MOVIMENTO MESSIÂNICO DA SERRA DO RODEADOR E DA
COMUNIDADE DO MEU REI: UM BALANÇO HISTORIOGRÁFICO
Pedro Castellan Medeiros1
RESUMO
O messianismo é um movimento religioso, político e social de contestação caracterizado pela
busca de um paraíso na terra, através de um messias, um líder carismático que atua como um
intermediário entre a divindade e o homem. Esse líder indica as atividades e os caminhos que
deverão ser seguidos pelos adeptos até que seja alcançado o Paraíso Terreal. Pernambuco,
que historicamente é conhecido por ser palco de vários movimentos que vão de encontro à
ordem vigente, foi uma região marcada por importantes movimentos de cunho messiânico.
Através dessas características, este trabalho tem por objetivo fazer um balanço historiográfico
de dois movimentos messiânicos ocorridos no estado de Pernambuco: o movimento da Serra
do Rodeador – Bonito-PE, ocorrido em1820; o movimento de Meu Rei – Buíque-PE ocorrido
em 1970, dando ênfase as obras e autores que melhor discutem o tema. A metodologia que
será aplicada neste balanço historiográfico utilizará as fontes secundárias, abrangendo livros,
dissertações de mestrado, trabalhos de conclusão de curso, teses de doutorado e artigos. Esse
trabalho também se propõe a oferecer subsídios para estudos historiográficos futuros, que
tenham como objetivo analisar de forma comparada os movimentos de cunho messiânicomilenares do estado de Pernambuco.
Palavras-chave: Messianismo, Historiografia.
ABSTRACT
Messianism is a religious, political and social movement of contestation, remarked by the
searching of a paradise on earth, through a messiah, a charismatic leader who acts between
deity and man. That leader indicates the activities and paths which must be followed by the
adepts, until the discovery of the Earthern Paradise. Pernambuco, which is historically
known as a stage of many social movements who goes against the plain order, was a region
marked by important movements of messianic features. From those features, this work has the
objective of making a historical measure between two messianic movements which happened
in Pernambuco state: The movement of “Meu Rei”, in Buíque – PE, which occurred in 1970,
emphasizing writings and authors who best discuss the theme. The methodology which will
be applied in this historical measure will use secondary sources, like books, master degree
works, graduation title works, doctorate thesis and articles. This work proposes to offer
subsides for future historiographical studies, which has the objective of analyze as a
comparative measure the movements of messianic-millenary objectives in Pernambuco state.
Keywords: Messianism. Historiography.
1
Graduando de História pela Universidade Católica de Pernambuco. – [email protected]
223
INTRODUÇÃO
O nordeste brasileiro sempre foi palco de movimentos que contestam a ordem vigente
e que procuram estabelecer melhores condições de vida para sua população. É em meio a toda
essa efervescência política, religiosa e social que dois movimentos de cunho messiânicomilenaristas surgem. A Cidade do Paraíso Terrestre na Serra do Rodeador em Bonito, liderado
por Silvestre José dos Santos, ou mestre Quiou, que se instala na região por volta de 1817. O
movimento liderado por Meu Rei iniciado na década de 1960, fundando ao longo da sua
história três comunidades sendo a ultima sua principal, fazenda Porto Seguro na Serra dos
Bréus em Buíque, fundado em 1976 que perdurou por vinte três anos.
O presente artigo tem por objetivo fazer um balanço historiográfico inventariando as
produções bibliográficas sobre os movimentos citados, mesmo que possivelmente não
alcançando todas as obras existentes.
Não é nosso intuito analisar os dois movimentos em maiores detalhes. Os mesmos já
foram exemplarmente trabalhados pelos respectivos autores referenciados neste inventário
bibliográfico. Para efeito didático metodológico apresentaremos apenas de forma sintética os
mesmos.
