UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
LICENCIATURA PLENA EM LETRAS
HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA
ALINE CUNHA DE ANDRADE SILVA
RELAÇÕES DE GÊNERO E PODER EM A HISTÓRIA DE BERNARDA
SOLEDADE – A TIGRE DO SERTÃO
JOÃO PESSOA
DEZEMBRO DE 2011
Catalogação da Publicação na Fonte.
Universidade Federal da Paraíba.
Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).
Silva, Aline Cunha de Andrade.
Relações de gênero e poder em a história de Bernarda Soledade – Atigre
do sertão. / Aline Cunha de Andrade Silva. - João Pessoa, 2011.
53f .
Monografia (Graduação em Letras) – Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes.
Orientadora: Prof.ª. Drª.Ana Cláudia Felix Gualberto
1. Gênero . 2. Poder . 3.Movimento armorial I. Título.
BSE-CCHLA
CDU 323.4
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
LICENCIATURA PLENA EM LETRAS
HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA
ALINE CUNHA DE ANDRADE SILVA
RELAÇÕES DE GÊNERO E PODER EM A HISTÓRIA DE BERNARDA
SOLEDADE – A TIGRE DO SERTÃO
Trabalho apresentado ao Curso de
Licenciatura
em
Letras
da
Universidade Federal da Paraíba como
requisito para obtenção do grau de
Licenciado em Letras, habilitação em
Língua Portuguesa.
Prof.ª Dr.ª Ana
Cláudia
Gualberto, orientadora.
JOÃO PESSOA
DEZEMBRO DE 2011
Félix
ALINE CUNHA DE ANDRADE SILVA
RELAÇÕES DE GÊNERO E PODER EM A HISTÓRIA DE BERNARDA
SOLEDADE – A TIGRE DO SERTÃO
Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade
Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em
Letras, habilitação em Língua Portuguesa.
Data da aprovação __/__/____
Banca examinadora
____________________________________________
Prof.ª Dr.ª Ana Cláudia Félix Gualberto, DLCV, UFPB
Orientadora
_____________________________________________
Prof.ª Dr.ª Luciana Eleonora de Freitas Calado Deplagne, DLCV, UFPB
Examinadora
___________________________________________
Prof.ª Dr.ª Ana Cristina Marinho Lúcio, DLCV, UFPB
Examinadora
A Maria Helena Cunha, minha mãe, e a Glória Rabay, pelas diferentes lutas e eterna
busca pelo respeito à diversidade.
AGRADECIMENTOS
Aos meus orixás e guias protetores.
A meus familiares, presentes e ausentes nessa caminhada.
Ao movimento estudantil, pelas vivências que proporcionaram um olhar sob
outro ângulo, estimulando o pensar e o agir. Em especial ao Coletivo Canto Geral
de estudantes de psicologia, que embalou e incitou minha busca por quebrar a
‘parede’ que nos separava, dialogando também com os conhecimentos da
psicologia, de forma crítica.
A
Gustavo
pelo
incentivo,
companheirismo
e
compartilhamento
de
conhecimentos. Obrigada pelo carinho sempre presente.
As três-marias do meu céu: Catarina, Carina e Stefanie.
A Ana Cláudia pelas inquietações provocadas, pelo incentivo a voos mais altos
em territórios até então desconhecidos. Muito obrigada pela compreensão e pela
relação de amizade construída.
A Ariela, de quem tenho muito orgulho, pela amizade e pela companhia firmada
em todos os momentos.
A Thalita, pela presença em vários momentos da minha vida desde a infância e
pela ajuda com a língua inglesa.
A família Oliveira, que me acolheu e encorajou.
Aos meus tios e tias adotados, que trabalham na limpeza da UFPB, pelo carinho
de cada “Bom dia”.
RESUMO
A obra A história de Bernarda Soledade – A tigre do sertão, do escritor Armorial
Raimundo Carreiro, retrata o conflito e a loucura vividos por três mulheres da
família Soledade, abandonadas por seus amantes, entregues ao sonho do
reencontro e da maternidade que trará à fazenda de Puchinãnã o homem que
governará suas terras. Bernarda, a filha mais velha, domadora de cavalos
selvagens, assumiu durante muito tempo o papel do homem que esperava ter.
Neste trabalho pretende-se discutir o papel das personagens femininas na busca
pela maternidade e na submissão à dominação masculina. Atentaremos para
forma como a personagem Bernada, se constitui socialmente no seu conflito
entre o desejo de ter um filho que assuma o comando de Puchinãnã e a
execução, por ela mesma, das atividades atribuídas a esse homem que não
existe.
Bernarda
e
a
irmã
Inês
estabelecem
duas
transgressões,
respectivamente: da divisão sexual do trabalho e das relações sexuais.
Palavras-chaves: Gênero; Poder; Maternidade; Movimento Armorial.
SUMÁRIO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS .......................................................................................1
1 O MOVIMENTO ARMORIAL E OS SÍMBOLOS ...................................................3
2 RELAÇÕES DE PODER E GÊNERO....................................................................18
2.1 Divisão sexual do trabalho: personagens femininas e maternidade.....18
2.2 Corpo feminino como território ........................................................................30
2.3 Transgressões das personagens femininas ................................................36
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................41
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...........................................................................1
1
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Desde a década de 60 os estudos sobre a mulher, nos diversos campos
da ciência, tem se intensificado. De acordo com Lúcia Osana Zolin (2009), na
crítica literária a vertente feminista surge em 1970 com a publicação nos Estados
Unidos da tese de Kate Millet, intitulada Sexual politics, e se propõe a questionar
a prática acadêmica patriarcal. A constatação da diferença entre a experiência
de leitora e escritora da mulher e do homem implicou numa mudança no campo
intelectual ocasionando uma quebra de paradigmas.
Zolin (2009) afirma que nas últimas décadas o contexto no qual o objeto
de estudo da crítica literária está inserido ganhou maior destaque nas análises
literárias. Esse enfoque pós-estruturalista, no que tange à posição da mulher na
sociedade e sua presença no universo literário, deve muito ao feminismo por ter
proporcionado ferramentas para desnudar as circunstâncias sócio-históricas,
fator determinante na produção literária. O feminismo colaborou ainda para
percepção do estereótipo negativo da mulher, que por ser largamente difundido
no cânone da literatura e no cinema acabou colaborando para a construção de
um grande obstáculo na luta pelos direitos da mulher. As obras literárias
canônicas demonstram que sexo e poder estão correlacionados, e que as
relações de poder internas aos casais são extensão das relações mantidas na
esfera pública.
Dessa forma, analisar um texto a luz da crítica literária feminista implica
na busca por uma desconstrução das ideologias discriminatórias de gênero
profundamente arraigadas na cultura, utilizando para tanto os conceitos
formulados pelo feminismo. O objeto de estudo é analisado com o intuito de
identificar as marcas das diferenças de gêneros, visando despertar o senso
crítico do leitor, modificando mentalidades para colaborar para transformação da
condição de subjugada que a mulher geralmente ocupa na sociedade.
Diante dessa orientação teórica, a novela A história de Bernarda Soledade
– a Tigre do sertão, nosso objeto de estudo, de autoria do pernambucano
Raimundo Carrero, será analisada com base nas personagens femininas, a fim
de discutir as relações de gênero e poder constituídas. Atentaremos para as
2
transgressões femininas efetivadas no plano das relações sexuais e da divisão
do trabalho.
A obra sobre a qual nos debruçaremos apresenta um marco no
movimento nordestino e brasileiro em prol da cultura popular, resgatando suas
raízes. O Movimento Armorial fundado em Recife uniu várias manifestações
artísticas como música, dança, teatro, literatura e escultura com o propósito de
criar uma arte erudita com raízes genuinamente populares, resgatando
influências dos índios, negros, não omitindo a importância da cultura ibérica para
construção da identidade nacional, buscada a partir da cultura popular. Mesmo
com uma proposta tão contemplativa, de resgate e valorização das raízes
culturais brasileiras o Movimento Armorial é pouco estudado. Com exceção do
fundador, Ariano Suassuna, são poucos os estudos acerca das obras produzidas
por esse grupo. Mesmo com todo o apoio obtido na época com a aliança feita
por Suassuna com projetos de incentivo do governo estadual pernambucano, o
alcance das produções armoriais foi e ainda é muito reduzido. A própria
dificuldade em encontrar bibliografia referente a esse movimento demonstra a
carência de estudos nessa área.
Na discussão acerca das relações de gênero e poder, este trabalho vem
colaborar para os estudos sobre a mulher e o seu papel historicamente
construído na sociedade. Embora na atualidade os estudos que abrangem esta
temática estejam atingindo cada vez mais o interesse das academias, a luta
feminista em prol da ampliação dos direitos das mulheres ainda é muito recente
tendo muitas questões a serem reivindicadas. Em consonância com o que afirma
Zolin (2009), acreditamos que a presença cada vez mais forte da mulher
enquanto objeto de estudo não deve ser analisada como um despertar de
curiosidade associado a esse momento de afirmação. A difusão da crítica
feminista como uma ferramenta para análise engajada de textos, buscando as
marcas das relações de gênero, ultrapassa o pontual e o dito radicalismo
eufórico e vem juntar-se a um processo de construção histórico-literário.
Para abranger a discussão proposta, o presente trabalho divide-se em
dois capítulos. No primeiro capítulo analisamos a presença de símbolos
associados ao Movimento Armorial, do qual o escritor Raimundo Carrero
participou, a fim de identificar como eles contribuem de forma metafórica na
significação da obra. No segundo capítulo investigaremos as relações de gênero
3
e poder expressas entre os personagens da novela, atentando para a
protagonista, Bernarda Soledade, no seu processo de assumir as atividades
atribuídas ao pai, numa sociedade patriarcal.
1 O MOVIMENTO ARMORIAL E OS SÍMBOLOS
Seis anos após o golpe de 1964 que instituiu no Brasil um regime militar
e autoritário, o primeiro ano do Milagre Econômico brasileiro, sob os comandos
do presidente Médice, persistia a forte censura aos meios de expressão popular
que contrariavam a ideologia dominante. O desejo de reconstruir uma imagem
do Brasil utilizando o otimismo para mascarar os efeitos negativos do regime
político vigente resultou num forte investimento publicitário em campanhas
compostas por marchinhas como “90 milhões em ação...”,
conhecida
popularmente por “Pra frente Brasil”, buscando espelhar a integração e o
otimismo do país.
Maria Thereza Didier (2000) afirma que, se por um lado, a revelia desse
otimismo imposto, músicas, peças de teatro, jornais, filmes, entre outras
manifestações da população, foram censuradas por não compartilhar o espírito
de integração e otimismo do governo, sendo acusadas de subverterem a ordem
e a segurança nacional, houve por outro lado o incentivo da linha de ação da
política oficial de cultura às manifestações artísticas que disseminassem o que,
para o Estado, correspondia à legítima cultura nacional. A censura, portanto, se
configuraria, na visão dos governamentais, como uma questão de interpretação.
A essa ideia de cultura, exaltada pelo Estado, correspondia uma representação
do todo-nacional, que recorria às cores da bandeira, ao futebol, ao samba e ao
folclore, como marcas de uma identidade nacional.
Diante dessa visão otimista e de crescimento econômico brasileiro, Didier
(2000, p. 34) expõe como o Nordeste destoava do futuro promissor desenhado
para o Brasil, em virtude de seus problemas estruturais remetidos à seca e à
miséria, como forma de tirar discretamente de foco as questões políticas e
econômicas que contribuíram para construção desse cenário. A imagem do
Nordeste foi associada aos dois fatores destacados anteriormente. Estes
acabaram se tornando as características centrais das representações dessa
4
região, sendo recorrentes em livros, músicas, filmes e utilizadas principalmente
pelo programa assistencialista do governo.
Esta região exercia, no entanto, forte atração ao ser considerada pelo
governo e pelos intelectuais como sendo rica culturalmente devido à
preservação de tradições. A visão evolucionista que marca os discursos
nacionalistas identifica o Nordeste como uma fonte protetora da origem cultural
do Brasil. Este com o tempo evoluiu, incorporando a industrialização como
passaporte para globalização, cabendo àquele a imagem do passado e da
infância do país, mas que também cumpre a função de celeiro da cultura
nacional. É construída uma imagem ambivalente do Nordeste que ao mesmo
tempo remete a um passado de atraso e de miséria em relação ao resto do país
e corresponde também a um passado rico em cultura popular e que se configura
como fonte dessa originalidade cultural. Nessa concepção marcada por uma
visão política de cunho nacionalista, a cultura popular é uma expressão da
tradição como resistência ao capitalismo e à modernidade.
