CENTRO UNIVERSITÁRIO POSITIVO
CURSO DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO
SETOR DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: ORGANIZAÇÕES, EMPREENDEDORISMO E
INTERNACIONALIZAÇÃO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
UMA ANÁLISE DO PODER NAS ORGANIZAÇÕES À LUZ DO PENSAMENTO
FOUCAULTIANO:
Estudo de um Caso Empresarial Brasileiro
AUTORA: SUNILDA WING CHONG MARMANILLO GUIMARÃES
CURITIBA
2007
ii
SUNILDA WING CHONG MARMANILLO GUIMARÃES
UMA ANÁLISE DO PODER NAS ORGANIZAÇÕES À LUZ DO PENSAMENTO
FOUCAULTIANO:
Estudo de um Caso Empresarial Brasileiro
Dissertação apresentada como requisito parcial
para obtenção do título de Mestre em
Administração, do Programa de Mestrado em
Administração, com área de concentração em
Organizações
Empreendedorismo
e
internacionalização da UnicenP.
Orientador: Profº Dr. Paulo S. Grave
CURITIBA
2007
iii
Título: UMA ANÁLISE DO PODER NAS ORGANIZAÇÕES À LUZ DO
PENSAMENTO FOUCAULTIANO:
ESTUDO DE UM CASO EMPRESARIAL BRASILEIRO
ESTA DISSERTAÇÃO FOI JULGADA ADEQUADA COMO REQUISITO
PARCIAL PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE EM ADMINISTRAÇÃO
(área de concentração: organizações, empreendedorismo e internacionalização)
PELO PROGRAMA DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO DO CENTRO
UNIVERSITÁRIO POSITIVO – UNICENP. A DISSERTAÇÃO FOI APROVADA EM
SUA FORMA FINAL EM SESSÃO PÚBLICA DE DEFESA, NO DIA 31 DE AGOSTO
DE 2007, PELA
BANCA EXAMINADORA COMPOSTA PELOS SEGUINTES
PROFESSORES:
1) Prof. Dr. Paulo Grave de Andrade - UnicenP (Presidente);
2) Prof. Dr. Mário Luis Neves de Azevedo - UEM (Examinador);
3) Prof. Dr. Ariston Azevedo Mendes – UEM (Examinador);
CURITIBA – PR, BRASIL
PROF. Dr. CLÓVIS LUIZ MACHADO-DA-SILVA
COORDENADOR DO PROGRAMA DE MESTRADO EM ADMINISTRAÇÃO
iv
Para Junot Rebello Guimarães meu marido
e companheiro pelo seu incentivo para que
seguisse adiante com os meus sonhos.
v
À UNICENP pela oportunidade em participar
na formação de novos Mestres.
Ao Coordenador do Mestrado: Prof. Dr.
Clóvis L. Machado da Silva
Ao Ex-coordenador do Mestrado: Prof. Dr.
Bruno Henrique R. Fernandes
Ao meu orientador Prof. Dr. Paulo S. Grave
A todos os Professores do Mestrado pelo
empenho e dedicação
vi
... Nihil igitur agit nisi tale existens quale patiens fiere debet
(Dante)
... Assim, ninguém age sem que (agindo) manifeste o seu eu latente.
vii
Resumo
O presente trabalho tem a intenção de levantar reflexões sobre o poder,
especificamente o “Poder nas Organizações”, tomando como referencia teóricos
intelectuais da pós-modernidade – mais acentuadamente, Michel Foucault. Neste
sentido, no propósito de ampliar a questão do poder nas organizações, foram
abordados aspectos significativos da teoria foucaultiana. Tivemos como hipótese
geral de estudo que, no discurso do administrador, tomando o estudo de caso da
Odebrecht, existem, pelo menos, traços que o identificam com a significação de
poder observada em Foucault. Admitindo a tese foucaultiana a respeito de poder,
revimos as pré-posições encontradas na literatura e procuramos rediscutir o poder
nas organizações, segundo uma hermenêutica do próprio discurso de Foucault.
Adicionalmente, subsidiamo-nos com o conceito da “Teoria dos discursos em
Lacan”. O conceito de discurso, em Lacan, abre possibilidade de agregar novos
conhecimentos, sobre como esta ação em que a palavra e os atos não se divorciam
operam por meio da enunciação. Na análise das concepções filosóficas da
“Tecnologia Empresarial Odebrecht”, pudemos refletir como o poder tem no discurso
a eficácia de sua ação.
PALAVRAS CHAVE: Poder, Organização, Discurso.
viii
ABSTRACT
This paper intends to motivate reflections on power, specifically the "Power on the
Organizations", referring to post-modern intellectual theoreticals' studies - mainly
from Michel Foucault. With that sense, willing to further discuss the matter of power
on the organizations, significant aspects of Foucault's theory were
discussed. We had as a general study hypothesis that there are evidences which
point to Foucault's meaning of power, observed on the administrator's speech –
considering Odebrecht's case study. Admitting Foucault's thesis on power, we've
reviewed the different definitions available, and we've tried to re-discuss the power in
the organizations, according to a hermeneutics from Foucault's own text. Also, we've
based ourselves on Lacan's theory of the discourses. The lacanian concept of
discourse brings the possibility of adding new knowledge on how an event – where
the words and the actions can't be separated – operates by enunciation. During the
analysis of the philosophical conceptions found on Odebrecht's corporate technology,
we've been able to reflect on how the power has on the discourse the efficiency of its
action.
KEY WORDS: Power, Organizations, discourse.
ix
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO……………………………………………………………….
11
1.1
APRESENTAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO TEMÁTICA…….……….
11
1.2
FORMULAÇÃO DO PROBLEMA………………………………………….
14
1.3
DEFINIÇÃO DOS OBJETIVOS DA PESQUISA....................................
15
1.4
JUSTIFICATIVA: TEMÁTICA, TEÓRICA E PRÁTICA...........................
15
1.4.1
Justificativa Temática..........................................................................
16
1.4.2
Justificativa Teórica.............................................................................
17
1.4.3
Justificativa Prática..............................................................................
21
1.5
PROCEDIMENTO GERAL DE ESTUDO E METODOLOGIA...............
28
1.6
32
1.7
RESULTADOS ALCANÇADOS E CONTRIBUIÇÃO PARA CAMPO
DE ESTUDO..........................................................................................
COMPARAÇÃO COM TRABALHOS ANÁLOGOS................................
1.8
LIMITAÇÕES E DIFICULDADES...........................................................
34
2.
DESENVOLVIMENTO TEMÁTICO.......................................................
35
2.1
35
2.1.1
DESENVOLVIMENTO TEÓRICO: DE UMA ANALÍTICA DO PODER
EM FOUCAULT.....................................................................................
Verdade e Saber..................................................................................
2.1.2
Poder e Sujeito......................................................................................
40
2.1.3
Teoria do Discurso em Lacan como Subsídio
45
47
2.3
DESENVOLVIMENTO DE ESTUDO DE CASO.. A UMA
HERMENÊUTICA DO PODER NAS ORGANIZAÇÕES........................
DISCUSSÃO EM SI...............................................................................
3.
CONCLUSÃO.........................................................................................
57
REFERENCIAS......................................................................................
60
ANEXO A – UMA RELAÇÃO DE TEXTOS DE MICHAEL
68
2.2
FOUCAULT
33
37
53
x
LISTA DE QUADROS
QUADRO 01
QUADRO 02
QUADRO 03
Mais de Duas Décadas de Estudos do
Pensamento de Foucault...........................................
Estado comparado a um corpo.................................
Partes Que Integradas Formam A Odebrecht.........
34
53
53
11
1.
INTRODUÇÃO
1.1 APRESENTAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO TEMÁTICA
Esta
dissertação
se inscreve
em
uma discussão
sobre o
Poder,
mais
especificamente sobre o Poder nas Organizações, procurando ir, senão além de
discursos como, por exemplos, os de Bacharach & Lawler (1980), Galbraith (1989) e
Hardy (1995), pelo menos, ser considerada próxima de trabalhos como os de Abel
(2005), Gordon & Grant (2005) e Lynch (1998).
Grosso modo, o debate em torno da temática dentro da academia, no campo da
teoria organizacional, tem sido motivado por duas vertentes. Uma delas, numa
perspectiva mais funcionalista, traz uma noção positivista que prioriza o saber
científico e técnico baseado em grandes narrativas. Uma outra que pode ser
considerada como oposta a esta, trás um viés que alimenta uma segunda
significação que se constitui numa perspectiva epistemológica do pós-modernismo.
Alinhada a conceitos foucaultianos, esta segunda vertente aborda os fenômenos que
propiciam o aparecimento do poder nas relações e que podem operar no âmbito
societário que, deslocados para o âmbito organizacional, abre a possibilidades para
novas pesquisas.
Pensadores do pós-modernismo buscam um contraponto aos pensadores da
modernidade (Cooper & Burrell, 1988), surgem como resultado da crise de conceitos
fundamentais ao pensamento moderno e em particular o estruturalismo. Seus efeitos
aparecem em três esferas: a estética, a ética e a ciência. Como tal, tem suas
repercussões nos diferentes campos de produção da cultura, como: literatura, arte,
filosofia, arquitetura, economia, moral, entre outros.
12
Foucault
adotou
em
seus
trabalhos
uma
postura
crítica
ao
movimento
11
modernista contrariando radicalmente o pensamento positivista e a idéia da Razão
do Iluminismo do século XVIII, que pregava a razão, como o maior atributo do
homem.
Sua obra sofreu grande influência de Heidegger, a quem atribuiu o seu
enveredamento filosófico. Para Heidegger, nem a metafísica, nem o humanismo
nem a tecnologia podem constituir suas bases para a vida (Lyon, 1996). Ambos
realizam uma crítica à Modernidade que enfatizou as suas continuidades. Enquanto
Heidegger realizou uma reflexão filosófica essencialmente histórica, Foucault faz
uma investigação histórica que assume caráter de reflexão filosófica. (Duarte, 2006).
Realiza um estudo arqueológico e genealógico, dos discursos da ciência, numa
análise contextual do século XVII, XVIII e continuada no século XIX. Sob estes
conceitos epistemológicos aborda a questão do poder. Não atribui causalidade entre
dois discursos sucessivos, mas na ruptura torna evidentes as diferenças que os
separam. A descontinuidade arqueológica evidencia as mudanças discursivas que
possibilitam nova enunciação. A função do discurso se apresenta como uma posição
ocupada por aquele que anuncia algo como um agente, e atua de maneira a
legitimar a ação nas práticas sociais de uma época nos dando condições de análise
formal dos laços que assim se engendram como a possibilidade de situar as
diferentes posições ocupadas pelo agente do discurso, sua base de sustentação, ou
seja, sua enunciação e a produção que daí poderá ser deduzida. Assim procedendo,
Foucault irá participar ativamente de conceitos chave na cultura contemporânea,
sobretudo, nos conceitos fundamentais de sujeito e de autoria.
No pensamento foucaultiano o poder é constituído historicamente. Ele está presente
numa abordagem descritiva que se exerce numa rede de relações provenientes em
uma sociedade específica. Está além da representação jurídico-discursiva, de
soberania ou em termos de “Aparelho de Estado”, conceito este inspirado na teoria
dos Aparelhos Ideológicos de Estado de Althusser. Althusser é um dos principais
1.
Além de seu curioso embate com o pensamento da teoria crítica (McCarthy, 1990; White, 1986;
Wong, 2005 e 2007).
13
nomes do estruturalismo francês dos anos 60. Nesta teoria há uma visão monolítica
e acabada de organização social, onde tudo é planejado e definido pelo Estado
(conjunto estatal de mecanismos que utilizam a força para reprimir resistências:
governo, administração, o exército, a polícia, o sistema penal, o sistema judiciário).
Ao cidadão cabe a obediência, frente ao Estado onipresente e dominante. Althusser
vê no sistema social, dispositivos que tendem a manter as classes dominantes no
Poder (Althusser, 2001). Foucault rejeita uma concepção de poder alinhado com o
modelo econômico e de Estado, pois este modelo possui um caráter eminentemente
repressivo.
Pensadores como Burrel (1988, 1998) já vêm utilizando as idéias de Michel Foucault
para a análise organizacional, dando enfoque diferente ao funcionalismo, que traz
influências do Iluminismo. Segundo Rafael Alcadipani da Silveira (2005), um dos
fatores que possibilitaram a divulgação da obra de Foucault sobre a questão do
poder e da identidade no ambiente de trabalho, foi abordado na labor process theory
(LPT), em
debate entre foucaultianos e marxistas. Outros debates se seguiram na
LPT, como: quais seriam as formas capitalistas que estão presentes em qualquer
sistema de controle organizacional? O desenvolvimento do movimento teórico
denominado critical management studies (CMS) – Alvesson & Willmott (1996) –
reforça a continuidade destas discussões, incluindo teorias modernistas de base
marxista, teorias pós-estruturalistas e teorias feministas. Elas vêm ganhando espaço
para pensar a questão do poder nas organizações de uma forma diferente da que
vinha sendo discutido até então, assim como em Burlingame (1949), Thompson
(1956) e Vrendenburg & Brender (1998).