1. BALANÇO HISTORIOGRÁFICO
Os movimentos messiânico-milenares que ocupam na mentalidade do povo o fascínio
e a superstição estão permeados por sua mitologia escatológica2, seus profetas e suas
profecias de um paraíso terrestre. É a partir dessa temática que os escritores e cineastas
constroem suas obras, que na maioria, das vezes lhes dão maior notoriedade do que os
trabalhos acadêmicos.
Os estudos dessas produções artísticas não estão inseridos nesse artigo, porém sua
importância deve ser salientada. Como exemplo citamos o livro clássico Os Sertões (1902) de
Euclides da Cunha que retrata o massacre ocorrido no arraial de Belo Monte e o O Romance
d’a Pedra do Reino (1972) de Ariano Suassuna, sobre o movimento sebastianista da Pedra
2
Escatologia: 1. Ciência ou teoria do destino ou propósito últimos da humanidade e do mundo. 2. Teol Doutrina
do destino do último homem (morte, ressureição, juízo final) e do mundo (estado futuro). – MICHAELIS,
Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, ed. Melhoramentos, 2007.
224
Bonita. Dentre os filmes, séries e documentários merecem menção A Guerra dos Pelados, de
Sílvio Back, retratando o episódio do Contestado e a Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende,
dentre outras obras.
Salienta-se, entretanto, a importância que os trabalhos científicos dão à compreensão
dos surtos e mobilizações desses movimentos socioreligiosos. Dentre os trabalhos que
estudam os movimentos messiânico-milenares “rústicos” Renato da Silva Queiroz3 utiliza três
vertentes de interpretações para classificá-los que traduzem períodos do desenvolvimento das
ciências sociais no país.
A primeira vertente está relacionada com as interpretações dos movimentos sob a ótica
biopsicológica. A segunda sob a ótica sociológica tradicional. E por fim as interpretações sob
a abordagem compreensivo-interpretativa (QUEIROZ, 2005).
No início do século XX os movimentos enquadrados sob a ótica biopsicológica
afirmavam a existência intrínseca da figura do sertanejo com o misticismo. Euclides da Cunha
em Os Sertões (1902) qualifica os movimentos através de fatores como a predisposição ao
fanatismo, analfabetismo, pobreza e ingenuidade. Segundo (QUEIROZ, 2005):
“Pelas teorias raciais da época, definem o sertanejo como um tipo de mestiço
emocionalmente instável, inclinado a um temperamento místico e belicoso.
Assim atribuem a um tipo biológico (o mestiço), majoritário nas populações
sertanejas, a responsabilidade por essa tendência psicológica aberta ao
misticismo. Trata-se, no caso, de uma concepção de patologia mental
associada à exaltação mística.” (QUEIROZ, 2005, p. 141).
Percebe-se que essa linha interpretativa tem por objetivo criar meios de diferenciação
ou delimitar fronteiras sociais entre grupos sociais do litoral, como uma sociedade avançada e
intelectualizada, e a do sertão como uma comunidade de bárbaros, grupos fanáticos,
incivilizados e rústicos. Dessa forma, nega-se a esse segundo agrupamento, quaisquer
demonstrações de vontade própria e autonomia (Queiroz, 2005).
A ótica sociológica tradicional foi desenvolvida na metade do século XX, sofrendo
influência da introdução das ciências sociais na temática. Queiroz (2005) a subdivide em duas
perspectivas. Aquela que percebe o messianismo como uma modalidade arcaica ou prépolítica, e aqueles que procuram uma tipologia para identificá-la.
Os teóricos de concepção materialistas, que abordavam o messianismo como uma
modalidade arcaica ou pré-política identificam no movimento a “falsa consciência” das
massas camponesas através de sua religiosidade (QUEIROZ, 2005).
3
QUEIROZ, Renato da Silva. Mobilizações socioreligiosas no Brasil: os surtos messiânico-milenaristas.
Revista USP, n. 67, p. 132-149, setembro/ novembro, 2005.
