu pai, a sensatez
de um homem sábio que sempre me orientou na busca pelo equilíbrio. Agradeço a todos
que partilharam comigo nestes 22 anos de vida, em especial aos meus pais, irmãos, tios,
primos e aos meus amigos: “anjos na terra”, como costumo chamá-los.
Por fim, faço minhas palavras de Paulo Freire: “Gosto de ser homem, de ser gente,
porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, não é preestabelecida,
que o meu destino não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir.”
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Caminhadas de universitários de origem popular
Memorial
Marco Antonio Costa Junior*
Não sei mais o que pensar, nem o que fazer. As pessoas sentem-se seguras dentro de
seus mundos. Acreditam ter o direito de julgar o seu semelhante se achando superior. Então,
me pergunto se esses “seres supremos” nunca erraram, ou se essas pessoas nunca pegaram
emprestadas uma ou duas moedinhas do cofrinho da irmã ou de quem quer que seja, sem
que a mesma soubesse.
Ou ainda, ateou fogo na cerâmica do tio, porque viu uma moita seca ao lado do
barracão de madeira. E por ser louco demais e sempre andar com uma caixa de fósforos, não
hesitou e riscou um. E com todo cuidado para a chama não se apagar, protegendo-a do
vento com a outra mão, agachou-se até o chão, aproximou a chama até o capim seco, e, de
repente, sentiu no reflexo de seus olhos o calor do fogo se espalhando rapidamente por toda
parte. Era uma criança agindo sem maldade, pois aquilo não lhe parecia causar nenhum
dano a ninguém. Tratava-se de uma criança que não sabia, ou que achava que não sabia o
que era certo ou errado. E como toda criança cresceu. Tornou-se um adulto. Comigo não foi
diferente, mas fui condenado.
Passei por vários obstáculos na minha vida até que eu ingressasse na Universidade
Federal do Tocantins (UFT).
“Um Memorial”, a coordenadora do Programa Conexões de Saberes disse. Eu senti
medo e insegurança, o que a história da minha vida poderia significar dentro do Programa,
pois nunca fui exemplo de aluno durante todo o tempo em que freqüentei o ensino fundamental e médio, não só na escola, mas também, fora dela. Me senti sempre um inútil.
Mas depois de ler “Caminhadas de universitários de origem popular”, vi que a minha
história seria mais uma entre as várias histórias loucas que li. E que minha história era a
história da minha vida, e que ela poderia sim ser compartilhada com outras pessoas. Tentarei mostrar um pouco de todos os meus momentos, mas ressalto que tenho segredos que
guardo de mim mesmo.
Nasci na cidade de Ourinhos, no interior do estado de São Paulo, às margens do rio
Paranapanema. Ourinhos é a cidade que faz divisa com o estado do Paraná. Lá, estudei
desde o parquinho até a sexta série do ensino fundamental. Em 1998, fui com minha família
para Porto Nacional-TO. Em 1999, me mudei para Palmas e cursei a oitava série. Logo, em
2000 iniciei o primeiro ano do ensino médio. Até então a sala de aula não me empolgava
muito, mas não havia sido reprovado nem um ano.
No final do ano 2000, fui para Ourinhos visitar os parentes e passar o natal e o ano
novo por lá, quando voltei em 2001, já no segundo ano do ensino médio, conheci uma
garota por quem me apaixonei perdidamente. Foi a primeira paixão. Eu estava cego. Por
* Graduando em História pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
67
isso, não me empenhei no colégio e acabei ficando de D.P em matemática. Em junho de
2001, ficamos sabendo que seríamos pais. Eu estava empolgado e feliz, pois sempre fui
muito carente. Naquele momento, eu estava construindo uma família.
Consegui um trabalho em uma marmoraria, nos tornamos uma “típica família”. Eu
trabalhava o dia todo e estudava durante a noite. Mas isso não deu muito certo. Concluí o
ano, mas estava certo de que não me rendeu nada. No início de 2002, consegui, através do
colégio onde estudava, um estágio na Secretaria da Fazenda do Estado. Como era um
estágio apenas, só trabalhava no período matutino. Logo, consegui um segundo emprego
durante o período da tarde na biblioteca municipal. Em 10 de fevereiro de 2002, meu filho
nasceu, mas o relacionamento entre a mãe dele e eu já não estava muito bem. Éramos muito
jovens e não tínhamos vivido praticamente nada da vida, acabamos nos separando.
Com isso, minha vida ficou um pouco turbulenta. Larguei completamente meus estudos, me entreguei ao álcool e ao Rock’n’Roll. Não estava indo bem nem mesmo no trabalho. Decidi, então, morar sozinho. Daí, caí na boemia. Não queria mais saber de outra coisa.
Comecei a fazer tatuagens para levantar uma grana a mais. Eu estava me sentindo bem com
aquele ritmo de vida. No final de 2002, havia terminado o contrato na secretaria e também
na biblioteca. Resolvi me mudar para Ourinhos e mudar de vida.
Em Ourinhos, fui morar na casa da minha avó. Depois de uma semana, meu tio me
convidou para trabalhar com ele. Vendíamos churros em um Fiorino branco, andávamos
por todas as cidades da região. Em seguida, meu tio mudou-se para Sorocaba, no interior de
São Paulo. Todos os dias saíamos para aquela jornada nas cidades vizinhas. Conversávamos muito, pois estávamos o tempo todo dentro do Fiorino. Eram conversas longas e intermináveis, acabamos nos conhecendo demais, acho que éramos muito parecidos. Depois de
um tempo, o trabalho já não estava dando certo.
Voltei para Palmas ainda em 2003. Mas não consegui permanecer por mais de 2 meses.
Fui tentar novamente outra vida em outro lugar. Em dezembro, embarquei para Belo Horizonte-MG. Eu até tentei estudar nessa época, mas trabalhava o dia todo de ajudante em uma
construção civil. Não tive coragem de encarar o colégio, foram tempos difíceis pra mim.
Conheci muita gente em BH, e logo o álcool me atrapalhou novamente. Achei que eu
poderia mudar essa situação. Resolvi parar de beber e ficar só no refrigerante. Permaneci
sem ingerir álcool por sete meses. Foi um bom tempo, pois fiquei mais saudável que o
normal, mas aquela não era a vida que queria. Então, resolvi voltar para onde minha família
se encontrava.
Retornando a Palmas, minha família me incentivou a retomar os estudos. Concluí o
ensino médio e fiz também um cursinho pré-vestibular. No final do ano prestei o vestibular, não foi uma tarefa muito fácil, pois não sabia o que queria realmente fazer por toda
minha vida. Fiz vários testes vocacionais e nada me agradava. Como gostava de RPG e já
tinha lido alguns livros sobre isso, percebi que as histórias que havia lido no jogo me
empolgava muito, ia de histórias da mitologia grega até Atlântida. Resolvi prestar para o
curso de História.
O resultado saiu. E como todos já devem ter imaginado, eu passei. Minha vida mudou
completamente. Hoje, sou acadêmico do curso de História, no campus de Porto Nacional, e
bolsista do Programa Conexões de Saberes.
68
Caminhadas de universitários de origem popular
“Só sei que foi assim...”
Nádia Sousa Santos*
A missão de escrever um memorial realmente é muito desafiadora. Falar sobre minha
história para as pessoas que já me conhecem é fácil. Porém, falar essa mesma história para
tanta gente, as quais nem mesmo conheço, isso sim é desafiador. Espero, sinceramente, que
você, ao ler esse relato, possa saber que, por mais que tenhamos alguns obstáculos, será
sempre possível lutar por nossos objetivos.
“Só sei que foi assim...”
Falarei primeiro sobre minha família. Meus pais, Maria Luzanira e José de Arimatéia,
casaram-se em 1975. Ambos são maranhenses e vieram de famílias pobres. A mamãe é a sexta
filha de uma família de sete irmãos. Já aos 12 anos de idade, quebrava coco babaçu para ajudar
no sustento de sua família. O papai é o primeiro filho de uma família de dezesseis irmãos. Aos
14 anos, foi para a cidade estudar, mas teve que voltar para a roça, a mando do meu avô, para
trabalhar na lavoura e ajudar a cuidar dos meus tios. Juntos, meus pais tiveram quatro filhos:
Márcia, Aline, Leirson e a pessoa que vos escreve, Nádia, a caçula da turma.
De onde venho...
Era uma vez um lugarzinho
no meio do nada...
Toquinho
Nasci em 4 de dezembro de 1982. Igualmente a meus irmãos, nasci no Hospital São
Rafael, em Imperatriz do Maranhão. Um fato interessante marcou o início da minha vida: se
fosse pela mamãe, eu me chamaria Larissa. Já o papai quis que eu me chamasse Nádia. E
assim foi feito. Meu pai queria homenagear a romena Nadia Comaneci, maior ginasta da
história das Olimpíadas.
Vivemos até março de 1983 no Maranhão. Naquela época, havíamos saído de João
Lisboa para morar em Imperatriz. Fomos então para Augustinópolis, no norte de Goiás. Eu
tinha apenas 3 meses de nascida. Minha mãe tinha uma irmã que já vivia naquela cidade.
Lá, meus pais queriam construir uma vida nova.
Augustinópolis fica na região conhecida como Bico do Papagaio, famosa pelos conflitos de terra na década de 80. Com a criação do Estado do Tocantins, em 1988, a cidade deixou
* Graduanda em Comunicação Social - Jornalismo pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
69
de fazer parte do Goiás, passando a ser território tocantinense. Augustinópolis tinha apenas
sete meses de emancipação política quando chegamos por lá. Ou seja, é da minha idade.
