Abertura Boas Vindas Tema do Congresso Comissões Sessões Programação Áreas II Congresso Nacional de Formação de Professores XII Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores Títulos Trabalho Completo ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM BIOLOGIA: DIALOGANDO SABERES PARA A TRANFORMAÇÃO Luiz Paulo Guimarães De Siqueira, Elisa Maria Barcelos Soares Rezende, Gínia Cezar Bontempo Eixo 1 - Formação inicial de professores para a educação básica - Relato de Experiência - Apresentação Oral Este relato é fruto de um intenso trabalho realizado entre os meses de maio a agosto de 2013, como parte das atividades da disciplina Estágio Supervisionado em Ciências e Biologia III do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Ele apresenta as experiências vivenciadas durante a execução do estágio e, mais do que isso, pontua as principais indagações, inquietações e reflexões durante este período. O relato foi organizado em quatro seções: a necessidade e a importância do estágio e seu amparo perante a instituição; a caracterização da escola e do contexto escolar em que ocorreu o estágio; o desenvolvimento do estágio em si por meio das relações com os diferentes atores sociais envolvidos, das aulas e das principais vivências e indagações surgidas durante este processo; e, por fim, algumas considerações sobre o estágio e a sua importância na formação da identidade docente. O Estágio Supervisionado possibilitou um momento rico na formação do licenciado. Ele foi realizado de forma integrada com a teoria e prática, e criou condições que estimularam o licenciando a (re)construir e fortalecer uma base teórica na prática. Mais do que isso, favoreceu a reflexão e a avaliação constantes das ações, possibilitando uma formação estimuladora, que incentivou a busca por melhores metodologias e relações com os alunos. A experiência no Estágio promoveu, de forma bastante significativa, o amadurecimento do discente para os desafios e para a responsabilidade do que é ser professor. Trouxe preocupações e inquietações a respeito da condição de trabalho oferecida à categoria, do desleixo que é colocada a educação pública e o avanço acelerado da privatização da educação. PALAVRAS-CHAVE Estágio Supervisionado; identidade docente; Biologia 0497 Ficha Catalográfica ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM BIOLOGIA: DIALOGANDO SABERES PARA A TRANFORMAÇÃO Luiz Paulo Guimarães de Siqueira; Gínia Cezar Bontempo. Universidade Federal de Viçosa; Elisa Maria Barcelos Soares Rezende. Escola Estadual Effie Rolfs, Viçosa, MG. Introdução A formação de docentes é um desafio para as universidades brasileiras. As experiências de métodos de formação, as impressões dos licenciandos e formas de relação com as escolas devem ser constantemente avaliadas, aperfeiçoadas e ajustadas, visto que, a sociedade se transforma ao longo do tempo e, diante desse fato, a educação não pode ficar para trás. A divulgação e troca de experiências na formação de professores deve ser um ato incentivado, e, partindo desta compreensão, trazemos aqui nossa experiência. Este relato é fruto de um intenso trabalho realizado entre os meses de maio a agosto de 2013, como parte das atividades da disciplina Estágio Supervisionado em Ciências e Biologia III do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Viçosa (UFV). O relato apresenta as experiências vivenciadas durante a execução do estágio e, mais do que isso, pontua as principais indagações, inquietações e reflexões durante este período. Para uma melhor organização, o relato foi organizado da seguinte forma: primeiramente abordarei sobre a necessidade, tal como a importância do estágio e seu amparo perante a instituição; depois discutirei sobre a escola em que estagiei, sua estrutura, a dinâmica da turma e da professora; em seguida, relatarei sobre o desenvolvimento do estágio, como foram as relações com as pessoas, as aulas e as principais indagações que tive durante este processo; posteriormente colocarei algumas ideias que previa sobre o estágio e os resultados que obtive depois da experiência; por fim, apresentarei alguns desabafos sobre alegrias, angústias e sensações que tive, assim como, algumas considerações sobre o estágio. Optei por convidar a professora do estágio da escola-campo e a professora da disciplina de Estágio