225
Segundo o autor, as obras estrangeiras que mais influenciaram essa ótica foram o
trabalho de E.J. Hobsbawn com Primitive Rebels e The Trumpet Shall Sound de Peter
Worsley. Entre os Brasileiros temos Rui Facó, autor de Cangaceiros e Fanáticos e Maurício
Vinhas de Queiroz em Messianismo e Conflito Social. Esses autores interpretam os
movimentos messiânico-milenaristas qualificando-os no conflito social, tendo como única
saída à reação contra as injustiças sociais. Enquadram os seguidores e líderes do movimento
como “fanáticos” caracterizando o movimento como religioso pré-revolucionário alienante,
fruto de uma crise estrutural e tensões entre classes. (FACÓ; HOBSBAWN; QUEIROZ,
APUD QUEIROZ, 2005).
À procura de uma tipologia para identificar esses movimentos, a partir da década de
1950, Maria Isaura de Queiroz revê os fenômenos posicionando-os sob numa lógica social,
classificando-os de acordo com a sociedade em que os mesmos se desenvolvem. A Autora se
ancora em teóricos como Durkheim e seus conceitos de anomia e dupla causalidade, assim
como em Weber e sua teoria do carisma. Maria Isaura adota em sua grande obra, O
messianismo no Brasil e no mundo (1976), segundo Queiroz (2005), um enfoque explicativo,
enquadrando os movimentos e examinando-os de forma empírica, ou seja, a partir do universo
teórico-conceitual do observador.
Também é percebida na obra de Maria Isaura (1976), a caracterização que dá aos
protagonistas dos movimentos. Antes tidos como apenas contemplativos à espera da
intervenção divina; agora, como força ativa e dinâmica em busca dos anseios da comunidade.
É tanto que encontramos, através da leitura de suas obras, nos movimentos messiânicomilenaristas, métodos e meios, sejam eles ritos, danças, orações, que objetivam alcançar o
paraíso terrestre.
Segundo Queiroz ( 2005) é a partir dessa vertente do fenômeno que:
“Cai por terra a tese de que os fenômenos messiânico-milenaristas não iriam
além de uma reação pueril ao cheque entre classes sociais, não se
caracterizando senão como modalidades arcaicas e inconsequentes de
revolução social” (p. 145).
Os estudos de Isaura (1976) foram decisivos para uma compreensão mais próxima do
real sobre as interpretações apriorísticas, até então hegemônicas, fossem elas jornalísticas,
literárias ou psicopatológicas; assim como para a releitura das mobilizações taxadas de
bárbaras e selvagens.
A terceira ótica interpretativa dos movimentos baseia-se em reconstituir o fato a partir
da visão dos que os protagonizaram. Segundo Queiroz (2005), o objetivo é a procura do
226
sentido do evento. Sendo uma abordagem mais recente, (décadas de 1970 e 1980),
encontramos importantes autores como, Laís Mourão (1974), Josildeth Gomes Consorte
(1984), Lísia Nogueira Negrão (1984), Alba Zaluar Guimarães (1986) e Douglas Teixeira
Monteiro (1977) falando sobre o tema.
Esses autores tentam investigar os surtos “de dentro”, utilizando o método
compreensivo que condiciona os pesquisadores a se igualar ao nível dos agentes e com eles se
identificar, à procura do significado atribuído pelos mesmos à suas ações. Queiroz (2005)
nesse sentido afirma:
“O nível de compreensão depende da análise dos símbolos da dimensão
simbólica inconsciente e também das razões explicitadas pelos agentes
sociais, pelos sujeitos: o discurso por eles elaborado sobre os símbolos a
partir dos quais se realiza a construção da realidade” (p. 146).
