A CIÊNCIA, O MOSAICO, OS ESPELHOS
Vinicius de Moraes Netto
Porto Alegre, setembro de 1998
A CIÊNCIA, O MOSAICO, OS ESPELHOS
A Ciência Como Um Mosaico De Espelhos
A posição do cientista é de quem coloca teorias, propõem idéias sobre o universo. O
cientista é motivado por uma curiosidade e por uma ambição de descrevê-lo, entendê-lo, de
traduzi-lo por palavras e por imagens; capazes de ser seu equivalente no mundo das idéias; o
cientista acredita firmemente que é capaz de ter idéias para desvendá-lo, ao menos parcialmente. A
ciência como conhecimento procura revelar o universo, mostrar o que ele é de fato, pelo “clarear” e
pelo enxergar seus elementos, e seu todo.
A ciência é uma paixão, um idílio do homem com o universo e com ele mesmo (como
Apolo, Prometeu e Narciso); é o sonho de produzir um conhecimento puro, asséptico, sem resquícios
de seus sujeitos criadores - um fiel espelho para o mundo das coisas. Se Deus havia criado o
Universo e paira em relação a ele, o homem criou a ciência com a pretensão de ter o espelho
perfeito.
A idéia como criação; a formação da imagem; a idéia como espelho
O cientista produz a teoria a partir de uma idéia original, em função da visão dos elementos
e relações do fenômeno, visão esta situada a partir de outras idéias de base orientadora das
relações. Essas idéias originais tem início numa espécie de impulso - o insight.
O impulso criativo do insight pode ser imaginado como “relâmpagos” de conexões entre
aspectos procurados e percebidos no fenômeno; consiste em relações que parecem ser feitas de
modo inconsciente, não mediadas pela linguagem ou pelo pensamento formulado na linguagem.
O insight é uma imagem súbita de parte da realidade; gera uma impressão de verdade, de certeza,
uma conclusão, como uma simulação do fenômeno na mente ou a formação da sua imagem ou de
palavras-chave, que subitamente expressam e a representam o fenômeno almejado. A idéia
original para a ciência, que virá a constituir a teoria, é um esforço de criação - um impulso que
relaciona aspectos observados no real de maneira nova (nova interpretação de aspectos já
conhecidos, novas relações entre aspectos conhecidos, novos aspectos). O esforço a seguir é
constituí-lo em palavras; é analiticamente reconstituir a imagem.
O impulso da formação da imagem pelo cientista pode não necessariamente corresponder
a realidade. Mais precisamente, mesmo aspirando ser espelho parcial fiel, a teoria não parece capaz
de refleti-la perfeitamente - em função da forma de estruturação das idéias de aspectos objetivos,
2
construídos por relações traduzidos em palavras. Antes, a teoria reflete o mundo de acordo aos
“olhos” do momento.
O cientista procura constituir teorias que reproduzem ou expliquem parcialmente a
realidade - como constituir os espelhos cuja imagem reflete a coisa. A constituição das idéias aspira
refletir amplitudes cada vez maiores e gerar imagens cada vez mais precisas do real. A visão de
teoria seria como uma imagem, uma vista sem profundidade da realidade, equivalente a imagem
do objeto no espelho. As teorias entretanto constituem-se como espelhos em ângulos específicos
frente a realidade (se está posicionado de modo preciso, a imagem corresponderá ao ângulo
intencionado do objeto, e o mostrará em verdadeira grandeza), tendendo a ser’ diferentes entre si, e a
mostrar melhor certos elementos que outros (o problema do foco), uns e não outros (o problema do
ângulo).
O pensamento pode ser visto como um espelho da coisa; a idéia como um simulacro da
matéria.
A ciência como justaposição dos espelhos - o mosaico
Se cada cientista pode produzir seu espelho, ou trabalhar no refinamento (angulagem e
regularização de superfície) de um espelho já constituído, podemos enxergar o vasto campo dos
conhecimentos científicos como uma intenção de gerar espelhos para o universo, para o mundo,
para a realidade.
