A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR NO PROCESSO DE VALORIZAÇÃO DA IDENTIDADE INDÍGENA GOMES, Gabriela Camacho - UEL GOMES, Natália Camacho - UEL Grupo de Trabalho – Diversidade e Inclusão Agência Financiadora: CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior Resumo Este artigo é resultado do trabalho realizado no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). No projeto “Outros Olhares, Outras Histórias: os Kaingang e os Guarani no contexto da colonização e da atualidade”. Buscou-se conhecer sobre as identidades indígenas e apresentar uma experiência desenvolvida com alunos dos anos iniciais do ensino fundamental na qual se trabalhou com intercâmbio cultural entre alunos índios e não índios, pautando-se na importância da educação escolar como promotora da diversidade, incluindo a identidade indígena. Esta análise pautou-se em autores como Paulo Freire (1996), Bauman (2005), Alfredo Veiga-Neto (2003) Gersem dos Santos Luciano (2006) e Ana Valéria Araújo (2006). O artigo foi dividido em três partes: a primeira apresentará a construção histórica do processo de valorização da identidade indígena. Dessa forma, analisará a educação em que, os indígenas possuem – a educação tradicional e a escolar indígena- e a forma como a escola não-indígena aborda a questão de diversidade cultural. A segunda parte busca apresentar como ocorreu o processo de consolidação da identidade indígena, evidenciando de que forma as políticas públicas têm avançado para que o respeito à diversidade cultural se amplie constantemente. A terceira, procura analisar as contribuições dos estudos e experiências resultantes do PIBID no curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A questão referente à diversidade cultural foi trabalhada com alunos do 5º ano do Ensino Fundamental, em que a valorização da identidade indígena foi abordada de forma contundente. Palavras-chave: PIBID. Identidade indígena. Intercâmbio cultural. Introdução O artigo realizado busca prioritariamente, consolidar as experiências obtidas a partir Programa Institucional com Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), realizado 1 2 Discente do terceiro ano do Curso de Pedagogia da UEL. Contato: [email protected] Discente do terceiro ano do Curso de Pedagogia da UEL. Contato: [email protected] projeto 18700 “Outros Olhares, Outras Histórias: Os Kaingang e os Garani no contexto da colonização e da atualidade”, financiado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Assim, será destacado, em um primeiro momento, como se dá a consolidação da educação escolar indígena, enfatizando como se dá este processo em meio à educação formal promovida pelo Estado. Em seguida, será realizado um histórico, utilizando como base determinadas legislações, a fim de verificar como ocorreu o processo de consolidação da valorização da identidade indígena. Neste sentido, por meio do estudo de algumas bases legais, tais como a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto do Índio, será evidenciado como tal decurso se concretizou historicamente. Posteriormente, serão ressaltadas as experiências vivenciadas por meio do projeto, permitindo evidenciar diretamente a maneira pela qual as tradições e crenças indígenas são percebidos na sociedade atualmente. Neste contexto, a escola atua como reflexo da sociedade em que está inserida. Assim, as crianças assumem a mesma visão, evidenciando-se, inicialmente, percepção negativa acerca da cultura indígena, repassada pela instituição escolar como semelhante àquela ocorrida ainda no período da Colonização. Assim, evidencia-se, por meio desta análise, possíveis modificações no entendimento do que se trata tal cultura, possibilitado pelas vivências ocorridas. Modalidades de Submissão de trabalhos Comunicação A educação escolar indígena na atualidade É perceptível que atualmente, diversos brasileiros possuem compreensão errônea e equivocada de que os indígenas não possuem qualquer forma de educação. Entretanto, é fundamental entender que, a educação tradicional indígena, que refere-se aos processos de socialização e transmissão e produção dos conhecimentos indígenas, é baseada na oralidade, na qual cada indivíduo aprende com os pais e avós, os conhecimentos referentes à sua cultura. Torna-se então, desnecessário a presença de um professor, já que se houvesse, estaria desqualificando a atuação dos sujeitos mais velhos que compõe a comunidade indígena. 