16
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
CURSO DE DOUTORADO
RUBIA-MAR NUNES PINTO
GOIÂNIA, NO ‘CORAÇÃO DO BRASIL’ (1937-1945):
A CIDADE E A ESCOLA RE INVENTANDO A NAÇÃO
ORIENTADORA: CLARICE NUNES
NITERÓI
2009
RUBIA-MAR NUNES PINTO
Goiânia, no ‘coração do Brasil’ (1937-1945): a cidade e a escola re inventando a nação
Tese apresentada ao Programa de Pós
Graduação em Educação da Faculdade de
Educação da Universidade Federal Fluminense
como requisito parcial à obtenção do grau de
Doutor em Educação.
Orientadora: Profa. Dra. Clarice Nunes
NITERÓI
2009
RUBIA-MAR NUNES PINTO
GOIÂNIA, NO ‘CORAÇÃO DO BRASIL’ (1937-1945):
A CIDADE E A ESCOLA RE INVENTANDO A NAÇÃO
Aprovada em: ____/____/____
BANCA EXAMINADORA
Profa. Dra. Clarice Nunes (Orientadora)
UFF
___________________________________________________________________________
Prof. Dr. José Gonçalves Gondra
UERJ
______________________________________________________________________
Profa. Cynthia Greive Veiga
UFMG
_____________________________________________________________________
Profa. Dra. Alessandra Schueler
UFF
Profa. Dra. Claúdia Alves
UFF
Profa. Dra. Custódia Selma Sena (Suplente)
UFG
Profa. Dra. Heloísa Vilella (Suplente)
UFF
NITERÓI
2009
Aos homens e mulheres que, como José Nunes
Pinto, meu pai, e Maria Alves Pinto, minha
mãe, em diferentes momentos e de diferentes
regiões do Brasil, migraram para as antigas
minas dos goyases em busca de dias melhores
e formaram a gente de Goiás.
PEQUENA MEMÓRIA DAS GRATIDÕES
Elaborar um texto de agradecimento àqueles que, de alguma forma, contribuíram para
que uma pesquisa fosse realizada e concluída é, creio, um exercício de temeridade. Ao
rememorar pessoas e instituições, sempre se transita nas fronteiras entre a intenção de
agradecer e a medida do agradecimento e, não raras vezes, corre-se o risco do esquecimento
ou do aligeiramento da gratidão. Resta, diante dos riscos, enfrentar o desafio e tentar o texto.
Ritualístico, o texto de agradecimento de uma tese de doutorado marca o ocaso de um
momento e o desfecho entre um antes e um depois ou entre o que fomos e o que nos
tornamos. No meu caso, o ritual do agradecimento transita entre lugares do Brasil. Rio de
Janeiro e Goiás. Niterói, Mangaratiba e Goiânia. Por viver, nestes quatro anos do curso de
doutorado, em continuo vai-e-vem entre estes lugares brasileiros, meus agradecimentos
deslocam-se também pelo espaço do país.
Quero marcar, inicialmente, meus agradecimentos à professora Clarice Nunes. Pela
orientação lúcida e segura. Pela confiança e generosidade. Por ter permitido e estimulado
minha autonomia intelectual indicando-me, com sabedoria e rigor, os meandros da pesquisa
em história da educação. Mestre das palavras, Clarice Nunes também ensinou com seus belos
textos e conferiu sentido a uma frase de Carlo Ginzburg: ‘um autor é alguém que nos ajuda a
compreender o mundo’.
Quero agradecer também à coordenação e funcionários do Programa de PósGraduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense e
aos seus grandes mestres, em especial, aqueles com os quais tive o prazer de aprender em
aulas e encontros: Sônia Rummert, Osmar Fávero, Giovani Semeraro e Iduína Mont'Alverne
Chaves. Minha admiração, respeito, gratidão especiais pela querida professora Claúdia Alves,
mestre de tantos saberes, pelas dicas e contribuições para esta tese e, particularmente, pelo
compromisso com o seu ofício, pela ética humanista que baliza sua prática, pela dedicação
aos seus aprendizes, pela sensibilidade no trato com a vida e com as pessoas.
Não poderia esquecer o grupo de pesquisa em história social da educação coordenado
pela professora Clarice Nunes no Programa de Pós-Graduação da FEUFF. À Mônica
Corbucci, Rita Simone, Thaísa Valéria e aos caríssimos Acildo Silva, Alessandra Schueler e
Heloísa Vilela, maravilhosos guias do meu percurso de descoberta da história, gratidão e
carinho eternos, obrigada pela acolhida carinhosa, pela leitura dos meus textos e pelas
contribuições à tese. Ao professor José Gonçalves Gondra, agradeço as contribuições e
sugestões para a pesquisa bem como a delicadeza e respeito demonstrados na banca de
qualificação da tese em setembro de 2007.
Agradeço também aos meus colegas da turma do doutorado ano 2005, Antônio,
Elizabete, Mário, Kátia Valadares e – afeto especial - Maritza Maldonado, Angelina e Patrícia
de Freitas. Jamais poderei esquecer nossas quartas-feiras! Amália Dias, grande companheira
que descobri no Rio de Janeiro, outra leitora da tese, obrigada pelos papos inteligentes, pela
companhia em congressos e eventos e pelo afago que sempre fizeste em minha auto-estima.
Um agradecimento sincero a dois amigos solidários e calorosos que fiz no Rio de
Janeiro. Dóris Helena do Amaral, querida vizinha de apartamento, em Niterói, que realizou a
revisão de língua portuguesa para o exame de qualificação e se fez amiga de todas as horas. E
também Cosme de Brito, em Mangaratiba, recente e entusiasmado companheiro na aventura
das linguagens audiovisuais e do vídeo-documentário, outra seara que descobri no Rio de
Janeiro.
E, minha ‘família carioca’: Seu João Alves de Oliveira, o seu Tiné, e dona Tiana; dona
Maria da Glória, Mercês, José Carlos, Fatinha, Thaila e João Vitor; dona Maria Anísia –
grande companheira -, Lalá, Toni, Mariana e André; dona Conceição, Sandra e Sônia; a
inesquecível dona Lulu, a carinhosa Fátima, Zeari e Izabela; Corina, Armando, Vivian,
Amanda, Vitor e Iago. Vocês tornaram inesquecível o Rio de Janeiro e amenizaram meu
estranhamento diante da cultura e da geografia carioca compreendendo que, como lembrou
José Saramago em Pequenas Memórias, ‘não estou a chorar a perda de algo que nem sequer
me pertencia, estou só a tentar explicar que esta paisagem não é a minha, que não foi neste
sítio que nasci, que não me criei aqui’.
E os grandes amigas e amigos de Goiânia, minha base de apoio na Cidade-Sertão,
pessoas que me deram ‘casa, comida e roupa lavada’, além de carinho, carona, amizade,
tempo e ‘ouvidos’ para me escutar nas incontáveis vezes em que, nestes quatro anos, estive
em Goiânia em busca de fontes de pesquisa. Mais que todos, Regina Hermano de Brito,
grande, constante e inigualável amiga, voluntária e entusiasmada auxiliar de pesquisa. Sem
você, tudo teria sido muito mais difícil. Um agradecimento à antropóloga Márcia Machado
que, além de me hospedar, trocou ideias e fez leituras na fase final da tese. Agradeço também,
pela acolhida amiga, à Thaís, seu companheiro Diego e sua filha Raísa, bem como aos
professores Mariana Cunha Pereira e Hudson Lustosa. E ao Cadu, amigo de grandes
aventuras.
Um agradecimento especial a todos aqueles que contribuíram para a pesquisa
relatando suas memórias sobre as primeiras escolas de Goiânia como Dilair de Faria e Eumira
Hermano. E outros que indicaram pistas sobre a história da cidade-capital de Goiás e de seu
mundo escolar: as professoras Maria Alice Cruvinel Gordo e Mara Medeiros, a historiadora
Ana Lúcia Silva, o historiador Ubirajara Galli; a atual diretora do Colégio Estadual José
Carlos de Almeida (antigo Grupo Escolar Modelo), Cléia Regina M. B. da S. Aires. Sou
eternamente grata ao escritor José Mendonça Teles que franqueou meu acesso ao acervo do
Instituto Cultural José Mendonça Teles que preserva publicações históricas sobre o
surgimento de Goiânia, valiosas fontes de pesquisa.
Especial agradecimento à diretora Arquivo Público Estadual de Goiás, Maria Carmem
Lisita, e às demais funcionárias da instituição, pela atenção e presteza com as quais sempre fui
recebida bem como pela torcida pela tese. Obrigada pelas informações e dicas sobre a
pesquisa nos arquivos e sobre a história de Goiânia. Agradeço, em particular, o ‘auxílio
luxuoso’ da historiadora Sávia Diniz, maravilhosa auxiliar de pesquisa. Outras arquivistas e
bibliotecárias com as quais tive contato não podem ser esquecidas. Embora nem sempre tenha
encontrado o que procurava, sempre fui atendida com competência e atenção no Museu Pedro
Ludovico Teixeira, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), na Universidade
Católica de Goiás, no jornal O Popular, na Biblioteca Municipal Marieta Teles de Mendonça
e nas secretárias estadual e municipal de educação.
Meus agradecimentos à Universidade Federal de Goiás, particularmente, a PróReitoria de Pesquisa e Pós-Graduação e a Faculdade de Educação da Física que
proporcionaram as condições para a realização do doutorado. À CAPES que, com a bolsa de
estudos, possibilitou-me a participação em eventos científicos e permitiu-me constituir uma
biblioteca (de história, história da educação e história de Goiás).
Finalmente, agradeço a presença companheira de Cristina Borges de Oliveira, seu
carinho, atenção e cuidados. Farol que ilumina a jornada, Cristina esteve, repito ainda os
versos de Pablo Neruda, ‘sempre-sempre [...] abrindo todas as janelas do mar para que a
palavra escrita voe, para que se cubram os móveis de signos silenciosos, de fogo verde’.
Alguém deve rever, escrever e assinar os autos
do Passado antes que o Tempo passe tudo a
raso
Cora Coralina
RESUMO
NUNES PINTO, Rubia-Mar: Goiânia, no ‘coração do Brasil’: a cidade e a escola
reinventando a nação. Orientadora: Clarice Nunes. Niterói-RJ/UFF, 07/08/2009. Tese
(Doutorado em Educação), 364 páginas. Campo de Confluência: Diversidade e
desigualdades sociais em educação. Linha de Pesquisa: História social da educação. Projeto
de Pesquisa: Modernidade pedagógica: projetos educacionais, instituições escolares e
formação docente.
A tese trata a história da educação em Goiânia, capital do estado de Goiás/Brasil, nos anos
1930 e 1940, momento em que a cidade foi planejada, construída e celebrada como centro
escolar dos sertões do oeste brasileiro. A historiografia da educação brasileira e goiana
constituiu referencia para pensar a relação entre o escolar e o urbano, o papel da escola na
construção da nação e os meandros da história da educação em Goiás. Problematiza-se a
participação e presença das escolas públicas na cena de Goiânia com o objetivo de recuperar
seu papel na constituição dos sentidos da cidade e compreender como contribuíram para forjar
sua cultura urbana. Com suporte teórico das obras de Michel de Certeau, Jacques Le Goff e
Roger Chartier, dentre outros, além de trabalhos referidos à Escola Francesa da Análise de
Discurso, foram cotejados discursos e práticas no processo de invenção de Goiânia para
evidenciar o caráter excludente da modernidade da cidade e da escola. Fez-se uso de variadas
fontes: discursos textuais e imagéticos publicados em jornais e revistas oficiais (Correio
Oficial do Estado de Goiás, Revistas Oeste e da Educação do Estado de Goiás) e não oficiais
(O Popular, Voz do Povo); mapas; planos urbanísticos; fotografias aéreas; plantas baixas de
prédios escolares; relatos de moradores pioneiros; relatórios oficiais e técnicos além de leis e
decretos. As conclusões apontam para a adesão das escolas goianienses aos sentidos da cidade
construídos pelos intelectuais locais e revelam a intensa participação de professores e
estudantes na produção de sua cultura urbana. Destacam-se as práticas festivas, as tentativas
de estabelecer intercâmbios com o meio estudantil nacional e a produção de jornais e revistas
escolares como estratégias mobilizadas por tais sujeitos. A análise evidenciou também que o
Estado Novo e seus intelectuais aderiram à simbologia de Goiânia. A conjuntura que permitiu
a realização do VIII Congresso Brasileiro de Educação nessa cidade, em 1942, revelou que,
por um fugidio momento, no ‘coração do Brasil’, a cidade e a escola re inventaram a nação a
partir da região.
PALAVRAS-CHAVE: MODERNIDADE PEDAGÓGICA – HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO
GOIANIENSE – HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA
ABSTRACT
The thesis concerns the history of education in Goiânia, capital of the state of Goiás/Brazil, in
the years of 1930 and 1940 when the city was planned, constructed and celebrated as the
scholar center of the west part of Brazil and its backlands. The historiography of Brazilian and
goiana’s education constituted a reference to think the relation between the scholar and the
urban, the role of the school in nation’s construction the ways of the history education in
Goiás. It is problematized the participation and the presence of public schools in Goiânia’s
scenery with the aim of recuperate its role in the construction of the senses of city and to
comprehend how it participated of the forge of its urban culture. With the theoretical
background of authors as Michel de Certau, Jacques Le Goff and Roger Chartier, besides
others, and other works referred to the French School of Discourse Analysis, they were token
into consideration practices and discourses in the process of Goiânia’s invention to evidence
the excluding character of modernity in the city and in the school . It was used huge branches
of sources: textual discourses and images published in newspapers and official magazines
(Correio Oficial do Estado de Goiás, Magazines Oeste and da Educação do Estado de Goiás)
and non officials (O Popular, Voz do Povo); maps, urbanistic plans; photographies in the air;
low floor plants of school’s buildings; reports of pioneer residents; official and technical
reports, besides of laws and decrees. The conclusions point to the adhesion of goianienses’
schools to the senses of city and reveal and intense participation of the teachers and students
into the forge of its urban culture. It is given importance to the festival practices, the attempts
of establish interchange with the national student environment and, at least, the production of
scholar newspapers and magazines as mobilized strategies by these subjects. The analysis also
evidences that the New State and its intellectuals added up the symbology of Goiânia. The
situation that allowed the realization of the VIII Congress of Education in Goiânia, in 1942,
revealed that in a further moment, in Brazil’s “heart”, the city and the school re-invented the
nation through the region
KEY WORDS: PEDAGOGICAL MODERNITY – HISTORY OF ‘GOIANIENSE’
EDUCATION – HISTORY OF BRAZILIAN EDUCATION
SUMÁRIO
Introdução ............................................................................................................................
16
CAP. I - MODERNIDADE E NACIONALISMO NO ‘CORAÇÃO DO BRASIL’
1.1 - Sobre o retrato da nação dilacerada: o lugar da região ................................................ 39
1.2 - Da sociedade da ausência à cidade como promessa de futuro ..................................... 48
1.3 - A ‘destruição’ de Vila Boa: romper com o passado, saltar para o futuro..................... 60
1.4 - Dispositivos de interpretação, discursos e sentidos ..................................................... 74
CAP. II - O MAPA COMO DISCURSO DA MODERNIDADE
2.1 - No nome da cidade, a recuperação do passado ...........................................................
2.2 - A captura da cidadania: o processo de nomeação das
ruas e avenidas de Goiânia .........................................................................................
2.3 - A cidade fragmentada: estranhamentos e exclusões na cena da cidade ......................
2.3.1 - O Setor Central, a cidade moderna ...........................................................................
2.3.2 - Espaço, arquitetura e endereço: a escola como discurso da
modernidade de Goiânia .........................................................................................
2.3.3 - Campinas, a cidade da tradição ................................................................................
2.3.4 - A invasão do Botafogo, a cidade negada .................................................................
99
113
119
CAP. III - A ‘INTECTUALIDADE MOÇA DE GOIÁS: INVENTANDO A
MODERNIDADE, RE INVENTANDO A NAÇÃO
3.1 - A (re) descoberta de Goiás: intelectuais goianos na Primeira República ...................
3.2 - A intelectualidade moça de Goiás: inventando a cidade, re inventando a nação .......
3.3 - A revista Oeste como lugar e não-lugar dos intelectuais moços de Goiás .................
3.3.1 - Em busca do não-dito nos discursos e no funcionamento de Oeste ........................
3.4 - Sobre oportunidades, interesses, ideologias e intelectuais brasileiros ........................
126
136
144
152
160
CAP.IV - METÁFORAS DE GOIÂNIA: UM CALEIDOSCÓPIO DE IMAGENS
4.1 - Arquitetura, ritmos do trabalho, civilidade nas condutas e uma nova ordem
social: os signos da modernidade no sertão .................................................................
4.2 - Entre o antigo e o moderno: ruptura e analogia histórica na legitimação
da cidade-capital ..........................................................................................................
4.3 – Ver Goiânia, sentir Goiânia, compreender Goiânia: a Cidade-Sertão
como símbolo do Brasil profundo ..............................................................................
4.4 - Goiânia, a filha caçula do grande país-pai ..................................................................
81
87
91
91
166
174
178
188
CAP. V - NA CIDADE-EDUCADORA ABREM-SE, RISONHAS,
AS PORTAS DO FUTURO
5.1 - O urbano educador: apropriações e deslocamentos na terra dos goyases ................... 191
5.1.1 - Práticas e presenças educativas em Goiânia ............................................................. 202
5.2 - A singularidade educacional da Cidade-Sertão............................................................. 206
5.2.1 - Para a capital, todo o dinheiro... Para o interior, uma pedagogia do
exemplo ...................................................................................................................... 210
5.2.2 – ‘Estradas, caminhos abertos à civilização’ ............................................................... 217
45.2.3 - As elites fazem a cidade e re-escrevem a história .................................................. 224
CAP. VI - SILENCIAR E ESQUECER: PERMANÊNCIAS... RUPTURAS
6.1 - No espelho, o sertão desaparecido. Em sua contraface, o sertão resistente .................. 235
6.2 - Entre a escola e a cidade: no velho Liceu de Goiás, a glória de Vila Boa .................... 243
6.3 - Práticas reformistas e a conformação de um novo discurso pedagógico
Goiás: indícios da ‘modernidade caiadista’ .................................................................. 251
6.3.1 - Na reforma da ‘mocidade culta’ de Americano do Brasil, a escola
goiana vislumbra a modernidade ............................................................................... 257
6.3.2 - Entre Minas e São Paulo, a escola goiana acelera o passo
rumo à modernidade .................................................................................................. 267
CAP.VII - A ESCOLA ADERE AOS SENTIDOS DA CIDADE
7.1 - A promessa que se cumpre: moços e moças de Goiânia .............................................. 284
7.2 - Entre o campo e a cidade: ruralismo e escola nova na cultura urbana de Goiânia...... 293
7.3 - A cidade das festas: práticas festivas e juventude estudantil ........................................ 299
7.4 - Com os olhos voltados para a nação.............................................................................. 308
CAP. VIII – A EDUCAÇAO DO SERTANEJOS: UM ELO ENTRE A NAÇÃO
E A REGIÃO
8.1 - O entusiasmo da nação: a escola como ponto de fusão de interesses
e expectativas nacionais e regionais ............................................................................ 317
8.2 – ‘Anos de luta’: a cidade-capital como cenário da modernidade pedagógica ............... 325
8.3 - A festa da educação na cidade em festa ........................................................................ 333
CONCLUSÕES .................................................................................................................... 342
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................. 352
FONTES................................................................................................................................. 362
LISTA DE IMAGENS
Imagem 01 – Mapa do Setor Central de Goiânia (89)
Imagem 02 – Representação do manto de Nossa Senhora no traçado urbano de Goiânia (94)
Imagem 03 –Plano urbanístico Armando Augusto de Godói (98)
Imagem 04 - Cine-Teatro Goiânia. Ao fundo, Grupo Escolar Modelo (102)
Imagem 05 – Planta Baixa do Grupo Escolar Modelo (107)
Imagem 06 – Crianças na Biblioteca do Grupo Escolar Modelo (109)
Imagem 07 – Laboratório do Grupo Escolar Modelo (110)
Imagem 08 – Planta Baixa do Liceu de Goiânia (111)
Imagem 09 – Fotografia aérea do Bairro de Campinas, 1938 (114)
Imagem 10 e 11- Esquina de Campinas em 1937 e 1940 respectivamente (116)
Imagem 12 – Piscina do Automóvel/Jóquei Club de Goiânia (118)
Imagem 13 – Ampliação da primeira fotografia aérea de Goiânia (120)
Imagem 14 – Aspecto da Invasão do Botafogo em 1935 (123)
Imagem 15 – Capa da Revista Oeste – Julho/1943 (149)
Imagem 16 – Registro no DIP (150)
Imagem 17 – Mapa Rodoviário do município de Goiânia (219)
Imagem 18 – Anúncio publicitário escola primária isolada em Goiânia (239)
Imagem 19 – Casa-Escola de Mestra Silvina na Cidade de Goiás (243)
Imagem 20 – Liceu de Goiás – Casa do dr. Corumbá (246)
Imagem 21 – Palácio da Instrução, Cidade de Goiás, 1929 (271)
Imagem 22 – Curso de Aperfeiçoamento, Cidade de Goiás, 1929 (275)
Imagem 23 – Flagrantes da Parada de Juventude em Goiânia, 1943 (301)
Imagem 24 – Programa de festa escolar (302)
Imagem 25 – Pedro Ludovico e estudantes do Grupo Escolar Modelo em 1943 (316)
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABE - Associação Brasileira de Educação
AD – Análise de Discurso
ANPED – Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação
CANG – Colônia Agrícola Nacional de Ceres
CNG – Conselho Nacional de Geografia
CPDOC/FVG - Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas
CIDARQ/UFG – Centro de Documentação e Informação Arquivística da Universidade
Federal de Goiás
DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda
FCHL/UFG – Faculdade de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal de Goiás
FEF/UFG – Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás
FVG – Fundação Getúlio Vargas
IAPI – Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IEG – Instituto de Educação de Goiás
IHGG – Instituto Histórico e Geográfico de Goiás
IHGSP – Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
INEP – Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
LBA – Legião Brasileira de Assistência
ONU – Organização das Nações Unidas
PPGAS – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social
PROLICEN/UFG – Programa das Licenciaturas da Universidade Federal de Goiás
SBHE – Sociedade Brasileira de História da Educação
SEPLAN – Secretaria de Planejamento Urbano de Goiânia
UCG – Universidade Católica de Goiás
UDN – União Democrática Nacional
UERJ – Universidade do estado do Rio de Janeiro
UFG – Universidade Federal de Goiás
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais
UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas
USP – Universidade de São Paulo
16
INTRODUÇÃO
A civilização avançará nos sertões...
Euclides da Cunha, 1902
Agora o mundo quer ficar sem sertão.
Guimarães Rosa, 1967
Trato, nesta tese, da história da educação em Goiânia, capital do estado de Goiás, entre os
anos de 1937 e 1945. Cidade construída material e simbolicamente nas movimentadas décadas de
trinta e quarenta do século XX para tornar-se a capital de um estado pobre e desconhecido, Goiânia
foi projetada segundo os parâmetros de um plano urbanístico racional e da, então moderna,
arquitetura art déco1. Simbolicamente, a cidade-capital foi constituída pelos de Goiás como
promessa de uma nova história para a região e como ícone de um Brasil que deveria fazer
desaparecer seu sertão, esse lugar de perigo e de riqueza que tanto assustava quanto fascinava a
gente que habitava o outro Brasil. Fundamentada no pensamento de Jacques Le Goff (2003: 208), é
possível inferir que a sociedade goiana ressentia-se então da “[...] ausência de um passado
conhecido e reconhecido, a míngua de um passado [a qual], pode [...] ser fonte de grandes
problemas de mentalidade ou identidade coletivas”. Tomando, então, este tempo e lugar como
ponto privilegiado de observação da construção de uma representação histórica sobre uma região
periférica na vida brasileira, assumo a perspectiva de Le Goff (2003: 208) de que, com a edificação
da sua nova cidade-capital, os goianos procuravam “[...] reagir perante seu passado [...]” e projetar,
para si, outro futuro2.
1
Arquitetura-símbolo da força de Estados autoritários como o fascismo italiano e o Estado Novo no Brasil, o art déco
“[...] com suas linhas retas, fachadas limpas e sóbrias, provoca a sensação de monumentalidade, independente de
grandes dimensões e volumes exagerados [...]” (COELHO, 1997: 19). A sensação racionalista de monumentalidade
provocada pela arquitetura déco está na base do interesse de regimes totalitários das décadas de 1930 e 1940. Em
Goiânia, os prédios públicos – inclusive as escolas – e as residências construídas para o funcionalismo público
seguiram este estilema arquitetônico inaugurando um novo modelo de construção arquitetônica que impunha a
formação de novas formas de morar, se alimentar, viver.
2
Da produção historiográfica goiana se depreende a percepção de que este período, no qual se destaca o surgimento de
17
Se interpretada a partir do universo regional, Goiânia foi proposta como possibilidade de
rompimento com um passado marcado pelo isolamento, pelo abandono e pela invisibilidade, pela
decadência e atraso, conceitos que balizaram historicamente a construção de representações e
imagens das antigas minas dos goyases. Através dela era possível, pensavam seus idealizadores e
construtores, inaugurar a modernidade no sertão e adentrar triunfante na história de uma nação da
qual se viam esquecidos, abandonados, quase inexistentes. É esta representação que balizou os
argumentos do interventor Pedro Ludovico Teixeira quando iniciou o embate pela construção de
uma nova cidade-capital.
A peça retórica que contém seu discurso sobre a necessidade de, não somente transferir a
capital, mas edificar um novo centro administrativo é o chamado Relatório de 19333, documento
enviado ao então presidente Getúlio Vargas e também endereçado ao povo goiano, e no qual
Ludovico constrói a representação que se tornaria dominante: sem uma nova capital, o estado de
Goiás continuaria pobre, atrasado e, em conseqüência, desconhecido e ignorado. Uma nova cidadecapital, melhor localizada, sem os vícios da centenária Cidade de Goiás4, dotada de infra-estrutura
adequada a um centro administrativo estadual, moderna, enfim, era a única chance de superação
possível. Seu discurso não cessou de aparecer; primeiro, na lavra dos intelectuais goianos do
período, a maioria também envolvida na construção de Goiânia e, depois, impregnando a crônica
urbana, a poesia e os estudos acadêmicos. É, afinal, a história oficial da cidade e do estado. Mas é
uma história que pouco revela, na visão de Sandes (2001: 22),
[...] sobre o campo político e cultural interno ao mundo goiano. Talvez esse
silenciamento resulte da dificuldade de leitura de uma história distante dos marcos
nacionais e presa a uma temporalidade relacionada ao cotidiano, à economia de
subsistência, ao lento ritmo das viagens e à raridade dos acontecimentos
excepcionais.
Se pensado em relação ao espectro ampliado da nação, a nova capital goiana poderia ser,
principalmente, pela sua localização geográfica no centro do território brasileiro e pela ousadia
daqueles que a construíram, o amalgama que faria desaparecer o abismo que dividia a pátria em
Goiânia, foi momento fundamental para a construção da identidade goiana. Nasr Fayad Chaul (1998) chega a afirmar
categoricamente que, depois de trinta, sobreveio a goianidade. Antes, só a goianice. Na goianidade, a positividade de
Goiás, o orgulho de ser goiano, das tradições, da história, das festas, do passado-sempre-presente. Na goianice, a
jequice, o caipirismo em suas múltiplas versões, a negatividade do sertanejo, a memória do abandono, do isolamento,
da decadência e do atraso que marcaram, para sempre, a história de Goiás e de seu povo. Marcas profundas e
duradouras que, de acordo com esta percepção, o surgimento de Goiânia e sua vinculação ao nacional vieram atenuar.
3
Relatório enviado a Getúlio Vargas em 1933, no qual o interventor goiano informava a situação em que se achava o
estado de Goiás, relatava os feitos realizados após 1930 e, sobretudo, justificava a construção de uma nova cidadecapital com base na inadequação da cidade de Goiás. Preservado n o Arquivo Histórico Estadual, em Goiänia/GO.
4
Embora a denominação institucional da antiga capital estadual seja Cidade de Goiás, a população goiana faz uso de
outras designações tais como: simplesmente Goiás como o fez, em muitos poemas, Cora Coralina; Goiás Velha, nome
que expressa o processo de ‘destruição’ da centenária capital levado a cabo pelos idealizadores de Goiânia; e Vila Boa,
primeira designação da cidade.
18
sertão e litoral. Tributários daquela que, talvez seja a mais poderosa e recorrente interpretação do
país, os goianos reagiam contra a indiferença e o menosprezo do litoral pelo sertão, constituindo
para sua nova cidade-capital, os sentidos da modernidade e da unidade de um país, desde cedo,
pensado como cisão. Goiânia, cidade plantada no ‘coração do Brasil’, poderia unificar a “[...] nação
feita de espaço” (VIDAL & SOUZA, 1998: 17), esta era a aposta dos que, de Goiás, constituíam os
sentidos da modernidade e do pertencimento para a nova cidade-capital estadual. Neste sentido, a
expansão da simbologia do coração, forjada a partir dos relatos das viagens de Auguste SaintHilaire pelas terras goianas no início do século XX, foi uma das estratégias que intelectuais e
Estado regionais mobilizaram para significar Goiás e sua cidade-capital como centro da nação
autêntica possibilitando-lhes tentar uma re invenção do Brasil.
Por outro lado, uma mudança na escala de observação também permite perceber que o
momento histórico do surgimento de Goiânia é simultâneo ao de um intenso processo de discussão
e debates sobre a cultura e a identidades nacionais e momento em que o Estado Nacional
desencadeava agressivas políticas culturais e econômicas no país visando instaurar a modernidade
industrial. A integração nacional era uma das contingências a serem superadas e, para tanto, o
Estado Nacional, particularmente durante o período estadonovista, empenhou-se na criação de
órgãos e políticas que buscavam fazer um diagnóstico do Brasil que não se conhecia – como a
criação do IBGE e a realização de Recenseamento de 1940 - e implementação de políticas de
integração nacional como a Marcha para o Oeste (1938).
Se o retrato de uma nação dilacerada foi forjado pela literatura e enriquecido pelo
pensamento social brasileiro, o modelo de Estado e de nação configurados na República (1889)
reforçou uma estrutura política e cultural na qual a região – povo e território - participava de modo
secundário na construção do nacional. Como se a nação prescindisse da região, uma grande parte
do país ficou subordinada a um único centro dinâmico, formado pelos estados do Rio de Janeiro,
São Paulo e Minas Gerais. Desde então e, especialmente, nas primeiras décadas da República, os
discursos que falam do Brasil e dos brasileiros, quase sempre, se referem a estas partes da nação
deixando como que à margem ou na periferia da história nacional os recantos que, generalizados na
simbologia do sertão, foram representados, em uma retórica da comparação, como antítese da
civilização e do progresso. É esta também, na maioria das vezes, a perspectiva presente no campo
da história da educação.
O estado de Goiás, neste sentido, é representativo de sociedades assim pensadas sendo que a
construção material e simbólica (discursiva) de Goiânia como ícone da modernidade no sertão e
símbolo da unidade nacional pode ser considerada tributária da ideia de desaparecimento ou
incorporação do mundo sertanejo. Em função disso e consideradas as premissas emanadas do
centro nas quais a escolarização da sociedade brasileira é momento decisivo na constituição da
19
nação; pensadas as representações e imagens projetadas do sertão como lugar do atraso e da
barbárie; perspectivadas, enfim, as relações de desigualdade entre as diversas sociedades regionais
brasileiras, considero fundamental compreender o processo de afirmação da escola em sociedades
periféricas na vida nacional - como a goiana - e as formas através das quais suas instituições
escolares se posicionaram frente ao desafio de contribuir para que uma região tão invisibilizada se
reconhecesse e fosse reconhecida como nação.
A partir desta perspectiva, proponho questionamentos acerca da relação nação-região e seus
possíveis impactos no campo educacional: como sociedades regionais que integram uma nação
estruturada em função de um centro dinâmico do qual se encontram afastadas construíram e
constroem identidades? De que estratégias e táticas se valeram as populações de regiões opacas e
longínquas para constituir-se nação? De que formas leram a experiência do centro, como dela se
apropriaram e ao fazê-lo, como constituíram sentidos e significados acerca do espaço onde
habitavam e do tempo em que viviam? Como (re) elaboraram dispositivos discursivos
identificando-se, assim, com determinadas linhas de pensamento, adaptando-as a interesses
pessoais e coletivos?
Em uma aproximação à história da educação, a questão principal me parece dizer respeito às
formas através das quais a escola foi se afirmando, nestas sociedades, enquanto instituição
vinculada às ideologias e premissas emanadas do centro e, ao mesmo tempo, inserida em regiões
invisibilizadas e distantes dos fluxos econômicos, culturais e políticos deste mesmo centro. Como
os discursos formulados no centro da nação ensejaram ações e justificaram iniciativas, notadamente
no campo da educação escolar? Que papéis assumiram as escolas da cidade-capital goiana no
momento do seu aparecimento na história brasileira? Particularmente interesso-me pelos modos e
formas como as escolas da jovem capital goiana reagiram ao dilema nação-região no período em
que as ânsias desejosas de pertencimento da intelectualidade goiana configuravam, para a cidade,
uma simbologia de modernidade, pertencimento e unidade nacional.
Minha hipótese é que, impregnado das ideologias e premissas emanadas do centro, o campo
educacional goianiense5 assimilou características da modernidade pedagógica6 que empolgava as
5
Estou denominando campo educacional de Goiânia o conjunto de instituições escolares que, naquele momento,
surgiram na cidade-capital goiana. Entre as mais importantes estão o Jardim de Infância Modelo, os grupos escolares
Modelo e Pedro Ludovico Teixeira, o Liceu de Goiânia, a Escola Técnica Federal, a Escola Normal Oficial e a
Faculdade de Direito de Goiás. Também se agregam a este conjunto, o órgão oficial de gestão e administração escolar,
a Diretoria da Instrução Pública do Estado de Goiás, e o veículo de difusão do ideário educacional assumido pelo
Estado, Revista da Educação do Estado de Goiás. Entendo, contudo, que um campo é formado por algo mais que a
materialidade das instituições e, neste sentido, o conjunto de saberes, técnicas, normas e regras que subsidiavam e
inspiravam discursos e práticas também se constitui como parte do campo educacional goianiense.
6
É importante frisar, entretanto, que, desde 1916, o governo estadual efetivou mudanças que, embora pouco alterasse
as condições do precário sistema público de educação escolar, introduzia elementos da modernidade pedagógica em
Goiás. Em especial, duas grandes reformas educacionais – em 1918 e 1930 (antes da eclosão do Movimento de Trinta)
– instauraram a modernidade pedagógica na escola goiana. Merece ainda destaque a criação do Palácio da Instrução na
20
elites nacionais (educação ativa, escolanovismo, criação de um sistema público de educação
escolar, formação de professores, prédios e mobiliário específicos, entre outras). Mas, constrangido
pelo lugar de desimportância reservado à região no espectro da nação, realizou sobre elas
deslocamentos e apropriações singulares, as quais foram influenciadas pela promessa de
modernidade e pertença que permeou a construção da nova cidade-capital goiana. Penso que tais
deslocamentos e apropriações e, em conseqüência, a multiplicidade de papéis assumidos pelas
escolas de Goiânia transformou-as em sujeitos privilegiados da cena urbana no período em questão,
possibilitando forjar culturas escolares singulares (VIÑAO FRAGO, 2001).
Tal interesse acabou por circunscrever a abordagem ao objeto de estudo delimitando seus
contornos e impondo escolhas teóricas e historiográficas lançando-me à dimensão simbólica da
constituição da região em sua relação com a nação e, no seu interior, ao projeto de escolarização da
sociedade brasileira. Considerando a centralidade da educação nos debates sobre a construção da
nação que naquelas décadas empolgavam elites e Estado em suas dimensões nacionais e regionais,
o interesse se re-elaborou na busca de compreensão sobre o papel e o lugar das escolas na cena
urbana de Goiânia no momento em que a cidade-capital foi significada por seus intelectuais como
ruptura com o passado e como promessa de progresso, civilização e pertença à nação.
É necessário não perder de vista que nas décadas de 1930 e 1940, a ideia da construção da
nação assumiu conotações particularmente singulares na medida em que a necessidade de
modernizar o país tornou-se, com a ascensão de Getúlio Vargas, uma prioridade do Estado
Nacional. Mas, como modernizar uma nação dilacerada em sertão e litoral, em campo e cidade? No
contexto da euforia modernizante da Era Vargas, a grita pela unidade e integração nacional se
configurou como uma urgência da qual não era mais possível fugir sendo o desaparecimento do
sertão, uma de suas faces mais evidentes. A questão do mundo rural se impunha e a urbanização
aparecia como remédio para o dilaceramento da nação. Do mesmo modo, se colocava a necessidade
de colonizar o oeste brasileiro dado as propagadas potencialidades econômicas das terras de Goiás,
Mato Grosso, Amazonas e Pará.
Trabalho com a ideia que, em função da sua complexidade, o projeto de integração nacional
somente pode ser compreendido historicamente se levarmos em conta a questão regional. Não basta
inseri-lo no contexto da nação entendendo que seu principal propositor e executor foi o Estado
Nacional, o qual foi sustentado pela nação imaginária forjada pelo pensamento social brasileiro. É
essencial realizar uma mudança de enfoque. Mais precisamente, uma redução da escala de
observação, como propõe a micro-história que permita uma inversão da análise e afaste as
Cidade de Goiás (1929) e a presença da Missão Pedagógica Paulista que efetivou uma reforma educacional, promoveu
cursos de aperfeiçoamento para professores e dirigiu a Escola Normal Oficial. Os professores paulistas também se
responsabilizaram pela produção da Secção Pedagógica, suplemento publicado no Correio Official do Estado de Goiaz
(ALVES, 2007; BRZEZINSKI, 1987; CANEZIN & LOUREIRO, 1994; NEPOMUCENO, 1994; SILVA, 1975).
21
definições globais, as sínteses globalizadoras ou as simplificações históricas que se têm revelado
incapazes de compreender a complexidade dessa realidade (ESPADA LIMA, 2006).
A redução ou alternância de escala torna possível perceber que a par das políticas de
integração levadas a efeito pelo Estado Nacional e alimentadas pelo pensamento social brasileiro,
as diversas unidades federativas se empenharam sistematicamente para integrar-se à nação e
contribuir para o engrandecimento da pátria. Tal possibilidade se mostra relevante na medida em
que permanece, pelo menos parcialmente, desconhecido o impacto de certas correntes de
pensamento7 nas regiões brasileiras vistas como incompletude e ausência e os esforços daí
derivados para inserir-se na nação buscando, inclusive, um lugar de saliência8 entre os estados
federados, Por isso, a alternância na escala de observação - o partir da região em direção à nação –
implicou em uma recolocação dos questionamentos rumo à busca de compreensão sobre como as
ideologias do progresso, da civilização e da modernidade impactaram no nível regional e
desencadearam, principalmente por parte de suas elites, um projeto político e cultural capaz de
inserir a região na nação e de garantir-lhe a relevância.
É neste projeto de integração e unidade nacionais que a construção de cidades-capitais
planejadas9, da qual Goiânia é paradigmática, se constitui como marco fundamental de um
momento em que também a escola foi expandida adquirindo um importante significado social e
cultural. Naquele momento em que a construção da nação e de busca de unidade nacional
empolgava intelectualidade e Estado nacionais, aqueles que compunham a elite intelectual goiana
se viram como participantes privilegiados – afinal, habitavam o ‘coração do Brasil’ -, e
relacionaram também urbanização e escolarização. Por isso, interessa-me historiar a escola que
surgiu em Goiânia no período 1937/1945, privilegiando as relações entre a cidade e a escola10.
7
Como a interpretação dualística do Brasil e as ideologias do progresso e da civilização.
A expressão saliência é frequentemente encontrada nos discursos formulados por políticos e intelectuais goianos no
período 1930/1940 para se referir à busca de uma posição destacada para o estado no rol das unidades federativas da
República. O interventor Pedro Ludovico Teixeira fez uso da expressão no relatório encaminhado ao Governo Federal,
em 1933 quando afirmou: ‘Uma capital acessível, que irradie progresso e marche na vanguarda [...] é o que o Estado de
Goyaz necessita absolutamente para reivindicar, no seio da Federação, o lugar de saliência que seus imensos recursos
[...] já lhe teriam conquistado, sem dúvida, se a Capital atual não lhe tivesse estreitado os horizontes e embargado os
impulsos de engrandecimento’. (Grifo meu)
9
Refiro-me, especialmente, à construção de Goiânia (1942), Brasília (1960) e Palmas (1989), cidades que, num período
de mais ou menos sessenta anos, transformaram radicalmente o sertão goiano, inclusive, em sua dimensão geo-espacial
uma vez que o surgimento destas capitais motivou ou foi motivado pela criação de novas territorialidades (Distrito
Federal e Tocantins) e identidades regionais, como a brasiliense e a tocantinense.
10
O campo da história da educação tem produzido um considerável conjunto de estudos que tomam as relações cidadeescola como ponto de partida para a compreensão histórica da escolarização da sociedade brasileira. Os trabalhos de
Clarice Nunes (1993), Luciano Mendes de Faria Filho (2000, 2005), Rosa Fátima de Souza (1998), Tarcisio Mauro
Vago (2002), Cynthia Greive Veiga (2002), entre outros, são especialmente relevantes na medida em que tematizam
esta relação no momento histórico em que a construção da nação e a sua inserção na modernidade industrial e urbana
apareciam como um dramático imperativo para as elites dirigentes brasileiras. Estes trabalhos servem como referência
historiográfica para esta tese.
8
22
Tomo como referência os estudos11 que, no campo da história da educação no Brasil, tem destacado
o significado das relações entre o escolar e o urbano na constituição dos sistemas escolares públicos
de diferentes cidades brasileiras, em especial das chamadas cidades-capitais.
Nestes estudos, tem-se evidenciado o caráter educativo da modernização das cidades
brasileiras, notadamente, voltado para a difusão de códigos de civilidade e urbanidade e para a
construção de um espírito de emulação considerado necessário à vida capitalista que estas cidades
vieram impulsionar. Afinal, não é difícil perceber o quanto as modernas cidades em que vivem a
grande maioria dos brasileiros pautam seus tempos e ritmos pelos tempos e ritmos da escola. O
tempo das aulas, o horário dos turnos escolares, o período de férias, o ir-e-vir de crianças e
adolescentes uniformizados pelas ruas e praças, a confusão de pais e mães nas portas das escolas, os
desfiles, as feiras e competições escolares, entre outras coisas são, muitas vezes, parâmetros que
definem muitos aspectos da vida nas cidades ajudando a conferir-lhes uma identidade tipicamente
urbana.
Por sua vez, a cidade moderna adentra a escola ditando comportamentos, usos e interdições
requeridas pela experiência citadina. Ela requer, por exemplo, que seus habitantes dominem a
escrita e tenham a capacidade de leitura de símbolos gráficos que são fundamentais para atividades
que vão desde as mais prosaicas, como aquelas envolvidas com necessidades de orientação espacial
pela urbs, até as mais complexas como aquelas ligadas ao mundo do trabalho e da cultura erudita.
Ler, escrever e contar! Mais que isso, a cidade fornece à escola um manancial de modos de ser, agir
e pensar fundados na ótica da civilidade e urbanidade que, uma vez pedagogizados, servem como
modelos para a aprendizagem social e para a definição da moralidade dos estudantes e de seu meio
social (VAGO, 2002; VEIGA, 2002; NUNES, 1993).
Temática razoavelmente desenvolvida pela pesquisa em história da educação, as relações
entre o urbano e o escolar no Brasil parecem ter sido mediatizadas pelos esforços em direção à
construção da nação. As pesquisas revelam também que, em diferentes regiões do Brasil, o
processo de urbanização e de escolarização da sociedade brasileira não seguiu o mesmo ritmo nem
ocorreu no mesmo momento histórico. Deste modo, se é possível perceber identidades,
regularidades e similaridades existem também profundas e significativas diferenças entre estados e
regiões brasileiras na medida em que, entre outras coisas, em função do seu lugar entre as unidades
federativas a urbanização e inserção nos modos de vida civilizada não ocorreram de maneira linear,
guardando importantes particularidades.
11
Parte expressiva desta produção tem sido divulgada e discutida nos congressos da Sociedade Brasileira de História
da Educação (SBHE), no GT História da Educação da Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação
(ANPED) bem como em reuniões e eventos científicos no campo mais ampliado da história nacional e sul-americana.
Por esta razão, o acervo composto por estas entidades, em anais científicos, sites e coletâneas de textos publicados sob a
forma de livros, se constituem em importantes referências já que, entre outras coisas, possibilitam o estabelecimento de
comparações e descomparações entre as distintas histórias da educação no Brasil.
23
Alguns autores têm alertado para a necessidade de considerar a relação escola-cidade a
partir da noção que para cidades diferentes também as escolas se fazem diferentes (FARIA FILHO,
2005; NUNES, 1993). É que, embora inseridas no mesmo processo de transformação nacional e
guiadas pelas mesmas ideias-mestras (nacionalismo, modernidade, construção da nação),
compartilhando, portanto, um estoque comum de tradições interpretativas e expectativas de futuro,
as cidades brasileiras são também produzidas no interior da vida regional. Por isso, mantém
estreitos vínculos com a história, com a cultura, com a geografia e com a economia das regiões
onde surgem. É necessário, então, estar atento para a não existência de um padrão único no
entrelaçamento escola-cidade, como alerta Luciano Mendes de Faria Filho (2005: 31), ao ver em
fenômenos como “[...] o da constituição do capitalismo e da industrialização, da religião e das lutas
religiosas, das formações culturais e sociais as mais diversas [...]”, aspectos que devem mediatizar
as reflexões sobre as relações entre o urbano e o escolar.
Ao se considerar a diversidade regional brasileira bem como as vicissitudes da integração
destas regiões à nação podem ser notáveis as singularidades encontradas na estruturação de seus
sistemas escolares bem como sofisticadas as formas de relacionamento inter-regionais. Acrescento
ainda a dimensões elencadas por Faria Filho (2005), a que contempla os medos e desejos, às vezes
não reconhecidos, dos indivíduos e das sociedades e seu potencial para a mobilização, para a
mudança e para a transformação. Como afirma Bensa (1998: 65) a respeito da pertinência do jogo
de escalas, “a aldeia, a região ou a nação não podem ser apreendidas nas mesmas condições nem
dar lugar ao mesmo tipo de raciocínio”.
Clarice Nunes (1993: 01), por sua vez, afirma que ao ignorarmos a impregnação da cultura
urbana no espaço escolar podemos produzir explicações nas quais o espelhamento de um modelo de
cidade sobre outras acaba acarretando o “[...] estreitamento de nossa compreensão sobre o
movimento contraditório de gestação do moderno, a homogeneização violenta dos espaços sociais e
culturais e o esmagamento de tempos e experiências históricas diferentes num país tão plural”. A
inexistência de um padrão único no entrelaçamento entre escola e cidade é o elemento que suscita
as inquietações do pesquisador, exigindo uma ampliação no estudo da história da educação. Tendo
em vista as singularidades do processo de incorporação das diferentes regiões brasileiras ao
espectro da nação, é preciso captar as aproximações e distanciamentos entre os modos de fazer a
educação escolar no Brasil.
A construção de Goiânia me parece representativa de iniciativas regionais que confluem na
busca pela modernidade – urbana, pedagógica, cultural, política - como condição para o alcance da
pertença ao nacional. A hipótese aqui aventada é que o aparecimento de Goiânia na cena da nação e
toda a simbologia daí derivada devem ser vistos muito mais como resultado do esforço e do
empenho dos goianos em direção ao pertencimento de Goiás à nacionalidade e à sua entrada na
24
modernidade do que como resultado de iniciativas e políticas do Estado Nacional. É exatamente a
intensidade do trabalho dos homens e mulheres que construíram as representações da modernidade
e do pertencimento para Goiânia que me instigaram a compreendê-la e à suas escolas, não somente
a partir do ponto de vista de seu desenvolvimento econômico e de seu papel político, mas
considerando também outras dimensões constitutivas da sua realidade como o amplo espectro dos
desejos, sentimentos e sonhos daqueles que idealizaram e participaram da construção de uma nova
cidade-capital para o estado na década de 1930.
Neste sentido, a ótica micro-histórica apresentou-se como perspectiva capaz de iluminar
objetos periféricos como as culturas e sujeitos regionais, o urbano no rural e o rural no urbano. Ao
sinalizar para esta perspectiva, considero importante demarcar o ponto de vista que me permite
enfocar os sujeitos que construíram histórica e discursivamente a cidade de Goiânia neste recorte:
eles não podem, em uma análise puramente econômica e política, serem considerados como ‘gente
modesta’ uma vez que compunham a elite cultural, econômica e política da região. Deste ponto de
vista, eles seriam, sem dúvida, ‘os de cima’. No entanto, a posição subalterna do estado de Goiás e
de seus políticos e intelectuais nos quadros da nação brasileira permite recolocá-los em outro lugar,
configurando-os como ‘os de baixo’. Assim, o critério que utilizo para assim qualificá-los sustentase em um recorte que reconhece uma hierarquização dos sujeitos históricos brasileiros no processo
de construção da nação e na esfera do pertencimento ao seu espectro e, portanto, uma ‘hierarquia de
importâncias’ na escrita de história do Brasil.
Cabe ainda ressaltar que o que a proposta de um jogo de escalas no estudo da história da
educação em Goiânia não compartilha a perspectiva desta ‘hierarquia de importâncias’ nas
problemáticas históricas, como alerta Jacques Revel (1998). A ideia não é fazer uso da escala
regional para narrar uma história da região estabelecendo oposições e hiatos entre esta história e a
história da nação. Ao contrário, pretendo perceber como a experiência goiana na construção da
cidade-capital e da escola nos anos 1930/1940 participou do projeto de modernidade nacionalista
que o Brasil vivenciou nas primeiras décadas do século XX. Afinal, nas palavras de Revel (1998:
28):
[...] cada ator histórico participa, de maneira próxima ou distante, de processos – e,
portanto se inscreve em contextos – de dimensões e níveis variáveis, do mais local
ao mais global. [...]. O que a experiência de um indivíduo, de um grupo, de um
espaço permite perceber é uma modulação particular da história global. Particular e
original [e não] uma versão atenuada, ou parcial, ou mutilada, de realidades
macros sociais.
No campo da história da educação, esta abordagem pode contribuir para a compreensão da
escolarização no Brasil a partir de ‘uma dialética da colonização’, conforme expressão de Alfredo
25
Bosi (1992), no processo de integração nacional, fazendo esvanecer certas imagens associadas ao
colonizado como passividade, cópia, imitação, entre outras, que ainda são dominantes no
imaginário social. Ao fixarmos os olhos no regional, estabelecendo suas relações e vinculações com
o nacional, podemos também compreender como os locais se posicionaram frente às políticas
nacionais e às investidas do mundo capitalista ressaltando como aderiram ou resistiram ao projeto
de transformação de seu mundo.
O caso de Goiânia se mostra singular, então, a partir da construção material e,
principalmente, simbólica da cidade. Nesta construção, se evidenciam as tentativas de inserir Goiás
na nação, conferindo-lhes relevância entre as unidades federativas. Os discursos dos intelectuais
goianos que constituíram os sentidos dominantes para a cidade são a expressão mais sofisticada das
tentativas de uma (re) invenção histórica: a de tornar centro o que, sociologicamente, era periferia.
Destes discursos, emana um inegável entusiasmo com a nova cidade-capital goiana e um semnúmero de metáforas mobilizadoras de sentidos sendo que, através deles, Goiânia foi apresentada
como o ponto de fusão da nação dilacerada; o lugar e o momento em que a pátria cindida seria
unificada; ‘o cadinho onde se unem sertão e litoral’.
Mas, parafraseando Mello (2006), embora possa parecer um contra-senso “[...] faz sentido
afirmar que é mais fácil falar de Paris, Roma ou de qualquer outra cidade européia do que de
Goiânia.” Uma breve incursão pela literatura acadêmica e científica nos campos da história e das
ciências políticas permitiu-me perceber que as ligações de Goiânia com o projeto de unificação
nacional não foram registradas na escrita da história do Brasil com a ênfase a ela conferida pelos
goianos. Nos arquivos da era Vargas preservados no Centro de Pesquisa e Documentação da
Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) há poucas referências sobre as relações entre Goiânia e a
Marcha para o Oeste12. Já nos livros ou capítulos de livros, artigos em revistas especializadas,
biografias e autobiografias de personagens nacionais da era Vargas não se menciona a vinculação
entre Goiânia e Estado Nacional, ou mais precisamente, não se mencionam as relações entre a nova
capital goiana e o projeto de unificação nacional13.
Onde, então, a importância atribuída pelos intelectuais goianos para a cidade à época de seu
12
Programa do governo varguista que objetivava a ocupação produtiva do oeste brasileiro, oficialmente lançado na
inauguração de Goiânia, em 1942. O fundamento teórico e ideológico deste programa era o livro de Cassiano
Ricardo, Marcha para o Oeste (1940).
13
Apesar da obsessiva referência, nos discursos de Vargas, à unificação nacional e conquista do oeste, para os
estudiosos do período, a cidade que Vargas deixou ao Brasil foi Volta Redonda, no Rio de Janeiro (LEVINE, 2001).
Goiânia também não é citada nas discussões acerca da arquitetura art déco, estilo que foi o mais utilizado no Brasil nos
anos 1930 e 1940 e nem nas pesquisas e estudos que tratam da história da urbanização da sociedade brasileira. Muitos
estudos tratam da ‘ida ao oeste’, em especial, os de Esterci, N. O mito da democracia no país das bandeiras, Rio de
Janeiro: PPGAS/Museu Nacional, 1972 (dissertação de mestrado) e o de Velho, O.G. Capitalismo autoritário e
campesinato. São Paulo: Difel, 1979. No campo da geografia, podem ser citados ainda: Moraes, A.C.R. Ideologias
geográficas: espaço, cultura e política no Brasil. São Paulo: Hucitec, 1991 e Diniz Filho, L.L. Território e destino
nacional: ideologias geográficas e políticas territoriais no Estado Novo (1937-1945). São Paulo: USP, 1993
(dissertação de mestrado).
26
surgimento? Seria apenas o resultado da retórica de exageração, tão comum nos discursos dos
goianos quando falam de Goiás? O esforço civilizatório representado pela construção da nova
cidade-capital de Goiás pode ser compreendido como algo mais que uma ação política e cultural
que tentava uma superação histórica estritamente regional. Tentou-se, na verdade, configurar um
lugar de poder para Goiás e para os goianos no projeto de construção da nação para, a partir daí,
reinventá-la. Ansiosos por participar da tarefa que mobilizava amplos setores da vida brasileira nas
primeiras décadas do século XX, qual seja a construção da nação14; conscientes que, além de fazer
a cidade, era preciso dizer Goiânia; convictos de que, por sua localização geográfica no centro do
país, a nova capital goiana tinha um sentido claramente nacionalista e patriótico; orgulhosos de sua
iniciativa e convencidos de que tinham um lugar importante nos destinos do Brasil, os intelectuais
envolvidos com a cidade se utilizaram de táticas discursivas que exageraram o impacto do
aparecimento de Goiânia na cena nacional.
Mas é necessário também indagar se o silenciamento acerca do surgimento de Goiânia nas
décadas de 1930 e 1940 seria efeito e conseqüência de uma história que se conta tomando (uma)
região pela nação? Ou, em outras palavras, este silenciamento poderia ser inscrito na perspectiva da
hierarquia de importâncias que se configurou na história nacional15? Ao olhar para a história do
Brasil, não se encontra menção ao momento em que os de Goiás afirmavam que a nação reconhecia
e aceitava aquela distante região. Contudo, as fontes de pesquisa dizem que, naquele momento e
ainda que por um raro e fugidio instante, as elites intelectuais da nação e o Estado Nacional
comungaram, com os goianos, a euforia de Goiânia, se apropriaram dos discursos formulados pela
intelectualidade e Estado regionais efetivando também práticas que reforçaram os sentidos da
modernidade, do pertencimento e da unidade nacional para a nova cidade-capital de Goiás.
Este breve momento foi concretizado na realização do VIII Congresso Brasileiro de
Educação, evento promovido pela então prestigiosa Associação Brasileira de Educação (ABE) em
junho de 1942, no chamado Batismo Cultural de Goiânia, o que fazia com que a educação dos
brasileiros se constituísse no laço que atava expectativas e interesses da nação e da região.
Discutindo a educação rural em plena Capital do Sertão, o Congresso da ABE teria significado que
14
A construção da nação a partir de Goiás foi recorrente entre os goianos, sobrevivendo até muito depois do surgimento
de Goiânia sendo que a edificação de Brasília, nos anos 1960, também se constituiu em momento singular desta quase
obsessão. As palavras de J.G. Queiroz, em 1969, são significativas do sentido dramático, até mesmo épico que os
goianos atribuíam a sua obra em prol da nação. Note-se as palavras grifadas, pelo autor, com inicial em letras
maiúsculas (Anafalbetismo, Ler, Livro) que sinalizam para as vinculações deste esforço com a necessidade de educar o
povo goiano. Ei-las: ‘Getúlio gritou Goiás, e Goiânia respondeu. Goiás acordou e corre, sob as botas de Bernardo
Sayão, que derrubou matas, derrubaremos o Anafalbetismo. Ensinou a tratorar, ensinaremos a Ler. Levava um
machado, levaremos um Livro; [...] nós viveremos, até morrermos, construindo Goiás para o Brasil’. (Grifos meus). In:
QUEIROZ, J. G. Evolução cultural de Goiás. Goiânia/GO: Ed. UFG, 1969, p. 23.
15
Encontrei esta expressão em O tempo saquarema (2004). Seu autor, Ilmar R. Mattos, a utiliza para designar a
intensidade da retórica daqueles que, no período Imperial, procuravam explicar o Brasil. Encontrei-a também em
autores goianos, como Noé Freire Sandes (2001).
27
a nação reconhecia o esforço civilizatório dos goianos e, através dele, enxergava a capacidade
criativa e operatória do sertanejo, a época, erigido símbolo da autentica nacionalidade? As
abordagens mais recorrentes no campo da história da educação não possibilitam obter respostas a
esta indagação já que poucos estudiosos deste campo abordam o Congresso de Goiânia.
Os congressos nacionais da Associação Brasileira de Educação constituem tema
razoavelmente presente nos estudos que abrangem as décadas iniciais do século XX. O registro e a
escrita do Oitavo Congresso da ABE, entretanto, são esparsos e descontínuos dele se encontrando
poucos indícios, o que provoca ainda maior estranhamento dada a evidência que o período 19301945 constitui momento privilegiado na historiografia de educação brasileira sendo incontáveis os
pesquisadores que se dedicam a ele. Somente encontrei textos de Adônia Antunes Prado que tomam
Oitavo Congresso da ABE como objeto específico de estudo e análise. Para esta estudiosa (1995:
11), o este evento assumiu “grande importância para o Estado Novo e seus intelectuais”.
O que desejo ressaltar é que, apesar da importância de Goiânia no processo de conquista
produtiva e cultural dos sertões do oeste brasileiro, apesar da relevância do Congresso da ABE no
projeto de educação estanovista, apesar do entusiasmo que o Estado Novo e seus intelectuais
demonstravam, o aparecimento da nova cidade-capital goiana na vida nacional é pouco estudado no
campo da história da educação e, de modo geral, do urbanismo, da arquitetura e das cidades ou no
espectro mais amplo da história do Brasil. Mesmo entre os historiadores goianos o Congresso – e,
de modo geral, a história da educação na nova cidade-capital - não tem chamado atenção e
merecido estudos aprofundados. Ressalte-se, porém, que a história de Goiânia parece ter também
passado por significativos processos de apagamento que somente a partir do final da década de
1980 começaram a ser superados.
O caso do urbanismo e da arquitetura é representativo, inclusive, porque o patrimônio
tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) constituiu-se no
maior acervo art déco reunido do país. Segundo a arquiteta Tânia Daher (2003), desde 1945 até a
década de 1970, há uma lacuna temporal significativa em que não foram produzidos estudos
acadêmicos sobre o projeto urbanístico ou sobre a arquitetura art déco de Goiânia. Órgãos públicos
e privados e instituições de educação superior não haviam se dedicado a este assunto. Esta mesma
autora afirma que, por volta dos anos 1970, nos arquivos e museus de Goiânia nem mesmo obras de
grande valor histórico poderiam ser encontradas. A partir dos anos 1980, esta situação começou a
ser alterada no campo da arquitetura e do urbanismo e, depois, também no campo da análise
sociológica e histórica sendo que, nestes estudos, predomina a ideia de Goiânia como marco da
expansão capitalista do início do século XX, a qual é ressaltada por abordagens pautadas na historia
econômica e política da cidade-capital.
Os sentidos da modernidade da cidade-capital predominam no ensino da história na cidade e
28
do estado de Goiás e, dadas sua força e pregnância, a construção simbólica que tornou Goiânia um
ícone da modernidade sertaneja e da unidade da nação é o elemento que oferece as maiores
dificuldades para a escrita da história da educação da cidade-capital uma vez que torna opacas as
fontes de pesquisa. É que os sentidos da cidade, cunhados e consolidados pelos intelectuais e
políticos daquela geração, foi assumida por (praticamente) todos os que falaram ou falam sobre a
cidade, subsidiando interpretações recorrentes, impactando na produção simbólica e no campo
social, principalmente, das elites goianienses. Os estudos acadêmicos, notadamente, na sociologia e
na história também a assimilaram contribuindo para consolidar a ideia de que Goiânia foi o
momento em que Goiás começou a superar a decadência e o atraso. Todo o passado foi como que
re significado. Oliveira (2004:16) comenta, a respeito, que “[...] para a historiografia goiana, o
século XIX, é tido como um hiato, em que a decadência tornou-se responsável pela ausência.”
A historiografia goiana só muito recentemente começou a revisitar estes conceitos e o uso
que deles foi feito, questionando até que ponto eles se mostram como ‘invenção histórica’ que,
ideologicamente, serviu para legitimar a conformação desigual das regiões brasileiras e que foi
utilizado também em Goiás para justificar, primeiro, a inércia do Estado oligárquico16 e,
posteriormente, a construção de Goiânia. As questões que pontuam esta revisão partem da ideia de
que, em Goiás, havia algo além daquilo que o conceito de decadência representou e procura
compreender o quanto, realmente, existia de ausência na sociedade goiana (CHAUL, 1997). E se
havia ausência, como ela pode ser qualificada? Enfim, o que era esta ausência? Até que ponto a
decadência, o atraso? Até onde a falta de cultura e educação, quais as formas culturais e de
produção econômica que ali circularam no longo tempo que ficou configurado como um tempo sem
história (CHAUL, 1997)?
De qualquer forma, o poder de impregnação e o predomínio quase absoluto desta construção
histórica fazem com que as fontes de pesquisa disponíveis não se mostrem transparentes, mas
borradas e opacas, o que me leva a necessidade da construção de dispositivos de leitura que me
permitam operá-las criticamente, questionando meu próprio envolvimento com a interpretação. Tais
dispositivos se mostram como uma necessidade imperiosa, inclusive, pelo fato da minha história
pessoal ser atravessada por esta representação da cidade-capital goiana. A Análise de Discurso
(AD), na concepção de Eni Orlandi (2003), se mostra como inspiração para o alcance deste objetivo
na medida em que seus pressupostos teóricos assentam-se, exatamente, na não transparência da
linguagem e na necessidade de construir dispositivos que possibilitem uma leitura crítica dos
discursos.
16
Segundo Francisco Itami Campos (2003: 111), a situação de Goiás “[...] era percebida por políticos goianos e até
mesmo conscientemente mantida pelos chefes mais expressivos da política estadual [...]” como estratégia de conservar
e até mesmo fortalecer seu poder na região.
29
O campo de pesquisa, o interesse em escrever a historia social da educação goianienses e a
demarqué temporal – o campo educacional da jovem cidade-capital de um estado periférico e
estigmatizado como deserto nos efervescentes anos em que se intensificaram as lutas em prol da
construção da nação, inclusive, em sua esfera lingüística17 - requerem o privilégio de uma análise
fundamentada na dimensão do discurso. Mas, como estudar a história da educação em Goiânia
através dos discursos que sobre a cidade foram formulados? Como acessar a história dos sentidos
da cidade sem, no entanto, secundarizar a concreticidade da experiência? E como, a partir dos
sentidos da cidade, encontrar o lugar das instituições escolares da nova cidade-capital, inquirindo
sobre os modos como e se tais sentidos foram, por eles/neles, materializados ou confrontados?
É importante que seja dito que opero com a AD assumindo a posição e a identidade de
historiadora da educação, o que me obriga a estabelecer as tensões existentes entre a história e a
análise de discurso, suas aproximações e distanciamentos na perspectiva de encontrar um espaço de
possibilidades de análise que, ao mesmo tempo em que privilegia os discursos, não secundariza a
realidade a que eles se referem. É preciso não perder de vista que, entre a imagem da realidade
projetada pelos discursos e a realidade social experienciada por sujeitos históricos não há
propriamente uma similaridade, mas, como comenta Ferrara (1993:25), há “[...] ao contrário, uma
perversão do objeto, visto que se projeta como imagem algo que não é, mas deveria ser [...]”.
Na condição de linguagem, as imagens projetadas pelos discursos falam de símbolos
representativos de uma aparência que é concreta e ideologicamente construída, mas não
necessariamente similar à realidade onde vivem os sujeitos em seu cotidiano e em seus modos de
vida. Embora não se possa negar que a linguagem é essencial, é também necessário lembrar, como
afirma Falcon (2002:90) que “[...] se tudo é linguagem, a linguagem não chega a ser exatamente
tudo. Se a construção da realidade social é eminentemente simbólica, o historiador tem consciência
de que o social não se constitui apenas de símbolos” (grifo do autor).
Por esta razão, no horizonte dos objetivos colocados pela história e pela análise de discurso,
é imprescindível ter clareza de suas diferenças: se a AD se interessa por como os discursos
funcionam constituindo sentidos, a história se volta também para a identificação de quais discursos
17
Nas décadas 1930 e 1940, a questão da língua nacional se impôs por seus vínculos com a formação de uma
identidade para o Brasil e para o brasileiro. Os debates confluíram, conforme Dias (1996) para um dilema histórico e
lingüístico: o idioma nacional devia ser denominado ‘língua portuguesa’ ou ‘língua brasileira’? Como os livros
didáticos deveriam referir-se à língua praticada pelos brasileiros? Eram estas as questões, entre outras, que compunham
o debate que foi objeto de projeto de lei municipal no Distrito Federal, em 1935, estando presente também nas
discussões da Constituinte de 1946. Luiz Francisco Dias (1996: 74) afirma que o dilema da designação da língua
nacional “[...] aproximava um imaginário do idioma de um imaginário social e, por esta via, de um imaginário de
nação”. Nesse caso, duas concepções opostas e complementares de nacionalismo traziam visões conflitantes sobre o
Brasil. De um lado, os defensores da denominação ‘língua brasileira’, partiam de uma concepção ufanista do país,
configurando uma 'exaltação patrioteira' que Antonio Cândido (1967) chamou, depois, de nacionalismo ornamental; de
outro lado, aqueles que defendiam a permanência da designação ‘língua portuguesa’, tributários da herança euclidiana,
possuíam uma visão pessimista e cruel da realidade brasileira, especialmente, do seu interior. Este movimento em torno
da definição do nome do idioma nacional está, assim, relacionado às tentativas de formação da identidade nacional.
30
circularam e, particularmente, a história social interessa-se pela questão essencialmente social, qual
seja quem foram os sujeitos que os formularam, como ocorreram suas trajetórias de formação, de
quais redes de sociabilidade participavam, que posições e funções sociais ocupavam, que
constrangimentos, interdições e possibilidades encontraram em suas trajetórias, etc. Ou seja, é
imprescindível encarar o desafio de relacionar, como provoca Chartier (1994), “[...] a construção
discursiva do social à construção social do discurso”.
Especialmente, a análise do discurso na perspectiva proposta por Orlandi não tem por
objetivo decifrar o conteúdo ou o sentido oculto atrás do texto, mas compreender como ocorre o
funcionamento da língua na história e, portanto, como o discurso constitui sentidos. Assim, o que se
pretende sob a inspiração da AD, como a propõe a escola francesa e brasileira, não é precisamente
investigar quais os sentidos constituídos para o urbano, mas como funcionaram os discursos que
acionaram os sentidos da cidade. Ao analista do discurso não interessa a verdade ou falsidade dos
discursos e dos sentidos por eles constituídos; a ele, interessa compreender como a língua funciona
no discurso, produzindo sujeitos e constituindo sentidos. Uma opção como esta implica em que,
para a AD, não há sentido oculto atrás dos textos e não há conteúdos fixos e a priori nos discursos.
Há ainda a evidência que a história da educação em Goiânia é uma história (ainda) pouco
contada. É uma história que aparece subsumida na história da educação no estado de Goiás, daí,
talvez, a dispersão das fontes de pesquisa que ainda não passaram por um processo de mapeamento
e catalogação. Embora fartas, tais fontes têm seu acesso dificultado em razão de estarem dispersas
em vários órgãos públicos e privados. Assim, as fontes disponíveis para este estudo encontram-se
no Arquivo Público do Estado de Goiás18, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) 19,
na Universidade Católica de Goiás (UCG)
(IBGE)
21
20
, no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
, sessão Goiás, no Museu Pedro Ludovico Teixeira22. Há ainda o Instituto Cultural José
Mendonça Telles que preserva um expressivo acervo de fontes para a escrita da história de Goiânia.
Assumi também como fontes algumas biografias e autobiografias, livros de memórias e livros de
18
Acervos contendo o Correio Oficial do Estado de Goiás e dos jornais O Popular e Voz do Povo do período estudado,
além de exemplares da Revista de Educação de Goiás dos anos 1938 e 1939. Documentos oficiais como relatórios
técnicos, leis e decretos, memorandos e circulares do governo estadual estão também preservados neste Arquivo.
19
Um grande acervo foi preservado pelo IHGG, com destaque, para as coleções das revistas A Informação Goyana e
Oeste; livros de grande valor histórico como Goiânia global e Goiânia documentada, de Edgar Graeff; Como nasceu
Goiânia? de Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro e O estranho caso da Escola Normal Oficial: a história de uma
injustiça, de autoria de Amália Hermano Teixeira.
20
Edição fac-símile da Revista Oeste, documentos e fotografias reeditadas pelo jornal O Popular por ocasião do
aniversário de 50 anos da cidade.
21
Mapas e planos urbanísticos de Goiânia, censo demográfico de 1940, coletânea de livros editados para o Batismo
Cultural de Goiânia (1942) composto dos seguintes títulos: Bibliografia geográfica e cartográfica do estado de Goiás
(1942), o Vocabulário Geográfico do Estado de Goiás (1942), o livro Goiânia (1942) e o opúsculo Goiânia: como
surgiu o nome da nova capital do Estado de Goiás (1942).
22
Um significativo acervo de fotografias da jovem Goiânia, dos anos 1930/1940, onde sobressaem as imagens das
obras da capital, os tipos humanos, os prédios e residências, o aspecto das ruas e praças, autoridades políticas e
personagens da vida cultural da cidade.
31
crônicas urbanas. Faço uso igualmente de relatos e narrativas dos chamados pioneiros de Goiânia
que podem ser encontrados em publicações recentes sobre aspectos de sua história.
Os historiadores da educação em Goiás, evidentemente, se referem ao surgimento da cidade,
mas em abordagens que não a tomam como objeto específico de estudo. Ao realizar uma revisão
bibliográfica inicial sobre o tema, causou-me surpresa perceber que as pesquisas que tratam do
período 1930-1945 não parecem contemplar o impacto da construção da cidade-capital no campo
educacional goiano. Persiste, pois, uma ausência relacionada à escassez de estudos e pesquisas
sobre a história da educação em Goiás que voltem sua atenção para o significado da construção de
uma cidade planejada para tornar-se a nova capital do estado nas décadas de 1930/1940.
De certa maneira, esta ausência se inscreve em contextos bastante amplos: o da
desvalorização da história da cidade e o da inexpressiva produção no campo da história da educação
em Goiás. Um inventário desta produção informa que os programas de pós-graduação23 existentes
nas universidades goianas não têm a história da educação como parte orgânica, não existindo
linhas, núcleos e grupos de pesquisa que se ocupem desta temática (SÁ & SIQUEIRA, 2005)
24
.
Neste sentido, intenciono contribuir para o preenchimento desta lacuna na historiografia da
educação em Goiás, ao menos no que tange à natureza do enfoque e à abundância das fontes
utilizadas.
Há, entretanto, alguns bons estudos neste campo como o de Canezin & Loureiro (1994), A
escola normal em Goiás, e Nepomuceno (1994), A Ilusão pedagógica 1930-1945: estado,
sociedade e educação em Goiás. Há ainda o trabalho de Brzezinski (1987), A formação de
professores para os anos iniciais da escolarização, que não tem como objeto a história deste
processo, mas lança mão da análise histórica para refletir sobre a formação de professores primários
no Brasil, particularmente, em Goiás. São trabalhos que reservam capítulos, ou partes deles, aos
importantes eventos relacionados à construção de Goiânia. As referências à construção e
transferência da capital e sobre o impacto destes eventos no campo educacional são, portanto,
mínimas e aligeiradas. São também estudos onde as autoras olham a escola, quase sempre, de fora,
se valendo, principalmente, de documentos oficiais. O foco é na política educacional e nas ideias
pedagógicas. Apesar disto, são trabalhos que contribuem na medida em que apresentam muitas
informações daquele momento histórico.
23
Atualmente, os programas de pós-graduação se constituem no principal contexto de ação dos historiadores da
educação no Brasil, conforme pode ser apreendido dos inúmeros inventários de produção que este campo vem
realizando. Esta temática foi discutida na mesa redonda Historiografia da educação: para além dos balanços, pelos
professores José Gonçalves Gondra (UERJ), Dermeval Saviani (UNICAMP) e Adrian Ascolani (Universidad Nacional
de Rosario) no IV Congresso Brasileiro de História da Educação, realizado em Goiânia (2006) e também no livro
organizado por José G. Gondra, Pesquisa em história da educação no Brasil (2005).
24
A história da educação, em Goiás, sob a forma de disciplina auxiliar, assume papel acessório na compreensão das
questões educativas (SÁ & SIQUEIRA, 2005).
32
Quatro estudos merecem registro. Trata-se dos livros Tradição e renovação educacional em
Goiás (1975) de Nanci Ribeiro de Araújo e Silva, História da Instrução Pública em Goiás (1991)
de Genesco Bretas, A invenção da cidade: leitura e leitores (2007) de Orlinda Carrijo de Melo e a
tese de doutorado de Miram Fábia Alves, Política e escolarização em Goiás: Morrinhos na
Primeira República (2007). Os dois primeiros, estudos de longa duração, traduzem um enfoque
mais cultural que político da educação no estado de Goiás abrangendo não somente os aspectos das
políticas educacionais, mas também o que pode ser compreendido como as culturas escolares
gestadas nas escolas goianas desde os tempos imperiais.
Orlinda Carrijo de Melo enfoca, no período 1933-1959, as práticas de leitura na cidade
inventada para trazer o progresso à sociedade goiana recuperando estratégias e táticas mobilizadas
por letrados e não letrados, os espaços e tempos para ler, interdições e permissões. Já o estudo de
Miram Fábia Alves destaca-se por realizar uma abordagem que refuta a ideia de vazio educacional
na sociedade goiana durante a Primeira República ao explicitar o movimento educacional na cidade
de Morrinhos, no sul do estado. Esses estudos contribuem, exatamente, por permitir questionar a
construção histórica mais recorrente, qual seja aquela que considera a ascensão dos novos
dirigentes colocados no poder estadual pela Revolução de Trinta e o surgimento de Goiânia como
marco zero dos processos de modernização e renovação da educação escolar goiana.
Foi a ausência de estudos e pesquisas acerca do tumultuado período em que surgiu a jovem
capital goiana que me levaram a definir o objeto de estudo que me propus a investigar. A percepção
desta ausência deu-se no momento em que, interessada nas práticas lúdicas das crianças
goianienses, procurei mapeá-las em investigações científicas. Meu interesse se dirigia para a
recuperação de jogos, brinquedos e brincadeiras que, de um ponto de vista histórico, pudessem
compor os saberes e as práticas que compõem a formação de professores de Educação Física25.
Surpresa por não encontrar estudos que atendessem minhas expectativas, desenvolvi em 2003 a
pesquisa Cultura infantil na região metropolitana de Goiânia: (re) conhecendo jogos, brinquedos e
brincadeiras26, na qual entrevistei duas moradoras da cidade que viveram suas infâncias no período
de surgimento da cidade.
25
Refiro-me, particularmente, a área Jogos e brincadeiras na Educação Física Escolar em cujo interior localiza-se a
disciplina Metodologia do ensino e da pesquisa de jogos, brinquedos e brincadeiras, a qual consta no programa
curricular da licenciatura em Educação Física, da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás
(FEF/UFG), onde atuo como docente. A busca desses saberes se relaciona à concepção da Educação Física como
disciplina curricular com saberes específicos (as ginásticas, os esportes, as danças, as lutas e os jogos) que, na escola,
devem ser tratados na perspectiva da transmissão de suas técnicas, táticas, regras e normas, mas também de sua história
e significado social e cultural. Afasto-me, assim, das percepções que vêem a Educação Física tão somente como uma
atividade curricular cujos objetivos são disciplinar as condutas infantis e juvenis, promover melhorias na saúde e na
aptidão física dos estudantes e compensar desgastes causados pelo trabalho intelectual preparando os estudantes para
novas jornadas de aprendizagem cognitiva, entre outras abordagens instrumentais.
26
Para a pesquisa contei com o financiamento do Programa das Licenciaturas (PROLICEN), da UFG, que subsidiou o
pagamento de uma bolsa-pesquisa para um monitor.
33
Do contato com estas moradoras, emergiu um interesse definitivo pela cidade e a paixão por
uma história tão pouco contada. Porém, se inicialmente meu interesse estava circunscrito à história
das práticas lúdicas da cidade e vinculado à educação do corpo infantil27, ao começar a acessar as
fontes pesquisa, deparei-me com a construção discursiva da cidade e com o simbolismo da
modernidade e da pertença a nação. O que emanava das fontes levou-me a redimensionar o objeto
de pesquisa em direção ao papel e lugar das escolas de Goiânia na forja de uma cultura urbana para
Goiânia e na constituição dos sentidos da cidade. O interesse explicitado anteriormente impôs um
mergulho na história da capital de Goiás que, contemplando a relação entre o simbólico e o político,
pôde problematizar a construção dos sentidos da cidade.
A ideia, potencialmente instigante, era compreender o processo de significação de Goiânia
como cidade moderna e símbolo da unidade nacional para nele encontrar o lugar ocupado pelas
escolas como instituições que, tanto por seu enraizamento na cena urbana goianiense da época
quanto pelo papel civilizador atribuído à escolarização no cenário sociocultural brasileiro nas
décadas iniciais do século XX, participaram da trama de sentidos que significou a cidade. Assim, ao
buscar os sentidos que circulavam, constituindo Goiânia em sua materialidade significativa,
intencionei encontrar o lugar da escola nesta dinâmica. O pressuposto contido nesta intenção era o
de que os sentidos da cidade foram incorporados pelas escolas que, à época, existiam em Goiânia,
as quais também dialeticamente constituíram sentidos para a urbs goianiense. As escolas da capital,
seus professores e diretores, as crianças e jovens que neles estudavam bem como os prédios e as
práticas escolares eram presenças constantes em uma cenografia urbana que procurava evidenciar a
face progressista da educação em Goiás, assumindo um papel de relevância na consolidação dos
sentidos da cidade.
Estabeleci, assim, um lugar e um tempo: Goiânia, capital do estado de Goiás, entre 1937 e
1945. Uma experiência na história: o sertão goiano, no ‘coração’ geográfico do Brasil, se
constituindo ironicamente na periferia da nação. Uma instituição: a escola pública em Goiânia.
Uma problematização: Qual o seu papel na civilização do sertão? Como participou da forja de
identidades afirmativas para o goiano? Como se inseriu na cena citadina da jovem capital estadual?
Como, em contrapartida, a cidade-capital adentrou os muros escolares no momento mesmo de sua
afirmação como centro urbano? Qual a singularidade da cultura escolar produzida por/nas
instituições escolares de Goiânia no período efervescente que vai da transferência da capital (março
de 1937) até o final do governo discricionário de Pedro Ludovico Teixeira (outubro de 1945)?
Partindo do pressuposto que a busca de superação da história e, por conseguinte, da
27
Temática que tratei em minha dissertação de mestrado Os professores e a produção do corpo educado: o contexto da
prática pedagógica, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira, na Faculdade de
Educação da Universidade Federal de Goiás, em 2002.
34
opacidade de Goiás nos quadros da vida nacional que Goiânia prometia, tornou singular este
processo, pretendi alcançar os seguintes objetivos: 1 - entender as formas através das quais as
escolas de Goiânia se posicionaram frente ao dilema nação-região e de que maneiras tentaram
contribuir para que uma sociedade tão afastada do litoral se reconhecesse e fosse reconhecida como
nação; e 2 - compreender como as culturas escolares da nova cidade-capital de Goiás participaram
da construção da cultura urbana de Goiânia.
A periodização – 1937/1945 – remete ao período da ditadura do Estado Novo e, embora não
possa ser dele desvinculado, não é este o elemento que o justifica. O recorte foi motivado por uma
lógica interna ao próprio objeto de estudo: em março de 1937 e, portanto, antes do novembro
decisivo para o Estado Novo, o interventor Pedro Ludovico Teixeira, depois de vencer as
resistências antimudancistas28, realizava a transferência da capital para Goiânia e inaugurava,
assim, um novo momento para a cidade29. Era tempo de concretizar a mudança, levando para a
nova capital, os órgãos e repartições públicas que ainda funcionavam na antiga Cidade de Goiás ou
ainda criando novos contextos para a administração pública estadual. Entre elas, a transferência,
criação e instalação de instituições escolares30. Naqueles anos, as escolas de Goiânia viveram a
experiência de participar intensamente da construção de sua cultura urbana.
Não obstante este recorte temporal, intrínseco a abordagem histórica das primeiras escolas
goianienses, a ideia de relacionar o urbano e o escolar acabou por colocar a necessidade de um ir-evir em um lapso temporal mais extenso principalmente na direção de retroceder ao período
imediatamente anterior. Mais precisamente, ao início da década de 1930 quando se iniciou a
construção material e simbólica de Goiânia e mesmo aos finais dos anos 1910, momento em que
sinais da modernidade pedagógica em Goiás já se faziam presentes. Além disso, para compreender
Goiânia e suas escolas é preciso compreender, antes, o caráter da tentativa de pertencimento à
nação que a cidade representou, o que remete à necessidade de entendimento sobre certas
dimensões da história goiana, notadamente àquelas que se relacionam com o ‘imenso complexo de
decadência’, como frisou Eliane Manso Pereira (2002) ou com o ‘complexo de periferia’, como
28
De acordo com a historiografia goiana, o ataque de Pedro Ludovico à Cidade de Goiás foi intensificada nos anos
1935 e 1936, como forma de consolidar a ideia da nova capital e conquistar, para ela, a adesão da população goiana. A
população da antiga capital, entretanto, cerrou fileiras ao lado de alguns políticos na tentativa de impedir a
transferência.
29
É também a partir de então que o crescimento populacional da cidade se intensificou, especialmente, após o ano de
1939: se em 1938, a cidade contava com 1.6l4 prédios em seu centro urbano, em 1940 já contava com 3.349
edificações. Otto Prazeres, em artigo publicado no Jornal do Brasil em 31 de maio de 1941, afirmou que aquilo não era
apenas crescimento, ‘[...] era quase uma explosão ou mais que uma explosão se lembrarmos o marasmo goiano em
época que não vai longe’. Reproduzido em Goiânia (1942: 75). Quanto ao crescimento populacional, em 1934 havia
800 habitantes na cidade; em 1937, ano da transferência da capital, atingiu 9.000 moradores, chegando a 47.727
pessoas em 1940 (CENSO/IBGE, 1940).
30
Antes da transferência da capital, já funcionava em Goiânia, desde 1934, a ‘Escola Mixta de 3a classe’, escola
transferida do município de Jataí (decreto-lei 4.563, de 03/05/1934).
35
refere Selma Sena (2008)31 que marca Goiás e seu povo.
A tese se organiza em sete capítulos. No primeiro, depois de discutir a necessidade de um
enfoque que possa perceber os modos como sociedades periféricas, como a goiana, participaram do
projeto de construção da nação e, no seu interior, da escolarização da sociedade brasileira, recupero
a representação de Goiás, na imaginação sociológica brasileira como uma sociedade da ausência,
enfatizando o impacto desta imagem nas elites intelectuais goianas. A partir daí, trato os discursos
que balizaram a proposta de construção de uma nova cidade-capital, ressaltando a retórica do
interventor Pedro Ludovico Teixeira na desqualificação da Cidade de Goiás, a qual foi representada
como uma ‘quase necrópole’32. Aqui enfatizo o ataque à centenária capital, ressaltando que a
simbologia da modernidade de Goiânia surgiu em contraponto ao marasmo de Vila Boa, antes
mesmo que sua materialidade fosse iniciada. Neste capítulo, alinho os discursos que tomei como
fontes de pesquisa e dou a ver o processo de uma organização que permitiu sua leitura e
interpretação.
No segundo capítulo, pretendi evidenciar a anunciada modernidade da nova cidade-capital
de Goiás nas décadas de 1930/1940. Enfoco, para tanto, as representações espaciais de Goiânia
como discurso da modernidade goianiense ressaltando aspectos da materialidade urbana
representados em mapas, planos urbanísticos e fotografias aéreas. Neste capítulo, trato
especialmente a materialidade arquitetônica das escolas de Goiânia e de seu endereço na cena
urbana como discursos que, voltados para a região e a nação, davam a ver que a capital que
prometia superar a história de desconhecimento e abandono, foi constituída também como a cidade
da educação e das escolas. Tomei de empréstimo a linguagem e a estratégia cinematográfica para
dar a ver a cidade-capital goiana se desdobrando sobres si mesma e engendrando, ao fazê-lo, a
modernidade excludente tão caracteristicamente brasileira.
No terceiro capítulo, recupero praticas e discursos de duas gerações de intelectuais goianos
que dedicaram parte de suas vidas à promoção do estado de Goiás e à divulgação de suas
possibilidades para o engrandecimento do Brasil, processo que a construção de Goiânia veio
intensificar: a primeira, ativa durante a Primeira República cunhou o coração como imagemsímbolo da hinterlândia; a segunda, auto representada como ‘intelectualidade moça de Goiás’
formulou a discursividade que constituiu os sentidos da nova capital goiana. Perspectivados sob o
ponto de vista da busca de inserção nos quadros da nação, dos discursos destas duas gerações
emergem, primeiro, a metáfora do coração para simbolizar o ‘grande estado central do Brasil’ e,
31
No Seminário comemorativo ao Ano Ibero-Americano de Museus promovido pelo Museu Antropológico da
Universidade Federal de Goiás, mesa redonda Ouvir o sertão. Goiânia/GO, 2008
32
Conforme qualificou José Vieira Couto de Magalhães em Viagem ao Araguaia (1863). Neste livro, o autor defende a
transferência da capital da Cidade de Goiás para Meia Ponte (atual Pirenópolis). O exemplar que faço uso foi publicado
pela Companhia Editora Nacional em 1975 como o volume 28 da Coleção Brasiliana.
36
depois, as imagens e representações de Goiânia como símbolo do desaparecimento do sertão e sinal
de unidade e integração da nação ‘feita de espaço’. Ambas as simbologias podem ser vistas como
táticas, no sentido que lhes dá Michel de Certeau (1994), que as elites intelectuais regionais
mobilizavam para inserir Goiás no espectro do nacional e para garantir-lhe relevância entre as
unidades federativas.
No quarto capítulo procuro entender as apropriações que, em Goiás, foram feitas das
ideologias da modernidade, da civilização e do progresso bem como do amalgama de tais
ideologias na chamada interpretação dualística do Brasil (SENA, 2003) pelos intelectuais da região
e da nação. Privilegio, para tanto, a construção material e simbólica de Goiânia, enfocando os
discursos que a significaram como cidade moderna e símbolo da unidade nacional, adotando a
Análise de Discurso (AD) como inspiração metodológica. Sob esta inspiração, assumo como
desafio a interpretação da dimensão discursiva da cidade a partir dos textos produzidos por
intelectuais e políticos da época e publicados em jornais e revistas goianienses.
No quinto capitulo, evidencio a construção da simbologia de centro civilizatório dos sertões
do oeste brasileiro para a nova cidade-capital goiana ressaltando os discursos que a celebravam
como cidade-educadora e centro escolar. Trato aqui de alguns aspectos que, do meu ponto de vista,
conferiram uma singularidade ao campo educacional goianiense a época do surgimento da cidade
como o papel das elites que se ali instalavam na difusão e ampliação de uma rede de escolas, as
relações entre o avanço do campo da educação e a sempre presente e problemática questão
orçamentária e os vínculos entre o crescimento da rede de estradas/meios de comunicação e a
expansão da rede pública de educação. Do quadro esboçado, emergem indícios que a cidadeeducadora se desdobrava abrigando, em suas dobras, uma população sem escolas e sem professores,
sinal da modernização excludente que sustentou a instauração da modernidade brasileira e da qual
Goiânia é emblemática.
No sexto capítulo, me debruço sobre o passado da educação em Goiás durante a Primeira
República com a intenção de desvendar o que foi silenciado e ocultado pelos construtores de
Goiânia em sua re-escrita da história goiana além de expor que também a nova cidade-capital foi
apanhada na teia que revia o passado goiano, tendo ocultados os contextos e os sujeitos não
condizentes com a prometida modernidade. No caso dos momentos correspondentes à Primeira
República, recupero duas grandes reformas educacionais, em 1918 e 1930, que prenunciavam a
renovação educacional que os dirigentes do pós-Trinta atribuíam a si próprios. No caso da cidadecapital, abordo um tipo particular de escola – a escola dos quintais - que, ocultada nos discursos,
parece ter deixado pouquíssimos rastros na história e na memória de Goiânia.
No sétimo, recupero a adesão da escola aos sentidos de Goiânia enfatizando os discursos
que celebravam o surgimento de uma juventude ativa, estudiosa e interessada nos destinos da nação
37
e da região. As práticas festivas promovidas pelo que chamo juventude estudantil da cidade-capital
são ressaltadas como práticas civilizatórias que procuravam forjar uma cultura urbana moderna e
sintonizada com os ditames das grandes cidades do Brasil e do mundo e, ao mesmo tempo,
dirigiam-se para fora, para os centros dinâmicos da nação procurando estabelecer trocas e
intercâmbios com estudantes e escolas de outras partes do país.
No oitavo e último capítulo, trabalho as possíveis evidências que, do centro dinâmico da
nação, sinalizavam para o reconhecimento de Goiás nos círculos cultos do país. O VIII Congresso
Brasileiro de Educação, a negociação e os preparativos que o antecederam aparecem, então, como
momento em que o nacional e o regional confluíam. Trato aqui igualmente da política educacional
desencadeada pelo Estado em sua esfera regional a partir de 1938 para preparar escolas e
professores para o Oitavo Congresso Brasileiro de Educação. Em tal política – que acabou por
contribuir para a configuração do campo educacional da jovem capital estadual - ressalto a
realização de congressos regionais de ensino, o lançamento da Revista de Educação do estado de
Goiás e os concursos públicos para seleção de docentes para as escolas goianienses como ações que
visavam construir as condições para que o professorado goiano adentrasse na seara da autoria e
participasse do Congresso da ABE.
O estudo desenvolveu-se em torno de uma mesma questão: como as escolas da jovem
cidade-capital goiana participaram, no período 1937-1945, das tentativas de construção de uma
identidade regional que superasse o estigma da decadência e do atraso que tanto marcaram Goiás e
seu povo. Aos muitos que, em plena era da globalização das práticas e das mentalidades, da
economia e da cultura, consideram que as questões relacionadas à construção de identidades
regionais é um assunto menor, contraponho que durante boa parte do século XX, as buscas de
vínculos simbólicos de identidade coletiva embalaram diversos grupos sociais de diferentes lugares
do Brasil e os fizeram empenhar-se na constituição de um conhecimento histórico acerca de seu
território e de seu povo. Tais iniciativas impactaram as propostas educacionais e a instalação de
uma rede pública de educação escolar, como pretendi demonstrar ao enfocar a história dos sentidos
de Goiânia.
Se para muitos, a cisão entre os dois brasis, que marcou o imaginário histórico e sociológico
brasileiro, é temática já superada, lembro que mesmo valorizado em sua história, afagado pelos
encantos de sua natureza, inserido economicamente na nação, o ser goiano persiste como marca de
uma diferença, ainda hoje imaginada como ausência ou, no mínimo, como incompletude. Não
importa se balizado em elementos da realidade ou não, esta representação persiste imprimindo suas
marcas nas relações sociais e na construção de subjetividades, mesmo quando parece que
caminhamos para construções simbólicas que diluem os pertencimentos nacionais e regionais,
tornando-os, como sugere o filósofo pós-moderno, líquidos.
38
Desta ótica, este estudo, se outro mérito não possuir, poderá servir como ponto de partida
aos pesquisadores que se interessam pelo papel do urbano e do escolar na formação de identidades
regionais no espectro da relação entre centro e periferia. As indagações colocadas no centro do
debate aqui proposto ressaltam a simbologia da nação e da região e, por isso, confrontam a
tendência à dissolução completa da história no curso de nosso tempo. Um tempo no qual tais
simbologias parecem estar sendo reduzidas a meros simulacros de signos sem referente. Investir
nesta empreitada me parece ser um dos modos de reação diante, primeiro, do esfacelamento do
mundo onde nos tornamos sujeitos com identidades singulares e, segundo, da apropriação
capitalista das identidades nacionais, regionais, étnicas, de gênero e geração como produtos de
consumo político e cultural.
39
CAPÍTULO I
MODERNIDADE E NACIONALISMO NO CORAÇÃO DO BRASIL
1.1 – Sobre o retrato da nação dilacerada: o lugar da região
De te fabula narratur
(É de ti que se fala nesta história)
Se considerada a centralidade conferida à instauração da modernidade, escrever a história da
educação brasileira implica em perceber que, além de conter elementos nem sempre desejados do
antigo e da tradição, os ideais e práticas educacionais inaugurados ou consolidados no século XX
instauraram o novo e, conseqüentemente, projeções de um futuro que se desejou instalar, às vezes, à
custa da negação do próprio passado. Escrever, pois, a história da educação escolar neste período
revela muito do processo constitutivo da nação e da nacionalidade brasileiras na medida em que a
escolarização da sociedade apareceu, ao mesmo tempo, como exigência, como estratégia e como
símbolo. Exigência colocada a partir da hegemonia do modelo europeu de progresso e civilização
que inspirou a modernização do Brasil assim como das pressões advindas da expansão capitalista;
estratégia de difusão e aprendizagem dos valores e símbolos da nacionalidade e de novos valores,
práticas e ideias; símbolo precoce de uma modernidade que se instalava aos tropeços.
Como tem demonstrado a produção do campo história da educação, em abordagens
sustentadas na análise da cultura, são estreitos os vínculos entre a escolarização e o projeto de
construção da nação no qual adquire relevância o lugar ocupado pela escola na difusão e
aprendizagem dos símbolos e heróis pátrios bem como da disciplina corporal e intelectual exigidos
pela modernidade capitalista e industrial (VEIGA, 2002; FARIA FILHO, 2000; SOUZA, 1998). A
intensidade da ligação entre escola e nação faz com que a escrita desta história implique em
igualmente compreender como a escola foi se enraizando em diferentes experiências históricas de
sociedades existentes nas variadas espacialidades onde a escolarização foi se expandindo e a nação
se fazendo pelos amplos espaços geográficos de um país, desde cedo, pensado como cisão: entre
40
centro e periferia, campo e cidade, rural e urbano, sertão e litoral (essa talvez a mais antiga
expressão desta cisão), somente aos poucos o território foi se fazendo nação; a população se
constituindo povo.
A identidade nacional não se constituiu, pois, de um só golpe, em um passe de mágica,
como às vezes fazem parecer leituras da história que partem da ideia de que a nação prescinde a
região. Ou em outros termos, leituras da história nas quais um regional ocupa o espaço do nacional:
é como se essa região fosse a nação. Esta leitura da história, ainda hoje recorrente, não é inocente,
neutra ou descompromissada; ao contrário, ela é herdeira do processo que estabeleceu as bases para
a nacionalidade, sinalizando, portanto, para as regularidades de um discurso implicado no modelo
determinado de nação e de Estado que se consolidou no Brasil.
O projeto fluminense de poder33 é, neste sentido, revelador da história de construção de uma
estrutura política e cultural na qual a região participava de modo secundário na construção do
Estado Nacional. Ilmar R. Mattos (2004) desvenda, nas articulações dos Saquaremas no período
imperial, como o desenho de poder inaugurado com a Independência (1822) redefiniu, além do
encaminhamento das lutas políticas do século XIX34, um novo espaço geográfico no qual as demais
regiões brasileiras ficaram subordinadas a um único centro político, formado pelos estados do Rio
de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais35. A direção esboçada pelo projeto fluminense de uma
centralidade política e cultural em torno da qual a região se subordinava foi reafirmada na
República (1889). Desde então e, particularmente nas primeiras décadas da República, os discursos
que falam sobre o Brasil e sobre o ser brasileiro remetem, quase sempre, a esta parte do país
constituindo uma nação que, conforme afirma Sandes (2001: 20), “[...] não aparece sob a forma de
uma comunidade com uma base imaginativa capaz de agregar a diversidade de experiências
históricas”.
Ademais, não se pode desconsiderar que ao final do século XIX, as elites do Rio de Janeiro,
Capital Federal e São Paulo, metrópole emergente, iniciaram um processo de disputa pela
superioridade intelectual e científica nacional na qual estavam também em jogo interesses
33
Projeto que, no período compreendido entre a abdicação de Pedro I até os anos 1860, construiu o Estado Imperial
brasileiro ao mesmo tempo em que constituía uma classe de dirigentes que era composta da alta burocracia do Estado
(senadores, magistrados, ministros, etc.), de proprietários rurais espalhados pelo Brasil e de profissionais que atuavam
fora da esfera pública (professores, médicos, escritores, entre outros). A este período, Ilmar R. Mattos (2004) chamou
Tempo Saquarema, porém, em uma compreensão que não o percebe tão somente como um período de tempo, mas
como um produto dos processos de construção do Estado e da constituição da classe senhorial ou, conforme as palavras
do autor (MATTOS, 2004: 14), “[...] como resultado e condição da ação saquarema, porque a direção que eles
procuravam exercer e, efetivamente, exerceram, impunha que os Saquaremas se constituíssem também em ‘produtores’
ou ‘controladores’ do tempo”.
34
A partir da Independência, inaugurou-se o debate sobre o espaço de representatividade política das elites rurais que,
reunidas em torno de Pedro I, defendiam um projeto de nação no qual ficava assegurado o direito de propriedade e a
liberdade comercial, conquistas adquiridas com a vinda da Corte Portuguesa para o Brasil (1808). O papel dessas elites
foi decisivo na instauração do modelo de Estado e nação que se consolidou no país (MATTOS, 2004).
35
Ë interessante notar que o itinerário da viagem realizada por Pedro I às vésperas da Independência definiu, com a
inclusão de Minas Gerais e São Paulo, a composição desta estrutura política e cultural.
41
econômicos e projetos políticos divergentes ou vinculados ao Estado. As elites paulistas desejavam
retirar do Rio de Janeiro o papel de irradiador da civilização e do progresso para o restante do país
(FERREIRA, 1999, 2002; ABUD, 1999; LUCA, 1999). A disputa pela hegemonia no campo da
cultura e da ciência assumiu, especialmente em São Paulo, ares de um desafio que levou a
intelectualidade paulista à invenção da tradição que culminou na imagem do bandeirante
desbravador como sua figura-síntese, o verdadeiro artífice da formação nacional.
Como discorre Ferreira (2002:19), “vitoriosa a República, era de São Paulo que [os
intelectuais paulistas] pretendiam irradiar suas luzes, não só no espaço regional, como em toda a
nação”. Conforme o mesmo autor, esta disputa não ficou circunscrita a paulistas e cariocas, mas
espalhou-se por todo o país sendo os institutos históricos estaduais representantes da contenda já
que sua principal linha de atuação evidenciava as singularidades regionais enfatizando sua própria
versão do país na perspectiva de abalar a história da nacionalidade36. Como sabemos, não houve
vencedores ou vencidos absolutos nesta concorrência entre os estados centrais do Brasil; apenas
repartição das frações do poder simbólico na captura das regiões periféricas ao centro irradiador, de
fato, formado pelas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo37.
A constituição da nação se deu, assim, a partir da hegemonia de uma região que se fez
centro e que, foi desde então, pensada como Brasil, deixando subsumidas as particularidades,
tensões e contradições desse processo nos recantos do país que não foram caracterizados como
pertencentes a este centro. Inseridos na lógica dualista que subsidiou a interpretação do Brasil, tais
recantos foram generalizados na simbologia do sertão e, por boa parte do século XX, não
reconhecidos como Brasil. A ideia de nação, tal como se configurou na nossa história, não as
reconhecia como parte, mas tão somente como incompletude e falta. Lugar do nada, metáfora da
ausência, território da barbárie, reino da doença e da preguiça, o sertão e o povo que o habitava
aparecia por boa parte do século XX, mas especialmente nas primeiras cinco décadas, tal qual um
estranho perigoso, mas promissor se fosse domesticado. Uma ameaça que era preciso fazer
36
Em O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930 (1993), Lilia Moritz
Schwarcz demonstra como os institutos históricos do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco partiam da ideia que a
história da nação era a história das regiões onde se inseriam. Cada um deles, conseqüentemente, se auto-representavam
como legítimos detentores da escrita da história brasileira. O Instituto Histórico e Geográphico Brasileiro (na verdade,
carioca ou fluminense), fundado em 1827 considerava que “a história da corte é a história da nação” ao passo que,
quando surgiu em 1894, o Instituto Histórico e Geográphico de São Paulo difundia a ideia que “a história de São Paulo
é a própria história do Brasil”. Há uma razoável produção sobre os regionalismos no Brasil, da qual cito: Love, Joseph.
A locomotiva: São Paulo na federação brasileira -1889/1937. Rio de Janeiro/RJ: Paz e Terra, 1982; Abud, Kátia. O
sangue itimorato e as nobilíssimas tradições (a construção de um símbolo paulista: o bandeirante). São Paulo/SP:
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, 1985 (tese de doutorado); Oliveira, L.L. de. A questão
nacional na Primeira República. São Paulo/SP: Brasiliense, 1990; Bóris, Fausto. História geral da civilização
brasileira III. O Brasil republicano. Sociedade e instituições (1889-1930), 3ª ed. São Paulo/SP: Difel, 1985.
37
A posição de centro político, intelectual e econômico do Brasil não foi, de inicio, ocupada por estas regiões, as quais
somente iniciaram um processo de ascensão a centros hegemônicos a partir da década de 1820 quando o predomínio da
região nordestina, especialmente da cidade de Recife/Pernambuco, começou a entrar em declínio. Este processo foi
consolidado no período 1870-1930, momento em que se percebem modificações fundamentais no equilíbrio interno
brasileiro (SCHWARCZ, 1993).
42
desaparecer para que o país - finalmente civilizado, finalmente integrado - se constituísse nação.
A partir da última década do século XIX, com a crescente complexificação da vida social,
quando a frágil e recém inaugurada República brasileira atravessou sucessivas crises nos planos da
cultura, da economia e da política, os debates e embates em torno desta questão se tornam mais
agudos e a busca de soluções e alternativas mais recorrentes. Era o momento da construção da
nação republicana e se fazia necessário buscar sua identidade, definindo seus traços específicos e
singulares, caracterizando seus potenciais, explicitando, inclusive, seu destino perante o destino da
humanidade. Era tempo, enfim, de elaborar uma teoria sobre o Brasil que contemplasse a um só
tempo a consideração pela dualidade da realidade brasileira e uma síntese que integrasse os dois
brasis (SENA, 2003).
Não por acaso, iniciaram-se também nesse período as tentativas de implantação da
modernidade expressa, entre outros aspectos, na reforma e/ou construção de cidades
(GUIMARÃES, 1996; LANNA, 1996; ANDRADE, 1996, 2004) e de uma rede de escolarização
que visava à massificação da instrução primária a toda a população e, em particular, a toda a
população infantil, conforme demonstram Faria Filho (2000), Souza (1998) e Nunes (1993), entre
outros historiadores da educação. Por meio da cidade e da escola tentava-se o desaparecimento do
sertão brasileiro. O vaticínio lançado por Euclides da Cunha (1963: 29)
38
em Os Sertões é, neste
sentido, esclarecedor: “A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável ‘força
motriz da História’ [...] no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.” O sertão
estava, pois, fadado ao desaparecimento na medida em que avançasse a civilização; os personagens
que o habitavam iriam desaparecer sucumbidos pela onda civilizatória que este intelectual e sua
geração, bem como as posteriores, consideraram o único caminho para o Brasil.
É no contexto da construção da nação, processo no qual o desaparecimento do sertão
emergiu como condição sine qua non que ocorreu o surgimento, em Goiás, de uma nova cidadecapital nas décadas de 1930 e 1940. Goiânia, a capital do sertão, surgia no centro do espaço
geográfico do país como símbolo de civilização e de sua face prática, o progresso. A construção de
uma cidade moderna e progressista que viesse substituir a centenária Cidade de Goiás foi vista
como alternativa para que a região superasse seu próprio passado, qual seja o de uma história
balizada pelos conceitos de decadência e atraso e marcada pelo isolamento, pelo abandono, pelo
desconhecimento e pela invisibilidade. O surgimento da nova cidade-capital seria significado como
momento em que Goiás, finalmente, adentraria em uma era de modernidade e pertencimento à
nação.
Goiânia prometia aliviar os ombros do povo goiano do excessivo peso de uma história que
38
Em Nota Preliminar. Introdução. Os Sertões. Rio de Janeiro/RJ: Livraria Francisco Alves Editora, 1963, 29ª ed.
43
não era nem conhecida nem reconhecida. Por isso, foi anunciada como a solução para aquela
sociedade que vivia “a míngua de um passado” (LE GOFF, 2003: 208). A nova cidade-capital do
estado de Goiás, cidade planejada e construída sob os auspícios da modernidade arquitetônica e
urbanística, surgia como ruptura com o passado decadente e atrasado e como promessa de um
futuro promissor para o ‘filho mais modesto, o filho menos educado’39 entre os filhos do pai Brasil.
Um futuro no qual Goiás deixava de ser uma ‘[...] quasi desnecessidade’40 para a nação e se tornava
parte relevante e reconhecida no seu espectro. Por meio de Goiânia, os goianos pensaram poder
romper com a própria história e adentrar, triunfantes, na história de uma nação da qual se viam
excluídos e marginalizados. Este o duplo papel de Goiânia nos anos em que foi planejada e
construída.
A singularidade da cidade-capital estadual que surgia no centro territorial do Brasil e de suas
escolas, entretanto, não reside propriamente no que ela prometia de modernidade para aquela
longínqua e esquecida região brasileira nem mesmo na negação da história que lhe foi
concomitante; promessa e negação sempre encontradas quando se fazem cidades planejadas
(HOLSTON, 1993). A modernidade, ademais, era uma possibilidade que atravessava o Brasil: o
capitalismo mundial se expandia até as áreas periféricas (como o estado de Goiás) do país e a
construção de uma nação moderna se apresentava como um dramático imperativo para que a
República cumprisse seu compromisso civilizatório e o país fosse aceito no círculo das grandes
nações do mundo. Vivia-se a febre da modernidade. A urbanização, assim como a escolarização, foi
tida como pertencente ao domínio do moderno e de tudo que lhe é associado: a civilização e a
civilidade, o predomínio da racionalidade técnica sobre a religião e sobre a superstição, a
prosperidade econômica, etc.
Por isso, os sentidos da modernidade, sozinhos, não dão conta de explicar a singularidade da
construção simbólica da nova cidade-capital de Goiás nas décadas de 1930 e 1940. O singular da
construção simbólica de Goiânia reside nos sentidos singulares e específicos que a instauração da
modernidade e a possibilidade de negação da história adquiriram para as elites intelectuais, políticas
e econômicas goianas. A promessa da modernidade e a negação da história, ao serem apropriadas
pelos locais, possibilitaram que a nova capital fosse significada como momento e lugar que
oportunizava, à região, a esperança de conquistar o pertencimento e a relevância nacionais. A
moderna cidade plantada no ‘coração do Brasil’ poderia projetar a região tornando-a relevante e
reconhecida no espectro da nação, essa era a expectativa maior.
Não era a primeira vez que a ideia de mudança da capital para outro ponto do estado havia
39
Zecchi Abrahão no artigo Nossos irmãos nos conhecem, revista Oeste, nº 01, julho, 1942, p. 18.
Conforme afirmava o editorial do único número da Revista Brazil Central (1891), periódico criado no Rio de Janeiro
por Henrique Silva para divulgar o estado de Goiás.
40
44
sido proposta41. A ideia de uma mudança na sede do poder estadual foi ventilada em 1754, por
Dom Marcos de Noronha42, o Conde dos Arcos, primeiro governador da então capitania de Goyaz.
Noronha sugeriu ao soberano português a transferência da capital para a cidade de Meia Ponte
(atual Pirenópolis) alegando a deficiência climática e as dificuldades de comunicação de Vila Boa
(atual Cidade de Goiás). A ideia voltou à cena após a Independência do Brasil, em 1830, com
Miguel Lino de Morais43 e, depois em 1865, através do presidente do estado, Couto Magalhães44.
Argumentava-se, então, que Vila Boa era um local inapropriado para sediar o governo
goiano, pois, “a cidade encontrava-se cercada por uma cadeia de montanhas, que impossibilitava
sua expansão e dificultava o acesso a ela” (DAHER, 2003: 26). Couto de Magalhães chegou a
afirmar que não ter conhecido ‘[...] em todos os lugares por onde tenho viajado (e não são poucos)
um onde se reúnam tantas moléstias graves [...]’ e acrescentava: ‘Quase se pode asseverar que não
existe aqui um só homem são [...]’45. Magalhães cunhou, neste relato, a imagem de Vila Boa como
‘quase uma necrópole’. Décadas depois, em 1933, o interventor Pedro Ludovico Teixeira se
apropriaria da imagem desenhada pelo primeiro presidente do estado para reforçar a necessidade de
‘destruição’ de Vila Boa e a sua urgência na construção de uma nova capital.
Mas, apesar da recorrência do desejo de mudança, nunca se cogitou em construir uma nova
41
A continuidade de um desejo de mudança da capital do estado é uma construção dominante na tradição
historiográfica goiana: nela, a imagem de uma nova capital foi construída na mente de muitos líderes políticos e da
escassa elite letrada da região que viram, nesta mudança, a possibilidade de superação da ideia e do sentimento de
decadência e atraso que, sempre, estigmatizaram Goiás e sua população (PALACÍN, 1986; CHAUL, 2001; PEREIRA,
2002). O historiador Eugênio Carvalho (2002: 157) questiona sua preponderância sobre outras motivações, embora não
desconsidere a força deste imaginário na construção de Goiânia. Carvalho chama atenção para o fato desta lógica se
constituir na mesma lógica contida no discurso dos idealizadores da nova cidade-capital indagando “até que ponto esta
não seria uma perspectiva ideológica legitimadora e justificadora das transformações desejáveis pelos partidários da
nova capital no século XX?” E, apontando as conseqüências da assunção desta leitura para a escrita da história goiana,
questiona: “Não estaríamos assim como que escravos de nossas fontes?”.
42
Dom Marcos de Noronha chegou à província de Goiás, em 1749, designado pelo rei de Portugal como seu primeiro
governador. Depois, se tornou Vice-Rei de Portugal, posição que ocupava em 1808 quando recebeu, no porto do Rio
de Janeiro, a família real e a corte portuguesa que, fugindo dos exércitos napoleônicos, chegavam ao país.
43
Segundo presidente da província de Goiás no período imperial (1827-1831). Ao contrário do primeiro presidente,
bacharel Caetano Lopes Gama, que incentivou o desenvolvimento da navegação nos grandes rios que cortam a região,
Lino de Morais traçou um programa econômico para a província no qual o apoio à agricultura e à indústria pecuária
assumia lugar de relevância. Segundo Americano do Brasil (1982: 108), Lino de Morais foi ‘um acérrimo
propagandista das coisas de Goiás’ e um incentivador da instrução pública no estado sendo que, segundo este autor, em
sua gestão ‘multiplicam-se as escolas de primeira instrução pelo sistema lancasteriano e grandes foram os proventos
retirados com a adoção do método de ensino’. In: BRASIL, AMERICANO. Súmula da história de Goiás. Goiânia/GO:
UNIGRAF, 1982, 3ª ed..
44
José Viera do Couto Magalhães governou a província de Goiás entre 08 de janeiro de 1863 e 05 de abril de 1864
quando se retirou para governar a província mineira, o que não chegou a ocorrer já que acabou optando pela presidência
do Pará (1864-1866). Foi depois (1866-1868) presidente de Mato Grosso. A proximidade com os grandes rios
brasileiros parece ter moldado suas escolhas. Em Goiás, no curto período em que governou, Couto de Magalhães se
tornou o maior incentivador da navegação pelo rio Araguaia ao criar as condições para o funcionamento regular uma
linha de transporte fluvial entre as cidades de Santa Maria e Leopoldina. O navio que recebeu o nome Araguaia
começou a navegar, entretanto, em 1868, depois do final de sua gestão. Couto de Magalhães viajou inúmeras vezes pelo
imponente Rio Araguaia donde escreveu o livro Viagem ao Araguaia (1863). É autor também de O Selvagem e
Gramática da língua Tupi. Morreu em 1898. In: BRASIL, AMERICANO. Súmula da história de Goiás. Goiânia/GO:
UNIGRAF, 1982, 3ª. ed.
45
MAGALHÃES, COUTO. Viagem ao Araguaia. São Paulo/SP: Cia. Editora Nacional, 1975, Coleção Brasiliana,
volume 28.
45
capital; apenas na transferência da administração e do aparato político para outra cidade goiana.
Mesmo assim, em todas as tentativas, a questão esbarrou no alto custo do empreendimento e nas
enormes distâncias que separavam Goiás dos centros mais desenvolvidos do Brasil: nem o reino
português nem o governo imperial brasileiro quiseram ou puderam investir no projeto e, sozinha, a
empobrecida província não poderia levá-lo a termo. Com a Revolução de 1930 e a ascensão de
Getúlio Vargas e, em Goiás, de Pedro Ludovico Teixeira, interventor nomeado pelo Presidente46, a
situação se alterou e a utopia tornou-se possível. Era, finalmente, ‘soada a grande hora de Goiaz’,
conforme anunciou o interventor Pedro Ludovico Teixeira no relatório que, em 1933, enviou ao
Presidente Vargas e no qual pedia apoio político e financeiro para a construção de Goiânia.
A nova cidade-capital foi, então, representada, por aqueles que a projetaram e edificaram,
como um símbolo da modernidade no coração geográfico da nação. E por sua localização espacial
nuclear, como um ícone de uma brasilidade que, plasmada no debate intelectual e artístico da
época, sustentava-se na integração entre litoral e sertão buscando, nos interiores, aquilo que seria o
verdadeiro Brasil. Goiânia, a esmeralda do oeste, cidade-morena, filha do sol, cidade plantada no
‘coração’ do estado que, espacialmente, localiza-se no centro do território brasileiro. No ‘coração
do Brasil’, diriam os goianos, orgulhosos e convictos do seu valor para a construção da identidade
nacional. Afinal, a cidade foi significada como ‘uma espécie de cadinho, em que se cozem e
purificam os nossos vários caracteres. Nela, mais que em outro ponto qualquer do Brasil, se
encontram os dois brasis – o do litoral e o do sertão’47.
O surgimento de Goiânia possui relação estreita com um projeto de unidade e integração
nacional que foi objeto de políticas propostas e coordenadas pelo governo Vargas: o desafio era o
de abrasileirar o centro-oeste brasileiro como plataforma dirigida à Amazônia, mas não menos
importante, promover a ocupação produtiva das promissoras terras de Goiás e Mato Grosso. De
certa forma, entre os anos 1900 e 1930, os contextos nacional e internacional impunham uma
solução a oeste. Se na Primeira República, a grita euclidiana impulsionou ações e políticas no
limite das regiões representadas como parte do ideal nacional que já se encontravam em processo
de modernização, a partir de 1930 com a ascensão de Getúlio Vargas, delineou-se de forma clara
um projeto de país que pressupunha uma ação agressiva por parte do Estado em direção à
integração de todas as regiões ao espectro da nação. O caminho para os sertões do oeste apareceu
como inevitável, dadas as então propagadas potencialidades econômicas daquelas terras48.
46
A Revolução de Trinta chegou a Goiás por força da intervenção da coluna mineira que, não encontrando resistências,
instalou uma junta governativa composta de políticos opositores da oligarquia Caiado. Pedro Ludovico, um dos
membros da Junta Governativa, foi depois nomeado interventor do estado. Eleito nas eleições constituintes de 1934
permaneceu no cargo até o final do período Vargas, em 1945 (CHAUL, 1997; 2001).
47
Paulo Augusto de Figueiredo, revista Oeste, 1943, nº 06, pp. 3.
48
Um intenso e deliberado trabalho de propaganda e divulgação do potencial econômico de Goiás foi realizado por
intelectuais goianos que habitavam no Rio de Janeiro, então Capital Federal, desde a instauração da República.
46
A dinamização da indústria se desenvolvia no centro-sul do país, o que exigia que novas
regiões brasileiras cumprissem o papel de produtoras de matéria-prima para o mercado interno em
substituição ao papel desempenhado, até então, pelas áreas que se industrializavam. Desta forma,
enquanto o centro-sul brasileiro se efetivava como periferia do capitalismo mundial, outras regiões
- como a região conhecida como centro-oeste brasileiro - se fazia periferia da periferia (CHAUL,
1997). Tomando por base as concepções de José de Souza Martins (1975), a ocupação das regiões
goianas ao capitalismo mundial se deu a partir das frentes de expansão, as quais se constituíam em
uma exigência das transformações econômicas oriundas da industrialização do centro-sul e também
da expansão da sua economia agrícola, notadamente a cafeeira. Foram estas transformações que,
afinal, sustentaram a ocupação de áreas produtivas no interior do país e, conseqüentemente, sua
incorporação à produção capitalista.
De acordo com Francisco Carlos Teixeira da Silva (2002), existia também, a partir de 1930,
a retomada de velhas preocupações ainda dos tempos anteriores à República que faziam com que a
questão do mundo rural se impusesse como preocupação central. Diversos argumentos compunham
o substrato destas preocupações: primeiro, eram avaliados os riscos de uma ação imperialista a que
estava exposto um país formado por vastos territórios desocupados e de uma fronteira oeste49
praticamente abandonada. Conforme Sevcenko (2003), a geração de 1870 – Tobias Barreto,
Joaquim Nabuco, Silvio Romero, Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, Graça Aranha, entre
outros – preocupou-se com essa dimensão da geografia brasileira e alertou para a necessidade de
ocupar o sertão como prática de defesa do território. Depois foram Alberto Torres e Oliveira
Vianna os intelectuais que chamaram a atenção para o risco colocado pela geografia de um país
escassamente povoado e também para a presença de colônias estrangeiras que poderiam se
constituir em base para uma ação imperialista.
Em segundo lugar, existia a percepção de um mundo em crise econômica e em evidente
processo de aguçamento de conflitos internacionais. A situação colocava a necessidade de criar as
condições para o auto-abastecimento de alimentos e para isso era preciso colonizar internamente o
país expandindo as fronteiras agrícolas (SILVA, 2002). Por isso, produzir mais e para o mercado
interno, se tornou uma meta do Estado. Com este objetivo, sua atuação a partir de 1930 voltou-se
para os espaços vazios do centro-oeste, para o interior do nordeste e para a Amazônia, minimizando
Atuando como jornalistas e literatos, estes intelectuais fundaram centros e agremiações culturais e criaram revistas cujo
objetivo era tornar o estado conhecido nos meios políticos e intelectuais do centro da nação. Este trabalho teve
prosseguimento nas duas primeiras décadas do século XX e a partir da construção de Goiânia ganhou um novo impulso
uma vez que a propaganda se constituiu em uma das principais estratégias de atração da mão de obra e do capital
necessário para a concretização da proposta da nova cidade-capital. O mais completo e interessante trabalho a respeito
é o de Maria Araújo Nepomuceno (2003), intitulado O papel político-educativo de A Informação Goyana na
construção da nacionalidade. Ver também a biografia de Joaquim Câmara Filho – Câmara Filho, o revoltoso que
promoveu Goiás, de autoria de José Asmar (1989).
49
Goiás, Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e o então território do Acre.
47
aparentemente as preocupações com as áreas de economia próspera e de urbanização já
consolidadas do eixo centro-sul.
Desta ótica, a nova cidade-capital de Goiás participou na década de 1930 de um projeto de
integração territorial, econômica e cultural da nação no qual a conquista dos sertões goianos
aparecia, além de incremento da produtividade agro-pastoril-mineradora do estado de Goiás, como
plataforma de ocupação produtiva do Mato Grosso e da Amazônia. Atrelados a esta
intencionalidade, visava-se também transformar valores, práticas e ideias das populações que
habitavam estas regiões. Era a modernidade que se instalava no sertão como um passo decisivo para
a unidade nacional, a qual era vista desde o período imperial como essencial no processo de
construção da nação. Na Era Vargas e, em especial, no período 1937-1945, a integração, unidade ou
incorporação do sertão ao nacional encontraria um momento impar de afirmação e busca de saídas e
soluções tornando-se um projeto especialmente caro ao Estado Novo.
Para Robert M. Levine (2001), entretanto, as medidas e políticas sociais varguistas tiveram
um impacto insignificante nas vidas dos brasileiros que não viviam nas grandes cidades do litoral,
notadamente, Rio de Janeiro e São Paulo. O mundo rural permaneceu, na prática, quase
abandonado pelo Estado Nacional apesar da retórica e até mesmo das preocupações e desejos
legítimos de Vargas. O Brasil permanecia, pois, um enigma indecifrável em função de suas
distâncias. O que, de fato, ocorreu é que a situação de cada unidade federativa no período dependia,
quase que exclusivamente, das motivações e do estilo pessoal do interventor nomeado por Getúlio
Vargas. Em muitos estados do interior do Brasil, muito pouco havia mudado.
Mas se, conforme afirma este autor (2001: 183), o grande legado deste período não foi, ao
contrário do que se imagina, “[...] de leis e decretos, mas de indivíduos”, é preciso admitir que o
espírito nacionalista e modernizante destilado por Vargas produziu, este sim, significativo impacto
nos brasileiros que habitavam o interior naqueles tempos. Por outro lado, a ênfase na busca de uma
identidade para o Brasil e para o brasileiro sustentou-se na noção euclidiana de que o genuinamente
nacional estava no interior, no longínquo e desconhecido sertão, lugar de valores autênticos da
cultura nacional e morada do verdadeiro brasileiro, o sertanejo. A valorização do sertão como
morada primordial da brasilidade e seu atrelamento à forja da cultura e da identidade nacionais
promoveu, de meu ponto de vista, a emergência de uma (auto) consciência social que levou certas
elites intelectuais regionais e à nascente classe média urbana do sertão, a percepção de seu lugar
periférico na construção da nação mobilizando-as em direção à busca da relevância e do
pertencimento nacional.
O caso de Goiás é, neste sentido, emblemático deste espírito. Estado pobre e periférico,
Goiás era, nos décadas iniciais da República, a própria representação do sertão como deserto. Mas,
embalado pelo espírito da época, o interventor Pedro Ludovico Teixeira, em um estilo
48
extremamente próximo ao de Vargas, cercou-se de jovens intelectuais e, juntos, projetaram e
construíram, com poucos recursos e com parco e rarefeito apoio federal, uma nova cidade-capital
para o estado. Mais do que isso, elas a significaram sob os signos da modernidade e do
pertencimento da nação buscando a superação de um passado marcado pela decadência, pelo atraso,
pelo isolamento, pelo abandono.
Por isso, penso que para compreender Goiânia e a história de suas escolas é preciso, antes,
compreender Goiás como um não-lugar se considerada a dimensão da pertença à nacionalidade. É
preciso igualmente considerar a emergência, nos goianos, da autoconsciência de sua condição de
gente do sertão bem como seu mergulho no espelho de Euclides. Os goianos trabalharam para o
desaparecimento do sertão e do caipirismo associado ao mundo regional, mas ao mesmo tempo,
aderiram a uma modernidade à brasileira e lutaram pela preservação das tradições consideradas
dignas de participar da sua nova história. Conscientes de seu lugar marginal planejaram e
trabalharam para a inserção de Goiás no espectro da nação, lugar onde esperavam que a região dos
goyases, finalmente civilizada, seria reconhecida e respeitada como parte fundamental para o futuro
do Brasil.
1.2 - Da sociedade da ausência à cidade como promessa de futuro
Esta gente não falla – boceja, não anda – arrasta-se, não vive
- vegeta. Para ela, não há ambição, nem luxo, nem dinheiro,
nem conforto; não há nada e que a vida corra como o barco à
mercê da corrente. [...] com tal gente [...] tudo é perdido,
dinheiro, tempo, paciência, conselhos e tudo o mais. Palavras
que lhes dirigimos no sentido de os guiar por melhor caminho,
são pérolas que deitamos aos porcos.
Óscar Leal, viajante que passou por Goiás no final do século XIX, em
Viagem às terras goianas50
Goiânia prometia a superação de uma história marcada pela ideia de uma sociedade que, em
um primeiro momento, parecera promissora, mas que não se concretizou. A sociedade do ouro do
século XVIII, o el dorado de riquezas sem fim, logo desapareceu conforme se esgotavam os
mananciais auríferos. As cidades e vilas surgidas na febre do garimpo se esvaziaram, a população
que crescera rapidamente entre os anos 1725 e 175051 logo se foi. A economia, de próspera se
50
LEAL, ÓSCAR. Viagem às terras goianas – Brasil Central. Goiânia/GO: Ed. UFG, 1980.
Segundo Estevam (2004) o apogeu aurífero ocorreu por volta da década de 1750, quando a produção alcançou a
média anual de 9.000 kg de ouro. A população se sedentarizou e surgiram as primeiras vilas em substituição aos arraiais
aglutinados em torno das regiões de extração de ouro. Após a década de 1750, as minas começaram a experimentar uma
gradual e contínua queda de rendimento chegando, ao final do século XVIII, com a produção média de 750 kg por ano.
51
49
tornou deficitária. A atividade agropecuária52 que, conforme Estevam (2004: 23), desenvolveu-se
como atividade paralela dos mineradores durante o apogeu extrativista, manteve a subsistência da
escassa população que se espalhava pela imensa e alongada faixa de terra que compunha a
província de Goiás. Insulada pelos grandes rios – ao norte, as bacias dos rios Tocantins e Araguaia;
ao sul, a dos rios Paranaíba e Grande – a região se caracterizava “[...] pela imensidão das terras do
planalto central e pela condição de fronteira aberta à penetração face à ausência de obstáculos
naturais”.
Que sociedade era aquela, depois do ouro? Viajantes europeus53 e brasileiros – como o autor
do trecho epigrafado - que se aventuraram nos sertões goianos nos novecentos, ao olhar para aquele
lugar tão longe da civilização européia ou mesmo do litoral brasileiro, enxergaram tão somente
ausência construindo a representação que se tornou dominante por toda a história goiana. Para eles,
depois do ouro, havia restado a decadência: uma região pobre e (pouco) habitada apenas nas
fronteiras54, a indolência da esparsa população, índios e feras, reais donos das matas e dos ermos.
Ruína, preguiça atávica, apatia, pobreza! Um vácuo civilizatório no interior brasileiro. A sociedade
goiana foi representada, então, como uma sociedade da ausência. Nada produzia, pouco consumia,
era quase um ônus para o país.
Uma sociedade sem livros, sem professores e sem escolas; sem médicos e sem hospitais.
Sociedade de pequenas vilas e cidades sertanejas, sem comércio e sem indústrias, vivendo inerte na
imensidão do sertão, sua típica representação como deserto, tão pródiga no pensamento social
brasileiro. Mais precisamente, a imagem euclidiana de uma sociedade presa em uma cápsula do
tempo cabia como uma luva nesta construção histórica e cultural. “[...] imóvel o tempo sobre a
rústica sociedade sertaneja, despida do movimento geral da evolução humana” (CUNHA, 1963:
114). A representação de Goiás como uma sociedade imóvel no tempo atravessou os séculos,
52
Uma importante singularidade da economia goiana no período do extrativismo aurífero é o desenvolvimento paralelo
do cultivo agropecuário e da atividade mineradora, ou seja, o trabalhador das minas também criava gado e plantava
para subsistência (ESTEVAM, 2004).