Entretanto, um imenso espelho como a ciência não nasce monolítico; a ciência não é um
espelho uno; é formado pela justaposição dos trabalhos e teorias individuais dos cientistas, ao
longo do tempo. A ciência é constituída por teorias estruturadas em vários campos de saberes que
são tidos como capazes de revelar aquele recorte de realidade. A totalidade dos campos e suas
teorias “embutidas” seriam capazes de constituir-se como o espelho investigativo da realidade.
Entre os desvios da infinidade de espelhos está a imagem da realidade
A ciência - esse mosaico constituído por pedaços de espelhos de variados tamanhos,
justapostos em teorias que as vezes contradizem-se, não complementam-se, mostram faces
específicas com distorções individuais - pode ser o espelho da realidade? Uma especulação do
presente trabalho é a de que, no balanço do panorama geral de pequenos espelhos em angulações
e nitidez diferentes sobre os fenômenos, por vezes incompatíveis e desarticuladas, entre todos
3
esses pequenos desvios e distorções, tenhamos uma visão razoável do que é de fato a realidade;
como se o somatório dos desvios errados, opostos, díspares, revelasse uma imagem ainda
verossímil da realidade.
Entre os espelhos, os aspectos e relações ainda não objetivados
Entretanto, se cada grupamento de teorias ou espelhos são visões parciais de um
determinado recorte do real, e se cada espelho representa uma visão de objetos específicos,
podemos imaginar que entre dois espelhos que reflitam determinadas imagens do seu fenômeno
hajam espaços, descontinuidades, falhas que correspondem aos seus aspectos e relações ainda não
objetivados. Isto é, ainda não se constituíram espelhos para revelar tais aspectos e relações.
Freqüentemente, novas relações “descobertas” entre aspectos conhecidos podem como que
substituir dois espelhos apresentando descontinuidades e deformações mais evidentes com um
único espelho, cuja imagem mais ampla é vista como mais uniforme - a partir de esclarecimentos
sobre as relações internas do fenômeno. Entre os espelhos, nas descontinuidades das imagens e
nos aspectos sem foco de um espelho estão os aspectos ainda por objetivar. - a ciência assim é
vista em eterno rearranjo de campos de teorias: os espelhos fundem-se, desaparecem e surgem
novos.
A disciplinaridade: subconjuntos de espelhos dentro do grande painel
As formações da ciência em campos disciplinares podem ser consideradas como conjuntos
de espelhos capazes de abordar um grupo específico de objetos do real, delimitados e aproximados
por semelhanças de características observadas, isto é, conjuntos de teorias sobre subconjuntos do
real. Estes pedaços de espelhos são agrupados e ajustados progressivamente como evolução dos
campos disciplinares: debates internos dento do campo, sofisticação e complementação das
categorias de análise, amplitude e profundidade e o recorte. A partir das definições dos
subconjuntos - baseadas em critérios adotados -, as teorias se ajustam, se delimitam e delimitam
sua visão do objeto.
As disciplinas de conhecimento podem ser vistas assim como esses arranjos de
subconjuntos. Entretanto, esta formação pode facilmente apresentar, a partir de “determinações”
internas do campo disciplinar (o angulo genérico dos seus espelhos, uma “calibragem” interna de
sua imagem para aspectos relativamente dados e listados como possibilidades compatíveis da
disciplina) gerar descontinuidades potencialmente consideráveis na ampla imagem da realidade.
4
Nessas grandes descontinuidades ou falhas dos recortes disciplinares poderiam perder-se aspectos
e relações importantes da realidade, ou minimizar-se em visões de soslaio destes aspectos, que
apareceriam pequenos e embaçados demais na imagem do conjunto de espelhos do campo
disciplinar. Estes vastos subconjuntos de saberes são definidos e variam com o tempo, modificam
seu campo interno de abrangência do mundo real, de acordo a relações estabelecidas e maleáveis
dos critérios de semelhança observados no fenômeno.