18701 A educação indígena trata-se então, do processo na qual se internaliza no indivíduo diversos valores coerentes com a sociedade em questão, além de um modo de ser, o que mantém a reprodução e a sobrevivência da cultura, transmitindo atitudes, crenças e hábitos considerados necessários. Alcançar a liberdade de ser quem é, consiste no objetivo principal da educação tradicional indígena, buscando sempre em cada indivíduo a generosidade. Permite-se que as pessoas e as coletividades possam ser elas mesmas, propiciando manutenção de suas vivências socioculturais e possibilitando a sua transmissão para as novas gerações. Os pais e avós são responsáveis por transmitir aos seus filhos ou netos, desde a mais tenra idade, a sabedoria aprendida de seus ancestrais. Assim, as crianças desde cedo vão aprendendo a assumir desafios e responsabilidades que lhes permitam inserir-se na vida social e o fazem, principalmente, por meio da observação, da experiência empírica e da auto-reflexão proporcionados por mitos, histórias, festas, cerimônias e rituais realizados para tal fim, Os bons exemplos dos pais, dos irmãos mais velhos e dos líderes comunitários são fundamentais para o desenvolvimento do caráter, das atitudes, dos comportamentos, das virtudes e das habilidades de uma pessoa, indispensáveis para a vida individual e boa convivência social. (LUCIANO, 2006, p. 130) Há também, a educação escolar indígena, que consiste aos processos de transmissão e produção dos conhecimentos não-indígenas e indígenas. Percebe-se que se tornou necessário o aprendizado de conteúdos universais a fim de responder às novas demandas geradas pela sociedade global. Para isso, a educação escolar indígena utiliza-se de uma instituição estabelecida pelos colonizadores: a escola. Inicialmente, os próprios povos indígenas desconsideravam a ideia de possuir esse tipo de educação, possuindo desconfiança e repulsa a partir da visão de que esta seria um modo de aculturação. Porém, diante das necessidades atuais, houve a percepção de que a educação escolar poderia ser uma forma de manter e transmitir a cultura, além de conquistar a cidadania e os direitos, fortalecendo a identidade indígena. Por meio da educação escolar então, os indígenas deveriam aprender sobre conteúdos que não fazem parte de sua cultura, mas também possuir subsídios para a transmissão de sua cultura e valores. Tempos atrás, os indígenas possuíam certa repulsa em integrar-se à cultura escolar, já que consideravam que este processo poderia ser uma forma de imposição de outras culturas à sua. Mas, diante da existência de um mundo cada vez mais globalizado, os indígenas passaram a compreender que o processo escolar poderia ser um instrumento de fortalecimento de sua cultura, visando atender suas necessidades atuais. Assim, a educação 18702 passou a ser uma forma de consolidar a identidade sociocultural e de garantir a cidadania dos povos indígenas. É fundamental que exista, na educação escolar indígena, o respeito à diferença e a valorização da pedagogia indígena, resultando assim no reconhecimento da identidade sociocultural do índio. De acordo com Freire (2008), em qualquer modalidade educativa, deve existir na educação o respeito à identidade cultural, mas também o reconhecimento de cada indivíduo em assumir suas culturas, tradições. Mas, essa é uma realidade que é incoerente com uma prática pedagógica autoritária que evidencia somente um tipo de indivíduo e de prática educativa, como se todos os indivíduos aprendessem da mesma forma e no mesmo ritmo. Outro aspecto importante a ser enfatizado é a importância da socialização no processo educativo. Segundo Freire (1996), todos os alunos, independente de sua cultura, precisam reconhecer-se como seres sociais e históricos, pensantes, comunicantes, transformadores, criadores, realizadores de sonhos. A educação escolar indígena tornou-se uma das maiores preocupações relacionadas à luta dos indígenas em garantir seus direitos, porém, sempre possuindo diversas críticas referentes aos processos pedagógicos adotados pela escola formal. Várias questões são destacadas, tais como a ausência de articulação entre a realidade do aluno indígena e da escola, já que geralmente o programa pedagógico é inadequado ao que o educando vivencia cotidianamente. Percebe-se que não há supervisão pedagógica eficaz nas escolas, além da dificuldade de permanência dos professores nas comunidades indígenas, devido à ausência de moradias dignas, transportes, alimentação. Outra questão importante refere-se aos materiais didáticos, que além de serem insuficientes e inadequados, não seguem uma programação sistemática. Porém, o que se percebe atualmente é que em muitas escolas não indígenas, não há práticas pedagógicas que valorizem a sociedade indígena e que priorize o aluno a compreender quem é o indígena na atualidade, suas tradições, costumes e valores. A realidade dos alunos indígenas, muitas vezes, não é considerada nas escolas não indígenas e, nas escolas indígenas, é reproduzido o modelo escolar do homem branco. Tem-se então um paradoxo. Percebe-se, diante dessa situação, que a escola é influenciada por uma ideologia monoculturalista, que seja única para todos, sendo estabelecida pela modernidade como a “mais homogênea e a menos ambivalente possível. Ou seja, em outras palavras: uma sociedade a mais previsível e segura possível” (VEIGA-NETO, 2003, p. 10). 