Didier (2000), em seu estudo sobre cultura e civilização, busca
desconstruir essa visão de essência e linearidade por vezes atribuídas à cultura
popular. A autora aponta também que já na segunda metade do século XVIII os
intelectuais europeus investigavam a importância da cultura popular para
construção de uma identidade nacional. Na Alemanha, em pleno processo de
fragmentação política, dois grupos se opunham no debate acerca da cultura
alemã. De um lado os românticos buscavam os subsídios na cultura popular,
recorrendo ao passado para resgatar os poemas, músicas e expressões
populares presentes na oralidade. No lado oposto, os Iluministas apostavam no
conhecimento sistemático das civilizações ocidentais como forma de se afastar
do passado bárbaro e primitivo. No campo da oralidade, a própria língua Alemã
era desprezada em detrimento da francesa, que correspondia aos ares
modernos desejados. Didier (2000, p. 21) acrescenta que a intelligentzia alemã
relacionava os iluministas a uma influência francesa, e os românticos a uma
oposição ao racionalismo que buscava resgatar as tradições populares e a língua
alemã por meio da valorização da oralidade por acreditarem pertencer ao povo
à fonte da cultura nacional.
Em Recife, capital pernambucana, um grupo de intelectuais, denominado
Armorial, estabelece um vínculo com a concepção romântica de identidade
5
nacional, reconhecendo na cultura popular as suas raízes. A meta do grupo era
dar forma à cultura brasileira por meio de uma arte erudita fundamentada nas
raízes populares. As xilogravuras, músicas de pífano e rabeca e a literatura de
cordel eram a fonte de inspiração da arte popular disseminada pelo Movimento
Armorial. A estética Armorial remetia ao universo artístico popular nordestino e
às influências ibéricas medievais fixadas desde o processo de colonização, na
memória nacional, sendo constitutiva da identidade brasileira. A fusão de
culturas indígena, negra e européia constitui o grupo de influências aceitadas
pelos armoriais e incorporadas ao que eles denominavam de uma arte
genuinamente popular. Nesse sentido de fusão cultural, Ariano define o brasileiro
como um “ser castanho” em virtude de ter nas suas raízes a marca das
influências indígena, negra e européia.
Adriana Victor (2007), em seu estudo sobre vida e obra de Ariano
Suassuna, o escritor e poeta fundador e o maior defensor do Movimento
Armorial, ao falar sobre a literatura de cordel, bastante evidenciada pelo
movimento, aponta a possível origem dessa denominação. De acordo com Victor
(2007, p.57), os estudiosos da história da literatura popular acreditam na
associação entre os cordões e barbantes utilizados para exposição dos folhetos
de poemas e o nome dado posteriormente a esse tipo de manifestação literária.
Os cordéis eram vendidos comumente nas barracas das feiras ou mercados e,
muitas vezes, atraía o grande público que se amontoava para ouvir as histórias
cantadas pelos vendedores, que em geral eram os próprios autores. A cantoria
demonstra a aproximação entre as histórias dos folhetos e a oralidade.
Para Suassuna, o cordel equivale na literatura ao que o Arraial de
Canudos,
idealizado
por
Antônio
Conselheiro,
simboliza
na
política,
especialmente no que diz respeito à luta de classes. Essa aproximação ocorre
em virtude da negação de um sistema de organização social e econômica no
qual as classes dominantes imperam. Segundo Ariano “Um folheto como O
homem da vaca e o poder da fortuna, de Francisco Sales Arêda, expressa uma
forma de arte que é feita à margem de influências ou de deformações impostas
de fora (do Brasil) ou de cima (de outras classes sociais)” (SUASSUNA apud
VICTOR, 2007, p. 52). Nesse sentido, o Nordeste era considerado pelo escritor
como um ponto de resistência às influências cosmopolitas e a literatura de cordel
simbolizava o resgate das origens culturais do Brasil, preservadas por meio das
6
histórias marcadas pela oralidade e em sua maioria de domínio público. Além
desse aspecto de guardiã de uma tradição oral e de oposição a um sistema de
classes de dominação, o cordel reunia as histórias representativas do povo
brasileiro, com foco nos nordestinos, incluindo a comunhão entre literatura e
xilogravura. A xilogravura impressa na capa dos folhetos é resultado de uma
técnica que utiliza a madeira talhada como forma de reproduzir uma imagem em
papel ou outras superfícies. Garante ao folheto de cordel um agregado de
valores e comunhão de diferentes manifestações artísticas do povo.
Ariano Suassuna, escritor e poeta paraibano radicado em Pernambuco,
na noite de lançamento do Movimento, em 18 de outubro de 1970, ao falar sobre
o trajeto trilhado ideologicamente para construção de uma relação intrínseca
entre a representação da cultura popular e a formação da cultura no Brasil,
declara que o Movimento Armorial é resultado de um conjunto de pesquisas
iniciadas duas décadas e meio antes do seu lançamento. Estes estudos
contaram com as colaborações de Gilberto Freyre e Mário de Andrade.
Entretanto, cabe a ressalva feita pelo próprio Ariano no que tange à
independência entre a proposta Armorial e os estudos sociológicos e
cosmopolitas dos intelectuais que contribuíram com sua fortuna crítica sobre a
cultura popular. O Armorial, neste sentido, traz uma perspectiva de cultura
popular construída a partir também de colaborações de estudos nas diferentes
áreas, mas a sua estética não se propõe a ser fiel a nenhuma dessas
contribuições, garantindo a liberdade de criação do Movimento.
Houve entre os grupos de acadêmicos de Pernambuco, grande
divergência quanto ao modo de dar forma à cultura brasileira. Entretanto, no que
diz respeito à concepção de cultura popular pode-se apontar um consenso.
Ariano a define como sendo aquela produzida pelos integrantes do quarto
Estado. Esta expressão remete às três classes sociais existentes na Revolução
Francesa, sejam elas: nobreza, clero e o chamado povo. A este terceiro grupo
pertenciam os burgueses em ascensão, a classe dominante e o proletariado. A
subclasse do proletariado, Suassuna a chama de quarto Estado. Dessa forma a
literatura produzida por ele não poderia ser considerada popular, uma vez que
ele não pertence a essa quarta classe. As obras produzidas por Ariano são
fundamentadas em romanceiros de cordéis populares. Nesse sentido ele não
7
produz uma literatura popular, mas utiliza-a como base para construção de seus
livros.
Nas obras de Suassuna, a recorrência direta a histórias de folhetos é
constante. No próprio Auto da Compadecida (1955), uma de suas obras de
dramaturgia mais lidas e montadas, estão presente três clássicos de folhetos de
cordel. O primeiro ato da peça é baseado no folheto escrito por Leandro Gomes,
O dinheiro, que foi registrado posteriormente pelo pesquisador cearense
Leonardo Mota, com o nome O enterro do cachorro. De acordo com Adriana
Victor (2007, p. 71), Suassuna depois de escrever a peça tomou conhecimento
de que a história de O enterro do cachorro datava o século V e era encontrada
no norte da África. A mesma história foi também tomada como base por um
renomado escritor francês, Allain-René Lesage, do século XVIII, na novela Gil
Blas de Santillana.
Já no segundo ato da referida peça de Ariano, o gato que “descome”
dinheiro, despertando interesse de todos, foi baseado no enredo do folheto
História do cavalo que defecava dinheiro, registrado pelo pesquisador Leonardo
Mota, mas a autoria é desconhecida. Sendo dois deles produzidos pelos
paraibanos Leandro Gomes de Barros e Silvino Piauá. A presença de
intertextualidade com histórias da tradição popular nordestina, especialmente
com a literatura de cordel, é presente também na obra de Raimundo Carrero.
No terceiro ato do Auto da Compadecida, quase todos os personagens
são mortos e se reencontram no momento do julgamento divino. Nessa ocasião
alguns são agraciados com a piedade de Nossa Senhora, a Compadecida. Este
episódio tem suas origens também num romanceiro popular, este de autoria
anônima, que, segundo Victor (2007), Suassuna afirma ter conhecido ainda
quando criança, na cidade de Taperoá, interior paraibano.
Deste modo, a marca da cultura popular pode ser identificada não apenas
em referências diretas a folhetos de cordel específicos, como também a
personagens cujas características são recorrentes nas histórias de tradição
popular, com origem principalmente na oralidade. Retomando a peça teatral de
Suassuna, Auto da Compadecida, o protagonista João Grilo assume a astúcia
do pobre, característica que encontra suas raízes na atribuição popular da
“coragem do pobre”, como afirma o escritor paraibano. A natureza e o nome do
personagem João Grilo foram encontrados também no cordel As proezas de
8
João Grilo do poeta João Martins de Ataíde. Sobre o personagem João Grilo,
Suassuna afirma: “Queria prestar uma homenagem exatamente à vertente
picaresca de nossa herança ibérica por achar que era um nome nordestino e
brasileiro.” (SUASSUNA apud VICTOR, 2007, p. 71). As características deste
personagem aparecem também em personagens tradicionais de romanceiros
portugueses.
A possibilidade de estabelecer relações entre as histórias recorrentes nas
obras de vários integrantes do grupo Armorial ocorre em virtude do caráter
universal e atemporal das histórias populares utilizadas como fundamento para
a construção de muitas obras armoriais. Suassuna afirma que muitas histórias
populares conhecidas no Brasil têm suas origens no Norte da África tendo
migrado até a Península Ibérica e a Espanha e chegado ao Brasil por meio da
oralidade, durante o processo de colonização. Dessa forma os autores que
dialogam com a cultura popular estabelecem uma forte ligação com a tradição
cultural destes países.
A obra do pernambucano Raimundo Carrero, A história de Bernarda
Soledade – a Tigre do Sertão, uma das primeiras novelas escritas por ele,
também apresenta forte ligação com a cultura popular. A novela de Carrero foi a
segunda aliada ao Movimento Armorial, sendo publicada quatro anos depois do
Romance d’a Pedra do Reino (1971), de autoria de Ariano Suassuna.
Esta novela faz parte da trilogia O delicado abismo da Loucura,
juntamente com outras duas narrativas: As sementes do sol e A dupla-face do
baralho, organizada posteriormente pelo crítico e romancista José Castello. Este,
faz uma breve análise destas obras e relaciona algumas características da
escrita do autor com o movimento Armorial. Castello busca nas origens do
vocábulo Armorial as marcas deste grupo. “Armorial: relativo à armaria dos
brasões, diz o dicionário. Brasões: literatura feita de marcas, de distintivos, de
imagens concretas, que servem de insígnias, de emblemas para os mais
fundamentais eventos humanos.” (CASTELLO in CARRERO, 2009, p. 17).
Ariano Suassuna escreveu no prefácio da primeira publicação da referida
novela de Carrero, em 1975, que a obra evidenciava dois aspectos: o primeiro
era a vitalidade do Movimento Armorial, afirmando que a novela de Carrero
possuía todas as características delegadas à Literatura Armorial, e a segunda é
que em um Movimento verdadeiro os escritores preservam sua personalidade
9
independente, com as marcas pessoais da sua escrita. Nesse sentido Suassuna
alega que a escrita emblemática, característica dos escritores Armoriais como
Débora Brennand, Janice Japiassu e do próprio Ariano Suassuna, destaca-se na
obra de Carrero pelo forte traço de sua personalidade.
A admissão de Raimundo Carrero como um escritor Armorial dá-se devido
a dois fatores: Sua escrita emblemática e suas ligações com o espírito áspero e
mágico do Romanceiro Popular do Nordeste. Sobre a escrita emblemática
buscada pelos armoriais, Suassuna revela ter pensado na estética Armorial e
utilizado essa nomenclatura para designar, mesmo antes do lançamento oficial
do movimento, a escrita de autores universais como Homero e Dante que,
segundo ele “... pensavam e falavam através de imagens concretas, de
contornos nítidos e firmes, pois suas palavras eram verdadeiras insígnias das
coisas, insígnias que me pareciam como que desenhadas, gravadas e
iluminadas.” (SUASSUNA in CARRERO, 2009, p.27). A Literatura Armorial
busca, assim, imprimir essa característica emblemática nas suas obras, como é
possível perceber no excerto seguinte:
A Literatura Armorial é dessa mesma família e, por isso, é
povoada de signos e insígnias, de formas concretas que a
fazem aparentar-se não só com tais monstros sagrados da
Poesia, mas também com a gravura, a tapeçaria, a
escultura e os estandartes armoriais, que pulsam, todos,
em consonância com o espírito épico e emblemático do
Povo Brasileiro e de sua Arte. (SUASSUNA in CARRERO,
2009, p.28)
Sobre o segundo aspecto apontado para a admissão de Carrero enquanto
escritor Armorial, o próprio título da novela, objeto de estudo deste trabalho, A
história de Bernarda Soledade – a Tigre do Sertão, dialoga com os Romanceiros
Populares do Nordeste, tanto em virtude da extensão, quanto da presença de
epítetos nominais referentes aos personagens, como no caso de Bernarda - a
Tigre do Sertão. Conforme Suassuna expressa no prefácio da referida novela,
no sertão “(...) a palavra tigre é feminina e designa a onça negra, como pode
referir-se a uma mulher valente e cruel” (SUASSUNA in CARRERO, 2009, p. 26).