Situamos o poder nas organizações, no discurso e na ação entre os homens, dentro
de uma relação que revela não “o que é um administrador”, nas qualidades que ele
possa ter em comum entre os administradores, mas na diferença, encontrada e
manifesta do “quem” ele é.
Para levantar algumas questões práticas , acerca dos fenômenos sobre o poder nas
organizações, focamos a Organização Odebrecht (Odebrecht, 1991a, 1991b, 2004,
2006a, 2006b) . Esta organização possui o que ela denomina de “Tecnologia
Empresarial”, referência cultural comum, que orienta a atuação dos integrantes da
14
Organização Odebrecht.
A “Tecnologia Empresarial Odebrecht” (TEO) é o
instrumental que os Acionistas colocam à disposição dos Empresários para que
possam coordenar seus trabalhos conforme os princípios, conceitos e critérios que
constituem os fundamentos da TEO (Norberto Odebrecht, 2006).
Esta organização é uma das maiores do Brasil, cujo crescimento foi vertiginoso e
atua em outros países além do Brasil. A Organização Odebrecht originou-se na
segunda metade do século XIX, com a imigração de alguns germânicos para o Sul
do Brasil. O primeiro Odebrecht a chegar aqui foi Emil Odebrecht, em 1856.
O objeto de nosso estudo circula entre o significado de Poder em Foucault, a um
significado de Poder nas Organizações, tomando como base o discurso da TEO
(Teoria Empresarial Odebrecht).
1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA
Na corrente do pós-modernismo, o poder passa a ser discutido numa perspectiva
mais filosófica, enfatizando a centralidade do discurso como um dos elementos
fundamentais para o exercício do poder, a ponto de podermos antecipar que todo
poder tem no discurso a eficácia de sua ação. Na perspectiva de saber vs poder,
neste texto examinamos a questão, enfocando o poder na organização, tomando
como objeto de análise e interpretação, a referência do discurso da TEO (Tecnologia
Empresarial Odebrecht).
Tem-se como hipótese geral de estudo que, no discurso do administrador – o
caso acima é um deles – existem, pelo menos, traços que o identificam com a
significação de poder observada em Foucault.
15
1.3 DEFINIÇÃO DOS OBJETIVOS DE PESQUISA
Procedemos à análise de um discurso administrativo à luz de elementos do
pensamento de Foucault sobre poder, a fim de contribuir para o campo com uma
reflexão sucinta sobre do poder nas organizações.
Acreditamos que o cumprimento de tal objetivo esteja sujeito ao cumprimento de
objetivos mais específicos, quais sejam:
1.
Realizar um estudo geral do pensamento foucaultiano sobre
poder, a fim de caracterizar tal fenômeno em Foucault;
outrossim, para situar o pensamento dele no campo, preceder
uma breve revisão da história dos discursos do poder e do poder
nas organizações.
2.
Realizar o estudo do discurso filosófico da “Tecnologia
Empresarial Odebrecht” (TEO), com o propósito de refletir como
o poder permeia a administração desta organização.
3.
Verificar nos discursos como é constituído historicamente o
poder, identificando e explicitando o modo como este é exercido
nas relações, segundo o pensamento foucaultiano.
4.
Discorrer sobre, a “A Teoria dos Discursos em Lacan”, buscando
cernir o que informa a enunciação de um discurso.
1.4 JUSTIFICATIVAS: TEMÁTICA, TEÓRICA E PRÁTICA
Em vista a questão metodológica, resolveu-se apresentar a justificativa do trabalho
por meio de três categorias: temática, aquela em que se apresenta a importância de
desenvolver tal tema; teórica, aquela em que está consubstanciada a importância de
uma alternativa de análise do referido fenômeno no campo; e prática, a reflexão em
que aponta como pode ocorrer o poder nas relações numa organização.
16
1.4.1 Justificativa Temática
Buscamos nesse estudo fazer, por um lado um recenseamento sucinto do tema e
por outro realizar um recorte entre diversas abordagens que pontuam o percurso do
que é chamado da Análise Crítica do Discurso (ACD). Privilegiamos a polaridade
que estabelece Foucault entre saber<>poder assim como a abordagem da realidade
discursiva sustentada nessa relação.
Procuramos então definir a partir de certas coordenadas teóricas o que tem sido
considerado não somente sobre o discurso, mas sobre o seu exercício no âmbito
institucional enfocando a partir de um estudo de caso de uma empresa de largo
espectro
de
atuação,
procurando
encontrar
os
fundamentos
filosóficos
organizacionais inseridos em seu contexto histórico e cultural. Procuramos em
seguida checar "o que vem sendo dito como poder, nas organizações". Por fim, o
que veio a indicar a preocupação chave do trabalho, circunscreveu-se, dentro de
uma perspectiva filosófica em que a descontinuidade histórica se faz presente, num
discurso sobre o homem e objeto do conhecimento.
Foi realizado um estudo do discurso da Tecnologia Empresarial Odebrecht, base
filosófica da Organização Odebrecht num contexto histórico. Deste modo o
fenômeno do poder considerado segundo o ponto de vista da pós-modernidade,
encontra uma reflexão diferenciada do funcionalismo. Privilegiamos os estudos de
Foucault para formar a base teórica do referido trabalho.
Morgan (1996a, 1996b) fez uma interessante revisão dos discursos a respeito de
poder, classificando-os de acordo com categorias pertinentes a sua natureza.
Vemos nele uma variedade considerável de pontos de vista. Não temos dúvida que
o pensamento de Foucault a respeito é de alta relevância para a teorização sobre
poder que está em pauta. Contudo, fazem-se convenientes novos aprofundamentos
na linha de trabalhos como os de Abel (2005), a fim de esclarecer tal fenômeno no
âmbito da organização.
17
1.4.2 Justificativa Teórica
A discussão sobre “poder” tanto na sociedade quanto, especificamente nas
organizações, pode se apresentar como uma ‘questão’ que vai além dos limites da
intelectualidade formal e científica, com tendência totalitarista, única e universal,
para uma forma de pensamento, onde não podemos nos subtrair.
Tomamos como estudo o pensamento de Michel Foucault – a título ilustrativo, ver
anexo A, que aborda a questão do poder numa perspectiva filosófica, em cujo
elemento fundamental está a centralidade do discurso constituída historicamente,
numa prática que opera nas relações sociais e organizacionais. Incluimos o discurso
em Lacan em que aborda os laços sociais a partir de uma enunciação.
Antes de adentrarmos as questões específicas sobre poder abordado no trabalho,
trazemos num breve relato, sobre o filósofo que nos despertou o desejo de estudo
sobre este pretenso trabalho.
O filósofo francês nasceu em 15 de outubro de 1926, na cidade de Poitiers, França.
Veio de uma família de tradição médica. Quebrou este ciclo quando resolve traçar o
seu próprio caminho. Filho de Paul Foucault, cirurgião e professor de anatomia em
Poitiers, e Anna Malapert. Seus avôs paterno e materno eram também cirurgiões.
Muito cedo manifestou seu interesse pela filosofia. Viveu na época da Segunda
Guerra Mundial. Decepcionando a expectativa de seu pai de tornasse médico,
embora apoiado pela mãe, manteve uma relação muito conturbada com o pai. Em
1950, estudou na École Normale Supérieure.
Realizou seus estudos superiores em Filosofia em 1948 e Licenciatura em
Psicologia em 1949. Estudou várias disciplinas: Sociologia, História, Medicina Social,
Psicologia, Pedagogia, Direito, entre outras.
Viveu numa época marcada por correntes teóricas como marxismo, funcionalismo,
estruturalismo, existencialismo e a fenomenologia.
18
A experiência com a psiquiatria, psicologia, psicanálise, seu engajamento político, a
sua curiosidade intelectual, leitor de Platão, Hegel, Kant, Marx, Husserl, Freud,
Bachelard, Lacan, os trabalhos de Heidegger (a quem atribui a sua entrada na
filosofia) e de Nietzsche tiveram grande influência em suas produções, marcando
profundamente a sua obra.
Em 1954, publicou seu primeiro livro “Maladie Mentale et Personnalité” (Doença
Mental e Personalidade). Realizou após a sua tese de doutorado que defendeu em
1961, algumas modificações, sob o título “Maladie Mentale et Psychologie” ( 1962 ) –
Doença Mental e Psicologia.
Recebeu o título de Doutor, sob a supervisão de Georges Canguilhem, filósofo
francês mais importante do século vinte na filosofia da ciência. Defendeu na
Sorbonne sua tese de Doutorado, em maio de 1961 intitulada: "História da Loucura”.
Os impactos recebidos pela sua geração do pós-guerra, do nazismo e do
totalitarismo soviético, das práticas de tortura e perseguição, da guerra da Argélia,
entre outras trouxeram a Michel Foucault fortes inquietações.
Tornou-se grande
amigo de Louis Althusser, que o levou a aderir ao partido comunista francês, durante
um curto período de tempo, de 1950 a 1953. O engajamento político surgiu como
um desejo de viver numa sociedade justa e igualitária. Os seus escritos sofreram
também influências do marxismo, advindas da política da época e do trabalho no
Hospital Psiquiátrico Sainte-Anne. A experiência de trabalhar em um hospital
psiquiátrico, época de esplendor da neurocirurgia da psicofarmacologia, da
instituição, seguiu-se sobre estes conhecimentos e 2condutas, questionamentos: “em
que essas coisas são necessárias?” (Foucault, 1982).
Michel Foucault, (1994) diz: “Meu campo é a história do pensamento”. Salienta: “O
que as pessoas consideram como universais são resultados de mudanças históricas
precisas”.
. A expressão está na História da loucura (p.265 da edição francesa; ed. Brás., p. 246, mas não é tematizada.
2
19
Seus livros são representações de uma parte de sua própria história. Suas primeiras
obras seguiram uma linha estruturalista, razão pela qual foi atribuído como sendo
um autor da corrente estruturalista.
Escreveu “L’Historie de la folie à l’âge classique” (1961) - História da Loucura na
idade clássica, em que abordou as práticas das ciências humanas, colocando em
pauta as concepções firmadas como verdades científicas, no campo da psiquiatria.
“É uma arqueologia do saber”² da loucura. Em “Naissande de la Clinique” (1963) Nascimento da clínica realizou uma análise estrutural. Este livro teve por objeto
exclusivamente o pensamento científico. Enquanto que no seu texto “L’Archeologie
du savoir” (1969) - Arqueologia do Saber, o método foi o arqueológico. Momento
em que se afastou da proposta estruturalista.
O homem sujeito e objeto de conhecimento. O homem resultado de uma prática
discursiva e de intervenções de poder. Nesta fase de produção literária passou a ser
reconhecido com um pós-estruturalista.
O texto “L’Ordre du discours” (1970) - A Ordem do Discurso, Aula inaugural no
Collège de France, pronunciou em dois de dezembro de 1970. Nesta ocasião
mostrou uma mudança na sua metodologia, para uma proposta genealógica, por
influência de Nietzsche. Em “Surveiller et punir” (1975) - Vigiar e Punir documentou
sobre a evolução histórica do regime penal e seus métodos utilizados pelo poder
público. Nesta obra demonstrou os fundamentos do saber, gerador do poder,
atingindo uma eficácia final.
Foucault reordenou a idéia de microfísica do poder passou pelo conceito de
biopoder, fez uma passagem das relações locais para uma macrofísica, na questão
do governo das coletividades. Seu próximo trabalho “L’Histoire de la sexualité- La
volonté de savoir” (1976) - A história da sexualidade I - A vontade de saber. Seus
últimos trabalhos, “L’Histoire de la sexualitéII – L’Usage des plaisirs” (1984)- A
história da sexualidade II – O uso dos prazeres e “L’Histoire de la sexualité III – Le
souci de soi” (1984) - A história da sexualidade III – O cuidado de si.
20
Sua discussão acerca do homem reportou a uma analise da enunciação de
discursos, tomados como verdades universais presentes em diferentes práticas
sociais. Nos seus trabalhos arqueológicos, sua preocupação no processo histórico
foi a descontinuidade que ocorreu em uma determinada época. O homem num papel
importante, em que é sujeito e objeto de conhecimento.
Foucault abordou a questão institucional e política seus livros de 1961 e 1963. Neles
demonstrou a ruptura entre a medicina moderna e medicina clássica ao apontar os
saberes e poderes na medicina, na psiquiatria e no sistema penal. Criaram-se as
condições de possibilidades da psiquiatria do saber sobre o louco e das práticas
institucionais. Salientou a importância da Revolução Francesa nas mudanças de
paradigmas. O poder não se encontrava somente no Aparelho de Estado, mas o
ultrapassava e complementava.
Em um enfoque pós-estruturalista seguiu suas discussões, em domínios da
genealogia e da ética, presentes nas suas obras posteriores como “Surveiller et
punir” (1975) - Vigiar e Punir e “L’Histoire de la sexualité, (1976, 1984) - A história da
sexualidade.
Roberto Machado (1979, 1988) situou a obra de Foucault em três períodos distintos,
mas que se articulavam entre si. (a) Arqueologia do saber; (b) Genealogia do poder;
e (c) Genealogia da moral.