A interdisciplinaridade, por seu turno, consistiria no giro de alguns dos espelhos da disciplina,
a sua substituição ou criação na região de espelhos de angulação “prevista”, mediada previamente
para o fenômeno buscando angulações intermediárias entre grupos de espelhos, de modo a revelar
aquelas imagens que não estavam vistas pelo “degraus” entre ângulos de subconjuntos.
A forma do mosaico
A forma do imenso mosaico de espelhos da ciência como plana não seria suficiente para
demonstrar o “caráter material” dessa superfície, esses grandes grupos de face reflexiva
relativamente homogênea das disciplinas. Para a presente analogia o espelho deve ser visto como
espacializado, isto é, é preciso a dimensão da profundidade para a metáfora mostrar mais
possibilidades analógicas.
O painel do mosaico da ciência deve ser côncavo e semicircular, como a face interna de uma
esfera ou de um cilindro. A superfície curva mostra o objeto em sua tridimensionalidade: ao
circundar o objeto (ou a realidade), um mesmo fenômeno pode ser visto de diferentes formas,
como olhares de ângulos distintos de visões parciais.
Os espelhos curvos
O ideal da ciência seria nessa lógica constituir-se como imenso painel curvo e único. Para
tanto, cada teoria de cada cientista deve apresentar internamente seus limites em relação ao objeto
que também apresentem-se consolidadas e claras as conexões aos limites das teoria seguinte. A
similaridade de ângulos entre dois espelhos justapostos mostra que, mesmo que não haja relação
explícita, as conexões efetivas de uma teoria estariam abertas o bastante e com “limites”
desenhados de forma suficiente a se encaixar razoavelmente na teoria seguinte. Suporia cada
ciência como um conjunto de teorias perfeitamente adequadas entre si, complementares, nãocontraditórias, tendo em si as pistas sobre o fenômeno que venham a ser confirmadas e
continuadas no restante das teorias - um ideal de ciência perfeita.
5
Entretanto tal modelo parece, além de impossível, indesejável. Impossível porque tais
conexões harmônicas entre teorias se mostram como uma obra intelectual dificílima, pelo extenso
trabalho de amarração e adaptação interna de componentes (conceitos, métodos, lógicas,
procedimentos) de acordo a seguinte. Ainda, a definição específica dos recortes da realidade e
uma distribuição homogênea de linhas e corpos teóricos, o que suporia uma isometria entre os
campos de saber - pouco possível em função das diferenças de abordagem e de definição e
escolha de categorias de análise, comparáveis entre si e correspondentes à faces determinadas e
exclusivas do objeto.
Seria indesejável, porque tal esforço de amarração perfeita de teorias pressuporia ou um
quadro de termos absolutamente compatível - e cairmos novamente na obra extensa de resultados
de compatibilização - ou um quadro teórico definido e estável, intencionalmente estagnado - ou
coordenadamente avançando em todas as suas frentes.
A ciência no primeiro caso estaria
esgotada1, o que não parece possível: o cientista é movido por uma espécie de queda ou mergulho
no raciocínio para enxergar o objeto, ter sua imagem, e construir um novo espelho que venha a
melhorar nossa compreensão da realidade; completar ou substituir formas de saber anteriores. No
segundo caso, o avanço sincronizado dos conhecimentos pareceria demandar tanta atenção lateral
para a outra disciplina que provavelmente não viabilizaria o avanço. A ciência deve ser assim
maleável: o mosaico de pedaços de espelho apresenta-se como modelo de ciência que progride em
sua ambição de compreender a realidade.
O mosaico complexo
A ciência constitui-se como uma única e imensa superfície que mostra desde as instâncias
do subatômico, o universo intracelular do DNA, ao universo das estrelas e da luz, e ao universo
interior da mente humana, o universo criado e abstrato das próprias idéias e imagens. Contudo,
um único mosaico revelaria todas essas multidimensões?