Após uma síntese, ancorado nos textos de Renato da Silva Queiroz, sobre as três
interpretações adotadas por cientistas sociais sobre o fenômeno messiânico-milenar,
apresentamos o balanço historiográfico dos dois movimentos surgidos em Pernambuco: A
Cidade do Paraíso Terrestre na Serra do Rodeador e o movimento liderado por Meu Rei
fundado a fazenda Porto Seguro em Buíque-PE em 1976.
2. BALANÇO HISTORIOGRÁFICO DOS MOVIMENTOS PERNAMBUCANOS
Dentre os principais autores que abordam os movimentos supracitados, destaca-se: o
professor da Universidade Católica de Pernambuco, Dr. Flávio José Gomes Cabral, com a
obra que se originou de sua dissertação de mestrado em 2004, “Paraíso terreal: a rebelião
sebastianista na serra o redeador – Pernambuco – 1820”. Esta obra analisa a força do mito
sebástico entre os sertanejos nordestinos que deram a esse movimento, por si só antigo, uma
nova feição adaptando-o as características das aspirações e necessidades do povo da
comunidade.
Jaqueline Hermann com seu artigo “Sebastianismo e sedição: os rebeldes do
Rodeador na Cidade do Paraíso Terrestre” que utiliza como proposta a possibilidade de
pensar esse movimento no conjunto das sedições. Nessa lógica de interpretação do conceito
encontramos também por Istvan Jancsó4, que demonstram a ruptura do movimento com os
4
Istivan Jancsó, “A sedução da Liberdade”, Laura de Mello e Souza (org.), História da vida privada no Brasil,
vol. 1, Cotidiano e vida privada na América portuguesa, São Paulo Companhia das Letras, 1997.
227
laços coloniais, assim como os autores Waldemar Valente (1963), René Ribeiro (1960),
Alexandre Alves Dias (1997) dentre outros5.
Sobre a comunidade fundada por Meu Rei, especificamente, apenas três autores foram
identificados tratando sobre o movimento. A monografia6 de Priscilla Pinheiro Quirino e
dissertação (ainda não publicada) de Priscilla Pinheiro Quirino intitulada de “Meu Rei e a
Construção do Paraíso” (2011). A autora traz faz uma análise acerca da devoção em torno da
figura de Meu Rei, sua formação no campo de atuação e reflete sobre os bens simbólicos
dessa mitologia que é seu principal capital com base nos ramos da História Social e da
Antropologia.
As dissertações de Carlos Buenos Ayres “Bréus, serra onde Deus habita, berço de
uma nova civilização: um movimento messiânico milenar em gestão no nordeste – (BuíquePE)” publicada no ano de 1994, e a dissertação de Renata Severino (2008) também serviram
para a análise do movimento.
A respeito da análise propriamente dita dos conceitos messiânico-milenaristas
destaca-se a obra de fôlego de Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976) reconhecida
internacionalmente como a maior especialista no assunto. Sob o título: “O messianismo no
Brasil e no Mundo” de 1976, traz uma visão global do fenômeno sob o viés sociológico.
Importante salientar também as obras de Norman Cohn (1996) e Max Weber (2008). Para
melhor entendermos os dois movimentos, é preciso conceituar alguns termos que serão
utilizados no presente artigo. “Messianismo”, “Movimento Messiânico”, “Messias” e
“Milenarismo”.
O fenômeno messiânico consiste em uma religião que acredita no advento de um
messias, ou mashiah em Hebraico, que seria um enviado divino com características
carismáticas7. É através dele que se irá corrigir a imperfeição do mundo, permitindo o
surgimento do Paraíso Terrestre. Tratando-se, pois, de um líder religioso e social. (QUEIROZ,
1976) Esse fenômeno estaria atrelado á espera desse messias, que ainda não nasceu ou não foi
revelado como tal.
5
A maioria destes trabalhos sobre os movimentos supracitados não foram analisados, apenas contendo no
inventário bibliográfico para ampliar a historiografia do tema.