53
Os franceses Auguste Saint-Hilaire e Francis Castelnau, o austríaco Johan Emanuel Pohl, o inglês George Gardner e
aos alemães Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Von Martius “[...] interpretaram e descreveram características
que davam um sentido peculiar à vida goiana da primeira metade do século XIX” (CORRÊA, 2001: 81). Houve ainda o
inglês William John Burchell, 'o viajante africano' que, ao contrário dos demais, não registrou suas impressões em
livros de viagem, mas deixou uma coleção de desenhos da província, com destaque para cenas urbanas, paisagens e
tipos humanos, principalmente índios e sertanejos da região. Uma análise acerca dos relatos de viagem e de alguns
desenhos foi realizada por Margarida Maria da Silva Corrêa e publicada em 2001, com o título Naturalistas e viajantes
estrangeiros em Goiás (1800-1850), no livro Goiás, identidade, paisagem, tradição, organizado por Nasr Fayad Chaul
e Paulo R. Ribeiro, editado pela Ed. UCG.
54
O povoamento do estado de Goiás, após a diáspora provocada pelo declínio dos mananciais auríferos se concentrou
nas fronteiras com os estados da Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará e Minas Gerais. “O território foi se
transformando em amostra das fronteiras internas da colônia, evidenciando diversidade de populações e acarretando
divergências nos interesses sub-regionais” (Estevam, 2004: 24). Em muito provocado pela própria geografia de uma
região que se configurava como uma imensa faixa de terra alongada e insulada por grandes rios, o povoamento nas
fronteiras tornava o centro territorial de Goiás - onde se localiza a antiga capital estadual - escassamente habitado, o que
contribuía para o isolamento do estado na vida nacional e da capital em relação ás demais sub-regiões goianas.
50
chegando a contemporaneidade e abarcando em sua esfera, inclusive, estudos acadêmicos como,
por exemplo, em Tradição e renovação educacional em Goiás onde Nanci Ribeiro de Araújo e
Silva (1975: 29) afirmou:
Da Colônia ao Império, do Império à República, do século XVIII ao XIX, do XIX
ao XX, e o tempo permanecia como que parado para o goiano. Esquecido e
desconhecido para o resto do país, nada mais que um ilhado. A economia pobre, as
finanças deficitárias, as lavouras restritas às derrubadas, queimadas e plantio e a
vida intelectual, privilégio de uma minoria. Tudo, assim, como por nascer.
O impacto das representações depreciativas sobre as minas dos goyases e sua gente não foi
pequeno na auto-imagem do povo goiano nem desprezível os ressentimentos por ela causados.
Eram, afinal, representações compostas por um imaginário nacional repleto de valorações negativas
expressas na ideia de decadência, atraso, preguiça, indolência, ignorância, embora o nacionalismo
brasileiro tenha agregado a estas representações a noção de autenticidade e a grandiosidade épica do
sertanejo55. Aos nativos, em conseqüência, as adjetivações roceiro, tabaréu, jeca, atrasado,
preguiçoso, analfabeto expressavam uma visível negatividade. O fragmento discursivo que uso
como epígrafe desta secção é emblemático das representações acerca do povo goiano.
Apesar do mal estar que provocavam, as representações do sertão goiano como deserto bem
como a simbologia do caipirismo foram apropriadas pelas elites locais e continuaram fornecendo
explicações para a história goiana. Além disso, o poder de tais simbologias foi incorporado pelos
homens, mulheres e crianças que viviam (e vivem) em Goiás e reproduziu-se, com o passar dos
anos, nas mentes gerando nos goianos um sentimento (complexo? síndrome?) de periferia –
particularmente, frente ao Brasil litorâneo. Para alguns historiadores (PEREIRA, 2002; VIDAL &
SOUZA, 2002), este sentimento se constituiu na maior motivação para a busca do progresso e da
civilização ao longo do século XX em Goiás. Goiânia é, neste sentido, um momento crucial na
busca de afirmação e relevância dos ‘filhos do coração do Brasil’, momento no qual a dimensão da
geografia se articulou à formação da identidade goiana uma vez que esse processo foi, em muito,
forjado a partir da imagem do estado como centro do país: “[...] a imagem do coração marcou a
construção da identidade goiana” (SILVA, 2002: 130).
O núcleo forte nas interpretações recorrentes acerca de Goiás são, portanto, os conceitos de
decadência e, depois, de atraso, frutos da representação que surgiu a partir dos relatos dos viajantes
que estiveram na região no século XIX. Tal representação foi reforçada pelas imagens do sertão
gestadas pela intelectualidade brasileira, em especial por Euclides da Cunha em Os Sertões, ensaio
literário-historiográfico – publicado em 1902 - resultante da experiência do escritor no sertão de
55
Imagem forjada, sobretudo, através de uma literatura nacionalista e de caráter evolucionista, a qual teve na obras de
Euclides da Cunha, Os Sertões, seu maior expoente (PEREIRA, 2002).
51
Canudos. A leitura predominante na historiografia goiana trabalha com a ideia que o uso ideológico
destes conceitos serviu às oligarquias rurais - que, desde o final do Império, governavam o estado –
para a manutenção de seu domínio político e econômico sobre a região.
Tais oligarquias, que se perpetuavam no poder, estendendo seus mandos até mesmo aos
esparsos centros urbanos, mantinham seu domínio através da (quase) livre utilização de práticas de
exploração como a jagunçagem, a grilagem de terras, o voto de cabresto, as relações de trabalho
baseadas na camaradagem (CAMPOS, 2003). A família Caiado é, neste sentido, exemplar: poder
oligárquico no período 1917-1930 se valia à larga do poder público para proteger os grandes
latifundiários, inclusive, por meio da grilagem de terras, reprimindo com violência as manifestações
que se apresentassem contrárias aos interesses dos coronéis e seus clãs. Estão neste caso o expurgo
de políticos em São José do Duro56 nos anos 1910 e a repressão, pela força policial e pela máquina
jurídica do estado do movimento de Santa Dica57 no inicio da década de 1920.
A interpretação historiográfica mais recorrente trabalha com a ideia de que o governo
oligárquico goiano se eximia de promover as condições para o tão desejado progresso da região e
que, naquele momento, significava incrementar a atividade produtiva na agricultura e na pecuária.
Para que isso ocorresse, era necessária a abertura de estradas e a extensão da malha ferroviária que
havia estacionado, em 1909, na porção de estado que fazia fronteira com Minas Gerais, muito longe
do centro do estado onde se localizava a cidade-capital. Para Chaul (2001), entretanto, ao contrário
da imagem cristalizada pelos ‘revolucionários’ de Trinta e, depois, pela historiografia, a oligarquia
Caiado não se recusava simplesmente a abrir estradas, estender os trilhos da estrada de ferro e, com
eles, trazer o progresso para a região: de fato, eles estavam comprometidos com outra alternativa de
acesso e trânsito, fazendo uma aposta no caminho aberto por Couto de Magalhães no século XIX,
qual seja a navegação fluvial nos grandes rios que cortam o estado.
De qualquer modo, Goiás se constituía em região longínqua e distante dos fluxos
56
São José do Duro (hoje, Dianópolis, no atual estado do Tocantins) era um vilarejo situado no norte de Goiás,
formado por poucas casas e uma igreja cuja chefia política era da família Wolney, aliada dos Caiado. Porém, a partir de
1912, os Caiado começaram a realizar o expurgo dos Wolney da política goiana, processo que se estendeu até 1919
quando foram, finalmente, afastados da vida pública em Goiás. A reação dos Wolney transformou a Vila do Duro em
um campo de tensão e morte cujo ápice ocorreu quando os Caiado, aliando-se a outras famílias da região, liquidaram
violentamente os Wolney. O patriarca Abílio Wolney escapou com vida e fugiu para a Bahia onde se tornou, depois de
1930, prefeito de Barreiras (NEPOMUCENO, 2003). Bernardo Élis, escritor goiano, escreveu uma versão romanceada
dos conflitos do Duro com o título O Tronco, o qual foi depois transformado no filme do mesmo nome, sob a direção
do cineasta João Carlos de Almeida.
57
Benedicta Cipriano Gomes, a Santa Dica, moradora do vilarejo de Lagoa, nas proximidades de Pirenopólis,
realizando curas, milagres e previsões, atraindo para o vilarejo cerca de 500 pessoas que ali se fixaram admirados pelos
feitos da Santa. Dica acreditava que tinha uma missão libertadora entre os pobres e obteve a obediência daqueles que se
fixaram em Lagoa que a viam como guia. Em terra de fazendeiros, afirmava que a terra era propriedade de Deus,
questionando os títulos de propriedade e afirmando que a terra deveria ser trabalhada coletivamente e seus frutos
divididos entre todos. Dica, e seu reduto, começou a incomodar os donos do poder (entre eles, a Igreja Católica) que
desencadearam intensa campanha de difamação da Santa e de seus seguidores através do jornal O Democrata. Em
1921, um processo judicial foi movido contra Dica que foi presa e condenada. O reduto foi tomado, com mortes, pelas
forças policiais do estado sob o comando de Brasil de Ramos Caiado (NEPOMUCENO, 2003).
52
econômicos, políticos e culturais do país. Segundo os historiadores atuais da formação social
goiana como Pereira (2002) e Chaul (2001), à ideia da decadência foi agregado o isolamento
geográfico da região. “Isolado das regiões mais prósperas do país, sem meios de comunicação,
ferroviário e rodoviário, Goiás permaneceu até a primeira década deste século [XX] em quase total
isolamento” (CHAUL, 2001: 98).
No contexto da euforia modernizante que, a partir de 1870, animava corações e mentes nos
centros dinâmicos da vida nacional, nada poderia ser mais excludente que aquela representação,
principalmente se levada em conta a importância crescente que educação e saúde adquiriam como
condição de desenvolvimento do Brasil e exigência para sua aceitação nos círculos financeiros e
culturais das chamadas grandes nações. O mesmo se pode dizer quando me refiro ao processo de
urbanização da sociedade brasileira: a máxima do urbanismo, ‘mudar a cidade para mudar a vida’,
mais que nunca, produzia profundas transformações no cenário do país. Por todos os lugares, as
cidades eram reformadas, remodeladas, frações de população eram removidas, havia uma febre de
demolições que demonstrava a condenação ao antigo e ao tradicional (SEVCENKO, 2003;
RIBEIRO, 1996; PECHMAN, 1996).
Para uma sociedade que, rapidamente, se transformava - pela urbanização, pela
escolarização, pela industrialização – tudo o que fosse representado como sertão (sem cidades, sem
escolas, sem indústrias) estava condenado a não ser compreendido. Era também o momento em que
a intelectualidade brasileira defrontava-se com o dilema da explicação da nação, processo iniciado
com a Independência (SEVCENKO, 2003; MATTOS, 2004). Empenhados na construção de uma
teoria que explicasse o Brasil, os intelectuais brasileiros, conformados no que Nicolau Sevcenko
(2003) chamou de ‘exercício intelectual como atitude política’ procuraram caracterizar as principais
necessidades e exigências da realidade do país nos moldes do desenvolvimento das nações
européias. Encontraram dois dilemas essenciais para a construção de uma nação unitária: raça e
território, o que cristalizou imagens e representações do Brasil como uma nação dilacerada. Dois
brasis dentro do Brasil.
Proliferaram as imagens de um país repartido: entre ricos e pobres, brancos e não-brancos58,
bárbaros e civilizados, letrados e analfabetos e, a partir do clássico Os Sertões, acentuou-se,
sobremaneira, a dualidade entre litorâneos e sertanejos. Amalgamá-los era o grande, complexo e
imenso desafio. Um desafio para o qual José Bonifácio, na primeira metade do século XIX, já
sinalizava a complexidade quando afirmava “[...] amalgamação muito difícil será a liga de tanto
58
Refiro-me aqui, principalmente, à população negra e mulata uma vez que os grupos indígenas brasileiros nunca
foram, do ponto de vista de ideologia nacional, considerados como parte da nação (SENA, 2003). Ainda segundo esta
autora, no campo dos estudos acadêmicos, ao contrário do negro que é estudado a partir de sua integração social, o
índio é estudado, principalmente, a partir de sua integração territorial. Poder-se-ia dizer, entretanto, que na gênese do
período imperial, “[...] as elites intelectuais buscavam uma identificação com os grupos nativos, particularmente índios
e mamelucos – era esse o tema do indianismo [...]” (SEVCENKO, 2003: 37).
53
metal heterogêneo, como brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios, etc.. em um corpo tão
sólido” (SANTOS, 1985
59
APUD FERREIRA, 2002: 109). Instaurada a República em 1889, o
dilaceramento do Brasil se fez ouvir pela voz dos sertanejos de Canudos e a nação, assustada,
reagiu massacrando sua grita mística. Mas, ao final, o sertão emergiu no debate nacional como uma
metáfora de todo o Brasil.
Viagens e expedições cientificas se sucederam em direção ao sertão do Brasil. Os cientistas
brasileiros, desde o alvorecer da República60, esmiuçavam os modos de vida das populações
sertanejas - habitação, alimentação, usos do corpo e do espaço, etc. -, realizavam estudos sobre o
clima, a terra, a fauna e a flora. Seguindo as pistas de Euclides, procuravam conhecer o sertão e, em
seguida, propor estratégias para integrá-lo à nação em construção. O sertão padecia de
pertencimento ao nacional; era um estranho à porção civilizada do país. Como os intelectuais que
liam a realidade nacional, o sertão estava também à margem da República! Urgia redescobri-lo
para integrá-lo! Segundo Nísia Trindade Lima (1999),
Os primeiros anos da República foram palco de um expressivo movimento de
valorização do sertão, seja enquanto espaço a ser incorporado ao esforço
civilizatório das elites políticas do país seja como referência da autenticidade
nacional. Datam desse período importantes expedições ao interior, como as de
Cândido Rondon, as da Comissão Geológica em São Paulo, a do astrônomo Louis
Cruls em 1892 ao Planalto Central visando à mudança da capital e as expedições
científicas do Instituto Oswaldo Cruz.
Muitos intelectuais e cientistas viram-se, tal qual Euclides da Cunha, diante do sertanejo e
de suas condições de vida e trabalho. Deste confronto, emergiu o retrato de um sertão abandonado e
de um sertanejo pobre, deseducado e doente e, por isso, atavicamente preguiçoso, modorrento,
quase inerte. Mas, se em Euclides da Cunha eram a mentalidade e religiosidade mestiças e atávicas
que faziam com que o sertanejo resistisse à mudança e ao fatalismo de um processo civilizatório
inevitável, para os intelectuais das décadas de 1910 e 1920, o problema estava na inexistente
ilustração e na proliferação incontrolada de moléstias, ambas provocadas pelo abandono em que
viviam as populações sertanejas. Entregue às oligarquias regionais, na chamada Política dos
Governadores, o interior brasileiro mostrava a face de um Brasil doente deixando evidente que a
República não cumprira sua promessa civilizatória.
‘Um imenso hospital’, esta a descrição da nação feita por Miguel Pereira, proeminente
59
Santos, A.M. dos. A invenção do Brasil: um problema nacional. Revista de História, USP, 1985.
Para Goiás, as mais significativas destas viagens e expedições foram a Comissão Cruls (1898), constituída por
Floriano Peixoto para encontrar e demarcar um local no centro geográfico do país com o intuito de construir, no futuro,
uma cidade para a qual deveria transferir-se a capital da República e as expedições realizadas pelos médicos sanitaristas
do Instituto Oswaldo Cruz nas décadas de 1910 e 1920 no contexto da Campanha de Saneamento dos Sertões. Várias
viagens desta Campanha atingiram o norte do estado de Goiás.
60
54
médico e cientista da época, evidenciando o abandono e a ausência de proteção social que geriam a
vida das populações do interior do Brasil e denunciando a responsabilidade do Estado na sua
permanência. A imagem da doença que ia sendo agregada ao universo sertanejo produzia
deslocamentos nas representações sobre o sertão e seus habitantes, confrontando a grandiosidade
épica do sertanejo euclidiano com a imagem de um ser cheio de verminoses e doenças provocadas
pelo clima tropical e mantidas pela ignorância, pela superstição e pelo abandono do Estado. O
sertão, espaço da ignorância, se tornava também o lugar da doença. A ideia de sertão sofrera,
portanto, deslocamentos e deslizes desde que (re) surgira, poderosa, da pena de Euclides da Cunha.
Enquanto isso, nas duas primeiras décadas do século XX, os ritmos das mudanças em Goiás
eram persistentes, embora lentos e localizados, quase que exclusivamente, nas partes sul, sudeste e
sudoeste do estado, mais próximas de regiões que, naquele momento, rapidamente se
modernizavam como o Triângulo Mineiro/MG e o interior paulista. Ali se intensificavam os
contatos comerciais, políticos e culturais que condicionavam um avanço rumo ao que era
considerada a porção civilizada do país. A suposta decadência do estado começou a ser superada a
partir de um desenvolvimento mais intenso da pecuária e, depois, da agricultura, as quais
recolocaram Goiás no cenário produtivo brasileiro.
Uma estrutura rodoviária foi criada pelos próprios proprietários de terra e, embora precária,
consolidava o intercâmbio de pessoas, mercadorias, ideias e práticas. Foi nestas sub-regiões do
estado onde as invenções da modernidade industrial começaram a chegar: o primeiro automóvel, as
primeiras máquinas de beneficiamento de cereais, entre outras. As trocas comerciais estimularam a
economia goiana e a receita tributária aumentou, algumas frentes migratórias começavam a se
deslocar para a região, especialmente dos estados fronteiriços provocando um tímido crescimento
populacional.
A ideia de decadência foi substituída pela de atraso, o que revela o aporte evolucionista
que, então, compunha o cerne do pensamento social brasileiro. O conceito de atraso permitia pensar
na sua superação a partir da noção de evolução social, o que não era possível se permanecesse o de
decadência (CHAUL, 2001). Como centro produtivo de alimentos, Goiás deixava de ser visto como
região decadente – embora potencialmente rica - assumindo a condição de uma região
enormemente atrasada do ponto de vista cultural e político, mas que era, novamente, promissora.
Goiás passava a ter um novo significado para o Brasil, mas não mudara de lugar na ‘hierarquia de
importâncias’ configurada na formação do Estado e da nação brasileira. Continuava ignorado,
isolado e, por conseguinte, marginal.
Os goianos, sobretudo suas elites e uma nascente classe média, incomodavam-se com esta
situação. Afinal, viviam também a euforia de construção da nacionalidade que animou
significativas parcelas da intelectualidade brasileira até, pelo menos, a metade do século XX
55
(SEVCENKO, 2003). Queriam dela também participar uma vez que consideravam que o estado de
Goiás - que de decadente se tornara promissor - possuía tudo que o país precisava para cumprir sua
destinação histórica de tornar-se uma grande nação. Era preciso apenas conhecê-lo e explorá-lo.
Com este intento, um persistente trabalho de pesquisa e investigação sobre as possibilidades
econômicas de Goiás e uma intensa e deliberada ação de propaganda do estado foi realizada durante
toda a Primeira República por intelectuais goianos que se sentiam magoados com a situação
marginal de Goiás. Esta foi a opção e a alternativa por eles vislumbrada para tornar a região
reconhecida e respeitada no rol das unidades federativas. Concomitante à divulgação de suas
riquezas, bateram-se pela modernização da região, atacando aqueles que como Leopoldo de
Bulhões61 se eximia de contribuir para as mudanças que Goiás requeria para modernizar-se e
participar dignamente e com destaque da comunhão nacional.
Quando Goiânia surgiu e tornou-se a capital do estado, este trabalho de divulgação
constituiu momento singular, inclusive, porque o projeto da nova cidade se sustentou na
propaganda como estratégia para atrair investimentos e pessoas ou, em outros termos, capital e
trabalho. Depois, além do uso intensivo da propaganda, a ocupação produtiva do espaço por meio
da urbanização e do incentivo à atividade rural, as tentativas de industrialização, o incremento do
papel do Estado, a modernização pedagógica foram dimensões privilegiadas pelas elites goianas,
sintonizadas que estavam com as ideologias do progresso e da civilização que – alicerçadas pelo
sentimento nacionalista - assolavam o país por boa parte do século XX.
Meu pressuposto é o de que, ao se apropriarem dos discursos então em voga (nacionalismo,
interpretação dualística do Brasil, ideologias da civilização e do progresso), os goianos o fizeram
realizando deslocamentos e deslizes, o que conferiu uma singularidade às suas práticas e às suas
estratégias discursivas constituindo-se também, nesse processo, como sujeitos singulares. Neste
sentido, o isolamento e o abandono se aliaram à percepção da invisibilidade de Goiás e dos goianos
no espectro da nação fornecendo um colorido específico às suas práticas discursivas e não
61
Político goiano (1896-1928) de maior projeção no cenário nacional da época. Liberal desde o tempo em que era
estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em São Paulo, foi deputado constituinte (1891), diretor
do Banco do Brasil (1907-1908), senador por diversas vezes, Ministro da Fazenda nos governos Rodrigues Alves
(1902-1906) e Nilo Peçanha (1909-1910), além de relator do projeto de reorganização do Banco da República. Embora
respeitado e reconhecido nacionalmente, em Goiás, Bulhões “[...] condensava, em sua pessoa, todo o ranço de ‘atraso’
que [a intelectualidade goiana] queria ver superado em seu estado” (NEPOMUCENO, 2003: 97). A aversão ao
poderoso chefe político que comandava Goiás - de longe - através de seus correligionários políticos, tinha razão de ser:
Bulhões dificultou, sobremaneira, a construção da estrada de ferro que já rumava em direção a Goiás, vinda de Minas
Gerais. Foi também o líder político que articulou a chamada Revolução de 1909, momento em que o governo
progressista e moralizador de José Xavier de Almeida foi deposto e, em seu lugar, colocado Eugênio Rodrigues Jardim
que retomou as velhas práticas coronelísticas que a gestão anterior vinha desmontando, dando fim ao tímido surto de
progresso experimentado pela região. Do grupo liderado por Bulhões faziam parte seus cunhados Francisco Leopoldo
Rodrigues Jardim, Urbano Coelho de Gouvêia e Joaquim Xavier Guimarães Natal além de grandes expoentes do
coronelismo goiano como Antonio José Ramos Caiado, Joaquim Fernandes de Carvalho, Bernardo Antonio de Faria
Albernaz (CAMPOS, 2003), personagens que dominaram a vida política goiana, sucedendo-se no governo do estado,
até o fim da Primeira República, em 1930.
56
discursivas. O cimento que permitiu consolidar deslizes e deslocamentos sobre os discursos que,
naquele momento, explicavam o Brasil parece-me ser o surgimento de Goiânia e sua projeção como
ruptura com um passado descrito em termos de decadência e atraso, como imagem do moderno no
sertão e como ícone da unidade nacional.
Goiânia é, por isso, representativa do projeto integrador do sertão oeste do Brasil e do papel
que, neste projeto, tiveram os locais. Cidade-capital planejada e construída na década de trinta e
inaugurada (1942) em plena vigência do Estado Novo – ‘sua filha mais dileta’62, sua ‘flor
miraculosa’63–, Goiânia representou, do ponto de vista de Goiás, um marco na interiorização do
país e, conseqüentemente, um importante momento para a integração cultural, econômica e,
principalmente, geográfica do Brasil. Enxergando a nação a partir do sertão que se modernizava, os
goianos valeram-se das representações e imagens dos dois brasis – um litorâneo, outro sertanejo –
para constituir, para a cidade, sentidos que transitaram entre a modernidade e o nacionalismo. Esta
opção os levou a vincular a nova cidade-capital de Goiás ao ideário de integração nacional de
Vargas, inclusive, em seu momento mais traumático, o Estado Novo (1937-1945).
O Estado Novo trouxe a Marcha para o Oeste, programa oficial do governo federal que
tinha por meta principal a conquista da Amazônia. A Marcha buscava, de fato, possibilitar a
ocupação produtiva do interior brasileiro, considerada fundamental para os propósitos de unificação
nacional alimentados por Vargas se constituindo, então, como um projeto de interiorização do
Brasil. Marcha para o Oeste é também o título do livro de Cassiano Ricardo, publicado em 1940,
onde o autor reforça a interpretação dualística do Brasil ao fornecer uma poderosa síntese e
recriação do mito de fundação do Brasil no qual as bandeiras paulistas se constituem o
acontecimento que confere, aos brasileiros, o sentido do pertencimento a uma nacionalidade.
Para Cassiano Ricardo, as bandeiras foram o mais original e bem sucedido projeto de
construção de uma nação unificada e o bandeirante, ao contrário de desaparecer, sobrevivera como
símbolo do povo brasileiro. Por isso, a identidade nacional era uma identidade bandeirante64
pressupondo “[...] um bandeirante anônimo caminhando no sangue de cada um de nós [...] porque o
bandeirante é sinônimo de pioneiro que o Brasil original criou para figurar ao lado dos povos em
marcha” (RICARDO, 1940: 22). A ocupação do interior aparecia como vocação de uma nação, tal
qual o bandeirante, andeja e sempre a caminho do centro. Uma concepção geográfica da pátria foi
62
Como afirmou Paulo Augusto de Figueiredo no artigo O Brasil comeu espinafre, publicado no nº 01 da revista Oeste,
em julho de 1942.
63
Como a chamou Dom Aquino Correia, Bispo de Cuiabá, capital mato-grossense, nas cerimônias de inauguração da
cidade, em 1942. In: Revista Oeste, nº 02, março/1943, p. 03.
64
Em A epopéia bandeirante: letrados, instituições, invenção histórica (1870-1940), Antonio Celso Ferreira (2002)
aborda o esforço de intelectuais paulistas na construção da identidade paulista. No processo, há uma recuperação da
história de São Paulo donde surge a figura ousada, corajosa e patriota do bandeirante que se torna a imagem-símbolo do
paulista como membro de uma ‘raça de fortes’, descendente dos bandeirantes que vencendo os perigos do sertão
adentraram o interior brasileiro nos séculos XVII e XVIII em busca de riquezas minerais e de escravos.
57
evidenciada neste discurso e, por ela, fazia-se necessário nacionalizar o espaço nacional, o que foi
configurado em um abrasileiramento do sertão como fórmula para a conquista de um país autêntico,
progressista e moderno. Esta representação de país que é “[...] de uma só vez descrição e
programática [...]” foi tornada oficial através do Programa Marcha para o Oeste (VIDAL E
SOUZA, 2002).
Complementando o programa de Vargas e contemporâneo da construção e inauguração de
Goiânia, o livro de Cassiano Ricardo ofereceu um repertório de argumentações e justificativas para
a formulação de discursos sobre a nova cidade-capital de Goiás, contexto no qual o mito
bandeirante foi atualizado e apareceu, profusamente, nos discursos sobre a cidade. Não por acaso,
em 1937, estudantes e intelectuais paulistas65 ofereceram à Goiânia, um presente que marcaria para
sempre sua cena urbana: a escultura do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva66 que foi colocada
no cruzamento das avenidas Goiás e Anhangüera, no Setor Central. O bandeirismo subsidiou a
constituição de imagens como a do ‘terceiro Anhangüera’67, atribuída a Pedro Ludovico Teixeira, e
‘banderismo vertical’68 com o sentido que, mais que ocupação geográfica (horizontal) do espaço
nacional, Goiânia operaria com a ideia de aprofundamento moral e cívico da nacionalização.
A cidade representou uma base a partir da qual o vaticínio de Euclides da Cunha se faria
realidade. Naquele complexo momento da história brasileira, isto significava que a cidade se
constituiria em uma base que forneceria as condições para o desaparecimento do sertão pela ação
desbravadora do bandeirismo, tornado símbolo da alma genuinamente nacional. Na apresentação do
livro Goiânia, a nova capital de Goyaz: resumo de um estudo69, abaixo da fotografia do Interventor
Pedro Ludovico Teixeira lê-se que a nova cidade-capital dos goianos seria ‘[...] um ponto de apoio
para o acesso das novas bandeiras civilizadoras aos sertões’. O jornal paulistano Diário de Notícias
ratificou a vocação da cidade-capital no mesmo mês do Batismo Cultural, a 07 de julho de 1942, no
65
A Estátua do Bandeirante foi financiada pela Campanha Pró-Monumento aos Bandeirantes em Goiânia, promovida
por estudantes da USP e que atingiu as cidades de São Paulo, Campinas e Santos. De acordo com informe publicado no
Correio Oficial do Estado de Goiás em 05 de maio de 1938, Érico Veríssimo, Tristão de Ataíde, Pedro Calmon,
Gilberto Freire, Jônatas Serrano e Agripino Grieco coordenaram comissões desta Campanha. O fato foi amplamente
noticiado na época pela impressa paulista e goiana. O conjunto de documentos acerca deste acontecimento foi doado
Universidade Federal de Goiás, em 1985.
66
No século XIX, Bartolomeu Bueno foi o bandeirante que adentrou Goiás a procura de ouro e índios. Voltou a São
Paulo depois de conseguir, dos índios, a localização das minas ameaçando diante de um ardil, incendiar os rios e matas.
Foi chamado, por isso, Anhangüera (Diabo Velho). Não retornou, entretanto, a Goiás para explorar as minas que tanto
cobiçou. Anos mais tarde, seu filho - também chamado Bartolomeu Bueno - que participara da bandeira do pai quando
tinha 12 anos de idade, voltou a Goiás e estabeleceu a mineração recebendo também o codinome Anhanguera. Foram,
portanto, dois bandeirantes, ambos chamados Bartolomeu Bueno que ficaram, para a história, reconhecidos como
Anhangüera (PALACÍN & MORAES, 1994). A Estátua doada pelos paulistas reproduz a imagem de Bartolomeu pai, o
primeiro Anhanguera
67
Assim se referiu ao interventor, o Bispo de Cuiabá, Dom Aquino Correia, nas comemorações do Batismo Cultural de
Goiânia, nome dado aos eventos que inauguraram a cidade, em julho de 1942. Revista Oeste, nº 06, julho/1943.
68
Paulo Augusto de Figueiredo em Variações em torno de Goiânia, revista Oeste, julho/1943, p. 02
69
Conforme consta em seu prefácio, o livro faz parte de um conjunto de publicações - editadas pelo IBGE e pelo
Conselho Nacional de Geografia (CNG) - que veio à luz por ocasião da inauguração oficial de Goiânia, em julho de
1942.
58
artigo (não assinado) A metrópole do sertão70 no qual louva tanto o potencial de civilização
representado por Goiânia para a construção da nação quanto sua importância para o estado de
Goiás.
[Pedro Ludovico] não nos deu uma cidade qualquer. Edificou em pleno sertão uma
aglomeração urbana com todos os requisitos reclamados pela vida moderna:
comodidades, facilidades, conforto, higiene, bem estar, observando os princípios
mais adiantados da arte urbanística, num cenário natural admiravelmente
escolhido. [...] Decisiva vai ser, por isso, graças aos meios progressistas de que
dispõe, sua ação civilizadora, menos demorada possível, na imensa hinterlândia
longínqua [...] Goiânia tem, de certo modo, a missão de ‘revelar’ Goiaz, com suas
inúmeras e imensas riquezas [...]. [...] a mais moça cidade do Brasil representa
caracteristicamente um papel de suma relevância no próximo futuro tanto do
Estado, como do país, pois que com ela e através dela é que vai se acelerar e
completar a definitiva integração do maravilhoso planalto semi-despovoado, semidesconhecido e mal aproveitado.
Se rumar para o sertão-oeste era a alternativa viável e inteligente para o Brasil, Goiânia seria
significada como momento singular na construção de uma nova configuração nacional. Por isso, a
simbologia de progresso e civilização, vistos como sinônimo de modernidade, que inicialmente
justificaram Goiânia foi, especialmente depois do advento do Estado Novo e da Marcha para o
Oeste, acrescida de outra: a que relacionava Goiânia ao processo de constituição da nação, em
particular, no nível da construção geográfica da pátria por via de sua integração. O orgulho de
pertencer àquela geração e daquele momento da história, de participar de uma destinação histórica
nacional empolgou os construtores de Goiânia, seus intelectuais, sua classe política e suas elites
permeando a construção discursiva sobre a cidade. Houve de sua parte um enorme esforço de
vinculação entre aquela esquecida região brasileira e os mais elevados ideais e projetos nacionais.
As imagens de uma nação dilacerada em sertão e litoral que pontuavam as interpretações
sobre o Brasil sustentaram os discursos sobre Goiânia em um forte apelo que vinha da leitura
geográfica do Brasil. Nesta leitura, os goianos encontraram uma argumentação que possibilitava a
defesa da importância de Goiás para a construção da nação: das representações forjadas pelos
viajantes estrangeiros, especificamente nas de Auguste Saint-Hilaire, emergiu uma noção
extremamente cara à intelectualidade goiana, qual seja, a que localiza Goiás no centro geográfico
brasileiro permitindo-lhes construir a imagem de Goiás como ‘coração do Brasil’71. Neste sentido,
lembro que a imagem de centro geográfico também compôs, ao tempo do Império, um imaginário
sobre a nação, conforme se pode ler na descrição do país no ‘Prólogo do Tradutor’ do Dicionário
70
Reproduzido no Correio Oficial do Estado de Goiás em 12/07/1942, p. 01.
A respeito ver: Costa, Wilma P. Narrativas de viagem no Brasil do século XIX: formação do estado e trajetória
intelectual. In: MARCELO RIDENTI, ELIDE RUGAI BASTOS, DENIS ROLLAND (orgs.). Intelectuais e Estado.
Belo Horizonte/MG: Editora UFMG, 2006, pp. 31-50.
71
59
geográfico, histórico e descritivo do Império do Brasil (SAINT-ADOLPHE, 186372 APUD
MATTOS, 2004: 21)
A importância política e comercial de uma nação depende necessariamente da
bondade de suas instituições civis, das produções de seu solo e indústria, e
primeiro que tudo de sua posição geográfica. Apliquemos ao Brasil a última destas
proposições, que é de uma evidência manifesta, e viremos a entender que poucos
são os Estados, que considerados debaixo deste ponto de vista, ocupam um tão
distinto lugar entre as demais nações. Colocado no centro do mundo civilizado,
cercado pela Europa, América do Norte, México e mais Estados das Índias
Ocidentais, os portos do mar Pacífico, a Occeania, a Austrália, as Índias Orientais
e a China, este vasto continente, [...] com perto de 900 léguas de costa, parece que
havia sido predestinado pela Providência para ser o centro das transações
comerciais de todo o mundo civilizado. (grifos meus)
As elites do planalto central brasileiro, ao enfatizar a dimensão geográfica como núcleos de
argumentação em defesa da hinterlândia goiana comungavam uma identidade que já fizera parte do
repertório de apresentação do próprio país ao chamado mundo civilizado. O momento histórico,
entretanto, era outro bem como eram outras as possibilidades do Brasil. Mas, em ambos, a mesma
retórica da ‘exageração’ que, dando relevo à geografia, ignorava as problemáticas de uma
organização social baseada na defesa da propriedade privada e na exploração do trabalho de muitos
em benefício de uns poucos. Nos tempos do Brasil Imperial, olvidou-se a escura mancha da
escravidão; em Goiás, negou a manutenção do domínio autoritário dos governantes mesmo em
tempos anunciados como tempos de superação das desigualdades e das injustiças.
A construção de uma nova cidade-capital de um estado localizado no centro geográfico do
país, nas décadas de 1930 e 1940, catalisou as expectativas dos goianos fornecendo-lhes as
condições para uma reação contra a marginalidade da região nos quadros da nação exatamente a
partir da valorização da sua posição geográfica. A simbologia do coração se expandiu: ‘Goiás,
coração do Brasil’. A nova cidade-capital de Goiás demonstrava que, ao contrário das previsões
pessimistas, o povo do sertão dos goyases construía um coração capaz de fazer pulsar todo o corpo
da nação. Uma interpretação que possibilitou a esperança de construir uma nova história para Goiás
e para os goianos.
72
Saint-Adolphe, J.C.R. Millet de. Dicionário geográfico, histórico e descritivo do Império do Brasil. 2ª Edição. Paris,
1863 (Tradução pelo Dr. Caetano Lopes de Moura).
60
1.3 - A ‘destruição’ de Vila Boa: romper com o passado, saltar para o futuro.
Nasci numa rebaixa de serra/entre serras e morros/ longe de
todos os lugares./ Numa cidade de onde levaram o ouro e
deixaram as pedras.
Cora Coralina
Goiânia, a nova cidade-capital do estado de Goiás foi, mesmo antes de sua construção,
simbolizada como salto para o futuro; salto radical para um futuro de desenvolvimento, progresso e
civilização para o enorme entorno rural do qual era o epicentro. Símbolo máximo do progresso de
um estado que promovia uma ruptura com sua história e de um povo sertanejo que, afinal, dava
provas que era capaz de construir ativamente seu futuro. Era, afirmavam aqueles que a projetaram e
edificaram, a promessa de um futuro em tudo diferente do passado de desconhecimento, abandono
e isolamento ou, conforme se consolidou nos imaginários, do tempo de decadência e atraso. Porta
de acesso do estado de Goiás à modernidade, cidade construída no meio do nada, misto de cidade e
sertão73, um crime contra o deserto, como escreveria Claude Lévi-Strauss (1957), a nova capital de
Goiás cristalizou um dos paradigmas da modernidade: a recusa e a negação da história através da
projeção de um porvir alternativo.
Recusa e negação da história, por sua vez, constituem-se em estratégias que se baseiam na
noção de que o Estado pode mudar a sociedade manobrando o social por meio da promessa de um
outro futuro (HOLSTON, 1993). Sob esta perspectiva, não somente a moderna arquitetura art déco
e o plano urbanístico da nova capital, mas também a dinâmica de ocupação material e imaterial de
Goiânia sinaliza para o desejo de transformação em direção aos padrões modernos de pensamento e
ação. Tal desejo se concretizou, à época, especialmente pela comparação entre a antiga Vila Boa e
uma cidade-capital que nem sequer existia ainda.
De fato, a um primeiro olhar, a centenária cidade-capital do estado parecia vegetar na
estagnação. Berço das tradições goianas, Vila Boa parecia viver ainda no século XVIII enquanto
nas partes sul, sudeste e sudoeste do estado havia a gênese de um processo de inserção e
modernização, principalmente econômica. Somente um olhar despido da força da construção
histórica que localizou em Goiânia o marco zero da história goiana, poderia encontrar vida por
baixo da aparente imobilidade. Na proposta de edificação de uma cidade radicalmente oposta a
velha capital, o interventor Pedro Ludovico Teixeira valeu-se desta suposta imobilidade e
manobrou habilmente as ânsias desejosas de modernidade e pertencimento que atormentavam as
elites intelectuais e políticas estaduais.
De acordo com Fernandes (2003), é possível apreender da interpretação das suas Memórias
73
Conforme anúncio publicado no Correio Oficial do Estado de Goiás (1938 e 1939), disponível no Arquivo Público do
Estado de Goiás, em Goiânia.
61
(1973) que o interventor goiano, ao retornar à Goiás depois formar-se médico na Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro em 1916, experimentou dificuldades para adaptar-se à vida das
pequenas cidades goianas. Voltara, segundo o próprio Ludovico, em função de laços afetivos com
Goiás e por acreditar que sua atividade profissional poderia ser útil, mas revelou que ‘a melancolia
era minha constante companheira’ e que ‘por mais que me esforçasse não me habituara [...] a vida
monótona das pequenas cidades’(1973: 25-25).
Enquanto viveu no Rio de Janeiro, freqüentava bares e cafés, discutia literatura francesa e
autores humanistas – base de sua formação - com os amigos universitários, falava sobre Rousseau
por quem nutria grande admiração e aprendia sobre ideias socialistas, das quais por inúmeras vezes
se revelou partidário. Na volta a hinterlândia, depois de viver em várias cidades do interior goiano,
Ludovico mudou-se para Vila Boa experimentando na então cidade-capital goiana, o mesmo
marasmo das cidades interioranas do estado. ‘Cidade antiquada e em que não via possibilidades de
atender as minhas aspirações’, lembrou em suas Memórias (1973: 21). De que aspirações falava o
interventor? Que cidade habitava seu pensamento? Sem dúvida, a experiência no Rio de Janeiro
marcara a sua vida parecendo ressentir-se, particularmente, pela ausência de vida intelectual e
cultural na centenária Cidade de Goiás.
Fernandes (2003) considera que a insatisfação de Pedro Ludovico Teixeira em relação à
vida nas cidades goianas, em especial, em relação à cidade-capital pode ter-se constituído no motor
inicial para a proposta de construção de um centro urbano que pudesse atender suas ‘aspirações’
por vida intelectual e cultural. A bucólica Vila Boa tornara-se o alvo preferencial do interventor que
construiu um núcleo argumentativo sustentado pela comparação entre o antigo – símbolo do atraso
– e o moderno – ícone do progresso. Desta ótica, os visíveis interesse e esforço do interventor na
construção de um ambiente culturalmente rico em Goiânia pode também ser alinhado a tais
motivações.
Entre outras dimensões que passaram pelo crivo comparativo dos defensores da construção
de uma nova cidade-capital para Goiás, a questão da tessitura física da cidade de Goiás foi objeto
de inquestionável entusiasmo. Foi, por sinal, em relação à suposta precariedade da malha urbana e
das habitações que o Interventor Pedro Ludovico Teixeira, fiel à formação médica recebida na
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, direcionou seu ataque à capital goiana e justificou a
edificação de uma nova cidade-capital74. O interventor utilizou-se, para justificar e convencer a
sociedade goiana da necessidade da construção de Goiânia e conseqüente transferência da capital,
do discurso médico-higienista focalizando as condições anti-higiênicas e insalubres da cidade de
Goiás e a necessidade de melhorar as condições de vida e saúde da população.
74
Conforme discorre no Relatório enviado ao Presidente Getúlio Vargas em 1933.
62
A bucólica Vila Boa, na acepção de Ludovico, era quase uma ‘necrópole’, representação
presente na história da cidade desde os novecentos quando Couto de Magalhães (1863) tentou sem
sucesso transferir a capital para outra cidade do estado. Conforme Campos (2002: 170), o saber
médico de Ludovico permitiu a ele examinar a Cidade de Goiás “como a um doente” destacando o
modo de vida, as moradias, as verminoses, a falta de condições sanitárias, a suposta indolência da
população, as relações marcadas pela desigualdade social. A partir daí, defendeu como profilaxia à
doença a construção de uma nova cidade-capital que arrancaria Goiás do atraso e da decadência
constituindo exemplo a ser seguido pelos interiores goianos.
A principal e, talvez única proposta levada a cabo pelos novos governantes goianos para a
modernização do estado foi a construção de uma nova cidade e a transferência da capital. Seu
argumento principal: a problemática localização geográfica de Vila Boa e sua inadequação aos
imperativos da higiene. Contudo, segundo Campos (2002), uma vez construída Goiânia e
concretizada a transferência da capital, poucas ações e políticas foram efetivadas para compor a
cidade higiênica prometida pelo Interventor. O fornecimento de água encanada e a dotação de redes
de esgoto e saneamento, por exemplo, itens primários em políticas de saúde pública, ficaram
restritos a uma pequena área da cidade-capital durante a demarqué temporal 1937-1945 deixando à
margem destes benefícios a maioria da população.
O abandono do higienismo pode ser relacionado à precária situação econômica do estado
que arcou praticamente sozinho com o ônus da construção da cidade: faltavam verbas para
operacionalizar a construção das redes de saneamento e esgoto bem como para investir na educação
escolar nos moldes previstos pela medicina higiênica. Em diversos documentos dirigidos ao
governo federal, o interventor chamava a atenção para a precariedade da situação sanitária e
higiênica do estado e solicitava apoio financeiro para a concretização de sua política de saúde
pública. Tais apelos foram considerados pelos estudiosos do período (CHAUL, 2001; CAMPOS,
2002) como mais uma estratégia de poder de Ludovico. No entanto, “[...] a estratégia de poder, via
saúde pública, se inviabilizara através da falta de recursos para sua efetivação (CHAUL, 2001: 78).
Acima de tudo, o discurso higienista que Pedro Ludovico utilizou para atacar a centenária
Cidade de Goiás deu-se com base em uma retórica do exagero que visava convencer aqueles que
eram contrários à ideia da construção e mudança da capital. Era, portanto, outra estratégia de poder
utilizada pelo interventor. Mais tarde, em 194275, Ludovico foi explicito ao reconhecer os reais
motivos para a ‘destruição’ de Vila Boa.
Confesso, fazendo justiça, à velha Goiás, que não foram motivos de ordem
sanitária que pesaram no meu espírito para retirar-lhe a primazia de ser a
75
Conforme se lê no Relatório do interventor Pedro Ludovico enviado a Getúlio Vargas (1940-1942).
63
metrópole goiana. Causas de origem econômica, política e social influíram
poderosamente para que lhe cerceasse o privilégio de que usufruía.
Pedro Ludovico, entretanto, não estava sozinho no ataque à cidade de Goiás: além de parte
expressiva da população goiana, de muitos jovens intelectuais, dos fazendeiros das sub-regiões sul,
sudeste e sudoeste de Goiás e de políticos de outras sub-regiões do estado76. Também os urbanistas
Armando Augusto de Godói e Atílio Correia de Lima ratificavam, ambos, o ataque à cidade,
argumentando, inclusive, com base na perspectiva das preocupações oriundas da medicina social
para legitimar a necessidade de uma nova cidade-capital. Correia Lima (1942: 90)77, por exemplo,
afirmou, em Goiânia, a nova capital de Goiaz: resumo de um estudo Resumo de um estudo, que na
centenária capital
As construções em sua totalidade são ligadas, em abertura lateral, comprimidas em
estreitos lotes, recebendo iluminação pela testada e pelos fundos apenas. Longos
corredores atravessam a habitação, dando acesso a uma série de alcovas escuras
sem ar e sem luz. Conquanto o lote seja estreito, sem compensação e, em regra
geral, demasiadamente profundo, seria útil pela vegetação que abriga, se não fosse
fadado a ser o local de despejos e pasto onde campeiam urubús.
Quanto à malha urbana, considerou-se que as ruas acidentadas e estreitas da cidade não
ofereciam condições para o trânsito de carros e carroças, sendo o transporte de mercadorias feito
em cargueiros puxados por mulas ou carregados em ombros humanos. Atílio Correia de Lima
ratificou que este tipo de transporte tornava a construção de habitações altamente dispendiosas e,
portanto, restritas e incompatíveis com os modernos métodos de edificação. Quase não se
construíam, em Vila Boa, novos prédios, fossem eles públicos ou privados e por um largo período,
prevaleceu uma média de construção de uma casa por ano. O ritmo de crescimento populacional da
capital goiana era também quase nulo não havendo variações significativas entre os anos de 1891 e
1919: a população vilaboense estacionara em 9.000 almas.
Ademais, a precariedade da malha rodoviária que ligava a capital a outros pontos do estado
e a distância da estação de estrada de ferro mais próxima fazia com que a cidade ficasse ainda mais
76
Mário da Costa Ferreira, prefeito da cidade de Bonfim (atual Silvânia) foi um dos políticos goianos que se
manifestaram favoravelmente à mudança da capital e, na esperança de ver a nova cidade-capital construída no
município que governava, engrossou o coro dos que atacavam a cidade de Goiás. Em carta enviada a Pedro Ludovico,
em 1932, apresentava as possibilidades de Bonfim como possível sede administrativa e pontificava que ‘A má
localidade da actual capital, a insalubridade de seu clima, excessivamente quente, tiram não só dos governos, mas
também de todos que nella habitam toda a disposição para o trabalho, para o estudo de nossos magnos problemas
sociais [...]. Os governantes ficam completamente alheios ao que se passa em todo o Estado, pois, actualmente, só
procuram a capital os que tem interesses políticos a tratar, sendo as informações que vehiculam as mais suspeitas, e às
vezes, inverídicas, de sorte que se torna difícil, senão impossível, ao governo, o controle da política e da administração
geral do Estado’.
77
Fragmento de texto publicado na coletânea Goiânia (1942) sob o título Goiânia – a nova capital de Goiaz – resumo
de um estudo, pp. 82-112.
64
isolada, o que era agravado em períodos de chuva quando os transportes eram praticamente
inexistentes. Desde há muito, chegar à velha e pequenina cidade-capital goiana constituía
verdadeira odisséia para os que se aventurassem: de qualquer lugar, de dentro do próprio estado ou
vindo de regiões além-fronteira, as dificuldades eram imensas uma vez que as estradas eram
estreitas e mal conservadas, quase picadas abertas na mata. Nanci Ribeiro de Araújo e Silva (1975:
25) alinhou as principais vias de transporte no final do século XIX.
Rumo ao sul, para São Paulo, a estrada do sal; rumo ao norte, a estrada do correio
do rio; rumo ao sudeste, para o Rio de Janeiro, via Paracatu e São João d’El Rei, a
estrada do nascente; rumo a oeste, para Mato Grosso, a estrada do poente; rumo
ao leste, para a Bahia, a estrada do couro.
O isolamento entre cidades, vilas e arraiais goianos era tamanho que o presidente da província
Couto de Magalhães (APUD SILVA, 1975: 27) comentou em 1863 que as povoações mantinhamse isoladas umas das outras ‘sem troca de produtos, de ideias, de affeições, de sentimentos, seguras
somente por um delgado fio político que não conheciam’. Quase setenta anos depois, já década de
1930, as relações entre a capital e o interior do estado continuavam problemáticas, inclusive, em
função das precárias condições de acesso e trânsito.
No interior das críticas às habitações da cidade de Goiás, Pedro Ludovico mencionou suas
deficientes condições sanitárias lembrando que ‘enumeram-se a dedo, uma ou duas em cada rua, as
casas dotadas dêsse elemento indispensável, a menos que se queira dar o nome de instalação
sanitária às privadas sem esgôto e sem caixa de descarga, simples aberturas feitas no solo rochoso
dos quintais’78. O interventor também mencionou o precário abastecimento de água, que era
dificultado pela natureza do subsolo da cidade que, constituído de cascalho e pedra, não era
propício à abertura de poços e cisternas nos quintais79. A qualidade da água subterrânea também
impedia seu aproveitamento dado sua composição química que a tornava ‘impotável e refratária ao
sabão’, conforme observou Atílio Correia de Lima80.
A problemática do abastecimento de água motivou uma das mais duras críticas à Cidade de
Goiás, uma vez que, através dela, Pedro Ludovico atingia a organização social e o modo de vida da
população vilaboense ressaltando o caráter excludente de relações sociais marcadas pelo
preconceito e pela discriminação bem como por dinâmicas de exploração do trabalho dos mais
pobres. Na verdade, o interventor atacava o Estado oligárquico liderado pelos Caiado como fonte
de emprego e poder acenando, ao mesmo tempo, para a necessidade de uma organização política e
78
Conforme Relatório de Pedro Ludovico Teixeira enviado a Vargas em 1933.
A resolução destes problemas através da construção de uma rede de água e esgoto foi considerada imprópria em
razão do alto custo do empreendimento. As características do subsolo e a composição química da água, mais uma vez,
foram os principais argumentos usados.
80
Em Goiânia, a nova capital de Goiaz, reproduzido no livro Goiânia (1942, pp. 82-112), p. 92.
79
65
cultural ‘sem os vícios’ da capital goiana. Esta nova organização somente uma nova cidade-capital
seria capaz de concretizar.
O foco do ataque dirigiu-se a falta de cisternas e poços nas casas, situação que tinha feito
surgir, ainda no século XVIII, dois chafarizes que eram a principal fonte de água para toda a cidade,
a Fonte da Carioca e o Chafariz do Largo da Cadeia, os quais foram representados por pelo
interventor goiano como símbolo máximo de degradação humana na medida em que
a contingência secular de necessitar a população de um exército de baldeadores de
água, deu lugar a que surgisse uma estranha instituição nitidamente local – o
‘Bobo’ 81. Caracteriza-se esta instituição, pela tendência comum, verificável em
muitas famílias goianas, de manter cada uma delas um bobo – mentecapto, idiota,
imbecil – para serviços de transportes domésticos, especialmente os de água. Há
numerosas famílias que se beneficiam dos serviços dêsses deserdados da sorte,
transformando-os em escravos irremissíveis, a trôco dos restos de comida e de um
canto para dormir, não raro entre os animais domésticos. Contam-se às dezenas,
nesta capital, os infelizes classificáveis no extenso grupo patológico dos débeis
mentais, desde os imbecis natos até os cretinizados pela miséria física ou por
outras causas degenerescentes, congênitas ou adquiridas, os quais, como
verdadeiras máquinas, se esbofam nos trabalhos caseiros das famílias que os
acolhem.
A sociedade vilaboense foi retratada, acertadamente, como uma sociedade cindida entre
‘gente e gentinha’. Uma cisão que não era tanto o resultado da acumulação de bens ou dinheiro ou
mesmo de porções significativas de poder; ao contrário, era mantida e alimentada pela vinculação
empregatícia e pelas relações de compadrio de boa parte da população com o Estado oligárquico e
com os Caiado, verdadeiros e quase únicos senhores das vidas e das almas naquela ‘terra de
vintém’82. A respeito, Frederico de Medeiros lembrou, em 198583, que
Goiás era um burgo muito pobre, quase atingindo as raias da miséria. Não havia
ninguém rico, não existia nenhuma fortuna, apenas terras desvalorizadas, comércio
modesto, condicionado às exigências simples de uma população rarefeita e,
estranhamente, preconceituosa, dividida em duas classes sociais [...]: gente e
gentinha. Da primeira destacava-se uma elite privilegiada, constituída dos donos
permanentes do poder político e seus apaniguados, dentre os quais até chefetes de
seção de repartição pública dava-se (sic) ares de nobreza. A outra classe pertencia
o restante da população mais pobre, à exceção dos párias, que eram as lavadeiras,
81
A respeito do bobo, Atílio Correia Lima comentou que ‘nada mais degradante ao recém-chegado do que deparar com
êsses infelizes que com prodigioso malabarismo levam à cabeça já calejada, um pote de barro de forma primitiva, com
fundo ponteado. É muito comum, quando um desses indivíduos, reconhece em que o observa um estranho à terra,
iniciar uma série de exibições, executando difíceis acrobacias, rolando ao chão sem derramar um gôta d'água sequer e
sem que o pote perca a posição vertical equilibrada à cabeça. São dolorosas e deprimentes as condições de uma cidade,
onde a população já se habituou a ver nessa degradação social, um aspecto normal da vida quotidiana’. Em Goiânia, a
nova capital de Goiaz, reproduzido no livro Goiânia (1942, pp. 82-112), p. 93.
82
Segundo Frederico de Medeiros, esta expressão era utilizada por Dr. Neto, médico humanitário que, à época,
trabalhava na cidade de Goiás. In: Memória Cultural: ensaios da história de um povo (1985), p. 87.
83
Em Memória Cultural: ensaios da história de um povo (1985), p. 87.
66
apanhadeiras de capim, lenheiros e leiteiros, trabalhando o ano todo sem parar, a
não ser dia de sexta-feira da paixão [...], por conta dos restos de comida e roupa.
(grifos meus).
A nova capital, em contrapartida, foi apresentada como um outro da antiga capital e, em
conseqüência, de todas as cidades goianas. Aglomerados humanos que, se eram reconhecidas
oficialmente como cidades, experimentavam muito pouco do propriamente urbano. Ao contrário, as
cidades goianas de então se encontravam perfeitamente integradas á lógica do sertão estando
vulneráveis, portanto, aos mandos e desmandos dos poderosos locais. A nova cidade-capital deveria
ser distinta do universo urbano sertanejo de Goiás. Distinta, portanto, das velhas e pequenas cidades
goianas que, de acordo com Chaul & Silva (2004:07),
[...] geralmente começavam com uma ou outra casa ou casebre, uma pequena
praça, uma tímida igreja. Uma fazenda podia dar inicio a uma localidade que
crescia em sua volta e, ao largo do tempo, virava um arraial, uma vila e, tempos
depois, muito tempo depois, uma cidade, dessas do interior de Goiás que, às vezes,
só cresce dentro de nós.
Interesses políticos e econômicos na construção de um novo centro de poder estadual
prevaleceram sobre a proposta de reformar84 a antiga Vila Boa. De acordo com Nasr Fayad Chaul
(2001) e Ana Lúcia Silva Silva (2001), o empenho maior de Pedro Ludovico e dos mudancistas que
o apoiavam era a dinamização de um centro administrativo voltado para os interesses do
sul/sudeste/sudoeste de Goiás ou, em outras palavras, para o centro econômico do estado. Naquelas
sub-regiões do estado, muitos fazendeiros começavam a promover o incremento da atividade
agrícola desde os anos 1910 e estabelecer relações comerciais com cidades do Triângulo Mineiro e
do interior de São Paulo. Os moradores destas sub-regiões estaduais sentiam, como afirma Daher
(2003: 33), “[...] a necessidade de uma sede urbana moderna, com todas as benfeitorias físicas,
educacionais, de saúde, culturais, enfim, um local onde a classe média emergente pudesse se
estabelecer e usufruir desses benefícios urbanos.”
Um dos obstáculos a concretização deste desejo era a falta de vias rodoviárias que
contribuíssem para o escoamento da produção bem como para a chegada, a Goiás, do propalado
progresso que naquele momento significava, principalmente, máquinas automotivas85. O ponto
nevrálgico da questão consistia, segundo visão da época, na abertura de vias de transporte por onde
84
A proposta de reforma da capital foi defendida pela oposição antimudancista que se apegou aos parcos recursos
estaduais para justificar a recusa da proposta de Ludovico. Mesmo o jornal A Voz do Povo – controlado por Ludovico e
seu grupo, afirmava em 28/08/1932 que “o dinheiro que se gastasse no projetado cometimento seria bastante para
socorrer todos os municípios permitindo-lhes a criação de grupos escolares, instalação de serviços de luz e força,
abastecimento de água, estradas de rodagem e outras coisas mais de que o interior necessita.”
85
O primeiro automóvel somente adentrou as terras goianas no ano de 1906, exatamente em Itumbiara, cidade-fronteira
com a região do Triângulo Mineiro, Minas Gerais (CHAUL, 2001).
67
pudesse escoar a produção agrícola da região. A escassez de estradas tornava a incorporação
produtiva de Goiás precária, parcial e limitada a poucos produtos, basicamente, o gado e seus
derivados86. De qualquer modo, cidades goianas como Itumbiara, Morrinhos, Catalão, Rio Verde e
Jataí, entre as mais importantes, experimentaram um processo de desenvolvimento em praticamente
todos os domínios da vida social em conseqüência deste intercâmbio comercial, o qual foi
estimulado pela proximidade destes municípios com regiões alcançadas pelos trilhos da Estrada de
Ferro da Mogiana. Esses municípios fizeram intensa oposição à oligarquia Caiado fornecendo a
base política de Pedro Ludovico Teixeira (BORGES, 2004).
Havia ainda uma fundamental questão política na proposta de mudança da capital: a Cidade
de Goiás era a sede política onde o domínio político dos Caiado chegava a se constituir em uma
ameaça ao governo do Interventor Pedro Ludovico Teixeira. A quase totalidade da burocracia
estadual bem como a maioria dos políticos e intelectuais goianos estava ali alocada. Era a única
cidade que possuía escolas públicas para todos os níveis de escolarização: jardim de infância, grupo
escolar, escola complementar, ensino secundário, escola normal, educação profissional e superior.
Ali, a fidelidade da população aos ex-governantes destituídos pela Revolução de Trinta aliada à sua
histórica dependência dos empregos e outras benesses oferecidos pelo Estado dificultava o
exercício da autoridade dos novos senhores do poder (BORGES, 2004).
Ludovico via, na transferência da capital, a perda do poder político da família politicamente
dominante87 sendo que “sob pretexto de tentar resolver o ‘marasmo’ e as ‘deficiências’ da capital
do Estado, combatia [...] a Cidade de Goiás como núcleo de poder dos Caiados” (PEREIRA, 2002:
48). A construção e a mudança da capital atendiam, então, a uma dupla finalidade de Pedro
Ludovico: no plano interno, foi a concretização do ideário mudancista e da promessa de progresso e
civilização que lhe permitiram a permanência no poder, de 1930 a 1945, com o apoio da população
e de expressiva fração das classes política e intelectual goiana. Ao mesmo tempo, externamente
alavancou a migração e o investimento de capital nas terras goianas, promovendo uma
86
De acordo com Campos (2003), a inexistência de uma malha rodoviária e o atraso na chegada da estrada de ferro até
Goiás durante a primeira república, relaciona-se com o pacto político existente entre os Caiado e os criadores de gado: é
que o gado era mercadoria que se autotransportava dispensando, por isso, a existência de estradas. Chaul (2004), por
sua vez, argumenta que a resistência dos Caiado em construir estradas de rodagem e estimular a extensão da estrada de
ferro nas terras goianas relacionava-se ao incentivo que a referida oligarquia dava ao transporte fluvial nos grandes rios
que cortam o estado.
87
A configuração dos Caiado como oligarquia dominante deu-se no período 1912-1917, momento de grande
instabilidade política em Goiás dadas as disputas pelo controle da política e da administração estadual entre os diversos
grupos oligárquicos da região. Para ascender ao poder estadual, a família Caiado foi sustentada pelo Partido Democrata
e, por meio de sucessivos arranjos e alianças políticas, fortaleceu as dissidências e a oposição aos governos controlados,
então, pelos Bulhões. Entre 1917 e 1921, o desembargador João Alves de Castro (integrante, por casamento, da família
Caiado) assumiu a presidência do estado promovendo o fortalecimento da oligarquia caiadista (CAMPOS, 2002). Alves
de Castro foi sucedido vários políticos controlados pelo clã Caiado: Eugênio Rodrigues Jardim (1921-1922), Miguel da
Rocha Lima (1922-1925) e finalmente o médico e fazendeiro Brasil Ramos Caiado (1925-1929), irmão de Antonio
(Totó) Ramos Caiado, líder da oligarquia e principal articulador político que sustentou seu poder. Totó Caiado foi
deputado federal (1909-1921) e depois, senador da República (1921-1930).
68
modernização das relações de trabalho e poder. Conforme Bernardes (1989:30)
A construção da nova capital satisfazia aos anseios de expansão do sistema
capitalista. Internamente o estado, na figura de seu interventor, Pedro Ludovico
Teixeira, não poupou esforços para incrementar a indústria da construção civil e os
serviços a ela subordinados. Era necessário modernizar as relações de trabalho e
poder. Nesta perspectiva, o Estado assumia papel preponderante como mediador na
relação capital e trabalho, utilizando-se de meios propagandistas e incentivos
fiscais para atrair capital de outros estados.
Argumentava Pedro Ludovico que a recuperação de Vila Boa mostrava-se impossível.
Fundamentado nos preceitos da arquitetura e do urbanismo; apoiado em uma construção histórica
que recuperava figuras ilustres que, no passado, propuseram a transferência da capital para outro
ponto do estado; amparado pelos saberes da medicina social, o interventor decidiu pela condenação
da centenária Cidade de Goiás e justificou a opção pela construção de uma nova cidade-capital.
Não era possível reformá-la; não era viável remodelá-la: a velha cidade-capital estava condenada.
Em um dos trechos do relatório enviado ao então Chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, em
1933, Ludovico justificava a edificação de Goiânia reforçando as antíteses entre a antiga capital e
aquela que não tinha ainda erguida uma única parede nem aberta uma única rua.
Entre inverter os recursos do povo na remodelação impossível de uma cidade,
velha e inafeiçoável às utilidades da vida moderna e aplicá-los na construção de
uma capital nova, que seja verdadeira metrópole de seu progresso – a lógica, o
senso das realidades, o interesse comum e o futuro do próprio Estado gritam ao
administrador bem intensionado qual a solução que lhe cumpre adotar. Ai não cabe
nenhuma hesitação88 (Grifos meus).
Aos argumentos contrários, sustentados na precária situação financeira de Goiás, Pedro
Ludovico respondeu que uma nova cidade-capital seria uma aposta no futuro. As despesas na
construção da cidade se tornariam, em muito pouco tempo, uma fonte de renda para Goiás,
argumentou o interventor, citando ainda os casos da construção de Aracaju (1855) e Belo Horizonte
(1897) como exemplos de cidades surgidas em momentos de escassez e dificuldades econômicas de
seus estados e que haviam se tornado importantes centros financeiros para o seu entorno. Segundo
88
Em Como nasceu Goiânia, 1938. Este livro foi lançado em 1938 quando a cidade já se tornara capital após uma
intensa resistência antimudancista levada a efeito por políticos e pela população da antiga capital, Goiás. O livro, que
assume uma evidente postura favorável à mudança (postura mudancista), se mostra como museu-escrito da proposta, da
construção e da transferência da nova capital goiana reproduzindo, na integra, documentos oficiais como atas, decretosleis, relatórios e contratos além de notícias e comentários - sobre Goiânia - publicados em jornais e revistas de Goiás e
de outros estados brasileiros. A obra contém também relatos da vida cultural da cidade como a primeira missa, o
primeiro piano, a primeira escola, o primeiro jogo de futebol, a primeira retreta, o primeiro carnaval, entre outros. Uma
análise deste livro pode ser encontrada em OLIVEIRA, E. C. de. As imagens de Goiânia na literatura mudancista. In:
CHAUL, N. F. & DUARTE, L. S. (orgs.) As cidades dos sonhos: desenvolvimento urbano em Goiás. Goiânia/GO: Ed.
UFG, 2004.
69
Chaul (2001: 100), a relação entre progresso e urbanização, sustentáculo da concepção de
Ludovico, faria da ‘[...] nova capital [...] um excelente investimento de notáveis retornos para toda a
economia do estado, principalmente porque representava o progresso para um estado que tentava
sair da pobreza e do endividamento’.
Além disso, como frisava o interventor, não se pretendia fazer uma obra que fosse
desproporcional à realidade econômica de Goiás; ao contrário, a nova cidade-capital seria
construída comedidamente, com calma e continuidade, segundo um planejamento pautado em
dados concretos. Uma obra da razão, não uma aventura de loucos, conforme sublinhava o
interventor (1973: 102) 89 ao mesmo tempo em que, fazendo uso do saber médico de onde emergia
a metáfora do corpo, anunciava o caráter coletivo que devia subsidiar a construção da nova cidadecapital.
[...] não se vai fazer uma obra desproporcional às nossas possibilidades, baseandose em cálculos fantasistas e apressados. Não será empresa para se iniciar e terminar
rapidamente. Não será uma tarefa de uma entidade, mas de uma coletividade.
Aquele faz o núcleo, cria o protoplasma; esta conclui a célula, que rejuvenecerá o
organismo rotineiro e alquebrado do nosso caro Estado, dando-lhe nova seiva,
novas perspectivas.
A questão econômica, entretanto, se revelaria como a maior dificuldade para a construção
da nova capital, causando, por diversas vezes, a paralisação das obras e o atraso na sua edificação.
A escassez de recursos financeiros atingiu duramente a vida dos operários que erguiam a nova
capital: o atraso dos pagamentos chegava há quatro meses provocando sucessivas manifestações de
protesto, inclusive, diversas greves nos anos 1935/1936. A solução adotada para o enfrentamento
desta questão foi o estabelecimento da parceria entre o Estado e a iniciativa privada, o que serviu
como pano de fundo para a exploração do trabalho e dos trabalhadores que erguiam a cidade-capital
(CHAUL, 2001).
Se o improviso e a espontaneidade na ocupação do espaço podem ser vistos como uma das
marcas identitárias das cidades goianas, a nova cidade-capital foi pensada e concretizada, desde o
inicio, como fruto do planejamento e da racionalidade técnica com seu plano urbanístico e sua
arquitetura art déco. Seu ponto zero foi o Palácio de Governo, a sede do poder político; não igrejas
ou pracinhas. No seu traçado urbano, a rigidez da linha reta, a amplitude das avenidas; não a
sinuosidade das ruas estreitas e dos becos ainda mais apertados onde ‘tem sempre uma galinha
morta’, conforme registrou Cora Coralina em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais (2003).
As residências, por sua vez, inovavam entre outras coisas pela sua ocupação do terreno: não mais
89
No discurso de lançamento da pedra fundamental de Goiânia, em 24/10/1933. Reproduzido em LUDOVICO,
PEDRO. Memórias. Goiânia/GO: Livraria e Editora Cultura Goiana, 1973, pp. 100-103.
70
na testada da rua como na tradição goiana (VAZ E ZÁRATE, 2004), mas com um recuo que
permitia a existência de um pequeno jardim e de um também pequeno alpendre diante da porta
frontal da casa (COELHO, 1997).
A arquitetura art déco e o plano urbanístico hibrido90 de Goiânia podem ser pensados, então,
como discurso constitutivo dos sentidos que a vincularam à modernidade. A contratação de
urbanistas de renome nacional revela o interesse dos goianos em construir, nos rincões da
hinterlândia, uma cidade sintonizada com o que de mais moderno havia, não somente no Brasil,
mas no mundo. Foram contratados para tal empreitada, inicialmente, Atílio Correia Lima, primeiro
brasileiro que realizou cursos de especialização em urbanismo na França, e depois, o engenheiro
Armando Augusto de Godói, nome de vulto na intensa discussão sobre a reforma das cidades que,
então, empolgava certos setores da intelectualidade e da política brasileiras (DAHER, 2003;
RIBEIRO, 1996; PECHMAN, 1996). Pedro Ludovico e os grupos que lhe davam respaldo político
e ideológico estavam antenados com o potencial civilizador da cidade e com a força educativa e
pedagógica dos espaços urbanos na transformação das mentalidades e dos costumes.
Naquele contexto, as comparações com os centros litorâneos, notadamente ao Rio de
Janeiro, eram constantes e exprimiam sentimentos, às vezes, ambíguos em relação a então Capital
Federal. É o que expressa, por exemplo, esse trecho do artigo do médico Antonio Pimental em A
Informação Goyana91, onde se pode ler tanto certo fascínio quanto um visível menosprezo pelo
litoral. Além disso, o tom conservador e moralista é evidenciado bem como a estratégia
comparativa entre sertão e litoral. Apesar de sua extensão, penso que vale a pena reproduzi-lo.
O Brasil não é esse Rio de Janeiro faustoso e palpitante, que vive fascinado pela
belleza de seus aspectos todos os estrangeiros que nos visitam. Não podemos viver
eternamente manietados por essa volúpia de faustos e grandezas que o luxo e a
vaidade dominam, trocando o progresso do sertão pelas phrases de galanteria dos
peregrinos europeus e americanos. Não podemos e não devemos. Essa sala de
visita, de ricas tapeçarias e ornamentos sumptuários, onde as Classes sociais se
entregam aos vapores da opulência, tem nos seus bastidores legiões imensas de
seres que só encontram solução para os problemas da vida pondo termo a uma
existência útil á pátria e á coletividade. Enquanto essa tragédia se eterniza,
repetindo systematicamente as scenas diárias de dores e desespero, de lares
ruídos, de escândalos sociais, de extinção de vidas preciosas [...], o sertão
enriquece a milhares de abnegados que, sem instrucção aprimorada encontram
mais felicidade e encanto na existência. [...] O Brasil não é essa cidade
90
De acordo com Márcia Metran de Melo (2006), o plano urbanístico original de Goiânia, de autoria de Atílio Correia
de Lima, contém elementos neoclássicos mesclados a elementos modernos, o que segundo a autora em questão, era
uma expressão do momento de transição pelo qual passava a arquitetura em nível mundial e nacional nos anos 1930.
Contribui para a hibridez do plano de Goiânia o fato de Armando Augusto de Godói ter assumido a direção técnica do
projeto após o desligamento de Atílio Correia de Lima em 1936. Godói projetou o Setor Sul de Goiânia nos moldes
curvilíneos das cities-garden inglesas, em um desenho urbano completamente diferenciado da malha quadriculada
projetada por Atílio Correia.
91
Reproduzido por Luis Sérgio Duarte da Silva (1997: 42).
71
phantástica de progresso surpreendente, que resplandece e que ofusca. O Brasil é
todo esse sertão de flores alvinitentes, de montanhas azuladas, de verdejantes
prados, onde a natureza falla com elegância divina, vivificando, fortalecendo,
animando para a vida e para o renascimento da raça. (Grifos meus).
A construção de Goiânia vincula-se ao ímpeto civilizatório e modernizador que, então,
varria o país. Por toda a parte, cidades eram reformadas, remodeladas, embelezadas. As cidades
brasileiras procuravam ser modernas suplantando o modelo colonial do urbano para, assim, instituir
uma nova relação entre o público e o privado. Tratava-se, na verdade, de instituir uma nova ordem
social. A nova capital goiana deveria, por isso, inovar em tudo quanto fosse possível diferenciandose de outras capitais estaduais. Na verdade, os discursos projetavam uma cidade diferente não
somente das pequenas cidades goianas, mas diversa também em relação aos grandes núcleos
urbanos brasileiros, com seus problemas e suas falhas.
Este é um discurso extremamente sintonizado com a concepção da cidade como perigo que,
há muito, fazia parte do repertório intelectual das elites brasileiras. Daí a força da arquitetura e do
urbanismo, neste período, como campos de saber que ajudaram a moldar a modernidade brasileira
(RIBEIRO, 1996). A representação do urbano como reino da desordem tem raízes nos rumos
tomados pela urbanização brasileira no alvorecer da República quando a perspectiva higienista e
modernizadora era o fundamento teórico e ideológico que sustentava o pensamento e a ação dos
engenheiros-arquitetos-urbanistas92. A construção de Belo Horizonte (1898) e a reforma Pereira
Passos no Rio de Janeiro (1906) são os projetos símbolos desta perspectiva urbanística que, então,
se desenvolvia no país.
Segundo Pechman (1996), era um ‘urbanismo de capitalidade’ (PECHMAN, 1996) que
procurava fundamentalmente realçar o estágio de modernidade, logo, de civilização alcançado pelo
Brasil e pouco atento aos direitos básicos das populações urbanas, principalmente das camadas
empobrecidas. A urbanização brasileira invertia o paradigma do urbanismo moderno tal qual estava
sendo, naquele período, praticado na Europa e que continha preocupações com a melhoria das
condições de vida das classes trabalhadoras urbanas93. Nas palavras de deste autor (1996: 334), no
Brasil,
[...] a experiência urbanística se esgotara na ‘regeneração’ do corpo urbano e na
92
Utilizo aqui esta expressão para designar profissionais com formação em engenharia e/ou arquitetura que tomavam a
cidade ou as questões e problemáticas urbanas como objeto de conhecimento e intervenção.
93
Desde finais do século XXI, a percepção dos riscos de convulsão social provocados pelo acirramento das relações
capital-trabalho nas nações européias e nos Estados Unidos teve como conseqüência uma revisão dos preceitos
urbanísticos então vigentes: de um urbanismo afeito à dimensão estética, o foco voltou-se para um urbanismo
funcional, referendado pela ciência e que visava, sobretudo, o bem-estar das classes trabalhadoras. A mudança surgira
da compreensão de que o progresso social dependia de um meio urbano que apresentasse condições satisfatórias para a
produção industrial. As garden-cities podem ser consideradas as primeiras aplicações práticas do urbanismo enquanto
ciência (PECHMAN, 1996; RIBEIRO, 1996).
72
hierarquização do corpo social, sem necessitar negociar melhorias nas condições
de vidas dos grupos, que, da cidade, sobreviviam de seus restos e, por isso mesmo,
violavam, nas suas práticas cotidianas, as normas sanitárias. (Grifo do autor).
O urbanismo do início da República não abarcava preocupações com a questão social ou,
em outras palavras, a questão urbana e a questão social não se apresentavam articuladas. A
articulação existente se dava entre a questão urbana e a questão nacional. O que isto quer dizer?
Que a cidade era pensada tendo em vista a formação da nação enquanto a questão social produzida
pelo urbano era tratada como caso de polícia. Identificada pelos intelectuais como símbolo da
república liberal, consolidou-se a “[...] imagem de uma cidade porosa, que abrigava em suas sobras
uma população sem vínculos urbanos definidos [...]” (PECHMAN, 1996: 337) que mais
atrapalhava que contribuía para o país, particularmente, para o seu futuro.
A ‘malta perigosa e desocupada’, na expressão de Lúcia Silva (1999), que ocupava a cidade,
subvertendo os imperativos da modernidade e da civilização, foi vista como uma questão
decorrente da ausência de consciência da nacionalidade. Era preciso - antes de formar o cidadão da
pólis e transformar em povo a massa amorfa que habitava um país gigantesco e com valores
diferenciados - forjar mentalidades e práticas novas fornecendo-lhe a consciência nacional
necessária para que aceitasse as normas da moderna vida urbana e contribuísse, assim, para o
progresso da nação.
A proposta de construção de uma nova cidade-capital goiana valeu-se dessas representações
acerca do urbano bem como se apropriou do discurso nacionalista sobre o povo brasileiro. Quando
a nova cidade tornou-se capital, o jornalista paulista Austriclinio Brandão94 formulava um discurso
sobre Goiânia que sintetizava o desejo dos goianos em edificar uma cidade-capital que não deveria
ter
[...] nem a vergonha dos mucambos de Pernambuco, nem as taperas de Minas, nem
as arapucas dos morros do Pinto e da Favela. Ali não há lugar para as febres da
Baixada Fluminense, nem para as verminoses dos estados nordestinos, nem para a
promiscuidade das ruas da Alfândega e de São Pedro [no Rio de Janeiro].
Contudo, há ainda algo mais: especialmente a partir da década de 1920, a noção do urbano
como espaço da ‘malta desocupada e perigosa’ (SILVA, 1990) começou a perder sua força
argumentativa dando lugar a uma concepção que considerava a cidade como seara produtiva e lócus
do progresso. Logo, o urbano se fazia um território educativo por excelência. Os engenheirosarquitetos-urbanistas foram seus principais agentes, construindo uma forma de olhar a cidade a
partir de deslocamentos sobre o discurso higienista da medicina social. A noção de cidadeeducadora começava a encontrar seus termos na realidade brasileira. A emergência desta noção no
94
Cronista do Jornal A tarde de Ribeirão Preto, em 1937, reproduzido em Monteiro (1938), p. 545.
73
Brasil teve como ponto de partida o processo de adesão à produção capitalista que se consolidava
nas regiões de economia mais próspera do país, o que ensejava a necessidade de um incremento do
trabalho produtivo, tarefa que ficou sob a responsabilidade da engenharia. Conforme discorre a
autora em foco (1999: 75:)
Com o aumento das ferrovias e do incipiente processo de industrialização, a
engenharia assume lugar de direção na organização dos diversos setores do mundo
do trabalho. Normatizando o trabalho e o processo de produção dentro da fábrica,
a engenharia volta-se para a cidade, não só porque as novas tecnologias traziam
problemas que não seriam resolvidos dentro do processo produtivo, tal como o
despreparo do operário para lidar com determinadas máquinas, mas pelo
alargamento do seu campo de atuação inicial, que girava em torno do controle do
trabalho. Com a consciência que a disciplinarização das classes trabalhadoras não
seria resolvida dentro dos muros da fábrica, a cidade torna-se lugar privilegiado
para a ação desse olhar científico que passa a se concentrar nos hábitos do
trabalhador. (Grifo da autora)
A nova cidade-capital goiana mostra-se também tributária desta noção na medida em que
prometia inaugurar uma organização social moderna, sem privilégios de classe social e sem o
estabelecimento de preconceitos e discriminações tão comuns na centenária Vila Boa. Para tanto,
um plano urbanístico racional e uma arquitetura, à época, moderna formariam o cenário de estímulo
e referência para a educação do povo e das elites goianas, direcionando-as a novos modos de agir,
pensar e sentir. Assim, desde antes de sua edificação, uma construção discursiva do social assumiu
a materialidade da cidade como ponto de ancoragem para constituir os seus sentidos.
Por outro lado, o desejo de pertencimento e a ânsia pela civilização e progresso material e
cultural fez convergir as expectativas de construir um outro lugar para o estado na totalidade do
Brasil e de unificar a nação dilacerada. Perverter o ritmo da vida e inaugurar uma nova
temporalidade nas terras nas quais nada parecia acontecer, lugar no qual o tempo parecia não trazer
mudanças. Em projetos deste tipo, a histórica vinculação entre arquitetura/urbanismo modernos e
Estado é fundamental uma vez que, trabalhando com uma visão teleológica da história, os
arquitetos e urbanistas modernos desistorizam o passado e não percebem o presente como resultado
de processos históricos onde rupturas e continuidades participam como faces distintas, mas
indissociáveis. Nas palavras de Holston (1993: 17)
Essa teleologia tem conseqüências importantes. [...] ela gera um dos fundamentos
da arquitetura e do urbanismo modernistas: a total descontextualização, na qual se
toma um futuro imaginado como a base crítica pelo qual avaliar o presente. Como
carece, assim, de uma noção de contexto histórico, a visão modernista da história é
paradoxalmente desistorizante.
Assim, bem antes que sua materialidade se fizesse, Goiânia foi constituída discursivamente,
74
por aqueles que a projetaram e edificaram, como um símbolo da modernidade no ‘coração’ da
pátria geográfica. E por sua localização espacial, como um ícone de uma brasilidade que, plasmada
no debate intelectual e artístico da época, sustentava-se na integração entre litoral e sertão e
buscava, nos interiores, aquilo que seria o verdadeiro Brasil. Afinal, a cidade foi significada como
ponto de união onde se encontravam os dois brasis – o do litoral e o do sertão. Os discursos sobre a
cidade agregaram, então, os sentidos oriundos de um nacionalismo cuja base teórica e ideológica
era a interpretação do Brasil como uma nação dilacerada aos sentidos da modernidade. Tudo se
mesclou para formar o caldo emocional que, recheado de sonhos e projetos, amalgamou a
construção material e simbólica da nova capital goiana.
1.4 - Dispositivos de interpretação, discursos e sentidos
Jamais se deve confundir uma cidade com o discurso
que a descreve.
Ítalo Calvino
A construção simbólica de Goiânia teve início antes mesmo do início das obras de
edificação da cidade, mais precisamente, no momento em que sua construção foi proposta pelo
Interventor Pedro Ludovico Teixeira no início da década de 1930. Após a transferência da capital,
em março de 1937, os esforços dos intelectuais na constituição de sentidos para a cidade, em
parceria com o Estado, tornaram-se mais intensos. Naquele momento e nos oito frenéticos anos que
se seguiram, tais esforços buscaram forjar uma identidade para Goiânia, ao mesmo tempo em que
sua materialidade também se configurava. Foi o momento em que proliferaram discursos sobre o
significado de Goiânia, não somente para Goiás e para os goianos, mas igualmente para o Brasil e
para os brasileiros. Nesses discursos, os sentidos da cidade iam se constituindo.
Um ponto de partida necessário para que se possa compreender a constituição de sentidos de
Goiânia e de suas escolas sob a inspiração da AD é, na perspectiva de Orlandi (2003a), a
construção de um dispositivo de análise que possibilite, ao pesquisador, trabalhar em uma posição
relativizada diante da interpretação, minimizando o risco de que ele (pesquisador) possa nela se
reconhecer. Como não há sentido sem interpretação, o dispositivo de análise permite identificar
dois níveis de interpretação: o do pesquisador que analisa os discursos e o dos sujeitos dos
discursos a serem analisados. Consciente do nível no qual trabalha, o pesquisador pode evitar a
identificação com o que interpreta e, ao contrário, tentar compreender o movimento interpretativo
de outros sujeitos. Tal movimento, dada a opacidade da linguagem, não se mostra ao olhar mais
desatento, mas se revela em pistas, indícios, sinais que estão inscritos nos discursos. São, pois,
75
estas marcas que constituem o corpus de análise deste estudo.
O dispositivo de análise segundo a inspiração da AD permite uma ampliação na leitura das
fontes históricas, especialmente, por promover condições para o questionamento das supostas
verdades nelas contidas bem como nas interpretações recorrentes sobre o objeto de estudo. Como
alerta Peter Burke (2005), mais do que nunca, os historiadores estão conscientes que as fontes
históricas não são transparentes e que requerem, para ser lidas, a construção de dispositivos de
leitura. A opacidade das fontes históricas é, então, um forte argumento que conduz o estudioso da
história a fazer uso da análise de discurso como um dispositivo que amplie as possibilidades de sua
leitura e interpretação.
No estudo da história da educação em Goiânia, tal dispositivo se mostra especialmente
importante uma vez que a maioria das fontes disponíveis origina-se no que tem sido denominado de
literatura mudancista95, a qual é composta de obras produzidas por pioneiros de Goiânia ou pelos
chamados construtores da cidade. Eliézer Cardoso de Oliveira (2004: 138) conceitua esta literatura
como “[...] o conjunto de obras de escritores partidários da mudança da capital da Cidade de Goiás
para Goiânia que, na maioria das vezes, estavam aglutinados em torno da figura do interventor
Pedro Ludovico Teixeira”. Estes autores foram os primeiros a produzir um discurso que forjou
imagens e representações sobre Goiânia. Seu objetivo imediato era a contraposição das articulações
e do discurso antimudancista gerados por aqueles que eram contrários à mudança da capital e, para
tanto, sustentou-se na promessa de modernidade.
Como ponto forte, os autores mudancistas valeram-se, em abundância, de uma retórica da
comparação entre o antes e o depois e entre a antiga e a nova capital para afirmar Goiânia como
ruptura com um passado de decadência, atraso, isolamento e abandono. Confrontam, nesta retórica,
atraso e progresso em uma dinâmica onde Goiânia é vista idealmente, sem os problemas e vícios da
antiga capital e mesmo do Goiás de antes de seu aparecimento. O discurso da modernidade de
Goiânia parece ter-se cristalizado sendo apropriado pela imprensa, pela literatura, pela população e
até mesmo pelas obras acadêmicas, especialmente no campo da sociologia e da história. É, no fim
das contas, a narrativa oficial da história de Goiânia. Outros discursos, contudo, foram
desqualificados, simplesmente ignorados ou ainda sofreram deslocamentos que os adequaram ao
discurso hegemônico.
A construção do dispositivo analítico se dá pela de-superficialização do material empírico. É
esta operação que vai possibilitar a transformação do texto em discurso. De-superficializar o
95
Embora meu interesse esteja focalizado no período 1930/1940, é importante ressaltar que os discursos produzidos
por esta literatura não se restringem ao momento em que a nova cidade-capital foi proposta, construída e legitimada
como centro político-administrativo do estado de Goiás. Ao contrário, é uma literatura que abrange um período de
quase 60 anos: os primeiros escritos datam de 1933 prolongando-se até meados dos anos 1990, o que indica a
persistência e a força dos discursos que representaram Goiânia, principalmente, como cidade moderna, símbolo do
progresso e da civilização em Goiás e da integração nacional.
76
discurso significa uma intervenção na materialidade lingüística do mesmo, observando o como se
diz, quem diz e em quais circunstâncias se diz bem como os modos de construção do discurso, sua
circulação e os gestos de leitura nele inscritos. Os procedimentos implicados nesta desuperficialização implicam em que se coloque o dito em relação ao não dito, o que se diz em um
lugar com o que se diz em outro e o que é dito de um modo com o que é dito de outro (ORLANDI,
2003). Depois de transformado em objeto do discurso, o texto pode ser vinculado a formações
discursivas que explicitam, por sua vez, a relação discurso-ideologia.
Por outro lado, a construção de um dispositivo de análise ao exigir, do pesquisador, a
explicitação dos gestos de interpretação subjacentes aos discursos impõe, em conseqüência, a
compreensão dos sujeitos que os formularam. Isto implica em reconstituir trajetórias sociais e
recompor escolhas, possibilidades e constrangimentos na tentativa de compreender suas
experiências como sujeitos da história. Neste caso, não se trata de fazer uma história intelectual de
Goiânia, mas aderindo às premissas da história social, historicizar os indivíduos que tomaram parte
na experiência de elaborar sentidos para a cidade para assim entender como se fizeram sujeitos da
história e dos discursos que são objeto da análise.
Nesta perspectiva, é fundamental compreender quem eram os intelectuais que constituíram,
para Goiânia, os sentidos que se tornaram dominantes. Talvez assim se possa compreender o que
projetavam para si mesmos e qual era seu projeto para Goiás e para o Brasil. Adoto aqui, para
pensar estes intelectuais, a posição de Nísia Trindade Lima em Um sertão chamado Brasil (1999.
Ela considera que para analisar os intelectuais brasileiros e seu papel na formulação de uma
interpretação para o país, é necessário superar a oposição entre texto e contexto relativizando a
intencionalidade e racionalidade absolutas de tais atores na construção textual. Para esta autora, na
análise do texto é imprescindível levar em conta a trajetória dos intelectuais além da construção
social da realidade. Lima (1999) adota a concepção de Karl Mannheim de ‘intelligentsia’ como
“[...] grupo social cuja tarefa específica consiste em dotar uma dada sociedade de uma interpretação
do mundo” (MANNHEIN, 196896 APUD LIMA, 1999: 20) sem, no entanto, aderir ao argumento
mannheimiano do papel do intelectual como instrumento de planejamento racional. Posto isto,
pretendo pensar os intelectuais goianos como sujeitos que construíam suas identidades ao mesmo
tempo em que constituíam, através de seus discursos, os sentidos de Goiânia.
Para pensar Goiânia através dos discursos que produziram sentidos sobre a cidade, escolhi
como corpus de análise cinco grupos de textos que, expostos ao dispositivo analítico, se constituem
em discursos sobre a nova cidade-capital de Goiás e suas escolas e, portanto, em acontecimento
histórico e lingüístico. No primeiro grupo, privilegio a construção simbólica da cidade através de
96
MANNHEIM, KARL. Ideologia e utopia, Tradução de Sérgio Magalhães Santeiro. Rio de Janeiro/RJ: Zahar, 1968
77
sua tessitura física; no segundo, abordo tal simbologia a partir daquilo que foi denominado, pelos
próprios personagens da cena goianiense da época, de sua ‘construção espiritual’97. No primeiro, a
cidade como pedra; no segundo, a cidade como palavra. Espero demonstrar que os sentidos da
cidade não se apartaram em uma ou outra dimensão, mas, ao contrário, transitaram entre a cidade
de pedras e a cidade de palavras.
O terceiro e quarto grupos de discursos dizem, diretamente, dos mundos das escolas da
cidade-capital. No terceiro, ganha centralidade a construção imagética das escolas locais; no quarto,
ressaltam-se as formas textuais elaboradas, principalmente, pelo Estado e por intelectuaiseducadores – nem todos profissionais - que atuavam no campo educacional goianiense no período.
No terceiro, encaro o desafio de pensar a materialidade da escola, seus espaços internos, seu
endereço na cena urbana, a imagem de cenas e personagens que integravam seu cotidiano. No
quarto, assumem centralidade as práticas e ações desencadeadas pelo Estado e elites regionais, as
projeções e expectativas, a avaliação do desempenho das escolas da cidade, entre outras questões.
O quinto grupo de discursos é composto de relatos sobre as práticas civilizatórias e modernizantes
que estudantes e professores, tendo a escola como lugar de mediação, colocavam em andamento em
Goiânia.
O primeiro grupo de discursos abrange mapas, plantas urbanísticas e fotos áreas de Goiânia
no período estudado. São objetos produzidos, em sua maioria, pelos arquitetos, engenheiros e
urbanistas que projetaram Goiânia e trabalharam para a construção da materialidade da urbs
goianiense. São também objetos produzidos sob encomenda do Estado, ou seja, sua destinação é
política e administrativa, estando comprometidos com a difusão e fixação de uma representação de
Goiânia como cidade moderna. Como o projeto Goiânia foi concebido e realizado tendo a
propaganda como estratégia discursiva e de ação, estes objetos tiveram ampla divulgação por todo
o período estudado. Afinal, eles mostravam – aos goianienses e ao resto do Brasil – os avanços que
se realizavam na construção e no desenvolvimento da nova cidade-capital. Esta divulgação
estimulou a construção de sentidos para a cidade a partir da ocupação de seu espaço. Frente a este
corpus, a questão colocada é: como a urbanização de Goiânia produziu, sobre a nova capital de
Goiás, sentidos ligados à modernidade?
É importante ressaltar que a abordagem analítica com a qual pretendo me acercar deste
conjunto de discursos inspira-se na proposta teórica de Eduardo Guimarães em Semântica do
acontecimento: um estudo enunciativo da designação (2002), estudo no qual o autor empreende
uma análise dos discursos produzidos pelo mapa da cidade paulista de Cosmópolis em busca dos
97
Expressão usada por Colemar Natal e Silva no discurso de lançamento da pedra fundamental do prédio do Instituto
Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), em 1933. In: Moema de Castro e Silva Olival (org.). Realizações e projetos
de Colemar Natal e Silva no campo da cultura em Goiás. Goiânia/GO: CEGRAF/UFG, 1992
78
sentidos por eles constituídos. Vinculando-se aos estudos da semântica e à AD, o autor conferiu
destaque ao processo enunciativo de designação da cidade e de suas ruas encarando o mapa como
texto que, depois de exposto a um dispositivo de análise conforme proposto por Orlandi (2003), é
interpretado como discurso sobre a cidade. Assim, seguindo as pistas deixadas por Guimarães
(2002), tomo os mapas, plantas urbanísticas e fotos aéreas de Goiânia como textos e, portanto,
como discursos que acionaram sentidos sobre/para a cidade. Desta ótica, a arquitetura art déco de
Goiânia bem como seu plano urbanístico podem ser pensados como tipos de discurso uma vez que
o próprio espaço e sua conformação urbana é parte da construção de sentidos.
Já o segundo grupo de discursos compõe-se de artigos, notícias, editoriais, contos, poesias e
comentários publicados em jornais e revistas de Goiânia que podem ser condensados no conceito de
crônica urbana. Ou seja, trata-se de um conjunto de textos que compõem um corpus de análise que
impressiona pela sua extensão e pela profusão de imagens que fazem emergir sobre Goiânia, sobre
Goiás e sobre o Brasil bem como sobre o povo goiano e brasileiro. Seus principais autores são
intelectuais goianos comprometidos com a construção material e simbólica de Goiânia vinculandoa, simultaneamente, à modernidade e à nação. Integram também este segundo grupo, os discursos
de intelectuais de outras regiões brasileiras que também escreveram sobre o potencial de Goiânia
reafirmando a modernidade e o simbolismo nacionalista da nova cidade-capital de Goiás. Diante
deles, a questão colocada busca alargar a compreensão dos sentidos da cidade através da
discursividade do texto escrito: de que forma os intelectuais que escreviam sobre Goiânia
significaram a cidade no momento de seu surgimento como símbolo da modernidade no sertão e
ícone da integração nacional?
O terceiro grupo é composto de discursos imagéticos: são fotografias e plantas baixas de
prédios escolares da cidade-capital, imagens de suas áreas internas como bibliotecas e laboratórios,
fotografias que revelam a presença e participação da escola na cidade. Neste caso, as imagens dão a
ver estudantes e professores interagindo com os processos mais amplos experimentados pela
cidade-capital e até mesmo por todo o estado de Goiás, como a Campanha da Borracha Usada
(1943) e o Recenseamento de 1940. Diante destes discursos, inúmeras questões se colocam: o que
dizem da escola que surgia em Goiânia? Como davam a ver o progresso, a civilização, a alta cultura
do povo goiano? E, ainda, o que não dizem? O que ocultam ou escondem?
O quarto grupo, por sua vez, compõe-se de artigos, pontos de vista, comentários, entre
outros, publicados nos jornais e revistas locais bem como em livros de professores e professoras
goianas da época. Há, entre estes, juízes de direito, promotores, desembargadores, literatos,
médicos, militares com formação superior, etc, que se faziam professores das escolas goianienses.
E há intelectuais que podem ser chamados de educadores profissionais: tinham formação e
compromisso com o magistério e fizeram das escolas de Goiânia, o seu lugar de participação na
79
vida urbana da cidade-capital. Acresce-se a estes, os discursos textuais produzidos pelo e para o
Estado como mapas estatísticos, relatórios de professores e diretores de escola e os que foram
produzidos pelo Interventor Pedro Ludovico Teixeira, atas de reuniões e sessões da Assembléia
Legislativa de Goiás além da própria legislação educacional. Frente a eles, as questões delineadas
são: como intelectuais e Estado lidavam com a questão educacional na cidade construída como
símbolo do desaparecimento do sertão? E como avaliavam a presença da escola na cena da cidade?
Finalmente, o quinto grupo de discursos compõe-se de notas de divulgação de atividades
escolares ou promovidas por agentes da escola como as festas e festivais beneficentes, as
exposições e competições esportivas escolares e a participação em campanhas cívicas e patrióticas.
Constam ainda deste grupo, os objetivos destas atividades, sua programação, quem as promovia, os
participantes e comentários acerca destes acontecimentos e ainda os espaços e tempos onde
ocorriam. Frente a este corpus, questiono as formas e meios de participação da escola e de seus
agentes na cena da cidade a partir da hipótese de que as instituições escolares de Goiânia aderiram à
simbólica da modernidade e do pertencimento que sustentava a construção da cidade-capital.
Os principais veículos de difusão dos discursos sobre Goiânia e suas escolas foram o
Correio Oficial do Estado de Goiás, a Revista da Educação, a revista Oeste e o jornal O Popular.
Quase todos são veículos oficiais ou sob o controle do Estado, à exceção de O Popular. Este,
porém, era de propriedade de um importante membro do governo Pedro Ludovico e figura singular
na constituição de sentidos para Goiânia através do trabalho de divulgação da cidade-capital:
Joaquim Câmera Filho, o poderoso diretor do Departamento de Propaganda e Expansão econômica.
A maioria dos intelectuais e professores que publicava nestes veículos de comunicação era também
ligada ao aparelho governamental. A discursividade emanada daí retrata ausência de conflitos
quanto ao papel e significado da cidade e da escola para o sertão goiano. Não havia vozes
dissonantes, o que coloca a necessidade imperiosa de estar atento ao interdiscurso e, portanto,
aquilo que não está ou foi dito.
Quanto aos tipos de discursos textuais, não há uma predominância absoluta na sua
caracterização. Seguindo a proposta de Orlandi (2003), os discursos ora se mostram autoritários,
menos abertos a polifonia; ora se mostram mais lúdicos, mais abertos aos deslizes e equívocos; ora
se materializam na mediação entre o autoritário e o lúdico, transitando entre a polissemia e a
rigidez. De qualquer forma, são discursos oficiais ou de bacharéis e letrados e, portanto, deles estão
excluídos aqueles que não compartilhavam as formas de poder ou, melhor dizendo, os que estavam,
de alguma forma, excluídos da cidadania. O povo (as massas, os subalternos, qualquer que seja a
sua designação) ficou subsumido nestes discursos: a voz, a fala e a linguagem dos letrados, dos
bacharéis e do sujeito administrativo assumiram o seu lugar.
Com a finalidade de ordená-los segundo uma lógica analítica que possibilitasse sua leitura,
80
optei por uma análise a partir das metáforas por eles evocadas. Mas com a intenção de ir além da
construção discursiva daquela realidade, encarei-os como acontecimento histórico que me permite
adentrar no lastro cultural mais amplo onde os sentidos da cidade e da escola foram constituídos.
Enquanto acontecimento, os discursos são relacionados, sempre, aos contrangimentos, interdições,
estímulos e incentivos que compunham o cenário sócio-cultural em que foram formulados e postos
em circulação. Pretendo, com isso, recompor a história das escolas de Goiânia sendo tecida, a partir
de dentro, por aqueles que se constituíam sujeitos da história ao constituir os sentidos da cidade.
Assim organizados, os discursos que falam de Goiânia e de suas instituições escolares
possibilitam a interpretação dos sentidos que iam sendo tecidos para o urbano e para o escolar. Os
sentidos da cidade e da escola, por sua vez, ensejam um adentrar no universo cultural goiano, lugar
de onde se pode contemplar o que já foi denominado ‘complexo de periferia dos goianos’ frente á
nação litorânea bem como as reações das elites regionais contra o abandono e o isolamento de seu
amado Goiás. Através desta organização, penso acessar, sempre no espaço dos possíveis, as
estratégias que a intelectualidade de Goiás mobilizou para reverter a dramática situação do estado e
torná-lo ‘uma célula viva da nacionalidade’. Pretendo compreender, portanto, como Goiânia se
inscreveu na escola e, ao mesmo tempo, como suas escolas se apropriaram da cidade marcando sua
cena urbana.
Uma história dos sentidos de uma cidade edificada na periferia da vida nacional é tão
somente uma estratégia que pode conduzir à compreensão sobre as singularidades e idiossincrasias
que a escola poderia apresentar naquele contexto. Afinal, a escolas de Goiânia podem ser vistas
como sujeitos que constituíram e foram constituídos pelos sentidos da cidade. Estudar, pois, os
sentidos que significaram Goiânia como cidade moderna e lugar da integração da nação pode
permitir a compreensão de como tais escolas participaram deste processo desvendando como, a
partir daí, também se significaram e quais papéis assumiram na celebrada cidade-capital dos
goianos. Ganham realce, de qualquer maneira, as relações entre o escolar e o urbano, entre a escola
e a cidade.
81
CAPITULO II
O MAPA COMO DISCURSO DA MODERNIDADE DE GOIÂNIA
A velha terra de Anhanguera precisava de ser abalada por
qualquer acontecimento que a fizesse lembrada e que a fizesse
vibrar. Vivia sob tal modorra, sob tal apatia, que dava a
impressão de que vivia de cócoras. ‘Tudo pequeno, vazio,
rotina, burocracia’ [...]
Revista Oeste, 1943
2.1 - No nome da cidade, a recuperação do passado
O mapa, como discurso que coloca sentidos em circulação, não pode ser pensado enquanto
“descrição de um espaço” mas, sim enquanto “indicação de acessos ao mundo”. E, por ser sempre
um caminho para o depois, torna-se um dispositivo de educação. Como acontecimento discursivo
(de linguagem), o mapa constitui um presente e aciona uma espera pelo depois que somente
funciona como constituição de sentidos se sustentada pela memória (passado). Conforme
Guimarães (2002:60), “um mapa, tomado como acontecimento, contém [...] uma latência de futuro.
Ou seja, o mapa não pode ser mapa, caminho para uma relação com o mundo sem essa futuridade”.
Ainda de acordo com este autor (2002:60), ele não é, pois, descrição da cidade nem narração de sua
história, mas acontecimento que ocorre
[...] sempre depois de seu presente como instrução semântica. Portanto, como algo
que não indica diretamente o mundo, e precisa ser compreendido em si mesmo
para que possa funcionar. Como descrição de uma cidade um mapa seria uma
imitação grosseira. Como narração, contaria uma história de épocas diferentes
como sucessões que se projetaram em contigüidades progressivas. E só. Como
instrução, não sendo nenhuma coisa nem outra, ele é sentido que pode nos dizer
mais, tanto do retrato como da história da cidade, do que se fosse diretamente
descrição e narração.
82
O mapa educa, por exemplo, ao ensinar ao cidadão, em uma única totalidade, as
fragmentações do espaço urbano bem como seus pontos de aproximação e distanciamento (os
espaços cheios e vazios das cidades) acionando sentidos que dizem respeito ao social tais como as
clivagens que dividem a cidade em centro e periferia. Ele é também pedagógico ao indicar os
nomes das ruas, avenidas, praças e outros espaços urbanos. Sob este aspecto, ganha relevo o
processo de nomeação destes espaços e os modos como fazem funcionar certos sentidos e não
outros. A nomeação como processo semântico que confere nome ganha relevância por sua relação
com o simbólico. Nas palavras de Guimarães (2002: 63),
[...] o nome não é um selo para um objeto, mas é, de algum modo, a construção de
um objeto pelo que o nome designa. A construção de um objeto [...] entendida
como uma divisão do real pela linguagem que a ele esta exposta e que assim o
identifica simbolicamente.
Por isso, no estudo do mapa como texto, este autor destaca o processo de nomeação de ruas e
avenidas em sua distribuição pelo espaço urbano como momento singular de significação da cidade.
Seguindo as pistas deste autor, antes de me voltar para o mapa de Goiânia propriamente
dito, trato inicialmente o processo de nomeação da cidade e de suas ruas. O que diz dos sentidos da
cidade o nome Goiânia? Como significou o gesto que, ao qualificar ou descrever a nova cidadecapital, nomeando-a, procurou representar certos aspectos de sua singularidade ou de sua
potencialidade, projetando ainda certas visões do passado e certas perspectivas de futuro? A cidade
surgia, cheia de promessas e foi, desde o inicio, representada como marco de superação de um
passado que se queria esquecer. Seu nome deveria ser também representativo dos novos tempos que
se anunciavam.
O nome da nova capital começou a ser objeto de atenção e preocupações por volta de 1933,
logo no inicio das obras de sua edificação, quando o jornal O Social lançou o concurso ‘Como deve
se chamar a nova capital?’ cujo prêmio ao vencedor seria uma assinatura de dois anos do Jornal,
conforme relata Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro (1938). A cidade ainda não possuía
autonomia política e administrativa e a população não ultrapassava 800 habitantes. Para o concurso,
enviaram sugestões inúmeras ‘pessoas cultas’, como comentou Carlos Pedrosa (1942)98, de várias
partes do interior de Goiás e também dos estados de Minas Gerais e de São Paulo. Julieta Fleury,
primeira diretora do primeiro grupo escolar da nova capital - Grupo Escolar Modelo - lembra que
os poucos habitantes da cidade-capital se deliciavam com os nomes sugeridos, recortavam a página
do jornal no qual eles eram publicados, discutiam ‘nas ruas, nas praças, nas escolas e nas casas de
98
Em Goiânia: como surgiu o nome da nova capital do Estado de Goiás? publicado pelo Conselho Nacional de
Geografia em 1942.
83
família’99.
Uma breve incursão pela galeria de nomes sugeridos já indica a interpenetração dos vários
sentidos em circulação naquele momento. São nomes permeados pela memória e que sinalizam ora
para um sentido ora para outro. Como afirma Orlandi (2004), os sentidos não são únicos nem estão
dados. Não há um ‘sentido-lá’, eles estão em constante movimento. Um dos sentidos postos em
circulação pelo concurso vinculava a cidade e a região aos indivíduos excepcionais da sua história e
que resulta de uma visão que vê nas qualidades e competências de um único individuo – o líder
carismático, na concepção de Max Weber – o motor da história.
Os nomes sugeridos, neste caso, são: Americana que se refere a Americano do Brasil100,
intelectual goiano conhecido por sua militância em prol do progresso de Goiás; no mesmo caso
aparecem as sugestões Bartolomeu Bueno, Buenópolis e também Anhangüera que fazem referência
aos lideres bandeirantes que, nos século XVII, descobriram os mananciais de ouro e deram inicio a
saga da ocupação produtiva da hinterlândia goiana. Petrônia e Petrolândia, por sua vez, dizem
respeito ao interventor Pedro Ludovico Teixeira, aclamado como construtor da nova capital. Além
da referência ao Interventor, o nome Petrônia foi vinculado, pelo poeta Leo Lynce, ao Imperador
Pedro II e a Pedro, primeiro papa do Cristianismo. Esse nome, por sinal, obteve maior numero de
adesões (109 contra 26 do segundo colocado, Anhangüera)101, embora estranhamente não tenha
nomeado a cidade-capital que surgia. Essas adesões sinalizam para o desejo de reatamento com o
passado: presença da memória como interdiscurso que é composto tanto da memória oficial (de
arquivo) como da memória não oficial, às vezes não reconhecida.
Nomes como Bartolomeu Bueno, Buenopólis e Anhangüera podem ser referidos neste
aspecto se vinculados à memória oficial da sociedade goiana. O legado bandeirante, por sinal,
aparece com força no acionamento de sentidos sobre o estado de Goiás e, em particular, sobre sua
nova capital. Não raro aqueles que foram reconhecidos como seus construtores ou pioneiros
representavam-se como ‘bandeirantes modernos’ em uma analogia prenhe de identidade com a
imagem desbravadora, corajosa e patriótica dos bandeirantes paulistas. Tal imagem, como afirma
Antonio Celso Ferreira (2002), estava sendo arduamente construída pelos intelectuais paulistas
desde o final do século XIX até meados da década de 1940. Em particular, Pedro Ludovico Teixeira
99
Reproduzido por MELO, ORLINDA CARRIJO. A invenção da cidade: leitura e leitores. Goiânia/GO: Ed. UFG,
2007, pp. 67.
100
Jornalista, historiador, folclorista, poeta e político, Americano do Brasil fundou no Rio de Janeiro em 1917,
juntamente com Henrique Silva, a revista A Informação Goyana (1917-1930) além de ter publicado trabalhos em vários
periódicos brasileiros. Seu grande e constante tema: o estado de Goiás. Foi também Secretário dos Negócios do Interior
e Justiça (1917-121), pasta responsável pela instrução pública, efetivando uma importante reforma educacional em
1918. A respeito ver em NEPOMUCENO, Maria de Araújo. O papel político-educativo de A Informação Goyana na
construção da nacionalidade. Goiânia/GO: Ed. UFG, 2003 e ALVES, Miriam Fábia. Política e escolarização em Goiás:
Morrinhos na Primeira República. Belo Horizonte/MG: FE/UFMG, 2007 (Tese de doutorado).
101
Conforme consta em Como nasceu Goiânia? (1938: 262).
84
foi, reiteradamente, reconhecido como tipo ideal do bandeirante moderno. Em alguns momentos,
foi chamado de ‘terceiro Anhangüera’. O rol de nomes sugeridos faz compreender que a herança
bandeirante aparece, então, como uma das mais poderosas vertentes de constituição dos sentidos de
Goiânia.
Mas é o interdiscurso como memória não reconhecida, não oficial, que ganha a cena em
outro grupo de nomes sugeridos. São nomes de origem indígena que constituem a grande maioria
das sugestões, sempre seguidos de seu significado, quase sempre na língua tupi. São eles:
Guaracima (círculo do sol), Perutaba (cidade de Pedro), Tupirama (pátria dos Tupis), Maraúba
(produto da revolução ou fruto da luta), Marataíra (filha da luta) e os indefinidos Goiânia e
Goianézia que derivam da língua falada pela tribo Goiá, da qual vem também Goiás. As sugestões
de nomes indígenas repetem um padrão de nomeação das cidades goianas. Espalhadas pelo estado,
uma boa parte das cidades de Goiás foi nomeada com nomes derivados das línguas indígenas,
muitas delas montadas a partir do prefixo goiá.
Contudo, esse padrão de nomeação de cidades tem relação com uma memória não lembrada,
uma memória não reconhecida que faz com que a língua (o nome da cidade como discurso)
funcione pelo esquecimento, pela falha, pelo equivoco. Tais nomes dirigem-se ao passado
imemorial da ocupação indígena e do progressivo extermínio físico e cultural dos povos indígenas
que habitaram a região. Este padrão de nomeação, comum não somente em Goiás, mas também em
outras regiões brasileiras, se apresenta como mecanismo de apagamento e, portanto, de exclusão
dos povos índios do espectro da cidadania na formação da nação. Luiz Francisco Dias (1996: 74)
assegura que, por este mecanismo, o índio é reconhecido como membro da nação,
[...] mas não participa constitutivamente dela. Ele é um membro particular da
nação. O seu lugar na história da nação é um lugar pontuado, marcado pelas
particularidades [...] Na linguagem, ele participa emprestando nomes a cidades,
instrumentos, comidas, etc, isto é, ele se substancializa numa voz que se manifesta
no léxico.
O progresso prometido pelos novos tempos que a nova cidade-capital anunciava sustentouse em uma estratégia de apagamento da própria história goiana e, conseqüentemente, de uma
negação da herança cultural indígena e da exclusão dos índios da esfera da cidadania. Goiás tentava
livrar-se do estigma de terra de índios e adentrar na modernidade com uma nova imagem, essa
associada à civilização e ao progresso. A escolha de um nome de raiz indígena pode aparecer como
contradição ou paradoxo, porém, os sentidos derivados da nomeação de Goiânia sinalizam para
uma reconciliação da sociedade goiana com sua história. Inaugurando uma modernidade que se
sustentou na tradição, Goiânia revela também, com clareza, uma das características principais da
modernidade brasileira (MARTINS, 2000).
85
Finalmente, no Decreto-lei 237 de 02 de agosto de 1935102, que criou o município e a
comarca da nova capital, o nome Goiânia apareceu pela primeira vez. Seu aparecimento se deu pela
voz do sujeito jurídico-administrativo que o tornou oficial. Segundo Dona Julieta Fleury houve
protestos quando o nome da cidade-capital foi decidido. Afinal, o vencedor do concurso havia sido
outro nome (Petrônia). Apesar do nome não ter sido o vencedor no concurso, a cidade chamou-se
Goiânia, vocábulo que não tem sentido literal sendo tão somente um derivativo da língua Tupi,
falada pelos Goiá103. Carlos Pedrosa (1942: 06) explicou que ‘Goiânia [...] é derivado artificial de
Goiana, que, por sua vez, é corruptela de Guaiana, que significa, no Tupi, ‘semelhante à goiaba’ ou
‘o que se assemelha à goiaba’.
Mas, nomear a capital com um nome originário de uma língua indígena significava conferir
a ela um estatuto de pertencimento. É preciso não subestimar as tensões que ocorreram em Goiás
quando da proposta e posterior construção de uma nova cidade para sediar a capital do estado: as
resistências ficaram conhecidas como movimento antimudancista, o qual se empenhou,
sistematicamente, em impedir a construção de Goiânia e a transferência da capital (CHAUL, 2001).
Era, pois, importante significá-la como pertencimento a região, torná-la goiana. O nome Goiânia
sinaliza, por sua raiz comum com o nome Goiás, para a identificação da nova sede políticoadministrativa com a sociedade que a criava, enraizando-a como pertencimento.
O processo de escolha do nome da capital também foi objeto de atenção do Conselho
Nacional de Geografia (CNG) que editou para as cerimônias do Batismo Cultural de Goiânia, em
1942, o opúsculo Goiânia: como surgiu o nome da nova capital do Estado de Goiás?, de autoria de
Carlos Pedrosa, Chefe da Carteira de Intercâmbio e Publicidade do CNG. A publicação tem na capa
uma gravura que estampa um indígena em ambiente natural, com arco e flecha nas mãos, o que
indica a permanência das representações e imagens que a construção de Goiânia e o seu Batismo
Cultural, evento para o qual o livreto foi publicado, procuravam refutar. O que interessou a este
autor foi o processo histórico de nominação da nova Capital de Goiás. O autor-geógrafo (1942: 06)
que se fez historiador propunha, em seu pequeno livro, a resolução do que chamou de 'ponto
obscuro' na história do nome da capital a fim de que
[...] no futuro, não fique a perdurar nenhuma dúvida, como acontece, em nossos
dias, com muitos topônimos existentes na nossa nomenclatura geográfica, os quais
102
Conforme transcrito em Como nasceu Goiânia (1938).
De acordo com Salma S.W. Paiva (2006: 26), as nações Jê que, no século XVII, constituíam-se em senhoras dos
cerrados goianos, eram formadas por nações alienígenas ao tronco Tupi-Guarani. Estes grupos eram “[...] habilidosos
na convivência com as condições do sertão, guerreiros cruéis na defesa de suas fronteiras”. A uma das nações Jê, os
Caiapó, é imputada a responsabilidade pelo quase desaparecimento, na época, da numerosa nação Goiá. Por outro lado,
a nação Carajá aparece como uma exceção aos demais povos Jê. Concentrado no Vale do Araguaia, este povo pacífico
com língua e cultura próprias, habilidosos pescadores e caçadores foi, inclusive, objeto de atenção do Capitão-Mor
Antônio Telles que os chamou, em 1789, de ‘moles e patifes’.
103
86
são, por vezes, grosseiramente interpretados e, por isso mesmo, com significações
inconcebíveis.
O ‘ponto obscuro’ a que se refere Pedrosa diz respeito às origens do nome da nova cidadecapital de Goiás, explicitava ele logo nas primeiras linhas da publicação. A questão a que chamou
‘ponto obscuro’ diz respeito, na verdade, a dois pontos: primeiro, qual era a origem do vocábulo
Goiânia? E segundo, quem o tinha proposto para nomear a nova capital, ou melhor, quem era
Caramurú Silva do Brasil, pseudônimo do vencedor do concurso promovido pelo O Social. Quase
em seguida, na página seis, Pedrosa confunde origem e significação ao afirmar que ‘[...] a dúvida
não se prende [...] à significação do seu belo, sonoro e expressivo nome [...], pois a sua constituição
vocabular bem define a fonte que lhe serviu de origem: o próprio topônimo do Estado de que ela é
capital [...]’. Mas de onde surgira o nome Goiânia? Pedrosa (1942: 06) afirmava que Goiânia não
era um vocábulo novo; ao contrário, havia nele uma antiguidade.
Há prova inconclusa que o nome ‘Goiânia’ teve ampla divulgação em todo o país
no ano de 1896, ao servir de título a um poema épico de autoria do antigo
magistrado goiano MANUEL L. DE CARVALHO104, progenitor dos escritores
Vitor e Hugo de Carvalho Ramos, êste, autor por sua vez, do curioso livro de
literatura regional intitulado Tropas e Boiadas, e aquele do opúsculo O
descobrimento de Goiaz e o seu bicentenário e da obra Mãe-Chi, editada em 1929.
Quanto ao mistério relativo ao autor da proposta de nominação da capital, Carlos Pedrosa
(1942) termina o livro sem alcançar sua resolução. Sua última frase é: ‘Quem é o pseudo Caramuru
Silva do Brasil?’ A resposta a esta questão final foi fornecida pelo próprio propositor do nome
escolhido para a nova capital em uma missiva intitulada ‘Carta que esclarece um ponto
histórico’105, dirigida a Garibaldi Teixeira, Diretor da Imprensa Oficial de Goiás. Na carta, Alfredo
de Faria Castro, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), professor de francês
do Liceu de Goiás e redator do jornal O Social, assumiu que, utilizando-se do pseudônimo
Caramurú Silva do Brasil, propôs Goiânia como nome da cidade-capital. Eis suas palavras:
Atendendo a um apêlo que ao público em opúsculo editado pelo Conselho
Nacional de Geografia faz o Sr. Carlos Pedrosa no sentido de esclarecer o
verdadeiro nome do signatário do voto que logrou a escolha de denominar a Nova
Capital de Goiaz, tomo a liberdade de dirigir-lhe a presente para declarar que
efetivamente, foi com o pseudônimo ‘Caramuru Silva do Brasil’ que assinei minha
104
O poema épico Goyânia, contendo vinte cantos de oitavas rimas sobre os feitos de Bartolomeu Bueno da Silva, foi
publicado em 1896 na cidade do Porto em Portugal, sendo considerado por José Mendonça Telles (2005), o Lusíadas
goiano.
105
No exemplar a que tive acesso através do Centro Cultural José Mendonça Telles, uma cópia a carta de Alfredo de
Faria Castro, vulgo Caramurú Silva do Brasil, aparece anexada ao final do livro. Datada de 08/07/1942, foi enviada
quando o livro já estava publicado, não fazendo parte de sua distribuição inicial. Foi também publicada no Correio
Oficial de 14/07/1942.
87
cédula escrita na própria redação do seminário ‘O Social’, que se editava ao tempo
de Goiaz e do qual era eu um dos redatores.
Alfredo de Faria Castro, que depois se tornaria Diretor do IHGG, escreveu em sua cédula de
votação que Goiânia significava ‘Nova-Goyaz, prolongamento da histórica Vila Boa, monumento
grandioso que simbolizará a glória da origem de todos os goianos’, conforme transcrito por
Monteiro (1938: 262) e Pedrosa (1942: 14). Através de sua nominação, Goiânia adquiria o sentido
da cidade onde coexistem modernidade e tradição, o futuro e o passado se vinculando. Estes os
sentidos postos em circulação no momento em que o nome da nova capital foi escolhido. Nas
palavras de Vidal e Souza (2002: 83), “o nome e a cidade expressam o afastamento das resistências
à modernização sintetizadas na velha sede, mas preservam o significado da memória histórica para
a identidade da coletividade goiana”.
Finalmente, há ainda que se notar o conjunto de vocábulos que Alfredo de Faria Castro
escolheu como pseudônimo – Caramurú Silva do Brasil – como elemento que, por si só, constitui
sentidos sobre a cidade, projetando expectativas sobre o povo que a ocuparia. Reunindo vocábulos
plenos de sentidos que remetem à presença índia (Caramurú) e européia (Silva), acrescido de um
‘do Brasil’, Alfredo de Faria Castro sinaliza para a ideia da miscigenação étnica e cultural que,
naqueles tempos, começava a firmar-se como característica positiva da identidade brasileira e que
em Goiânia – esse era o discurso recorrente - encontraria seu ponto de convergência.
2.2 – A captura da cidadania: o processo de nomeação das ruas e avenidas de Goiânia
O que pode ser lido no mapa de Goiânia? Quais os sentidos produzidos pela tessitura física
da cidade, pelos nomes de suas ruas e avenidas, por seus monumentos? Como constituíram Goiânia
como um símbolo de modernidade e de pertencimento à nação? O que ele diz se pensado como
dispositivo pedagógico? Proponho vê-lo à maneira da linguagem cinematográfica. Do close à
grande angular passando pela média angular. Do plano detalhe ao grande plano geral. Como numa
sucessão de imagens que se sobrepõem. Do cenário da modernidade ao cenário do sertão. Do
traçado de suas ruas ao desenho dos seus bairros. Dos endereços de suas escolas ao endereço
daqueles que não tinham escola. Talvez, assim, possam ser observadas a cidade e suas dobras.
No mapa da área central da cidade mostra-se, em toda a plenitude, a visão desistorizante do
urbanismo moderno e, ao mesmo tempo, as contradições da modernidade sertaneja. As vias de
circulação da urbs goianiense foram identificadas por números em um padrão que foi, à medida que
a cidade crescia, sendo reproduzido nos bairros novos que surgiam (Imagem 01). Nenhum herói,
88
nenhuma personalidade, evento ou data histórica! Nenhuma referência à nação através de seus
heróis, datas ou eventos importantes da nacionalidade. Nenhuma vinculação à geografia brasileira.
Nenhum nome de santo ou de santa em uma terra tão prenhe de catolicismo; ao contrário, uma
referência advinda do protestantismo.
Conforme afirma Manso (2004), no Dossiê de tombamento da arquitetura art déco de
Goiânia, Atílio Corrêia Lima foi buscar inspiração para propor este sistema de nomeação de ruas
no racionalismo protestante de Willian Penn que o propôs para a Filadélfia em 1682 e que depois
foi utilizado também em Washington e em Nova York. Segundo esta autora (2004: 76),
a decisão de Penn no século 17 de nomear as vias de sua cidade com números ao
invés de nomes de pessoas é representativa do ideal de organizar, em princípios
racionais, a nova sociedade no Novo Mundo. Penn antecipa, com sua sociedade do
amor fraternal (philadelphos), a taxionomia de Linnaeus em quase um século.
Aquele buscou organizar o terreno bruto, dando-lhe a forma racional e numerada;
este buscou organizar os seres vivos, dando-lhes nomes e categorias dentro de um
sistema preestabelecido.
No plano urbanístico projetado por Atílio Corrêa Lima, havia uma reserva de 20 números
como previsão para futuros acréscimos. A ideia era dar continuidade a seqüência de números.
Posteriormente, ao projetar o Setor Sul, Armando Augusto de Godói deu continuidade à proposta.
Depois, com o crescimento da cidade, a ideia de seqüência se perdeu: muitos novos bairros a
abandonaram, reiniciando a seqüência a partir do número um, o que causou duplicidade de nomes
de vias. Ainda mais tarde, outros bairros acrescentaram letras e símbolos ao número como forma de
caracterizar sua região de localização, como no Setor Aeroporto (1-A; 2-A, etc.), Setor dos
Funcionários (P-1; P-2, etc.), Setor Oeste e Bueno (R-1; R-2; etc. e T-1; T-2, etc., respectivamente).
A junção de letras e números também deu nomes às praças e alamedas como a Praça T-18 e a
Alameda J-22, entre outras (MANSO, 2004).
O sistema numérico de nomeação das ruas da nova cidade-capital que constava no plano
urbanístico de Atílio Corrêa Lima não era algo inusitado nas cidades brasileiras haja visto ter sido
usado em Rio Claro e Barretos, no estado de São Paulo, nas reformas urbanas ali realizadas,
respectivamente, em 1885 e 1915. Em Goiânia, o ineditismo foi derivado tão somente do fato da
cidade tê-lo assumido logo de inicio, e não em reformas posteriores. Tal sistema teve também um
papel de catalisador no estado de Goiás uma vez que várias cidades do interior o incorporaram,
posteriormente, como Ceres e Jataí. A permanência do sistema numérico na nomeação das vias de
circulação de Goiânia e de outras cidades goianas é uma das heranças do plano urbanístico de Atílio
Corrêa de Lima que antecipou, em quase trinta anos, a nomeação de vias de Brasília, nos anos
1960.
89
Imagem 01
Mapa do Setor Central de Goiânia
Fonte: Mapa Urbano Digital de Goiânia/SEPLAN/Prefeitura de Goiânia
As ruas numeradas provocaram um sentimento de desorientação na população que se
formava na jovem Goiânia; uma população que vinha, em sua maioria, do campo ou de pequenas
cidades do interior de Goiás e dos estados de Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Bahia. No
romance Chão Vermelho, de autoria de Eli Brasiliense (1993), que recobre a realidade goianiense
da primeira metade da década de 1950, a dificuldade e a confusão causadas por esta lógica racional
da nomeação de ruas da cidade-capital aparece em contraponto ao espaço rural: ‘No mato andava
com desembaraço, não se embaraçava, passava por cima de léguas sem sentir cansaço e quebrava
espinhos com a sola dos pés’, afirma o personagem Marcelo (Brasiliense, 1993: 89), para quem o
maior incomodo da nova capital era, exatamente, a lógica espacial diferente da roça. Logo depois, é
outro personagem, Fernando, que reclama: ‘No princípio era a confusão das ruas numeradas. Um
baralho dos diabos [...]’ (Brasiliense, 1993: 92).
Mas além de considerar esta desorientação, é preciso pensar este processo de nomeação
90
como discurso para compreender como funcionaram constituindo sentidos sobre a cidade, como a
significaram. Guimarães (2002:51) afirma que nomear ruas com números é como nomear sem dar
um nome oferecendo, tão somente, uma localização, um endereço. Assim,
[...] esse espaço aberto a nomeação significa o não-sentido no universo das ruas. E
deste modo coloca visível o funcionamento de controle do urbano sobre o cidadão.
Coloca visível essa futuridade instalada no nome da rua enquanto lugar que
identifica para depois e sempre os espaços e os que o habitam. Tem-se ai um
sentido de controle que faz parte do processo de identidade social das pessoas,
enquanto identificação com um endereço. [...] o número como nome é a indicação
do urbano como lugar do controle, do endereço: para estar na cidade, ser da cidade,
e preciso ter um endereço, mesmo que não seja na história (memorável) da cidade.
Como acontece o funcionamento da língua, constituindo sentidos, quando o número é o
nome? Considerando que a língua, por ser afetada pela história e pela ideologia, não é transparente,
é preciso compreender que, na constituição de sentidos, a língua funciona pelo não-aparente ou, em
outras palavras, pelo que não diz. Deste ponto de vista, resta saber como os nomes das ruas de
Goiânia estão impregnados por um não-dizer. O que essa nomeação não diz? O que encobre? Há
neste modo de nomeação alguma memória?
Neste padrão de nomeação de ruas e avenidas, a memória (não reconhecida) que informa o
sujeito que nomeia é uma memória relacionada a necessidade de localizar espaços como endereços
da cidade e, por isso, se mostra sempre “[...] como um dizer sem passado” (GUIMARÃES, 2002:
65). Números como nomes de ruas estão, na visão deste autor, impregnadas por um recorte da
memória que oculta o papel de controle do urbano sobre a cidade, logo, sobre seus habitantes. E
como se o urbano fosse ‘o lugar da captura’ da cidadania, um seu oposto. A não referência ao
passado – de Goiás e do Brasil – fez com que a nomeação das ruas de Goiânia funcionasse apenas
como localizador. Ao recusar o passado, essa nomeação esvaziou os sentidos de seus vínculos com
a história relacionando-o, por sua vez, a uma perspectiva de controle e de regulação tipicamente
modernos.
O que resta? As principais avenidas receberam o nome dos rios de Goiás, uma referência à
representações caras aos goianos: os três grandes rios que cortavam Goiás, promessas de riquezas,
demarcadores das fronteiras territoriais do estado. O rio imponente, o rio encantado e o rio soberbo:
Paranaíba, Araguaia e Tocantins. Por fim, a Avenida Pedro Ludovico Teixeira, que foi rebatizada
Avenida Goiás em referência a antiga capital; e a Avenida Anhangüera, as quais sinalizam para um
reatamento com o passado. Todas estas cinco vias foram projetadas e construídas como espaços
monumentais para os padrões da época e da região. Por elas, desfilavam – solenes - militares e
estudantes por ocasião das festas cívicas. Por elas, passavam – festivos - corsos e blocos nas festas
carnavalescas. Por elas, chegava-se e saía-se de Goiânia. Em especial, as três grandes avenidas com
91
nomes dos rios goianos formaram, ao confluírem para a Praça Cívica, o pé de pato que marcou,
para sempre, o traçado urbano do centro de Goiânia.