18703 Apesar do monomodelo quanto à escola, de acordo com Luciano (2006), as culturas e os interesses indígenas vêm sendo cada vez mais respeitados pela prática educacional no país. Porém, é necessário que existam ainda avanços nos mecanismos administrativos, políticos, socioculturais e financeiros, para que haja a efetiva garantia dos direitos dos povos indígenas de desenvolverem processos político-pedagógicos autônomos, para que haja a consolidação da identidade indígena. Todavia, é perceptível a tamanha distinção entre o processo de educação tradicional indígena e a educação escolar ofertada pelo Estado brasileiro. As pedagogias indígenas são constantemente ignoradas e quando isto acontece a “escola está contribuindo para o enfraquecimento ou o desaparecimento das culturas e dos próprios povos indígenas” (LUCIANO, 2006, pg. 134). Mas, percebe-se que nos artigos 78 e 79 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9394/96, de 20/12/96), é função de o Estado fornecer educação escolar bilíngüe aos indígenas, ou seja, em português e nas línguas indígenas. Dessa forma, há a valorização da identidade indígena, bem como a recuperação de suas memórias históricas. Entretanto, a realidade atualmente é outra, já que outro problema relacionado à educação escolar indígena e constantemente questionado é a barreira bilíngüe existente, já que há a dificuldade dos professores no desenvolvimento de seus trabalhos pedagógicos, o que consequentemente prejudica o processo de alfabetização. Dessa forma, Luciano (2006) indica a necessidade da existência dos professores indígenas, que possuem um papel de fundamental importância, já que assim, os seriam realizados com eficácia os ideais norteadores da pedagogia indígena. Porém, essa é uma realidade que pode ser alcançada somente com a articulação entre “professores, lideranças, alunos, comunidade, poder público e assessorias” (LUCIANO, 2006, p. 135). Neste sentido, é possível compreender que a educação escolar possui considerável responsabilidade no processo de valorização da identidade indígena, já que propicia a transmissão de valores e da cultura indígena, de modo que as novas gerações possam elaborar novas compreensões sobre a constituição da sociedade atual. Dessa forma, é possível que as próximas gerações possam elaborar compreensões distintas a respeito da consolidação da sociedade atual. 18704 O processo de consolidação da valorização da identidade indígena Nas últimas décadas as políticas públicas têm avançado, ainda que a passos lentos, quanto ao direito das minorias e o respeito a diversidade cultural, religiosa e sexual. No presente artigo retoma-se o processo de valorização da identidade indígena, buscando compreender como ocorreu esse processo historicamente. Escolheu-se como fonte investigar a Constituição de 1988, o Estatuto do Índio e a Lei 11.645, de março de 2008, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, e regulamenta que: Art. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. § 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. § 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileira. (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm . Acesso em 14/04/2013) Para iniciar a análise proposta, faz-se necessário compreender o conceito de identidade. Segundo Claude Dubar (1997) a identidade nunca é dada, é sempre construída como resultado do processo de socialização. De acordo com esta denominação, a identidade consolida-se no decorrer do tempo, a partir de culturas, crenças e hábitos de determinados grupos sociais. Antonio da Costa Ciampa entende que, o que se define como identidade é o resultado de muitas e contraditórias combinações. Para o autor, “uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no entanto una. Por mais contraditório, por mais mutável que seja, sei que sou eu que sou assim, ou seja, sou uma unidade de contrários, sou uno na multiplicidade e na mudança” (1984, p. 61). Ciampa (1984) destaca que a construção da identidade é um “fenômeno social e não