6
QUIRINO, Priscilla P. MEU REI: a imortalidade no Sertão do Moxotó. Serra dos Bréus, Buíque – PE,séculos
XIX-XX. Recife: UFPE, Monografia, 2008.
7
Entende-se por carisma “a qualidade extraordinária que possui um indivíduo (condicionada de forma mágica
em suas origens, quer se trate de profetas, feiticeiros, de árbitros, de chefes de bandos ou de caudilhos militares);
em virtude dessa qualidade, o indivíduo é considerado oura como possuidor de forças sobrenaturais ou sobrehumanas – ou pelo menos especificamente extra quotidianas, que não estão ao alcance de nenhum outro
indivíduo.” (Max Weber, 1994, vol. I, págs 252-253, cit. QUEIROZ, 1965, pag. 5, cit. 6)
228
Como bem salienta Queiroz (1976), a história do messias segue sempre os mesmos
passos: eleição divina, provação, retiro e volta gloriosa. As ações que o messias desenvolve
com ajuda dos seus seguidores (povo eleito), com o objetivo de alcançar mais rapidamente o
paraíso terrestre, consistem no movimento messiânico.
Já o milenarismo é a crença na volta do messias, ou seja, ele já veio a terra, já pregou
suas ações e atividades, fez seu retiro e agora os seus adeptos o esperam para seu retorno
glorioso para instauração do Reino Milenar. Como exemplo o Cristianismo pode ser
considerada uma religião milenar, pois seu messias já veio e agora seus adeptos o esperam
para concretizar o Reino Milenar. (Queiroz, 1976)
Para entendermos a diferenciação entre messianismo e milenarismo nos apoiamos em
Maria Isaura quando a mesma afirma:
“O problema do milênio é mais vasto que o problema do messianismo. [No
Milenarismo] Não é apenas por meio de um enviado divino que se pode
inaugurar no mundo o paraíso terrestre; este pode resultar da formação de
seitas sem chefes, ou mesmo de práticas mágicas adequadas.” (QUEIROZ,
1965, p. 9 cit. 23)
Ampliando a afirmação da autora acima citada, Priscilla Quirino afirma:
“O milenarismo seria a esperança de um retorno do Salvador, ou Messias,
para que o mesmo possa cumprir todas as suas promessas.[...] Já o
messianismo seria o aguardo do surgimento do messias.” (QUIRINO, 2011,
p. 50)
Os autores que aqui elencamos nesse balanço historiográfico, faz menção aos dois
movimentos estudados como ditos, movimentos messiânico-milenarista, percebendo assim
que a comunidade do Rodeador esperava o messias (D. Sebastião) através do profeta Quiou,
tentando assim instaurar um período de felicidade, realizando a seus adeptos a ascensão social
e ao enriquecimento. Já na comunidade de Meu Rei, o messias já teria chegado, como o
próprio Cícero Farias, e através das ações na Fazenda Porto Seguro, esperaria o terceiro
milênio chegar e instaurar na terra o Paraíso, onde não haveria mortes, roubo, tristeza nem
pobreza.
2.1 MOVIMENTO DA SERRA DO RODEADOR
Na primeira metade do século XIX, por volta de 1817, em meio à turbulência do
período um grupo de camponeses liderados por Silvestre José dos Santos, ex-soldado do 12°
229
batalhão de milícias, fundam na Serra do Rodeador a Cidade do Paraíso Terrestre junto a uma
encosta considerada “encantada”.
Nessa serra, local de excêntrica beleza natural, que o cognominado profeta agrupou
em torno de si quatrocentos adeptos (QUEIROZ, 1965) com o objetivo primeiro de esperar.
Esse período no Brasil foi acompanhado de diversos movimentos messiânicos, que
explicitado anteriormente, refere-se à espera de um salvador que vem trazer a esperança e
felicidade para uma comunidade, e transforme seu espaço de atuação numa terra afastada das
injustiças.
Através dessa esperança José Silvestre dos Santos profetiza o retorno do Rei D.