2.3 – A cidade fragmentada: estranhamentos e exclusões na cena da cidade
2.3.1 - O Setor Central, a cidade moderna
Para além da nomeação, o que diz o mapa de Goiânia? Que imagens revelariam um close
sobre o mapa da cidade-capital? O close nos mostra o mapa da área central de Goiânia – o Setor
Central -, exatamente a parte planejada da nova capital. A cidade mostrada é a mais freqüente nos
estudos urbanísticos. É desta cidade-capital que fala a história. É a Goiânia moderna que ali se
mostra sendo sua imagem a que projetou o moderno no sertão e marcou, para seus idealizadores e
construtores, o momento de ruptura com a história goiana e a inauguração da modernidade
sertaneja. O que se vê no mapa do Setor Central? Qual ou quais narrativas estão nele inscritas?
O centro representa a cidade do plano urbanístico original projetado por Atílio Correia de
Lima. Foi ali que a arquitetura art déco encontrou seu lugar de existência e que o traçado das ruas e
avenidas mais se aproximou da racionalidade técnica do urbanismo moderno. Ali a cidade
numerada! No Setor Central também se concentrou aquilo que primeiro caracterizou Goiânia, qual
seja, a dimensão política e administrativa da nova capital: os prédios públicos e o Palácio de
Governo (posteriormente Palácio das Esmeraldas) além das residências do funcionalismo estadual.
E as instituições que buscavam forjar a ‘vida espiritual’ de Goiânia: as melhores escolas e as
entidades culturais como o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e a Academia Goiana de
Letras, entre outras.
No Setor Central - que foi inspirado, segundo seu autor, Atílio Correia de Lima - no traçado
de Versalhes, Karlsruhe e Washington, o que se vê é uma malha quadriculada convencional, mais
ou menos retangular, de onde se sobressaem três avenidas largas e retilíneas (Araguaia, Goiás e
Tocantins) cujo ponto final é outra avenida em forma de um grande e aberto C (Paranaíba). As
avenidas Araguaia, Tocantins e Goiás iniciam-se em um mesmo ponto – a Praça Cívica - formando
um pate d'oie ou pé de pato que tem no Palácio das Esmeraldas o seu ponto de culminância. O
Palácio era, por sinal, avistado de pontos distintos destas avenidas potencializando o sentido de
centralidade da política na construção da nova capital, o que se revela importante na medida em que
Goiás pretendia, através de sua cidade-capital, afirmar-se como parte significativa da nação e como
rompimento com o urbano sertanejo da região.
Marcia Metran de Mello (2006) comenta, entretanto, que a conotação de poder que inspirou
92
o desenho arquitetônico e, por conseguinte, a ocupação do espaço urbano do centro de Goiânia é
praticamente desconhecida da população da cidade. Os sentidos constituídos pelo povo de Goiânia
para o centro são sentidos que não se vinculam ao poder profano, mas permeado pelo interdiscurso,
relacionam-se ao poder sagrado. É que a população goianiense conferiu um sentido alheio ao poder
do Estado ao formato em pé de pato do complexo praça cívica-avenidas araguaia-tocantinsparanaíba: pela sua similaridade com a figura de Nossa Senhora Aparecida, o pé de pato foi
entendido, pelos goianienses, como a imagem do manto da santa padroeira do Brasil (Imagem 02).
A praça onde se encontra o Palácio que, para o urbanista e para o político, era o centro do poder
profano, para a população se tornou a cabeça da santa, centro do poder sagrado.
A cidade como corpo – do qual o manto da santa é uma representação singular - pode ser
explicitada nos termos de uma associação entre o corpo humano e as cidades. Associação histórica,
perceptível desde as cidades gregas. Conforme Sennett (2002: 22),
O filósofo João de Salisbury talvez tenha formulado a definição mais simples e
literal deste conceito, ao declarar, em 1.159, que ‘o estado (res publica) é um
corpo’. Ele quis dizer que um governante funciona como um cérebro humano; seus
conselheiros, como o coração; os comerciantes são o estômago da sociedade; os
soldados, suas mãos; camponeses e trabalhadores manuais são seus pés. Trata-se
de uma imagem hierarquizada, segundo a qual a ordem social parte do cérebro,
órgão do governante. João de Salisbury vinculou a forma do corpo humano à
forma da cidade cuja cabeça situava-se no palácio ou na catedral [...]. (Grifo do
autor)
Gondra lembra, entretanto, que o uso de metáfora do corpo para representar a cidade não
possui uma autoria ou titularidade e “não se constitui em propriedade de nenhum campo de saber,
mas foi e é utilizado como argumento planejado por homens e mulheres da ciência com a
intencionalidade de instituir um fundamento para o planejamento das cidades” e para selecionar
quais agentes possuem autoridade para intervir e discorrer sobre o urbano (informação verbal) 106.
Considerando que as associações entre a cidade e o organismo vivo integram o vocabulário sobre as
cidades estando relacionadas aos modos de governá-la, o uso da imagem do corpo intenciona criar
condições para planejar e organizar o urbano e de intervir neste espaço a fim de torná-lo, de fato,
um corpo vivo e saudável.
A singularidade de Goiânia é que esta inter-relação não foi somente concebida e projetada
somente por arquitetos e urbanistas – homens da ciência -, mas também pela população que, ao se
apropriar da cidade projetada, sobre ela realizou deslocamentos. Certeau (2001) lembra que, neste
momento, os urbanistas se retiram da cidade que pensaram vazia, assustados que estão com a
população que vem perturbar os planos por eles elaborados. No caso da nova capital de Goiás,
106
Fala proferida na banca de qualificação desta tese. Niterói/RJ: FEUFF, set/2006. Registro digital de voz.
93
Mello (2006: 56) afirma que
houve uma superposição de projeções, uma migração de significado que fez com
que a forma urbana compusesse um outro quadro no imaginário da população,
embora sem alterações em suas características visuais e funcionais. Nesse caso
específico, o usuário [da cidade] recompôs a formulação do urbanista,
desautorizando a fluidez de seu ideário. Seria equivalente a dizer que o plano de
Brasília foi inspirado no Cristo Redentor, com seus braços abertos representados
pela Asa Norte e Asa Sul.
Na história da cidade, esta representação não perdeu sua força identitária, não se diluiu
diante das mudanças pelas quais passou a cidade e manteve sua capacidade representativa e “[...]
seu poder de requalificar-se simbolicamente diante das novas gerações e das sucessivas ondas
migratórias” (MELLO, 2006: 56). O sentido do sagrado aí presente foi apropriado, inclusive, por
uma parcela dos intelectuais de Goiás já que cronistas urbanos, escritores, poetas, folcloristas, entre
outros, também a assimilaram confirmando sua presença nas linhas da cidade. É o que nos relata,
por exemplo, o contista Rodrigo Almeida Bastos (1988107 APUD MELLO, 2006: 56): “Eu
confesso. Já cuspi no chão dos pombos. Já parei meu carro limpo na praça que é cabeça de santa”.
Em torno da Praça que ‘é a cabeça da santa’, prédios públicos federais em estilo art déco
compuseram um cenário que intencionava demonstrar a centralidade do poder em Goiânia:
Tribunal Eleitoral, Delegacia Fiscal, Inspetoria Regional do Ministério do Trabalho, Correios e
Telégrafos108 além dos prédios da administração estadual com destaque para o prédio verde do
Palácio do Governo. Ao contrário da antiga capital, onde os órgãos públicos nem sempre
funcionavam em edifícios próprios, convivendo em uma dispersão espacial, em Goiânia foram
aglutinados em torno do Palácio de Governo (depois, Palácio das Esmeraldas) e ganharam
edificações específicas para sua instalação, contribuindo para consolidar a modernidade que, neste
caso, se expressa no crescimento do aparato de governo e da burocracia administrativa.
Nas proximidades da Praça Cívica também se estabeleceu o Automóvel/Jóquei Club, ponto
de encontro da elite goianiense; o Cine-Teatro Goiânia, obra-prima do déco goianiense e o Grande
Hotel, lugar onde se realizavam grandes bailes e jantares e onde eram recebidos os ‘visitantes
ilustres’ que, à época, acorriam à cidade. Todos, lugares onde eram experenciadas as novas práticas
107
BASTOS, R. A. Só um sorriso. Jornal Opção, Goiânia, 24 a 30 de maio, 1998. Opção Cultural, c-3.
Estes quatro prédios foram construídos com o financiamento (cinco mil contos de réis) do governo federal, realizado
através da emissão de apólices da dívida pública. Proposto pelo senador Nero de Macedo, o projeto visava auxiliar a
construção de Goiânia sendo aprovado no Senado Federal em 12/10/1935. As apólices foram entregues em 29/06/1936.
A transcrição do projeto, o discurso do senador Nero de Macedo quando o apresentou ao Senado, a divulgação do
mesmo e do recebimento das apólices podem ser encontrados em Como Nasceu Goiânia? (1938). Atualmente, estes
prédios integram o patrimônio art déco do centro de Goiânia e são tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e
Cultural (IPHAN).
108
94
modernas, um novo modo de vestir, até mesmo um novo vocabulário109 que surgia em palavras
como reveillon e smoking. O centro urbano de Goiânia mostrava-se como um universo no qual a
experiência da tão sonhada civilização era possível, ainda que de modo precário.
Imagem 02
Representação do manto de Nossa Senhora Aparecida
no traçado urbano de Goiânia. Na mesma imagem, vê-se também
as diferenças no desenho dos setores Sul (acima) e Central (abaixo)
Fonte: MELLO, Márcia Metran (2006)
Há ainda uma significativa imagem que, no centro de Goiânia, se configura em elemento
essencial na constituição dos sentidos da cidade: é o Monumento dos Bandeirantes representado por
uma estátua do bandeirante paulista Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, tido como
descobridor das minas dos goyases no século XVIII. A Estátua do Bandeirante, como é reconhecida
localmente, foi estrategicamente colocada no encontro das avenidas Goiás e Anhangüera, o que
demonstra sua importância naquele momento histórico. Compreender a história deste Monumento é
fundamental para entender as iniciativas que os paulistas envidaram, de um lado, para consolidar a
representação do bandeirante como figura-síntese da nacionalidade e, de outro, para alargar sua
109
O novo vocabulário causou, em diversas ocasiões, constrangimentos e embaraços àqueles que o desconheciam,
motivando pilhérias e deboches. Bernardo Élis relembra, por exemplo, que a palavra reveillon foi incorporada ao léxico
dos goianos somente com o surgimento de Goiânia. Continuando, afirma que esta palavra remetia à outra tão
desconhecida da gente de Goiás quanto o objeto por ela designado, smoking, traje exigido para as festas de final de ano
no Grande Hotel. Élis comenta que, por ocasião de uma destas festas, o prefeito de uma cidade do interior do estado ao
invés de pedir ‘smoking’ ao alfaiate português que vendia este traje, solicitou um escafandro. Em Memória cultural:
ensaios da história de um povo (1985), p. 52
95
influência civilizatória nos campos econômico, cultural e político das regiões à oeste do Brasil..
No tocante à questão econômica, a construção de Goiânia foi vista como abertura das
fronteiras comerciais, o que favorecia a ampliação de um mercado consumidor dos produtos
oriundos de São Paulo. Os paulistas cogitavam, acertadamente, que a extensão da Estrada de Ferro
da Mogiana até o Triângulo Mineiro produziria impactos em Goiás e Mato Grosso e, em
conseqüência, ‘[...] abrir-se-iam novos mercados para o parque industrial de São Paulo, [...] cujos
progressos estariam assegurados pela própria existência de uma importante ligação ferroviária’110.
A concorrência aí se dava com o estado de Minas Gerais, também muito próximo geográfica e
culturalmente de Goiás, configurando uma situação na qual a região goiana aparecia como objeto
de disputa e, portanto, como um mercado a ser capturado pela economia de um ou outro estado.
Naquele contexto, as expectativas dos paulistas poderiam ser ameaçadas, conforme alertou o
francês Pierre Monbeig111 (1942: 79), professor de geografia da USP,
[...] os paulistas não devem dormir sobre os seus atuais êxitos: não se fala de uma
ligação de rede ferroviária de Goiáz à Oeste de Minas e não se diz, em Goiânia,
que as tendências federais são mais nesse sentido do que no da Paulista? Os
segredos dos deuses não me são acessíveis, mas, se tais rumores se tornarem um
dia realidade, é verossímil que assistiríamos a uma captura econômica à custa de
São Paulo.
As preocupações dos paulistas, tão claramente expressas pelo intelectual da USP, devem ser
relacionadas à perda do controle da República por parte de São Paulo na década de 1930 e aos seus
esforços, a partir daí redobrados, na direção da retomada de sua primazia na colonização do país e
na orientação dos destinos da nação. A problemática das ainda indefinidas fronteiras internas, por
exemplo, foi objeto da atenção do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), cujos
sócios, “[...] em incursões analíticas que faziam uso da história para legitimar demandas territoriais
ainda em curso [...]”, (FERREIRA, 2002: 114) examinaram as fronteiras entre São Paulo, Paraná e
Mato Grosso.
No campo cultural, os paulistas procuraram exaltar a tradição regional, expandi-la a outras
partes do país como estratégia de contraposição a política cultural varguista que tendia a minimizar
110
Pierre Monbeig em Goiânia, artigo publicado no livro Goiânia, publicado pela IBGE, 1942. No artigo, Monbeig
reflete sobre as reais possibilidades de Goiânia vir a tornar-se uma capital importante ou mesmo decisiva para a vida
nacional. Enfatiza a riqueza do solo e do subsolo, cogita a construção de uma rede rodoviária, lembra a localização
geográfica considerada privilegiada, aponta para a possibilidade de a cidade constituir-se em base da navegação aérea
brasileira. E assinala (1942:79) que ‘[...] o completo êxito dos construtores de Goiânia está [...] ligado à valorização das
riquezas de Mato Grosso e de Goiaz, valorização que depende das relações com os grandes centros consumidores e
comerciais, vizinhos ao litoral’.
111
Geógrafo francês que viveu no Brasil no período 1935/1946, professor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
da então recém-criada USP onde ocupou a cátedra de geografia humana, Monbeig (1908-1987) era um herdeiro
intelectual de Vidal de La Blache (considerado fundador moderna geografia francesa e da Escola Francesa de
Geopolítica) tendo grande interesse pelas relações entre a região e modo de vida de seus habitantes, o que o levou a
postular a articulação com a história como algo essencial para a geografia.
96
as construções simbólicas regionais, investindo na (re) valorização do passado a partir de uma
perspectiva nacionalista e centralizadora. O movimento cultural paulista, neste período, não foi
desprezível: as artes plásticas, a literatura, o campo educacional, as entidades culturais e científicas,
a Igreja Católica, os órgãos de imprensa se envolveram, todos, na demonstração da pujança paulista
e na procura da retomada do seu poder nos quadros da nação (FERREIRA, 2002).
O Monumento demonstrava as preocupações dos intelectuais paulistas com os destinos de
uma região que eles consideravam quase como uma extensão (ou possessão?) do estado de São
Paulo. Era preciso, afinal, marcar o novo espaço urbano no interior do Brasil e consolidar
representações caras ao projeto de hegemonia cultural paulista. Conforme comentou um jornalista
paulista112, ‘os bandeirantes que descobriram o Brasil interior, [precisavam] ser descobertos pelos
brasileiros de hoje, que, na sua maioria, ignoram a exata influência que eles exerceram na formação
do Brasil’.
O Monumento aos Bandeirantes concretizou esta intencionalidade. A estátua foi um
presente que acadêmicos do curso de direito da Universidade de São Paulo (USP)113 ofereceram a
Goiânia como forma de marcar simbolicamente a origem bandeirante - portanto, paulista - do
estado de Goiás. Depois de visitar Goiânia a convite do engenheiro Abelardo Coimbra Bueno, em
janeiro de 1938, a Embaixada Universitária Paulista’, como se autodenominou o grupo de 25
pessoas entre estudantes e professores, iniciou na capital paulista e nas cidades de Campinas e
Santos, a Campanha Pró-Monumento dos Bandeirantes em Goiânia, liderada pelo Centro
Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito114.
O objetivo da campanha era conseguir financiamento para a consecução do projeto. Vários
órgãos de imprensa paulistanos115 apoiaram a iniciativa bem como importantes intelectuais116
participaram como coordenadores da mesma, o que revela a importância concedida a ela pelos de
São Paulo. A Campanha concretizou uma parceira entre os governos de São Paulo e Goiás que
doaram - cada um - 20 contos de réis para a construção da estátua. Além disso, a Firma Construtora
Coimbra Bueno, responsável técnica pela construção de Goiânia, custeou a propaganda da
Campanha, prestou orientação na sua fase inicial e patrocinou conferências de intelectuais paulistas
112
No Correio Oficial do Estado de Goiás, 08 de maio de 1938.
A ideia do monumento foi do acadêmico Antonio Silvio Cunha Bueno, posteriormente, deputado federal.
114
Compunham a comissão executiva da Campanha, o prof. Francisco Moratto (tesoureiro) e os acadêmicos Antonio
Silvio Cunha Bueno (presidente), Ulisses Guimarães Silva, Domingos Luiz de Faria, Mário Romeu de Lucca e Wilfrido
Cid Valério. Todos eles, com exceção do prof. Moratto, compareceram à inauguração do Monumento, em novembro de
1942.
115
Folha da Manhã, Rádio Bandeirante, Correio Paulistano, Radio Sociedade Record, O Estado de São Paulo e Diário
Popular, conforme comunicado enviado pela comissão executiva da Campanha, publicado no Correio Oficial do
Estado de Goiás, em 26/02/1938.
116
Érico Veríssimo, Tristão de Ataíde, Pedro Calmon, Gilberto Freyre, Jonatas Serrano e Agripino Grieco foram
citados no comunicado da comissão executiva da Campanha, publicado no Correio Oficial do Estado de Goiás, em
08/05/1938.
113
97
sobre o bandeirismo. Entre os conferencistas, Pedro Calmon, Agripino Grieco, José Torres de
Oliveira, Afonso de Escrangnolle Taunay, Cesar Salgado e Dom Gaspar de Affonseca, arcebispo de
São Paulo.
Em 09 de novembro de 1942, quase cinco anos depois de iniciada a Campanha, o
Monumento foi inaugurado no centro de Goiânia. Confeccionada pelo artista plástico Armando
Zago, a estátua de 2,5 metros de altura foi colocada sob uma base de granito de 2,50 por 2,10
metros, o que fez com que o Monumento atingisse a altura de quase cinco metros. Sob sua base,
duas placas de bronze: uma com a identificação da entidade doadora, Centro Acadêmico XI de
agosto da Faculdade de São Paulo, e a outra com a inscrição ‘Aos goianos, nobre estirpe dos
bandeirantes’117. A marca bandeirante estava, definitivamente, inserida na tessitura material da
jovem cidade-capital de Goiás118. Ao atribuir aos goianos o mesmo espírito desbravador que eles
próprios julgavam possuir, os paulistas significavam Goiânia como produto da ação destemida e
ousada do bandeirismo paulista.
As plantas urbanísticas, por sua vez, não são mapas que descrevem a ocupação da nova
Capital: elas revelam, antes, a ocupação como projeto. Elas permitem passar do plano-detalhe à
média angular: além do Setor Central, nelas estão representados com menor detalhamento o Setor
Sul e também o Bairro de Campinas, distante seis quilômetros do centro de Goiânia (Figura 03). O
que mostram os Setores Central e Sul vistos em conjunto? Saltam aos olhos as diferenças de
traçado entre os dois projetos: o Setor Sul, ao contrário da malha em xadrez do centro, mostra-se
como um carrefour no qual as linhas curvas e curtas são as marcas mais visíveis (Imagem 02).
Armando Godói planejara, ao lado da cidade racional de Atílio Correia de Lima, uma cidade-jardim
nos moldes da norte-americana Radburn (New Jersey). De acordo com Mello (2006: 42), ele tentou
reconciliar cidade e sertão, projetando um bairro
[...] de caráter residencial, [que] era formado por inúmeros cul de sacs, ou vielas,
como ficaram popularmente conhecidas, por onde se teria acesso motorizado ao
fundo das residências que se voltariam para jardins internos destinados ao lazer e à
convivência. Previa-se nesses recantos a construção de escolas e quadras
esportivas. Procurou-se, ao máximo, separar o fluxo de pedestres do de
automóveis.
Embora extrapole os limites dados pelo recorte temporal definido por este trabalho,
considero relevante ressaltar que o Setor Sul começou a ser ocupado a partir de meados da década
117
Correio Oficial do Estado de Goiás, 09/11/1942.
Em 1987, por ocasião do aniversário de 50 anos da transferência da capital, a família do deputado Cunha Bueno,
autor da ideia da criação do Monumento quando estudante de direito, doou a Universidade Federal de Goiás, um acervo
contendo uma vasta documentação sobre a Campanha Pró-Monumento aos Bandeirantes em Goiânia. O fato foi
noticiado pelo jornal O Popular, de Goiânia (02 e 04/10/1987) e por O Globo, do Rio de Janeiro (08/10/1987).
Atualmente, o acervo encontra-se disponibilizado no endereço: www.cidarq.ufg.br
118
98
de 1950 por iniciativa da população e não sob controle e supervisão do Estado, como ocorreu no
Setor Central. A população que ali veio residir não aceitou a proposta de seu idealizador e construiu
casas de acordo com a tradição das cidades brasileiras, ou seja, com as frentes voltadas para as ruas.
“O resultado é que os jardins internos ficaram subaproveitados ou totalmente abandonados”
(MELLO, 2006: 42), constituindo-se em motivo de medo da população que via os jardins tomados
pelo mato como lugares onde se escondiam criminosos, mal-feitores e animais perigosos.
Algumas décadas depois, nos anos 1960, sob rígido controle do Estado, o projeto
modernista do arquiteto Lúcio Costa viria a obter sucesso onde Armando Augusto de Godói
falhara. A nova Capital Federal, Brasília, consagraria a perspectiva da ‘morte da rua’, expressão
usada por Holston (1993) para designar o plano urbanístico de Brasília, o qual contém exatamente a
mesma premissa tentada por Godói na capital goiana (residências com os fundos virados para as
ruas). Na nova cidade-capital da República, a modernidade urbanística saiu vencedora enquanto em
Goiânia manteve-se, forte, a marca da tradição.
Imagem 03
Plano urbanístico Armando Augusto de Godói.
Logo acima do traçado do Setor Central, vê-se o Setor Sul
Abaixo, à direita, o bairro de Campinas.
99
2.3.2 - Espaço, arquitetura e endereço: a escola como discurso da modernidade de Goiânia
A presença material da escola na nova cidade-capital é um dos indícios que permitem
perceber o papel da educação na conformação da cultura urbana de Goiânia, principalmente se
confrontada com a escassez de prédios escolares na centenária Vila Boa, lugar no qual não se
construíram espaços próprios para escolas. Várias instituições escolares funcionavam em um único
prédio compartilhando, às vezes, além do espaço, material pedagógico, direção e professorado. E,
sempre, instaladas em casas alugadas ou compradas pelo poder público; ou em imóveis públicos
nos quais se improvisava uma escola. É o que ocorreu com o prédio construído para beneficiamento
de arroz que passou por adaptações e foi transformado, em 1929, no Palácio da Instrução, edifício
que reunia o Jardim de Infância Modelo, o Grupo Escolar Modelo e a Escola Complementar da
Capital. Havia também escolas em imóveis recebidos como herança como é o caso da velha casa de
Corumbá119 onde funcionavam permanentemente o Liceu de Goiás e a Escola Normal Oficial e que
abrigou, provisoriamente, outras escolas.
Em Goiânia, ao contrário, a construção de prédios escolares estava prevista no plano
urbanístico da cidade e, desde o início, marcou a cena urbana da jovem capital. O mapa do Setor
Central sinaliza para o lugar da escola na cidade. Os endereços das escolas, aliado às suas
características arquitetônicas e à data de seu aparecimento na cena da cidade, podem demonstrar a
relevância que, naquele momento, a escola adquiria para a sociedade goiana e, particularmente,
como tais escolas se faziam discursos constituintes dos sentidos da modernidade da nova cidadecapital.
Tomando o espaço escolar “como lugar e como território” (VINÃO, 2005), muitos
119
João Gomes de Machado, o Dr. Corumbá, é personagem curioso da história da educação de Goiás. Algumas
informações, como as datas de seu nascimento e morte, não são precisas. De acordo com Genesco Bretas (1991), ele
nasceu ‘por volta de 1805’ em Santa Cruz (atual Santa Cruz de Goiás) e morreu entre 1845 e 1950. O pai, Pedro Gomes
Machado, fazendeiro e senhor de escravos, era homem letrado e experiente tendo ocupado cargos na área da justiça e da
administração pública da província goiana. Pedro Gomes enviou os filhos Pedro, João e Francisco para a Universidade
de Coimbra onde João diplomou-se em Filosofia e Matemática (em 1822). Regressando ao Brasil e à Goiás, passou a
assinar João Gomes Machado Corumbá. Como Dr. Corumbá ficou conhecido na capital da província. Sua fama,
contudo, derivou-se “[...] não por feitos notáveis nem por serviços relevantes, mas pelo tipo curioso que era, pelo
inusitado de seu comportamento e pela arte de ocupar postos importantes sem produzir nada de útil. [...] desempenhava
mal suas obrigações, e na hora das dificuldades, simplesmente deserdava, simplesmente sumia, como irresponsável,
desonrando sua alta categoria de doutor [...]”., escreveu Genesco Bretas (1991: 196). João Corumbá desempenhou
várias funções na administração pública (escrivão da Junta de Fazenda, deputado provincial, suplente de deputado da
Assembléia Geral do Império) sendo que em todas as suas atuações deixou a desejar. Primeiro e único bacharel em
matemática de toda a hinterlândia goiana durante o período imperial, fez alguma coisa pelo desenvolvimento deste
saber - sempre em meio a suas crises e ataques excêntricos - preparando professores para o ingresso no magistério
goiano e servindo como examinador de candidatos a professores de aulas régias de geometria e aritmética. Contudo, o
grande feito de Corumbá em relação ao desenvolvimento da matemática e da educação goiana de modo geral foi
desencadeado pela sua morte: em testamento, deixou toda a sua razoável fortuna “[...] em benefício de uma ou duas
cadeiras de Geometria a serem custeadas com os rendimentos de seus bens”. O espólio rendeu a quantia de 23.598$124
contos além de uma casa pequena e outra grande, ambas situadas na Rua da Bola na antiga capital. O Liceu de Goiás
foi instalado, depois, nestas duas casas, onde permaneceu até sua transferência para Goiânia, em 1937. Atualmente a
antiga Rua da Bola chama-se Rua Dr. João Gomes Machado Corumbá.
100
historiadores da educação no Brasil têm conferido centralidade à dimensão arquitetônica dos
prédios escolares, em especial dos grupos escolares e das escolas normais, as quais são
consideradas por muitos destes autores (BENCOSTTA, 2005; SOUZA, 1998) como instituiçõessímbolos das ideologias modernizadoras presentes na sociedade brasileira nas primeiras décadas do
século XX. Estes estudos ressaltam o aspecto monumental dos edifícios escolares e seu destaque no
meio urbano, principalmente, durante o período da Primeira República bem como tem conferido
importância aos usos e apropriações dos espaços internos das instituições educativas.
No estudo de Rosa Fátima de Souza (1998), Templos de civilização: a implantação da
escola primária graduada no estado de São Paulo 1890-1910, a autora evidencia o aspecto
monumental dos edifícios construídos para abrigar os grupos escolares paulistas, os quais foram
pensados como instituições-símbolo do progresso da terra bandeirante. A autora (1998: 91-92)
destaca a vinculação entre os grupos escolares e a modernização das cidades paulistas afirmando
que
O grupo escolar fazia parte [de um] conjunto de melhoramentos urbanos, tornandose denotativo do progresso de uma localidade. Ele era um símbolo de
modernização cultural, a morada de um dos mais caros valores urbanos – a cultura
escrita. [...] Eles representavam também sinal de prestígio para a cidade [...]. Por
isso, a sua criação era vista como uma vitória política decorrente dos esforços das
autoridades locais, mediada pelo jogo político. [Então] é preciso ver os grupos
escolares no interior dos projetos de modernização e de construção de novas
formas de gestão das cidades e de seus habitantes implementados pelo poder
público no estado de São Paulo, a partir do final do século passado [XIX]. (Grifos
meus).
Muitos outros estados brasileiros seguiram o modelo paulista. Como o Paraná que
privilegiou a monumentalidade arquitetônica das escolas bem como a alocação das instituições em
lugares privilegiados da cena urbana como uma forma de tornar visíveis os progressos que as
administrações estaduais estavam impulsionando na região. Esta atitude estatal revela, para este
autor, muito mais uma estratégia de visibilidade do que uma ação voltada para a democratização da
educação escolar. Neste sentido, conforme afirma Bencostta (2005: 134),
Em Curitiba, [...] nem todos os primeiros grupos escolares ocuparam locais de
destaque na cena urbana. Vários deles não possuíam edifícios em proporções
monumentais que merecessem, da retórica republicana, adjetivos laudatórios, tais
como: templos ou palácios da instrução. Os espaços funcionais que a moderna
pedagogia exigia, como gabinete para diretor, biblioteca, anfiteatro, laboratórios,
secretaria, oficinas, pátios, etc., também foram desconsiderados.
Na cidade que crescia misturada ao sertão, no centro geográfico do país, a presença da
escola como endereço na cidade é inequívoca. E como um endereço no urbano, a escola é lugar por
101
excelência da produção e circulação de alguns sentidos bem como da interdição de tantos outros.
Urge compreender quais os sentidos silenciados por aquelas escolas, quais os permitidos e os
estimulados para, assim, alcançar entendimento sobre como a escola que surgia em Goiânia pôde,
no espaço significante da cidade, realizar seu papel na constituição dos sentidos de modernidade e
pertencimento. “A localização aqui deve ser considerada não como mero contexto empírico, mas
como condição de existência simbólica”, adverte Orlandi (2004: 149) ao propor pensar a escola
como endereço. É que, para esta autora (2005: 150), o potencial de produção e gestão de sentidos
que a instituição escolar possui se relaciona com o fato da escola ser, também, um endereço na
cidade. Os sentidos constituídos pela escola estão, então, relacionados ao condicionante da escola
fazer parte, materialmente, da cidade; de, nela se localizar.
Tendo o endereço como localizável na cena da cidade, a escola significa ao se inscrever na
perspectiva das relações urbanas que à principio se mostram como espaço material contínuo e
horizontal. Todos são cidadãos na cidade; a escola é lugar para todos. Mas as relações urbanas, ao
serem verticalizadas conforme os sujeitos ocupam posições desiguais na hierarquia social, se
representam como espaço social hierarquizado no qual subsiste relações de dominação. Alguns –
não todos - são cidadãos, outros são excluídos da cidadania; a escola é de poucos, a escola é para
poucos. Um “[...] confronto político que produz a marginalidade, a segregação” se delineia. Nele, a
escola funciona como instância que oculta a alteridade e a diversidade.
A escola que surgiu em Goiânia, cidade nascida em meio aos paradoxos da modernidade
brasileira, não se fez diferente. Como uma das instâncias do social onde a verticalização das
relações sociais na cidade-capital se consolidava, a escola dificultou relações de igualdade, separou
regiões e determinou fronteiras nem sempre explícitas, mas, certamente, concretas e sempre
sentidas por aqueles que, do urbano e do escolar, ficaram excluídos. Onde, então, foram construídas
as escolas públicas na cidade-sertão? Quais os seus endereços no mapa da cidade inventada como
símbolo de superação e prova de capacidade dos goianos em construir seu próprio destino, mas que
deixava ao abandono material e relegava ao esquecimento histórico a maioria de seus habitantes?
Quais os sentidos constituídos pela sua materialidade, pelo lugar físico que ocuparam, pela estética
e funcionalidade de sua arquitetura? Quais os silenciados, ocultados, interditados?
O prédio do Jardim de Infância Modelo foi o primeiro edifício público a ser inaugurado na
nova cidade-capital, o que ocorreu em junho de 1935, portanto, antes mesmo da transferência da
capital. Bem no centro do poder político, em plena Praça Cívica, ao lado do Palácio do Governo.
Depois, no final de 1937 vieram de uma só vez o Grupo Escolar Modelo, o Liceu, a Escola
Complementar, a Escola Normal Oficial e a Faculdade de Direito. Todas foram alocadas no Setor
Central, nas proximidades do poder político e das práticas culturais civilizatórias que davam conta
do potencial educativo da nova cidade-capital. O Liceu de Goiás, na confluência das ruas 15, 18 e
102
21; o Grupo Escolar Modelo, na rua 23, bem próximo ao Cine-Teatro Goiânia (Imagem 04) , ambos
muito próximos da Praça Cívica e, portanto, próximas das estruturas do poder político e das
entidades e instituições voltadas para o mundo da cultura e das artes
Um pouco mais afastada, localizada nos limites do Parque Botafogo, portanto, quase na
fronteira entre a cidade projetada e a cidade imprevista que surgia na forma de invasão promovida
pelos operários que construíam a cidade, a então única instituição escolar de caráter federal no
território goiano: a Escola Técnica Federal inaugurada em julho de 1942, substituindo a antiga
Escola de Aprendizes Artífices. Devo também mencionar o Grupo Escolar Pedro Ludovico
Teixeira, localizado no bairro de Campinas, instituição mantida pelo poder municipal. Venerando
de Freitas Borges, primeiro prefeito de Goiânia, anunciou por volta de 1943120 uma ampla reforma
que atingia tanto a estrutura material da escola como sua organização pedagógica. As salas de aula
foram reformadas e se construiu uma grande caixa d'água e novos sanitários; moderno material
didático também foi adquirido.
Imagem 04
Cine-Teatro Goiânia. Ao fundo, o Grupo Escolar Modelo.
Fonte: Correio Oficial de Goiás, 1942
A fotografia ajuda a compor a imagem dos vazios da cidade-capital goiana e as relações de proximidade entre as
escolas e instituições voltadas para o mundo da cultura e das artes
120
Revista Oeste, setembro/1944, número 19, pp. 34-35.
103
Durante o período pesquisado, a ocupação de alguns destes prédios escolares foi otimizada:
eles abrigaram não somente as instituições para as quais foram construídos, mas cederam espaço a
outras escolas como a Faculdade de Comércio e a Faculdade de Farmácia121, ambas de caráter
privado, que funcionaram inicialmente, no período noturno, nas dependências do Grupo Escolar
Pedro Ludovico Teixeira, em Campinas122, e depois de 1940, na escola católica Ateneu Dom
Bosco, no centro da cidade, passando rapidamente também pelo Grupo Escolar Modelo. Este Grupo
Escolar funcionou, por sinal, durante dois anos (1938/1939) nas dependências do Liceu de Goiás
uma vez que sua criação se efetuou antes da construção de um prédio próprio, o que somente
ocorreu em 1940.
Quatro outras escolas devem ser mencionadas: a Escola Normal Oficial, a Faculdade de
Direito de Goiás, a Escola Complementar da Capital e ainda uma Escola Isolada que funcionava na
cidade desde maio de 1934. Aliás, esta foi a primeira escola instalada na nova cidade-capital, o que
ocorreu quando se considerou ‘que ao Governo compete facilitar instrução em idade escolar’123
para as crianças que já moravam na cidade em construção. Por sua vez, a Escola Complementar da
Capital, como o Jardim de Infância, era uma instituição nova na realidade goiana124. Todas estas
escolas foram instaladas no centro da cidade, contudo, não tiveram prédios próprios para seu
funcionamento. Ao contrário, foram abrigadas em casas e/ou sobrados alugadas e adaptados para
recebê-las, o que provocou como que uma peregrinação destas instituições pela cena urbana: de
casa em casa, de sobrado em sobrado, de aluguel em aluguel conforme variaram os desejos e
necessidades dos proprietários dos imóveis locados ou ainda conforme as instalações não
oferecessem condições mínimas de uso.
Além das escolas públicas, existiam ainda as escolas privadas, das quais as confessionais
católicas se destacavam. O Colégio Santa Clara era a mais antiga escola daquela cidade-capital sem
121
A Faculdade de Farmácia funcionava, até 1937, na cidade de Morrinhos, ao sul do estado de Goiás, conforme
noticiado no Correio Oficial do Estado de Goiás em 13/02/1938.
122
Campinas foi o município escolhido para sediar a nova cidade-capital. O local foi escolhido por uma comissão de
estudos instituída pelo Interventor Pedro Ludovico Teixeira, em dezembro de 1932, para realizar estudos e escolher um
sítio para a construção de uma nova capital. A comissão foi composta por ‘[...] D. Emanuel Gomes de Oliveira,
engenheiro João Argenta, urbanista; Dr. Colemar Natal e Silva, advogado; Cel. Antonio Pirineus de Souza, oficial
superior do exército; Dr. Laudelino Gomes de Almeida, chefe do Serviço Sanitário do Estado; Antonio Augusto de
Santana e Gumercindo Alves Ferreira, comerciante; e o engenheiro do Estado [...]’ (Decreto-lei 2737, de 20/12/1932).
Depois de viajar pela região central de Goiás, visitando vários locais, a comissão escolheu a cidade de Campinas em
razão das boas condições topográficas e hidrográficas ali encontradas. Posteriormente, o arquiteto-urbanista Armando
Augusto de Godói, em relatório de 1933, discorreu sobre a pertinência do local, aprovando a escolha da comissão. In:
Como nasceu Goiânia (1938), de Ofélia Sócrates de Nascimento Monteiro, que reproduz tanto o decreto-lei em questão
quanto o relatório de Godói, p. 33 e 48.
123
Conforme texto do Decreto 4.563 de 03/05/1934. Este decreto, na verdade, transferia uma escola do distrito de
Corrente, município de Jataí para o local da nova capital. Reproduzido em Como nasceu Goiânia?, 1938, p. 272.
124
Seu surgimento deu-se em 1929, quase no ocaso da dominação caiadista, por iniciativa da Missão Pedagógica
Paulista que esteve na antiga capital naquele período. A Missão percebeu que os professores goianos ingressavam na
escola normal logo após o término do ensino primário. Crianças de 10 ou 11 anos adentravam na escola normal e, três
anos depois, aos 13 ou 14 eram professores diplomados. A Escola Complementar da Capital foi, então, criada com o
objetivo de constituir-se em um nível intermediário entre a escola primária e a escola normal.
104
passado: desde 1922, funcionava em Campinas (que se tornou bairro de Goiânia) sendo que em
1926 implantou um curso normal. E depois, o Colégio Santo Agostinho (1938) para moças e
meninas e o Ateneu Dom Bosco (1940) que era dirigido por padres salesianos e atendia meninos
em regime de internato e semi internato. Seu prédio foi construído no estilo art déco, contudo,
distinto dos prédios públicos da cidade-capital, a escola católica comportava mais sofisticação e
luxo. Espaços para laboratório, biblioteca, ginástica e um anfiteatro se fazem presentes na estrutura
material desta escola, demonstrando que os católicos incorporavam determinadas orientações e
práticas pedagógicas consideradas modernas. O relato de Maria Lúcio Leal125 ajuda a compor
aspectos da incorporação da pedagogia escolanovista – especialmente em relação aos usos e
práticas corporais - bem como revela a preocupação com a formação de esposas e mães.
De 1934 a 1938, eu estudei no Santa Clara. [...] lá tinha muito assim...
divertimento, muita recreação. [...] nós tínhamos uma professora [...], uma
professora de dança, educação física. Ela era muito preparada, era formada pela
universidade de Oxford. Então ela dava assim... aula de educação física pra nós,
dava aula de dança porque ela achava que uma mulher, uma moça para ser perfeita,
para ser uma boa esposa...porque naquele tempo a gente estudava pra ser esposa,
num era pra nada, né? Pra ser uma boa dona de casa, tinha que saber dançar. [...]
ela dava dança contando 1, 2, 3, 4... dançando com a gente assim. Ai, depois nós
fazíamos teatro, aonde ela fazia sapateado. Nós dançávamos sapateado e fazia
ballet... aquele ballet que ela ensinava para nós, né? Não é esse ballet clássico de
hoje. [...] Mas aí nos vestíamos uma roupa com véu, sabe? Uma roupa bem
esvoaçante.
Em 1942, quando foi oficialmente inaugurada, a Capital do Sertão já contava, portanto, com
uma rede de escolas públicas e privadas. A nova capital goiana se mostra distinta, desta perspectiva,
da capital mineira que, décadas antes (1897), fora erigida sem prédios escolares, o que somente
começou a ocorrer alguns anos depois de sua inauguração (VEIGA, 2002; VAGO; 2002). A
primazia do Jardim de Infância no curso das inaugurações da cidade-capital bem como seu
endereço, por exemplo, podem ser compreendidos como um indício da importância conferida à
questão da educação. Pensada como discurso que constituía os sentidos da cidade, a presença
pioneira do Jardim de Infância Modelo no núcleo central da cidade, em pleno ‘coração’ do poder,
colado à sede do poder político, ajudava a chamar atenção para o cuidado que os novos governantes
dedicavam à educação. Contribuía igualmente para constituir os sentidos da modernidade de
Goiânia, notadamente, na perspectiva da cidade-educadora.
A arquitetura art déco forneceu, como nos demais prédios públicos de Goiânia, a estética
predominante. Mas não se pense nas escolas projetadas e construídas (algumas) no Rio de Janeiro
durante a reforma Anísio Teixeira nos anos 1920. Nada das escolas-mínimas, das escolas-parque,
125
Entrevista concedida em março/2003 para a pesquisa Cultura Infantil na região metropolitana de Goiânia: (re)
conhecendo jogos, brinquedos e brincadeiras realizada sob minha coordenação. Registro analógico de voz.
105
das escolas-platoon, das escolas-nucleares que marcaram a paisagem urbana carioca. O déco das
escolas goianienses era, tal como o dos outros prédios da cidade-capital, o que tem sido chamado de
‘déco pobre’ (COELHO, 2005; MELLO, 2006). Tal característica afasta as imagens de
monumentalidade que são comumente associadas às instituições escolares surgidas naquele
momento da vida nacional.
Nos moldes das escolas descritas e narradas pela historiografia da educação brasileira, as
escolas de Goiânia nada tinham de monumentais. Tampouco se pode dizer que o material usado na
sua construção foi nobre: pouco vidro, muito concreto e argamassa, alvenaria de tijolo, nenhum
material importado. A monumentalidade era tão somente uma sensação, essa a saída criativa
encontrada pelo estilema arquitetônico. A necessidade de reduzir ao mínimo os gastos com as obras
da nova capital, a inexistência de mão de obra especializada, de maquinários específicos e de
materiais de construção (que tinha que vir, quase sempre, de muito longe) tensionava o déco ao seu
limite operatório.
Lembremos que, conforme lembra Clarice Nunes (1993), este estilema arquitetônico
assumiu a perspectiva de construir prédios escolares despojados de todo o supérfluo. Pressionado
pelas necessidades, quiçá, por elas desafiados, os arquitetos que projetaram os edifícios públicos de
Goiânia idealizaram ambientes despidos de quaisquer exageros formais e dotados de uns poucos
sóbrios e econômicos adornos decorativos nos quais se mantiveram as principais características
estéticas do estilema. Elas se mostram evidentes ao primeiro olhar: o predomínio do cheio sobre o
vazio, as platibandas cobrindo os telhados, a horizontalidade marcante, o zigue-zague ou
escalonamento.
Se interpretada como discurso sobre a cidade-capital e remetida ao movimento mais amplo
do campo educacional brasileiro dos anos 1920 e 1930, a pobreza estética das escolas goianienses
apontava para a noção de uma “[...] reinvenção do espaço público a serviço dos objetivos da
consciência pedagógica em plena construção” (NUNES, 1993: 105). Noção extremamente cara aos
intelectuais-educadores que vinham, desde a década de 1920, cobrando do Estado o cumprimento
das promessas republicanas. Muitos deles, como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço
Filho, puderam efetivar tentativas de torná-las concretas em reformas da educação que abalaram
várias regiões do país nos anos 1920. Como lembra Clarice Nunes, a respeito das escolas
construídas pela reforma liderada por Anísio Teixeira no Rio de Janeiro, “[...] os prédios escolares
foram gestos intencionais que pretenderam criar novos comportamentos e sentimentos diante da
escola, expandindo-a para fora e além dela”.
Contudo, dos prédios escolares apenas o do Grupo Escolar Modelo seguia fielmente a
estética que caracterizou a arquitetura goianiense no período. Localizado nas esquinas das ruas 3 e
23, a poucas quadras da Praça Cívica, muito próximo do Cine-Teatro Goiânia - prédio considerado
106
a obra prima do art déco na cidade-capital - o Modelo foi construído em um terreno triangular, o
qual ensejava maior destaque e visualização da sua fachada. A forma triangular do terreno permitiu
a existência de outro elemento valorizador da fachada: um jardim na área frontal da escola.
Exemplar típico do déco empobrecido, o edifício de dois pavimentos do Modelo incorporava as
linhas sóbrias e sem exageros formais da maioria dos prédios públicos de Goiânia bem como
apresentava a horizontalidade marcante que configurava aquela arquitetura como uma simbólica do
poder autoritário.
Internamente, a necessidade de economia parece ter sido aguçada ao extremo. O resultado é
um ambiente em forma de U extremamente funcional e ascético. A linha reta prevalece em todos os
ambientes e na forma geral do prédio antecipando a função de direção, controle e de governo que
ali teria lugar. Prédio panóptico, a localização de esquina permitia que a luminosidade entrasse por
todos os lados. Lugar de onde foram banidas as figuras circulares, no Modelo não era possível se
perder numa curva nem o olhar poderia se enganar em algum desvio ou devido á escassez de
luminosidade. Tudo precisamente reto, claro, limpo; encarnação dos ideais de uma escola moderna,
higiênica e econômica.
Deslizar o olhar pela planta baixa do prédio (Imagem 05) deixa a impressão de compridas
caixas de concreto superpostas e simetricamente divididas por paredes que, nas partes de baixo e de
cima, são coincidentes. Um apêndice na parte posterior do prédio também se mostra coincidente,
como dois pequenos caixotes colocados um sobre o outro. Apenas no centro do prédio, na sua parte
frontal, a planta baixa não mostra coincidência de paredes entre os dois pavimentos. No pavimento
superior há uma pequena sacada que, funcionando como elemento central, ajudava a compor a
sensação de monumentalidade do edifício. Por baixo desta sacada, está a entrada da escola: três ou
quatro degraus que levam a um hall de acesso ladeado por duas pequenas salas destinadas à
secretaria. Exatamente sobre o hall e as secretárias, na parte superior do prédio, encontra-se a sala
descrita como o auditório da escola.
O prédio tinha doze salas de aula sendo seis em cada pavimento. Duas delas, na parte térrea,
eram contíguas ao espaço destinado ao hall de acesso e às salinhas de secretaria. Na parte superior,
coincidindo com as salas de baixo, mas contíguas ao auditório, mais duas salas. Eram, portanto,
quatro salas de aula, duas em cima e duas em baixo, que se voltavam para a frente do prédio e,
portanto, suas janelas davam para o jardim que ali existia. Outras quatro salas (duas em cada
pavimento) tinham janelas voltadas para a Rua 03 enquanto as últimas quatro (de novo, duas na
parte superior e duas na parte inferior) se voltavam para a lateral direita com vistas para a Rua 23.
107
Imagem 05
Planta baixa do Grupo Escolar Modelo
Fonte: Coelho, G. N. Guia dos bens imóveis tombados em Goiás, 2005
LEGENDA
1 – hall; 2 – Secretarias; 3 – Salas de aula; 4- Corredor; 5 – Depósitos; 6 – Auditório; 7- Banheiros.
Pelo longo corredor que cortava todo o edifício chegava-se, qualquer que fosse a direção
tomada, aos sanitários (no térreo) e aos cômodos descritos como depósito (no segundo pavimento).
O acesso ao andar superior era feito por uma escadaria, a qual se colocava frente ao hall de acesso,
porém, depois de atravessado o corredor. A escadaria era também ladeada em ambos os pavimentos
por salas de depósito. A escritora Augusta Faro de Melo, que fez parte da primeira turma do curso
primário do Modelo, relembra a sensação de subir aqueles degraus em direção ao ‘[...] pavimento
de cima [onde] havia um salão especial para festividades, palestras, eu achava ótimo reunir ali
naqueles momentos’. Talvez, por isso, ‘subir as escadas em fila era glorioso’. Mas, ‘fora de hora
subir e descer correndo era ótimo’126.
A planta baixa do Grupo Escolar Modelo, tratada como discurso sobre esta escola e sobre a
cidade na qual ela surgiu, instiga a percepção das ausências ou do não dito. Como lembra Antonio
Viñao Frago (2005: 23), há casos “[...] em que se pode falar da linguagem do silêncio. Há silêncios
que significam e dizem, que falam por si sós”. Que ausências no prédio do Modelo podem ser
pensadas como linguagem do silêncio? E o que silenciou a ausência nele contida? O que diz? Além
das vias de acesso e circulação, o Modelo se apresenta, em sua planta baixa, como escola composta
126
Em AIRES, C.R.M.B. da S. Projeto de uma ação educativa de preservação para o Colégio Estadual José Carlos de
Almeida. Curso de especialização em museologia. FCHL/UFG, Goiânia, 2002, p. 27.
108
de salas de aula, sanitários e depósitos, um grande pátio nos fundos e um auditório na parte
superior. A falta de espaços para biblioteca, laboratórios, refeitório, direção e sala de professores é
o primeiro aspecto que chama a atenção, especialmente, se confrontada com os discursos que
significavam esta instituição como modelo pedagógico e administrativo de ensino primário para
todo o estado de Goiás.
A escola modelo naquele período primava pela assunção de pedagogias ativas nas quais
alguns destes espaços eram valorizados. Além disso, nos discursos dos responsáveis pela educação
do período bem como nas lembranças de antigos estudantes, professores e direção da escola, o
Modelo comportava biblioteca, refeitório e um laboratório. Eram sinais distintivos daquele Grupo
Escolar. Onde funcionavam? Outra ausência marcante: a planta do prédio não apresenta descrição
de uma sala destinada à direção escolar. O que existe são duas pequenas salas, uma de cada lado do
hall de acesso, cada uma delas descrita como destinada à secretaria. De acordo com Antonio Viñao
Frago (2005), a inexistência de um espaço específico para a direção sinaliza para uma concepção
minimizadora da direção na qual subsiste a tentativa de reduzi-la a sua mínima expressão127.
A planta baixa de um prédio diz do espaço, de sua distribuição, de seus possíveis e
diferentes usos. Entretanto, a ela não é possível revelar o lugar. “O espaço se projeta, se vê ou se
imagina, o lugar se constrói”, afirma Viñao Frago (2005: 17). Na construção do lugar quase sempre
se subverte o que foi antes projetado e imaginado. Ao ocupar o espaço, os agentes escolares acabam
por re significá-los fazendo da escola um lugar na cena da cidade e da nação e um território por
onde transitam todos aqueles que com a escola se relacionam. Como o espaço do Grupo Escolar
Modelo foi constituído lugar e território dos que nele, primeiro, trabalharam ou estudaram? Onde se
instalaram biblioteca, laboratório, refeitório, sala de professores e de direção?
Os indícios e sinais da existência dos três primeiros são inúmeros estando presentes nas
práticas discursivas textuais e imagéticas (Imagens 06 e 07) do período bem como emergem, ainda
que tênues e esgarçados, nas memórias de antigos estudantes. Estes se lembram de sua existência,
mas não do local onde funcionavam. Resta levantar algumas possibilidades, as quais decorrem da
leitura atenciosa das fontes e de um retorno à planta baixa na perspectiva de encontrar indícios que
levem as possíveis respostas.
A partir de 1940, o assistente técnico de ensino Gentil Augusto Lino referia-se
constantemente à instalação da biblioteca e do refeitório no Grupo Escolar Modelo. Era, segundo
Lino, uma das principais conquistas daquilo que chamava ‘êxito da campanha educacional de nosso
estado’. Para a montagem desta biblioteca, o corpo docente e a direção da escola realizavam
continuamente festas e festivais cujo fim era a arrecadação, por doação, de livros. Por sinal, o grupo
127
Viñao Frago (2005: 23) acrescenta que a não existência de espaços para direção também pode indicar que tal
instância se mostra desnecessária - “[...], por exemplo, na escola de um só professor [...]”.
109
de professoras que ali atuaram nos primeiros anos era extremamente operoso fazendo da escola um
centro de atividade onde, além da organização de festas, festivais e exposições escolares, eram
redigidos os jornais O Tico-Tico e Branca de Neve. São práticas que pressupõem a presença
material das professoras no espaço do Grupo Escolar e que instigam pensar o espaço que elas
ocuparam.
Imagem 06
Crianças na Biblioteca do Grupo Escolar Modelo
Fonte: Projeto de uma ação educativa de preservação para o Colégio Estadual José Carlos de Almeida.
Por sua vez, a primeira diretora do Modelo, Julieta Fleury, ocupou efetivamente seu lugar na
direção daquela escola bem como na cena da cidade que se fazia moderna. Era uma diretora
rigorosa no cumprimento de seus deveres, zelosa da boa qualidade de ensino do Grupo Escolar e
mediadora competente das relações entre a cidade e a escola. Administrava também a Caixa Escolar
Pedro Ludovico Teixeira que tinha por objetivo auxiliar os alunos pobres com uniforme, material
escolar e alimentação. O estilo de sua direção pode ser considerado como intensamente implicado
na vida da cidade que crescia em torno da escola bem como no cotidiano intramuros do Modelo.
Sempre atento às práticas e discursos dos professores e à atividade dos alunos como também
próxima de suas famílias. Julieta Fleury era, usando uma expressão presente no estudo Vago (2002)
sobre a cultura escolar em Belo Horizonte, ‘a alma do grupo escolar’. Onde teria se instalado?
Um olhar mais demorado na planta baixa mostra uma considerável quantidade de espaços
destinados ao abrigo de depósitos. São seis ao todo, distribuídos por diferentes pontos do edifício
sendo dois deles na parte térrea, ladeando a escadaria; portanto, nas proximidades do hall de
entrada e das salas destinadas a secretaria. Outros dois se localizam imediatamente acima destes, no
andar superior. E, por fim, mais dois: um em cada extremidade do corredor do pavimento superior,
longe da entrada da escola e das salinhas para secretaria. São espaços pequenos se comparadas às
salas de aula, mas provavelmente, não serviram todos como depósitos. Resta ainda o auditório,
espaço reservado a festividades e comemorações escolares.
Um laboratório poderia ser instalado num dos depósitos do andar superior; na outra
extremidade, talvez, a biblioteca. Embaixo, nos espaços que ladeavam a escadaria, talvez, uma sala
110
de professores dividida em dois espaços, próximo das salas de secretaria e da entrada da escola.
Lembremos que era intensa e contínua a relação deste corpo docente com a vida cultural da cidadecapital. Elas não poderiam, por esta lógica, estarem espacialmente distantes da entrada do Modelo
e, por conseqüência, da própria cidade. Julieta Fleury, a diretora, pode ter ocupado uma das salas
destinadas à secretaria que ladeavam o hall de acesso, espaço próximo à entrada da escola e,
portanto, acessível às demandas originárias da cidade. Por outro lado, se colocava igualmente
próxima da sala ocupada pela secretaria e frontal às salas das professoras, se correta minha
projeção. Voltada simultaneamente para fora ou para dentro da escola, a diretora do Modelo se
colocava como mediadora privilegiada entre a escola e cidade.
Imagem 07
Laboratório Grupo Escolar Modelo
Fonte: Projeto de uma ação educativa de preservação para o Colégio Estadual José Carlos de Almeida.
Voltemos a outras escolas da cidade. O edifício do Jardim de Infância fugia à estética déco
enquanto o prédio do Liceu distanciava-se dele na medida em “[...] associa linhas de um déco pobre
com uma cobertura de telha francesa, o que contribui fortemente para uma descaracterização do
estilo, no qual geralmente o telhado se apresenta escondido por uma platibanda” (COELHO, 2005:
89). De dois pavimentos, feitos de linhas sóbrias e simples, o edifício que abrigou o Liceu de
Goiânia foi edificado em terreno plano, porém, utilizou-se um recurso que permitiu sua elevação
acima do solo: é preciso, então, galgar alguns degraus para alcançar sua porta de acesso. Este
recurso visava conferir maior visibilidade à escola na cena da cidade.
Ao contrário do prédio do Modelo, a planta baixa do Liceu (Imagem 08) apresenta espaços
específicos para biblioteca, sala dos professores, de coordenação e de direção, esta localizada à
direita do hall de acesso, de frente para a sala dos professores (localizada à esquerda do hall) sendo
composta de duas salinhas interligadas por uma porta. Uma concepção maximizadora da direção se
desenha. Próximos da entrada do edifício e da sala dos professores, os espaços destinados à direção
sinalizam para a valorização desta tanto na relação da escola com a cidade como no exercício de
conhecimento e controle do cotidiano escolar. Entretanto, o prédio apresenta não uma, mas duas
salas destinadas a esta função, o que permite pensar na concepção de uma direção intensamente
implicada na vida da cidade, porém, suficientemente afastada para com ela não se confundir
111
(VIÑAO FRAGO, 2005).
Imagem 08
Planta baixa do Liceu de Goiânia
Fonte: Fonte: Coelho, G.N. Guia dos bens imóveis tombados em Goiás, 2005
A localização do Liceu também pode ser pensada a partir da estratégia de dar a ver a escola
(o progresso, a modernidade, as luzes) em Goiânia. Distante apenas três quarteirões da Praça
Cívica, o Liceu poderia ser avistado a partir de diversas perspectivas bem como variados caminhos
levavam a ele dado se localizar na confluência de quatro ruas (rua 15 com ruas 18, 19 e 21). Na
tessitura urbana da nova Cidade-capital goiana, a configuração espacial da escola - ou em outras
palavras, seu endereço - criava uma articulação que inexistia na antiga Vila Boa na medida em que
os poucos prédios públicos da antiga capital eram dispersos pela malha urbana. Em Goiânia, ao
contrário, os espaços escolares foram alocados de forma a abrigar e instruir não somente pelo
conhecimento que ali transitava, mas também pela sua relação com a cidade e suas instituições
políticas e culturais. A nobreza do endereço de algumas escolas goianienses, nas proximidades dos
mais importantes edifícios públicos e das mais expressivas entidades culturais, artísticas e
cientificas, “[...] garantia sempre que os alunos percorressem e reconhecessem a cidade e suas
instituições antes mesmo de chegarem à escola” (BUFFA & PINTO, 2002: 45).
A centralidade da localização do Liceu e destas outras escolas públicas e privadas, nas
112
proximidades das estruturas materiais do poder político agregados em torno da Praça Cívica, não
pode ser pensada como um mero acaso nem mesmo algo voltado unicamente ao mundo goiano. A
cidade-capital seguia o moderno padrão de alocação de instituições escolares que estava em
andamento no Brasil, o qual destacava a materialidade da escola na cena da cidade e ressaltava aí
uma simbologia de progresso e modernidade ou ainda de pujança e vigor econômico e cultural,
como é o caso paulista. Por todos os lugares, eram construídas instituições escolares nas zonas
nobres das cidades ou nas áreas centrais dos bairros das cidades em uma estratégia de dar a ver a
escola como sinal inequívoco que uma sociedade progressista ali existia.
A presença da escola apontava para o desejo de transformar as rústicas mentalidade e
práticas do sertão goiano. Naquela sociedade da ausência, naquele lugar cujo passado se mostrava
passível de esquecimento e negação, as escolas que ali surgiram ensejavam mais do que nunca tal
expectativa. ‘Celeiros de civilização’, foram investidas de guardiãs severas e vigilantes dos corpos
e mentes de todos que adentravam seus muros atingindo também aqueles que, fora deles, eram
excluídos e marginalizados. Uma educação do tempo, dos usos do espaço, dos sentidos (do paladar,
do olfato, do olhar) e da gestualidade, uma educação para viver na cidade, uma educação para viver
no campo. O goiano precisava de tudo isso para contribuir para o alcance da relevância e do
pertencimento. Não bastava somente instruir, como pontificou certa vez o interventor Pedro
Ludovico Teixeira. Era preciso mais; era necessário educar em um sentido mais amplo e mais
abrangente, atingindo não somente a razão, mas a igualmente a materialidade corporal e as
emoções.
O momento de Goiás era aquele, pensavam os que ansiavam pelo pertencimento e pela
relevância nacionais. Tudo confluía para tal: novos e modernos governantes, um governo central
interessado no sertão e preocupado com a unidade nacional e, finalmente, a invenção de uma cidade
na qual a existência de escolas, desde o começo, revelou-se como momento impar de afirmação e
como ponto de partida para o discurso do desaparecimento do sertão. No ‘coração do Brasil’, os
que projetaram e construíram a Cidade-Sertão pareciam atentos às funções e ao papel histórico que
tanto a escola quanto cidade assumiam na modernidade ocidental. Tributários da matriz conceitual
da ciência e da racionalidade modernas, como lembra Luciano Mendes de Faria Filho (2005: 33), o
escolar e o urbano constituem projetos de aplainamento da alteridade e da diversidade e, por
conseqüência, de homogeneização dos sujeitos. Cidade e escola são dimensões sociais nas quais
“projetar a educação e o urbano é arquitetar a modernidade e o progresso, é racionalizar as
condutas”.
As escolas da cidade-sertão se faziam, assim, discursos da anunciada modernidade que
abriria, para os goianos, as portas da nação. Enquanto discursos, sempre relacionados a outros
discursos, reagiam contra as representações de Goiás como lugar da ausência demonstrando a
113
importância da escola e ressaltando a potencialidade da sociedade goiana em impulsionar o
progresso e, com ele, a civilização. Inseridas, pois, nas redes discursivas que constituíam os
sentidos da modernidade e do pertencimento para a nova capital de Goiás, as escolas da cidade
ocuparam, além dos seus espaços materiais, um relevante espaço simbólico na cultura urbana da
nova cidade-capital goiana.
2.3.3 - Campinas, a cidade da tradição.
Um close revelou a cidade moderna que surgia no sertão goiano. Entretanto, é preciso
ampliar o enquadramento para captar outras cidades. Com esta intenção, passo a buscar uma visão
ampliada da cidade-capital ou, em linguagem cinematográfica, tento apanhar Goiânia na
perspectiva do ângulo médio, o que é possível valendo-se de plantas urbanísticas e também de fotos
aéreas. A média angular mostra o bairro de Campinas, distante seis quilômetros do Setor Central:
nas plantas urbanísticas, um confuso emaranhado de linhas (Imagem 04), enquanto nas fotos aéreas
é possível vê-lo com um pouco mais de clareza enfatizando, inclusive, seu crescimento em direção
ao centro urbano de Goiânia (Imagem 09).
Campinas foi o município escolhido para sediar a nova capital. Mas, os goianos optaram por
não destruí-la como ocorreu quando da construção de Belo Horizonte. A capital mineira, surgida no
alvorecer da República, encarnou dramaticamente os ideais da cidade moderna despindo-se de tudo
que pudesse lembrar o tradicional, como o velho arraial que existia no local onde foi edificada
(GREIVE, 2002; VAGO, 2002). Mas, os tempos eram outros e as marcas da tradição já não
assustavam com tanta intensidade o imaginário nacional. A pacata Campininha das Flores128
sobreviveu ao surgimento da cidade moderna nas antigas minas dos goyases. Mas sobreviveu
perdendo o status de município: no segundo projeto urbanístico – o de Armando Godói – Campinas
se tornaria cidade-satélite de Goiânia. Acabou, de fato, tornando-se bairro suburbano, em 1935129.
Razões de ordem prática, penso, influíram na decisão de não destruir Campinas. Apesar de
se constituir em uma pequena cidadezinha do interior de Goiás, a cidade já contava com alguns
elementos que contribuíram para salva-la. Uma rede de estradas facilitava os deslocamentos, existia
um pequeno comércio além de pensões e hospedagens que, embora precárias e quase coloniais,
ofereciam abrigo aos primeiros que chegavam para fazer a cidade-capital. Campinas oferecia,
então, uma base operatória para a construção da nova cidade. Além do mais, alguns dos grandes
fazendeiros do município e moradores do seu perímetro urbano, ao doarem parte de suas terras para
128
129
Antigo nome do município de Campinas que, ainda hoje, é usado pela população goianiense.
Decreto 237 em 05/03/1935 que criou a comarca e o município de Goiânia. Em MONTEIRO (1938), p. 55.
114
a construção da cidade, foram fundamentais para a concreticidade da proposta de construção de
Goiânia.
Imagem 09
Fotografia aérea do Bairro de Campinas, 1938.
A seta acima, à direita indica o crescimento do bairro em direção ao centro de Goiânia.
Fonte: Coletânea Goiânia, IBGE (1942).
Existia também ali uma escola que, se observados os discursos de então, adquire
importância singular na decisão de não destruir Campinas. A comissão de notáveis que escolheu o
local para sediar a nova capital fez referência, em seu relatório, a esta escola louvando sua
qualidade e excelência educativa e pedagógica. Depois, no período da luta antimudancista (19331937), o deputado Oscar Campos Junior mais de uma vez se reportou a mesma instituição para
defender a decisão de construir a nova cidade-capital. Uma escola católica para meninas e moças
que já atraía, do interior, um número razoável de estudantes em regime de internato. Segundo José
Mendonça Teles (2006: 107), “elas chegavam de todos os cantos do estado, filhas de fazendeiros,
comerciantes abastados”.
Falo do Colégio Santa Clara, escola católica que funcionava em Campinas desde 1922. Em
1926, inaugurou seu curso normal e se tornou uma das mais antigas e tradicionais instituições de
formação de professoras em Goiás. Dirigido por freiras alemãs, o Santa Clara preparava professoras
primárias, mas acima de tudo, se incumbia de formar as boas mães das famílias goianas, tarefa que
dividia com o Colégio Sant’Anna da Cidade de Goiás. O Colégio Santa Clara era mais um motivo
que levava as famílias do interior de Goiás a se fixar em Goiânia. Ele, então, fazia a cidade crescer.
Maria Leal Lúcio que nasceu em Corumbá, no interior goiano, foi aluna do Santa Clara na década
115
de 1930. Chegou a Goiânia em 1934, exatamente para se tornar juntamente com as irmãs, estudante
daquela escola. O pagamento era feito anualmente sob o regime de troca: ‘O Colégio forneceria
tudo o que precisasse e no fim do ano faziam-se os acertos, uma vez que papai fornecia várias
coisas de seu consumo: carne, lenha, etc.’. A escola deslumbrava as meninas goianas.
Ao entrar no Santa Clara, um cenário mágico abriu-se aos nossos olhos.
Acostumados com a singeleza e o primitivismo de nossa escolinha do interior, tudo
era surpresa e deslumbramento para nós. Desde o prédio até a beleza das flores
raras no jardim. Enormes salas de aula, vasto material didático, livros, cadernos,
objetos que jamais havíamos visto.
Foi em Campinas que a maioria das famílias goianas, oriundas do interior do estado, se
estabeleceu logo que as obras de construção da cidade foram iniciadas. A centenária Campininha
das Flores também era, afinal, parte da nova cidade-capital. Era a parte da tradição que o Setor
Central de Goiânia negava. As trocas comerciais se intensificaram em Campinas, onde se
desenvolveu o centro comercial da nova capital. Campinas era também o paraíso dos tipos de rua e
dos prostíbulos, proibidos no centro da cidade onde Pedro Ludovico não permitia sua existência.
Uma quadrinha, denominada GoiâniaXCampinas, publicada em 1940 no Jornal O Popular, revela
esta dimensão da vida na nova cidade-capital de Goiás130
Quem é louco por granfinas/E não quer morrer de insônia/Goze as noites em
Campinas/Passe os dias em Goiânia/Esta é a cidade do dia/Aquela é o bairro da
noite/ Na cidade – o herói porfia/ No bairro – talvez se amoite.
Campinas se modernizava. Nas plantas urbanísticas, este bairro é representado indicando
que foi atingido pelas reformas urbanísticas que adequavam o traçado de suas ruas, o desenho de
suas praças e a arquitetura sertaneja de suas casas e pensões às necessidades e exigências da
modernidade que o centro da capital exibia (Imagens 10 e 11). Sim, Campinas também sofreu os
impactos de uma reforma urbana, porém, preservou os resquícios de práticas e ideias tradicionais.
Confrontada com a modernidade do centro da cidade, a Campininha das Flores continuava antiga e
tradicional. Os nomes das suas ruas, por exemplo, são repletas da memória do ser brasileiro e do ser
goiano, ao contrário das ruas do Setor Central.
São nomes de ruas que falam do Brasil e de Goiás, o que, na visão de Guimarães (2002),
ocorre não porque são designadas por nomes de personagens, heróis, datas memoráveis, santos
católicos ou lugares do país e do estado, mas porque são enunciados que existem em outros textos,
ou melhor, em mapas de outras cidades brasileiras São, assim, nomes que designam ruas e avenidas
de cidades de todo o Brasil como as ruas que formavam o quarteirão da zbm (zona do baixo
130
Oliveira, Eliezer C. de. História Cultural de Goiânia. Goiânia/GO: Editora Alternativa, 2003, p. 16.
116
meretrício), como relembra José Mendonça Telles em Crônicas da Campininha (2006), formado
pelas avenidas Bahia e pelas ruas Catalão e Quintino Bocaiúva, prolongando-se até a Avenida
Amazonas131 e estendendo-se pelas avenidas Paraná e Mato Grosso. Há ainda as ruas Minas Gerais,
Sergipe, Rio Grande do Sul, Pará, São Paulo, Paraíba, Ceará, entre outras.
Imagem 10 e 11
Aspecto de uma esquina de Campinas, respectivamente, em 1937 e 1940
Fonte: Museu Pedro Ludovico Teixeira
De acordo com Guimarães (2002), há neste padrão de nomeação de ruas uma memória da
nacionalidade expressa na reprodução dos nomes dos estados brasileiros. Considerando o mapa
como uma dispersão de narrativas, os nomes de ruas referentes às unidades federativas brasileiras
relatam a configuração de distintas partes do país, portanto, relatam a pátria geográfica. Por sua
vez, as ruas Quintino Bocaiúva e a avenida Mal. Floriano Peixoto também contém uma memória da
nacionalidade ao narrar a república. A Avenida Vinte e Quatro de Outubro que liga Campinas ao
Setor Central de Goiânia pode também ser pensada nesta perspectiva contendo um recorte de
memória ligado à nação, mais precisamente, ao advento da chamada Revolução de Trinta. Mas
pode ser igualmente compreendida como uma narrativa da memória regional já que fala da
fundação da cidade-capital132.
Já as ruas com nomes de cidades goianas se mostram como uma memória recortada por
narrativas locais. Ruas Catalão, Itumbiara, Morrinhos, Jaraguá, Jataí, Bonfim, Anápolis, Santa
Luzia, etc. Não é qualquer cidade goiana que empresta seu nome às ruas de Campinas: são apenas
as mais importantes em termos populacionais, econômicos e históricos. Juntos, os nomes delas
narram os núcleos urbanos do estado, o que sinaliza para a história do povoamento da região.
131
Mais tarde, renomeada Avenida Marechal Floriano Peixoto e, finalmente, Avenida Anhangüera, conforme informa
José Mendonça Telles (2006).
132
É nesta data que se comemora o aniversário de Goiânia e não em 05 de julho, data oficial da inauguração da cidade.
Em 24 de outubro de 1933 ocorreu o lançamento da pedra fundamental de Goiânia, a celebração de uma missa e o
início dos trabalhos de roçagem do local de construção da nova capital, conforme relata Monteiro (1942) em Como
nasceu Goiânia. A data foi escolhida, por Pedro Ludovico, como uma forma de homenagear os revolucionários de
outubro, mês em que foi deflagrada a Revolução de Trinta. Em Como nasceu Goiânia (1938).
117
Apesar de permitirem realizar algumas leituras do real da cidade, representações gráficas e
fotográficas não revelam todas as faces da cidade real. Não dão conta, assim, de revelar certas
fragmentações que não são da ordem do espaço como a separação entre os mundos de Campinas e
do Setor Central de Goiânia. Mapas, plantas urbanísticas e fotos aéreas bem como os discursos dos
entusiastas de Goiânia não revelam que, de fato, Goiânia e Campinas se desenvolveram, por muito
tempo, como dois lugares diferentes, duas cidades133 quase estranhas uma a outra.
Os habitantes do centro de Goiânia construíram lugares fechados para suas práticas de
sociabilidade, discriminando aqueles que ali não residiam. No embate com os campineiros, em
confronto com a acanhada e poeirenta Campininha das Flores, ressaltava-se tudo aquilo que
Goiânia tinha: as residências e prédios modernos, ruas largas e arborizadas, o ar de modernidade. E
os de Campinas, muito embora reconhecessem e se entusiasmassem com a construção de uma nova
capital, pareciam se recusar a abrir mão do status de cidade que a aglomeração tivera um dia.
Fizeram dali outro mundo, muito diferente do mundo de Goiânia.
Enquanto a população que veio habitar o centro da cidade construiu para si própria uma
representação que a identificava com os novos tempos que Goiânia prometia, os campineiros –
incluídos aí os novos habitantes que chegavam embalados pelo entusiasmo com a nova cidade –
podem ser representados como guardiões da tradição goiana. A distância social e cultural entre o
que, oficialmente, eram dois bairros de uma mesma cidade, separados um do outro por apenas seis
quilômetros, instituiu também um abismo espacial que se revelou na dimensão da linguagem: os
habitantes da nova capital se referiam sempre à Campinas e à Goiânia como dois lugares com
identidades próprias e singulares revelando, principalmente, que viam Goiânia como outra cidade.
Apesar da proximidade espacial e da identidade política (eram um mesmo município), o
centro e o bairro estabeleceram relações de desigualdade muito semelhantes àquelas que os goianos
reconheciam no relacionamento entre o litoral e o sertão. Havia, na cidade, um lugar para os
campineiros, os caipiras, e outro lugar para os habitantes do centro de Goiânia, os modernos. José
Mendonça Telles, em Crônicas da Campininha (2006: 124) relembra: “[...] as meninas de Goiânia
não davam bola para campineiros. A gente era conhecido pelo cheiro (da poeira), pelo vestuário,
pelo jingado [...]”. As dinâmicas de exclusão a que os campineiros estavam expostos atingiam
também o mundo infantil, conforme narrado por este mesmo cronista (2006: 113) quando lembra a
infância em Campinas e comenta as alegrias e frustrações das crianças com a experiência de brincar
em uma piscina (Imagem 12).
133
Estas duas cidades aparecem, com clareza, na crônica memorialista como também na pesquisa acadêmica de muitos
autores. José Mendonça Telles, por exemplo, escreveu Crônicas de Goiânia (1998) e depois, Crônicas da Campininha
(2006) revelando muitas diferenças nas representações sobre e no cotidiano das duas aglomerações.
118
Todo moleque de Campinas sabia onde ficava a piscina do Peclat. [...] E a gente
chegava [...] passava debaixo do arame, ludibriava o porteiro e pulava na piscina.
Era um sonho, para quem nunca tinha visto coisa daquela, pois piscina [...] era
coisa rara em Goiânia. Havia a do Jóquei, com seu trampolim olímpico, mas isso
era coisa para menino de Goiânia. O moleque de Campinas passava longe, da
carroceria do caminhão observava a majestosa piscina [do Jóquei Clube]. Ficava
mesmo no sonho. Como adentrar a barreira da aristocracia? (Grifos meus).
Na verdade, duas formas de vida se estruturaram ali. A utilização de substantivos diversos
(menino de Goiânia, moleque de Campinas) para qualificar sujeitos na mesma condição infantil
sinaliza para estas duas cidades. O estranhamento entre estas diferentes maneiras de viver
configurou dinâmicas de competição que tanto se deram no campo das chamadas práticas
civilizadas como as práticas esportivas, mais notadamente, no futebol, e concorrência entre lugares
onde se praticava o lazer. Esta dimensão da competição entre campineiros e goianienses foi
largamente coberta pela imprensa da época, porém, em uma leitura que ressaltava as disputas entre
os dois grupos como trabalho destes grupos em prol do progresso de Goiânia134.
Imagem 12
Piscina do Automóvel/Jóquei Club de Goiânia
Fonte: Acervo Museu Pedro Ludovico Teixeira
No fim das contas, as atividades de lazer e cultura promovidas por moradores de Campinas
e do centro da cidade confluíam para a construção do espírito de modernidade que se queria
imprimir em Goiânia. O que a imprensa não noticiava, contudo, eram as dinâmicas de
agressividade e violência que se mostraram, principalmente, nas provocações entre adolescentes no
footing e em brigas de rua entre grupos de crianças de Campinas e do Setor Central e depois dos
134
A dinâmica relacional entre Campinas e o Setor Central de Goiânia guarda semelhanças com as dinâmicas
observadas, em escala microscópica, por Norbert Elias e John L. Scotson em Os estabelecidos e os outsiders (2000).
Como no estudo destes autores, entre a população dos dois bairros goianienses não havia diferenças significativas em
termos de classe social, devendo as relações de preconceito e discriminação entre ambos serem compreendidas a partir
de um quadro explicativo no qual a categoria classe social não é causadora, por si só, dessas dinâmicas. Uma
investigação aprofundada desta relação, que não é meu propósito neste trabalho, seria necessária para a confirmação ou
rejeição desta hipótese. A respeito ver ELIAS, N. & SCOTSON, J. L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das
relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro/RJ: Jorge Zahar, 2000.
119
anos 1950, do Bairro Popular (vizinho do Setor Central), as quais foram mencionadas por Miguel
Jorge, no romance Veias e Vinhos, de 1958. A tensão entre setores ou bairros em Goiânia persistiu
até, pelo menos, a década de 1960135. Assim, relações de estranhamento e competição marcaram a
cena urbana da nova capital de Goiás e provocaram uma cisão que, por décadas, marcou a face da
cidade.
2.3.4 - A Invasão do Botafogo, a cidade negada.
Tá vendo aquela escola, moço? Ajudei a construir. Minha filha
inocente diz pra mim, toda contente: Pai, vou me matricular.
Mas me informa o cidadão: Criança de pé no chão aqui não
pode estudar.
Zé Geraldo
As fotos aéreas de Goiânia abarcam todos os espaços da cidade, inclusive, os seus muitos
vazios. Todos os núcleos habitacionais lá estão revelados, inclusive, a cidade (quase) invisível
(Imagem 13). Elas permitem passar da média à grande angular e, assim, provocam o olhar,
desvendando na semi-escuridão aquilo que as elites goianas não desejavam exibir. A cidade
negada, indesejada, cidade dos miseráveis que crescia ‘do lado de lá’136 do córrego do Botafogo se
revela quando a perspectiva é ampliada. A modernização excludente e contraditória que se instalava
no sertão se revela, então, impossível de ocultar. A Invasão do Botafogo, como ficou conhecido
aquele núcleo populacional que se configurava em separado da moderna e progressista Goiânia, era
ocupada pelos trabalhadores da construção civil e suas famílias. Todo tipo de precariedade marcava
o cotidiano destas famílias. O sertão – com suas faltas e ausências - e a cidade que se dizia moderna
se revelam mais próximos do que nunca.
No período em foco, a urbanização e ocupação real da cidade foram coerentes com a
projeção dos construtores a não ser no núcleo habitacional que se consolidou ‘do lado de lá’ e que
não foi prevista e contemplada pelos projetos de urbanização. A modernidade da cidade-capital não
previra lugares para aqueles trabalhadores. No plano urbanístico original, Atílio Correia de Lima
projetou uma cidade zoneada, na qual constava a existência de uma zona ou setor destinado aos
135
Em depoimento concedido no mês de maio de 2006, em sua residência em Goiânia, a professora Regina Hermano de
Brito, de tradicional família de Campinas revelou-me que nos anos 1960 jovens campineiros que freqüentavam bares e
boates no centro de Goiânia sofriam, ainda, a discriminação dos que ali residiam. Nesta época, foram abertos diversos
estabelecimentos de lazer e diversão em prédios que, na gênese da ocupação da cidade, eram residências. Havia, nestes
lugares, diversos ambientes conforme a distribuição do mobiliário por diferentes cômodos. Este tipo de ambientação
possibilitava que quando um grupo oriundo de Campinas se encontrasse em um dos ambientes, o grupo do centro de
Goiânia se retirasse para outro lugar do mesmo bar ou boate estabelecendo lugares distintos e distantes para/entre os
dois grupos.
136
Expressão usada por Expedita Zupelli em depoimento publicado em Memória Cultural: ensaios da história de um
povo (1985), p. 80.
120
trabalhadores. O urbanista provavelmente pensou em funcionários públicos, comerciários,
trabalhadores das indústrias que, julgava, iriam se instalar em Goiânia. Mas, parece, Correia Lima
não considerou aqueles trabalhadores. O Setor dos Funcionários, de qualquer modo, somente foi
criado nos anos 1950 na contigüidade do Setor Central.
Imagem 13
Fonte: IBGE, 1942
Ampliação da primeira fotografia aérea de Goiânia. A mancha branca e alongada,
no limite espacial da imagem, a direita do desenho do plano urbanístico do Setor Central (conforme a seta)
corresponde à Invasão do Botafogo.
Portanto, sobre a Invasão do Botafogo, núcleo onde habitavam os operários que trabalharam
na construção de Goiânia, não há, no período em foco, nenhum projeto urbanístico. Esta parte da
cidade também não foi alvo de nenhum tipo de trabalho de representação gráfica, ou seja, não há
mapas que representem sua espacialidade. É a cidade indesejada que revela um dos dilemas cruciais
da modernidade, a de que “[...] os paradoxos da construção [de um futuro alternativo] subvertem
suas premissas utópicas” (HOLSTON, 1993: 03) e acabam por configurar uma modernização
excludente que expulsa de suas benesses a grande maioria dos indivíduos e grupos.
Em Goiânia, a modernização excludente e contraditória foi se tornando concreta à medida
que a cidade ia sendo erguida balizada pelo aparato político-ideológico daqueles que a tinham
idealizado e estimulada pelas dificuldades e impedimentos que um estado empobrecido e isolado
cultural e geograficamente, inevitavelmente, encontraria para edificar uma cidade-capital. A falta
de verbas e de material de construção, a escassez e mesmo a inexistência de mão-de-obra
apropriada, as pressões dos proprietários de terra que tentavam, durante todo o período da
construção, autorização oficial para a montagem de loteamentos e, por fim, invasões de terras
urbanas por parte da população migrante destacam-se como os principais problemas. Todas
problemáticas atreladas e dependentes umas das outras.
121
O maior problema, sem dúvida, estava na questão econômica e causou, entre outras
conseqüências, o endividamento do estado que buscou, por várias vezes, empréstimos para levar até
o fim a construção da cidade-capital. A falta de recursos acabou por retardar, inclusive, o término
das obras e consolidou a parceira do Estado com a iniciativa privada, a qual serviu de pano de
fundo para o estabelecimento das relações de exploração capitalistas. Somada ao problema do
financiamento, estava a inexistência de mão de obra especializada ou mesmo em número suficiente
para a construção da cidade que demandou, aproximadamente, quatro mil operários. Enorme
desafio, principalmente diante da pequenez das populações urbanas do estado: o censo de 1920
tinha apontado que apenas quatro cidades em Goiás tinham uma população em maior número que
este (CAMPOS, 1980).
Além da escassez de braços, este autor ainda ressalta que havia a inexistência de mão-deobra especializada na construção civil. “[...] Não havia mestre-de-obras, nem pedreiro, nem
pintores, nem carpinteiros; nem eletricistas e nem encanadores”. O deslocamento, para Goiás, de
um contingente de homens aptos ao trabalho de construção civil foi a solução encontrada e teve
como elemento fundamental uma política de imigração - sustentada, sobretudo pela propaganda que, levada a cabo, produziu abundância de mão de obra. Como conseqüência, ocorreu a formação
de um exército de reserva, o que acirrou relações de exploração dos trabalhadores da construção
civil na medida em que a cidade era edificada.
Esses trabalhadores, de acordo com Chaul (2001), enfrentaram dificuldades relacionadas ao
transporte e locomoção para Goiás e a falta e/ou atraso do pagamento de salários por parte do
governo estadual e das construtoras a ele ligadas. A situação operária era reflexa da situação de um
estado que, na periferia da periferia do capitalismo, fazia surgir uma cidade moderna à custa do
sacrifício, principalmente, dos operários e de suas famílias. “Vivendo uma vida de miséria, [...] o
operariado sobrevivia de empréstimos, vales e promessas” (CHAUL, 2001: 111), mas mantinha-se
na construção. Reproduzida por Chaul (2001: 111), o relato de Vitorino Freitas137, carpinteiro que
chegou a Goiânia em 1939 relata o cotidiano daqueles trabalhadores revelando a exploração pela
agiotagem e pela mais valia.
[O pagamento] não era feito mensalmente nem semanalmente. Que eu trabalhei
para o Estado, eu recebia mais ou menos de quatro em quatro meses – eu recebia
salário de um mês! Tanto que tinha aí um agiota de nome Raimundo Nunes, um
piauiense. Era o meu agiota. Todo mês, eu vendia o meu salário do mês para ele,
com desconto de 20 por cento. Dava procuração e vendia o salário pra ele e me
mantinha mais ou menos durante a semana fazendo servicinhos que a gente
chamava de biscate. Eu era biscateiro aos domingos e feriados. Trabalhava quase
dia e noite, as madrugadas também. (grifos meus)
137
Reproduzido por CAMPOS, I. F. Os operários na construção de Goiânia. Jornal Opção (Encarte), ano I, v. 19, nº
11, 24 out, 1980.
122
Também como forma de resolver a questão da falta de pagamento de salários foi criado o
sistema de autorização de pagamento (vales), através dos quais se tornava possível, ao trabalhador,
a compra de gêneros de primeira necessidade em armazéns e estabelecimentos comerciais. O
governo estadual, porém, também não realizava, no tempo combinado, o pagamento aos
comerciantes, os quais passaram a cobrar juros de 20, 30 e até 40 por cento dos trabalhadores.
Formava-se, assim, uma dinâmica de exploração: os já minguados salários não faziam frente às
necessidades dos trabalhadores que, endividados, ficavam presos às obras e à agiotagem.
Nesse cenário se concretizaram as relações entre capital e trabalho na nascente Goiânia:
desvalorização dos salários por meio da emissão de vales, mais-valia e formação de um contingente
operário de reserva para o Estado e para os proprietários de terras e de capital. Assim, enquanto as
práticas capitalistas misturavam-se ao domínio político amparado na propriedade da terra, a
mentalidade agrária ia absorvendo a ideologia de progresso conduzida e difundida pelas elites e por
uma emergente classe média de Goiás. A Invasão do Botafogo era a face mais cruel da cidade
construída como símbolo da superação da pobreza e da exclusão.
Para a população operária e suas famílias que viviam na Invasão não havia casas de tijolos,
mas ranchos de capim e taperas de palha (Imagem 14). Ou, no máximo, barracões de madeira que
serviram, inicialmente, como depósitos de material de construção e, depois, foram sendo ocupados
pelas famílias que chegavam - principalmente do interior dos estados do Maranhão, Bahia, Minas
Gerais e São Paulo e do interior do estado de Goiás -, atraídas pela promessa que a propaganda de
Goiânia veiculava. Não havia, para estas famílias, ruas abertas, água encanada ou rede de esgotos,
mas picadas abertas no cerrado, as águas não tratadas, embora ainda limpas, do Córrego Botafogo e
o esgoto a céu aberto. Caçar e pescar nas matas e rios era opção de muitos trabalhadores– às vezes
única – para melhorar ou mesmo garantir a alimentação dos seus.
Não existia também um mobiliário urbano sendo que das matas do cerrado se retirava
também madeira para construir toscos móveis. As camas, por exemplo, era de um tipo muito
comum no mundo rural, a cama-forquia, a qual simboliza aspectos da ruralidade em Goiânia.
Genilda D’Arc Bernardes (1989: 73-74), em Construtores de Goiânia: o cotidiano no mundo do
trabalho, a partir de relatos orais, reconstituiu o cotidiano daqueles moradores como
[...] um cenário pouco confortável dado pelas condições de higiene, camas feitas de
‘forquias’ e táboas, próximas uma das outras favorecendo a contaminação de
doenças, piolhos, pulgas, muriçocas e outros insetos, que os obrigavam a ficarem
ao redor de fogueiras até que o sono chegasse de vez. As condições sanitárias eram
as mais rudimentares possíveis. Não existia rede de esgoto, as águas escorriam por
entre barracões, através de reguinhos improvisados. Os sanitários consistiam em
‘casinhas’, com um simples buraco cavado no chão, facilitando a proliferação de
123
insetos. Os banhos, quase sempre eram realizados nas águas do Botafogo.
Alimentavam-se muito mal, geralmente sua comida era composta de arroz e
verduras da época e muito raramente de carne. Esta ficava para o fim de semana.
(Grifos da autora)
Imagem 14
Aspecto da Invasão do Botofogo, 1935.
Fonte: Sabino Jr., 1980
Note-se a inscrição na parte inferior esquerda da fotografia
Das fontes emergiu um indício da construção e aparelhamento de um prédio escolar para o
ensino primário na Invasão, porém nenhuma pista que sinalizasse para a criação e funcionamento
de uma escola pública na demarqué temporal com a qual trabalho. Encontrei informações sobre um
espaço construído para abrigar uma escola primária naquela parte da cidade-capital em Memória
Cultural: ensaios da história de um povo (1985: 138) no relato de Maria de Morais, filha do
fazendeiro138 que doou ao governo estadual goiano as terras onde se construiu o centro de Goiânia.
Porém, não identifiquei qualquer indício sobre a escola ou mesmo sobre o prédio a não ser os
contidos nas lembranças de Maria de Morais, o que oportuniza investigações que, seguindo os
indícios, aprofundem a busca de fontes que possam reconstituir o acontecimento aproximando-nos
da verdade histórica.
Aquela população era vista e tratada como caso de polícia. Os relatos da época revelam que,
continuamente, o Interventor Pedro Ludovico Teixeira ordenava, à polícia militar, a destruição e até
mesmo a queima de ranchos, casebres, taperas e barracos da invasão. De nada adiantava a ação
policial a não ser pela intensificação do sofrimento e da precariedade da vida dos trabalhadores: nas
138
Andrelino Rodrigues de Morais e sua mulher, Bárbara de Souza Morais, doaram a maior parte das terras para a
construção do Setor Central de Goiânia. Foram ao todo 51 alqueires goianos: 50 para a construção de ruas, avenidas e
prédios públicos e residenciais e 01 alqueire para a construção da catedral católica da cidade-capital. Em Como Nasceu
Goiânia? (1938)
124
noites, a atividade era intensa porque se reconstruía aquilo que fora destruído durante o dia pela
polícia estadual (CAMPOS, 1980; CHAUL, 2001). E a Invasão crescia a cada dia. Ou a cada noite
já que, na escuridão noturna, ocorria a maioria das chegadas de novos moradores. Chegar durante a
noite era uma das formas de burlar a vigilância dos poderes instituídos.
Por volta do final da década de 1930, quando a Invasão se mostrou vigorosa, houve um
afrouxamento neste tratamento e algumas benfeitorias foram realizadas: abertura de ruas, instalação
de postes de eletricidade, abertura de escolas primárias isoladas, entre eles. No Cadastro Predial de
Goiânia realizado pelo Serviço Nacional de Recenseamento em julho de 1940, a invasão da área do
Córrego do Botafogo foi considerada apêndice provisório de Goiânia e Campinas, respectivamente
às 1ª e 2ª zonas distritais da Capital. Caracterizada como Concentração Operária da Capital, as
moradias foram contabilizadas: 115 edificações de alvenaria e 207 barracões e casebres139. A
Invasão do Botafogo, apesar da ressalva que apontava para a sua provisoriedade, começava a ser
reconhecida como parte da cidade, processo que somente se tornou oficial nos anos 1950 quando da
criação dos setores Botafogo e Vila Nova.
Vistos assim, como numa sucessão de imagens que se mostram cada vez mais distantes e,
por isso, menos abertas à percepção do detalhe, mapas, plantas urbanísticas e fotos áreas de Goiânia
mostram que a cidade se fazia entre os paradoxos e contradições de seu tempo. Promessa do novo,
superação do próprio passado, modernidade excludente, relações de exploração capital-trabalho,
desaparecimento do sertão: marcas dos desejos ansiosos e dos projetos de poder que moldavam a
jovem cidade-capital e que animavam igualmente a intelectualidade e Estado nacionais. Goiânia,
vista sob este prisma, reproduz o padrão de modernidade e de nacionalismo que marcou o processo
de urbanização e modernização do país nas primeiras décadas do século XX, porém, o desejo do
pertencimento e da ‘saliência’ tingia com tintas próprias a experiência goiana.
Os mapas, plantas urbanísticas e fotos aéreas bem como as plantas baixas das escolas
goianienses que aqui analisei se revelam como discursos fundamentais para a sustentação da ideia
do moderno no sertão. A materialidade urbana de Goiânia pode ser pensada, então, como ponto de
partida no processo da constituição dos sentidos da cidade. Ruas, avenidas, praças, prédios
públicos, etc. mostravam que a cidade era tangível e não somente promessa descumprida. Da
cidade de pedras se forjaram, então, as primeiras representações da modernidade e do
desaparecimento do sertão nas antigas minas dos goyases.
Contudo, a constituição dos sentidos de Goiânia não é devedora tão somente da arquitetura e
do urbanismo; nem somente fruto da ação estatal como também não é obra do acaso. A cidade não
é somente pedra e o poder que a tornou possível não se concentrou apenas no Estado. Outras
139
Conforme relata o prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges, em palestra proferida, na Sociedade Amigos de
Alberto Torres, no Rio de Janeiro, em 1941 e reproduzida no livro Goiânia (1942), p.65/66.
125
dimensões a constituíram, a significaram. Outros sujeitos participaram da construção de seus
sentidos, defendendo a hegemonia de uns sobre outros, reafirmando posições, subvertendo, às vezes
resistindo. Assim, a cidade não é somente sua arquitetura, ainda que esta sinalize para certos
sentidos, acione certas representações, projete certas imagens. Por isso, o estudo da cidade a partir
do urbanismo e da arquitetura, embora válido e necessário, não contempla a dimensão do
inconsciente, do desconhecido, principalmente em função das noções de regulação e controle que
estão na base do pensamento e ação do urbanista e do arquiteto. A dimensão simbólica da cidade
não é contemplada, os desejos e medos daqueles que a projetam, constroem e ocupam não são
considerados, a memória e o inconsciente não encontram lugar.
No caso de Goiânia, chama atenção a dimensão discursiva na construção da cidade e, em
especial, dois aspectos: a intensidade das reflexões de intelectuais goianos e não goianos que
escreviam em torno dos significados de Goiânia para Goiás e para o Brasil e, segundo, a grande
variedade de metáforas que foram mobilizadas por estes intelectuais para qualificar a nova capital.
São metáforas que se apresentam prenhes das imagens e representações que acionaram sentidos
para/sobre o urbano goianiense. As ideologias da modernidade e do nacionalismo que grassaram no
país nas décadas iniciais do século XX, mesclam-se nesses discursos e metáforas demonstrando
que, na periferia da vida nacional, os goianos tornavam-se, cada vez mais, conscientes de seu lugar
secundário, ou melhor, de sua quase inexistência no espectro da nação. Como, na periferia, leram a
experiência do centro? Como operavam as ideologias do período? Quais apropriações realizaram
das premissas intelectuais que emanavam do centro da nação?
126
CAPITULO III
A ‘INTECTUALIDADE MOÇA DE GOIÁS:
INVENTANDO A MODERNIDADE, RE INVENTANDO A NAÇÃO
3.1. - A (re) descoberta de Goiás: intelectuais goianos na Primeira República
O grupo de intelectuais que formulou discursos sobre Goiânia não se constituiu na primeira
geração de intelectuais goianos que trabalhou pela transformação da região e por sua inserção na
modernidade e na nação140. Não existem muitos estudos, na longa duração que se debrucem sobre a
história dos intelectuais goianos no recorte geracional bem como de seu papel no desenvolvimento
histórico do estado e mesmo do Brasil. Mas, o estudo realizado por Maria de Araújo Nepomuceno
(2003), O papel político-educativo de A informação Goyana na construção da nacionalidade141,
permite-me considerar que a autodenominada ‘geração de moços de Goiás’ que formulou nos anos
1930/1940, para Goiânia, os sentidos de modernidade e nacionalismo, pode ser pensada como
herdeira intelectual de uma primeira geração de intelectuais goianos. Esta geração, que militou
140
Maria Araújo Nepomuceno (2003) menciona que, entre 1830 e 1834, circulou em Meia Ponte (atual Pirenópolis) o
jornal Matutina Meiapontense, periódico que tinha por finalidade divulgar, no sertão goiano, as novidades e as
realizações do litoral brasileiro se constituindo, segundo esta autora, em uma primeira tentativa de integrar litoral e
sertão. Seu dirigente era Joaquim Alves de Oliveira, Comandante Geral do distrito de Meia Ponte, personagem que foi
objeto de elogios dos viajantes franceses Francis Castelnau e August Saint-Hilaire quando estiveram em Goiás nos
novecentos. Sua ação foi, entretanto, solitária: não havia, em Goiás, núcleos intelectuais que pudessem, com ele, formar
uma rede significativa de sociabilidade em torno da defesa da hinterlândia goiana. Não se pode, portanto, caracterizar
esta ação no campo cultural como uma ação geracional.
141
Trata-se da tese de doutorado da autora, publicada em 2003 pela Editora da UFG/Goiânia. No trabalho,
Nepomuceno focaliza o papel político-educativo da revista na construção da nação e de forma mais específica, na
construção da pátria geográfica apresentando um expressivo capítulo dedicado aos seus fundadores e principais
colaboradores. Este estudo me fornece as bases para a discussão sobre este grupo de homens das letras que compõem o
que considero a primeira geração de intelectuais que lutou pela integração de Goiás. Aproprio-me também de alguns
trechos de A Informação Goiana reproduzidos pela autora bem como opero com algumas de suas conclusões.
127
durante toda a primeira república para a inserção de Goiás aos quadros da nação, ainda contava com
intelectuais atuantes quando da construção da nova capital goiana.
Afora suas inúmeras diferenças, estas duas gerações de intelectuais tinham muitas
identidades. Principalmente a que Nepomuceno (2003) chamou de uma forma de nacionalismo, os
levou a uma “defesa apaixonada” do estado de Goiás e de suas potencialidades e um “desejo
ardente” de inserir Goiás na nação. Pode-se dizer que se fizeram goianos antes de se fazerem
brasileiros, o que segundo José Murilo de Carvalho (2008) é uma característica do nacionalismo
brasileiro: o amor à região precede o amor à nação. Promover o progresso de seu torrão natal parece
ter sido, sempre, a grande motivação para a militância de ambos os grupos no campo do jornalismo,
da literatura e da política. Uma militância que os levou a desenvolver um intenso trabalho de
pesquisa e produção de conhecimento sobre Goiás e a uma agressiva ação no campo da propaganda
em prol da divulgação do potencial econômico e da história da hinterlândia goiana.
Eles pensaram Goiás, seu lugar e papel entre as unidades federativas, seu destino no destino
da nação e até mesmo do mundo. Conhecer Goiás e dar a conhecê-lo foi sua postura histórica como
representantes das elites intelectuais e políticas regionais diante da cisão que separava a nação em
sertão e litoral, do abandono do estado pelo poder público federal, da ignorância das elites
intelectuais brasileiras. Seu projeto: integrar os dois brasis, unindo-os em um nó cujo núcleo era o
estado de Goiás, o centro geográfico da nação. Desejavam reinventar a nação recolocando seu
centro dinâmico no coração da pátria geográfica. Inversão espacial. Inversão sociológica. Inversão
política.
É possível ainda inferir que se desenvolveu nos goianos, especialmente nas elites, a
necessidade imperiosa de lutar pela afirmação do estado no contexto nacional a partir da defesa de
sua importância econômica, de sua cultura e de suas tradições e, particularmente, de sua posição
geográfica. A luta por esta valorização concretizou-se muitas vezes na luta por alcançar posições de
destaque na política e na cultura nacionais sendo que o desenvolvimento da escolarização em Goiás
encontra-se fortemente vinculado a esta necessidade. O trabalho de pesquisadores goianos no
campo de história da educação (CANEZIN & LOUREIRO, 1994; FRANÇA, 1998) permite
compreender, nas entrelinhas, que esta foi uma das principais funções da escolarização no estado. É
um imaginário pleno de negatividade que a elite letrada de Goiás procurava combater.
Seu trabalho de pesquisa e propaganda sobre Goiás pode ser considerado como um (re)
descobrimento de terra a qual dedicavam um profundo sentimento de amor, em um momento em
que a esquecida região dos goyases era, para o resto da nação, algo como um deserto ou
simplesmente o nada. Ao construírem um saber sobre Goiás, inventaram uma tradição na qual se
evidencia a defesa da região goiana como o grande, generoso e fértil coração do país. À pergunta
‘para onde vai o Brasil?’, responderam: para Goiás, o centro, ‘o coração do Brasil’. Principalmente,
128
na virada do século XX e em suas primeiras décadas, era quase inevitável, para eles, considerar que
“a vida natural, autêntica, essencial do sertão, permitia reforçar a opção prática e realista da
nacionalidade que encontra a si mesma no seu centro. [...] Buscar o centro: o sentido do caráter
nacional é o oeste” (SILVA, 1997: 37).
Cabe aqui uma digressão, mesmo limitada e parcial, sobre os personagens que primeiro
realizaram um esforço de inserção de Goiás na nação. Sobretudo depois da instauração da
República, após terminarem os estudos no Rio de Janeiro, muitos jovens goianos, ao voltarem a
terra, assumiam funções políticas e sociais importantes e destacadas no contexto da política e da
cultura goianas ou, sediando-se na Capital da República, continuavam ligados a Goiás através de
um trabalho de propaganda e divulgação do estado voltado, essencialmente, para sua ocupação
produtiva. Penso que foi esta geração que formulou, de maneira persistente e contínua, os primeiros
discursos sobre a importância de Goiás para a grandeza do Brasil. Não estavam sozinhos nisso: por
quase todo o país, as diferentes unidades federativas iniciavam ou consolidavam um processo de
reflexão sobre si próprias, buscando inventar tradições, identidades, vocações, potenciais. E faziamno, concomitantemente, a propaganda de suas possibilidades naturais, de seus tipos humanos, de
sua história, de sua geografia.
Naquele momento, um grupo de intelectuais goianos, que estudava e/ou trabalhava na
Capital Federal142, começou a dar mostras de uma crescente insatisfação com o pouco prestígio do
estado de Goiás no contexto das discussões que ocorriam no Rio de Janeiro. Goiás era, então, uma
grande, desconhecida e, porque não dizer, abandonada região no interior brasileiro. O governo
central o ignorava em, praticamente, todos os sentidos143 e a imprensa da Capital Federal pouco
falava do estado e quando o fazia, geralmente, cometia equívocos e erros grosseiros como
confundi-lo com o estado de Mato Grosso.
Itami F. Campos afirma, em Coronelismo em Goiás (2003), que o modelo de Estado
142
Em meados do século XX, a inexpressiva população de Goiás vivia dispersa em um vasto território e era composta,
em sua maioria, de camponeses analfabetos e pobres. Em uma população que vivia nas zonas rurais, em situação de
quase isolamento em relação ao restante do país e do mundo, a presença de pessoas letradas era rara sendo que, de
acordo com os estudiosos da história goiana, a escolarização ainda não constituía aspiração dos que viviam na região.
Por sua vez, as famílias proprietárias de terra costumavam oferecer, a seus filhos e filhas, as primeiras letras através de
preceptores, escolas privadas e também do alfabetismo praticado pela mãe. Por volta da década de 1870, estas famílias
começaram a enviar, pelo menos, um de seus filhos para estudar em centros urbanos mais desenvolvidos. Esta prática
também se estendeu às famílias de classe média que começaram a surgir na região no início dos anos 1920. Assim, boa
parte dos jovens goianos das famílias dotadas de capital econômico ou político realizava estudos superiores no Rio de
Janeiro, principalmente, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e na Escola Militar da Praia Vermelha
(NEPOMUCENO, 2003). A partir da virada do século, as mulheres eram enviadas, quando muito, a um colégio interno
de formação de professoras, preferencialmente, em cidades do interior mineiro ou paulista (CANEZIN & LOUREIRO,
1994).
143
Campos (2003) comenta que, além de destinar somas irrisórias ao estado de Goiás, os governantes federais da
Primeira República deixaram de intervir na política estadual, embora tivessem ocorrido solicitações em, pelo menos,
três crises políticas: em 1905, 1909 e 1926, momentos em que o artigo 6o da Constituição Federal (1891) previa a
intervenção federal.
129
Nacional consagrado com a República conferiu, aos estados, uma autonomia de dupla face: uma
autonomia positiva entendida como autonomia outorgada ou consentida e uma autonomia negativa,
que existe por abandono ou indiferença do governo federal. No caso de Goiás, este autor sugere
examinar “[...] até que ponto essa autonomia não estaria ligada à intencionalidade do poder central
em dar a ilusão de que estados como o de Goiás eram autônomos, poupando a ele, poder central, o
gasto de recursos de ordens diversas que poderiam enfraquecer o eixo do poder político”
144
. Para
Campos (2003: 27), então,
No caso da autonomia de Goiás, ela decorre da sua condição periférica. E essa
autonomia é obtida pela possibilidade de as lideranças políticas estaduais
estruturarem e dirigirem a vida política e administrativa interna sem intervenção
expressa do poder central [...]. A não intervenção é, pois, decorrente da pouca
importância de Goiás no cenário nacional [...] a autonomia positiva não poderia
ser pretendida em Goiás. (Grifos meus)
A situação marginal de Goiás no espectro da República incomodava sobremaneira as elites
goianas, provocando muitos ressentimentos nos intelectuais uma vez que estes consideravam que o
estado era uma região plena de recursos sendo imensas as possibilidades econômicas de sua
exploração. Aliada à suas riquezas naturais, a localização geográfica tornava Goiás, na visão desses
intelectuais, uma região potencialmente importante para a afirmação da nacionalidade. Mas a
ignorância das elites intelectuais, políticas e econômicas nacionais a respeito da região impedia que
tais possibilidades fossem exploradas. Este desconhecimento, em última instância, impedia que
Goiás contribuísse para o engrandecimento da nação brasileira permanecendo decadente e atrasado,
abandonado e ‘quasi inexistente’.
A intelectualidade goiana reconhecia a inércia da região, sua inoperância, o pouco
aproveitamento econômico de suas riquezas minerais e da fertilidade de suas terras. Mas, conhecia
igualmente as dificuldades provocadas pelo isolamento geográfico e pelo desconhecimento de
Goiás nos círculos centrais da nação. A região era, por eles, apresentada como um celeiro de
riquezas e o goiano, um povo laborioso e trabalhador, porém, inerte em função do abandono em
que fora deixado pelos poderes federais e pelas ‘oligarquias broncas’ que governaram a região
durante toda a Primeira República. Uma frase do período imperial continuava, em plena república,
oportuna e adequada para descrever a situação goiana. ‘Pobre e rica província de Goiás’, escrevera
o Presidente da província José Vieira Couto de Magalhães145 (1863: 12 APUD SILVA, 1975: 26).
Mudaram os tempos, o Brasil se tornara uma nação republicana, mas a retórica ainda retratava
Goiás. A geografia agravava a situação da região tornando-a isolada do resto do país e, porque não
144
145
Ático Vilas Boas da Mota no prefácio da 2ª edição de Coronelismo em Goiás, de Itami F. Campos (2003), p. 13.
No Relatório apresentado à Assembléia Legislativa Provincial. Goiás, Tipografia Provincial, 1863, p.12.
130
(?), do mundo. Povo e território estavam abandonados e isolados de tudo e de todos, era a
conclusão final.
A imagem de um sertão abandonado pelo Brasil foi apropriada pela intelectualidade goiana
que sobre ela realizou deslocamentos que delinearam outra imagem também recorrente em seus
discursos: a do desconhecimento de Goiás nos círculos nacionais e a ignorância que sobre ele
demonstravam governo, impressa e povo do litoral. Goiás parecia inexistir. Era preciso, então,
torná-lo conhecido fazendo a propaganda de suas tradições, história, folclore, mas acima de tudo,
de suas potencialidades econômicas. O trabalho jornalístico mostrava-se pertinente para o alcance
desse objetivo. Escrevendo para jornais e revistas publicadas no Rio de Janeiro e em outras partes
do país, os intelectuais goianos esperavam ampliar o conhecimento sobre Goiás e, assim, estimular
processos de imigração de pessoas e capital para ‘o grande estado do centro do País’
(NEPOMUCENO, 2003).
O desejo desses intelectuais fez surgir, por iniciativa de Henrique Silva, a revista Brazil
Central que se definiu em seu editorial de lançamento como ‘revista mensal consagrada aos
interesses de Goyaz’. Teve publicado um único número em 1891. O projeto desta revista foi
idealizado no interior da Escola Militar da Praia Vermelha quando Henrique Silva e outros
intelectuais goianos, como Olegário Pinto e Eduardo Sócrates também a freqüentavam
(NEPOMUCENO, 2003). O editorial146 do único número publicado da revista Brazil Central é
repleto de adjetivações que, ora dirigidas à região ora dirigidas à nação, revelam o sentimento de
mágoa dos goianos, mas sinalizam igualmente para sua adesão às imagens e representações
negativas sobre Goiás. Desnecessidade, indiferença, estranheza, divórcio, interceptação,
despovoamento, isolamento, abandono, ausência e solidão são os termos presentes no discurso.
No regimen decahido, Goyaz não entrou de facto na communhão nacional com o
prestigio de uma província, nem para elle foram das mais respeitosas as
considerações políticas, nem das mais importantes as maquias dos orçamentos, tão
à mão larga dispensada às antigas províncias pelos governos autoritários do
extincto império. Depois de quase convertido quasi em uma desnecessidade
nacional foi Goyaz [...] communmente designado pelos poderes centrais para
palco de estréa parlamentar de proteccionados políticos [...] que [...]
representavam nas câmaras o nosso ubérrimo Estado, indifferentes ao seu
desenvolvimento, já por serem, na maioria, estranhos ao seu valor. Mesmo aqui,
na própria Capital, imprensa e povo julgavam Goyaz, pela opinião lamentável dos
governos [...] uma verdadeira possessão do território, demasiadamente custosa
aos cofres públicos e cuja existência era tão só atestada nos mappas eleitoraes dos
ministros... Divorciada dos interesses vitaes da nação, interceptada [...] por uma
vasta facha de terra despovoada que a insulava da vida activa de suas co-irmãs;
sem portos marítimos ou fluviaes que lhe facultassem a concorrencia dos seus
146
Este editorial que se constitui em um artigo-programa da Revista Brazil Central foi depois reproduzido quase
integralmente na A Revista A Informação Goyana em todos os editoriais publicados durante sua existência (19171935).
131
inestimáves productos nos nossos grandes mercados; sem meios fáceis de
transporte, sem concessões, abandonada e só [...] como [...] prosperar??! (Grifos
meus).
A situação de descaso, abandono e desconhecimento não havia sofrido alterações
significativas em 1917 quando o projeto desta revista foi retomado por Henrique Silva em parceria
com Antonio Americano do Brasil, seu sobrinho. Eles criaram A Informação Goyana (1917-1935),
‘revista mensal, illustrada e informativa das possibilidades econômicas do Brasil Central’, assim
definida no frontispício de seu primeiro número. Olegário Pinto, Eduardo Sócrates, José Carlos de
Carvalho, os irmãos Hugo e Victor de Carvalho Ramos, Mário Vaz, Jorge Maia, Francisco Ayres
da Silva e Colemar Natal e Silva foram seus colaboradores mais constantes sendo a revista o
veículo, por excelência, do pensamento deste grupo. Também a poetisa Cora Coralina publicou na
revista, porém, assinando ainda como Ana Lins dos Guimarães Bretas.
A Informação Goyana apresentou-se como órgão temático especializado no Brasil Central,
particularmente de Goiás, com finalidades política e publicitária; logo, educativa. Sua existência,
explicitada em artigo-programa publicado em seu primeiro número e reproduzido em todos os seus
números até o seu desaparecimento, em 1935, sustentou-se na
[...] necessidade que havia de um órgão informativo [...] das [...] riquezas nativas
do hinter-land brasileiro. Essa vastíssima região quasi desconhecida [...] e que no
entanto possui [...] fortes elementos para se incorporar às correntes progressivas
das [...] prósperas zonas do paiz. [...]. Goyáz occupa o centro geográfico do Brasil,
e não carece de razões geográphicas para representar [...] um importante papel
social e econômico na grandeza futura de nossa nacionalidade. [...] O que é mister
é tornar conhecido de nós mesmos e dos estrangeiros o seu ubérrimo clima, as
suas riquezas extraordinárias, as suas fontes de vida, as suas possibilidades
econômicas – como também refutar com factos e algarismos exactos as
apreciações injustas que tantas vezes em livros e na imprensa se tem propagado
ácerca da terra goyana. [...] 'A informação Goyana' traz, portanto, um fim e um
programma que bem a definem na imprensa brasileira. (Grifos meus)
O lema da revista ‘foi e será - ser patriota sem ser político’147 -, revela um desejo de
neutralidade que, de acordo com Nepomuceno (2003), significava, de fato, apenas o afastamento de
um tipo de imprensa, muito comum na impressa do interior do país à época, cujo principal objeto
era a luta político-partidária e que levava, muito facilmente jornais e revistas a resvalarem para as
injúrias e ofensas pessoais endereçadas a um ou outro lado da disputa. Apesar de anunciada
neutralidade, a Informação Goyana convivia pacificamente com as oligarquias dirigentes sendo
parcialmente subsidiada pelos cofres estaduais e tendo, inclusive, um de seus fundadores,
Americano do Brasil, exercido o cargo de Diretor do Interior, órgão responsável pela instrução
147
Fragmento de texto de Victor de Carvalho Ramos publicado em A Informação Goyana, ago/1918, p. 153.
132
pública estadual, no período 1918-1922.
Para Nepomuceno (2003: 48), as influencias do positivismo e as discussões científicas
vivenciadas na Escola Militar da Praia Vermelha, principalmente por seu mentor intelectual,
Henrique Silva, contribuíram para que estes intelectuais vissem a política como saber científico.
Consideravam, a partir daí, “[...] ser mais proveitoso para o Brasil e para Goiás, cuidar
‘cientificamente’ da administração das coisas públicas, sendo, portanto, sinal de atraso imiscuir-se
em política partidária”. Eximindo-se de posicionar-se explicitamente das lutas partidárias e dos
conflitos entre clãs oligárquicos que tumultuaram a vida política de Goiás na Primeira República,
os intelectuais de A Informação Goyana tentavam outra estratégia para integrar a região à nação,
forjando uma herança intelectual que no momento do surgimento de Goiânia teve um momento
impar de afirmação.
Seu grande e principal objetivo era construir uma teoria sobre Goiás em bases objetivas,
positivas e científicas e, depois, torná-la conhecida tanto pelos goianos quanto por todos os outros
brasileiros. Consideravam que era este o seu papel político e, principalmente educativo: construir
um saber sobre Goiás com base na ciência moderna e ensiná-lo a quem poderia dele usufruir. Em
contrapartida, Goiás se tornaria uma região progressista e participante da nação.
Considero possível afirmar que aqueles intelectuais queriam, de fato, educar as elites
políticas, econômicas e intelectuais regionais e nacionais e convencê-las a participar de outro tipo
de relação entre centro e periferia ou entre nação e região. Era, afinal, a um seleto grupo de leitores
composto por políticos, homens de letras e de negócios que a revista se dirigia148. O bom
acabamento gráfico do periódico, a presença freqüente de fotografias e desenhos, a beleza dos
caracteres e o uso de uma linguagem especializada, erudita e científica sugerem que o restrito
público a quem A Informação Goyana tentava educar era formado por pessoas com certo grau de
erudição e possuidoras de conhecimentos científicos (CHARTIER, 2003).
Mas o que queriam ensinar? E ao ensinar, que sentidos estariam constituindo? A intenção
era ensinar o caminho para Goiás, terra de prodigiosas riquezas minerais, de solo fértil e água
abundante, possuidora de uma história cheia de coragem e valentia. Os sentidos daí derivados
sinalizam para Goiás como o el dorado brasileiro, a terra dourada149, com todas as promessas
contidas nesta imagem. Para tanto, era preciso (re) descobrir Goiás: tanto conhecê-lo quanto torná148
Como tinha poucos assinantes, a revista era distribuída, gratuitamente ou por permuta, todos os meses à entidades
científicas e culturais (grêmios, museus, institutos científicos, etc.), à órgãos públicos (ministérios, diretorias, câmaras
municipais, embaixadas, etc.), à organizações de produtores rurais e industriais e à órgãos da imprensa, de modo geral
(NEPOMUCENO, 2003).
149
É interessante assinalar que a imagem de terra dourada persiste nos imaginários, em Goiás, porém, com um sentido
diverso do relacionado às riquezas minerais. A imagem veiculada de Goiás como terra dourada foi apropriada por um
forte movimento místico que, desde os anos 1970, vem se desenvolvendo em todo o estado, em Brasília, Mato Grosso e
Tocantins. Terra dourada, neste contexto, remete a ideia de terra da luz, iluminada, plena de iluminação, ensolarada e,
por extensão, quente, acolhedora, protetora.
133
lo conhecido. Muitas perguntas foram por eles mesmos colocadas: o que era Goiás, qual sua
identidade, seu papel na construção da nação? E ainda, como retira-lo do isolamento, da
decadência, do atraso? Como torná-lo visível, como ocupar suas terras, civilizar seu povo,
transformá-lo?
Seus discursos contêm uma retórica da exageração muito comum quando se referiam a
Goiás. São discursos que demonstram que as riquezas minerais tornavam a região potencialmente
promissora para a exploração econômica e para a afirmação da nacionalidade.
A riqueza mineralógica da província de Goyaz não é assumpto para ser tratado
perfunctoriamente. Esta província contém em seu seio um tratado completo de
mineralogia, e tão pródiga é a sua riqueza que bem se póde dizer uma vasta mina
de ouro, de pedras e metaes preciosos [...] 150
Não resta dúvida [...] que Goyaz possue (sic) todas a fontes de riquezas que a terra
produz no mundo inteiro151
Como chegaram a tais discursos? Quais eram as fontes onde buscavam elementos para a
construção de uma teoria sobre Goiás? A consciência de si como homens da ciência levou esses
intelectuais às suas principais fontes de conhecimento. Aquelas que nos cânones científicos que os
guiavam, possuíam credibilidade: os relatos dos viajantes estrangeiros e brasileiros que visitaram a
região no século XIX e os relatórios e narrativas dos homens que governaram a província goiana.
Finalmente, como coroamento do saber que construíam sobre Goiás, eles iam a campo para a
realização de estudos técnicos in loco. A geografia goiana, o clima, os mananciais de água, a
qualidade da terra, entre outros, foram objetos de seus estudos, porém, acima de todos os interesses,
procuravam localizar e descrever jazidas dos mais variados minérios e discutir o problema dos
meios e vias de transporte, considerados fundamentais para que Goiás progredisse.
Este esforço resultou em uma produção intensiva152 no campo da economia (382 artigos)
com destaque para as potencialidades naturais de Goiás (267 artigos), problemas como a precária
rede de transportes (242 artigos), a definição de limites territoriais (94 artigos) e junto a ela, as
questões da geografia goiana (114 artigos). Somados, os artigos que tratam destes temas atingem
um total de 1.099 textos. De política, se falou em apenas 93. A história de Goiás foi abordada em
137 artigos e literatura em apenas 43. Se comparada a produção em outros campos do saber, podese qualificar A Informação Goyana como revista de economia ou de geografia (NEPOMUCENO,
2003). Também não se falou muito em educação: somente 38 artigos tratam do tema, revelando
que, para aquela geração de intelectuais goianos, a questão educacional não se constituiu em
150
151
152
Artigo não assinado em A Informação Goyana, ago, 1917, p. 07-08.
Henrique Silva em A Informação Goyana, ago, 1917, p. 01.
O levantamento das temáticas tratadas pela revista foi retirado de Nepomuceno (2003), p. 38.
134
assunto que devesse receber prioridade.
Seu foco era outro: eles pretenderam, de fato, construir um programa de desenvolvimento
econômico para Goiás, tarefa que consideravam essencial para a construção da nação. Penso que foi
esta geração de intelectuais que, ao dialogar com os relatos estrangeiros do século XIX, iniciou o
processo de construção de uma representação histórica que, à época da construção de Goiânia, se
expandiu pela região e pela nação. Refiro-me à metáfora do coração, imagem que foi fortemente
atada à identidade goiana erigindo-se em uma tradição regional. Na ‘tradição inventada’
(HOBSBAWM & TERENCE, 1984) em que Goiás simboliza o ‘coração do Brasil’, os
deslocamentos promovidos pelos intelectuais goianos no debate sobre o Brasil e sobre o sertão
transformaram em positividade aquilo que sempre foi efetivamente uma desvantagem: a posição
geográfica que isolava a região foi tida como símbolo da legitimidade de Goiás.
A noção de Goiás como ponto geográfico central do Brasil emanou dos relatos de viagem de
Auguste Saint-Hilaire que, conforme afirma Costa (2006: 42), lançou sobre o interior do Brasil um
olhar diferente dos de outros viajantes europeus. O enfoque do naturalista francês oferecia
[...] um contraponto sutil com aqueles de outros viajantes que [...] procuravam a
possibilidade de comunicação entre a bacia Amazônica e a bacia Platina, pondo em
relevo a fragilidade da fronteira do Mato Grosso, objeto de acerbas disputas
territoriais no interior do continente e objeto de interesse das potências européias.
No lugar desta fronteira sensível, os relatos de Saint-Hilaire tendem a se voltar
para os sistemas hidrográficos que integram o território brasileiro, a partir de
dentro, como é o caso, por exemplo, do Rio São Francisco. Suas análises sobre as
províncias de Minas Gerais e Goiás, seus estudos sobre as potencialidades
agrícolas dessas províncias e sobre seus sistemas hidrográficos ajudam a dar um
centro ao território brasileiro e, com ele, uma consolidação a um imaginário
geográfico caro às elites imperiais brasileiras. Este centro, escrevia Saint-Hilaire,
encontrava-se na província de Goiás, de onde se podia atingir as duas principais
bacias hidrográficas (Amazônica e Platina), assim como o litoral brasileiro (Grifo
meu).
Ao localizar um ponto espacial como centro geográfico do Brasil, Saint-Hilaire ajudou a
imaginar uma nação possível no momento em que a gigantesca extensão territorial se constituía em
um dos maiores problemas para as pretensões relacionadas à unidade nacional. Seu achado tornou
verossímil a ideia de nação una e indivisível. À luz do olhar do viajante francês, os goianos
encontraram um argumento para a defesa apaixonada dos sertões dos goyases como o lugar onde
deviam ser construído os marcos da identidade nacional. A obsessão pela noção de centro
geográfico possibilitou forjar, com o tempo, uma metáfora recorrente para pensar Goiás, balizando
os esforços e as ânsias desejosas das elites intelectuais goianas em pertencer à nação e contribuir
135
para seu engrandecimento153.
O personagem que melhor representa o pensamento e os ideais desta geração de intelectuais
é Henrique Silva (1865-1935), o general das letras goianas, que acalentou durante toda a sua vida
o sonho de transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para o centro-oeste, sendo este
também um tema tratado na revista (83 artigos). Goiano de Bonfim (atual cidade de Silvânia), filho
de família tradicional, republicano convicto, integrante da Comissão Cruls154, militar formado na
Escola Militar da Praia Vermelha, após deixar o serviço militar, dedicou-se ao jornalismo,
colaborando nos periódicos Jornal do Commercio, Jornal Diário de Notícias, Jornal O Paiz e da
Revista Brazil-Ferro-Carril no Rio de Janeiro; Correio do Povo, Jornal do Commercio e Jornal
Tribuna do Povo no Rio Grande do Sul e no Luctador Goyano, em Goiás.
Foi o fundador e mentor intelectual de Brazil Central e, depois, de A Informação Goyana.
Ao menos parcialmente, manteve financeiramente a revista que dirigiu com mãos de ferro,
controlando todo o seu processo de produção e distribuição. Nas palavras de Nepomuceno (2003:
153
Embora obscurecidos na escrita da história brasileira, os goianos se constituíram em importantes atores dos
movimentos do Estado em direção ao centro territorial do país, como a Marcha para o Oeste, na década de 1940, e o
Plano de Metas JK que, em 1960, subsidiou a construção da nova cidade-capital brasileira e a transferência da Capital
Federal para Brasília. Quanto à transferência da Capital Federal, Luis Sérgio Duarte (2002: 131) comenta o papel dos
engenheiros Jerônimo e Abelardo Coimbra Bueno, os quais “[...] construíram Goiânia e passaram a ser conhecidos pela
insistência no projeto da nova capital federal. Nas discussões internas da UDN, Carlos Lacerda referia-se sempre à
‘mania dos Buenos’. [Jerônimo Coimbra Bueno] foi o homem que construiu politicamente Brasília, ao conseguir a
adesão do candidato, depois Presidente da República, para a causa, e depois sustentá-la no Legislativo. [...] O irmão
Abelardo era o teórico [...] da ‘civilização sertaneja’ (devedora [...] da tese de Euclides da Cunha: o verdadeiro Brasil
está no interior) [...]. A Civilização Sertaneja e a Internacional Democrática (algo como uma comissão da ONU que
estudasse o capitalismo e o socialismo e propusesse uma terceira via para a humanidade) sustentaram suas vidas”. O
trabalho de políticos goianos e o esforço empreendido pelo povo de Goiás na construção da Brasília e posterior
transferência da Capital Federal é quase completamente apagado pela perspectiva histórica que enaltece Juscelino
Kubitschek de Oliveira. A título de ilustração, cito a chamada Operação Dom Bosco que, de acordo com Jarbas Silva
Marques (2006: 68), foi uma “[...] manobra política criada pelos políticos goianos Germano Roriz e Segismundo de
Araújo Melo e pelo governador de Goiás, José Ludovico de Almeida, para assegurar a construção da capital federal no
Planalto Central Brasileiro, como determinava o artigo 3º da primeira Constituição da República em 1891”. Como
havia a possibilidade da nova capital ser construída no Triângulo Mineiro, conforme desejo de Israel Pinheiro e
Benedito Valadares, a manobra operada pelos goianos consistiu no reforço ao sonho do educador e santo italiano Dom
Bosco que previa a edificação da nova capital brasileira em Goiás. Tal reforço foi realizado através da manipulação do
texto que continha da descrição do sonho-visão do educador italiano, enfatizando o ‘caráter de cidade, de civilização’
que não existia no texto original. O ardil utilizado foi a publicação, em livro, da tradução do sonho e a inserção, na
capa, embaixo da imagem de Dom Bosco da seguinte inscrição: “São João Bosco, que profetizou uma civilização, no
interior do Brasil, de impressionar o mundo, à altura do paralelo 15o, onde se localizará a nova Capital Federal.” A
expressão ‘uma civilização de impressionar o mundo’, inserida por iniciativa de Germano Roriz na capa do livro, não
consta do sonho nem jamais foi usada por Dom Bosco. A publicação chegou, por artimanhas de Venerando de Freitas
Borges, primeiro prefeito de Goiânia, às mãos de Israel Pinheiro, reconhecido devoto do santo italiano e principal
defensor da construção da nova capital brasileira em Minas Gerais e acabou influenciando na escolha de Goiás para
sediar a nova cidade-capital. Quanto ao ardil dos goianos, a expressão ‘uma civilização de impressionar o mundo’
acabou por se tornar a síntese oficial do sonho-visão, a ela se reportando todos que falam do mito fundador de Brasília.
A respeito ver mais em: MARQUES, J. S. A operação Dom Bosco. In: Revista da UFG, Dossiê Sertão, ano VIII, nº 02,
dez/2006, pp. 68-77 e também em SILVA, L. S. D. Progresso e sertão goiano: a espera. In: (BOTELHO, T.R.(org.).
Goiânia: cidade pensada. Goiânia/GO: Ed. da UFG, 2002, pp. 129-152
154
Comissão de cientistas nomeada por Floriano Peixoto que, em 1891, adentrou o interior do Brasil para mapear e
demarcar o local de construção de uma nova capital brasileira. Comandada pelo biólogo Luis Cruls, a Comissão
demarcou e delimitou o quadrilátero de 14.400 metros quadrados onde, nos anos 1960, surgiria Brasília, a nova Capital
Federal (MARQUES, 2006).
136
58), Henrique Silva “[...] recrutava colaboradores, depurava do seu rol os inconvenientes, decidia
sobre quais artigos deveriam ser publicados e, finalmente, cuidava, ele mesmo, da distribuição do
periódico.” É também o autor que mais publicou na revista, um total de 247 artigos, aparecendo em
todos os seus números. Acredita-se também que a maior parte dos 1.360 textos não assinados
publicados é também de sua autoria. A maioria dos artigos foi publicada antes, em outros jornais e
revistas, o que indica que sua atividade em prol de Goiás foi intensa durante os quase trinta anos
(1891-1917) em que esperou as condições para retomar o projeto de uma revista temática sobre a
hinterlândia goiana.