natural” (p. 65), com caráter temporal (p. 66) e só possível de ser compreendido articulado ao movimento da sociedade (p. 72). O autor registra que, nos estudos sobre a temática, valorizase o conceito de identidade vinculado a permanência, a estabilidade (p. 74). No entanto, para 18705 ele, o que determina a identidade é o movimento que se imprime ao transitar pelos ritos sociais. Dessa forma não se trata de algo concluído, mas sim como um processo em formação. Zygmunt Bauman (2005) adverte que, historicamente, o conceito de identidade relaciona-se diretamente com a necessidade de construção das identidades nacionais (p. 26). Em suas análises destaca também que no mundo moderno, o “anseio por identidade” (p. 35) relaciona-se diretamente ao desejo de segurança. No entanto, em uma sociedade na qual tudo se desfaz rapidamente, falar em identidade torna-se quase contraditório. É neste contexto fluído, conforme define Bauman (2005), que constrói as noções de identidade: quem sou eu e quem é o outro. Neste trabalho buscou-se compreender que saberes os alunos não índios formulavam sobre as sociedades indígenas e, a partir deste conhecimento, construir uma didática eficaz para a valorização da cultura indígena. Discutir sobre a identidade indígena é uma temática complexa. A situação de dominação cultural a qual esses povos estiveram submetidos ao longo de séculos resultou em uma visão negativa do índio em relação a sua própria cultura. Na década de 1970, muitos indígenas passaram a negar sua origem, devido ao constante descaso da sociedade para com a sua cultura e a ausência de respeito dos indivíduos não-índios com as diferenças étnicas. Alfredo, Veiga-Neto , citado por Gersem dos Santos Luciano (2006), corrobora na compreensão do porque os indivíduos passam a negar sua própria cultura. Para este autor, por muito tempo, a cultura ocidental foi considerada como universal e as demais culturas deveriam assemelhar-se à esta, considerada como superior. Logo, chamar alguém de indígena nesse período era considerado uma ofensa, já que possuíam um sentimento de inferioridade imposto pelos colonizadores durante o processo de colonização. É necessário enfatizar que a negação da identidade étnica pelos indígenas era ilusória, já que “ninguém consegue esconder aparência, físico, usos, costumes e modos de vida e de pensamento” (LUCIANO, 2006, p. 31). Segundo Luciano (2006), pode-se citar como exemplo de autonegação às origens étnicas o fato de indivíduos na Amazônia que se autodenominavam “caboclos”. Esses sujeitos não queriam ser identificados como índios, mas também não poderiam ser considerados brancos ou negros, devido à aparência. Então, consideravam-se como indivíduos que possuíam uma identidade de transição de índio - sendo compreendido por eles como uma cultura inferior - para branco – possuindo a percepção de civilização e superioridade. Então, 18706 de acordo com Luciano (2006), o caboclo seria o indígena que nega a sua identidade étnica e nativa e que busca assemelhar-se o mais próximo possível do branco. Atualmente, embora ainda existam reflexos desta percepção, percebe-se que houve uma considerável mudança, já que a valorização da identidade indígena se deu, sobretudo, por meio da consolidação de determinantes legais que defende os direitos dos povos indígenas. Dentre os aspectos legais que contribuíram para a determinação da identidade indígena destaca-se a Constituição Federal de 1988. De acordo com Araújo 2006, p. 38 a Constituição de 1988 Trouxe uma série de inovações no tratamento da questão indígena, incorporando a mais moderna concepção de igualdade e indicando parâmetros para a relação do Estado e da sociedade brasileira com os índios. Assim, na a Constituição Federal de 1988 há um capítulo dirigido exclusivamente às questões indígenas, assegurando o direito à diferença. No capítulo VIII, artigo 231, consta: são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. (http://www.funai.gov.br/quem/legislacao/indios_na_constitui.htm. Acesso em 16/04/2013) Por meio desta legislação, estabeleceu-se uma nova percepção a respeito destes povos no território brasileiro, reconhecendo que são organizados culturalmente de maneira distinta. . Assim, a Constituição Federal de 1988 pode ser considerada como precursora da valorização indígena, tendo em vista que esta foi a primeira a reconhecer seus direitos e determinar as diretrizes para implementação das leis instituídas desde então. Além disso, a partir deste determinante legal, garantiu-se o direito territorial indígena. O constante nos parágrafos 1º e 2º do artigo 231,estabelece que: § 1.