10
A saga da família Soledade agrega várias representações sociais consolidadas
no imaginário popular e é contada através de uma estrutura narrativa que não
permite especificar com precisão categorias como tempo e espaço, construindo
a trama num entrecruzado de presente e passado que mescla ainda recordações
individuais e devaneios, ora pessoais ora coletivos. A narrativa se afasta dos
modelos mais lineares propondo ao leitor um desafio.
A novela é composta por capítulos divididos em letras e números. Estes
correspondem ao tempo presente, cuja duração é de uma noite de intensa
tempestade e incorpora aos acontecimentos algumas recordações pessoais e
delírios; os capítulos sinalizados por letras apresentam analepses inseridos
como cortes narrativos. É interessante observar que apenas os capítulos que
narram os acontecimentos presentes, mesmo cortados por algumas lembranças
das personagens, são ordenados de forma linear. Os capítulos correspondentes
aos acontecimentos passados não apresentam linearidade entre si.
De acordo com a classificação de narrador apresentada por Arnaldo
Franco Junior (2009, p. 41), sistematizada baseando-se em Genette, o narrador
heterodiegético não participa nem nunca participou da história narrada,
manifestando-se como um ‘eu’ explícito ou como um narrador apagado. O
narrador pode ser classificado ainda pelo nível de participação do seu discurso
na diegese. Nesta classificação o narrador extradiegético ocupa a posição de
primeiro lugar e narra também uma história primária. Na narrativa A história de
Bernarda Soledade – A tigre do sertão, o narrador é heterodiegético num plano
extradiegético, com base na classificação proposta por Genette.
O enredo retrata o convívio social e familiar dos Soledade. Na fazenda de
Puchinãnã, onde residem as irmãs Bernarda Soledade e Inês Soledade, na
companhia dos pais Gabriela e o Coronel Pedro Militão, a grande expectativa da
família era a chegada de um filho homem que pudesse assumir a administração
da fazenda, atividade que o pai, Militão, não desempenhava da forma desejada
pela filha, Bernarda. A chegada do Tio Anrique, irmão do Coronel, traz tanto
esperança como pesar. Movido pelo desejo de vingança por ter suas terras
tomadas pela sobrinha Bernarda, cujo projeto de expansão do idealizado Reino
de Puchinãnã exigiu a tomada das terras de todos os moradores ao redor da
fazenda. Fato que proporcionou grande revolta e exílio da população na vila
Santo Antônio do Salgueiro.
11
A novela de Carrero é permeada por símbolos que dialogam com a cultura
popular, em especial com as influências ibéricas presentes nas raízes culturais
brasileiras. A forte presença de animais como o galo, que perpassa toda a
narrativa; a relação entre cavalos e éguas, utilizada como metáfora para relação
entre homens e mulheres, além do próprio epíteto da protagonista Bernarda, a
Tigre, como antecipação da sua personalidade, todos demarcam um diálogo
entre a representação desses animais na cultura popular e as relações humanas.
A partir da utilização dessa simbologia animal na obra, discutiremos a
associação entre a representação dos animais no imaginário da cultura popular
e as relações de gênero e poder que se constroem na novela.
O galo, cuja referência aparece ao longo de toda a novela, nas diversas
culturas do mundo. Manfred Lurker (2003, p. 283) em seu dicionário de
simbologia propõe alguns significados universais para a imagem do galo.
Segundo o autor, já na Antiguidade o galo (gr. alektro de alexo = defender,
repelir) era considerado um animal corajoso sendo atribuído ao seu cantar o
poder de afastar os demônios. O animal também é símbolo de fertilidade, esta
associação ocorre graças a sua intensa atividade procriadora. Jean Chevalier
(2009, p. 457) diz que esse animal é o emblema da altivez, por causa da sua
postura, e também universalmente conhecido como símbolo solar, por seu canto
anunciar o nascimento do sol. Em países como a África ele está associado ao
segredo. Já em Portugal, o monumento erguido com o nome de Galo de
Barcelas, tornou-se símbolo do país.
A presença do galo na obra vem sinalizar essa ligação da cultura brasileira
com as raízes ibéricas, um traço ressaltado na arte Armorial, marcando também
a relação de gênero e poder, na qual o galo vem simbolizar a virilidade e
dominância territorial do homem, remetendo ao fato de que em cada terreiro há
apenas um galo e várias galinhas com as quais ele mantém relações e procria.
O tio Anrique, irmão do pai de Bernarda e Inês, ao chegar à fazenda de
Puchinãnã gera principalmente em Bernarda, filha mais velha do Coronel Pedro
Militão, a expectativa de uma gravidez que proporcione um filho homem capaz
de administrar a fazenda. A relação com o tio é pensada pelo viés da
possibilidade de um filho que herde suas características físicas e psicológicas.
Após a morte do tio, Bernarda dá a luz a uma menina, que vem a óbito meses
12
depois. Inês, mesmo com o falecimento da sobrinha, permanece bordando um
galo vermelho que Bernarda julga ainda ser um presente para a menina:
- Solta o bordado, Inês! Pra que o bordado? A menina já morreu!
Silêncio. A resposta não escapole dos lábios de Inês Soledade
– mulher que é mais uma menina, uma criança. Bernarda
compreende que ela não dirá nada e volta, melancolicamente
para o croché. (CARRERO, 2009, p. 63).
O trecho acima citado evidencia não só o comportamento que Inês
assume, até então, na sua relação com a irmã, como também deixa transparecer
a possibilidade de Bernarda estar equivocada quanto ao destinatário do
presente. Essa possibilidade é confirmada em outro momento da narrativa, que
não é linear: “Num canto quase escuro, ela continua bordando o galo que seria
um presente a Anrique. Era preciso presenteá-lo.” (CARRERO, 2009, p.51). A
afirmação da necessidade de presentear o tio pode ser compreendida como
advinda do reconhecimento do esforço dele em colaborar para que houvesse na
família um herdeiro das Terras de Puchinãnã, além dos cuidados conferidos às
mulheres da família Soledade após a morte do patriarcal, Coronel Militão. Nesse
aspecto, Anrique figura não só como aquele que poderia contribuir com o seu
gene de homem forte para a fecundação de uma das filhas de Gabriela, como
também o protetor da família. Ambas as qualidades o aproximam da
representação do galo.
Inês nos momentos em que sentia o ventre ardendo de desejo invocava
o retorno de Anrique para que, nesse ápice de fertilidade, pudesse ter relação
sexual com o homem que possui as características desejadas para o herdeiro
de Puchinãnã. Anrique nesse contexto de representações sociais pode ser
interpretado como o galo daquele território. O único homem habilitado a ter
relação sexual com as mulheres solteiras da família, a fim de perpetuar a família.
Fato que dialoga com uma das significações listadas por Lurker (2003), conforme
citamos anteriormente, que sinaliza o galo como símbolo da virilidade, devido a
sua intensa atividade procriadora.
Nas noites de tempestade, as três mulheres solitárias, após a morte do
Coronel Militão e de Anrique, permanecem em estado de tensão, devaneio e
13
alerta, cuidando especialmente de Gabriela Soledade, cuja idade e os
constantes delírios a colocam numa situação de interdição. A voz de Inês, em
meio aos trovões que assombram a noite em Puchinãnã, soa como uma
condenação: “- Os galos da madrugada já não cantam mais.” (CARRERO, 2009,
p.78). O cantar do galo corresponde universalmente, de acordo com Chevalier
(2009, p. 457), à proteção das influências maléficas da noite, anunciando o raiar
do dia. A fala de Inês vem ressaltar os sentimentos de abandono e medo aos
quais ela e a irmã estão expostas após a morte dos homens da família,
especialmente Anrique, tendo visto que Pedro Militão não tinha uma postura que
garantisse à família confiança nas suas ações enquanto patriarca. A ausência
do canto dos galos na madrugada pode ser interpretada como essa ausência
dos homens na casa, de forma a expor a família aos perigos da noite maléfica.
Vale ressaltar que a narrativa intercala capítulos com analepses e capítulos nos
quais são narrados o desespero dessas mulheres no intervalo de tempo
correspondente a uma noite de intenso devaneio, tensão e desespero,
provocados pela ausência do homem nas figuras do pai, do marido e do filho que
não nasceu.
A simbologia do tigre na obra vem sinalizar a presença de termos
empregados de acordo com o seu significado popular. Ariano Suassuna no
prefácio da obra, conforme citamos anteriormente, diz que a palavra tigre, na
cultura popular, designa tanto uma onça negra quanto uma mulher valente e
cruel. O uso desse epíteto para a personagem Bernarda dialoga com a prática
dos romanceiros populares de utilizar nomes que, na cultura popular, adquirem
outras significações, como forma de antecipar um traço da personalidade, em
geral, do protagonista.
A partir dessa informação acerca do significado usual do epíteto presente
no título da obra, familiarizamo-nos com o universo de Bernarda. Filha mais velha
da família Soledade, ela põe em prática o plano, essencialmente individual, mas
que visa impor respeito e garantir influência financeira e social à família
Soledade, por meio da dominação e expansão do território. Filha do Coronel
Pedro Militão, vulgo caçador de passarinhos, e de Gabriela Soledade, Bernarda
traça sua trajetória de temida caçadora e domadora de cavalos, opressora e
ambiciosa latifundiária.
14
Expulsando os demais fazendeiros de suas propriedades, assumindo o
controle de Puchinãnã e desafiando os homens nas atividades de grande esforço
físico, como caçar e domar cavalos selvagens, Bernarda adquiriu a fama de ser
uma mulher cruel e valente, traço que a fez conhecida por todos do povoado
Santo Antônio Salgueiro, fundado pelos moradores expulsos de sua terra, como
a Tigre. Os próprios empregados afirmam sobre Bernarda “- É uma Tigre, essa
danada! Seus olhos sempre me disseram que pretendia sangue, muito sangue.”
(CARRERO, 2009, p. 48).
Bernarda se torna temida por causa da transgressão dos costumes da
região, onde não era hábito, em uma família patriarcal, uma mulher administrar
os negócios de uma fazenda, ainda mais com um plano de expansão tão ousado
e executado com tanta determinação pela própria filha do Coronel Pedro Militão.
Além de transgredir os costumes, a protagonista desafia os homens nas
atividades que são de seu domínio da divisão sexual do trabalho, conforme
discutiremos no próximo capítulo. Todos esses fatores convergem para a
construção social da imagem de uma mulher assustadora.
Outro fator que deve ser ressaltado é o próprio vocábulo utilizado para
caracterizar a personagem. A palavra tigre é um substantivo masculino cujo
correspondente feminino é tigresa. De acordo com Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira (1999), tigre no sentido figurado corresponde a um homem sanguinário,
bárbaro e cruel. Já a definição de Chevalier (2009, p. 883) atribui ao tigre a
evocação, de forma geral, as ideias de poder e ferocidade, apresentando sinais
negativos. Por ser símbolo de caça, o animal também remete a casta guerreira.
Ao utilizar o substantivo masculino precedido de um artigo feminino como forma
de sinalizar que se trata de uma referência à mulher, Bernarda transparece essas
características que fazem parte de um universo de aspectos originalmente
masculinos, no qual a mulher que é considerada cruel e valente, adentra,
transgredindo
seu
espaço
historicamente
determinado
na
sociedade,
especificamente a sociedade patriarcal retratada na obra.
Os símbolos do galo e do tigre que permeiam a obra podem ser
interpretados como um prenúncio para discussão de relações de gênero e poder
que, conforme afirmamos anteriormente, serão abordados no capítulo seguinte.
Focaremo-nos nas personagens femininas para analisar as relações de gênero
e poder, presentes na obra, atentando para a loucura coletiva vivenciada por
15
elas. Em seguida apresentamos um esboço de organização linear dos
acontecimentos da obra a fim de facilitar a compreensão e análise do texto.
Anrique, após envolver-se com Bernarda, revela o propósito do seu
retorno à casa do irmão: matá-lo, deflorar Bernarda, como forma de desonrá-la
e vingar os seus atos cruéis, e no comando dos revoltados do povoado de Santo
Antonio Salgueiro, ocupar as terras de Puchinãnã. Na noite em que manteve
relação sexual com Bernarda, Anrique deveria, em seguida, encontrar-se com
os seus parceiros no povoado para seguir em caravana até as terras da família
Soledade. No entanto, ele se arrepende do plano confessando suas intenções e
junto com a sobrinha organiza uma comissão que irá de encontro ao povoado a
fim de matar todos aqueles que planejaram a vingança.