A Informação Goyana foi seu projeto de vida e o modo que escolheu para levar a cabo
aquilo que via como uma tarefa da qual não pôde escapar: “[...] construir uma teoria do Brasil
Central [...] e [...] indicar medidas que pudessem promover seu progresso e contribuir para integrála definitivamente ao resto do país” (NEPOMUCENO, 2003: 58). Em 1935, quando morreu
Henrique Silva, desapareceu também A Informação Goyana. Se não se pode dizer que o objetivo
maior de seu trabalho e daqueles que fizeram parte de sua geração – o progresso material e cultural
de Goiás e seu reconhecimento no rol das unidades federativas da república – foi alcançado, podese afirmar que sua herança intelectual foi profícua e especialmente marcante para o grupo de
intelectuais que, nos anos 1930/1940, constituíram para Goiânia os sentidos da modernidade e do
nacionalismo.
3.2 - A ‘intelectualidade moça de Goiás’: inventando a cidade, re-inventando a nação.
O trabalho intelectual e político que vinculou Goiânia à modernidade e ao nacionalismo
pode ser rastreado desde os primórdios de sua projeção, em 1933, nos discursos de Armando
Augusto de Godói e de Pedro Ludovico Teixeira. Mas, a partir da transferência da capital (1937)
esta ação foi intensificada. A transferência pressupunha a materialidade da cidade – uma população
se formando, prédios públicos, ruas e avenidas, residências, hotéis, escolas; tudo já estava pronto e
em funcionamento. Era preciso, então, fomentar a ‘vida espiritual’ da nova cidade-capital, como
disse Colemar Natal e Silva155. Ele e outros intelectuais bem como Pedro Ludovico Teixeira
155
Personagem que já aparecera na cena intelectual goiana como colaborador da geração mais jovem de A informação
Goyana, Colemar Natal e Silva integrou, em 1932, a comissão que escolheu o local para a edificação da nova capital e
era um dos intelectuais mais atuantes e respeitados em Goiânia. Foi fundador do Instituto Histórico e Geográfico de
Goiás (IHGG) e da Academia Goiana de Letras, na década de 1930, já em Goiânia. Depois, foi também fundador e
primeiro reitor da Universidade Federal de Goiás. Foi também o fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás,
da Academia Goiana de Letras e, em 1960, da Universidade Federal de Goiás. Era filho do senador Guimarães Natal,
importante político goiano na Primeira República.
137
estavam conscientes de que a materialidade urbana não dava conta, sozinha, de caracterizar a
modernidade tão almejada!
Era preciso fomentar uma cultura urbana fundada em práticas e ideias modernas como o
esporte, o teatro, cinema, festas urbanas (carnaval, reveillon, soirées dançantes, etc.), grupos
escolares, liceus, academia de literatos, institutos de ciência e história, clubes de lazer, entre outros
símbolos de urbanidade e civilização. A expectativa era a configuração da cidade-capital como
centro irradiador de novos modelos de sociabilidade para o enorme entorno rural do qual era
epicentro. Em função deste objetivo e expectativa, Goiânia viveu no período 1937/1945, um
continuum de rituais e celebrações que transformavam a cidade em uma festa permanente. E,
sempre, os discursos que, se valendo da velha retórica do exagero, propagavam o cenário, os
personagens e a cena da modernidade no sertão
A ideia, persistente, era a superação da decadência ou do atraso através da construção
simbólica da cidade e, por meio dela, da veiculação de uma imagem positiva de Goiás. Uma
imagem que, pensavam, o surgimento de uma cidade-capital moderna e capaz de integrar a nação
seria capaz de sustentar. O que estava em jogo era a construção de novas representações sobre
Goiás e, por isso, a necessidade de divulgá-lo para o Brasil, mas também para o povo goiano na
perspectiva de “[...] atingir não só a cabeça, mas de modo especial, o coração, isto é, as aspirações,
os medos e as esperanças [do] povo” uma vez que “[...] é nele [imaginário] que as sociedades
definem suas identidades e objetivos, definem seus inimigos, organizam seu passado, presente e
futuro” (CARVALHO, 1990: 10).
Mas é preciso, para alcançar a consolidação de um imaginário, que exista alguma coisa de
palpável que sirva como ponto de partida e pano de fundo. A este respeito, Ângela Castro Gomes
(2002: 10) afirma que
a propaganda, para surtir efeito profundo e duradouro, precisa estabelecer uma
certa comunidade de sentidos com a população, ainda que com muitas ressalvas. A
propaganda veiculada por um governo precisa estar embasada em iniciativas que,
mesmo superestimadas, permitem uma certa percepção da mudança como
vantajosa em face do passado e alvissareira em face do futuro. (Grifo da autora)
Goiânia, nesta ótica, representou essa percepção de mudança vantajosa e alvissareira.
Albatêneo de Godoi156 se referiu ao impacto de seu surgimento na auto-estima dos goianos como o
‘[...] sonho de ouro dos que amavam Goyaz, dos que se sentiam humilhados com a designação
pejorativa de ‘ficção geográfica para a terra de tão inexhauríveis tesouros’. Era o sinal de mudança
mais promissor que surgira no universo goiano. Goiânia sustentava uma redescoberta de Goiás e
156
No artigo Quanto vale a mulher, revista Oeste, nº 06, abril, 1943, p. 28.
138
constituía a prova cabal da capacidade criativa e operatória da sua gente. Sua ‘intelectualidade
moça’ animou-se com o futuro que a cidade prometia, enxergou as possibilidades trazidas pela
nova capital e se incumbiu de projetá-la desejando que pudesse ser vista, compreendida e amada
tanto pelo povo goiano quanto pelo povo brasileiro.
A parcial incursão pela geração de Henrique Silva demonstra que a (re) ação dos intelectuais
contra o que Sérgio Paulo Moreira157 chama de “indiferença e menosprezo metropolitanos pelo
sertão” não teve início com a proposta da construção de Goiânia nos anos 1930. A partir desse
momento, ela apenas se intensificou porque encontrou algumas condições, principalmente, políticas
e econômicas que a favoreciam: o Brasil mudava, Goiás mudava. No lastro das transformações
societárias que o país atravessava naquele período, a intelectualidade de todo o Brasil enxergou
possibilidades para a construção de uma nova nação.
Na região dos goyases não foi diferente: aqueles que chamavam a si próprios de
‘intelectualidade moça de Goiás’ viram, nos novos tempos, a oportunidade tão longamente esperada
para, junto com a inserção do estado nos quadros da república, conquistar um lugar de
reconhecimento e respeito nacionais. Animava-os a ideia de que, finalmente, havia Estado em
Goiás bem como a vontade de realizar mudanças. Por fim, havia uma juventude pensante, que
refletia e estudava ansiando por participação política e por oportunidades no mundo da cultura
goiana e nacional. ‘Goiaz está lendo mais e melhor. Goiaz está escrevendo mais e melhor. Os
goianos estão aparecendo mais e melhor’158, afirmava-se. E acima de tudo, havia um motivo de
orgulho e um sinal de mudança: Goiânia.
O surgimento da nova cidade-capital foi interpretado como marco inaugural da projeção de
Goiás no cenário nacional. Comemorou-se o arrojo de seus políticos, sua economia e, sobretudo,
celebrou-se a projeção de seus intelectuais. Esta celebração pontua as páginas da imprensa local,
em especial, as paginas da revista Oeste. Em janeiro de 1944, por exemplo, o articulista
comemorava
Jamais foi tão sólida e tão brilhante a posição de Goiás no cenário da vida
nacional. [...] Os jornais e as revistas da Capital Federal e de todo o país trazem,
diariamente, noticiário farto sobre as possibilidades do nosso Estado e as
realizações do nosso govêrno. [...] Representantes de Goiás em congressos
efetuados na Capital Federal são distinguidos de modo especial pelas altas
autoridades da República [...]. [...] Nossos jornalistas vêm seus artigos transcritos e
elogiados nas folhas dos Estados irmãos e até em livros. Nossos escritores vencem
concursos literários.
157
Na introdução do livro O papel político-educativo de A Informação Goyana na construção da nacionalidade, de
autoria de Maria de Araújo Nepomuceno (2003).
158
O sentido revolucionário de Oeste, Revista Oeste, editorial, nº 5, ago/1943, p. 01
139
Décadas depois, em 1985159, Frederico de Medeiros, um dos mais ativos jovens intelectuais
da geração moça de Goiás, lembrou a abertura representada por Goiânia para a intelectualidade do
estado. O vínculo entre o surgimento da cidade e a projeção nacional do estado através de seus
intelectuais é evidente.
Para a geração nova que veio de Goiás [...] Goiânia passou a representar um
renascimento, uma abertura sem peias para o futuro. Criaram-se oportunidades
para todos. As inteligências moças desabrocharam, os talentos impuseram o
reconhecimento do mérito, de modo que grande número de jovens vindos da
vetusta Vila Boa passou a integrar os mais altos escalões da vida pública, em
todos os três poderes que constituem o Estado, e os goianos se espalharam por
todo o país, principalmente a Capital da República, em posições de destaque, a
carrearem prestígio e imporem respeito pelo nosso Estado. (grifo meu)
Aqueles intelectuais construíram, para si, a representação de ‘geração de moços de
Goiás’160. Os ‘moços goianos’161 eram mesmo muito jovens sendo a juventude uma das suas mais
evidentes marcas. Em sua maioria, homens e mulheres entre vinte e quarenta anos. Os engenheiros
Jerônimo e Abelardo Coimbra Bueno, responsáveis pelo comando das obras da cidade, tinham
respectivamente, 21 e 23 anos quando do início das obras; o primeiro prefeito, Venerando de
Freitas Borges, tinha 26 anos quando assumiu o cargo; Bernardo Elis e Frederico de Medeiros, 24;
Vasco dos Reis, Diretor da Instrução Pública do estado de Goiás, 28. Colemar Natal e Silva (que
fez parte da geração de Henrique Silva) tinha 26 anos em 1933. O próprio interventor era ainda um
homem jovem quando em 1933 iniciou as obras da cidade-capital: contava, então, 41 anos.
Faziam parte do grupo algumas mulheres. Todas, sem exceção, professoras das escolas
públicas da cidade-capital. Talvez, as únicas que poderiam ser qualificadas de educadoras
profissionais. Algumas, professoras-autoras como Ofélia Sócrates do Nascimento (educação,
história) e Amália Hermano Teixeira (escola nova, ruralismo, botânica). Algumas, além de
professoras, também poetisas, como Maria Paula de Fleury Godoy (a Marília Palinea). Algumas,
aclamadas como ‘valores goianos’ como Floraci Artiaga e Rosarita Fleury. E ainda, Nice Monteiro
e Julieta Fleury, dentre as mais destacadas. A maioria delas era também muito jovem: Amália
Hermano tinha 19 anos quando foi ao Rio de Janeiro como representante do magistério goiano no
Curso de Extensão sobre ruralismo; Floraci Artiga, apenas 18 quando começou a lecionar no Liceu
de Goiânia, em 1939.
Os homens atuavam na máquina de governo em funções de direção; eram, então, burocratas
159
Em Memória Cultural: ensaios da história de um povo, 1985, p. 89
Tal imagem pode se apreendida nos discursos publicados em todos os veículos de imprensa da época sendo também
recorrente nos relatos de memórias dos pioneiros.
161
Esta caracterização tomou como base as informações publicadas pela revista Oeste que, frequentemente, publicava
perfis de seus colaboradores bem como de outros intelectuais goianos e brasileiros.
160
140
do Estado. E também, em grande parte, professores das escolas goianienses ou mesmo estudantes
da Faculdade de Direito de Goiás. Muitos eram literatos e todos possuíam ou realizavam curso
superior: eram militares, geógrafos, matemáticos, mas principalmente médicos e bacharéis em
direito. Possuíam capital cultural. Eram letrados em uma sociedade de iletrados. Ligados, entre si,
por laços de amizade, parentesco ou trabalho, formaram uma rede de sociabilidade que tanto
estimulou quanto limitou sua atividade. Eles pertenciam a famílias tradicionais de Goiás, famílias
de fazendeiros, de bacharéis e escritores ou famílias de funcionários públicos, não necessariamente
famílias de grande poder financeiro ou político.
Eram, sobretudo, entusiastas da modernidade e, por isso, se fizeram entusiastas de Goiânia.
Deles, se pode dizer que se constituíram sujeitos ao constituírem a nova cidade como capital
moderna de um estado por eles considerado - por suas riquezas minerais e agro-pastoris, por sua
localização geográfica e pelo arrojo de seu povo em construir em tempos de crise uma cidadecapital moderna - como um exemplo para o Brasil, além de sua melhor perspectiva de futuro. Seu
grande projeto era a projeção de Goiás nos quadros da nação, o que sustentaria a ascensão pessoal
de cada um deles. Constituíam-se, de fato, em dirigentes da vida goiana e, por que não, ansiavam
dirigir também os destinos da nação.
Seus nomes e os saberes que abordavam: Frederico de Medeiros (política, estatística),
Bernardo Élis (literatura), Zoroastro Artiaga (economia), Juruena Di Guimarães (política), Vasco
dos Reis (política, educação), Gerson Castro Costa (política, literatura), Eli Brasiliense (literatura),
Colemar Natal e Silva (cultura, intelectuais), Anderson Horta (política), Maximiniano da Mata
Teixeira (o Matma Nago) (direito, política), os irmãos Afonso, Domingos, Euclides, Mário Augusto
e João Bernardo Félix de Souza (todos literatos), Zecchi Abrahão (publicidade), João Acioli, José
Décio Filho, Durval Pereira, Veiga Neto, Osmar Santos (história, literatura), Jorge Salomão
(literatura), Goiás do Couto (literatura), Pedro Celestino de Melo (literatura, educação), entre os
mais significativos.
Ao caracterizá-los como parte de uma mesma geração não tomo como critério apenas a sua
idade cronológica, que de acordo com Domingues (2004), é ‘por demais abstrata’ uma vez que
inúmeros fatores de ordem social, como doenças, guerras ou possibilidade ou não de acesso aos
recursos de poder, podem influenciar na definição dos cortes etários definidores da geração.
Ademais, conforme este autor (DOMINGUES, 2004: 122), “[...] uma geração não se define
isoladamente: é na interação com outras gerações que cada uma delas delineia sua identidade e
contribui para a produção de outras. São nesses processos interativos que as gerações se moldam e
são moldadas”.
Assim, embora não desconsidere a questão da idade cronológica, prefiro adotar como
critério de definição de geração a experiência vivida por um grupo de indivíduos aliada a sua
141
capacidade de refletir sobre ela. No caso dos ‘moços de Goiás’, considero que eles se encontravam
plenamente conscientes de sua experiência como homens e mulheres do sertão, possuindo um alto
nível de identidade e de organização. Compartilhavam, sem dúvida, o mesmo universo simbólico.
Relativamente homogêneos e possuindo inegável unidade de ação, os intelectuais goianos daquele
momento constituíam, a meu ver, uma subjetividade coletiva, ou ainda, uma ‘geração para si’
(DOMINGUES, 2004).
Além dos goianos, também intelectuais de outras partes do país participaram do processo de
constituição dos sentidos da Cidade-Sertão, publicando nos jornais e revistas locais ou tendo seus
artigos - já publicados em veículos de outras regiões do país – reproduzidos pelos jornais de
Goiânia. ‘Gente de fora’, como os chamou Paulo Augusto de Figueiredo162. Eram, segundo ele,
‘[...] figuras já então de projeção nas letras e no jornalismo brasileiros: Almir de Andrade, Emílio
Moura, Abgar Renault, Ciro dos Anjos, João Camilo de Oliveira Torres, Victor Visconti, Viriato
Vargas e Menelik de Carvalho’. Outros intelectuais de projeção e reconhecimento nacionais
também escreveram sobre Goiânia: Mário Augusto Teixeira de Freitas, então secretário-geral do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); o geógrafo francês Pierre Monbeig, então
professor da Universidade de São Paulo (USP); o jurista Afonso Arinos de Melo Franco, entre os
mais representativos.
E há ainda, aqueles que migravam para a nova capital oriundos de outros estados e se
faziam goianienses, os ‘paus rodados’, como os chamou Paulo Augusto de Figueiredo no mesmo
relato. Entre eles, se destacam Joaquim Câmara Filho163, importante personagem na propaganda de
Goiás e de Goiânia, ocupando cargos públicos significativos na máquina de governo e fundando
também, em 1939, o jornal O Popular164, o historiador Odorico Costa, o padre polonês Antonio
Wasik, o líder comunista Cristiano Cordeiro e o próprio Paulo Augusto de Figueiredo Nunes.
Este último talvez tenha sido o mais importante intelectual não goiano que contribuiu para a
constituição de uma simbologia para Goiânia. Seu lugar de relevo pode ser atestado pela força de
seus enunciados a respeito da cidade sendo os mesmos continuamente citados por outros
intelectuais do período. Verdadeiro mandatário da revista Oeste, embora nunca tenha sido
162
Em Oeste, um veículo do Estado Novo, artigo publicado em Suplemento de Apresentação da edição fac-símile da
revista Oeste publicada em 1983, pela Universidade Católica de Goiás e Caixa Econômica Federal, p. 15.
163
Paraibano de nascimento, fixou-se em Goiás na década de 1920, participou dos acontecimentos desencadeados pela
Revolução de Trinta e lutou na guerra constitucionalista de 1932 ao lado dos mineiros. Depois, foi prefeito da cidade de
Pires do Rio, no sudeste goiano. A partir de 1934, assumiu a direção do Departamento de Propaganda e Expansão
Econômica do estado de Goiás. Neste cargo, seu trabalho de divulgação foi decisivo para a edificação da cidade
otimizando a venda de terrenos que financiaram a maioria das obras na nova capital. Além disso, a partir de 1936, o
Departamento que dirigia foi o mais freqüente promotor das inúmeras competições esportivas que animavam a vida
cultural de Goiânia. A respeito ver: ASMAR, J. Câmara Filho, o revoltoso que promoveu Goiás. Goiânia/GO: Editora
de O Popular, 1985.
164
O jornal O Popular é, atualmente, o periódico de maior circulação no estado de Goiás fazendo parte das
Organizações Jaime Câmera, influente grupo empresarial que controla um grande número de veículos de comunicação
e mídia na região.
142
oficialmente seu diretor, Paulo Augusto de Figueiredo Nunes experimentou, durante os quatro anos
que esteve em Goiás, uma vertiginosa ascensão profissional e política. Seu poder em Goiás era
comparado ao do interventor Pedro Ludovico. É a importância de Figueiredo e o lugar político e
intelectual ocupado por ele no espectro da revista Oeste que ensejam um adentrar pelos meandros
da história do periódico, principal veículo de difusão dos discursos dos intelectuais jovens de Goiás
que constituíam os sentidos da modernidade e do pertencimento para a capital goiana.
O reconhecimento da relevância e significado da revista para os intelectuais e políticos que
naquele momento produziam discursos sobre Goiânia é inequívoco, o que me leva a tentar
compreender a revista em uma perspectiva que encare a tensão entre interpretação/significado e
modos de produção/funcionamento dos textos que nela foram dados a ver. Proponho, então, um
mergulho na história de Oeste165 que procure articular, como sugere Chartier (1990), a construção
social do discurso à construção discursiva do social. Tal mergulho não pode, portanto, se limitar à
análise e interpretação dos significados dos textos que foram ali publicados, devendo também
indagar-se acerca dos seus modos de produção ou, em uma palavra, de seu funcionamento. A busca
do significado enfatiza a unidade enquanto a análise do funcionamento ressalta a diferença: “[...] a
unidade não é possível sem uma percepção da diferença; a diferença não pode ser apreendida sem
uma percepção contrária da unidade” (HUNT, 1992: 20-21).
As memórias sobre a revista são memórias marcadas pelas permanências e nas quais os
sujeitos que lembram procuram manter viva a construção simbólica de Goiânia, da qual a revista
Oeste foi, ao mesmo tempo, símbolo e veículo de difusão. Poucos abordam o mensário em seus
conflitos e crises, como campo de lutas, evitando ressaltar nuanças ideológicas e políticas. É
comum o apagamento das tensões e confrontos internos, os quais são substituídos pelo elogio à
revista, ao seu importante papel cultural e/ou político e, evidentemente, ao lugar e momento onde
estava radicada. Mesmo entre aqueles que abordam esta dimensão, a problemática é suavizada
como o faz Domingos Felix de Souza166, à época secretário da revista, quando afirma que seu relato
pode provocar ‘uma impressão mais ou menos falsa’ de um conflito histórico no interior da revista.
165
As informações que permitem reconstituir uma história que contemple a tensão entre o significado e o
funcionamento de Oeste podem, além de mapeadas na própria revista, ser encontradas em relatos de sujeitos que
participaram daquele momento ora como produtores ora como consumidores. São relatos dos idealizadores da revista,
de seus editores e colaboradores, de intelectuais que a consumiam ou que testemunharam o processo de seu
desenvolvimento. Por meio destes relatos torna-se possível colher informações também sobre as modalidades de
recepção de Oeste e as formas de sua apropriação, o que remete ao universo de representações construídas sobre a
revista e também sobre a cidade-capital que condicionou seu aparecimento. A leitura é, nesta ótica, considerada como
“[...] processo por intermédio do qual é historicamente produzido um sentido e diferentemente construída uma
significação” (CHARTIER, 1994: 24). Os relatos em questão se encontram reunidos no Suplemento de Apresentação
da edição fac-símile da Revista Oeste (1983) e no Dossiê Memória Cultural de Goiânia: ensaios da história de um
povo (1985). Não se trata, entretanto, de relatos obtidos por meio da oralidade. São textos escritos por personagens
importantes na constituição dos sentidos da modernidade e do nacionalismo para a cidade-capital da hinterlândia
goiana. Muitos destes utilizaram como estratégica textual e discursiva a transcrição de fragmentos de textos e discursos
formulados no passado, o que pode ser visto como estratégia de preservação de uma memória sobre a revista e a cidade.
166
In: Suplemento de apresentação da edição fac-símile da Revista Oeste, 1983, p. 30.
143
Dos relatos em questão, apenas o de Bernardo Élis167, escritor goiano autor de O Tronco e o
de Paulo Augusto de Figueiredo, intelectual e político carioca que viveu em Goiás, entre 1940 e
1945, exercendo importantes cargos no escopo do governo estadual, trazem do baú de suas
memórias os conflitos e as lutas pelo poder experimentadas pela juventude letrada em Goiânia. Os
relatos se complementam embora possuam registros lingüísticos radicalmente distintos: são,
respectivamente, o autor-literato (Élis) e o autor-político (Figueiredo) a rememorarem o passado.
São relatos que revelam as tensões que perpassaram o mensário; tensões radicadas na valoração de
uma ou outra dimensão da realidade, no posicionamento político e ideológico daqueles que
produziam e dirigiam a revista e, logicamente, nos projetos e trajetórias pessoais de cada um deles.
O que de fato ocorre é que, ao falar de Oeste, os sujeitos em questão remetem seu
significado à construção de Goiânia e aos sentidos da modernidade e pertencimento que, naquele
momento, estavam sendo constituídos para a cidade-capital. No interior do processo de constituição
de sentidos, difundia-se a ideia de Goiânia como uma totalidade homogênea e harmônica na qual
todos se uniam fraternalmente em função da nova cidade-capital. A permanência desta
representação e as ausências por ela constituídas são razões a mais para uma análise das condições
de produção e circulação de Oeste que procure romper com a “[...] ‘abstração dos textos’ [...]
entendendo que os suportes onde eles se fazem ler, ouvir ou ver tomam parte na construção do
sentido” (ABREU, 2003: 09).
É essencial, então, tentar perceber aquilo que não foi dito, ou ainda, o que escorrega,
desliza, produzindo outros e novos sentidos. Nesta ótica, os textos serão, então, interpretados em
uma abordagem que considera a revista como “[...] signo cultural, suporte de um sentido
transmitido pela imagem ou pelo texto [...]” (CHARTIER & ROCHE, 1995: 99) ou, acrescento, por
ambos. Finalmente, as informações oriundas dos relatos serão cotejadas com a realidade a qual se
referem, a saber, a realidade material, intelectual, cultural e política de Oeste no espaço e no tempo
em que surgiu. Desta forma, espero pensar o acontecimento em seu contexto considerando, então, o
texto em relação a seus suportes materiais, a ação dos sujeitos que sobre ele interferiram bem como
as modalidades de sua recepção.
Para Chartier (2003: 84), “[...] não há sentido em uma obra fora das formas variáveis que a
propõem à interpretação. [...] as significações dos textos fixados em suas palavras podem ser
radicalmente modificadas pelas diversas apresentações tipográficas que são produzidas
sucessivamente [...]”. Afinal, nas palavras de Chartier & Roche (1995: 110),
O texto não encerra, de modo nenhum, todos os valores do [impresso], onde várias
167
À época, Bernardo Élis exercia o cargo de Técnico do Departamento de Cooperativismo do Estado de Goiás. Revista
Oeste, nº 10, nov./1943, p. 09.
144
linguagens estão inscritas: linguagem da ilustração que se pode decifrar como um
conjunto de sinais, porém também como o suporte para representações ideológicas;
linguagem da disposição tipográfica, cuja evolução, na época moderna, visando
uma mais clara organização da leitura, traduz e propicia, à sua maneira, os
progressos de uma nova lógica.
É o mesmo que dizer que proponho tratar Oeste como um discurso que permite, a partir da
interpretação de seus textos e da análise de seu funcionamento, o acesso a dimensões pouco
habituais da sua história e da história da cidade onde surgiu. Reconstituir a história desta revista em
uma abordagem que contempla, ao mesmo tempo, um objeto cultural, seus produtores e
consumidores e atenta para os vínculos entre eles e a realidade a que fazem referência, abre
possibilidades para compreender os processos através dos quais se construíram representações
de/para Oeste. Sempre pensada em um espaço de possíveis, a revista e sua análise podem ensejar o
(re) conhecimento de conflitos e de processos de luta entre aqueles que dirigiam a construção da
cidade-capital bem como das hierarquias sociais daí surgidas.
Conflitos, lutas168, exclusões, hierarquias cuidadosamente ocultadas nos discursos que
revelam as dificuldades e as impossibilidades – mesmo no escopo do poder político e cultural - para
a concretização de uma das mais caras promessas da nova cidade-capital: a superação das
desigualdades sociais e dos privilégios de uns poucos. Goiânia foi significada, lembremos, como
ponto final de uma sociedade cindida em ‘gente e gentinha’. E, neste sentido, pensar Oeste como
discurso enseja reconhecer as fraturas daquela realidade que se anunciava harmônica e isenta de
conflitos, irmanada em torno da construção da nova capital – uma grande família. Se a
modernidade urbanística e arquitetônica excluía da cidadania grande parte daqueles que vieram
viver na nova cidade-capital de Goiás, a história de um objeto cultural como a revista Oeste permite
compreender as lutas e disputas que, travadas no coração do poder estatal, colocavam as elites
intelectuais em confronto na capital da hinterlândia goiana.
3.3 – A revista Oeste como lugar e não-lugar dos intelectuais moços de Goiás
A revista Oeste, periódico mensal que circulou no período 1942-1944, era o lugar
privilegiado dos moços de Goiás. Ali escrevia a valorosa mocidade goiana. Em seu editorial-
168
Um exemplo do ocultamento dos conflitos e lutas que, muitas vezes, promovia exclusões e clivagens entre a elite
dirigente em Goiânia pode também evidenciado no relato de Amália Hermano Teixeira no livro de sua autoria, O
estranho caso da Escola Normal, onde a autora revela confrontos e lutas nos bastidores do sistema educacional
goianiense no período estudado. O livro foi publicado em 1946 sendo que, em sua apresentação, sua autora afirma não
tê-lo publicado antes para não prejudicar a obra educacional do estado.
145
programa169, a revista afirmava vir preencher uma lacuna: definiu-se como espaço da mocidade
pensante de Goiás, verdadeiro escoadouro da crescente produção da jovem intelectualidade
regional. Oeste também se anunciou, naquela ocasião, como um veículo de propaganda daquilo que
era visto como o grande feito dos goianos: a construção material e cultural da nova cidade-capital
de Goiás. Além do elogio à cidade-capital, permeia suas páginas, do primeiro ao último número,
um verdadeiro culto de devoção ao Interventor Pedro Ludovico Teixeira. O editorial170 afirmava
que
OESTE é [...] o veículo oficial do pensamento moço de Goiaz. Limita seu
aparecimento a fase mais vitoriosa de Goiaz, dentro de aspectos absolutos. Grava,
em depoimentos sãos de brasilidade sã, uma obra e um autor. A obra é Goiânia;
Pedro Ludovico, o autor. [...] Oeste prestigia todos os moços cultos de Goiaz.
Oeste surgiu como projeto de alguns jovens intelectuais goianos que visavam modernizar o
campo cultural goiano, atacando os privilegiados da cultura e rompendo com velhas hierarquias.
Sua área de atuação, a literatura e a crítica literária. Foi esta, afinal, a proposta de um grupo de
jovens intelectuais que, desde 1938, participava de reuniões culturais nas dependências do Liceu de
Goiânia171, onde muitos deles eram professores e outros ainda estudantes. Um projeto que, desde o
início, identificou-se com a nova cidade-capital e sua promessa de instaurar o novo sendo também
tributário das imagens do intelectual dirigente e da juventude intervindo nos destinos da nação,
premissas orteguianas incorporadas pelo Estado Novo.
No editorial-programa uma linguagem bélica, policial e militaresca foi mobilizada. ‘Oeste
quer recrutar soldados valentes para suas fileiras’. Prestigiando os moços cultos de Goiás, anuncia
que vai ‘disputá-los-á às mãos valoricidas da mediocridade’ [e] ‘escoltar os aprisionados da
cultura’' sem exigir-lhes, ‘carceragens materiais’. Uma linguagem que, através de metáforas
bélicas, aciona poderosas imagens de guerra, de luta e de conflito coloca, necessariamente, a
questão: contra o que lutavam os idealizadores de Oeste; quem era o inimigo que afirmavam tentar
derrotar? No mesmo editorial, o inimigo é nomeado.
O jornalismo-balcão, o jornalismo-dicionário de adjetivos, mancheiadamente
distribuídos a mil réis por cabeça, não fazem, ao fim, pintar Goiaz a tintas claras.
Caracturizam a imagem. Realizam a caricatura. Ficcionam. Bifurcam traços.
Desparalelizam cores. Desfiguram a expressão. E não se registrando à própria
imagem, o fotografado provoca caretas a quem lho contemple: índios, feras... A
retenção alheia age, mas a impressão reage. Subsiste a inversão de cores, e o
169
Editorial nº 01, Jul/1942, p. 01.
Revista Oeste, nº 01, jul/1942, p. 02.
171
Conforme José Mendonça Teles afirma na crônica Hélio Lobo, pedalando na história. In: Semeadores de futuro.
Goiânia: Ed. da UCG, 2005, pp. 93-94.
170
146
espetáculo continua.
Um pouco adiante, quase no fim, o editorial-programa recorre a uma estratégia lingüística
para tornar ainda mais claro o alvo visado bem como a ideia de ruptura que a revista pretendia
promover no campo jornalístico e literário goiano. Há a simulação de um diálogo entre
interlocutores ocultos, que não se identificam. O recurso do diálogo simulado instala, em pleno
editorial, um ‘proseado’ no qual um jogo de perguntas e respostas torna clara a proposta dos
idealizadores da revista. Recurso certamente inovador e moderno na sua forma e que procurava
romper com o beletrismo que, à época, dominava a literatura goiana. Apesar da sua extensão, vale a
pena transcrever o diálogo:
Goiaz não está bem interpretado no seu pensamento?
Não, infelizmente, não. Temos de melhor. E os leitores de OESTE o saberão
identificar, se o nosso apelo sacudir a lídima, a verdadeira, a única representação
de intelectuais de que dispomos.
Onde eles?
Trancafiados à ordem da mediocracia. A mediocracia intelectual deita guarda
severa aos idealizadores. Quem passar...
Esta claro que a alusão se estreita ao jornalismo, à imprensa. Fato curioso de
retração mental se abre dentro do jornalismo. Os jornalistas, jornalistas e pensantes
a um tempo, se escondem.
Por que?
Há decididamente uma figura de monopólio neste campo, aliás, impróprio à
aludida figura. Pois OESTE quer vencer os monopolizadores. Vai escoltar, à
ordem do patriotismo e do bom nome de Goiaz, vai escoltar os aprisionados da
cultura. Oferece-lhes sem exigência de carceragens materiais, a liberdade do
pensamento, em favor da cultura de Goiaz. Livres!
Este editorial-programa é na compreensão de Bernardo Élis172, ‘[...] claramente identificado
como da lavra de Paulo Augusto de Figueiredo pela semelhança que mantém com o artigo da
página cinco da mesma revista, com o título O Brasil comeu espinafre, este assinado por Paulo de
Figueiredo’. O estilo discursivo adotado por Figueiredo nos dois textos pode ser caracterizado,
conforme Orlandi (2005), como um discurso lúdico, polifônico e, por isso, mais aberto aos deslizes
e equívocos. Outros textos escritos por Figueiredo contêm a mesma característica discursiva que faz
emergir sua potencialidade como provocador de debates, como polemizador, o que fornecia uma
identidade à revista, expressando os desejos e intenções daqueles que a estavam propondo: romper
com o estabelecido e abalar as letras e o jornalismo praticado em Goiás e, especialmente, em
Goiânia, cidade representada como moderna e progressista. Era preciso vencer os focos de atraso
também no campo cultural uma vez que, com o surgimento de Goiânia, as transformações pelas
quais passava a região pareciam flagrantes nos campos econômico e social.
172
Suplemento de Apresentação da Edição fac-símile da Revista Oeste, 1983, p. 21.
147
José Bernardo Felix de Souza173, secretário da revista a partir do número 02, sintetizou o
contexto de monopólio cultural que motivou o aparecimento de Oeste afirmando que ‘a
mediocridade criara, por decreto, por decenios e decenios, os seus tabús e preconceitos; elegeu [...]
poetas, músicos, escritores; proclamou [...] os ‘gênios’ que deveriam ser admirados, [...] por
aclamação fez surgir os líderes que nos impingiu’174. Seu irmão Domingos Felix de Souza175 foi
ainda mais claro.
O Estado era dominado pelo espírito sedentário de Goiás, a antiga capital. Havia
um orador que era aquele, ninguém mais podia ser orador. Havia um poeta, e
ninguém mais podia ser poeta [...]. Havia um historiador, que não precisava
escrever uma única linha de história, era o consagrado [...]. Assim havia o contista
titular, que nunca lera Hugo de Carvalho Ramos176, e frente a quem era proibido
falar no nacionalmente famoso regionalista. Tanto é que nós, os jovens de então,
começamos a ler e a divulgar o mestre regionalista brasileiro, um pouco em defesa
de Bernardo Élis, que era naqueles tempos, um subversivo da ordem estabelecida,
vítima dos ‘programs roceiros’. Não havia espaço mesmo para os mais velhos. E
foi essa a ordem estabelecida que, altos e baixos, viemos destruir, criando uma
mentalidade nova, abeberando-nos nas verdadeiras e modernas fontes das
ciências, das artes e das letras. (Grifos meus)
A revista teve vida efêmera: surgiu em julho de 1942 e em dezembro de 1944 veio a lume
seu último número. Exatamente 02 anos, 05 meses e 23 números. O primeiro número apareceu em
julho de 1942. O segundo, somente oito meses depois, em março de 1943, a partir de quando a
revista manteve a periodicidade até dezembro de 1944. A primeira edição foi distribuída, em 05 de
julho de 1942, ‘sem lançamento oficial, sem discurso, sem alarde’177 entre os participantes do
Batismo Cultural de Goiânia. O lançamento da revista Oeste não estava entre as numerosas atrações
culturais e artísticas que constavam do programa oficial do Batismo. Se o programa deste
acontecimento pode ser visto como um percurso que levava autoridades e convidados de uma
cerimônia à outra, demonstrando a pujança cultural dos goianos em sua nova cidade-capital, é
preciso indagar porque o lançamento de uma revista de caráter literário, dedicada à produção
regional, não constou daquela programação?
É que o número inaugural não foi patrocinado pelo poder público. Ou pelo menos, não
oficialmente, já que a edição foi confeccionada nas oficinas da Gráfica Oficial do estado. Domingos
173
À época, era Procurador Geral do Estado de Goiás e professor da Faculdade de Direito. In: Revista Oeste, nº 03,
jul/1943.
174
Op. Cit. p. 24
175
Op. Cit. p. 30
176
Escritor goiano, já falecido à época de Oeste, que se tornou conhecido nos meios literários nacionais com a
publicação do livro de contos Tropas e Boiadas (1909).
177
Conforme se lê na contracapa da edição fac-símile da revista Oeste (1983), coordenada por José Mendonça Teles e
publicada, pela Universidade Católica de Goiás (UCG) com patrocínio da Caixa Econômica Federal, como parte das
comemorações do aniversário dos 50 anos de fundação de Goiânia (1933-1983).
148
Félix178 comenta que o primeiro número da revista foi ‘[...] fruto [do] assédio dos jovens [...]’ sobre
Garibaldi Alves Teixeira e Gabriel Anconi, respectivamente, diretor da Imprensa Oficial e gerente
da Gráfica do Estado. Lançada a revista, seu segundo número tardou a aparecer. Não havia
condições financeiras para mantê-la. Mas, o interventor Pedro Ludovico aceitou editá-la e, em 03
de fevereiro de 1943, assinou o decreto-lei 7.045 que criava oficialmente a revista, tornando-a um
órgão a mais na estrutura de governo.
A edição número um de Oeste foi descrita por Domingos Felix179 como uma ‘espécie de
boletim’; a partir de então, foi tendo uma publicação cada vez mais cuidadosa e até mesmo
sofisticada na qual o aumento do número de páginas e de imagens (fotografias, desenhos, mapas,
gráficos, charges, etc.) é um indício significativo. No número 01, poucas fotografias – apenas três –
e nenhuma ilustração; a partir do segundo, um visível aumento de fotografias e ilustrações
enriqueceu as capas (Imagem 15) e páginas da revista. Do segundo número até o último, Oeste
publicou também (poucos) reclames publicitários, o que não ocorreu no número inaugural. A partir
da edição 14, o crescimento físico da revista tornou-se ainda mais flagrante. O número de
lançamento da revista teve apenas 22 páginas; Do segundo em diante, este número oscila entre as
30 e 40 sendo que, a partir da décima sexta edição, a revista cresce em tamanho, chegando a 76
páginas em julho de 1944.
No primeiro número, em sua segunda capa, o mensário identificou-se simplesmente como
revista literária; a partir do segundo, lançado em março de 1943, como revista de divulgação
cultural editada pela Imprensa Oficial do Estado por autorização do decreto-lei no 7.045, de 03 de
fevereiro de 1943. Do número três em diante, uma informação complementa as demais: ‘Registrada
no D.I.P., de acordo com a lei’ (Imagem 16). Neste número inaugural, foram publicados
essencialmente contos, poesias e textos de crítica literária e uns poucos artigos de caráter político, a
maioria sobre Goiânia. Somente em dois textos180 pode ser percebido um conteúdo mais claramente
ligado ao regime estadonovista, porém, relacionando-o à construção da cidade-capital goiana. São
textos nos quais se procurava construir a representação de Goiânia como cidade-símbolo do Estado
Novo.
178
Op. Cit. p. 30.
Op. Cit., p. 30.
180
O Brasil comeu espinafre e O sentido ideológico de Goiânia, assinados por Paulo Augusto de Figueiredo e Gerson
de Castro Costa, respectivamente.
179
149
Imagem 15
Capa da Revista Oeste
Fonte: Revista Oeste, julho, 1943
Do segundo número em diante, porém, textos de caráter político e claramente ideológicos
dividem a cena com os literários. Do número quatorze em diante, predominam de forma quase
absoluta os textos políticos que, por sua vez, são distribuídos em novas secções: política
internacional, política nacional, política estadual, cidades goianas, as quais privilegiavam,
inequivocamente, a dimensão política, secundarizando as literárias e culturais. Apenas uma nova
secção tratava do tema para o qual revista originalmente se voltava: literatos goianos do passado.
Paulo Augusto de Figueiredo e Bernardo Elis evidenciam distintos momentos de Oeste. De
150
Figueiredo emana a percepção de duas fases da revista. Segundo ele181, a partir de seu segundo
número, a revista assumiu uma ‘[...] orientação nitidamente política, mas sem prejuízo de sua parte
propriamente literária’. ‘[...] Mesmo na fase manifestamente estadonovista, jamais deixou de
considerar a literatura em si, sempre publicando contos e poemas [...]’. Bernardo Élis, por sua vez,
explicita três fases da revista fazendo em um registro distinto do utilizado por Figueiredo. Para o
escritor goiano182, as três fases podem ser assim caracterizadas:
Primeira – pretende fundamentalmente ser o veículo literário incentivador e
apresentador de esforço intelectual jovem goiano. Tais características definem-se
apenas no primeiro número. Segunda – tenta conciliar a divulgação da literatura
com a de divulgador político-ideológico do Estado Novo e propagandista de
Goiânia e Pedro Ludovico, interventor federal. As últimas funções têm primazia
sobre a primeira. Do número 02 ao 13. Terceira – Oeste se define como
instrumento exclusivamente político-ideológico do Estado Novo e órgão de
propaganda do interventor Pedro Ludovico. Do número 14 até o 23, último.
Várias são as leituras que foram e são feitas sobre a revista, o que constitui diferentes
representações de Oeste. Duas, em particular, são mais recorrentes. A revista é representada como
acontecimento impar de afirmação da potencialidade intelectual e literária dos goianos, precursora
do modernismo na literatura em Goiás e, por outro lado, como principal veículo de divulgação e
propaganda do Estado Novo no centro-oeste brasileiro bem como do interventor Pedro Ludovico
Teixeira. Na chamada literatura mudancista, a primeira representação é dominante; a segunda é
fartamente encontrada na literatura científica, especialmente nos campos da história e da sociologia.
Imagem 16
Registro no DIP
Fonte: Revista Oeste, maio/1943
181
182
Suplemento de Apresentação da edição fac-símile da Revista Oeste, 1983, p. 14.
Op cit, p. 20.
151
Quanto aos leitores da revista, a edição número 01 foi, conforme lembra Domingos Felix183,
‘[...] pouco lida. Tanto assim que meses depois foi encontrada [...] amontoada, ao livre dispor de
quem quisesse, num canto da secção de divulgação da Impressa Oficial’. Do número dois em
diante, Oeste foi distribuída para a intelectualidade goiana, autoridades políticas e agentes culturais,
entidades e instituições culturais, jornais e revistas de Goiás e de outras regiões brasileiras e da
América do Sul184. Dentre elas, a revista Cultura Política, editada no Rio de Janeiro, periódico com
o qual Oeste manteve estreitas relações, principalmente em função da vinculação de Paulo Augusto
de Figueiredo com este periódico. A mudança do seu status pode explicar as mudanças no seu
público leitor: afinal, de um quase boletim literário, Oeste tornara-se veículo oficial de propaganda
e divulgação da nova cidade-capital de Goiás, de seu fundador, de seus intelectuais, do regime
estadonovista e de Vargas, o Grande Chefe da Nação.
O grupo inicial passou por mudanças profundas. No primeiro número, em sua quarta capa, o
corpo de redação compõe-se, nesta ordem, dos nomes de Bernardo Élis, Garibaldi Teixeira185,
Hélio de Araújo Lobo186, Paulo Augusto Figueiredo e José Décio Filho187 sendo que como diretor
aparece o nome de Zecchi Abrahão188; todos goianos, à exceção de Paulo de Figueiredo. Todos
jovens, à exceção de Garibaldi Teixeira, o diretor da Imprensa Oficial. Este, o grupo fundador de
Oeste. No segundo número, um novo nome - Gerson de Castro Costa189 - figura como diretor da
revista, mantendo-se o corpo editorial ao qual se acrescentam os nomes de J.B. Felix de Souza190 e
Carlos de Faria191 como secretários e de Gabriel Anconi192 como gerente. Garibaldi Teixeira,
Diretor da Gráfica Oficial do Estado de Goiás, não aparece entre os responsáveis pela revista.
183
Op. Cit., p. 30.
Oeste publicava regularmente a correspondência que recebia na secção Oeste vista pelos outros. Esta
correspondência, via de regra, tinha por objetivo o agradecimento do envio das edições da revista seguida do elogio a
sua qualidade. A quase totalidade das cartas e telegramas publicados era endereçada a Paulo Augusto de Figueiredo, o
que indica que a distribuição da revista era feita por este intelectual. Não encontrei nenhuma correspondência dirigida a
Zecchi Abrahão, Gerson de Castro Costa e Vasco dos Reis, responsáveis oficiais pela direção de Oeste.
185
Diretor da Imprensa Oficial do Estado de Goiás no período 1938-1945.
186
Exercia o cargo de Delegado do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI) e era acadêmico da
Faculdade de Direito de Goiás (FDG), onde em 1943, foi ganhador de um concurso de oratória promovido pelo Centro
Acadêmico XI de Maio. O título o levou a representar o estado de Goiás, também em 1943, no concurso de oratória
promovido pelo Instituto da Ordem dos Advogados entre estudantes de direito de todos os estados do Brasil. Seus
artigos versavam sobre temas como direito do consumidor e degradação ambiental. Revista Oeste, nº 08, set/1943, pp.
21 e nº 09, out./1943, p. 31.
187
Era redator da Imprensa Oficial do estado de Goiás. In: revista Oeste, nº 06, julho/1943, pp. 07. Publicava contos.
188
No período, era professor de português no Colégio Estadual de Goiaz. Revista Oeste, nº 08, set./1943, pp. 14.
189
Era Diretor Geral do Departamento Estadual do Serviço Público de Goiás. Publicou em Oeste um único texto de
caráter político, O sentido Ideológico de Goiânia, que foi publicado no primeiro número. Depois, somente contos.
Revista Oeste, nº 06, julho/1943, pp. 25.
190
À época, era Procurador Fiscal da Fazenda do Estado. Na revista Oeste, publicava contos. Revista Oeste, nº 10,
nov./1943, pp. 27.
191
Era professor de português do Liceu de Goiás e publicava critica literária.
192
Companheiro de Pedro Ludovico durante os conflitos provocados pela Revolução de Trinta, era Chefe
Administrativo da Imprensa Oficial. Revista Oeste, nº 06, julho/1943, pp. 33.
184
152
A partir do número quatorze, em março de 1944, Juruena di Guimarães193, Odorico Costa194
e Paulo Augusto de Figueiredo começam a figurar como integrantes do recém-instituído Conselho
de Censura que foi parte de uma profunda re-estruturação de Oeste. Gerson de Castro Costa, que
assumira a direção da revista desde o número 02, foi substituído por Vasco do Reis195. Os jovens
goianos que compunham o corpo de redatores - do qual já fazia parte, desde junho de 1942,
Frederico de Medeiros196 - continuaram a escrever para a revista, porém, seus nomes não mais
apareceram na contracapa da revista. A revista Oeste se tornava um não lugar para os ‘moços de
Goiás’.
As sucessivas e significativas transformações nos conteúdos e na forma da revista suscitam
questionamentos. Quais fatos, pessoas e motivos, enfim, quais os processos que produziram essas
alterações? Uma análise das edições da revista permite a identificação de alguns sinais e indícios
que podem abrir as portas para sua história. São pistas que emergem da análise da revista como
“signo cultural”, suporte dos textos que publicou, revelando seus conflitos e crises.
3.3.1 – Em busca do não-dito nos discursos e no funcionamento de Oeste
Entre o primeiro e segundo número de Oeste, Paulo de Figueiredo assumia, com sua
incorporação da revista ao aparelho estatal, um lugar de extrema importância. A ascensão de
Figueiredo não foi isenta de críticas e tumultos. Suas relações com o grupo de intelectuais goianos
azedaram. Entre eles, profundas divergências, não somente no entendimento do que era uma revista
literária, mas também divergências políticas e ideológicas os colocavam em campos diferentes:
Estado Novo x liberalismo; autoritarismo x democracia. Gerson de Castro Costa e Vasco dos Reis
foram diretores oficiais da revista e, embora seu nome jamais constasse como responsável pela
publicação, quem, de fato, a dirigiu e controlou foi Paulo Augusto de Figueiredo. Ele reconheceu
em 1983 que
Nunca fui, oficialmente, diretor de Oeste, nem nunca quis sê-lo. Pelo contrário,
sempre instei junto ao Interventor Pedro Ludovico para que designasse outro
nome – sempre um goiano, por mim sempre indicado – para tal posto. Entretanto,
193
Diretor do Departamento Estadual de Estatística de Goiás. In: revista Oeste, nº 06, julho/1943, pp. 14
Historiador de origem nordestina e membro do Departamento Administrativo do Estado de Goiás. Dirigiu também a
Imprensa Oficial do estado.
195
Diretor de Educação do Estado de Goiás, era médico, capitão da Polícia Militar do estado de Goiás e entusiasta do
Estado Novo.
196
Era, no período em foco, Assistente técnico do Departamento Estadual de Estatística. No mesmo período publicou o
livro O ritmo evolutivo da Estatística em Goiaz. Em Oeste, escrevia contos e artigos sobre estatística; é autor também
do editorial número 10. Participou do VIII Congresso Brasileiro de Educação como parecerista de teses não aceitas no
evento.
194
153
é verdade [que] a partir do segundo número, Oeste passou, praticamente, à minha
responsabilidade. (grifos meus)
Na condição de mandatário, Figueiredo escrevia para a revista, convidava colaboradores,
encomendava textos para publicação, vetava os considerados não pertinentes, realizava cortes onde
achava necessário e, por fim, divulgava Oeste nos centros urbanos mais avançados, especialmente,
no Rio de Janeiro, alcançando um controle cada vez maior sobre o periódico. O intelectual carioca
foi conferindo um perfil cada vez mais político à revista; o elogio ao Interventor Pedro Ludovico
foi intensificado e a construção discursiva, portanto, simbólica de Goiânia ganhou destaque nas
páginas do periódico. Ao mesmo tempo, as vinculações com o Estado Novo se consolidavam,
principalmente, através de Figueiredo que, além de representante do governo Vargas em Goiás, era
um importante articulista da revista Cultura Política.
Enquanto se reduzia o espaço destinado à literatura e à crítica literária, reduzia-se muito
mais drasticamente o espaço dos jovens intelectuais goianos na direção e nos rumos de Oeste.
Alguns jovens intelectuais de origem goiana partilhavam convicções políticas com Figueiredo
tornando-se seus colaboradores mais diretos: Gerson Castro Costa, Hélio de Araújo Lobo, Vasco
dos Reis e Juruena di Guimarães. De outro lado, Bernardo Élis, Frederico de Medeiros, Zecchi
Abrahão, Domingos e José Bernardo Félix de Souza, entre outros, discordavam dos rumos que o
intelectual carioca imprimia a Oeste, especialmente, discordavam da defesa do regime
estadonovista e do tom bajulatório com que Pedro Ludovico Teixeira era tratado. Segundo Élis, o
Interventor era ‘[...] figura por todos os títulos respeitável, a quem tais louvações nada
acrescentava, servindo, ao contrário, para criar uma aura de personagem ridícula’.
Apesar de tudo, durante algum tempo, foi possível a convivência no mesmo espaço
editorial. Não ocorreu, de inicio, uma ruptura dramática entre eles. Conforme Domingos Félix de
Souza197, foram feitas concessões, mas ‘[...] sempre o espírito novo, que era frontalmente contrário
ao regime de 1937, conseguia insinuar-se, patentear-se, se fazer ouvir’. Por sua vez, Bernardo
Élis198 comenta que, do segundo número em diante, os jovens goianos começaram a se afastar da
direção de Oeste ‘um pouco por comodismo, um pouco como protesto pelo tom propagandístico da
revista’. E continua, ‘a posição de retraimento e mesmo de crítica adotada pelos jovens goianos era
percebida por Paulo de Figueiredo, que em mais de um artigo ou nota profligava o que chamava de
‘invejosos’, ‘ultrapassados’, ‘despeitados’, etc.’.
Aqueles que se ressentiam com os rumos tomados por Oeste não se retiraram
completamente, continuando a escrever regularmente em seus números, permitindo que seus nomes
fossem publicados como secretários e integrantes do corpo editorial e tendo suas fotos publicadas
197
198
Op. Cit. p. 22.
Op. Cit. p. 30.
154
acompanhadas de referências elogiosas199, vez ou outra, presentes nas páginas da revista200.
Bernardo Élis ironiza que este era um ‘[...] recurso infalível para demonstrar que a intelectualidade
estava coesa com Oeste e seus elogios-bajulação’.
Uma leitura deste processo a partir do pensamento de Michel de Certeau (1994: 67), em
especial, a referência polemológica que trata de “[...] combates ou jogos entre o forte e o fraco, e
das ‘ações’ que o fraco pode empreender” pode aqui ser pertinente. Ganha relevo, então, os
conceitos de estratégia e tática que dizem respeito às relações que, no enfrentamento do cotidiano,
se estabelecem entre aqueles que detém poder e aqueles que dele estão afastados. Tais conceitos
refutam a ideia de uma dominação absoluta por parte dos poderosos e, conseqüentemente, de uma
submissão sem resistências por parte dos dominados. Ao contrário, ao jogar luz, principalmente,
sobre as formas através das quais dominação/repressão e resistências se articulam, os conceitos em
tela permitem um adentrar no universo das práticas cotidianas onde sujeitos destituídos de poder,
valendo-se das ‘astúcias do fraco’, enfrentam e resistem às estratégias do forte.
Desta ótica, a ‘estratégia’ de Paulo de Figueiredo de manter por perto os jovens intelectuais
goianos visava conferir legitimidade a revista que, afinal, tinha pretensões de representar a cultura e
a intelectualidade regionais. Por outro lado, ao se verem desalojados do lugar institucional
alcançado pelo periódico e perderem o seu próprio e o poder dele originário, os jovens intelectuais
goianos instauraram, na revista Oeste, uma ausência presente que pode ser pensada como uma
‘ação tática’ por eles empreendida. Eles jogavam, como afirma Certeau (1994: 100) ‘dentro do
campo de visão do inimigo e no espaço por ele controlado’, operando ‘golpe por golpe’, no
aproveitamento das oportunidades e das ocasiões. Foi assim que, em meio à defesa do regime
autoritário do Estado Novo, ao elogio a Pedro Ludovico e a construção de Goiânia como símbolo
de uma nova era para Goiás e para o Brasil, alguns destes jovens publicaram, na revista Oeste,
textos onde estão presentes a crítica ao autoritarismo, o elogio a liberdade e a defesa da
representatividade popular. A nova cidade-capital é também retratada de forma mais realista.
É o que emana, por exemplo, do conto Grande-Hotel, de autoria de José Bernardo Félix de
Souza, publicado no número seis da revista (pp.22-23), o qual é ambientado no cenário onde se
hospedavam os mais ilustres visitantes da jovem capital e lugar onde se reunia, em jantares e bailes,
a elite goianiense. O conto narra as desventuras de Magda, jovem paulistana que, fugindo do noivo
Carlos em companhia do amante Júlio, chega a Goiânia e se hospeda no Grande-Hotel. Melancólica
e aparentemente arrependida da fuga, Magda compara a capital goiana à cidade São Paulo
199
Neste sentido, o número 06, de julho/1943, é exemplar: em suas páginas foram publicadas fotografias de,
praticamente, todos os que estavam envolvidos com Oeste. Abaixo das imagens, legendas que informam ocupações e
cargos ocupados pelos fotografados seguidas de elogios à sua grandeza intelectual, competência no trabalho e
dedicação à Goiás.
200
Segundo Bernardo Élis. Op. Cit. p. 30.
155
descrendo de suas possibilidades urbanas. Júlio, porém, está convencido de que é ali ‘[...] que se
ganha a grana’. O conto tem um final trágico. O noivo abandonado chega à Goiânia em busca de
vingança: na porta do Grande-Hotel, ‘ouviram-se dois tiros [e] Magda tombou sobre o parapeito [da
janela do quarto onde se hospedara]. [...] Do peito de Carlos, caído na calçada, o sangue saia aos
borbotões’.
J.B. Félix de Souza também é o autor do conto A sorte grande, publicado no número 13
(pp.05-06) onde o personagem principal tem um triste destino depois de vender todas as suas
(poucas) posses e radicar-se na jovem cidade-capital, iludido pela promessa de riqueza e status
social que a propaganda de Goiânia anunciava pelos cantos do Brasil. Na capital da hinterlândia
goiana, o desafortunado personagem encontra dificuldade para instalar-se, é ludibriado por
golpistas perdendo tudo que acumulara com trabalho honesto e duro e, por fim, insano, perambula
pelas ruas poeirentas da cidade-capital. Em uma Goiânia injusta e violenta, desenhada pela pena de
Félix de Souza e tão cuidadosamente ocultada pelos que construíam a ideia de ordem, trabalho e
solidariedade, o oportunismo dos espertalhões coexiste com a esperança daqueles que ansiavam por
um recomeço; a violência das relações explode em meio aos sonhos de riqueza.
Também como ação tática pode ser pensada o ardil mobilizado por Frederico de Medeiros
que, segundo informa Bernardo Élis, é o autor do editorial do número 10, de novembro de 1943,
texto que provocou a implosão da falsa harmonia que reinava em Oeste desde o número dois. É o
momento identificado por Élis como ponto alto da crise que, passados alguns meses, iria culminar
com o término da publicação. Muito provavelmente a escrita deste editorial por Medeiros foi
possível devido à ausência de Paulo de Figueiredo que participava no Rio de Janeiro, do Congresso
dos Presidentes de Departamentos Administrativos Estaduais201.
No editorial, Frederico de Medeiros comemora o aniversário da República. O tom do texto é
de uma velada crítica ao regime autoritário instalado no país e de elogio explícito ao que denomina
‘sentimentos liberais-democráticos’ do povo brasileiro. Medeiros afirma que o advento da república
se constituiu na
[...] mais expressiva exaltação nativista dos sentimentos liberais-democráticos do
nosso povo que, àquela data, banindo a Corôa, chamou para si a responsabilidade
de detentor e conservador da soberania nacional. O maior feito de nossa história,
ideado, trabalhado e executado por brasileiros, sem dádiva de nenhuma
interferência de príncipes estrangeiros. Consumara-se o maior ideal nacionalista,
passando o nosso país a ser conduzido pelas representações populares, rumo aos
seus destinos democráticos, por cujos princípios se bate até hoje o nosso povo, êste
povo nobre e viril que já tem firmada, no conceito internacional, a sua posição de
detentor do mais elevado espírito de liberdade, dentro do direito e da justiça, pelo
201
De acordo com nota publicada em Oeste (nov/1994, p.14), a sugestão para a realização deste congresso partiu do
próprio Paulo Augusto de Figueiredo que também foi o orador da cerimônia de abertura do mesmo.
156
engrandecimento, cada vez maior, da grande e inviolável Pátria Brasileira. (grifos
meus).
Na página três, ao lado deste editorial que clamava pela democracia e fazia uma referência
textual ao liberalismo foi publicado, com o título Sobre a falência do liberalismo, um artigo de
Paulo Augusto de Figueiredo. Registre-se, por sinal, que os artigos de Figueiredo sobre a crise do
liberalismo e a defesa do Estado Novo eram publicados, em todos os números de Oeste, sempre nas
páginas iniciais da revista. São textos onde o autor realiza a crítica ao liberalismo, fundamentado no
pensamento do espanhol Ortega y Gasset, filósofo cujas ideias forneceram o núcleo argumentativo
de defesa do Estado Novo. A base deste núcleo teórica era a centralidade da cultura e a missão dos
intelectuais na regeneração das sociedades nacionais, o que confluía em uma formulação que
aproximava cultura e política. Segundo Rugai Bastos (2006), uma das formas através das quais se
abordava a questão da missão dos intelectuais, no escopo do Estado Novo, era por meio do tema da
geração. Paulo de Figueiredo trata desta temática em vários textos onde, ainda de acordo com
Rugai Bastos (2006: 128), ele
[...] insiste no papel que sua geração deve assumir no processo de transformação da
sociedade, ressaltando o caráter coletivo desse compromisso. Tomando algumas
reflexões de Ortega, o autor considera ser o conceito de geração o mais importante
para a compreensão da história. [...] o sujeito responsável pela mudança histórica é
a geração humana.
Foi justamente esta perspectiva que subsidiou uma agressiva resposta de Figueiredo ao
editorial que celebrava o liberalismo. Tal reação não foi imediata; apareceu sob a forma de artigo
publicado, na página 03, do número 13, de fevereiro de 1944; portanto, três meses depois da
publicação do editorial escrito por Frederico de Medeiros. Mas já no número 12, de janeiro de
1944, pode-se ler também no editorial: ‘[...] Oeste venceu. Venceu, mau grado o boicote dos
invejosos e despeitados, apesar das pragas dos negativistas que, incapazes de construir se
comprazem em destruir.’ As provocações de Figueiredo continuariam até o desaparecimento de
Oeste: no antepenúltimo número da revista202, o intelectual carioca voltava à carga ao afirmar que
[...] tantos figurões e figurinhas que antes me haviam desiludido, certos indivíduos
que me haviam sido anunciados como grandes poetas, grandes oradores, grandes
jornalistas, e que me fora fácil descobrir não passarem de simples ‘bolhas de
sabão’, incapazes de resistir ao sôpro manso da crítica mais tolerante.
No número 13 a resposta do carioca foi contundente e agressiva. O título do artigo - Para
não dizerem tanta bobagem - já sinaliza para o tom adotado por Paulo de Figueiredo. O discurso é
202
No artigo De como um constituinte de 91 se tornou partidário do Estado Nacional, Oeste, nº 21, p. 08.
157
lúdico, polifônico (ORLANDI, 2005), provocativo, perpassado pela ironia, estilo adotado pelo
autor sempre que desejava polemizar. A linguagem é coloquial destacando-se o uso de metáforas; a
forma privilegia diálogos simulados, estando o texto recheado com travessões e reticências.
Comparado aos textos de viés filosófico nos quais Figueiredo discutia os princípios do Estado Novo
bem como as tarefas do Regime, as diferenças saltam aos olhos, tanto no que se refere ao uso da
linguagem quanto à escolha da forma. Nestes, o discurso é autoritário, fechado e pouco polifônico e
escassamente propenso aos deslizes e equívocos; a linguagem é erudita; a forma é tradicional. São
textos onde Paulo Augusto de Figueiredo demonstra autoridade intelectual no trato com os grandes
temas nacionais à luz do pensamento orteguiano.
Em Para não dizerem tanta bobagem, o jovem intelectual carioca começa demonstrando
indignação diante de opções políticas liberais, arrolando tipos humanos que poderiam se identificar
com o liberalismo e suspeitando da existência de liberal-democratas jovens.
Que um sujeito seja comunista ou fascista, compreendo. [...] Agora, o que não
posso conceber é que um camarada, nos dias atuais, possa ser liberal-democrata.
Porque ser liberal, hoje, é ser uma figura ridícula, digna de dó. Admito, sim, um
leguleio em férias liberal. Admito um tipo de espírito enferrujado liberal. Admito
um magnata sem entranhas liberal. Só não posso – porque ofende a inteligência da
gente, o sentimento de dignidade humana da gente, a vontade de justiça da gente, o
desejo nacionalista da gente – é imaginar um moço liberal...
‘Mas será que existe, mesmo, algum moço liberal-democrata?’, continua indagando para
responder em seguida que ‘parece que sim, infelizmente. Causa piedade, sim, tanta estupidez. É
lastimável tanta inconsciência!... […] Pelo menos, liberais se dizem, até com certa jactância, alguns
rapazes. E que jovens, alguns destes liberaiszinhos! Metidos que nem que! Alguns até escrevem
comentários em jornais e revistas!’ e complementa ‘e o pior é que atribuem ao pobre povo as suas
‘convicções’ liberais, como se o povo não tivesse feito uma grande revolução para acabar com o
liberalismo’. O texto prossegue em sua estratégia de suspeitar da presença liberal-democrata,
porém, intensifica uma estratégia discursiva presente desde o seu início e que visava desautorizar os
jovens que se declarassem liberais: ao invés de atacar o liberalismo, mantendo o debate no campo
das ideias, dedica-se a ridicularizar os jovens intelectuais goianos.
Passaram, esses infelizes mocinhos, os olhos por um compêndio qualquer de
história para crianças, escritas por um burguês qualquer [...] e záz! - arvoraram-se
em liberal-democrata, crendo que, ao se proclamarem tais, passaram à categoria de
heróis, dignos, portanto, de um lugarzinho na história, senão do mundo, senão de
sua pátria, pelo menos da biboca onde viram pela vez primeira a luz do dia...
Enquanto isso, os magnatas espertalhões, tão amantes de um regime em que
empanturraram o ventre à custa do suor, do sangue e das lágrimas do povo, jogam
esses ingênuos mocinhos contra os que querem, realmente, melhorar a sorte do
mundo, entoando loas às qualidades excelsas da juventude briosa e indomável...
158
(Grifos meus).
O uso de diminutivos (mocinhos, liberaiszinhos, lugarzinho) e de determinados adjetivos
(infelizes, ingênuos, coitados) conferia ao seu autor um lugar de autoridade e de legitimidade
enquanto infantilizava seus oponentes, tratando-os como crianças ou como tolos. Afirma, em
seguida, que faziam confusão entre liberalismo e democracia, que falavam do que não conheciam e
defendiam, por ignorância e desconhecimento, uma doutrina política falida. Em outras palavras,
banaliza-os, desautoriza-os intelectualmente. Quando mais adiante, repete a indagação – ‘Mas
haverá, mesmo, algum moço liberal democrata?’, seu ataque aos companheiros da revista torna-se
flagrante.
Bem... certeza, mesmo, eu não tenho, não. Contudo, há moços que se dizem
liberais. Talvez, porém, êles não sejam, mesmo, o que pensam. Talvez, sejam, no
fundo, rapazes muito bem intencionados, muito desejosos de serem jornalistas ou
coisa parecida. Talvez que sejam, até, no íntimo, excelentes brasileiros. Talvez –
coitados... - que o que eles pensam que são, ao se afirmarem liberais, é democratas,
confusão aliás um tanto ou quanto perdoável em rapazes insuficientemente
cultivados [...] É que eles ignoram, por completo, os mais rudimentares
conhecimentos de religião, de filosofia, de política, de sociologia, de economia, de
antropologia. [...] Enfim, desconhecem, inteiramente, as raízes, a natureza e o
valor da liberal-democracia, não desconfiando nem de longe, que ela seja a
tradução política de uma falsa concepção do universo, nem desconfiando, também,
que, se ela pudesse ressuscitar, mataria o Brasil, como quase o matou, não fora o
advento do Estado Nacional que, por ser democrático, é visceralmente anti-liberal.
(Grifos meus).
O fechamento do texto é uma recomendação diretamente enviada aos jovens goianos que
louvavam a democracia. ‘Moços liberais, estudem mais, pensem mais, falem menos, não escrevam
nada. Sobretudo, não falem nem escrevam. Para não dizerem tanta besteira... ’, finaliza Paulo de
Figueiredo. O recado chegou aos seus destinatários, mas ao que tudo indica, provocou
ressentimentos em um espectro de sujeitos muito mais ampliado do que o previsto por Figueiredo.
Afinal, o texto que saíra de sua lavra atacava frontalmente a capacidade intelectual e a competência
dos jovens de Goiás em realizar a leitura da realidade vivida sob a luz das explicações filosóficas.
Atitude inaceitável naquele contexto em que os goianos tentavam demonstrar, à nação, o seu valor
intelectual além de tornar visíveis os progressos, a modernização que vinha ocorrendo neste campo
em Goiás, especialmente com o surgimento de Goiânia. A revista Oeste surgira exatamente deste
desejo.
O escritor de O Tronco relembra que a resposta de Figueiredo desagradou a Gerson de
Castro Costa, então diretor oficial de Oeste e um dos jovens goianos que se alinhavam com o
intelectual e político carioca na defesa do regime estadonovista. O relato de Élis203 sugere que
203
Op. Cit. p. 21
159
Figueiredo e Castro Costa tiveram uma discussão séria ‘[...] dando motivo a que [...] se dirigissem
ao interventor Pedro Ludovico pedindo demissão da revista. Ao tempo, até briga de casal se
resolvia em Palácio!’ Outro acontecimento iria tornar ainda mais grave a crise de Oeste. O relato de
Bernardo Élis informa que, à época, Paulo de Figueiredo preparava
[...] uma mensagem dos intelectuais goianos a ser entregue a Getúlio Vargas por
Paulo de Figueiredo pessoalmente [...]. Encarregado de obter assinatura dos
intelectuais, o autor deste artigo procurou o professor Cristiano Cordeiro, fundador
do Partido Comunista, que aqui morava numa semi-clandestinidade, perseguido
que fora em Recife pelos agentes do Estado Novo. Pedindo escusas por não
assinar, Cristiano Cordeiro arrolou como justificativas argumentos tão valiosos,
que o portador da mensagem resolveu não colher assinatura nenhuma e devolveu o
papel a Paulo Augusto de Figueiredo [...].
A recusa de Bernardo Élis, logo apoiado por outros jovens, em recolher as assinaturas dos
intelectuais goianos, certamente, irritou ainda mais Paulo de Figueiredo e fez ‘transbordar o copo’,
na expressão do escritor goiano. O artigo de Figueiredo no número 13 de março de 1943 era
também uma resposta a esta postura. A situação tornou-se insustentável após o pedido de demissão
de Castro Costa e Paulo de Figueiredo. ‘Os jovens componentes do corpo de redação de Oeste
também foram a Pedro Ludovico, pedindo que (diante do afastamento de Gerson e Figueiredo) se
processasse uma re-estruturação da revista, com organização de novos dirigentes, sob pena de eles,
os jovens redatores, se considerarem demitidos’, lembra Elis. Toda a direção do mensário estava
demissionária e, logo, todo o projeto da revista se encontrava em risco.
Havia muito em jogo, mas Pedro Ludovico não teve dúvidas: manteve Paulo de Figueiredo
e aceitou a demissão de Castro Costa bem como do corpo de redatores da revista. No mês seguinte,
marco de 1944, Vasco dos Reis tornou-se seu diretor; Odorico Costa e Juruena di Guimarães ao
lado de Figueiredo compunham o recém-instituído Conselho de Censura. Os jovens goianos,
antigos redatores, não foram oficialmente afastados continuando a publicar em Oeste, porém, com
menor freqüência e serem que seus nomes aparecessem como redatores. Daí em diante, a revista
investiu plenamente na divulgação e propagação dos princípios estadonovistas, mantendo o mesmo
tom de elogio encomiástico a Pedro Ludovico e à sua obra maior, Goiânia. Em dezembro de 1944,
foi publicado seu último número sendo que não há nele quaisquer indícios da terminalidade do
periódico. Tampouco foi publicada na imprensa goiana qualquer referência ao seu desaparecimento.
Oeste simplesmente parou de ser editada alguns meses antes que o Estado Novo vivesse o seu
ocaso.
160
3.4 – Sobre oportunidades, interesses, ideologias e intelectuais brasileiros
Algumas perguntas emanam da história de Oeste desde o seu princípio e ganham força após
a crise que pode ter contribuído para seu desaparecimento. São questões que apontam para um
importante personagem nessa revista Oeste e mesmo na cena goianiense naquele período: Paulo
Augusto de Figueiredo. Afinal, de onde provinha o poder deste intelectual? Qual era o seu lugar no
projeto de poder do Interventor Pedro Ludovico Teixeira? Quais os motivos pelos quais o chefe do
governo estadual, conhecido por valorizar o regional, privilegiou um intelectual estrangeiro e que
colocava em suspeita, justamente, o valor dos jovens intelectuais da terra, acabando por excluir ‘os
moços de Goiás’ da revista que surgia para atender as aspirações da jovem intelectualidade goiana?
A trajetória deste intelectual e o lugar político, intelectual e social por ele ocupado no amplo
espectro do regime estadonovista podem contribuir para pensar possíveis respostas.
Na história de Goiânia, Paulo Augusto de Figueiredo raramente é lembrado; ao contrário, as
referências a ele são, via de regra, rápidas e aligeiradas, não sendo tematizado o importante papel
por ele desempenhado no período em que se deu a construção material e simbólica da cidadecapital da terra dos goyases ou mesmo quando há referências à revista Oeste. Dos relatos que
compõem o corpo de fontes consultadas, somente Bernardo Élis ocupou-se em aprofundar
impressões sobre Figueiredo, chegando mesmo a fornecer uma chave de interpretação para pensar
seus discursos e suas práticas em Oeste. Para ele204, o intelectual e político carioca ‘barganhou’ a
revista que foi mantida, porém, despida de seu caráter literário. ‘Aos escritores seriam dadas
algumas benemerências consubstanciadas na revista e sua divulgação, enquanto os políticos
receberiam o apoio da intelectualidade e o trabalho (gratuito) da propaganda. Dessa barganha,
surgiu Oeste’.
Figueiredo, de fato, se apropriou da revista, direcionando-a na defesa dos princípios e
diretrizes do Estado Novo e, talvez, na de seus próprios interesses. É o que parecia pensar Bernardo
Élis quando afirmou que seus artigos ‘[...] eram uma forma com que [...] pretendia chamar a
atenção para si dos altos governantes do país’205. Embora afirme que se conservou amigo de
Figueiredo apesar das divergências e atritos, o escritor goiano complementou com acidez que, findo
o Estado Novo, Paulo Augusto Nunes de Figueiredo, ‘[...] de malas prontas, mudava-se para o Rio
de Janeiro, onde granjeara um cargo no Governo Federal, vindo depois para Brasília’206. Portanto,
para o literato goiano, o carioca agia movido por seus interesses (de ascensão social e política?), o
204
No Suplemento de Apresentação da edição fac-símile da revista Oeste. Goiânia, 1983, p. 21.
Op. Cit. pp. 22
206
Paulo Augusto de Figueiredo trabalhou junto ao Senado Federal destacando-se aí o período 1964-1985 quando
assumiu o cargo de assessor jurídico do Senado Federal se tornando, mais tarde, vice-diretor administrativo da mesma
instituição.
205
161
que me parece simplista para explicar tão instigante personagem.
Paulo Augusto Nunes de Figueiredo chegou a Goiás em março de 1941 para ocupar a vaga
de professor de Teoria Geral do Estado na Faculdade de Direito de Goiás, que havia sido
recentemente reativada. Tinha 28 anos. Logo em seguida, em agosto do mesmo ano, acumulou o
cargo de Promotor Público na comarca de Bonfim (atual cidade de Silvânia), distante 50 km da
capital. Nos anos seguintes, foi nomeado Procurador Fiscal do Estado de Goiás (1942) e Procurador
Geral do Estado de Goiás junto ao Governo Federal (1945). Mas o grande salto em sua trajetória
em terras goianas ocorreu em 1942, quando foi nomeado, por Getúlio Vargas, para a presidência do
Departamento Administrativo do Estado de Goiás.
Uma análise de sua carreira neste período permite perceber uma ascensão profissional
vertiginosa. Complementado pela interpretação de seus discursos e dos processos onde interferiu
campo político e cultural brasileiro, especialmente no goiano, é possível inferir que Paulo Augusto
de Figueiredo se caracterizava como intelectual determinado e que sabia aproveitar as
oportunidades que se apresentavam para acumular poder e prestígio pessoal. Em Goiânia, destacouse na construção simbólica da cidade-capital: são deles alguns dos discursos mais contundentes
sobre o valor da nova capital para o projeto de integração nacional que Goiânia, em tese,
representou naquele momento. Bernardo Élis207 mencionou a ascensão meteórica de Paulo Augusto
de Figueiredo ao mesmo tempo em que recuperou sua trajetória e traçou um perfil do intelectual
carioca.
Essa pessoa, natural do Rio de Janeiro e formado em Direito por Belo Horizonte,
em cujo meio intelectual entretinha bom relacionamento, era inteligente,
trabalhador, dinâmico, desembaraçado, confiante em si mesmo e ambicioso de
posições, conseguindo em Goiás, depois de desempenhar várias altas funções,
alcançar o posto de presidente do Conselho Administrativo, uma espécie de olheiro
do poder central junto às Interventorias, mas que, na verdade, era tão poderoso
como o próprio governo estadual. Portanto, Paulo de Figueiredo e Pedro Ludovico
Teixeira tinham um quase igual poder político.
Élis fazia referência ao Departamento Administrativo – e não conselho administrativo –
órgão criado na estrutura do Estado Novo para substituir as assembléias legislativas estaduais e que
acabavam por controlar o governo dos interventores estaduais. Tais departamentos eram, ao lado do
sistema de interventoria, os sustentáculos da administração do governo Vargas. Seus membros eram
nomeados por Vargas tendo como critérios, segundo o CPDOC, o favorecimento de antigos grupos
dominantes ou o estímulo à ascensão de novos, o que era condizente com um regime em que a
centralização política e administrativa era vista como fórmula para combater e eliminar as
influências das velhas oligarquias estaduais. Segundo o CPDOC, os departamentos administrativos
207
Op. Cit. p. 30.
162
estaduais eram responsáveis pela
[...] aprovação dos decretos-leis dos interventores, a aprovação e a fiscalização dos
orçamentos estaduais, a avaliação do desempenho e da eficácia dos órgãos
estaduais, e a apresentação de sugestões de mudança, entre outras tarefas. [...] O
que se pretendia era impedir que interesses particulares, locais, pudessem se
sobrepor aos nacionais [além de] neutralizar o poder dos grupos locais que até
então controlavam os governos estaduais com base no sistema de representação
tradicional. Mais do que isso, ao submeter os poderes locais ao poder central, o
sistema permitiu um deslocamento dos esquemas de aliança e lealdade da esfera
regional para a nacional.
O exercício deste cargo, por si só, já proporcionava a Figueiredo ‘[...] livre trânsito na
administração [...]’, conforme relembra Bernardo Élis, e pode explicar a decisão de Pedro Ludovico
quando da crise na revista Oeste bem como seu papel na incorporação da revista como órgão da
administração estadual. O acúmulo de poder e a desenvoltura com o qual o intelectual e político
carioca lidava com o interventor são considerados por Élis como elementos fundamentais para
explicar a existência de Oeste já que, na visão do literato goiano, somente Figueiredo poderia ‘[...]
obter do interventor [...] meios materiais para a criação de uma revista capaz de atender as
aspirações dos jovens [...]’. Bernardo Élis também reconheceu que
Queira-se ou não, há que se reconhecer que a alma de Oeste foi Paulo Augusto
Nunes de Figueiredo; não existisse esse homem, não existiria Oeste, tal como foi.
O goiano mesmo jamais teria a petulância de cobrar de Pedro Ludovico a
mantença de um órgão cultural, coisa que inexistiu antes de Paulo de Figueiredo e
depois dele nunca se repetiu.
O prestígio de Figueiredo, entretanto, não provinha tão somente do poder político que vinha
acumulando e de constituir-se, efetivamente, na presença do Estado Novo em Goiás. Havia ainda
mais alguma coisa: Paulo Augusto de Figueiredo ocupava também uma posição de prestígio no
campo cultural do Regime, o que se revelava conveniente aos anseios e ambições dos goianos. Sua
influência neste campo foi fundamental para a expansão da ideia que Goiânia corporificava, qual
seja a ideia de uma civilização sertaneja como elemento essencial para a integração da nação.
Tributário da interpretação do Brasil como cisão, bem como da ideia da nação que se volta
para o interior, Paulo de Figueiredo colaborou ativamente na construção de representações e
imagens nas quais a jovem cidade-capital de Goiás era representada como símbolo máximo do
desaparecimento do sertão. É de sua autoria, por exemplo, um discurso recorrentemente citado por
intelectuais e políticos goianos a partir de 1942 quando a modernidade de Goiânia foi posta em
dúvida: ‘Goiânia não é coisa para ser vista. É coisa para ser compreendida. Não vale pelo que é,
163
mas pelo que significa’208.
Era um defensor do Estado Novo. Em 1983, reconheceu que ‘fui (e não me arrependo) um
dos [seus] mais entusiastas defensores’. Elide Rugai Bastos (2006: 121) apresenta este intelectual
como um dos autores que ente os anos 1930 e 1940 “[...] dedicou-se a refletir sobre as tarefas
propostas pelo Estado Novo, escrevendo artigos que versavam sobre as relações Estado/Sociedade,
a ossatura do Estado, as tarefas dos governantes, o papel dos intelectuais na regeneração da
sociedade.” Profundo conhecedor da obra do espanhol Ortega y Gasset do qual é considerado um
dos grandes leitores no Brasil, Figueiredo produziu, entre 1940 e 1945, uma crítica contundente ao
liberalismo que via como alternativa falida para o governo das sociedades. Seu foco, condizente
com as diretrizes do regime, era a centralidade da cultura e a missão dos intelectuais na condução
da sociedade, teses fundamentais para o projeto estadonovista.
O domínio do núcleo argumentativo que sustentava tais ideias era dominado por Paulo de
Figueiredo, o que se apresentou como um relevante capital cultural para este intelectual levando-o a
projetar-se ainda muito jovem209 como importante articulista da revista Cultura Política, uma das
principais expressões da política cultural do Estado Novo. Conforme Elide Rugai Bastos (2006), o
debate por ele promovido foi incorporado por vários escritores de então, aparecendo também nos
discursos de Vargas e de alguns de seus ministros, embora, seu nome seja pouco citado entre os
intelectuais daquele período. Paulo de Figueiredo foi um autor importante na cena política e
cultural do Estado Novo embora possa ser pensado como um autor menor, especialmente se
comparado às interpretações clássicas da época como Sérgio Buarque de Hollanda, Caio Prado
Júnior e Gilberto Freire (BASTOS, 2006).
O exercício de altos cargos na ainda incipiente máquina de governo goiano, especialmente,
a função de presidente do Departamento Administrativo, aliada a sua influência e prestígio
intelectual no escopo do Estado Novo e no meio jornalístico e intelectual no centro dinâmico da
nação podem explicar a força de Paulo de Figueiredo junto ao interventor Pedro Ludovico. Em suas
Memórias, publicadas na década de 1970, Pedro Ludovico menciona rapidamente o nome de
Figueiredo, não lhe conferindo qualquer referência mais demorada210, o que pode sugerir que sua
decisão, em 1944, pode ser em muito creditada ao lugar de poder ocupado pelo carioca no escopo
do regime estadonovista. Paulo de Figueiredo, ao contrário, por diversas vezes referiu-se a
Ludovico como ‘imortal goiano’.
A trajetória de Figueiredo e aspectos de sua biografia parecem indicar, como acreditava
208
Em Variações em torno de Goiânia, revista Oeste, nº 06, julho/1943, p.02.
Tinha 27 anos quando em 1941 publicou, no primeiro número da Revista, o artigo O Estado Novo e o Homem Novo.
210
O esquecimento de Pedro Ludovico em relação a Paulo Augusto Nunes de Figueiredo deve, entretanto, também ser
pensado como parte do esforço do próprio Ludovico em constituir-se no maior, talvez único, responsável pela
construção de Goiânia e suposta pela superação da condição de atraso do estado de Goiás (FERNANDES, 2003).
209
164
Bernardo Élis, que o intelectual carioca agia movido por restritos interesses de ascensão
profissional e pessoal. Mas, segundo Nísia Trindade Lima (1999:19), “com frequência a noção de
interesse nos remete a planos distintos de análise (interesse de classe? de grupos organizados com
relativa autonomia?), sem que fique clara a ordenação entre eles, além de obscurecer a ambiência
cultural em que se articulam. O problema consiste [...] em estabelecer vínculos imediatos ente
origens sociais, interesses e ideias”. Com esta reflexão, a autora pretende superar a oposição entre
texto e contexto trabalhando a ideia de que o intelectual fala de si ao falar do mundo e questionando
a concepção que nele vê uma intencionalidade e racionalidade absolutas que faz perder de vista a
biografia e a construção social do intelectual. Diante disso, como pensar os discursos e práticas de
Figueiredo em Goiânia?
Tomo de empréstimo o pensamento de Lima para pensar Paulo Augusto de Figueiredo, seus
discursos e práticas em Goiânia e especialmente no contexto da revista Oeste. Longe de pretender,
agora, responder as questões esboçadas penso que tais questionamentos se constituem importantes
elementos para compreender a centralidade dos intelectuais na cena política regional e nacional
daquele momento. Como avaliar, num quadro interpretativo, a articulação de ideias e o seu efeito
político com o lugar político, profissional e funcional que ocupado por Figueiredo? Que impactos
provocou, em Paulo de Figueiredo, a convivência próxima com um político como Ludovico que
encarnava, em seu horizonte ideológico, as qualidades consideradas desejáveis para dirigir o projeto
de integração nacional da qual era tributário, qual seja uma liderança carismática, esclarecida e
autoritária?
Paulo Augusto de Figueiredo talvez tenha feito de Goiânia um trampolim para sua carreira
profissional e política. Sua trajetória o indica. Mas também muito provavelmente empolgou-se com
a cidade-capital que surgia em pleno sertão goiano. Suas convicções filosóficas e ideológicas o
atestam. Ele empolgou-se com a cidade, com seus ritmos de trabalho e com a mistura étnica que
começava caracterizar seu povo. Mas acima de tudo, penso que enxergou na ousadia dos goianos –
representado sempre por seu líder político, Pedro Ludovico Teixeira – tanto uma oportunidade de
ascensão e crescimento pessoal quanto uma possibilidade para a forja da nação forte e poderosa que
a intelectualidade nacional projetava para o país. Em um de seus artigos publicados na revista
Oeste211, Figueiredo questionava: ‘Mas, então, que cidade havemos de querer?’ E respondia em
seguida: ‘Uma em que se estabeleçam e garantam condições à plena ‘realização’ do homem’.
Seria Goiânia a cidade ideal de Paulo Augusto de Figueiredo Nunes? Se a resposta não é de
todo positiva, a cidade-capital goiana ia, de qualquer modo, se fazendo em meio às aspirações,
esperanças, desejos e sonhos. E, embora, subvertesse as premissas idealizadoras de seus
211
Em O Estado Nacional e o mundo de amanhã, número 08, set/1943, pp. 09-12.
165
construtores e entusiastas - desdobrando-se sobre si mesma e mantendo, junto a si, o sertão da qual
era símbolo de negação – a nova cidade-capital oferecia um cenário que suportava os discursos e as
práticas do intelectual carioca bem como dos ‘moços goianos’. Todos eles foram sujeitos de
extrema relevância na constituição dos sentidos da modernidade e da pertença, formulando uma
discursividade que sedimentou imagens acionadas pelo urbanismo (Goiânia é moderna) e pela
política (Goiânia é o símbolo da unidade nacional). Mas o fizeram realizando deslocamentos e
deslizes sobre esses sentidos que já estavam em circulação antes mesmo que as obras de construção
da cidade fossem iniciadas.
Ao constituir os sentidos da cidade, realizaram uma re-escrita da história goiana. No
discurso daqueles intelectuais, o histórico abandono da nação e o desgoverno interno fora tão
intenso e prolongado e deixara tão decadente a região e seu povo que o melhor seria esquecer
aquele passado e construir outra história, mais edificante e digna. O abandono do sertão pela nação
havia chegado ao fim e Goiás podia exigir um tratamento igualitário do grande pai-país. Pedro
Ludovico e, principalmente, Goiânia colocavam fim também ao abandono interno causado pelo
‘desgoverno’ dos dirigentes oligárquicos goianos da Primeira República. Em Goiaz de ontem e de
hoje, artigo não assinado publicado na Revista Oeste, em 1943, os termos do discurso da negação e
os argumentos para a re-escrita da história regional ficavam evidenciados.
Que era nosso Estado, antes de 30? Uma ficção geográfica? - Não. O mapa
continha, no coração do Brasil, a figura de Goiás. Uma ficção política, uma ficção
política, uma ficção social? - Também não, porque as nossas riquezas ai estavam,
ai estava a nossa gente, ai estava um tipo de governo. E aí, a tragédia. Goiaz de
ontem não era uma ficção, mas uma realidade, uma dolorosa realidade: - riquezas
se perdendo, a gente sofrendo, anulada em doenças e no analfabetismo; e o
governo desgovernado... Goiaz tinha [...] a sua história. Porque há historia e há
historia. A historia goiana, antes da revolução, foi um arremedo de história. A
história verdadeira, a História com 'H' maiúsculo, de Goiaz, esta só começou em
30. (Grifos meus).
Enquanto inventavam Goiânia e a davam a ver assumindo o papel de escribas da história
escrita em letras maiúsculas, seus próprios projetos pessoais, sua pertença a redes intelectuais e
políticas, suas redes de sociabilidade, seus desejos, esperanças e medos, enfim, seus itinerários de
formação interferiram na leitura que fizeram da realidade que os cercava. Minha hipótese é que os
afetava, particularmente, a consciência do lugar subalterno ocupado por Goiás e pelos goianos nos
quadros da vida nacional e que, essa consciência aliada a um desejo de superação que Goiânia
tornou possível, levou-os a realizar leituras inusitadas do pensamento e das ideologias do período
na constituição dos sentidos de/para Goiânia.
166
CAPÍTULO IV
METÁFORAS DE GOIÂNIA: UM CALEIDOSCÓPIO DE IMAGENS
Grande sabedoria é inventar um pássaro sem asas,
descrevê-lo, fazê-lo ver a todos...
Machado de Assis, 1894
4.1 - Arquitetura, ritmos do trabalho, civilidade nas condutas e uma nova ordem social: os
signos da modernidade no sertão
Em 1933, o urbanista Armando Augusto de Godói e o interventor Pedro Ludovico Teixeira
formularam os primeiros discursos da modernidade da nova cidade-capital, ensaiando a invenção
de um grande ‘pássaro sem asas’. São discursos que projetavam a cidade-capital, antevendo seu
papel na modernização do sertão goiano e imprimindo na ainda inexistente Goiânia as marcas da
ruptura com o passado de Goiás. São também discursos pouco polifônicos, conseqüência, talvez, da
sua principal destinação, do seu gênero discursivo e de suas matrizes conceituais bem como das
posições sociais e políticas de seus autores: são relatórios técnicos elaborados, respectivamente, por
um interventor estadual, médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e por um
engenheiro-urbanista, participante destacado na discussão urbanística que, então, animava a
sociedade brasileira.
Ambos, homens sintonizados com as ideologias do progresso e da civilização. Godói
escrevia a Ludovico, interventor de Goiás. Ludovico escrevia a Getúlio Vargas, Presidente da
nação, mas preservava uma tradição política goiana: falava também ao povo goiano fazendo com
que seu relatório assumisse um tom de prestação de contas. O relatório de Godói antecede o de
Pedro Ludovico fornecendo a este, não somente os argumentos, mas também o respaldo científico
de um urbanista renomado. Os dois discursos são peças fundamentais para o estabelecimento de
167
sentidos nos quais a modernidade de uma nova capital se colocava como contraponto a centenária e
bucólica Cidade de Goiás, então capital do estado.
Armando Augusto de Godói elaborou seu Relatório Sobre a Conveniência da Mudança da
Capital depois de inspecionar os arredores da cidade de Campinas, local escolhido para sediá-la;
leu também o relatório212 da comissão que o escolheu e examinou informações obtidas junto à
população e ao prefeito da antiga Campininha das Flores. Antes de tratar da pertinência do local
escolhido e ponderar sobre o planejamento da nova cidade-capital, Godói discorreu sobre ‘a cidade
moderna e sua ação civilizatória e econômica’ apontando o que, na sua visão, se colocava como ‘as
razões do atraso em Goiaz’ e analisando ‘a oportunidade da mudança’ que a construção de uma
cidade nova poderia representar para os goianos213.
Atribuo o pouco ponderável progresso do vosso estado ao fato de nele não ter
podido surgir um centro urbano com todos os elementos necessários para se
expandir e estimular as múltiplas atividades que caracterizam a vida econômica e
social de um povo. [...] É que a indústria e o comércio, em virtude das exigências
resultantes de sua expansão, só se acomodam nas cidades onde se acham reunidos
os elementos que unicamente a vila moderna pode proporcionar. (Grifos meus)
O urbanista abordou o financiamento da construção de uma cidade-capital por um estado
empobrecido como Goiás, a questão dos edifícios públicos, o problema dos transportes e discorreu
sobre a necessidade de extensão da malha rodoviária bem como sobre os destinos dos arredores da
cidade. Tratou ainda da importância da energia elétrica para o progresso da cidade bem como
apresentou a propaganda e a dispensa de impostos como meio de estimular o desenvolvimento
urbano. Somente depois de uma ampla análise que ia bem além dos saberes técnicos do urbanismo,
da arquitetura e da engenharia, o engenheiro-urbanista iniciou a discussão específica que o relatório
propunha abordar: a análise do clima, condições topográficas e hidrográficas, fertilidade dos solos,
possibilidades de abastecimento de água e luz e materiais de construção a serem usados nas obras.
Godói antecipava para Goiânia o que James Holston (1993: 67) afirma ser um traço básico
do planejamento em grande escala na arquitetura moderna: “a vinculação entre um projeto
urbanístico e um programa de mudança social”. Para tanto, seu relatório sustentava-se em uma
visão teleológica de história, ou seja, em uma perspectiva na qual se fala de um futuro imaginado
como a base para a crítica do presente desistorizando, desta forma, o passado. De fato, o urbanista
212
Um trecho deste relatório, elaborado no final de 1932, já sinaliza para o desejo de edificar a modernidade urbanística
na nova cidade-capital. O relatório afirma que '[...] Campinas se acha situada no ponto cêntrico da parte mais populosa
do Estado e a sua topografia das mais apropriadas e belas para a construção de uma cidade urbanísticamente moderna
[...]'. Fragmento do relatório apresentado pela sub-comissão técnica composta dos engenheiros J. Argenta, Jerônimo
Curado Fleurí e Dr. Laudelino de Almeida ao presidente da comissão incumbida da escolha do local para construção da
nova capital, reproduzido no livro Goiânia (1942, pp. 10-12), p. 12.
213
Relatório sobre a conveniência da mudança da capital, reproduzido na íntegra no livro Goiânia (1942:15).
168
formulou um discurso que visava o futuro deslocando-se pelo espaço do país e do planeta. Ao invés
de buscar a história goiana, voltou seu olhar para outros países e regiões brasileiras que construíram
ou mesmo reformaram suas cidades e, com isso, impulsionaram os ritmos do progresso e da
civilização: Belo Horizonte, no final do século XIX e inúmeros exemplos de cidades nos Estados
Unidos, principalmente, mas também na Rússia e na Austrália.
Suas palavras, que desconsideravam o passado e as condições do presente histórico vivido
então pelo estado de Goiás, não cessaram de aparecer nos discursos sobre Goiânia. O primeiro a
buscá-las foi Pedro Ludovico Teixeira em seu relato ao Chefe da Nação. Neste Relatório, os
argumentos do urbanista sofreram seu primeiro deslizamento. Ludovico se apropriou da concepção
de Godói sobre o papel da cidade na mudança social, mas realizou sobre ela um ligeiro, embora
significativo acréscimo, projetando os desejos de pertencimento e de reconhecimento nacionais que
atormentavam as elites da região.
Seu discurso contém, então, as mesmas premissas apresentadas por Godói acrescidas do
elogio à ‘maravilhosa unidade central’ do país e às suas potenciais contribuições. Embora
reconhecesse outras razões para o atraso de Goiás além da centenária Vila Boa, Ludovico reforçou
a ideia, apoiado em Godói, de que aquele era o principal obstáculo para o progresso do estado. Ele
afirmou que
Uma capital acessível, que irradie progresso e marche na vanguarda,
coordenando a vida política e estimulando a econômica [...] é o órgão de que o
estado de Goiaz necessita absolutamente para reivindicar, no seio da Federação, o
lugar de saliência que os seus imensos recursos, as suas possibilidades infinitas já
lhe teriam conquistado [...] se a capital atual, retrogradante, incapaz de promover o
seu próprio desenvolvimento, não lhe tivesse estreitado os horizontes e embargado
os impulsos de engrandecimento. (Grifos meus)
A concepção de Goiânia como órgão absolutamente necessário ao desenvolvimento goiano,
coerente com a formação médica de Ludovico, permitiu ao interventor de Goiás forjar a metáfora
mais comumente encontrada em seus discursos sobre a nova capital: aquela que afirma ser Goiânia
a oxigenação, portanto, pulmão, do estado de Goiás214. Cidade-órgão, cidade-pulmão que oxigenou
o enfraquecido organismo do enorme e pobre corpo estadual, nele imprimindo a agilidade
necessária para a inserção na nação e a entrada na modernidade. As comparações entre a cidade, o
estado e o corpo humano que Ludovico já havia adotado quando examinara a cidade de Goiás como
a um doente terminal, foram recorrentes na constituição dos sentidos de Goiânia como cidadesímbolo da unidade nacional.
Além disso, os saberes oriundos da formação médica aliados a uma visão pragmática do
214
Conforme publicado na revista Oeste, nº 06, jul/1943, capa.
169
mundo confluíram em outra formulação, típica de Ludovico, que continha as ideias de movimento,
atividade e ação também constantes no pensamento do interventor, de quem se pode afirmar que
tendia mais ao pragmatismo do que a quaisquer ideologias. ‘Goiânia foi o estímulo, o excitante, o
choque que obrigou o nababesco paquiderme [o estado de Goiás] a se levantar’215. Naquele
momento (inicio de 1933), a cidade era ainda um projeto em elaboração e os discursos de Ludovico
e de Godói foram precursores na medida em que anunciavam a modernidade da nova cidade-capital
quando ela nem sequer existia.
É ai também que a maioria dos estudiosos da construção de Goiânia localiza um erro de
previsão quanto ao seu futuro: o erro de Armando Augusto Godói quando previu, para a cidade, um
futuro no qual a industrialização era o destino inevitável, postura também adotada por Atílio
Corrêia Lima quando assumiu a tarefa de elaborar o plano urbanístico, a projeção e
responsabilidade técnica na construção dos primeiros edifícios públicos e casas residenciais. Ambos
acreditaram que o surto industrializante que provocava grandes mudanças nas grandes cidades do
Brasil litorâneo atingiria rapidamente a nova capital goiana. Em 1942216, no Batismo Cultural de
Goiânia, depois de ressaltar a ‘dupla natureza e função’ da capital goiana (abrigar e estimular o alto
comércio, os estabelecimentos de crédito e as indústrias), Corrêia Lima afirmou.
Sua indústria não será menos importante. Capital de um dos estados mais ricos em
minérios, poderá ser um centro metalúrgico217 quando nos liberarmos da sujeição
estrangeira. [...] No dia em que se desfizer a lenda insuflada de fora, e que diz ser o
Brasil um país essencialmente agrícola, e que ativarmos a nossa indústria, qual o
papel que desempenhará essa cidade? (Grifo meu)
A história mostrou que estavam equivocados: Goiânia não somente não se industrializou no período
em questão como foi aderindo, aos poucos, a ideologia do ruralismo e à noção da vocação agrícola
do Brasil.
O discurso da modernidade a partir de então foi recorrente. Ela foi identificada em inúmeras
dimensões da jovem Goiânia, vinculadas sempre a indícios da civilização dos comportamentos, das
mentalidades e das práticas e remetidas freqüentemente às possibilidades de reconhecimento da
capacidade criativa e realizadora do povo goiano. O passado de Goiás, nos discursos formulados
por goianos e não goianos é evocado como que para marcar as diferenças entre o antes e o depois
215
Revista Oeste, nº 06, jul, 1943, capa.
Em Goiânia, a nova capital de Goiaz: resumo de um estudo, publicado em Goiânia (1942, pp. 82-112), p. 96.
217
Na verdade, a questão da industrialização da cidade e do estado esbarrou na histórica posição de Goiás nos quadros
da nação. De acordo com Luis Estevam (2001: 38), Goiânia é uma “[...] cidade que, ao contrario de outras [capitais
regionais] nunca recebeu aporte de pólos industriais do Governo Federal. Nem obteve recursos para implantação de
siderúrgicas, petroquímica, aparato portuário ou metal mecânica como diversas capitais receberam ao longo da história
econômica brasileira. [...]”. Para este estudioso, Goiânia tem se industrializado de forma solitária com base em recursos
estaduais e municipais e de empresários e capitalistas que encontram, na região, estímulos e oportunidades para
investimentos privados.
216
170
da cidade: no passado, as feras e índios, donos do sertão, o abandono, o isolamento, a quase
inexistência, a invisibilidade; no presente, a civilização e a modernidade do urbano, o
reconhecimento da nação. O historiador Odorico Costa218, por exemplo, pensou a cidade como ‘[...]
um impressionante marco de civilização’, quase um complemento do discurso de Brito Broca219,
responsável pela secção Literatura Americana na revista Cultura Política, que afirmava ser Goiânia
‘[...] uma nota viva de modernidade na terra das feras e dos selvagens’.
A arquitetura foi objeto dos discursos que constituíam a modernidade goianiense. Sobre ela
se manifestou, por exemplo, Maximiano da Mata (Matma Nago) 220, dizendo que a cidade era ‘[...]
um encantamento para vista. Um espetáculo admirável, u'a maravilha de arquitetura’ e também
Renato de Almeida221, quando a julgou ‘uma obra de arte’ da moderna arquitetura. Os discursos da
modernidade davam a ver o mobiliário e os equipamentos urbanos que compunham a materialidade
urbanística de Goiânia fazendo também o elogio ao modo hospitaleiro e acolhedor do povo que se
formava na jovem cidade-capital. Os intelectuais não goianos que formularam discursos neste
recorte, quase sempre, relatavam impressões de visitas realizadas à cidade, enfatizando a recepção e
acolhimento que recebiam bem como ressaltando os ‘confortos’ que a cidade oferecia aos visitantes
e também à sua população.
Um articulista222 escreveu sobre o movimento das ruas da cidade: ‘Passam caminhões,
bicicletas, gente que apesar da terra vermelha insiste em andar irrepreensivelmente trajada’. Álvaro
de Campos Góes223, advogado e jornalista carioca, comentava as benesses da jovem Goiânia,
elogiando sua culta e elegante sociedade e destacando valores próprios à modernidade como a
velocidade e a pressa que animava o cotidiano da cidade-capital goiana.
Goiânia é uma cidade encantadora. Lá vamos encontrar um espírito de
hospitalidade muito peculiar às outras regiões do Brasil. Os edifícios públicos
estão sendo construídos de acordo com os modernos planos urbanísticos e ruas
espaçosas e avenidas interessantes vão sendo calçadas com asfalto. As construções
vão brotando em todos os sentidos. Há uma ânsia característica do povo, em
chegar a perfeição, dentro do menor espaço que se pode conceber. Escolas,
hospitais, teatros, cinemas, belas praças arborizadas e bem tratadas, uma sociedade
elegante e de grau cultural deveras elevado a torna a formosa capital do planalto do
Brasil Mediterrâneo.
Victor de Carvalho Ramos224, reconhecido e idoso literato goiano, ao contrário, espantou-se com a
modernidade que chegava ao estado, constatando as mudanças ocorridas na região e descrevendo
218
Em Fatos da história de Goiaz, revista Oeste, nº 08, setembro, 1943, p. 07.
Em Visão de Goiânia, revista Oeste, nº 08, julho, 1944, p. 33.
220
Em Goiânia e seu fundador, revista Oeste, nº 06, julho, 1943, p. 14.
221
Na secção Goiânia vista pelos outros, revista Oeste, nº 01, julho, 1942, p.03
222
Brito Broca, em Visões de Goiânia, revista Oeste, nº 18, julho, 1944, p. 35
223
Em Brasil Mediterrâneo, revista Oeste, nº 18, julho, 1944, p. 41
224
Em Goiânia, hoje, é uma colméia no altiplano, revista Oeste, nº 14, março, 1944, p. 24.
219
171
seu estranhamento diante de Goiânia.
Goiânia me apareceu, à noite, logo a minha chegada, como uma cidade estranha
aos meus pagos. Não era daquele Goiaz que eu conhecera em criança. Minha
primeira impressão foi de aturdimento [...]. Ninguém conhecido. Saí à rua para
certificar-me que estava realmente entre conterrâneos. Por toda a parte fisionomias
desconhecidas. Sim, Goiaz havia mudado [...].
Outros símbolos da modernidade seriam fornecidos por práticas inusitadas para os goianos.
As práticas esportivas, por exemplo. Freqüentes na cena urbana da jovem capital, tais práticas
proporcionavam um campo fértil para a forja da ideia de modernidade do sertão de Goiás. As
competições de rua se revelaram, neste sentido, pródigas no fornecimento das situações e imagens
desejadas para a nova capital. A simbólica da modernidade era ressaltada. Carros, ônibus, pessoas
nas ruas, iluminação, barulho, movimento, luxo, gosto artístico, em contrapondo à imobilidade do
campo e do sertão, esses os indícios da modernidade que as festas esportivas traziam para Goiânia.
Com a habitual retórica da exageração, o Correio Oficial do Estado de Goiás em 11 de outubro de
1938, assim se referiu ao Circuito Esportivo de Goiânia225 ocorrido naquele mês.
Ao assistir ao grandioso movimento da cidade, nesses dias de festa, à azafama
diária de uma urbs moderna, com o vai-vem constante de centenas e centenas de
carros e linhas permanentes de ônibus, jogos noturnos em magníficos estádios
feericamente iluminados, os diversos bairros, ruas e avenidas da cidade, com seu
elegante e luxuoso casario em número incontestável, palacetes e palacetes de
gosto artístico, e no dia das corridas, milhares e milhares de pessoas enchendo os
passeios artísticos da rica Avenida 24 de outubro, ladeando a longa pista de
corrida, com o barulho ensurdecedor de inúmeros alto-falantes irradiando as
provas, desse grandioso bulicio e desse movimento formidável, o visitante
dificilmente aceitará que esta cidade possue apenas um lustro de existência.
Ninguém dirá que, há cinco anos, esta cidade, regorgitante de vida e de progresso,
era um deserto verde e tranqüilo, entregue ao sossego das regiões campestres.
(Grifos meus)
A modernidade da cidade-capital também foi ressaltada nos ritmos do trabalho, em
contraponto a suposta indolência e imobilidade de outros tempos. Aqui se evidencia a cidade como
“[...] local da produção e reprodução do capital, produto da sociedade capitalista e, portanto, parte
integrante de processos sociais mais amplos”, como afirma Sant'Anna (2003: 91). Goiânia foi
narrada enquanto ‘[...] grande oficina, onde se constrói e se prepara o ambiente para receber os
primeiros bafejos da civilização’, como pronunciou o prefeito Venerando de Freitas Borges226 ou
225
Circuito de provas esportivas, cujo maior momento eram as corridas de rua (competições de pedestrianismo,
motocicleta, bicicleta, cavalos e até de velocípedes) em várias categorias, realizado anualmente por ocasião do
aniversário de Goiânia, comemorado em 24 de outubro.
226
Em artigo publicado no Jornal Goiânia em 11/12/1935. Reproduzido em Como Nasceu Goiânia? (1942), p. 349.
172
ainda ‘[...] verdadeira escola de trabalho’, como afirmou Joaquim Câmara Filho227, Chefe do
Departamento de Propaganda e Expansão Econômica do estado de Goiás. No Correio Oficial228
ressaltou-se que
Há em Goiânia, nesta hora, uma única preocupação. [...] a do trabalho intenso,
num ambiente de perfeita ordem e de franca prosperidade, para melhor andamento
das obras de sua construção obediente [...]. Assim, por todos os recantos de nossa
capital, desde as zonas centrais, onde habitam os mais felizes, até os bairros
pobres, onde, mal vestidos e sem conforto, vivem os desprotegidos da fortuna, o
hino do trabalho é entoado incessantemente [...]. (Grifos meus)
Os discursos que ressaltavam a cidade como lócus produtivo enfatizavam que, naquele
momento em que a cidade era erguida, o trabalho igualava a todos, nivelando indivíduos, grupos e
classes sociais em um mesmo patamar de solidariedade. A ideia de ordem e prosperidade é
formulada no mesmo discurso no qual os ‘felizes’ moradores do centro da cidade e os ‘mal vestidos
e sem confortos’ habitantes dos ‘bairros pobres’ entoavam, juntos, o ‘hino do trabalho’. Celso
Hermínio Teixeira229 manifestou-se a respeito afirmando que a cidade se constituía como um ‘[...]
ambiente novo que se forma sob a égide do trabalho produtivo que a todos anima e marca,
indiscutivelmente, uma nova fase para Goyaz, estando os goianos integrados em todo esse
movimento de evolução’. O prefeito Venerando230 se pronunciou afirmando que
As castas, tão comuns ainda, instituição ridícula e quasi regulamentada nas cidades
do interior do Brasil, deixaram, ao penetrar o solo abençoado de Goiânia, a sua
indumentária preconcebida, para ceder lugar a essa confusão de indivíduos que
comunga as mesmas ideias, que trabalham para um fim comum. Todos, como que
movidos pelo instinto de conservação, procuram auxiliar-se mutuamente. [...] De
sorte que, em Goiânia, podemos dizer que há uma só família. Todos se atendem e
se acham unidos. (Grifos meus).
James Holston (1993) afirma, a respeito da construção de Brasília, que a ilusão de igualdade
- expressa na ideia de solidariedade entre povo e elites - que aparece sempre que se constrói uma
cidade planejada, parece repousar no estreito contato físico entre ambos. Segundo este autor, a
suposta solidariedade não possui relação com instituições ou direitos políticos, das quais, na
maioria das vezes, os governados são excluídos, mas tem a ver “[...] com o fato de estarem
próximos, de um modo físico, visual, ‘tátil’, a 'coisas' de elite e cercadas de carisma” (HOLSTON,
1993: 214). Tal proximidade, segundo este autor, possibilita que os despossuídos tenham a ilusão
de acesso ao poder e de que são reconhecidos pelos poderosos, fazendo surgir a noção da
227
Em entrevista concedida ao Correio Oficial do Estado de Goiás, em 01/01/1936.
Em Rumo ao Oeste, editorial, 24/08/1938, p. 01 (não assinado).
229
Em artigo publicado no Correio Oficial do Estado de Goiás, em 01/01/1936, p. 04.
230
Jornal Goiânia, 11/12/1935. Reproduzido em Como nasceu Goiânia? (1942), p. 349.
228
173
equivalência entre governados e governantes.
Em Goiânia, a representação de lugar onde as diferenças entre indivíduos eram inexistentes
foi assimilada, inclusive, pelos operários que trabalharam na construção da cidade, apesar das suas
condições precárias de vida e trabalho. Mais que todos, o interventor Pedro Ludovico Teixeira,
político pragmático e populista, tornou possível esta inversão. Afinal, sua presença era constante no
dia-a-dia das obras, entre os operários, nas ruas, nas festas, nos bares e nos lares. Praticamente, todo
operário que trabalhou na construção da cidade podia contar uma história com o ‘Dr. Pedro’,
mencionando seu contato com o interventor.
Segundo o escritor Bernardo Élis231, ‘Pedro Ludovico era visto e esperado nos lugares mais
estranhos e diferentes: ele próprio fiscalizava as obras e estimulava o trabalho, ele sabia quais eram
os auxiliares ou trabalhadores diligentes, inteligentes, negligentes, marotos ou velhacos [...]’. Em
suas Memórias (1973: 64), o interventor afirmou que ‘entregava-se pessoalmente à fiscalização das
obras, porque o dinheiro era pouco e não podia deixar que fosse mal gasto’. A presença do
interventor, entretanto, não se limitava aos ambientes de trabalho ou lugares públicos, imiscuindose também no cotidiano das famílias, conforme continua lembrando o literato goiano no mesmo
relato.
[...] por vários anos [...], criou-se o hábito de se constituir o governo no árbitro dos
problemas da cidade, desde as briguinhas por beira de cama dos casais, até questão
de dinheiro. Dizia-se então que um caminho ligava cada cozinha ao gabinete de
Dr. Pedro, que estava paternalmente a par de tudo. E como estendia suas asas na
defesa de uma pessoa, outras vezes dava o prazo de 12 ou 14 horas para alguém
deixar a cidade.
A ilusão de igualdade entre povo e elites, tão bem sintetizada na figura do interventor de
Goiás, pode ser pensada como uma das muitas estratégias de rompimento com a história goiana,
especialmente, em contraponto as relações discriminatórias vivenciadas na antiga Vila Boa. Era
mais um signo da modernidade que a nova cidade-capital prometia. Ao contrário de uma cidade
cindida entre ‘gente e gentinha’, Goiânia aparecia como lugar onde não havia distinção de classe,
raça ou credo: todos poderiam ter acesso às oportunidades que até então eram privilégio de poucos.
Com a construção da cidade e a transferência da capital, a promessa de uma estrutura social
igualitária parecia se cumprir.
231
Em Memória Cultural: ensaios da história de um povo (1985), p. 51. Em seu relato, Bernardo Élis relembra também
seu primeiro encontro com Pedro Ludovico quando chegou a Goiânia: ‘Em 1937, no fim do ano, veio este escriba a
Goiânia. Seu automóvel encravou num lamaçal da rua 12. Ele e outros ocupantes do carro esforçavam-se para livrar o
veículo, quando se aproxima outro carro possante, e depois de consultas, começa a empurrar o fordeco atolado,
libertando-o. Quando fui agradecer, reconheço que o chofer que nos socorreu não é outro que o dr. Pedro Ludovico.
Eram seis horas da manhã’.
174
4.2 - Entre o antigo e o moderno: ruptura e analogia histórica na legitimação da cidadecapital
Mas, ao mesmo tempo em que era fundamental consumar a modernidade e anunciá-la, era
importante preservar o manancial de cultura tão duramente desenvolvido na região,
particularmente, nas antigas Vila Boa e Meia Ponte (respectivamente, Cidade de Goiás e
Pirenópolis). Mas que patrimônio cultural deveria ser preservado se a imagem de Goiás como
sociedade da ausência era recorrente para pensar o estado? Os viajantes estrangeiros e brasileiros
que estiveram nas antigas minas dos goyases nos séculos XVIII e XIX tingiram com cores fortes
um ambiente de ignorância e a quase ausência de civilização no homem e na mulher da região.
Haveria vida pulsando por baixo do aparente vazio nas longínquas e, muitas vezes, descritas como
agressivas terras goianas? O que compunha o que estou denominando manancial de cultura a ser
preservado?
No XVIII, a partir das necessidades extrativistas, vários povoados foram criados e a
população da capitania de Goiás cresceu com a chegada em massa dos adventícios, população
masculina e solteira, típica das regiões mineradoras. Chegaram também funcionários da Coroa
Portuguesa, religiosos e os próprios bandeirantes paulistas e de suas famílias, as quais compuseram
uma elite cultural na região. Esta elite adotou o modelo de vida civilizada conservando, segundo
Pereira (2002: 40), “[...] mesmo que de forma precária, a cultura ocidental, da qual se consideram
membros [...]”. As principais cidades goianas se fizeram, então, diminutos oásis de civilização,
cultura e arte em uma sociedade majoritariamente composta de não-letrados e que se tornava
progressivamente mais miserável à medida que os mananciais de ouro se esgotavam e avançava,
célere, o século XIX.
No período imperial, apesar do empobrecimento de Goiás, esta elite continuou a cultuar a
erudição ocidental no interior do Brasil ajudando a construir um ambiente cultural no qual música,
literatura, artes plásticas, filosofia, a paixão pelos livros, jornais estavam sempre presentes. Além
disso, os saraus musicais, as representações teatrais, os encontros literários, sempre permeados pelo
culto a língua francesa, foram freqüentes nas cidades de mais desenvolvimento como a capital
Cidade de Goiás e a cidade de Meia Ponte, atual Pirenopólis (PEREIRA, 2002).
Entretanto, o modo de vida das elites - suas práticas e mentalidade -, contrastava
violentamente com o do restante da população pobre e mestiça que, no entanto, não ficou à parte da
produção cultural nas esquecidas terras goianas. Despossuídos de poder, o populacho jogava as
‘astúcias da tática’ (CERTEAU, 1994). Muitas manifestações culturais e artísticas européias se
faziam presentes nos meios populares. Em especial, em um sem-número de pequenas cidades
175
perdidas no imenso território, operou-se “uma extraordinária difusão [...] da narração romanceada e
popular de Carlos Magno e os Doze Pares da França” (Brandão, 1974232 APUD Pereira, 2002: 42),
juntamente com o romance Dom Quixote de La Mancha, propagados principalmente pela oralidade.
As práticas religiosas, especialmente do catolicismo, podem ser consideradas como campo
no qual se realizou uma das mais significativas apropriações da cultura européia em Goiás. A
população, criativamente, alterou alguns rituais católicos bem como seus sentidos e significados.
Algumas destas apropriações foram descritas e analisadas por Carlos Rodrigues Brandão nos textos
reunidos no livro De tão longe eu venho vindo (2004): as folias de reis, as congadas, as cavalhadas,
as festas do divino espírito santo, as danças de são gonçalo. O foco do autor são as festas da fé do
mundo rural goiano sob as quais o autor focaliza especialmente a prece, o canto, o gesto e a dança.
Também Queiroz (1993233 APUD PEREIRA, 2002: 41) afirma que se desenvolveu ali um
catolicismo rústico, mas que ensejava a criatividade das populações.
Dispersos nesses espaços sem fim, e dada à falta de padres [...], tais grupos
isolados criaram figuras santificadas, locais ou regionais, enriquecendo assim o
hagiológico católico; balizaram também suas paisagens com lugares sagrados;
identificando nas vizinhanças de seus povoados sítios que figuravam nas narrativas
bíblicas; inventaram também toda uma hierarquia de agentes do culto, cuja função
era preservar conhecimentos, realizar ritos, manterem vivas as manifestações
religiosas.
Este manancial de cultura precisava, então, ser preservado: afinal, era ali que a vivia a alma
goiana. A valorização da tradição recuperava a Cidade de Goiás, reabilitando-a e fazendo com que
a antiga Vila Boa e a moderna Goiânia se tornassem como que as duas faces de uma mesma moeda.
Criador do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (1933), Colemar Natal e Silva, no discurso de
lançamento da pedra fundamental da entidade, já enfatizava as relações entre a antiga e a nova
capital.
Goiânia, a cidade das realizações ousadas, dos empreendimentos e iniciativas
felizes e construtoras em todos os setores da atividade humana, a cidade que
nasceu grande e já traduz tão bem a vertigem do progresso e da civilização
contemporâneos, não pode viver sem Goiás – o berço querido de tantas tradições
preciosas que um dever cívico imperioso nos induz, não só a guardar, como a
defender. Goiânia e Goiás são duas cidades que se completam, que se devem
entender e que precisam viver unidas: uma é tradição, é o passado repleto de
recordações gratas e afetivas das glórias legítimas [...]; outra é a cidade do
presente e do futuro, a materialização do espírito da época e um prenúncio da
vertigem do porvir234. (Grifos meu).
232
BRANDÃO, C. R. Cavalhadas de Pirenópolis: um estudo sobre representações de cristãos e mouros em Goiás.
Goiânia/GO: Oriente, 1974.
233
QUEIROZ, M. I. P. de. O imaginário em terra conquistada. In: Maria Isaura Pereira de (org.). Reflexões
sociológicas sobre o imaginário. São Paulo/SP: Ceru, 1993
234
Retirado de Realizações e projetos de Colemar Natal e Silva no campo da cultura em Goiás, organizado por Moema
176
O discurso de Colemar Natal começava a flexionar o processo de ruptura com a história que
prevaleceu durante os primeiros anos da construção da cidade. De repente, não era mais tão
importante afirmar a modernidade da cidade como símbolo da ruptura com o passado atrasado e
decadente nem se mostrava necessário atacar e destruir Vila Boa. Ao contrário, o que se afirmava
era o desejo de buscar as tradições, recuperá-las, cuidar para que elas não se perdessem diante da
onda civilizatória que se intensificava. Na verdade, esta inflexão pode ser pensada a partir da ideia
de analogia histórica, a qual, em conjunto com a noção de ruptura, serviu como retórica de
legitimação da nova cidade-capital.
Ruptura e analogia histórica se mostram, assim, como estratégias retóricas complementares
e não contraditórias na medida em que enquanto uma rompe com o passado, promovendo seu
apagamento e saltando em direção ao futuro, a outra reitera os elementos da história que são
considerados dignos de participar do novo. Muitos anos depois, em 1985, Colemar Natal e Silva
rememorou a ambição que animava aquela geração em um discurso que se valia da
complementaridade entre ruptura e analogia históricas.
Não é demais repetir a nossa exortação aos poderes públicos, como intérpretes das
entidades culturais. Quando Goiânia nasceu, iluminada, então pelo ideal de
progresso e evolução em todos os setores da atividade social, sentimos e
proclamamos novo mister, algo mais que a prosperidade material que o
empreendimento pudesse atingir por completo suas finalidades. É isso aí. Como
lançar simultaneamente as bases de uma nova civilização que, mantendo a
tradição de cultura, conquistada pela antiga capital, viesse a amplia-la ainda mais
pelo tempo afora235. (Grifo meu).
Para compreender a retórica de legitimação da nova capital goiana é preciso entender o
contexto de produção destes discursos, o que somente é possível recorrendo à história da
transferência da capital e, por conseqüência, a história da luta contra aqueles que lutaram contra a
ideia da mudança. O movimento antimudancista ficou restrito, quase exclusivamente, à população
da antiga capital que resistiu o quanto pôde à construção de Goiânia e à perda da condição de
capital estadual236. Candice Vidal e Souza (2002) considera que a polarização entre mudancistas e
de Castro e Silva Olival e publicado em 1992, pelo CEGRAF/UFG, p. 179
235
Memória cultural: ensaios da história de um povo, Goiânia, 1985, p. 76.
236
Gomide (2004) considera a respeito que, após a mudança da capital para Goiânia, a Cidade de Goiás viveu um
‘segundo vazio’, (o primeiro corresponde ao período em que os mananciais de ouro se esgotaram e a cidade teve uma
significativa diminuição populacional). Neste sentido, Goiânia foi apontada, pelos moradores da cidade, como um
instrumento político que ajudou a compor o cenário de abandono que a cidade vivenciou por um longo lapso temporal.
Por isso, a resistência e o horror da população vilaboense à nova capital estadual foi profundo e duradouro sendo
somente superado com a progressiva e difícil transformação da centenária cidade em patrimônio histórico estadual,
nacional e, finalmente, mundial. A respeito ver Gomide, Cristina Helou. Cidade de Goiás: da ideia de preservação à
valorização do patrimônio: a construção da imagem de cidade histórica (1930-1978). In: CHAUL, N. F. & SILVA, L.
177
antimudancistas representou um embate entre elites regionais, notadamente, entre grupos da antiga
capital do estado. Deste ponto de vista, os rótulos - mudancistas e antimudancistas - que os
classificaram tiveram, naquele contexto, o significado de adesão ao progresso e manutenção do
atraso, respectivamente.
Em março de 1937, a história do antimudancismo teve fim: Goiânia era, a partir de então, a
capital do estado de Goiás, processo que acabou com a resistência antimudancista e, com ela, a
necessidade de desqualificar a Cidade de Goiás. Era, ao contrário, o momento de atar os fios de
continuidade entre as duas cidades, o que foi compreendido como amarrar, em um mesmo nó, o
passado e o futuro. Contrapondo-se a cisão que ficou estabelecida entre a antiga e nova cidadecapital, este discurso aproximava as duas cidades, amalgamando-as como diferentes momentos de
uma mesma história: a história de Goiás que, finalmente, ganhava a cena na Goiânia menina. Duas
cidades é o título da crônica de Marília Palínea237 (pseudônimo de Maria Paula Fleury Godoy) no
qual, poeticamente, as duas cidades são retratadas em metáforas visuais que remetem ao suposto
espírito de cada uma delas. Goiás era a cidade ‘[...] poética e romancesca [...]. É a cidade dos que
sabem sentir a alma do passado [...] É a cidade-violeta, é a cidade-saudade’ enquanto Goiânia ‘[...]
trêfega e buliçosa, cor de sol e de sangue [...] fala do futuro, fala da esperança’.
Os discursos que aproximavam Goiânia da história e das tradições não deixaram de afirmar
sua pretensa modernidade. Ao contrário, ela foi re-afirmada em novas bases, as quais estabeleciam
um fio de continuidade entre passado, presente e futuro em uma concepção de história enquanto
processo evolutivo no qual um progredir endereçado sempre a patamares mais elevados se torna
realidade. Desta ótica, a cidade-capital que surgia foi vista, ao mesmo tempo, como ‘[...] síntese de
todas as conquistas e glórias do Passado, a consciência do momento histórico da civilização do
Presente e a previsão arrojada, sábia e científica, do Futuro [...]
238
, segundo afirmou Colemar
Natal e Silva. (Grifos do autor)
É interessante ressaltar a análise de Candice Vidal e Souza (2002) sobre o amalgama
tradicional-moderno em Goiânia. Para esta autora, o desejo de ruptura com a tradição foi sendo
matizado à medida que o projeto da nova capital se consolidava ganhando adeptos e defensores
sendo que a ideia de integração entre o tradicional e o moderno mostrou-se em plenitude nas
cerimônias da inauguração da cidade, o chamado Batismo Cultural de Goiânia, em 1942. O
Batismo garantiu a oportunidade para que a intelectualidade nacional também se pronunciasse
acerca da preservação das tradições goianas. Afonso Arinos de Melo Franco, depois de participar
das cerimônias de inauguração da nova cidade-capital, escreveu ao Correio Oficial um artigo
S. D. da (orgs.) As cidades dos sonhos: desenvolvimento urbano em Goiás. Goiânia/GO: Ed. UFG, 2004, pp. 101-136.
237
Revista Oeste, nº 06, jul/1943, p. 18.
238
Retirado de Realizações e projetos de Colemar Natal e Silva no campo da cultura em Goiás, livro organizado por
Moema de Castro e Silva Olival e publicado em 1992, pelo CEGRAF/UFG, p. 178.
178
entitulado Mãe e Filha no qual demonstrava preocupações com os destinos da centenária Vila Boa.
Publicado em primeira página no dia 30 de julho de 1942, o artigo lembrava a experiência mineira e
conclamava o governo estadual a cuidar da antiga capital.
Uma coisa [...] me preocupa entre os festejos do batizado de Goiânia, e é a sorte da
velha Vila Boa. Ouro Preto se salvou, em Minas, por acaso, quase diria por
milagre. Não nos podemos, contudo, fiar em milagres nem em acasos repetidos.
Urge, pois, que, ao lado do engradencimento da nova capital, o governo goiano
cuide energicamente da preservação da velha.
O Batismo Cultural de Goiânia – a inauguração oficial da cidade - concretizou-se em um
extenso programa de festividades, homenagens e eventos como congressos, exposições,
apresentações de música e teatro, inaugurações de obras e equipamentos públicos. A festa
aconteceu entre 18 de junho a 11 de julho de 1942, contando com presença de prefeitos, vereadores,
juízes, promotores, etc. do interior do estado e da população goianiense e de cidades interioranas.
De todas as unidades federativas do país estavam também presente políticos, intelectuais e artistas.
Vários congressos de abrangência nacional foram realizados, entre os quais o VII Congresso
Brasileiro de Educação da Associação Brasileira de Educação (ABE). No ‘coração’ da pátria
geográfica, o Batismo de Goiânia adquiria o sentido de festa da integração nacional e de comunhão
do sentimento nacionalista, reforçando os sentidos que iam sendo tecidos para a nova cidade-capital
goiana.
4.3 – Ver Goiânia, sentir Goiânia, compreender Goiânia: a Cidade-Sertão como símbolo do
Brasil profundo
Cidade acaba com o sertão. Acaba?
Riobaldo Tatarana em Grande Sertão: Veredas, 1967
Além das tentativas de amalgamar modernidade e tradição, outros acontecimentos
condicionaram alterações nos discursos sobre a cidade. É que as críticas à Goiânia, que surgiam
fora do controle dos goianos, provocaram mudanças nos sentidos que iam se constituindo bem
como intensificaram os discursos que construíam simbolicamente a cidade, ampliando o seu raio de
influência. A intelectualidade goiana tendeu, desde 1937, a dirigir seus discursos muito mais para
fora de Goiás, ao contrário do que ocorria antes da transferência quando os discursos eram
direcionados, prioritariamente, ao próprio estado. Ao transpor a dimensão regional, os intelectuais
goianos encontram uma maneira de popularizar e engrandecer a construção da nova cidade-capital
179
e, em consequencia, a si próprios. Constituíam-se, assim, heróis salvadores do povo e das terras dos
goyases.
O discurso nacionalista formulado a partir de então se valeu, em abundância, das imagens
do Brasil como cisão, particularmente, a que estabelecia diferenças e estranhamentos entre sertão e
litoral. O construto teórico de Euclides da Cunha e, particularmente, a tradição paulista do
bandeirismo balizaram uma discursividade sustentada por uma retórica em que se imbricava, de um
lado, a constituição da raça e da identidade brasileiras e, de outro, a dimensão geográfica na
formação da nação. “É como um destino definido como nacional [...]” (VIDAL E SOUZA, 2002:
80) que aqueles intelectuais acreditaram estar sendo construída a nova capital goiana. Seus
discursos buscam explicar o papel de Goiânia, não somente para o progresso de Goiás como antes,
mas principalmente, para o desenvolvimento e integração do Brasil. Como afirmou Odorico
Costa239,
a construção de Goiânia não foi uma aventura e não foi um delírio de patriotismo.