para participar da elaboração deste relato, uma vez que todo o 1 0498 estágio aconteceu por meio da aproximação e do diálogo efetivo das instituições que representam (Escola Básica e Ensino Superior), tão importantes na formação de futuros educadores. A regulamentação do Estágio Supervisionado e sua Importância Os Estágios Supervisionados são estruturados a partir de projetos de intervenção no ambiente escolar, totalizando uma carga horária de 405 horasaula, de acordo com o Artigo 1º da Resolução CNE/CP 2/2002 e o Decreto 87.497/82. O Estágio supervisionado é uma exigência da LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9394/96 e em consonância com a Lei 11.788/2008 que dispõe sobre o estágio de estudantes nos cursos de formação de docentes (BRASIL, 2002). Como consta no Projeto Político Pedagógico (UNIVERSIDADE...,2010) do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, os Estágios Supervisionados na UFV são regulamentados internamente pela “Normatização do Estágio Supervisionado dos cursos de Licenciatura da Universidade Federal de Viçosa” instituída pelo Ato No 007/2013/PRE, de 22/02/2013. A Normatização Institucional de Estágios Supervisionados estabelece várias diretrizes, entre elas, destaco as seguintes: III. Construir espaços de reflexão sobre os fundamentos e os pressupostos teóricos estudados nos Cursos de Licenciatura e sua relação com a realidade do cotidiano escolar, para que o estagiário assuma uma postura crítica aliada à competência técnica e ao compromisso político de seu papel transformador na sociedade; IV. Construir espaços de vivências, para que o estagiário adquira e desenvolva habilidades necessárias para se trabalhar os saberes teórico-metodológicos da docência; e V. Estabelecer a ligação entre os três níveis de ensino para que o estagiário possa fazer uma análise sobre os estudos e práticas curriculares desenvolvidos na Universidade e sua aplicação à realidade educacional da educação Básica. (PRÓ- REITORIA..., 2013, p. 3). Desta forma, o estudante, durante o estágio, tem a oportunidade de entrar em contato com o mundo escolar contextualizando toda sua bagagem teórica vivenciada nas disciplinas didático-pedagógicas ao longo da vida 2 0499 acadêmica por meio da experiência de prática docente nas escolas. Nesse sentido o Estágio Supervisionado cumpre o objetivo de proporcionar ao aluno a oportunidade de aplicar seus conhecimentos acadêmicos em situações da prática profissional, criando a possibilidade do exercício de suas habilidades. Espera-se que, com isso, que o aluno tenha a opção de incorporar atitudes práticas e adquirir uma visão crítica de sua área de atuação profissional (OLIVEIRA e CUNHA, 2006). O Estágio constitui-se como uma disciplina que oferece um dos momentos mais importantes da formação do licenciando, pois é quando o estudante se depara, em muitos casos pela primeira vez, com os desafios e ansiedades para a prática docente. Uma crítica constante de muitos estudantes de Biologia é a de que as disciplinas pedagógicas não os ensinam a dar aula, e somente estimulam discussões sobre educação. Existe a ansiedade entre os discentes de que o futuro docente não saiba como lidar quando chegar à condição de magistério. O Estágio Supervisionado consegue superar essa dicotomia interpretada por muitos estudantes de Biologia, pois é uma disciplina que se baseia no método ação-reflexão-ação (SCHÖN, 2000). Nela o estudante tem a oportunidade de experimentar o comando da sala de aula e, ao mesmo tempo, durante os encontros da disciplina, discutir, refletir sobre suas metodologias, impressões, dificuldades, angústias, desejos com seus colegas que também estão tendo a mesma experiência em diferentes contextos. Para Tardif (2000), o Estágio Supervisionado cumpre um importante papel utilizando a teoria e prática conjuntamente. Adverte para que não ocorra a dicotomia entre o conhecer e o fazer, de forma que não sejam elaboradas “receitas” a serem aplicadas numa realidade concreta. Afirma, ainda, que esse modelo dicotômico constitui-se como uma prática falida, devido às constantes mudanças pelas quais passa a realidade. O autor pontua que é necessário extinguir esse modelo de formação docente, pois em quase nada contribui para a construção da identidade do professor, que requer um trabalho de construção de saberes