Sebastião8, e com ele a riqueza e a felicidade a todos que se juntassem a comunidade.
Considerado o Primeiro surto sebastianista do país, o movimento teve o caráter messiânicomilenarista envolvido por um grande apelo social.
Ao analisar as características religiosas do período, percebemos que as liturgias e
missas do cristianismo foram sendo adequadas as crenças populares do interior do nordeste.
Longe das autoridades eclesiásticas, a atuação dos segmentos do clero na região foi quase
negligenciada, dando espaço a um sincretismo entre dogmas e ritos cristãos aos contos e mitos
populares (CABRAL, 2004).
Utilizando-se desse sincretismo religioso, e do poder carismático do Profeta Silvestre,
conhecido como Mestre Quiou, o mesmo utiliza em seu discurso o mito do Retorno no Rei
Dom Sebastião. Queiroz (1976) e Cabral (2004), entretanto, salientam que a adaptação que
sofreu o mito português (a recondução de Portugal a liderança entre as nações), nos trópicos
brasileiros, perdendo o sentido para os brasileiros. O interesse se centrava na ascensão social e
o enriquecimento dos adeptos. Mesmo assim a figura central nunca deixou de ser o Rei
Desejado. (CABRAL, 2004 cit. QUEIROZ, 1976).
Diversos segmentos da sociedade reuniram-se na comunidade rural do Rodeador.
Homens livres, índios, mulatos e negros forros, assim como desertores, que segundo Cabral
8
O mito do retorno do rei D. Sebastião foi construído entre os séculos XVI e XVII em Portugal, que tinha por
esperança a volta do monarca português desaparecido na batalha contra os mouros em Alcácer-Quibir em 1578.
D. Sebastião, que era esperado antes mesmo de nascer pelo povo português, pois trazia em seu nome a esperança
de retomar o período de ouro lusitano. Mesmo sua administração do reino sendo caracterizada como desastrosa
por causa de sua personalidade, O desejado, como era conhecido, depois de seu desaparecimento na batalha
contra os mouros, deixou, através de crenças e mitos, a esperança para o reino português, da volta do monarca
que iria trazer a felicidade, prosperidade e superioridade do reino português diante dos outros países, estabelecer
a ordem e a glória da dinastia de Avis. (HERMANN, 2000)
230
(2004) tomavam essa atitude como um ato de resistência ao sistema do recrutamento militar
forçado do período.
Com o crescente aumento de adeptos, e as denúncias vindas de fora da comunidade,
Luís do Rego Barreto começa a se preocupar com o desenvolvimento daquela comunidade,
uma vez que ali se estabeleciam, sob sua ótica: salteadores, bandoleiros, desertores das fileiras
militares e toda horda de mendigos, que segundo sua impressão preparavam um cisma
religioso e maquinavam contra o rei (BARRETO APUD CABRAL, 2004).
Assim, em 25 de outubro de 1820 o governador envia tropas militares massacrando depois de muita resistência - os membros da Cidade do Paraíso Terrestre. Silvestre consegue
escapar, mas a maioria dos seus acólitos são presos e submetidos a processo, depois de
liberados.
Flavio Cabral e Jaqueline Hermann (2001) percebem o movimento da Serra do
Rodeador como um ensaio sedicioso, tipo de movimentação que despertou o estudo do
historiador Istvan Jancsó9, representando a revolução sobre a ordem vigente, um futuro
desejado, a modificação de um modo de vida. O cotidiano da cidade do Paraíso Terrestre
representava uma transgressão – negação a um modelo social que os excluía. (CABRAL,
2004).
2.2 MEU REI E A COMUNIDADE NA SERRA DOS BRÉUS
Apenas três autores desenvolveram trabalhos sobre essa comunidade. Esse artigo se
ancora no trabalho mais recente e que julgamos o mais completo.