Foi uma obra meditada e uma obra de técnica. Obra alicerçada na fé na terra
dadivosa e alicerçada na confiança nos destinos da grande gente de Goiaz. É obra
que serve a Goiaz, mas serve, muito mais, ao Brasil. É obra que exalta a gente
goiana, mas honra e exalta muito mais a raça brasileira. [...] É uma grande oração
brasileira, rezada ao nosso próprio destino, afirmando a serena confiança no futuro
e na grandeza da Pátria. (Grifos do autor)
A alteração nos discursos que constituíam os sentidos da cidade foi se dando aos poucos,
ancorada tanto naquilo que ocorria no nível da nação quanto derivada dos próprios dilemas
encontrados no contexto interno. No contexto nacional, o movimento modernista nas artes e na
literatura, ao buscar o verdadeiro Brasil, procurou afastar da brasilidade os elementos da cultura
européia, vistos como simples modelos copiados e, com isso, valorizava o tradicional. O amalgama
entre tradicional e moderno estaria, dessa forma, subsidiando a construção da nação. A
modernidade que se anunciava, com mais força, já em 1922 na Semana de Arte Moderna foi
ganhando maior visibilidade a partir da Revolução de Trinta quando o Estado Nacional aderiu à
proposta de ressaltar os valores tradicionais. Era também o momento em que se aprofundavam na
sociedade brasileira sentimentos nacionalistas e desejos pelo desenvolvimento, portanto, pela
modernidade.
Neste sentido, a política cultural de Vargas, intensificada no Estado Novo, criava o terreno
fértil para a ênfase na preservação da tradição na perspectiva de valorizar o genuinamente
brasileiro. Deste ponto de vista, Goiânia pode ser pensada como expressão desse movimento.
Símbolo de ruptura com a história de isolamento e abandono, a cidade que, de início, se apresentou
239
Fatos da história de Goiaz, revista Oeste, nº 08, setembro, 1943, p. 07
180
como sinal de desaparecimento do sertão dos goyases vinculando-se a urbanidade, ao progresso e à
civilização, aos poucos foi sendo significada como ‘mixto de cidade e sertão’, conforme anunciava,
em propaganda, o Grande Hotel de Goiânia, em 1938 e 1939240. Uma imagem ambígua, largamente
utilizada por aqueles que faziam a publicidade da nova cidade-capital de Goiás instituindo os
sentidos de fronteira onde coexistiam dois mundos, o moderno e o tradicional, o campo e a cidade.
GRANDE HOTEL DE GOIÂNIA
O melhor no gênero, em todo o Brasil Central.
Construído sob o mais rigoroso plano de arquitetura moderna.
CONFORTAVEL – HIGIENICO
Panorama admirável – Horizontes magníficos
De suas sacadas o turista poderá contemplar, em toda a sua plenitude, essa luta
ciclopica entre um povo que vai construindo sua cidade e a Natureza virgem,
travada em uma das mais encantadoras paragens do ‘Hinterland’ brasileiro. Duelo
imponente em que a mão do homem apenas aumenta a beleza verdadeiramente
endêmica da paizagem. Mixto de cidade e de sertão.
Visitai Goiânia, a caçula das capitais brasileiras.
E hospedai-vos no
GRANDE HOTEL
Diária: 15$000 e 20$000 (Grifos meus).
No contexto regional, penso que para compreender a natureza da mudança nos discursos
sobre Goiânia, é fundamental recuperar o que denomino anti-discurso da sua modernidade. Tal
discursividade, na verdade, se revela como outro discurso que começou a confrontar a construção
simbólica tão arduamente forjada pelos intelectuais goianos tendo a ideia de modernidade como
núcleo essencial. Com este objetivo, ressalto o impacto das críticas à cidade que, a partir de 1936,
começaram a se avolumar como conseqüência mesmo das dificuldades e problemas vivenciados na
sua construção. Na contramão da atitude de exaltação assumida pelos goianos, tais críticas punham
em dúvida a modernidade de Goiânia, denunciando sua fragilidade e expondo, aos olhos da nação,
um meio urbano acanhado e, de fato, quase rural
Era um urbano que se confrontava, diariamente, com a ainda muito precária estrutura
240
Anúncio publicado no Correio Oficial do Estado de Goiás durante os anos de 1938 e 1939.
181
material de Goiânia e com a permanência de antigas formas de exclusão. Havia muitas ruas ainda
sem asfalto, as nuvens de poeira vermelha eram uma constante no verão enquanto no período das
chuvas, a lama infernizava o cotidiano. Era pequena a rede de esgotos e de água encanada e a
energia elétrica tinha um fornecimento extremamente instável, principalmente, depois da enchente
que, em 1939, destruiu a Represa do Jaó onde era gerada a eletricidade para a nova cidade-capital.
Durante algum tempo, Goiânia ficou praticamente às escuras somente sendo abastecida pela
energia produzida por motores a diesel.
Entre as críticas mais contundentes destacam-se as vozes dos operários que, depois de
atraídos pela promessa de ganhos financeiros e frustrados pela falta e atraso de pagamento bem
como pelas precárias condições de vida e trabalho encontradas na nova cidade-capital, voltavam
aos seus locais de origem onde maldiziam tanto a cidade quanto o estado de Goiás (CHAUL, 2001).
Adolfo Boari241, ajudante de pedreiro e mestre de obras na nova capital, relembra que os que
retornavam aos locais de origem, chamavam Goiânia de ‘terra maldita’. Isto ocorreu entre 1935 e
1936, momento em que Atílio Corrêia Lima igualmente se afastava da responsabilidade técnica do
projeto urbanístico e, embora, não haja clareza quanto aos motivos, o atraso no pagamento de
honorários pode estar entre eles. Nos relatórios técnicos elaborados por autoridades goianas que
estavam envolvidas com as obras de edificação, menciona-se a necessidade de reagir contra o que
chamaram ‘campanha de difamação de Goiás’, principalmente em Minas Gerais e São Paulo242.
Além deste foco de descontentamento, uma visita inesperada de Monteiro Lobato, em 1938,
mostrou-se desastrosa para a construção simbólica da cidade. Lobato chegou sem avisar no vôo
semanal da Vasp e, portanto, não encontrou o habitual cortejo de recepção a ‘ilustres visitantes’ a
sua espera no aeroporto. Depois de caminhar sozinho por ruas cobertas de poeira, hospedou-se no
Grande Hotel e, malgrado seu, faltaram água e energia elétrica, algo não muito incomum naqueles
tempos em Goiânia. O escritor paulista passou a noite na escuridão sem poder fazer sua higiene
pessoal. Aborrecido, na manhã seguinte voltou a São Paulo aproveitando o retorno do avião. Na
capital paulistana, ainda ressentido, relatou suas desventuras na nova capital de Goiás ao jornalista
Marcelino de Carvalho que as divulgou na Gazeta Paulistana no artigo Rumo ao Oeste.
Conforme Bernardo Élis243, antes de partir o escritor paulista deixou, escrito à mão na
mesinha de cabeceira do quarto ocupado no Grande Hotel, um bilhete que continha os versinhos
irônicos e debochados que ofenderam enormemente os goianos e os fizeram cerrar fileiras na defesa
da cidade. ‘Goiânia, cidade linda, que me encanta e seduz. De dia, não tem água. De noite não tem
241
242
243
Em Memória Cultural: ensaios da história de um povo, 1985, p. 76.
Oscar Campos Junior , Superintendente das Obras da Nova Capital. Em Como nasceu Goiânia? (1938), 436.
Em Memória Cultural: ensaios da história de um povo, 1985, p. 58.
182
luz’244. O bilhete foi descoberto, a Gazeta chegou à Goiânia! Foi o bastante: a reação dos
intelectuais goianos foi imediata, mas se estendeu por muitos anos levando-os forjar imagens e
máximas inusitadas para confrontar tão ilustre personagem e todos aqueles que colocavam em
dúvida o significado de Goiânia para o Brasil.
Um dos intelectuais goianos que se manifestaram foi Frederico de Medeiros, a 23 de agosto
de 1938, em artigo de primeira página do Correio Oficial do Estado de Goiás com o título Uma
nota infeliz da Gazeta de São Paulo. Inicialmente, Medeiros lamentou que a cidade não tivesse tido
a oportunidade de conhecer ‘tão importante personagem’ dela somente tomando conhecimento
através do jornal paulistano. Elogios a Lobato pontuam o artigo enquanto o ataque se dirige ao
jornal e ao jornalista que ousavam lançar críticas sobre Goiânia. Ainda mais, lembrou Medeiros, em
um momento em que ‘toda a imprensa do país, [...] tem rasgado largos elogios e merecidos
comentários sobre a nova capital de Goiaz’ e até ‘ilustres filhos da Terra Bandeirante’ não se
cansavam de louvar a luta e a coragem dos goianos em construir uma cidade-capital moderna
mesmo sendo Goiás um estado tão pobre e abandonado. A nota publicada pela Gazeta foi
qualificada como ‘uma nota mentirosa, procurando deprimir Goiânia que já é uma realidade e u'a
maravilha no seu traçado e no seu todo’.
Por fim, Medeiros recomendou prudência aos jornalistas que visitavam a cidade: que
‘demorem mais uns dias’, que ‘fizessem uma visita mais criteriosa’. As palavras finais assumem o
tom de desafio aberto não somente ao jornal e ao jornalista alvos das suas palavras, mas a todos
aqueles que não valorizavam a nova cidade-capital dos goianos. Além disso, são palavras que
contém a linha de atuação daí para frente adotada pelos goianos e também daqueles que se
propuseram a escrever sobre a cidade.
Pois é, senhores jornalistas, voltem até aqui. Mas voltem com boas intenções e nos
previnam antes, para que possam receber condignas recepções nesta capital. Não
venham, como da outra vez, num adejo fortuito de borboleta apressada, que os seus
jornais, na Paulicéia, darão a Goiânia o valor que ela tem. (Grifos meus).
Em 1983245, este intelectual relembrou o ocorrido, mantendo a mesma retórica e argumentos
utilizados na década de 1930, porém deslocando o alvo de seu ataque: agora Monteiro Lobato;
antes, os jornalistas paulistas.
244
Somente Bernardo Elis, em suas reminiscências, faz referência a estes versos. Frederico de Medeiros não tece
comentário algum sobre eles nem qualquer outra fonte consultada. Contudo, os mesmos versos descrevem, na década
de 1940, a cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina (SOUZA, 2005). Recentemente, o governador mineiro,
Aécio Neves, também se valeu deles para elaborar críticas à cidade do Rio de Janeiro. No site ivox.com.br/opiniões, os
versos aparecem, levemente modificados, referindo-se a Olinda em Pernambuco. Os usos em tempos e espaços
distintos na realidade nacional indicam que os versos compõem o imaginário popular brasileiro.
245
Em intelectual por decreto, Suplemento de Apresentação da edição fac-símile da revista Oeste (1983), p. 26.
183
Sapequei um artigo assinado no ‘Correio Oficial’, pedindo ao grande literato,
criador de mundos de fantasia, que descesse à terra para reconhecer o grande
esforço, a luta insana de um povo abandonado em plena hinterlândia brasileira, a
construir sozinho, sem o auxílio de ninguém e com os mais parcos recursos, uma
cidade moderna para sua capital. (Grifo meu)
Intelectuais não goianos também criticaram aqueles que julgavam Goiânia tão somente
pelas ausências que marcavam o cotidiano da jovem cidade-capital. Brito Broca, articulista da
Revista Cultura Política, foi um dos mais eloqüentes. Seu discurso, embora se ocupe em justificar a
pequeneza da cidade, apresenta também traços de desapontamento.
[...] a maioria dos turistas que chega à nova capital experimenta, a princípio, uma
desilusão. Isso porque não se lembra nos primeiros momentos, das circunstâncias
em que se acha condicionado aquele fenômeno urbano; não se lembra de que a
cidade tem seis anos apenas e se encontra no Brasil Central, numa região desértica,
fora do alcance da estrada de ferro, a uma distância imensa do Rio; [...] turistas
mais irrefletidos e irrazoáveis chegam a reclamar ônibus, bondes e tantos outros
elementos de uma grande cidade. Reclama-se muito também contra a terra
vermelha, essas nuvens de poeira, que erguidas a todo momento pelos veículos,
deixam em estado lastimável a roupa de casemira e tornam impossível o uso do
terno branco. De fato, com exceção de duas ou três avenidas, o resto da cidade
ainda não tem calçamento.
A partir daquele momento, afirmar qual o valor cívico e patriótico de Goiânia para a nação
se tornou a principal tarefa a ser enfrentada, o grande e urgente desafio a ser encarado. Tal desafio
levou os intelectuais a realizar deslizes nos sentidos que ora circulavam e que estavam fundados,
em sua maior parte, na ideia da modernidade que Goiânia representava. Considero também que a
ação civilizatória que animou a cidade neste período, a chamada Marcha intelectual para o Oeste,
se delineou também em função da necessidade, sentida pelos de Goiânia, de reagir às críticas à
cidade. Em outras palavras, a ênfase na construção cultural da cidade pode explicar o foco sobre a
cultura neste período: é que além de forjar uma cultura urbana e moderna, pretendia-se - não menos
importante -, demonstrar ao restante do país que no sertão goiano havia, além de uma economia
próspera e uma situação política estável, também civilização e progresso cultural, mesmo em um
meio físico tão precário.
Afinal, além de fazer, eles compreenderam que era necessário também dizer a cidade. Por
isso, a ênfase em mostrar, revelar, exibir. É este contexto que pode ajudar a compreender os
discursos que foram significando Goiânia e agregando, à sua simbologia, as imagens de
modernidade e nacionalismo e contribuindo para compor uma construção histórica que abrange
múltiplas dimensões da realidade regional e nacional como a econômica, a geográfica, a social e a
política que predominam ora aqui ora ali.
Desta perspectiva, avalio que a principal alteração na ordem do discurso dos intelectuais
184
goianos tenha sido a construção da ideia, recorrente a partir de então, de que ‘Goiânia não é coisa
para ser vista; é coisa para ser compreendida. Não é um espetáculo para os olhos, mas um convite à
inteligência. Não vale pelo que é, mas pelo que significa’246. Este pode ser pensado como discursosíntese daquele novo momento. Seu autor foi Paulo Augusto Nunes de Figueiredo. O que esta ideia
contém de mais significativo? Como promove uma inflexão naquilo que vinha sendo dito de
Goiânia? Em que medida alterava as condições de produção dos discursos que constituíam sentidos
para a cidade?
Primeiramente, permitia que os discursos contemplassem a cidade tal como ela se
apresentava em suas ausências. Paulo Augusto de Figueiredo, no mesmo texto, afirmava que
‘encarada a cidade ‘em si’, não se perceberá muito claramente o seu lugar nos quadros dos valores
nacionais. Goiânia [...] vista ‘objetivamente’, não é mais do que uma cidade como outra qualquer’.
O olhar objetivo de Brito Broca247, em 1944, confirmava que a cidade dava ‘[...] a impressão de
coisa meio informe. Há muito de vazio, de indefinido nessas ruas traçadas para serem as de uma
grande urbe, e por enquanto sem trafêgo, sem calçamento e com poucos prédios’. Mas, falta de
água e energia elétrica poderiam ter acontecido em qualquer hotel das melhores cidades do mundo,
pontificou Broca. E em poucas palavras, revelava Goiânia como cidade-fronteira entre dois
mundos: ‘Vou seguindo pela avenida [Goiás]! Entretanto, se continuar [...], dentro de alguns
minutos a cidade desaparecerá e estarei perdido na savana, nas campinas imensas do planalto
central’.
Em segundo lugar, a mudança no discurso, ao deslocar a ênfase da precária estrutura
material da cidade – ‘Goiânia não é coisa para ser vista’ –, secundarizando as percepções visuais
que a vinham significando, lançava o processo de significação na esfera do não perceptível, na
dimensão da ideologia. ‘Não vale pelo que é, mas pelo que significa’. Sua arquitetura e seu plano
urbanístico tornavam-se, então, como que secundários. Não era preciso, afinal, ver Goiânia para
compreender a nova capital de Goiás: o que era necessário eram marcos conceituais e ideológicos
muito específicos, quais sejam a interpretação dualística do Brasil, a noção espacial que localizava
o centro geográfico do país, a epopéia bandeirante e a problemática da unidade nacional.
Tal diretriz concretizou, então, um aparente paradoxo: não era mais necessário conhecer a
cidade-capital goiana para entendê-la e sobre ela se pronunciar. Pelo menos um articulista que
publicou em Oeste adotou esta postura: o professor Luis Gonzaga da Fonseca248, do Sindicato
Mineiro de Jornalistas Profissionais e do Magistério Oficial de Minas Gerais, que escreveu sobre
Goiânia posicionando-se contrário ao
246
Paulo Augusto de Figueiredo, em Variações em torno de Goiânia, revista Oeste, nº 06, julho, 1943, p.2
Em Visão de Goiânia, revista Oeste, nº 18, julho, 1944, p. 32.
248
Em Goiânia, cidade-relâmpago: contribuição a história de Goiaz, Revista Oeste, nº 09, outubro, 1943, p. 23.
247
185
[...] exclusivismo de que só devam escrever a respeito de Goiânia os que com ela
privam de perto, ou os que a conheceram e sentiram 'in loco'. Conhecer e sentir
Goiânia... Ainda não fui contemplado por esta dita insigne. De longe embora,
advinho e sinto Goiânia perfeitamente através de quanto sôbre ela se tem escrito e
através do entusiasmo de seus visitantes.
O efeito imediato e prático da re-orientação que impactou na simbologia de Goiânia foi a
intensificação de discursos sobre a cidade-capital formulados por intelectuais de outras partes do
país. Estes intelectuais, além de fazer o elogio a sua face material, se dedicaram particularmente a
significá-la como núcleo essencial da brasilidade, conferindo uma ênfase na dimensão moral e
cívica da nova capital goiana. O que sobressaía, a partir de então, era a dimensão ideológica na
constituição dos sentidos da cidade.
O sentido ideológico de Goiânia, artigo de Gerson de Castro Costa249, publicado no número
inaugural da revista Oeste é, desta ótica, uma peça discursiva exemplar na medida em que sintetiza
praticamente todos os construtos que participavam da construção simbólica de nova capital. Ali
estão, a simbologia do coração, o bandeirismo e a Marcha para o Oeste, o abandono/desprezo do
litoral pelo sertão e ainda a noção, típica da era Vargas e recorrente nos discursos dos goianos, de
que o povo brasileiro necessitava de dirigentes fortes, esclarecidos e autoritários para progredir.
Contribui para atestar a importância do artigo, o fato dele ocupar a segunda página de Oeste,
figurando ao lado do editorial-programa que lançava a revista.
No texto – sempre tratado como discurso -, o autor realiza um jogo de inversões para
significar Goiânia: primeiro, ao invés de frisar o que Goiânia apresentava no plano material, Castro
Costa reconhecia o que a cidade não era. Na seqüência, dizia o que ela representava.
Goiânia não é a cidade populosa, não é o arranha-céu que não tem, não é o luxo
dos salões, não é a receita pública fabulosa, nem tampouco os cassinos que
porventura queiram ver. É uma grande ideia na vida nacional, é um símbolo.
Conseguiu chamar a atenção de todos os brasileiros para a magna questão das
potencialidades econômico-sociais de nossas zonas mediterrâneas. Fez-se o ponto
de referência para o aquilatamento do valor e da energia moral do sertanejo,
conquanto orientados, um e outro, por administradores idealistas e de visão.
(Grifos meus)
Castro Costa (1942: 01) aborda o sentido ideológico de Goiânia a partir da ideia de uma
epopéia bandeirante, movimento de ‘brasileiros do planalto que escreveram páginas de tão tocante
epicismo, perdendo a vida e ganhando a glória no desempenho de sua nobilitante tarefa [...]’. Ao
dirigirem-se para o interior, para o centro do país, os bandeirantes teriam realizado o principal
249
O sentido ideológico de Goiânia, revista Oeste, nº 01, julho, 1942, p. 02.
186
movimento de formação da nação, continuava o intelectual goiano. Como conseqüência desta ida
para os sertões do Brasil central, o banderismo paulista lançara as bases para que, séculos depois,
de Goiânia partisse um ‘[...] um movimento, até hoje inédito na história do Brasil, de violenta
coordenação de forças centrifugas das possibilidades colonizadoras do Continente Americano’ ou
ainda traduzisse ‘[...] um movimento que parte do centro de nosso território para se irradiar pela
periferia’. Outra inversão de Castro Costa: adotando o ponto de vista geo-espacial, tornava centro o
que era, sociologicamente, periferia e vice-versa.
A localização espacial de Goiás e de Goiânia fazia da nova cidade-capital um ponto de
convergência e um núcleo irradiador, agora não somente para o estado de Goiás e seus vizinhos
territoriais, mas para todo o Brasil e até mesmo para toda a América. O coração faz viver o corpo.
Goiás - e, nele, Goiânia - era o ‘coração do Brasil’. O coração jovem, vigoroso, audacioso e forte
do imenso corpo representado pelo território brasileiro. Órgão que faz pulsar a vida, irradiando-a
até os mais distantes pontos do sólido corpo da nação. Somente indo ao centro é que o Brasil
encontraria seu destino de potência. A localização geográfica fez emergir um discurso que atribuía
a ela (Goiânia) a exclusividade de ser a única cidade brasileira cujo progresso era feito, em ‘luta
insana’, por brasileiros. A única que escapava da colonização estrangeira.
A intelectualidade nacional que dedicava atenção ao surgimento da nova capital de Goiás
também se empolgou com estas possibilidades. ‘Goiânia, tão no coração do Brasil, aí está, obra de
brasileiros, povoada e construída por brasileiros, criação exclusiva de brasileiros, êxito completo
brasileiro’, como escreveu Oto Prazeres em Goiânia (1942: 75). O geógrafo francês, Pierre
Monbeig, professor da USP e cientista de reconhecimento internacional, forneceu o aval da ciência
em Goiânia vista por Pierre Monbeig, artigo publicado no Correio Oficial em 08 de março de
1942: ‘Goiaz é, verdadeiramente, o coração geográfico do Brasil. As suas funções serão as mesmas
desse órgão no organismo nacional’.
A noção da cidade-capital, por sua localização centralizada, como centro irradiador de
civilização e progresso bem como de valores morais caros ao projeto de formação cultural da Era
Vargas aparece subjacente ao uso da metáfora do coração. A função de integração étnica e racial de
Goiânia é continuamente reafirmada com base em sua localização geográfica. A cidade atraía,
‘harmonizando [os] num modo de viver novo’250,
[...] novos grupos humanos variados e diferenciados, vindo de todos os pontos do
país; pelo fato de se estar constituindo, também, em elemento de integração étnica
de nossos tipos antropológicos, oriundos das florestas amazônicas, das caatingas
do nordeste, das coxilhas do sul e da orla litorânea, e que aqui se cruzam,
misturando sangues e caracteres, com o que se vai plasmando um tipo étnico mais
250
Editorial Um homem e uma obra, revista Oeste, nº 06, julho, 1943, p. 01.
187
brasileiro [...] vai aproximando grupos populacionais que aqui se amalgamassam
social e biológicamente, [possibilitando] a formação de uma democracia social e
biológica, tão da essência do Estado Nacional.
Paulo Augusto de Figueiredo251 também se pronunciou a respeito, destacando a missão
civilizatória da nova cidade-capital a partir de seu lugar no espaço territorial.
Goiânia desempenhará, em nossa história, um relevante papel: confundirá norte,
sul, leste, oeste, litoral e sertão, num todo homogêneo e harmônico, reduzirá a
elementos de equilíbrio nossas diferenciações étnicas, neutralizará as
particularidades de nosso caráter, enriquecerá e planificara nossos ideais. [...]
principalmente por sua localização geográfica, está destinada a exercer, no meio
nacional, funções civilizadoras as mais complexas e decisivas. (Grifo meu).
Até mesmo o discurso de Vargas252, pronunciado da sacada do Palácio de Governo em 07 de
agosto de 1940 quando visitou Goiânia, foi apropriado segundo esta perspectiva. Getúlio elogiou ‘o
caráter firme e [a] destemida dedicação patriótica’ dos goianos e enfatizou as grandes armas com as
quais os goianos contavam para o progresso estadual: ‘valentes na guerra, operosos na paz,
realçando, nos homens, a força e, nas mulheres, a beleza, possuem na terra sadia e fértil, tudo
quanto é necessário ao seu maior e mais rápido desenvolvimento’ (Grifos meus). O fragmento a
seguir, entretanto, é significativo das pretensões varguistas relacionadas à colonização do norte e
nordeste do Brasil. Suas palavras:
A visita que ora vos faço é prova de uma concepção renovadora da Pátria grande e
forte. Torna-se imperioso localizar no centro geográfico do país poderosas forças
capazes de irradiar e garantir nossa expansão futura. Do alto dos vossos
chapadões infindáveis, onde estarão, amanhã, os grandes celeiros do país, deverá
descer a onda civilizadora para as planícies do Oeste e do Nordeste. (Grifo meu)
Na lavra dos intelectuais goianos, o discurso proferido por Vargas foi sutilmente alterado,
evidenciando um deslocamento demonstrativo de quais eram, de fato, as expectativas e projeções
que os de Goiás faziam para a nova cidade-capital: não somente irradiar civilização e progresso
para as regiões norte e nordeste, mas atingir todo o país, inclusive a faixa litorânea e suas
adjacências, chegando mesmo a abranger todo o continente americano.
251
252
Em Variações em torno de Goiânia, revista Oeste, nº 06, julho, 1943, p. 03.
Reproduzido em Goiânia (1942, pp. 122-124), p. 123.
188
4.4 – Goiânia, a filha caçula do grande país-pai
Outra metáfora foi largamente utilizada na constituição dos sentidos da cidade. O próprio
Getúlio Vargas a usou quando, em 1940, visitou a cidade. Metáfora que integrava o repertório de
discursos que as elites esclarecidas nacionais faziam uso na perspectiva de forjar, no povo
brasileiro, o sentimento de pertencimento à pátria. Metáfora oriunda da tradição patriarcal brasileira
tão bem sintetizada pelo caudilhismo gaúcho do qual Vargas era tributário. Trata-se da noção do
Brasil como o grande e amoroso patriarca, o país-pai. As distintas regiões, seus amados filhos. ‘O
Brasil [...] deixou de ter áreas mortas e territórios de reserva. Quer sentir-se na plenitude de suas
forças, e mobiliza [...] todas as energias, sem distinguir regiões e sem estabelecer diferenças entre
seus filhos’253, discursou o presidente em Goiânia em agosto de 1940.
Ao se apropriarem do discurso do país-pai, os intelectuais que formulavam discursos sobre
Goiânia conferiram um acento lúdico a esta metáfora, utilizando uma linguagem pertinente às
relações familiares, pontuada por um tom afetuoso e balizada por referências católicas. Porém,
tomando as palavras de Clarice Nunes (1993: 57), se “na metáfora do país-pai a concepção do
povo-criança [...] não morreria de fome nos seus braços e dormiria tranqüilo em seus seios”, dos
discursos dos intelectuais de Goiás emana a mágoa do abandono e o ressentimento pelo
esquecimento com o qual o pai querido vinha tratando aquele seu filho. Mas, apesar das históricas
desigualdades de tratamento, o Brasil era representado como uma grande e fraternal família.
Goiânia era, então, ‘metrópole caçula’, conforme o poema Goiânia254 de Ely Brasiliense ou ainda,
conforme Paulo Augusto Figueiredo, em O Brasil comeu espinafre255,
[...] a filha mais moça e mais bonita do Brasil. Por isso, sua filha predileta.
Robusta, tropical. A cara do Pai. Tem o seu mesmo sentimento sertanejo, o seu
mesmo espírito bandeirante, a sua mesma alma cristã. Breve será moça e se casará.
Se casará com o Espírito-Novo de nossa terra. Se casará, e, forte, bonita, vai dar ao
Brasil vovô de amanhã uma porção de Goianiazinhas.
Também neste recorte, a oposição sertão-litoral mostra-se como núcleo forte das
construções discursivas sobre a cidade e sobre o estado. São discursos que assumem o
ressentimento pelo abandono da região por parte Estado Nacional projetando o ‘complexo de
periferia’ (SENA, 2004) dos goianos e enfatizando sua coragem e ousadia no enfrentamento destes
dilemas. Confrontando um esquecimento histórico, os de Goiás tomavam a iniciativa de construir a
modernidade, diziam os discursos. Antecipando a função do país-pai, a região chamava para si a
253
Reproduzido em Goiânia (1942, pp. 122-124), p. 124
Revista Oeste, nº 04, maio, 1943, p. 38.
255
Revista Oeste, nº 01, julho, 1942, p. 05
254
189
responsabilidade de promover a civilização para então apresentar-se com dignidade da comunhão
nacional, era esse o tom predominante na discursividade dos goianos.
A imagem euclidiana do sertão como o Brasil autêntico e profundo também permeia essa
forma discursiva. É exemplar, neste sentido, o artigo de Zecchi Abrahão256 no qual o autor imagina
um hipotético discurso do grande pai Brasil a seus filhos maiores (os estados mais importantes)
acerca da ascensão à maioridade de seu ‘filho mais modesto, do filho menos educado’. O discurso
assume um tom quase épico.
E na intimidade da família nacional, papai Brasil [...] aproximará os irmãos
maiores, e lhes dirá de outro que está crescendo; de outro que revela assustadora
precocidade. - Goiaz é o filho que fugiu do litoral e foi ressurgir dentro do mato,
dentro do que é mais Brasil, um exemplo de coragem. A sós, sem a assistência do
pai zeloso, foi colher dentro do sertão um dos mais raros frutos de brasilidade.
Esquivou-se, destemidamente, às flechas e às feras; entranhou-se [...] ao recesso
da Pátria, na desobediência cônscia das próprias determinações paternas. E
antecipou todo um trabalho que se imaginara só possível aos adultos
experimentados. Este filho é hoje digno de vós, meus filhos maiores: Goiaz
precipitou sua maioridade, por uma destas provações sublimes. Sem o auxílio das
bússolas necessárias a uma viagem atrevida dessa natureza, trabalhou uma das
mais belas facetas de nosso conjunto étnico-social: a violenta abrasileiração do
oeste. Ele vos merece homenagem; ele vos merece reconhecimento. Merece ser
equiparado a vós. Despi-o do cocar; e daí-lhes as honrarias do herói. (Grifos
meus).
É possível perceber que a valoração da cidade advinha, em muito, da coragem e ousadia de
seus construtores e idealizadores, as quais eram estendidas ao povo goiano. O filho abandonado
conseguira sozinho, superar o descaso do país-pai e, sem rancor, se apresentava agora para a tarefa
de engrandecê-lo. Um elogio que foi continuamente reafirmado pela intelectualidade de Goiás e
assumido pelos de outras partes do Brasil. A representação de Goiás como região decadente,
atrasada, abandonada e só foi seu substrato e o modelo paulista do bandeirismo, sua opção
discursiva. Um discurso que considerou que os goianos formavam uma ‘raça de fortes’257, tal qual a
representação oriunda do povo de São Paulo.
Era este traço marcado pela coragem, pela ousadia e pelo ímpeto dos desbravadores que,
nesta leitura, atribuía nobres significados à Goiânia e a colocava num patamar elevado na formação
da pátria moral. Na ênfase dada ao bandeirismo, conforme se vê no fragmento a seguir258, as ideias
256
Em Nossos irmãos nos conhecem, revista Oeste, nº 01, julho, 1942, p. 18. No artigo, o intelectual elogiava a criação,
em Goiânia, da Rádio-Clube de Goiânia como mais um elemento que contribuiria para que Goiás se tornasse conhecido
nacionalmente, evitando assim as confusões comuns entre, por exemplo, a região goiana e o estado do Mato Grosso.
Afirma o articulista que ‘cessou o perigo de confusão: Bananal e Goiânia distam entre si alguns quilômetros. Entre
índios e homens vestidos à gente branca paira distância até onde não chegue o golpe de uma flecha ou o salto de uma
onça. Mato-Grosso não é capital de Goiaz e nem Goiaz é capital de Mato-Grosso’.
257
Como pontuou Vasco dos Reis, Diretor da Instrução do Estado de Goiás, na revista Oeste, nº 18, p. 22
258
Revista Oeste, nº 06, julho, 1943, editorial Um homem e uma obra, p. 01.
190
de liberdade e glória se vinculam às de força, conquista, domínio, estruturação, hierarquização e
ordenação revelando o projeto autoritário que balizava a constituição de sentidos da cidade e da
nação.
Um acento forte distingue [...] a nova metrópole sertaneja: - o seu caráter
bandeirante. [...] nesse cunho bandeirante está o valor maior de Goiânia, o traço
que a personaliza e a superioriza. Porque bandeirismo é sinônimo de forças
nacionais profundas se agitando em busca de altas expressões; é movimento de
energias raciais aristocráticas orientando-se no sentido de afirmações edificantes;
é a nação mesma em seus instintos de vida mais naturais marchando no caminho
da glória; é ânsia de liberdade; é manifestação de força, é desejo de conquista, é
vontade de domínio, é estruturação e hierarquização de valores, é ordenação
democrática. Bandeirismo é movimento tipicamente nacional, é revelação original
da capacidade dos trópicos, é afirmação de personalidade do homem brasiliense.
(Grifos meus).
Ressalto que a presença paulista na cidade era concreta e não somente simbólica. Como
frisou o geógrafo francês e professor da USP, Pierre Monbeig259, ‘[...] a nova cidade só vive de São
Paulo: os materiais de construção, os gêneros alimentícios, as fazendas, as ferramentas para o
trabalho, tudo que é necessário à vida quotidiana procede de São Paulo’. Os de São Paulo foram,
de fato, aguerridos colaboradores na tarefa de constituir sentidos para a cidade. Foi também Pierre
Monbeig que, antes de escrever que a visão de Goiânia o impelia a conhecer melhor o país e, assim,
amá-lo ainda mais, levantou a questão que pode sinalizar para as tentativas dos goianos de escrever,
para si e para o estado de Goiás, outra história. Ao descrever sua chegada à cidade, no avião da
Vasp, em 1942, questionou260: ‘Essa terra pôde antigamente conhecer uma atividade humana mais
intensa na época da mineração; mas, será a terra do futuro?’ (Grifo meu).
259
No artigo Goiânia, publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 14/09/1938 e reproduzido no livro
do mesmo nome, 1942, pp. 67-72.
260
Op. Cit.
191
CAPÍTULO V
NA CIDADE-EDUCADORA ABREM-SE, RISONHAS, AS PORTAS DO FUTURO
5.1 – O urbano educador: apropriações e deslocamentos na terra dos goyases
Em outubro de 1935 era inaugurado em pleno coração do poder político da cidade em
construção, ao lado do que seria depois o Palácio do Governo, o primeiro edifício público de
Goiânia. Prédio construído para abrigar o Jardim de Infância Modelo, instituição recém instaurada e
experiência única na realidade educacional goiana de então. A cidade não era, ainda, capital. Havia,
há pouco (março/1935), se tornado comarca e município. A população não chegava ainda aos mil
habitantes. A construção da maioria dos prédios públicos sequer havia começado. O próprio Palácio
do Governo era tão somente uma estrutura em construção. Mas, um prédio escolar foi, naquele
preciso momento, ali plantado. A nova cidade-capital goiana ergueu-se em torno de uma escola,
instituição que, não esqueçamos, era símbolo da modernidade brasileira e se fazia daquela forma
símbolo da cidade nascida para ser moderna.
O prédio escolar também inaugurava a presença do Estado na cena urbana da nova cidade
de forma inédita na sociedade goiana, lugar onde se vivia o histórico descaso dos poderes públicos
para com a problemática dos espaços escolares, inclusive e principalmente na Cidade de Goiás. A
escolha pela construção deste prédio, contudo, pode ter sido motivada por questões econômicas e
orçamentárias; questões sempre presentes naqueles movimentados e difíceis anos. Alguns poucos
indícios permitem cogitar sua influência no pioneirismo do prédio do Jardim de Infância em
Goiânia. Ele é, talvez, um dos menores prédios entre os que compuseram a estrutura material do
poder público estadual de Goiânia tendo sido construído antes do surgimento do plano urbanístico
de Atílio Correia de Lima. De um só pavimento, mas ‘obedecendo à padronagem mais moderna’,
conforme noticiou o Correio Oficial de 08 de outubro de 1935 e localizado em um dos cantos
192
arredondados da Praça Cívica, o edifício não foi construído segundo as linhas do art déco que
marcaria os prédios públicos da cidade261. Muito provavelmente, o relativo baixo custo desta
edificação contribuiu para seu surgimento naquele momento.
Porém, pensado como discurso que constituía sentidos para a cidade e referido à luta
antimudancista que foi intensificada nos anos de 1935 e 1936, sinalizava para a prioridade da
educação entre as preocupações daqueles que construíam a cidade. Era um discurso voltado,
prioritariamente, ao mundo goiano e procurava convencer que a nova capital se distinguia da
centenária Vila Boa. A educação, dizia o discurso, era a prioridade; e, reafirmava, é na cidade que
se erguia que ela teria garantido o seu lugar. Neste sentido, o Correio Oficial de 08 de outubro
destacou que aquele era
[...] o primeiro prédio, que se concluiu em Goiânia, o que significa que o ilustre
administrador das Obras colocou, antes de tudo, a instrução, em homenagem da
qual fez erigir o primeiro prédio escolar, como marco primordial da educação das
nossas alegres ventoinhas que o irão, brevemente, povoar de risos. (Grifo meu)
Era, afinal de contas, um discurso que reforçava a promessa dos tempos novos de progresso
e civilização que, desde sempre, a nova cidade-capital trazia consigo. Entre as inúmeras imagens
contidas nesta promessa emergia, carregada de cores fortes, a imagem de cidade-educadora.
Necessária imagem se pensada a importância que a cidade-capital assumiria no projeto de poder
daqueles que sustentaram seu surgimento. Bem-vinda imagem para uma população que já
enxergava as benesses da educação e começava a buscar seu direito a ela. Poderosa imagem, sem
dúvida, em uma região historicamente carente de meios, espaços e tempos dedicados à educação e
cuja população pouco conviveu com livros, professores, escolas, bibliotecas. Região, ainda hoje,
reconhecida nacionalmente pela velha escola que emerge das poéticas lembranças de Cora
Coralina. ‘Escola antiga de antiga mestra./nem recreios, nem exames./ Nem notas, nem férias./ Sem
cânticos, sem merenda’262. Exemplo célebre da escola goiana, tão lembrada263 e, paradoxalmente,
tão pouco conhecida na história da educação brasileira.
261
Este prédio não faz parte do acervo arquitetônico art déco de Goiânia tombado pelo IPHAN.
No poema A escola da Mestra Silvina. In: CORALINA, CORA. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São
Paulo/SP: Global, 2003, pp. 61-65.
263
Poucos historiadores da educação brasileira desconhecem os belos versos que a poetisa Cora Coralina dedicou a sua
escola primária. Há uma apropriação destes versos por parte dos pesquisadores deste campo no Brasil; apropriação que
transforma a escola primária que emerge das lembranças da poetisa de Vila Boa em exemplo célebre da casa-escola
brasileira. Texto recorrente na escrita da historia da escola no Brasil, os versos de Cora parecem perfeitos para tornar
visível a concretude de um tipo de escola que, para o bem ou para o mal, ajudou a formar muitas gerações de
brasileiros. Fragmentos do poema aparecem, na condição de epígrafe, na lavra de Luciano Mendes de Faria Filho e
Diana Vidal em texto publicado na Revista Brasileira de Educação e no segundo capítulo do livro As lentes da história:
estudos de história e historiografia da educação no Brasil. Do poema, os autores ressaltam a descrição dos espaços e
na contabilidade dos tempos escolares. Também Clarice Nunes em A cidade (re) descobre a cidade: reinterpretação da
modernidade pedagógica no espaço urbano carioca 1910-1935 recorre aos versos de Cora para dizer da pobreza e da
precariedade da escola brasileira no início do século XX.
262
193
A histórica escassez de escolas era há muito sentida por uma (pequena) parcela da sociedade
goiana; em especial, por suas elites e por uma classe média que começava a emergir no rastro do
desenvolvimento econômico das décadas de 1910 e 1920. Havia muito tempo que estes grupos
ansiavam por um centro urbano que viesse comportar ofertas educacionais capazes de garantir a
escolarização das crianças e, principalmente, dos jovens goianos sem que saíssem de sua terra natal.
Em 1932, ainda na centenária Vila Boa, sob o pseudônimo Iamerô264, um cronista fazia referência
ao último grito de Goethe a beira da morte para expressar o desejo de educação que ele via
atravessar a região de ponta a ponta. A retórica da exageração, mais uma vez, fornecia a tônica do
discurso.
‘Meher lieht!’ [...] Mais luz tem sido [...] o grito constante que há muito ecôa das
águas imponentes do Paranaíba, até lá bem longe, no norte onde a água encantada
do rio encantado beija a água soberba do rio soberbo - Araguaia e Tocantins. Mais
luz! Foi e tem sido o grito; tem sido e será sempre o grito do goiano.
Desde o último quarto do século XIX265, as elites seguidas depois pelas famílias de
funcionários públicos e pequenos comerciantes, enviavam pelo menos um de seus filhos para
realizar estudos em centros mais avançados do país. Rio de Janeiro e São Paulo eram os destinos
preferenciais, mas cidades do interior paulista e do Triângulo Mineiro como Uberaba, Uberlândia e
Araguari, com as quais o estado mantinha estreitas relações econômicas e culturais, também
recebiam os jovens goianos. Às faculdades de direito e medicina e às escolas militares eram
enviados os filhos homens e as escolas normais ficavam reservadas para as raras mulheres que,
naquele momento, recebiam permissão e estímulo para estudar. Mas, sem dúvida, o ônus financeiro
que recaia sobre muitas destas famílias, muitas vezes, dificultava ou mesmo tornava impossível esta
saída.
Daí a expectativa de que a modernidade de Goiânia viria satisfazer a expectativas destes
grupos. Na luta pela transferência da capital, quando o movimento antimudancista desenvolveu
inúmeras estratégias para impedir que a Cidade de Goiás deixasse de ser o centro político,
administrativo e cultural do estado, já se delineava o papel que a nova capital viria a cumprir na
formação das novas gerações em Goiás. O deputado Oscar Campos Júnior266 pronunciou-se a
264
Instrução. Jornal Voz do Povo, Cidade de Goiás/GO, nº 259, 04/12/1932, p.04.
Anteriormente, alguns jovens goianos estudaram na Universidade de Coimbra. Com base “[...] em relação completa
dos estudantes brasileiros que se matricularam na Universidade de Coimbra, entre os anos de 1771 a 1872, organizada
por sugestão de Afrânio Peixoto [...]”, Genesco Bretas (1991: 88) afirma que, exatamente, 15 goianos ali estiveram ao
longo de um século. Destes, apenas três retornaram à Goiás, onde ocuparam posições de relevo na política e na
magistratura goiana e brasileira. Um deles é o bacharel em matemática João Gomes Machado, o dr. Corumbá, de quem
já tratei anteriormente. A relação dos estudantes brasileiros matriculados na Universidade de Coimbra está transcrita,
segundo Bretas, nos Anais da Biblioteca Nacional, volume LXII – 1940, pp. 137-305.
266
Discurso pronunciado em 04 de julho de 1935 na Assembléia Constituinte do estado de Goiás em sessão em defesa
da emenda de justificação da transferência da capital. Reproduzido em Como nasceu Goiânia? (1938), pp. 435-451
265
194
respeito. No seu discurso há um atrelamento entre o surgimento de um centro educacional e o
progresso do estado.
Quando queremos educar nossos filhos, mandamo-los para fora [...]. A nova
capital será também um centro importante de educação, que impedirá a saída dos
nossos filhos para outros centros educacionais e marcará o passo inicial da nossa
avançada para as formidáveis conquistas do futuro. (Grifo meu).
Nos discursos de intelectuais goianos do período, o surgimento de Goiânia é representado
como uma abertura no campo da educação - em seu sentido amplo e não somente no sentido da
escolarização - bem como uma ampliação das oportunidades e possibilidades de trabalho em
contraponto aos tempos em que a centenária Vila Boa era capital do estado. As lembranças de
Frederico de Medeiros, um dos mais brilhantes moços que animaram a vida urbana de Goiânia no
momento de seu surgimento, permitem reconstituir o ambiente cultural da antiga capital com ênfase
no papel da escolarização naquela sociedade. Através delas, é possível compor um interessante
quadro das dificuldades de acesso à educação e trabalho, principalmente, para a juventude
despossuída da então cidade-capital.
Certas imagens, noções e ideias recorrentes na constituição dos sentidos de Goiânia
permanecem constantes em seu discurso: a ideia de oxigenação contrapondo-se às imagens de Vila
Boa como lugar asfixiado e asfixiante e a representação da nova capital como cidade-educadora e
marco zero da educação em Goiás. O intelectual goiano traçou, nos anos 1980, um retrato
desalentador para a juventude da Cidade de Goiás em meados da década de 1930. Seu discurso é
emblemático, mesmo passadas tantas décadas, da estratégia de apagamento, ocultação e
silenciamento da história da educação goiana bem como da simbologia de Goiânia como ruptura
com a ignorância, a decadência e o atraso.
Dos relatos de Frederico de Medeiros emerge uma sociedade fechada, cindida (em ‘gente e
gentinha’, segundo suas palavras), extremamente limitante para o desenvolvimento dos ‘jovens
principalmente mais pobres [que viviam] asfixiados entre os BELOS MORROS que circundam a
cidade, sem nenhuma perspectiva, sem nenhuma opção para o futuro’267. Tudo na velha capital se
mostrava problemático para os jovens pobres desde o acesso à educação e cultura até o acesso ao
emprego e à renda. A cidade, lembrou o intelectual, ‘no início da década de trinta, era bastante
carente de elementos de acesso à cultura aos jovens pobres’268. As bibliotecas, por exemplo, eram
poucas e excessivamente custosas aos bolsos dos mais pobres ou ainda não oferecer muitas opções
de leitura. Segundo Medeiros,
267
268
Memória cultural: ensaios da história de um povo (1985), p. 88.
Suplemento de Apresentação da edição fac-símile da revista Oeste, 1983, p. 25.
195
Havia o Gabinete Literário Goiano, magnífica biblioteca com os maiores clássicos
nacionais e de além mar [...]. Mas, ao meu tempo, não podia arcar com a fortuna de
três mil réis mensais para me inscrever como usuário daquele manancial de
cultura, restando a Biblioteca São Domingos, do Convento dos Padres
Dominicanos, de onde se podia tirar um livro, às quintas e domingos, mediante o
acessível pagamento de quinhentos réis ao mês. Mas as estantes só abrigavam
livros com histórias dos santos e da coleção Terra, Mar e Ar, com aventuras para
crianças. [...] A melhor leitura era o ‘Correio da Manhã’, ali chegado por via férrea
e jardineira, cujos números, atrasados de uma semana, eu devorava da primeira à
última página.
Restava a escola, outra difícil possibilidade dada a sua escassez na realidade da cidadecapital. As poucas vagas escolares, inclusive no Liceu de Goiás, eram reservadas, segundo
Medeiros269, ‘aos filhos dos coronéis do interior’ que iam com ‘recomendação’ especial ‘estudar na
capital’. Por sua vez, a Faculdade de Direito cumpria tão somente a função de ‘abastecer o Estado
com bacharéis’ e, apesar de ‘precária e sem reconhecimento federal’, era onerosa: ‘muito pouca
gente teria condição financeira’, sentenciou Medeiros. Estudar fora de Goiás poderia ser uma
alternativa, mas quem tinha condições de manter-se estudando em uma grande cidade eram
somente ‘os filhos dos políticos importantes que tinham parente general270 lá fora’. Aos que não
estavam entre estes privilegiados, não recebiam mesada dos pais ou não tinham protetores ricos,
restava virar ‘malandro, dando golpe em pensões de português para não passarem fome’.
Superada a barreira do acesso à escola e a continuidade nos seus níveis mais elevados, os
horizontes dos jovens pobres não se dilatavam. O que fazer depois da escola? O que fazer do
conhecimento obtido na escola naquela terra onde os empregos públicos ‘eram bens de família,
transmitindo-se de pais para filhos’ e onde as vagas empregatícias dos poucos estabelecimentos
existentes eram ocupadas por um filho ou sobrinho do proprietário? As moças ficavam sem ter o
que fazer com o diploma de normalista e a ‘fina educação, aurida no magnífico Colégio Santana’.
Às elas, restava sonhar em ‘estudar no Rio’ de Janeiro ou o casamento com ‘caixeiros viajantes
[...]. Homens viajados, traquejados, de poucas luzes, mas verbosos, atrevidos, insinuantes [...]’ ou
com ‘algum comerciantezinho mais desinibido, iam aprender a bordar, costurar e fazer doces’. Por
isso, o surgimento de Goiânia é saudado por Frederico de Medeiros como um renascimento para os
jovens goianos.
269
Todos os fragmentos que faço uso neste parágrafo se encontram em Memória cultural: ensaios da história de um
povo (1985), p. 88
270
Segundo relatos históricos, era comum a ajuda financeira de militares goianos aos jovens que saíam de Goiás para
realização de estudos superiores em centros urbanos mais desenvolvidos. Mas, Frederico de Medeiros talvez tivesse em
mente o caso de Pedro Ludovico Teixeira. Filho tardiamente reconhecido pelo pai - João Teixeira Álvares, ‘médico
famoso, dono de hospital’ (TELES, 2005: 64) em Uberaba/MG - mediante ação de justificativa de paternidade quando
o futuro interventor já contava 18 anos de idade, Pedro Ludovico teve negado, pelo pai, seu pedido de ajuda para
manter-se estudando no Rio de Janeiro. Contou, então, com a ajuda do marechal goiano Braz Abrantes para cursar
medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro na década de 1910.
196
Quanto a Goiânia, não eram somente as escolas que ajudavam a pintar o quadro da cidadeeducadora. É possível também identificar, na mesma rede discursiva, que era intensa a inter-relação
estabelecida entre as escolas da cidade-capital, as entidades culturais, os jornais e as revistas, os
‘visitantes ilustres’ e a melhoria do nível cultural da população goiana. É o que celebra, por
exemplo, um editorial que comemora a existência da revista Oeste: ‘Goiás está lendo mais... Goiás
está lendo melhor. Goiás está escrevendo mais. Goiás está escrevendo melhor’271. Sob o influxo e a
pressão dos espaços e tempos voltados para a difusão civilizatória (a escola, o jornal, a revista, o
congresso, o museu, a biblioteca, entre outros), a população que começava a ocupar a tessitura
material da cidade-capital ia sendo inserida, na condição de aprendiz, nos ritmos e tempos da
modernidade e da civilização.
Um significativo indício de que Goiânia era tributária da função educativa da cidade é a
presença de Armando Augusto de Godói entre os responsáveis pelo seu plano urbanístico. Godói é
autor do Relatório técnico sobre a conveniência do local escolhido para a construção da nova
Capital de Goiás, peça retórica exemplar do pensamento que se afasta do discurso que encara os
males urbanos unicamente pelo viés do saneamento e começa a pensar a cidade em parâmetros
mais amplos dos quais se desprende o seu caráter pedagógico. Também em seu projeto de gardencities para o Setor Sul da cidade-capital goiana, ficavam evidentes as preocupações do urbanista
com problemas tais como circulação de veículos e habitação explicitando a atenção que dispensava
à relação rua-casa. Neste projeto ele tentou, sem sucesso, decretar a ‘morte da rua’, na expressão de
Holston (1993) já que considerava que esta era ambiente pernicioso do qual os trabalhadores
deviam ser afastados: para tanto, casas confortáveis, higiênicas e acolhedoras na qual pudessem se
refugiar após a jornada produtiva era elemento essencial.
Ao afastar-se do discurso médico-higienista, os urbanistas da década de 1920 re-atualizavam
a noção do urbano que predominava nas elites nacionais: a cidade não era tão somente perigo e
desordem, território da baderna, de arrivistas e aproveitadores. Era igual e potencialmente, se fosse
construída (ou reformada) e administrada sob os auspícios da técnica e da ciência, lugar da elevação
moral dos seus habitantes. Para Armando Augusto de Godói, a cidade-educadora favorecia a
educação do que chamou (1943272 APUD SILVA, 1999: 79) de ‘elite política e econômica’ e a
disciplinarização das massas trabalhadoras. A cidade ideal do urbanista carioca se constituiria em
lugar da produção de indivíduos trabalhadores, saudáveis, ordeiros e aptos a contribuir para o
progresso da nação. Estes seriam dirigidos por uma elite educada pelo urbano; porquanto, uma elite
iluminada pela instrução e direcionada para o progresso científico (SILVA, 1999). A cidade é
pensada essencialmente como espaço do domínio técnico e como espaço organizado pela técnica
271
272
Editorial, nº 07, agosto/1944, pp.01.
A urbs e seus problemas, Jornal do Comércio, 1943, p. 23.
197
urbanística - portanto científica – promoveria, em seus usuários, a adoção de novos modos de agir,
pensar e sentir.
Tal noção está contida nos discursos e perceptível nas práticas levadas a efeito pelos que
construíram simbólica e materialmente a nova cidade-capital de Goiás nos anos 1930/1940. Os
discursos que remetem a ela são inúmeros. Neles, se ressalta desde a potencialidade pedagógica das
obras de edificação da cidade-capital para a formação técnica e moral do trabalhador goiano
passando pelos possíveis efeitos pedagógicos da materialidade urbana até o caráter educativo da
cidade com suas escolas, entidades culturais, teatro, etc. e as possibilidades daí decorrentes para a
aprendizagem de mentalidade e comportamentos modernos. Sintonizado com o debate acerca do
valor educativo do urbano e apostando no relevante papel que uma cidade-capital plantada em
pleno sertão poderia cumprir no projeto de construção da nação, o governo estadual e as elites
intelectuais e econômicas que ali se instalavam buscaram dotá-la de elementos que pudessem
contribuir para a transformação do mundo goiano por meio da educação.
A nova cidade-capital, desde sua idealização, foi investida do papel de educar a sociedade
goiana para os novos parâmetros de sociabilidade que vicejavam por todo o país, sintetizadas na
ideologia do progresso. De acordo com os irmãos Jerônimo e Abelardo Coimbra Bueno273, as
primeiras edificações (prédios públicos e residenciais) da nova capital, sobretudo, adquiriram
[...] uma função altamente educativa. Elas representam os marcos de um avanço
[...], e portanto, devem ser colocadas no ponto mais próximo possível dos fins
colimados: a sincronização de nosso progresso com o dos centros mais avançados
do Brasil; e assim, impressionar bem o espírito de nossa gente para fazê-las sentir
com a evidência dos factos o quanto nós estamos atrazados em relação àqueles
centros, e com argumento insofismável das cousas feitas, convencê-los que este
avanço que se tenta é realizável. Esta função profundamente psicológica,
profundamente educativa, que estas obras necessariamente têm que cumprir, em
sido motivo de nosso zelo em dar-lhes um acabamento o quanto possível perfeito
(Grifos meus).
Assim, a nova cidade-capital deveria tanto impactar na formação de habilidades técnicas
modernas quanto na transformação da suposta mentalidade improdutiva do trabalhador goiano.
Conforme pontificava Oscar Campos Junior, Diretor Geral da Fazenda do Estado de Goiás, em
discurso proferido em julho de 1935 na Assembléia Estadual em defesa da transferência da capital,
A realização de uma obra de vulto como essa, exige o aproveitamento de operários
especializados que terão que vir [...] de centros civilizados. [...] Com a orientação
técnica dos especialistas vão eles [os operários goianos] se tornando habilíssimos,
273
Em relatório apresentado, em 1936, pelos irmãos Coimbra Bueno, Diretores da Superintendência Geral das Obras
de Goiânia, a Oscar Campos Junior, Diretor Geral da Fazenda. Reproduzido em Monteiro, 1938, p. 473.
198
e capazes de rivalizar com quaisquer outros, como já está sucedendo. Ao par disso,
vão adquirindo uma nova mentalidade trabalhadora [...]. Construindo casas
higiênicas e confortáveis, nasce-lhes também o desejo de possuir suas habitações
naquelas condições. Aprendem que o homem faz melhor valer o seu direito quando
reunido em associações coletivas.
Havia muito a ser feito e, como as elites intelectuais e políticas da hinterlândia
comungavam com as representações dominantes sobre o sertão e o sertanejo, consideravam a
situação ainda mais grave diante do supostamente inerte e amolecido povo goiano. Pedro
Ludovico274, por exemplo, demonstrou que suas percepções sobre a gente de Goiás se ajustavam à
discursividade dos intelectuais que seguiam as pegadas de Euclides da Cunha. Seu discurso sobre o
homem goiano é repleto de representações prenhes de negatividade, contudo, incorpora os
deslocamentos nas representações sobre a população sertaneja produzidos pelos intelectuais e
cientistas que, nas décadas de 1910 e 1920, participaram da Campanha de Saneamento dos Sertões.
[...] nosso patrício jeca pode viver sem trabalhar ou trabalhando o menos possível.
Inculto, ânimo amolengado pelas verminoses e pela ação dos trópicos, sem
aspirações, obtendo sempre o essencial para viver com o mínimo de esforço [...]
não passa de um conformado, de um vencido, de uma expressão econômica
negativa. A alimentação ele toma da terra que sobra para todos [...] trabalhando
muscularmente durante dois ou três meses por ano, no trato de um hectare de terra,
o sertanejo garante sua subsistência e a da família, podendo entregar-se à
indolência todo o resto do tempo. (Grifos meus)
Tais representações foram recorrentes na produção discursiva dos intelectuais e políticos
goianos da época, mas, depois do surgimento e afirmação de Goiânia como cidade-capital, percebese uma nítida mudança na tônica do discurso. A mudança diz respeito não somente ao conteúdo,
mas também ao tipo de discurso que preponderou depois do aparecimento da nova cidade-capital.
Do discurso autoritário, portanto, fechado e pouco polissêmico que é preponderante no discurso de
Ludovico passou-se a uma discursividade aberta e lúdica, repleta de polissemia (ORLANDI, 2005).
Tingida de cores poéticas e irreverentes, a negatividade do sertanejo deslizava até confluir na
imagem positiva de um ser que construía seu próprio futuro.
No livro Como nasceu Goiânia? (1938), de Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro, é
possível apanhar, em poucas páginas, alguns destes discursos que considero representativos das
práticas discursivas que forjavam imagens e representações renovadas sobre os goianos. Adotei
para fins analíticos a sugestão de Clarice Nunes (1993: 61) de construir uma textualidade com
fragmentos discursivos na perspectiva de revelar “[...] uma tendência operativa comum” no
tratamento do tema esperando apanhar “[...] menos o conteúdo específico e mais o efeito das
274
No Relatório de 1933, p. 146.
199
relações entre imagens presentes neste conteúdo e que se remetem continuamente umas às outras”
275
.
O homem goiano, no discurso formulado depois do aparecimento de Goiânia, transforma-se
de ser conformado, vencido e inculto em um sertanejo ‘tranqüilo e despreocupado’276, possuidor de
uma ’tendência dispersiva’277. Por isso, mostrava-se ‘alheio a todo e qualquer desenvolvimento’278.
Não era mais uma ‘expressão econômica negativa’; apenas preferia levar ‘a vida sonhando’279.
Povo pacato, ordeiro e resignado, vivia das ‘glórias de um passado [...] de feitos e audácias de seus
maiores’280 estando habituado a uma ‘existência quasi agreste [mas tão] cheia de suavidade e
encanto’281 que ‘nunca ou quasi nunca’ [tinha interesse em] ‘coisas que dizem respeito [...] às obras
que vizem o progresso’282. Finalmente, de ‘amolengado pelas verminoses e pela ação dos trópicos’,
o goiano emerge ‘sadio, cheio de vida’283 e dotado de'284 ‘mentalidade laboriosa’ construindo seu
próprio destino. Aquele jeca, inculto, conformado, vencido era coisa do passado. A moderna e
progressista cidade-capital era a principal demonstração da capacidade criativa e construtiva do
sertanejo goiano. Da jequice, ficou o jeito ‘galhofeiro’ e uma ‘irreverência mordaz’285.
No discurso do interventor, a ideia que o jeca goiano não era o ‘piolho da terra’, seu
‘funesto parasita’- como Monteiro Lobato designou o Jeca Tatu em Velha Praga (1918) - por sua
culpa e responsabilidade se insinua. A inoperância era fruto da doença e da ignorância, as quais
decorriam do abandono e menosprezo dos poderes públicos286; logo, resultado de um Estado
divorciado dos interesses e das reais necessidades do povo. Referido ao mundo goiano, o discurso
falava do abandono praticado pelas oligarquias broncas da Primeira República; referido à nação,
275
Como a autora, faço uso das notas de rodapé para identificar autores e textos/discursos.
Manuel Gomes Pereira, em discurso na inauguração do Grande Hotel de Goiânia. Reproduzido em Como nasceu
Goiânia?, 1938, p. 430.
277
Deputado estadual Oscar Campos Júnior, Op. Cit, p. 301.
278
Venerando de Freitas Borges, prefeito de Goiânia, em artigo publicado no jornal Goiânia em 11/12/1935. Op. Cit.,
p. 348.
279
Manuel Gomes Pereira, Op.Cit., p. 430
280
Op. Cit.
281
Op. Cit.
282
Venerando de Freitas Borges, Op. Cit., p. 348
283
Manuel Gomes Pereira, Op. Cit., p. 430
284
No jornal A tarde, de Ribeirão Preto em 1935. Op. Cit., p. 322.
285
Bernardo Élis, em Memória Cultural: ensaios da história de um povo. 1985, p. 57.
286
Graças à ação redentora da educação e da saúde, o Jeca Tatu passaria, a partir do final da década de 1910, de caipira
indolente e preguiçoso a fazendeiro moderno, típico farmer americano, verdadeiro agente da modernização e da
transformação do mundo rural, portanto, um trabalhador a serviço do progresso da nação. Seu surgimento como ‘piolho
da terra’, outro adjetivo inicialmente usado por Lobato para qualificá-lo, e a transformação pela qual passou são
representativas dos sentidos do sertão para a construção da nação, das saídas e soluções propostas e das práticas
efetivadas para que o vaticínio do autor de Os Sertões de tornasse possível e o sertão, finalmente, se fundisse à
civilização moderna. No momento do surgimento de Goiânia, o escritor paulista já retocara o retrato do personagem
que criara em 1914. Por sua vez, o retoque do Jeca se deve à adesão de Monteiro Lobato ao movimento sanitarista e ao
seu envolvimento com cientistas da Campanha de Saneamento dos Sertões, movimento que “[...] desempenhou papel
importante na afirmação profissional de Monteiro Lobato, como escritor e editor, e na divulgação de suas ideias para
um círculo mais amplo de leitores” (LIMA, 1999: 145).
276
200
remetia ao abandono do sertão pelo Estado Nacional.
Um Estado que não percebia que havia um remédio para o mal que enfraquecia o corpo
pátrio e diminuía, quando não aniquilava, as forças latentes da nação: se tratado em suas doenças e
iluminado pelo farol da educação o homem sertanejo poderia vir a contribuir para o
engrandecimento do país. Para os intelectuais e políticos de Goiás, seria a nova cidade-capital a luz
no fim do túnel; o grande e poderoso farol que faria desaparecer o jeca goiano, obra de dirigentes
comprometidos com o progresso e com o bem-estar de todos que habitavam a região. A cidadecapital era erigida monumento de uma nova história para Goiás. Mas, a história escrita em
maiúsculo exigia o desaparecimento do caipirismo associado ao mundo goiano. Para tanto, era
fundamental incrementar a atividade econômica, o que basicamente significava, naquele momento,
construir estradas pelas quais a produção agropecuária pudesse ser escoada e expandir o papel do
Estado na sua regulação.
Uma urgência desta regulação dizia respeito ao caráter autoritário que, historicamente,
balizou a ocupação produtiva das terras goianas e sustentou as relações entre capital e trabalho. Não
raras vezes, a posse e a ocupação da terra ocorreram em meio a disputas sangrentas nas quais o
poderio econômico dos grandes fazendeiros representava o fiel da balança. Não raras vezes, os
proprietários rurais puderam contar com o aval do poder instituído dando origem, inclusive, às
várias crises de governabilidade que, durante toda a Primeira República, mobilizaram a política
goiana. Neste contexto, o sertanejo despossuído de terras, o roceiro, o agregado, o chamado
camarada, estava à mercê dos senhores da terra.
Uma das primeiras medidas dos governantes do pós-Trinta tentava lidar com esta questão.
De acordo com Maria Nepomuceno (1994: 33), o decreto-lei 411 de 23 de dezembro de 1930
tentou remodelar as relações entre fazendeiros e trabalhadores rurais e, assim, “[...] regularizar o
mercado da força de trabalho, garantindo com isso as pré-condições necessárias à sua futura
‘qualificação’, pelos processos educativos”. Note-se que a promulgação desta medida legal ocorreu
pouco mais de dois meses depois da ascensão dos novos governantes goianos; era ainda quase
véspera de natal, o que permite considerar a urgência com que esta questão se impunha.
Tentava-se acabar com o regime de caramadagem287, o qual se constituía numa disfarçada
forma de escravidão que não era mais condizente com os novos tempos. O decreto em tela instituía
um salário mínimo, reservando ao trabalhador a guarda da caderneta onde eram anotadas as
compras no armazém e atribuía o trabalho de fiscalização da locação de serviços à Secretária de
Segurança Pública. Tal legislação “[...] constituía uma tentativa reparadora, isto é, ‘renovadora’, na
287
O regime de camaradagem sustentava-se em um acordo entre o fazendeiro e o trabalhador rural (o camarada). O
primeiro oferecia um salário, que, na verdade, o segundo não chegava a receber já que seus rendimentos mensais
ficavam retidos como pagamento da moradia e da conta do armazém (mantido pelo fazendeiro) onde retirava gêneros
alimentícios.
201
medida em que buscou, ainda que no nível legal, modificar a situação a que estava submetido o
camarada” (NEPOMUCENO, 1994: 34).
Mas, se era necessário criar condições que promovessem processos de qualificação do
trabalhador rural para, assim, alavancar os processos produtivos que garantiriam, para Goiás, um
lugar de relevo entre as unidades federativas brasileiras, igualmente era imperativo cuidar da
educação do povo para que o estado pudesse conquistar o lugar de prestígio e poder que suas elites
ansiavam naquele momento. Não bastava saliência econômica; as elites goianas ansiavam por algo
mais: queriam demonstrar o valor intelectual da gente goiana, da qual se julgavam os representantes
mais legítimos. Desejavam provar que em Goiás havia não havia somente babaçu, milho, gado,
‘[...] mas, também... cabeças’, conforme se escreveu na revista Oeste. Mais que tudo, era a sua
imagem de letrados que davam a ver como imagem do povo goiano. Por isso, a importância que a
educação, de modo geral, e escolas, especificamente, assumiam no seu projeto de poder.
As elites intelectuais e políticas de Goiás estavam atentas aos movimentos originários do
centro da nação, dentre eles, a educação, para a qual se voltavam todos os olhares. Educação
humanística, técnica, ensino universal, ensino setorizado, laico e agnóstico, confessional, católico,
tradicional, novo, público, privado, voltado para as elites ou direcionado para a educação popular;
qualquer que fosse os termos do debate e das ações, “todos concordavam, contudo, que optar por
esta ou aquela forma de organização, controle ou orientação pedagógica, significaria levar a
sociedade para rumos totalmente distintos, de salvação ou tragédia nacional” (SCHWARTZMAN,
BOMENY & COSTA, 2000: 69). Investida da roupagem de principal elemento construtor da
nação, a educação se tornava a principal arena do debate ideológico de então. Em sua forma escolar
seduzia pela possibilidade de transformar modos de pensar, sentir e agir de uma população que não
era pensada como povo e pelo potencial de mobilidade e participação social que colocava a
disposição. Seduzia, enfim, porque aparecia como o melhor – e para muitos, o único – caminho
para a modelagem de uma sociedade descrita em termos de amorfia (CARVALHO, 1989).
A nova cidade-capital dos goianos pode, desta ótica, ser pensada como fruto da confluência
de um intenso debate sobre a necessidade da modernidade e no qual sobressaíam os temas do rural
e do urbano e, amalgamados a eles, a questão do trabalho e da formação do trabalhador e o papel
inequívoco da educação para que o país, enfim, se tornasse moderno e superasse para sempre a
condição colonial (CARVALHO, 1989). No interior deste debate emergiu a noção da cidade
educadora bem como reapareceu, em novas roupagens, o discurso sobre o desaparecimento do
sertão. A discursividade que significou Goiânia como símbolo de modernidade e pertencimento e as
práticas que sustentaram tal representação valeram-se à larga desta construção intelectual e
ideológica acrescendo a ela elementos que distinguiam a cidade-capital goiana.
Nesta construção, Goiânia foi significada como centro da nação autêntica. Uma cidade
202
composta de modernidade e tradição no coração do verdadeiro Brasil. Cidade-símbolo da fusão
entre uma civilização sertaneja, tradicional e, por isso, autêntica e uma civilização litorânea,
moderna e dinâmica, embora contaminada por ideias e práticas estrangeiras e, portanto, pouco
brasileira. Diante desta simbologia, o desejo pela modernidade e a necessidade de educar o povo
goiano apareciam como saídas – e como exigência - que levariam a região ao alcance de um lugar
entre as unidades federativas brasileiras.
Os ‘filhos do coração do Brasil’288 compreendiam que o Brasil passava, naquele momento,
por um processo de ajustamento às exigências colocadas pela modernidade e pela expansão
capitalista no qual a escola ocupava importante espaço; e vislumbraram que, no interior daquele
processo, finalmente era ‘soada a grande hora de Goiaz’, conforme afirmou o interventor Pedro
Ludovico Teixeira289. A educação se apresentava como caminho para o Brasil; porque não seria
para Goiás? Aderiram, então, a grita nacional pela educação das massas. Ou melhor, aderiram ao
rico, intenso e apaixonado debate sobre a educação e a escola que a sociedade brasileira naquele
momento vivenciava agregando à simbologia de Goiânia a imagem de centro escolar do sertão.
5.1.1 - Práticas e presenças educativas em Goiânia
A cidade, então, se fez enquanto potência pedagógica. Era uma tendência que ganhava, ano
a ano, mais força no discurso e na prática das elites nacionais. A cidade-capital goiana foi investida
de caminho para a transformação do inculto e caipira povo sertanejo. Em sentido lato, tudo em
Goiânia educava sob a ótica de civilização das mentalidades e dos costumes, instituindo novos usos
do espaço e delineando uma arquitetura do tempo a reger a vida da cidade e de seus moradores. A
materialidade da cidade educava com suas ruas, avenidas e praças numeradas, as quais impunham a
aprendizagem de novos e estranhos padrões de orientação espacial; as habitações construídas em
moldes higiênicos condenavam velhos costumes e instituíam novas práticas domésticas e de manejo
e usos do corpo; os novos ambientes tentavam produzir sociabilidades mais urbanas e de acordo
com os padrões considerados modernos e civilizados.
Além do valor educativo emanado da materialidade urbana, discursos e práticas novas
adentravam o universo cultural goiano. Palavras cheias de americanismos, estranhas à realidade
sertaneja: era a festa de réveillon onde se devia usar smoking; nas tardes de sábado e domingo, a
juventude praticava o footing; o cinema difundia os westerns americanos com seus cowboys; nas
288
Conforme Gerson de Castro Costa em matéria sobre cursos complementares, Jornal O Popular, 02/04/1939, p.03.
No Relatório de 1933, p. 60. Esta frase tornou-se, depois, uma espécie de slogan do período Pedro Ludovico (19331945).
289
203
sorveteiras, se vendiam milk-shakes e banana-splits. E ainda, o convívio cotidiano com as
autoridades do governo estadual e municipal e com os cultos e modernos ‘moços de Goiás’ que,
cercados de carisma, circulavam na cidade exibindo novas maneiras de vestir-se, falar, andar,
comportar-se a mesa, nas rodas de conversa, etc.
Especialmente depois da transferência da capital (1937), Goiânia viveu um tempo no qual
cerimônias se sucediam na cena urbana. Inaugurações de prédios, de ruas e avenidas, de praças,
abertura de entidades culturais, recepção a visitantes, bailes, festas, desfiles escolares, competições
tornaram-se quase rotineiros, fazendo com que o cotidiano assumisse uma face ritualística. Um
cotidiano marcado por rituais que cumpriam uma dupla função: conferiam uma identidade urbana à
jovem cidade-capital ao mesmo tempo em que serviam como contextos educativos da população
que se formava. A cidade assumia plenamente, através deles, sua função educadora.
Cidade sem estrada de ferro, sem trilhos e locomotivas, Goiânia ganhou outros símbolos de
modernidade que igualmente funcionavam como dispositivos pedagógicos: o aeroporto e os aviões
que traziam e levavam os visitantes e as autoridades locais, promovendo um movimento de
recepções e despedidas que marcavam a cena da cidade com demonstrações de civilidade e
urbanidade. Chegadas e partidas fizeram, então, parte daquela cultura urbana em formação
assumindo caráter ritualístico e cerimonial: a cada partida, a cada regresso, formava-se uma
despedida, uma recepção, a impressa divulgava convidando a população, convocando os estudantes
a comparecerem uniformizados para saudar quem chegava para conhecer a cidade-capital ou dela ia
embora.
Efetivou-se um conjunto de iniciativas que um cronista da cena goianiense
290
chamou de
Marcha Intelectual para o Oeste, cujas características educativas são evidentes. Foram inúmeras as
frentes de atuação ali desenvolvidas sendo que, através delas, novas práticas, ideias e valores
adentraram o sertão dos goyases, transformando os cotidianos e trazendo, à população em
formação, a vertigem do urbano. O governo estadual foi seu grande e maior promotor e
patrocinador subsidiando a criação de revistas, promovendo concursos literários e certames
esportivos, organizando congressos, financiando viagens e até mesmo acolhendo intelectuais e
lideres político-partidários refugiados do Estado Novo na expectativa de sua contribuição para a
vida cultural da cidade291.
Devo ainda ressaltar um dispositivo pedagógico inusitado: a presença constante e sempre
celebrada de ‘visitantes ilustres’ e de caravanas – as embaixadas - compostas de estudantes,
290
Jornal O Popular, ano I, nº 79, 08/01/1939
É o caso, por exemplo, de Cristiano Cordeiro, líder do Partido Comunista em Pernambuco que, refugiado em Goiás,
foi professor no Liceu de Goiás e chegou a escrever para a revista Oeste, principal órgão de imprensa goiano na defesa
do Estado Novo. Apadrinhou também turmas de normalistas da Escola Normal Oficial e bacharelandos da Faculdade de
Direito de Goiás.
291
204
intelectuais, jornalistas, empresários, políticos e artistas que, de várias partes do Brasil, chegavam
para conhecer a cidade-capital e interagir com seus pares goianos. As fontes indicam que o governo
estadual, entidades culturais e empresários da cidade-capital convidavam e patrocinavam muitas
dessas visitas. Elas expressam, a meu ver, um movimento cultural e também político das elites
intelectuais e políticas da capital goiana em direção aos padrões modernos de pensamento e ação.
Os visitantes tornavam possível mostrar ao povo goiano, de modo geral, e aos habitantes de
Goiânia, a importância da cidade e seu reconhecimento nacional como espaço de uma cultura
urbana, sintonizada com os ditames da modernidade. Tentava-se forjar, na população goiana, um
sentimento de orgulho e também de pertencimento que se vinculava, simultaneamente, ao nacional
e ao moderno.
Eram presenças que, mais que conhecer a nova capital do estado, apareciam como modelos
de civilidade e urbanidade atuando, enfim, como ícones de uma modernidade que se anunciava
viável a partir da emergência da cidade. A imprensa local, especialmente o Correio Oficial e O
Popular, mantinham colunas com títulos como ‘visitantes ilustres’, ‘estão na cidade’, ‘um giro
pelos hotéis’, ‘vimos na cidade’, entre outros, que divulgavam estas presenças. Não era raro que o
visitante fosse convidado a conceder entrevista ou a publicar seus escritos nos jornais e revistas da
cidade-capital. Dependendo de sua importância nacional ou ainda da atenção que dispensava a
região e a sua capital, era recepcionado no aeroporto, saudado pelas autoridades estaduais e
municipais e festejado com bailes e churrascos.
Entre as muitas caravanas que visitaram Goiânia, as chamadas embaixadas, destaco aquelas
compostas por estudantes. Sua presença na cidade-capital constituía-se acontecimento impar
daquele momento da cultura urbana e escolar goianiense. Foram inúmeras depois de 1937.
Estudantes do Colégio Pedro II, de universitários da Faculdade de direito, de odontologia e de
farmácia da Universidade de São Paulo, de estudantes secundaristas pernambucanos e mineiros,
entre os mais celebrados. De todas, as que recebiam maior atenção da impressa local eram as várias
Embaixadas Universitárias de estudantes da USP que, além de ter deixado marcado para sempre o
traçado urbano de Goiânia com a Estátua do Bandeirante, foram saudadas pela fidalguia,
inteligência, educação e fineza de seus membros. Sem dúvida, um exemplo a ser seguido pela
juventude que se fazia goianiense.
A cobertura jornalística feita quando da visita da caravana composta de estudantes e
professores do Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, permite aquilatar a dinâmica de organização e a
intencionalidade dessas visitas. A caravana do Pedro II não foi diretamente da Capital Federal à
cidade-capital do estado de Goiás: antes passeou pela Paulicéia e por inúmeros municípios do
interior paulista (Santos, Bauru, Jaú, Araraquara, Ribeirão Preto, etc.) e, depois, na volta de Goiás,
por Franca, São Carlos, Campinas e Jundiaí. Depois de estarem em Goiânia, visitaram também o
205
rio Araguaia. A viagem dos estudantes do Pedro II foi patrocinada pelos interventores de São Paulo
e Goiás292, o que é representativo do esforço destes estados em tornar conhecido o interior
brasileiro, especialmente, suas regiões localizadas a oeste. Ao noticiar a visita dos cariocas, o jornal
O Popular293 sinaliza para o caráter pedagógico e educativo das caravanas de estudantes.
Desde quarta-feira, encontra-se nesta Capital uma luzida caravana de estudantes do
Colégio Pedro II chefiada pelo professor Lafaiete Ferreira. [...]. O seu programa é
promover a ‘Marcha Intelectual para o Oeste’ guiando-se assim na direção
indicada pelo presidente Vargas, quando concebeu nessa marcha o verdadeiro
sentido da brasilidade. [...] Na sexta-feira, por volta das 14 horas teve lugar o
almoço oferecido pelo Estado aos visitantes no Grande Hotel. Ao champanghe
(sic) falou, primeiramente, oferecendo a homenagem e os saudou, o dr. Vasco dos
Reis, Diretor da Educação. Concluiu formulando os seus augúrios para que os
objetivos dessa viagem – estreitar os laços de amizade entre os estudantes da
Capital da República e os do Brasil-Central – fossem integralmente cumpridos
(Grifos meus).
As práticas corporais, notadamente o esporte, também assumiram o duplo papel de
demonstrar a modernidade da cidade e educar a população goianiense. Ginástica sueca, boxe, jiu
jitsu, tênis, futebol, basquete, corridas de ruas são algumas das novas práticas que apareceram na
cena urbana, sendo as escolas e os estudantes importantes lugares e sujeitos das mesmas. Destaco
entre as inúmeras iniciativas no campo esportivo, os eventos patrocinados e promovidos
anualmente pelo Departamento de Propaganda e Expansão Econômica do Estado de Goiás por
ocasião do aniversário de Goiânia, comemorado em 24 de outubro. As Festas Esportivas ou
Circuito Esportivo de Goiânia, como foi chamado o evento, teve sua primeira edição em 1938 com
prosseguimento nos anos posteriores até 1945; incluía desde jogos populares como a corrida de três
pernas até os chamados esportes institucionalizados como tênis, futebol e basquete.
O grande momento do Circuito, contudo, eram as provas de rua: ciclismo, motociclismo,
pedestrianismo e até mesmo corridas de cavalo a partir de 1943. A estas competições foi conferido
um papel fundamental dado serem atividades realizadas nas ruas e avenidas, congregando um
público numeroso, alterando o cotidiano da cidade-capital e constituindo-se em verdadeiros rituais
de urbanidade. O esporte cumpria, assim, uma dupla função: instalava novos parâmetros de ação e
pensamento na medida em que, por meio de suas práticas, especialmente o público que as assistia,
foi levado a aprender o usufruto controlado do espaço urbano, a modelar seu comportamento pelas
condutas dos competidores e obedecer às regras e normas impostas pelo modelo esportivo à sua
platéia (LUCENA, 2001); ao mesmo tempo, demonstravam a modernidade da jovem urbs
goianiense, seu ímpeto de progresso, sua cultura urbana.
292
293
Conforme noticiado pelo Correio Oficial do Estado de Goiás, em 10/07/1938.
Jornal O Popular, ano I, nº 79, de 08/01/1939
206
E havia escolas na cidade símbolo da modernidade e da relevância de Goiás! Escolas
infantis, primárias, profissionalizantes, secundárias, superiores. Públicas, privadas. Noturnas. De
tempo integral. Internatos, semi-internatos. Católicas. Laicas. Algumas, precariamente instaladas,
servindo a uma população que também vivia precariamente. Outras, modernas e bem instaladas
escolas públicas, dotadas de farto e rico material didático-pedagógico e onde atuavam professores
selecionados por rigorosos concursos públicos e se praticava orientação didática afinada com a
modernidade pedagógica. Templos dos métodos ativos. Estas escolas extrapolaram seu papel
institucional e sua função social, desempenharam outros papéis e ocuparam espaços diversos,
pulverizando sua presença no urbano e trazendo, para seu interior, a cidade que crescia em seu
entorno.
Centros de efervescência e produção cultural, estas escolas tornaram-se mediadoras da ação
de coletivos organizados e atuantes na forja da cidade: eram as ‘gentis professoras’ do Grupo
Escolar Modelo, os rapazes do Liceu de Goiânia, as moças da Escola Normal Oficial, os
acadêmicos da Faculdade de Direito. Poderosa e multifacetada presença, a da escola na vida
daquela cidade-capital que foi representada como o momento final de uma era marcada pelas trevas
da ignorância e, ao mesmo tempo, o poderoso farol que traria a iluminação e um futuro grandioso
para Goiás e seu povo. Assim, a escola que surgiu em Goiânia não ficou à parte dos sentidos
constituídos sobre/para a cidade - deles, se fez estratégia e desejo - nem inume aos seus apelos
participando também da encenação da modernidade da qual a cidade-capital revelou-se cenário
privilegiado.
Mas, para compreender os papéis que desempenhou a escola na forja da cultura urbana de
Goiânia e o lugar que ocupou no projeto de pertencimento e modernidade que sustentou o
surgimento considero ser necessário evidenciar, além da sintonia de Goiânia com o debate que
empolgava a nação, a singularidade do seu campo educacional, o que também pode permitir o
encontro de identidades e similaridades. O que, afinal, distinguia a nova cidade-capital - e suas
escolas - da capital que a antecedera? E quais as identidades entre a cidade do passado e a cidade do
futuro? Onde a singularidade de experiência educacional de Goiânia em relação a outras cidades
brasileiras? Onde as identidades, as similaridades, as distinções e especificidades?
5.2 - A singularidade educacional da Cidade-Sertão
Depois de Trinta, os novos governantes da hinterlândia goiana estavam atentos ao papel da
educação e para ela, voltaram ‘suas vistas desde sua hora inaugural’, conforme sustentou Pedro
Ludovico Teixeira no relatório enviado ao presidente Vargas em 1933. Em outras palavras, desde
207
os primeiros momentos da década de 1930, portanto, antes do surgimento de Goiânia, o governo
estadual buscava fortalecer a educação no estado. A situação educacional era então dramática.
Poucas escolas, professores (também escassos) sem formação, predominância de escolas isoladas,
entre outros. Em 1930294, o índice de analfabetismo, um dos principais temas do debate intelectual e
político da época, era enorme chegando a atingir 86,3% da população em idade escolar. O ensino
primário, embora ‘modelarmente ministrado na capital de Goiaz em todas as suas modalidades’, era
‘restritamente difundido pelo interior do Estado’.
Pela imensidão do estado de Goiás, havia vinte grupos escolares, todos criados a partir de
1919, e mais 161 escolas comuns ou isoladas além das inúmeras escolas rurais mantidas por
fazendeiros individualmente ou em parceria com os municípios295. O estado contava com apenas
um jardim de infância, uma única escola normal pública e cinco privadas. O ensino secundário, por
sua vez, era ministrado em duas escolas: o Liceu de Goiás e o confessional Ginásio Anchieta de
Bonfim (atual Silvânia), inaugurado em 1929. A Escola de Aprendizes Artífices, de vinculação
federal – transformada, em 1942, no Liceu Industrial de Goiânia e, depois, na Escola Técnica
Federal de Goiânia – constituía-se na solitária instituição de educação profissional. A Faculdade de
Direito de Goiás, objeto de antigas disputas políticas, estava desativada desde 1926. A ampliação
da rede de escolas bem como a sua modernização era, desta forma, uma das urgências dos novos
governantes do estado.
Apesar da inegável escassez de escolas e dos altos índices de analfabetismo, um processo de
ampliação e modernização da educação pública de Goiás pode ser localizado em momento anterior
a Trinta. Notadamente a partir da segunda metade década de 1910, a educação foi alvo de ações e
discursos por parte do poder público oligárquico e recebeu atenção especial da sociedade goiana.
Genesco Bretas (1991 492), afirma com exagero que no “[...] ano em que findou a primeira
República, todo o sistema de ensino em Goiás já se achava estruturado em bases sólidas”. O
exagero consiste no fato que apenas poucas sub-regiões do estado – a cidade-capital e algumas
cidades do sul, sudeste e sudoeste – participavam deste movimento. Tampouco havia ‘bases
sólidas’: não existiam contextos de qualificação docente ou mesmo seleção rigorosa de professores
prevalecendo antigas formas de inserção no sistema público de educação. Havia, sim, escolas que
se iam modernizando, mas era esmagadora minoria: apenas uma amostra da modernidade
pedagógica.
De qualquer modo, nem o governo do pós-Trinta nem a jovem cidade-capital foram marcos
inauguradores dos novos tempos na educação goiana, embora seja esta a construção histórica
294
As informações acerca da situação do ensino em Goiás em 1930 foram retiradas do Comunicado da Diretoria Geral
de Informações, estatística e divulgação do Ministério de Educação e Saúde Pública, publicado pelo Correio Oficial
durante dos meses de abril e maio de 1932.
295
Op. Cit. p. 01.
208
atrelada ao surgimento de Goiânia. Tudo o que antes ocorrera foi apagado, silenciado ou re
significado diante da nova cidade-capital, ficando esmaecido e borrado nas dobras da história. A reescrita da história da educação em Goiás foi desencadeada logo depois que os novos dirigentes
chegaram ao poder regional, contudo, somente depois do aparecimento de Goiânia e de sua
transformação em capital estadual, a operação realizada por intelectuais e Estado ganhou força de
verdade. Por isso, antes de Goiânia, obra símbolo dos efeitos da Revolução de Trinta em Goiás,
ficou a imagem do vazio educacional.
O relatório enviado por Pedro Ludovico a Vargas em 1933 é uma peça retórica fundamental
da estratégia de apagamento levada a cabo pelos novos donos do poder. Muitas partes do texto de
Ludovico reaparecem nos discursos dos intelectuais goianos que, ao constituir os sentidos de
modernidade e pertencimento para a nova cidade-capital, re-escreviam a história goiana. O primeiro
capítulo do Relatório foi reservado à educação, o que revela a compreensão do interventor acerca
do debate educacional que animava o período e, nele, do papel atribuído ao Estado. Estrategista
político sagaz, o interventor parecia querer demonstrar quais eram suas preocupações essenciais
como governante. E a educação aparecia, dada sua posição entre os temas tratados pelo relatório,
como prioridade. Uma medida que pode aquilatar a escolha da ordem dos temas pode ser dada pela
posição da proposta da construção de uma nova cidade-capital, a qual somente apareceu no oitavo
capítulo.
No Relatório em que o político goiano justificava a decisão de construir uma nova capital
para o estado e solicitava, de Getúlio Vargas, apoio político e econômico ao empreendimento,
Ludovico afirmava reconhecer ‘uma espécie de apelo permanente, crescente e geral para a escola’
296
e re-afirmava o compromisso de seu governo com a questão educacional. ‘O governo
revolucionário goiano tem procurado tornar fácil a projeção deste movimento no ambiente social do
estado’, afirmou. Para a educação, ressaltou, havia reservado um montante de recursos maior que
aquele previsto no Código dos Interventores297, o qual destinava o percentual de 14,7% para a área
educacional. A distinção positiva de Goiás ante os estados da federação298 foi ressaltada.
Goiaz, que já antes da vigência do CI [Código dos Interventores] observava aquela
regra, adicionou, entretanto [...] um acréscimo de 10,25% aos 14,7% que já
dispendia com os referidos serviços perfazendo um total de 24,32% ou seja quase
¼ de sua despesa geral. Com essa providência, Goiaz passou a ser, no seio da
federação, a unidade que consigna ao ensino maior dotação orçamentária em
proporção a despesa (Grifo meu).
296
Relatório de 1933, Capítulo I- Educação, p. 2.
O Código dos Interventores (CI) foi criado, em agosto de 1931 através do decreto 20.348, com o objetivo de evitar a
concentração de poder dos interventores estaduais. Verdadeiro instrumento de centralização do poder, o CI visava
impedir abusos no uso da máquina pública ao controlar a ação dos interventores. In: www.cpdoc.fgv.br
298
Relatório de 1933, Capítulo I- Educação, p. 12.
297
209
A imprensa goiana deu amplo destaque a esta medida estabelecendo comparações com
outros estados e ressaltando uma certa superioridade goiana no campo educacional. Em 1932, o
jornal Voz do Povo mancheateava que ‘Goyaz é o estado que mais dispende com o ensino’299. O
articulista (não identificado) lembrava que o governo goiano destinava à educação uma dotação
orçamentária maior que um estado ‘rico e poderoso’ como São Paulo, ‘[...] estado paradigma em
matéria de instrução’ e que contava com ‘um orçamento folgado’. Apesar da riqueza e da folga
orçamentária, o articulista continuava, São Paulo somente ‘distribui ao ensino 15% de sua receita’.
Já o pobre estado de Goiás com seu ‘orçamento três vezes menor [...] dá ao ensino, contudo, mais
de 20% de sua receita pública’. E, no final, comemorava: Goiás conseguia, ‘ao menos nesse ponto,
superar a terra dos bandeirantes e dos cafezais’.
O governo estadual promoveu mudanças no campo educacional goiano e incrementou
políticas públicas que visavam consolidar modernas pedagogias e inaugurar novas práticas
administrativas na instrução pública de Goiás. Houve aumento da dotação orçamentária para a
educação, os salários dos professores foram elevados, foi criada (1932) e editada (1938) a Revista
de Educação do Estado de Goiás, instituiu-se o Cinema Educativo (1932), surgiu o Conselho
Estadual de Educação (1931), criaram-se prêmios (para os melhores alunos das escolas normais),
realizaram-se congressos de educação e cursos de aperfeiçoamento dos professores. O Estado
implementou também regulamentos e regimentos escolares que intensificavam os mecanismos de
regulação e controle sobre as escolas e sobre os professores e elaborou programas que
consolidavam no cotidiano escolar uma arquitetura do tempo que, calcada nos ritmos fragmentados
da modernidade, parcelava em pequenas fatias as horas, dias, semanas, meses e anos vividos entre
os muros escolares.
Havia desde a ascensão de Pedro Ludovico ao poder estadual, portanto, um movimento de
valorização da educação escolar e um esforço para expandir e modernizar a rede de educação
pública no estado e do qual o aumento na dotação orçamentária é um dos indícios mais evidentes.
Contudo, parece-me que o surgimento da cidade-capital veio provocar alterações nos sentidos e
mesmo no curso das ações e políticas governistas. A simbologia da cidade-capital e os sentidos que
lhe estavam sendo atribuídos são, com certeza, elementos que fornecem uma especial singularidade
ao campo educacional goianiense. A insistência na forja da ‘vida espiritual’ da cidade que fazia
parte deste movimento de significação não poderia deixar de marcar a experiência escolar da nova
capital goiana. Há, porém, algo mais. Dimensões mais utilitárias e objetivas não podem ser
esquecidas; ao contrário, requerem ser relacionadas ao espectro da cultura e dos desejos.
Destaco, neste sentido, alguns aspectos que me parecem significativos da singularidade
299
Goyaz é o estado que mais dispende com o ensino. Jornal Voz do Povo, Cidade de Goyaz, nº 259, p.04, 04/12/1932.
210
educacional de Goiânia. O primeiro relaciona-se diretamente com a questão econômica e
orçamentária. A construção de Goiânia competia pelas verbas públicas com qualquer que fosse a
dimensão a ser contemplada pelo Estado e a educação, como outras áreas, sofreu reduções
orçamentárias em função das despesas com a edificação da cidade-capital. O segundo relaciona-se
com a evidência de que, no estado de Goiás, era somente em Goiânia que podiam ser encontradas
escolas públicas para todos os níveis educacionais, situação que também era vivenciada pela antiga
capital, mas que em Goiânia se mostrava distinta. Entre outros fatores, a distinção da nova cidadecapital pode ser creditada a melhoria das condições de transporte e comunicações entre a capital e o
interior do estado. E, terceiro, é preciso ressaltar as iniciativas nos campos da educação e da cultura
das elites que se instalavam em Goiânia como elemento de relevância para definir a singularidade
educativa e pedagógica da nova capital goiana.
Este conjunto de aspectos permite, sob minha perspectiva, distinguir Goiânia da antiga
capital enquanto centro de educação escolar da terra dos goyases e estimula a pensá-la a partir da
noção da cidade educadora. Porém, ainda mais importante, possibilita encontrar a singularidade das
ideias e práticas pedagógicas que ali transitaram fornecendo acesso ao significado de Goiânia como
centro irradiador de modernidade e civilização para a enormidade dos sertões da qual era epicentro.
Vistos em conjunto, os aspectos arrolados podem sinalizar para o valor da educação na cidade
inventada para tornar-se símbolo de superação histórica dos goianos.
5.2.1 – Para a capital, todo o dinheiro... Para o interior, uma pedagogia do exemplo.
Nenhuma esfera da vida goiana no período da construção e transferência da capital pode
ser compreendida sem que se atente, com especial atenção, para a questão econômica. É preciso ter
em mente a precária situação financeira de Goiás e os custos com a edificação de uma cidadecapital em pleno período de recessão econômica mundial, período de tensões entre guerras de
grande abrangência. O apoio do governo brasileiro restringiu-se à liberação de 5.663 contos de réis
em apólices do Tesouro Nacional destinados à construção de quatro prédios destinados ao abrigo de
departamentos e repartições federais300 e de empréstimos no valor de doze mil contos de réis
(CHAUL, 2001). Como se não bastasse, tudo se tornava ainda mais caro em função das enormes
distâncias entre Goiás e os centros produtivos dos produtos necessários para que a cidade fosse
erguida. Diante da prioridade definida - a construção de Goiânia -, não havia objetivamente
condições financeiras para que o governo estadual arcasse com todas as áreas a serem
300
Destinados a abrigar Correios e Telégrafos, Delegacia Fiscal, Tribunal Eleitoral e Juízo Federal e Inspetoria
Agrícola. A construção destes prédios “[...] não devia ficar em menos de 300 contos cada um” (CHAUL, 2001).
211
modernizadas nas terras goianas.
A saúde, por exemplo, foi um setor enormemente atingido pela prioridade conferida à
cidade-capital. Neste sentido, a (pouca) atenção dada às questões sanitárias e a área da saúde
pública pode ser contraposta ao estratégico discurso higienista que o interventor havia utilizado
quando precisou atacar Vila Boa. Na nova cidade-capital, ao contrário do que prometera Ludovico,
questões como saneamento básico e do fornecimento de água tiveram desenvolvimento
extremamente restrito. Grande parte das áreas urbanas de Goiânia e, conseqüentemente, de sua
população ficaram excluídas do usufruto destas benfeitorias (CAMPOS, 2002). Água tratada e
redes de esgoto e saneamento, componentes básicos da saúde coletiva, eram mercadorias por
demais caras e de difícil alcance para serem generalizadas a todos os habitantes da cidade.
Antes do surgimento de Goiânia, no início de seu governo, em 1931, o interventor
sancionou o Regulamento de Saúde Pública301, instrumento que estabelecia parâmetros
normatizadores da política desta área no estado de Goiás. Seu objetivo era 'sanificar' o território
goiano. Documento de caráter amplo, o Regulamento criava uma política de fiscalização, inspeção
e policiamento - a cargo da Diretoria de Hygiene - para o que todo o território goiano que foi
dividido em zonas sanitárias (central, sudeste, sul, nordeste e norte). O Regulamento, nas palavras
de Campos (2002: 171), “[...] arbitrava sobre o nascimento, a morte, a doença, a escola, o alimento,
a moradia, o hospital, a farmácia, a zona rural, a cidade, a forma de construir, e até ameaçava com
multas e punições aos faltosos”.
Em 1933302, entretanto, Pedro Ludovico reconhecia que não fora possível realizar o
saneamento do estado previsto no Regulamento da Saúde Pública. A pobreza das rendas públicas
estaduais não o permitira, justificava ele. O interventor solicitava apoio financeiro ao governo
federal em um discurso que, ao tecer uma velada crítica à política econômica brasileira, sinalizava
para a pouca atenção que os poderes federais davam ao povo sertanejo. Ludovico ponderou: ‘[...]
somos campeões da valorização de certos produtos nacionais, notadamente do café [...]’ e, em
seguida, ‘[...] a evidência nos obriga a reconhecer, entretanto, que pouco ou nada temos feito pela
valorização do sertanejo patrício’. O pedido de socorro à saúde dos goianos foi recorrente nos
relatórios que Ludovico enviou a Vargas durante todo o período em que governou Goiás. A
insistência do interventor sugere que suas solicitações não foram atendidas.
O argumento de Ludovico fazia coro a certa parcela da intelectualidade nacional que, desde
os anos 1910 e 1920, tentava convencer a República a realizar um ‘giro sobre os próprios pés’ e a
dirigir o olhar para o sertão (SEVCENKO, 2003). Sua opção em secundarizar a saúde física do
trabalhador goiano também se insere no quadro das opções dos intelectuais que vinham pensando a
301
302
Decreto número 1.180, de 13/06/1931.
Relatório de 1933, p. 62.
212
nação a partir das metáforas da doença do corpo pátrio e apontando educação e saúde como
remédios para a sua cura. Para Clarice Nunes (1993: 79), o diagnóstico da doença do corpo pátrio
que tais intelectuais realizaram não confluiu em
[...] propostas de ação para resgatar a saúde física do trabalhador (sertanejo ou
operário citadino) mesmo numa época em que a saúde já era incluída, ao lado da
educação, como receita da cura dos males brasileiros. A apropriação de figuras
literárias forjadas na obra de Monteiro Lobato e Euclides da Cunha não enfatiza,
sequer resgata, a saúde pública como projeto de nacionalidade.
Se a saúde foi secundarizada no contexto goiano, como teria sido tratada a questão
educacional? A política orçamentária que privilegiou Goiânia atingiu, sobretudo, o interior do
estado, inclusive, no que diz respeito à construção e instalação de escolas. No entanto, os estudos e
pesquisas sinalizam para uma expansão da rede pública escolar em todo o estado neste período,
embora, segundo Nepomuceno (1994), o governo estadual tenha construído muito mais escolas
isoladas ou salas de aula inseridas em reformas de escolas que prédios específicos para grupos
escolares, escolar normais, etc. Dos discursos do interventor e do que era publicado pela imprensa
oficial é possível encontrar indícios que permitem compreender como o governo estadual lidou com
esta questão.
Ludovico tentou conseguir o apoio dos poderes municipais para expandir a rede de escolas
transferindo, de certa forma, o problema educacional para os prefeitos das cidades do interior. Nada
foi feito em termos oficiais, nenhuma legislação foi criada para tanto. Foi instituída, ao contrário,
uma espécie de pedagogia do exemplo no qual os novos governantes e seu dinamismo e
compromisso com a nação e com a região eram os principais figurantes. A exemplaridade era uma
noção relevante no projeto de poder da Era Vargas na medida em que investia as elites intelectuais
e políticas como exemplo a ser seguido pelas massas. Era também um tema tratado por Paulo
Augusto Nunes de Figueiredo em seus artigos na revista Cultura Política a partir do pensamento do
espanhol Ortega y Gasset (1922: 67 APUD BASTOS, 2006: 128): “Eis o mecanismo elementar,
criador de toda a sociedade: a exemplaridade de uns poucos se articula com a docilidade de muitos.
O resultado é que o exemplo propaga-se e os inferiores se aperfeiçoam na direção dos melhores”.
Goiânia era o modelo máximo da competência política e administrativa, do patriotismo, do
amor a Goiás e da honestidade de seus construtores e dirigentes. Se fora possível ergue-la mesmo
diante de todas as dificuldades, outros feitos e realizações também poderiam alcançados. A
pedagogia do exemplo tinha na prefeitura do município de Goiânia o seu lócus privilegiado e no
jovem prefeito, Venerando de Freitas Borges, o melhor exemplo a ser seguido. Este, aliás, revelouse um aliado político fundamental para o projeto de Pedro Ludovico Teixeira e, consequentemente,
213
para que a nova cidade-capital goiana se tornasse factível. Para muitos, a prefeitura de Goiânia era
como uma secretaria do governo estadual, ficando subsumida diante da liderança do interventor. O
prefeito atuava em total acordo e sob a liderança de Pedro Ludovico Teixeira303. Assumindo papel
secundário na forja da cidade, Venerando de Freitas Borges mostrou-se incansável em sua função
de construir a modernidade de Goiânia.
A pedagogia do exemplo se completava, em sua didática, com a presença física do
interventor nas inaugurações de escolas em cidades interioranas e com a atuação da imprensa que
dava ampla cobertura a estes eventos. Nessas ocasiões, as autoridades municipais eram elogiadas
pelo seu dinamismo e pelo sentido progressista que imprimiam às suas administrações. A
pedagogia provocou efeitos positivos e os municípios foram ativos colaboradores do governo
estadual no processo de expansão da rede pública de educação no estado de Goiás. E em parceira
com os poderes locais na abertura de escolas, colaborava a Igreja Católica.
Em 1944304, na inauguração do grupo escolar da cidade de Piracanjuba, Ludovico
reafirmava a atenção com que o governo estadual tratava o problema da educação. O discurso do
interventor parecia justificar os cortes orçamentários que atingiam o interior e que faziam com que
os municípios goianos tivessem que arcar com grande parte da responsabilidade pela oferta
educacional. A instituição municipal então inaugurada era, neste sentido, exemplar: um ‘esplêndido
grupo escolar mandado construir [...] pelo dinâmico e progressista prefeito, sr. Hermínio Amorim’,
como se lê na Revista Oeste305. Na ocasião, o interventor procurou demonstrar sua atenção à
questão da educação. ‘Nunca o descuramos, nunca o olvidamos’, afirmou. Mas havia uma obra
ainda mais urgente, mais importante, mais primordial para os goianos que a educação. Havia
Goiânia, que justificava todo o esforço de redução de orçamento e contenção de despesas.
A construção de Goiânia absorveu grande parte de nossas exíguas rendas. Era
natural que se fizesse poupança em outros ramos da atividade administrativa, para
que se pudesse levar avante obra de tamanho vulto para uma unidade federativa
que rendia tão pouco. Os fatos vieram demonstrar [...] que estávamos cheios de
razão. Goiânia seria o estímulo, a alavanca em que se apoiaram todos as nossas
forças latentes para se desenvolverem. Foi o que aconteceu. Entre nós, atualmente,
tudo caminha, tudo evolue, tudo progride. (Grifos meus).
No caso da Diretoria de Instrução Pública, o montante de recursos a ela destinados também
sofreu redução significativa a partir de 1939, exatamente, em decorrência dos gastos com as obras e
303
A parceira Ludovico-Freitas seria profícua e marcante na história política de Goiânia. Em 1950, venceram as
eleições para governador de estado e prefeito de sua cidade-capital como se compusessem uma única chapa eleitoral, à
revelia de disputarem cargos em esferas distintas do Estado (estado e município).
304
Em Dá-se à criança a estrutura que se quer. Publicado na Revista Oeste, nº 20, set/1944, pp.01-02.
305
Op. Cit., p. 01.
214
com a inauguração da cidade-capital306. Há evidências, entretanto, que as escolas públicas estaduais
de Goiânia não sofreram redução orçamentária significativa e a Diretoria manteve as distinções
econômicas entre escolas e professores da capital e do interior. Uma análise dos orçamentos
estaduais307 no período revela que as escolas públicas mantidas pelo governo estadual em Goiânia
tinham previsão de orçamento em separado das demais escolas do estado sendo que seus
professores e professoras recebiam salários maiores que aqueles pagos aos docentes do interior. Em
especial, destaco os salários pagos as professoras do Grupo Escolar Modelo que recebiam 400 mil
réis mensais enquanto as professoras dos demais grupos escolares espalhados pelo interior do
estado tinham vencimentos de 300 mil réis por mês308.
Os salários dos professores do Liceu também podem ser lembrados já que, conforme
anunciou Pedro Ludovico309, ‘[...] para conseguir um professorado dotado das condições
intelectuais e morais requeridas pela importância do estabelecimento, tive que elevar o padrão de
vencimentos de seu corpo docente, nivelando-o ao dos mais destacados cargos públicos do Estado’.
A que nível foi promovido o salário dos professores do Liceu? Certamente, Ludovico se referia a
salários pagos a promotores, juízes de direito, desembargadores. Muitos deles eram também
professores do Liceu ou da Faculdade de Direito ou ainda da Escola Normal Oficial. Eram
inteligências que não poderiam deixar de ser aproveitadas na cidade que buscava conquistar o
reconhecimento de seu valor cultural e intelectual.
O valor do salário dos professores do Liceu foi objeto de debate entre deputados da
Assembléia Legislativa do estado de Goiás entre finais de abril até meados do mês de julho de
1937, poucos meses antes da sua transferência para Goiânia. Certamente, a política de elevação dos
rendimentos profissionais dos professores da velha escola secundária goiana a que ele faz referência
em 1939 teve neste debate um momento impar de afirmação. O debate foi provocado pela
mensagem enviada por Pedro Ludovico, em 28 de abril de 1937, às Comissões de Justiça, Finanças
e Educação e Cultura da Assembléia Legislativa310. Na mensagem, o interventor expressava o
desejo de ‘unificar e fixar as despesas com o ensino secundário’ como justificativa para solicitar a
elevação dos salários dos professores do Liceu para ‘800 mil réis mensaes, independentemente, do
número de turmas suplementares que, porventura, venham a dirigir’311.
306
Conforme justificou Pedro Ludovico Teixeira em Relatório ao Presidente da República, em março de 1939.
O orçamento aqui citado é o referente ao exercício de 1939, aprovado pelo decreto-lei 1.490, de 31/12/1938,
publicado no Correio Oficial número 3.813, em 31/12/1938. A previsão orçamentária de outros períodos mantém a
mesma lógica.
308
Em Listagem dos professores primários do estado de Goiás da Diretoria Geral de Educação, secção de Instrução.
Nesta lista, aparecem os nomes das professoras, o município e/ou localidade onde atuavam, a condição de normalista
ou leigo e o salário mensal de cada uma. Preservado no Arquivo Histórico Estadual, secção Documentos manuscritos.
309
No Relatório enviado ao Presidente Getúlio Vargas no final de 1942 relativos ao período 1940-1942, p. 93.
310
Preservado no Arquivo Histórico Estadual, secção Documentos Manuscritos.
311
Na época, os rendimentos dos professores do Liceu eram compostos de dois indicadores: um salário fixo de 480 mil
307
215
A proposta do governo foi apresentada, na Assembléia em 30 de abril de 1937 por Agenor
Alves de Castro, primeiro secretário da Casa. Menos de um mês depois, em 25 de maio, o relator
Espírito Santo Felicíssimo Neto emitiu parecer que questionava o aumento proposto no projeto de
lei, não por ver nele algum indício de inconstitucionalidade ou por discordar da justeza do que ele
propunha. ‘Nada mais justo. Só quem conhece de perto a vida afanosa do magistério, com o
excesso dispendido de energia e esforço poderá avaliar a deficiência da remuneração do corpo
docente do nosso Lyceu’, reconheceu o relator. Mas Felicíssimo Neto considerava que a proposta
de aumento de salário dos professores do Liceu iria causar um ônus econômico que as combalidas
finanças públicas estaduais não dariam conta de suportar. Depois de complicados cálculos, propôs
que se pagasse aos professores um salário 600 mil réis mensais ao invés dos 800 propostos pelo
governo estadual.
Agenor Alves de Castro respondeu ao questionamento utilizando quadros demonstrativos
dos cargos, funções, número de turmas regulares e suplementares regidas e salários pagos a cada
professor do Liceu. Para organizá-los, solicitou informações e esclarecimentos à Diretoria Geral da
Fazenda acerca dos proventos recebidos pelos referidos professores312. Obteve como resposta, o
Quadro demonstrativo dos vencimentos dos professores do Lyceu de Goyaz em seus diversos
cargos313 que explicita, detalhadamente, o valor e a origem dos rendimentos daqueles que
lecionavam na escola secundária que, há muito, era motivo de orgulho dos goianos. O ofício da
Diretoria da Fazenda que o encaminhou informa que inúmeros professores, por acumularem cargo
em outras instituições escolares, exercerem outras funções no aparelho do Estado ou ainda por ter
direito a gratificações previstas por lei, recebiam rendimentos de outras fontes que não o Liceu.
É o caso, por exemplo, de Dario Delio Cardoso, professor de Educação Moral e Cívica do
Liceu, lente da Faculdade de Direito de Goiás e desembargador de justiça (recebia dos cofres
públicos estaduais o montante de 1.850 mil réis mensais) e também de Alfredo de Faria Castro,
professor de Francês no Liceu e na Escola Normal Oficial da qual era também diretor. Inúmeros
outros professores se encontravam em situação similar. O acúmulo de cargos poderia ser
interpretado como um indício de privilégios. Contudo, pode também ser pensado como evento
representativo da histórica dificuldade em encontrar professores qualificados para as escolas
réis e um pró-labore correspondente à regências de turmas suplementares (turmas formadas a partir do aumento da
demanda por matrícula no estabelecimento). Cada turma suplementar regida valia, ao professor, 100 mil réis sendo
comum que cada professor acumulasse 03 turmas suplementares.
312
Conforme se percebe ao acessar o oficio, endereçado a Agenor Alves de Castro, que trata ‘dos vencimentos dos
professores do Liceu’. O oficio é datado de 10/06/1937 e originou-se do Gabinete do Diretor da Diretoria Geral da
Fazenda se constituindo em uma resposta a solicitação feita por Alves de Castro.
313
O Quadro foi acompanhado de uma relação nominal dos docentes, das disciplinas que lecionavam bem como de
outros cargos e funções exercidas. O documento originou-se da Secção de Despesas Públicas da Diretoria Geral da
Fazenda do estado de Goyaz em 24/06/1937. Preservado no Arquivo Histórico Estadual, Secção Documentos
Manuscritos.
216
goianas; este foi, aliás, um dos pontos de estrangulamento das diversas tentativas de expansão e
renovação do sistema de educação pública em Goiás (BRETAS, 1991; CANEZIN & LOUREIRO,
1994).
Com base neste Quadro e de informações acerca da distribuição dos docentes do Liceu,
Alves de Castro elaborou outros quadros e tabelas além de listas de disciplinas e professores para
sustentar seu argumento de que o aumento proposto era de 'irrisórios' 20%. O deputado demonstrou
que, em 1937, existiam no Liceu 64 turmas suplementares, o que significava que cada um dos 21
professores que ali atuava tinha sob sua responsabilidade 03 destas turmas e, efetivamente, um
acréscimo de 300 mil réis aos seus salários. O total dos rendimentos salariais era de 780 mil réis.
Portanto, a proposta de Ludovico aumentava, em pouco, o salário dos professores do Liceu: de 780
para 800 mil réis.
A medida significava, na verdade, economia para os cofres públicos. O significativo da
proposta era a fixação do salário dos professores já que a previsão para os anos seguintes era de
crescimento do número de turmas suplementares e, conseqüentemente, o aumento das despesas
com pessoal docente. A argumentação de Alves de Castro foi convincente e o decreto-lei foi
aprovado fixando os salários dos professores do Liceu em 800 mil réis conforme o desejo do
interventor. Pedro Ludovico estava correto quanto à previsão de crescimento do número de
matrículas no Liceu. Depois da transferência, a demanda pelos cursos oferecidos pelo Liceu cresceu
ano a ano levando ao crescimento físico da escola com a construção de mais e mais edifícios
anexos, cheios de salas de aula.
Para além da questão salarial, o privilegio orçamentário das escolas da cidade-capital
permitia que as mesmas trilhassem o caminho da excelência no ensino, como é o caso do Liceu de
Goiás e do Grupo Escolar Modelo, ambos vistos na época como centros da modernidade
pedagógica. Os prédios – modernos prédios escolares – nos quais estas escolas foram instaladas
produziam novas práticas contribuindo para a emergência de novos parâmetros de pensamento e
ação. Os novos espaços fizeram crescer o número de vagas nas escolas. E havendo uma enorme
demanda por educação, a sociedade goianiense não demorou a ocupá-las. Dona Julieta Fleury da
Silva e Souza, primeira diretora do Grupo Escolar Modelo, relatou em Memória Cultural: ensaios
da história de um povo (1985: 131) que 1.200 crianças foram matriculadas nas quatro séries da
escola no seu primeiro ano de funcionamento (1938).
A Diretoria de Instrução também promoveu, neste período, dois congressos regionais de
ensino (1938 e 1939) e sediou um evento nacional, o VIII Congresso Brasileiro de Educação em
1942; reformou escolas e aumentou o quantitativo de professores. Eram iniciativas que visavam
atingir todo o estado de Goiás, mas que acabava por privilegiar as escolas da capital, o que remete
para a dimensão do privilégio orçamentário do campo educacional da cidade-capital. Neste sentido,
217
buscava promover, também pelo exemplo, avanços no sistema educacional goiano. Mas são
iniciativas que tem o significado de um amplo investimento na educação. Investimento repleto das
expectativas de modernidade e pertencimento que balizaram a construção material e simbólica de
Goiânia. Investimentos que se dirigiam para fora, para os centros dinâmicos da nação, lugar onde se
forjava a aceitação e o reconhecimento.
A existência de estímulos econômicos às escolas e aos professores de Goiânia sinaliza para
o importante papel destas instituições e destes sujeitos na cena da cidade-capital. Ambos, escolas e
professores – e, logo também seus estudantes – oportunizaram aos propositores e entusiastas de
Goiânia a demonstração de que a cidade-capital cumpria sua promessa civilizatória. Enquanto
discurso da modernidade, a vida e a cultura escolar que surgiam em Goiânia afirmavam que a
região e a nação se encontravam em harmonia quanto aos anseios por ilustração e civilidade.
Conseqüentemente, o ‘filho menos educado’ entre os filhos do pai Brasil, poderia requerer sua
maioridade e adentrar, finalmente, na história nacional.
A política educacional do período Ludovico e o seu investimento no campo educacional da
cidade-capital não privilegiou, como já ressaltado, a expansão da rede escolar; esta se deu muito
mais tarde e em parceira da iniciativa privada. O investimento nas escolas da cidade-capital parece
ter buscado construir a excelência pedagógica. A meta era instituir modelos pedagógicos e
administrativos e, em seguida, irradiá-los pela imensa hinterlândia goiana. Para tanto, a existência
de vias de transporte e comunicação se mostravam como componentes essenciais. A cidade
prometia resolver um problema histórico da região, base discursiva para o atraso e para a
inexpressividade de Goiás e, inclusive, para o fracasso de processos de renovação da escola goiana.
5.2.2 - Estradas, caminhos abertos à civilização.
Goiânia foi, desde o início, dotada de uma rede de instituições escolares públicas de todos
os níveis educacionais. A centenária Vila Boa experimentou uma situação similar no final dos anos
1920, mas a precariedade dos espaços escolares e a dificuldade de contratação de professores
reduziam a oferta de vagas e tornava as escolas um privilégio quase exclusivo dos filhos das
famílias mais abastadas do lugar. O quadro de dificuldades se completava com o isolamento
geográfico da cidade em relação a outras partes do estado, o qual dificultava, aos não moradores da
cidade, o acesso às escolas vilaboenses. Ou seja, as escolas da antiga capital serviam a um público
reduzidíssimo na própria cidade e a quase nenhum público além dos seus limites urbanos.
Em Goiânia, por outro lado, houve contratação de profissionais da educação e quase todas
as escolas, à exceção da Escola Normal Oficial e da Faculdade de Direito, foram instaladas em
218
prédios próprios, o que resultou em uma ampliação da oferta escolar e consequente aumento do
número de matrículas. Além das escolas públicas, a esfera privada mantinha algumas escolas que
recebia as crianças em regime de internato e semi-internato, o que resolvia uma demanda histórica
das famílias enriquecidas do interior goiano. Em Goiânia, um Município Padrão, publicado na
revista Oeste em outubro de 1944 na secção Pelos Municípios foram reproduzidas informações
recolhidas com o prefeito, Venerando de Freitas Borges, sobre a rede escolar de Goiânia
ressaltando-se as escolas mantidas pelo poder público municipal. Há um destaque a uma realização
municipal no campo da educação: ‘a edificação do prédio e criação do Grupo Escolar Pedro
Ludovico Teixeira no bairro de Campinas, obra meritória e que vem prestando relevantes serviços
ao público, com a educação metódica da infância campinense’.
O discurso informacional formulado pelo prefeito de Goiânia é exemplar de uma das
estratégias mobilizadas pelas elites intelectuais e políticas para dar a ver a modernidade goianiense:
a contabilização da totalidade das instituições escolares da cidade-capital não importando qual
esfera (pública ou privada, estadual, municipal ou federal) fosse a responsável pela sua criação e
funcionamento. Apesar de longo, vale a pena transcrever o fragmento que diz das escolas da
cidade-capital. Ele fornece um quadro da rede escolar de Goiânia informando a quantidade e
nominação de escolas e seus mantenedores, bem como número de alunos matriculados nas escolas
primárias.
A instrução pública acha-se amplamente desenvolvida por todo o município,
compreendendo 54 estabelecimentos de ensino com seleto e competente corpo
docente. Assim são distribuídas as 54 casas de ensino existentes no município: 4
grupos escolares; 40 escolas primárias das quais 17 localizadas em zona rural; um
jardim de infância na Capital. O número de alunos matriculados nas escolas acima
mencionadas eleva-se a 4.437, dos quais 3.152 frequentam escolas na Capital. Dos
54 estabelecimentos enumerados, 22 são mantidos pela Prefeitura, 12 pelo Estado,
10 por particulares e um pela Cruzada Nacional de Educação. Os estabelecimentos
de ensino secundário são em número de 4, todos êles localizados na sede
municipal. Temos o Colégio Estadual de Goiás [Liceu], mantido pelo Govêrno
Estadual; o Colégio Dom Bosco e Ginásio Santo Agostinho mantidos pelas
Congregações dos Padres Salesianos e Irmãs Agostinianas. Fundado e mantido por
particulares existe, também, o Curso de Madureza ‘Americano do Brasil’, com
aulas noturnas. Há, ainda, mais dois cursos para professorandas, a Escola Normal
Oficial, do Govêrno Estadual e o Colégio Santa Clara, mantido pelas Irmãs
Franciscanas; e dois cursos superiores, Faculdade de Direito de Goiaz e Instituto
Técnico Comercial. Cogita-se da fundação de uma Faculdade de Odontologia e
Farmácia [...]. Merece destaque, aqui, a Escola Técnica de Goiânia, portentoso
estabelecimento para o ensino aperfeiçoado, com internato e externato, mantida
pela União.
A nova cidade-capital também foi, desde seu surgimento, servida por uma malha rodoviária
que a ligava a várias sub-regiões goianas, melhorando as condições de transporte, comunicação e
219
deslocamento interestadual e, por conseguinte, fornecendo maiores possibilidades de escolarização
para a população do interior do estado (Imagem 17). Foi reduzido o tempo e melhoradas as
condições de viagem entre Goiânia e outras cidades de Goiás, especialmente, aquelas localizadas
no sul e sudeste do estado. Estranha situação para uma cidade que não nasceu à margem de uma via
de transporte. Ao contrário, parece ter sido construída para ir ao encontro dela.
Imagem 17
Mapa rodoviário do município de Goiânia
Fonte: Revista Oeste, outubro, 1944, p. 40
Do que se publicou sobre o trabalho de Venerando de Freitas Borges na prefeitura de
Goiânia no período em foco percebe-se uma ênfase na extensão da rede de estradas e na construção
de escolas rurais. Como se pode ler já referido artigo Goiânia, um Município Padrão: ‘Ao
lançarmos este olhar sobre o município de Goiânia, iremos encontrar, por todos os recantos,
benefícios inúmeros. Ora, são escolas rurais que encontramos por todo o município, ora são
estradas ligando regiões produtoras [...]’. O discurso enfatizou que a cidade-capital era ligada a
várias regiões estaduais e interestaduais por vias de transporte aéreo e rodoviário, frisando-se que o
ponto terminal da estrada de ferro encontrava-se a 62 quilômetros. Pelas vias áreas, o município era
‘servido pela Panair, Vasp e Aerovia [...] que fazem viagens semanais a Goiânia [...]. Há ainda o
220
Correio Aéreo Nacional [...]’. A abertura de estradas e o estabelecimento de linhas regulares de
transporte de pessoas aparecem como a grande realização do período.
Partindo de Goiânia, temos rodovias que se irradiam por todos os recantos do
Estado; ora transpondo serras, ora atravessando matas e campos, estas estradas
levam às mais longínquas regiões o influxo renovador da civilização. Ligando
Goiânia a Anápolis e Leopoldo de Bulhões, temos uma ótima estrada que se
ramifica em duas outras, convergindo cada ramo para uma daquelas cidades [...]
Suçuapara, Piracanjuba, Anicuns e Mataúna também são ligadas a Goiânia por
rodovias otimamente bem construídas. [...] Várias empresas de transporte de
Goiânia mantém corridas semanais de ônibus e automóveis para aqueles
municípios e também corridas diárias para Anápolis e L. Bulhões. [...] É óbvio
assinalar, aqui, a via terrestre que liga Goiânia a velha cidade de Goiaz [...]
colocando, consequentemente, Cruzeiro-do-Sul e Itaberaí, diretamente ligados a
Capital.
O documento Movimento Didático do Ensino Primário Geral do Estado 1933/1945314 é um
discurso administrativo representativo dos elos entre educação e vias de transporte. O documento
informa inicialmente os números relativos ao movimento educacional (número de unidades
escolares, professores, matrículas, frequencia e aproveitamento) e, logo em seguida, como que
relacionado à questão da educação, aborda sob os títulos Automóveis e outros veículos terrestres
existentes no estado 1937-1945 e Extensão da Rede Rodoviária do Estado 1937-1945, a expansão
da frota automobilística goiana e de sua malha de estradas.
1933
1937
1945
ESCOLAS
395
499
570
PROFESSORES
625
860
1.238
MATRÍCULA
(efetiva)
21.342
27.749
34.500
FREQUENCIA
(média)
15.756
20.838
30.500
APROVEITAMENTO
(promoções e conclusões)
10.095
13.894
25.100
AUTOMOVEIS
-
829
1.428
ESTRADAS
-
8.623 Kms.
14.608 kms.
Goiânia se encontra no centro dinâmico do estado de Goiás. Sua localização,
criteriosamente escolhida, foi fundamentada pela proximidade entre o município de Campinas e a
314
Preservado no Arquivo Histórico Estadual, secção Documentos Manuscritos/Documentos Avulsos, Caixa 961
(1945).
221
estrada de ferro que seguia, morosamente, em direção a Vila Boa. Além do mais, Campinas já era
razoavelmente servida de vias rodoviárias quando se iniciaram as obras de construção de Goiânia.
A posição geográfica da nova capital, portanto, favorecia sua ligação com o restante do estado. Em
1935315, o deputado Oscar Campos Junior, lembrou o potencial educacional da cidade
relacionando-o ao seu potencial de confluência rodoviária. Note-se que Campo Júnior se refere à
cidade em construção ainda como Campinas. No seu discurso já se esboçam os elos entre educação
e estradas.
A tendência de nosso povo é dispersiva, pela falta de um centro para onde nós
todos convirjamos. As nossas relações comerciais são com outros estados. Quando
queremos educar nossos filhos, mandamo-los para fora, porque, não havendo
comunicações contínuas, não existindo vias regulares de transporte, torna-se
dispendiosa a educação. [...] Campinas resolverá ainda esta parte. Não são poucas
as estradas de rodagem que convergem para aquela vila e com trafego intenso.
Vem daí a afluência de alunas internas no Colégio Santa Clara, ali existente, e
cuja matrícula sóbe ao avantajado número de quasi cem. (Grifos meus).
Os intelectuais goianos e políticos goianos estavam conscientes da relação entre melhoria
das vias de comunicação e transportes e o avanço na vida escolar da população goiana. As estradas
eram, afinal, para os de Goiás como que ‘caminhos abertos à civilização’. Mais que isso, a
discursividade de intelectuais e políticos reforçavam de tal forma os elos entre educação e vias de
transporte que acabava por promover uma naturalização da escola e da educação. Se houvessem
estradas, haveria desenvolvimento econômico e, com ele, as escolas naturalmente surgiriam, era a
mensagem. A estratégia discursiva mais recorrente pautava-se pela ideia de que somente a
existência de escolas não resolveria o complexo problema educacional do estado. Era ‘necessário
uma boa organização para bem soluciona-lo’, pontificou o interventor em 1944. O que era uma
‘boa organização’ e como afetaria a educação de crianças e jovens goianos? A ‘boa organização’
poderia explicar a relação entre educação e estradas?
Em 1944316, no discurso em Piracanjuba, Ludovico demonstrou que poderia responder a
estas indagações. Na ocasião, lembremos, o discurso do interventor assumiu um tom de prestação
de contas de seu governo, no qual se sobressaiu a justificativa para o corte de gastos na área da
educação causada pela construção de Goiânia. No fragmento que aqui transcrevo, o interventor
também parece se justificar em relação ao pequeno investimento educacional no interior do estado.
O pensamento é complexo. Ludovico partiu de uma concepção de educação como algo mais
abrangente que simples instrução ou mera alfabetização. ‘É preciso que se eduque’. Caso contrário,
315
Em discurso pronunciado em 04 de julho de 1935 na Assembléia Constituinte do estado de Goiás em sessão em
defesa da emenda de justificação da transferência da capital. Reproduzido em Como nasceu Goiânia?,1938, p. 435.
316
Em Dá-se à criança a estrutura que se quer. Discurso proferido na inauguração do grupo escolar de Piracanjuba.
Publicado na Revista Oeste, nº 20, set/1944, pp.01-02.
222
os efeitos da escola seriam quase nulos. A partir desta concepção, Ludovico começou a construir a
relação entre educação e vias de transporte e comunicação e sua estreita vinculação com a iniciativa
privada.
Alfabetizar [...] o indivíduo é muito pouco, é quasi nada. Continua um espírito
retrogrado e selvagem como dantes. A sua percepção se mantém dentro de limites
muito estreitos. Resultados quasi nulos lhe advirão do conhecimento adquirido.
Vislumbra apenas uma pálida réstea de luz no ambiente que o cerca. Para que isto
não se verifique é preciso uma instrução mais profunda e mais extensa. Preciso é
que se eduque. Motivo por que muitos acham que a viação deve preceder a
instrução. Dando transporte, oferecendo via de comunicação aos habitantes de
zonas que não as possuem, como é a regra em nosso país, a instrução virá
naturalmente. Quer os governos ajam, quer não ajam neste sentido. As rodovias,
as ferrovias, trazem o desenvolvimento economico destas regiões que, por sua vez,
importa na melhoria financeira dos seus habitantes. Estes, desafogados nas suas
novas condições de vida, promovem por si mesmo a instrução de seus filhos, ou
concorrem em maior vulto para que os cofres públicos, facilitando aos
administradores a propagação de escolas. (Grifos meus)
Defensora da escola rural, do ruralismo na escola, precursora dos clubes agrícolas nas
instituições escolares do estado, estudante do curso de direito da Faculdade de Direito de Goiás e
professora da Escola Normal Oficial, a intelectual-educadora Amália Hermano Teixeira
manifestou-se a respeito em 1943317. Seu discurso contém distinções em relação ao do interventor.
Ela concordou com Ludovico quanto à necessidade de uma ‘boa organização’ para o alcance do que
chamou de ação civilizadora das estradas, entretanto, invertia completamente os termos do
discurso. Para ela, as estradas - sozinhas – não resolveriam a questão educacional. Estradas,
escolas, crescimento demográfico, produção e consumo eram ‘fatores interdependentes’, portanto,
nenhum deles se resolveria à revelia dos outros.