A noção de que a ciência é um mosaico de espelhos, terá de assumir certa “liberdade” em
relação as nossas noções comuns de materialidade: imaginemos que num imenso mosaico
coexistam, as vezes lado a lado, imagens em zooms distintos, em escalas absolutamente diferentes como a teoria quântica e suas relações à teoria da relatividade na tentativa de conceber-se a teoria da
grande unificação; ou ainda as teorias do DNA explicando a evolução das espécies. Assim, essa é a noção
1
sobre esse tema temos uma publicação recente, “O fim da Ciência”, de John Horgan.
6
do mosaico complexo de espelhos: ao olhar o painel da ciência, temos imagens simultâneas,
janelas para diferentes níveis de relação, tamanho dos objetos, naturezas dos fenômenos, etc.
A ciência: visão bidimensional da realidade?
Se a teoria pode ser considerada uma visão “chapada” de aspectos da realidade, cuja
“profundidade” estaria reduzida a simplificação da vista/recorte analítico, a tridimensionalidade
exigiria a amarração de várias categorias de análise, várias vistas do objeto. Tal amarração contudo
é provavelmente impossível devido as dificuldades de manipulação, compatibilização e inter-relação
(categorias e conceitos referentes à virtualmente todos os aspectos e relações internas e externas)
das características observadas no fenômeno.
Então a ciência estaria condenada à visão bidimensional? A resposta que encontro é sim e
não. Sim porque de fato ela se constituirá como um conjunto de visões-recorte, não parecendo
capazes de integrar-se de maneira complexa 2 com profundidade análoga à real.
E não, pois entre suas visões parciais de vastos “todos” ou partes, no espaço em branco
entre e em frente os espelhos podemos montar ou projetar a imagem, como um holograma do objeto.
Isto é, ao analisá-lo com o leque de categorias de análise dos conhecimentos disponíveis,
articulando-os mentalmente sob forma de pensamento não-linguístico, não-analítico, não-lógico,
não-processual, não-linear3, seríamos capazes de concebê-lo, visualizá-lo, gerar sua imagem
imediata, como o insight - e então compreendê-lo.
Entretanto, aparentemente o homem não terá todos os espelhos planos parciais em torno
do objeto - parece que sempre haverão aspectos que podem carecer de objetivação (objetivação
como passar a existir) e compreensão (mover os instrumentos disponíveis para “fazer aparecer” a
característica). Esse fato é tão teórico e ideal quanto a aspiração da ciência em ser um espelho
perfeito - porém mais ilustrativo das possibilidades mais prováveis da ciência.
A especulação do presente texto é de que, se a constituição do “espelho curvo único” for
o objetivo a ser alcançado pela ciência, terá de passar pela dificuldade que na verdade lhe é
intrínseca e inevitável: a da própria estrutura lingüística do pensamento analítico racional (ratio =
parcela), linear (ou multilinear, contendo várias linhas), lógico, processual. O procedimento
racional, assim, parece o maior obstáculo para a compreensão “perfeita” da realidade.
2
Como na definição em MORIN, E. A Epistemologia de la Complejidad, in SCHNITMAN, D.F. Nuevos Paradigmas,
Cultura e Subjetividade. Buenos Aires : Paids, 1995.
3
O caráter lógico e processual do raciocínio é tratado em MORIN, Op. Cit., e MORIN, E. Ciência com Consciência.
Portugal : Mira Sintra - Mem Martins, 1982.
7
A imagem e a dissecção dos seus conteúdos
O ajuste dos espelhos para a formação da imagem depende de sua nitidez, foco,
angulação, correspondentes a escolha e ajustes das categorias de análise.
A análise revelará precisamente os conteúdos já “identificados” previamente com a
observação. Esses conteúdos são vislumbrados nessas primeiras observações (ou identificados ou
“escolhidos”) de acordo com o condicionamento de uma lógica de amarração já introjetada no
cientista - a estrutura ou o modo lógico orientará a manipulação e relação dos elementos teóricos
extraídos do objeto para a estruturação das ligações entre elementos {em seguida nos insights.}?