Meu Rei e a Construção do Paraíso de Priscilla Pinheiro Quirino10, dissertação de
mestrado, ainda em prelo, do programa de Pós-graduação em História da Universidade
Federal de Pernambuco, sob a orientação da Professora Doutora Sylvana Maria Brandão de
Aguiar.
Essa pesquisa faz uma análise acerca da devoção existente em torno da figura de
Cícero José de Farias (Meu Rei) e da formação do campo de atuação deste líder e seus agentes
que atuavam na manutenção desse campo. Através dos conceitos de Pierre Bourdieu sobre os
9
Istvan Jancsó, “A sedução da liberdade”, Laura de Mello e Souza (org.), História da Vida Privada no Brasil,
vol. 1, Cotidiano e vida privada na América Portuguesa, São Paulo, Companhia das Letras, 1997.
10
QUIRINO, Priscilla Pinheiro. Meu Rei e a Construção do Paraíso. Recife, UFPE, Dissertação de Mestrado no
prelo, 2011.
231
bens simbólicos e suas trocas simbólicas, Quirino (2011) reflete sobre a administração desse
mercado de bens simbólicos no qual a religião de cunho apocalíptico é seu principal capital.
(QUIRINO, 2011).
No dia 13 de Janeiro de 1932, Cícero José de Farias dono de um mercadinho em
Arcoverde sertão de Moxotó, tem o primeiro contato telepaticamente com a divindade e
recebe da mesma sua primeira missão: peregrinar pelo Nordeste realizando curas,
denominando-se de carisma da cura.
Cícero peregrinou por várias cidades do Nordeste, entre os estados de Pernambuco,
Paraíba, Ceará, Alagoas e Bahia. Nessas peregrinações algumas famílias agradecidas pela
cura oferecida por Cícero, passaram a segui-lo em suas peregrinações. Através de uma
“teofania marcada pela percepção sensorial não visual de um jato de energia”
11
tem o
primeiro encontro com Deus, que lhe nomeia como Israel e retira o seu poder de cura, pois
afirma que o eleito de Deus não seria conhecido como curandeiro. Afirma também Deus, que
a missão de Israel duraria toda sua vida, e ele tinha como objetivo encontrar um local
apropriado (gruta ou caverna) para que o mesmo prepare os eleitos para guardarem a entrada
do terceiro milênio.
Israel em suas peregrinações tenta encontrar esse local para que se fixe com seu povo
eleito. Nas regiões por onde peregrinou o profeta ocorreram diversos atritos, tanto com os
clérigos da igreja católica quanto latifundiários que pediam seus vassalos para o “fanático”.
Passando essas divergências, Israel fixa sua comunidade, a fazenda Porto Seguro, no distrito
do Catimbau no município de Buíque, comprando terras na Serra dos Bréus.
Foi na Fazenda Porto Seguro que Meu Rei12 e seus prosélitos iniciam a construção da
comunidade para a espera do milênio. O objetivo de Meu Rei era tornar a fazenda num local
autossuficiente, onde reinaria a harmonia entre seus moradores.
Quirino (2011) afirma, com base em Max Weber e Jean Delumeau, que para garantir a
consolidação e permanência da ordenação do espaço social, Meu Rei cria o Código ÉticoReligioso, que além de justificar a fundação da fazenda, mostra os deveres de cada um,
consistindo proibições formadas em dez tópicos básicos: o diabolismo, a idolatria, a feitiçaria,
11
APUD, QUIRINO, pag. 90.
BUENOS AYRES, Carlos. Breus, serra onde Deus Habita, berço de uma nova civilização: um movimento
messiânico-milenar em gestão no Nordeste – (Buíque-PE). Dissertação de Mestrado em Antropologia. Recife:
UFPE, 199, pag. 26. APUD
12
Nome em que agora fica conhecido por causa da denominação que Deus-Pai lhe dá como o Rei de Paz.