Amigos e discípulos de Foucault reuniram textos em quatro volumes intitulada de
“Dits et Écrits” (1994) Ditos e Escritos, com cerca de 360 textos, palestras e
conferências, reportagens de jornais, revistas, entrevistas, e cursos realizados em
diversas universidades do mundo. No Collège de France foram preparados para
publicação “Il faut defendre la société” - É preciso defender a sociedade, “Les
anormaux” - Os anormais e “Hermeneutic du sujet” - Hermenêutica do sujeito.
Cremos que para não concluir trazemos do seu texto “Verdade Poder e si”
(1982,p.778) em que podemos refletir o quão instigante é o seu pensamento.
21
Por meio de diferentes práticas – psicológica, médica, penitenciária,
educativa – uma idéia, um modelo de humanidade tem tomado
forma, e essa idéia de homem tem se tornado normativa, evidente e
se passa por universal. É possível que o humanismo não seja
universal, mas correlativa a uma situação particular.
Michel Foucault faleceu em Paris, no dia 25 de junho de 1984, em plena produção
intelectual. Foi realizada uma homenagem pública no pátio do Hospital Pitié
Salpêtrière no dia 29 de junho.
Foucault marca pelo fazer no que está escrito uma escritura. O esgotamento do
estudo dos seus textos não é possível pela diversidade e grandiosidade de sua obra.
1.4.3 Justificativa Prática
A relação de poder constituído num campo de saber está presente também nas
organizações, instituída no discurso da verdade do dirigente.
A prática foi realizada com o estudo de caso de uma empresa brasileira de grande
porte, a Organização Odebrecht, especificamente a “Tecnologia Empresarial
Odebrecht” como dados secundários.
A origem da Organização Odebrecht teve início na segunda metade do século XIX,
quando da
imigração germânica para o Sul do Brasil, as quais estava,
Emil
Odebrecht. Eles trouxeram valores éticos fundados na formação religiosa de credo
luterano e um forte espírito empreendedor.
O engenheiro Emílio Odebrecht, neto de Emil Odebrecht e pai de Norberto
Odebrecht, desenvolveu a carreira de construtor no Nordeste brasileiro nas décadas
de 1920 e 1930. Norberto de Odebrecht, sob a liderança da mãe Hertha Odebretch,
viveu num ambiente de grande religiosidade, disciplina, organização e trabalho, em
que os ensinamentos versavam sobre a busca da Verdade. Em 1944, Norberto
Odebrecht então com 23 anos, funda sua empresa individual de construção. Um ano
22
depois surge a Construtora Norberto Odebrecht, embrião da Organização
Odebrecht.
A Organização Odebrecht completa 63 anos em 2007.
A “Tecnologia Empresarial Odebrecht”, referência cultural e metodológica da
Organização Odebrecht, nos parece adequada para refletir sobre um recorte de
discurso que vem sendo praticado desde a sua fundação, ou quiçá, antes mesmo da
sua existência, já que contém historicamente um ponto de partida na relação do
imigrante alemão, as condições históricas da imigração e um histórico desde a
chegada do imigrante, as características políticas e culturais do acolhimento em
nosso país, características que vamos observar pelos elementos constitutivos
apresentados desde a chegada da família Odebrecht, em 1856.
Na “Organização Odebrecht” encontramos a evolução histórica, desde a chegada
dos primeiros imigrantes alemães, incluindo a inserção da Organização como uma
empresa brasileira importante, como registrada na “Linha do Tempo da Odebrecht –
Uma história a serviço do futuro” (Fonte: www.odebrechtonline.com.br. )
Cronologia:
Anos 1820 – 1860 - 1900 – 1920 - 1930
1828 – Primeiros imigrantes alemães se instalam em Santa Catarina.
1861 – Emil Odebrecht começa a trabalhar ao lado de Hermann Blumenau,
na consolidação da colônia, prestando serviços de engenharia e agrimensura.
1914 – Emílio Odebrecht, neto de Emil Odebrecht, transfere-se para o Rio de
Janeiro, onde o seu primo, Emílio Baumgart, lhe apresenta a técnica do concreto
armado.
1918 – Emílio Odebrecht chega ao Recife para construir a Ponte Maurício de
Nassau.
1919 – Com Isaac Gondim, Emilio Odebrecht funda em Recife a Construtora
Isaac Gondim&Odebrecht.
23
1920 – Nasce em Recife, em 9 de outubro, Norberto Odebrecht, filho de
Emílio e Hertha Odebrecht.
1923 – Emílio Odebrecht e Isaac Gondim desfazem a sociedade e Emílio
funda, em Recife, a Construtora Emílio Odebrecht e Cia.
1925 – Emílio Odebrecht transfere-se com a família para Salvador, Bahia.
1929 – A Emílio Odebrecht e Cia. constrói a sede da Companhia de
Navegação Baiana, em Salvador, e a catedral Petrolina, em Pernambuco.
1933 – 1935 – No interior da Bahia, constrói diversas obras.
1937 a 1940 – Período de muitas realizações para a Emílio Odebrecht e Cia.
Anos 40/50
1941 – Com a Segunda Guerra Mundial, os materiais de Construção tornamse escassos, impedindo a continuidade das obras.
1943 – Norberto Odebrecht forma-se em Engenharia Civil pela Escola
Politécnica da Universidade Federal da Bahia.
1944 – O jovem engenheiro Norberto Odebrecht cria a sua firma individual,
marco fundador da Organização Odebrecht..
1945 – A empresa individual transforma-se na Norberto Odebrecht
Construtora Ltda.
1945 a 1947 – Com inovações construtivas, planejamento e busca de maior
produtividade, a nova empresa antecipa prazos e reduz custos na construção de obras
como o edifício Belo Horizonte e o Círculo Operário da Bahia, em Salvador, e o Estaleiro
Naval da Ilha do Fogo, entre Juazeiro (BA) e Petrolina (PE).
1948 – Norberto Odebrecht salda todas as dívidas da Emílio Odebrecht e Cia.
1949 – Norberto Odebrecht inicia um mega empreendimento na região de Ituberá
(BA), que não vai adiante, mas lhe revela um ensinamento fundamental: “só há uma
condição para a tarefa empresarial; a existência de um cliente que precisa ser tarefa
empresarial; a existência de um cliente que precisa ser servido e satisfeito”. Em lugar disso,
ele teria partido de “processos” e de “coisas”.
1952 – Iniciada a construção da usina Correntina, na Bahia, com capacidade
para gerar 10MW.
24
1953 – Com a criação da Petrobrás, a Norberto Odebrecht conquista um novo
cliente. Sua primeira obra para a estatal foi a construção do oleoduto CatuCandeias, nesse mesmo ano.
1954 – A empresa muda sua razão social, passando a chamar-se Construtora
Norberto Odebrecht S.A.
1957 – Construída a fábrica da Sambra, Sociedade Algadoeira do Nordeste
Brasileiro, em Salvador.
1958 – Tem início a construção das plataformas marítimas do Campo de São
João (BA) para a Petrobrás.
1959 – É concluída o Teatro Castro Alves em Salvador.
Anos 60
1960 a 1961 – São construídas instalações da fábrica de solventes da Cia.
Industrial da Bahia, da linha Corrente S.A. e da Liquid Carbonie Industrial S.A., todas
em Salvador.
1962 – A Odebrecht abre filial em Recife. Morre Emílio Odebrecht, pai de
Norberto Odebrecht, que retornará a Salvador na década de 50 e contribuirá com a
empresa do filho como calculista.
1963 a 1967
A Odebrecht constrói as fábricas da Willys Overland, da
Coperbo, da Alpargatas Confecções e da Tintas Coral do Nordeste.
1965 – É criada a Fundação Odebrecht, inicialmente voltada para prover os
integrantes da Odebrecht com benefícios sociais.
1967 – Emilio Odebrecht, filho de Norberto Odebrecht, inicia sua vida
profissional na empresa como estagiário.
1968 – Construção da Ponte do Funil, ligando a Ilha de Itaparica, na Baia de
Todos os Santos ao continente.
1969 – Construção da Barragem de Pedras (BA) e da ponte rodoferroviária
Própria-Colégio (SE). Iniciada no Rio de Janeiro, a construção do edifício-sede da
Petrobrás.
Anos 70
1970 - Realização de grandes obras no Sudeste do país, entre as quais o
campus da Universidade do Estado da Guanabara (atual Universidade Federal do
25
Rio de Janeiro), o aeroporto Internacional do Rio de Janeiro – Galeão e a Usina
Termonuclear Angra I, no Rio de Janeiro.
1973 a 1975 – Presente em quase todo o país, a Odebrecht constrói a ponte
Colombo Salles, Em Florianópolis (Santa Catarina), e conclui a restauração do
Teatro Amazonas, em Manaus (AM).
1978 – A Odebrecht é contratada para construir o Complexo Hidrelétrico
Pedra do Cavalo, em Cachoeira (BA), o Complexo Siderúrgico da Açominas, em
Ouro Branco (MG), o Sistema de Abastecimento de Água Riachão Potengi (CE) e a
Terceira Ponte de Vitória (ES).
1979 – São iniciados os processos de diversificação de negócios e de
atuação internacional. No setor de óleo e de gás, é criada Odebrecht Perfurações
Ltda. (OPL), para perfuração de poços em terra e no mar, lançamento de oleodutos
e serviços complementares. São realizados os primeiros investimentos no setor
petroquímico, com a aquisição de um terço do capital da Companhia Petroquímica
Camaçari CPC. São assinados os primeiros contactos internacionais: no Peru, para
a construção da Hidrelétrica Charcani V e, no Chile, para o desvio do Rio Maule para
a Hidrelétrica Colbún Machicura (Chile).
Anos 80
1980 A Companhia Brasileira de Projetos e Obras – CBPO, empresa de
construção pesada fundada em São Paulo em 1933, é integrada a organização
Odebrecht.
1981 – Criação da Odebrecht S.A., tendo como objetivo, a preservação das
Concepções Filosóficas e a definição do direcionamento negocial da Organização.
1984 – Tem início a atuação da Odebrecht, com a construção da Hidrelétrica
de Capanda. Os investimentos na área petroquímica são ampliados com a aquisição
de ações da Salgema Indústrias Químicas S.A.
1986 – A construtora Norberto Odebrecht conquista o Prêmio Petrobrás da
Qualidade. São adquiridas participações nas empresas Poliolefinas S.A., PPH –
Companhia Industrial de Polipropileno e Unipar-União de Indústrias Petroquímicas
S.A. A Tenenge, empresa de montagem industrial, fundada em São Paulo em 1955,
é integrada à organização Odebrecht.
26
1987 – A Odebrecht inicia sua atuação no Equador, com a construção do
projeto de irrigação Santa Elena, na região de Guayaquil, e na Argentina, com a
construção da Hidrelétrica de Pichí-Picún-Leufú, na Patagônia.
1988 – A Odebrecht começa a atuar em Portugal, ao adquirir a empresa
portuguesa José bento Pedrosos & Filhos, rebatizada de B`C – Bento Pedroso
Construções. A fundação Odebrecht passa a se dedicar à educação de
adolescentes para a vida. É adquirida a CMW Equipamentos S.A., especializada em
eletrônica e automação.
Anos 90
1990 – A Tenenge conquista o Prêmio Petrobrás da Qualidade.
1991 – Norberto Odebrecht transfere a presidência da Odebrecht S.A. a Emílio
Odebrecht. A Construtora Norberto Odebrecht dá início a sua atuação na Inglaterra,com a
aquisição da SLP Engineering Ltd., e nos Estados Unidos, tornando-se a primeira empresa
brasileira a vencer uma concorrência pública no país. É iniciado o projeto de celulose, no
sul da Bahia.
1992 – A Odebrecht inicia a sua atuação no México, com a construção da
Barragem Los Huites para controlar as cheias do Rio Fuerte. São adquiridos os
controles acionários da PPH e da Poliolefinas, dentro do Programa Nacional de
Desestatização.
1993 – A PPH e a Poliolefinas, unificadas, dão origem à OPP Química S.A. São
adquiridos em leilões de desestatização, os controles acionários do CPC e da Salgema,
integrados no ano seguinte na Trikem. A Odebrecht abre um escritório em Pequim, na
China, conquista o primeiro contrato em regime de concessão fora do Brasil para construir a
autopista de acesso a oeste de Buenos Aires e cria a Odebrecht Baú para atuar na
Alemanha e no leste Europeu.
1996 – A CBPO, em parceria com a ABB, vence a concorrência para a
construção da Hidrelétrica de Bakun, na Malásia, Sudeste Asiático. É concluída a
Barragem de Letsibogo, em Botsuana, África. É constituída a OSI – Odebrecht
Serviços de Infra-estrutura Ltda. , para administrar as participações da Organização
em concessões de serviços públicos, e a Odebrecht Oil and Gás Serrvices Ltd., para
desenvolvimento de negócios na área de petróleo e gás.
1998 – Norberto Odebrecht transfere a Presidência do Conselho de
Administração a Emílio Odebrecht.