º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. § 2.º As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. (Acesso em 16/04/2013). Para Luciano, a definição de tais critérios na lei soberana do país marca definitivamente o direito do índio à terra pois, anteriormente, não havia clareza e definição 18707 legal quanto ao assunto (Luciano, 2006 p. 106). Ainda que clareza na Lei não signifique cumprimento da mesma, não há como negar o significativo avanço obtido quanto às questões indígenas com a promulgação da Constituição de 1988. Anterior à Constituição de 1988 tem-se o Estatuto do Índio, Lei Nº 6.001, de 19 De Dezembro de 1973. Tal documento retrata a ideia, predominante na década de 1970, de integração cultural do índio à cultura do homem branco, conforme já destacado anteriormente neste texto. Em seu artigo primeiro apresenta: esta Lei regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas, com o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmonicamente, à comunhão nacional. (http://www.funai.gov.br/quem/legislacao/estatuto_indio.html. Acesso em 16/03/2013) A Constituição Federal de 1988, calcada de uma sociedade multicultural, estabelece em forma de Lei o preconizado nas lutas de vários segmentos sociais em prol de compreender o índio a partir de sua identidade cultural, valorizando a diversidade e não a partir da integração à cultura do homem branco. Em decorrência, no ano de 1992 é criada uma comissão na Câmara Federal para elaboração de um novo documento visto as defasagens encontradas no anterior. Porém, pouco se avançou sobre a questão. Em 1994, essa comissão propõe o Estatuto das Sociedades Indígenas que ainda não foi aprovado no Congresso Nacional. Tem sido grande o esforço de alguns segmentos da sociedade civil e organizações indígenas quanto a conseguir avanços nas políticas públicas referentes às sociedades indígenas, porém há enorme resistência por parte de outros. No entanto, embora existam dificuldades em reconhecer o direito indígena, é importante considerar as legislações impostas como um avanço no que diz respeito à valorização de sua identidade. Apesar das iniciativas governamentais que levam às determinações legais percebe-se que, no Brasil, muitos brasileiros não-índios ainda possuem do indígena uma visão negativa, como um indivíduo incapaz, sem cultura, incivilizado, preguiçoso, selvagem. Para outros ainda, segundo Luciano (2006, p. 30), o índio é um ser romântico, que protege as florestas. Essas denominações referentes ao indígena, tão presentes na contemporaneidade, são marcas profundas do processo de Colonização. A cultura indígena desde o processo de Colonização, em 1500, não foi respeitada em suas particularidades e especificidades e predominou durante séculos a busca de sua 18708 integração e assimilação à cultura global, do branco, considerada superior. Essa forma de pensar encontra respaldo nas palavras de Veiga-Neto: Aceitou-se, de um modo geral e sem maiores questionamentos, que cultura designava o conjunto de tudo aquilo que a humanidade havia produzido de melhor – fosse em termos materiais, artísticos, filosóficos, literários etc. Nesse sentido, a Cultura foi durante muito tempo pensada como única e universal. Única porque se referia aquilo que de melhor havia sido produzido; universal porque se referia à humanidade, um conceito totalizante, sem exterioridade. (VEIGA-NETO, 2003, p. 7) É possível compreender que, a visão que limita e inferioriza a cultura indígena resultou em uma série de ambigüidades que persistem até os dias atuais. De acordo com Luciano (2006), atualmente, os indígenas lidam com o desafio de lutar pela valorização e auto-afirmação de sua identidade, paralelamente à luta pela por seus direitos de cidadão. Muito se caminhou desde a década de 1980, quando da emergência do movimento indígena em recuperar a valorização de sua identidade sociocultural. Em decorrência houve evidente reconhecimento dos índios como falantes de suas línguas originárias e praticantes de suas tradições e culturas. Dessa forma, o indivíduo que negava suas origens e buscava ser cada vez mais semelhante do homem branco, ou seja, aqueles que se autodenominaram caboclos, para não serem chamados de índios, passaram a ser cada vez mais desvalorizados, e consequentemente, houve a discriminação desses sujeitos por parte dos próprios povos indígenas. O reconhecimento e a valorização da identidade indígena, anteriormente negada por muitos indivíduos, resulta na conscientização e disseminação da luta por seus direitos. Dessa forma, identifica-se atualmente que o indígena passou a ter “orgulho de ser nativo, de ser originário, de