Ganhamos uma casa antes de nos mudar. Moramos por um tempo naquela casa e
depois meus pais a venderam. Fomos morar de aluguel e compramos outra casa, onde
moramos até o ano de 1999. No início, meu pai trabalhava como eletricista enquanto minha
mãe cuidava do lar. Após um pequeno período, ela passou num concurso público do Estado
e começou a trabalhar como auxiliar de serviços gerais numa escola. O tempo passou e
minha mãe foi aprovada em outro concurso, agora para professora. Nesse processo todo,
minha mãe viajava para Araguatins, cidade próxima a Augustinópolis, para terminar o
segundo grau.
Que saudade da minha infância...
Tive uma infância muito marcante, regada a muitas brincadeiras. Não tive bonecas,
mas improvisava carrinhos de madeira com pneus feitos de lata de óleo. Além disso, brincava também de esconde-esconde, barra, queimada, elástico, locutora de rádio... tudo muito
simples, mas bastante enriquecedor.
A escola
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo...
Toquinho
Meu primeiro contato com o mundo das letras foi cedo, até mesmo pela profissão da
mamãe. Certo dia, eu viajava de ônibus com minha mãe quando comecei a ler. Explico:
enquanto passava na estrada, li, num muro, a sigla AABB! Pode até parecer pouco para um
adulto, mas para mim, que tinha pouco mais de 2 anos de idade, foi o máximo!
Igualmente a minha irmã Aline, eu também entrei na escola aos 3 anos de idade. A
Márcia e o Leirson começaram a estudar somente aos 5! Graças a Deus e a meus pais, tive a
oportunidade de começar os estudos cedo. Não me recordo o nome de minha primeira
escola, mas sei que era próxima a minha casa. Eu era uma criança tímida e retraída e ficava
nos cantos me escondendo com uma pasta e papel no rosto. Escondia-me também de um
garoto que sempre tentava me beijar e que eu nunca deixava. Dentre as poucas amigas que
conheci no primeiro ano da escola, está a Fernanda, até hoje minha amiga.
Nessa fase de mudança, tive um contato muito forte com a Nelma, minha primeira
professora. Certo dia, ela não pôde ir à aula e pôs sua irmã para substituí-la. Eu tive vontade
de ir ao banheiro, mas era muito calada e não falei para a professora. Ela simplesmente bateu
em minha mão com uma palmatória! Isso me marcou profundamente. Chorei e meus pais
foram até a escola reclamar.
Passou o ano e fui estudar no Jardim de Infância Leãozinho. Era a melhor escola de
educação infantil de Augustinópolis. Com uma bicicleta cargueira, meu pai levava meu
irmão e eu para estudar. Foi um período muito bom. Lá, estudei os jardins I e II, mas às
vezes não me sentia muito bem porque os filhos das pessoas mais ricas da cidade também
estudavam lá. De certa forma, eu me intimidava, mas aquilo não me impedia de conseguir
novos amigos.
Do jardim II, na Escola Leãozinho, entrei direto na 1ª série do 1º grau, hoje, ensino
fundamental, no Colégio Estadual Manoel Vicente Souza. O ano era 1989 e eu já estava
70
Caminhadas de universitários de origem popular
com 6 anos de idade. Novamente, outra mudança, pois o colégio também oferecia o 2º grau,
hoje, ensino médio. Eram pessoas com enormes diferenças de idade. Lá eu estudei de 1989
a 1999, ou seja, minha vida escolar foi praticamente toda no CEMVS.
Minha professora da 1ª série, a Tia Sílvia, era muito atenciosa comigo. Eu era muito
esforçada nas aulas. Quando chegava em casa, nem mesmo almoçava sem antes terminar
todas as atividades escolares. A partir da 2ª série, passei a estudar com meu irmão. Sempre
fui mais dedicada nos estudos do que ele, por isso, quando chegamos ao final da 4ª série, ele
reprovou e eu adiantei meus estudos, mesmo sendo mais nova do que ele.
Não digo que nunca colei na escola, mas no início, não colava de jeito nenhum, até
porque eu tinha muito medo de algum professor me flagrar. Eu até quebrei uma janela de
vidro na cabeça de um garoto que tentava me passar cola... mas não foi propositalmente!
Era muito bom estudar no Manoel Vicente. Eu adorava jogar futebol nas horas vagas
e me destacava nas aulas de educação física. Na 6ª série, outro fato marcante: meus pais não
tinham dinheiro para comprar meu uniforme escolar. Na hora da aula, o coordenador do
colégio foi até minha sala e mandou os que estavam sem uniforme sair e ir para casa. Mesmo
tendo apenas 11 anos de idade, enfrentei o coordenador. Disse que não sairia porque não
tinha dinheiro para comprar a bendita blusa. Ele não quis conversa e me fez chorar na frente
de todos. Fui para casa, mas nunca me conformei com aquilo. Vivemos num país muito
injusto e eu, simplesmente, não suporto injustiça.
Era uma casa muito engraçada...
Vinícius de Morais
Em casa, nunca tivemos luxo, mas também nunca passamos fome, graças a Deus e ao
trabalho dos meus pais. Tínhamos apenas dois quartos, um para meus pais e outro para mim
e meus irmãos. Somente depois de muitos anos e de muita luta é que minha mãe conseguiu
construir um banheiro interno.
Em 1994, novas mudanças. A mamãe passou a trabalhar como técnica de enfermagem
no Hospital de Referência de Augustinópolis. Foi também em 94 que minha avó materna
faleceu, o que me deixou profundamente triste.
Voltando à escola...
Na sétima série eu já estava menos tímida. Participava de atividades de teatro em sala e
de outras atividades que me desenvolviam, de fato. Quando entrei na 8ª série, conheci uma
pessoa muito especial, o professor Waldesco. Ele dava aulas de língua portuguesa e falava
muito sobre Clarice Lispector. Aquele professor foi muito importante para que eu desenvolvesse o gosto pela leitura e pela escrita. Arrisco dizer que o Professor Waldesco deu o grande
pontapé para minha escolha na faculdade. Pena que faleceu da forma mais triste... na solidão.
Pai, pode ser que daqui a algum tempo haja tempo
pra gente ser mais... pai e filha, talvez...
Fábio Jr.
Foi também quando eu fazia a 8ª série que meu pai viajou para Palmas para trabalhar
e depois levar o restante da família. Fiquei com minha mãe e meus irmãos em Augustinópolis.
O papai começou a se afastar da gente, mas nos visitava. Ele sempre foi um homem inteligente e sonhador. Quando passava algum vendedor de enciclopédia, fazia questão de comprar livros. Nossa casa sempre foi cheia deles, desde dicionários até Machado de Assis. Meu
Universidade Federal do Tocantins
71
pai também era o melhor eletricista de Augustinópolis, mas não aproveitou bem as oportunidades que apareciam.
Minha adolescência
Até chegar ao 1º ano do 2º grau, nem pensava em namorar. Dedicava-me aos estudos
e sentia como se minha infância ainda não tivesse passado. Na verdade, eu amava ser
criança e tinha medo da idade adulta. Nunca fui uma “aborrecente”, mesmo sendo, desde
sempre muito nervosa e impulsiva. Só namorei depois dos 15 anos, pois sempre achei o
estudo mais importante que o namoro. Acho que fiz a escolha certa quando coloquei os
estudos em primeiro lugar.
De novo, a escola...
Terminei o 1º grau sem nenhuma reprovação. Outra mudança: a entrada no 2º grau aos
14 anos de idade. Era um mundo totalmente diferente de tudo que já tinha visto na escola.
Para a entrada no 2º grau eu tinha duas opções: ou entrava no curso Normal (para ser
professora), ou no Técnico em Contabilidade. Não deu outra! De todas as meninas saídas da
8ª série, apenas outra amiga e eu optamos pela contabilidade. Mas somente eu continuei o
curso até o final. No início, foi meio complicado fazer aquele curso, afinal, a maioria da
turma era formada por homens. Mas conheci a Edinete, uma das minhas melhores amigas, e
acabei por não perceber a diferença de gêneros na sala de aula.
E o relógio da vida passando... comecei a cursar o 2º ano e passei a estudar à noite,
pois as turmas vespertinas e noturnas do 1º ano foram unidas para formar o 2º ano que só
funcionaria à noite. Eu gostava muito do curso de contabilidade, mas sentia falta de
disciplinas gerais, como física, química, biologia... com certeza, elas fizeram falta na hora
do vestibular.
Quando faltava algum professor (e isso era bastante comum), eu era a responsável por
escrever a matéria no quadro negro. Achava até interessante, pois me dava certo senso de
responsabilidade para com os meus colegas de sala. Mas mesmo estando entusiasmada com
o curso, havia obstáculos no aprendizado. A constante falta de energia na cidade era um
desses obstáculos. Às vezes, ficávamos uma semana inteira sem energia à noite, ou seja,
uma semana sem aulas! Como eu morava perto do colégio, já levava minha lanterna para
escapar do escuro.
Éramos seis...
Maria José Dupré
Chegando ao 3º ano, agora com 16 anos, outras mudanças. Meu pai havia saído de
Palmas em 1997 para morar em Brasília. Suas visitas já não eram freqüentes e minha mãe
resolveu pedir transferência para a cidade de Arraias, sudeste do Tocantins, na divisa com o
Goiás. Esse esforço foi para ficarmos mais próximos do meu pai. Minha família já estava se
separando. Minha irmã Márcia, já estava casada em Brasília e agora éramos apenas eu, o
Leirson, a mamãe, o João Victor, nascido em 1998, e sua mãe, minha irmã Aline.