Não há como negar que o aumento de população e a difusão do desenvolvimento
intelectual são conseqüências naturais de um bem organizado sistema de
comunicações e transportes. Mas, seria ingenuidade nossa pensar que as estradas
isoladamente pudessem ou possam exercer ação civilizadora. (Grifo meu)
O discurso de Amália Hermano, talvez, se explique pelo lugar de onde falava: ela era
importante personagem da cena educacional da cidade-capital e sua experiência como intelectual e
como educadora ocorria principalmente em Goiânia, cidade para a qual afluíam estradas e onde os
governos estadual e municipal, de qualquer modo, construíam e instalavam escolas. Da cidadecapital, poderia ser dito que eram escolas, mas não somente escolas; e estradas, mas não somente
estradas. Escolas e estradas, juntas, é que tornavam Goiânia uma vitrine a expor os avanços
317
Em Estradas – caminhos abertos à civilização. Revista Oeste, nº 06, julho/1943, pp. 27-29.
223
políticos e culturais da hinterlândia goiana e, ao mesmo tempo, um modelo a ser seguido pelos
interiores do estado. A posição geográfica da cidade-capital e a malha rodoviária que a servia
faziam com que Goiânia se tornasse distinta das cidades do interior e, mais importante, distinta da
centenária Vila Boa. Tornava-se, por isso, atrativa aos que, do interior do estado e das fronteiras de
estados vizinhos, ansiavam por oportunidades educacionais.
Por esta razão, a relação entre o avanço no campo educacional goiano, a expansão de um
sistema público de educação e o papel que nele exerceu a nova cidade-capital somente pode ser
avaliada se contemplada, na análise, a extensão e melhoria da rede de transportes e comunicação, as
quais promoviam alterações nas possibilidades de deslocamento de pessoas e na circulação de
mercadorias. A importância das estradas para o campo educacional goiano evidencia a inter relação
entre educação e economia levando à constatação de que o lugar educacional de Goiânia deve ser
pensado também nos marcos do incremento da atividade produtiva que naquele momento era
experimentado no estado. Esta leitura ressalta o significado econômico de Goiânia para o estado de
Goiás atrelando-o à questão educacional sob o pano de fundo das ânsias de modernidade e de
pertencimento ‘dos filhos do coração do Brasil’.
Goiânia condensou as expectativas econômicas e educacionais dos que nela vieram residir
em busca de melhores condições de vida, de trabalho e de estudo. Um ‘povo emprestado’, como
lembra o hino de Goiânia, logo ocupou a cidade promovendo seu rápido crescimento demográfico:
em 1935, eram 800 moradores; em 1937 com a transferência da capital, já eram 9.000; em 1940,
três anos depois, 47.727 indivíduos já se faziam goianienses318. Mais que crescer, a cidade
explodia, conforme ponderou Otto Prazeres. A promessa da cidade-educadora, que era também a
promessa da cidade do trabalho, a todos atraía.
Para muitos, a promessa depressa se esgotaria diante das reais condições de vida, trabalho e
estudo na cidade-sertão; para alguns, entretanto, Goiânia representou, de fato, novas e boas
oportunidades. Uns e outros contribuíram para que a cidade se fizesse. Distinto, porém, seria seu
papel, sua importância, seu lugar. Aos primeiros, restava o decepcionante retorno às terras de
origem ou a permanência subsumida e o abandono em meio aos respingos de modernidade
experimentados na cidade; aos últimos, descortinava-se um importante e reconhecido papel na forja
material e simbólica da capital da hinterlândia dos goyases. Aos primeiros, a luta diária e, muitas
vezes, frustrante pela sobrevivência. Aos últimos, a glória de fazer a cidade e re-escrever, com as
tintas do exagero e da autopromoção, uma nova história daquela terra e daquela gente.
318
Segundo informações do Recenseamento de 1940. IBGE, 1940.
224
5.2.3 – As elites fazem a cidade e re-escrevem a história
O primeiro e principal interesse das elites intelectuais, políticas e econômicas que se
instalaram em Goiânia foi fazer a cidade moderna que fora prometida por Pedro Ludovico como
símbolo de ruptura com o passado e prenúncio de um futuro grandioso. Eram goianos e goianas do
interior do estado - em sua maioria, da antiga capital -, os homens e mulheres que compunham a
fina flor da sociedade goiana, mas também cariocas, paulistas, baianos, maranhenses, mineiros,
alguns estrangeiros (poloneses, sírios, alemães, libaneses), etc. que se instalavam na cidade-capital.
Ali, tais elites criaram e desenvolveram entidades culturais e artísticas, abriram escolas e
ofereceram oportunidades de educação não-formal, fundaram bibliotecas, organizaram orquestras,
times de futebol e grupos de teatro, inauguraram jornais e revistas, promoveram festas, torneios
esportivos, recitais e saraus musicais. Incansáveis no trabalho de inventar a modernidade da capital
da hinterlândia goiana, não pouparam esforços - às vezes, nem dinheiro - para incrementar uma
vida urbana que deveria ser similar a dos grandes centros urbanos do Brasil e, quiçá, do mundo.
Engendravam, deste modo, uma rede cultural que sustentava o discurso que atribuía à cidadecapital os sentidos da modernidade e da civilização e atraía, para ela, o interesse dos que tinham
ambições relacionadas à escolarização.
Um olhar para tais iniciativas culturais, especialmente, para os nomes de seus propositores
revela que a maioria deles ocupava também um lugar de relevo na máquina administrativa do
governo estadual e municipal, o que lhes conferia um duplo papel. Atuavam na esfera publica como
burocratas do Estado e na esfera privada como animadores culturais sendo difícil distinguir, na sua
atuação, onde terminava o público e onde começava o privado. É o caso, por exemplo, de Colemar
Natal e Silva, fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e da Academia Goiana de
Letras e também do grupo de ‘moços goianos’ que fundaram a Revista Oeste (1942), todos
integrantes do Governo Pedro Ludovico. A relação entre estas iniciativas, seus propositores e a
esfera pública alcançava, inclusive, a dimensão do apoio financeiro já que muitas instituições
criadas e dirigidas por particulares recebiam subsídios econômicos do governo estadual.
A propaganda de Goiânia promovida pelo Estado também se apropriou, sem distinguir o
público do privado, das iniciativas culturais das elites. A ânsia de dar a ver o elevado nível cultural
e intelectual dos goianos produzia a necessidade constante de dizer que a cidade-capital já possuía
várias e boas instituições e entidades escolares, culturais, científicas, artísticas. Não importava
quem as tivesse criado e nem como elas eram mantidas; o que importava era demonstrar que, além
de marco arquitetônico da modernidade e impulso bem sucedido para a atividade produtiva do
estado, Goiânia estimulava e acolhia valorosos intelectuais, os quais faziam da cidade uma ilha de
erudição e cultura em meio ao sertão.
225
Além da elite econômica e intelectual goiana, outros atores se inscreveram na cena da
cidade a partir de sua contribuição para a forja da sua cultura urbana. Discretos, ocultos nas dobras
da história, alguns grupos de imigrantes deixaram suas marcas na cena da cidade, trabalhando para
sua construção. Não se deve esquecer que, no momento do surgimento da capital goiana, o mundo
vivia tempos de crise, de guerras e totalitarismos; tempos em que o capitalismo se expandia
provocando profundas mudanças que, por sua vez, ampliavam os deslocamentos humanos pelo
planeta. Cidade de migrantes, Goiânia acolhia também os que vinham de terras de além mar,
embora, em número muitíssimo mais reduzido que outras regiões do Brasil. Destaco, neste sentido,
as colônias polonesa e árabe, esta composta por sírios (maioria) e libaneses. Cada uma delas, a seu
modo e de acordo com suas tradições, se fez presente no processo de construção de Goiânia e de
sua ‘vida espiritual’.
Assim, a presença polonesa pode ser pensada nos termos de uma presença intelectual e
artística que teve no intelectual Antonio Wisik seu principal porta voz. Este intelectual era padre na
paróquia da vizinha Anápolis, mas as fontes informam que ele era um freqüentador assíduo dos
círculos cultos da cidade-capital; publicava na revista Oeste319 e proferia palestras e conferências
sobre temas que despertavam vivo interesse na ‘boa sociedade’ de Goiânia. Wisik versava
principalmente sobre artistas e intelectuais da Polônia. O compositor Fréderic Chopin, por exemplo,
era um tema sempre abordado por ele que tratava também da presença polonesa na história goiana e
das boas relações entre seu país de origem e o estado de Goiás. A ação do padre Wisik contava com
um importante precedente; o primeiro ‘visitante ilustre’ da nova capital, em 1936, tinha sido Tadeu
Grabowisk, ministro da Polônia no Brasil320.
A ‘boa sociedade’ goianiense, ávida por conhecimento e cultura, grata a quem o veiculava,
soube retribuir à colônia polonesa. Um exemplo desta retribuição é a Festa da Polônia, evento
organizado em 1944321 pelo Centro Cultural Brasil-Estados Unidos322, em cuja diretoria aparecem
nomes de importantes personagens do campo educacional da cìdade-capital e do estado de Goiás.
Vasco dos Reis, Diretor de Instrução, era seu presidente sendo que Ofélia Sócrates do Nascimento
Monteiro, diretora da Escola Normal Oficial e autora do livro Goiaz, coração do Brasil (1934),
também é citada como integrante da diretoria. No programa da festa constaram palestras e discursos
319
Oeste publicou os seguintes artigos do padre Antonio Wisik: Dom Bosco em Goiânia, nº 12, janeiro/1944, pp. 19-10;
Presença da Polônia em Goiaz, nº 15, abril/1944, p. 28; Chopin, o poeta do piano, nº 20, setembro/1944, p. 36; Mme.
Curie Sklodowski (ao decênio de sua morte), nº 21, outubro/1944, p. 34; Todos, aqui, são amigos da Polônia, nº 23,
dezembro/1944, p. 22-24.
320
Ao visitar Goiânia, em 1936, Grabowisk declarou que o estado de Goiás, com seus vastos campos cultiváveis e sua
política que estimulava a vinda de não goianos, se constituía em um excelente lugar para a instalação de uma colônia de
poloneses. Em Como nasceu Goiânia?, 1938.
321
Em Festa da Polônia. Revista Oeste, nº 16, maio/1944, p. 28.
322
Não encontrei, nas fontes consultadas, nenhuma referência a este centro. A única menção a esta entidade encontra-se
na nota publicada na Revista Oeste.
226
alusivos às relações entre Brasil e Estados Unidos, a execução por orquestra dos hinos dos dois
países, além de apresentações e números de bailado, canto, violino, piano e declamação de poemas.
A colônia árabe também foi coadjuvante neste processo de construção cultural e material
da nova capital. Presença discreta, mas que ao longo do tempo foi se tornando numerosa quase na
mesma medida em que se tornava mais e mais importante na vida goiana e goianiense323. Os árabes
seguiam os trilhos da estrada de ferro e, assim, as trilhas da urbanização. Em 1935, o trem chegou a
Anápolis, a 30 quilômetros de Goiânia. Daí, muitos sírios e libaneses, principalmente, e sempre
com suas famílias, se transferiram para a capital. De acordo com Nunes (2000: 100), eles foram o
grupo imigrante que “[...] melhor soube aproveitar as condições criadas pela construção da nova
capital de Goiás [...]”. Comerciantes por tradição, os árabes dinamizaram a vida comercial de
Goiânia e se fizerem bem sucedidos em suas atividades. O bairro de Campinas foi o local escolhido
por este grupo que manteve na cidade os profundos e fortes laços de parentesco.
Foi também em Campinas que este grupo interferiu na construção da cidade-capital: ali a
colônia sírio-libanesa construía, em 1939, um pavilhão que depois de pronto seria doado ao
governo estadual para nele ser instalada a Casa das Crianças Pobres, como se lê em O Popular do
dia 02 de março de 1939 ou ainda a Casa da Criança, conforme noticiou o Correio Oficial em 11 de
junho do mesmo ano. Era uma iniciativa liderada pelos árabes de Goiânia, mas que buscava o apoio
econômico de imigrantes árabes das cidades do interior e até mesmo de outros estados. Os jornais
locais acompanharam a construção do pavilhão, divulgando o andamento das obras e dando
destaque aos apelos, cada vez mais constantes, de apoio econômico que os representantes árabes de
Goiânia dirigiam aos seus compatriotas do interior do estado e até mesmo da capital paulista para
que a obra fosse finalizada.
O governo estadual criou um dispositivo para estimular as doações dos árabes: distribuiu
diplomas ‘de vinte mil réis cada um para distribuir entre os membros da colônia e seus
descendentes’324. A primeira-dama do estado, Gercina Borges Teixeira, se encarregou pessoalmente
desta distribuição, o que se constituía em outro dispositivo para fazer aumentar as doações. Em 01
de fevereiro de 1942325, a Casa da Criança era inaugurada com ‘09 crianças externas e 38 internas’,
todas meninas. A direção desta entidade foi entregue à Congregação Irmãs Missionárias de Jesus
Cruxificado e estava sob a fiscalização do Conselho Estadual de Assistência Social, o que talvez
323
Desde o final do século XIX, os árabes já participavam do processo de integração dos sertões goianos à vida e à
cultura modernas O personagem símbolo de sua participação é o mascate. Viajando à cavalo, de trem de ferro,
automóvel e à pé, o mascate chegava a todos os lugares, mesmo às fazendas e vilas mais distantes e isoladas. Sua
chegada causava rebuliço, principalmente, entre mulheres e crianças que se amontoavam sobre a mala de onde saiam
colares, lenços, tecidos finos, brinquedos, etc. Pobres ou ricos, o mascate a todos atendia: se não havia dinheiro,
aceitava-se sacas de arroz, de milho, de café; aceitava-se um boi, um cavalo. Na falta de tudo, o mascote vendia a prazo
sendo que, às vezes, só recebia a dívida um ano depois quando voltava ao lugar (NUNES, 2000).
324
A colônia síria e a Casa da Criança. Correio Oficial do estado de Goiás, 16/01/1940, p. 01
325
Festivamente inaugurada, domingo, a Casa da Criança. Correio Oficial do estado de Goiás, 04/02/1942, p. 01 e 04.
227
sinalize para o apoio da Igreja e do governo estadual para o término das obras. A entidade foi
considerada, por Celso Hermínio Teixeira326 que discursou na ocasião, como um importante apoio à
atuação do juizado de menores da capital na medida em que criava um lugar para abrigar ‘menores
totalmente desamparados’.
Três eram as áreas nas quais a esfera privada atuava com maior frequencia estando as
mesmas profundamente interligadas: na animação sócio-cultural de Goiânia, criando entidades
culturais, provendo festas, exposições, festivais, palestras, conferências, recitais, saraus musicais e
literários, congressos, escrevendo e publicando livros, poemas, artigos de opinião, etc.. Assim,
forjavam um ambiente permeado de erudição, de bom gosto estético, de arte, de debates filosóficos,
sociológicos e políticos. Atuavam fortemente também no atendimento assistencial aos grupos
empobrecidos, especialmente a infância pobre, fundando hospitais e desenvolvendo campanhas
beneficentes. A assistência a infância empobrecida – e aos pobres de modo geral – pode se
compreendida segundo óticas distintas e complementares: de um lado, havia a força dos valores
cristãos como a caridade e a compaixão; de outro, havia a percepção da necessidade em colaborar
com o Estado na construção material da cidade-capital que, lembremos, não desejava ter nem
mocambos nem favelas.
E, finalmente, as elites se faziam presentes na oferta de educação, abrindo escolas para os
trabalhadores, mas também para os filhos das famílias ricas. O setor privado foi, inclusive, o maior
responsável pela expansão das escolas normais durante o governo Pedro Ludovico. Esta área foi,
aliás, quase que completamente controlada pela esfera privada. Bretas (1991: 592) afirma que, nos
anos 1930 em Goiás, a escola normal “[...] era o estabelecimento de ensino médio mais fácil de se
fazer funcionar. Fundada uma escola normal, era certa a subvenção do governo, e não só o auxílio
em dinheiro, mas também o reconhecimento imediato [...]”. A única exigência para a instalação de
uma escola normal era a existência de um corpo docente com diploma de normalista. O crescimento
da rede de escolas normais, no período em questão, ficou a cargo da iniciativa privada. Era a
estratégia governamental neste campo. Já no Relatório de 1933, mesmo lamentando, Ludovico
justificava a solução encontrada para estimular 'o aparecimento de novas escolas normais' no
estado.
Entre crea-las às expensas dos cofres públicos, o que lhes acarretaria talvez onus
superiores à sua apoucada capacidade, e estimular a ação da iniciativa particular
sempre que esta pretendesse fundar estabelecimentos de ensino normal, optamos
pela segunda orientação, por ser, infelizmente, a que se coadunava no momento
com penosa situação financeira do estado.
326
Presidente do Conselho Estadual de Assistência Social.
228
Considerado o grande nó a ser desatado para o avanço do sistema educacional goiano, a
formação de professores foi, assim, transferida à iniciativa privada desde o início do governo Pedro
Ludovico. Houve redução de exigências para criação de escolas normais bem como para equiparálas à Escola Normal mantida pelo Estado, além da criação de estímulos legais como prêmios aos
melhores colocados durante o curso normal e concursos públicos para acesso a carreira do
magistério. O Regulamento do Ensino Normal327, de janeiro de 1931, foi o instrumento do governo
goiano para implantação da política de formação de professores. O Regulamento constituía-se em
uma reforma no ensino normal que tinha como um dos seus principais objetivos o estímulo e a
facilitação à abertura de escolas normais no interior do estado. De acordo com Canezin & Loureiro
(1994: 76),
Diferentemente do regulamento anterior, no novo não se exigiu do estabelecimento
de ensino o patrimônio mínimo de 50.000$000. Além disso, no regulamento de 30,
deixou de ser obrigatória a mesma orientação didática da Escola Normal Oficial
para equiparação.
As diretrizes colocadas por este Regulamento foram, quase obsessivamente, expostas por
Ludovico que ressaltou, no seu Relatório de 1933, seu caráter administrativo e pedagógico inovador
como fator fundamental para os acertos de sua administração no campo da formação de professores
primários. O Regulamento ampliava o tempo de duração do curso normal de três para quatro anos e
introduzia, na área de história, as disciplinas História de Goiás e Educação Cívica. De acordo com
Maria Nepomuceno (1994), as aulas teóricas eram complementadas por aulas práticas ministradas
por professores especializados em didática. Tais aulas ocorriam no Grupo Escolar da Capital328 que
se tornou em 1932, ainda na Cidade de Goiás, escola-campo dos estudantes do curso normal. Uma
‘expectativa otimista’ era o sentimento do governo goiano acerca dos efeitos do Regulamento. Na
dimensão pedagógica, o Regulamento de 1931 era, na verdade, uma das heranças das reformas
efetuadas antes de Pedro Ludovico por Americano do Brasil (1918) e José Gumercindo Marques
Otero (Janeiro/1930).
Mas, o outro foco do Regulamento e da reforma – a redução das exigências para a abertura e
equiparação de escolas normais – era inédito e já surtia seus efeitos. O setor privado respondera ao
chamado do Estado. Ludovico comemorava, em 1933, a abertura de seis novas escolas normais no
território goiano desde sua ascensão ao poder. Somando-se às cinco escolas existentes antes de
1930, eram já onze as escolas que melhorariam a formação do professorado goiano. Todas as novas
327
Decreto-Lei 659, de 28/01/1931.
O Grupo Escolar da Capital teve sua denominação alterada para Grupo Escolar Modelo através da Lei 264, de
07/10/1937. Foi com esta denominação que, quarenta dias depois, em 17/11/1937, a escola foi transferida para a nova
cidade-capital.
328
229
instituições eram equiparadas e recebiam subvenção orçamentária do governo estadual. Nenhuma
foi construída pelo governo estadual, mas pelos municípios goianos e, principalmente, pela Igreja
Católica, importante sujeito no projeto de expansão da rede escolar que o interventor colocava em
ação.
A presença da Igreja Católica neste campo se tornaria ainda mais significativa nos anos
subseqüentes. Mesmo considerando que, do centro dinâmico da nação, espraiava-se a demanda por
uma educação pública e laica; mesmo considerando o desejo de pertencimento que, por diversas
vezes, levou os goianos a aderirem a práticas e discursos dali originários, para os novos
governantes de Goiás a presença da Igreja Católica era bem vinda. Talvez, mais que bem vinda,
fundamental. E, talvez, mais do que no campo da educação, o apoio do clero revelou-se essencial
no processo de construção e transferência da capital.
Na verdade, há muito, desde os tempos imperiais, os governantes de Goiás buscavam apoio
na Igreja Católica para a resolução dos problemas educacionais. Nem sempre foram bem sucedidos.
Os padres, é evidente, ocuparam funções no magistério goiano e participaram da educação do povo
por meio de sua ação evangelizadora, mas não abriram instituições escolares na hinterlândia
goiana, à exceção de escolas de catequese fundadas por padres em aldeamentos indígenas no
período imperial, conforme relata Americano do Brasil (1982). Outra iniciativa pode ser
mencionada. Trata-se do Seminário Episcopal de Santa Cruz329 que funcionou, entre altos e baixos,
de 1872 a 1896330. A educação popular passava longe das preocupações de seus criadores e
mantenedores já que o objetivo da escola era formar padres para atuar nas longínquas paróquias do
sertão goiano e melhorar o criticado baixo nível cultural dos sacerdotes da região.
Assim, durante o período colonial e imperial não ocorreu no estado, como em outras regiões
brasileiras, a abertura de escolas primárias e secundárias confessionais católicas (BRETAS, 1991).
Não havia ali, parece ter conjecturado a Igreja, demanda pela escola; além do mais, a população da
longínqua e isolada região goiana era carente de meios econômicos que pudessem sustentar escolas
pagas. No final do século XIX, indícios de mudança ocorreram com a instalação, na Cidade de
Goiás, do Colégio Santana (1896). O curso normal desta escola exerceu, inclusive, importante
papel irradiador nos anos 1910 e 1920 (ALVES, 2007). Era a única escola da antiga cidade-capital
329
O nome da escola foi uma homenagem a Felipe Antonio Cardoso de Santa Cruz, grande incentivador do Seminário e
primeiro Inspetor Geral de Instrução do estado de Goiás tendo exercido a função no período 1856/1861. Sua nomeação
ocorreu por força da reforma de ensino efetuada pelo Presidente Pereira da Cunha em 1856. Nesta reforma, um novo
regulamento para o Lyceu de Goiaz foi implantado e, nele, previa-se (art. 35) que o diretor desta escola acumularia as
funções de direção e de inspeção geral de insttrução toda a província de Goiás. É de sua autoria um relatório sobre a
situação do ensino na província goiana que Genesco Bretas (1991: 346) considera ‘um dos melhores, ou talvez o
melhor que se fez durante toda a existência da Inspetoria Geral’. Ao ser nomeado, Santa Cruz tinha pouco mais de vinte
anos, era coronel da Guarda Nacional da Capital e deputado provincial sendo eleito, em 1857, deputado geral. Nesta
posição, conseguiu subvenção anual de 10 contos de réis para a instrução goiana.
330
Quando foi fechado e transferido para Uberaba/MG onde recebeu o nome de Seminário Episcopal Santa Cruz de
Ouro Fino.
230
que funcionava em regime de internato e, nesta condição, recebia meninas e moças das zonas rurais
e urbanas do interior goiano. Estas, em sua maioria, retornavam a seus locais de origem – cidade ou
fazenda – como professoras primárias diplomadas por escola normal equiparada. Neste sentido, o
Colégio Santana pode ser considerado pioneiro no processo de qualificação do professorado
primário em Goiás.
Embora possa ser percebido um aumento de interesse e investimento da Igreja Católica
neste campo, durante as duas primeiras décadas do século XX ele não foi significativo. Mas nos
anos 1920, houve uma intensificação de interesse pelo ensino secundário. O governo estadual
mantinha uma única escola secundária em todo o território goiano: o Liceu de Goiás. Esta era, aliás,
até o final dos anos 1920, a única escola deste tipo no estado. Mas nos anos 1920, a demanda por
educação escolarizada emergia. Canezin & Loureiro (1994) afirmam que o número de matrículas
aumentou significativamente a partir de então e a Igreja, finalmente, começou a enxergar o sertão
goiano como campo propício a seu projeto de nação. Segundo as autoras (1994: 61),
Em 1929, foram subvencionados pelo Estado os colégios Sant'Anna (capital), com
95 alunos; Sagrado Coração de Jesus (Porto Nacional) com 26 alunos; Mãe de
Deus (Catalão) com 74 alunos; Escola Prática de Agricultura (Rio Verde) com 32
alunos; Colégio São José (Porto Nacional) com 11 alunos; Instituto de Ciências e
Letras (Anápolis) com 20 alunos; Colégio São José (Formosa) com 120 alunos;
Colégio Santa Clara (Campinas) com 27 alunos; e Instituto Propedêutico (Capital)
com 44 alunos. Com exceção do Instituto de Ciências e Letras de Anápolis e do
Instituto Propedêutico da capital, os demais são dirigidos por membros de diversas
ordens religiosas. (Grifos meus) 331
No pós-Trinta, a política educacional do período Ludovico - depois reforçada pela política
educacional do Estado Novo - criou condições ainda melhores para o investimento da Igreja na
educação goiana, direcionando-o às escolas normais. Aliado a isto, o surto progressista provocado
pela nova cidade-capital ensejava, ainda mais, o crescimento da procura pela escola e criava, para
os católicos, a oportunidade de reforçar através de suas instituições escolares os valores cristãos
pela imensidão do Brasil. A Igreja Católica, lembremos, era uma das principais participantes no
debate educacional que, então, ocorria nos centros dinâmicos da nação. No momento do surgimento
de Goiânia, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova pela Reconstrução Nacional já havia
explodido a aparente coesão que marcou, nos anos 1920, a ação e os discursos dos intelectuaiseducadores e provocado a polarização do debate entre educadores-católicos e educadores-liberais,
os quais ficaram conhecidos na historiografia da educação brasileira como pioneiros da educação
nova (CARVALHO, 2002).
A educação se apresentava como arena de luta ideológica, principalmente nas regiões
331
Os grifos destacam as escolas normais.
231
consideradas progressistas e civilizadas e, nestas, nas grandes cidades do litoral e suas adjacências.
Nessa arena, duelavam defensores de distintos projetos de nação. Naquele momento, a conquista
católica do sertão goiano – como de outros sertões! - por meio da educação pode ser pensada como
uma estratégia de difusão da ideologia cristã, a qual se achava sob o fogo cruzado no debate sobre a
reconstrução nacional levado a cabo pelos intelectuais-educadores defensores de uma escola de
caráter público, cariz científico e orientação laica. Ocupar o interior, povoando-o de escolas
confessionais apresentou-se como alternativa estratégica de sobrevivência e fortalecimento do
poder católico.
Em Goiás, a Igreja se fez importante parceira do governo estadual na obra educacional. O
Correio Oficial noticiou, em matéria de primeira página do dia 11 março de 1942332, a abertura
próxima de uma escola secundária católica na cidade de Formosa. Neste acontecimento é possível
perceber como a parceira entre governos estadual e municipal e a Igreja Católica vinha construindo
o que o jornalista chamou de ‘novos celeiros educacionais – fontes primordiais de civilização’. O
Ginásio Arquidiocesano do Planalto estava sendo aberto graças a ‘ação fecunda e contínua do
governo estadual’ e ‘a atividade benéfica do clero em colaboração com os poderes municipais’. O
prédio onde funcionaria o Ginásio, o corpo docente e a fiscalização ficariam a cargo da Igreja; ‘a
prefeitura e o povo de Formosa’ arcariam com mobiliário e se responsabilizariam pela adaptação do
edifício, ‘para o que seria necessário uma quota de menos de 100 contos’.
As instituições escolares católicas foram, assim, surgindo na cidade-capital e no interior do
estado333. O ritmo de seu aparecimento indica que o ensino normal e secundário foi o foco
preferencial, mas houve também investimento na criação de escolas primárias. Em Goiânia, o
Colégio Santa Clara oferecia o curso normal, mantendo também um curso primário. Depois, a
Igreja Católica abriu, em 1938, o Colégio Santo Agostinho, para meninas e moças e em 1940, uma
escola para meninos, o Ateneu Dom Bosco. As normalistas do Colégio Santa Clara representam a
imagem que ficou na memória dos goianienses como sinônimo de qualidade formativa de
professoras primárias. Ao contrário, a Escola Normal Oficial pode ser vista como símbolo da
transferência de responsabilidade do público para o privado neste campo. Sem prédio próprio,
instalada provisoriamente, peregrinando, durante anos, por casas e sobrados da nova capital,
vivendo a falta de material didático apropriado, a Escola Normal Oficial representava, exatamente,
as opções do governo estadual quanto à formação de professores.
As escolas católicas modernizavam-se seguindo as diretrizes escolanovistas julgadas
332
Progresso do ensino em Goiáz: Fundado em Formosa o ‘Ginásio Arquidiocesano do Planalto’. Correio Oficial do
estado de Goiás, 11/03/1942, p.01.
333
Em 13/03/1940, o Correio Oficial divulgou matéria sobre o Hospital Evangélico Goiano de Anapólis e sobre a
‘função educadora da Escola de Enfermagem e Obstetrícia que lhe é anexa’, revelando que também os protestantes já
atuavam naquele momento no campo educacional goiano.
232
convenientes aos dogmas cristãos, ao mesmo tempo em que negavam o sentido político da Escola
Nova. É interessante notar que o Manifesto dos Pioneiros da Educação não foi, nem total nem
parcialmente, publicado pela imprensa da antiga Vila Boa e nem mesmo nos anos seguintes depois
que Goiânia tornou-se capital estadual. Aliás, do Manifesto não se deu notícia. Nas fontes
consultadas334, nenhum comentário ou referência ao documento que desfraldava a bandeira de luta
pela escola pública. Algo similar ocorreu em Minas Gerais. De acordo com Ana Maria Casassanta
Peixoto (2004), à exceção do jornal católico O Horizonte, a imprensa oficial e não oficial mineira
manteve-se em silêncio quando o Manifesto foi publicado em 1932, o que revela, na visão desta
autora, as tensões que marcavam as relações entre o Estado em sua feição estadual – que adotara o
escolanovismo como pedagogia oficial e realizara na reforma Francisco Campos (1927) uma
investida em prol da educação pública, gratuita e laica - e a Igreja Católica que lutava para manter
seu poder no governo das almas mineiras.
Em Goiás, o discurso emblemático do escolanovismo pode ser percebido no antidiscurso
que sobre ele recaiu. Destacam-se, neste caso, o elogio a educação religiosa e aos valores cristãos
bem como a defesa da presença da igreja católica no contexto educacional. De resto, as escolas
confessionais católicas de Goiânia, seguindo de perto a modernização conservadora dos
educadores-católicos, inseriam-se na perspectiva de demarcar a sua compreensão do ideário
escolanovista distanciando, assim, dos chamados educadores-liberais. Conforme Carvalho (2002:
19),
Os pioneiros atuaram de modo a enraizar os usos das expressões educação nova e
escola nova nas práticas de organização da cultura e da sociedade de que faziam
parte as práticas de remodelação da escola e da reforma estrutural do sistema
escolar a que se lançavam. Já os católicos agiram em direção oposta: procuravam
confinar os usos das expressões ao campo doutrinário da Pedagogia, de modo a
instanciar o discurso pedagógico católico como juiz dos processos escolanovistas,
evitando que sua introdução nas escolas tivesse o impacto transformador esperado
pelos seus adversários (Grifos da autora)
As instituições escolares católicas que se instalavam na Cidade-Sertão incorporavam tais
diretrizes adotando princípios pedagógicos inovadores. Conforme emana da interpretação de
anúncios publicitários destas escolas publicadas na impressa local, certos equipamentos, instalações
e práticas constituíam o seu diferencial de qualidade educacional. A análise de seus estatutos e
regimentos e de entrevistas concedidas pelos seus responsáveis à impressa local também permite
334
Consultei os jornais A Voz do Povo e o Correio Oficial do Estado de Goiás do ano de 1932 que se encontram, quase
inteiramente preservados, no Arquivo Histórico Estadual. A busca não contemplou jornais e revistas do interior do
estado. Não encontrei qualquer referência ao Manifesto nos livros de memórias e nas biografias e autobiografias de
intelectuais-educadores goianos do período, muito embora, vários deles façam menção ao escolanovismo, à escola ativa
e a alguns dos chamados pioneiros como Anísio Teixeira e Lourenço Filho.
233
perceber tais orientações e sua valoração positiva. Assim, as aulas de ginástica, os jornais escolares,
os laboratórios de ciências naturais e a atividade infantil nas rotinas de sala de aula eram
anunciados, ao lado da formação moral e religiosa, como importante benefício das escolas
confessionais católicas para a educação da infância e da juventude em Goiânia.
A Igreja Católica ia, assim, ganhando terreno no campo da educação em Goiás e agregando
força política para a defesa de seus projetos formativos. Em 1948, a cidade abrigaria o Primeiro
Congresso Eucarístico Nacional e Primeiro Congresso Eucarístico de Goiânia, eventos que
intensificaram a ação católica no campo educacional goiano e lançaram as bases para a criação de
uma universidade na cidade-capital. No final dos anos 1950, surgiria a Universidade Católica de
Goiás, primeira universidade da região, e a Igreja se tornaria poderosa o suficiente para ter o
cônego Fonseca e Silva, como responsável pela Secretária de Educação de Goiás. E
suficientemente poderosa para participar da polêmica nacional sobre o caráter – público e laico ou
privado e confessional - da escola brasileira tendo como um de seus mediadores o mesmo Fonseca
e Silva335, determinado e agressivo defensor da educação religiosa e do monopólio católico no
campo educacional brasileiro (NUNES, 1999).
As elites econômicas e intelectuais que se instalavam em Goiânia estavam conscientes de
seu papel na construção da cidade-capital. Eram parte fundamental no projeto de poder dos que
ascenderam ao poder regional com a Revolução de Trinta e levaram a cabo a invenção da nova
cidade-capital. E se mostraram dispostas a contribuir para o ‘progresso’ da cidade e do estado.
Também elas desejavam fazer história. Apostando na cidade, esperavam as recompensas pela sua
atuação. A história não as decepcionou. Nem poderia já que estava em suas mãos reescrevê-la. Ao
fazê-lo, se representaram como mediadores do moderno, verdadeiros heróis salvadores do
abandonado, pobre, ignorado e ignorante sertão de Goiás. A negação da história revelou-se
necessária. E quão intenso, incessante, criativo e cruel foi seu trabalho de destruição do passado das
antigas minas dos goyases.
As estratégias de apagamento, ocultação, silenciamento da história de Goiás operadas por
estas elites não se restringiam, entretanto, aos tempos anteriores à derrocada das oligarquias. A
nova cidade-capital também foi capturada na teia da revisão dos autos do passado. É que a
modernidade de Goiânia mostrava-se tipicamente brasileira e, consequentemente, mantinha
distinções e renovava formas de exclusão. O passado teimava em sobreviver. Mas a constituição
dos sentidos de Goiânia sustentou-se em uma discursividade que fazia de Goiânia a arena de
encenação da modernidade e, por isso, ocultava as dobras da cidade. Também o campo educacional
passou por este processo e foi como num jogo de claro-escuro que a escola enraizou-se na cidade
335
A respeito ver NUNES, CLARICE. Prioridade número um para a educação popular. In: CASSIM, M. (org.).
Anísio Teixeira: educação não é privilégio. Rio de Janeiro/RJ: Ed. UFRJ, 1999, 6ª edição.
234
inventada sem superar os ranços que fizeram da instituição escolar goiana o espaço de privilégios
que os construtores de Goiânia afirmavam não mais existir a partir do surgimento da nova cidadecapital de Goiás.
235
CAPÍTULO VI
SILENCIAR E ESQUECER: PERMANÊNCIAS... RUPTURAS
6.1 – No espelho, o sertão desaparecido. Em sua contraface, o sertão resistente.
Tá vendo aquela escola, moço? Ajudei a levantar. Lá eu quase
me arrebento. Fiz a massa, fiz cimento, ajudei a rebocar.
Minha filha inocente diz pra mim, toda contente, pai, vou me
matricular. Mas me informa o cidadão criança de pé no chão
aqui não pode estudar.
336
Cidadão, Lucio Barbosa
Goiânia foi significada como ponto final de uma era na qual escolas eram raridade e a
educação, privilégio de poucos. Irradiando influência para seu entorno imediato (o interior do
estado), a cidade foi representada como uma espécie de marco zero no tocante a educação dos
goianos que, civilizados pela instrução, poderiam contribuir para o alcance da relevância e do
pertencimento à nação. Afora sua influência pelos interiores do estado de Goiás, a cidade-capital foi
celebrada como ‘unidade cultural’ sob a qual estaria garantida a integração da nação em torno de
uma ‘cultura própria’, conforme afirmava em 1944 na revista Oeste, Vasco dos Reis, Diretor de
Instrução do estado de Goiás. São suas palavras: ‘Goiânia é uma das maiores afirmações brasileiras
de cultura própria. [...] centro material de um largo movimento espiritual aqui nascido, bem no
coração do país, para se irradiar em movimentos de encíclica, pela vastidão desta imensa
hinterlândia’.
Mas, a educação escolarizada, ao jogar luz sobre certos sujeitos, lugares, práticas e discursos
que se mostravam adequados às noções de modernidade e progresso prometidos pela cidadecapital, deixou nas sombras outros sujeitos, lugares, práticas e discursos. Estes últimos, afastados
336
A canção Cidadão foi primeiramente gravada por Zé Geraldo.
236
do moderno, denotavam as permanências que mantinham vivas em Goiânia, ainda que em novos
termos, as distinções e exclusões que negavam, à boa parte dos seus moradores, a experiência da
cidadania prometida tanto pelo urbano quanto pelo escolar. Algumas escolas, sujeitos e
acontecimentos, então, ganharam visibilidade extrema enquanto outras ficaram obscurecidas na reescrita da história goiana que, naquele momento, se efetuava pela lavra dos intelectuais entusiastas
da cidade-capital. O jogo de claro-escuro que marcou o campo da educação em Goiânia não era
novo na realidade educacional e urbana nacional. Mais que mera característica local, iluminar e
esconder aparece como uma marca da própria construção da nação e da escola que aqui surgiu e se
consolidou.
Do grupo de escolas que eram dadas a ver como símbolo da modernidade goianiense faziam
parte, as instituições escolares mantidas pelo governo estadual: o Liceu de Goiânia, a Faculdade de
Direito, a Escola Normal Oficial, o Grupo Escolar Modelo, o Jardim de Infância Modelo, a Escola
Complementar da Capital. Estas escolas representavam a fina flor da obra educacional do Estado
sendo presença constante no noticiário local. Depois delas, aparece com menor destaque uma
escola mantida pelo município, o Grupo Escolar Pedro Ludovico Teixeira, localizado no bairro de
Campinas. O que, destas escolas, se falava nos jornais e revistas da cidade-capital? Como a
imprensa local as representava? É possível perceber ai as relações entre a cidade e a escola?
O noticiário local permite perceber o entrelaçamento entre o escolar e o urbano naquele
momento em que a jovem cidade-capital ensaiava sua entrada triunfante na história regional e
nacional amparada por uma construção simbólica que ressaltava a modernidade, a civilização, a
erudição e a ‘alta cultura’ dos goianos que a construíam. Raros eram os exemplares dos jornais
locais que não continham algo sobre tais escolas: além de anúncios administrativos e voltados para
o funcionamento da escola como abertura de matrículas, convocação para exames, editais e
chamadas para concursos públicos, avisos sobre horários escolares, etc., a imprensa acompanhava,
passo-a-passo, o cotidiano destas escolas, comentando os resultados dos exames, comemorando a
aprovação por concurso de ‘valores locais’, celebrando a participação de professores e estudantes
em eventos locais e nacionais, etc.
Sem dúvida, a ênfase maior recaia sobre as iniciativas e atividades voltadas para fora da
escola. Pelo que emana da leitura das fontes, a função social própria da escola – a transmissão de
saberes com base em certos modos de ensinar e aprender – e o que acontecia no interior das
instituições escolares goianienses ficaram como que subsumidos diante de outras funções sociais
relativas à animação sócio-cultural de Goiânia. O foco na participação da escola na cena urbana da
nova cidade-capital goiana pode, inclusive, explicar a dificuldade de acessar sua cultura intramuros
na medida em que, coligada à força da história oficial de Goiânia, esta ênfase preservou certas
dimensões da memória da educação na cidade contribuindo para o esquecimento e silenciamento
237
sobre outras.
As festas, os festivais artísticos e culturais, os torneiros esportivos, as campanhas
beneficentes, a presença de estudantes e professores em eventos-rituais locais como desfiles,
homenagens, recepções e despedidas de autoridades e visitantes, tudo era amplamente noticiado.
Destacava-se a participação da escola na vida e na cultura da cidade com uma intensidade,
entusiasmo e frequencia bem maiores que aqueles eventos relacionados ao seu mundo interno. A
imagem da escola goianiense que ia sendo delineada pela imprensa fazia vislumbrar uma escola
atuante e moderna, centro de cultura e de arte, espaço de uma sociabilidade civilizada na qual o
amor ao Brasil e a Goiás se fazia mediador da atuação de estudantes, professores e professoras.
Recebiam ainda alguma atenção da imprensa, algumas escolas privadas, particularmente as
confessionais católicas - o Colégio Santa Clara, o Ateneu Dom Bosco, o Colégio Santo Agostinho –
e escolas de formação superior e profissional como a Faculdade de Farmácia, o Curso de Madureza
Americano do Brasil, a Escola Remington de Datilografia e o Instituto Técnico Comercial (depois,
Escola Superior de Comércio). A impressa local noticiava, com alguma regularidade, eventos
ligados ao universo destas escolas. No Correio Oficial337, por exemplo, são frequentes os anúncios
relativos à abertura de matrículas, convocações para exames e avisos sobre uniformes como
também a publicação de regimentos e estatutos. Mas é interessante notar que, ao contrário do que
acontecia com as escolas públicas, a impressa local tratava a presença destas escolas na vida
cultural goianiense somente como centros de qualidade educacional e não como agentes de
produção sócio-cultural.
A cidade abrigava em suas dobras, entretanto, outras escolas; essas, ao que parece, foram
consideradas muito menos dignas de participar da encenação de modernidade que se encontrava em
curso. Foram, então, ignoradas. Entre elas, quase invisíveis, as muitas escolas compostas de salas
de aula solitárias com suas solitárias professoras e seus empobrecidos alunos. Identificá-las,
localizá-las na história e na tessitura urbana de Goiânia tem se revelado uma tarefa de difícil
consecução para os historiadores da educação não somente na cidade-capital como em todo o
estado, conforme reconhece Maria de Araújo Nepomuceno (1994). Nas fontes preservadas,
encontrei poucos registros aligeirados ou mesmo ausência completa de registros.
Instaladas em barracões, paróquias, salas de aula de fundos de quintais, esse tipo de escola
era reconhecido na legislação educacional do estado como Escolas Isoladas, fazendo parte da
tipologia das escolas públicas de Goiás. Ofereciam ensino primário fundamental com duração de
337
Não consegui verificar se os espaços que a imprensa goiana concedia a este tipo de publicação eram pagos.
Entrevistas e matérias que versavam sobre as escolas católicas, suas instalações, sua pedagogia também podem ser
encontradas.
238
três anos. Até mesmo em uma sala no Palácio do Governo funcionava uma escola deste tipo, a
primeira a se instalar na cidade, em 1934. Nos grupos escolares, o curso primário tinha duração de
04 anos com um caráter propedêutico. Ao contrário, aqueles que concluíam o curso primário nas
escolas isoladas não poderiam matricular-se nos níveis posteriores de ensino. A escola isolada era
uma escola terminal. Sua função era ministrar educação básica, qualificada pelo mínimo de
educação que oferecia: ler, escrever e contar.
O relato de Adolfo Boari338 que chegou a Goiânia em 1940 e atuou na construção da cidadecapital como ajudante de pedreiro e mestre de obras ajuda a imaginá-la. Ele fala da escola primária
freqüentada pelo seu único filho.
[...] uma escola muito ruim. Ele fez o primário. Eu o levava à escola, que era na
beira do ribeirão Capim Puba. Um barracãozinho muito ruim. Ali ele começou.
Não me lembro o nome da escola. [...] Era curso primário para aprender a ler,
escrever, e contar alguma operação aritmética.
A imprensa noticiava, em pequenas notas, a abertura de escolas isoladas privadas mantidas
por instituições religiosas ou que surgiam por efeito de movimentos como a Cruzada Nacional de
Educação ou ainda as mantidas pelos governos estadual e municipal. Eram, geralmente, escolas
primárias noturnas. Mas muitas dessas notas não permitem identificar os agentes que atuavam na
criação e manutenção dessas instituições escolares. Em 17 de março de 1938, o Correio Oficial
publicou uma nota deste tipo. Anunciava-se a criação de ‘uma Escola Primária Noturna,
inteiramente gratuita, possuindo método de ensino especial para crianças e adultos’ e informava o
horário das aulas – ‘Das 6, 30 ás 8 horas da noite, para crianças. Das 8 ás 9 horas da noite, para
adultos’. As matrículas estariam abertas ‘sem distinção de sexo, idade ou côr’.
As escolas isoladas de caráter público somente apareciam nas estatísticas oficiais
alimentando o discurso que dava conta da efetivação de um avanço no campo educacional em
Goiás e, particularmente, do crescimento da rede escolar de Goiânia. Estas escolas eram, portanto,
tão somente um número lembrado para contabilizar o cumprimento da promessa civilizatória da
cidade-capital. Foram tão obscurecidas e invisibilizadas que parecem não ter deixado rastros na
história de Goiânia e sua memória, se sobrevive, é como memória subterrânea e clandestina que,
como ensina Michel Pollack (1989), espera o momento certo para emergir.
Ocultou-se, especialmente, uma escola isolada singular na nova cidade-capital; uma escola
sobre cuja existência encontrei apenas frágeis e tênues indícios. A história não a registrou. A
memória parece não tê-la preservado. Os discursos oficiais e administrativos não fazem qualquer
referência a ela. Ao que parece, o Estado não tinha, oficialmente, conhecimento de sua existência
338
Em Memória cultural: ensaios da história de um povo. Goiânia/GO: 1985, p. 20.
239
ou, o que é mais provável, não a reconhecesse. Refiro-me às escolas isoladas que funcionavam, de
forma clandestina ou semi clandestina, nos quintais da cidade-capital, oferecendo muitas vezes
educação primária gratuita.
Dona Eumira Hermano339 revelou-me que o pai, o advogado Edson Hermano, mandou
construir, em 1940, uma sala de aula no quintal da casa onde moravam, no bairro de Campinas,
para que ela e suas duas irmãs, Olga e Edla, ali trabalhassem. Todas eram normalistas diplomadas
pela melhor escola normal da cidade-capital, o Colégio Santa Clara. São escassas as suas
lembranças sobre a escola do quintal. ‘Tenho muito pouco a contar. Me lembro mais é do Liceu’,
sentencia. Suas frágeis lembranças versam sobre o mobiliário, alguma coisa sobre as crianças que
foram seus alunos. Durou pouco a experiência: as irmãs Hermano tornaram-se professoras das
escolas públicas de Goiânia e a escola-sala de aula foi fechada. Outro indício emergiu das fontes
impressas: trata-se de um anúncio publicado no Correio Oficial de 10 de março de 1939 (Imagem
18) que pode referir-se a uma escola deste tipo.
Imagem 18
Anúncio publicitário de escola primária privada em Goiânia
Fonte: Correio Oficial, 10/03/1939
Estes indícios me levam a supor a permanência da casa-escola na vida educacional da nova
cidade-capital. Sob este ponto de vista, a escola-casa se manteve nas dobras da cidade que crescia.
339
Entrevista realizada por telefone (Goiânia/Brasília), dia 25 de agosto de 2008. Registro digital de voz.
240
Contudo, em Goiânia a casa-escola não funcionava de modo improvisado, em cômodos da
residência da professora nem em velhas casas localizadas em ruas secundárias como no passado,
mas em salas de aula erguidas nos quintais e nos fundos das residências das boas famílias que se
instalavam em endereços nobres da cidade. Cidade que se erguia sem becos340, Goiânia abrigou
(escondeu?) suas casas-escolas nos quintais, entre as árvores, perto das galinhas. Mas, seja no beco,
seja no quintal, permaneceu oculta a casa-escola. O mobiliário pesado, velho e marcado pelo tempo
da antiga casa-escola deu lugar a carteiras escolares modernas, quadro-negro, material didático
razoavelmente adequado e uma mesa para a professora.
Também era de outro tipo a professora que a regia: ao invés dos mestres e mestras leigas
que dominavam, às vezes, tão somente noções rudimentares da escrita, da leitura e do cálculo além
de deter uma moralidade comprovada e reconhecida pela comunidade, as escolas de uma só sala de
aula de Goiânia eram dirigidas por professoras com diplomas de normalista, geralmente, jovens que
não conseguiam colocação nas instituições escolares públicas ou ainda moças cujos pais preferiam
ter a filha professora trabalhando no ambiente doméstico. Construíam-se, então, salas de aula onde
a mesma pudesse exercer seu ofício. De efêmera existência, a escola era desfeita se professora se
casasse ou se conseguisse um lugar nas escolas públicas; os móveis eram, então, vendidos ou
amontoados; a sala de aula virava depósito.
Distinta da casa-escola do passado, a escola dos quintais de Goiânia não recebia em seus
bancos os filhos da elite regional341; ao contrário, era uma escola freqüentada, a preços módicos ou
gratuitamente, pelos filhos dos trabalhadores que ali aprendiam tão somente a ler, escrever e contar.
Eumira Hermano lembra vagamente de seus alunos: ‘Filhos de pessoas que trabalhavam com papai,
filhos de empregadas de vizinhos, crianças que chegavam do interior, famílias pobres, às vezes não
tinha vagas em outras escolas’. A escola do quintal ia cumprindo a importante, mas pouco
valorizada função de ofertar educação aos que sobravam na capital que surgia.
A permanência de escolas isoladas, a falta de escolas na capital nascida como símbolo de
modernidade do sertão brasileiro seguia um padrão presente em outras regiões e cidades do país.
Como o demonstram os estudos de história da educação, nem mesmo naqueles tempos em que a
escolarização da sociedade brasileira empolgava a nação e a educação aparecia como saída e
solução para a sua construção, a oferta educacional contemplava a todos ou mesmo a maioria
340
‘Os becos somente apareceram no traçado urbano de Goiânia na década de 1950 quando o Setor Sul começou a ser
construído segundo o plano urbanístico de Armando Augusto de Godói inspirado no modelo das cities-garden inglesas.
Os cul de sacs ou bolsões do plano de Godói tornaram-se estruturas urbanas similares aos becos. Entretanto, a
expressão becos ou mesmo a terminologia mobilizada pelo urbanista carioca – bolsões - nunca foi usada para designar
as pequenas ruas sem saída que compõem o desenho do bairro. A população batizou-as simplesmente de vielas.
341
Em um dos poemas que fez em homenagem a sua professora, Cora Coralina desfia nomes de colegas de escola.
Quase todos faziam parte da elite vilaboense e quase todos se tornaram, quando adultos, elementos importantes na
história de Goiás. Além da mestra Silvina, é forçoso citar também mestra Nhola, a mais famosa mestra-escola de
Goiás, da qual foi aluno o médico e, depois, interventor, governador e senador Pedro Ludovico Teixeira.
241
daqueles que por ela procuravam (BUFFA & PINTO, 2002). Confrontada com a força dos
discursos sobre a urgência da escola para formar os brasileiros, a expansão da rede escolar, embora
factível, mostrava-se mais frágil, descontínua e fragmentária no cotidiano nacional.
Neste sentido, como lembra Bencostta (2005), o destaque da escola principalmente na cena
urbana das cidades brasileiras adquiriu muito mais o significado de estratégia de visibilidade dos
feitos dos governantes (federais, estaduais, municipais) do que o de um projeto que tornava a escola
uma instituição democrática e, portanto, acessível, senão às todos, pelo menos à maioria dos que
por ela aspiravam. No caso goiano, a necessidade expressa nas preocupações e na produção cultural
e intelectual deste período, de tornar visível que a cidade era moderna e civilizada, que sua
sociedade era ‘culta e elegante’342, permitia, estimulava, exigia que, no claro-escuro, se fizesse a
escola da cidade.
Tal ação revela a adesão das elites goianas ao movimento de incorporação ou
desaparecimento do sertão, mas diante das opções e caminhos que foram por elas trilhados,
esboçou-se a impossibilidade de alcançar este objetivo. Prevaleceu, então, a estratégia de dar a ver a
porção civilizada e moderna da capital, ocultando as porosidades e dobras que já deixavam marcada
sua face de cidade menina. Exibiu-se, então, sua rede de escolas, suas várias entidades culturais, sua
produção intelectual e artística, celebradas nos discursos como indício inconteste da transformação
do mundo goiano. A cidade nova, sem os vícios das antigas urbs brasileiras, planejada, povo
ordeiro e trabalhador, dirigentes fortes e ilustrados desejava se mostrar igualmente como cidade das
escolas e da cultura. Mas crescia, mantendo o sertão junto a si, misturada à natureza, permeada por
valores e práticas do mundo rural, símbolo renovado da verdadeira e autêntica identidade nacional,
porém, lugar onde faltavam escolas ou ainda lugar de precárias escolas nas quais estudantes pobres
aprendiam o mínimo. Suas crianças ‘completamente desamparadas’, suas escolas isoladas, suas
casas-escola foram ignoradas tornando-se apagadas da história e borradas na memória da educação
de Goiânia e de Goiás.
Sob este ângulo de interpretação, a velha escola narrada por Cora Coralina experimentou
uma trajetória histórica mais honrosa já que se cristalizou na história da educação goiana como
símbolo de uma tradição educativa considerada digna e, dada à sua pobreza, até mesmo heróica. Os
muitos versos que a poetisa de Vila Boa dedicou a sua escola primária revelam que a velha escola
primária era uma ponte que a ligava a sua história. A casa-escola primária onde estudou Aninha, ‘a
menina feia da Ponte da Lapa’, como se auto-representou343 aquela que se tornaria a grande poetisa
de Goiás, era o lugar onde viviam suas memórias de infância em Vila Boa.
342
Como afirmou Álvaro de Campos Góes, advogado e jornalista carioca, em 1944, no artigo Brasil Mediterrâneo,
revista Oeste, nº 18, julho, 1944, p. 41.
343
No poema Minha Cidade (2003), publicado em Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo/SP: Global,
2003, pp. 108-111.
242
Voltei. Ninguém me conhecia. Nem eu reconhecia alguém. Quarenta e cinco anos
decorridos. Procurava o passado no presente e lentamente fui identificando a
minha gente. Minha escola primária. A sombra da velha Mestra. A casa, tal como
antes. Sua pedra escorando a pesada porta. Quanto daria por um daqueles duros
bancos onde me sentava, nas mãos a carta de ‘ABC’, a cartilha de soletrar, separar
vogais e consoantes. Repassar folha por folha, gaguejando lições num
aprendizado demorado e tardo. Afinal, vencer e mudar de livro. (Grifos meus)
A centenária Vila Boa, contudo, não vivia somente da escola eternizada pela poesia. Outras
escolas, outras culturas escolares marcavam a vida da antiga capital. É preciso voltar os olhos,
então, para a velha capital buscando as imagens delineadas e que ensejam compreender que relação
a cidade mantinha com suas instituições escolares. Que papel tinha a escola naquela cidade ‘longe
de todos os lugares’, como escreveu Cora Coralina?
Um primeiro olhar revela a famosa casa-escola do beco onde estudou a poetisa de Vila Boa e
outros importantes personagens da história goiana. É fácil encontrá-la. Basta seguir o itinerário de
Aninha e entrar no beco que ‘brinca de esconder. Corre da Vila Rica – espia a Rua do Carmo’. É o
beco da escola – ‘lapso urbanístico’ entre as duas ruas. Logo se vê a casa (Imagem 19), ocultada
nos becos onde ao ‘meio-dia desce [...] vertical um pincel de luz, rabiscando de ouro seu lixo
pobre’. ‘Tem janelas. Uma casinha triste de degraus’. Lá dentro, ‘mestra Silvina. [...] mestra Lili
[...] mestra Nhola. [...] Sá Mônica. Mestra Quina. Mestra Ciríaca. Esquecidas mestras de Goiás.
Elas todas – donzelas, sem as emoções da juventude’344.
O olhar insistente, entretanto, vê surgir com igual força a imagem de uma velha escola
secundária, quase tão velha quanto a cidade, a mais antiga escola goiana, expressão maior dos
investimentos, das expectativas e projeções dos vilaboenses acerca do valor da educação escolar. O
Liceu de Goiás, a amada escola que se tornou, em meados de 1937, objeto de disputa entre a antiga
e a nova capital. A Cidade de Goiás e Goiânia disputavam o privilégio de ter, em seus domínios, a
escola que era, então, o maior motivo de orgulho no campo da educação goiana. Por muito tempo,
talvez mesmo, o único.
Os de Goiânia desejavam a qualidade e a excelência do Liceu, sua tradição formativa, até
mesmo seu glamour. Era na capital que devia estar a melhor escola do estado. Para os da centenária
capital, o Liceu representava algo mais; algo que se tingia de cores dramáticas se pensado no
contexto do processo de ‘destruição’ e abandono da cidade. Mais que um consolo possível diante da
sua perda maior, a população de Vila Boa queria manter ali o Liceu simplesmente porque pensava
que não poderia sobrevier sem ele. Esta sofrida disputa pode ser a porta de entrada ao universo
educacional de Vila Boa, principalmente, nos movimentados anos que precederam o início da
344
Todos os fragmentos poéticos que utilizo neste parágrafo estão em CORALINA, CORA. O beco da escola. In:
Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo/SP: Global, 2003, pp. 108-111.
243
construção de Goiânia e a transferência da capital.
Imagem 19
Casa-escola de Mestra Silvina na Cidade de Goiás
Fonte: SILVA, 1975
6.2 - Entre a escola e a cidade: no velho Liceu de Goiás, a glória de Vila Boa
A vida do Liceu era a vida da cidade.
Genesco Bretas
Foi em março de 1937 que a Cidade de Goiás deixou de ser definitivamente a capital
goiana. Poucos anos antes, por volta de 1933/34, a população de Vila Boa, mesmo combatendo a
ideia, não acreditava que a cidade prometida por Pedro Ludovico se faria realidade. O estado era
tão pobre; não seria capaz de arcar com uma obra daquele vulto. A cidade em construção não seria
finalizada; e se fosse, não teria condições de abrigar uma capital de estado, era a expectativa mais
recorrente. Mas, aos poucos, a nova cidade-capital foi sendo erguida e ocupada, provocando o
entusiasmo em todos que a conheciam, mas concomitantemente, fomentando o horror naqueles que
não queriam que Vila Boa perdesse o status de cidade-capital. A luta antimudancista foi
intensificada: o povo da antiga capital, apoiado e estimulado pelas lideranças depostas pela
Revolução de Trinta, resistiu o quanto pôde à transferência.
Uma das estratégias da luta antimudancista expressou-se sob a forma de preocupações e
tentativas relacionadas a uma modernização da centenária Vila Boa. Tentava-se convencer os novos
governantes e aqueles que os apoiavam que era viável transformar a centenária capital através de
reformas que poderiam dotá-la de elementos que ali nunca tinham existido. Exemplo representativo
244
deste esforço foi publicado no jornal A voz do Povo345, em 1932, onde se lê: ‘Sabemos cogitar-se na
prefeitura desta capital da creação, na várzea fronteira mercado público, de um parque de esportos,
com gangorras, planos inclinados, trapézios e piscina para creanças, a semelhança do que existe no
Parque Pedro II de São Paulo’. Venerando de Freitas Borges (APUD MELO: 2007: 29), primeiro
prefeito de Goiânia, sintetizou magistralmente este momento ao afirmar:
Mais de duzentos anos se passaram e a cidade, modorrando, não quis galgar a
encosta. Preferiu permanecer sonhando [...] Jamais pensou ela que o ouro que lhe
garantia a majestade um dia poderia fugir-lhe das mãos, ao sopro de tempos novos
que haveriam de vir. Os clarins da inevitável renovação acordaram-na. Mas já
era tarde, muito tarde... Longe, na planície de horizontes largos, nascia sua única
filha – Goiânia. (Grifos meus).
Pedro Ludovico Teixeira também se valeu de estratagemas para vencer as resistências à
mudança da capital. Uma delas foi a transferência paulatina para Goiânia de instituições e órgãos
públicos da burocracia estadual a partir de 1935, portanto, antes da transferência da capital. Quando
ocorreu a transferência oficial (1937), a rotina de mudanças já havia tornado aquele um momento
de profundo sofrimento para a assustada população vilaboense que assistia, dia após dia, suas
principais instituições saindo da cidade, transportadas em caminhões e mais caminhões que
levavam os arquivos e fichários, as mesas e cadeiras, as máquinas, etc.. E, outros caminhões
levando a mudança dos funcionários do governo e de suas famílias. E, depois, a maioria dos
estabelecimentos comerciais. Pouco a pouco, os vilaboenses iam percebendo que a guerra estava
perdida. Vila Boa vestiu-se do luto profundo e duradouro que foi sendo superado somente à medida
que a cidade alcançava o reconhecimento de seu valor histórico e cultural.
Mas, diante do inevitável, a população tentou preservar algo que considerava tão
profundamente seu que parecia impossível suportar sua ausência. Tentou-se manter, na Cidade de
Goiás, uma velha escola quase centenária. Principal instituição educacional do estado, equiparada,
em 1907, ao Colégio Pedro II no Rio de Janeiro, o Liceu de Goias era a alma de Vila Boa. Criado
em 1846346, por um longo tempo, até obter a equiparação, o Liceu atravessou momentos difíceis e
345
Jogos Escolares (não assinado). Jornal Voz do Povo, número 262, 25/12/1932, p. 2.
Criado em 20 de junho de 1946 no governo do paulista Joaquim Ignácio de Ramalho, sua instalação ocorreu, em 23
de fevereiro do ano seguinte, depois que Ramalho nomeou para dirigi-lo o padre Emígdio Joaquim Marques, professor
de latim na cidade de Natividade e deputado na Assembléia Legislativa Provincial. Ato contíguo, nomeou mais três
mestres para ocuparem, respectivamente, as cadeiras de Língua Francesa e Aritmética e Geometria e Latim: outro
padre, José Militão Xavier de Barros; o Cirurgião das Forças Militares, o italiano Vicente Morotti Foggia e o professor
de aulas régias de latim em Vila Boa, José Ribeiro Dantas de Amorim (BRETAS, 1991). Ramalho também resolveu o
que se constituía no maior problema para a instalação do Liceu: a questão do espaço. Ainda segundo Genesco Bretas
(1991: 213), “não havia na Capital edifício público disponível” e não se cogitou em alugar, reformar, comprar ou
construir um espaço que pudesse abrigar o Liceu. Ramalho encontrou a “[...] única, viável e econômica” solução: A
nova escola foi instalada em uma varanda e em duas salas “[...] acanhadas, escuras e escondidas” existentes nos fundos
do andar térreo do sobrado da Casa da Tesouraria, situado na Praça do Governo. Salas para secretária e diretoria não
pareceram necessárias: o expediente poderia ser realizado na casa do diretor ou em uma das salas quando estivesse
346
245
penosos nos quais a falta se revelava característica mais marcante: faltavam mestres, faltavam
livros, faltavam, em certos períodos, até mesmo alunos; e quando havia alunos, faltava disciplina,
rigor, seriedade. Faltava também espaço, problema resolvido, em 1867 quando, finalmente, o Liceu
transferiu-se para a casa deixada por herança pelo Dr. Corumbá347. A residência do excêntrico
goiano abrigaria, depois, todas as escolas públicas da centenária Vila Boa (Imagem 20).
A equiparação foi obtida em 1907, depois de uma ação moralizadora realizada por João
Alves de Castro, à época secretário dos Negócios do Interior e Justiça e Diretor do Liceu
(BRETAS, 1991). Alves de Castro intensificou o controle sobre os estudantes da escola que,
naquele momento, eram conhecidos pela pouca seriedade nos estudos e pelos transtornos que
causavam em Vila Boa: saiam, aos bandos pelas ruas, lançando olhares e gracejos para as moças de
família, realizavam algazarras noturnas, grafavam obscenidades nas paredes e muros da cidade, etc.
Genesco Bretas (1991: 483) reconstituiu a ‘[...] data que se tornou memorável para a família
liceana’.
Um arauto sai do Palácio [do Governo], [...] célere, e leva a notícia em primeira
mão ao Liceu. De repente estoura ali uma algazarra louca, hurras e vivas subindo
aos ares. A banda de música prevenida, marcha para o Liceu, o povo em alvoroço
acompanha e, dentro de instantes, forma-se a passeata: à frente a banda; atrás os
professores e os alunos, levando em glória a bandeira nacional. Pará diante do
Palácio: discursos, homenagens a Rocha Lima [presidente do estado]. Daí para o
palacete onde morava João Alves de Castro [secretário dos Negócios do Interior e
Justiça e diretor do Liceu]: mais discursos e mais homenagens. Nunca se vira tanto
regozijo em Goiás. (Grifo meu).
Haveria uma desequiparação em 1911, justificada pelo governo federal em termos das
dificuldades que a escola vinha apresentando em seguir os programas do Pedro II (a época,
renomeado Colégio Nacional). Os goianos, é evidente, ressentiram-se com o que consideravam
uma injustiça cometida por desconhecimento e ignorância em relação ao que ocorria em Goiás. O
Liceu era uma boa escola, tinha professores competentes e seus alunos, cultos e educados, já
gozavam do apreço e da admiração da sociedade vilaboense, era a certeza de todos. A segunda e
definitiva equiparação deu-se em 1918 novamente sob a ação de João Alves de Castro, agora
presidente do estado. Mas, ao contrário da primeira, a notícia da segunda equiparação, apesar de
desocupada.
347
O Liceu mudou-se para a casa de Corumbá em setembro de 1857, mas menos de um mês depois recebeu ordem de
desocupação emitida pelo Governo Imperial que requisitava a casa para nela abrigar forças militares que se dirigiam
aos confrontos da Guerra do Paraguai e que montariam, na capital goiana, um quartel-general. A casa foi desocupada e
os móveis do Liceu amontoados nas casas dos seus professores e diretor. O ano de 1858 começara e não havia onde o
Liceu funcionasse até que o padre João Luiz Xavier Brandão ofereceu dois quartos de sua residência para que as aulas
tivessem início. De provisória, a situação perduraria por dez anos até que as forças militares imperiais se retirassem da
província e desocupassem a casa-quartel. O Liceu voltou a ocupá-la definitivamente em 1867 lá permanecendo até
1937 quando foi transferido para Goiânia (BRETAS, 1991).
246
passeata com banda de música, não foi tão comemorada como a primeira: afinal, pensavam todos, a
re-equiparação do Liceu nada mais era que a reparação de um ato injusto.
“E assim se iniciou uma nova fase do Liceu, coroada de prosperidade e maior seriedade nos
estudos e rigor na disciplina”, afirma Genesco Bretas (1991: 484). Principalmente daí em diante, a
cidade e a escola se misturaram de tal forma que pensar em uma significava pensar na outra. Já
fragilizada pela perda do status de capital, a cidade não sobreviveria sem o Liceu, pondera Genesco
Bretas (1991), auto representado como testemunho e participante daquele momento.
Imagem 20
Liceu de Goiás – Casa do Dr. Corumbá
Fonte: BRETAS, 1991
A única instituição escolar secundária do estado de Goiás vinha experimentando um período
de glórias em que se tornara uma escola de excelência. Os estudantes do Liceu ombreavam, em
conhecimento e capacidade intelectual, com estudantes das melhores instituições escolares do
gênero no Brasil. Era o grande motivo de júbilo dos vilaboenses. Seu valor era de certa forma
inimaginável para aquela cidade ‘de onde levaram o ouro e deixaram as pedras’ e que era capital de
um estado extremamente carente de instituições escolares. É ainda Genesco Bretas (1991: 483) que
relembra a ligação visceral da Cidade de Goiás com o Liceu.
O coração da cidade pulsava na casa de Corumbá. Se o Liceu não ia bem, atacado
de qualquer mal, também a cidade sentia os mesmos sintomas, apatia, nervosismo,
tristeza, indisciplina, ou, ao contrário, alegrias, euforia, glórias. O sino do Liceu
que marcava o início e o término de cada aula, era o relógio da cidade. Os bons
professores, os bons alunos eram respeitados e homenageados. Os maus, tratados
com frieza ou desdém. Tudo o que ocorria ali era comentado e julgado pelo povo
(Grifos meus).
O Liceu de Goiás era uma escola que não onerava seus estudantes e tinha um caráter
fortemente anticlerical sendo, portanto, gratuita e laica. Seus alunos provinham das mais ricas e
tradicionais famílias goianas, mas a escola também acolhia jovens de outras camadas sociais, o que
247
não significava ausência de rígidos processos seletivos que, no caso, se davam no campo dos prérequisitos exigidos para matrícula no estabelecimento. Para tornar-se aluno do Liceu era necessário
que o candidato a vaga demonstrasse, em provas de admissão, ser possuidor de conhecimentos de
gramática e aritmética. Tarefa nada fácil na realidade goiana dada a escassez de escolas públicas
nas quais fosse possível adquirir tais saberes. Restavam as escolas privadas e a opção dos
preceptores, ambos quase sempre restritos à pequena elite econômica da cidade e do estado. Poucas
famílias que não podiam ser pensadas nesta categoria conseguiam financiar os estudos de, pelo
menos, um de seus filhos possibilitando seu acesso ao Liceu.
No Relatório de 1933, ao discorrer acerca do ensino secundário no Liceu de Goiás,
Ludovico expôs com clareza os critérios de exclusão da escola, revelando conhecimento e adesão às
inovações pedagógicas que agitavam o campo educacional brasileiro da época. Em Goiás não
poderia mais haver a escola que excluía os filhos dos mais pobres; ao contrário, era preciso abrirlhes as portas da educação, franqueando sua entrada no mundo civilizado e produtivo na
expectativa de suas contribuições posteriores para Goiás e para o Brasil. Contudo, nem todos eram
merecedores da escola e de suas benesses e o Estado não deveria arcar com os elevados custos de
manter estudando aqueles que não tivessem condições de usufruir plenamente a experiência escolar
para, depois, retribuir à generosidade recebida.
O interventor goiano fez referência ao movimento de renovação educacional dos ‘países
vanguardeiros da civilização moderna, desde os Estados Unidos [...] até o extraordinário Japão’,
mas nenhuma ao movimento nacional. O direito biológico à educação era reconhecido por
Ludovico. Ao reconhecê-lo no Relatório de 1933, o discurso do interventor introduziu sutilmente a
ideia de que em Goiás havia escolas para todos que a desejassem afirmando, inclusive, a generosa
singularidade da política educacional goiana.
Excluída a suavíssima taxa de matrícula [...] e as taxas de exame, impostas por lei
federal, nenhuma outra despesa, decorrente da frequencia ou do consumo de
material escolar, onera o curso de humanidades nesta Capital. As famílias mais
modestas, graças a esta generosa política educativa, talvez impar no Brasil,
podem aqui proporcionar aos filhos a fortuna do curso secundário reconhecido,
que em quase todo o País é privilegio [...] dos abastados. O governo deste Estado
está com aqueles que entendem que a única restrição procedente, que se poderia
estabelecer em relação ao ingresso imediato no curso secundário -, essa mesma
somente enquanto não houvesse estabelecimentos suficientes para receber todos os
indivíduos dos 11 aos 18 anos – é a seleção de matrícula, baseada em provas de
inteligência e aproveitamento, ou processada pelos meios seletivos tão em voga
em certos países da América e da Europa. (Grifos meus)
Para os que conseguiam provar que detinham as capacidades necessárias ao bom
aproveitamento dos estudos, o Liceu significava ascensão social garantida e uma imediata mudança
248
de status quo. De acordo com Barros (2006: 340),
Depois de sair do curso, que durava seis anos, o aluno que não pertencia antes à
elite da cidade, [...] passava a fazer parte de um grupo seleto, portadores do título
de Bacharel em Ciências e Letras. Título este que atribuía algumas vantagens ao
seu detentor, por exemplo, no regulamento da instituição348 e nos editais de
concursos públicos existiam sempre condições que privilegiavam os ex-alunos do
Lyceu.
Quem passava pelo Liceu, era a certeza de todos, tinha um lugar garantido na direção dos destinos
das terras dos goyases ou, no mínimo, de sua velha capital. Talvez resida aí o motivo maior da
afeição de Vila Boa à velha escola: era ali que se formavam as elites dirigentes que poderiam, além
de tudo, bem representar o estado de Goiás no nível nacional. Celeiro de talentos políticos,
literários e científicos, escola que se dava a ver com seus exames públicos, suas festas de formatura,
suas manifestações estudantis, a alta cultura de seus professores, o Liceu tornava grandiosa a
acanhada Vila Boa.
A tradição formativa do Liceu – a de preparação de homens para dirigir o estado e, quiçá, o
Brasil - é quase tão remota quanto a própria escola espraiando-se na sociedade goiana a revelia da
própria capacidade educativa do educandário. O fragmento do discurso de Regina Lacerda (1974)
pode ser citado como exemplar do espraiamento desta tradição. Nele, a autora destaca o papel
social do Liceu alinhando nomes de goianos que tinham alcançado projeção política nacional, como
Leopoldo de Bulhões, em período bem anterior a equiparação da escola ao Colégio Pedro II e do
alcance da qualidade educacional que detinha a partir de 1911. Regina Lacerda se refere, por
exemplo,
[...] sua importância para a vida intelectual da Província. Ali se estudava, ali se
preparava a mocidade goiana que viria, no futuro, comandar os destinos de nossa
terra, senão influir na vida do país como o fizeram Leopoldo de Bulhões, Ministro
da Fazenda, Guimarães Natal, Ministro do Supremo Tribunal Federal, e outros
mais que tiveram destaque na política nacional. (Grifo meu)
A Cidade de Goiás reagiu a inevitável perda do Liceu e lutou para evitar sua transferência
para Goiânia. Quando a centenária cidade deixou de sediar a capital estadual, sua população
pressionou o interventor, solicitando a permanência da escola. Em Goiânia, o belo e moderno
348
No Regulamento que regia o Liceu e a Escola Normal, explicita-se: “Art. 13º - O bacharel em Sciencias e lettras tem
preferência á nomeação de qualquer emprego publico de caráter estadoal, respeitadas as exigências de habilitações
especiaes e technicas, ficando dispensado do concurso, salvo para o logar de lente do Lyceu e da Eschola Normal. Art.
14º - Os alumnos que concluírem o curso integral do Lyceu e não quizerem submeter se ao exame de madureza, terão
preferência para a nomeação interina de qualquer emprego publico de caracter estadoal, respeitadas as exigências de
habilitações especiaes e technicas”. In: Regulamento do Lyceu e da Eschola Normal, 1895. Preservado no Arquivo
Histórico Estadual.
249
prédio que abrigaria o Liceu estava sendo construído. Pedro Ludovico, entretanto, comprometeu-se
e baixou decreto-lei que mantinha a escola na velha cidade que a amava. Em suas Memórias,
Ludovico afirma ter se sentido devedor de sua terra natal; por isso, quis deixar ali o Liceu.
Estrategista político sagaz, Pedro Ludovico, talvez, até tivesse consciência que seria impossível
sustentar o compromisso de deixar o Liceu na antiga capital, mas visualizou igualmente os ganhos
políticos que adviriam de sua decisão. A permanência da escola, enquanto durou, amainou os
ânimos vilaboenses e fez arrefecer a mágoa contra a nova cidade-capital e seu idealizador.
Ocorre que o prédio do Liceu ficou pronto no início de 1937. Ainda segundo Bretas (1991:
578)
A mobília – cortinas, mesas, cadeiras, armários, carteiras escolares, tudo da melhor
qualidade se achava completa, cada peça no seu lugar. O prédio, novo, elegante,
grande e confortável, fora construído de acordo com as exigências de um colégio
padrão. Em Goiás não se encontrava igual, e em outros estados poucos teriam as
mesmas condições.
Prédio pronto e mobiliado, a antiga e a nova capital iniciaram uma disputa pelo Liceu e o governo
goiano viu-se diante de um impasse criado pelo compromisso assumido por Ludovico. A criação de
um novo liceu em Goiânia se mostrava impossível dada à precária situação das finanças públicas
estaduais já oneradas com a edificação da cidade-capital. O estado de Goiás não poderia manter
dois liceus equiparados na medida em que fazê-lo significava a contratação de novos professores e
de mais funcionários e a instalação de biblioteca e laboratórios de física, química, história natural e
geografia, “[...] tudo muito caro e difícil de encontrar no mercado nacional [...]”, conforme
sentenciou Bretas (1991: 579).
Havia o compromisso político do poder instituído com os habitantes da antiga capital, o que
colocava a situação nos seguintes termos: se revogasse o decreto, descumprindo o anteriormente
acordado, e transferisse o Liceu para Goiânia acirraria a já difícil relação do governo estadual com a
população da Cidade de Goiás; se mantivesse a validade do decreto que deixava o Liceu em Vila
Boa, a nova cidade-capital ficaria sem a principal instituição educacional do estado. O
funcionalismo público estadual foi um dos atores sociais que pressionaram o governo no sentido da
transferência do Liceu para Goiânia. É que, transferida a capital, transferiram-se também os
funcionários do governo. Muitos deles tiveram que deixar, na antiga capital, os filhos que
estudavam no Liceu e que, hospedados em casa de parentes ou em pensões, criavam despesas e
sacrifícios familiares. Muitos professores do Liceu estavam em situação inversa: tinham
permanecido na cidade de Goiás enquanto suas famílias se transferiam para a nova capital, o que
significava igualmente famílias separadas e aumento de despesas.
Ademais, uma ideia começou a ser propagada pela população goianiense: o Liceu era
250
propriedade do governo de Goiás, portanto, pertencia ao povo goiano e não aos moradores que
‘teimavam’ em ficar na antiga capital. A nova cidade-capital cobrava do Estado a presença da
escola que tinha ficado em Vila Boa. Diante da pressão popular, o governo capitulou e o Liceu foi,
enfim, oficialmente transferido pelo mesmo decreto que revogou a legislação que o mantinha na
centenária ex-capital. Tornara-se Liceu de Goiânia. A mudança foi rápida, conforme lembra Bretas
(1991: 579).
Caminhões vieram lotados de bibliotecas, gabinetes, arquivos, livros e papéis em
uso, e o famoso sino da estima dos vilaboenses, o sino que batia as horas com a
precisão de um bom relógio, o símbolo da tradição liceana, que fazia alegre Vila
Boa. Foi um rebuliço nas casas de famílias de professores e funcionários, com a
aprontação da mudança. Nem todos vieram: ficaram alguns professores [...] e
muitos alunos que não podiam sustentar-se em Goiânia.
Com o Liceu, transferiram-se também para a nova cidade-capital o fascínio e carisma que o
rodeavam em Vila Boa. Os de Goiânia amaram o Liceu tanto quanto o amava a população da antiga
capital. A escola se manteve ainda durante muito tempo, sem dúvida, como o grande investimento
da sociedade goianiense no campo da educação e seu grande motivo de júbilo. Hoje, o Liceu já não
tem a mesma importância educacional e cultural, estando seu prédio, inclusive, deteriorado e
subsumido na cena urbana de Goiânia. Mas, a escola se mantém como privilegiado lugar da
memória da população de Goiânia, especialmente dos moradores dos primeiros 30 anos da cidadecapital que fazem do Liceu uma espécie de mediador de suas reminiscências sobre a cidade que,
moderna, crescia misturada ao sertão. Sobre o Liceu, as memórias são fartas e repletas das imagens,
dos sons e dos cheiros que fizeram sua glória.
A população de Vila Boa, por sua vez, não se conformou com facilidade e continuou
reclamando a falta do Liceu. Para satisfazê-la, Pedro Ludovico instalou ali uma sucursal da velha
escola. Sucursal porque era apenas um desdobramento do amado Liceu. Assim se fez e a velha
cidade teve que se contentar com o pouco que lhe era concedido pelos novos tempos. Na direção do
sucursal do Liceu em Vila Boa, permaneceu seu mais respeitado professor, Francisco Ferreira, o
velho professor Ferreira, que se recusou a transferir-se para a nova cidade-capital e ali permaneceu
até sua morte, em 1941, noticiada no Correio Oficial. O caráter grandioso da velha escola,
entretanto, não se sustentou na sua sucursal e, somente décadas depois, em 1994, um novo liceu,
independente e autônomo, foi criado e instalado na Cidade de Goiás.
O Liceu de Goiás, com todo o seu significado e importância, não foi a única perda da antiga
capital no campo da educação. Como em um típico processo de abandono, a cidade foi como que
saqueada: levaram todas as suas melhores escolas públicas. O Grupo Escolar da Capital, os recém
criados Jardim de Infância e Escola Complementar da Capital. Juntas, as três escolas funcionavam
251
como um complexo educacional, entre 1928 e 1930, no Palácio da Instrução. Fora transferida
também a Escola Normal Oficial, que dividia com o Liceu, o espaço físico da Casa de Corumbá.
Ficaram apenas sucursais, sem autonomia, dependentes administrativa e didaticamente da sedes
escolares na nova capital.
As escolas que se foram eram escolas que se encontravam em processos de modernização,
principalmente, desde os últimos anos da década de 1920. O ideário escolanovista entrara em cena
e, com ele, um discurso sintonizado com os progressos científicos, a sugestão de práticas renovadas
pela noção do respeito à criança e um novo arsenal de objetos escolares, didáticos e pedagógicos.
De acordo com Miriam Fábia Alves (2007), a educação primária se tornara, na discursividade da
oligarquia Caiado, alvo das atenções do governo estadual. A Secretária dos Negócios do Interior e
Justiça, órgão que cuidava dos assuntos da instrução, promoveu reformas do ensino e ampliou a
legislação educacional. Novas leis se sucederam conforme se sucediam os diretores do interior e da
instrução: de Americano do Brasil (1917/1921) a José Gumercindo Otero (1919/1930) passando por
Cezar da Cunha Bastos (1928), todos propuseram e incrementaram planos e propostas reformistas
que introduziam a modernidade pedagógica na hinterlândia goiana.
Mas, os discursos que constituíam os sentidos de Goiânia dificultaram a percepção de que a
nova cidade-capital não inaugurava a modernidade pedagógica no campo educacional goiano,
revelando-se, antes disso, herdeira do movimento que na antiga capital, já catalisava atenções e
exibia práticas renovadas. Em função deste contexto, penso que recuperar a instauração da
modernidade pedagógica no estado de Goiás nas décadas de 1910 e 1920 se mostra essencial para a
compreensão das rupturas e permanências que o surgimento de Goiânia veio promover ou
consolidar no campo da educação pública na região. O cenário privilegiado destas renovações
educacionais foi a antiga capital, onde o debate acerca da escola e de sua imperiosa necessidade
para a sociedade goiana foi intenso neste período.
6.3 - Práticas reformistas e a conformação de um novo discurso pedagógico em Goiás:
indícios da modernidade caiadista
Desde a instauração do Império, Goiás tentava desenvolver, com extrema dificuldade, uma
rede escolar primária pública. Estudos que na longa duração se debruçaram sobre a história da
educação goiana349 permitem identificar que, embora de forma frágil e descontínua, houve
reiteradas iniciativas nesta direção. Na Primeira República, a experiência goiana na criação de uma
349
Como o de Nanci Ribeiro de Araújo e Silva, Tradição e renovação educacional em Goiás (1975) e o de Genesco
Bretas, História da instrução pública em Goiás (1991).
252
rede de escola de primeiras letras durante o período imperial havia forjado como que um
diagnóstico das causas do atraso educacional de Goiás. Os motivos para a fragilidade da escola
goiana eram elementos que se constituíam, igualmente, nos principais problemas a serem
enfrentados para a melhoria da educação nas antigas minas dos goyases.
Tal diagnóstico era conhecido pelos governos oligárquicos da Primeira República que se
valiam do elenco de problemas como estratégia de explicação da precariedade goiana no campo da
educação. Mas, afinal, os problemas da escola goiana eram problemas comuns às escolas da
maioria das regiões brasileiras e, talvez, certa distinção da sua experiência residisse no longo tempo
de insulamento, nas grandes distâncias e no isolamento territorial, inclusive, dentro do próprio
estado. Genesco Bretas os alinha em História da educação pública em Goiás (1991: 479)
.
Primeiro, a evasão escolar. [...] Segundo, o despreparo dos mestres para o
magistério. Não havia nos arraiais, vilas e cidades pessoas que soubessem ler,
escrever e contar suficientemente para ensinar350. Terceiro, baixa remuneração dos
mestres. Era difícil encontrarem-se pessoas que se sujeitassem a salários irrisórios.
Quarto, muito pequeno o número de matrículas em relação à população infantil na
Província. [...] A pobreza, as distâncias e o desinteresse dos pais eram os maiores
entraves no aumento da matrícula. Quinto, a ineficiência da fiscalização escolar.
[...] é preciso fiscalizar os fiscais e os mestres. Sexto, a pobreza das instalações
escolares e a falta quase absoluta de material escolar. A escola continuava a
funcionar na casa de morada do professor, quase sempre um casebre [...]. O
material didático era o de sempre: lápis e canetas, papel almaço para a escrita, a
lousa para contas, cartas manuscritas e traslados para aprendizagem da leitura.
(Grifos meus).
Um sétimo problema era comumente alinhado junto a estes: a falta de compromisso e
responsabilidade dos mestres, muitas vezes, justificada ou relacionada aos baixos salários, à escassa
formação do professor ou professora e as dificuldades para o exercício do magistério, entre elas, os
constantes atrasos de pagamento. Um olhar mais demorado sobre o discurso de Genesco Bretas
sinaliza para a responsabilização dos professores: a palavra mestre ou professor é a expressão mais
350
Bretas (1991: 216) descreve da seguinte forma como foi resolvida a questão da formação de professores para o
recém-criado Liceu de Goiás na década de 1840: “Era assim: os professores nomeados não tinham ciência para ensinar.
Primeiro tinham que se fazer autodidatas, mandar vir da Corte livros para estudar e depois então repetir as lições que
iam aprendendo, devagar”. Conforme orientava a Constituição de 1824, enviava-se um professor à Corte para que
aprendesse saberes e métodos necessários ao exercício do magistério. Na volta a Goiás, este professor devia encarregarse de transmitir aquilo que aprendera com outros professores. Nem sempre, porém, havia voluntários para a tarefa
sendo necessário, muitas vezes, que um funcionário público, quase sempre um militar, fosse obrigado a assumi-la por
determinação legal. Na capital do Império, muitos abandonavam a tarefa, não terminavam o curso e nem retornavam a
Goiás. É o que ocorreu, por exemplo, quando da implantação do método mútuo nas escolas goianas. Inicialmente, foi
designado o cadete Francisco de Assis Monteiro Mendonça para realizar curso sobre o método na Corte; o cadete
desistiu do curso antes do seu final; outro cadete, Francisco Xavier de Barros foi indicado. Nova desistência. Um
terceiro cadete foi requisitado a Raimundo da Cunha Matos, Governador da Armas em Goiás, que negou o pedido
argumentando que seu pequeno regimento não permitia mais saídas. Finalmente, o sargento Antonio José de Castro
seguiu para a Corte “[...] em 1826, habilitou-se, voltou e afinal abriu a sua Aula de ensino mútuo a 27 de maio de 1827”
[1991: 142]. Ainda segundo Bretas, das oito escolas de ensino mútuo que existiram em Goiás, a “menos ruim” era a
deste professor que chegou a ter 152 alunos.
253
recorrente no seu discurso. Mesmo quando trata da ‘ineficiência da inspeção escolar’ ou ‘da
pobreza das instalações escolares’, dimensões relacionadas ao papel regulador e construtor do
Estado, Bretas parece remeter à responsabilidade aos professores.
Do império à república, de oligarquia em oligarquia, a discursividade oficial se apropriava
do diagnóstico resultante da experiência provincial alterando apenas a ênfase ora sobre um aspecto
ora sobre outro conforme os interesses em jogo. Em que pese a veracidade do que venho chamando
de diagnóstico das causas do fracasso da escola primária em Goiás, o retrato cruel por ele
desenhado serviu como estratégia discursiva de sucessivos governantes oligárquicos nas suas
justificativas para o imobilismo estatal neste campo. Ao longo do século XX, ganhou centralidade a
questão da escassa e precária formação dos professores, o seu pouco compromisso com o ensino e
as resistências que opunham às inovações pedagógicas conforme elas iam sendo introduzidas no
mundo escolar goiano.
Eram estratégias discursivas que se revelariam especialmente preciosas para os governantes
oligárquicos: permitia, de um lado, a culpabilização dos professores pela ineficiência das escolas e
pelo fracasso das reformas educacionais e, de outro, ao deixar abertas brechas relacionadas ao papel
do Estado na formação de professores criava a possibilidade de uma parceria entre o público e o
privado que acabou ocorrendo quando Pedro Ludovico Teixeira assumiu o poder estadual e
transferiu para o âmbito privado a criação de escolas normais e formação de professores primários.
Destarte as variadas estratégias discursivas e não discursivas que adotaram para manter-se no
poder, os Caiado também implementaram práticas renovadas na educação goiana. E o fizeram
provocando um movimento educacional que agitou principalmente a centenária e bucólica Vila
Boa. Os participantes daquele movimento o relatam em termos de uma surpreendente agitação nas
instituições escolares da antiga capital.
Mas, de todo o movimento educacional goiano, especialmente, aquele ocorrido nos anos
anteriores à Revolução de Trinta - que corresponde ao período de domínio oligárquico caiadista
(1917-1930)– pouco se falou durante e depois do surgimento de Goiânia. As práticas discursivas
dos novos dirigentes e dos intelectuais a eles ligados ressaltavam, ao contrário, a ideia de um vazio
educacional. Havia, objetivamente, algo que sustentava esta operação sobre o passado: uma cidade
moderna, cheia de escolas, que trazia progresso econômico, que tornava Goiás visível aos olhos da
nação. Toda a história, todo o passado devia ser esquecido diante dos novos tempos. A cidade,
tornada capital, acelerou e intensificou a re-escrita da história da educação goiana que já se
encontrava em curso desde a ascensão dos novos dirigentes goianos em 1930.
No claro-escuro em que era construída a simbologia de Goiânia como centro escolar do
sertão oeste do Brasil aqueles que dirigiam a obra educacional em Goiás e sua legião de adeptos
promoveram um apagamento da história da educação regional obscurecendo a compreensão das
254
permanências e das rupturas neste campo. Ansiosos por apagar principalmente os rastros das
oligarquias depostas pela Revolução e imbuídos da tarefa de re-escrever a história goiana - com
tintas gloriosas e pinceladas de autopromoção -, intelectuais e Estado adotaram a estratégia de
minimizar ou mesmo ignorar os movimentos que, desde a segunda metade da década de 1910, já
tentavam instaurar uma nova conformação para o campo escolar em Goiás e provocar
transformações nas concepções sobre o papel e o valor da educação.
Um exemplo ilustrativo das estratégias de apagamento e ocultação da história da educação
em Goiás pode ser visualizado nos modos como os intelectuais goianos lidavam com Antonio
Americano do Brasil, importante reformador educacional nos anos 1910. Americano do Brasil era
um intelectual reconhecido e respeitado em Goiás por volta de 1930351: de importante e tradicional
família do estado, incansável divulgador das coisas de Goiás e persistente defensor da integração da
região à nação, foi um dos fundadores da revista A Informação Goyana. Escrevera livros sobre a
história, o folclore e a cultura goianas e havia sido deputado federal por Goiás. Não era possível,
para os novos senhores do poder na região, simplesmente ignorá-lo. Americano do Brasil foi, então,
louvado pela ‘intelectualidade moça’ que constituía os sentidos da modernidade e do pertencimento
como grande literato, historiador e político de caráter; mas, nenhuma palavra foi escrita ou
pronunciada sobre sua ação modernizadora e pioneira no campo da educação pública goiana.
Os movimentos de expansão e modernização educacional das décadas de 1910 e 1920 que
passaram por este processo de apagamento prenunciavam a modernidade pedagógica que os
construtores da nova cidade-capital atribuíam a si próprios. Colocavam Goiás no contexto da
euforia modernizante vivenciada pela nação e na qual a escolarização mostrava-se como elemento
fundamental. Os intelectuais goianos instauraram, durante a Primeira República, a forma escolar
moderna na realidade goiana; vale dizer, introduziram a escola graduada ao criar o curso primário e
o primeiro grupo escolar do estado; instituíram também a modernidade pedagógica no campo dos
métodos de ensino com a incorporação do método intuitivo e regularam os usos dos tempos e dos
espaços escolares, o que acabou colocando para o governo estadual a problemática da construção de
prédios destinados a escolas.
Outras inovações surgidas naquele período se tornariam, anos depois, aspectos relevantes na
forja da cultura escolar e urbana de Goiânia como as caixas escolares, criadas na Reforma de 1918
com o objetivo de gerar condições materiais que pudessem garantir a frequencia e a permanência de
crianças pobres no meio escolar; a Escola Complementar que surgiu, em 1929, como nível
intermediário entre a escola primária e a escola normal; a introdução de novos saberes - como as
ginásticas, os cantos, a civilidade, os trabalhos manuais, entre outras – e métodos (intuitivo, ativo,
351
Americano do Brasil foi assassinado, em 1931, em sua cidade natal, Bonfim (atualmente Silvânia).
255
novo).
O movimento educacional em Goiás, nos anos 1910 e 1920, seguia a onda de reformas que
marcava o campo educacional em grande parte das unidades federativas brasileiras e teve nos
modelos mineiro e paulista suas maiores fontes de empréstimos e apropriações. São Paulo e Minas
eram regiões importantes para a vida goiana sendo históricas as relações entre eles. Como
participaram da implantação da modernidade pedagógica na hinterlândia? O espírito da época era,
lembremos, a de uma disputa em que estas unidades federativas buscavam o alcance ou a retomada
da hegemonia econômica, política e cultural no espectro da nação, o que tornava Goiás o alvo de
uma captura que um ou outro estado buscava realizar para, assim, expandir, sua influência política,
seus mercados produtores e consumidores e, não menos importante, seus modelos de sociabilidade.
Ao ignorar todo esse movimento, manteve-se oculto o movimento da educação, seus
participantes e propositores e as alterações que introduziam novas ideias e difundiam novas práticas
na escola goiana. Segundo Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro (1985), o ambiente
educacional da centenária capital se saturava, por volta de 1929, dos discursos escolanovistas.
Montessori, Decroly, método analítico de leitura, centros de interesse, o valor da psicologia na
educação e seu lugar na formação de professores primários tornavam-se expressões e noções que
começavam a povoar o vocabulário e o universo intelectual dos professores goianos.
Entretanto, a imagem de um vazio educacional no período anterior aos anos 1930 tem sido
predominante, inclusive, no discurso historiográfico goiano. Somente, aos poucos, esta imagem tem
sido questionada por pesquisadores que, ao se debruçarem sobre a chamada fase das oligarquias,
particularmente a oligarquia Caiado, encontram indícios que a educação em Goiás vivenciou, neste
período, alguns processos de modernização. Destes, o governo de Ludovico herdou regulamentos e
programas escolares, os quais já continham modernas diretrizes pedagógicas aproveitando-se
também dos efeitos positivos derivados de práticas e discursos que propagavam, na centenária Vila
Boa, o ideário pedagógico que se desenvolvia nos centros dinâmicos do país. Em especial, as
reformas da educação propostas, respectivamente, por Americano do Brasil (1918) e José
Gumercindo Gomes Otero (1930) me parecem extremamente importantes para pensar as tentativas
de modernização educacional no período reconhecido pela historiografia goiana como tempos de
predomínio dos Caiado na direção política da região. Tempos que se constituem, na discursividade
dominante, exemplo do imobilismo oligárquico no que diz respeito à educação.
O grupo caiadista, ao se instalar no centro do poder, criou numerosas estratégias para nele
permanecer. Um conflito na escrita da história da educação goiana se instala quanto a este aspecto;
conflito inserido no processo de apagamento do passado que o surgimento de Goiânia incrementou.
A questão sob a qual se assenta esta discordância historiográfica é: a educação se constituía em uma
das estratégias mobilizadas pelos Caiado para manter e fortalecer seu poder em Goiás? A resposta
256
não é uníssona. A historiadora Ana Lúcia Silva (1990: 74), por exemplo, alinha as práticas
oligárquicas que possibilitavam a manutenção e o crescimento de poder caiadista. Note-se que a
educação não está entre o que a autora denomina 'célebres mecanismos de afirmação oligárquica',
revelando a pregnância da ideia do suposto vazio educacional vivenciado na região durante a
Primeira República.
Controle dos principais postos políticos de controle do Estado e no estado, rígido
controle da comissão executiva do partido [democrata]; reformulação das leis
estaduais, adequando-as a seus interesses; manutenção de jornais para difusão de
suas ideias e princípios ideológicos; respeito às premissas do pacto oligárquicocoronelístico; articulação com os demais grupos coronelísticos da região; controle
do processo eleitoral: leis, eleições, verificação dos poderes; uso da força policial
para esmagar resistências ao seu poder.
Como se explicariam a partir deste olhar as sucessivas reformas, algumas de grande monta,
no então incipiente sistema educacional goiano e especialmente na sua escola primária? Como
pensar a partir daí as conseqüências, implicações, impactos, limites e possibilidades destas reformas
na conformação do campo da educação em Goiás? E, mais importante, como compreender as
rupturas, as heranças, as pregnâncias e permanências efetivamente produzidas pelo ou a partir do
surgimento de Goiânia? Neste sentido, os estudos mais recentes sobre a história e sobre a história
da educação em Goiás, ao incorporar novos referenciais teóricos e metodológicos e realizar uma releitura das fontes e das interpretações recorrentes, têm trazido substanciais contribuições para o
entendimento dos avanços e retrocessos experimentados pela educação em Goiás antes de 1930.
O trabalho de Miriam Fábia Alves, Política e escolarização em Goiás: Morrinhos na
Primeira República352 insere-se nesta perspectiva permitindo questionar a construção que o período
foi marcado pela ausência de ações e iniciativas do Estado, em sua esfera estadual, voltadas para a
resolução da problemática educacional. Neste trabalho, a autora explicita o lugar da educação no
projeto de poder dos Caiado bem como sinaliza o papel que a ela era atribuído no discurso e na
prática do grupo que governava, com olhos vigilantes e mão de ferro, toda a hinterlândia goiana.
Os achados e as conclusões da autora me parecem, então, extremamente pertinentes para pensar os
processos de modernização educacional que foram colocados em curso durante o período que
passou por um apagamento no discurso do pós-Trinta; apagamento que revelou força suficiente
para impregnar, inclusive, os estudos acadêmicos.
A ideia do vazio educacional mostra-se complicada, entre outros aspectos, se considerarmos
as especificidades da história e da formação social goiana e, no interior desta, o desejo de
352
Tese de doutoramento da autora, defendida (2007) no Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de
Educação/Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte/Brasil.
257
modernidade e de pertença à nação que foi se fortalecendo a partir do Império em suas elites
letradas. Parece-me que tal desejo inspirou nos goianos uma postura de adesão às práticas e ideias
educacionais oriundas do centro, o que não significa reprodução a crítica ou mera cópia ou
transplante, mas como ensina Roger Chartier (2003), movimento de apropriação e, como tal,
sempre dinâmico e criativo. Neste caso, a hinterlândia não poderia manter-se insensível aos apelos
pela necessidade do Estado investir na educação popular e as reformas e a modernização da escola
em Goiás estariam alinhadas ao movimento reformista nacional.
As interpretações clássicas da historiografia da educação regional não ajudam a
compreender e explicar, particularmente a partir desta ótica, o movimento educacional goiano,
especialmente nas décadas 1910 e 1920, período anterior a demarqué temporal com a qual trabalho.
Para pensar o que ocorreu em Goiás antes da Revolução de Trinta e do surgimento de Goiânia – as
influências e pregnâncias, as apropriações e empréstimos e também os sentidos das reformas, dos
regimentos e regulamentos, dos programas escolares que tentavam alterar a feição escolar regional
bem como do que não era aceito, das resistências, das ausências do poder público - outro olhar é
necessário.
6.3.1 – Na reforma da ‘mocidade culta de Americano do Brasil’, a escola goiana vislumbra a
modernidade
A partir de 1918, a escola primária goiana começava a distinguir-se da velha escola onde
estudou a menina Aninha. Entre outras novidades, os exames, os cantos, os recreios – que tanta
falta fizeram à menina que vivia na poetisa – adentraram a escola marcando-lhe o tempo diário. As
novidades se inseriam no projeto de poder caiadista, oligarquia dominante entre 1917 e 1930.
Segundo Alves (2007), a educação aparecia como dispositivo que ajudava a formar uma cultura
política em Goiás, disseminando imagens e representações importantes ao projeto caiadista na
medida em que contribuía para forjar consensos em torno do seu poder. Quais imagens e
representações os Caiado desejavam vincular ao seu domínio? A autora em foco considera que o
grupo dominante desejava difundir uma imagem que se relacionava à sua adesão ao projeto
republicano brasileiro no qual a educação e escola constituíam-se em promessa e compromisso.
Neste sentido, especialmente a escola primária, era um elemento que ajudava a compor o que a
autora denomina ‘modernidade caiadista’ se constituindo em
estratégia política do grupo para apresentar no cenário nacional um estado
moderno, alinhado com as transformações em curso no país. [Se] internamente, as
questões sociais, as manifestações populares, as dissidências do grupo eram
predominantemente resolvidas por meio da violência institucionalizada, o que
258
poderia representar a face selvagem do estado, no cenário nacional, entretanto, o
grupo tentava projetar uma imagem modernizadora do estado e a educação foi em
alguns momentos utilizado como instrumento de divulgação dessa face moderna.
(Grifo da autora)
Já havia na sociedade goiana, especialmente em Vila Boa, preocupações relacionadas ao
acesso à educação, a qual se tornava, dia-a-dia, mais importante como dimensão redentora da nação
e, particularmente, como forma de resolver o eterno marasmo do estado, colocando-o em
consonância com regiões mais prósperas e desenvolvidas do país. A escola era considerada, no
contexto nacional, instituição típica da modernidade: no imaginário que ia se formando sobre a
nação, apenas a educação poderia transformar as práticas e mentalidade arcaicas da população
brasileira e, assim, contribuir para sua transformação em um povo trabalhador, ordeiro e disposto a
sacrificar-se pelo e para o progresso do Brasil. Os discursos do centro dinâmico da nação
começavam a ser apropriados por intelectuais goianos e também pelos dirigentes oligárquicos.
Vários dispositivos de difusão de uma imagem moderna para Goiás pela via da educação
foram mobilizados pelo governo estadual. Entre eles, a revista A Informação Goyana que
comemorou, em 15 de dezembro de 1918353, a reforma educacional promovida naquele ano pelo
Diretor do Interior e Justiça, Americano do Brasil, durante o governo do presidente João Alves de
Castro (1918-1922). O articulista celebrava a reforma comentando, inclusive, o seu suposto caráter
pioneiro na realidade da nação.
Goyaz acaba de se colocar mais uma vez na vanguarda das iniciativas simpáticas
em prol da transformação de nossos velhos hábitos. O presidente Alves de Castro,
secundado nos seus esforços pela mocidade culta de Americano do Brasil,
decretando a educação primária obrigatória em seu estado, abriu de fato novos
horizontes às possibilidades do Brasil Central. [...] À energia moça de Americano
do Brasil e ao espírito empreendedor do dr. Alves de Castro deve, pois, o país essa
obra benemérita que é a primeira que se pratica entre nós, para dar combate
eficiente ao analfabetismo que amesquinha as populações provincianas. (Grifos
meus).
Apesar de seus modestos impactos na realidade educacional goiana, esta reforma pode ser
considerada uma espécie de marco divisor na história da educação em Goiás já que atacava
frontalmente a questão do ensino primário, um dos pontos de estrangulamento do precário sistema
educacional goiano. O governo estadual assumia então, definitivamente, a responsabilidade pela
construção de infra-estrutura necessária bem como pela “[...] aquisição de material didático,
formação e contratação de novos professores, expansão [da oferta] e do atendimento e
353
Reproduzido por Alves (2007: 116).
259
uniformização pedagógica” ao funcionamento do ensino primário (ALVES, 2007:103)
354
e, com
esta medida, dava fim ao jogo político no qual a educação primária era empurrada ora para o estado
ora para os municípios355. Em comum no discurso dos governantes estaduais e municipais, a eterna
justificativa da falta de recursos para financiar a educação.
Como resultado deste jogo de empurra, as ações e iniciativas voltadas para a construção de
escolas públicas se faziam frágeis, quase inexistentes. Pouco, quase nada foi feito durante as fases
iniciais da Primeira República. As inovações educacionais que apareciam no plano da legislação
não se consolidaram inicialmente356, mas a educação aparecia como um dos mais importantes
pontos da tensão entre os poderes locais e o poder estadual no período. Tensão especialmente
provocada pelo discurso dos dirigentes oligárquicos - particularmente os Bulhões e os Xavier de
Almeida357 – que usavam a autonomia municipal para criar e gerir escolas como pretexto para
legitimar sua não ação em favor da educação do povo goiano (ALVES, 2007).
Quando alcançaram o poder estadual através da presidência de João Alves de Castro, em
1917, os Caiado deram outro tratamento à questão educacional. A educação primária se tornava
uma das principais preocupações dos governantes caiadistas que concluíam: em Goiás, este nível de
ensino era inexistente. ‘É um mito’, declarou o referido presidente em 1918358. A reforma,
consubstanciada sob a forma de uma lei (Lei 631, de 24/10/1918) e de um Regulamento para o
Ensino Primário (Decreto 5.930, da mesma data), não somente resolvia a importante questão da
354
A reforma ajudava a soterrar, neste campo, o artigo 11 da Constituição Estadual de 1891 que conferia autonomia e
independência administrativa aos municípios goianos. ‘Presente de grego’ a municipalidades empobrecidas e sem
condições financeiras para se manterem, conforme pontificou José Inácio Xavier de Brito, presidente do estado em
1895. A autonomia municipal era uma questão de enorme importância na medida em que, distantes do poder central, os
municípios se constituíam em base de poder de chefes locais e lugar de embate de grupos coronelísticos em busca de
mais poder. Naquele contexto, problemáticas como a educação ficavam a mercê dos jogos de poder dos grandes
fazendeiros. Miriam Fábia Alves (2007) refere-se, a título de comparação, à questão da segurança pública que também
era de responsabilidade da esfera municipal. No decorrer dos primeiros anos da República, as desorganizadas polícias
municipais foram objeto de acirradas críticas nos círculos centrais do poder e no meio social goiano de forma geral. A
necessidade de uma força policial organizada e consistente apareceu, então, como algo mais urgente que a questão da
instrução, principalmente, em função das lutas e disputas entre coronéis. Ocorriam conflitos desta natureza em várias
cidades goianas (Boa Vista do Tocantins, Jaraguá, Corumbá, entre outras), inclusive nas mais populosas e consideradas
mais prósperas como Catalão e Rio Verde que se constituíram, ao final do período, em focos de resistência aos Caiado
e base política de Pedro Ludovico Teixeira. De acordo com a análise de Miriam Fábia Alves, a história política de
Goiás é marcada por disputas – às vezes sangrentas - nas quais os poderes locais (municipais) se chocam frontalmente
com o poder estadual. A solução adotada pelo governo goiano foi a assunção plena da responsabilidade de criação e
manutenção de uma policia militar de caráter estadual partir de 1898, ou seja, vinte anos antes de assumir a
responsabilidade pela educação primária.
355
Por diversas ocasiões (1911, 1913 e 1916) o estado legislou sobre a autonomia municipal no campo da educação ora
confirmando ora flexibilizando a autonomia de forma que a situação não foi, de fato, alterada e a esfera estadual se
eximiu da oferta educacional (ALVES, 2007).
356
Como ocorreu com a reforma educacional aprovada no governo de Salatiel Simões, em 1916, que no nível da
legislação, é pioneira na introdução da modernidade pedagogica. Contudo, o governo estadual alegou falta de recursos
financeiros para efetivá-la no campo educacional goiano.
357
Uma exceção deve ser creditada a José Inácio Xavier de Almeida que governou entre 1895 e 1898 e defendia a ideia
que a autonomia municipal no campo da educação primária representava mais um problema que uma solução para o
estado de Goiás.
358
Mensagem Presidencial apresentada aos deputados goianos. Reproduzido por Alves (2007)
260
responsabilização pela criação e gestão de um sistema educacional como trazia numerosas
novidades e promovia avanços, principalmente, na escola primária.
Lei e regulamento extensos – 70 artigos, a primeira e 172 artigos mais anexos, o segundo –
objetivavam “[...] criar uma nova estrutura escolar no estado, assim como conformar um novo
discurso sobre a escola [...]” (ALVES, 2007: 102). Tomando de Luciano Mendes de Faria Filho
(1998) a ideia de que a legislação se constitui como linguagem da tradição e dos costumes, a autora
citada considera que
A reforma de 1918 prescreveu um conjunto de ordenação e formalização de novas
práticas para as escolas primárias e também relevou aspectos importantes para a
conformação do discurso pedagógico em Goiás, em especial no que tange à
questão metodológica, de organização do trabalho docente e da prescrição dos
saberes escolares.
A reforma instaurava a forma escolar graduada criando o curso primário e o primeiro grupo
escolar do estado de Goiás, o Grupo Escolar da Capital, instalado em 20 de fevereiro de 1919359.
Segundo Iria Brzezinski (1987), esta escola foi criada a partir da adaptação do Curso Anexo360 da
Escola Normal. Não foi construído ou mesmo alugado um prédio para seu funcionamento e o
primeiro grupo escolar de Goiás foi abrigado, sempre provisoriamente, na velha Casa de Corumbá,
local onde funcionava o Liceu de Goiás e que, por sinal, também acolhia a Escola Normal Oficial.
Do edifício do Liceu, o Grupo Escolar da Capital passaria a outros espaços improvisados até que,
finalmente, em uma nova cidade-capital ganhasse um espaço especialmente construído para recebêlo além de uma nova denominação – Grupo Escolar Modelo.
A ‘modernidade caiadista’ instalava em um só prédio escolar na centenária cidade-capital
dos goianos, casa recebida por herança e adaptada aos fins educacionais, a totalidade das escolas
públicas que adotavam a forma escolar moderna. Fora do prédio do Liceu, ficaram apenas as
escolas isoladas públicas e as escolas privadas. Genesco Bretas (1991: 509) fornece um retrato dos
usos e dos ocupantes da Casa de Corumbá a partir da criação do Grupo Escolar da Capital
Nessa época, o prédio do Liceu havia sido ampliado com várias salas de aula,
aproveitando-se para isso todo o quintal da antiga casa do Dr. Corumbá. [...]
construíram-se ao lado e no fundo [do terreno], pelo sistema de meiágua,
aproveitando-se os muros de pedra como alicerces para as paredes, várias salas de
aula, com alpendres em toda a extensão das salas, para circulação, sem janelas
laterais; estas, assim como as portas davam para o pátio interno cercado por toda a
construção. A luz natural dentro das salas era pouca, diminuída que era pela
cobertura dos alpendres. Assim foi possível dar abrigo ao Liceu (cerca de 100
359
A instalação do Grupo Escolar da Capital foi feita por Joaquim Rufino Ramos Jubé que exercia interinamente a
presidência do estado em virtude do afastamento de João Alves de Castro por motivos de saúde (BRETAS, 1991).
360
Criada em 1903 para servir de escola-campo para os estudantes da Escola Normal Oficial funcionava, como todas as
escolas públicas vilaboenses, na Casa de Corumbá.
261
alunos), Grupo Escolar (outros 100 alunos), Escola Normal e ainda, por algum
tempo, à Escola Livre de Direito de Agenor de Castro e à Escola de Farmácia e
Odontologia fundadas na Capital havia pouco tempo.
As escolas isoladas foram mantidas na nova legislação educacional. Não era possível
simplesmente bani-las já que compunham a grande maioria do precário e incipiente sistema
educacional goiano. Havia, entretanto, uma novidade neste ponto: a possibilidade de que várias
escolas isoladas se juntassem em mesmo prédio, sob a direção de um de seus professores, desde que
o espaço se mostrasse apropriado, formando uma escola reunida. A exigência de espaços adequados
significou, de fato, um impedimento à instalação de escolas deste tipo uma vez que a inexistência
de espaços escolares específicos se constituía em um dos principais problemas para a expansão e
melhoria da escola em Goiás. A reforma, deste ponto de vista, era ambígua: criava possibilidades
para o crescimento físico da rede escolar ao exigir prédios destinados ao funcionamento das escolas
e, ao mesmo tempo, mantinha gratificação para que o professor pagasse o aluguel da casa-escola
onde recebia estudantes (ALVES: 2007).
Se a reforma se eximia de lidar com a questão dos espaços escolares, o mesmo não se pode
dizer da transformação que ela pretendia provocar nos tempos escolares da escola primária. Ela se
fazia, nesse sentido, discurso e sugestão de práticas renovadas. Uma arquitetura do tempo se
desenhava para a escola goiana, seccionado em pedaços - ora maiores ora menores – o cotidiano
daquela instituição que se enraizara, mesmo em toda a sua fragilidade, em uma sociedade onde o
tempo parecia não passar. A reforma vislumbrava a modernidade para a escola primária de Goiás a
partir de um ‘cronologia civil, religiosa e cívica’ (SOUZA: 1998) que inseria o escolar nos ritmos
de uma vida social regida pela lógica do relógio (vida moderna e urbana sintetizada na máxima time
is money). Ao mesmo tempo, trazia a escola para fora de seus muros através da demarcação
temporal das atividades pedagógicas e educativas e de sua abertura à vida da cidade.
A escola abria suas portas para que, nelas, a cidade adentrasse e, em contrapartida, a escola
invadia a vida urbana, alterando seu funcionamento e promovendo transformações nos
comportamentos e mentalidades. A escola goiana começava a organizar-se de modo a marcar a vida
urbana. A começar, pelo tempo de duração da vida escolar que se mostrava distinto dos tão
conhecidos ritmos da casa-escola e de seus mestres e mestras. Naquelas escolas de ler, escrever e
contar, o curso chegava ao seu final no momento em que o mestre ou mestra percebia a aquisição
destes saberes por parte da criança. Podia durar mais de quatro anos. Ou bem menos. Não havia
tampouco exames escritos, mas avaliação processual do ensino ministrado assegurada pela tradição
oral do argumento: o estudante era sabatinado pelo mestre ou mestra e assim dava a ver o que sabia
ou não sabia. Nenhum ritual marcava este momento. Assim procedia, por exemplo, Silvina
Ermelinda Xavier de Brito – a mestra de Cora – em sua escola de primeiras letras.
262
A legislação educacional goiana não coibia tais práticas: os mestres das casas-escolas
tinham ampla liberdade para organizar e gerir como bem entendessem suas próprias escolas. Nas
escolas públicas, entretanto, desde o alvorecer da república, a legislação normatizava a realização
de provas escritas. Nanci Ribeiro de Araújo e Silva (1975) cita o caso da mesma mestra Silvina que
antes de instalar sua casa-escola, já fora professora de uma aula pública do sexo feminino na
Freguesia de Sant’Ana (da Cidade de Goiás). Silvina deixou indícios comprovadores que, na
condição de professora pública, se enquadrava à força da lei que obrigava a realização de exames
escritos e, inclusive, a publicação dos resultados. Silva (2007) identificou, no Correio Oficial do
Estado de Goiaz de 01 de janeiro de 1873, a publicação dos termos de exame realizados por esta
professora em dezembro do ano anterior. A duplicidade de modos de avaliar convivia, lado a lado,
com a diversidade dos tempos e dos programas escolares.
A reforma de 1918 tentava alterar dramaticamente estas práticas normatizando os tempos
escolares, os saberes e as formas de ensinar e avaliar também nas escolas isoladas. Foi estabelecida
a obrigatoriedade de provas escritas para todos os tipos de escolas primárias e definido com
precisão também o tempo que devia durar o curso primário: se em escolas isoladas, o tempo de um
curso primário elementar seria de quatro anos; se em um grupo escolar, seis anos seriam
necessários para que se fizesse o curso primário complementar. Depois, a fixação de um calendário
que conformava os dias e horários de inicio e fim das aulas, o tempo das férias, os feriados e dias
santos, o período dos exames avaliativos. E uma grade de horários que distribuía os saberes
escolares, o tempo das aulas e o intervalo entre as aulas.
Os exames de passagem de classe e de passagem de ano se atrelavam a um dispositivo que
contribuía para o amalgama escolar-urbano: os diplomas de conclusão do curso primário seriam
entregues às crianças em cerimônia para a qual “as autoridades escolares, o professorado local e as
famílias dos alunos” (ALVES, 2007: 106) seriam convidados. A frágil relação urbano-escolar
começava a fortalecer-se na realidade goiana. Nas cidades do interior, a festiva entrega dos
diplomas entusiasmava a população local. Como em Rio Verde, a sudoeste do estado, no Instituto
Municipal do professor Pedro Salazar Moscoso em 1922 (FRANÇA, 1998: 26).
Entre nós, uma novidade naquele tempo. A fim de assistir os exames finais das
crianças e jovens, eram convidadas as pessoas mais importantes da pequena
sociedade, e as provas práticas e orais faziam-se na presença da seleta assistência.
Intendente. Conselheiros municipais. Vigário da paróquia. Juiz de direito. E mais
alguns cidadãos letrados. Colocava-se sempre no meio da sala do Fórum – local
dos exames – uma lousa negra em que as questões propostas deveriam ser
resolvidas pelos discípulos sorteados na hora e, a despeito do grande nervosismo
dos examinados, era a parte ansiosamente aguardada por eles no fim do ano letivo.
Outro dispositivo conformador do discurso educacional, mas que pretendia igualmente
263
conformar as práticas pedagógicas, os programas de ensino deveriam guiar o trabalho dos
professores tanto nos grupos escolares quanto nas escolas isoladas e reunidas. Os programas
contemplavam a educação moral e cívica, intelectual e física, premissa que introduzia, na escola
goiana, práticas, discursos e saberes escolares estranhos a seu universo: exercícios ginásticos,
militares e de canto para os meninos; ginástica orgânica e canto para as meninas; aulas de civilidade
e urbanidade; a ‘valorização do asseio, da decência, da ordem, da coragem, do amor à verdade’,
conforme prescrevia o regulamento de 1918; o estímulo às brincadeiras infantis com finalidades
pedagógicas em horários preestabelecidos (APUD ALVES, 2007).
A modernidade pedagógica se anunciava também na ordenação de uma nova metodologia
de ensino: a palavração e a sentenciação ‘sob os poderosos auspícios da intuição’, deveria substituir
o ‘velho e impertinente método colonial da soletração’361. O novo método trazia, entretanto, mais
novidades. Novidades que atingiam toda a atividade de alunos e professores. O aprendizado
concreto deveria estimular a observação e a manipulação mediada pela intuição. A educação dos
olhos e das mãos, marca do processo civilizatório ocidental, se insinuava no cotidiano da velha
escola primária goiana e, com ela, ganhava força a constituição de indivíduos modernos, racionais,
dotados de mecanismos de autocontrole suficientemente poderosos para forjar um comportamento
social polido e ordeiro. Ser moderno, civilizado e urbano, portanto, capaz de dominar as paixões e
as pulsões instintivas (ELIAS, 1994).
O novo Regulamento se valia de mecanismos diversos para introduzir a novidade
metodológica. De um lado, obrigava os professores a cumprir a determinação legal prescrevendo
parâmetros para a prática docente e, de outro, formulava um discurso que, ao invés de obrigar,
tentava convencer o professorado goiano a aderir à novidade. Afirmava que os professores em
breve compreenderiam as vantagens da mudança de método e que, afinal, tal mudança era resultado
de muitos estudos sobre a legislação educacional dos ‘estados leaders’ da nação e também de um
conhecimento aprofundado sobre o povo de Goiás e suas necessidades. O discurso de persuasão
veiculado pelo Regulamento de 1918 voltava-se para a prevenção às resistências que o
professorado poderia impor aos métodos pedagógicos modernos. Os legisladores pareciam prever
que a escola goiana resistiria aos imperativos da modernidade. Em 1926, um representante do clã
caiadista confirmava a previsão utilizando as resistências dos professores para justificar o
arcadismo escolar de Goiás: os professores se mostravam ‘inobedientes à comum orientação
pedagógica... conforme os preceitos da moderna pedagogia’362.
Se inovava, a reforma igualmente preservava antigas práticas e consolidava velhas tradições
361
Reproduzidos por Alves (2007: 109) que os compilou dos documentos produzidos pelo governo estadual no período.
A autora não cita, com exatidão, o autor ou autores dos discursos, mas apenas sinaliza para a autoria dos dirigentes
oligárquicos caiadistas e seus aliados políticos.
362
Reproduzido por Brzezinski (1987: 109).
264
que, por sua vez, mantinham hierarquias e exclusões históricas. A contratação de professores, por
exemplo, foi mantida nos termos tradicionais, isto é, a prática dos concursos públicos não estava
prevista e os professores continuavam a adentrar a escola pública, quase sempre, por indicação dos
coronéis. Mantinha-se, assim, um papel histórico do Estado nas terras goianas: o de fonte de
emprego e renda. Outro ponto em que se manteve a tradição: a co-educação não aparecia como um
princípio educativo e organizacional. Escolas separadas para meninos e meninas foram permitidas
no momento em que, do centro da nação, a educação conjunta de homens e mulheres já se mostrava
como princípio organizacional das escolas públicas. Instituições escolares mistas somente seriam
admitidas quando não houvesse quantidade suficiente de crianças para que fossem abertas duas
escolas na mesma cidade, vila ou arraial.
Também a problemática da obrigatoriedade escolar não apresentava alterações significativas
em relação ao passado. Para Alves (2007), neste aspecto a reforma trazia a obrigatoriedade à tona,
porém, nos moldes do Império: sob responsabilidade de pais, tutores ou protetores, alcançava
apenas crianças (meninos dos sete aos quatorze anos e meninas dos sete aos doze) que residissem
nos núcleos urbanos ou no máximo a um quilômetro deles. A reforma promovida pela ‘mocidade
culta de Americano do Brasil’ conforme comumente era qualificado o Diretor de Interior e Justiça,
era uma reforma voltada para os meios urbanos. Paradoxal escolha dos dirigentes e legisladores de
uma região cuja população vivia predominantemente nas áreas rurais, mas que explicita as
tentativas de modernização da educação em Goiás, ou no mínimo, a construção de uma imagem
moderna para o estado.
De acordo com Alves (2007), o modelo inspiratório que predominou na reforma de 1918 era
o paulista, mais conhecida como reforma Caetano de Campos, com alguma apropriação da
experiência do Rio de Janeiro, então Capital Federal. O modelo paulista, lembremos, buscava
justamente demonstrar e reforçar o processo de modernização das cidades paulistas que, então, se
encontrava em rápido andamento. Muito distinta era a situação das pobres cidades goianas, quase
perdidas na imensidão do território estadual, perfeitamente integradas na lógica do sertão. O desejo
pela modernidade, entretanto, parece ter guiado os legisladores goianos mobilizando-os para a
implantação de uma escola que se aproximava dos moldes da moderna forma escolar e, portanto,
tipicamente urbana.
A ênfase no urbano era confirmada pelo privilégio orçamentário conferido, na reforma, às
escolas da Cidade de Goiás que era, à época, considerado um dos poucos municípios que, em terras
goianas, poderiam arcar com a responsabilidade pela educação primária, não dependendo, portanto,
da intervenção do governo estadual. Por outro lado, chama atenção a pobreza das escolas primárias
da cidade-capital. Os poemas de Cora Coralina e os relatos de Genesco Bretas são alguns dos
discursos que permitem visualizar a precariedade do meio escolar vilaboense: predominância de
265
empobrecidas casas-escolas privadas, um único prédio para abrigar todas as escolas públicas
graduadas da cidade.
O resultado imediato da ênfase sobre o urbano foi a exclusão da grande maioria das crianças
goianas do acesso à escola. Na discursividade da oligarquia dominante, entretanto, se afirmava que
‘nossas cidades, nossas vilas, nossos arraiais não comportam mais escolas além das existentes’363.
Contudo, os índices de analfabetismo permaneceram enormes, praticamente inalterados e os
governantes não os podiam explicar. Um discurso pessimista começou a circular sobre a educação
goiana. Em abril de 1921, a revista A Informação Goyana, que anteriormente elogiara os dirigentes
estaduais, cobrava a demora do governo goiano em colocar em ‘prática as ideias e planos em
relação ao ensino primário que concebeu e publicou’ e reconhecia que o Goiás continuava ‘a sofrer
a mesma pressão da praga do analfabetismo [...]’364.
No decorrer dos anos vinte, a legislação educacional foi enriquecida com outras leis e
decretos que aperfeiçoavam os mecanismos de implantação da modernidade pedagógica, mas não
alteravam a face da educação do povo sertanejo. Entre outras leis, surgiu em 1925 o Regulamento e
o Programa dos Grupos Escolares do Estado de Goiaz (Decreto-lei 8.538, de 12/02/1925) e, no ano
seguinte, o novo Regulamento para o Curso Normal da Escola Normal Oficial (Decreto-lei 8.929,
de 25/11/1926). Ambos reforçavam a adesão à modernidade pedagógica. No Regulamento dos
Grupos Escolares reafirmava-se o ideário pedagógico liberal. Iria Brzezinski (1987: 63) expõe seus
pontos básicos:
ensino laico e gratuito [...], desenvolvido em quatro anos; as lições deveriam
induzir o estudante ao desenvolvimento do raciocínio e não ao simples treino da
memória; as teorias abstratas e enfadonhas deveriam ser abolidas, dando lugar aos
ensinamentos práticos e concretos. Deveriam os professores adotar o método
analítico.
Por sua vez, o Regulamento do Curso Normal trazia como grande inovação, na visão de Iria
Brzezinski (1987: 65), uma clara definição do professor a ser formado: “Os futuros mestres
deveriam embasar sua prática pedagógica nos princípios, métodos e técnicas da pedagogia nova”.
Apesar de tudo, os dirigentes oligárquicos dedicaram pouquíssima atenção a instituição onde se
formavam os professores primários. A penosa situação da Escola Normal Oficial não sofreu
alterações: a única escola normal pública e a única escola secundária do estado de Goiás dividiam,
além do espaço, os professores, a direção e grande parte de um programa de ensino que somente se
363
Conforme afirmou o presidente João Alves de Castro na Mensagem enviada à Assembléia Legislativa estadual em
1920. Reproduzido por Alves (2007: 117).
364
Op. Cit., p. 118.
266
diferenciava no último ano do curso quando o estudante realizava estudos específicos de pedagogia
e didática e realizava um estágio supervisionado no Curso Anexo.
A legislação educacional já introduzira a modernidade pedagógica na Escola Normal Oficial
pela via dos programas escolares, mas o Estado pouco fez para o avanço qualitativo e quantitativo
desta instituição nas terras goianas durante a Primeira República. Genesco Bretas (1991) comenta
que a convivência entre os rapazes do Liceu e as moças da Escola Normal Oficial era tensa, ou
melhor, constituía um campo de tensão que extrapolava os limites do prédio escolar. As melhores
famílias vilaboenses e mesmo do interior do estado – ‘famílias que podiam pagar escolas para seus
filhos’, lembra Bretas (1991: 471) - preferiam não ter suas filhas estudando em meio aos olhares
masculinos; a preferência recaía, então, sobre o Colégio Santana, o qual foi equiparado à Escola
Normal Oficial em 1907.
A pouca transformação ocorrida depois da reforma de 1918 fez com que, segundo Alves
(2007), durante os anos 1920 discursos pessimistas sobre a educação se revezassem com discursos
de otimismo. Os governantes estaduais ora celebravam os feitos das reformas ora reconheciam seus
modestos impactos na realidade educacional goiana. Mas, nesse caso, atribuíam o fracasso à
‘causas estranhas’ sob as quais não podia arbitrar. De que falariam os dirigentes oligárquicos?
Miriam Fabia Alves (2007) considera que as ‘causas estranhas’ relacionam-se às resistências dos
poderes municipais à ação da esfera estadual no campo educacional. As resistências dos professores
às inovações pedagógicas introduzidas pela reforma também são mencionadas por esta autora.
Considero, porém, que a ênfase no urbano e a restrita capacidade de irradiação da cidade-capital
pode também ter contribuído para seu relativo fracasso.
Nos anos 1920, a rede de grupos escolares pouco cresceu enquanto a escola isolada manteve
a predominância na oferta do curso primário. Em especial, o governo estadual quase não investiu na
construção de prédios escolares que abrigassem a instituição-símbolo da escola graduada no Brasil.
Nem mesmo na então cidade-capital foi edificado um espaço para abrigar o primeiro grupo escolar
do estado e da cidade. Neste sentido, as municipalidades aparecem aqui como o fiel da balança
uma vez que foram as agentes que patrocinaram a construção de edifícios para o abrigo de seus
grupos escolares. No período, alguns belos e modernos prédios de grupos escolares surgiram em
Morrinhos, Catalão, Bonfim, entre outros municípios, por iniciativa dos prefeitos.
