PROMOÇÃO DE SAÚDE EM PACIENTES
COM DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO DE HUMOR *
Patricia de Macedo Cardoso1
Mara Regina Nieckel da Costa
RESUMO
Este artigo se refere a um trabalho educativo com os pacientes com diagnóstico de
transtorno de humor que freqüentam o Serviço de Doenças Afetivas da Santa Casa de Porto
Alegre/RS (SEDA). Formou-se um grupo operativo de quatro encontros de quarenta e cinco
minutos cada, com uma dinâmica de grupo e reflexões sobre um tema proposto para cada
encontro. Os resultados mostrados com vinhetas apontam para uma reflexão através da educação
visando maneiras que os pacientes podem encontrar para melhorar a qualidade de vida e,
conseqüentemente, uma promoção de saúde.
Palavras-chaves: promoção de saúde; qualidade de vida; grupo educativo; transtorno de humor.
A Psicologia da Saúde pode ser conceituada como sendo a prevenção e o olhar na relação
entre o bem-estar do indivíduo e o que ele pensa, sente e faz. As áreas de interesse são as
condições sociais, fatores biológicos e traços de personalidade, inserindo o sujeito nos contextos:
biológico, psicológico, social e sistemas biopsicossociais, desde os sistemas corporais até a
cultura (STRAUB, 2005).
No trabalho educativo, segundo Zimerman (1997) o grupo tem a finalidade para que se
propõe e é designado de grupo operativo, em que se observa os aspectos conscientes e
inconscientes nas áreas da mente, corpo e mundo exterior. Na tarefa do grupo é importante
* Orientadora Profa. Mrs. Mara Regina Nieckel da Costa
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Patricia de Macedo Cardoso – Graduanda de Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil, Campus
Guaíba/ RS.
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explicitar as fantasias universais para que o propósito de mudança ocorra, pensar na plasticidade
dos papéis e na ruptura dos mecanismos que possam obstruir o processo grupal. O papel do
coordenador no grupo operativo é o de pensar junto com o grupo.
Trabalhar um grupo com pacientes deprimidos requer, em primeiro lugar, trabalhar com a
representação social da palavra “depressão”, o que este termo pode expressar e significar. É
necessário levar em consideração a etapa do desenvolvimento humano e investigar se a doença
possui uma etiologia biológica, psicológica ou social (ZIMERMAN, 1997).
A psicologia ao intervir numa proposta terapêutica de grupo, possibilita uma resposta
melhor do que a de um tratamento individual, segundo Osório (1986). O paciente, na situação
grupal, confronta-se diretamente com o seu narcisismo, reconhece-se através do olhar do outro.
Além disso, pelas vivências de situações semelhantes as suas, os pacientes identificam-se e
podem refletir com outras experiências.
Segundo Kaes (1997), num entendimento psicanalítico, no grupo permeia a realidade
psíquica a partir de identificações feitas pelas estruturas de realidade psíquica singular,
transformadas pela reorganização da lógica em conjunto. Neste sentido, o grupo é pensado como
um lugar de transmissão de efeitos subjetivos.
Segundo Angerami-Camon (2002), as práticas da Psicologia da Saúde unem a saúde
mental com a saúde física e social do paciente. Na realidade institucional, portanto, deve estar
presente a prática interdisciplinar articulada numa proposta abrangente de compreensão do doente
e da doença. O Psicólogo, como agente de promoção de saúde mental deve produzir e elaborar
mudanças em sua prática.
A proposta do projeto, segundo Romana (1999), traz a função da Psicologia Clínica em
hospitais como um meio de divulgação e esclarecimento para os pacientes no seu processo de
adoecimento. Os objetivos devem ser claros e sensíveis permitindo um olhar que percebe o
psíquico atuando junto com o orgânico, mobilizando o paciente para uma reflexão de temas
vinculados. A psicologia também pode intervir fazendo com que o paciente aproprie-se de si
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mesmo, descobrindo-se, e, portanto, conduzindo-os para a reflexão do estilo de vida adotado e
percebendo que o adoecer depende exclusivamente de suas atitudes.
Baseado nestes conceitos e pensando na intervenção da Psicologia em grupo, foi realizado
um trabalho educativo com os pacientes que freqüentam o Serviço de Doenças Afetivas da Santa
Casa (SEDA), com diagnóstico de transtorno de humor. Ocorreram quatro encontros semanais de
45 minutos cada, e o trabalho de promoção de saúde baseou-se em quatro temas que serviram
para as reflexões e discussões dentro do grupo.
A metodologia utilizada foi a formação de um grupo operativo, com quatro encontros que
ocorreram nos dias 04, 11, 18 e 25 de Junho de 2007, com duração de 45 minutos cada.