ser portador de civilização própria e de pertencer a uma ancestralidade particular” (LUCIANO, 2006, p. 33). Percebe-se então que vivenciamos um processo de valorização da cultura indígena por seus próprios entes e que reverbera na forma como são entendidos pelos não índios. O indígena passou a valorizar e reafirmar sua identidade étnica e cultural, reivindicando seus direitos como cidadãos da sociedade e o reconhecimento de suas terras, o que proporcionou conquistas políticas, culturais, econômicas e sociais. Percebe-se então que, 18709 Os povos indígenas do Brasil vivem atualmente um momento especial de sua história no período pós-colonização. Após 500 anos de massacre, escravidão, dominação e repressão cultural, hoje respiram um ar menos repressivo, o suficiente para que, de norte a sua do país, eles possam reiniciar e retomar seus projetos sociais étnicos e identitários. Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e revividas. Terras tradicionais estão sendo reivindicadas, reapropriadas ou reocupadas pelos verdadeiros donos originários. Línguas vêm sendo reaprendidas e praticadas na aldeia, na escola, nas cidades. Rituais e cerimônias tradicionais há muito tempo não praticados estão voltando a fazer parte da vida cotidiana dos povos indígenas nas aldeias ou nas grandes cidades brasileiras. (LUCIANO, 2006, p. 39) A partir da reafirmação dos valores culturais e étnicos do povo indígena, as tradições, línguas e costumes passaram a ser valorizados e preservados. No caso da cidade de Londrina, estado do Paraná, o índio está presente na cidade, principalmente, nos arredores do Centro Cultural Kaingang, lugar no qual ficam quando vem das reservas. No entanto, o que se identifica nas escolas é um estudo do índio preso no passado, no período colonial da história do Brasil e bem distante, temporal e espacialmente, de nossa região. São muitas as questões que envolvem dar voz ao índio atual, dentre uma delas, a disputa pela terra é, sem dúvida a mais incômoda a ser enfrentada, pois não há como conciliar o discurso construído pela historiografia oficial de que essas terras eram “despovoadas” se o passado se faz presente concretamente nas ruas da cidade. Vivências e contribuições: o intercâmbio cultural como possibilidade no PIBID O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID – financiada pela CAPES, propõe a inserção de futuros docentes à sala de aula, a fim de enriquecer seu processo de formação. Para conseguir tal objetivo, concede bolsas de iniciação à docência para alunos de licenciatura, supervisores (professores da Educação Básica) e coordenadores (professores das IES) com a finalidade de aperfeiçoar a formação docente e a melhoria da qualidade da educação pública brasileira, tendo em vista que possibilita o vínculo entre acadêmicos em formação, professores com atuação em sala de aula e professores formadores de professores. Na Universidade Estadual de Londrina – UEL – o programa é realizado em várias licenciaturas, dentre elas, no curso de Pedagogia. Nesta, trabalha-se com a metodologia de projetos inserindo temáticas nas salas de aula das escolas do município de Londrina. Um dos projetos desenvolvidos no ano de 2012 foi “Outros olhares, outras histórias: os Kaingang e os Guarani no contexto da colonização e na atualidade”. 18710 O projeto em questão tem por finalidade incentivar diferentes modalidades de intercâmbio cultural entre os alunos não-índios (inseridos nas escolas municipais nas quais a temática foi desenvolvida) e alunos, professores e representantes da escola indígena. . Optou-se por aprofundar aspectos referentes à cultura indígena na atualidade e, particularmente, dar voz aos indígenas na tentativa de romper com um ensino que se volta para o índio do passado. Por vezes, ainda não se enfatiza a questão do multiculturalismo, como herança, “[...] a cultura foi durante muito tempo pensada como única e universal” (VEIGA-NETO 2003, p. 7) No desenvolvimento do trabalho em sala de aula, mesmo com as tentativas de trabalhar com a temática indígena valorizando a diversidade cultural, percebeu-se que ainda se encontra muito presente uma visão negativa do indígena. No levantamento dos conhecimentos prévios que os alunos não índios possuíam acerca dos povos indígenas despontou a ideia de a margem da sociedade do homem branco. . Alguns alunos responderam que acreditavam que alguns representantes indígenas ainda viviam em florestas. Sob outras percepções, acreditavam que, quando não viviam neste ambiente, estavam em espaços urbanos, mas como sujeitos à parte, como cita um aluno ao dizer que “é normal ver um índio drogado