O luto no povoado é embalado pelo duplo desejo de vingança: a morte do
traidor e, finalmente, a revolta contra o autoritarismo de Bernarda. O filho de um
dos organizadores da revolta, assassinado pelo tio de Bernarda, Pedro Lucas,
escapou da chacina promovida e planejou novamente o ataque aos Soledade
para retomar as terras e assassinar Anrique e a sobrinha. Pedro quando morava
na fazenda próxima a Puchinãnã, que depois foi tomada e agregada ao reino,
tinha um romance com Inês. Com o exílio no povoado eles se afastaram, mas a
reaproximação foi essencial para execução do plano de Pedro Lucas. Ao revelar
a Inês que foi o seu tio Anrique o responsável pelo assassinato do pai da moça,
ele a convenceu a participar do plano de vingança. Inês resolveu colaborar
motivada pelo desejo de vingar de forma indireta a morte do pai, e não em virtude
da solidariedade aos moradores expulsos de suas terras.
Na noite do grande ato, Inês convida o tio Anrique para acompanhá-la no
banho noturno que ela costumava tomar, completamente nua, no riacho. Ao
chegar ao local do encontro, Anrique e o seu cavalo Imperador são assassinados
por Pedro Lucas que em seguida deflora Inês concluindo sua vingança. A intensa
troca de balas com Bernarda afasta os moradores do povoado, da fazenda. Ao
regressar, Pedro Lucas exibe o sangue de Inês como troféu por ter deflorado a
última virgem da família Soledade.
A filha de Bernarda nasce somente após a morte de Anrique e, pouco
tempo depois, vem a óbito devido a uma anomalia caracterizada pelo inchaço
cerebral e aparência amarelada. A menina que nunca chorou e foi rejeitada pela
mãe, assim que viu ser uma mulher e não um homem, como ela desejava, foi
16
enterrada com os pertences que haviam sido confeccionados por Bernarda, na
esperança de que nascesse um filho homem: um gorro azul, uma calça de couro
e um laço forte de corda amarrado na cintura.
Há uma quebra no tempo da narrativa restando uma provável lacuna entre
o acontecimento desses episódios e a noite de nostalgia e loucura vivenciada
pelas três mulheres na casa grande do antigo reino de Puchinãnã.
Sem a presença dos homens no papel de pai, maridos e filhos que não
nasceram, as três mulheres permanecem entregues a loucura, tensão e medo
que tomam conta da casa. As irmãs se revezam no cuidado com a mãe que após
a morte do marido vestiu-se de noiva e em meio a seus delírios julga estar à
espera do homem que irá desposá-la numa cerimônia que resgata as raízes
ibéricas presentes na cultura popular. Além dos cuidados à mãe há a imagem de
São Sebastião que em alguns momentos começa a sangrar e necessita ter suas
chagas estancadas. As feridas ensanguentadas do Santo podem ser
compreendidas como fruto do devaneio das mulheres na noite de intensa chuva
e trovões. Todas estão assombradas porque acreditam que o cavalo Imperador,
que foi assassinado junto com Anrique, galopa sobre o telhado aterrorizando-as
e ameaçando quebrar as portas e adentrar a casa. Tal delírio pode ser atribuído
ao barulho da água da tempestade nas telhas da casa. E o suposto sangue nas
feridas de São Sebastião pode ser também resultado da água da chuva que
ultrapassou a velha casa já completamente desestruturada.
Bernarda no seu transtorno individual sai da residência em direção ao
cemitério, no meio da tempestade, com a intenção de desabafar no túmulo da
filha. Nesse ínterim Gabriela foge de casa sem que Inês perceba. A anciã
apresenta mais sinais de alucinações que as filhas, o que pode ser acarretado
também pela idade avançada. Durante a busca, Inês começa a sentir as
contrações uterinas e é assistida por Bernarda. Ao verificar que o fruto do ventre
de Inês é um filho homem, tão desejado anteriormente, Bernarda o leva até o
riacho e mata-o afogado. Proferindo a sentença antes dita por Inês em ocasião
do nascimento da filha de Bernarda, que afirma que em Puchinãnã não haverá
homens. Esse veredito remete a frustração pela demora da chegada de um
herdeiro homem, já que o reino havia se desfeito não sendo mais relevante a
presença de um filho.
17
Inês e Bernarda juntas vão à busca da mãe, que é encontrada tempo
depois no curral com o rosto transformado em uma lama ensanguentada,
resultado que é atribuído ao pisoteado de Imperador na sua face. Ao levá-la para
casa, Bernarda
anuncia
que
não
enterrarão
a
mãe.
Numa
postura
completamente destoante da personalidade apresentada por Bernarda, até
então, ela propõe que se deixem tomar pelas plantas rasteiras e trepadeiras,
sem resistir à força da natureza. Do galo vermelho bordado por Inês para
presentear Anrique, foi feito um estandarte afixado no meio do terreiro, com os
ornamentos de prata e ouro, conforme eram os estandartes idealizados por
Gabriela para ocasião do seu casamento.
No enredo, onde todos os fatos estão interligados e são extremamente
metafóricos, a simbologia Armorial que perpassa toda a obra, desde o epíteto “a
tigre”, utilizado no trecho como antecipação da personalidade da protagonista,
até o desfecho da narrativa, culminando na exposição do estandarte bordado
com galos, no terreiro da casa; dialoga com a tradição medieval, presente na
memória e na cultura popular brasileira. Tais símbolos, pela representação que
adquirem no imaginário popular, herdado principalmente pela tradição oral,
permitem uma análise das relações de gênero, por meio da interpretação das
metáforas utilizadas.
18
2 RELAÇÕES DE PODER E GÊNERO
A novela A história de Bernarda Soledade – A tigre do sertão tem como
protagonista Bernarda, envolvida no conflito vivenciado por todas as mulheres
da família Soledade: a ausência de um filho. A família busca adequar-se à
divisão sexual do trabalho, entretanto a ausência de um homem para
desempenhar o papel destinado a ele, desencadeia transgressões por parte da
filha mais velha, Bernarda.
A constante busca pela maternidade, que trará o herdeiro das terras de
Puchinãnã, leva as personagens femininas a percorrerem caminhos marcados
pela dominação masculina, que vê no corpo feminino um território a ser
conquistado. A relação sexual como posse e vingança é uma constante na
novela de Carrero.
Neste capítulo, analisaremos a obra priorizando as personagens
femininas com base nos estudos de gênero. Abordaremos a divisão sexual do
trabalho, que vincula a mulher ao lar e à procriação, atentando para as
transgressões efetivadas pelas personagens femininas na obra.
2.1 Divisão sexual do trabalho: personagens femininas e maternidade
A associação entre a mulher e a maternidade é relativamente recente,
tendo surgido no século XVIII. Até então, a educação e a criação dos filhos
poderiam ser desempenhadas por outros membros da sociedade, não
necessariamente pela mãe. Jean-Jacques Rousseau foi o primeiro
a
problematizar a relação mãe/filho, considerada por ele, essencial para
construção da subjetividade.
No Brasil, as transformações que tiveram início no século XVIII
intensificaram-se no século XIX e começaram, de forma lenta e contraditória, a
delinear novos horizontes para sociedade, com base nos ideais burgueses,
definidores da ordem, do progresso e da modernidade. Segundo Magali
Engel(2001, p. 322), a reestruturação das relações de trabalho em novas bases;
a ampliação e modificação dos espaços urbanos e a Proclamação da República
foram alguns dos fatores que contribuíram para a elaboração de novas
estratégias que disciplinassem e representassem os corpos e mentes
19
segmentados. São exemplos dessas estratégias a criação de uma nova ética do
trabalho e de novos padrões de moralidade para comportamentos afetivos,
sexuais e sociais.
Considerando que as mudanças iniciadas a partir da década de 1850
tornaram-se mais profundas e intensas apenas no século XIX, Silvia Alexim
Nunes (2000, p. 21) destaca que a transformação da mulher em mãe não ocorreu
de forma linear e imediata. Durante essas décadas houve, cada vez mais, o
questionamento do papel da mulher e o empenho do Estado e da ciência para
adequá-la a esse novo papel delineado na sociedade.
De acordo com Nunes (2000, p. 22), durante a segunda metade do século
XVIII, as transformações políticas e sociais, que permearam toda sociedade
ocidental que tornaram necessária a redefinição dos papéis sociais dos homens
e das mulheres tinham cunho essencialmente político, e trouxe à tona a
rediscussão do problema da diferença de gênero. As mudanças oriundas dessas
inquietações, no entanto, alteraram especialmente a visão sobre a mulher,
tornando-a objeto de estudo, com a finalidade de justificar essa nova função a
ela atribuída. A medicina desempenha um papel fundamental nesse momento,
colaborando com a discussão sobre a natureza feminina e sua adequação à
maternidade.
A diferença entre homens e mulheres, que até o fim do século XVII era
considerada no plano meramente biológico, sem compreender uma distinção
mental e moral entre ambos, passou a ser repensada e reelaborada. Segundo
Nunes (2000), isso ocorreu a fim de atenuar as incoerências geradas entre os
ideais de igualdade e liberdade, pregados pelo pensamento liberal, e a
dominação masculina em relação às mulheres. A premissa da igualdade entre
homens e mulheres implicava em todos serem portadores da mesma Razão,
sendo, portanto, iguais perante a lei. Nesse contexto ideológico a dominação
masculina e a consequente exclusão da mulher da esfera pública, além das
crescentes diferenças sociais, tornaram-se contraditórias aos ideais liberais.
Como solução para essa questão, o século XVIII ancorou a diferença
social e cultural entre os sexos nas diferenças biológicas. Pierre Bourdieu (2010)
sintetiza esse processo de justificativas cíclicas entre as distinções biológicas e
sociais:
20
A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo masculino e
o corpo feminino e, especificamente, a diferença anatômica entre os
órgãos sexuais pode assim ser vista como justificativa natural da
diferença social construída entre os gêneros e, principalmente, da
divisão social do trabalho. (BOURDIEU, 2010, p.20)
Dentro dessa justificativa, foi proposto por Rousseau, de acordo com
Nunes (2000), um projeto de complementaridade entre homens e mulheres,
partindo da questão biológica aparando uma divisão social do trabalho
organizada de tal forma que ao homem cabe a esfera pública e à mulher a esfera
privada. A desigualdade entre os gêneros não poderia ser compreendida como
uma instituição humana ou ainda fruto de preconceito, mas uma obra da Razão.
Dessa forma, a desigualdade entre homens e mulheres não estaria calcada em
questões sociais, mas em especificidades anatômicas, que determinavam seus
espaços na vida social.
Sobre a divisão sexual do trabalho, Bourdieu (2010) afirma que:
A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que
tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a
divisão de trabalho, distribuição bastante estrita das atividades
atribuídas a cada um dos sexos, de seu local, de seu momento, seus
instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembléia
ou de mercado, reservado aos homens, e a casa, reservada às
mulheres; ou, no interior desta, entre a parte masculina, com o salão,
e a parte feminina, com o estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura
do tempo, a jornada, o ano agrário, ou o ciclo de vida, com momentos
de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos.
(BOURDIEU, 2010, p.18)
Na narrativa A história de Bernarda Soledade – A Tigre do sertão, o desejo
de adequação das práticas sociais da família à divisão sexual do trabalho é uma
constante na fala da protagonista. Bernarda, que desempenha as atividades
atribuídas aos homens, se queixa da ausência de um herdeiro que possa cumprir
esse papel. O pai não se adéqua às exigências de um patriarca, preferindo a
vida tranquila de caçador de passarinho a domar cavalos e desapropriar terras.
21
Observamos, nesse aspecto, uma contradição entre o que Bernarda
defende como papéis de homens e mulheres na sociedade e as atividades de
fato desempenhadas por ela e pelo pai. A inversão de papéis é encarada como
uma necessidade momentânea e não como uma possibilidade de redistribuição
de tarefas que leva em consideração características específicas de pai e filha.