Essa lógica de amarração que marca o modo de pensar do cientista seria formada pelo seu
paradigma4 orientador, pela linha ou campo específico de pesquisa dentro do paradigma, ou ainda
individualmente ajustada ou criada pelo cientista - uma flexibilidade gradual a partir do trabalho
do cientista “normal”5 ao trabalho de melhorar ou quebrar os mencionados moldes lógicos de
articulação e os pressupostos orientadores de um paradigma.
Vislumbrados os conteúdos do corpo (ou vísceras), pré-amarrados por uma lógica não
mediada pela linguagem, sugerida pelo paradigma e assumida pelo cientista, este passa a expressála racionalmente, de forma linear pelo procedimento da análise através da palavra ou da fórmula,
adequada pelas “normas” do proceder científico - que mesmo sob o respeitável desígnio de
“científico”, são fundamentalmente medidas de bom senso e cuidado no proceder do raciocínio,
no estabelecer conexões entre elementos, no mapear os processos e os caminhos de causação e
efeitos em torno do fenômeno.
Outras considerações seriam as seguintes: podemos imaginar o problema do foco como
contendo o problema da neutralidade 6: a escolha7 pelo cientista das categorias de análise, das lógicas
de ligação entre aspectos/interpretação do fenômeno. Para determinado foco, certos contornos
ficam nítidos e outros não; certas cores se evidenciam. O problema do ângulo pode ser visto como a
escolha dos critérios embutidos nas categorias de análise.
4
KUHN, Thomas. A estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo : Perspectiva. Col. Debates, 1982.
KUHN, Thomas. Op.Cit..
6
MORIN, Edgar. Op.Cit.
7
A escolha pode ser motivada por razões psicológicas, como especula KUHN (op. cit..)
5
8
Os espelhos e as essências8 - a biópsia (e a morte do corpo?)
(Em função da estrutura do pensamento, da capacidade mental de estruturação: relação de
maneira limitada - numero limitado, relação limitada de conexões).
Os conteúdos ou vísceras expostos pela análise, as imagens/conteúdos definidos a partir do
interior do elemento observado, inter-relações feitas, mecânica e dinâmica mapeadas, o fenômeno
é entretanto apreendido? O todo do fenômeno é revelado pela dissecção das partes?
Podemos imaginar duas teses à esse respeito: uma especulação de cunho cognitivo
(relativamente simples, mas arriscada); e outra de cunho fenomenológico (se posso chamar assim),
relativamente tradicional.
A de cunho cognitivo é a especulação já colocada da montagem hologramática do objeto a
partir das sucessivas análises: a ligação não-linguística de seus excertos/elementos/componentes
para chegar a compreensão do objeto, da sua essência. A segunda é a crítica da fenomenologia de
Merleau-Ponty, que chama a ciência de “pensamento de sobrevôo” que “manipula as coisas e
renuncia a habitá-las”9. A ciência não ofereceria a abordagem para o reconhecimento dos corpos,
a percepção de sua existência (e sua relação indissociável com o sujeito, a “intersubjetividade”10),
como se o pensar não deixasse espaço para o sentir e perceber. Daí caímos na cisão percepçãocognição (mente que pensa, mente que sente) - esse dualismo
11,
como tantos típicos das
manipulações bipolares de nossa tradição racional.
Será que ambas não são a mesma coisa? O cientista não estaria, a partir do insight
(descoberta da visão e montagem súbita de um todo) e do esforço racional e científico de
demonstrá-lo, esquecendo de remontar o todo no final? Esquecendo de retornar à sua impressão
inicial do todo - e montar o holograma a partir dos espelhos? Não seria essa a denúncia de MerleauPonty? A impressão sensível da coisa para o fenomenólogo não é análoga (ou semelhante ou a
mesma) àquela colhida no insight pelo cientista? A impressão que originalmente motiva o cientista
a prescrutar o interior do elemento - e relacionar, mesmo inconscientemente, sem o raciocínio, sem
a linguagem, estes “indícios” apreendidos.