alicerçado sobre ações que viabilizem mudanças no contexto real. Sobre a importância de uma formação que alie teoria e prática, Lima (2009) provoca sobre a necessidade da formação docente pautada nos princípios da pedagogia dialética e nas posturas críticas e reflexivas, em que 3 0500 “a teoria ilumina a prática e a prática ressignifica a teoria”. Enfatizando isto, ela elabora uma metáfora sobre a formação de professores com uma árvore: Ajuda-nos a compreensão do estágio/prática pedagógica a metáfora da árvore, cujas raízes representam a fundamentação teórica estudada, o tronco simboliza a pesquisa, os galhos e as folhas são as atividades desenvolvidas e os frutos representam os registros reflexivos realizados pelos estagiários (LIMA, 2009). Assim, o estágio supervisionado, como componente integrador entre teoria e prática, configura-se como espaço propício para a produção dos diversos saberes necessários à profissão docente no mundo atual, onde os sujeitos devem ser capazes de contextualizar, planejar e gerir a sua ação pedagógica. Além disso, o Estágio Supervisionado contribui para a formação da identidade do estudante como educador. Isso é fundamental para um egresso em Licenciatura, principalmente por se tratar de disciplinas no final do curso, o Estágio estimula essa identidade dando maior confiança ao futuro professor. O Estágio em sua concepção mais ampla propõe-se a instrumentalizar o estagiário para a reflexão sobre o seu fazer pedagógico mais abrangente e a sua identidade profissional. Assim, estaremos conscientes de que o Estágio é um campo de conhecimento, uma aproximação do estagiário com a profissão docente e com os seus profissionais em seu local de trabalho, no concreto das suas práticas (LIMA, 2009). A atuação na escola também permite que o estudante conheça na prática o potencial e limitação de metodologias e o funcionamento e dinâmica da escola. É um momento que permite aos discentes a apropriação de instrumentos teóricos e de metodologias para a atuação no ambiente escolar. De posse do conhecimento específico o estágio traduz-se como o momento do estudante tentar compreender o sistema de ensino, as políticas educacionais, a escola e os sujeitos com os quais irá desenvolver/construir processos de aprendizagem (KRUG, 2008). A realização do Estágio Supervisionado em escolas públicas é fundamental para que os estudantes conheçam a realidade educacional do país. Atualmente, grande parte dos estudantes de universidades públicas foram alunos de escolas particulares, o que na maioria dos casos, não permite uma compreensão profunda de como é precarizada a educação 4 0501 pública no Brasil. A sensibilização para essa problemática e uma compreensão teórica do como se consolidou essa precarização é imprescindível para a formação de sujeitos que possam, a partir de sua trajetória acadêmica, atuar como educadores que irão cumprir seu papel transformador da sociedade. Desenvolvimento do Estágio Supervisionado Realizei meu estágio na Escola Estadual Effie Rolfs, localizada no campus da UFV. A escola é referência municipal, reconhecida como uma das melhores da cidade. Muito de sua referência é devido à sua localização, por estar dentro do campus da universidade. A primeira impressão é a de que por estar inserida no campus universitário é uma instituição de excelência, o que é muito difundido na cidade. Percebi isso de forma mais clara quando participei de uma reunião sobre a possibilidade do fechamento de uma Escola Municipal em Viçosa. A Secretaria Municipal de Educação ameaçou fechar a escola devido ao número reduzido de alunos. A reunião foi realizada com a presença de vários pais, alunos, políticos e moradores da região. Um dos pontos que me chamou a atenção foi o posicionamento dos pais reclamando da estrutura e do ensino, e dizendo que como alternativa muitos deles enviavam seus filhos para estudar na E. E. Effie Rolfs. E a principal argumentação era a de que, na Effie Rolfs, por estar inserida na UFV, os alunos teriam maior chance para ingressar na universidade. A Escola Estadual Effie Rolfs, foi criada em 1965 para atender filhos de funcionários da instituição federal e dar curso supletivo aos trabalhadores da UFV que não tinham formação. É administrada pelo governo estadual e atualmente recebe estudantes de vários bairros de Viçosa, especialmente