e bêbado”.. A frase do alunos vai na direção do preconizado por Luciano que escreve: Historicamente, os índios têm sido objeto de múltiplas imagens e conceituações por parte dos não-índios e, em conseqüência, dos próprios índios, marcadas profundamente por preconceitos e ignorância. (2006, p. 34) Como reflexo das percepções da sociedade, a escola na maioria das vezes colabora na transmissão e consolidação de uma representação negativa do índio. Na maioria das vezes, os estudos propostos vinculam a cultura indígena somente aos aspectos passados, deixando de considerar como o índio vive atualmente, mantém e transmite suas tradições, valores e cultura. Revela-se de fundamental importância que seja abordado nos conteúdos escolares não somente o índio no processo de colonização, já que se refere à parte fundamental da compreensão da história brasileira, mas o modo pelo qual o indígena vive atualmente, uma vez que são indivíduos contemporâneos. A aprendizagem destes conhecimentos permitiria a ruptura de mitos e paradigmas existentes em relação ao indígena, já que, assim como citado, 18711 existe ainda, por muitos indivíduos, a percepção de que este indivíduo ainda vive em florestas, sem roupas e alheio à sociedade. O projeto citado pretendeu romper com esta percepção descrita anteriormente. É importante destacar que, um dos fatores a serem transmitidos consiste no fato de que, embora os aspectos do homem não índio tenham sido incorporados ao cotidiano dos povos indígenas, estes ainda preservam sua cultura. A realização de um intercâmbio cultural, em que alunos do ensino fundamental de escolas municipais do município de Londrina visitaram uma escola no município de São Jerônimo da Serra contribui para que as crianças, índias e não índias se encontrassem na situação de alunos. A figura do índio de personificou com rosto e voz e situada no presente. Outro aspecto que proporcionou uma mudança nos saberes dos alunos sobre os índios foi a visita de representantes de comunidades indígenas às escolas, possibilitando que os próprios alunos retirassem dúvidas. Estas e outras atividades realizadas, que evidenciavam e valorizaram o na atualidade contribuiu para construir outras imagens e concepções sobre as sociedades indígenas. Considerações finais O artigo em questão teve como objetivo evidenciar a influência da educação escolar no processo de valorização da identidade indígena. Durante um período considerável, a identidade indígena foi negada, não somente por integrantes não-índios da sociedade, mas também pelo próprio indígena. A isso, deve-se o fato de que por muito tempo, houve ênfase a uma cultura global, desconsiderando a existência da ampla diversidade de culturas que permeia na sociedade atual. Entretanto, a partir de determinações legais, tais como a Constituição de 1988, o Estatuto das Sociedades Indígenas (ainda não aprovado) e a Lei 11.645 tem-se consolidado a da valorização da identidade indígena, sobretudo, enfatizando o direito às diferenças entre as culturas. Percebe-se que, inicialmente, os indígenas possuíam certa repulsa em possuir a educação escolar indígena, já que tinham a percepção desta, como um modo de aculturação. Entretanto, posteriormente, passaram a percebê-la como um modo de fortalecimento e reconhecimento de sua cultura, possibilitando a consolidação do processo de valorização da identidade sociocultural indígena. Apesar das conquistas referentes à esse processo, os 18712 indígenas possuem o desafio de lutar pela valorização e auto-afirmação de sua identidade, ao mesmo tempo em que a preocupação com a conquista de seus direitos como cidadãos. Por meio das experiências vivenciadas por meio do PIBID, foi possível romper com a visão que se possuía do indígena, na qual era percebido muitas vezes tal como era no período de colonização. Inicialmente, era perceptível que a visão negativa do indígena prevalecia, sendo percebido como um indivíduo que não estuda, trabalha e consequentemente, não faz parte da sociedade. Porém, a necessidade de abordar nos conteúdos escolares não somente o indígena tal como permanecia antigamente, mas também como vive hoje torna-se fundamental, já que são indivíduos que pertencem à sociedade vigente e que devem ter respeitada sua cultura e identidade. Dessa forma, por meio do processo de ensino e aprendizagem destes conhecimentos, foi possível que houvesse a ruptura de mitos e paradigmas existentes em relação ao indígena, como a de sua existência somente em florestas, sem vestimentas e excluído da sociedade. REFERÊNCIAS ARAÚJO, Ana Valéria (Org.). 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