Foi muito difícil para eu me conformar com a idéia de mudarmos para Arraias, afinal,
era uma cidade que nenhum de nós conhecia. Além disso, deixar meus amigos e minha
cidade não foi nada animador. Não tive alternativa a não ser aceitar.
72
Caminhadas de universitários de origem popular
Quando chegamos a Arraias, já estávamos de casa alugada pelo papai. Fomos olhar
escola para mim e para meu irmão. No caso dele, foi fácil conseguir uma vaga, mas para
mim, não. O curso técnico em contabilidade não era oferecido em Arraias e tive que me
desdobrar para acompanhar o 3º ano do Colégio Estadual Joana Batista Cordeiro, que
possuía um ensino muito melhor do que no Manoel Vicente, de Augustinópolis. O resultado disso tudo? Passei somente três semanas no Joana Batista e somente um mês em Arraias,
já que meus pais decidiram que eu voltaria para terminar o 2º grau em Augustinópolis.
Fui morar com a Tia Delma, a irmã mais velha da minha mãe. Uma experiência marcante
para uma garota de 16 anos que ficou longe da mãe. Meus professores fizeram o máximo
para me ajudar a acompanhar o restante da turma e me deram trabalhos extras para eu
melhorar minhas notas. Acabando as aulas, saí definitivamente do Bico do Papagaio. Tinha
acabado de completar 17 anos e voltei para Arraias, onde permaneci por mais três meses.
Minha mãe havia comprado um lote com um barraco em Palmas e novamente pediu transferência de trabalho. Vimos que meu pai não estava muito interessado em ficar mais perto
da gente e resolvemos nos distanciar mais. Meu irmão foi para Brasília e a família ficou
menor ainda.
Aqui é pequeno, mas dá para nós quatro...
Chegamos a Palmas em março de 2000. Instalamos residência na quadra 307 Norte.
No início, era tudo muito difícil na Capital. Tivemos que nos desfazer de alguns móveis,
pois não caberiam no barraco. Somente minha mãe trabalhava e eu estava sem estudar. Foi
um ano inteiro de sufoco naquele barraco quente, com telhas de amianto, sem pia para lavar
louça... até mesmo para usar o banheiro íamos na vizinha, pois o nosso ainda estava por
fazer. Ou seja, conforto, nem pensar.
As provas da vida...
Por isso, não demora que a
história passa e pode nos levar...
Milton Nascimento
Após quase um mês na nova cidade, meu namorado Marco também se mudou e passou
um mês em minha casa até conseguir um trabalho. Me dediquei demais ao namoro e deixei
os estudos de lado. Terminei o namoro após um ano e meio e resolvi voltar a estudar.
Nesse mesmo ano, em 2001, comecei a trabalhar numa mercearia perto de casa. Foi também
em 2001 que nasceu a Ana Luiza, filha da minha irmã Aline. Fiz a prova do ENEM e meu
primeiro vestibular no meio do ano. Não me preparei muito para as provas, mas me saí
razoavelmente bem no ENEM.
Levei minha mãe para ir fazer a inscrição do vestibular comigo. Eu não estava certa do
curso que deveria escolher. A primeira opção que veio à minha cabeça foi o curso de
Administração. Na verdade, meu sonho de criança é Agronomia, mas a federal não oferece
o curso em Palmas. Então, pensei bem, e, com uma ajudinha da mamãe, optei por Comunicação Social. A habilitação ainda era Rádio e TV. A Universidade Federal do Tocantins
ainda não tinha esse nome, sendo chamada de UNITINS, pois era estadual e foi privatizada.
Somente após muitas lutas dos movimentos estudantis do Tocantins é que a universidade
foi federalizada.
Universidade Federal do Tocantins
73
O resultado do vestibular foi o esperado: não fui aprovada. Fiquei triste, mas me
conformei, porque sei que não dá para passar no vestibular de uma federal sem o mínimo
preparo. Quando eu olhava a lista e via que meu nome não estava entre os aprovados, chorei
e falei para uma colega que estava comigo: “Eu ainda vou ser uma jornalista!” (mesmo
tendo feito vestibular para Rádio e TV). Mas desanimei e não tentei outro vestibular até
2003. Nesse período de tempo fiquei sem trabalhar e estudar.
Levantei, sacudi a poeira e dei a volta por cima...
E os sonhos não envelhecem...
Milton Nascimento e Lô Borges
Resolvi ir novamente à luta. Soube de um cursinho pré-vestibular gratuito e resolvi
me inscrever. Os professores eram estudantes de Direito da UFT e davam aula voluntariamente. O cursinho PROEJ (Programa da Esperança Jovem) foi essencial para meu aprendizado como vestibulanda. As aulas eram nos finais de semana e eu as freqüentei por
quase três meses.
Durante o cursinho, deixei de lado as festas. Mas não passava as madrugadas estudando. Esforcei-me dentro dos meus limites. Algumas pessoas até estranhavam tanto esforço e
riam quando eu deixava de ir às festas nos sábados à noite para estudar aos domingos pela
manhã. Tenho plena certeza de que valeu a pena.
Eu já estava decidida sobre o curso que queria fazer: Comunicação Social! Só que
dessa vez, a habilitação oferecida era Jornalismo! Meu bom desempenho com a língua
portuguesa e com a redação foi essencial para o bom resultado no vestibular. A prova foi
realizada em janeiro de 2004. Eu estava com 21 anos de idade e com a certeza de que iria ser
aprovada. Os professores do cursinho também acreditavam que eu seria uma das poucas
alunas que passariam no vestibular da UFT.
Vinte e sete de fevereiro de 2004... o resultado! Estava em casa tentando ouvir a lista
de aprovados pelo rádio. Os nomes de Comunicação já haviam sido falados. De repente, o
telefone de casa toca. Era minha amiga Jânia confirmando a minha aprovação. Minha
primeira reação foi gritar, pular e chorar abraçada com a Aline. Saí correndo pela rua contando para todos os meus conhecidos. Minha irmã e eu avisamos a nossos pais e a nossos
irmãos. Eu liguei para o Luís, professor do cursinho e até para a rádio! Foi o dia mais feliz da
minha vida. Passei no primeiro vestibular oficial da Universidade Federal do Tocantins!
Não foi sorte, foi vontade e esforço!
Na faculdade...
Você não sabe o quanto
caminhei pra chegar até aqui...
Toni Garrido, Lazão, Da Gama e Bino
Quando entrei na faculdade, novas mudanças. Se antes eu sempre era a mais nova da
turma, agora sou a mais velha da sala. Isso nunca fez muita diferença. Mas as diferenças
sociais dentro da universidade sempre foram enormes. Digo isso porque, mesmo a universi-
74
Caminhadas de universitários de origem popular
dade sendo “pública”, a gente acaba gastando muito com apostilas, passe estudantil...
Outra problemática é a falta de um restaurante universitário na UFT, o que acaba
pesando ainda mais no bolso dos estudantes. Nem me lembro às vezes em que voltei para
casa, à noite, a pé, com fome... isso porque, tinha que ficar fazendo trabalhos em computadores da universidade, faltava passe e não tinha dinheiro para comer depois do almoço. Não
foi nada fácil passar por aquela situação.
A faculdade me possibilitou conhecer lugares do país que jamais acreditava conhecer.
Nos encontros de Comunicação é quando mais confirmo que a universidade pode me oferecer tudo aquilo que sempre sonhei para mim. Um lugar em que vários mundos se misturam,
mas que não me deixa esquecer de onde vim.
Bons e modestos
Têm pessoas que a gente
não esquece...
John Lennon e Paul Mc Cartney
Como sempre prezei uma boa amizade, logo que entrei na faculdade conheci
novos amigos. São pessoas maravilhosas que sempre farão parte de minha vida. Não poderia
deixar de citá-las: Adê, Ciela, Édila, Painho, Polly, Savanna, Renê e Wesley (hoje no curso
de Direito). São os Bons e Modestos! Nome que criei e que ganhou fama na sala de aula
pelos trabalhos acadêmicos que fizemos. Inclusive, com elogios dos professores. Os BM’S
são a família que construí na universidade.
O jornalismo é lindo...
É incrível, nada desvia o destino.
Hoje tudo faz sentido. E ainda há
tanto a aprender...
Jorge Vercilo
Amo o jornalismo. Não me vejo fazendo outra coisa da vida. Me entusiasmo ao sair
com um gravador para fazer uma entrevista, escrever sobre política... o jornalismo é realmente fascinante, diria até, inebriante! Entrei e não pretendo sair dessa área, mesmo com
todos os problemas da profissão...
Conexões de Saberes...
Uma grande paixão... poder entrar nesse Programa, foi algo que me incentivou muito.
A oportunidade de trocar saberes com as comunidades populares de Palmas é estimulante.
Poder retribuir tudo o que ganhei da sociedade é como na famosa propaganda: “não tem
preço!” A universidade me mostrou várias possibilidades de crescimento, e o Conexões
mais ainda. Antes, tinha uma enorme dificuldade para apresentar seminários na sala de aula,
mas depois de participar de uma mesa-redonda num seminário do Conexões... tudo mudou!
Além disso, meus colegas “conexistas” e meus coordenadores são pessoas maravilhosas. Fui escolhida a representante dos bolsistas na UFT. No momento em que escrevo
Universidade Federal do Tocantins
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esse memorial já não sou mais bolsista e nem a representante do Conexões UFT. Hoje,
estou como voluntária, pois consegui uma vaga de trabalho há muito tempo esperada:
assessora de comunicação. Mas o Conexões, como já disse, é uma paixão. E paixão assim,
não dá para largar...