dos mais periféricos. (EM VIÇOSA..., 2010) A escola conta com uma razoável estrutura, em comparação às demais escolas de Viçosa. É bem conservada, com acabamentos e pinturas recentes. Possui várias salas, um pátio coberto, uma área de lazer usada no recreio, uma quadra poliesportiva, uma biblioteca e uma estrutura de laboratório que hoje, infelizmente, está inutilizada. A turma em que realizei o estágio era da 3ª série do Ensino Médio, turno da noite. Os alunos apresentavam características bem diversas com relação a mim. Alguns nem chegaram a me conhecer, outros ficavam indiferentes no momento em que eu entrava e saía da sala. E, havia aqueles 5 0502 que escutavam tudo, com os olhos atentos, mas não falavam. Alguns eram mais agitados, riam, brincavam, mas quando eram estimulados levavam a coisa a sério. Outros copiavam tudo e não participavam muito, mas sempre atentos com o que se passava na sala. E, por fim, havia aqueles participativos, que faziam questão de responder todo e qualquer questionamento direcionado à turma, bastante prestativos e muito receptivos. Todos tinham faixa etária entre 17 a 19 anos. A maioria trabalhava durante o dia e a frequência da turma não era muito boa; alguns sempre faltavam às aulas. Alguns, nitidamente, não faziam a mínima questão de estar ali, estavam por obrigação e pareciam não ver nenhum sentido nos conteúdos trabalhados na escola. A professora que me recebeu na escola foi muito atenciosa e teve paciência e tranquilidade em nossa relação. Ela me recebeu muito bem no estágio. É uma professora com vasta experiência educacional, possui um cuidado muito especial com os alunos. As primeiras aulas foram de ambientação. Este momento é fundamental para conhecer o ‘chão que iremos pisar’; conhecer a forma de trabalhar do professor e o comportamento da turma. Em uma das aulas do período de ambientação tive a oportunidade de aplicar uma prova. A experiência foi muito bacana. Os alunos não me conheciam direito e ficavam sem saber se eu deixava colar ou era mais rigoroso e punitivo. Eles apresentaram muitas dúvidas na prova, uma dificuldade grande de interpretação. A professora passou inúmeros exercícios e exemplos nas aulas anteriores, mas na prova cobrou situações diferentes das que havia trabalhado e isto confundiu o entendimento de muitos alunos. A compreensão que tive, é que quase nenhum havia se preparado para prova e estudado o livro anteriormente, além disso, a maioria da turma apresentava sinais claros de dificuldade de interpretação de texto. O conteúdo que iria trabalhar na turma era uma parte final da matéria de genética e iniciar o tópico de relação sociedade e natureza da ecologia. Na primeira aula de genética, tentei elaborar uma metodologia que atendesse a orientação da professora-regente e, ao mesmo tempo, pudesse envolver de forma participativa os alunos na construção do conhecimento. Em minha avaliação a aula cumpriu o objetivo e o mais interessante é que a professora havia me indicado sobre um exercício que os alunos sempre apresentavam dúvidas. Não deu outra, ao aplicá-lo, os estudantes ficaram muito confusos, 6 0503 pois tratava-se de um exercício que abarcava todo o conteúdo. Consegui, de maneira dinâmica e utilizando o quadro-negro, explicar o conteúdo e interagir com toda a turma. Na segunda aula iniciei o conteúdo sobre ecologia com o foco na questão da água. Viçosa é um município que apresenta um problema estrutural sério em relação ao abastecimento de água. Por este fato, a professora me pediu para enfatizar essa temática nas aulas. Fiz um grande esforço para estimular que os alunos participassem demonstrando seus conhecimentos prévios sobre o tema. Questionei-os sobre a localização dos mananciais de água da cidade e se já houveram problemas com o abastecimento. Metade da turma levantou a mão afirmando já ter ficado sem água em casa, um deles lembrou que isso já aconteceu até na escola. Alguns discorriam mais sobre o assunto e apontavam os principais problemas políticos da cidade que refletiam, também, no abastecimento de água. Essa experiência lembrou-me um trecho do livro Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, descrito a seguir. Por que não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em áreas da cidade descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações, os