Bernarda, em uma das noites chuvosas que atordoavam as Soledade no
abandono da casa grande, foi até o cemitério e proferiu um discurso à filha, no
qual ela delimita os papéis sociais do homem e da mulher:
Você parecia estar pedindo desculpas porque não era um homem e
não podia, com os outros machos, caçar cavalos selvagens. Teria que
ficar em casa, esquentando o ventre, as coxas e os seios para o
primeiro que viesse. Para se deitar e o sangue escorrer como uma
assassinada. (CARREIRO, 2009, p.83)
Além da explícita divisão de tarefas defendida pela protagonista, podemos
identificar o papel de submissão delegado à mulher, nas suas atividades de dona
de casa e esposa. Sobre a submissão das mulheres aos homens, Nunes (2000)
expõe a suposta visão de naturalização da passividade e subordinação feminina
e como Rousseau defendia a educação da mulher no século XVIII:
Interessante notar que apesar de Rousseau considerar que a essência
feminina está voltada naturalmente para passividade e a subordinação,
o projeto pedagógico por ele proposto para o sexo feminino visa
principalmente o adestramento das mulheres para poderem suportar
esse lugar de submissão. Para ele, desde o início da vida a educação
das meninas deve voltar-se para os cuidados em relação às
necessidades e desejos dos homens. Nesse sentido toda educação
das mulheres há de ser relativa ao homem, a quem se obriga ser úteis;
educá-los jovens, cuidar deles grandes, aconselhá-los, consolá-los,
tornar-lhes a vida mais agradável e doce. (NUNES, 2000, p.44)
A divergência entre os espaços destinados a mulheres e homens vai além
do campo do trabalho. Elizabeth Grosz (2000) afirma que o feminismo adotou
acriticamente a divisão do homem em corpo e mente, proposta pelos filósofos.
Essa divisão dicotômica que opõe mente e corpo, pensamento e extensão,
22
psicologia e biologia, hierarquiza e classifica, valorizando um em detrimento ao
outro.
Assim, o corpo é o que não é a mente, aquilo que é distinto do termo
privilegiado e é outro. É o que a mente deve expulsar para manter sua
“integridade”. É implicitamente definido como desregrado, destrutivo,
necessitando de direção e julgamento, meramente incidental às
características definidoras de mente, razão, ou identidade pessoal em
sua oposição à consciência, ao psiquismo e a outros termos
privilegiados no pensamento filosófico. (GROSZ, 2000, p.49)
O corpo é, portanto, tradicionalmente menos valorizado. Grosz (2000)
considera que o mais relevante nessa dicotomia é a associação entre
mente/corpo e homem e mulher, na qual homem e mente, mulher e corpo são
correspondentes nas representações. Há, segundo a autora, um grande
interesse do patriarcado em vincular “(...) as mulheres muito mais intimamente
aos corpos que os homens e, através dessa identificação, restringindo os papéis
sociais e econômicos das mulheres a termos (pseudo) biológicos.” (GROSZ,
2000, p.68).
Sobre o binário mente/corpo, no qual, conforme afirmamos anteriormente,
onde a mulher corresponde às representações do corpo, Elódia Xavier (2007)
aponta as características associadas ao corpo como uma forma de restringir as
atividades sociais das mulheres às exigências da reprodução.
Além
da
oposição
macho/fêmea,
correspondente
ao
dualismo
mente/corpo, a corporalidade feminina, sempre considerada mais frágil
e vulnerável, é usada para justificar as desigualdades sociais; a
vinculação da feminilidade ao corpo e da masculinidade à mente
restringe o campo de ação das mulheres, que acabam confinadas a
exigências biológicas da reprodução, deixando aos homens o campo
do conhecimento e do saber (XAVIER, 2007, p.20).
Pode-se afirmar que o campo do conhecimento e do saber implica ser
também o campo da dominação. De acordo com Grosz (2000, p. 49) a filosofia
ao privilegiar as ideias, razão, julgamento, exclui ou marginaliza a consideração
com o corpo. A filosofia, enquanto disciplina associada à produção de
23
conhecimento, excluiu de suas práticas a feminilidade e, consequentemente, a
mulher. Esta por estar relacionada diretamente à razão e ao corpo.
O conhecimento como instrumento de acesso ao poder, calcou a
dominação masculina. A relação de opressão entre homens e mulheres passou
a ser compreendido como predeterminação biológica e não como uma relação
socio-historicamente construída.
Nesse aspecto de correlação que identifica o poder e a dominação como
inerentes à natureza masculina, na narrativa, Bernarda ao transgredir e assumir
o papel social do homem numa família patriarcal, leva consigo o referencial de
uma relação opressora mantida entre homens e mulheres. Bernarda passa a
ocupar o papel social do homem, governante da família, o que implica em
comportar-se de acordo com as características atribuídas ao patriarca. Ao
assumir a administração da fazenda e da família, Bernarda estabelece uma
relação opressora com a família, em especial com a liberta Inês e com a lunática
Gabriela Soledade, sua mãe, reflexo de um modelo de família, no qual aquele
que ocupa o papel de chefe familiar exerce poder sobre os demais,
principalmente sobre as mulheres.
O poder conquistado por Bernarda ocasiona um distanciamento das
demais mulheres, considerando o referencial do narrador. Observa-se na
narrativa que em muitas passagens ao mencionar “as mulheres”, o narrador se
dirige apenas a Inês e Gabriela. Os liames que faziam com que Bernarda
pertencesse ao gênero feminino aparentemente foram destituídos quando ela
passou a se colocar como representante da família e detentora de poder. Ao
mencionar a presença das mulheres, o narrador heterodiegético refere-se
apenas à Gabriela Soledade e à filha Inês Soledade, excluindo Bernarda. Só é
recuperada a referência de Bernarda como mulher, agregando-a às demais,
quando é mencionada a primeira relação sexual entre Bernarda e o tio Anrique.
Vale ressaltar que o referido evento na obra, cuja estrutura não é linear,
dá-se em nível da construção da narrativa, mas não na lógica interna, temporal
da obra. Os fatos narrados posteriores ao ato sexual, que até então não haviam
sido revelado ao leitor, continuam excluindo Bernarda do conjunto das mulheres.
Segundo Alcione Leite da Silva (et al, 1999), identidade se relaciona com
a concepção de idêntico. No que diz respeito à identidade cultural, de grupos
sociais, as características salientes são as que tornam os sujeitos do grupo
24
semelhantes entre si e divergentes dos demais grupos. Com base nesta
afirmação, pode-se inferir que, ao distanciar-se das características identitárias
do gênero feminino, o narrador passa a excluir Bernarda deste grupo. Incluindoa novamente mediante o surgimento da maternidade, que a torna mais próxima
dos fatores determinantes para a integração a este grupo.
A maternidade como único prazer e obrigação existencial da mulher, em
detrimento do prazer sexual sem fins reprodutivos, foi defendida com ênfase
pelos médicos oitocentistas. De acordo com Nunes (2000, p. 74), para estes
médicos o filho era o objeto privilegiado de desejo materno, por vezes
descrevendo esta relação de forma sexual. A mulher, cuja satisfação ocorreria
cumprindo suas obrigações no seio da família, tinha uma relação frígida com o
parceiro, compensada pelo prazer sexual que obtinha com a erotização da sua
interação com o filho.
O casamento divinizado negava à mulher o prazer na relação sexual. A
dupla moral sexual, a qual se refere Nunes (2000, p. 76) divide o homem entre
a mulher e a puta, cabendo a ele o trabalho, o sexo e o bordel, e à mulher
corresponde o lar, o amor e os filhos. Observa-se que a sexualidade também
participa da delimitação de espaços de atuação dos sexos. O lugar e as tarefas
do casal também foram minuciosamente definidos: o homem deve proteger,
cuidar e guiar a mulher, que por sua vez deve servir ao marido, buscando ser a
parceira ideal. O homem é entendido como um ser sexual, em oposição à
mulher, um ser maternal. A exceção concedida às prostitutas é justificada como
um mal necessário, funcionando como um escoamento dos excessos de fluxo
seminal do corpo masculino, realizando uma assepsia do espaço doméstico.
No campo do pensamento político, a feminilidade correspondente à
passividade, dor e sacrifício é determinante, de acordo com o pensamento
político, para “inscrição da mulher no casamento e na família; o Código Civil
napoleônico organiza a instituição conjugal como instrumento de dominação
masculina. Fiel leitor do Emílio, Napoleão sancionou a autoridade do marido”
(NUNES, 2000, p. 77-78).
No domínio científico, a ideia de um desejo inato de submissão nas
mulheres e da sua maior capacidade de sacrifício, ganha cada vez mais força e
adeptos. Justificava-se, com base nessa ideia, que a submissão das mulheres
ao marido decorria de uma necessidade natural de proteção. A mulher seria
25
dotada de uma superioridade afetiva, em contraste com a superioridade
intelectual masculina. Krafft-Ebing (1955, apud NUNES, 2000, p. 78) sustenta
que o desejo de subordinação das mulheres deve-se ao seu papel passivo na
procriação e na organização social. Entretanto, seu pensamento evolucionista
não aponta a possibilidade de transformação, não evidenciando a opressão
como uma determinação histórica possível de ser modificada. “Para ele, o que
era costume inscreveu-se no corpo, e tornou-se parte da natureza feminina, que
tenderia então para submissão” (NUNES, 2000, p. 78).
Os médicos oitocentistas permaneceram afirmando que o homem era o
senhor supremo da mulher, que deveria encontrar nesta servidão, o prazer
supremo. O casamento surge como um primeiro sacrifício da mulher, que deve
submeter-se passivamente e feliz. O sacrifício e a submissão feminina são
colocados como condição para a possibilidade do ideal materno.
Diante dessas exigências e descrições minuciosas do comportamento
ideal das mulheres, é possível identificar na narrativa que Inês, ao contrário de
Bernarda, possui as características corporais e comportamentais esperadas de
uma mulher. O pai, Pedro Militão, já com idade avançada, aposta nessa filha
suas esperanças de uma maternidade que possa dar a Puchinãnã o homem que
irá governar suas terras, caçar cavalos e coordenar outros homens, conforme o
desejo de Bernarda.
A filha mais velha questiona a possibilidade de ser ela a mulher que
conceberá e dará a luz a um homem forte. Mas o pai lembra a Bernarda que o
fato dela cheirar a cavalos selvagens, motiva o distanciamento dos homens.
Acrescenta ainda que “Mulher igual a você aqui, só Inês... e dela poderia nascer
o homem” (CARREIRO, 2009, p.48). Essa comparação entre as duas irmãs não
se dá no âmbito da igualdade de sexo entre Bernarda e Inês, mas de serem
ambas da família Soledade, requisito necessário para o nascimento de um
homem que pertença a esta família. Esta análise leva em consideração as
declarações, ao longo da novela, acerca das similitudes entre Bernarda e um
homem. Posteriores, na narrativa, Bernarda é identificada como sendo o homem
de Puchinãnã. Essa correspondência se deve, em parte, por Bernarda assumir
as
atividades
delegadas
aos
homens, e
também pela
omissão
de
comportamentos que a encaixem no grupo de mulheres. A assertiva do Coronel
atenta para resolução do problema da maternidade, considerando Inês a única
26
mulher da família Soledade com condições necessárias e suficientes, que vão
além da biologia, para dar a luz a um filho.
O ideal de feminilidade implícito na fala do Coronel Pedro Militão pode ser
identificado com o ideal máximo de feminilidade preconizado pelo século XIX, e
corresponde à mulher que pare com dor, amamenta com sacrifício e acalenta a
criança em seu colo frágil. Novamente dor, sacrifício e fragilidade estão
associados à mulher e ao cumprimento de ser dever de procriação, associados,
evidentemente, à submissão.
Desenganada da possibilidade da maternidade e admitindo ser uma
mulher “seca”, que não desperta o desejo dos homens, em oposição ao que
ocorre com a irmã, Bernarda afirma que serão os cavalos a presença do macho
em Puchinãnã. Esta afirmação traz uma carga simbólica muito forte,
especialmente se atentarmos para o fato de ser Bernarda a domadora de cavalos
da fazenda. A partir da analogia entre homens e cavalos, considerando também
que na divisão do trabalho, a atividade de domar cavalos corresponde ao campo
dos homens, podemos interpretar que Bernarda ao domar cavalos, pretende
metaforicamente domar os homens, ocupando o seu papel social. Atividades que
a filha mais velha de Militão já realiza com mérito, entretanto carrega o peso de
não serem atividades comumente executadas por mulheres. Conforme
corrobora o trecho a seguir: “Ela própria, vestindo a armadura de couro, já
comandava a domação de cavalos; substituíra o homem que não nascera do
ventre de Gabriela Soledade” (CARREIRO, 2009, p.47).