O pior defeito do ser humano é a ingratidão
Quero sua risada mais gostosa,
esse seu jeito de achar que a vida
pode ser maravilhosa...
Ivan Lins
Se Deus quiser, me formarei no final de 2007. Ainda tenho muito a aprender no meu
curso, mas tenho certeza de que meu caminho será de sucesso. Estou batalhando para isso.
E sou grata a muitas pessoas pelo que sou hoje. À minha mãe, guerreira por natureza, a meu
pai, mesmo ausente, a meus irmãos... ao Luís e à Valéria, professores do cursinho, e a todos
os amigos que conquistei nesses 24 anos de vida.
Sei que a escolha do meu nome não foi em vão. Igualmente à Nadia Comaneci, eu
também nasci para ser vitoriosa!
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Caminhadas de universitários de origem popular
A militância
Paulo André Rodrigues de Oliveira*
Tudo começou quando minha mãe, Rosimeire Berrederú, da tribo Karajá, Ilha do
Bananal, estado do Tocantins, casou-se com um não-índio, deixando a Aldeia Macaúba e
indo morar na cidade de Gurupi-TO. Tiveram cinco filhos: 2 homens e 3 mulheres, Rosângela,
Solange, Hujango, Keila e Paulo André.
Quando eu tinha 10 anos de idade veio a primeira decepção. Meu pai, Manoel Pereira,
que era fotógrafo e viajava muito, encontrou uma outra mulher e foi morar com ela em uma
cidade próxima, deixando minha mãe com cinco filhos.
Meu pai pagava o aluguel da casa onde morávamos, mas não era o suficiente. Minha
mãe tinha que complementar a renda fazendo trabalho de lavadeira, faxineira, entre outras
atividades domésticas. Minhas irmãs também ajudavam, trabalhando como domésticas nas
casas alheias. Meu irmão também ajudou até quando foi morar com meu Tio Miguel Karajá,
na Aldeia Boto Velho, Ilha do Bananal.
Quando meu irmão vinha da aldeia nos visitar, sempre falava para minha mãe voltar
para lá. Sei que ela queria, mas minhas irmãs queriam estudar e trabalhar. Elas não concordavam com a idéia de minha mãe. Os meses de julho e dezembro, férias da escola, passávamos na aldeia. Passado algum tempo, minhas irmãs se casaram e ao se depararem cada vez
mais com as dificuldades da cidade apoiaram-se na idéia de irem morar na aldeia. E lá se
foram para aldeia Txuiri, também na Ilha do Bananal.
Nessa época, eu estava estudando no internato Fundação Bradesco, Escola de Canuanã,
que ficava próximo à aldeia. Todos os finais de semana ia para lá ficar com minha família,
gostava muito de ir para aldeia.
Entrei no internato na quinta série, não gostava de estudar, mas com o tempo fui percebendo a importância dos estudos e aprendi a necessidade de entender o mundo a minha volta.
O que me deixava bastante angustiado era ver meu povo triste, enfrentando os mais diversos
problemas como: a permanência do gado de fazendeiros dentro da Ilha espantava os animais
silvestres; os vaqueiros comendo a caça e a pesca, sem o menor controle de nada; aumento
descontrolado de jacarés por causa da diminuição de predadores naturais como a onça e a
lontra, tornando-se o ambiente de caça perigoso para a comunidade; queimadas em algumas
áreas da Ilha pelos fazendeiros com o objetivo de fazer melhor pastagem ou até por acidente.
E temos ainda um outro problema. Hoje há uma estrada por dentro da ilha e as pessoas que
passam por lá e deixam cair toco de cigarro, garrafas, sacos plásticos que podem ocasionar
queimadas e poluir o meio ambiente.
* Graduando em Ciências da Computação pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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Quando chega a época do turismo, no mês de julho, os chamados “turistas farofeiros”
sujam as margens dos rios, as praias e quando conseguem entrar na ilha ainda fazem um
estrago maior, pois matam os animais, pescam de forma predatória, sem o menor controle,
usam bebidas alcoólicas e drogas ilícitas. Enfim, alguns dissabores que a sociedade
envolvente está trazendo para dentro da Ilha.
Ao concluir o ensino médio, fui morar na cidade de Formoso do Araguaia -TO, onde
havia mais oportunidades de estudo. Fiz o primeiro vestibular para Administração e não
consegui passar. Como minha situação financeira era pouca, minhas esperanças eram de
passar na Universidade Federal.
Ao esperar um novo exame de vestibular, comecei a viajar com algumas lideranças
para fóruns de protesto no Congresso Nacional, elaborar documentos, reivindicando nossos
direitos que são garantidos por lei, mas que na prática não se revelam. Meu povo tem uma
forte esperança nos membros da tribo que estudam.
No ano de 2006, passei no vestibular para Ciências da Computação na UFT, com isso,
tive que sair dos movimentos indígenas para vir morar em Palmas. Chegando aqui, me
deparei com outras dificuldades. É muito difícil sair do seio da família para vir morar em
uma cidade onde nós, estudantes indígenas, não temos parentes. Nossas famílias não dispõem de renda para nos ajudar e temos que lutar por políticas de permanência, contra o preconceito, discriminação, alimentação, entre outros problemas que nos afligem. Mas estamos
superando aos poucos. Esta realidade é de todos nós, alunos-índios e não-índios, sobretudo
os de baixa renda que em busca de realizar seus objetivos passam por tudo isso, mas afinal
não há glória sem sofrimento.
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Caminhadas de universitários de origem popular
Mudanças
Rafael Ataides de Souza Sobral*
Nasci em Anápolis, Goiás, mas cheguei ao Tocantins antes de um ano de vida. Por
isso, me considero tocantinense. Morávamos em Miranorte, Miracity como gosto de falar.
Dessa época, não me lembro muita coisa, pois mudamos para Palmas quando eu tinha cinco
anos. Morávamos em uma casa simples, mas bem legal, pois tinha várias coisas para se fazer,
havia várias árvores perto de casa, muitas construções, era o começo da cidade praticamente. Como tinha cinco anos e minha família não tinha dinheiro para pagar uma escola particular e a escola pública não aceitava crianças com cinco anos, fiquei sem estudar.
No ano seguinte, comecei a estudar no pré-escolar na Escola Estadual Darci Ribeiro.
Lembro-me daquelas mesas redondas, paredes cheias de números e letras, foi uma época
muito interessante. Costumo dizer que foi a partir dali que me tornei gente de verdade.
Lembro-me de que no primeiro dia de aula aprendi a escrever meu nome. Nossa que felicidade! Fui correndo para casa contar para minha mãe. Estava todo satisfeito. Nessa escola,
fiquei até metade da terceira série. Mudamos de quadra e eu tive que ir para outra escola, a
Antonio Carlos Jobim, conhecida como Tom Jobim. Nessa escola, que era municipal, foi
onde comecei a estudar de fato, era um pouco “hiperativo”, não parava um minuto, “o terror
da professora”.
Só a partir da sétima série comecei a me concentrar nos estudos. Nesse tempo, nem
pensava em universidade, só queria fazer veterinária. Mas da boca pra fora mesmo, porque
nunca me interessei de verdade por isso. Pois bem! A respeito da minha sétima série, tenho
ótimas lembranças. Era festa e estudo ao mesmo tempo, e mesmo assim, conseguia me
divertir. Eu era bom em matemática, me fazia ter certo sucesso com as meninas, era eu quem
dava aulas particulares na sala.
Da oitava série não tenho muitas lembranças boas, era meio chato. Comecei a estudar
em uma sala e me transferiram para outra depois. Não conhecia quase ninguém, mas continuava bom em matemática, agora também em física. Isso me ajudava muito, embora fugisse
do rótulo de CDF a todo o custo. Nesse tempo, veterinária, meu sonho de garoto, já não era
tão atraente assim, nem pensava nisso. Para falar a verdade, não queria nada da vida, só
pensava nas farras, nas meninas, nesse tipo de coisa. Mantinha minhas notas boas, bem,
digamos assim, em parte. Tirava boas notas nos três primeiros bimestres, no último, já tinha
passado mesmo, só tirava três, quatro, esse tipo de nota. Acabava-se então minha oitava
série. Como as escolas municipais não têm ensino médio, tive que mudar de colégio. Fui
para o Tiradentes, que fica a quatro quadras de minha casa.
* Graduando em Administração pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
79
No primeiro ano, foi um pouco ruim. Sabe, escola nova, não se conhece ninguém, mas
até que foi interessante. A escola Tiradentes é considerada a melhor escola de ensino médio
da rede estadual, cheguei muito entusiasmado e com boa impressão. A partir daí, comecei a
me interessar de verdade por uma universidade. Vi que poderia levar uma boa bagagem para
o vestibular, pelo menos era o que eu achava ate então. De novo comecei a estudar em uma
sala e me transferiram para outra. Foi um rolo só, perdi prova e me compliquei todo, mas no
fim deu tudo certo. Para falar sério, não tenho muitas saudades de meu primeiro ano, mas
“há males que vem para o bem”. Bom é isso que me falam! Nesse caso acho que é verdade,
pois foi aí que eu percebi que se eu não fizesse as coisas por mim ninguém mais faria. Tive
essa experiência em meu primeiro ano, fatos que não tenho porque revelar, apenas digo que
é verdade: “há males que vem para o bem.”