(QUIRINO, 2011)
232
os sequestros, os assaltos, os roubos, matar, o uso de entorpecentes, o jogo e as festas de
intervenção como o carnaval. Todas essas proibições eram necessárias para permanecer
vigente essa estrutura social.
Meu Rei vem a falecer, por causas naturais, aos seus 115 anos de idade, no dia 13 de
Janeiro de 1999, deixando seus seguidores atordoados e perdidos. Vários deles deixaram a
fazenda por perderem as esperanças no milênio, deixando assim suas casas e retornando para
a mesma sociedade que abandonaram há muito tempo. Segundo a autora, a comunidade hoje
em dia perdeu a sua finalidade religiosa, e pelas suas características atuais a comunidade
encontra-se relegada ao panorama de mais uma comunidade rural das proximidades do Vale
do Catimbau.
CONCLUSÃO PARCIAL
De acordo com os autores aqui estudados, percebemos que os surtos messiânicomilenares aqui estudados, têm as características de restaurar, transformar ou modificar a
sociedade em que surgem, fomentando na crença, a possibilidade de transformar o mundo em
um Paraíso Terrestre. É através do líder carismático que essa crença aparece, fazendo com
que esse sonho transforme o cotidiano e a mentalidade das pessoas que acreditam. Refletimos
também sobre a força que um líder carismático, como Meu Rei e Silvestre dos Santos têm
sobre seus acólitos, e como se dá a relação entre eles.
São através dessas características que o estudo nesse tema torna-se tão importante
para o estudo da história, mesmo que os movimentos não interfiram diretamente nas grandes
estruturas da sociedade brasileira do período em que estes fenômenos aconteceram, é através
dos estudos desses fatos que podemos sanar as lacunas existentes na historiografia tradicional
a respeito do tema.
Por isso desenvolvemos esse artigo com o objetivo de facilitar os próximos estudos
sobre
os
movimentos
messiânicos-milenares
dando
subsídios
às
sua
produções
historiográficas que são pouco estudadas e que ainda permeia a mentalidade do povo
nordestino.
REFERÊNCIAS
233
CABRAL, Flávio José Gomes. Paraíso Terreal: a rebelião sebastianista na Serra do
Rodeador – Pernambuco, 1820. São Paulo: Annablume, 2004.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1902
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Eterno Retorno: Limites e possibilidades de Reflexão. Ciência da Religião – História e
Sociedade, vol. 6, n. 2, pag. 13-35, 2008.
HERMANN, Jaqueline. Sebastianismo e Sedição: Os Rebeldes do Rodeador na Cidade do
Paraíso Terrestre, Pernambuco – 1817-1820. Tempo. Rio de Janeiro, Universidade Federal
Fluminense, vol. 6, n. 11, 2001.
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Portugual, século XV e XVII. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
NEGRÂO, Lísia Nogueira. Revisitando o messianismo no Brasil e profetizando seu
futuro. RBCS – Revista Brasileira de Ciências Sociais – Vol. 16 n. 46, pag. 119-129, Junho/
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QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O messianismo no Brasil e no Mundo. 2. Ed. São
Paulo: Alfaômega, 1976.
QUEIROZ, Renato da Silva. Mobilizações socioreligiosas no Brasil: os surtos messiânicomilenaristas. Revista USP, n. 67, p. 132-149, setembro/ novembro, 2005.
QUIRINO, Priscilla Pinheiro. Meu Rei e a Construção do Paraíso. Recife, UFPE,
Dissertação de Mestrado no prelo, 2011.
SUASSUNA, Ariano. Romance d’a Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue Vai-e-Volta:
Romance Armorial Popular Brasileiro. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1972.
AMARAL, Francisco Pacífico do. Escavações: Fatos da História de Pernambuco. 2. Ed.
Recife: Edição do arquivo Público Estadual, 1974.
BUENOS AYRES, Carlos. Bréus, serra onde Deus habita, berço de uma nova civilização:
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