A metáfora do comportamento entre cavalos e éguas é sempre utilizada
para abordar as relações entre homens e mulheres, especialmente a relação
sexual. Ao cogitar a possibilidade de ter um filho homem, Bernarda, movida pela
lógica de cruzamento entre cavalos de raça, pretende para pai de seu filho, um
homem que possua boas características, principalmente físicas, para que seu
filho também possua esses atributos. A chegada de Anrique, homem forte,
também domador de cavalos, desperta em Bernarda a possibilidade de gerar um
filho dele, que pudesse herdar tais características. Em outro momento da
narrativa, quando Inês diz estar com o ventre ardendo de desejo, ela afirma que
seria um bom momento para o regresso de Anrique, uma vez que ela estaria
pronta para ter relação sexual com o tio, a fim de gerar um homem que, com as
características do pai, pudesse vingar Puchinãnã da revolta, na qual saíram
27
perdedores, e realizar o desejo, especialmente de Bernarda, de cuidar, como
homem, da administração da fazenda.
A passagem na obra, a qual o trecho acima se refere, traz a concepção
de relação sexual com o mero intuito de reprodução, finalidade soberana ao
desejo e ao prazer sexual. Sobre este aspecto, Hilan Bensusan (2004) ao pensar
sobre nossos desejos, afirma que eles pertencem a um campo político, e
consequentemente pertencem à esfera da nossa soberania em relação a vários
fatores, entre eles a natureza. O fato dos nossos desejos serem politizados
implica necessariamente na nossa libido ser colonizada. Já que esta conduz
aquela. O regime político que controla o nosso desejo, de acordo com Bensusan,
é o regime do patriarcado, que está tão enraizado na nossa forma de pensar.
Pode
ser
que
a
origem
comprometimento das
da
pessoas
colonização
da
libido
seja
o
no projeto da reprodução das
espécies. É preciso conclamar todos os desejos para que sejam
orientados de uma forma que permita que a humanidade seja
reproduzida com tranquilidade e eficiência como se para mais nada
servisse ter desejos. Assim, foram a libido e o desejo postos para
trabalhar, trabalhar para que nossa sanha de que alguém nos herde e
nos continue seja satisfeita. E o melhor: satisfazer essa sanha mobiliza
uma enorme quantidade de nosso empenho erótico. Um arranjo bem
feito. E fica parecendo um arranjo natural (BENSUSAN, 2004, p. 133).
Dentro dessa visão de procriação, o pensamento oitocentista, que
circunscreve a mulher nas relações sexuais, cujo objetivo primordial é a
procriação, condena qualquer prática sexual que vise o prazer feminino. Este
prazer sexual só pode ser obtido a partir da relação com o filho. A sexualidade e
o corpo feminino tornaram-se alvo prioritário das intervenções normalizadoras
da medicina e da psiquiatria. No século XIX ocidental, de acordo com Engel
(2001, p. 332), a visão da mulher como um ser ambíguo que reúne em si o bem
e o mal, misteriosa, imprevisível e perigosa, carregando a virtude da
degeneração, ganha força e é justificada e aprofundada nas teorias dos médicos
e psiquiatras.
A mulher que se negava a cumprir o papel de mãe, predestinado
naturalmente, era vista como uma exceção à regra e contraditoriamente como
28
uma manifestação da sua natureza ambígua e perigosa. Os comportamentos
femininos desviantes estavam circunscritos principalmente na esfera da
sexualidade e da afetividade. A medicina passa a tentar regular esse
comportamento, por via da patologização.
Ganha destaque as imagens da
ninfômana e da histérica como figuras representativas das possibilidades de
desregramento feminino.
De acordo com Engel (2004, p. 97-98), Krafft-Ebing discute os desvios
femininos a partir de uma concepção naturalista da sexualidade. O instinto
sexual, ligado ao corpo biológico, por funcionar através de uma fisiologia, pode
apresentar patologias. Dentro desse raciocínio, a mulher é concebida como um
ser maternal, cujos desejos estão voltados para o amor e para família, deixando
em segundo plano o desejo sexual. A busca da mulher por prazer sexual seria
uma anormalidade, e, por conseguinte uma patologia. Nessa perspectiva, se de
um lado a mulher aparece condicionada passivamente ao seu papel de esposa
e mãe, por outro lado, apoiando-se na ideia de uma natureza feminina não
suficientemente lapidada, a mulher é uma degenerada, cuja sexualidade pode
desregrar, representando, dessa forma, um perigo para sociedade.
Assim, na própria fisiologia da mulher, estariam inscritas a predisposição
à doença mental. “A menstruação, a gravidez e o parto seriam, portanto, os
aspectos essencialmente priorizados na definição e no diagnóstico das moléstias
mentais, que afetam mais frequentemente, ou de modo específico as mulheres”
(ENGEL, 2001, p. 333). Na vida da mulher existiriam ciclos, como o da
menstruação, em que ela estaria mais propicia a desenvolver a loucura, inata à
sua formação biológica.
Nunes (2000, p. 96) afirma que “A histeria é tratada como uma forma
patológica de expressão da natureza feminina, é apontada como produto de uma
degeneração psíquica feminina e considerada uma prova da existência de
estigmas degenerativos em todas as mulheres”. O título de histérica é atribuído
às mulheres que renegam uma posição passiva de renúncia e submissão,
procurando preservar sua potência que se exprime como forma de protesto
contra a dominação masculina.
Nesse contexto, de perigo iminente de surtos histéricos, a realização da
maternidade seria, contraditoriamente, uma forma de controlar, ou até curar, os
surtos psíquicos que se relacionam diretamente ou não, com a sexualidade,
29
entretanto, a gravidez e o pós-parto são identificados também como momentos
propícios ao aparecimento ou manifestação de tais distúrbios.
Na narrativa, a morte de Pedro Militão desencadeia na viúva Gabriela
Soledade, um processo de constantes delírios. Ao longo do enredo, observamse os delírios coletivos que envolvem as três personagens femininas, atordoadas
com a chuva que, em meio aos medos manifestados, confunde-se com o trotar
do cavalo Imperador, morto no mesmo dia do assassinato de Anrique, no teto da
casa grande. Inês é a única que, aparentemente, ainda apresenta lapsos de
consciência, reprimidos pelo medo de contrariar a autoritária Bernarda.
De acordo com a abordagem psicanalítica da histeria, cuja associação da
mulher ao corpo serviu de justificativa para patologizar as expressões de recusa
das mulheres ao modelo imposto de servidão e passividade, a ausência da
maternidade nas personagens femininas da obra, poderia ser identificada como
surtos histéricos, decorrentes da ausência do homem e do não cumprimento do
seu papel de mãe, na sociedade.
Vale ressaltar que a utilização do estereótipo da mulher histérica vem
mascarar um desejo médico de conter, promover a delimitação e patologização
da sexualidade feminina. Entretanto a histeria, na sociedade ocidental moderna
surge como uma verdade que promove a subversão da racionalidade, tanto
filosófica quanto científica, que colocava o homem como paradigma universal. O
discurso psicanalítico marca uma mudança no pensamento moderno, por ser, de
acordo com Regina Neri (2005), o primeiro a pensar sobre o feminino, colocando
no centro da discussão a questão da diferença sexual. O questionamento da
superioridade do sexo masculino em relação ao feminino acabou gerando uma
crise da identidade masculina, principalmente dos vienenses. Fato que se torna
visível na análise da literatura canônica contemporânea a essa ruptura no
pensamento ocidental, como atesta Neri, com base nas obras literárias de
Hofmmansthal, Musil, D. H. Lawrence.
A modernidade, marcada pelo discurso psicanalítico de ruptura com a
hegemonia masculina, surge como feminização da cultura, utilizando a figura da
mulher como emblema de uma contracultura. Neri (2005) estabelece relações
de correspondência, conversão e motivação de posicionamentos, entre a histeria
e os campos da psicanálise, cultura e político. A histeria corresponde, no espaço
da psicanálise, à representação da verdade do discurso psicanalítico. No espaço
30
cultural, esse fenômeno se converte em ars erótica, e no espaço político “(...) o
feminismo em convulsão rompe com o discurso de naturalização da mulher e
com a política de adestramento da sexualidade.” (NERI, 2005, p.13).
2.2 Corpo feminino como território
Hilian Bensusan (2004), ao abordar os desejos e suas motivações, afirma
que existem normas específicas para o desejo, ditadas pelo regime patriarcal.
Segundo o autor, a nossa capacidade de erotização é agenciada por instituições
mentais, que selecionam nossos objetos de desejo e determinam a forma como
deve ser tratado, tudo aquilo que motiva a excitação. Ele sugere que vivemos
num regime de desejo, que realça a sua conexão com a morte e que erotiza o
poder, aliando à libido “um desejo de dominar ou de submeter (de possuir, de
ocupar, de ter controle, ou de entregar, de colaborar ou de perder o controle).
(...) O desejável não se articula por si mesmo; ele depende de outras
propriedades. Isso é colonização. O regime coloniza de uma forma específica o
desejo; entende o desejo como algo que precisa ser saciado, e o seu objeto
consumido, aprisionado.” (BENSUSAN, 2004, p. 132).
Nesse processo de dominação e submissão, o desejo masculino, que
passa a ser interpretado com sua própria identidade, e que o encoraja a ser o
próprio desejo, é soberano a todas as leis, buscando a todo custo o direito de
satisfazer-se. Decorre dessa busca incessante pela satisfação dos desejos
masculinos, autorizados e legitimados pela sociedade, o controle dessa ordem
patriarcal naturalizada, na qual o poder conferido a eles raramente os fazem
vítimas da violência e de abusos.
Bensusan (2004) nos convida a pensar sobre a sociedade que
institucionaliza a masculinidade, agenciando seus desejos, como uma forma de
refletir sobre a distribuição de poder e de privilégios. Esta reflexão nos leva a
desnudar a supremacia masculina, da erotização da violência e da entre desejo,
prazer e morte.
As relações sexuais entre Bernarda e o tio Anrique, bem como entre Inês
e Pedro Lucas são permeadas pela violência e pelo desejo de vingança. Nesse
31
sentido, o corpo extrapola o âmbito da relação sexual com finalidade de
reprodução, passando a indicar o corpo como uma possibilidade de território a
ser conquistado, efetivando uma vingança.
Anrique, ao se reaproximar das terras de Puchinãnã, havia planejado,
junto aos rebeldes do Povoado de Santo Antonio Salgueiro, uma série de
vinganças que culminariam na ocupação definitiva da fazenda pelos antigos
donos, exilados no povoado. Dentre as metas estabelecidas para o regresso de
Anrique à fazenda, constavam o assassinato do irmão Pedro Militão Soledade e
a sedução de Bernarda Soledade.
Seduzir a sobrinha e manter relação sexual representava a
dominação da mulher que por tanto tempo comandou Puchinãnã, domando
cavalos e dando ordens aos homens. A relação sexual como o ápice de uma
relação de dominação, na qual a mulher, quer tenha um histórico de submissão
ao homem, quer seja tida como símbolo de poder, é colocada automaticamente
numa condição de dominada e desonrada. Nesse sentido vale ressaltar que a
honra da mulher, está associada à região da cintura; que delimita a barreira de
proteção da vagina, constituída socialmente como objeto sagrado, cujo contato
é submetido a regras de acesso que determinam quando se trata de contato
sagrado (em caso de laços matrimoniais) ou profano, no caso de relações
sexuais em relacionamentos que não são matrimoniais, e que, portanto, não são
legítimos. Essas relações, ditas profanas, correspondem ao exercício da
sexualidade que não seja circunscrito ao casamento e voltado para reprodução.
Ao homem cabe a possibilidade de crescer sua honra, buscando glória e
destaque na esfera pública. A mulher pode apenas conservar ou perder a honra
em virtude sucessivamente da virgindade e da fidelidade. (cf. BOURDIEU, 2010).
Conforme Nunes (2000, p. 91), a patologização da sexualidade feminina
foi uma constante nos discursos psiquiátricos do século XIX. O estudo da
sexualidade feminina é parte da constituição de uma “ciência sexual”, ampliada
durante os séculos XIX e XX, que abarcavam um conjunto de teorias e práticas,
cujo objetivo primordial era controlar o comportamento sexual do indivíduo.
Engel (2001, p. 342) afirma que a sexualidade só não consistiria uma
ameaça à integridade física, mental e moral da mulher, caso estivesse
compreendida nos limites de excesso e falta e circunscrita no leito conjugal.
32
Queremos ressaltar como a instituição do casamento delimita o exercício
da sexualidade feminina, autorizando a relação sexual apenas no espaço
doméstico excluindo a possibilidade da busca pelo prazer sexual feminino e cuja
finalidade não fosse a procriação. A mulher cujo comportamento extrapolasse
essas determinações caberia o enquadramento nas patologias de desvios da
sexualidade. Excluídas do ideal de feminilidade e tidas como transgressoras e
doentes mentais, estavam entregues ao desprezo da sociedade.