Quando comecei meu segundo ano, consegui estagiar na FUNASA (Fundação Nacional de Saúde). Era legal lá! Conheci muitas pessoas, comecei a ter uma vida social mais
ativa, a me relacionar com pessoas interessantes e com muita bagagem, o que me fez ver o
mundo com outros olhos. Foi muito importante para mim. Trabalhava no setor de recursos
humanos, na secção de cadastro. Trabalhava com outro estagiário, que estudava na mesma
escola que a minha, nos tornamos bons amigos, apesar de não vê-lo faz um tempinho. Dessa
época, tenho muitas saudades.
Ainda continuava bom em matemática no segundo ano, embora ninguém soubesse,
pois estudava antes à tarde. Lembro-me de um fato muito interessante. Prova de matemática.
Tudo bem! Ninguém me conhecia. Pois bem, fiz a prova em metade da aula, eu acho! Quando
entreguei a prova, todo mundo olhava para mim, ate ouvi alguém dizer: “Coitado, esse aí, não
sabe nada!” Entreguei a prova e fui, lentamente, para a minha carteira. A professora avaliou a
prova e meio assustada respondeu que eu havia tirado cinco (nota máxima da prova), todo
mundo olhou para mim com uma cara de espanto. Eu fiquei todo satisfeito! Foi muito legal.
No começo do 3º ano, comecei a fazer um curso técnico de informática, era um pouco
complicado, pois a FUNASA fechava às 6h e o curso só começava às 8h, atravessava a praça
dos girassóis todos os dias. Quem conhece Palmas sabe que praça é essa, e que não é
pequena. Pois bem! Nesse tempo, abusei de bolachas, era todo dia, não tinha tempo de ir em
casa. Na outra metade do ano, vi a necessidade de fazer um cursinho pré-vestibular, fiz
então quatro meses até o dia da prova da UFT. Estava nervoso, mas confiante, depois de um
mês recebi o resultado: Aprovado e em quarto lugar. Nossa! Fiquei muito feliz! Consegui
calar a boca de muita gente. Meu pai, eu acho, estava mais feliz do que eu. Ele pôde
responder a todos que diziam que seus filhos não deveriam estudar. Acho que foi mais pelo
o meu pai que fiquei feliz.
UFT! Nossa consegui! Quando cheguei aqui tudo era novo, não tinha a mínima noção
de como era estar aqui. Aos poucos fui me encaixando. Quando entrei, tinha uma vaga para
o Conexões de Saberes, mas não consegui. Na segunda tentativa, tive êxito. Tudo ainda é
novo para mim. O Conexões me ajudou muito, aumentei minhas relações dentro da universidade. Aprendi mais sobre a universidade, pois convivo com pessoas com experiência
maior que a minha.
Quando cheguei aqui no primeiro dia, fiquei confuso, atordoado mesmo. Eu estava na
UFT. Quando cheguei para fazer a minha matrícula, achava tudo novo. Não tinha a menor
noção de como era tudo, como acontecia as coisas ou, pelo menos, onde ficavam as coisas.
Turista mesmo, sabe. Mas tudo está ótimo. Hoje, já estou adaptado, tenho ótimas experiên-
80
Caminhadas de universitários de origem popular
cias. Lembro-me de que no primeiro dia de aula senti a mesma sensação que tinha sentido
ainda no pré-escolar.
A UFT é um sonho que consegui tornar realidade. As coisas são mais difíceis do que eu
pensava. Manter-se em uma Universidade Federal não é fácil. Estou conseguindo. Tenho
pessoas legais e compreensivas a minha volta, o que é uma coisa rara pelo o que me falam.
A UFT, um sonho distante, hoje uma realidade tão próxima. Sei que muitas pessoas não
acreditavam que eu conseguiria. De fato, pensei que não conseguiria. É ruim você ver
pessoas próximas a você dizendo que você não é capaz. Quando penso em tudo que fiz,
tudo que passei, fico até impressionado em estar aqui. Mas o que quero mesmo é continuar
firme. Sei que mereço estar aqui por tudo que fiz, e por tudo o que fizeram por mim. O
importante é que está valendo a pena. Tudo mesmo. O próximo passo? Ainda não sei
direito. Uma coisa de cada vez.
Universidade Federal do Tocantins
81
Memorial
Roberta Alves de Oliveira*
Desde pequenina, as pessoas começam a estudar. Pois é, comigo não foi diferente.
Nasci no dia 28 de agosto de 1983, na cidade de Imperatriz, Maranhão. Terceira de quatro
filhos de Vital Alves de Oliveira e Maria do Amparo Dias Oliveira, pessoas especiais e
responsáveis por meu caráter, responsabilidade, educação, honestidade e por tudo que já
estudei e que estudo até hoje.
Meus primeiros dias de aula foram muito desgastantes, tanto para mim, uma criança
com apenas três anos de idade, quanto para a minha “tia” na sala de aula. Eu era uma
daquelas crianças amáveis que quando os pais diziam “Tchau, mais tarde venho pegar
você!” eu abria a bocona desesperada, chorando, gritando e me agarrava na grade da porta
da sala para não entrar. Credo! Eu fazia o maior escândalo.
Minha irmã mais velha, Rita de Cássia, era quem me deixava na sala de aula. Estudava
no mesmo colégio que se chamava Escola Santa Teresinha, uma escola particular de freiras
que se localizava no centro da cidade. Nós morávamos num bairro que ficava perto do
centro, gastávamos mais ou menos meia hora para chegarmos até lá. Íamos de ônibus e eu
dormindo nas pernas dela, na volta não era diferente. Além de tudo, eu levava mamadeira
para a escola e ainda chupava chupeta. Isso que era vontade de estudar, heim! Mas fui me
acostumando. Também pudera!! Se não acostumasse, estava “ferradinha”, porque até hoje
estudo e ando de ônibus. (risos)
Os anos se passaram e quando cheguei na 2ª série eu mudei de escola. Essa se chamava
Escola Machado de Assis, também era particular, que ficava no bairro que eu morava. Daí já
não precisava pegar ônibus, ia com meu irmão mais novo, Ricardo, andando mesmo, pois
era pertinho de casa. Nossa! Lembro-me bem como eu e meu irmão éramos “malas sem
alça”. Perdi as contas das vezes em que inventávamos que estávamos doentes, com uma dor
de cabeça ou dor de barriga, alguma coisa desse tipo para não irmos à aula, só para ficar em
casa brincando, andando de bicicleta. Assim, ganhávamos o dia todo para nos divertir, isso se
minha mãe não estivesse em casa, se não, o jeito era ficarmos deitados, quietinhos mesmo.
Quando cheguei ao ensino fundamental, veio a surpresa, eu e meus irmãos, que
desde o jardim de infância estudamos em colégios particulares, iríamos estudar em escola
pública, porque já não seria possível meus pais nos proporcionar tal “luxo”. Então, eu e
minha irmã do meio, Raquel, fomos matriculadas na mesma escola pública, chamada
Amaral Raposo, que se localizava no centro da cidade de Imperatriz. Foi uma mudança
muito grande, mas muito interessante para mim. Tive a oportunidade de conhecer pessoas
de outras comunidades populares e classes sociais diferentes. Às vezes, acho que Deus
nos coloca em determinados lugares para que possamos aprender e a avaliar determinados valores e visões de mundo que muitas vezes não conhecemos. Nessa escola, concluí
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
82
Caminhadas de universitários de origem popular
o ensino médio, fiz e descobri grandes amizades que, mesmo com o passar dos anos,
continuam firmes e fortes.
Ao concluir o ensino médio em 2001, estava com dúvida se iria fazer a prova do
vestibular. Eu tinha muito medo de fazer e não passar. Mas minha mãe queria muito que
eu fizesse porque minhas duas irmãs já haviam passado no vestibular, uma para Administração de Empresas; a outra para História. Minha mãe sonhava que uma de nós
fizesse Direito, mas nenhuma das minhas irmãs tinha o mesmo sonho e, pelo visto, eu
também não. (risos)
O primeiro vestibular que eu fiz foi para Ciências Contábeis, na Universidade Federal
do Maranhão (UFMA). Passei na primeira etapa, já na segunda etapa não passei. O segundo
vestibular foi na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), para História, outra vez não
consegui passar. Fui logo ficando com trauma, ainda fiz uns dois vestibulares para Pedagogia e não passei novamente. Além de tudo, os cursos que eram oferecidos na minha cidade
não eram bem o que eu gostaria de estudar. Daí, deixei os estudos de lado, comecei fazer
cursinhos profissionalizantes. Em 2002, consegui meu primeiro emprego, durante três anos
fiquei apenas trabalhando. Certo dia, em uma das minhas férias do trabalho, resolvi viajar e
fazer uma visita a minha irmã, em Palmas-TO. Nessa viagem, me reencontrei com duas
amigas que eu havia conhecido ainda no ensino médio, naquela escola pública. Pois é!
Essas amigas estavam estudando na Universidade Federal do Tocantins (UFT), Geovania e
Suiana, ambas cursando Engenharia de Alimentos. Elas, minhas irmãs e minha mãe me
incentivaram bastante para eu tentar novamente passar no vestibular. Como nesse ano
minha irmã, Rita de Cássia, já havia se formado em Administração de Empresas e estava
morando e trabalhando em Palmas, capital do Tocantins, decidi unir o útil ao agradável,
resolvi tentar passar para Engenharia de Alimentos. Apesar de não saber bem do que se
tratava o curso, achei interessante e bonito o nome. (risos)
Em agosto de 2004, ao retornar das férias do trabalho, matriculei-me num cursinho
pré-vestibular, no intuito de alcançar meu objetivo, não foi nada fácil para mim, trabalhar e
estudar, porque eu saía do trabalho e ia direto para o cursinho. Chegava muito tarde em
casa, ainda tinha que estudar mais um pouco ou pelo menos rever o que tinha sido visto na
aula anterior, pois só abrir os livros no cursinho não iria obter o resultado esperado. Abri
mão de sair para festas, shows, sem falar nos sábados e domingos em que eu passei estudando, sem se quer ir até mesmo à igreja.