Participaram 13 pacientes no total, sendo que 5 participaram em todos os encontros. A média foi
de 8 a 9 pacientes por encontro. Cada encontro foi trabalhado com um tema proposto e uma
dinâmica de grupo.
O primeiro encontro foi para refletir sobre a diversidade e a singularidade. Iniciou com a
dinâmica de grupo: “O que você parece para mim...” na qual os pacientes receberam uma folha
de papel sulfite que foi pendurado nas suas costas e uma caneta colorida de hidrocor. Cada
paciente escreveu uma palavra que representasse o outro paciente. Após, cada paciente retirou de
suas costas o papel e leu em voz alta, Ex.: sensível, tagarela, batalhador... E pode refletir como as
pessoas os vêem. Falou-se em diversidade. Após, pediu-se para que os pacientes usassem o outro
lado da folha e eles próprios escreveram o que acham de si. Leram em voz alta e puderam
comparar como as pessoas o enxergam e como a própria pessoa se percebe. Trabalhou-se a
singularidade e, para finalizar, todas em pé gritaram ao mesmo tempo o seu nome.
No segundo encontro o tema proposto foi a auto-estima. Iniciou-se com um momento para
as pacientes refletirem sobre o que significa auto-estima, como as pessoas se sentem sobre si
mesmo e o que pensam a respeito. Foram oferecidos papéis pequenos e canetas hidrocor para
escreverem o que pensaram, na dinâmica “Trabalhando a auto-estima”. Após, os pacientes
receberam um balão e colocaram a mensagem dentro. Brincaram no ar com o balão cheio. Após,
estouraram e cada paciente ficou com a mensagem de outro para si. Fizeram alguns comentários.
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O terceiro encontro foi para pensar nos estilos de vida adotados pelos pacientes. Em
círculo e em pé, todos os pacientes ficaram de olhos fechados por três minutos, na dinâmica de
“mentalização” e pensaram sobre os seus estilos de vida adotados hoje, no presente. Após,
formaram-se duplas de pacientes e se distribuíram na sala. Conversaram por cinco minutos entre
si. De volta ao círculo inicial, sentados, alguns pacientes comentaram sobre as suas reflexões.
O quarto encontro foi para pensar no tema projetos de vida. Para isto, utilizou-se a
“dinâmica da revista”, em que cada paciente teve a sua disposição uma folha de cartolina, tesoura
e cola. Olhando a revista e recortaram figuras que representam imagens, situações, paisagens que
gostariam de mudar, de se apropriar, enfim, que reconhecessem como algo a ser conquistado.
Após as reflexões sobre as suas colagens, a cartolina foi enrolada e envolvida com uma fita de
presente, simbolizando um canudo para ser conquistado.
Neste último encontro, realizou-se o fechamento com uma ficha de avaliação onde
puderam registrar o que pensaram a respeito da experiência proposta. A expectativa da realização
da intervenção foi de que os pacientes pudessem refletir através da informação educativa, sobre
os temas abordados e encontrar maneiras para uma melhor qualidade de vida. Acredita-se na
mudança de atitude frente às condições atuais como forma de pode objetivar a promoção de
saúde e minimizar o sofrimento psíquico.
Os resultados foram percebidos na observação posterior ao grupo e no acompanhamento
semanal. Também pode ser avaliado nas frases ditas pelas pacientes: “Me sinto mais alegre, mais
positiva”; “Eu nunca me senti tão especial como aqui”; “Hoje eu não estou bem, só que vir aqui
me traz esperanças para o amanhã”;”Quando vai ter mais trabalhos?”;”Ontem, eu consegui
dizer não para uma vizinha que me incomoda muito, disse que ela estava precisando de uma
psicóloga!”.
O trabalho educativo que surgiu de uma experiência de atuação da Psicologia em grupo
contribuiu no processo de melhora na qualidade de vida dos pacientes. Embora sejam necessários
outros encontros para abranger significativamente a proposta, nas observações feitas e nos relatos
verbais os pacientes revelam que alguma mudança ocorreu. Esta experiência pode servir como
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parâmetro para um trabalho posterior de pesquisa porque houve uma apropriação das questões
internas e promoção de comportamentos diferentes no cotidiano.
REFERÊNCIAS
ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto (org.).Psicologia da Saúde: um novo significado
para a prática clínica. São Paulo: Pioneira, 2002.
KAES, René. O Grupo e o Sujeito do Grupo: elementos para uma teoria psicanalítica do
grupo. Traduzido por José de Souza e Mello Werneck. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.
OSÓRIO, Luiz Carlos [et al]. Grupoterapia Hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
ROMANA, B. Princípios para a Prática da Psicologia Clínica em Hospitais. São Paulo: Casa
do Psicólogo, 1999.
STRAUB, Richard. Psicologia da Saúde. Porto Alegre: Artmed, 2005.
ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos: Teoria, Técnica e Clínica. Porto Alegre:
Artmed, 1997.
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