27
1999 – A produção de resinas termoplásticas pelas empresas da Odebrecht
atinge 1,8 milhões de toneladas anuais, com a entrada em operação de novas
fábricas. A fundação Odebrecht muda o seu foco de atuação, passando a se
concentrar no desenvolvimento auto-sustentado de microrregiões do Nordeste
brasileiro. São comemorados os 40 anos de contribuição da Odebrecht à cultura
brasileira.
2000 – 2004
2000 - A Odebrecht é classificada pela revista norte-americana ENR
(Engineering News Records) como a maior empresa de Engenharia e Construção da
América Latina e uma das trinta maiores exportadoras desses serviços em todo o
mundo. É inaugurado o Complexo Turístico Costa do Sauípe, na Bahia,
empreendimento hoteleiro com 1650 apartamentos.
2001 – A Odebrecht, em associação com o grupo Mariane, adquire o controle
da Companhia Petroquímica Nordeste-Copene, central de matérias-primas do Pólo
de Camaçari, tornando-se maior grupo petroquímico da América do Sul.
2002 – Emílio Odebrecht passa a Presidência da Odebrecht S.A. a Pedro
Novis e dedica-se integralmente a presidir o Conselho de Administração da
empresa. Marcelo Odebrecht sucede Renato Baiardi como Líder Empresarial do
negócio Engenharia e Construção e José Carlos Grubisich substitui Álvaro Cunha
como Líder Empresarial do negócio Química e Petroquímica. Com o apóio do Grupo
Mariani, da Previ e da Petroquisa, acionistas minoritários, a Odebrecht constitui a
Braskem, a maior empresa petroquímica da América Latina.
2003 – Chega a mil o número de integrantes que trabalharam por mais de
vinte e cinco anos na Organização. A Construtora Norberto Odebrecht realiza obras
simultaneamente no Brasil e em mais de 14 países. A Braskem exporta produtos
para mais de 50 países.
2004 – A Organização Odebrecht faz sessenta anos.
28
1.5 PROCEDIMENTO GERAL DE ESTUDO E METODOLOGIA
Primeiramente, refletimos a respeito de “como o poder vem sendo discutido”.
Seguindo, procuramos apreender “o que vem sendo dito como poder, nas
organizações”. Por fim, o que veio a indiciar a preocupação chave do trabalho,
circunscreveu-se, dentro de uma perspectiva filosófica em que a descontinuidade
histórica se faz presente, num discurso sobre o homem e objeto do conhecimento.
Realizamos um estudo do discurso da Tecnologia Empresarial Odebrecht, base
filosófica da Organização Odebrecht num contexto histórico. Deste modo, o
fenômeno do poder, considerado segundo o ponto de vista da pós-modernidade,
encontra uma reflexão diferenciada do funcionalismo. Os textos foucaultiano
formaram a base teórica do referido trabalho.
A fim de esclarecer o desenvolvimento do trabalho em si, focamos em três
tópicos: a metodologia, ou, de forma simplificada de como ele foi elaborado; a
base teórica, ou de uma revisão da histórica discursiva do poder a um
referencial teórico; e o estudo de um caso, ou seja, uma análise e interpretação
do poder a luz da teoria estabelecida no discurso de um dirigente empresarial.
Procuramos assim, com referência textual fornecer uma base empírica para a
reflexão. Desta forma, houve uma preocupação em tentar responder a questão
temática por meio do que seriam três desenvolvimentos: 1) Teórico 2) Empírico
(Estudo de um caso) e 3) Discussão em si.
Abordamos então nosso estudo conforme o entendemos em Yin (2004), como
estudo realizado com dados secundários.
A Análise Crítica do Discurso (Wodak, 2003), considera que ao estudar a linguagem
como prática social, devemos focar em seu contexto onde repousa a força para
legitimar as relações de poder estabelecidas institucionalmente.
A Análise Crítica do Discurso é forma crítica que se fundamenta cientificamente a
partir de análises concretas sobre o discurso, do saber que o fundamente e o poder
que é revelado em sua prática. Trata-se de uma abordagem crítica que foi concebida
29
como ciência social destinada a identificar os problemas que as pessoas enfrentam
em decorrência de formas particulares de vida social e destinada, igualmente, a
desenvolver recursos, ferramentas de que as pessoas podem se valer a fim de
abordar e superar esses problemas. (FAIRCLOUGH, 2003: 185 tradução de Cleide
Emília Faye Pedrosa).
Dado a diversidade de abordagens incluímos referências contextuais de outras
fontes que poderão enriquecer e mesmo abrir portas para futuros estudos do tema,
como o da Teoria dos “Quatro Discursos de Jacques Lacan” que tem em comum
com Foucault a relação com Althusser e Pêcheux, cujas fontes são o estruturalismo
marxista.
Pudemos verificar no Capítulo 1 do livro Análise Crítica do Discurso (1997, p. 19),
várias posições importantes que a autora Emília R. Pedro, ressalta sobre o assunto,
entre as quais destacamos algumas delas:
Poderíamos talvez disser que, fundamentalmente, encontramos dois
entendimentos do que é discurso. Por um lado, há os que olham o discurso
como um momento do uso lingüístico e, por outro, os que consideram o uso
lingüístico como um momento de um discurso, como é, por exemplo, o caso
de Pennycook (1994). (1997 p. 19)
Neste texto ela desenvolve a Análise Critica do Discurso como uma das formas de
estudar como ocorre o poder no meio social, institucional e em grupos. Ela nos diz:
Um dos objetivos da ACD é o de analisar e revelar o papel do discurso na
(re) produção da dominação. Dominação entendida como (Van Dijk 1993) o
exercício do poder social por elites, instituições ou grupos, que resulta em
desigualdade social, onde estão incluídas as desigualdades política, a
desigualdade social e cultural. (1997 p.25)
A partir daí podemos ver o quanto ela bordeja ou mesmo circunscreve a política e a
ideologia. Especificamente, os analistas críticos do discurso querem saber quais as
estruturas, estratégias ou outras propriedades do texto, falado ou escrito, da
30
interação
verbal,
ou
dos
acontecimentos
comunicativos
em
geral,
que
desempenham um papel nestes modos de reprodução.
E embora estejam conscientes da importância das estratégias de
resistência e desafio no seio das relações de poder e dominação (cf., por
ex. Fairclough, 1990) e, portanto, da importância da sua análise e da
inclusão dessa análise numa teoria mais alargada do poder, do contrapoder e do discurso, a abordagem crítica tem, até agora, preferido
concentrar-se nas elites e nas estratégias que estas põem em
funcionamento para a manutenção da desigualdade. (1997 p. 25, 26)
A segunda perspectiva julga existir em Ball, (1990:3)
para quem “a questão na análise do discurso é porquê, num dado momento,
de todas as coisas que poderiam ser ditas, apenas certas coisas foram
ditas”.
Trata-se, portanto, de explicar os significados das formas e das funções da
linguagem, olhando para um conjunto de aspectos importantes,
nomeadamente as formas gerais de inferência do contexto e do
conhecimento anterior que os falantes possuem, em termos contextuais, cotextuais, ou mais geralmente culturais. (CooK 1989, Halliday 1987,
Pennycook 1994, por exemplo). (1997, p.19, 20)
A Análise Crítica do Discurso opera, necessariamente, com uma
abordagem de discurso em que o contexto é uma dimensão fundamental.
Mas, ao contrário de outras abordagens, conceitualiza o sujeito não como
um agente processual com graus relativos de autonomia, mas como sujeito
construído por e construindo os processos discursivos a partir de sua
natureza de actor ideológico. (cf., a este propósito, por exemplo, Fairclough
1989,1992, Kress 1996, Pedro 1996ª e b, Wodak 1996). (1997, p. 20)
Para Kress (1985:7)
“Discursos são conjuntos de afirmações sistematicamente organizados que
dão expressão aos significados e valores de uma instituição. Para, além
disso, de forma marginal ou de forma central, definem, descrevem, e
delimitam o que é possível dizer e o que não é possível dizer (e por
extensão, o que é possível fazer e o que não é possível fazer) em relação à
área de preocupação dessa instituição. Um discurso fornece um conjunto de
afirmações possíveis sobre uma determinada área, e organiza e dá
31
estrutura ao modo se deve falar sobre um tópico particular, um objeto, um
processo”. (1997, p.21,22)
Podemos mesmo afirmar que um discurso se organiza naquilo que é uma promessa
e os modos de sua efetivação, já que o que nos interessa ao abordá-lo do ponto de
vista organizacional descobre que ele funciona como uma gramática da instituição,
oscilando nos graus de possibilidades que os laços engendrados permitem.
A influência de algumas teorias, como as elaboradas, por exemplo, por
Althusser (1997) e Pêcheux (1982) – que sublinham os aspectos
materialistas da ideologia, de natureza mais infra-estrutural e, por isso,
incidindo nas relações de classe e nos meios de produção -, é bastante
evidente em alguns analistas críticos, concreta e nomeadamente em
Fairclough (1989 1992). Conseqüência deste posicionamento é um
entendimento particular de discurso relativamente aos modos de produção
de sentido, muitas vezes, realizados através da linguagem, outras vezes de
outras formas de expressão semiótica, isoladamente ou em conexão com a
expressão verbal (...) Nesta óptica, discursos são, por certo, sistemas de
poder e saber, onde, enquanto sujeitos, onde ao exercer certa posição,
somos por ela exercidos ao situar nossa posição. E é por isso fácil
compreender a discordância de Pennycook, para quem (ibid.:128) discurso,
no sentido foucaultiano, nos permite compreender que a produção de
sentido não resulta das intenções de um sujeito humanista unitário, nem de
um sistema lingüístico, mas de um complexo de sistemas de poder/saber
que organizam os textos. (1997, p.39,40)
Não nos parece de nenhum modo, justificada, neste aspecto particular, a
crítica explicitada por Pennycook, porque, ao contrário, a concepção de um
sujeito múltiplo, sempre articulando e cruzando processos de produção
textual de natureza intertextual e, portanto intercultural está absolutamente
presente nos trabalhos produzidos por meio dos analistas críticos, já aqui
várias vezes referenciadas. (1977,p.40)
Em Kress (1966) e em Kress e Van Leuuven (1966) encontramos, muito
mais do que em Fairclough (1989, 1992, 1995), a noção de signo
multimodal e de um sujeito múltiplo construído por e no discurso. Para os
investigadores da ACD, em geral, o significado tende a ser localizado na
relação entre a forma lingüística e a função, o contexto, ou a estrutura social
e a ideologia. Foucault localiza o significado no próprio discurso. Mas
também encontramos diferenças bastante claras entre os investigadores
críticos do discurso. Para Van Leeuven (1996), o significado pertence à
cultura mais do que à linguagem e que, por isso, não pode ser ligado a
nenhuma semiótica específica.
Uma outra questão apontada por Pennycook (ibid.: 131) que não parece
suficientemente problematizada nos analistas críticos do discurso, é a que
diz respeito à coerência discursiva, já que Fairclough (1989:103), por
32
exemplo, a define como “dependente do senso comum discursivo" e este é
ideológico pela manutenção, que sustenta, das "relações desiguais de
poder. (1977,p.40)
Julgamos que muitas das críticas negativas, feitas ou a fazer, ao projeto da
ACD, residem na dificuldade, existente, em particular, de forma coerente,
modelos de análise sociopolítica e cultual com modelos de análise
lingüística e semiótica, e ao facto de se ter, entretanto, recorrido a certos
conceitos vindos de diferentes teorias já elaboradas e, freqüentemente, de
raiz e posicionamentos conceptuais diferenciados. (1997, p.40,41)
Cremos que as colocações de Emília R. Pedro, em que reúne os diversos
estudiosos do assunto puderam ampliar e corroborar com o trabalho desenvolvido.
A inclusão de outras referencias como a de Lacan, só a fizemos como forma
também crítica que aborda o discurso em diferentes esferas e sobretudo como forma
modelar de laços sociais. Podemos assim ampliar o entendimento das relações que
ocorrem e que são determinantes para o exercício do poder, ou se efetive a relação
de poder entre as pessoas.
1.7 RESULTADOS ALCANÇADOS E POSSÍVEL CONTRIBUIÇÃO PARA CAMPO
DE ESTUDO
Ao analisar o poder na época moderna e pós-moderna verificamos que o conceito
mais utilizado ao referido tema no campo administrativo, tem encontrado
balizamento nas teorias em que o poder traz nos seus conceitos influências do
modernismo, numa visão funcionalista. As teorias pós-modernas com pensadores
como, Arendt, Foucault e Lacan, rompem com concepções clássicas deste conceito.
Tratar o tema referido nas organizações num aspecto filosófico e retórico, analisa
como o saber associado ao poder, expressas na forma discursiva, são capazes de
operar eficazmente.
33
Estas discussões levantaram questões pouco analisadas como, a influência dos
discursos, associados a um saber eclesiástico ou acadêmico, das diversas
instituições.
Cremos que ao trazermos a teoria aliada a um estudo de caso pudemos dar um
entendimento esclarecedor das questões presentes de como o saber vs poder estão
presentes nas relações. A estrutura hierárquica exercida por uma autoridade apenas
legitima o exercício do poder que produzem atitudes de coersão, remuneração ou de
normas.