No decorrer desse cursinho, fiquei muito cansada, estressada. Ao estudar nas madrugadas, me desesperava, começava a chorar, ficava exausta e com sono. Pensei várias vezes em
desisti, contudo, minha força de vontade de lutar por meus ideais foi bem maior. Recebi
ajuda e apoio do meu namorado, Aleandro, hoje meu noivo, sua compreensão foi muito
importante para mim.
Em janeiro de 2005, sábado, dia da prova, eu tive que sair de Imperatriz por volta das
6h da manhã de van rumo a Porto Franco, Maranhão, para chegar ao rio Tocantins e pegar
um barquinho para atravessar para Tocantinópolis-TO, cidade em que fiz a prova do vestibular. Fiquei hospedada na casa da mãe de um amigo. Fiz a prova da Universidade Federal
do Tocantins (UFT) e para a surpresa de alguns e minha a Engenharia foi o meu destino. Eu
fui aprovada para o curso de Engenharia de Alimentos para a entrada do segundo semestre
de 2005. Optei pelo segundo semestre, porque seria melhor para eu me organizar, pois ainda
estava trabalhando.
Universidade Federal do Tocantins
83
Pelo visto, minha mãe não estava com sorte para ter uma filha advogada, quem sabe o
meu irmão caçula resolva fazer o vestibular para Direito?! Mas eu garanto que uma filha
engenheira ela irá ter sim. Eu já sou uma vencedora, mas do que isso, sou uma mulher
guerreira ao lutar por meus sonhos. Eu agradeço a Deus por isso.
Por um lado, foi muito bom ter alcançado meu objetivo, mas por outro, apareceram as
preocupações. Eu já não poderia trabalhar devido meu curso ser integral e estava morando
fora da minha cidade. Tinha todo um custo mensal que, basicamente, era minha permanência na universidade. Então, certo dia, olhando o site da universidade, vi o edital do Programa Conexões de Saberes. A princípio não sabia do que se tratava, mas quando vi “bolsas
para universitários”, logo me animei, preenchi a ficha com meus dados e deixei na PROEX.
Após alguns dias, saiu o resultado, como eu havia me encaixado nos padrões da seleção,
meu nome estava na lista dos selecionados. Nossa! Foi bom demais.
Hoje estou estudando e participando do Programa Conexões de Saberes onde, por
coincidência ou ironia do destino, Geovania, uma daquelas minhas amigas do ensino
médio, daquela escola pública que junto com outras pessoas especiais me deram o maior
apoio para eu tentar passar no vestibular, pois é, ela também participa desse programa.
Tenho aprendido muitas coisas, dentre elas a de poder oferecer aos que não possuem
acesso à universidade ou que se sentem incapacitados de entrar, ou ainda aos que entram,
mas não conseguem permanecer, mecanismos, seja por ações, projetos, palavras, que eles
podem conseguir entrar e concluir o curso universitário. Pretendo futuramente, já formada, exercer minha profissão em minha cidade e incentivar os jovens dos bairros populares
a cursar o ensino superior.
84
Caminhadas de universitários de origem popular
Minha história
Rosilda Ferreira e Silva*
Em 6 de abril de 1983 eu, Rosilda Ferreira e Silva, nasci na Casa de Saúde em Floriano,
Piauí. Logo após o nascimento, meus pais me levaram para a cidade de Nazaré-PI, onde eles
moravam: meu pai, Raimundo de Souza e Silva, minha mãe, Maria de Lourdes Ferreira Reis
e Silva, e as minhas duas irmãs, Rosiane e Rosenilde.
Eu nasci com o peso muito abaixo do recomendado, além de ter um problema de pele
chamada Ictiose. Eu tinha o mesmo problema que minha irmã do meio, só que mais sério. A
minha pele é extremamente ressecada. Por isso a pele solta muito, para não ficar descamando é preciso passar hidratante no corpo todo. Na época, os médicos não deram nenhum
diagnóstico exato, pois esse problema não tinha sido estudado ainda. Eles disseram que
seria preciso um acompanhamento constante de um médico dermatologista, e quem nos
acompanhava era o Doutor Hugo Prado.
Com dois anos mudamos para Oeiras-PI, depois de um ano comecei a estudar. O
problema de pele persistia e os remédios eram caríssimos. Mas isso não me impede de fazer
absolutamente nada, só não posso pegar sol nem parar de usar os medicamentos.
Meus pais decidiram mudar de estado em 1989 para o Mato Grosso.
Lá, ficamos na cidade chamada Matupá. Chegando lá não pude entrar na primeira
série por ser muito nova, então, minha mãe me matriculou na alfabetização. Eu achei
muito complicado, pois ela só encontrou vaga num colégio Evangélico e tinha muitas
regras devido à religião. Eu não consegui me adaptar por ser católica, não queria fazer
algumas coisas, depois de alguns dias, comecei a me integrar com as outras crianças. Aí
tudo ficou bem! Quanto ao problema de pele, ficou muito complicado nessa época porque
não tínhamos mais um médico para nos acompanhar e na cidade em que nós morávamos não
tinha dermatologista.
Quem dava assistência aos doentes era um grupo de irmãs que tomava conta do hospital da cidade. Lá havia muitos casos de malária. Uma das irmãs falou para minha mãe que ela
tinha que ter cuidado porque se eu ou minha irmã pegássemos malária ela não saberia se nós
sobreviveríamos, pois o remédio usado para o combate da doença era muito forte, por causa
desse problema ela não saberia se o nosso organismo reagiria de forma normal.
Com isso, minha mãe ficou muito preocupada e antes de completarmos um ano tornamos a mudar de estado: Mato Grosso para o Tocantins. O meu pai estava muito confiante,
pois ia ter muito serviço para ele porque sua profissão era de agrimensor. No dia vinte e três
de janeiro de 1990, chegamos na cidade de Miracema-TO.
* Graduanda em Comunicação Social pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
85
No mesmo ano fui matriculada no Colégio Dona Filomena para fazer a primeira série,
estava com sete anos. Me lembro que foi muito difícil, não com o estudo, mas em relação ao
meu problema de pele. As crianças com que eu estudava não gostavam de brincar comigo,
falavam que eu era doente. Com isso, eu me afastava delas e ficava sempre sozinha, me
tornei uma menina muito tímida, conversava com poucas pessoas. Estudei da primeira a
sétima série neste colégio.
Em 1997, passei para a oitava série e tive que mudar para outro colégio, pois onde eu
estudava naquele ano não teria a oitava série. Passei a estudar no colégio Tocantins que era
conveniado, portanto tinha que comprar os livros. Neste ano, tudo começou a ficar mais
difícil, meu pai não conseguia arrumar serviço, passamos dias muito complicados, além de
ter que colocar a comida em casa, tinha que pagar o colégio, os medicamentos eram caros e
sempre foram eles que pagaram tudo. A cada dia as coisas foram ficando piores, mas eles
nunca deixaram de cuidar de mim e nem da minha irmã.
Mas teve uma época que as coisas ficaram tão complicadas que eles não conseguiam
mais pagar os medicamentos que nós precisávamos. Minha mãe procurou a Secretaria da
Saúde do Estado onde nós estávamos morando para pedir ajuda. Foram dias terríveis, ela
nos vendo naquela situação sem poder nos ajudar. O local onde ela comprava os remédios
não vendia mais fiado. Depois de muita luta, nós conseguimos uma verba para ajudar na
compra de boa parte dos medicamentos. Existe uma lei que diz que sempre teremos direito
a esse benefício.
No ano seguinte as coisas continuavam do mesmo jeito. Mas continuava estudando,
nunca fui uma boa aluna, mas me esforçava o máximo para nunca ser reprovada e sempre
passava de ano.
Quanto ao meu problema de pele, minha mãe conheceu uma médica em Palmas,
Doutora Luciane Prado Silva Tavares, uma ótima médica. Ela fez um diagnóstico e começou um tratamento novo. A pele estava muito maltratada e os medicamentos não estavam
fazendo mais efeito. Trocou de medicamentos. A pele estava tão acostumada que não
aceitava outro medicamento, mas depois de tantas tentativas teve um creme manipulado
que deu certo. O tratamento deu tão certo que as pessoas já quase não percebem que tenho
algum problema, muitos acham minha pele diferente, mas só ficam sabendo se eu contar.
Só tenho que agradecer a Deus e a Doutora Luciane por sempre estarem ao nosso lado
quando precisamos.
Em 2000 estava terminando o terceiro ano do ensino médio e já estava me preparando
para prestar o vestibular. Prestei quatro vezes para Direito e não consegui.
Em 2004, mudamos para Palmas, a capital do Estado, por não ter ainda conseguido
passar numa universidade federal comecei a fazer um cursinho comunitário que durou um
ano. Foi quando resolvi prestar para um outro curso. Escolhi Comunicação Social na UFT,
para minha felicidade fui aprovada e estou no quarto período. Estou gostando, mas não
desisti do Curso de Direito, pois é o curso que eu quero.