Acerca da concepção da relação sexual como uma oportunidade de
vingança, na narrativa, Anrique expõe essa visão sobre a relação sexual, durante
uma conversa com a sobrinha Inês Soledade, quando reprime os seus banhos
noturnos, completamente desnuda no rio. Nessa ocasião, ele aponta os perigos
do passeio: “Não fica bem uma moça com essa atitude, sobretudo quando a
nossa família vive coberta de iras e os homens do povoado de Santo Antônio
Salgueiro,
os
injustiçados,
esperam
uma
oportunidade
de
vingança”
(CARREIRO, 2009, p. 52-53). O trecho elucida três posicionamentos de Anrique,
respectivamente: o comportamento que ele considera adequado a mulheres
virgens, que não corresponde às ações da liberta Inês; o julgamento que ele faz
em relação aos exilados do Povoado, reafirmando o seu posicionamento, no que
diz respeito à injusta tomada das terras e ainda, a aproximação que ele
estabelece entre a relação sexual como uma vingança, na qual estaria em jogo
a honra da família, por meio da deflagração da virgindade da filha mais nova, de
forma profana e ilícita. Podemos ainda, extrair desse trecho a intenção de
Anrique em, ao seduzir Bernarda e ter relação sexual com ela, vingar-se,
consciente das consequências as quais iria expor Bernarda futuramente.
As relações sexuais são buscadas de formas distintas por homens e
mulheres, na narrativa. As mulheres desejam a maternidade como forma de
cumprir seu papel de mãe, gerando um filho que possa substituir o Coronel, nas
atividades que ele deveria desempenhar. Para satisfazer o desejo da
maternidade, elas escolhem os parceiros visando a possibilidade de suas
características serem herdadas pelo filho. Bensusan (2004), conforme citamos
anteriormente, justifica o agenciamento da libido e do desejo como formas de
promover a reprodução da humanidade, buscando saciar a sanha de ter alguém
que nos herde.
33
Já os personagens masculinos, Anrique e Pedro Lucas, veem na relação
sexual uma forma de posse do corpo feminino e de vingança. Remetemos
novamente a Bensusan (2004), quando ele aborda a relação sexual como uma
dominação masculina, que busca a todo custo a realização dos seus desejos,
identificando o sexo como um processo de dominação da mulher. Ele afirma que
na visão dos homens o “sexo e a dominação da mulher aparecem inseparáveis”
(BENSUSAN, 2004, p. 135).
Observa-se na narrativa a efetivação da vingança por meio da relação
sexual, quando, durante a revolta liderada por Pedro Lucas, com o intuito de
honrar o nome dos exilados do povoado, mortos anteriormente pelo traidor
Anrique, Pedro tem relação sexual com Inês, em meio ao tiroteio e clima de
tensão estabelecido pela ocupação momentânea da fazenda.
Em muitos
momentos ambos tomaram banhos de rio, desnudos, entretanto, a relação
sexual só ocorreu durante um momento de conflito e disputa territorial, cabendo
a Pedro a conquista também de outro território: o corpo de Inês. Uma forma de
vingar-se, desonrando a família.
De volta ao povoado, com as calças ensangüentadas, diante da
preocupação da mãe que cogitava um ferimento, Pedro Lucas exibe com orgulho
o sangue, afirmando ser da “não mais a última virgem de Puchinãnã”
(CARREIRO, 2009, p. 108). Aclamado pelo feito, ele comemora junto com os
companheiros a vingança contra o traidor, Anrique Soledade, o combate
estabelecido com ‘a tigre’, Bernarda, e a deflagração da virgindade de Inês,
colocando a família Soledade num patamar de desprestígio social ocasionado
também pela desonra.
A primeira relação sexual entre o irmão de Pedro Militão e a sobrinha
Bernarda, ocorreu no curral, próximo aos cavalos. Ao se arrumar para o encontro
marcado, Bernarda busca utilizar roupas e acessórios que a aproximam das
vestimentas e do comportamento da irmã: um vestido aciganado vermelho, cujo
decote faz ‘saltar os brancos seios’ uma flor no cabelo, e uma sandália de salto,
logo retirada a fim de causar um contraste entre os pés no chão e o vestido. No
momento em que Bernarda busca sentir-se desejada, passa a querer certa
semelhança com a irmã, cujo comportamento sempre foi comparado ao de uma
égua assustada. Essa busca demonstra o referencial de mulher sedutora,
adotado por Bernarda, que desejou se adequar a tais padrões.
34
Bensusan (2004, p. 132) afirma que muita coisa pode ser erotizada como
símbolo dos objetos primordiais de desejo. Esses símbolos são erotizações
secundárias. Os objetos primordiais de desejo podem ser escolhidos, já os
símbolos remetem a esses objetos. São consideradas erotizações secundárias:
saltos, vestidos, ornamentos, entre outros. Os objetos de desejo de fato, são os
seios, a genitália, a jovialidade e etc. Na busca pela sedução, ambos são
associados como forma de despertar a atenção, a partir de comportamentos e
acessórios que dialoguem, no imaginário coletivo, comandado pela visão
patriarcal, com o desejo e a libido.
Vale ressaltar ainda, que o comportamento de Inês, incluindo a sua forma
de vestir-se, ou de andar desnuda, sempre foi reprimido por Bernarda, que
buscava estabelecer as regras da casa. Inês se configura, dessa forma,
enquanto mulher fértil, sedutora e liberta.
A atração dos homens por mulheres que possuem tais características e a
relação sexual como dominação masculina é retomada na narrativa, agora de
forma mais explícita, a partir da metáfora dos cavalos e éguas. Aproximando-se
do ponto de encontro, a sobrinha mais velha de Anrique ouve os cavalos
inquietos. “Os cavalos mais brabos fustigavam as éguas assustadas”
(CARREIRO, 2009, p. 59). Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1999) admite
para o verbo fustigar tais acepções:
Fustigar [Do lat. tard. fustigare.] Verbo transitivo direto. 1.Bater com
vara: O carroceiro fustigou as bestas. 2.Vergastar, açoitar, zurzir:
“Brandindo, no ar, um látego de fogo, / Sem piedade, as fustiga”
(Teixeira de Pascoais, Obras Completas, V, p. 7); “O vento fustigavalhes o rosto.”(Amando Fontes, Os Corumbas, p. 18). 3.Castigar,
maltratar: O ciúme fustiga a alma. 4.Excitar, incitar, estimular: A
ambição fustiga a vontade. [Conjug.: v. largar.] (FERREIRA, 1999, p.
956).
Podemos interpretar o verbo “fustigar” na sentença exposta, equivalente
tanto a um sofrimento empregado nas éguas, pelos cavalos, por meio da
violência, quanto ao desejo despertado por estes nas éguas. Fazendo uma
analogia entre enunciado supracitado e o envolvimento entre Bernarda e o tio,
35
observamos também a presença de uma violência simbólica (Cf. BOURDIEU,
2010) e de um estímulo sexual que os une.
Ao chegar ao curral, Anrique já a esperava seminu. Bernarda intenta um
diálogo, indagando se fazia tempo que o tio a aguardava.
Pela primeira vez, desde que chegara a Puchinãnã, Anrique via
Bernarda falar como uma verdadeira mulher. Sempre fora uma espécie
de égua da pradaria. Uma domadora. E antes dele, chefiara feras e
homens. Mas ainda assim, podia observar, não tinha um só músculo
saltante. Fora feita para o trabalho e para o amor. (CARREIRO, 2009,
p. 59)
A visão da mulher enquanto submissa ao homem e ao dever da procriação
transparece no trecho acima. O comportamento de Bernarda é incomum. Além
de arrumar-se buscando evidenciar a sensualidade, a preocupação de Bernarda
em não deixar o tio esperando a sua, chegada, para que ela pudesse enfim, ter
relação sexual com ele, cumprindo o que ela afirmou, no discurso à filha, exposto
anteriormente, como sendo o papel da mulher. Essa fala não é mais de uma
mulher domadora, mas domada e submissa. É nesse sentido que ela é
considerada, agora, “uma mulher de verdade”.
A referência ao corpo da mulher reafirma a vinculação da mulher à
reprodução, aos prazeres da carne e à feminilidade. A ausência de músculos
saltantes faz Bernarda ser reconhecida uma mulher que, mesmo exercendo
trabalhos físicos exigentes, possui os requisitos necessários a um corpo
feminino.
A pergunta incomum, feita ao tio, foi ignorada. Inconformada com o
silêncio, ela insiste na indagação, já movida por um ímpeto de fúria, bastante
reincidente no seu comportamento cotidiano. O tio afirma que é necessária
paciência e calma para conseguir domar as boas éguas. Observa-se a segunda
menção, durante esse encontro, ao fato de ser Bernarda uma égua boa, de
pradaria, que por ser selvagem, torna a dominação mais difícil, exigindo do
domador, calma e paciência durante o processo.
Dessa forma, é explicitada a relação de dominação e vingança buscada
pelos personagens masculinos na narrativa. As mulheres assumem, algumas
36
vezes, como no caso de Bernarda, o comportamento e os aspectos físicos que
dialoguem com o desejo masculino de ideal de feminilidade.
2.3 Transgressões das personagens femininas
As transgressões femininas são identificadas desde o século XIX como
exceções que caracterizam patologias, responsáveis pelos desvios, em geral no
âmbito da sexualidade e da afetividade. Na obra, as personagens femininas
realizam duas transgressões: da divisão sexual do trabalho, efetivada por
Bernarda ao desempenhar as atividades do pai, e no espaço das relações
sexuais, realizadas tanto por Inês, ao comportar-se de forma considerada liberta,
e por Bernarda, ao buscar uma relação sexual onde dominasse e fosse
subordinada.
Podemos apontar duas transgressões efetivadas por Bernarda, na obra.
A primeira no âmbito das relações de poder, uma vez que ela assume a condição
de chefe
familiar, mesmo
quando o
pai era
vivo, numa
sociedade
declaradamente patriarcal. De posse desse cargo na família, ela passa a exercer
atividades que, na divisão sexual do trabalho, correspondem aos homens, tais
como: domar cavalos, administrar a fazenda e garantir a ordem da casa.
Considerando as expectativas e cobranças expressas explicitamente pela
personagem Bernarda, é possível constatar a frustração em relação à figura
paterna. Durante uma conversa com Anrique, ela afirma: “O coronel Pedro
Militão Soledade, meu pai e seu irmão, não tem coragem para nada, é um
imprestável. Cabe a mim, sua filha mais velha tomar a iniciativa” (CARREIRO,
2009, p.43). O passivo coronel costumava passar o dia sentado numa cadeira
no alpendre, não transparecendo possuir ambição territorial nem pulso para
governar as terras, comandar os homens e caçar cavalos selvagens. Limita-se
a ser um caçador de passarinhos, animal que remete à liberdade, leveza,
suavidade, encantamento e poesia. Nada tem em comum com os cavalos
selvagens, cuja própria captura remete à luta, força, poder e guerra.
37
Tornando visíveis esses polos nos quais se isolam e se distanciam pai e
filha, é fácil vislumbrar o desejo de Bernarda de ter na família um homem que
corresponda, de fato, às suas expectativas e cobranças em relação ao
cumprimento das demandas que, conforme ela afirma, pertencem ao domínio
masculino.
Como é possível constatar a partir das várias histórias, principalmente
oriundas da cultura popular, materializadas nos folhetos de cordéis, e de
costumes que vigoram até hoje, especialmente no sertão do nordeste, é o filho
mais velho responsável, em algumas situações, por restabelecer a honra da
família ou ainda assumir as coordenadas, na ausência de um responsável. No
caso de uma sociedade patriarcal: o pai. Ao assumir a incapacidade do pai de
desempenhar esse papel na família, como demonstra o trecho citado
anteriormente, Bernarda toma para si a responsabilidade, enquanto filha mais
velha, de estabelecer as regras e tornar-se referencial de ordem e detentora do
poder. Ao fazer isso, ela estabelece uma transgressão ao passo que o pai,
mesmo debilitado, no ponto de vista dela, ainda está vivo e deve ser respeitada
a autoridade concebida a ele enquanto chefe de uma família patriarcal. A
possibilidade de assumir o comando da família, segundo as práticas usuais no
referido contexto sociocultural, é dada ao filho mais velho. À filha mais velha
cabe substituir a mãe nas atividades que a dizem respeito.
É pertinente ressaltar que as demais mulheres que aparecem na obra,
moradoras do povoado de Santo Antônio Salgueiro, mantém-se sempre alheias
aos acontecimentos do povoado, reclusas em suas residências. Durantes as
revoltas, todas permaneceram em suas casas, esperando o momento de saírem
para, em silêncio, reorganizar o povoado e recolher os feridos, sem ao menos
se excederem no choro. Diferente de Bernarda, nenhuma participou das
organizações armadas. Em geral, as decisões acerca do povoado eram tomadas
pelos homens, em reuniões nos botequins, das quais elas não participavam. A
exposição desse contexto social, no qual se inserem as mulheres daquela
região, expõe o contraste entre o comportamento transgressor de Bernarda e o
das demais mulheres do Povoado de Santo Antônio Salgueiro.