1. 8 COMPARAÇÃO COM ESTUDOS ANÁLOGOS
A rigor, ao procurar desenvolver o tema em questão, o interesse nuclear estaria em
entender a ação dos agentes cognominados administradores, agentes de mudança
organizacional, segundo interesses não muito claros ou tendentemente não aceitos
em sua totalidade pela sociedade em geral (DODD JR, 1932, in CLARKSON, 1998,
p. 31-46). Independentemente da questão ontológica, é possível admitir o poder com
o sentido de um instrumento de controle do comportamento dos participantes
organizacionais.
Diversos trabalhos já vem tentando tratar tal questão, trazendo Foucault em cena,
como são notados em alguns trabalhos, que foram editados por McKinlay & Starkey
(1998) – por exemplo, Clegg (Foucault, Power and Organizations, p. 29-48).
Também, há de se apontar, a organização textual de Rago & Veiga-Neto (2006), em
que se destacaria Biroli (História, discurso e poder em Michel Foucault, p. 119126) e Fonseca (Para pensar o público e o privado: Foucault e o tema das artes
de governar, p. 155-164). Enfim, é na tentativa de uma contribuição semelhante,
mas não de mesma natureza intelectual, que se pretende colocar tal trabalho.
A título ilustrativo, mencionamos adiante alguns trabalhos dentre uma variedade de
estudos sobre diversos aspectos do pensamento foucaultiano e que ensejamos
inserir-nos:
34
QUADRO 01 – Mais de Duas Décadas de Estudos do Pensamento de Foucault
Autor
Abel (2005)
Garnar (2006)
Gordon & Grant (2005
Hill (1990)
Lynch (1998)
McCarthy (1990)
Molina (1999)
Thiele (1990)
Thiele & Johnson (1991)
Towley (1993)
Walton (2005)
White (1986)
Wong (2005)
Wong (2007)
Texto
Beyond the mainstream: Foucault, power and organization theory
Power, action, signs: between Peirce and Foucault
Knowledge management or management of knowledge
Foucault’s critique of Heidegger
Is power all there is? Michel Foucault and the “omnipresence” …
Foucault and the Frankfurt School
El filosofo que se atrevió a todo
The agony of politics: the nietzschean roots of Foucault’s thought
Reading Nietzsche and Foucault: a hermeneutics of suspicion?
Foucault, power/knowledge, and its relevance for hrm
The notion of bullying the lens of Foucault and Critical Theory
Foucault’s challenge to critical theory
Foucault contra Habermas: power, and critique
Foucault contra Habermas: knowledge and power
Fonte: Uma amostra intencional coletada pelo mestrando
1. 9 LIMITAÇÕES E DIFICULDADES
Vale frisar algumas limitações tanto do estudo quanto dos resultados alcançados,
naquilo que foi possível se chegar. O próprio tema é complexo por si mesmo;
portanto, é possível a não aderência por parte de alguns acadêmicos a respeito do
que aqui foi dito, por transitar sob conceitos não habituais à administração. A esta
leitura estão agregadas além dos conhecimentos da administração, outras como: a
filosofia, a lingüística, e até mesmo a psicanálise.
Uma analítica do poder abriu possibilidades de tratar do particular do sujeito, em que
as mudanças de lugares que ocupam nas relações, indicam conforme a
característica do agente, neste caso o administrador, uma estrutura discursiva que
informa na enunciação, a maneira pela qual estabelece os laços sociais.
Numa analítica do poder não cabe uma definição universal. Isto modifica
significativamente o olhar sobre a questão ao considerá-lo não como um adjetivo,
mas como resultado de uma estrutura discursiva.
Cremos que a maior limitação esteja justamente na necessidade de se analisar cada
organização individualmente, a partir da estrutura de cada grupo com lugares
operados de maneira particular.
35
2.
DESENVOLVIMENTO TEMÁTICO
2.1 DESENVOLVIMENTO TEÓRICO: DE UMA ANALÍTICA DO PODER EM
FOUCAULT...
Teóricos das diferentes áreas de estudo como o Direito (LIMA FILHO, 1999;
BOBBIO, 1995, 1997; RUFO, 2003), a Psicologia (ROGERS, 1986; PAGÉS ET AL,
1993; KATZ & KAHN, 1987), a Sociologia (GIDDENS & HELD, 1982; LUHMANN,
1995; CHAZEL, 1995), a Filosofia (RUSSELL, 1979; ALTHUSSER, 2001; ARENDT,
1997), a Ciência Política (BURNS, 1978; CHOMSKY, 1998; TRAGTENBERG, 1980),
a Economia (GALBRAITH, 1989), têm freqüentemente voltados os seus interesses
sobre o tema o poder. Estudos na área da administração não poderiam ser
diferentes (HOXIE, 1966; BACHARACH & LAWLER, 1981; PFEFFER, 1992). Tanto
a administração como
outras áreas do conhecimento trazem o aprendizado de
grandes pensadores da modernidade e da pós-modernidade. Entre eles: Max
Weber, Karl Marx, Hannah Arendt, Michel Foucault, Lacan.
Para os racionalistas, como Max Weber e Karl Marx, o estudo do poder baseou-se
num momento histórico em que as mudanças de um sistema feudal para um sistema
nas quais os monarcas eram substituídos pela burguesia. A obra de Marx aparece
numa teoria onde a positividade do Estado legitima a do poder. O Estado como uma
república, mas que, no entanto é um instrumento de domínio. Weber (1947)
descreve nas suas formulações teóricas sobre autoridade e burocracia como a
possibilidade de alguém impor a sua vontade sobre o comportamento das pessoas.
Na organização examina três tipos de poder: tradicional, legal e burocrático. Esta
noção weberiana da sociedade moderna é central para a teoria crítica cujo conceito
geral aborda: exploração, repressão e injustiça. O cientista político Robert Dahl
(1957) define o poder como uma relação entre A e B, sendo que A tem poder sobre
B, na medida em que pode levar B a fazer algo, que B de outra maneira não o faria.
O sociólogo americano Amitai Etzioni (1974) define o poder como a habilidade de
um ator para induzir o outro a seguir sua orientação (apud Corrêa, 1977 e Krausz,
1991). Etzioni baseia o poder como: coação (prisão, instituição, psiquiátrica),
36
remunerativo (organizações econômicas) normativas (igrejas, gangues, grupos de
voluntários) organizações pós-industriais conhecimentos (grupos de trabalho,
parcerias, alianças estratégicas). Krausz (1988, pg. 15) propõe o conceito do mesmo
“como a capacidade potencial de influenciar as ações dos indivíduos ou grupos no
sentido de atuarem de uma determinada maneira.” Pfeffer (1981) vê a estrutura
organizacional como uma autoridade legítima para usar o poder organizacional. Ela
é baseada na estrutura hierárquica como importante base de poder sobre o
indivíduo ou sobre a organização, a dependência dos recursos necessários para a
obtenção dos resultados desejados por este indivíduo ou organização. Estes
recursos, segundo Pfeffer, podem ser físicos (matérias-primas, por exemplo),
monetários, políticos, informações, habilidades técnicas ou conhecimentos.
Estes estudiosos baseiam o poder ora na teoria de Marx, em que a positividade do
Estado legitima o poder, ora como Max Weber, onde o poder é exercido numa
autoridade burocrática e legal. Para os racionalistas o poder é exercido em atitudes
coercitivas, normativas ou remunerativas.
Outra corrente de pensadores, esta chamada de pós-modernos, surge em
contraponto aos pensadores da era moderna. Parker (1992) ressalta o modernismo
sustentado por meio de concepções discursivas, onde a “verdade” é coletivamente
sustentada. A linguagem assume papel central na constituição da realidade, onde a
“verdade” é vista sempre como uma forma de discurso.
A maior representatividade do pensamento da pós-modernidade é Friedrich
Nietzsche (1844-1990), que exerceu forte influência no pensamento de Foucault
(THIELE, 1990; THIELE & JOHNSON, 1991). No sistema da racionalidade, afirma
Nietzsche, são em realidade sistemas de persuasão. Pretensamente ao descobrir a
verdade na realidade ocultam o que Nietzsche denominou “vontade de poder”.
(Lyon, 1996). O início das reflexões sobre a vontade de poder, seriam explicitadas
em Assim Falou Zaratustra, 1885 ( Also sprach Zarathustra).
37
Em Lyotard, há uma definição da pós-modernidade “como a incredulidade diante das
metas narrações (grands récits)”3. Lyotard afirma que não se pode recorrer a tais
discursos. Discursos que geram autoridade pela legitimação da ciência. A
legitimação da autoridade preponderantemente religiosa, com o conhecimento
científico passa a ciência a exercer o status de a verdade. Após a publicação de A
condição pós-moderna de Jean-François Lyotard4, surgem outros franceses com
esta tendência, entre os mais destacados, Jacques Derrida, Michel Foucault, e o
próprio Lyotard.
Derrida tem como conceito fundamental, o que ele chama de “différance”. Faz uma
crítica a metafísica, ao modelo lingüístico, com um significado único na linguagem.
Examina idéias, crenças e valores construídos. Nega que algum texto possa ser fixo
ou estável e incentiva a pluralidade de discursos.
Realiza o que denominou de “desconstrução”. Implica em desfazer textos para que
possa revelar algum significado oculto. “A desconstrução procura desmontar
qualquer discurso que se apresente como “construção”. Derrida gosta de referir-se a
ele como “intervenção”. (Borradori, 2004).
Enquanto Derrida centra os seus estudos em temas filosóficos e literários, Michel
Foucault centra os seus estudos nas ciências humanas. A base teórica empírica do
filósofo Foucault que fundamenta os estudos se subdividem em dois eixos: verdade
e saber; poder e sujeito, que engloba três ênfases metodológicas, denominadas
arqueologia, genealogia e ética.
2.1.1
Verdade e Saber
Na modernidade, o homem aparece como figura de um saber científico. Saber que
fala e discute sobre o homem enquanto sujeito e objeto do conhecimento. Como
3 Lyotard, The Postmodern Condition, p. xxiv . A edição francesa original do livro de Lyotard, A condição pós-
moderna: rapport sur le savoir, apareceu em 1979, mas a tradução inglesa não se publicou até 1984
38
conseqüência, o discurso da verdade, exerce sobre o homem o exercício do poder.
No seu texto Soberania e disciplina. Foucault, pergunta: “Em uma sociedade como
a nossa, que tipo de poder é capaz de produzir discurso de verdade dotado de
efeitos tão poderosos?” (1976). A produção histórica da verdade aparece em
diferentes práticas sociais, pela enunciação de discursos racionais como se fossem
verdades incontestáveis. Isto se faz presente na medicina, na pedagogia, na religião,
etc. Foucault critica a dependência de qualquer ciência como sendo uma verdade
única. Seus primeiros textos seguem uma abordagem arqueológica. Segundo
Foucault (1969), o domínio das coisas ditas é o que chamam de arquivo; o papel da
arqueologia é analisar as práticas discursivas de uma época.
Os textos foucaultianos, num posicionamento arqueológico, abordam os saberes
que falam sobre o homem; as práticas discursivas, e não verdades em relação a
este homem, como são apresentados pela ciência. Reivindica uma independência
de qualquer ciência. Trata temas como: a psiquiatria, a medicina e ciências humanas
(domínios do saber).
A análise arqueológica consiste em descrever a constituição das ciências humanas,
dos séculos XVIII ao XIX, com o aparecimento das ciências empíricas e do
pensamento kantiano4. Nesta fase ocorreram as rupturas ao nível do saber. A
história da loucura deixava de ser a história da psiquiatria. A psiquiatria aponta o
saber sobre o louco, constituindo o discurso teórico, numa rede conceitual. O saber,
sobre o louco está diretamente associado com as práticas institucionais do
internamento4.
A questão institucional e política aparecem com maior ênfase em História da
Loucura e O Nascimento da Clínica. Faz uma interrelação conceitual de saberes.
O conhecimento da doença como ciência abstrata cede o lugar a um saber moderno
do indivíduo como corpo doente (MACHADO, 2005).
4 No pensamento kantiano a pedra angular de todo o edifício da filosofia moral compreende a formula kantiana
da Lei Universal, ou imperativo categórico. Dentro de suas principais obras de Kant está a Críticas – da Razão
pura, da razão prática e do Juízo.
39
Os espaços institucionais de controle do louco, com as práticas de internamento,
surgem articulados com os saberes extra-discursivos, nas instituições como o
hospital, resultado das transformações principalmente na época da Revolução
Francesa.
Os livros de Michel Foucault:
•
História da Loucura (1961) aparecem pela primeira vez acontecimentos
discursivos, na qual questiona a razão, desrazão e loucura;
•
O Nascimento da Clínica (1963), uma arqueologia do olhar médico;
•
As Palavras e as Coisas (1966), uma arqueologia das ciências
humanas;
•
A Arqueologia do Saber (1969);
•
Vigiar e Punir: o nascimento da prisão (1975);
•
História da sexualidade: a vontade de saber (1976)
Nestes escritos, ao “historiar as idéias”, os faz, não como rastros históricos, mas
demonstra que o sujeito é apenas uma posição ocupada por aquele que enuncia
algo e como conseqüência uma função do discurso. Assim, por exemplo, os
enunciados sobre a loucura que formam o discurso da psiquiatria apontam um saber
sobre o louco. A constituição deste saber privilegia as inter-relações discursivas e
sua articulação com as instituições que operam sobre os indivíduos numa tecnologia
própria de controle.