Fiquei sabendo do Programa Conexões de Saberes através da minha irmã, que
também estuda na UFT. Ela me incentivou para que eu fizesse a inscrição, tudo foi
muito rápido, pois o período da inscrição estava chegando ao final, só teria mais dois
dias, então juntei todos os documentos que precisava e no último dia da inscrição me
escrevi. Fiquei na espera, mas não tinha muita esperança em ser chamada, pois antes já
havia me escrito em tantos outros programas, mas em nenhum fui selecionada. Mas com
86
Caminhadas de universitários de origem popular
a graça de Deus fui chamada. E o melhor era saber que além de ir trabalhar com as
comunidades, iria receber uma bolsa de trezentos reais que me ajudaria muito com os
gastos com o curso. Jornalismo é um curso que precisamos ler bastante, como não tenho
dinheiro para comprar livros uso esse dinheiro para tirar xerox.
Esta é a minha história. Continuo com o mesmo problema de pele, mas bem melhor
desde que nasci. Continuo sendo acompanhada pela Doutora Luciane e fazendo parte do
Programa Conexões de Saberes.
Universidade Federal do Tocantins
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A história de uma vida
Tayanna Fonseca Pimentel*
Quando criança com apenas cinco ou seis anos tudo o que eu mais queria era ir à
escola. Ficava no quintal da minha casa esperando meu único irmão, três anos mais velho
do que eu, para lhe fazer perguntas sobre como tinha sido a aula naquele dia. Ele resistia em
ficar me descrevendo como tinha sido, já que ele estava muito acostumado com aquele
ambiente, o que era algo muito esperado por mim.
Chegou a época que, segundo minha mãe, era o tempo certo de começar meus
estudos. O engraçado é que eu me lembro muito bem do meu desejo em ir à escola, mas me
lembro pouco do meu primeiro ano de estudo. O que realmente me marcou neste primeiro
ano foi que eu tive que fazê-lo por duas vezes, não fui reprovada, mas minha mãe achou
que eu não havia realmente aprendido o suficiente, então tive que repetir o ano em outra
escola. Fiquei triste, pois eu já tinha feito os primeiros amigos na escola, de repente, iria
ter que mudar de escola e fazer o “prézinho”, como era chamado antigamente. A nova
escola era muito diferente, era apenas uma sala de madeira com 25 alunos em média,
grande parte deles vinham de famílias de origem popular. Logo após esse ano, cheguei a
idade de ser aceita em um colégio estadual (que tinha bons conceitos entre a população
em relação às escolas municipais na época). Aí, pude iniciar a primeira série do ensino
fundamental como conhecemos hoje.
Minha mãe sempre acreditou que a melhor maneira de nos assegurar um futuro com
boas realizações era sempre nos garantir estudo, mas estudo com qualidade. Mesmo sem
ter condições financeiras para pagar escolas caras, sempre se preocupou com isso. Me
mudou de escola estadual para uma municipal menor, para eu cursar a terceira série. Desta
série em diante, são as que eu tenho mais recordações e consciência do quanto eu me
sentia insegura naquele ambiente. Insegurança que acredito ter sido conseqüência de
minha timidez em me expor em público, algo que sempre me prejudicou, pois nunca fazia
perguntas aos professores e nunca tive atitudes de liderança na turma ou grupos de amigos, sempre queria passar por invisível.
Aos 11 anos, passei a cursar a quinta série em uma escola estadual da cidade. Ao final
da sétima série, eu e minha mãe decidimos que eu deveria cursar a oitava série em uma
escola municipal, que estava sendo bastante comentada por ter um número maior de professores graduados, já que era muito comum professores sem nenhuma graduação ministrarem
as disciplinas. Nesta série, há um fato interessante, como não havia na cidade nenhuma
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
88
Caminhadas de universitários de origem popular
escola particular que oferecesse a 7ª série, tínhamos nesta sala da escola municipal alunos
de classe média e alunos de classe popular, foi muito interessante observar a troca de
experiência entre esses alunos.
Particularmente, surgiu o desejo de me mudar de cidade, procurar uma cidade maior
que oferecesse outras atividades, como curso de informática, que ainda era pouco difundido na cidade que eu morava.
Sugeri para minha mãe a vontade de morar em outro lugar, como na época eu tinha
uma madrinha que morava em Palmas-TO, minha mãe resolveu conversar com ela. Bem, ela
gostou da idéia, pois sempre teve muito carinho por mim. Mas algo que eu nem imaginava
aconteceu, um irmão da minha mãe, Amauri, meu padrinho de batismo, ofereceu sua casa
em Pareuapebas-PA onde ele morava com sua família para eu morar com eles. Eu adorei a
idéia de ir morar lá, já que eu conhecia a cidade.
Em Parauapebas, apesar de eu estar muito empolgada com o local, a nova escola e
os novos amigos me fizeram sentir o mesmo sentimento de quando criança, uma insegurança muito grande. Nos primeiros dias de aula, percebi algo diferente nos alunos,
todos tinham muitas expectativas, diferentes dos amigos das escolas anteriores, onde
muitos se limitavam apenas com o que era lhes exigido no ensino médio. Nessa escola,
em Parauapebas, os alunos tinham planos de cursar um nível superior, isso colaborou
muito com a minha vontade de sempre buscar mais. Passei a perceber um mundo que eu
praticamente desconhecia. Mesmo cursando o ensino médio, eu ainda não conseguia
decidir qual profissão seguir.
O terceirão
Quando fui cursar o terceiro e o último ano do ensino médio, decidi mudar de escola
e fazer um cursinho pré-vestibular particular. Era o primeiro cursinho da cidade, pois tinha
se instalado na cidade uma universidade pública. A escola pública tinha uma didática fraca
em relação à do cursinho. Na verdade, eu achava tudo muito difícil nesse cursinho e passava
a perceber que o ensino público ainda não tinha condições de preparar alunos pra universidade: minha dificuldade em aprender me desanimava. Porém, eu não tinha idéia do que era
uma universidade, nem mesmo havia entrado em uma. Mas sabia que eu iria conseguir,
sempre tive fé que Deus me ajudaria de alguma forma.
No final do terceiro ano, cheguei à conclusão de que o melhor lugar para eu tentar
vestibular seria em Palmas-TO. Quando me inscrevi no vestibular, eu queria fazer psicologia. Mas na UNITINS, que naquele momento se encontrava em fase de transição
para torna-se Federal, que pouco tempo depois passou a ser UFT, Universidade Federal
do Tocantins, não tinha Psicologia. Acabei tentando para Ciência da Computação. Fiz
primeiro um cursinho pré-vestibular, chamado intensivão, em um mês. Fiz o vestibular
e não fui “selecionada”. Uma tristeza imensa, pois quando dei a notícia para minha mãe
ela não conseguiu disfarçar sua decepção. Seis meses de espera e eu fui tentar novamente, dessa vez o vestibular em duas faculdades particulares. Minha mãe me disse que
iríamos tentar financiar a faculdade. Porém, o primeiro resultado que saiu era negativo,
eu não havia passado.
Fui passar uns dias com meu pai em Redenção-PA, lá encontrei um casal, amigo de
meus pais, que considero como tios que me falou que as inscrições do vestibular da UNITINS
haviam sido prorrogadas. Neste mesmo dia minha mãe me diz que eu fui aprovada em
Universidade Federal do Tocantins
89
Psicologia pela Universidade Católica de Goiás, fiquei muito emocionada, mas triste com
o preço das mensalidades na minha mente. Uma tia minha me convenceu a fazer a inscrição
para a UNITINS novamente, já que havia sido prorrogado o prazo. No dia que fui providenciar os documentos para enviar pelos correios, eu senti uma certeza, como se soubesse que
ia passar. Era o último dia para envio de documentos, foi uma correria, mas tudo estava
acontecendo de maneira positiva.
Recordo-me de que orava a Deus e pedia a Ele que eu passasse em último lugar, mas
que fosse aprovada. Demorou poucos dias até que o resultado saísse, já que esse vestibular
era o último realizado pela UNITINS, hoje, UFT.
Eu estava tomando banho quando dois primos meus e uma amiga começaram a gritar
na porta do banheiro que eu havia passado. Foi ótimo! Muito emocionante! E sem nenhum
custo, pois era gratuito o curso. Mas ainda fui a um ciber-café ter certeza absoluta e vi meu
nome na lista de aprovados no curso de Engenharia de Alimentos. Foi maravilhoso aquele
momento, daí fui ligar para minha mãe para dar-lhe a notícia.
Quando fui fazer minha matrícula pedi meu desempenho do vestibular. Imediatamente lembrei-me das orações, pois fui aprovada em 40º lugar como pedi.
Cursando o sexto período de faculdade (3 anos), eu estava procurando algum projeto
de extensão para participar, foi quando meu namorado me falou do edital do Conexões de
Saberes que ele havia visto no mural da faculdade. Eu procurei ler o edital, mas não entendi
exatamente o que era o Conexões. O que chamou realmente minha atenção para o Programa
foi para a proposta de trabalhar em comunidades populares. Levei toda documentação
solicitada e aguardei o resultado, em poucos dias saiu o edital de divulgação, meu nome
estava lá. Fiquei muito feliz e ansiosa para conhecer o projeto.
Na primeira reunião do projeto, que tinha o objetivo de nos apresentar o Programa, eu
me identifiquei com o trabalho proposto. Mudou completamente minha visão quanto aos
meus direitos e deveres na sociedade. Hoje, dentro do Conexões, estamos por realizar alguns projetos educativos em escolas públicas, um deles tem me deixado bastante ansiosa
quanto aos resultados, tem por tema Educação Alimentar.
Atualmente vou cursar o oitavo período de Engenharia de Alimentos, restando apenas dois semestres para a conclusão do curso. Tenho muitas expectativas quanto ao
mercado de trabalho, por ser uma profissão ascendente, mesmo existindo o medo de não
me inserir rapidamente no mercado de trabalho. Pretendo trabalhar em consultoria para
indústria de alimentos.