lixões e os riscos que oferecem à saúde das gentes? (FREIRE, 1996). Como metodologia, utilizei um mapa da cidade e pedi para os alunos irem à frente da sala, desenharem de onde vinham os córregos que abasteciam o município e localizar as estações de tratamento de água da prefeitura. Essa experiência foi muito enriquecedora, pois a maioria dos alunos sequer sabem de onde vem a água que os abastece. Nas outras aulas discutimos sobre os impactos ambientais de um empreendimento que uma empresa mineradora pretende implantar em Viçosa. A localização da obra é justamente nas regiões de cabeceiras das nascentes do manancial que abastece a cidade. Foi importante a relação que os alunos fizeram sobre o atual panorama de abastecimento hídrico da cidade e como ele pode se agravar caso uma obra de grande porte, com altos impactos ambientais, seja instalada na bacia responsável pelo abastecimento da população. Além disso, realizamos um debate sobre os impactos sociais dessa grande obra. O envolvimento dos alunos na discussão foi muito bom. Muitos relataram ter parentes ou conhecidos que vão ter suas propriedades 7 0504 atingidas pelo empreendimento e colocaram como essas pessoas estão sendo prejudicadas pela mineradora. A discussão sobre os impactos ambientais no abastecimento de água da cidade rendeu uma boa discussão e os alunos extrapolaram o debate para um entendimento amplo sobre o modelo de desenvolvimento vigente no país. Ao final da última aula, propuseram uma série de ações para tentar reverter a situação. Como propostas, colocaram a necessidade de maior divulgação para população sobre a questão da água na cidade, uma reunião com o prefeito e um protesto pelas águas de Viçosa. A contextualização de conteúdos curriculares com o meio sociocultural dos alunos é um método que facilita o entendimento da turma e contribui para a formação de sujeitos críticos e ativos. Talvez, se tivesse trabalhado o conteúdo com uma abordagem tecnicista, somente transferido o tema sem estimular um aprendizado baseado no contexto dos alunos, não teria conseguido incitar a reflexão e estimular a tomada de iniciativas. Para Freire (1996) a construção do conhecimento contextualizado com a realidade dos educando contribui com a formação de sujeitos críticos capazes de reconhecer o papel transformador do ser humano na história. Por que não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina, (…) porque não estabelecer uma necessária “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Por que não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos dominantes pelas áreas pobres da cidade? A ética da classe embutida neste descaso? Porque, dirá um educador reacionariamente pragmático, a escola não tem nada que ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferi-los aos alunos. Aprendidos, estes operam por si mesmo (FREIRE, 1996). Algumas Reflexões sobre o Estágio Apesar de ter tido uma excelente experiência no estágio, ter estabelecido ótimas relações com a professora e com os alunos, um fato me deixou muito angustiado e revoltado. Foi sobre a condição do trabalho docente dos professores da rede estadual de Minas Gerais. Foi um fato que apareceu em toda a trajetória do 8 0505 estágio. Principalmente, porque realizamos o estágio em um período único na história do país, quando milhões de brasileiros aproveitaram o momento político da Copa das Confederações para tomarem as ruas exigindo a garantia e expansão de seus direitos. Com os professores não foi diferente. O Sind-UTE, Sindicato Único dos Servidores da Educação de Minas Gerais, realizou nos meses de junho e julho intensas mobilizações no Estado, reivindicando uma série de direitos como o pagamento do piso salarial profissional nacional em que o Estado de Minas se nega a cumprir. Tive a oportunidade de conviver, além da professora que me orientou, com outros professores também. Meus horários de aulas aconteciam antes ou depois do recreio, o que possibilitou que minha permanência na escola sempre passasse um tempo aguardando na sala dos professores. E o sentimento era unânime entre todos os profissionais, o de angústia, frustração e indignação. Percebi que os professores mais velhos eram os mais irritados e desgastados com a situação. Apesar de um sentimento de revolta muito grande, percebia também uma sensação