Foucault encontra em várias instituições como o hospital, o exército, a escola, a
fábrica, um tipo específico de poder que chamou de “poder disciplinar”. Este
método permite o controle das operações do corpo assujeitado numa relação de
docilidade-utilidade.
Assim, toda relação de poder é constituído por um campo de saber e
reciprocamente, o saber constitui novas relações de poder. Podemos dizer que a
escola, a prisão, o hospital está assegurado pelo saber constituído pela pedagogia,
pela criminologia, pela psiquiatria. E nesta constituição do saber opera um poder. A
ação sobre o corpo, a regulação do comportamento, fabrica o homem necessário ao
40
funcionamento e manutenção da sociedade industrial e capitalista. A diferença
fundamental que vemos surgir é a distinção clara entre a concepção de uma
verdade substancializada, própria de uma visão estreita da ciência, e atinente ao
poder científico-eclesiático, e um saber que fala de um poder que é verdadeiro pelo
seu resultado. Este resultado é discursivo, sua operação cristaliza e avaliza o poder
e tem como conseqüência um discurso supostamente da verdade que exerce sobre
o homem os efeitos de um poder.
2.1.2
Poder e Sujeito
A genealogia possibilita pensar na questão do poder como uma rede, onde o homem
é visto como objeto e sujeito das práticas do poder.
Foucault apóia-se em Nietzsche para elaborar o que ele denominou de “Genealogia
do poder”. Através da genealogia herdada de Nietzsche, faz uma crítica ao saber
das ciências humanas como verdade única e eterna. Ao querer ultrapassar as
dicotomias, faz uma crítica aos dogmáticos e as suas afirmações. Nietzsche afirma
que o valor mais importante na tradição, é a razão. Faz uma crítica a exacerbação
da razão, pois enfraquece o homem devido à dicotomia dos valores, por serem
constituídos historicamente, socialmente e produzidos. A crítica nietzscheana é de
como os valores foram instituídos em nossa sociedade. Questiona a origem da
verdade, e opera uma genealogia da vontade da verdade. A genealogia surge como
uma metodologia de investigação da história, como uma filosofia da história, onde
admite que não há um sentido na história mas uma circularidade. A genealogia faz
uso da história para identificar os acontecimentos e como elas têm sua evolução e
seus reflexos na condução do comportamento humano, em uma estrutura de
pensamento conhecido como pós-moderno.
Uma das teses fundamentais da genealogia: o poder é produtor de individualidade.
O indivíduo é um produto do poder e do saber. (MACHADO, 2005).
41
Foucault passa a investigar as relações entre verdade, teoria, valores e instituições e
as práticas sociais onde as relações emergem incluindo um dispositivo político.
Na década de 70 e 80 escreve:
•
"A ordem do discurso" (1970 - aula inaugural do College
de France); "Vigiar e Punir" (1977);
•
"A vontade de saber - História da sexualidade I" (1976);
•
"O uso dos prazeres - História da sexualidade II" (1984);
•
"O cuidado de si - História da sexualidade III" (1984).
Mais tarde, Foucault irá desenvolver a noção do biopoder. A genealogia não se opõe
à história e sim aos desdobramentos meta-histórica das significações ideais e das
indefinidas teleologias. Opõe-se apenas à pesquisa de origem. Este método
encontra-se principalmente em sua obra "Vigiar e Punir".
Sem haver rompimento do seu eixo teórico, o filósofo passa a tratar da ética. Nela
Foucault trata as diferentes formas de constituição do sujeito.
Na década de 60 ocorre uma crise cultural com o desencanto do pensamento
moderno, tais como “Verdade”, “Razão”, “Legitimidade”, “Universalidade”, “Sujeito”,
“Progresso”, etc., produzidos pelo Iluminismo.
Segundo Gianni Vattino (2001), a chamada “pós-modernidade” aparece como uma
espécie de Renascimento dos ideais banidos e cassados por nossa modernidade
racionalizadora.
Outros filósofos como Hannat Arendt5 (1906-1975), também levanta questões sobre
poder, e destaca principalmente a ação como prática do discurso. Estes temas estão
presentes no seu livro: A Condição Humana (1958), traduzido por Roberto Raposo,
5 Hannat Arendt - filósofa e pensadora política. Nasceu na Alemanha em 1906. Discípula de Martin Heidegger.
Entre suas obras mais célebres estão: As origens do Totalitarismo (1948) , A Condição Humana (1958).
42
em 1987. A autora aborda a revelação do agente no discurso e na ação. Apresenta
a pluralidade humana sob um duplo aspecto: igualdade e diferença. A alteridade
como um aspecto importante da pluralidade; diferença singular que faz que os
homens se distingam entre si. A ação e o discurso é o modo pelo quais os homens
se manifestam, se revelam. Esta ação e discurso, somente possível na relação com
o outro. Para Arendt, o poder não é mensurável e confiável como a força. Ele passa
a existir na convivência entre os homens. Como ação, é ilimitado, enquanto a força
tem a limitação física humana. É a partir de discursos sobre o poder, como o de
Arendt (1997), que o poder se (re) vela nas relações que os homens desenvolvem
entre si, seja tentando expressar-se (aspecto político), seja de modo utilitário
(aspecto prático-utilitário do cotidiano humano).
Arendt enfatiza a ação do discurso, como prática do exercício do poder que opera e
revela quem o exerce. Uma vez que o exercício do poder se dá na relação. Foucault
já salientava que o poder está relacionado com as práticas institucionais.
Podemos pensar o exercício do discurso, ação como prática do exercício do poder
instituído, não como uma prática repressiva, de hierarquia ou mesmo econômica,
mas instituída com um discurso da verdade. A verdade aí sendo nada mais que uma
forma construída para dar lugar a uma razão que oficializa o poder. O pósmodernismo surge como questionamento da rigidez dos fundamentos discursivos
desta relação verdade/razão.
Este exercido na ação das relações sobre sujeitos livres, portanto onde o modelo
legal detido por classe de dominantes e dominados estejam ausentes. Podem-se
analisar organizações onde a filosofia do trabalho esteja presente no comportamento
dos seus dirigentes e dos seus comandados.
Uma outra questão de importância relevante é a influência das religiões na forma de
gerenciar a conduta dos seus fieis. Sem deixar de considerar a grande diferença que
existe dentro do cristianismo6. A distinção que opera entre o cristianismo-judaico e o
6 O Cristianismo é uma religião monoteísta baseado na vida e nos ensinamento de Jesus de Nazaré. Como uma
seita do judaísmo, partilha de textos sagrados denominados pelos cristãos de Antigo Testamento. O Cristianismo
43
protestantismo7 vêm nas suas bases. Para o cristianismo-judaíco o comportamento
versa sobre a piedade e resignação e espera a recompensa após a morte. Desta
forma a finalidade do trabalho não é enriquecer. Procurar riqueza é cair no pecado
da avareza. “A pobreza é de origem divina e de ordem providencial,” (Pirenne,
1982). O Catolicismo, desde a Idade Média, encara a vida monástica, a ascese
extramundana, como a forma de vida ideal para os que desejam à santidade ou
mesmo à salvação. A pobreza, castidades, obediência, dariam acesso a um "estado
de perfeição”. Os votos monásticos são aconselháveis, mas dispensáveis para a
salvação. O pecado de Adão, o pecado original da raça humana, seria responsável
pelo princípio que norteia a ética culposa do cristianismo-judaismo.
Há uma ruptura entre a conduta religiosa do cristianismo-judaismo e do
protestantismo7. Max Weber, em “A ética protestante e o Espírito do Capitalismo”,
faz uma análise critica sobre as relações entre religião e ethos econômico.
A Ética Protestante significava transformar o trabalho em culto de ação de graças ao
Senhor, conduta religiosa que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento do
capitalismo.
O espírito do capitalismo corresponderia de bem realizar o dever profissional, ao que
também se denomina “ética do trabalho”: sua base fundamental da ética social da
cultura capitalista. Portanto, o capitalismo moderno dependia de alguma forma da
ética de alguma religião. O capitalismo, inicialmente nos países como a Inglaterra e
a Alemanha, se dá como reflexo da Reforma da Igreja, ligado ao Protestantismo.
Martin Lutero8 (1483-1546), a partir da tradução que realizou do Novo Testamento
(1522) para o alemão, teve influência decisiva ao empregar a palavra “beruf” para
é considerada como uma religião abraâmica. Segundo o Novo Testamento os seguidores de Jesus foram
chamados de cristãos pela primeira vez em Antioquia. As Igrejas ligadas ao Cristianismo são: A Igreja Romana,
Igreja Evangélica (ou protestante) e a Igreja Ortodoxa.
7 Protestantismo é o conjunto de igrejas cristãs identificadas com as teologias do século XVI na Europa
Ocidental, na tentativa de Reforma da Igreja Cristã Ocidental (Católica).
44
trabalho, no lugar de “arbeit”. A palavra “beruf” acentua o aspecto da vocação,
estabelecendo que o trabalho como vocação divina.
A concepção de vocação
(trabalho) passa a ter uma conotação religiosa. Tanto para Lutero como para Calvino
há uma responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação através do trabalho.
Numa de suas teses fundamentais, Weber sugere que é à Reforma que se deve a
valorização do trabalho, profissão ou vocação. A argumentação de Weber é que os
comportamentos econômicos dependem de sistemas ético-religiosos. Portanto, o
capitalismo moderno depende da ética de alguma religião. A partir de conexões de
sentido, não é o Confucionismo9, o Hinduísmo10, o Judaísmo11, nem o Islamismo12.
É o Cristianismo. Mas não o Catolicismo, mas o Protestantismo, e, dentro deste,
sempre tendo a compreensão dos sentidos com método, as variedades ascéticas.
Lutero teria sido o primeiro não apenas a pregar a vocação, isto é, a ética do
trabalho, profissão, ou ocupação dentro do mundo, mas também o primeiro a
empregar, em sua tradução da Bíblia, a palavra vocação ("Beruf") no sentido de
tarefa ordenada por Deus ("eine religioese Vorstellung: die einer von Gott gestellten
Aufgabe") (Motta, 1967).
8
Martin Lutero, teólogo alemão. Considerado o pai espiritual da Reforma Protestante. Negava
abertamente a autoridade papal. Reformou a Igreja fundando o Protestantismo. Foi o autor de uma
das primeiras traduções da Bíblia para o alemão.
9
Confucionismo é um sistema filósofico chinês criado por Kung-Fu-Tzu (Confúcio). Entre as
preocupações do confucionismo estão a moral, a política, a pedagogia e a religião. Conhecida pelos
chineses como ensinamento dos sábios.
10
Hinduismo é considerada a mais velha religião existente no mundo. É um conjunto de tradições
culturais não somente religiosas, que se originam no subcontinente Indiano
11
Judaismo é religião do povo judeu. Não necessariamente um judeu precise seguir o judaísmo
embora tenha que ser praticado somente por judeus. As pessoas que desejam se converte ao
judaísmo devem aderir aos princípios e tradições judaicas
12
Islamismo é umas das quatro religiões monoteístas baseadas nos ensinamentos de Maomé (570 –
632 a.C.) chamado “O Profeta”, contidos nos livros sagrados islâmico, o Corão. A palavra islã significa
submeter-se, e exprime a submissão à lei e a vontade de Alá
45
Segundo Motta (1967), para Weber, o capitalismo moderno requer compreender a
conexão entre o espírito do capitalismo e a força espiritual, a ética ou o ethos, que
o possa ter gerado. As condições materiais teriam apenas importância secundária.
Verificamos o poder alinhado nos discursos de um saber científico e religioso que
opera a partir de práticas sociais, numa determinada época como resultado de
mudanças do olhar sobre o homem que responde a este por estar num contexto
político que lhe insere na sociedade ocidental.
Foucault aborda os mecanismos do poder em sua obra Vigiar e Punir sob o ângulo
da disciplina e da biopolítica, ou seja, sobre o corpo individual e social (população).
Considera então o poder como práticas sociais constituída historicamente aos quais
todos estão sujeitos. É um poder relacional implicando na constituição de um campo
de saber o qual por sua vez constitui novas relações de poder e de saber. Assim
sendo todo exercício de poder será ao mesmo tempo um lugar de saber. O saber
assim criado será o que orientará subjetivamente o estabelecimento de laços
sociais.
2.1.2
A TEORIA DOS DISCURSOS EM LACAN
Tomemos emprestado de Souza (2005), com a permissão do mesmo, as notas
seguintes que viriam subsidiar o que queremos discutir sobre Foucault.