Na impressão que motiva o prescrutar, que gera o insight, que leva ao raciocínio e ao
procedimento científico, não está a impressão sensível da coisa?
8
A idéia da “essência” foi sugestão/imagem do colega Júlio Celso Vargas.
MERLEAU-PONTY, Maurice. apud CHAUÍ, Marilena. Merleau-Ponty. São Paulo - SP : Abril Cultural , 1980
10
MERLEAU-PONTY, Maurice. abud CHAUÍ, Marilena Op. Cit.
11
BOMBASSARO, Luiz C. As Fronteiras da Epistemologia. Petrópolis, RJ : Vozes, 1992.; PARMÊNIDES abud
KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. São Paulo, SP : Nova Fronteira, 1984.
9
9
A realidade é maior que o mosaico
As exigências internas da ciência para estabelecer-se como conhecimento puro, espelho fiel
do real - a questão da comprovação das teorias - na verdade se mostram como um limite de
alcance e tamanho para a ciência nessa aspiração. A realidade tem muitos elementos que a ciência
não pode considerar. Uma série de filósofos, como Morin12 e Merleau-Ponty13 colocam o
fechamento da ciência para fenômenos não-mensuráveis, de difícil objetivação e manipulação. O
universo para a ciência é o universo do visível e do mensurável - a ciência é a “pensamento de
sobrevôo”14 às coisas.
Essas dificuldades parecem estabelecer certa hierarquia entre as disciplinas científicas
quanto a capacidade de demonstração, comprovação e refutação de suas teorias: epistemólogos
como Popper15 fazem francamente a crítica aos campos da Sociologia e da Psicologia por tais
motivos.
O mosaico vivo da ciência
A ciência avança refinando instrumentos e teorias, e reconstituindo-as em novas teorias,
remanejando e gerando novos campos de conhecimento. A ciência avança ajustando-se e
refinando o alcance de seus espelhos para o mundo, progressivamente substituindo-os por
espelhos tidos como mais fiéis.
Visto de fora, o painel de espelhos da ciência parece vivo: seus pedaços de espelhos se
movem, ajustam seus ângulos, suas imagens refletidas apresentam novas cores, suas parcelas de
nitidez se alteram, revelam outros contornos; espelhos giram, se curvam, mesclam-se aos
adjacentes; são trocados por espelhos maiores e de outras formas, ou substituídos por pedaços
menores mas com imagens mais nítidas.
Esse é o panorama do mosaico: colorido, multifacetado, continuamente alterado
internamente, partes movendo-se independente ou não de outras; sua imagem geral, a do universo
ou da realidade, sutilmente, continuamente e progressivamente alterada.
12
MORIN, Edgar. O Método IV - As idéias São Paulo - SP : Miratra Mem Martins, 1992.
MERLEAU-PONTY, Maurice. abud CHAUÍ, Marilena. Op. Cit.
14
MERLEAU-PONTY, Maurice. abud CHAUÍ, Marilena. Op. Cit.
15
POPPER, Conjecturas e Refutações. Brasília - DF : UNB, 1982.
13
10
Paradigmas e estados de arte: os vários mosaicos da ciência
Uma definição mais precisa do mosaico certamente não é a da aspiração ideal da ciência
como una, asséptica e pura, mas como a de várias superfícies que aspiram a reproduzir a mesma
realidade. A noção de tridimensionalidade usada até aqui se mostra insuficiente: dois paradigmas
podem aspirar mostrar os mesmos objetos da realidade, ocupando portanto uma mesma posição
“em relação à realidade” - o que instalaria o problema da melhor posição de um em detrimento do
outro.