De qualquer maneira, as bases de um sistema educacional moderno já estavam lançadas bem
como novas ideias e concepções acerca da educação e de seu papel social e político. O papel
redentor da educação, recorrente na discursividade das elites nacionais, foi apropriado pelos
goianos: educar significava moralizar o povo, incutir-lhe hábitos saudáveis como o amor ao
trabalho, à higiene, a Deus e a pátria, retirá-lo da ignorância que levava ao crime e a doença,
instruí-lo, enfim, para que pudesse participar da forja da nação moderna e progressista que habitava
267
a imaginação sociológica brasileira. ‘O futuro das nacionalidades depende exclusivamente da
instrução pública’, pontificou o presidente João Alves de Castro em 1918.
Goiás vivia uma tensa movimentação no campo da política. Os coronéis goianos estavam
em aberto confronto e a educação constituía-se em campo de disputas. A oposição aos clãs
oligárquicos crescia principalmente nas progressistas sub-regiões sul, sudeste e sudoeste do estado.
Mas, mesmo diante da tensão política e partidária ou, quem sabe, em decorrência dela, no final dos
anos 1920 algumas ações e outra importante reforma aproximavam ainda mais as antigas minas dos
goyases das perspectivas educacionais e pedagógicas que empolgavam as elites nacionais. As
iniciativas concretizadas por César da Cunha Bastos e José Gumercindo Marques Otero, entre 1928
e 1930, re-estruturaram o sistema educacional goiano aproximando-o, em forma e conteúdo, ao
modelo educacional já em andamento em outros estados brasileiros, notadamente no progressista
estado de São Paulo. Como em outros momentos, seus efeitos e impactos se fizeram sentir com
mais nitidez na então cidade-capital, a antiga Vila Boa e em suas adjacências.
6.3.2 - Entre Minas Gerais e São Paulo, a escola goiana acelera o passo rumo à modernidade
As criticas aos Caiado e, em particular, ao seu projeto de educação que foram uma constante
durante os anos 1920 sofreram, a partir de meados de 1927, uma intensificação concomitante ao
fortalecimento da oposição caiadista. Brasil Ramos Caiado governava o estado e as tensões e
confrontos entre grupos coronelísticos se acirravam na realidade goiana O fracasso da reforma de
1918 – e das sucessivas tentativas nos anos 1920 - na diminuição dos índices de analfabetismo bem
como a precariedade da rede escolar eram continuamente relacionados pela oposição ao voluntário
imobilismo da oligarquia dominante. O jornal Voz do Povo se constituía no porta-voz do
movimento opositor aos Caiado. O governo estadual, por sua vez, não se eximia de responder às
criticas oposicionistas servindo-se, para tanto, do jornal O Democrata. Um intenso debate sobre a
educação tencionava o ambiente da bucólica Vila Boa e se espraiava pelas sub-regiões mais
próximas da antiga cidade-capital (ALVES, 2007) onde, por sinal, se agregava a oposição caiadista.
Os termos deste debate pautavam-se prioritariamente pela constituição de práticas
discursivas que visavam muito mais a defesa ou o ataque entre os dois grupos de contendores –
governo e oposição - que uma análise que se voltasse para necessidades e urgências concretas do
incipiente sistema escolar público goiano. As práticas discursivas de governantes e opositores
revelavam-se, na maioria das vezes, ‘agressivas e revanchistas’, conforme qualifica Alves (2007) ao
se referir aos discursos formulados por volta de 1929. Antes disso, em 11 de novembro de 1927, o
Secretário dos Negócios do Interior e Justiça, pasta responsável pela instrução pública, Cezar da
268
Cunha Bastos publicou no jornal situacionista O Democrata, um artigo em que analisava a difícil
condição da escola primária goiana sob um ponto de vista pedagógico365. Adotava, assim, uma
postura que ampliava os termos do debate acerca da educação que a sociedade goiana, então,
experimentava.
O discurso de Cezar da Cunha Bastos mostrava-se distinto na medida em que falava a partir
da escola buscando, na sua concreticidade, saídas e soluções. Ele levantou as principais deficiências
do sistema público de educação goiano ressaltando ‘a falta de amplitude dada aos regulamentos de
ensino, numa adaptação, que mais coadune com o desenvolvimento do estado; falta de pessoal
técnico, isto é, de professores que se exercitem como tais, com funções e especialidade’366. Para
resolver a questão do professorado, sugeriu a criação de uma escola normal superior e a nomeação
de funcionários públicos para a tarefa de inspeção escolar, medida que considerava pertinente para
a melhoria do controle do trabalho educacional em Goiás.
Ancorado em uma perspectiva totalizante e sempre referindo-se ao que ocorria em termos
educacionais nas regiões progressistas brasileiras, Cunha Bastos sinaliza para a necessidade de um
projeto de educação e um plano de ação que articulasse distintos níveis da realidade educacional
goiana. Seu discurso procurava forjar uma espécie de zona de conexão entre a formação e
fiscalização do trabalho dos professores, o salário do magistério, a construção planejada de prédios
próprios para as instituições escolares e os preceitos da modernidade pedagógica.
Os vencimentos do magistério, a edificação dos prédios para os grupos escolares,
obedecendo a um plano informe de construções higiênicas. O professorado,
recebendo da Escola Normal Superior os conhecimentos da moderna pedagogia,
iria transmitindo ao corpo discente, numa transfusão mais sadia, a alfabetização à
criançada goiana.
Pouco tempo depois, Cunha Bastos passaria das palavras à ação. Conforme Nanci de Araújo
e Silva (1975), o advogado367 e político goiano se inspirou nas reformas realizadas por Francisco
Campos, em Minas Gerais e Oswaldo Aranha, no Rio Grande do Sul, para promover uma
renovação na educação em Goiás. Secudarizava, assim, a influência paulista que fora predominante
na reforma de 1918. No curto período (1927/1928) em que dirigiu a instrução pública estadual,
Cunha Bastos colocou em prática algumas de suas ideias educacionais e, conforme atestam alguns
historiadores da educação goiana (ALVES, 2007; BRZEZINSKI, 1987; SILVA, 1975), deixou
elaborado o anteprojeto que continha os princípios da reforma educacional realizada por José
Gumercindo Marquez Otero em 1930, quase às vésperas da Revolução que retiraria os Caiado do
365
Op. Cit., p. 122.
Op. Cit., p. 122.
367
Formado em 1925 pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro (SILVA, 1975).
366
269
poder regional e nele instalaria o grupo que depois construiu Goiânia.
Uma das mais importantes realizações de Cézar da Cunha Bastos foi a criação do Jardim de
Infância da Capital, primeira instituição em nível pré-escolar da hinterlândia goiana. No Relatório
do Secretário do Interior e Justiça ao Exmo. Sr. Dr. Brasil Ramos Caiado, Presidente do Estado de
Goiás368 (1928:17), o reformador demonstrou como pensava a função e os objetivos da nova
instituição escolar bem como indicou o ‘sistema didáctico’ que garantiria seu sucesso.
Demonstrando ser conhecedor e entusiasta dos processos de modernização educacional e escolar de
outras regiões, Cunha Bastos formulava um discurso coerente e sintonizado com as ideias que
emanavam dos centros dinâmicos da nação.
Natural complemento da instrução primária, os jardins de infância, de onde a
criança sae apta a iniciar os estudos nos grupos escolares, vêm preencher uma
lacuna no ensino [...] procurando por méthodos intuitivos associar as ideias com
as cousas que são familiares à creança, o sistema didáctico empregado nestes
estabelecimentos, pode se afirmar, traz resultados práticos supreendentes. (Grifo
meu).
“Mais importante do que a simples presença física do Jardim de Infância foi o espírito que o
animou”, afirma Silva (1975: 242). Fundado nas lições das coisas, o Jardim de Infância da Capital
adotou uma postura pedagógica assentada nas concepções pestalozzianas e na pedagogia científica
de Maria Montessori. Nanci de Araújo e Silva (1975: 242) reconstituiu, com base em relatos de
uma professora do Jardim de Infância369, a dinâmica pedagógica instaurada na instituição bem
como os materiais disponibilizados para o trabalho de professores e crianças. A perspectiva de uma
educação corporal e sensorial é evidenciada através dos usos que foram feitos do material didático
pedagógico, mas igualmente é possível perceber que certos saberes e comportamentos típicos da
civilidade (cortesia, regras de etiqueta) e um conjunto de valores morais (respeito aos pais, a
família, amor à pátria) também se faziam presentes no cotidiano escolar.
Lixas, ceras para modelagem, blocos, bastidores, barras coloridas, material de
jardinagem, sininhos eram parte do instrumento de trabalho da criança. Esta se
submetia a exercícios variados como a apalpação de formas diversas, para a
educação do sentido estereognóstico, ou manuseio de lixas, de aspereza graduada,
para percepções táteis. Contato dos dedos sobre as letras em lixas seguido de sua
reprodução gráfica de modo a concorrer para o desenvolvimento da imaginação.
Exercícios, com material colorido, para educação do sentido cromático.
Desenvolvimento do sentido musical conjugado com o da audição, através do jogo
de sininhos, percutidos a maior ou menor distância da criança. Exercícios com a
enxadinha do cultivador, reproduzindo os movimentos do jardineiro que trabalha
a terra. Treino, em bastidores com fitas, para o adestramento motor. Regras de
368
Publicado nas Oficinas do Correio Oficial, 1928. Preservado no Arquivo Histórico Estadual. Goiânia/GO.
Ondina da Cunha Bastos Albernaz tornou-se diretora do Jardim de Infância em 1934. Com a transferência do Jardim
de Infância para Goiânia, manteve o cargo e nele permaneceu até sua aposentadoria em 1950 (SILVA, 1975).
369
270
etiqueta, em aula e no horário do recreio. Exercício de cortesia realizados com
frequencia. Enfatização do respeito devido aos pais e à família. Cultivo da
veneração à Pátria. (Grifos meus)
O legislador imprimiu à inovação que instaurava no campo da educação goiana um caráter
mais prático e menos discursivo. Conforme Brzezinski (1987), Cunha Bastos preocupou-se com a
preparação dos professores, equipou a instituição com mobiliário e material didático-pedagógico
atinentes à aplicação dos métodos ativos na nova escola e resolveu a questão do espaço para seu
funcionamento. A este respeito, a autora (1987: 65) o considera “[...] o arquiteto da Escola Nova
Goiana, ao garantir a estrutura física para o desenvolvimento daquela nova pedagogia”. A
inexistência de espaços escolares adequados e mesmo em quantidade suficiente para abrigar as
instituições escolares mostrava-se dramática na cidade-capital. Genesco Bretas (1991: 437) lembra
que
[...] toda instituição nova de ensino que se fundava na Capital tinha que se abrigar
no Liceu, único prédio público existente na cidade destinado ao ensino. Deve-se
lembrar que a Capital de Goiás era paupérrima em prédios públicos. [...] Durante o
Império e a Primeira República não se construiu um só prédio para serviços
públicos, a não ser um pequeno sobrado ao lado da Cadeia, destinado ao Gabinete
Literário. (Grifos meus).
O jardim de infância era instituição nova no sentido do seu pioneirismo no campo da
educação goiano bem como nova pelos princípios que deviam guiar seu trabalho formativo. Um
espaço novo também deveria ser criado. A construção de um prédio parece não ter sido cogitada e a
solução apareceu, novamente, sobre a forma da adaptação de um espaço já existente e construído
para outro fim que não o de acolher professores e estudantes. O local escolhido foi um edifício
inicialmente destinado ao beneficiamento de algodão que nunca entrara em funcionamento e que,
uma vez reformado, abrigaria o Grupo Escolar, o Jardim de Infância e a Escola Normal
constituindo-se em um centro de formação de professores primários. Essa a proposta de Cunha
Bastos.
Através da Lei 851, de 10 de julho de 1928, a Assembléia Legislativa goiana liberou os
recursos para o início das obras de transformação do prédio de beneficiamento de algodão no
espaço que abrigaria três escolas de Vila Boa, incluindo o recém criado Jardim de Infância. A
adaptação do prédio foi orientada por Cunha Bastos com o fim de “[...] atender aos ditames da
administração escolar, cujo estudo passava a ser encarado como indispensável ao bom
funcionamento da escola, considerada, agora, como um conjunto técnico a exigir, inclusive para sua
construção, o concurso da psicologia, da pedagogia e da engenharia [...]”, conforme se lê em Silva
(1975: 77). O prédio demorou a se configurar como espaço destinado à educação. A sempre
271
alegada escassez de recursos financeiros atrasou as obras e somente a 13 de julho de 1929 – último
dia do governo Brasil Ramos Caiado -, o Grupo Escolar e o Jardim de Infância foram ali instalados.
Sobre a cerimônia de inauguração, Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro escreveu em Goiaz,
coração do Brasil (1983: 199):
A 13 de julho de 1929, ás 11 horas, esse prédio foi solenemente inaugurado com a
presença do presidente Dr. Brasil Caiado, secretários, membros do congresso
estadual, diretora e professoras do estabelecimento e mais autoridades civis e
militares. Essa sessão inaugural foi filmada, por ordem do Governo, pelo Sr.
Aristides Junqueira.
Depois de reformado, o prédio contava com “[...] salas ambientes, pátio para recreio, salas
de aula dotadas de quadros-negros parietais a cobrir todo um vasto lado da parede, espaço livre,
amplo, e condições favoráveis, tanto de arejamento quanto sanitárias [...]” (SILVA, 1975: 79). A
autora afirma ainda que “[...] comparativamente ao tipo de construções da época, colonial pobre e
despojado, o edifico era de linhas arquitetônicas suntuosas” (Imagem 21).
Imagem 21
Palácio da Instrução, Cidade de Goiás, 1929
Fonte: SILVA, 1975
A situação da Escola Normal Oficial, entretanto, continuou inalterada. A única escola
normal pública do estado de Goiás permaneceu, espacial e institucionalmente, anexada ao Liceu de
Goiás. Na verdade, permaneceu como uma espécie de apêndice da escola secundária. Sua
desanexação, proposta por Cunha Bastos, foi adiada. Outra proposta, também voltada para a
formação dos professores - a vinda de professores qualificados das regiões progressistas para
promover a atualização do professorado goiano - ficou igualmente para mais tarde e somente se
concretizaria em 1929 sob a responsabilidade de José Gumercindo Marquez Otero, seu sucessor. A
desanexação da Escola Normal Oficial e a presença de técnicos educacionais qualificados e
experientes com os novos métodos pedagógicos eram vistas como condição fundamental para que
as reformas saíssem do papel e alterassem, de fato, a face da escola goiana. Somente melhorando a
272
formação de professores, a escola de Goiás se transformaria.
Em 14 de julho de 1929, Alfredo Lopes de Morais assumia a presidência do estado370 e
nomeava um novo secretário de Negócios da Justiça e do Interior, José Gumercindo Marquez Otero
que, quase imediatamente, colocou em andamento as propostas de seu antecessor. Uma de suas
primeiras iniciativas foi buscar, em outro estado brasileiro, os técnicos educacionais que Cunha
Bastos sugerira. O escolhido foi o estado de Minas Gerais, o que consolidaria a presença do modelo
escolar mineiro no nível da legislação educacional goiana. Contudo, a resposta de Minas Gerais foi
frustrante. Ela apareceu sob a forma de uma carta de Francisco Campos a Gumercindo Otero onde
o político mineiro justificava a impossibilidade de atender ao pedido vindo de Goiás.
[...] A escola de Aperfeiçoamento tem o curso de dois anos e iniciou seu
funcionamento em março último. Por este motivo não disponho, no presente, de
pessoas que possam colaborar com V. Excia. na reforma da instrução pública dahi
pelos moldes como se fez e se pratica a daqui, e deveras lamento que essa
circunstancia prive o Estado de Minas de corresponder a tão alta deferência do
Estado visinho. (Grifo meu).
Lembremos que as maiores influências que atuavam sobre Cunha Bastos eram as reformas
de Francisco Campos, em Minas e de Oswaldo Aranha, no Rio Grande do Sul. As relações de
proximidade entre Goiás e Minas Gerais eram históricas. Portanto, recorrer ao estado vizinho
parecia a saída mais coerente e consolidava uma parceria que, de fato, já ocorria através das
relações de proximidade, inclusive geográfica, entre cidades das sub-regiões sul e sudeste goianos e
cidades do Triângulo Mineiro. O discurso de Campos sinaliza que o modelo escolar que se tentava
implantar em Goiás era o modelo de Minas Gerais: o legislador mineiro afirmava textualmente que
era impossível enviar professores mineiros para implantar, em Goiás, uma reforma da instrução
pública ‘como se fez e se pratica a daqui’.
A criação do Jardim de Infância em moldes pestallozianos e montessorianos me parece uma
apropriação do movimento provocado pela presença de professores estrangeiros que, na capital
mineira, difundiam os preceitos da educação pré-escolar. Mas o ponto de maior contato entre a
reforma Francisco Campos e a projetada por Cézar da Cunha Bastos era, certamente, a preocupação
com a formação de professores, dimensão que ganhou centralidade na reforma mineira. E,
finalmente, a reforma mineira continha o desejo de superação do passado e de construção de um
grande futuro para Minas Gerais, expectativa que já há muito se fazia presente entre as elites
intelectuais goianas (VIDAL & FARIA FILHO, 2005).
370
Governou entre julho e dezembro de 1929, licenciou-se do cargo, retornou e renunciou em agosto de 1930; a
presidência do estado foi assumida pelo vice-presidente, Humberto Martins Ribeiro, que governou até 27 de outubro de
1930 quando foi deposto pela Revolução sob a ação da ‘Coluna Mineira’, comandada pelos coronéis Quintino Vargas e
Pirinéus de Sousa (ALVES, 2007; MONTEIRO, 1983).
273
Que fazer depois de frustrada a tentativa em Minas? Gumercindo Otero recorreu a São
Paulo que, à época, envidava enormes esforços para difundir e disseminar, por toda a nação,
modelos de sociabilidade, dentre os quais, destacava-se o seu modelo de escolarização. São Paulo
não enviou um técnico apenas, mas três professores que formavam um dos muitos grupos de
técnicos educacionais - onze, segundo Brzezinski (1987) – que os governantes paulistas
organizaram durante a Primeira República com o intuito de difundir seu modelo escolar
constituindo-se em parte relevante no projeto de hegemonia paulista no espectro da nação.
Por seu papel na instauração da modernidade pedagógica, os técnicos educacionais de São
Paulo que se espalharam pelo país na Primeira República foram constituídos, pela historiografia da
educação brasileira, como mediadores do moderno, o que parece coerente com sua ação
modernizadora naquele momento da vida nacional. Mas, pensar como discurso a forma nominal
como aqueles grupos eram representados oficialmente e reconhecidos no meio escolar e pelas
populações por onde transitavam - missão – permite re-interpretar os sentidos que a história da
educação brasileira vem constituindo para estes grupos. O significado de missão remete a ideia de
incumbência, obrigação, dever a cumprir como igualmente pode designar conjunto de pessoas
encarregadas de realizar uma função ou atividade. Quase sempre, esta última acepção relaciona-se
ao poder do Estado ou da Igreja, o que faz com que a missão exista como extensão de um poder que
deseja conquistar, manter-se, consolidar-se ou expandir-se.
No imaginário social brasileiro predomina o significado de missão como algo relacionado
ao universo da fé cristã, acepção também presente nos dicionários. Ora, as décadas iniciais do
século XX no Brasil foram pródigas na produção de imagens e representações tomadas de
empréstimo de certos preceitos e dogmas cristãos, especialmente, dos católicos. De outro lado, uma
significativa parcela da intelectualidade nacional se imbuía de sentimentos auto missionários em
relação ao Brasil, o que vale dizer, sentiam-se como heróis salvadores de uma nação que, julgavam,
equilibrava-se perigosamente à beira do abismo (CARVALHO, 1989; LIMA, 1999). Seu ânima era
a ideia de salvar o povo brasileiro da ignorância e das trevas e de se constituírem em seus modernos
heróis. Penso que foi este o espírito que sustentou a inserção dos técnicos educacionais paulistas na
realidade educacional de muitas regiões brasileiras e inspirou sua denominação. Deste ponto de
vista, um discurso que também os qualifica é missionários da modernidade pedagógica.
Para Goiás, foi enviada a Missão Pedagógica Paulista com a missão de ‘[...] reavivar o
ensino primário consoante à orientação dos modernos processos pedagógicos’, conforme Alfredo
Lopes de Morais relatou na Mensagem de 1930371. O presidente paulista, Julio Prestes, nomeou três
371
Op. Cit Alves (2007: 134).
274
professores para integrá-la: Humberto de Souza Leal372 (coordenador da Missão), José Cardoso e
Cícero Bueno Brandão. A Missão chegou à centenária Vila Boa em outubro de 1929 e lá
permaneceu até 29 de julho de 1930. Não parece ter ocorrido, como em outras regiões brasileiras,
protestos relacionados ao transplante do modelo educacional e escolar paulista ou ainda à suposta
valorização de elementos estrangeiros em detrimento de valores locais.
É o que ocorreu, por exemplo, no Paraná quando, no inicio da década de 1920, um técnico
educacional paulista assumiu a convite do governo estadual, a direção da Inspetoria Geral do
Ensino daquele estado. Segundo Gizele de Souza (2005), parte da imprensa do Paraná criticava o
presidente paranaense Caetano Munhoz da Rocha (gestão 1920-1924) por colocar um paulista na
direção da educação do estado e por ter-se deixado seduzir pela escola de São Paulo que, na
verdade, vinha se constituindo sobre pilares frágeis: ‘[...] a instrução pública de São Paulo consta
somente de escolas de fachadas. Não traga o sr. Munhoz essa praga aqui’.
Em Goiás, ao contrário, a presença estrangeira não encontrou resistências na cidade-capital
goiana. Os professores paulistas foram recebidos e tratados com respeito e deferência pela
população e autoridades vilaboenses tendo, desta forma, plenas condições para o desenvolvimento
de sua missão. Sua competência, zelo para com o exercício do magistério, honestidade e dedicação,
em particular a Humberto de Souza Leal, foram continuamente louvadas pela imprensa da
centenária capital goiana. Em 23 de novembro de 1929, por exemplo, o Correio Oficial destacava a
presença de Humberto de Souza Leal373 nas terras goianas: ‘Mercê das relações de cordialidade e
amizade existentes entre os Estados de S. Paulo e de Goyaz conseguiu do exmo. sr. dr. Julio Prestes
a vinda de um técnico de indiscutível competência para delinear novos moldes e dar feitio moderno
à nossa instrução primária’
No período em que esteve na então capital goiana, a Missão Pedagógica Paulista ministrou
um Curso de Aperfeiçoamento para professores primários, dirigiu a Escola Normal Oficial, criou a
Escola Complementar da Capital e organizou a primeira publicação pedagógica das antigas minas
dos goyases: a Secção Pedagógica374, suplemento publicado no Correio Oficial sob a
responsabilidade editorial do professor José Cardoso. O impresso constituiu-se a primeira
publicação de caráter pedagógico do estado de Goiás. José Cardoso foi seu redator-chefe.
Professores goianos como Ofélia Sócrates do Nascimento, Francisco dos Santos Ferreira Azevedo
(diretor do Liceu de Goiás) e Maria Ferreira de Azevedo (professora de português da recém-criada
372
Humberto de Souza Leal fez o curso normal na Escola Normal Secundarista de São Paulo (1914). Ao receber o
convite, feito por Amadeu Mendes da Diretoria Geral de Instrução do estado de São Paulo, para dirigir a Missão era
diretor do Grupo Escolar Dr. Almeida Vergueiro, em Espírito Santo do Pinhal (SILVA, 1975).
373
As relações de cordialidade entre este professor e a sociedade vilaboense tornaram-se especialmente significativas
pelo casamento de Humberto de Souza Leal com uma jovem vilaboense.
374
A Secção Pedagógica, onde José Cardoso publicou seu pensamento acerca da importância da psicologia na
educação, foi um dos principais veículos da divulgação da reforma educacional de 1930.
275
Escola Complementar) publicaram artigos e pontos de vista na Secção (SILVA, 1975). Os
professores locais começavam a atuar como autores. A nova cidade-capital traria, neste sentido,
novos incentivos aos professores-autores: alguns deles, como Ofélia Sócrates, Francisco Ferreira e
Amália Hermano375 escreveriam artigos em jornais e revistas, publicariam livros e teriam trabalhos
divulgados em anais de eventos científicos.
A Missão coordenou, além disso, a reforma educacional antevista por Cézar da Cunha
Bastos (decreto 10.640 de 10 de fevereiro de 1930, sancionado pelo presidente Alfredo Lopes de
Morais). Entre outubro e dezembro de 1929, o ritmo do trabalho dos paulistas foi vertiginoso,
sucedendo-se as realizações e eventos que transformavam o cotidiano da pacata Cidade de Goiás e
alteravam, às vezes profundamente, o sistema educacional goiano. A Escola Normal Oficial foi
finalmente desanexada do Liceu de Goiás, ganhando autonomia didática e administrativa e sendo
transferida para o prédio do Jardim da Infância, como planejara Cunha Bastos. Em 15 de outubro de
1929, Humberto de Souza Leal assumiu a direção da Escola.
Quinze dias depois, em 30 de outubro, no Salão Nobre do Jardim de Infância, ladeado por
autoridades do governo estadual, o professor Souza Leal instalou o Curso Pedagógico de
Aperfeiçoamento (Imagem 22), oferecido a diretores de grupos escolares, professores primários da
capital e do interior e a alunos da Escola Normal Oficial. Os temas tratados no Curso de
Aperfeiçoamento eram, à exceção do método analítico de alfabetização, desconhecidos dos
professores goianos: “[...] música – método manosolfa ou de solfejo realizado através de gestos
praticados com as mãos; didática da escrita – a ambidestria; ginástica – a sueca ritmada; prática
didática – elaboração de cartazes e material de uso pedagógico” (BRZEZINSKI, 1987: 67).
Imagem 22
Curso Pedagógico de Aperfeiçoamento, 1929
Fonte: SILVA, 1975
375
Em 1930, Amália Hermano não participava do movimento de renovação da educação em Goiás. Era ainda estudante
do primeiro ano do Liceu de Goiás, onde concluiu o curso de humanidades em 1934. No ano seguinte, realizou estudos
complementares específicos de pedagogia na Escola Normal Oficial e se formou professora primária (1935). Em 1936,
como representante do magistério goiano, fez o Curso de Extensão Rural na Universidade do Rio de Janeiro. Na volta a
Goiás, organizou semanas ruralistas e foi precursora na implantação de clubes agrícolas escolares. Mudou-se para
Goiânia em 1937 - depois do casamento com Maximiano da Matta Teixeira –, tornou-se professora, selecionada por
concurso público, de Geografia, Corografia do Brasil e Cosmografia na Escola Normal Oficial. Já na nova cidadecapital publicou artigos na revista Oeste e na Revista da Educação do estado de Goiás e, em 1946, o livro O estranho
caso da Escola Normal Oficial.
276
Humberto de Souza Leal responsabilizou-se pelas aulas relativas à alfabetização, didática da
escrita e prática didática; José Cardoso era o professor de música e Cícero Bueno Brandão, de
ginástica. Além das aulas teóricas, os professores que participavam do curso iam à prática nas
escolas da Cidade de Goiás, momento em que eram avaliados pelos técnicos paulistas. O curso teve
ampla aceitação de modo que ‘[...] dentro de pouco tempo, só se ouvia falar de Decroly e seus
centros de interesse nas escolas com grande movimentação nas classes’, conforme lembrou Floraci
Artiaga Mendes376.
Em novembro, outra novidade promovida pelos paulistas: a criação da Escola
Complementar com o objetivo de ‘[...] não só a ampliar os conhecimentos ministrados nos
estabelecimentos officiais de tres anos de curso primário, como também, a preparar candidatos á
Escola Normal da Capital e ás congeneres equiparadas’, conforme se lê em Comunicado do
Governo, publicado no Correio Oficial de 30 de novembro de 1929. A Escola Complementar surgia
da necessidade, percebida por Humberto de Souza Leal, de uma escola intermediária entre o curso
primário e o normal e que, desta forma, retardasse a formação dos professores primários goianos
que, à época, terminavam o curso normal com a idade de 13 a 14 anos. Muito jovens para os
padrões que vigoravam em São Paulo.
Conforme Silva (1975), a questão da precocidade na formação de professores em Goiás foi
objeto de comentários, anos depois, na revista Poliantéia publicada na capital paulista. Em 1946, a
edição comemorativa do Centenário do Ensino Normal em São Paulo (1846-1946) procurava
demonstrar o bandeirismo em sua versão educacional destacando os feitos dos paulistas por toda a
nação. No artigo Bandeirismo: Reforma do ensino público em Goiás, o articulista afirmava que
Logo ao chegar ao estado vizinho, Humberto de Souza Leal notou a precariedade
das instalações e prédios onde funcionavam as escolas e grupos e a falta de
orientação didática. Os alunos, saindo dos grupos escolares, passavam diretamente
para o curso normal, sem um preparo intermediário. Por sua vês, nos grupos eram
admitidas crianças com seis anos de idade. Quando chegavam aos 11 anos,
entravam para a Escola Normal. Aos 14 anos, idade mínima para o ingresso nas
escolas normais paulistas, diplomavam-se os professores de Goiáz. Além do mais,
e o que era pior, o ensino nada tinha de prático, mas feito apenas pelo texto.
A criação da Escola Complementar resolvia, então, este problema abrindo brechas para a fixação
dos critérios etários para ingresso no curso normal e, consequentemente, na carreira do magistério.
Como em São Paulo, a idade mínima de 14 anos e a exigência de ter passado pela Escola
Complementar para o ingresso no curso normal foram fixadas pela reforma de 1930.
A sucessão de eventos e realizações em sua temporalidade - outubro a dezembro de 1929 –
376
Relato recolhido por Nanci Ribeiro de Araújo e Silva (1975).
277
demonstra que o ritmo das atividades era incessante, o que é demonstrativo de certa urgência na reestruturação do sistema educacional de Goiás. Para além do fato da Missão se constituir dispositivo
de apoio político e pedagógico provisório e provavelmente trabalhar com prazos pré-fixados, os
governantes oligárquicos goianos conheciam a situação de ebulição política nacional e sabiam que
o sistema que sustentava seu poder e privilégios encontrava-se em risco. Também no contexto
interno, a tensão se acirrava com a crescente organização da oposição que ia se reunindo no Partido
Republicano de Goiás, sobre a liderança de Pedro Ludovico Teixeira, Mario de Alencastro
Caiado377 e Domingos Neto Velasco378. Era preciso correr.
Do meu ponto de vista, tal urgência indica também que estava em andamento a preparação
para a reforma educacional delineada anteriormente por Cézar da Cunha Bastos. Nanci de Araújo e
Silva (1975: 244) afirma que o novo secretário, José Gumercindo Marquez Otero, introduziu no
anteprojeto de reforma educacional deixado por Cunha Bastos “[...] determinados ajustamentos que
não lhe prejudicaria (sic) a essência”. Que tipo de ajustes sofreu o anteprojeto de reforma
educacional de Cunha Bastos que, lembro, tinha como modelo inspirador a reforma mineira de
1927? A presença, em Vila Boa, da Missão Pedagógica Paulista é elemento indispensável para
pensar ‘os ajustes’ da proposta de reforma de Cézar da Cunha Bastos.
A urgência demonstrada pela Missão em efetivar mudanças pontuais nas escolas e na
organização escolar da cidade-capital parecem ter assumido a função de preparação das bases para
a reforma que estava, naquele momento, sofrendo ‘ajustes’. Ora, os técnicos de São Paulo
imprimiam ao anteprojeto já existente as marcas do modelo educacional do estado locomotiva.
Assim, a presença dos técnicos educacionais de São Paulo provocou, na minha compreensão,
alterações nos sentidos que iam sendo tecidos para a modernização da escola goiana na medida em
que a influência paulista retornava enquanto a mineira refluía. A retomada da influência do modelo
377
Apesar do sobrenome, Mario de Alencastro era ferrenho opositor das oligarquias. Juiz de direito da Primeira
Comarca da Capital, fundou em 1927 o jornal Voz do Povo cujo programa editorial visava a defesa dos direitos
populares violados pelos governantes oligárquicos e a recuperação da justiça e da moral que considerava ter sido
perdida durante a Primeira República. O Voz do Povo se constituiu em uma importante arma política da oposição aos
Caiado. Depois da Revolução, Mario de Alencastro Caiado foi, juntamente com Pedro Ludovico e Emílio F. Povoa
(desembargador de justiça) um dos integrantes da Junta Governativa encarregada de gerir provisoriamente o estado.
Segundo Chaul (2001), Ludovico assumiu, sozinho e em poucos dias, a direção política estadual cedendo a Alencastro,
a Secretária Geral do Estado. Para este historiador, o fato de Ludovico ser um representante das oligarquias da então
rica, influente e progressista sub-região sudoeste do estado aliado ao fato de Mario Alencastro ter também o sobrenome
Caiado (que poderia dar a idéia de permanências que a Revolução anunciava romper) foram os elementos decisivos
para o descarte de Alencastro e escolha de Pedro Ludovico para dirigir Goiás.
378
Fundador da Legião de Outubro que, de acordo com Chaul (2001: 64), pretendia difundir as idéias da Revolução
entre o povo e também visava “[...] ganhar espaço na política goiana, para fazer frente aos Caiado em possíveis eleições
já que estes tinham ainda imensa influência no estado”. Velasco se afastou de do Ludovico logo depois da Revolução,
não aderindo, e depois combatendo, a proposta de mudança da capital. O rompimento veio pouco tempo depois da
ascensão de Ludovico a interventoria estadual dando inicio a uma batalha política na qual Ludovico se valeu do seu
poder como dirigente e Velasco chegou a aliar-se a Totó Caiado, seu antigo adversário político. Velasco foi candidato
nas eleições de 1934, perdendo para Pedro Ludovico cuja principal proposta era inserção de Goiás na modernidade
através da construção de Goiânia que, por sinal, já se encontrava em andamento.
278
escolar paulista no incipiente campo educacional de Goiás ocorreu quando a fonte de inspiração
mineira se esvaziou na negativa ao pedido de apoio pedagógico goiano.
Aberto o campo ao trabalho dos técnicos educacionais do estado locomotiva, a influência
paulista não cessou de crescer379. A alteração na denominação do Prédio do Jardim de Infância da
Capital dá a ver a pregnância do modelo educacional paulista já que a instituição incorporava, ao
menos em seu nome, características da grandiosidade que marcou a modernidade pedagógica em
São Paulo. O espaço passou a denominar-se Palácio da Instrução em clara referência aos palacetes
escolares das cidades paulistas (SOUZA, 1998). Esta alteração procurava constituir sentidos ligados
a excelência educacional, tal como se intencionava nas escolas paulistas. Escola modelar, desde o
método passando pela presença de objetos pedagógicos pertinentes à sua aplicação até a adequação
do espaço escolar, o Jardim de Infância tornava-se espelho que refletia os progressos na escola
goiana e, ao mesmo tempo, imagem na qual todo o resto do estado poderia mirar.
A forte presença da psicologia como saber fundamental para a formação de professores
primários é outra marca do modelo paulista de educação. A psicologia foi introduzida no programa
de ensino da Escola Normal Oficial em 10 de maio de 1930, sob a responsabilidade de José
Cardoso, um dos professores da Missão e especialista e entusiasta da psicologia educacional. Na
mesma data, Cardoso publicou380 que
Somente a psychologia como sciencia, desvendando os arcanos da alma infantil
com o desdobrar dos phenomenos conscientes á analyse attenta do estudioso,
poderá oferecer ao educador a base de que não pode prescindir para realizar
proveitosamente a sua tarefa. Não se concebe, é mesmo inadimissível para a
educação que se faça intelligentemente, sem o concurso das verdades
psychológicas.
As inovações experimentadas pela educação goiana nos anos 1910 e 1920 parecem o
resultado de apropriações e empréstimos tomados de dois modelos educacionais que haviam sofrido
recentes reformas, o paulista e o mineiro. A presença mineira manter-se-ia pela influência das
cidades mineiras Uberlândia, Uberaba e Araguari sob o campo da educação goiana e na parceria
entre o Estado e a Igreja que, juntos, faziam a obra educacional do Pós-Trinta. Como se
transitassem entre a inspiração paulista e a mineira, os reformadores da educação goiana
incorporaram elementos de uma e de outra. Embora sustentados por uma discursividade similar e
pelas mesmas expectativas quanto ao papel da educação na construção da nação, as reformas
paulista e mineira da década de 1920 se apresentaram de forma distinta nas respectivas realidades
379
Penso que o aparecimento de Goiânia e sua significação como fruto da ação destemida e ousada de ‘bandeirantes
modernos’ tenha aprofundado a presença e importância do imaginário pedagógico e educacional paulista na
conformação do campo escolar da cidade-capital e, logo, de toda a região.
380
In: Secção Pedagógica, suplemento do Correio Oficial do Estado de Goiás, 10/05/1930, p. 06.
279
regionais.
De um lado, o modelo paulista vinha se delineando desde a gênese da República como sinal
inconteste da pujança paulista. Sua disseminação deve ser pensada nos marcos das tentativas
bandeirantes de alcance de liderança entre as unidades federativas brasileiras e, neste sentido,
constituía-se estratégia de difusão dos modelos de sociabilidade que o estado locomotiva
experenciava embalado pela industrialização e pela urbanização. De São Paulo, emanava a
grandiosidade da obra educacional, tornada visível através da imagem monumental de suas escolas.
De outro, a experiência do reformista educacional de Minas Gerais parecia muito mais voltada para
o espaço regional tentando articular uma Minas moderna e civilizada à velha e tradicional Minas
Gerais. Neste sentido, formulava um discurso que se guiava, de acordo com Diana Vidal e Luciano
Mendes de Faria Filho (2005: 01),
[...] ora pela ideia de uma escola moderna, ora pela de uma escola ativa, os
reformadores mineiros se propunham a superar o passado e a construir um futuro
grandioso. No entanto, não o faziam a partir de uma ruptura com a tradição e com
o passado educacionais. Mais do que isso, buscava-se afirmar a inovação dentro da
tradição, o que dava lugar a uma leitura muito [...] indulgente da escola antiga [...].
Tomando como parâmetro de análise, as investidas paulistas em busca de hegemonia
cultural no espectro da nação, penso que há uma possibilidade instigante a ser pensada: a de que
São Paulo e Minas Gerais se confrontaram em busca da ‘captura’ do campo da educação de Goiás.
Se correta a minha compreensão, este confronto não teve fim ao final da década de 1920, mas se
estendeu pelo período em que era construída a nova cidade-capital. Lembremos que, em 1942,
Pierre Monbeig advertia aos paulistas – exatamente em termos de uma ‘captura econômica às
custas de São Paulo’ – das investidas mineiras sobre o mercado consumidor goiano que ameaçavam
as pretensões de domínio bandeirante no campo da economia. O mesmo não se daria no campo
educacional, então considerado ponto nevrálgico para a construção da nação que os paulistas
desejavam comandar?
Alves (2007) afirma que a reforma goiana de 1930 foi divulgada em estreita vinculação com
o ideário escolanovista, ao contrário do que ocorrera em Minas Gerais e Rio de Janeiro, regiões nas
quais as ações reformistas da década de 1920 não foram, inicialmente, atreladas a escola nova. Em
Goiás, a divulgação da reforma educacional se sustentava na ideia da escola nova como a “fórmula
de sucesso na instrução” (ALVES, 2007: 134) de regiões progressistas e desenvolvidas. Não havia,
portanto, como duvidar da sua pertinência e eficácia se ‘os grandes estados lideres’ já tinham
testado e aprovado as novidades educacionais e pedagógicas. O desejo pela modernidade e pelo
pertencimento animava a sociedade goiana levando a deslocamentos nos sentidos dos discursos e
práticas emanadas dos centros dinâmicos da nação.
280
A reforma manteve a obrigatoriedade e gratuidade apenas do ensino primário nos grupos
escolares e escolas isoladas; o Jardim de Infância e a Escola Complementar não eram obrigatórios e
eram pagos. Estavam dispensadas da obrigatoriedade também as crianças que residissem a mais de
dois quilômetros de uma escola, as incapacitadas física ou mentalmente, as que sofressem de
moléstia contagiosa ou repulsiva, as que recebiam instrução em casa ou escola particular e também
as que não tivessem ‘meios indispensáveis ao vestuário, à higiene e à decência’. Em outras
palavras, crianças das zonas rurais, deficientes, doentes e pobres estavam desobrigadas de
freqüentar a escola, o que, a bem da verdade, significava exclusão da grande maioria das crianças
da região. No caso do critério proximidade geográfica com instituições escolares e tendo em vista o
caráter predominantemente rural da sociedade goiana, consolidava-se uma exclusão histórica haja
vista o privilégio que sucessivas reformas educacionais conferiam a cidade e não o campo.
A seleção e contratação de professores foram mantidas nos termos imperiais: ‘sob livre
nomeação do governo, em qualquer época do ano’. A exigência do diploma de normalista, fixada
pela reforma de 1918, foi relativizada: somente nos grupos escolares era necessária a formação em
escola normal; as escolas isoladas poderiam ter professores leigos, caso não houvesse
disponibilidade de normalistas formados (ALVES, 2007). Os concursos públicos para
preenchimento das vagas do magistério público estadual goiano somente seriam instituídos no
governo Pedro Ludovico Teixeira e, ainda assim, restritos a seleção de professores para as escolas
da nova cidade-capital.
De forma distinta da reforma de Americano do Brasil, a reforma de 1930 encarou o desafio
das edificações escolares ao fixar normas para a construção de prédios tanto para abrigar os grupos
escolares quanto as escolas isoladas. Luiz Confúcio, engenheiro responsável pela adaptação do
Palácio da Instrução, forneceu as diretrizes que a reforma impunha para a construção de grupos
escolares. Tais diretrizes abrangiam a escolha do terreno (inteiramente isolado de edifícios
vizinhos), do formato (em forma de H, I, L, T ou U) e o tipo do prédio (pavimento único), o
número mínimo de dependências (quatro salas de aula, portaria e hall de entrada, sala para direção,
secretária e biblioteca), a cor das paredes das salas de aula (paredes verde-claro e teto branco),
disposição de janelas (altas e largas, parcialmente envidraçadas), o tipo de piso (assoalhado ou
estucado), quantidade e localização de lavatórios e sanitários (02 conjuntos compostos de 05
sanitários e um lavatório, situados, pelo menos, a 20 m das salas de aula) e o pátio de recreio
(pavilhão coberto, com área mínima de 300 m2, solo de saibro ou areia) 381.
A reforma criou a figura do professor de educação física, instituindo horários e programas
de prática corporal sistematizada e inseriu também os Trabalhos Manuais no ensino primário e
381
CONFÚCIO, Luiz Augusto. Condições que devem satisfazer os projetos para a construção dos prédios escolares no
Estado de Goiás. Correio Oficial, 01/10/1929, p. 6.
281
normal. A educação do corpo em parâmetros modernos ancorava-se na escola goiana definindo
aquilo que Carmem Lúcia Soares (2001: 115) chamou de “alfabeto gestual [...] válido e único”. A
ginástica, como discurso e prática científica apropriada pelos currículos escolares, vinha para banir
a gestualidade rústica do povo do sertão goiano. Como em outras partes do Brasil e do mundo, seu
caráter higiênico e moral ia sendo alargado pelo discurso pedagógico contribuindo para a formação
de uma gestualidade marcada pela retidão e pela funcionalidade de movimentos, gestos e
expressões. E, assim, compreendida como importante parte do código de civilidade, a ginástica
inseria-se na escola de Goiás como relevante modelo de educação corporal.
A educação física seguiria o modelo da ginástica sueca “[...] nos moldes que Fritof Dethow
implantara em São Paulo” (SILVA, 1975: 250). Cícero Bueno Brandão, que fora aluno de Dethow
e difundira, no Curso de aperfeiçoamento, os conhecimentos ali adquiridos, formulou em 1975
(SILVA, 1975: 250) uma avaliação do ensino da ginástica em Goiás. Segundo ele, este ensino era
[...] totalmente inexistente. Limitava-se a exercícios físicos que infelizmente não
correspondiam a suas finalidades específicas. Os alunos, e mesmo os professores,
desenvolviam uma marcha descompassada e, cumpre dizer, mal lembrando que
‘aquilo’ era um exercício no qual se devia observar controle coordenado de
movimentos e postura correta do corpo. (Grifo meu)
As inovações atingiam também o campo da gestão do sistema educacional e o controle da
prática pedagógica com a intensificação dos dispositivos de controle do funcionamento escolar e do
trabalho dos professores. Foram criados mecanismos de registro e guarda da escrituração escolar,
sob a qual recaiu um maior rigor. A organização da estatística escolar e criação de arquivos
escolares - principalmente a primeira - incidiam sobre uma antiga e sempre debatida problemática
da escola brasileira: a ausência de informações confiáveis acerca do funcionamento e número de
escolas e de professores, de alunos matriculados, da frequencia escolar, etc..
Estava pronto o terreno para que a escola das antigas minas dos goyases, enfim, trilhasse o
caminho da modernidade, apesar do pequeno impacto do movimento reformista das décadas de
1910 e 1920 na realidade educacional goiana. Neste sentido, os discursos se revelavam bem mais
consistentes que a realidade à qual eles faziam referência. Estes, afirmavam que muito fora feito,
embora, o efeito fosse quase mínimo. Apesar de tudo, a rede escolar cresceu no período 1918-1930.
A rede de escolas primárias se ampliou sob a responsabilidade do governo estadual e com a
colaboração dos municípios. Conforme Alves (2007), de 21 escolas primárias de 1917, o estado já
contava em 1930 - antes da Revolução - com 209. Destas, 16 eram grupos escolares, menos de 10%
do total de escolas isoladas (193). A quantidade de crianças matriculadas também cresceu, porém,
sem sequer arranhar o ideal da universalização da escola: conforme Alves (2007: 125), em 1919,
282
havia 5.382 estudantes matriculados; em 1930, já eram 15.754 crianças a frequentarem as escolas
primárias goianas.
Quanto ao nível secundário, a maior responsável pelo seu crescimento foi a Igreja Católica
que, desde o início do século XX, começava a construir escolas na região. A maioria delas,
localizadas no interior do estado; oficialmente reconhecidas e recebendo subvenção financeira dos
cofres públicos estaduais. Todas funcionando com total liberdade de ensino, o que significava a não
imposição de um programa de ensino e, consequentemente, a inexistência de qualquer tipo de
fiscalização ou ingerência por parte do poder público (CANEZIN & LOUREIRO, 1994).
Os movimentos de renovação e expansão escolar em Goiás atingiam essencialmente, além
da capital do estado, algumas (poucas) cidades localizadas nas suas proximidades e as mais
progressistas cidades das sub-regiões sul, sudeste e sudoeste do estado. Eram cidades que,
lembremos, atravessavam desde o início do século XX um surto desenvolvimentista provocado pela
proximidade com os trilhos da estrada de ferro e com as progressistas regiões do Triângulo Mineiro
e interior paulista. Além disso, nos quadros do governo goiano, ocupando posições de poder e
prestígio, era frequente naquele momento a presença de pessoas oriundas destes lugares382, o que
garantia privilégios e a atenções (ALVES, 2007) para tais centros urbanos. Mas, o imenso restante
do estado continuou, ainda por muitas décadas, com poucas escolas, poucos professores e poucos
livros.
As referidas cidades se encontravam, ademais, na esfera de influência política, econômica,
cultural e também educacional de outros centros urbanos que não da centenária e isolada Vila Boa.
E cidades de outro estado: quase sempre, ao invés de buscarem a capital goiana, era nas mineiras
Araguari, Uberlândia e Uberaba que muitas cidades, escolas e educadores goianos procuravam
conhecimento e experiência no campo escolar. A influência destas cidades na realidade educacional
goiana era tão ou mais significativa que aquela que emanava da cidade de Goiás. Catalão, por
exemplo, localizada quase na fronteira com Minas Gerais, foi o primeiro município goiano a
requerer a abertura de um grupo escolar, em 1911. O pedido foi negado pelo governo estadual, mas
importa ressaltar que, na solicitação dos catalanos, um grupo escolar da cidade mineira de Araguari
– vizinha 70 quilômetros de Catalão – forneceu o modelo inspirador (BRZEZINSKI, 1987).
Em Velhas escolas (1998), Basileu Toledo França trata do processo de implantação da
escola no sudoeste goiano, mais precisamente, nas cidades de Jataí e Rio Verde desde os finais do
382
O caso do morrinhense Alfredo Lopes de Morais é ilustrativo. Em seu curto governo (julho de 1929 a julho de 1930,
com interrupções) promoveu inúmeros avanços no sistema educacional goiano através da ação de José Gumercindo
Márquez Otero, também proveniente de Morrinhos. Concomitante às renovações de caráter totalizante que abarcariam
todo o estado, concediam especial atenção às instituições escolares de sua cidade-natal. Melhoraram e construíram
espaços escolares, estimularam a abertura de escolas, valorizaram, no nível regional, seus professores e intelectuais, etc.
Localizada ao sul do estado, bem próxima da fronteira com o Triângulo Mineiro, a cidade de Morrinhos se tornava,
assim, um foco de modernidade pedagógica em Goiás (ALVES, 2007).
283
século XIX. Ao se referir ao que ocorria nas escolas desta sub-região de Goiás o autor em foco
afirma que, na primeira década do século XX, os sopros da renovação educacional já se faziam
presentes sob a influência tanto da capital goiana quanto de cidades do Triângulo Mineiro. Segundo
França (1998: 31), “[...] já existia em cidades mineiras, bem como na capital de Goiás, uma
instrução pública organizada, que se refletia beneficamente sobre todo o quadro educacional a se
esboçar entre nós, com promessa de futuro melhor nas salas de aula”.
Os movimentos de modernização educacional restringiam-se, assim, a então capital do
estado e a poucas cidades do interior, o que permite afirmar que a antiga Vila Boa pouco irradiava,
ao seu entorno regional, os avanços que experimentava no campo da educação. É neste sentido que
se pode compreender o anunciado caráter de irradiação cultural que a nova cidade-capital assumiu
para seus idealizadores e construtores. E se, de fato, Goiânia configurou-se como centro de
irradiação e influência cultural e escolar para o enorme entorno rural em que surgia como ponto
nuclear, muito do seu potencial civilizatório foi forjado no momento do seu aparecimento nos anos
1930 e 1940 quando foi erigida em contraponto a centenária Vila Boa.
284
CAPÍTULO VII
A ESCOLA ADERE AOS SENTIDOS DA CIDADE
7.1 – A promessa que se cumpre: moços e moças de Goiânia
[...] me despertou a curiosidade, é o que está se dando com a
mocidade, que vem surgindo na nova capital. Nota-se o
aparecimento de um tipo completamente inédito, diferente da
mocidade do resto do Estado, pela fusão de elementos
cosmopolitas. Uma mocidade sadia, forte, disposta, de
musculatura rija, de aparência elegante, sem o acanhamento
provinciano, nem a indisciplina e a insubordinação aprendidas
dos antepassados. O menino já procura falar com mais apuro,
sem os cacoetes do regionalismo, como se dá com as crianças
das grandes cidades. Parece que tudo no infante respira saúde,
bem estar, amor ao trabalho, resolução firme e confiança no
futuro383. (Grifos meus).
Jose Décio Filho
Desde a escolha do primeiro prédio inaugurado no espaço urbano até a recorrente
discursividade que contabilizava o número de escolas e de alunos nelas matriculados e evidenciava
a instituição escolar como ‘celeiro de civilização’, o Estado e elites intelectuais e econômicas
goianas mostraram-se incansáveis na tarefa de construir o cenário da modernidade e de torná-lo
visível aos olhos da região e da nação. Na abertura de escolas e instituições de cunho cultural e
educativo, se fizeram parceiros, ampliando a oferta educacional e criando um universo cultural
civilizado, ainda que restrito, na nova capital. Sua ação não ficou, entretanto, restrita à fundação de
escolas, museus e bibliotecas, nem tampouco limitada à estratégia de dá-los a ver em seus
discursos. Ao contrário, foram desenvolvidas outras numerosas práticas que intentavam tornar
383
Em Mocidade goianiense. Correio Oficial do Estado de Goiás, 14/12/1940, p. 2.
285
concreta e visível a anunciada modernidade e, ainda mais, contribuir para a transformação dos
modos de sentir, agir e pensar do ‘povo emprestado’ que ia tomando a Cidade-Sertão.
As escolas de Goiânia constituíram-se, neste processo, em mediadoras privilegiadas da ação
daqueles que inventavam a cidade. Voltadas para a instauração de contextos de intercâmbio cultural
e para a demonstração do grau de cultura e educação da ‘boa sociedade’ goianiense, as práticas
promovidas ou relacionadas ao mundo escolar animaram a vida cultural de Goiânia naquele período
ganhando as características ritualísticas e cerimoniais que davam ao urbano a aparência de uma
festa quase permanente. No movimento de fazer a cidade e a escola, aqueles que a ocupavam como
estudantes ou como professores e professoras, foram além dos discursos formulados e difundidos
pela auto representada ‘intelectualidade moça de Goiás’, engendrando práticas modernizantes e
civilizatórias no cotidiano da cidade. Inaugurações, festas, festivais, exposições, jogos e
competições esportivas, recepções e despedidas ao cortejo de ‘ilustres visitantes’, ‘embaixadas’ e
‘caravanas’ que chegavam e partiam da Cidade-Sertão.
É também possível perceber na ação destes a adesão imediata e entusiasmada às demandas
geradas ou originárias do Estado Nacional como o Recenseamento de 1940 e a Campanha da
Borracha Usada em 1943, dentre os mais significativos eventos deste período. Por outro lado, além
de colaborador frequente das iniciativas das elites no campo cultural e escolar, o Estado
incrementou importantes políticas e práticas educacionais, como a edição da Revista da Educação a
partir de 1938, a organização de dois congressos regionais de ensino primário (1938 e 1939), a
realização de concursos públicos para seleção de professores das escolas públicas goianienses e a
contratação de um técnico em educação, entre outros. O campo educacional e, em particular, as
escolas da cidade-capital tornaram-se palcos privilegiados de um movimento no qual pode ser
identificada a determinada, agressiva e, quase sempre, associada ação das elites e do Estado locais.
A participação de escolas, estudantes e professores na construção ou modernização da
cultura urbana era algo muito constante na sociedade brasileira durante boa parte do século XX. Os
estudos e pesquisas em história da educação são pródigos na descrição e interpretação das relações
entre o escolar e o urbano, destacando a dimensão das práticas festivas como uma recorrente
estratégia de inserção da escola na cidade. Neste sentido, a ação da juventude estudantil goianiense
não se fazia distinta daquilo que pode ser considerado uma tradição da escola no Brasil da primeira
metade do século XX: sua presença ritualística na cena da cidade e seu relevante papel na
conformação da modernidade urbana e na construção da nação (CAMARGO, 2000; SOUZA,
1998).
Contudo, a inserção da juventude estudantil no processo de invenção de Goiânia exige um
mínimo de compreensão sobre a experiência de ser jovem em uma cidade significada como centro
de civilização de um vasto entorno não escolarizado, mas que, de fato, se mostrava marcada pela
286
precariedade. Tentar apreender esta experiência revela-se um movimento tão instigante quanto
fundamental para um estudo que intenciona reconstituir o lugar e o papel da escola na construção
de Goiânia nas décadas 1930 e 1940, particularmente, em sua dimensão simbólica. Entender a
experiência dos jovens em Goiânia é, então, essencial para a compreensão dos elos existentes entre
a juventude estudantil goianiense, a constituição dos sentidos da modernidade e do pertencimento à
nação e a cultura escolar que ia se forjando nas escolas da cidade-capital. Por meio da compreensão
da experiência juvenil, pretendo demonstrar as formas pelas quais, através da ação de seus jovens
estudantes e professores, as escolas de Goiânia aderiram aos sentidos da cidade que iam sendo
tecidos pela discursividade dos também jovens intelectuais goianos em parceira com o Estado.
Primeiro, ressalto que o discurso de José Décio Filho, destacado na epigrafe, revela duas
posturas recorrentes na sociedade brasileira à época do surgimento de Goiânia: a celebração da
juventude e a representação do urbano como lugar, por excelência, de formação de uma geração
cosmopolita e moderna, composta de jovens ativos e educados, os quais viriam substituir uma
mocidade apática, inculta, preguiçosa e sem ambições. Inserido em outros contextos urbanos, penso
que o discurso em tela não se mostraria descolado das percepções locais. Mas, no caso da nova
cidade-capital das antigas minas dos goyases, além do ‘menino’, também a cidade era nova. Os
discursos que constituíam a cidade-capital como símbolo da modernidade no sertão estavam
repletos das palavras novo e nova: nova cidade, nova capital, novos tempos, novas escolas e uma
escola nova, uma nova história, novos horizontes se abrindo e, enfim, uma gente nova para ocupar
a cidade e fazê-la moderna e progressista.
A cidade-capital já fazia diferença na educação do jovem e da criança goianos e cumpria sua
função civilizatória na hinterlândia, eis o que se afirmava. A comparação entre a mocidade da
cidade-capital e os jovens do interior do estado, inserida na segunda frase do discurso, é a estratégia
retórica decisiva para a valorização da distinção educativa da capital: o moço de Goiânia era um
‘tipo completamente inédito, diferente da mocidade do resto do Estado, pela fusão de elementos
cosmopolitas’. O articulista, embora não mencione a história goiana, parece ajustar tempo e espaço:
a mocidade de Goiânia aparece distinta tanto da juventude do passado quanto daquela que habitava
as fazendas e cidades do interior do estado. As imagens mobilizadas para descrever o moço e o
menino de Goiânia procuram reforçar as distinções entre capital e interior e também entre antes e
depois da construção da cidade.
A imagem da nova cidade-capital como cidade grande é ressaltada. Ora, na cidade grande,
as crianças têm, em todo momento, o exemplo e a exigência de se submeterem de noções de
civilidade e urbanidade, o que faz com que aprendam a se portar de maneira civilizada. Uma
linguagem mais sofisticada e um modo de falar sem sotaques e regionalismos eram apreendidos no
dia-a-dia de uma urbs. Goiânia propiciava esta oportunidade aos seus jovens e meninos, era o que
287
dizia o discurso, polindo seus modos rústicos, corrigindo comportamentos inadequados recebidos
por herança, apurando sensibilidades voltadas para a vida urbana e moderna.
Mas quem eram os jovens descritos com tanto entusiasmo pelo intelectual goiano, como
viviam na cidade-capital e que lugar a escola ocupava em suas vidas? Que mocidade era aquela,
cheia de saúde e força, disciplinada e confiante que J. Décio identificou em Goiânia em 1940? E de
que menino, refinado em suas maneiras e em seus modos de falar, nos diz o intelectual goiano? O
jovem descrito por J. Décio, em fartas imagens que mesclam características físicas, morais e
psíquicas, é um tipo ideal de jovem goiano e, claro, do jovem brasileiro. Saúde, força e musculatura
rija se associam aos sinais de domínio dos códigos de civilidade e urbanidade como um falar sem
sotaques e uma aparência elegante. Por fim, qualidades morais como amor ao trabalho, confiança
no futuro e resolução firme. O discurso sinaliza igualmente para o tipo de mocidade que o novo
jovem viria substituir: um jovem preso no ‘acanhamento provinciano’, cheio de cacoetes
regionalistas e educado, pelo exemplo dos antepassados, para a ‘indisciplina’ e para a
‘insubordinação’. O repúdio à nefasta imagem de um jovem Jeca Tatu escapa no não dito do
discurso.
O comentário poderia se referir aos jovens intelectuais que se fizeram atores centralizados
no processo de constituição dos sentidos da modernidade e da pertença para Goiânia? Um deles, é
bom lembrar, era o próprio autor do discurso em pauta, o que permite compreender que ele falava
de si mesmo ao elogiar a educada e vigorosa mocidade da cidade-capital. Burocratas do Estado, em
suas instâncias estadual, municipal ou federal, estes eram continuamente louvados pela imprensa
local como sinal de acerto administrativo do interventor Pedro Ludovico e como demonstração
inconteste da nova história que Goiás, então vivia. Juntos, Pedro Ludovico e os jovens intelectuais
goianos eram celebrados como indício inequívoco da nova história goiana. É o que se lê no artigo
Os moços do governo de Goiaz publicada no Correio Oficial de 16 de outubro de 1942.
Assumindo o governo de Goiás em 1930, o Sr. Dr. Pedro Ludovico Teixeira só se
cercou de moços. E, com o auxílio destes, desfraldou uma bandeira de realizações
em todos os setores goianos, conseguindo sanear o estado inteiro [...]. [...] Cercado
de elementos de primeira, moços dispostos a tudo pela grandeza de Goiaz, não
houve transformação necessária ao bem da terra e do povo que Pedro Ludovico
não tentasse.
Certamente, a intelectualidade moça que ocupava cargos na burocracia governamental, ao
mesmo tempo em que escrevia para jornais e revistas locais e formulava os discursos que
amalgamavam os sentidos da modernidade e do pertencimento para a nova cidade-capital de Goiás,
estava entre os jovens idealizados pelo articulista. Seu papel e sua presença culta e elegante na
materialidade urbana não podem ser negados. Eles davam a ver, sem dúvida, uma juventude ativa e
288
participante dos processos mais amplos da vida social, interessada nas coisas do presente e
projetada para o futuro e, por isso, atenta ao seu lugar no progresso da região e da nação. Modernos
em seus modos de vestir, andar, falar; educados nas humanidades clássicas, conectados aos
movimentos artísticos, políticos e sociais que a juventude nacional então experimentava, os
intelectuais moços marcavam a cena urbana como exemplos bem sucedidos da transformação
prometida pela cidade-capital.
O discurso, no entanto, parece incluir nos quadros da mocidade goianiense, além dos moços
do governo, muitos outros moços e até mesmo ‘o menino’ que apurava o falar. Embora a escola não
seja mencionada no discurso, o comentarista certamente refere-se a uma juventude estudantil. Em
um critério etário fluido e flexível, inclui na mocidade goianiense o secundarista do Liceu de
Goiânia, o bacharel em formação na Faculdade de Direito e burocrata do Estado e até mesmo o
menino que freqüentava o curso primário no Grupo Escolar Modelo e que brincava, ainda, pelas
ruas da jovem cidade-capital. A separação entre os mundos da infância e da juventude aparecem
tênues no discurso, quase inexistentes. Afinal, não era importante qualquer qualificação por esse
critério. Pouco importava se o sujeito referido pelo discurso era a criança ou o jovem: o que
importava era realçar o aparecimento, na nova capital, de um ‘tipo inédito’ e diferente do nefasto
tipo jovem que abundava nas descrições e relatos dos viajantes e que sobrevivia nas pequenas
cidades e nas fazendas do interior. Um tipo que era objeto de preocupações e duras críticas da boa
sociedade goiana.
Muito provavelmente, parte da mocidade goianiense poderia ser encontrada, assim como ao
próprio J. Décio, entre os frequentadores do Bar do Adisabeba384, reduto onde circulavam, em
horários distintos, jovens e não-jovens, pobres e ricos, letrados e iletrados da cidade-capital. Ali se
reuniam militares, profissionais liberais, empresários, os ‘tipos de rua’, os operários das obras de
edificação da cidade, os rapazes do Liceu, os estudantes da Faculdade de Direito bem como a
intelectualidade moça de Goiânia385 (SANTANA, BONETTI & MACÊDO, 2007). Quanto ao
menino, Paulinho Teixeira, de 10 anos de idade, poderia ser um exemplo feliz. Vencedor de provas
de corridas de bicicleta no Circuito Esportivo de Goiânia em 1939 onde competira com jovens de
384
De acordo com Santana, Bonetti & Macêdo, o Bar era de propriedade de Durval Cézar de Freitas e sua esposa,
Adelaide Felix de Freitas.
385
Nas memórias do artista plástico Octo Marques, reproduzidas pelas autoras citadas (2007: 176), o Bar aparece como
espaço de convivência de grupos diversos. Entre eles, um grupo formado pelo autor do elogio a mocidade goianiense
que ora discuto. Octo Marques relembrou que ‘Dia e noite, e até o amanhecer, [o bar] via-se sempre frequentadíssimo
por operários, etc. [...] Fazíamos o nosso ponto de encontro obrigatório nas horas vagas da repartição, nos domingos e
feriados; bebericando a caninha, os conhaques e as cervejas, além de redigirmos, em papel de embrulho, os nossos
torpedos literários para os diversos jornais da terra. A nossa rodinha intima de boêmios e notivagos incorrigíveis era
formada por mim, o Antonio Caldas, José Décio Filho, Régio Teixeira, Geraldo Vale. [...] A estudantada,
principalmente do Lyceu da nova metrópole, infestava o ambiente a todo instante. [...] a partir das dez horas,
começaram a chegar os comensais: eram magistrados, engenheiros, médicos, dentistas, fazendeiros, industriais, pessoas
da imprensa, militares. Afinal, a fina flor da elite social, cultural e administrativa goianiense’. (Grifo meu).
289
até 17 anos, ele aparece desenvolto e articulado declarando ao Correio Oficial em outubro deste ano
que sua vitória era resultado de muito treinamento e do ‘sacrifício de abrir mão das namoradas’.
Um olhar para o passado recente da juventude goiana poderia encontrar moços que eram o
contraponto negativo dos urbanos jovens goianienses idealizados pelo intelectual goiano. Em 10 de
março de 1912386, O Jatahy, jornal quinzenal editado em Rio Verde, município interiorano da já
progressiva região sudoeste do estado, publicava um artigo que comemorava a instalação de uma
escola primária na cidade que, segundo suas palavras, iria proporcionar a uma ‘plêiade de meninos
inteiramente analfabetos os conhecimentos básicos úteis à vida prática’. O autor do artigo ressaltava
o valor da escola para arrancar das trevas da ignorância a ‘[...] mocidade sem peias, que vagava
pelas nossas ruas, desconhecendo por completo os mais rudimentares princípios de educação’ ou
ainda, para jovens que ‘[...] perambulam pelas artérias públicas, sem ocupação, tendendo ao vício,
ao crime e à devassidão [...]’. Era preciso, clamava o articulista, que ‘[...] medidas rigorosas sejam
tomadas, no sentido de corrigir-lhes eficazmente os maus hábitos contraídos’. Afinal, ‘o indivíduo
educado sabe se portar em qualquer meio e a sua vida se apresenta mais suave e fácil’.
Na então cidade-capital a situação parecia não diferir. Passados vinte anos, em 12 de agosto
de 1932, o jornal Voz do Povo, da Cidade de Goiás, publicava uma nota não assinada em que o
articulista lastimava certas atitudes juvenis e rogava a pais, professores e até a polícia que
educassem a mocidade vilaboense.
É deveras lastimável o hábito inveterado de vagabundos e mal educados
danificarem as paredes das casas bem como os muros caiados nesta capital, já
ferindo-os e escrevendo obscenidades que escandalizam as vistas do público e
fotografam o baixo nível de educação dos autores de tais vilanias. Em bem da
educação de tais desocupados e da estética da cidade formulamos um veemente
pedido à Polícia, aos srs. Professores, aos chefes de famílias e aos educadores em
geral para que profliguem por palavras e atos tão condenáveis práticas, a fim de
que meninos e moços se coíbam de semelhantes atos só próprios de canalhas.
Embora na cidade-capital, até a polícia fosse conclamada à tarefa de educar a juventude, nos
dois discursos transparece que uma educação fundada na moralidade e na disciplina seria a solução
para que a juventude goiana pudesse ser civilizada segundo parâmetros próprios da vida urbana
moderna. Esta parece ser, afinal, sua grande função junto à tão perdida mocidade. Em O Jatahi, o
articulista afirma que o triunfo na vida seria alcançado, não nas ruas e praças públicas, mas ‘[...] no
recinto severo de um templo de educação [...], lugar onde se aprendia ‘[...] os sãos princípios de
moral, os ensinamentos dos bons costumes e ótima prática de tratamento com nossos semelhantes’.
José Décio Filho em seu discurso-elogio segue um caminho distinto não se referindo a
escola como instituição que ajudava a forjar a civilização da mocidade de Goiânia. Afirmava que
386
Reproduzido por FRANÇA (1998: 139-140).
290
era a cidade-capital, mais que qualquer escola, que educava e civilizava fazendo a diferença no
surgimento de jovens educados, elegantes e trabalhadores. Se cotejado com os discursos que
clamavam pela educação dos jovens goianos, no não-dito do discurso formulado em Goiânia outro
sentido se constituía. Se os discursos anteriores elegiam a escola como instituição necessária a
educação das crianças e jovens era porque a escola era escassa e precária na região. Muito distinta
se mostrava a situação em Goiânia onde a escola, principalmente para os filhos das classes e grupos
dotados de poder e dinheiro, era uma instituição presente e de significativa participação na cena
urbana. A escola fazia parte daquele meio urbano aclamado como moderno e parecia não mais ser
preciso reclamar sua necessidade.
Não se encontra no discurso de J. Décio Filho qualquer referência às meninas e mulheres
jovens da cidade-capital. J. Décio não fala das moças de Goiânia embora também elas se fizessem
sujeitos da ação civilizadora da cidade. Distanciavam-se da imagem da mulher goiana forjada por
Auguste de Saint Hilaire (1975: 54) no início do século XIX: uma mulher dominada pelas paixões
carnais, de traços indelicados, gestos desgraciosos e dona de ‘uma conversa inteiramente
desprovida de encanto’. ‘Inibidas e estúpidas' eram as mulheres de Goiás, sentenciou o viajante
francês comparando-as, a partir de suas andanças noturnas387, a ‘sombras deslizando no silêncio da
noite’.
Foi, por exemplo, por iniciativa do ‘Bando da Alegria’, um grupo de moças originárias da
Cidade de Goiás, que circulou um jornal, chamado por elas Que me importa?, por volta de 1936.
Feito com ‘papel roubado do Estado e batido em máquina também do Estado’, segundo informa
Maria do Rosário Fleury (Rosarita Fleury) em Memória Cultural: ensaios da história de um povo
(1985: 164), o pequeno jornal não foi regularizado legalmente e por isso não pôde usufruir a glória
de ser o primeiro jornal da nova capital de Goiás388. O Bando também realizou, em 1936, o Baile
do Livro visando obter doações de livros para a montagem de uma biblioteca. O sucesso do baile
garantiu a abertura da primeira biblioteca da cidade. Mas Maria das Graças e Maria do Rosário
Fleury, Maria Félix de Souza (Doly), Virgínia e Tuniche Vieira, as integrantes do Bando, foram
surpreendidas no momento da sua inauguração. Rosarita Fleury (1985: 168) relembra que ‘apesar
da biblioteca haver sido idealizada e fundada por cinco elementos do sexo feminino, [...] ouvimos
[na cerimônia da inauguração], um tanto assustadas, [que] para dirigir a biblioteca tinha sido eleito
387
Saint Hilaire (1975: 54) descreveu o movimento noturno das mulheres vilaboenses: ‘Durante o dia só se vêem
homens nas ruas da cidade de Goiás. Tão logo chega a noite, porém, mulheres de todas as raças saem de suas casas e se
espalham por toda a parte. Geralmente fazem o seu passeio em grupos, raramente acompanhadas de homem. Envolvem
o corpo em amplas capas de lã, cobrindo a cabeça com um lenço ou um chapéu de feltro. Também nessas horas elas
caminham umas atrás das outras, e antes se arrastam do que andam, sem moverem a cabeça nem os braços, parecendo
sombras deslizando no silêncio da noite. Algumas vão cuidar de seus negócios particulares, outras vão fazer visitas,
mas a maioria sai a procura de aventuras amorosas’.
388
De acordo com Nascimento (1938: 515), o primeiro jornal a circular na nova cidade foi o jornal Goiânia que
apareceu pela primeira vez em 20 de novembro de 1935, dia em que foi instalado o município goianiense.
291
Dr. Joaquim Câmara Filho [...], cabendo a nós fundadoras, pequenas funções de auxiliares’.
Talvez, um discurso que tomasse as mulheres goianas como sujeitos poderia ressaltar
distinções ainda mais flagrantes entre a moça do interior e do passado e a jovem que vivia em
Goiânia. Se voltasse seu olhar para as meninas, Marianinha Monteiro, filha de Ofélia Sócrates do
Nascimento Monteiro e João Monteiro – Diretor de Segurança Pública – certamente chamaria a
atenção. Louvada pela inteligência, Marianinha discursou, em nome das crianças goianas, nas
festividades do Dia da Juventude e da Raça em setembro de 1939. O Correio Oficial, de 09 de
setembro deste ano publicou uma fotografia de Marianinha e comentou elogiosamente seu
desempenho no evento.
[...] prendendo a atenção de todos, falou, com graciosidade, a aluna do Grupo
Escolar Modelo, Mariana Monteiro [...] que, apesar da pequenez, soube enaltecer,
no momento, as qualidades da nossa raça, concitando os seus colegas [...] a honrar
o nome do Brasil. Alvo de merecedores aplausos, foi a pequenina oradora
vivamente aclamada pela multidão presente.
O discurso de celebração à nova mocidade que surgia na jovem capital goiana também não
identifica a classe ou grupo social dos jovens que se educavam segundo os parâmetros da civilidade
e da urbanidade. Não é difícil, entretanto, fazê-lo: basta lembrar a estratégia de apagamento e
ocultação de tudo e de todos que lembrassem o passado que se desejava esquecer; basta lembrar a
ênfase ao auto-elogio adotado pelos que, como J. Décio, re-escreviam a história goiana a partir de
sua nova capital para compreender que o intelectual não se referia a qualquer jovem ou criança das
classes e grupos empobrecidos que habitavam as dobras da cidade. Ele falava dos filhos das elites e
da classe média que se instalavam nas zonas nobres da capital e que circulavam muito próximos das
estruturas do poder político e econômico. Eram, esses jovens e crianças, os privilegiados alunos das
melhores escolas da cidade, inclusive as públicas. Assim, J. Décio falava de uma juventude
estudantil e, por seu intermédio, colocava em cena as escolas da cidade.
As escolas davam a ver à nação e à região a marcha do progresso do desconhecido e
atrasado estado de Goiás. Seja como estudantes, seja como professores e professoras, era por meio
da escola, vinculados a ela e tendo a cidade como motivo que os moços e moças de Goiânia se
voltaram para o mundo escolar na perspectiva de enriquecê-lo. Entre a cidade e a escola
transitavam, pois, os jovens goianienses na aventura de inventar a nova cidade-capital de Goiás. A
escola os agregava em caixas e orfeões escolares, grêmios literários, congregações de professoras,
clubes agrícolas e centros acadêmicos como coletivos organizados não somente em torno dos
assuntos relativos aos saberes ali tratados, mas particularmente em função de sua participação na
construção da modernidade urbana de Goiânia.
292
Estes grupos formavam, entre si, uma rede de sociabilidade em que dinâmicas de
cooperação e competição podem ser observadas, ressaltando as inter-relações entre as instituições
escolares da nova capital. Houve competição, p.ex., na Campanha da Borracha quando o governo
estadual deu premiação a escola e estudantes vencedores. Havia cooperação na organização de
determinadas festas, como as de formatura conjunta de duas escolas como as da Escola Normal
Oficial e da Faculdade de Direito de Goiás.
Tendo a cidade como cenário e motivo, as próprias escolas onde estudavam ou trabalhavam
eram o alvo preferencial de suas práticas civilizadoras. Puderam compor ou enriquecer bibliotecas
escolares, organizar clubes agrícolas, defender o bastião escolar em torneios e jogos, publicar
jornais, participar de campanhas cívicas nacionais, contribuir para que jovens e crianças pobres
estudassem nas modernas escolas públicas da cidade, entre outros, tecendo assim a criação de
culturas escolares próprias, nas quais a dimensão festiva, ritualística e espetacular ocupava grande
espaço.
No Brasil, a forma escolar moderna foi instituída, simultaneamente, como templos de
civilização e templo de espetáculos e ritos sendo as práticas festivas a expressão mais representativa
do papel ritualístico assumido pelo escolar no espaço significante da cidade (SOUZA, 1998). As
festas escolares consolidavam a lógica escritural da escola difundindo-a para além dos seus muros e
marcando a vida urbana. Para Souza (1998: 241), a escola que surgiu no Brasil na gênese da
modernidade pedagógica
[...] instaurou ritos, espetáculos, celebrações. Festas, exposições escolares, desfiles
dos batalhões infantis, exames e comemorações cívicas constituíam momentos
especiais na vida da escola pelos quais ela ganhava ainda maior visibilidade social
e reforçava sentidos compartilhados.
Através de inserção de seus jovens estudantes e professores naquele urbano ainda em
construção, as escolas da cidade-capital aderiram aos sentidos da cidade que iam sendo tecidos pela
discursividade dos também jovens intelectuais goianos. Talvez a cidade real que surgia no sertão,
com suas ausências e faltas, tenha sido um componente importante na sua mobilização: a falta de
opções e alternativas impeliu-os a criá-las. Diante das ausências havia, portanto, que inventar a
modernidade da cidade-capital. E os moços e moças de Goiânia se lançaram a esta tarefa,
assumindo plenamente seu papel de ruptura com as imagens que representavam o jovem goiano.
Com incentivos e apoio irrestrito do Estado em suas esferas estadual e municipal, todas as vertentes
de sua atuação na cidade-capital buscavam uma transformação profunda na imagem do nefasto
caipirismo associado ao povo de Goiás, em especial aos seus moços e moças.
293
7.2 – Entre o campo e a cidade: ruralismo e escola nova na cultura urbana de Goiânia
Algumas das práticas que marcaram a cena urbana de Goiânia matizando as relações entre a
cidade e as escolas que ali surgiam era coordenado principalmente por jovens estudantes e jovens
professoras da Escola Normal Oficial, as quais se inseriam nos marcos de um dos movimentos
políticos e culturais que mobilizava expressivas parcelas da sociedade brasileira no período. Refirome ao ruralismo, ou mais propriamente, a chamada reação ruralista que teve lugar nos primeiras
décadas do século XX. As escolas de Goiânia parecem ter seguido de perto a noção da vocação
agrícola brasileira que encantava setores da intelectualidade, da economia e da política nacionais.
As fontes informam que semanas ruralistas nas escolas, clubes escolares agrícolas, distribuição de
sementes entre estudantes e professores e a presença da Sociedade Amigos de Alberto Torres
entrecruzavam-se com os discursos de intelectuais-educadoras, como Amália Hermano Teixeira e
Floraci Artiaga, que ressaltavam o valor do campo e da natureza apontando para o lugar da
educação do homem rural como fator essencial para o progresso da nação.
Para compreender os efeitos e impactos do ruralismo no campo educacional de Goiânia,
penso ser necessário abandonar, como sugere Sônia Regina de Mendonça (1997: 18), a perspectiva
que o vê “[...] a partir do marco teórico da ideologia como reflexo direto das relações econômicas”.
Assim pensado, o ruralismo seria tão somente ideologia reflexa do processo de urbanização e
industrialização que estava, naquele momento, em curso no Brasil e se tornaria, assim, tão somente
um rótulo. A compreensão do ruralismo deve, ao contrário, ser mais abrangente. Mendonça o
encara “[...] pela tríplice ótica de um movimento político de organização de interesses de frações
agrárias dominante no nível da sociedade civil, de um debate de ideias e, finalmente, de uma
institucionalização governamental dessas demandas [...]”.
A crítica ao citadismo contido no ruralismo instiga a pensar de que forma Goiânia, marco
do processo de urbanização do centro oeste brasileiro, lidou com a valorização da vida no campo.
Mais precisamente, é instigante buscar as formas pelas quais as modernas escolas da cidade que
negava o rural (sertão) se apropriaram da diretriz ruralista para a educação. Lembremos que um dos
objetivos do ruralismo pedagógico a partir dos anos 1920 era evitar o êxodo rural. Conforme afirma
Marta Maria Chagas de Carvalho (1989), o projeto ruralista defendia, como antídoto ao citadismo e
ao industrialismo de importação, a “[...] educação do povo sertanejo desprotegido” como estratégia
de sua fixação no campo.
A idéia é buscar a compreensão sobre como as instituições escolares goianienses, ao
aderirem ao ruralismo pedagógico, enfrentaram os paradoxos colocados por tal objetivo diante do
papel que Goiânia representava como estímulo a vida urbana nos sertões goianos. Desta
perspectiva, parece possível compreender quais os papéis desempenhados pelos ruralismo, quais
294
expectativas condensou e quais os impactos e efeitos produziu nas culturas escolar e urbana da
cidade-capital goiana. Como, então, o campo educacional da jovem Goiânia se apropriou dos
discursos e práticas ruralistas originárias do centro dinâmico da nação? Que sentidos lhe foram
atribuídos?
A presença ruralista começara a se delinear já a partir de 1935 quando o ruralismo adentrava
a Cidade-Sertão, despertando entusiasmo entre políticos, empresários, educadores e dirigentes da
educação. Em 10 outubro daquele ano, o Correio Oficial publicou o discurso do deputado Oscar
Campos Junior na Assembléia Legislativa por ocasião da discussão sobre um projeto de lei que
criava um patronato agrícola em Rio Verde, na região sudoeste do estado. O político afirmou,
então, a urgência de educar as populações do campo de um estado ‘essencialmente agrícola’ como
Goiás. ‘Produzimos ainda pelos processos rotineiros e a falta de conhecimento dos métodos
modernos de cultura provoca, periodicamente, crises em nossas lavouras e isto porque o agricultor
se entrega quase sempre a monocultura [...]’, pontificou ele.
Maria Araújo Nepomuceno (1994) considera, entretanto, que depois de 1937 houve uma
intensificação da diretriz ruralista na educação em Goiás, processo estimulado pela Marcha para o
Oeste e seu projeto integrador e economicista. Naquele contexto, os discursos e as práticas se
voltaram para o predominante mundo não urbanizado de Goiás sendo que a criação de escolas e
patronatos rurais constituiu-se no principal foco do debate entre intelectuais e políticos da região. O
Patronato de Rio Verde foi criado em 1937, passando a chamar-se Escola Profissional Rural de Rio
Verde a partir de 1938. O discurso de Campos Junior, anteriormente referido, permite identificar o
papel cultural e social daquela instituição escolar: ‘A instalação do Patronato criará oportunidades
para milhares de crianças pobres se prepararem para a luta pela riqueza de nosso Estado’ (Grifo
meu). Anos depois, em 1940, já como parte das ações da Marcha para o Oeste, o governo federal
instalaria a Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), criando a cidade de Ceres, sub-região do
Vale do São Patrício em direção ao norte de Goiás, consolidando o estado como plataforma de
colonização e ocupação produtiva do mundo rural do oeste brasileiro.
Mas como o ruralismo pedagógico foi apropriado na jovem e moderna cidade-capital
contribuindo para a forja da sua cultura urbana, é o que importa saber. Ali, a intenção não era
formar crianças pobres habilitando-as ao trabalho no campo, mas desenvolver nas privilegiadas
crianças das elites urbanas, o valor do trabalhador que lidava com enxadas e carros de boi
produzindo o alimento e a matéria prima necessária para os produtos necessários a vida nas cidades,
conforme se depreende dos discursos formulados em Goiânia. Além disso, os estudantes pobres da
cidade ‘[...] lucravam com as lições, através da horta, jardim, criação de abelhas, sericicultura,
marcenaria, etc. passando aos pais esses úteis ensinamentos que elevavam o nível de vida das
famílias’, afirmou Amália Hermano Teixeira ao rememorar o ensino rural em depoimento a Maria
295
de Araújo Nepomuceno (1994: 105).
Na cidade-capital goiana, o ruralismo no campo educacional configurou-se na estruturação
de clubes agrícolas, semanas da árvore e semanas ruralistas nos grupos escolares e nas escolas
normais em um movimento que atingiu as cidades mais próximas. Amália Hermano Teixeira,
professora de Geografia, Corografia do Brasil e Cosmografia da Escola Normal Oficial foi sua
principal estimuladora validando, com suas iniciativas, o investimento que o governo fizera em sua
formação profissional. É que Amália foi escolhida, logo depois de concluir o curso normal da
Escola Normal Oficial, em 1935, ainda em Vila Boa, para representar o estado de Goiás no Curso
de Extensão Ruralista do Ministério da Educação na Universidade do Brasil, na Capital Federal.
Em 1943, retornou ao Rio de Janeiro para assistir ‘[...] aulas e conferências sobre administração
escolar [...]’ a convite de Lourenço Filho, então diretor do recém-criado Instituto Nacional de
Estudos Pedagógicos (INEP), conforme a educadora informou em Orientação Vocacional, artigo
publicado em abril de 1944 na revista Oeste.
A educadora devia em ambas as ocasiões, voltar à Goiás e difundir ali o que apreendera
nestes processos de qualificação. O trabalho de Amália foi significativo: em 1936, organizou a
Primeira Semana Ruralista de Goiânia no Grupo Escolar Pedro Ludovico Teixeira, em Campinas e
em 1937, elaborou o programa e as atividades pedagógicas do Patronato do Rio Verde lecionando
ali por quatro meses. Em ambas as iniciativas, contou com a parceria do agrônomo Manuel Alves
de Almeida, seu colega no Curso de Extensão Rural. Muito mais fora feito, segundo Amália
Hermano informou em Orientação Vocacional (1944: 07).
Em 1936 e 1937, fundamos e orientamos clubes agrícolas escolares em vários
municípios goianos, quando prestava meus serviços à Secção de Ruralismo do
então Departamento de Propaganda e Expansão Econômica [...]. Já em setembro
de 1938, nada menos que 21 Clubes Agrícolas funcionavam em todo o Estado,
recebendo todos assistência de nossa secção, e sementes, mudas e ferramentas do
Ministério da Agricultura.
Em 1938, Amália foi aprovada no concurso da Escola Normal Oficial e, nesta escola, em 21
de setembro de 1943 fundou o Clube Agrícola General Couto de Magalhães. A entidade surgiu
como um dos desdobramentos das ‘[...] atividades e estudos realizados pela Semana da árvore desse
mesmo ano, a primeira levada a efeito no Estado de Goiás [...]’, segundo informou Clarisse Pinto,
secretária eleita da entidade, em O curioso caso da Escola Normal Oficial: a história de uma
injustiça389 (1946: 68). Registrado no Serviço de Informação do Ministério da Agricultura sob o
389
Este livro, na verdade, reproduz as peças de uma briga judicial entre a autora e Ofélia Söcrates do Nascimento
Monteiro, então diretora da Escola Normal Oficial. O conflito teria se iniciado, formalmente, em julho de 1944
estendendo-se, ao que parece, por longo período. Formada em Direito pela Faculdade de Direito de Goiaz e casada com
um Desembargador da Justiça Estadual, Maximiano da Matta Teixeira (Matma Nago), Amália Hermano também
296
número 444, recebia ‘folhetos, cartazes, sementes e ferramentas para o serviço da horta’. O Clube
contou ainda com auxílio de Cr$ 5.000, 00 da Legião Brasileira de Assistência (LBA) por meio de
Gercina Borges Teixeira e ganhou do governo estadual um terreno no qual pudesse desenvolver
suas atividades.
Em que tipo de atividade se envolvia as estudantes da Escola Normal Oficial reunidas no
Clube Agrícola Couto de Magalhães? É ainda Clarisse Pinto que ajuda a compreender a amplitude
da intervenção do Clube na cena urbana de Goiânia a partir da relação de eventos que este havia
promovido no ano de seu surgimento.
[...] sessões comemorativas das nossas grandes datas, assistido à homenagens à
memória de goianos ilustres [...], comemorado com uma sessão solene o DIA DA
ARVORE de 1944, editado o jornal A COLMÉIA, órgão oficial do Clube, etc.,
além de atividades altamente educativas da SEMANA DA ÁRVORE de 1943,
precedida de estudos de plantas medicinais, ornamentais, alimentícias, forrageiras
e industriais. Essas atividades foram iniciadas logo após as férias de junho,
constando de excursões geográficas com planos anteriormente elaborados e
estudados pela alunas, orientadas pela professora de Geografia, a fundadora e
orientadora de nosso Clube. Os relatórios dessas excursões a hortos, farmácias,
serrarias foram lidos nas sessões da SEMANA DA ARVORE, na própria Escola
Normal Oficial, no Colégio Estadual de Goiaz, no Colégio Santo Agostinho e no
Ginásio Dom Bosco, estabelecimentos de ensino desta Capital. (Grifos da autora)
O que considero instigante no desenvolvimento do trabalho de Amália Hermano na direção
do Clube Agrícola da Escola Normal Oficial são os discursos que o qualificam como dimensão
relacionada ao modelo escolanovista de escola e de educação. O clube agrícola era pensado como
‘instituição modelo da Escola Nova’, como afirmou sua secretária, Clarisse Pinto. Neste sentido, os
objetivos delineados pelo Clube Agrícola são peculiares na medida em que ‘desenvolver o amor à
terra’ parece não ser o único e nem mesmo seu principal objetivo. O Clube pretendia, talvez em
maior escala, ‘[...] motivar o ensino [e] congregar a mocidade em reuniões, onde as alunas possam,
democraticamente expôr e justificar suas opiniões, escolher os membros para orientar as atividades
sociais e educativas [...]’, como explicou a normalista Clarisse Pinto (1946: 70). Tal diretriz tinha,
segundo a relatora, trazido enormes benefícios as normalistas da Escola ‘[...] que sentiram encanto,
entusiasmo, atração pela escola, antes apenasmente livresca, nunca realizando socialização [...]’.
analisa os pareceres dos juízes que julgavam o caso e relata situações em que foi ofendida pela diretora da Escola
Normal Oficial. Na segunda parte do livro, entretanto, Amália dá voz a outra autora, reproduzindo relatórios sobre as
atividades do Clube Agrícola General Couto de Magalhães feitos pela normalista Clarisse Pinto, secretária do Clube.
Os relatórios relacionam-se com a primeira parte do livro na medida em que os conflitos entre Amália Hermano e
Ofélia Sócrates tinham por motivo a aparente oposição da última à organização e atividades deste Clube Agrícola. Na
introdução do livro, sob o título As razões desta publicação, Amália escreveu: ‘As provocações de que tenho sido alvo
ultimamente por parte de dona Ofélia Sócrates de Nascimento Monteiro, Diretora, por antiguidade, da Escola Normal,
me colocaram [...] frente ao seguinte dilema: ou continuava a me calar, no intuito de não tornar pública ocorrência que
viria depôr contra nossa política educacional, assumindo, pelo meu silêncio, atitude de culpada, ou então esclareceria
tudo, por meio de uma publicação, mostrando que estava sendo vítima de clamorosa e inconcebível injustiça’.
297
Ao referir-se ao envolvimento com o Patronato do Rio Verde em Orientação Vocacional,
Amália Hermano declarou que seu objetivo era contribuir para que aquela escola fugisse do ‘[...]
ensino rotineiro, comodista, monótono [...]’, condição fundamental para que se alcançasse a
valorização da atividade agrícola. Neste sentido, parece-me que Amália Hermano via nas propostas
do ruralismo pedagógico mediadores privilegiados para o exercício da autonomia e da criatividade
daqueles que se educavam. Cenário ideal para a aprendizagem do aluno, o ensino rural – quer
ocorresse no campo quer se desse na cidade - deveria ser calcado no fazer e na valorização da
atividade da criança e do jovem bem como na possibilidade de sua participação democrática.
No mesmo artigo (1944:07), o ensino rural foi constituído como algo que transformaria as
práticas livrescas na escola enriquecendo o cotidiano escolar, produziria o intercâmbio da escola
com as famílias dos seus estudantes e poderia até mesmo selecionar os professores realmente
empenhados no progresso de seus alunos. Ativo, moderno, interessante, vivo, inteligência, aulas
vivas, imaginação, entusiasmo, atividade, expressões muito presentes nos discursos escolanovistas,
são palavras que inundam o discurso da educadora goiana,
A orientação agrícola na escola, além de transformar o ensino livresco, rotineiro
em ativo, útil, interessante, vivo; de certo modo seleciona o professorado, pois, a
atividade do mestre moderno não consiste em apenas ministrar aulas em dias e
horários determinadas, mas dirigir, orientar seus alunos em ocasiões diversas,
colocando sua inteligência, imaginação, entusiasmo e atividade a serviço da causa
educacional [...]. [...] E, então, teremos hortas, pomares e jardins; sopa-escolar,
merenda e leite, feiras e cooperativas; criação de bicho da seda, de abelhas e de
aves em geral; bibliotecas, museus, círculo de pais e mestres, colônias de férias,
visitas, excursões, cinema educativo, reuniões festivas: uma farta, rica e perene
fonte de motivação para os professores tornarem suas aulas vivas e, sobretudo,
proveitosas. (Grifos meus).
Em razão deste contexto, penso que o trabalho desta educadora com as ideias e práticas ruralistas
na realidade goiana e, particularmente, na cidade-capital amalgamou as diretrizes ruralistas para a
educação a características do ideário escolanovista que, naquele momento, se constituía em política
do Estado e palavra de ordem do movimento de renovação da escola brasileira.
Inseriu-se nesta perspectiva outra educadora goiana, também professora da Escola Normal
Oficial, e sempre celebrada pela competência, pela capacidade intelectual e pelo conhecimento que
detinha acerca do ideário escolanovista. Refiro-me a Floraci Artiaga que, em Ruralização do
Ensino, artigo publicado em Oeste (1944: 31), afirmou que a escola brasileira somente avançaria
quando, entre outras coisas, se tornasse ‘[...] um centro de recreação civico-cultural adaptado às
condições ambientes, com biblioteca e jornais agrícolas que sirvam não apenas a alunos, mas
também a toda a comunidade [...]’.
O discurso de Floraci Artiaga veicula a noção da escola rural como centro cultural do seu
298
entorno, - ‘único foco de civilização’ de regiões campesinas, segundo as palavras de Celso Kelly na
abertura do Congresso da ABE em Goiânia – que era uma das mais importantes premissas do
pensamento educacional e ruralista da época. Mas, o discurso também deixa ver no uso da
expressão ‘centro de recreação’ uma aproximação as práticas afeitas às propostas da Escola Nova,
da qual a educadora em questão era considerada uma autoridade.
Jaqueline Veloso Portela de Araújo (2009: 05) avalia que “[...] as políticas voltadas para a
educação do homem do campo em Goiás [...] foram marcadas por dualidade entre ruralismo e
escolanovismo [...]”. De meu ponto de vista, ocorreram empréstimos e apropriações - e não
propriamente dualidade - entre discursos e práticas do ruralismo pedagógico e discursos e práticas
da escola nova. A apropriação do escolanovismo e do ruralismo pedagógico nas antigas minas dos
goyases resultou em uma espécie de colagem na qual, tal como uma colcha de retalhos, diretrizes e
objetivos de duas vertentes educacionais se ataram tornando-se uma só orientação pedagógica.
Penso, ainda mais, que tal aproximação não ficou restrita à educação rural, mas incrementou
também a organização de grupos escolares e escolas normais das áreas urbanas, particularmente,
nas escolas públicas e privadas da cidade-capital. Nestas escolas, entretanto, a intencionalidade era
a educação das elites, conforme também previa o ruralismo pedagógico. Nos Anais do VIII
Congresso Brasileiro de Educação (1944:68), realizado em Goiânia, pode-se ler que, se era
necessária e importante a educação do homem do campo, era ‘[...] muito mais importante e eficaz
que habilitar bons trabalhadores rurais, criar nas elites a base psicológica para o domínio efetivo do
espaço brasileiro’.
Devo ressaltar que o ruralismo e o escolanovismo são comumente relacionados como
modelos pedagógicos e organizacionais que intencionavam modernizar os métodos e as práticas
pedagógicas na primeira metade do século XX, o que confere uma similaridade à apropriação
goiana em relação a outros sistemas educacionais brasileiros. Contudo, a apropriação do ideário
escolanovista pela diretriz ruralista na educação goiana ocorreu tanto na sua dimensão estritamente
pedagógica - expressa na possibilidade de construção de ‘aulas vivas’ – quanto em sua dimensão
política tornada visível por meio da forja de contextos dialógicos nos quais os estudantes tinham
garantido o espaço para manifestação, fazendo valer suas vontades e decisões e na potencialidade
de participação das famílias dos alunos na vida e na cultura escolares. Uma escola democrática,
aberta ao seu entorno e inserida na vida das cidades e fazendas.
Se desde a gênese da construção de Goiânia, a escola fincou-se sobre o espaço que se
urbanizava, é necessário seguir compreendendo como, além da sua arquitetura e de seu endereço,
estas instituições marcaram a cena da cidade e, neste sentido, a experiência da juventude emerge
como estratégia do qual me é impossível fugir. Pretendo, portanto, apanhar os jovens de Goiânia
em sua tarefa de fazer a escola e a cidade, o que significa uma aproximação também as práticas
299
discursivas que, como o fragmento epigrafado, celebravam os indícios de uma nova história goiana
por meio da celebração de uma nova mocidade.
7.3 – A cidade das festas: práticas festivas e juventude estudantil
A mais recorrente das vertentes de atuação da juventude estudantil de Goiânia se dava no
campo das práticas festivas e lúdicas, as quais aparecem em estreita associação com a vida escolar.
Por meio desta associação, a escola dava-se a ver como ‘celeiro de civilização’ e, ao mesmo tempo,
ajudava a forjar o cenário da modernidade prometida pela nova cidade-capital, inserindo na sua
construção simbólica – e também material. Além disso, pulverizando seu papel, a escola goianiense
aderia à perspectiva assistencialista que, naquele momento, caracterizou a ação das elites regionais.
Cabe, portanto, diante da precariedade do urbano e do desejo de forjar ali uma cultura tipicamente
urbana, inquirir sobre os tempos e espaços de sociabilidade dos moços e moças da Cidade-Sertão,
em particular aqueles destinados ou utilizados pelos moços e moças de Goiânia para encontrar-se e
divertir-se.
Na nova cidade-capital, havia certa abundância de opções de práticas lúdicas coerentes com
o mundo sertanejo e oriundas do mundo natural. Os relatos dos pioneiros dizem dos banhos e
brincadeiras nas águas limpas do Córrego Botafogo, dos piqueniques, churrascos e passeios
realizados em suas margens; das andanças pelas matas dos arredores à procura de frutas silvestres;
dos espaçosos quintais – os quintalões - que, sem cercas ou muros, não delimitavam as residências
em seus fundos e permitiam um contínuo vai-e-vem entre jovens e crianças vizinhas; das
brincadeiras em hortaliças e pomares. Havia, em muitos pontos da cidade, pequenos veios de água
corrente que igualmente serviam de cenário e motivo para o lazer dos jovens e da população
goianiense de modo geral. Às vezes, o diminuto córrego ou riacho cortava os fundos do quintal:
nele se lavava roupa, tomava-se banho, nadava-se e brincava-se.
O relato de Dilair de Faria390 ajuda a perceber outros espaços nos quais ocorriam práticas
lúdicas da infância goianiense. Ela fez parte da primeira turma de estudantes do Grupo Escolar
Modelo. Foi matriculada no Primeiro Ano do curso primário em 1938 quando o Modelo
funcionava, ainda, no prédio o Liceu de Goiânia. Tinha 05 anos de idade; portanto, estava abaixo da
faixa da obrigatoriedade escolar (07 anos) imposta pela legislação educacional de então. De acordo
com Dilair de Faria, foi matriculada para acompanhar a irmã Aglair, esta com a idade adequada.
Dilair de Faria relembra as alegres corridas entre os muitos espaços vazios da cidade-capital, a
caminho do Grupo Escolar Modelo, nas ruas, entre os prédios que surgiam aqui e ali, demonstrando
390
Depoimento em registro digital de voz em agosto de 2008, em Goiânia/GO.
300
que também a materialidade urbana era fonte de ludicidade.
Não havia, entretanto, muitos espaços e tempos modernos e urbanos onde a juventude
pudesse se divertir. Dois cinemas – o velho Cine-teatro Campinas (que foi interditado durante do
perído 1938-1941) e a partir de 1942, o Cine- Teatro Goiânia; o Automóvel/Jóquei Club, com seus
salões e sua piscina; o Grande Hotel onde ocorriam os bailes do carnaval e do réveillon, as festas
mais celebradas pela sociedade goianiense; Automóvel/Jóquei Clube e Grande Hotel se revezavam
também como locais onde ocorriam jantares e recepções aos ‘visitante ilustres’ da cidade-capital.
Alguns bares e sorveterias, como o já referido Bar do Adisabeba. A Biblioteca Pública inaugurada
em 1936, embora modesta, foi constituída como lugar pela juventude local. E os centros de cultura,
o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e a Academia Goiana de Letras (AGL), além
de associações como o Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, estes mais restritos a encontros
formais.
E havia, em profusão, festas religiosas demonstrando a face sertaneja da nova cidadecapital. Tais festejos, organizados por frações da população, adquiriam a face do grupo organizador
que reproduzia, na cidade-capital, os rituais e celebrações dos locais de onde tinham se originado.
Assim, podiam adotar tanto a face de uma festa mais mineira ou mais nordestina ou mais goiana
conforme o grupo que a propunha e organizava. Havia ainda os festejos e comemorações privadas
como os casamentos, os batizados, aniversários, etc.. Os livros de memórias dos primeiros
moradores são repletos de relatos destes momentos deixando ver um intenso intercâmbio sóciocultural entre as famílias da elite goianiense. O próprio interventor e sua esposa abriam
regularmente os salões do Palácio das Esmeraldas para recepções, bailes e soirées dançantes sendo
célebre o baile de aniversário de Pedro Ludovico, em 23 de outubro391. E, por fim, as festas
organizadas pelos poderes públicos como a Festa ou Circuito Esportivo de Goiânia, evento que
marcou o calendário festivo de Goiânia a partir de 1938.
As fontes deixam ver um intenso movimento dos jovens goianienses no campo das práticas
festivas. Festas, festivais, exposições, saraus musicais e artísticos, eventos esportivos com destaque
para as competições de basquete feminino e masculino e de futebol eram as principais frentes de
atuação da juventude da nova cidade-capital. Seus moços e moças também criaram jornais
391
A data de aniversário de Ludovico (23/10) se cotejada com o dia em que se comemora o aniversário de Goiânia que é a mesma data da deflagração da Revolução de Trinta (24/10) - ajuda a pensar como o interventor lidava com
esperteza e astúcia criando coincidências que reforçavam simbologias. A roçagem do terreno para construção da nova
cidade-capital foi realizada, por escolha do interventor, em 24 de outubro de 1932 em um acontecimento que
inaugurava a perspectiva ritualística que marcou o surgimento e os primeiros anos de Goiânia. Fruto de trabalho
voluntário de fazendeiros e trabalhadores rurais do município de Campinas, a roçagem marcou o lançamento da pedra
fundamental da cidade que, então, ainda não tinha nome. Nova capital era, então, chamada. Na ocasião, uma missa
solene foi celebrada por Dom Emanuel, Arcebispo de Goiás, estando presente grande parte da população campineira e
muitos políticos e intelectuais da pequena localidade e também da Cidade de Goiás e de outros municípios.
301
escolares e participaram de grupos teatrais, orquestras musicais e jazz bands. As notas publicadas
pela imprensa local permitem aquilatar a freqüência de tais eventos. Rara era a semana em que não
se noticiava uma festa, um festival, uma partida de futebol ou basquete e, algumas edições depois,
os comentários elogiosos ao transcorrer do acontecimento sempre ressaltando o sucesso do mesmo,
as autoridades presentes, quem havia se destacado, entre outros assuntos.
Práticas festivas tipicamente escolares marcavam, é claro, ‘dias em vermelho’ (GALLEGO,
2005: 02) no calendário da escola e da cidade: as festas cívicas, as exposições escolares, festivais de
encerramento de ano letivo e formaturas. Sobre as primeiras, se destacam as festas de rua, grandes
celebrações como as que ocorriam nos dias da Pátria, da Juventude e da Raça (Imagem 23), de
Caxias, da Bandeira, o aniversário de Vargas e as ligadas ao universo da cidade-capital como o dia
do seu aniversário em 24 de outubro. A participação das escolas se dava nos desfiles escolares, em
demonstrações de ginástica e marcha e, na maioria das vezes, na oratória de uma criança
representando todas as outras. Nestas ocasiões, as escolas faziam parte de um conjunto de
instituições que, juntas, compunham uma ‘liturgia cívica e política’ (SOUZA, 1998) no ‘coração do
Brasil’.
Imagem 23
Flagrantes da Parada da Juventude em Goiânia, 1943
Fonte: Correio Oficial do Estado de Goiás
Nos grupos escolares, em outras festas cívicas, as crianças eram os grandes e principais
atores. O programa que aqui reproduzo retrata a programação de uma destas festas escolares,
ocorrida em 1941, no Grupo Escolar Pedro Ludovico Teixeira, no bairro de Campinas (Imagem
24). Tomando por base as considerações de Rosa Fátima de Souza (1998: 266), a escola primária
que surgia na Cidade-Sertão participava da “[...] construção da identidade e da unidade da nação,
não só pela transmissão de uma cultura comum e pela difusão de valores morais e cívicos, mas
atuando no nível do imaginário, dos sonhos, das aspirações, das esperanças e do inconsciente”.
302
Nestas ocasiões, as escolas se abriam “[...] à cidade, à rua, à sociedade, aos alunos, aos seus pais,
aos seus amigos e a suas famílias” (SOUZA, 1998: 261).
As festas voltadas para o universo escolar ocupavam a cena urbana em momentos precisos
quando ocorriam exposições de trabalhos manuais, festivais de encerramento de ano e festas de
formatura. A imprensa local também prestigiava estes momentos realçando tanto a competência e
dedicação das professoras e professores das escolas que os ofereciam quanto elogiando, depois de
ocorrida a festividade, a decoração, o programa, as apresentações e o alto grau de cultura do público
presente. Há que destacar-se, neste sentido, os festivais de encerramento de ano do Jardim de
Infância Modelo, as exposições escolares do Grupo Escolar Modelo, as festas de formatura do
Liceu e, as sempre conjuntas, formaturas da Escola Normal Oficial e da Faculdade de Direito de
Goiás.
Imagem 24
Programa de festa escolar
Fonte; Correio Oficial de Goiás, 1940
Entretanto, em comparação com a divulgação e comentários sobre outras festas relacionadas
às escolas da cidade, tais eventos despertavam um interesse significativamente menor nos jornais
locais. O tipo de festa mais recorrente e que despertava maior entusiasmo da imprensa e da
sociedade de Goiânia não eram festas com as características anteriormente descritas. Eram festas
beneficentes organizadas pelas escolas, realizadas muitas vezes (mas nem sempre) em ambientes
escolares e tendo por motivo a cultura escolar, mas dirigidas à cidade e à sua ‘boa sociedade’.
Permeadas por peças eruditas e números artísticos voltados para o universo adulto, este tipo de festa
marcou, com intensidade, a vida urbana na nova cidade-capital disseminando formas civilizadas e
modernas de falar, vestir-se, relacionar-se, etc..
303
Compunham também o ambiente de cultura, erudição e arte que, naquele momento, se
revelava essencial para a demonstração que o povo goiano – representado por suas elites
intelectuais – não correspondia às imagens e representações pejorativas e eivadas de negatividade
que circulavam nos centros dinâmicos da nação. Goiânia não era terra de ‘índios e feras’ nem
sequer a morada do Jeca inculto e amolengado, mas lugar onde vivia uma sociedade educada e
elegante que sabia produzir, freqüentar e usufruir ambientes e práticas artísticas, modernas e
civilizadas.
A freqüência de festividades chegou a causar problemas relacionados ao espaço onde
ocorriam já que os lugares que podiam suportá-las eram restritos. Eram muito utilizados os salões
do Automóvel/Jóquei Club e do Grande Hotel, mas a partir da inauguração do prédio e
transferência do Liceu para Goiânia, era no salão de festas desta escola que ocorria a maioria dos
eventos. Tantas festas, entretanto, atrapalhavam o funcionamento regular do educandário, inclusive,
porque entre 1938 e 1940, o Grupo Escolar Modelo funcionava também no mesmo prédio. A
situação parece ter se tornado suficientemente tensa para que o diretor do Liceu publicasse, no
Correio Oficial de 25 de agosto de 1938, um aviso que procurava limitar a ocorrência de
festividades nos salões da escola. Sob o título Aviso da Diretoria do Liceu de Goyaz pode-se ler: ‘A
Diretoria do Liceu de Goyaz avisa que não atenderá mais a pedidos de empréstimo dos salões do
edifício para a realização de bailes e outras reuniões que perturbem o funcionamento regular das
aulas [...]’.
Somente quatro anos depois, em 1942, outra instituição escolar abrigaria festas e bailes.
Depois de sua inauguração, em 1942, a Escola Técnica Federal se tornou também lugar de diversão
e lazer para a juventude da cidade. Maria Lucy Veiga Teixeira, Dona Fifia392 lembra que ‘[...] a
gente ia toda noite para a Escola Técnica. Tinha acabado de ser construída... e a festa era lá. [...]
música e tudo, e a gente ia toda noite para lá dançar’.
A questão do espaço físico também se mostrava limitadora para as iniciativas de alguns
grupos. O de moças da Escola Normal Oficial, por exemplo. Sem prédio próprio, abrigada – sempre
provisoriamente e compartilhando o espaço com a Faculdade de Direito de Goiás - no sobrado da
Rua 20 que já tinha sido ocupado pelo governo estadual antes da construção do Palácio do
Governo, a Escola não propiciava condições para a organização e promoção de atividades festivas.
José Rodrigues de Morais, diretor da Escola Normal Oficial, em relatório393 enviado à Vasco dos
Reis, Diretor da Instrução Pública, em 06 de março de 1939, lembrava o prejuízo que a ausência de
um prédio próprio estaria causando à formação de professoras primárias. Rodrigues deu ênfase
particularmente as grandes dificuldades daí surgidas para que as estudantes da escola pudessem
392
393
Reproduzido por Santana, Bonetti e Macêdo (2007: 178).
Preservado no Arquivo Histórico Estadual. Secção Documentos Manuscritos
304
organizar festas em prol da sua caixa escolar.
Relatoriando o desenvolvimento da escola em seu primeiro ano na nova cidade-capital,
Rodrigues lamentava o fato de não ter sido possível realizar durante aquele período ‘[...] um único
festival em benefício dessa utilíssima instituição justamente por não oferecer, o prédio onde
funciona a escola, salas bastante amplas que vantajosamente se prestassem a realização das festas’.
O diretor também colocava em pauta, como ideia a ser incorporada na construção futura do que ele
chamou Palácio da Instrução e que abrigaria a Escola Normal Oficial em Goiânia, a sugestão de
que um palco para representações teatrais dos alunos fosse construído ‘seja no salão nobre,
destinados às festas e solenidades que se realizarem anualmente, seja em outro espaço que, pelas
suas dimensões, se preste a tal fim [...]’. As vantagens do palco seriam enormes, ponderava
Rodrigues já que ‘as peças levadas a efeito pelos escolares, além de concorrer para a revelação de
sentimentos artísticos, contribuíram ainda para a manutenção da caixa escolar [...]’.
O diretor da Escola Normal Oficial abordou, no mesmo relatório, outro tema relacionado ao
movimento festivo em Goiânia ao relembrar as sucessivas retiradas por empréstimos de um piano
das dependências da Escola. O instrumento era requerido para animar festas escolares de outras
instituições da cidade e até mesmo ‘concertos particulares’. ‘A continuar assim, em pouco tempo
estaria emprestável um dos melhores móveis da escola, que não são poucos os abalos sofridos com
estas deslocações constantes [...]’, sentenciava Rodrigues para em seguida comemorar: ‘Felizmente,
porém, a Secretaria Geral [...] procurou coibir o abuso, determinando que a saída do piano só se
daria com ordem emanada diretamente da Interventoria ou daquela Secretaria’.
A única escola normal pública de Goiânia se ressentia com a impossibilidade de
incrementar, como fazia na antiga capital, sua caixa escolar. A bem da verdade, as caixas escolares
desde que foram inseridas no campo escolar de Vila Boa, na reforma de Americano do Brasil
(1918) facilitaram a organização de atividades festivas com fins beneficentes sendo que seu
objetivo era a arrecadação de doações que poderiam garantir que a caixa escolar cumprisse sua
missão assistencialista: de fornecer condições para que crianças e jovens pobres pudessem estudar.
Na Cidade de Goiás, as moças da Escola Normal Oficial eram, possivelmente, as únicas a propor e
realizar festas deste tipo. A Casa de Corumbá, onde funcionava a escola, contemplava suas
necessidades de espaço. Mas, na nova cidade-capital, alojada em espaços improvisados e
inadequados, as normalistas não puderam manter aquela prática.
Contudo, apesar da problemática do espaço, encontrei notas publicadas no Correio Oficial
que dão notícia de festas organizadas pelas alunas da Escola Normal Oficial, como a ocorrida em
parceria com a primeira dama estadual, Gercina Borges Teixeira: tratava-se de um ‘animado baile
em benefício da Santa Casa desta capital’ a ser realizado na sede do Automóvel/Jóquei Club. Eram
ações poucos freqüentes, entretanto: outras jovens mulheres, as ‘gentis senhoritas do Grupo Escolar
305
Modelo’, como eram chamadas pela imprensa local as professoras dessa escola, emergiram como
liderança na realização deste tipo de festividade na também jovem capital goiana.
Também os rapazes do Liceu, agregados no Grêmio Estudantil Félix Bulhões, promoviam
atividades festivas com fins beneficentes, porém, seus interesses confluíam para a produção do
jornal O Liceu e para composição de uma biblioteca para o Grêmio eximindo-se da perspectiva
assistencialista que marcou a ação das professoras do Modelo e das normalistas da Escola Normal
Oficial. A duplicidade de tarefas de rapazes e moças sinaliza para a assunção, pela mocidade de
Goiânia, dos distintos papéis sociais então reservados a homens e mulheres na sociedade brasileira.
Mas, de qualquer maneira, as festas beneficentes promovidas pela diretora e professoras do Modelo
em prol da Caixa Escolar Pedro Ludovico Teixeira394 podem, com certeza, serem tomadas como
emblemáticas dos modos como a escola assumia o duplo e contraditório papel de prestar assistência
social para os estudantes pobres e, concomitantemente, forjar o ambiente cultural no qual as elites
da nova capital goianiense encenavam a prometida e anunciada modernidade.
As características de erudição que pontuavam estes acontecimentos não era algo novo no
universo daquelas elites haja vista que, desde a gênese da colonização das antigas minas dos
goyases, foi constante a presença de ‘ilhas de erudição’ que resguardavam e preservavam os valores
e símbolos da cultura ocidental e, em especial, a cultura e os símbolos de poder portugueses. Era
como trazer o mundo civilizado para a longínqua hinterlândia. Em Goiânia, entretanto, assumiam
outra função: a de construir a modernidade prometida pelos novos tempos e torná-la visível aos
olhos da região e da porção considerada civilizada da nação. Um movimento complementar ao
anterior: não somente trazer a civilização para o sertão, mas mostrar Goiás como parte ativa do
mundo civilizado.
Como eram as festas promovidas por estas ‘gentis senhoritas’ e qual a dinâmica de sua
organização e realização? As fontes informam sobre bailes da chita, festivais artísticos, soirées
dançantes ou simplesmente ‘animados bailes’. Durante a realização do VIII Congresso Brasileiro
de Educação, em 1942, este grupo de professoras ofereceu, aos congressistas, um ‘grandioso baile
da chita’ com premiação para as moças ‘mais originalmente trajadas’, conforme noticiou o Correio
Oficial. De caráter beneficente, tais festas eram realizadas em função de dois objetivos principais: a
arrecadação de fundos para a Caixa Escolar Pedro Ludovico Teixeira e de livros para a montagem
de uma biblioteca no Modelo, sendo mais recorrentes as que dizem respeito ao primeiro objetivo.
Em ambos os casos, o resultado das festas parece ter sido satisfatório. Julieta Fleury, diretora da
394
O número IV (ano II, ago/set. 1938: 51-54) da Revista de Educação publicou os estatutos desta Caixa Escolar, o
qual foi aprovado pela portaria 202, de 30 de maio de 1938. Conforme o estatuto, a ‘[...] Caixa Escolar Pedro Ludovico,
instituição de previdencia e assistencia sociais, tem por fim assegurar educação e saúde aos menores indigentes,
proporcionando-lhes, não só meios de alimentação na Escola, mas também de frequentar, com asseio e decência, o
Grupo Escolar Modelo’.
306
escola, afirmou em Memória Cultural: ensaios da história de um povo (1985) que o acervo de
livros que compuseram a biblioteca escolar do Modelo era significativo, em torno de
aproximadamente 1.300 livros.
As sucessivas prestações de contas publicadas semestralmente no Correio Oficial atestam o
sucesso das iniciativas festivas levadas a efeito pelas professoras do principal grupo escolar da
cidade-capital395. De acordo com Julieta Fleury, havia no Banco do Brasil, em 1946, um montante
de 618 mil réis em nome da Caixa Escolar. Além disso, por volta de 1943, o interventor doou, a
esta Caixa Escolar, um terreno ao lado da escola, na Rua 29-A, para que nela fosse construída uma
casa que daria melhores condições para o trabalho assistencial da entidade escolar. O Correio
Oficial de 16 de junho daquele ano noticiou as homenagens rendidas ao interventor pelos alunos do
Modelo em função da sua generosa atitude.
Exprimindo seus sentimentos de gratidão, os alunos do Grupo Escolar Modelo
reuniram-se ante-ontem a-fim de fazerem uma manifestação de apreço ao sr.
Interventor Federal neste estado. O acontecimento se registrou por haver o Chefe
do Governo Goiano assinado um decreto em que doava à Caixa Escola do Grupo
Modelo um terreno em que será construída sede dessa importante instituição de
amparo aos estudantes pobres [...]
A casa foi construída com os fundos da Caixa Escolar e compôs o patrimônio material do
Grupo Escolar Modelo. Inicialmente, foi alugada e os rendimentos do aluguel ‘possibilitaram
melhoria e ampliação de benefício aos alunos’, lembrou a primeira diretora do Modelo em
Memória Cultural: ensaios da história de um povo (1985: 131). Posteriormente, ao que parece, esta
casa foi ocupada por um funcionário da escola e sua família que, nos anos 1970, requereu
judicialmente [e foi contemplado] com base no direito de uso o direito de propriedade da casa que
hoje, por sinal, já foi demolida396.
A diretora do Modelo, Julieta Fleury, era também presidente da Caixa Escolar e sob sua
liderança agiam as professoras do Modelo. A divulgação das atividades promovidas por este grupo
ressaltava sempre, mesmo que rapidamente, o importante papel de sua dirigente. O conjunto de
notas de divulgação, de comentários e avisos relacionados às atividades festivas da Caixa Escolar
da escola permite imaginar como se dava a dinâmica das atividades. A maioria deles, sucintos,
fornece em pequenos espaços muitas informações sobre as festas. Os que foram publicados em 06 e
395
Em 25 de setembro de 1943, por exemplo, foi publicado no Correio Oficial, o décimo primeiro balancete da Caixa
Escolar Pedro Ludovico Teixeira. O documento apresentou um saldo de Cr$ 13.532, 50 e despesas de Cr$ 714,50 sendo
assinado por Julieta Fleury Silva e Souza, Presidente; Odete Fleurí de Barros, vice-presidente; Eleonora Loyola
Azeredo, Tesoureira; Augusta Miranda e Silva, Fiscal; Evertina Bueno da Fonseca, Fiscal e Maria de Lourdes Teixeira
Almeida, segunda-secretária.
396
Esta informação foi fornecida por Cléa Regina M. de B. da S. Aires, atual diretora do Colégio Estadual José Carlos
de Almeida, escola que funciona no prédio construído para abrigar o Grupo Escolar Modelo, em entrevista realizada em
04 de novembro de 2008. Registro digital de voz.
307
23 de abril de 1938 divulgando duas festas possibilitam aquilatar propostas distintas de animação
sócio-cultural bem como a freqüência de duas festas por mês que se manteria nos anos seguintes.
Ei-los:
As gentis senhoritas professoras do Grupo Escolar ‘Modelo’, desta capital,
organizaram, para o dia 09 do corrente, um recital de arte a ser levado no CineTeatro Campinas. O recital, cujo programa esta dividido em duas partes principais,
sendo a primeira constituída de uma exibição cinematográfica e a segunda de
recitativos, bailados, cantos e etc., será oferecida ao interventor Pedro Ludovico e
a seus auxiliares de governo. O lucro da festa reverterá para a Caixa Escolar do
referido estabelecimento. (Grifos meus)
Esta sendo organizada para o próximo sábado, dia 30, no prédio que funciona o
Lyceu, animada soirée dansante em benefício da Caixa Escolar Pedro Ludovico. O
onibus do Estado estará a disposição de todos que quizerem concorrer a esta
festividade. Avisa-se que serão aceitos somente ingressos que tiveram a rubrica da
diretora ou das professoras do Grupo Escolar Modelo. (Grifos meus)
Os nomes das ‘gentis senhoritas’ do Grupo Escolar Modelo também podem ser apanhados
neste conjunto de notas e comentários: Jandira Hermano de Paula, Delzuíta Hermano, Laís
Cruvinel Gordo397, Evertina Bueno da Fonseca, Maria de Lourdes Almeida, Augusta M. da Silva,
Eleonora Loyola de Azeredo, Candida de Passos, Belisaria C. Sacramento, Odilia Mendes de Brito,
Henriqueta F. Pereira, Dina Maria Gordo, Desia de S. Marques, Adelaida R. de Souza, Afonsina de
Freitas, Ana M. Jacomo Cunha, Maria de L. T. Almeida.
Tratadas como discurso, as notas transcritas dão a ver não somente a ação organizada e
conjunta de um grupo de professoras que decidia o programa, escolhia e reservava o local de
realização, visitava os jornais locais para divulgá-lo e confeccionava e vendia convites e ingressos
que selecionavam o seleto público que poderia usufruir o momento de cultura, arte e lazer
promovido por elas. Igualmente é possível perceber o apoio do Estado que, além de divulgar as
festas através da imprensa oficial e de nelas tomar parte, colocava ônibus para transportar os que
tinham interesse – e ingresso – em participar dos eventos, avisos recorrentes na divulgação das
festividades. Por outro lado, dirigir homenagens às autoridades locais, prática também recorrente,
pode ser compreendido como estratégia adotada pela diretora e professoras para incentivar a
participação e as doações por parte da elite goianiense. É Julieta Fleury (MELO, 2007: 118), mais
uma vez, que recupera a intenção oculta atrás das homenagens: ela garantia doações por parte
daqueles que eram agraciados e de seus próximos. No caso do interventor, somente a sua simples
397
Laís Cruvinel era, na verdade, Laís Cruvinel Gordo já que era casada desde 1937 com Nicanor Brasil Gordo. O
casamento, que é relatado por Maria Leal Lúcio em suas memórias, ocorreu após a formatura de Laís no curso normal
do Colégio Santa Clara. Quando se tornou professora do Grupo Escolar Modelo Laís Cruvinel já era, portanto, casada.
Embora não tenha reunido elementos que possam atestar, penso que outras professoras do Modelo também já eram
casadas, embora predominasse o grupo de mulheres solteiras.
308
presença ‘levava as pessoas a fazerem doações para o Grupo’.
Os programas dos festivais artísticos eram, geralmente, compostos de números de canto,
solos instrumentais, declamação de poemas e ‘contação de anedotas’; bailados, encenações teatrais
e exibição de filmes. Momento singular de encenação da alta cultura da sociedade da nova cidadecapital, nestes festivais se apresentavam jovens da ‘boa sociedade’ goianiense como as cantoras
Lourdes Maia e Ondina de Oliveira, a pianista Bellkiss Spencieri, a contadora de anedotas Cremilda
Pinto e outros como Zarita Brandão Perilo, Francisquinha Hermano, Elza Baiochi, Eni Macedo,
Doly Felix de Souza, entre outros. O arquiteto José Nedermeyer decorava os salões festivos. Os
programas das festas e festivais constituíam-se, assim, como sinal de erudição e pela cultura
daquelas que os organizavam bem como dos que, como convidados, deles usufruíam.
7.4 – Com os olhos voltados para a nação
Além das práticas festivas e do envolvimento com as atividades ruralistas, a participação da
juventude estudantil na vida urbana também pode ser detectada na criação de jornais, freqüente
entre os jovens goianienses. Além do já comentado jornal Que me importa? (não vinculado a uma
instituição escolar), várias publicações escolares surgiram pelas mãos dos estudantes da CidadeSertão. Destacam-se, neste sentido, os secundaristas do Liceu de Goiás, as normalistas da Escola
Normal Oficial e os meninos e meninas do Grupo Escolar Modelo. Todos estes grupos criaram e
publicaram jornais escolares que transpuseram os muros da escola e invadiram o cotidiano da
cidade em construção, fomentando práticas de leitura até mesmo em ambientes afastados da cultura
letrada. Segundo Orlinda Carrijo de Melo (2007), numerosas formas de leitura co-existiam na
Capital do Sertão, incluindo a leitura dos que não sabiam ler e encontravam leitores que liam, em
voz alta, aquilo que era publicado em jornais e revistas locais e nacionais e também nos jornais
escolares da cidade.
Em 1939, as moças da Escola Normal Oficial fundaram o jornal Mocidade sob a orientação
de sua professora de português, Maria Paula Fleury Godoi - a escritora Marília Palínea -, cujo
lançamento ocorreu em setembro de 1939. O jornal propunha-se a publicar, segundo uma moradora
pioneira de Goiânia398, ‘[...] notícias da cidade e do mundo, trabalhos de alunos, entrevistas com
professores e pessoas ilustres da cidade ou de fora. Havia uma parte social reservada para noticiar
noivados, casamentos, batizados, primeira comunhão’. No dia 20 de setembro de 1939, a colunista
social Dorita (pseudônimo de Mariana Fleury Curado) escrevia no jornal O Popular (APUD
398
Reproduzido por Santana, Bonetti e Macêdo (2007: 178).
309
MELO, 2007: 111) sobre a festa que lançara o jornal. Seu discurso continha o elogio à iniciativa
das normalistas, ressaltava sua delicadeza e recato e não se eximia em deslizar para a ironia ao
compor uma imagem que coloca a mulher no reino da futilidade e do ‘pouco pensar’.
Foi uma noite alegre a festa do grêmio da Escola Normal. [...] Durante a sessão,
magnífica orquestra executou lindas peças e durante a execução podia se notar o
predomínio da lei dos contrastes. Assim, as normalistas, mocinhas, delicadas,
‘entreabertos botões, entrefechadas rosas’, como disse o poeta, vivendo essa idade
de sonhos, de ilusões e pouco pensar [...] formavam verdadeiro contraste com a
gravidade do ato da fundação do jornal Mocidade, cuja manutenção acarreta
grandes trabalhos, muitas contrariedades e algumas inimizades, mormente se
tratando de jornal do belo sexo frágil que, por isso mesmo, é dado à guerras (outro
contraste). (Grifos meus).
Quanto aos contrates que a articulista observava, é preciso conhecer outro jornal escolar
para compreender integralmente o sentido do discurso. Refiro-me ao jornal O Liceu que trazia
como slogan a frase ‘do estudante pelo estudante’ e era redigido e publicado pelos rapazes do
Grêmio estudantil Félix de Bulhões da prestigiosa instituição de ensino secundário que, ao final de
1937, foi objeto de disputa entre a nova e a antiga capital. Ao final do discurso acima transcrito
havia um alerta aos redatores do jornal O Liceu que teriam, com o aparecimento de Mocidade,
‘mais motivos para elevar o nível cultural e literário dos seus artigos. A concorrência é agora com o
belo sexo frágil’. E, a frase final sinaliza para o que, de fato, visava a articulista de O Popular. ‘Já é
hora de parar com estes artigos desconfortantes sobre comunismo e outras coisas indesejáveis’,
escreveu ela.
Orlinda Carrijo de Melo (2007) considera que Dorita reagia, em nome da ordeira e cordata
sociedade goianiense, às imagens indesejáveis forjadas pelo O Liceu. Elaborando um discurso de
censura – ‘Já é hora de parar [...]’ -, a colunista sintetizava o temor que textos e discursos ofensivos
a ordem instaurada viessem borrar a modernidade anunciada e perseguida pelas elites que faziam a
cidade. Assim, nas palavras desta autora (2007:113), “se, nas cidades civilizadas, havia um
movimento contra o comunismo, também na cidade que se quer moderna, Dorita projeta suas
representações imaginárias contra as ideias nocivas à ordem da modernidade” (Grifos da autora).
Lidando com o pensamento da esquerda política em pleno período estadonovista, o jornal O Liceu
era a síntese do ambiente literário e cultural do Liceu de Goiânia, antecipando, inclusive, as
posturas de resistência que os estudantes desta escola viriam a assumir diante do regime autoritário
das décadas de 1960 e 1970.
Mas, o ambiente tenso e culturalmente aberto do Liceu causava desconfiança em muitas
famílias de Goiânia que preferiam ver suas filhas estudando em colégios religiosos ou na Escola
Normal Oficial. “Estudar no Liceu significaria entrar em contato [...] com as práticas de leituras
310
proibidas, principalmente para mulheres”, revela Melo (2007: 108). Deste ponto de vista, os dois
jornais escolares aqui tratados representavam pólos opostos e contraditórios da modernidade de
Goiânia: de um lado, uma modernidade permitida emergia no bom comportamento das moças da
Escola Normal Oficial, tornado visível em seus interesses expressos no jornal Mocidade; de outro,
uma modernidade proibida encontrava terreno no ambiente do Liceu e na ‘movimentação
desvairada’ de seus estudantes sendo o jornal O Liceu sua expressão maior.