"O conceito de discurso em Lacan é de uma escrita formal buscando cernir o que
informa a enunciação e performa de maneira particular os laços sociais a partir de
uma estrutura de grupo com lugares e operadores diferenciados. Os discursos que
Lacan considera como quatro, tendo citado ocasionalmente um 5o. discurso ao qual
abandonou, ele os nomeia, os quatro, como: Mestre, Universitário, Histérico e
Analítico, organizados num quadrado onde temos os lugares de: agente, outro,
produção e a verdade aos quais ele denomina de S1, significante mestre; o outro
(lugar do Saber S2); a produção (objeto a) e a verdade $ dada pelo sintoma.
46
agente ........................ outro
-------
------
verdade
produção
de forma que nessa ordem as permutações articulam estruturas discursivas
diferenciadas que se organizam da seguinte forma :
S1.................... S2
$
a
Mestre
$ ..................... S1
a
S2
Histérico
a ....................... $
S2
S1
Analítico
S2 .......................a
S1
$
Universitário
Podemos ler cada discurso da seguinte maneira:
•
Discurso do Mestre : É o laço social estabelecido a partir de uma
enunciação na qual o sujeito enunciante ocupa uma posição de mestre
a partir de um imperativo (S1) que poderá ser aquilo que o autoriza por
uma oficialidade jurídica, constitucional, ideológica ou política. Este
imperativo por sua vez poderá ser real ou imaginário. Ele tem como
condição de sua enunciação a anulação do sujeito outro ($).
•
Discurso Histérico :
É o laço social estabelecido a partir de uma
enunciação na qual o sujeito enunciante ocupa uma posição de queixa
a partir de sua particularidade subjetiva que envolve o outro numa
sedução, uma intriga ou algo semelhante. A condição de sua
47
enunciação é a causação inconsciente na busca de um gozo repetitivo
(a).
•
Discurso analítico : É o laço que se estabelece a partir de uma
enunciação na qual o sujeito enunciante ocupa uma posição informada
ou determinada pela posição de seu desejo. Sua condição de
enunciação é o Saber (S2) ocupando o lugar de uma verdade que nele
trabalha, desvelando sua própria posição subjetiva, advindo de sua
própria análise que o re-posiciona existencialmente.
•
Discurso Universitário : É o laço que se estabelece a partir de um
Saber (S2) avalizado pelo saber acadêmico ou assemelhado em cuja
condição de enunciação este saber opera como autorizado, já sabido,
científico ou de confirmação lógica.
Lacan ao estabelecer sua teoria dos discursos procurou dar sustentação a seu
axioma da não existência de metalinguagem para a leitura psicanalítica já que
estruturas discursivas diferenciadas permitem a não postulação de um universo da
linguagem. “É uma maneira de tratar sempre do particular e do singular de cada
sujeito sem, entretanto confiná-lo numa definição qualquer já que as permutações
dos operadores pelos diferentes lugares indicam que basta uma mudança de uma
característica qualquer de um agente para que caiamos numa outra estrutura
discursiva que comanda laços sempre diferenciados”.
2.2
DESENVOLVIMENTO DO ESTUDO DE CASO: ... A UMA HERMENÊUTICA
DO PODER NAS ORGANIZAÇÕES
A história das idéias da filosofia “Tecnologia Empresarial Odebrecht” está de certa
forma presente na história de vida particular do Sr. Norberto Odebrecht. Cremos que
a TEO é o resultado das vivências do seu criador. Ela remonta ao auge da imigração
germânica em 1856, quando da chegada de Emil Odebrecht, o primeiro Odebrecht.
Emil Odebrecht, engenheiro formado pela Universidade de Greifswald, na Prússia.
48
Participou ativamente da demarcação de terras e construções de estradas no sul do
Brasil. Emílio Odebrecht, um de seus netos, no início do século XX funda em Recife
sua primeira empresa. Em 1926, transferiu-se para Salvador. Com o advento da
Segunda Guerra, e a crise no setor, Emilio Odebrecht retira-se dos negócios.
A estrutura empresarial Odebrecht está voltada à manutenção da unidade filosófica
e para o direcionamento estratégico das empresas. Esta unidade filosófica, que
segundo seu neto Emilio Odebrecht (2006), é base da unidade de pensamento e
ação. Ela está baseada nos conceitos essenciais da TEO que estabelecem os
princípios fundamentais, com uma linguagem comum a todos os participantes. Na
clareza na comunicação entre líderes e liderados pretende garantir a eficácia à
interação.
Segundo N. Odebrecht (2004), a Tecnologia Empresarial Odebrecht é um sistema
de crenças e valores que visa à construção do futuro, a partir da mobilização das
forças do presente.
Esta sistematização do pensamento do empresário Norberto Odebrecht, presente na
TEO, pressupõe de antemão o comportamento esperado de todos os que integram a
organização, sendo assim reconhecidos como pertencentes a esta sociedade.
Uma das formas utilizadas para divulgar entre os seus empresários, parceiros e
clientes, o discurso que rege a Organização foi formalizado através de livros que
sistematizaram o pensamento da “Tecnologia Empresarial Odebrecht”.
Seguiram-se várias publicações:
•
Em 1968, “De que Necessitamos?”, que explicita as Concepções
Filosóficas da Organização Odebrecht. Nele expõe idéias e
experiências de modo a criar uma disciplina mental e uma ação
prática voltada para o sucesso.
•
Em 1970, “Pontos de Referência” serviu de guia para os Empresários,
comprometidos em fazer da Odebrecht uma Organização de âmbito
nacional. Esta publicação é a transformação e novos acréscimos do
livro “De que necessitamos”.
49
•
“Influenciar e Ser influenciado” é uma coletânea de palestras, em
cinco volumes, publicadas em períodos diferentes. Nele registra a
experiência de vida e de trabalho que resultam nas teses
incorporadas à Tecnologia Empresarial Odebrecht.
Em 1983, foram sistematizados os princípios, conceitos e critérios adotados desde
as origens da Organização, para a prática do trabalho com bases nos Planos e
Programas de Ação, o que se decidiu chamar de “Tecnologia Empresarial
Odebrecht”. Isto ocorreu através dos seus livros: “Sobreviver, Crescer e
Perpetuar”, que foram ampliada e revista em 1987, 2002, 2006 e 2007. Está na sua
7ª edição e mantêm-se inalterada na essência que constitui os fundamentos da
Tecnologia Empresarial Odebrecht. Ela está apresentada em três volumes nos
idiomas Português, Espanhol e Inglês.
Em 1991, publica “Educação pelo Trabalho”, com a finalidade de obter maior
comprometimento dos Líderes da Organização Odebrecht quanto à transmissão da
“Tecnologia Empresarial Odebrecht”, às sucessivas gerações de Empresários. Por
meio deste livro consolidou-se o discurso já enunciado em “Pontos de Referência”.
Em “Educação pelo Trabalho” (1991, pg. 211) Norberto Odebrecht dá o significado
do termo Tecnologia, que utiliza para denominar a sua estratégia de trabalho.
De acordo com os gregos antigos: techne era o vocábulo que designava a
ação artística, ou seja, a capacidade de alguém poder fazer e saber fazer; e
logos era o vocábulo de que designava a comunicação, no sentido de
ensinar como fazer e de liderar o fazer. Portanto: mais do que uma arte,
empresariar é uma tecnologia [techne + logos]; e empresário é aquele que
domina e exerce, na prática, este tipo muito especial de tecnologia.
Este significado de “Tecnologia Empresarial” tem o seu valor agregado com o nome
próprio que se segue: Odebrecht. “Tecnologia Empresarial Odebrecht”. Desta forma:
A capacidade de alguém poder fazer e saber fazer, de ensinar como fazer e de
liderar o fazer, só faz sentido nesta Organização se estiver dentro dos princípios,
conceitos e critérios adotados pela Odebrecht.
50
No Capítulo 18, (pg. 231-243) “Desenvolvimento do Ser Humano”, em que faz
uma alerta sobre sua história e sobre seus Planos de Vida e de Carreira; há duas
questões em aberto no final do capítulo:
“O QUE SOMOS NÓS? O QUE SOU EU?”
“O que esse alguém é” nos reporta a uma descrição de qualidades que partilha com
outras que lhe são semelhantes. Descrevesse um personagem, perdendo a
singularidade.
Na revista “Isto é – dinheiro” de 22 de novembro de 2006 foi realizado uma
reportagem com o empresário Norberto Odebrecht, por Daniel Leb Sasaki, de
Ituberá (BA) sob o seguinte título. Responsabilidade Social – Odebrecht ensina a
pescar.
Ele relata que aos 86 anos observa os resultados do empreendimento que fundou
em 1944 em Salvador, na Bahia. Hoje ramificada em três braços: engenharia e
construção, química e petroquímica, empregando 40 mil pessoas em cinco
continentes. Está desligado das decisões da corporação desde 1991. Hoje preside o
Conselho de Curadores da Fundação Odebrecht, um segmento não-lucrativo criado
há 42 anos para promover ações sociais dentro e fora do grupo.
Daniel Leb Sasake: “Que recado o Sr. daria à nova geração de
empresários?”
Norberto Odebrecht: “O empresário tem que ter caráter. Porque o
empresário é caráter e cultura em ação. Só isso o faz merecedor da confiança
do cliente. Outra coisa: jamais será empresário de uma organização aquele
que não é capaz de descentralizar, delegar, partilhar.”
51
As raízes do pensamento empresarial e pedagógica de Norberto Odebrecht,
segundo Costa (2005), originam-se em quatro pilares fundamentais:
1º - na influência da vida familiar tipicamente alemã, principalmente do
relacionamento com a mãe, herdando a estrita disciplina, elemento
fundamental do seu pensamento, pois conforme o empresário, ela é
geradora de respeito e de confiança.
2º - na educação religiosa luterana, concepção que recebeu do mundo de
“servir, e não, de ser servido” onde se pregava humildade, disciplina e
trabalho.
3º - na passagem da construtora de seu pai, nos diversos postos do canteiro
de obras. Dessa passagem, relata Antonio Carlos Gomes, nasce à
centralidade do trabalho, produtor de confiança dos homens em si
mesmo, uns nos outros e na organização.
4º - no pensamento militar que o fizeram adquirir uma visão estratégica na
condução de seus negócios e na condução da organização que ele
criou e expandiu.
Costa (2005) chega à conclusão de que “ser empresário é mais que uma ocupação
no mundo do trabalho: é uma atitude básica diante da vida”.
A chegada da família Odebrecht ocorre no meio do século XIX, no ano de 1856, com
a imigração germânica. A vinda dos europeus para o nosso país em busca de
condições de trabalho e conseqüentemente de êxito econômico saindo de um
continente em que as condições de sobrevivência não estimulam a permanência no
seu país parece ter motivado um grupo de aventureiros para explorar a América.
Trazem da Europa suas concepções incorporadas pelas idéias da Reforma
protestante, cujo valor maior deveria ser o de servir, em vez de “ser servido”.
Em Lucas 20:28, o Cristo define a sua missão: O Filho do Homem não veio para ser
servido mas para servir e dar a Sua vida em resgate de muitos.
52
Segundo a IELB (Igreja Evangélica Luterana do Brasil),“Toda a pessoa que confia
na graça de Cristo é libertada do poder das trevas e está livre para servir
voluntariamente a Deus”.
Norberto Odebrecht incorpora este aprendizado e transporta para a sua vida
empresarial. Assim uma das premissas das concepções filosóficas da “Tecnologia
Empresarial Odebrecht, é o exercício do direito e do dever de servir ao cliente, que
segundo os princípios fundamentais que regem a organização, é a essência do
negócio de cada um dos empresários da Organização Odebrecht (Sobreviver,
Crescer e Perpetuar, 2006, p.39).
Ao abordar sobre Espírito Empresarial, Norberto Odebrecht diz: “O espírito de
servir é condição necessária, mas não suficiente” e vai mais além: “O espírito de
servir só se converte em espírito empresarial quando complementado pelo
incessante geração de resultados”.
Para a TEO, o ato mais nobre de um Ser Humano é servir ao seu semelhante. É
dever de o líder identificar, a vontade de servir de cada liderado. O propósito de vida
é servir ao seu cliente. “Para isso ele deverá saber servir, portanto deverá saber
identificar aquilo que o cliente exigente quer e precisa”. “O empresário, diante de seu
compromisso de servir ao Cliente, tem de ser humilde e simples” (Sobreviver,
Crescer e Perpetuar, 2006, p.40).
Revela, nos seus textos que pelo menos duas idéias, incluídas nas Concepções
Filosóficas se devem a Platão (428-389 a.C.), Uma delas é - de que Estado poderia
ser comparado a um corpo humano.