As superfícies dos mosaicos dos diferentes paradigmas nem por isso perdem em qualidade
de analogia. As superfícies podem entretanto ter tamanhos e graus de nitidez diferentes; podem
mostrar-se aptos a revelar certos conjuntos de aspectos enfocados por um outro lado - mas não
outras facetas - que podem ser complementados (mesmo sem querer) pelo outro paradigma
(como no urbanismo, o paradigma do desenvolvimento sustentável e o paradigma analítico ou científico,
não opostos mas que não se valem dos mesmos métodos).
Os diferentes estados de arte também podem colocar o problema da posição dos planos:
no mesmo tempo, convivem duas teorias, uma mais “avançada” que ainda vem se confirmando,
simultaneamente à outra, mais antiga, mesmo dentro de um mesmo paradigma. Este problema
também dificulta a metáfora espacial; temos de pensar nos mosaicos em outras dimensões: a
simultaneidade das superfícies dos paradigmas e de espelhos dentro ou não de um mesmo
paradigma coloca a necessidade de pensar na simultaneidade de mosaicos/ciências se referindo ao
real - ou colocam a idéia de um único mosaico multifacetado e multidimensional, de vários
pedaços de mosaico e de sub-mosaicos que comporiam o grande mosaico da ciência.
Uma última observação em relação aos paradigmas se refere à contradição da ciência como
discurso puro: a coexistência de dois paradigmas: a limitação dos recortes e o grau de manipulação
dos objetos, das próprias teorias revela a flexibilidade, o espaço deixado a escolha individual
(portanto, envolvendo “subjetividades”) por um paradigma ou por outro, e o grau de “impureza”
da adequação completa de um ou doutro paradigma frente a realidade.
Os olhos correm atrás do espelho?
O problema do impulso criativo que será essência da nova teoria está no fato de que,
como a teoria tende a se valer dos últimos instrumentos para representar o fenômeno, não
sabemos ao certo da precisão da sua imagem; freqüentemente não temos instrumentos que
11
mostrem o próprio espelho. À princípio não temos conhecimento do grau de correspondência de
novas teorias para o real; não podemos ter certeza do ângulo do espelho (é perpendicular aos
objetos?); saber sobre seu foco (representa fielmente, nitidamente os contornos, as cores?), sua
curvatura (revela o volume dos objetos?).
Uma teoria é o esforço de constituir uma imagem em um espelho que provavelmente não
tem o ângulo perpendicular ao seu objeto; tampouco tem sua imagem perfeita. A ciência assim é o
mosaico de espelhos feitos para os “olhos cognitivos” da cultura em um dado momento. A visão
enriquecida pelo conhecimento passa progressivamente, com o parâmetro da imagem nítida da
nova teoria, a enxergar a imagem da realidade mais imprecisa, a ver a insuficiência do espelho. O
esforço é desenvolver novas teorias que melhorem a imagem. A imagem do espelho educa os
olhos a ver as suas próprias limitações; em seguida, os olhos olham para o lado e vêem o mundo, e
o confrontam à imagem do mundo no espelho - o que leva a reformar ou substituir o espelho.
Os olhos passam a enxergar as imprecisões de todas as imagens. Um novo espelho pode
alterar a imagem contida em todos os outros16; o reflexo de uma imagem “perturba” as demais;
como no princípio do fractal ou do holograma, o ideal de ciência é exatamente essa perturbação da
modificação em um espelho sobre a imagem de todos os espelhos da realidade17 - como se cada
espelho refletisse em um de seus cantos a imagem refletida por outro.
A ciência avança nos progressivos “desnuveamento” e “enuveamento” da imagem dos
espelhos, no esforço para enxergar mais e mais detalhes da imagem, como se os contornos
pudessem e devessem ser sempre mais detalhados - uma espécie de corrida infinita, infinitesimal.
Os olhos da cultura tem exatamente a ciência que lhes são compatíveis; relacionados como
num processo dialético: novos instrumentos geram novas imagens, que passam a informar os
olhos da época; que então passam a rever a realidade com novos olhos. Os olhos da cultura são
informados e formados pelos mosaicos de espelhos da ciência.