Ainda sobre o papel que Bernarda desempenhou na família e na
sociedade, é necessário também observar as motivações que vão além de uma
frustração em relação ao pai. Ao procurar a mãe desaparecida, Bernarda
38
pressiona a irmã a permanecer em sua companhia, ameaçando domá-la, assim
como fazia outrora com cavalos, e lembrando que foi ela, Bernarda, que sonhou
“com o mundo de Puchinãnã, porque tinha o ventre vazio, as mãos
abandonadas” (CARREIRO, 2009, p.102). Tal afirmação aponta o desejo de
exercer poder de Bernarda como uma fuga das atividades que não conseguia
exercer enquanto mulher: casar e ter filhos.
A segunda transgressão é sexual, como exposta anteriormente. Nesse
caso, vale ressaltar que a irmã, Inês, também transgride a ordem ao andar
desnuda na fazenda e expor o seu desejo de manter relações sexuais. Inês
sempre foi reprimida sexualmente, ora pela irmã, ora pelo tio. Além de ser
considerada, pejorativamente, uma égua liberta.
Bernarda ao encontra-se com o tio no curral e perguntar passivamente se
o havia feito esperar, irrita-se primeiro com a demora na reposta e depois por
perceber o tom de superioridade empregado pelo tio. Completamente enraivada,
Bernarda transgride mais uma vez: arranca a flor do cabelo, rasga o vestido e
também as calças do tio. A relação sexual é permeada pelo instinto selvagem e
pelo desejo mútuo de dominação. Ela desejava “Um homem que fosse, ao
mesmo tempo, o domador e o animal, para que se sentisse domada e domadora”
(CARREIRO, 2009, p. 60). Distanciando-se da relação sexual onde o homem
se constitui enquanto sujeito do processo de dominação e a mulher enquanto
objeto, submissa ao homem, Bernarda se propõe a uma relação de igualdade,
durante o ato sexual.
As relações das duas irmãs geraram filhos. Bernarda teve uma filha com
Anrique, que nasceu pouco tempo após a morte dele. A frustração por não ser
um homem foi tão grande que só quem cuidou da menina, nos primeiros meses,
foi Inês. Bernarda passou dias sem sequer olhar para a filha e o primeiro
presente que deu foi um gorro azul, uma calça de couro, um laço forte de corda
e um potro. Nos primeiros dias de nascida, a mãe desejava vê-la com a roupa
montada no potro, correndo pela fazenda. A menina, que já havia nascido
doente, com barriga inchada, morreu antes de completar um ano de vida, sem
nunca ter se ouvido o seu choro. Bernarda enterrou a filha com a roupa de
vaqueiro que havia presenteado. O cortejo contou apenas com a Gabriela, Inês
e a mãe da criança, uma vez que Puchinãnã, nesse período, já havia sucumbido.
39
Em discurso à filha, Bernarda lembra que o silêncio da menina, cujo nome não
consta, parecia pedir desculpas por não ser um homem.
O desinteresse de Bernarda pela filha vem contrariar a tese oitocentista
da destinação inata da mulher para maternidade. De acordo com Tânia Swain
(2007, p. 209), a partir dos escritos de Simone de Beauvoir (1949), passou-se a
considerar a maternidade como uma possibilidade e não como uma
necessidade. Antes disto, a capacidade de procriação própria do feminino
confundia-se com o próprio feminino. A negação de um “instinto materno”
também foi extremamente inovadora e polêmica, sugerindo a “desnaturalização”
da maternidade e da associação mulher/maternidade.
Sobre a distinção entre procriação e maternidade, Swain (2007) declara:
Gostaria de assinalar aqui a diferença que percebo entre a procriação
e a representação social que lhe dá sentido, a maternidade: a primeira
releva de algumas mulheres para renovar uma certa população dada,
pois todas as mulheres não têm necessidade de procriar para que o
humano não desapareça. A maternidade, por sua vez, é o resultado de
significações sociais e torna-se assim um fato de “natureza” extensivo
à toda uma parte do humano, uma essência definindo corpos e os
seres soletrados no feminino. Assim, o materno não é visto aqui como
uma tara da qual as mulheres devem se libertar, mas como um sentido
social que aprisiona e desdenha os corpos, os desejos e o ser no
feminino. (SWAIN, 2007, p. 220)
A experiência materna de Inês é marcada pelo ilícito e pelo assassinato.
Mesmo depois de esconder por tanto tempo a maternidade, na noite em que a
lunática Gabriela Soledade havia fugido da casa-grande, onde era mantida sob
os cuidados das filhas, Inês realiza o parto, intercedido por Bernarda.
Imediatamente após ser constatado o nascimento do homem, tão desejado por
Bernarda, a mesma leva-o, silenciosamente ao riacho onde o mata afogado.
Reafirma a sentença proferida por Inês em ocasião do nascimento da filha de
Bernarda: “Puchinãnã nunca abrigará homens” (CARREIRO, 2009, p.83). Este
posicionamento de Bernarda redefine todo o cenário de resistência e de
demonstração de poder, exercido principalmente por ela. A negação da
presença de um homem na fazenda, outrora tão requisitado, pode assumir
diversas interpretações. Destacaremos três possibilidades de análise. A primeira
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dialoga com a afirmação do pai, Pedro Militão Soledade, que acreditava que
apenas Inês poderia gerar um filho. A realização do que o pai previa, gera em
Bernarda um sentimento de inveja e fracasso.
A segunda possibilidade vem negar a presença de um homem, e
consequentemente do patriarcado. Bernarda já havia desempenhado as
atividades delegadas a um homem, e agora já era tarde demais e um homem
não iria modificar a situação em que estão entregues as três mulheres, já que,
além de tudo, o filho de Inês herdara o sangue de um traidor: Pedro Lucas. A
ausência de Anrique e, portanto, a impossibilidade do nascimento de um homem
que possua as características dele, implica na negação da presença de qualquer
outro homem. O estandarte com o galo bordado para Anrique, afixado meio do
terreiro, sinaliza que ele permanecerá sendo o único homem das terras de
Puchinãnã.
A terceira interpretação, leva em consideração comportamento de
Bernarda após a esta afirmação. Depois de matar o sobrinho afogado no ri o,
Bernarda regressa para casa grande, onde propõe a irmã que se deixem possuir
pelas plantas rasteiras, sem lutar contra as adversidades. O comportamento
atípico de Bernarda causa estranheza na irmã, que mesmo assim obedece, com
medo do retorno da personalidade agressiva e autoritária de Bernarda. Negar a
presença do homem, nesse caso, implicaria em negar os comportamentos
assumidos por Bernarda, atribuídos aos homens.
Negar a presença do homem em Puchinãnã significou para Bernarda
negar as suas atitudes opressoras e de resistência. Ela passa a assumir o
comportamento esperado de uma mulher, conforme exposto por ela no discurso
à falecida filha. Conformismo e passividade são as novas características de
Bernarda Soledade, ex-domadora de cavalos selvagens, agora subjugada ao
destino daquelas que se negam enquanto sujeito das ações e passam a ser
objeto nas relações de poder e de desejo.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A história de Bernarda Soledade – A tigre do sertão envolve, no resgate
da tradição popular, buscado pelo Movimento Armorial, do qual fez parte o
escritor pernambucano Raimundo Carrero, temáticas como as relações de
gênero, mediadas pelo poder, a divisão sexual do trabalho, marcada pela forte
delimitação das áreas de atuação da mulher e do homem, na esfera pública e
doméstica, as relações sexuais imersas numa busca pela maternidade e por
vingança e, ainda, a loucura feminina vivenciada pelas três mulheres solitárias
em uma fazenda no Nordeste brasileiro.
Diante das várias possibilidades de análises da obra, focamos nas
personagens femininas, analisando suas relações domésticas e públicas,
observando as transgressões efetivadas. Utilizamos os conceitos da crítica
feminista, na busca por uma desconstrução das ideologias discriminatórias de
gênero profundamente arraigadas na cultura. O objeto de estudo foi analisado
com o intuito de identificar as marcas das diferenças de gêneros, visando
colaborar para transformação da visão sobre as relações de gênero e da
condição de subjugada da mulher na sociedade.
A simbologia característica da linguagem Armorial, utilizada na obra,
especialmente a simbologia animal, expressada a partir do galo e “da tigre”,
epíteto da protagonista, permitiu a associação entre a representação dos
animais no imaginário da cultura popular e as relações de gênero e poder
representadas metaforicamente a partir dos símbolos. O galo, único que canta
em um terreiro, foi associado principalmente à Anrique, que mesmo após a sua
morte, permaneceu como o único homem cuja presença era aceitada e desejada
em Puchinãnã. Já Bernarda, a tigre, estabeleceu uma relação de dominação,
ocupando inclusive o papel do pai na administração da fazenda.
A relação estabelecida entre os sexos delimitam o comportamento, o
prestígio e a autoridade concedidos aos homens e mulheres. Ao transgredir as
delimitações explicitadas pela própria Bernarda, ela passa a ocupar um novo
papel social e traz consigo a carga de autoritarismo e opressão concedidos
àqueles que desempenham tais atividades numa sociedade patriarcal.
Nesse aspecto, Bernarda transgride a divisão sexual do trabalho,
desempenhando as atividades atribuídas ao homem, numa sociedade patriarcal.
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As transgressões efetivadas pelas personagens femininas são realizadas, tanto
em relação aos costumes sócio-culturais nos quais estão circunscritas, tanto no
plano das relações sexuais, quanto da divisão sexual do trabalho. Observa-se
como esse novo papel desempenhado por ela interfere na sua relação com a
comunidade. Em virtude da dominação exercida por ela, em relação aos homens
e mulheres, Bernarda passa a ser considerada uma mulher que não atrai os
homens, impossibilitando um casamento ou maternidade. Isto demonstra o
quanto a feminilidade está associada à subordinação e o quanto a transgressão
desses comportamentos esperados da mulher podem distanciar ou anular as
possibilidades de envolvimento afetivo e sexual.
Na comunidade, quando Bernarda passa a ser chamada, a priori em sigilo,
de “A tigre”, evidencia esse medo da mulher que administra uma fazenda e
coordena homens. Utilizar o vocábulo “tigre”, originalmente masculino, para
denominar Bernarda, implica na atribuição de características essencialmente
masculinas à personagem feminina. Podemos inferir que um homem que
desempenhe as mesmas atividades que Bernarda, possivelmente
não
recebesse nenhum apelido que o caracterizasse como feroz, violento.
Considerando que essas características são associadas aos homens, não
havendo, portanto, estranhamento da comunidade.
No que tange à relação sexual, tanto Inês, a égua liberta, quanto
Bernarda, a égua de pradaria, foram vítimas de uma vingança dos respectivos
amantes. A relação sexual como conquista de território e como dominação, pode
ser observada, por exemplo, quando, findado o ato sexual entre a filha mais
velha de Pedro Militão e Anrique, ela passa a ser considerada uma égua mansa,
domada. Esses acontecimentos corroboram, na obra, a primeira relação sexual
da mulher vinculada à honra da família, a um processo de dominação e vingança,
além da associação entre homens e animais, presente em toda obra.
Ressaltamos ainda o heteropatriarcado que permeia a divisão sexual do
trabalho, as concepções de relação sexual e de transgressão feminina. A mulher
sempre vinculada ao corpo e ao homem, como única possibilidade de, através
da instituição do casamento e da maternidade, cumprir sua função social,
tornando-se, de fato, uma mulher, de acordo com as expectativas da sociedade,
calcadas, por muito tempo, na medicina e na psiquiatria. A possibilidade de uma
relação fora da normatização do heteropatriarcado em momento nenhum é
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cogitada. Comprovando a soberania desse regime que institui, agencia e delimita
os desejos e comportamentos.
Mesmo tendo efetivado uma transgressão em relação ao comportamento
das mulheres, Bernarda quando desejou ter uma relação sexual com o tio,
recorreu às características de mulher liberta e sedutora da irmã, que ela reprimia
anteriormente. Nesse sentido, apontamos a soberania do ideal de feminilidade e
da dominação masculina, presentes até mesmo no comportamento daquela que
se negou a se enquadrar nas normatizações impostas há séculos para controlar
os campos de atuação, a sexualidade e a afetividade das mulheres.
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ALINE CUNHA DE ANDRADE SILVA Relações de Gênero