53
QUADRO 02 – Estado comparado a um corpo
CORPO
ESPÍRITO
cabeça
razão
tronco
vontade
membros
desejo
VIRTUDE
sabedoria
coragem
temperança
Ref.: (quadro extraído - 15.09.04 Arq.(M-04) Origens da TEO)
Faz uma analogia e traça um paralelo entre as três partes que, integradas, formam a
Odebrecht:
QUADRO 03 – Partes Que Integradas Formam A Odebrecht
CORPO
EMPRESA
RESPONSÁVEL
“cabeça”
Área Negocial
Líder de Líderes
(Confederação)
(Presidente)
“tronco”
Grande Empresa
Líder
(Federação)
Empresarial
“membros”
Pequena Empresa
EmpresárioParceiro
Ref.: (quadro extraído - 15.09.04 Arq.(M-04) Origens da TEO)
Embora a TEO não reconheça que há uma “dependência” ou “subordinação”, um
poder exercido por uma autoridade, reconhece que há entre si, relações de
interdependência. Assim, para a TEO, o relacionamento entre líder e liderado é uma
escolha livre onde ambos precisam um do outro que só serão satisfeitas se os dois
alcançam sucesso em satisfazer as necessidades do Cliente, do qual ambos
dependem.
2.3
DISCUSSÃO EM SI
Podemos analisar o poder na época moderna e pós-moderna como um exercício de
um saber histórico acumulado, associado ao saber eclesiástico, acadêmico, que se
expressa em formas discursivas que buscam nas diversas instituições fundar sua
credibilidade. Sua eficácia está, sobretudo na forma de enlaçar o outro para realizar
objetivos comuns, atingindo uma eficácia final. Mas esta eficácia parte de premissas
possíveis, desde as funções de persuasão, os fundamentos objetivos de questões e
metas para culminar no controle de sua realização. O trabalho de Foucault consistiu,
54
de deslindar os fundamentos subjetivos do saber, gerador do poder como das
diversas formas de sua expressão.
Seu cerne aparente está baseado numa estrutura hierárquica exercida por uma
autoridade que se arma de um discurso, criando uma burocracia de fato, legal em
que muitas vezes a positividade do Estado o legitima. Daí poderá ser gerado uma
forma de exercício, que produzem atitudes coercivas, normativas ou remunerativas.
Podemos também através de Foucault analisar num aspecto filosófico, retórico que
se apóia na expressividade da língua que por sua vez não deixa de ser segregativa,
gerando formas sutis que sob a aparência da cientificidade nos apresenta uma
forma discreta do exercício do poder via saber adquirido. São várias formas de
exercício que então gera procedimentos, conceitos, valores que atuam de maneira
subjetiva tal qual Foucault nos mostra na arqueologia do saber sobre a loucura e a
prática asilar da idade média até nossos dias. Para isto, é necessário, focar o estudo
em questão sob outro prisma.
Retratarmos uma mesma paisagem sob outra ótica, é no mínimo desafiante. Ver
outros elementos implicados pode ampliar as nossas concepções e levantar novos
questionamentos. Não se trata de contradizer o que já foi dito sobre "poder", mas
tentar acrescentar novas questões para o mesmo fenômeno.
Foucault, num de seus trabalhos, verifica que a descontinuidade arqueológica
evidencia as mudanças discursivas que possibilitam nova enunciação. Ou seja, se
ele recorta, em sua análise a continuidade dos discursos ele nos mostra que este
corte se refaz em outro nível, sob nova enunciação, que retoma sob a ótica do
exercício efetivo do poder sua continuidade. Isto ocorre quando analisado
historicamente
os
acontecimentos,
mas
não
como
uma
continuidade
de
acontecimentos.
Na Organização Odebrecht isto pode ser constatado quando o Sr. Norberto
Odebrecht introduz na sua prática organizacional, um discurso: a “Tecnologia
Empresarial Odebrecht". Há uma história de descontinuidade, apesar de
aparentemente ser a continuidade da história da família Odebrecht. Com crise no
setor, faz com que o Sr. Emílio Odebrecht encerre suas atividades na construção
55
civil. Com Norberto Odebrecht, filho de Emílio Odebrecht nasce uma filosofia
baseada em conceitos de crenças e valores herdados e adquiridos dos seus
antepassados e educadores, transportados para o trabalho, constituindo o discurso
teórico, numa rede conceitual. Este discurso trouxe uma unidade de pensamento e
ação na organização. Ou seja, de uma descontinuidade aparente uma outra
continuidade é reconstituída bastando para isso acrescentar novos elementos
históricos e mesmo conceituais.
As concepções filosóficas da "Tecnologia Empresarial Odebrecht" estão baseadas
no que se supõe como verdades. Discursos que geram autoridade pela legitimação.
Como conseqüência, este discurso da verdade exerce sobre o homem um poder
legitimado, às vezes inquestionável já que estas supostas verdades se articulam às
crenças religiosas, pedagógicas e sociológicas que constituem o molde do poder
expresso como um saber de fato e que sem dúvida convoca o outro e outros a dela
participar já que o implica em sua intimidade existencial. Elas, por sua vez geram
pelo suposto saber científico, normas, condutas e mesmo procedimento culturais
que lhe são inerentes pela história da família Odebrecht, que passa a ser englobante
pelos valores religiosos luteranos.
Nas concepções filosóficas da TEO estão presentes conceitos que foram adaptados
a sua organização, tomados como verdades, num discurso que levam a uma ação
esperada.
Segundo, o texto sobre Origens da Tecnologia Empresarial Odebrecht documento
de (22 de agosto de 1999, ajustado em 15 de outubro de 2004 – Arq. (M-04)), as
Concepções Filosóficas devem muito as idéias de Martin Lutero.
•
SERVIR - É servindo, antes, que se é servido, depois.
Comentário: Verificamos que segundo as Concepções Filosóficas, o
único poder que existe para a TEO, é o poder de servir.
•
TRABALHO - A riqueza moral tem que anteceder e servir de base à
construção da riqueza material. Transformar o trabalho em culto de
ação de graças ao Senhor.
56
Comentário: Este conceito contribuiu para o desenvolvimento do
capitalismo.
•
COMUNICAÇÃO - Para Lutero o Ser Humano necessita de uma
linguagem única.
Comentário: Assim, também procedeu quando através de suas
palestras, textos e livros, transmitem os conceitos essenciais da TEO,
com os princípios fundamentais, base da linguagem comum e do
Sistema de Comunicação da Organização Odebrecht.
•
REGRAS, CRITÉRIOS - Inspirou-se nas teses elaboradas em
Wittemberg13, o ser humano necessita de regras, critérios ou
conceitos práticos que orientem seu cotidiano.
Comentário: A TEO estabelece regras e critérios, que devem
influenciar o modo de pensar e de agir de todos os integrantes da
Organização Odebrecht.
•
DE PETER DRUCKER - As concepções acerca de trabalho – sobre a
prática e o estudo da administração.
•
IDÉIAS DE PLATÃO - Umas das concepções filosóficas, segundo a
TEO devem-se a Platão, aplicada às organizações em geral – de que
o Estado poderia ser comparado a um corpo humano.
Comentário: Transfere este conceito para a sua empresa da
seguinte forma. Este conceito demonstra que há total dependência.
Tronco e membros estão numa interdependência do Líder dos
Líderes.
(cabeça) do "Líder de Líderes",
a “sabedoria";
(tronco) do "Líder Empresarial", a "coragem" para decidir e agir,
com vistas à "eficácia"; e
13 . Em 1517 foram pregadas as 95 teses de Martin Lutero na porta da Igreja do Castelo de Wittemberg
57
(membros)
do
"Empresário-Parceiro",
a
"temperança",
aí
entendido o empenho em moderar o natural ímpeto de sua juventude,
assegurando a "eficiência" de sua Pequena Empresa.
Diante do exposto, verificamos, no discurso de Foucault, entendimento do Poder
calcados em questões como: a formação dos saberes, dos discursos de verdade,
que atuam de maneira subjetiva e que podem ser aplicados ao analisarmos uma
organização, e neste trabalho a “Organização Odebrecht”.
3.
CONCLUSÃO
Retomemos os objetivos específicos propostos: 1) realizar um estudo geral do
pensamento foucaultiano sobre poder, a fim de caracterizar tal fenômeno em
Foucault; 2) realizar o estudo do discurso filosófico da Tecnologia Empresarial
Odebrecht, com o propósito de refletir como o poder permeia a administração desta
organização; 3) Verificar nos discursos como é constituído historicamente o poder,
identificando e explicitando o modo com este é exercido nas relações, segundo o
pensamento foucaultiano; e 4) Discorrer sobre a teoria dos discursos em Lacan,
buscando cernir o que informa a enunciação de um discurso. Mais diretamente, os
itens 2.1 (Desenvolvimento teórico – de uma analítica do poder em Foucault...); 2.2
(Desenvolvimento do estudo de caso - ... a uma hermenêutica do poder nas
organizações); e 2.3 (Discussão em si) nos parecem contemplar tais objetivos, pelo
menos, em sua exigência mínima de entendimento, para que a discussão fosse
contributiva para o campo, em conformidade com nossa intenção de pesquisa.
Desta forma, poderíamos dizer o texto nos parece circunscrever o objetivo geral, que
foi proceder a análise de um discurso administrativo à luz de elementos do
pensamento de Foucault sobre poder, contribuindo com uma reflexão ampliada para
o campo de estudo da administração.
Destarte isto, a rigor, retornando a hipótese geral do estudo, havemos de perguntar:
existem, pelo menos, traços no discurso administrativo estudado que o identificam
com a significação de poder observada em Foucault?
58
Ressalvamos que há alguns traços do exercício do poder constituído de um saber,
em formas discursivas legitimada pela estrutura hierárquica da organização. Vemos
que o discurso administrativo se circunscreve observada em autores neoclássicos
da administração, assim como Peter Drucker, uma das referências administrativas
na empresa em pauta; o discurso da religiosidade que traz de conceitos advindas do
protestantismo, inspirado nas teses de Wittemberg, salientando a necessidade de
regras, critérios e conceitos práticos que regem o seu cotidiano; As idéias de Platão
(em que o Estado pode ser comparado a um corpo humano) que os adapta a sua
concepção de organização. Estes discursos nada mais são do que premissas que
buscam fundar a sua credibilidade sob a aparência de cientificidade que nos
apresenta de forma discreta um exercício do poder via saber adquirido. Estes geram
autoridade pela legitimação. Poder muitas vezes inquestionável, pois se articulam
em crenças religiosas, pedagógicas e sociológicas que convoca o outro a participar
implicado na sua intimidade existencial.
No entanto, não quer dizer que nas teorias científicas os jogos de verdade sejam
somente relações de poder que se pretende mascarar. Apenas propõe-se estudar o
modo como, nas práticas (clínica, asilar, pastoral, governamental) como os jogos de
verdade e estratégias de poder podem ser articulados. O que aparentemente surge
numa estrutura hierárquica exercido por uma autoridade que se apresenta num
discurso, cria um aparato legal que podem gerar atitudes coercivas, normativas ou
remunerativas.
Por fim, uma conclusão que reputamos como de fundamental importância no campo
da administração: o poder se dá nas relações. Num discurso investido
historicamente de um teor verdadeiro, que cumpre com uma funcionalidade. O saber
que se expressa na forma discursiva e funda sua credibilidade nas instituições que
geram condutas de valores, conceitos e procedimentos. Para que isto se efetive o
poder está associado com o exercício de uma saber, seja ele eclesiástico ou
acadêmico muitas vezes legitimado pela positividade do Estado ou de uma posição
de um cargo que ocupa.
O estudo do pensamento de Michel Foucault aborda a questão do poder numa
perspectiva filosófica em que a centralidade do discurso é constituída historicamente
59
numa prática de relações sociais e organizacionais. Este foi o sustentáculo para que
pudéssemos apreender como o poder na organização em estudo ocorre.
Transportando o estudo que Foucault realiza nas instituições num olhar em que
verifica como o comportamento do homem pode ser determinado por um saber
estabelecido entre os mesmos conforme o lugar que ocupam nas relações.
A eficácia do poder está na realização de um laço de tal forma que leve a atingir
objetivos com resultados positivos.
Cremos que a organização ao criar a “Tecnologia Empresarial Odebrecht”, utilizando
nas suas concepções filosóficas crenças religiosas, pedagógicas e sociológicas cria
um saber que constituem um poder que convoca o outro a participar com uma
eficácia final.
Podemos afirmar que um discurso supostamente da verdade exerce sobre o homem
efeitos de poder, presente nas relações, inclusive nas organizações.
60
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ANEXO A: Uma Relação de Textos de Foucault, em Português, Característico
do Pensamento e/ou Obra
Textos de Foucault em Português
(Fonte:www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/biblio.html)
A Ordem do Discurso
Da amizade como modo de vida
Uma estética da existência
As técnicas de si
Verdade, poder e si
Omnes et Singulatin - para uma crítica da razão política
O filósofo mascarado
Sexo, poder e a política da identidade
Escolha sexual, ato sexual
Além das fronteiras da filosofia
O que é o Iluminismo? (Resumo do curso)
Microfísica do Poder O ocidente e a verdade do sexo
Silêncio, sexo e verdade
Então é importante pensar?
O que é a crítica? [Crítica e Aufklärung]
Introdução à vida não fascista
O homem está morto?
Outros textos de Foucault publicados em português:
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Plon, 1961. (História da Loucura. São Paulo, Perspectiva, 1978)
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Presses Universitaires de France, 1963 (O Nascimento da Clínica. 2. ed. Rio de
Janeiro, Forense-Universitária, 1980)
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