de impotência e pessimismo pela luta sindical. Em inúmeros momentos, os professores se queixavam sobre os programas do governo, sobre salário e assédio da Superintendência Regional e, ao mesmo tempo, não achavam que a luta sindical iria dar resultados, apesar de, apoiar seguramente as decisões do sindicato. Já dos professores mais novos, percebi uma acomodação com a situação. Pelo menos com os professores que convivi durante o estágio, todos apresentavam um pessimismo muito grande e total desesperança com a possibilidade de conquistas. Senti também um envolvimento pequeno dos professores nas lutas que ocorreram nos meses de junho e julho. Considero que falta uma mobilização, um empoderamento maior dos professores em suscitar a vontade de lutar pelos seus direitos. Avalio que a fraca participação dos professores se deu pela derrota que a categoria sofreu em 2011, em que ficaram mais de 100 dias de greve e obtiveram retrocessos em suas pautas. Na pauta do Sind-UTE deste ano estão listados inúmeros pontos, desde infraestrutura para as escolas, autonomia dos docentes, pagamento do piso salarial nacional e reestruturação da carreira docente. A seguir, a Figura 1 apresenta o cartaz utilizado pelo sindicato neste ano. 9 0506 Figura 1: Cartaz utilizado nas mobilizações pelo sindicato dos professores Considerações Finais O Estágio Supervisionado possibilita um dos momentos mais ricos na formação de professores. Realizado de forma integrada com a teoria e prática, o Estágio cria condições que estimula o licenciando a construir uma base teórica na prática. Mais do que isso, favorece a reflexão e a avaliação constantes das ações, possibilitando uma formação estimuladora, que incentiva a busca por melhores metodologias e relações com os alunos. Considero que tive uma excelente experiência no Estágio, pude amadurecer de forma significativa os desafios e a responsabilidade do que é ser professor. Ainda assim, considero preocupante a insatisfação dos profissionais com a condição de trabalho oferecida à categoria, ao desleixo que é colocada a educação pública e o avanço acelerado da privatização da educação. 10 0507 Também me deixa insatisfeito a pouca participação estudantil, principalmente dos licenciandos, no entendimento e fortalecimento da luta dos professores e pela educação pública. Referências Bibliográficas BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP 01 de 18 de fevereiro de 2002 - Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para formação de professores da Educação Básica em nível superior, curso de licenciatura de graduação plena. Brasília, 2002. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_02.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2013. EM VIÇOSA, escolas vizinhas têm realidades distantes. Último Segundo, São Paulo, 23 jul. 2010. Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/ em-vicosa-escolas-vizinhas-temrealidades-distantes/n1237725037653.html. Acesso em: 14 jun. 2013. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. KRUG, H. N.; et al. Estágio Curricular supervisionado em Educação Física: significado e importância sob a ótica dos acadêmicos do curso de licenciatura. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA, 27., 2008, Pelotas. Anais... Pelotas, 2008. LIMA, M. S. L. O estágio nos cursos de licenciatura e a metáfora da árvore. Pesquiseduca, Santos, v. 1, n. 1, p. 45-48, jan.-jun. 2009. OLIVEIRA, E.S.G.; CUNHA, V.L. O estágio Supervisionado na formação continuada docente à distância: desafios a vencer e Construção de novas subjetividades. Revista de Educación a Distancia. Ano V, n. 14, 2006. PRÓ REITORIA DE ENSINO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA. Normatização do estágio supervisionado dos cursos de licenciatura da 11 0508 Universidade Federal de Viçosa. Ato n. 007, de 22 de fevereiro de 2013. Anexo do ato 07/2013/PRE. SCHÖN, D. A. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e aprendizagem. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2000. TARDIF, M. Saberes profissionais dos professores e conhecimentos universitários. Revista Brasileira de Educação. Jan/Fev/Mar/Abr, n. 13, 2000. UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA. Plano Político Pedagógico do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas. Viçosa, MG, 2010. 11 p. 12 0509