16
Essa imagem do reflexo que muda os outros reflexos dos outros reflexos - a alteração num único espelho muda a
imagem de todos os outros - como numa “casa de espelhos” foi delicadamente sugerida pela colega Joana Barros.
17
O ideal de ciência como a do mosaico de espelhos que vibram sistemicamente, como o fractal ou o holograma,
tende a ocorrer com o “contrabando” de Morin.
12
Teorias como lentes: a metáfora da rosácea gótica
Ordem, padrão, estrutura e a construção da imagem do mundo pela ciência
Várias teorias18 atualmente colocam a questão da correspondência entre teoria e realidade
(uma questão básica da Epistemologia): até que ponto uma teoria mostra, revela ou inventa a
realidade?
A ciência pode ser vista como um imenso vitrô de pedaços de vidros coloridos através dos
quais se tem uma imagem da realidade. Que entretanto, por ser colorida, não corresponde
exatamente a ela, mas às características de seu recorte - a amarração dos elementos e relações se
revelam simplificações que pareceriam mais como uma visão articulada e idealizada - e assim bela do real. Estruturado não de maneira caótica mas de com clara geometria, como a das rosáceas das
catedrais góticas: a estrutura corresponde as definições dos moldes do conhecimento nas
disciplinas atuais, tidas como capazes de encaixar entre si e juntas cobrir o real - imagem idealizada
que entretanto pode não corresponder a amplitude verdadeira do real. A ciência mostra a realidade
colorida pela visão da teoria, um recorte ordenado em si e estabelecedor de ordem, de padrões, de
imposição de cânones e leis, de regularidades ao universo. Se “saber é achar padrões”19, essa frase
já impõem a necessidade de que, nessa regularização de coisas não regulares, algo de forçoso e
impreciso seria inerente: a ordenação imposta por nossa visão do real, para a qual escaparia o que
não for ordenável.
Se não é possível à razão e o conhecimento proceder sem a necessidade da estrutura do
padrão e da regularidade observáveis, a ciência pode estar condenada à ver um universo mais
simples do que ele é realmente. Eqüivale a visão colorida, bela e complexa da estrutura das
rosáceas, através da qual veríamos o real - como a virtude das catedrais góticas para o homem
medieval, que recebe e percebe no interior da nave da catedral a luz do exterior.
18
19
Não conseguiria mapeá-las nesse prazo de entrega...
Frase dita em aula pela prof. Eva Samios
13
BIBLIOGRAFIA:
BACHELARD, G. A Formação do Espírito Científico. Rio de Janeiro - RJ : Contraponto, 1996.
BOMBASSARO, Luiz C. As Fronteiras da Epistemologia. Petrópolis, RJ : Vozes, 1992.
CHAUÍ, Marilena. Merleau-Ponty. São Paulo : Abril Cultural, 1980.
HOGARD, John. O fim da Ciência - Uma Discussão Sobre os Limites do Conhecimento Científico.
KUHN, Thomas. A estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo : Perspectiva. Col. Debates, 1982.
KUNDERA, Milan. A Insustentável Leveza do Ser. São Paulo, SP : Nova Fronteira, 1984. (citação de
PARMÊNIDES)
MERLEAU-PONTY, Maurice. O primado da Percepção e suas Conseqüências Filosóficas. Campinas, SP :
Papirus, 1990.
MORIN, Edgar. O Método IV - As idéias. São Paulo - SP : Miratra Mem Martins, 1992.
________. Ciência com Consciência?. Portugal : Mira Sintra - Mem Martins, 1982.
________. A Epistemologia de la Complejidad”, in SCHNITMAN, D.F. Nuevos Paradigmas, Cultura e
Subjetividade. Buenos Aires : Paids, 1995.
POPPER, Karl. Conjecturas e Refutações. Brasília - DF : UNB, 1982.
14