90
Caminhadas de universitários de origem popular
Memorial
Yanne Pereira da Silva Oliveira*
Muito prazer, meu nome é Yanne Pereira da Silva Oliveira. “Grande como de ladrão
de cavalo esse nome”. Assim dizia minha querida madrinha. Esta é apenas uma das frases
que escutei quando criança e guardo na memória até hoje. Escrevendo este memorial,
percebi que as minhas lembranças são o que me faz sonhar com o futuro. Coisa que
sempre gostei de fazer.
Um dos meus sonhos era, caso não fosse gente, virar fada ou borboleta. Que sonho
bobo, você deve ter pensado. Mas é verdade. E confesso que ainda penso muito nele. Minha
vida nunca foi perfeita, porém, sempre procurei vê–la do melhor ângulo. Então, como todo
conto de fadas que se preze, minha história começa assim:
Era uma vez uma família linda: José, o pai, Zilda, mãe, Yara, filha. Todos moravam em
Imperatriz, no Maranhão. No dia 4 de março de 1986 ganharam um presente: Eu. E no ano
seguinte, minha irmã caçula, Ylária. Morávamos no bairro Nova Imperatriz, que ainda é o mais
popular da cidade. Nossa casa era grande e a maioria dos meus tios e tias moravam conosco, pois
no lugar onde cresceram, interior do Tocantins, não oferecia condições de estudo.
Meu pai faleceu de câncer quando eu tinha 3 anos de idade. Então tivemos que mudar
para uma casa menor no mesmo bairro e vender tudo que meu pai tinha conquistado para
pagar as despesas. Acabou o luxo!
Tenho boas lembranças da casa onde cresci e que minha mãe mora até hoje. O lugar era
simples, a vizinhança boa, tinha uma turma de amigos e nos encontrávamos nas calçadas
quase todos os dias para contar histórias, brincar de esconder, pular corda e elástico, brincar
do sapo e do tubarão que nós mesmos inventamos.
Minha mãe trabalhava o dia inteiro para sustentar a casa, nos dava somente o necessário. Com essa atitude plantou em nós três princípios de simplicidade e igualdade, pois se
não tinha pra todas, ninguém ganhava. Assim, aprendemos a reconhecer coisas que realmente importavam, como a família e o estudo.
Comecei a estudar com 4 anos, na Escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Lembro–me com saudade das minhas professoras, as tias Socorro, tia josefa, a diretora, da minha
amiga Taynah, que me acompanhou até o ensino fundamental e que mantenho contato até
hoje. Era muito bom, participava de todas as apresentações de desfile, inclusive dança de
frevo. Mas o melhor momento era o do lanche. Taynah e eu pegávamos a merenda de duas
* Graduanda em Engenharia de Alimentos pela UFT.
Universidade Federal do Tocantins
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meninas do jardim II e comíamos na sala de aula. E no recreio, comíamos o nosso. Como eu
era má! (Risos). Também era muito gostoso quando cantávamos:
Meu lanchinho, meu lanchinho
Vou comer, vou comer
Pra ficar fortinho, pra ficar fortinho
E crescer, e crescer...
No primário, fui estudar no SESI, que foi para mim a escola mais linda do mundo. Lá,
encontrei vários amigos e aprendi valores que carrego comigo. Dentre eles estão a disciplina e o respeito, que percebia todos os dias quando colocava o uniforme (camisa branca,
meia branca, sapato preto e uma saia de prega azul, que eu detestava, mas que depois mudou
para uma calça de moletom azul que eu gostava) e participava do momento cívico: “a fila”.
Era boa aluna e jogava basquete. O SESI fechou quando eu estava na sétima série. Toda
cidade sofreu porque o ensino era muito bom, eu mais ainda porque tinha que mudar de
escola. Voltei para o Perpétuo Socorro, onde cursei a oitava série.
Minha mãe sempre nos incentivou a estudar. Dizia que queria formar três doutoras, só
não falava em que área. Por isso, investia tudo que tínhamos nos estudos. Ingênua, eu
achava que doutor era só médico. E como ouvia dizer sempre que faculdade de medicina era
muito concorrida, me dedicava totalmente aos estudos. Engraçado é que quando me perguntavam eu falava que jamais faria medicina.
Resolvi fazer o seletivo do CEFET para estudar o ensino médio. Que derrota! Não
passei. Tive que estudar na maior escola pública da cidade, Dorgival Pinheiro de Sousa. Foi
a pior época da minha vida. A escola era tão grande e com tantos alunos, que apesar de ter
muitos coordenadores era difícil organizar. Não tinha uniforme nem horários corretos, as
aulas não rendiam, a maioria dos alunos era desinteressada, a outra parte se conformava e
acabava também perdendo o gosto pelo estudo, o que estava acontecendo comigo. Pedi
para mudar de escola, minha mãe não aceitou.
Penso que para ela, era como se fosse um castigo por não ter entrado no CEFET. Mal
sabia ela que estava jogando fora toda minha determinação e vontade de estudar, pois
comecei a matar aulas e tirar notas baixas. No segundo ano do ensino médio, percebi que
estava me destruindo e apelei: “vou parar de estudar”. Minha mãe sorriu e disse que se o
fizesse eu iria quebrar coco. Permaneci firme, perdi um ano de estudo.
No ano seguinte, após enfrentar uma mega fila, minha mãe me matriculou no
Colégio Graça Aranha, também público, porém com ensino diferenciado e muita organização. Cursei o segundo e metade do terceiro ano, porque as escolas estaduais entraram em greve por tempo indeterminado. A diretora sugeriu que quem pudesse, mudasse
para uma escola particular para não atrapalhar o vestibular. Então, juntei um grupo de amigos
e levei para o Perpétuo Socorro, ganhei um bom desconto e meu padrinho, Antônio,
pagou as mensalidades.
Minhas irmãs e eu resolvemos fazer o vestibular da UFT, minha mãe não aceitava, pois
imaginava que não conseguiria nos sustentar. Dizia ela que estudar fora era para filho de
gente rica. Ainda assim, estudei muito e fomos fazer a prova em Tocantinópolis, em Tocantins,
ficamos na casa da tia Consola. Foram dois dias terríveis, não comi, nem dormi direito e
permaneci assim até o dia do resultado. Tremia com medo de não passar. Depois da prova,
Ylária e eu ficamos na casa do meu avô, que fica em Nazaré, próximo a Tocantinópolis. Lá,
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Caminhadas de universitários de origem popular
tem apenas um telefone público. Então, mandaram um recado avisando que uma de nós
havia passado. Achei que fosse o resultado do Prouni, que minha irmã se inscrevera, pois o
da UFT só estava previsto para semana seguinte.
Só depois, Yara ligou pra avisar que era o resultado do vestibular e que Ylária e eu
tínhamos passado, respectivamente, para zootecnia, em Araguaína, e engenharia de alimentos, em Palmas. Fizemos uma festa regada à feijoada e churrasco. Uma cobra quase me picou
no dia, apesar do susto, foi muito bom.
Após as comemorações, mamãe ficou paranóica, porque realmente não conseguiria
nos sustentar longe de casa. Rezava todos os dias pra dar tudo certo e Deus providenciou
um emprego pra Yara. Meu tio João Batista falou que eu poderia morar na sua casa, com sua
família (Joelma, a esposa; Breno e João Henrique, seus filhos; Jaira, sua cunhada) e minha
mãe só teria de mandar o dinheiro dos passes e almoço, pois o curso é integral.
Sempre fui muito vaidosa e a falta de recursos para tal fim serviu de incentivo para eu
me tornar multiuso, como dizem minhas amigas. Aprendi arrumar cabelo, unhas, cortar,
costurar, cantar etc... foi desempenhando essas atividades informais que conseguia o dinheiro das xerox e dos lanches. Agradeço a Deus todos os dias pelas providências que Ele
toma em minha vida. Este ano que a situação lá em casa ficou difícil, fui selecionada para o
Conexões de Saberes. Agora, me sustento e tenho orgulho em dizer que sou universitária e
pretendo fazer mais um curso.
Estou a quase um ano no projeto e sempre, inclusive quando estava escrevendo este
memorial, fui questionada a respeito da importância do nosso trabalho. Respondo primeiro
que sou prova viva da importância do Conexões, pois auxilia na minha permanência na
universidade, um de seus objetivos. Em segundo, friso que em nosso estado poucos são os
jovens que pensam em freqüentar a universidade, por achar que é uma realidade distante e
que não lhe pertence. Nós, enquanto bolsistas e sonhadores, temos o papel de incentivá–
los, da maneira que nos for possível, a quebrar essa barreira. Uma das expectativas que
tenho é conseguir plantar a semente do desejo de estudar em algumas pessoas. Será que é
sonhar demais? (Risos)
Quero agora, apertar pause e dedicar estas últimas linhas e milhões de cheiros a minha
mãe guerreira, alegre e serena, meu porto seguro, exemplo de disponibilidade e fé, a quem
darei tranqüilidade em breve; as minhas irmãs, familiares e amigos do peito, pelo apoio moral.
E para os companheiros do Programa Conexões de Saberes, um pequeno verso que eu adotei:
Quem caminha sozinho pode até
chegar mais rápido,
mas aquele que vai acompanhado,
com certeza chegará mais longe.
Gonçalo Trajano
Sempre sonhei em mudar o mundo. Estou ao seu dispor se for por amor as causas
perdidas...
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E a menina que queria ser fada é feliz...
A história continua...
Universidade Federal do Tocantins
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