Dois outros jornais merecem ser lembrados: O Tico-Tico e A Branca de Neve, produzidos
pelas crianças do Grupo Escolar Modelo sob a supervisão e orientação de suas professoras. O
primeiro feito por meninos dirigia-se a outros meninos; o segundo feito por meninas voltava-se para
o mundo das meninas. Estes jornais pareciam antecipar as distinções que deveriam marcar a
inserção do homem e da mulher no mundo letrado. Distintos eram seus papéis e seu lugar na
sociedade da época. Então, ‘cada jornal tinha os assuntos específicos dos seus leitores’, como
contou Julieta Fleury399.
Os meninos gostavam de outros assuntos, futebol, livros de aventuras e histórias de
cavalaria e até de política. As meninas gostavam de assuntos mais amenos,
próprios de mulheres; escreviam histórias sobre príncipes encantados, davam
notícias sobre as festas da escola, jogos de adivinhações e até receitas culinárias.
Entre as novas práticas corporais instauradas na Cidade-Sertão, chamam atenção as práticas
esportivas. Incentivado pelo Estado Novo, o esporte sintetizava os ideais de formação de um
homem física e moralmente apto à vida urbana, moderna e capitalista. Em especial, o futebol foi
visto como uma das dimensões que naquele momento contribuíam para a formação de uma
identidade para o Brasil e para o brasileiro. Ricardo Lucena (2001) demonstra em O esporte na
cidade que, desde as décadas finais do século XIX, práticas corporais competitivas e
institucionalizadas – o turfe e o futebol - invadiram o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro como
práticas civilizatórias de seus praticantes (as elites) e daqueles que os assistiam (a população
carioca, de modo geral). Na chamada Era Vargas, o caráter elitista do esporte perdeu espaço para
sua popularização sob o apoio e tutela do Estado Nacional, o qual o tratou como instrumento
ideológico a serviço de projeto de nação e de Estado representado pelo regime estadonovista.
Na nova cidade-capital de Goiás, o momento do surgimento de Goiânia é também o
momento em que o esporte foi instaurado como prática moderna e com enorme potencial
civilizatório. Os moços e moças da cidade também se envolveram em jogos e competições
esportivas, ora como promotores e organizadores, ora como expectadores e assistentes, ora como
399
Reproduzido por Melo, 2007, p. 114.
311
atletas escolares em ação. Ressalto, neste sentido, as chamadas Festas Esportivas ou Circuito
Esportivo de Goiânia e os jogos de basquete entre escolas da cidade e também entre escolares de
Goiânia e de cidades vizinhas. As Festas Esportivas ocorriam por ocasião das comemorações do
aniversário da cidade – 24 de outubro – sendo as corridas de ruas seu momento áureo. Virgínia
Pereira Mendes400, uma moradora pioneira, lembra que a ‘[...] corrida de motocicleta [...] era a festa
que mais a mocidade ia’. Afinal, era dia de ‘[...] vestir roupas novas [...]’ para, depois das corridas,
frequentar as festas oferecidas aos vencedores das provas e dançar com os rapazes que chegavam
do interior e com os da própria capital ao som da jazz band da Polícia Militar. Momento de
celebração coletiva, as Festas Esportivas de Goiânia reforçavam os sentidos da modernidade da
nova capital de Goiás.
Encontrei indícios também da participação da juventude estudantil em práticas voltadas para
estas festividades de comemoração ao aniversário de Goiânia, o que demonstra que os moços e
moças goianienses também aderiam, como atletas escolares, ao apelo da cidade. É o que foi
noticiado em 19 de outubro de 1943 pelo Correio Oficial. Com o título de Vida esportiva,
divulgava-se que estavam sendo
Coroados de êxito os primeiros treinos para a competição atlética feminina entre
estudantes de Goiânia. Pela primeira vez e em preparação ao gigantesco
campeonato de atletismo que será realizado em Goiânia em 1944, assistiremos [...]
uma brilhante competição atlética entre moças de nossa melhor sociedade.
Aderiram, com entusiasmo, ao movimento esportivo os seguintes estabelecimentos
de ensino: Escola Normal Oficial, Escola Complementar, Colégio Oficial de
Goiaz, Grupo Escolar Modelo, faltando apenas a adesão do Colégio Santa Clara,
sediado em Campinas.
A montagem de equipes e a organização de jogos e competições esportivas entre escolas
são, portanto, momentos de significativa importância na participação da juventude estudantil de
Goiânia no processo de construção da cultura urbana da nova cidade-capital de Goiás. O Liceu de
Goiânia era o grande centro do esporte escolar abrigando equipes feminina e masculina de
basquetebol, as quais promoviam, com regularidade, jogos com times escolares de cidades do
interior goiano e de cidades do Triângulo Mineiro. Noticiados e cobertos pela imprensa local, os
jogos de basquete dos times do Liceu atraíam autoridades políticas e intelectuais, tendo no público
jovem sua maior assistência.
O movimento esportivo promovia contextos de intercâmbio entre a juventude de Goiânia e
os jovens de outras cidades goianas e não goianas. Também é esse – o intercâmbio cultural - o
elemento fundamental para compreender as relações que, naquele momento, foram estabelecidas
entres estudantes da capital goiana e estudantes das regiões consideradas progressistas e civilizadas
400
Reproduzido por Santana, Bonetti e Macêdo (2007: 172)
312
do país. O movimento de visitas de caravanas e embaixadas estudantis a nova cidade-capital goiana
era o contexto privilegiado para os contatos entre a juventude de Goiás e os jovens de outros
estados brasileiros. Apoiadas pelo Estado e pelas elites econômicas regionais, grupos de estudantes
secundaristas e universitários adentraram os sertões a oeste em direção a Goiás, rumo a Goiânia.
Vinham, principalmente, das escolas e universidades do Rio de Janeiro e São Paulo, mas também
do interior de Minas Gerais e até mesmo da cidade de Recife.
Na capital goiana, uma programação intensa os aguardava: desde a descida do avião ou do
ônibus até o final da viagem, cerimônias e cerimônias se sucediam. Visitas às escolas, reuniões com
o interventor e com estudantes da cidade-capital, jantares e bailes de gala nos salões do Grande
Hotel, churrascos e piqueniques às margens do córrego Botafogo, pequenas viagens diárias a
cidades vizinhas que experimentavam surtos de progresso – como Anápolis -, eram as mais
freqüentes atividades. A imprensa dava ampla cobertura à visita das caravanas, noticiando os
eventos e tecendo comentários elogiosos ao comportamento educado e cortês de seus jovens
membros apresentando-os a sociedade goianiense como modelos da sociabilidade moderna e
urbana que deveriam substituir os traços do caipirismo do jovem goiano.
Em todos os momentos, em seus discursos solenes, as autoridades, os estudantes goianos e
os visitantes celebravam a Cidade-Sertão como símbolo da unidade nacional que, finalmente,
estava em vias de ser alcançada graças à ousadia e arrojo dos de Goiás. Integrada a nação, era hora
de construir a cooperação e a solidariedade entre as suas várias regiões, seguiam afirmando os
discursos. Como demonstração do espírito de solidariedade, os estudantes das caravanas se
envolviam, durante o período de sua estadia em Goiânia, com as propostas assistencialistas da elite
goianiense. Promoviam e participavam, então, de eventos beneficentes ou faziam doações às
instituições de assistência e caridade que se instalavam na cidade. As
várias
embaixadas
universitárias da USP são, neste sentido, exemplares. Além da Campanha que resultou na Estátua
do Bandeirante - realizada pela Embaixada que esteve em Goiânia em 1937 -, alguns anos depois,
em 1941, outra Embaixada organizou uma corrida de rua beneficente em favor da Santa Casa de
Misericórdia de Goiânia.
Em especial, os bacharéis da Faculdade de Direito de Goiás e os secundaristas do Liceu de
Goiânia se empenharam em inserir-se nos movimentos estudantis que marcaram o Brasil nos anos
1930 e 1940. A imprensa local, como sempre, louvou o empenho dos estudantes de Goiânia. No
número inaugural da revista Oeste (1942:16), por exemplo, em um comentário sobre A mensagem
da ‘Casa do Estudante do Brasil’ aos estudantes goianos, o articulista reconhecia ‘[...] o esforço
que vem o Centro XI de Agosto, da Faculdade de Direito de Goiás, desenvolvendo em favor do
intercâmbio das diversas entidades educacionais do País’.
Ana Amélia C. de Mendonça, presidente da Casa do Estudante do Brasil, escrevia aos
313
estudantes goianos acerca de ‘um motivo particularmente grato a todos daqui’, continuava o
comentarista. O Batismo Cultural era o momento e a cidade-capital era o tema da Mensagem e,
nela, Ana Amélia afirmava compartilhar o ‘júbilo da mocidade goiana’ vendo em Goiânia ‘[...] um
símbolo dessa mesma juventude, isto é, uma luminosa certeza do futuro do Brasil’. A ‘pequena mas
entusiástica delegação de jovens’ enviada ao Batismo esperava ‘[...] testemunhar o seu ardor
patriótico e a sua decidida cooperação em tudo o que concorre para o engrandecimento intelectual,
moral e material do nosso país’, sentenciava a líder estudantil em um discurso de reconhecimento
do valor da mocidade goiana para o futuro da nação.
E, finalmente, cumpre abordar a adesão da juventude estudantil da nova cidade-capital
goiana às demandas que surgiam no centro dinâmico da nação. Dois momentos me parecem, então,
essenciais: o recenseamento de 1940401 e a Campanha da Borracha Usada em 1943. Em ambos, é
possível identificar a presença dos moços e moças das escolas de Goiânia. É possível compreender
a partir das fontes escritas que toda a sociedade goiana se empenhou em participar destes dois
momentos. No primeiro – o censo de 1940 -, houve o estímulo dado pelo governo estadual por
meio de prêmios e distinções. Diversos extratos e segmentos sociais regionais se envolveram nestes
processos esperando contribuir para o sucesso, em Goiás, das propostas do Estado Nacional. Os
municípios, a Igreja, sindicatos de trabalhadores e associações patronais e as escolas e órgãos
ligados à sua gestão lançaram-se todos à tarefa de realizar a contabilidade das populações
espalhadas pelo território goiano.
O Recenseamento de 1940 e também o IBGE - o órgão que o coordenou - eram peças
importantes na política modernizadora do Estado Novo. Por meio deles, o regime adentrava no
terreno da racionalidade técnica intentando suprir a escassez de estatísticas confiáveis sobre a
realidade nacional assim como obter informações precisas sobre a geografia brasileira. O Estado
Novo se propunha a construir o Brasil moderno. Tomando de empréstimo a expressão de Libânea
Nacif Xavier (1998), o censo de 1940 buscava, de fato, delinear um ‘retrato de corpo inteiro do
Brasil’. Para o campo da história da educação importa ressaltar, ainda conforme Xavier, que o
paradigmático A Cultura Brasileira, de Fernando de Azevedo, foi encomendado pelo governo
federal para constituir-se na introdução do Censo.
Em Goiás, seguindo as orientações da Comissão Censitária Nacional402, o governo estadual
401
Regulamentada pelo decreto 237 de 02 de fevereiro de 1938.
Esta Comissão formulou e colocou em andamento uma política de propaganda que visava divulgar, junto a
população brasileira, a necessidade e os benefícios advindos do censo. Sugeria, para isso, que cada unidade federativa
produzisse material de propaganda e aproveitasse os meios de comunicação disponíveis. Entre as sugestões, se
recomendava que a divulgação deveria ocorrer em recreações e festas cívicas e escolares, utilizando-se concursos,
cartazes artísticos, cartões postais, clichês, letreiros luminosos, carros-reclame, teatro, folhinhas do recenseamento,
dísticos, papel de embrulho, telegramas, programas de cinema, brinquedos infantis, circulares, monografias. Imprensa,
clero, exército e armada, casas editoras e cinemas deveriam ser chamadas a colaborar. Recomendava-se, afinal, que a
propaganda devia atingir ‘empresas de estrada de ferro e transporte, nos edifícios e veículos respectivos’, as inspetorias
402
314
providenciou a impressão de selos de divulgação e instituiu prêmios de 50 e 30 mil réis aos ‘[...]
dois municípios que melhor e mais eficiente colaboração prestassem aos serviços censitários [...]’,
conforme se lê no Correio Oficial de 16 de março de 1940. No dia 28 do mesmo mês, o jornal
noticiava que a prefeitura de Goiânia dava o exemplo ao criar juntas de propaganda censitária nos
distritos da cidade-capital. Segundo o Correio Oficial de 08 de maio, outros municípios goianos
como Corumbá, Pirenópolis, Anápolis e Jaraguá seguiram o exemplo de Goiânia. Em junho de
1940, segundo artigo de primeira página publicado com o título Nossa contribuição à causa
censitária, o Jornal anunciava que também criara uma premiação que seria oferecida ao município
que alcançasse o terceiro lugar na coleta de informações: ‘[...] um folheto de propaganda, de 100
páginas contendo os dados do Recenseamento e farta documentação fotográfica’.
As notícias sobre os trabalhos do Censo, muitas vezes publicadas abaixo de chamativas
manchetes, se sucediam revelando que o Estado em sua esfera regional tratava o censo de 1940
como algo de grande importância e significado, exatamente como planejara o Estado Novo.
Durante aquele ano de 1940, o Recenseamento catalizou quase todas as atenções somente
encontrando concorrência na visita de Getúlio Vargas à capital goiana em agosto desse mesmo ano.
No caso do censo, a ideia de eficiência e colaboração atrelava-se ao que foi chamado por J.
Carneiro Felipe403, presidente da Comissão Censitária Nacional, de ‘honrosa tradição censitária de
Goiás’. A ideia era que a tarefa fosse feita de modo competente e, sobretudo, rápido para que a
projeção da região fosse alcançada. A pressa em fazer deu resultados e Goiás foi, entre as unidades
federativas brasileiras, ‘[...] o primeiro a concluir a fase mais pesada dos trabalhos – coleta’,
conforme noticiou o Correio Oficial de 14 de novembro de 1941. A nota informava também que os
municípios de Goiânia e Itaberaí eram os vencedores do concurso instituído pelo governo estadual.
No interior do esforço censitário dos goianos, ressalto aquele relacionado à contabilidade
das populações escolares, o que sinaliza para o envolvimento, no Recenseamento, do campo escolar
goiano e goianiense, de modo particular. O governo estadual também estimulou os professores e
diretores escolares goianos a colaborar no censo. Não criou premiações, mas forneceu
recomendações e fez pedidos. Vasco dos Reis, diretor de Educação, em ofício enviado aos diretores
das escolas goianas – e publicado em 26 de janeiro de 1940 no Correio Oficial – recomendava ‘certo que, desse modo, o magistério de minha terra prestará um grande serviço ao Brasil’ - que
professores e diretores fizessem ‘[...] a leitura, em sala de aula das preleções sobre o
Recenseamento [...]’ estimulando os estudantes a colaborar com os recenseadores. Depois,
das estradas de rodagem, os estabelecimentos de ensino primário, secundário e superior, as repartições públicas, praças,
ruas e logradouros, oficinas e estabelecimentos industriais, casas de diversões, clubes esportivos, museus, bibliotecas,
mercados, feiras livres e permanentes, festas populares e religiosas, leilões, espetáculos eqüestres, de cinema, de teatro,
passeatas cívicas, excursões, etc. In: Comissão Censitária Nacional. Algumas sugestões para a propaganda do
Recenseamento de 1940. www.biblioteca.ibge.gov.br.
403
Em A Honrosa Tradição Censitária de Goiaz. Correio Oficial do Estado de Goiás, 12/04/1940, p.1.
315
dirigindo-se exclusivamente aos gestores escolares, afirmava que a Diretoria da Educação esperava
a sua colaboração para o bom andamento do censo escolar.
Por sua vez, os moços e moças que freqüentavam as escolas de Goiânia também não ficaram
a parte do esforço censitário goiano nele se inserindo de forma voluntária. Em 25 de maio, a adesão
dos estudantes da nova cidade-capital apareceu no Correio Oficial e, embora intitulada A juventude
das escolas em Goiaz adere á causa do recenseamento, a matéria trata somente da adesão dos
estudantes goianienses. Gesto aplaudido, [...] ‘os alunos da Escola Normal Oficial e do Liceu desta
cidade acabam de por á disposição da Delegacia Regional do recenseamento [...], uma pagina de
seus jornais, respectivamente Mocidade e O Liceu’. Orgulhosa e satisfeita estava a sociedade
goiana com a iniciativa dos estudantes de Goiânia, inclusive, porque ‘[...] aqueles jornais [eram]
mantidos pelos próprios alunos que para esse fim cotizam, mensalmente’. Afinal, a adesão
voluntária dos jovens da cidade ao trabalho do Censo, ‘[...] pelo seu espírito espontâneo define
expressivamente a mentalidade da geração que surge’.
Outro momento de adesão entusiasmada às demandas da nação pode ser visualizado durante
a Campanha da Borracha Usada, movimento desencadeado pela Legião Brasileira de Assistência
(LBA) em 1943 como parte de esforço de guerra brasileiro. Todo o estado de Goiás inseriu-se neste
esforço: ‘Em tôdas as cidades, em todas as vilas, em todos os povoados, em todos os núcleos de
população [...]’, a Campanha se instalara, afirmou o Correio Oficial em 27 de agosto de 1943.
Porém, na cidade-capital o movimento assumiu os ares grandiloquentes de salvação da pátria. Era
este o espírito que parecia animar as instituições escolares goianienses em sua participação neste
movimento. Auto-imbuídos de expectativas salvadoras, as escolas, os professores e os estudantes
da Cidade-Sertão lançaram-se à procura e reunião do rico material que não poderia, naquele
momento da vida nacional e mundial, ser simplesmente jogado no lixo. Uma competição foi
instituída entre as escolas com premiação para a que conseguisse um montante maior de borracha.
O Correio Oficial dedicou grande espaço à Campanha sendo que durante os meses de junho
e setembro de 1943 este, talvez, tenha sido seu principal tema. As matérias jornalísticas, neste
sentido, destacavam os esforços realizados pelas escolas, como em 18 de agosto quando elogiou as
normalistas da Escola Normal Oficial e afirmou que ‘o movimento estudantino em prol da
Campanha da Borracha Usada, em Goiaz, atingiu uma verdadeira apoteose, graças ao espírito
patriótico da nossa gente’. Em seguida citava o peso da borracha arrecadada pelas estudantes da
escola: 478.600 quilos. Mas apesar do esforço, a Escola Normal Oficial não venceu o concurso.
Quem ganhou o prêmio foi as crianças do Grupo Escolar Modelo (Imagem 25) que conseguiram
amealhar 2.371.370 quilos de borracha usada. A premiação ocorreu em cerimônia realizada no
salão de festas do Palácio do Governo ‘com a presença do [...] honrado interventor federal, da
exma. Sra. Da. Gercina Teixeira, presidente da LBA’ [...].
316
Imagem 25
Pedro Ludovico Teixeira entrega premiação aos estudantes do G.E. Modelo em 1943
Fonte: Correio Oficial do estado de Goiás, 1943
A Campanha da Borracha Usada e o Recenseamento de 1940 possibilitavam demonstrar à
nação ‘o elevado grau da cultura cívica’ do povo goiano, conforme se escreveu no Correio Oficial
em 18 de agosto de 1943 a respeito da Campanha da Borracha. Estes dois acontecimentos
carregavam a oportunidade de conquistar a visibilidade que as elites de Goiás ansiavam obter no
espectro da nação. Os goianos não as desperdiçaram, nelas se empenhando com a expectativa de
consolidar, assim, seu lugar de pertencimento. Fazer antes e melhor que os outros ou fazer mais e
melhor que os outros, era a perspectiva que orientava as adesões de Goiânia - e da escola que ali
surgia - às demandas da nação. O campo educacional da cidade que crescia em meio ao sertão
aderiu, também por meio de sua participação nestes acontecimentos, aos sentidos que estavam
sendo tecidos para a nova capital goiana reforçando, em particular, a simbologia da cidadeeducadora.
Como na ação dos jovens estudantes goianienses em sua busca de intercâmbio cultural e
educacional com estudantes de outras regiões brasileiras, a participação das escolas da cidadecapital nestes momentos era dirigida ao centro dinâmico da nação. A nação, a meu ver, parece ter
acolhido também os sentidos de Goiânia como indício da possibilidade de construção da pátria
forte, unida e rica. A discursividade que dizia da modernidade e do pertencimento encontrou
ressonância entre intelectuais, Estado e imprensa nacionais. Goiás foi elogiado pela sua ousadia
bem como teve reconhecida a ‘luta ciclópica’, a ‘luta insana’ de seu povo e a coragem e
clarividência de seus dirigentes que, quase sozinhos, construíam uma moderna cidade no sertão.
Mas seria possível conferir visibilidade a comunhão de interesses e expectativas que, em certo
momento da vida nacional, congregaram a região e nação em torno da questão educacional?
317
CAPÍTULO VIII
A EDUCAÇAO DOS SERTANEJOS: UM ELO ENTRE A NAÇÃO E A REGIÃO
8.1 – O entusiasmo da nação: a educação como ponto de fusão de interesses e expectativas
nacionais e regionais
[...] quase no centro de nosso quadro geográfico, em contato
com a ambiência mais caracteristicamente brasileira que se
poderia desejar, confirmou-se uma nova e moderna metrópole
na sua magnífica destinação política, social, econômica e
cultural: a de se constituir efetivamente o marco inicial e, ao
mesmo tempo o ponto de apoio da nova política do Brasil –
aquela política que há de integra-lo, erguê-lo, torná-lo
invulnerável em sua grandeza, para quantos se abrigarem sob
sua bandeira, e como fulcro poderoso de solidariedade pacífica
e harmônica dos povos dêste continente. (Grifos meus)
José Augusto Bezerra de Medeiros, Fernando Tude de Souza e Mario
Augusto Teixeira de Freitas
O movimento dos jovens estudantes de Goiânia em direção ao universo educacional
nacional bem como a contrapartida daí resultante indicam que os de Goiás puderam contar com o
apoio e adesão de outros sujeitos para compor e reforçar os sentidos da cidade-capital e, em
particular, a imagem de cidade educadora. Então, se inicialmente os discursos e práticas que
constituíam a imagem da cidade da educação se voltaram para a sociedade goiana no sentido de
convencê-la sobre a pertinência e necessidade de abrigar a capital do estado em uma cidade
moderna e dinâmica, aos poucos e por ação intencional e planejada dos goianos, foram transpondo
os limites do estritamente regional e adentrando no espectro ampliado do nacional. Pensados como
‘os de baixo’ da nação, nascidos no ‘menos educado’ entre os filhos do grande país-pai, os goianos
jogavam ‘as astúcias da tática’ valendo-se das brechas que surgiam na vida política e cultural
brasileira para dar a ver a potencialidade da cidade que surgia, plena de promessas, no centro
geográfico do Brasil.
318
O trecho epigrafado é parte do texto introdutório dos Anais do VIII Congresso Brasileiro de
Educação realizado em Goiânia em 1942 durante o seu Batismo Cultural. Trata-se de um discurso
que sinaliza para a apropriação e enriquecimento, pelos intelectuais-educadores brasileiros, da
discursividade que constituía os sentidos de Goiânia como cidade moderna e ‘cadinho onde se
unem sertão e litoral’. Muitos outros discursos poderiam ser apanhados como demonstração que os
círculos dinâmicos da nação reconheciam o esforço civilizatório que era então realizado no estado
de Goiás, concedendo-lhe o pertencimento e mesmo a ‘saliência’ tão ansiosamente esperadas por
suas elites. Este, no entanto, ganha ênfase a partir de uma perspectiva específica: a de que a
educação se constituiu, naquele momento, um importante elo que atava as expectativas da região e
os interesses da nação.
Eram tempos, lembremos, em que a construção da nação moderna mobilizava mentes e
corações e a ideia de um Brasil andejo, sempre a caminho do centro territorial, catalisava
esperanças e projeções de um grande e belo futuro para o país. No projeto de forja de uma nação
una, forte e civilizada, a educação aparecia como panacéia para os males que afligiam o corpo
pátrio; o único e salvador caminho para que populações amorfas e espalhadas pelo enorme território
brasileiro fossem conformadas ao modelo societário capitalista e moderno que habitava os
horizontes das elites nacionais. O momento apresentava-se, portanto, pleno de oportunidades para
consolidar a simbologia de um Brasil que marchava para seu ‘coração’, lugar do autenticamente
nacional. Neste sentido, a instauração do Estado Novo em 1937 foi instrumento que permitiu e
estimulou a invenção dos goianos na medida em que promoveu oportunidades impares para o
espraiamento e reforço da simbologia de uma cidade-capital moderna e lugar da unidade de uma
nação ‘feita de espaço’ (VIDAL & SOUZA, 1998: 17). Eram tempos, enfim, de fazer voar Goiânia,
o ‘grande pássaro sem asas’ da intelectualidade moça de Goiás.
Até mesmo a coincidência de datas se revelaria proveitosa para os goianos. Feita capital em
março de 1937, Goiânia assistiria, alguns meses depois (novembro de 1937), a ascensão de um
regime autoritário que tomava, como um de seus grandes projetos, a unificação da nação
dilacerada. Naquele contexto, vincular o surgimento de um regime que se fundava na ideia de
construir uma grande pátria unificada ao surgimento de uma cidade-capital construída no ‘coração
do Brasil’ foi uma tática mobilizada pela intelectualidade regional para apresentar Goiânia aos
olhos nacionais. É exatamente este o momento em que a discursividade que constituía os sentidos
da cidade começou a ser dirigida aos centros dinâmicos da nação. E, principalmente depois de
1937, os discursos que, do litoral, constituíam os sentidos de uma nação que marchava para o
interior e aqueles que, do sertão, afirmavam a potencialidade do Brasil que vivia dentro do Brasil
ajustaram-se, confundindo-se.
Incontáveis caravanas de intelectuais, estudantes, artistas, jornalistas e empresários
319
dirigiram-se ao interior brasileiro, visitando Goiânia em um movimento denominado na imprensa
local de Marcha intelectual para o Oeste. Jornais e revistas que circulavam nos grandes centros
urbanos publicavam artigos, relatos e comentários sobre a cidade-capital goiana ressaltando, com
frequencia e regularidade, o milagre que se fazia em Goiás. E, finalmente, o Estado Nacional,
voltando os olhos para Goiânia e seu celebrado significado moral, cívico e econômico, dirigiu ações
e políticas que consolidavam a imagem que a região, ainda que momentaneamente, era uma antítese
das representações do mundo sertanejo como território da ignorância e da barbárie.
A atenção do Estado Nacional concretizou-se, principalmente, nas políticas voltadas para a
promoção do desenvolvimento econômico das regiões campesinas do centro-oeste buscando
integrá-las à nação por meio do incremento produtivo das suas férteis áreas consideradas
inoperantes. Mas a integração produtiva dos sertões a oeste trazia consigo a necessidade de educar
suas populações para a vida e o trabalho rural habilitando-a ao uso de formas modernas de
produção e consumo, conformando novas mentalidades e comportamentos para o povo sertanejo.
Assim, os programas varguistas de integração continham a proposta de desenvolvimento produtivo
destas regiões e, em seu interior, de progresso educacional de suas populações (NEPOMUCENO,
1994).
Por outro lado, é preciso lembrar que a imagem de um Brasil cindido à espera da unificação
– da qual Euclides da Cunha foi o grande pensador – impactou entre os educadores brasileiros ao
longo do século XX. Afinal, no cerne de luta pela democratização da escola para todos os
brasileiros, destacava-se a enorme responsabilidade regeneradora atribuída à educação para a
superação dos atrasos e dos arcadismos brasileiros e, especificamente, para a reversão do desolador
quadro da vida nos sertões. Era impossível ficar imune ao apelo de construção da nação advindo da
grita euclidiana: os educadores, como parte ativa de uma intelectualidade comprometida com o
progresso e a civilização, também elaboraram imagens e representações sobre o Brasil e o fizeram
seguindo de perto as pistas do autor de Os Sertões ou, como coloca Freitas (2000), “mergulhando
no espelho de Euclides” 404.
Conforme afirma Freitas (2000: 42), entre os anos 1920 e 1960 a trajetória intelectual dos
educadores brasileiros possui dois momentos extremamente profícuos e vigorosos sendo que, em
ambos, a interpretação dualística de Euclides da Cunha subsidiou a produção de intelectuais como
404
Para Marcos Cezar de Freitas (2000), se a herança euclidiana é indiscutível nas imagens do Brasil geradas pelos
educadores brasileiros, é também indiscutível que houve re-elaborações importantes “[...] à medida em que muitos
educadores se tornaram ensaístas com luz própria” e também á medida em que estes intelectuais – particularmente
Anísio Teixeira - se envolveram com a defesa da escola pública bem como ao combate à característica privatista que
perpassava a sociedade brasileira. Em especial, o combate ao privatismo requereu destes intelectuais um esforço
intelectual e argumentativo considerável, contribuindo para a afirmação de sua capacidade de projetar imagens e
construir sínteses históricas sobre o Brasil.
320
Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Vicente Licínio Cardoso, Lourenço Filho e Paschoal
Lemme e ainda alguns que se fizeram, posteriormente, interlocutores desse grupo: Florestan
Fernandes, Antonio Cândido, Luiz Pereira, entre outros.
O primeiro momento foi o dos anos vinte e trinta, nos quais se interpelava o
Estado a construir a obra educativa necessária a equiparação dos muitos brasis.
Os ecos dos sertões na grita de Euclides da Cunha reverberam com força. [...] O
segundo momento de vigor intelectual ocorrerá na segunda metade da década de
cinqüenta, quando o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais promoveu um
novo mergulho no espelho de Euclides.
A Marcha para o Oeste, programa-síntese de um projeto de nação compartilhado por grande
parte destes intelectuais-educadores, foi desencadeada pelo governo federal em 1938. Entretanto,
quatro anos depois, em 1942, foi oficialmente lançada em Goiânia por ocasião do seu Batismo
Cultural. Se interpretado como discurso que dizia da vinculação entre a nação e a região, nada
poderia ser mais representativo: o lançamento da Marcha confundia-se com o momento em que a
Cidade-Sertão era entregue, também oficialmente, à Goiás e ao Brasil. Várias iniciativas
relacionadas à Marcha já se encontravam em andamento como a instalação, em 1941, da Colônia
Agrícola Nacional de Goiás (CANG). A Expedição Roncador-Xingu, outra frente de atuação da
Marcha também já adentrara, desde 1938, os sertões de Goiás e Mato Grosso, abrindo estradas e
estabelecendo contatos com as aldeias indígenas da região. Por sua vez, a cidade-capital goiana já
era uma cidade entregue a sua população, cumprindo plenamente seu papel de centro cultural,
político e administrativo do estado de Goiás. Ou seja, Goiânia e a Marcha já estavam
‘inauguradas’, fazendo com que o Batismo fosse teatralizado e a celebração oficial e conjunta, uma
encenação da ideia da nação unificada.
Ainda mais instigante, deste ponto de vista, é pensar que o Batismo foi atravessado pela
atenção à questão educacional. O VIII Congresso Brasileiro de Educação da Associação Brasileira
de Educação (ABE) trazendo, em seu bojo, a Segunda Exposição Nacional de Cartografia,
Educação e Estatística, organizada pelo IBGE, se constituiu no principal evento do Batismo,
amalgamando-se também com ele. Os Anais do Congresso da ABE é uma expressão deste
amalgama: ele contém, além dos textos relativos ‘às teses’ apresentadas no evento, a programação
completa do Batismo Cultural, inclusive as ‘solenidades inaugurais’, os ‘certames cívicos e
culturais e outras festividades’, as ‘festas e homenagens aos congressistas’ e um item em que
aborda ‘a nova metrópole’. Publicado em outubro de 1944, portanto dois anos depois da realização
do Congresso, a edição foi patrocinada pelo IBGE tendo José Augusto Bezerra de Medeiros,
Fernando Tude de Souza e Mário Augusto Teixeira de Freitas formado a Comissão Redatora dos
Anais.
321
A centralidade do Congresso tornou a educação em sua forma escolar a grande estrela do
acontecimento que, no centro geográfico do país, reunia os anseios e expectativas regionais e
nacionais em fazer do Brasil grande um grande Brasil. Discutindo o ensino rural – seu tema
principal – o Congresso da ABE pode ser compreendido como sinal do entusiasmo e da adesão dos
meios educacionais e intelectuais e do Estado brasileiros ao surgimento de Goiânia e sua promessa
civilizatória e integradora. Desta ótica, instituiu-se um duplo movimento cujo eixo de articulação
era a questão educacional: de um lado, por meio do Estado Nacional, de seus intelectuais e
educadores e em função do projeto de poder que estava em curso, a nação reconhecia e valorizava a
nova capital estadual, tirando proveito da iniciativa das elites e do Estado goianos e aderindo aos
sentidos constituídos para a cidade. De outro, os de Goiás igualmente aproveitavam as brechas que
o Regime deixava abertas para fazer do Congresso um dos principais meios de divulgação da
imagem de cidade-educadora e, assim, expandir e reforçar a simbologia de modernidade e
pertencimento à nação da nova capital goiana.
Já havia alguns anos que a ideia da realização de um congresso da ABE em uma cerimônia
de inauguração oficial da cidade era veiculada em Goiânia. Em 05 fevereiro de 1939, por exemplo,
o jornal O Popular publicou o discurso proferido por Mario Augusto Teixeira da Freitas quando
entregou, em dezembro de 1938, a presidência da ABE a Fernando de Azevedo. É um dos discursos
que me permitem trabalhar a hipótese aventada de que a questão educacional constituiu-se no ponto
de fusão entre interesses e expectativas nacionais e regionais. Neste discurso, Teixeira de Freitas
explicou a decisão da ABE em lotar na capital goiana o seu Oitavo Congresso, o primeiro a ser
realizado depois de um lapso de sete anos405 e o primeiro a ocorrer durante um regime autoritário.
O discurso revela que a iniciativa da proposta de realização do Congresso partiu de Pedro Ludovico
Teixeira e que, desde o início, o Congresso e o Batismo foram pensados juntos. O Congresso
constituiria o Batismo.
Este certame pelo que deliberara o congresso de 1935, tendo em vista a proposta
da delegação paraense, deveria realizar-se em Belém. Mas as dificuldades
financeiras com que tem lutado o estado do Pará, levou o seu governo, depois de
demorada resolução, a desistir da preferência que lhe estava assegurada. E como o
governo do estado de Goiás nos tivesse manifestado o desejo de que o referido
congresso se realizasse em Goiânia constituindo o ‘batismo cultural’ da nova
capital do estado, ao ter logar o ato de sua inauguração oficial em junho de 1939,
compromissos definitivos foram assentados entre a presidência da ABE e s. exma.
O Interventor Pedro Ludovico. (Grifo meu)
No longo discurso, Teixeira de Freitas enumera os inúmeros pontos de um ‘plano
405
O VII Congresso teve como tema a Educação Física tendo se realizado na então Capital Federal, Rio de Janeiro, em
1935.
322
combinado’ com Ludovico. Na verdade, tratava-se de explicitar um acordo entre a ABE, o IBGE e
os governos estadual e federal para que o Congresso fosse realizado na capital de Goiás. Mais que
isso, o ‘plano combinado’ indica que Teixeira de Freitas e Pedro Ludovico delinearam, anos antes e
de forma detalhada, não somente o VIII Congresso Brasileiro de Educação, mas também o Batismo
Cultural de Goiânia. Desde os convidados, passando pelas atrações culturais e pelos meios de
transporte de congressistas e pelo registro em imagem e som do evento, até a proposição de se
organizarem eventos paralelos ao Congresso, nada parece lhes ter escapado. Ao olhar para a
programação do Batismo e, principalmente, para os preparativos que o antecederam e prepararam o
terreno é possível perceber a abrangência e a precisão do ‘plano’ bem como sua consecução pelos
dirigentes goianos. Não por acaso, Mario Augusto Teixeira de Freitas se constituiria no maior
incentivador e parceiro do governo de Goiás na realização do Batismo Cultural.
O ‘plano’ previa, em primeiro lugar, que o governo de Goiás convidasse o ‘[...] Presidente
da República para comparecer com todo o Ministério ao batismo da nova ‘urbs’ que será expressivo
marco – não mais simbólico mais real – da ‘marcha para o Oeste’, a que aludia o Chefe do Governo
em recente discurso’, o que revela que também o programa de integração e desenvolvimento
econômico de Vargas já aparecia atrelado ao Congresso da ABE e ao Batismo Cultural de Goiânia.
Todos os chefes de governos estaduais deveriam também ser convidados assim como instituições
culturais e econômicas de ‘significação nacional’ e os principais jornais do país. Os prefeitos das
cidades goianas não seriam convidados, mas convocados para as festividades bem como o
magistério estadual, ‘senão na sua totalidade, em parte ao menos um professor de cada município,
por exemplo [...]’.
O governo goiano também deveria preparar uma ‘Exposição Regional’ que comemorasse o
Batismo e se constituísse em ‘revista de mostra das riquezas, das realizações e das possibilidades do
estado’. A inauguração de uma estação de rádio estadual também deveria ocorrer sendo que os
discursos das solenidades seriam, por ela, irradiados. O governo goiano se encarregaria de instalar
um parque de diversões em Goiânia durante o Batismo e de obter, das empresas de viação aérea, o
número suficiente de vôos para o deslocamento de congressistas de todo o Brasil. Teixeira de
Freitas recomendava ainda que Ludovico tentasse um ‘[...] entendimento com o governo Federal
para que a Primeira Conferência Nacional de Educação, como reunião de delegados fiscais para
decisões inter-governativas, se realize concomitantemente com o Congresso Abeano de
Educadores’.
Já a Associação Brasileira de Educação se comprometia, conforme Teixeira de Freitas, em
fazer ‘a propaganda, a realização e a divulgação dos trabalhos do Congresso’ e em promover, em
parceria com o IBGE, a II Exposição de Educação e Estatística. A Associação também se propunha
a organizar, juntamente com a Escola de Educação Física do Exército, uma equipe de atletas que
323
faria demonstrações de atletismo e educação física na exposição de educação e incorporar, à
caravana da ABE, um grupo de artistas que animariam as sessões culturais e noturnas do
Congresso. Por fim, a Associação firmaria acordo com o Cinema Educativo a fim de que o
Congresso e a Exposição fossem filmados. O homem forte do IBGE e valioso colaborador do
Batismo Cultural de Goiânia finalizava seu discurso afirmando a certeza do sucesso daquilo que
denominou ‘triunfal etapa da Marcha para o Oeste’.
É exatamente neste período – 1939 – que o governo goiano, quiçá, pressionado com os
gastos relativos ao Batismo Cultural, iniciou os cortes no orçamento estadual, redirecionando
verbas para a nova cidade-capital. Mas, apesar dos desejos, a inauguração oficial de Goiânia e o
Congresso da ABE não aconteceram naquele ano, sendo adiados para 1940, depois para 1941, para
vir, enfim, a concretizar-se em 1942. O jornal O Popular de 09 de março de 1940 noticiou que
Pedro Ludovico estivera na sede da ABE na Capital Federal em uma reunião na qual ‘[...] ficou
assentado o adiamento para ano vindouro [...]’ a realização do Batismo e, por consequencia, do
Congresso.
Outro discurso406, pronunciado por Pedro Ludovico (1973: 162) já nas solenidades de
abertura do VIII Congresso Brasileiro de Educação, sinaliza para a ideia que a ABE, instada pelos
argumentos de Mário Augusto Teixeira de Freitas, abriu mão da data inicialmente combinada para
a realização do congresso e esperou que Goiânia pudesse sediá-lo. O discurso indica que o governo
federal igualmente aceitou o adiamento do evento, o que reforça a interpretação que a realização
daquele congresso revestiu-se, nos centros dinâmicos da nação, de singular importância.
Há dois anos atrás, já devia ter-se reunido em Goiânia este Congresso [...]. Não se
objetivou naquela época [...] em virtude das ponderações que lhe fiz, então, sobre
os percalços que surgiriam para uma cidade muito nova em receber componentes
de tão distinto e refinado conclave. Não concordou [Mário Augusto Teixeira de
Freitas] com o cancelamento da resolução tomada. Adiou-a, até que se pudesse
realizar [...]. Era seu pensamento [...] que a fundação de Goiânia merecesse o
sacrifício do adiamento, se não militasse a favor do seu ponto de vista outros
fatores de ordem geral. Defendeu essa opinião perante seus pares, e, vendo-se
vitoriosa pela boa vontade de todos, ficou decidido que seria nessa Capital a sede
do Oitavo Congresso Brasileiro de Educação. Essa decisão foi facilmente
homologada pelo sr. Presidente da República, que já havia indicado a seus
governados a ‘marcha para o Oeste’. (Grifos meus).
Tais posturas poderiam representar o desejo, do Estado Nacional e de entidades que
representavam as elites intelectuais e educacionais brasileiras, de valorizar o ‘espetáculo de fé nos
406
Este discurso foi reproduzido por Pedro Ludovico Teixeira em suas Memórias (1973). Neste livro, há um longo
capítulo dedicado ao VIII Congresso Brasileiro de Educação. Além dos comentários de Ludovico, listas de
personalidades presentes, discursos e descrição de cerimônias do evento (integrantes também dos Anais do Congresso)
compõem este capítulo. Estou, no momento, utilizando esta fonte em função da melhor qualidade dos textos ali
republicados.
324
destinos do Brasil que Goiás nos oferece, como exemplo admirável de predestinação histórica’? O
interesse em sediar na cidade-capital goiana um evento de abrangência nacional significaria o
reconhecimento da ‘[...] inteligência criadora do homem brasileiro [e] demonstração a mais da
nossa capacidade para empresas grandiosas’, como afirmou Teixeira de Freitas (1973: 173) na
instalação das Assembléias Gerais dos Conselhos Dirigentes do IBGE, outro evento abrigado pelo
Batismo Cultural? Ou, os centros dinâmicos da nação, ao serem alcançados pela propaganda de
Goiânia, simplesmente enxergaram um raro e oportuno momento para a expansão e consolidação
de um determinado ideal de nação fazendo dele uma estratégia - mais ideológica que política - a
serviço do seu projeto de poder?
Muito provavelmente, as motivações não foram unívocas: interesses ideológicos,
oportunismo político e desejos não reconhecidos se confundiram quando os planos foram traçados e
as decisões foram tomadas. Para Adônia Antunes Prado (1995: 11), o Congresso de Goiânia “[...]
teve caráter emblemático, pois [...] representou de maneira muito expressiva o panorama de
discussões travadas naquele momento acerca das questões educacionais”. A localização geográfica
da cidade sede foi, naquele contexto, decisiva para difundir uma simbologia de unidade e
integração nacional. Ainda de acordo com Antunes, “o fato de a cidade de Goiânia encontrar-se no
centro do Brasil foi explorado em seu simbolismo. Em torno dele construiu-se a ideia de integração
nacional e de expansão e de conquista de regiões brasileiras até então praticamente inexploradas. O
Congresso revestiu-se de especial importância”.
Para os de Goiás, o interesse do Estado e das elites esclarecidas do país assumiu o
significado da aceitação e do reconhecimento que balizaram a construção discursiva da CidadeSertão. Era como se a cidade-capital finalmente cumprisse a promessa que sustentou seu
surgimento: Goiânia projetara Goiás no cenário nacional promovendo sua entrada triunfante na
história da nação, abrindo-lhes as portas do pertencimento e da relevância. Em Nossos irmãos nos
conhecem, Zecchi Abrahão fez uso da metáfora do país-pai para dizer do reconhecimento de Goiás
pelos ‘estados mais ricos’.
Os irmãos privilegiados temerão jamais o contacto daquele sertanejo ousado. Eles
se reestreitarão no mais humano dos reconhecimentos: o reconhecimento de quem
precedeu a outros uma obra de causar espreguiçamentos ao próprio papai Brasil. A
atribuição de toda uma família resumida no esforço do filho mais modesto, do
filho menos educado. (Grifo meu).
‘Longos e ásperos foram os anos de luta’, escreveu Vasco dos Reis no artigo Oitavo
Congresso Nacional de Educação, publicado no Correio Oficial de 13 de março de 1942, às
vésperas da chegado dos congressistas, ‘sem par foi a abnegação e superlativas a coragem e a
energia’. Mas, enfim, continuou o Diretor da Educação, ‘a vitória vem raiando com esplendores
325
tantos [...]. Venha a nós essa plêiade brilhante de espíritos cheios de saber [...]’.
8.2 - ‘Anos de luta’: a cidade-capital como cenário da modernidade pedagógica.
Nos ‘anos de luta’ em que Goiânia se preparava para o momento glorioso em que o ‘coração
do Brasil’ se faria, ainda que por um breve momento, o centro do mundo educacional brasileiro,
muitas novidades inundaram o campo da educação goianiense contribuindo, sobremaneira, para sua
configuração e enriquecendo a imagem de cidade-educadora e centro escolar dos sertões do oeste.
O Estado em sua esfera regional lançou-se, efetivamente, ao trabalho de construir as condições para
a realização do Batismo e do Congresso da ABE. Tais condições abrangiam a montagem de uma
materialidade que pudesse oferecer, aos seus participantes, uma infra-estrutura mínima de
transporte, recepção, alojamento e alimentação. Mas, de minha ótica, outra preocupação estava nos
horizontes dos de Goiás: a criação de um ambiente pedagógico e cultural que tornasse
especialmente o Congresso um acontecimento em que a inserção dos professores goianos fosse
concreta e bem sucedida.
A política educacional desencadeada pelo governo estadual após a transferência da capital
(março/1937) continha, como as reformas da educação dos anos 1910 e 1920, as premissas da
modernização da escola goiana e a adesão as diretrizes políticas emanadas do recém criado
Ministério da Educação e Saúde. A construção de prédios escolares e a realização de concursos
públicos para seleção de pessoal docente representaram, neste sentido, aspectos realmente
inovadores desta política. Por outro lado, o campo educacional goiano se aproximou da noção,
então recorrente em certos círculos intelectuais, políticos e econômicos brasileiros, da chamada
vocação ruralista do país e, no seu interior, à visão de que a educação se constituía na solução para
o êxodo rural e para a fixação produtiva do homem no campo (MENDONÇA, 1997). Era uma
diretriz educacional que se ajustava aos interesses nacionais e regionais na medida em, segundo
Prado (2001: 19), que procurava traçar
O caráter individual, ligado ao desenvolvimento da personalidade; o caráter
nacionalista, a fim de integrar o educando a sociedade brasileira em geral; o
caráter humano, com o objetivo de formar o sentimento de solidariedade humana e
o caráter vocacional para ajustar o estudante ao ambiente regional em que vive.
(Grifos da autora)
Entretanto, considero que alguns aspectos de tal política visavam ainda dois outros alvos:
em primeiro lugar, desejava forjar uma cultura urbana em intima associação com a cultura escolar,
326
tal como ocorriam nas grandes, modernas e civilizadas cidades do litoral. Escolas - e tudo que lhes
eram relacionados - lembremos, eram vistas como poderoso sinal do progresso de uma localidade
além de indício incontestável do acerto de seus dirigentes e do de civilização de seus habitantes
(SOUZA, 1998). Começara um ano antes o movimento de transferência e criação de escolas na
jovem capital regional. Conforme Iria Brzezinski (1987: 91),
No bojo das sucessivas leis e decretos de transferência ou criação de órgãos da
nova capital, encontra-se a Lei de criação da Escola Normal e do Ginásio de
Goiânia – Lei 133, de 19 de junho de 1937. Esta lei foi revogada pelo decreto-lei
número 4, de 17 de novembro de 1937 que transferiu o Liceu de Goiás, a Escola
Normal Oficial e a Escola Complementar da antiga para a nova capital (art.1o) e
criou em Goiânia o Grupo Escolar Modelo e o Jardim da Infância (art. 2º). A fim
de garantir a normalidade do ano escolar, a transferência e a instalação daqueles
estabelecimentos foram previstas de modo que o ano letivo de 1938 se iniciasse na
nova capital (art. 4º [...] Mais tarde, em 01 de fevereiro de 1938, instalou-se o
Grupo Escolar Modelo de Goiânia, autônomo, independente da Escola Normal,
tanto pedagógica quanto administrativamente.
A divulgação de abertura e instalação na impressa oficial demonstra que, transferidas
legalmente no final do ano de 1937, seu funcionamento ocorreu a partir de 1938, momento em que
se iniciou a participação das instituições escolares na cena urbana goianiense. Em finais de 1937, o
Correio Oficial do Estado de Goiás anunciava abertura de matrículas para o ano de 1938 para o
Grupo Escolar Modelo, para a Escola Mista e, a partir de Janeiro/1938, também para o Jardim de
Infância Modelo407. Ao mesmo tempo, o Grupo Escolar Pedro Ludovico Teixeira, localizado em no
Bairro de Campinas, passava por reformas que adequavam suas instalações às exigências da
modernidade pedagógica, conforme noticiou o Correio Oficial em 08 de maio de 1938. O Liceu de
Goiânia, A Escola Normal Oficial e a Faculdade de Direito de Goiás igualmente foram transferidas
no final de 1937 e entraram em funcionamento no inicio do ano letivo de 1938.
E, em segundo lugar, as ações e iniciativas do governo estadual preparavam o terreno para a
realização do congresso nacional de educação a ser realizado durante as cerimônias de inauguração
da cidade-capital. Seja por um motivo seja por outro, Goiânia se tornava cenário de um intenso
movimento no campo da educação escolar nos anos que precederam o Batismo Cultural. Ganha
ênfase, neste processo, dois congressos regionais de educação primária ocorridos em 1937 e 1938,
o aparecimento da Revista de Educação e a realização de concursos para seleção e admissão de
professores para as escolas da Cidade-Sertão, ambos em 1938.
Por meio destas iniciativas, parece-me que o Estado tentava criar as condições culturais,
pedagógicas e intelectuais mínimas para que o magistério de Goiás pudesse participar – com
407
Correio Oficial do Estado de Goiás, de 11/01/1938.
327
brilhantismo – do VIII Congresso Brasileiro de Educação. Ademais, tratava-se de colocar em
andamento uma rápida e precisa organização do campo da educação na cidade-capital para que
pudesse suportar os olhares de toda a nação. O discurso do técnico educacional Gentil Augusto
Lino, em Reorganizemos, texto publicado no Correio Oficial de 11 de maio de 1938, parece
fornecer a tônica do esforço do governo estadual em relação à educação. Depois de afirmar que a
‘[...] educação é nossa seara de trabalho’, Lino sintetizava o pensamento que guiava as ações dos
goianos.
Idealizando e agindo rapidamente, si bem que o problema não é de correr, mas de
chegar depressa, empurremos, com sofreguidão, o carro do nosso progresso
educacional. [...]. Trabalhemos mais que falemos; sejamos práticos e perspicazes
nas ideias e nas realizações
.
Selecionar o professorado por meio de concursos públicos com base na competência
didática e no domínio dos saberes escolares aparecia também como sinal de seriedade e
competência administrativa, dimensão de enorme importância para os novos dirigentes estaduais
haja vista que se representavam como antítese dos governos oligárquicos nos quais o Estado
constituía-se a principal fonte de emprego e renda da população. O governo Pedro Ludovico
prometia instaurar outra perspectiva na relação entre o público e o privado. Segundo Canezin &
Loureiro (1994: 73), o discurso moralizador de Ludovico pretendia “[...] romper basicamente com a
familiocracia, as práticas administrativas corruptas e a mentalidade reacionária [...]”
408
que
vigoravam no período anterior. Prometia-se a superação dos velhos tempos em que o Estado
distribuía empregos em troca de votos e apoio político e que era, afinal, o grande trunfo das
oligarquias depostas pelo movimento de 1930 e o motivo maior de seu quase ilimitado poder na
região.
Aliada a seleção dos professores, e diante da precariedade da rede escolar, da incipiência do
campo educacional goiano e da iminência de que ele se tornaria visível aos olhos da nação durante
o evento da ABE, parecia necessária a construção de dispositivos e estratégias formativas, como os
congressos regionais e a revista pedagógica. No caso dos congressos, eles se revestiam de uma
enorme força civilizatória e ‘alta significação cultural’, conforme escreveu Amália Hermano
Teixeira, na revista Oeste em julho de 1942, a respeito do VIII Congresso Brasileiro de Educação.
408
A edificação de Goiânia, como se sabe, se sustentou na propaganda para atrair capital e trabalho, o que implicou em
uma intensificação do processo migratório que colocava o governo estadual em um impasse já que, também na nova
capital, o Estado era a maior fonte de emprego e renda. A procura por emprego na máquina do governo devia ser
intensa e, por parte do Estado, havia interesse em oferecer vantagens e benefícios como forma de atrair e manter tanto
trabalhadores intelectuais quanto manuais. A julgar por anúncios publicados no Correio Oficial, especialmente em
1938, o governo estadual tentou controlar o fluxo de pedidos de emprego e ‘educar as mentalidades’. Neste período,
várias repartições públicas estaduais publicaram anúncios que avisavam sobre a inexistência de vagas de trabalho em
seus quadros e que o acesso aos empregos públicos somente se daria através de concurso público.
328
Não havia como negar, afirmou ela,
[...] a ação que os congressos exercem sobre um povo; nos países civilizados dão a
eles, cada vez mais, valor inestimável, porque agem como missões culturais,
estreitam os laços de amizade entre habitantes de uma mesma pátria e de pátrias
diferentes. Indicam soluções a problemas de significativa importância na vida de
um povo. Todos os nossos grandes problemas tem sido estudados em congressos, e
as diretrizes por eles traçadas, tornadas em realidade, vem demonstrando a eficácia
desses certames.
Este me parece ter sido o espírito que animou a realização dos dois congressos regionais de
educação primária ocorridos em Goiânia em 1937 e 1938. Tomemos o segundo deles. Em 09 julho
de 1938, a abertura do Segundo Congresso Regional de Ensino Primário – ocorrido dois dias antes ocupou a primeira página da imprensa oficial. Com ‘[...] a colaboração do professorado da Capital,
e de uma grande parte do das diversas zonas do interior do Estado’, o Congresso tinha ‘[...] altas
finalidades, no sentido de ampliar, o quanto possível, os serviços úteis à educação e a cultura de
nossa gente’, conforme se pronunciou Vasco dos Reis. Na edição seguinte, de 10 de julho, em texto
não assinado, o Congresso Regional servia de pretexto para a discussão acerca da necessidade de
escolas nas zonas rurais. Um viés economicista se evidenciava no discurso revelando o caldo
ideológico que sustentava as ideias e práticas sobre a educação das populações sertanejas.
A educação rural era uma necessidade ‘incontroversa’, ponderava o articulista, e merecia
receber uma atenção especial, inclusive dos congressistas reunidos, em função ‘[...] do elevado grau
de ignorância que predomina [...] pela imensidade do interior do Brasil’. O papel do professor
primário nas escolas rurais era, então, ressaltado. Somente ele poderia ‘desde que com medidas
sábias’ construir os alicerces da economia nacional promovendo melhorias nas condições de vida
do homem do campo e concorrendo até mesmo para ‘[...] assimilar o imigrante, estimular as
lavouras, padronizar os produtos’. O articulista alinhava-se assim ao candente debate sobre o papel
da escola na produção de riquezas agro-pastoris que, no espectro do Estado Novo, era bastante
presente. As populações do campo deviam ser preparadas pela e na escola para integrar-se ao seu
meio social com o máximo de eficiência produtiva e uma capacidade expandida de adaptação à
lógica modernizante e capitalista que se instalava no país (PRADO, 1995).
No que diz respeito à dimensão dos preparativos para o Congresso da ABE, os eventos
estaduais atuaram como estímulo para que o professorado primário goiano desenvolvesse
experiências educacionais consideradas modernas e pudesse, assim, adentrar na seara da autoria.
Parece ser esta também a intenção contida em um dos comunicados da ABE publicados pelo
Correio Oficial. Aliás, a entidade que congregava os educadores brasileiros contribuiu para isso
publicando, no Correio Oficial, uma série de ‘comunicados’ que abordavam temas como o ensino
329
rural e a importância do censo e da estatística escolar para o progresso educacional brasileiro,
dentre outros.
No comunicado Ensino Rural, divulgado em 10 de abril de 1938, é a noção de apostolado
cívico, discutida por Amália Dias (2008), que subsidia o discurso pedagógico da ABE. De acordo
com esta autora (2008: 24), o apostolado cívico pode ser compreendido como eixo articulador de
“[...] um conjunto de saberes, normas e formas de conduta que deveriam orientar a formação do
professor e o exercício do magistério, ou seja, as mediações que atingem simultaneamente a
formação inicial e o exercício da função”. Sob esta noção, o Estado Novo e seus intelectuais,
atribuíam uma função social para o professor brasileiro a partir do amalgama entre o nacional e o
católico.
O comunicado – publicado poucos meses antes do congresso regional de 1938 - relatava o
esforço individual de uma professora primária paulista na montagem de um clube agrícola na escola
primária onde trabalhava. As vantagens e benefícios do clube foram ressaltados: as crianças
levavam para casa frutas e legumes enriquecendo a alimentação da família; a merenda escolar se
tornava mais rica e variada; a venda do excedente produzido permitira a aquisição de brinquedos
infantis para o parque escolar, de coleções de livros para a biblioteca da escola e de equipamentos e
objetos como vitrolas e discos de hinos e marchas. Era um exemplo a ser seguido ‘[...] graças a
clarividência de sua organizadora, á pertinácia com que ela prossegue na obra iniciada sem
desfalecimentos e com amor que bem define a sua vocação apostólica no exercício do magistério’.
Um recorrente convite à autoria pode ser encontrado daí em diante. Por exemplo, nas
páginas da Revista de Educação do Estado de Goiás, a qual foi criada em 1933, ainda na antiga
capital, através do decreto 3.482, como ‘Revista de Educação e História [...] nos moldes da revista
congênere de Minas Gerais’, mas que somente começou a ser publicada em 1938, já na nova
cidade-capital simplesmente como Revista da Educação. Órgão inserido na estrutura administrativa
da Diretoria Geral do Interior e tendo Vasco dos Reis como diretor e Gentil Augusto Lino como
principal redator, a Revista era assinada involuntariamente por todos os professores públicos do
estado haja vista que o valor correspondente à assinatura – quinze mil réis, a anual e oito mil, a
semestral - era descontado de seus salários. Publicada a cada dois meses, trazia imagens de
flagrantes da cultura escolar, fotografias de autoridades do campo educacional goiano, de prédios
escolares da capital e do interior, do interventor Pedro Ludovico, de sua esposa Gercina Borges
Teixeira e até mesmo do filho do casal, Goiânio, que falecera nos primeiros meses de vida.
No terceiro número da revista (mai/jun, 1938: 07), Vasco dos Reis explicitou as finalidades
do periódico e dirigiu um instigante apelo aos professores goianos. Segundo ele, a revista se
limitava, ‘[...] por enquanto [...] a um trabalho de síntese, divulgando [...] o que nos parece mais
oportuno em assunto educacional, e que vamos respingando, em leitura conscienciosa das
330
principais Revistas congeneres, do País e do estrangeiro’. Mais adiante, pontificava: ‘É, por
enquanto, a principal finalidade desta Revista’. Mas, a revista também oferecia
[...] um campo fértil ao vasto talento creador dos professores goianos e dos
afeiçoados da pedagogia. A esse elemento de que dispomos está confiada a tarefa
ingente de imprimir um sentido goiano ás novas aquisições científicas no terreno
educacional, adicionando contingente próprio ao que já é do domínio geral.
(Grifos meus).
O apelo permite compreender a recorrência da expressão ‘por enquanto’ no discurso do
diretor de educação. A expectativa do dirigente educacional goiano era que, uma vez estimulados,
os professores da região se tornassem autores dos textos publicados na revista libertando-a, assim,
da mera reprodução de textos de outros lugares, revistas, autores. Além disso, o convite e mesmo
suporte que o continha representava, de meu ponto de vista, um aspecto do trabalho de preparação
do magistério de Goiás para a participação no Congresso da ABE: o de estimular e preparar os
professores a produzir teses a serem apresentadas no evento. A partir do início de 1942, Vasco dos
Reis ocuparia a imprensa local dirigindo convites expressos neste sentido. Em 15 de fevereiro de
1942, o Correio Oficial publicou um destes convites em sua primeira página. Sob o título Aos
educadores Goianos, pode-se ler:
Empenhada em que maior brilhantismo tenham as reuniões do 8º Congresso
Nacional de Educação, que, de 18 a 28 de junho próximo, vai realizar-se em
Goiânia, a Diretoria de Educação por esse meio vem convidar a todos quantos
possuam experiência e conhecimento necessários em assuntos educacionais a que
procurem cooperar no certame. Essa cooperação poderá efetivar-se por meio de
teses, cujos temas serão fornecidos no próximo número desse Diário409 e que
devem ser defendidas pelos interessados. A 1º de maio próximo será aberta a
inscrição para as teses em questão.
Do discurso de Vasco dos Reis emana a ideia que a revista tinha, de fato, duas finalidades:
de um lado, procurava qualificar o professorado goiano colocando-o em contato com as ideias e as
práticas típicas da modernidade pedagógica e, ao mesmo tempo, esperava prepará-lo para a
autonomia intelectual e para a autoria. Mas, o que poderia significar o apelo à elaboração de um
‘sentido goiano’ às inovações educacionais e pedagógicas então difundidas? O desejo pela saliência
que atormentava as elites e o Estado goianos não pode ser menosprezado no tateamento de
409
Na edição seguinte, de 13 de abril, os temas foram publicados no Correio Oficial. São eles: A educação primária e
fundamental - objetivos e organização: a) nas pequenas cidades e vilas do interior; b) na zona rural comum; c) nas
zonas rurais de imigração; d) nas zonas do alto sertão. Tema especial número 1: O provimento de escolas para toda a
população em idade escolar e de escolas especiais para analfabetos em idade não escolar; o problema da
obrigatoriedade. Tema especial número 2: Tipos de prédios para escolas primárias e padrões de aparelhamento escolar,
consideradas as peculiaridades regionais. Tema especial número 3: O professor primário das zonas rurais; formação,
aperfeiçoamento, remuneração e assistência.
331
respostas possíveis. A cidade já se fizera capital, já se constituía no centro do universo cultural e
econômico goiano, irradiando civilização e progresso e já estava a caminho do reconhecimento
nacional. Escolas, estudantes e professores já inundavam a cena urbana da jovem capital animando
seu cotidiano com festas, rituais e cerimônias que consolidavam e expandiam a imagem de cidadeeducadora.
A modernidade já estava, dentro de seus limites, instaurada na capital da hinterlândia. O
pertencimento parecia estar ocorrendo assim como a relevância econômica. Era pouco, entretanto,
para os locais que esperavam e trabalhavam para alcançar outro patamar de destaque: os goianos
desejavam ser reconhecidos também por sua inteligência e capacidade intelectual. Era preciso, pois,
avançar para além do já concretizado, daí o estímulo a que professores da região se inscrevessem
também na busca deste tipo de reconhecimento sendo a Revista de Educação e o Congresso da
ABE dispositivos que poderiam tornar conhecido o avanço do campo educacional goiano.
É preciso ainda considerar os professores aos quais era dirigido o apelo, o que me leva aos
processos de seleção e admissão de pessoal docente que ocorreram durante aquele período.
Especialmente nos primeiros meses de 1938, a realização de concursos públicos para
preenchimento de vagas nas escolas públicas goianinenses animou o universo educacional da
Cidade-Sertão. O Correio Oficial publicou os editais, a composição das bancas examinadoras, os
pontos a serem abordados nos exames, as convocações para as provas e, finalmente, celebrou os
aprovados louvando o seu valor intelectual, sua alta cultura e sua erudição. Foi o que aconteceu em
21 de março de 1938 quando noticiou a nomeação para a cadeira História da Civilização da Escola
Normal Oficial de José Lopes Rodrigues – que viria a ser diretor da Escola - e também em Valores
Locais, quando a seleção e contratação de Floraci Artiaga para a cadeira de Didática da mesma
escola foi saudada como sinal de que a educação goiana já produzia bons frutos e que os
professores de Goiás já poderiam participar de debates de nível nacional.
Anunciados como marca da seriedade com que os novos dirigentes tratavam a coisa pública,
o processo de seleção de professores das escolas de Goiânia não deixou de trazer, para a cidade do
futuro, o espírito de um passado marcado pela coerção e pela ameaça ou, ao menos, de sua
encenação. Foi Amália Hermano Teixeira que, em 1946 – portanto, depois do fim do governo
Pedro Ludovico - tornou público um destes momentos, o do concurso em que foi aprovada Ofélia
Sócrates do Nascimento Monteiro. Segundo Amália Hermano, a autora de Goiaz, Coração do
Brasil tentou efetivar-se como professora da Escola Normal Oficial sem fazer as provas e exames
do concurso público. Solicitou esta efetivação formalmente à Vasco dos Reis e, tendo seu pedido
negado, recorreu a Secretária Geral do Estado, encontrando aí outra negativa. ‘A recorrente é
efetiva, sim, mas no cargo de diretora do Grupo, para o qual se habilitou em concurso e, NUNCA,
JAMAIS, EM CIRCUNSTÂNCIA ALGUMA, no de professora de Didática [da Escola Normal
332
Oficial]’, escreveu João Álvares Teixeira Junior, titular do órgão, em resposta ao pedido de Ofélia.
O Parecer de Teixeira Álvares foi publicado no Correio Oficial em 30 de março de 1938.
Publicizada a negativa do governo, restava à requerente encarar o desafio do concurso e enfrentar a
banca examinadora. Segundo Amália Hermano (1946: 41), as provas de Ofélia Sócrates 'se
tornaram memoráveis'.
Inicialmente, desacatou ela publicamente o dr. Vasco dos Reis, chegando a exibirlhe, em plena banca, uma bolsa semi-aberta trazendo um revolver. Lembro-me [...]
das expressões descorteses, insultuosas por ela dirigidas áquela autoridade; do dr.
Vasco dos Reis, amedrontado, rumando para o Palácio afim de levar o sucedido ao
conhecimento do interventor [...]; da atitude da recorrida, que permaneceu de pé,
estática, a aguardar seu regresso; de quando ele veio e lhe disse que falava em seu
nome, bem como no do Interventor; e de como ela lhe respondeu que mantinha
suas expressões. Armando-se de um pouco de coragem, o Diretor de Educação,
movimentando seu corpanzil, ‘o enorme, o imenso Vasco’ mandou se lavrasse
contra a recorrida o competente auto de desacato, enquanto solicitava do dr.
Galeno Paranhos, ao tempo, Chefe de Polícia, o concurso da guarda civil que [...]
esteve presente às provas, enchendo os corredores do Liceu.
Mas, ainda conforme Amália Hermano, ‘[...] tudo não passou de encenação’, as provas continuaram
e Ofélia Sócrates, embora tenha sido a segunda classificada no concurso, foi empossada como
titular da cadeira de didática na Escola Normal Oficial tornando-se, depois de 1941, sua diretora.
De qualquer forma, os concursos públicos para o magistério avalizavam o avanço
principalmente qualitativo da escola goianiense procurando dar-lhe uma base científica consistente,
mas alcançavam somente os grupos escolares, as escolas normais e o ensino secundário na cidadecapital. Ou seja, o Grupo Escolar Modelo, a Escola Normal Oficial e o Liceu de Goiânia. As
inúmeras escolas isoladas da capital e todas as escolas do interior não precisavam de professores
com formação específica e tampouco de pessoal selecionado por concurso ou o Estado não tinha
condições econômicas de fazê-lo. Estas eram a diretriz e a justificativa vigentes. O que importa
ressaltar aqui é que professores formados em cursos normais e afeitos ao estudo eram, mais que
nunca, necessários ao projeto de modernidade que estava em curso. A ruptura com a história exigia
que os mestres leigos fossem substituídos, se não em toda a extensão regional, pelo menos nas
escolas que simbolizavam a modernidade pedagógica em Goiás e em sua cidade-capital.
Penso que era a estes docentes que Vasco dos Reis dirigia seu apelo na expectativa de que
somente eles poderiam se incumbir da ‘tarefa ingente’ de apropriação criativa das ideias
pedagógicas debatidas e efetivadas nos centros culturais e educacionais progressistas do Brasil e do
mundo. Talvez o apelo à busca de ‘um sentido goiano’ ao ideário educacional do período pode ser
inscrito no interior do movimento ruralismo pedagógico que encontrou em Goiânia amplas
condições para desenvolver-se em um processo cuja culminância foi a realização do VIII
333
Congresso Brasileiro de Educação. Nos Anais, entre os trabalhos publicados, encontrei os nomes de
Amália Hermano Teixeira, Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro, José Lopes Rodrigues, Floraci
Artiaga Mendes e Noêmia Saraiva de Matos Cruz, todos inseridos no tema geral do Congresso que
discutia a educação primária nas zonas rurais, em pequenas vilas e cidades do interior e zonas do
alto sertão. Outros intelectuais e professores goianos como Frederico de Medeiros, Agnelo
Arlington Fleury e Edmar Pereira analisaram e emitiram parecer sobre 03 teses que não foram
aceitas no Congresso410. Cada um dos pareceres foi publicado nos Anais do Congresso e também
no Correio Oficial do Estado de Goiás nos dias 24, 29 e 31 de julho sob o título Goiaz no VIII
Congresso Brasileiro de Educação.
A hinterlândia estava pronta para se exibir ante os olhares mais refinados e cultos da nação,
os dos educadores brasileiros e dos que viam na questão educacional a saída salvadora para que o
Brasil se tornasse um grande país. Se o urbano de Goiânia era precário e acanhado, mas servia
como cenário para a encenação da modernidade prometida; se a maioria dos habitantes da CidadeSertão foi ocultada em suas dobras e banida da história e da memória, também a educação foi
apanhada na mesma lógica e os goianos tornaram visível, em uma amostra de poucas escolas e
poucos professores, que no coração do Brasil havia não somente minérios, fazendas de gado e
lavouras de arroz, mas uma cidade-capital que tomava a educação escolar como um de seus mais
caros motivos de existência.
8.3 – A festa da educação na cidade em festa
Goiânia, junho de 1942. A cidade em festa. A celebração coletiva da inauguração da cidade
tinha início com a chegada dos congressistas da ABE em 16 de junho. Iniciava-se o Batismo
Cultural. A celebração durou até onze de julho, mas no dia cinco ocorreu a inauguração oficial. A
cidade-capital fervilhava com a presença de 1.633 convidados brasileiros e 140 estrangeiros que
participavam da cerimônia-ritual que caracterizou sua inauguração. A sonhada cidade-capital dos
goianos, enfim, existia e era, então, entregue a nação. ‘À ele, Brasil, entrego um grande ideal que se
tornou uma grande realidade, Goiânia’, discursou o interventor Pedro Ludovico Teixeira411,
expressando o desejo de pertencimento à nação que atravessou, de ponta a ponta, a ideia e a
efetivação do projeto da nova capital.
410
Também contribuíram para a realização do evento como pareceristas de teses não aceitas e como examinadores da
documentação da Segunda Exposição Nacional de Educação, Cartografia e Estatística promovida pelo IBGE e que
integrava o programa do VIII Congresso Brasileiro de Educação.
411
No discurso proferido na inauguração de Goiânia, em 05/07/1942, em solenidade realizada no Cine-Teatro Goiânia.
Reproduzido no livro Memórias, de Pedro Ludovico Teixeira (1973).
334
O governo estadual cumprira quase todos os acordos do ‘plano combinado’ com a ABE para
a realização do Congresso em Goiânia. Um parque de diversões foi instalado, a Rádio-Club Goiânia
inaugurada com a transmissão da solenidade de abertura do evento, uma grande exposição sobre
Goiás, sua história e geografia além de amostras da produção mineral e agropastoris do estado foi
exibida, passagens aéreas providenciadas, acomodações e alojamentos garantidos, convites
distribuídos para todo o Brasil. As principais solenidades e acontecimentos ocorreram no CineTeatro Goiânia e na Escola Técnica Federal, os dois mais suntuosos prédios do deco goianiense, a
menina dos olhos do interventor, que foram inaugurados no Batismo.
De todas as partes do estado vieram os convidados para a festa: goianos do interior, alguns
pela primeira vez na nova capital do estado, outros voltando para viver a vertigem e o orgulho
da/pela cidade em festa. Autoridades e gente do povo, conforme registram os Anais do Oitavo
Congresso Brasileiro de Educação412. Os estudantes goianienses também estavam eufóricos,
conforme se depreende do relato de Bariani Ortencio em História do Batismo Cultural de Goiânia
(GALLI, 2007: 23)
Quando chegou o dia da inauguração, aliás, do Batismo Cultural da nova capital, o
tão esperado 5 de julho de 1942, quase amanhecemos no Liceu para desfilar até a
Praça Cívica, onde já havia acontecido a alvorada, e erguia-se um grande altar com
centenas de cadeiras para as autoridades e os principais convidados. Nós, [...],
estudantes, além do Colégio Santa Clara e alguns poucos mais estabelecimentos de
ensino [...]
Os prefeitos das cidades do interior também foram chamados a colaborar com o Batismo
providenciando, entre outros itens, a melhoria e manutenção da malha rodoviária que cortava o
estado, conforme noticiou o Correio Oficial em 20 de março de 1942 em Oportunas
recomendações da interventoria aos prefeitos municipais. Mesmo assim, ir a Goiânia não era fácil;
uma ‘aventura’ como relata Ceres Bastos Ferreira413 sobre a viagem de Rio Verde a Goiânia
(distantes cerca de 250 quilômetros).
Era ainda a celebre ‘jardineira’ o transporte coletivo. Um grupo de pessoas
interessadas partimos de Rio Verde, às 06:00 horas da manhã, numa alegre
comitiva. Aventura sim, após enfrentar poeira, buracos, arrebentar de pneus,
correia de ventilação, falta de água para radiador, solavancos infindáveis. Enfim,
412
Na verdade, desde o alvorecer daquele ano o fluxo de visitantes aumentara. Em 18 de março, o Correio Oficial
publicou que aumentara a média de frequencia na rede hoteleira de Goiânia. A nota, que divulgava números fornecidos
pelo Serviço de Estatística Criminal e Judiciária Estadual, informava com exatidão que 1.921 pessoas se hospedaram
nos hotéis e pensões da cidade no mês de fevereiro. Eram goianos (495), mineiros (321) e paulistas (202), baianos (56)
e de pessoas oriundas de outros estados (125) e também sírios (15), portugueses (25), alemães (14), italianos (17),
espanhóis (05) e de outras nacionalidades (16).
413
Em Memória Cultural: ensaios da história de um povo. Goiânia/GO: Assessoria Especial de Cultura da Prefeitura
Municipal de Goiânia, 1985, p. 63
335
chegamos às 10:00 horas da noite.
O Batismo foi um momento de reafirmação da urbanidade da jovem cidade-capital e da
adesão da sociedade do longínquo estado de Goiás à modernidade e sua entrada triunfante na
história da nação. Existia o que comemorar: um sopro de vida, de energia e esperança no futuro
contagiava corpos e corações animados que estavam pela imagem que, diante deles, a cidade
projetava. Modernidade, progresso, civilização, a pertença e a tão sonhada ‘saliência’. Vivia-se o
alvoroço das promessas e da esperança. A importância da cidade inaugurada no Batismo era
enorme e o povo goiano vivia o encantamento pelo novo, apostando no que Goiânia prometia. Era,
pensava-se, a superação do atraso e da decadência; dos tempos e dos espaços entediantes e
empobrecidos da vida no campo; era tempo de romper o isolamento geográfico e cultural na qual
vivia o estado desde o final do ciclo do ouro. Era tempo de mostrar Goiás ao Brasil, inseri-lo na
nação, de fazê-lo existir como ‘célula viva da nacionalidade’.
Todas as unidades federativas e o Estado Nacional estavam também representados por
educadores, jornalistas, políticos, artistas, esportistas. Exposições, congressos, semanas temáticas,
espetáculos de teatro e música, provas esportivas, demonstrações folclóricas, lançamento de
revistas, desfiles, cursos variados, conferências, missas, banquetes e bailes fizeram parte da
programação do Batismo. A festa adquiria um caráter nacional ou, mais ainda, de integração
nacional e de comunhão do sentimento nacionalista, conforme considera Candice Vidal e Souza
(2002).
A inauguração de Goiânia aparecia como oportunidade para a consolidação dos sentidos da
cidade e para acionamento de representações de uma modernidade que, forjada no amalgama entre
o moderno e a tradição, era apresentada como ruptura com uma história de decadência, isolamento,
atraso, abandono. Aqui é possível referir-se ao que José de Martins (2000) denomina ‘hesitações da
modernidade’, a qual encontra fundamento na forma como se constituiu, no Brasil, o propriamente
nacional em um momento em que se operava um expressivo movimento intelectual em busca de
uma explicação do Brasil como nação; explicação que tendeu a considerar, precisamente, a cultura
popular e as tradições - não as noções e saberes da modernidade – como signos de brasilidade.
Enquanto discurso, a inauguração da cidade-capital ao ser nomeada Batismo Cultural é
plena dos sentidos que se constituíam para Goiânia. Conforme Aurélio Buarque de Hollanda
Ferreira (1996: 192), além do significado de “ato que nomeia uma pessoa ou coisa”, batismo
também quer dizer “admissão solene a uma seita religiosa” e ainda, nos marcos do catolicismo,
“[...] um renascimento espiritual com purificação de todas as culpas e pecados”. Os significados da
palavra acrescida de seu complemento - batismo cultural - remetem às ideias de um renascimento
da região dos goyases, a expiação dos pecados de seu próprio passado e a sua admissão nos
336
circuitos de poder da nação.
Se pensada no contexto amplo da busca de unidade para a pátria dilacerada, batismo remete
ao desejo de significar a cidade-capital de Goiás como momento e lugar de um re-nascimento do
Brasil. Não se pode esquecer que nação e nascimento originam-se da mesma raiz etimológica
latina, ambas com o sentido inicial de nascença. Segundo Bolle (2004: 274), “Na língua rústica, a
palavra tomou sentido concreto, designando o nascimento dos filhotes de um animal [...]. A partir
daí, surgiu o sentido de “indivíduos que nascem ao mesmo tempo e no mesmo lugar', o que
desembocou no significado de nação”. Desta ótica, ao ser apresentada a nação em um ritual
denominado batismo, Goiânia adquiria o sentido de um renascer tanto para a esquecida e
abandonada região da qual se tornava centro quanto para a imensidade da nação da qual era,
também, espacialmente, o ponto nuclear.
Entre os eventos da festividade, em uma solenidade de gala nos salões do Grande Hotel foi
instalado o VIII Congresso de Educação em 19 de junho. Estavam presentes educadores de todo o
país para discutir e apresentar teses sobre o ensino primário rural, um importante tema no espectro
do Estado Novo. De acordo com Adonia Antunes Prado (2001), este Congresso constituiu-se, ao
lado do programa Marcha para o Oeste, em episódios especialmente importantes para o
entendimento do ruralismo pedagógico como discurso estadonovista sobre a educação dos
brasileiros. Momento impar da vida goiana, desde fevereiro de 1942 o Congresso da ABE entrara
em cena na jovem capital de Goiás na imprensa oficial e não oficial de Goiânia. Segundo Clarice
Nunes (2004: 39), entrar em cena significa dividir “[...] o espaço com outros eventos [e] pressupõe
um processo de conquista [...]”. Inserido na programação do Batismo, o Congresso propiciava
igualmente uma discussão acerca da educação, e foi com a temática da educação e os preparativos
para o Batismo que o VIII Congresso dividiu espaços e ensaiou a conquista da sociedade goiana.
Diversos artigos sobre a questão educacional foram divulgados naquele momento.
Problemas relativos à reforma do ensino secundário, à cultura universitária em Goiás, à educação
primária do povo do sertão, entre outros. Publicaram-se os programas, os temas a serem discutidos,
as orientações que chegavam da ABE e as que eram gestadas pela Interventoria Estadual e pela
Diretoria de Educação, os telegramas que chegavam solicitando informações e parabenizando a
ocorrência do Congresso de Educação, a previsão da temperatura na Cidade-Sertão para o período
demarcado para a sua realização, os preparativos que a região fazia para participar com
brilhantismo daquele rico e precioso momento da vida goiana, ponderações e opiniões acerca do
valor e significado do evento para aquela sociedade representada como uma sociedade da ausência.
Foram também republicados artigos e matérias que jornais e revistas de outras regiões brasileiras
divulgavam sobre o evento. A valorização que a imprensa local dava ao VIII Congresso Brasileiro
de Educação permite aquilatar sua importância para os de Goiás.
337
Enquanto se desenrolava nas principais escolas públicas da cidade, nos salões do Grande
Hotel e nas dependências do Cine Teatro Goiânia, o Congresso ‘ganhou a cena’ exibindo, conforme
ensina Clarice Nunes (2004:39), seu “[...] lugar simbólico já conquistado”. Ocupou praticamente
todas as páginas dos jornais da cidade-capital e foi debatido na Revista Oeste. Depois de seu
término, ainda permaneceu presente nas páginas dos jornais locais por mais de um mês. As
manchetes do Correio Oficial que transcrevo a seguir são algumas das que encabeçaram as matérias
e artigos publicados no período de 16 de junho a 31 de julho deste ano e podem contribuir para dar
uma ideia do lugar simbólico do evento da ABE na vida da cidade-capital goiana. Ressalto que as
matérias, notas, artigos e comentários publicados sobre o Batismo Cultural não foram aqui
contemplados. Contudo, é preciso dizer que também estes textos tratavam do Congresso de
Educação da ABE, o que permite compreender que o volume de informação e debate acerca do
mesmo ocorreu em escala mais ampliada que aquele emanado da leitura de escritos que lidavam
especificamente com a reunião de educadores.
Eis as manchetes: ‘São Paulo participará de modo expressivo do VIII Congresso de
Educação’; ‘A Liga de Higiene Mental no 8º Congresso Brasileiro de Educação’; ‘Será instalado,
hoje, nesta capital, o VIII Congresso Brasileiro de Educação’; ‘Chegada dos congressistas a esta
capital’; ‘O representante do Ministério do Exterior dirigiu uma saudação a Goiânia’; ‘Serão
homenageados pela Associação Goiana de Imprensa os membros do Congresso Brasileiro de
Educação’; ‘Instalado ontem nesta Capital o VIII Congresso Brasileiro de Educação’; ‘Os
congressistas em visita ao sr. Interventor Federal’; ‘O baile que se realizou sábado’; ‘Congressistas
que chegaram ontem pela VASP’; ‘Regressaram os membros do oitavo Congresso Brasileiro de
Educação’; ‘Banquete Oficial em homenagem aos congressistas’; ‘O churrasco no Automóvel
Clube’; ‘Encerramento do 8º Congresso de Educação’; ‘Oitavo Congresso de Educação’; ‘Os
Congressos de Educação representam forças admiráveis de unificação nacional’; ‘Goiás no VIII
Congresso Brasileiros de Educação' (em três edições); ‘Criada a Biblioteca Pública de Goiáz’414.
Nenhum dos acontecimentos ocorridos naqueles movimentados anos recebeu tamanha
atenção; nem mesmo grandes momentos da vida goianiense como a visita de Vargas, o
Recenseamento (1940) ou a Campanha da Borracha Usada (1943) ocuparam com tanta intensidade,
e por tanto tempo, as páginas dos jornais locais nem envolveram com tamanho entusiasmo a
sociedade daquela jovem cidade-capital. Assim, quase que diariamente a sociedade goiana e, em
414
Esta biblioteca se originou em 1936 da iniciativa do autodenominado Bando da Alegria, como já tratado neste
capítulo, sendo depois apropriada pelo governo estadual que não oficializou a instituição naquele momento. Em 1942,
os participantes do VIII Congresso Brasileiro de Educação fizeram uma doação de livros a esta biblioteca,
oportunizando sua criação institucional através do decreto 5.899 de 10 de julho de 1942. No seu artigo segundo, podese ler que ‘[..] à Biblioteca são, desde logo, incorporados as grandes doações feitas por ocasião do Batismo Cultural de
Goiânia, pelos órgãos dirigentes e delegações do VIII Congresso Brasileiro de Educação e das Assembléias dos
Conselhos Nacionais de Geografia e Estatística’. Coletânea de decretos-leis relativas a 1942, organizada por Joaquim
Veiga Jardim e preservada no Arquivo Público Estadual.
338
especial, a população da cidade-capital podia acompanhar o andamento dos preparativos, as
providências que estavam sendo tomadas e as expectativas que goianos e não goianos depositavam
no Congresso.
Mais que seu desenrolar em uma temporalidade demarcada, o Congresso da ABE constituiu
importante momento para a conformação do campo educacional goiano e, particularmente, do
goianiense com significativos efeitos também no campo cultural da cidade-capital. Os impactos das
ações e iniciativas que o antecederam, preparando escolas e professores, formulando discursos e
práticas condizentes com as orientações da modernidade pedagógica difundida do centro da nação,
não podem ser pensadas como mera adesão às demandas da expansão capitalista com vistas à
adequação do homem goiano aos imperativos do capital. No interior do projeto que animou a
construção de Goiânia, deve-se considerar igualmente o esforço de pertencimento e relevância
como dimensão particular daquela política que editou uma revista pedagógica, realizou concursos
públicos para selecionar docentes, organizou congressos regionais de ensino, preparando e
convocando professores a contribuírem para a causa educacional e, inclusive, a trabalhar para
singularizar a experiência educacional estadual acrescentando um ‘sentido goiano’ as inovações
pedagógicas.
No tocante ao desenrolar do VIII Congresso Brasileiro de Educação, a ampliação de uma
rede de sociabilidade, contatos e intercâmbios entre educadores e estudantes da cidade com o que
Vasco dos Reis chamou de ‘plêiade brilhante de espíritos cheios de saber’ e seus impactos no
campo educacional da cidade e do estado constitui tema a ser mais bem investigado pelos
historiadores da educação em Goiás. Nas rememorações de pioneiros que participaram do Oitavo
Congresso de Educação e se tornaram personagens importantes do campo educacional e cultural
goianiense, um acento particular direciona-se ao conhecimento e contato então realizado por
professores e estudantes das escolas goianienses com os intelectuais-educadores que ocupavam o
debate e a política educacional da nação. Em 12 de julho 1983, em Toque de alvorada acorda a
cidade, artigo publicado no Jornal Diário da Manhã, Amália Hermano escreveu sobre sua
participação no Congresso destacando as relações que estabeleceu com um importante educador
paulista e sinalizando para a contribuição do mesmo para a difusão do ruralismo pedagógico no
estado de Goiás.
Apresentando uma tese dentro dos temas especiais [...], o professor primário das
zonas rurais: formação, aperfeiçoamento, remuneração e assistência – relatada por
um dos grandes ruralistas, o saudoso professor Sud Menucci – tive a satisfação de
ver meu trabalho aprovado e publicado nos Anais do Congresso e, mais que isso,
ganhar a orientação e amizade daquele ilustre mestre, que muito me ajudou na
oficialização dos clubes agrícolas escolares em nosso Estado. (Grifo meu)
339
Alguns jovens das escolas da Cidade-Sertão puderam ter contato com educadores
nacionalmente conhecidos e com autores dos livros que estudavam, como é o caso de Bariani
Ortêncio (APUD GALLI, 2007: 23) que também relata o encantamento em conhecer um autor de
livro revelando também os critérios de seleção dos estudantes para a participação no evento.
Lembro-me que desejei, empenhadamente, participar das solenidades que se
realizariam à noite, no Cine Teatro Goiânia, que o namorei até a sua pintura final.
Mas a participação era apenas para convidados, e quem seria eu para ser
convidado? O caso é que estudava Geografia pelo livro de Raja Gabaglia415,
indicado, receitado, pelo enorme professor Alcides Ramos Jubé. E, naquela época,
já com tendências de escrever, conhecer um autor de livro para mim seria o
máximo! É que Raja Gabaglia estaria representando o presidente Getúlio Vargas
no Batismo. Como participava de todos os embates esportivos do Liceu, consegui
entrar na relação dos estudantes. O palco estava decorado com um imenso painel
representando a história de Goiás, produzido pelo meu professor de desenho,
Antônio Peclat. (Grifos meus).
A realização bem sucedida do Batismo, do Congresso de Educação da ABE e dos eventos a
ele associados bem como a participação de educadores de Goiás no evento coroavam de êxito o
esforço e o investimento feito pelo governo estadual no campo educacional goiano e, em particular,
naquele operado sobre as escolas, os professores e mesmo os estudantes da jovem cidade-capital.
Havia o reconhecimento que faltava ainda, em Goiás, ‘[...] o melhor do aparelhamento técnicopedagógico, capaz de integrar com propriedade as modernas exigências educacionais’, conforme se
pode ler em Certame que marca uma época, artigo de Oswaldo Rosa publicado no Correio Oficial
em 01 de abril de 1942. Mas, não se deixava de afirmar que ‘uma coisa, porém, não padece dúvida:
- o opulento Estado Mediterrâneo possue um apreciável quoficiente de boas escolas! - Aqui
também se estuda [...]’.
Naquele momento, os intelectuais goianos que constituíram os sentidos de Goiânia em
parceria com o Estado acreditaram ainda mais no seu potencial de civilização do sertão e, por que
não, da totalidade da nação. Goiás, para eles, era realmente a terra do futuro e Goiânia, a cidade
onde um porvir grandioso os esperava. E a cidade-capital, afinal, se fez. De um lado, moderna,
culta e civilizada. De outro, desdobrada sobre si mesma, guardava em suas dobras a permanência
do sertão. Mais que tudo, a modernidade constituída para/em Goiânia, marca e símbolo de uma
época da vida brasileira, guarda singularidades importantes em relação ao conteúdo e à forma
daquela modernidade que se desenvolvia em outros lugares do Brasil. Como, aliás, alerta José de
415
Fernando Antonio Rosa Gabaglia (1895-1954), um dos fundadores e professor do Curso de Geografia e História da
Universidade do Distrito Federal (1935-1939), professor do Colégio Pedro II (onde também foi diretor), autor de livros
didáticos de geografia do Brasil, destacado participante do debate educacional do período, representou o presidente
Getúlio Vargas no Batismo Cultural. Em 1944, assumiria a direção da Secretária de Educação do Distrito Federal.
340
Souza Martins (2000: 21) a modernidade, enquanto movimento constituído pelos “ritmos desiguais
de desenvolvimento econômico e social, [...], pela acelerada e desproporcional acumulação de
capital, pela crescente miséria [...]”, não se apresenta como movimento homogêneo e coeso, mas
marcado pela heterogeneidade e pela fragmentação.
Entre a cidade planejada e a cidade real, muitas interfaces. As contradições da modernidade
sertaneja se avolumavam. Se a pena irônica e debochada de Monteiro Lobato havia escancarado as
fragilidades da cidade, décadas depois, quando a simbologia de modernidade de Goiânia já se
tornara dominante na sociedade goiana e os tempos eram outros, Claude Lévi-Strauss lançava
Tristes Trópicos onde relembrou sua passagem pela cidade-capital goiana. Rumo a Mato Grosso, o
intelectual francês (1957: 128) registrou o estranhamento e a experiência de provisoriedade que a
nova capital proporcionava aos olhos do visitante.
Visitei Goiânia em 1937. Uma planície sem fim, que parecia, ao mesmo tempo, um
terreno baldio, um campo de batalha, eriçada de postes de eletricidade e de escalas
de agrimensura, exibia uma centena de casas novas dispersas nos quatro cantos do
horizonte. [...] nada poderia ser tão bárbaro, tão inumano quanto esse
empreendimento contra o deserto. Essa construção sem graça era o contrário de
Goiás; nenhuma história, nenhuma duração, nenhum hábito havia saturado o seu
vazio ou amenizado a sua rigidez; sentíamo-nos ali como numa estação ou num
hospital, sempre passageiros e jamais residentes.
Cidade-Sertão, fronteira entre dois mundos que se entrelaçavam, Goiânia enquanto signo da
modernidade brasileira, aparecia ao olhar estrangeiro como distante ou invasora ou como
“esfumada dificuldade da travessia” (MARTINS, 2000: 26). Um cenário anti moderno, enfim! A
cidade se materializava como travessia, como incompletude, como inacabamento. Promessa
anunciada, embora não cumprida. Marcas da modernidade latino-americana. Uma arquitetura, à
época, moderna e a expropriação do trabalho e dos trabalhadores! Cidade edificada sob o prisma da
modernidade se ligava a arcaicas estruturas fundiárias. Símbolo de ruptura com a história e com o
passado serviu como estratégia política para que seu mentor, Pedro Ludovico, e os grupos a ele
ligados sustentassem o projeto de poder que os tornou os novos senhores das antigas minas dos
goyases. De acordo com Fernandes (2003: 48),
A ideia de progresso – entendida como crescimento e desenvolvimento econômico
do Estado – com Pedro Ludovico, floresceu em Goiás e atravessa o imaginário do
povo goiano estabelecendo conduta e sensibilidades, idealizações e entendimentos
norteadores de práticas sociais. [Contudo] A construção de Goiânia pode ser
entendida como uma ação isolada, que caracteriza a adesão ao ideal de progresso,
ou seja, Goiânia como uma cidade “moderna” em um Estado que permanecia rural.
Goiânia inaugurou, em Goiás, novas relações de trabalho, transformou os cotidianos, alterou
341
os sentidos da existência, implantou novos hábitos, costumes e comportamentos, forjou novas
identidades, mas concomitantemente “apresentou-se como momento contraditório da humanização
[cobrando do homem] sua coisificação, [...] seu estranhamento em relação a si próprio, no ver-se
pela mediação alienadora de um outro que é ele mesmo, embora não pareça” (MARTINS, 2000:
19). Ao final, a sociedade sertaneja, como lugar de uma realidade social do campo e do sertão,
integrava-se a nação como contraponto crítico e intrigante da modernidade, uma ‘outra coisa’, a
qual desconstrói o moderno produzindo, ainda de acordo com Martins (2000: 25) “[...] uma
consciência social dupla, o diverso segmentado e distribuído nos compartimentos da cultura e da
vida”.
A construção material e simbólica de Goiânia e de suas escolas representou, contudo, o
momento era de uma intensa visibilidade nacional da obra dos ‘filhos do coração do Brasil’ e de
sua ‘luta ciclópica e insana’. As ânsias desejosas pela modernidade e pelo pertencimento das elites
goianas pareciam, por fim, alcançadas. O esforço fora reconhecido e o ‘filho menos educado’
ascendia como símbolo de uma era em que a nação dilacerada se tornava unidade e integração. A
cidade-capital, que preservava o sertão com suas ausências e falhas, foi louvada como indício de
uma nova história brasileira, o lugar onde sertão e litoral se fundiriam formando a nação imaginada
pelas elites nacionais. O nacional e o regional se congregavam em torno da educação dos
brasileiros. E Goiânia, o grande ‘pássaro sem asas’ inventado pela intelectualidade goiana, ainda
que por um esquecido, raro e fugidio momento na história brasileira, pôde alçar seu vôo breve e
experimentar a re invenção da nação.
342
CONCLUSÕES
O enfoque na historia social da educação na cidade-capital goiana permitiu explicar a
participação das primeiras escolas públicas na invenção de Goiânia e perceber que a conformação
do campo educacional goianiense fez-se em estreita relação com os motivos da cidade. De outro
lado, foi possível compreender que a educação escolar na Cidade-Sertão alimentou-se dos grandes
discursos sobre a nação que circulavam pelo Brasil, alinhando-se ao movimento que fazia da escola
o lugar, por excelência, da formação do novo homem brasileiro: educado, trabalhador, ordeiro,
saudável, católico, amante da pátria e da família. Ao buscar a construção do Brasil a partir de
dentro, educando sua gente mestiça para a ocupação produtiva dos seus espaços vazios, Goiânia
compartilhou - como outras sociedades regionais brasileiras - o projeto de nação gestado e colocado
em andamento na chamada Era Vargas.
Embora seja inquestionável que o surgimento de Goiânia possui relação intrínseca com o
processo de expansão capitalista experimentado naquele momento, a ênfase na construção
simbólica da Cidade-Sertão evidenciou que a nova capital não surgiu como mera resposta às
pressões do capitalismo até as regiões periféricas do planeta. A cidade, tampouco, significou uma
mera troca de poder entre oligarquias regionais, perspectivas dominantes na pesquisa sobre a
história da cidade-capital. Com igual força se fizeram presentes desejos e projeções fundantes da
identidade goiana, como o de refutar as representações de Goiás como sociedade da ausência,
transformar as antigas minas dos goyases em uma região moderna e civilizada e, assim obter o
reconhecimento de que ‘o grande estado central do Brasil’ era essencial no projeto da pátria rica,
esclarecida e forte. A busca da modernidade, o anseio pelo desaparecimento do sertão e do nefasto
jequismo associado ao povo de Goiás, o desejo de pertencer e ser reconhecido no espectro da nação
pontuaram os discursos e justificaram as práticas tornando singular a relação entre a escola e a
cidade.
A modernidade pedagógica que ali foi experimentada também tinha, é evidente, como
343
objetivo a formação do povo goiano para os ditames e interesses do capital, mas pautava-se
igualmente pela preocupação com a forja da identidade de uma gente que vivia a falta de um
passado glorioso, o isolamento e o abandono. Um povo que não conhecia o mundo regional que
habitava e nem nele se reconhecia. Ademais, tornadas espelho e reflexo de uma sociedade que
desejava mostrar que construía ativamente seu próprio futuro, às escolas de Goiânia foi reservado,
juntamente com outras instituições sociais e culturais, o importante papel de produzir a ‘vida
espiritual’ da cidade-capital e, assim, contribuir para fazer da Cidade-Sertão um foco de civilização
para a imensidade dos sertões do oeste brasileiro.
Não encontrei singularidade absoluta na historia da educação da jovem cidade-capital no
momento de seu empolgante surgimento: o campo educacional goianiense assimilou premissas,
orientações e diretrizes emanadas do Estado Nacional e dos círculos cultos da nação,
desenvolvendo experiências comuns a outras cidades-capitais regionais do Brasil e incorporando
praticas e discursos típicos de sua época. A singularidade desta historia se encontra exatamente no
que poderíamos chamar, como Ítalo Calvino (1991), de “motivo da cidade”. A superação do atraso
e da decadência, a negação da historia de abandono, desconhecimento, a quase inexistência, a busca
do pertencimento e da relevância nacionais projetaram o complexo de periferia dos goianos
desenhando o motivo da cidade e interferindo na conformação do seu campo educacional e
pedagógico. Essa, a singularidade da escola em Goiânia no momento em que a cidade era
construída material e discursivamente.
Mas, se é certo que a cidade-capital de Goiás se consolidou como locomotiva do progresso
econômico do estado e se fez, de fato, como significativo momento de ocupação produtiva de suas
férteis regiões, é também certo que as expectativas de pertencimento e relevância nos quadros da
nação que subsidiaram a construção simbólica de Goiânia foram frustradas. A história do Brasil não
contempla a cidade-capital de Goiás ao tratar aquele momento da vida brasileira. Entretanto, mais
inquietante, é perceber que, embora os livros didáticos de história regional tenham incorporado a
simbologia da modernidade e atrelado o surgimento da cidade-capital ao Estado Novo, nem mesmo
os habitantes de Goiânia conhecem em profundidade o rico processo de sua significação e os
anseios de relevância que sustentaram seu surgimento. Pairam silêncio e sombras sobre a história
de Goiânia e, particularmente, sobre a história das escolas que surgiram no momento em que a
cidade-capital era constituída como símbolo da superação dos goianos e marca da modernidade
sertaneja e da unidade nacional.
Talvez, o desejo pela modernidade e a negação do sertão tenham provocado o
esquecimento: sempre em direção ao futuro, jamais parando para olhar para o passado, mesmo o
passado recente, o passado glorioso, o passado que fez surgir Goiânia, o grande ‘pássaro sem asas’
que, de fato, não pôde voar. Talvez, o que Jacques Le Goff (2003: 208) denomina ‘míngua de um
344
passado’ tenha marcado a vida goiana com tamanha intensidade que esquecer e silenciar se
constituam como preciosos recursos de sobrevivência simbólica do povo de Goiás levando-os a
uma perspectiva na qual o futuro seja sempre almejado e esperado e o passado, sempre, esquecido e
negado. De qualquer ângulo ou perspectiva, julgo necessário empreender esforços que possam
buscar explicações para o silenciamento e o apagamento daquele raro momento na vida da
sociedade goiana. Que forças sociais, políticas, ideológicas, econômicas e culturais atuaram neste
processo? Como se deu a sobrevivência e espraiamento da simbologia da modernidade ao mesmo
tempo em que objetos culturais, personagens, práticas e discursos oriundos e motivados pela
cidade-capital de Goiás foram como que banidos desta história?
É verdade, contudo, que a partir dos anos 1990, a história de Goiânia vem sendo, pouco a
pouco, descortinada. Para Oliveira (2001), o acidente com o césio 137416, em 1987, representou um
momento de viragem. A dor e o sofrimento vivenciados pela sociedade goianiense desde então
provocaram como que um trauma que ainda marca a vida da cidade-capital. É como se
modernidade – tão sonhada – trouxesse somente fraturas e feridas dolorosas impossíveis de serem
curadas. Um retorno nostálgico ao passado pode ser percebido na poesia e na crônica urbana. Como
em José Mendonça Teles (1998: 16) que procura, hoje, a Goiânia de ontem.
Eu te vejo, Goiânia, quando relembro os templos sagrados de tua inteligência –
Lyceu, Ateneu, Santo Agostinho, Santa Clara [...] – e me dá uma vontade de
voltar, correr de marcha-a-ré, ir atrás de minha adolescência que insiste em brincar
de pique na esquina da memória. [...] Eu te vejo, Goiânia, quando caminho minha
solidão nas artérias de teu corpo onde me perco e me vejo sem ser visto, nessas
andanças de passos lassos e incertos.
Atualmente, a cidade parece ter sido descoberta pela pesquisa acadêmica sendo a arquitetura art
déco uma das primeiras temáticas tratadas pelos pesquisadores. Também o contexto político e
ideológico que provocaram o aparecimento da cidade tem recebido especial atenção. Por meio
416
O acidente radiológico de Goiânia foi um grave episódio ocorrido por contaminação radioativa em 13 de setembro
de 1987 no centro urbano da cidade-capital. O foco da contaminação era uma cápsula do césio 137 integrante de um
aparelho radioterápico desativado e que, depois de furtado de um hospital abandonado no Setor Central, foi desmontado
e suas peças repassadas a terceiros. O trajeto da cápsula radioativa gerou um rastro de contaminação que atingiu
milhares de pessoas: de acordo com Comissão Nacional de Energia Nuclear, 112.800 pessoas na capital goiana foram
expostas a ‘rosa radioativa’ do césio 137. A situação agravou-se em função da demora na detecção das causas dos
sintomas apresentados e das tentativas de minimizar o acidente por parte do governo estadual, o que expandiu o
potencial de contaminação e gerou pânico social. Ocorreram prejuízos financeiros com a perda dos imóveis residenciais
e comerciais onde a cápsula havia circulado. As conseqüências sociais não foram desprezíveis: o medo da
contaminação provocou dinâmicas de preconceito e discriminação por parte da população como a enxurrada de
protestos (alguns violentos) contra o sepultamento de pessoas mortas pelos efeitos da radioatividade nos cemitérios
locais. Diversas produções áudio visuais, textos literários e canções mencionam o acidente radiológico de Goiânia.
Dentre eles, destaco: o filme Ilha das Flores, de Jorge Furtado, o conto Witch Baby da escritora francesa Lia Block e a
canção Miracolo a Goiânia, no álbum Pane e Rose, do cantor italiano Angelo Branduardi. In: www.wikipedia.org,
verbete Acidente Radiológico de Goiânia
345
destes temas, aos poucos, se adentra no universo da história cultural de Goiânia, lugar onde se
constituiu uma experiência singular de modernidade, pertença e relevância à/na nação.
No campo da educação, o silenciamento talvez tenha sido ainda mais intenso e profundo e
as escolas de então – principalmente as primeiras escolas públicas e, particularmente, a escola
primária em todas as suas modalidades – parecem esquecidas na história e apagadas da memória
goianiense. Lembranças fartas e ricas, apenas do Liceu de Goiânia e, um pouco menos, da Escola
Normal Oficial. E das escolas privadas, em especial, do Colégio Santa Clara. Dado sua presença e
participação na vida cultural e educacional da Cidade-Sertão nos anos 1930 e 1940, mais estranho
ainda me parece o processo que borrou, na história e na memória da cidade, o Grupo Escolar
Modelo. Embora seja possível, como fiz neste trabalho, rastrear sua participação na cultura urbana
de Goiânia naquele momento, quase nada pude encontrar acerca do que ocorria em seu intra-muros.
Os relatos dos primeiros estudantes do Modelo são raros e repletos de lacunas remetendo sempre ao
depois do primário: invariavelmente, ao Liceu e a Escola Normal, ‘templos oficiais da inteligência’
dos de Goiânia, como os chamou José Mendonça Teles (2006).
Outras escolas primárias, contudo, se mostram ainda mais inacessíveis: as escolas do quintal
e as escolas primárias noturnas que recebiam os trabalhadores e seus filhos, anônimos e não
reconhecidos construtores da Capital do Sertão. Nem sequer seu endereço na cena urbana, nem
mesmo suas solitárias professoras, nem mesmo os estudantes que as freqüentavam, foram ainda
identificados e nomeados. Parecem nunca ter existido na vida e na cultura da cidade-capital goiana.
Porém, é preciso cogitar o significado deste esquecimento confrontando-o com a história oficial de
Goiânia. Michael Pollack alerta (1989), a respeito que
[...] o longo silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a
resistência que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos
oficiais. Ao mesmo tempo, ela transmite cuidadosamente as lembranças
dissidentes nas redes familiares e de amizades, esperando a hora da verdade e da
redistribuição das cartas políticas e ideológicas.
Se for este o caso, as lembranças destas escolas permanecem vivas na sociedade goianiense
ou, pelos menos, em alguns de seus extratos sociais e populacionais à espera do “[...] momento
propício para serem expressas”, como afirma Pollack (1989: 03). Estive, em diversos momentos,
nas proximidades das ‘pistas, indícios e sinais’ que poderiam revelar a experiência intramuros das
primeiras escolas primárias de Goiânia: ora, eram os fragmentos da memória de um antigo morador
da Invasão do Botafogo que relatou ter feito o curso primário em uma escola anexada a uma
paróquia. Não se lembrou, entretanto, de que paróquia se tratava, do nome do padre responsável por
ela, de onde se localizava, do professor ou professora, de colegas. Nada. Ora, a remota
346
possibilidade, levantada por Dilair de Faria, estudante do Grupo Escolar Modelo no período 19381943, de ter preservado, em velhos baús e armários, objetos da vida escolar como boletins e
cadernos escolares. Memórias esgarçadas, memórias incompletas! Mas, ainda assim, memórias que
sobreviveram ao processo de apagamento que sobre elas recaiu e, talvez neste sentido, a história
das primeiras famílias de trabalhadores e das redes de sociabilidade operária podem fazer emergir
as esquecidas escolas primárias da cidade.
A história da educação de Goiânia é, de qualquer forma, um campo ainda pouquíssimo
explorado. Muitos e distintos objetos de pesquisa ainda esperam para serem investigados. A Revista
de Educação, os dois congressos regionais do ensino primário (de 1937 e 1938) e mesmo o VIII
Congresso Brasileiro de Educação da ABE, as possíveis influências dos modelos mineiro e paulista
de educação na realidade educacional goiana e goianiense e, consequentemente, as apropriações e
empréstimos daí tomados. Tudo ainda por investigar, esmiuçar, compreender e explicar. Outros
temas daí derivados se revelam igualmente instigantes: o papel da mulher na obra educacional de
então, a possibilidade de que a educação da região tenha se constituído em espaço de disputa entre
São Paulo e Minas Gerais; o amalgama entre ruralismo pedagógico e escola nova, entre outros.
Importantes personagens da cena educacional da Cidade-Sertão se fazem também objeto de
estudo: Amália Hermano Teixeira, Floraci Artiaga, Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro,
Julieta Fleury, Vasco do Reis, Gentil Augusto Lino, as ‘gentis professoras’ do Grupo Escolar
Modelo, entre outras. No que diz respeito às mulheres, estas intelectuais-educadoras foram
precursoras da modernidade pedagógica em Goiás, escreveram livros e manuais didáticos,
dirigiram órgãos de gestão da educação pública, formularam discursos e desencadearam práticas
significativas das ânsias desejosas pelo pertencimento e pela saliência que sustentaram o
surgimento da Cidade-Sertão. Novamente, as memórias e as histórias familiares se mostram válidas
para acessar tais práticas e discursos. Recuperar estas mulheres e seu papel na construção do campo
educacional de Goiânia se revela importante na medida em que se apresenta, como hipótese a ser
investigada, que o esquecimento que sobre elas recaiu pode estar relacionado ao contingente de
serem mulheres em uma sociedade dirigida e controlada por homens, os quais tomaram também
para si a tarefa de re-escrever a história goiana.
Em outra vertente de estudo, aqueles que, primeiro, adentraram as escolas de Goiânia na
condição de aprendizes podem também fornecer valiosas contribuições para a pesquisa em história
da educação. Estudantes do Grupo Escolar Modelo, do Grupo Escolar Pedro Ludovico Teixeira no
bairro de Campinas, das escolas isoladas e mesmo do Liceu e da Escola Normal Oficial. Por meio
deles, talvez seja possível, encontrar a vida e a cultura da infância goianiense, suas práticas lúdicas
e não lúdicas, a disciplina corporal, as resistências infantis, a aprendizagem da simbologia do
coração, etc. Muitos deles ainda estão vivos; muitos deles ainda, provavelmente, estejam lúcidos e
347
tenham preservado, em velhos baús, lembranças materiais da vida estudantil: álbuns de retratos,
livros, cadernos e boletins escolares, uniformes e roupas de festas escolares. Talvez, esperem
apenas o momento e a oportunidade para revelar os tesouros da memória da escola e das
aprendizagens ali experimentadas.
Estudantes e professores das primeiras escolas de Goiânia podem ajudar a abrir a caixa
preta das culturas escolares que ali foram forjadas. Afinal, de que modo e através de quais
estratégias, as escolas participaram da transformação da criança e do jovem sertanejos? Que
práticas foram colocadas em andamento com vistas a inseri-los nos ritmos, tempos e modos de agir,
pensar e sentir considerados modernos e civilizados? Se a cidade-capital se fez promessa
civilizatória, parece coerente pensar que um intenso projeto de transformação de corpos e mentes
infantis e juvenis teve lugar na escola, instituição que se constituiu na modernidade como tempo e
lugar de interdições, constrangimentos e de modelagem dos que nela adentraram. Faz-se necessário
inventariar, portanto, como as escolas participavam do exercício como o poder disciplinar inerente
as cidades planejadas. Neste mesmo sentido, o estudo das práticas corporais escolarizadas que ali
ocorreram é, de meu ponto de vista, um relevante objeto de pesquisa.
Também julgo pertinente e necessário a realização de estudos que procurem compreender
como as escolas goianienses participaram da difusão da simbologia do coração. Tradição inventada
como marca identitária de uma região particularmente esquecida e desconhecida da nação brasileira
nos anos iniciais do século XX e que encontrou com a construção de uma nova cidade-capital os
incentivos necessários a sua consolidação. O coração, lembremos, é o órgão que faz viver o corpo;
estrutura material centralizada para a existência da vida material e, em nossa cultura ocidental e
cristã, investida simbolicamente como lugar onde pulsa o plenamente humano. Este estudo se faz
ainda mais necessário se considerarmos que tal simbologia encontra-se atualmente em processo de
apropriação por grandes conglomerados empresariais que atrelam sua imagem e a mercadoria que
produzem à imagem do ‘coração do Brasil’.
Vários foram os instrumentos e dispositivos de difusão e fixação desta tradição e de sua
simbologia visual. A escola goiana, de modo geral, se revela como lócus privilegiado neste
processo de consolidação e expansão da tradição e de sua simbologia. Um dos dispositivos
utilizados para tal expansão foram os livros escolares. Dois deles se mostram particularmente
interessantes na medida em que fizeram parte do projeto de pertencimento que animou intelectuais
e políticos goianos nas décadas de 1930 e 1940. São livros de história de Goiás destinados ao curso
normal e à escola primária, os quais conferiam, pela primeira vez nas terras goianas, uma atenção
ao ensino da história. Ao serem introduzidos no campo escolar, tinham como objetivo dar a ver, aos
próprios habitantes da região, a então desconhecida história regional. Ambos integram os esforços
das elites e dos governantes regionais em tornar conhecido, aos goianos, o estado de Goiás.
348
O primeiro, Súmula da história de Goiás, de autoria de Americano do Brasil, foi produzido
sob encomenda do governo estadual para destinar-se ao ensino normal em 1904. Algum tempo
depois, contudo, o livro deixou de servir ao fim ao qual se destinava. Em 1934, foi re-editado e
novamente adotado no curso normal. O segundo livro, Goiaz coração do Brasil, adentrou nas
escolas primárias também 1934. Sua autora, Ofélia Sócrates do Nascimento, era diretora do Grupo
Escolar da Capital, localizado na antiga capital (Cidade de Goiás) e afirmou, no prefácio, que o
livro era resultado de sua observação ‘da dificuldade com que lutam os professores goianos para
encontrar os pontos de História de Goiaz, que precisam ensinar’.
Este livro é atravessado pela simbologia do coração que se mostra, inclusive, no seu título.
Inspirado em um famoso livro da primeira metade do século - Minha Pátria da autoria de Pinto e
Silva -, o livro é composto de lições que trazem nomes de governantes de Goiás, apresentam
'goianos ilustres', exaltam valores como o amor ao trabalho, as virtudes do caráter e o afeto ao
Brasil e à Goiás, mostram cenas que retratam as riquezas, os rios, as matas, as plantações, as festas
folclóricas, homens em atividade de caça, índios, os municípios da região (revelados às crianças
goianas em ordem alfabética e em ordem de criação oficial). O livro trazia um apelo cíviconacionalista que pretendia estimular na criança o amor à região bem como o conhecimento e o
respeito à sua história, sua geografia e sua organização política. Inovador também na forma, o livro
também educava pela imagem: é repleto de fotografias que, por sua vez, acionavam poderosos
mecanismos de fixação e incorporação do discurso formulado.
Goiânia se tornou, de fato, um importante centro educacional para todo o seu entorno,
incluindo as regiões norte e nordeste do país, fazendo valer a construção simbólica que forjou a
imagem de cidade-educadora. Atualmente, as escolas públicas históricas de Goiânia vivem o
sucateamento e o abandono que, via de regra, marcam a realidade escolar e educacional brasileiras.
Na especificidade da cidade-capital goiana e de sua história, o abandono parece traduzir também a
desvalorização histórica que o urbano goianiense atravessou por décadas. A estrutura material de
algumas escolas, como o Liceu e o Instituto de Educação (IEG)
417
aparece permeada pela
precariedade e pelo abandono. Prédios repletos de goteiras e infiltrações, janelas e portas
quebradas, sanitários e instalações hidráulicas deteriorados, salas de aula com paredes mofadas e
fiação elétrica exposta, pintura descascada, buracos nas quadras esportivas e nos pátios são alguns
dos problemas denunciados pelo jornal O Popular de 08 de março de 2009 na matéria Sem reforma,
escolas antigas funcionam de forma precária. Nem mesmo a recente ênfase na preservação do
417
A Escola Normal Oficial transformou-se no Instituto de Educação de Goiás (IEG) em 1947, durante do governo de
Jerönimo Coimbra Bueno. A nova instituição não foi instalada em prédio próprio, o que somente aconteceu na década
de 1950 quando foi construído, no Setor Vila Nova, um edifício para abrigá-la. O prédio foi edificado com
financiamento do INEP, em meio a inúmeras interrupções no envio das verbas. Basileu Toledo França (1998) relata que
foi necessário recorrer ao trabalho de presidiários para a finalização do edifício.
349
patrimônio arquitetônico dos últimos anos significou tomar tais escolas como objeto de atenção e
investimento. Velhas e esquecidas escolas de uma cidade que, parece, somente projeta o futuro, o
porvir.
Goiânia é, hoje, realmente, a metrópole que seus construtores e idealizadores jamais
pensaram existir. A cidade superou todas as expectativas de crescimento populacional e
demográfico: mais de um milhão de habitantes ocupam suas ruas, quarteirões e bairros vivendo - a
maioria deles - as mesmas condições precárias e as mesmas relações de exclusão, distinção e
violência que é signo da vida das grandes cidades brasileiras. A imagem da cidade moderna domina
o imaginário local e os goianienses se recusam a pensá-la como cidade-sertão. Móvel, o sertão é
mais adiante, mas longínquo, sobrevivendo nas paisagens ressequidas do nordeste brasileiro, como
na imagem difundida pelo cinema engajado da década de 1960 ou, como considera SENA (2009),
vai sendo empurrado até as veredas do estado do Tocantins.
O grande ‘pássaro sem asas’ que foi dado a ver, nas décadas de 1930 e 1940, por seus
intelectuais e políticos não realizou o grande vôo por eles sonhado no espaço da nação. O vôo foi,
ao contrário, rápido e pequeno. O papel de Goiás no projeto de integração dos sertões do oeste
brasileiro logo foi esquecido e os goianos continuaram como atores secundários na história do país,
emergindo esporadicamente, criando ou aproveitando oportunidades que possam projetar a região
na nação. Como ensinou o grande Machado de Assis, maior sabedoria que inventar e fazer voar um
‘pássaro sem asas’ é compreender que ele não pode, realmente, alçar vôo e atingir as alturas.
Passada a vertigem do breve vôo, o sonho da relevância e do pertencimento dos goianos fragilizouse.
Neste sentido, as três cidades-capitais planejadas - Goiânia (1942), Brasília (1961) e Palmas
(1989) - que, no período aproximado de sessenta anos, surgiram no território goiano, contêm
expectativas e projeções muito similares. O mesmo desejo de modernidade sustentou sua
construção. Em todas elas, os goianos projetaram seu desejo de fazer o Brasil e obter o
reconhecimento dos que foram chamados, pela intelectualidade moça de Goiânia, de ‘grandes
irmãos’ ou ‘estados líderes’ da nação. Fruto de um movimento impar em direção ao ‘coração do
Brasil’, estas cidades fragmentaram o estado de Goiás promovendo o aparecimento de novas
territorialidades no centro do Brasil e, em consequencia, de um novo desenho para o mapa
brasileiro. Talvez por isso, as similaridades e identidades entre elas não sejam gratuitas, mas,
resultado de um esforço de pertencimento e relevância do qual Goiânia representou o ponto de
partida.
Esquecido e silenciado na história da nação, o surgimento de Goiânia não conquistou o
lugar de projeção esperado pelos goianos, embora a simbologia do coração tenha se firmado e se
expandido como marca identitária das terras e do povo que habita o sertão dos goyases. Um
350
diálogo418 entre Juscelino Kubitschek de Oliveira, então candidato à presidência da República, e um
de seus assessores ocorrido nos anos 1950, às vésperas do lançamento da campanha eleitoral de JK,
é emblemático da permanência do desconhecimento de Goiás e de sua gente bem como da
consolidação da imagem do coração. O assessor perguntava a Juscelino: ‘Quero que você me diga
uma coisa: ‘O que é um goiano? Você já viu um?’ e, diante da expressão interrogativa do
candidato, acrescentava ‘porque você resolveu lançar sua campanha a presidência em Goiás?’.
Kubitschek respondeu, então: ‘Porque Goiás é o coração do Brasil!’
Contraditória e paradoxal, cidade-capital que oculta laboriosamente suas dobras, burilando
sua moderna urbanidade ás custas da expulsão, para as periferias, de tudo e de todos que possam
contrariar a imagem de modernidade que é seu anima. Cidade que se fez promessa, cidade que se
fez desejo, cidade que se fez sonho e esperança, Goiânia suportou a dor provocada pela rosa
radioativa, vem experimentando mutilações que - dia-a-dia - ferem seu gigantesco corpo,
sobreviveu ás frustrações daqueles que a planejaram. Os de Goiânia continuam tentando explicar
sua cidade, encontrar seus motivos, sua singularidade ou, como escreveu Ítalo Calvino em As
cidades invisíveis (1991:35), ‘a linha que separa a parte de dentro da de fora, o estampido das rodas
do uivo dos lobos’. Muitos tentam fazê-lo seguindo um velho estratagema - dizer Goiânia pelo que
Goiânia não é - na esperança, acenada também por Calvino, de que ‘apresentando-a assim,
podemos reconhecê-la’. Como o artista plástico ZéCézar – José Cézar Trentini de Souza Clímaco –
escreve no livro-imagem Metropólis (2009: 59)
Uma cidade pode ser descrita pelo que ela não é? Goiânia, por exemplo, não pode
ser conhecida por seus motoristas indisciplinados [...] Poderia, por acaso, ser
descrita pelo cheiro dos espetinhos de carne ou provolone assados, nas portas dos
botecos? [...] pelas feiras típicas de comida, roupas e artesanato, chamadas feiras
do sol, da lua, hippie [...] pela característica tranqüila e sem pressa de sua
população [...] pelos flamboyants floridos nos meses de outubro e novembro com
flores cobrindo suas copas e esparramando pelo chão [...].
Segundo Luis Estavem (2001: 39), a cidade-capital goiana é “[...] antes de tudo, fluída.
Escapa nas pesquisas e confunde em seus dados”, parecendo estagnada, por exemplo, em seu
crescimento populacional. Um olhar desavisado consideraria que a cidade vive a estagnação e a
decadência demográfica. “Um grande engano”, pontua Luis Estevam (2001: 39), “a verdade é que
Goiânia bateu nos seus limites geográficos [...]”, propulsionando o crescimento populacional e
econômico de municípios vizinhos (Trindade, Senador Canedo, Aparecida de Goiânia) que
configuram a região metropolitana da cidade-capital – a Grande Goiânia - tornando-se, de fato, a
sua periferia.
418
Recolhido da mini-série JK, produzida e exibida pela Rede Globo de Tel evisão no ano de 2006.
351
É certo que as projeções e expectativas daqueles que constituíram para a cidade os sentidos
da modernidade e do nacionalismo não se realizaram em plenitude. Contribuíram, inclusive, para a
manutenção dos quadros de desigualdade social que oprimia o povo goiano, mantendo e renovando
hierarquias, exclusões e distinções sociais, econômicas, étnicas e culturais na medida em que, se a
cidade-capital goiana rompia com práticas antigas, igualmente alimentava permanências. Mas,
apesar de tudo, é também certo que a nova cidade-capital de Goiás consolidou-se como motivo de
orgulho e objeto de afeto da gente de Goiás que viu, de fato, na nova capital, um sinal de mudança
e uma esperança de melhores tempos.
É importante ressaltar, finalmente, que a centralidade dos conceitos de nação, sertão e
região, neste trabalho, se relaciona menos com a tentativa de reavivar antigas querelas inter
regionais ou de trazer à luz explicações ultrapassadas sobre o Brasil, e muito mais com a
perspectiva de contribuir para que o campo da história da educação no Brasil possa refletir e
pesquisar acerca da importante relação região-nação de onde se sobressai a interpretação do Brasil
como uma nação cindida em dualidades constantemente atualizadas (sertão e litoral; campo e
cidade; rural e urbano; Brasil real e Brasil legal, entre outros.). A tríplice e complexa relação nação,
sertão e região, deste ponto de vista, se mostra como crucial para a compreensão do enraizamento
da escola em nossa sociedade.
As particularidades que a formação da nação assumiu, após a República, notadamente, nas
primeiras cinco décadas do século XX e a força das formulações intelectuais e dos retratos do
Brasil como uma nação dilacerada, por si só, já transformam os conceitos de nação, sertão e região
em categorias essenciais para pensar o país e a escola que aqui surgiu e se consolidou. Lembro,
então, as palavras de Marcos Cézar de Freitas (2000: 58): “O Brasil permanece à espera de quem o
conheça de perto”. Como particular desafio - e convite - para os historiadores da educação
brasileira permanece a tarefa de enfrentamento investigativo que contemple o que vejo como uma
espécie de núcleo duro da interpretação do Brasil como cisão: a permanência o sertão ou do rural
como um outro distanciado daquele que fala, mesmo quando, ao se falar do chamado Brasil real,
este outro apareça como nossa mais autentica brasilidade ou como nosso atraso não superado ou
ainda como nosso manancial e fonte inesgotável de purismo.
352
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABUD, K. A ideia de São Paulo como formador do Brasil. In: FERREIRA, A. C; LUCA, T. R. &
IOKOI, Z. G. (orgs.). Encontros com a história: percursos históricos e historiográficos de São
Paulo. São Paulo/SP: Ed. da UNESP, 1999, pp. 71-80
ABREU, M. Apresentação. In: CHARTIER, R. Forma e sentido. Cultura escrita: entre a distinção
e a apropriação. Campinas/SP: Mercado das Letras, 2003.
ANDRADE, C.R.M. de. Camilo Sitte, Camille Martin e Saturnino de Brito: traduções e
transferências de ideias urbanísticas. In: RIBEIRO, L.C. de Q. & PECHMAN, R. (orgs.). Cidade,
povo e nação: gênese do urbanismo moderno. Rio de Janeiro/RJ: Civilização Brasileira, 1996, pp.
287-310.
__________. A construção historiográfica da cidade e do urbanismo moderno no Brasil: o caso
das cidades novas planejadas. In: Pinheiro, E. & GOMES, M. A. A. de F. (orgs.) A cidade como
história: os arquitetos e a historiografia da cidade e do urbanismo. Salvador/BA: EDUFBA, 2004,
pp. 73-90.
BASTOS, E. R. Paulo Augusto Figueiredo e pensamento autoritário no Brasil. In: RIDENTI, M.;
RUGAI BASTOS, E. & ROLLAND, D.. (orgs.). Intelectuais e Estado. Belo Horizonte/MG: Ed. da
UFMG, 2006, pp. 121-142.
BENCOSTTA, M. L. A. (org.) História da educação, arquitetura e espaço escolar. São Paulo/SP:
Ed. Cortez, 2005.
BENSA, A. Da micro-história a uma antropologia crítica. In: REVEL, J. (org.). Jogos de escalas: a
experiência da microanálise. Rio de Janeiro/RJ: Ed. FGV, 1998.
BOLLE, W. Grandesertão.br: o romance de formação do Brasil. São Paulo/SP: Duas Cidades,
2004.
BOSI, A. Dialética da colonização. São Paulo/SP: Companhia das Letras, 1992.
BUFFA, E. & PINTO, G. de A. Arquitetura e educação: organização do espaço e propostas
pedagógicas dos grupos escolares paulistas (1893/1971). São Carlos/Brasília: EdUFSCar/INEP,
2002.
353
CALVINO, I. As cidades invisíveis. São Paulo/SP: Cia das Letras, 1991.
CAMARGO, M. A. J. G. de. Coisas velhas: um percurso de investigação sobre cultura escolar
(1928-1958). São Paulo/SP: Ed. da UNESP, 2000.
CANDIDO, A. Literatura e sociedade. São Paulo/SP: Nacional, 1967.
CARVALHO, J. M. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro/RJ: Civilização
Brasileira, 2008, 10a ed.
___________. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. São Paulo/SP: Cia. das
Letras, 1990.
CARVALHO, M. M. C. de. O território do consenso e a demarcação do perigo: política e
memória do debate educacional dos anos 30. In: FREITAS, M. C. de (org.). Memória intelectual da
educação brasileira. Bragança Paulista/SP: EDUSF, 2002 (Coleção Estudos CDAPH, série
Memória), pp. 13-26.
_________. A escola da república. São Paulo/SP: Ed. Brasiliense, 1989 (Coleção Tudo é História).
CHARTIER, R. Forma e sentido. Cultura escrita: entre a distinção e a apropriação. Campinas/SP:
Mercado das Letras, 2003.
__________. A história hoje: dúvidas, desafios, propostas. In: Revistas Estudos Históricos, número
13, (CPDOC 20 anos). Rio de Janeiro/RJ, 1994.
CHARTIER, R. & ROCHE, D. O livro: uma mudança de perspectiva. In: LE GOFF, J. & NORA,
P. (orgs.). História: novos objetos (terceira parte). Rio de Janeiro/RJ: Francisco Alves, 1995, pp.
99-115.
CERTEU, M. de. A cultura no plural. Campinas/SP: Papirus, 2001.
_________. A invenção do cotidiano – Artes de fazer. Petropólis: Vozes, 1994.
COSTA, W. P. Narrativas de viagem no Brasil do século XIX: formação do Estado e trajetória
intelectual. In: RIDENTI, M.; RUGAI BASTOS, E. & ROLLAND, D. (orgs.). Intelectuais e
Estado. Belo Horizonte/MG: Ed. da UFMG, 2006.
CUNHA, E. Os sertões. Rio de Janeiro/RJ: Francisco Alves, 1963, 26ª ed. (Ilustrada).
DIAS, A. Apostolado cívico e trabalhadores do ensino: história d
Download

16 universidade federal fluminense programa de pós