TURISMO RELIGIOSO-CULTURAL:
O CASO DA CIDADE DE POMBAL-PB
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Biblioteca Central - IESP - Instituto de Educação Superior da Paraíba
M386t
Martins, Francineide Almeida Pereira
Turismo religioso-cultural: o caso da cidade de
Pombal/ Francineide Almeida Pereira Martins. - João
Pessoa, PB: [s.n.], 2003.
39 p. : il.
Orientadora: Carla Mary da Silva Oliveira
Monografia (graduação) - Instituto de Educação Superior
da Paraíba (IESP) - Curso de Turismo, 2003.
Bibliografia: p. 39
1. Turismo Cultural. 2. Turismo - Paraíba. 3. Pombal Paraíba.. I. Autor. II. Título.
CDU 379.85:008
IESP/BC
INSTITUTO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR DA PARAÍBA
DIRETORIA ACADÊMICA
CURSO DE TURISMO
TURISMO RELIGIOSO-CULTURAL:
O CASO DA CIDADE DE POMBAL - PB
Francineide Almeida Pereira Martins
JOÃO PESSOA - PB
JUNHO - 2003
FRANCINEIDE ALMEIDA PEREIRA MARTINS
TURISMO RELIGIOSO-CULTURAL:
O CASO DA CIDADE DE POMBAL - PB
Monografia apresentada à Coordenação do
Curso de Graduação em Turismo do IESP Instituto de Educação Superior da Paraíba,
como requisito parcial para a obtenção do grau
de Bacharel em Turismo.
ORIENTADORA: Profª Ms. Carla Mary da Silva Oliveira
João Pessoa - PB
Junho - 2003
FRANCINEIDE ALMEIDA PEREIRA MARTINS
TURISMO RELIGIOSO-CULTURAL:
O CASO DA CIDADE DE POMBAL
Trabalho de Conclusão de Curso aprovado em _____ / ______ / ________
BANCA EXAMINADORA
_____________________________________
Profª Ms. Carla Mary da Silva Oliveira
IESP - Instituto de Educação Superior da Paraíba
(orientadora)
_____________________________________
Prof. Ms. Almir Félix Batista de Oliveira
ANPUH - PB - Associação Nacional de História - Seção Paraíba
(membro da banca)
_____________________________________
Profª Maria Rita de Holanda Melo Peres
IESP - Instituto de Educação Superior da Paraíba
(membro da banca)
Dedico este trabalho a José dos Santos Martins,
esposo e colega de curso, pelo companheirismo,
cumplicidade e amor compartilhados. Aos
nossos filhos, Gustavo e Henrique, que
entenderam nossas ausências e sempre nos
incentivaram a seguir em frente.
Aos meus pais Lourival Pereira de Santana e
Francisca de Almeida Pereira, verdadeiros
educadores, cujos exemplos de integridade de
caráter nortearam minha vida.
AGRADECIMENTOS
A DEUS, o mais sábio dos Mestres, pelo dom da vida, do qual recebi a mais bela lição da
humanidade, só o amor constrói.
A Profª Carla Mary S. Oliveira, orientadora e amiga, por quem tenho grande admiração,
pela seriedade, dedicação e desempenho que sempre demonstrou em relação ao ensino e a
pesquisa, características peculiares de uma autêntica mestre.
Aos que compõem a Irmandade do Rosário, os Congos, Negros dos Pontões e o Reisado de
Pombal, verdadeiros vitoriosos, por preservarem a identidade do folclore popular, na sua mais
viva tradição.
A Profª Maria Rita de Holanda Melo Peres, pela maneira com que conduz a Coordenação
do Curso de Turismo do IESP, e que com sua dedicação e inesgotável força de trabalho, tem
elevado o nome desta Instituição.
Aos que compõem o Corpo Docente do Curso de Turismo do IESP, pela competência de
atuarem como agentes formadores de homens.
Aos Colegas de Curso, em especial, Rose Mary Freitas, Célia Ferreira, Elizama Brandão
e Larissa Raposo, pelos inesquecíveis momentos de companheirismo.
Ao Dr. Verneck Abrantes de Sousa, historiador e amigo, a quem busquei, como fonte
inesgotável do referencial sobre Pombal e a Festa do Rosário, e que sempre se mostrou
solícito e entusiasmado com o tema.
Ao Dr. Jerdivan Nóbrega de Araújo, pela grande colaboração com o referencial
bibliográfico.
“Qualquer um de nós é mestre, que sabe
contos, mitos, lendas, supertições, que sabe
fazer caretas e tudo quanto caracteriza a
cultura anônima e coletiva”
Câmara Cascudo
RESUMO
O turismo religioso representa um segmento promissor para o desenvolvimento de uma
comunidade. Este trabalho traça a trajetória da formação religiosa-cultural da Festa do
Rosário na cidade de Pombal - PB, mostrando a riqueza da diversidade do folclore popular
deste evento, analisando desde a formação da Irmandade do Rosário, a apresentação de
grupos como os Negros dos Pontões, os Congos e o Reisado. Procura retratar a importância
dos festejos para o povo da cidade, do ponto de vista sócio-econômico e cultural, e para o
visitante que, ao participar da Festa, vivencia a identidade e a cultura popular através do
enfoque na religiosidade e no profano. Finaliza propondo ações que possam acenar para o
desenvolvimento do turismo religioso-cultural em Pombal, com o envolvimento da
comunidade local.
Palavras-Chave: Turismo Cultural; Turismo Religioso; Pombal.
ABSTRACT
The religious tourism represents a segment promising for the community's development. This
work treats on the religious and cultural heritage of the Rosário’s Party in the city of Pombal PB, showing the diversity of the folklore of this event and analising the formation of the
Rosário’s Fraternity, the performing groups, s the Niggers of Pontões, Congo and Reisado. It
tries to shows the importance of the feasts for the people of Pombal, by the social, economic
and cultural points of view. The tourist when participating in this Party, faces the identity and
the culture of a people through the focus in the religiosity and in the profane. It concludes
proposing actions that can waive for the development of the religious and cultural tourism in
Pombal, with the local community's involvement.
Keywords: Cultural Tourism; Religious Tourism; Pombal.
LISTA DE FIGURAS
Fig. 1 - Fachada da Igreja do Rosário. ................................................................................. 16
Fig.2 - Altar-mor central da Igreja do Rosário. .................................................................. 17
Fig. 3 - Altar de São Miguel Arcanjo. ................................................................................... 17
Fig. 4 - Fachada frontal e lateral da Igreja do Rosário....................................................... 18
Fig.5 - Cruzeiro em Madeira. ................................................................................................ 19
Fig. 6 - Os Congos com seus adereços................................................................................... 26
Fig. 7 - O Santo Rosário. ........................................................................................................ 28
Fig. 8 - A Irmandade do Rosário........................................................................................... 29
Fig. 9 - Os Negros dos Pontões abrindo o cortejo................................................................ 30
Fig. 10 - Os Pagadores de Promessas.................................................................................... 30
Fig. 11 - O Rei e a Rainha do Rosário no altar. ................................................................... 31
Fig. 12 - Imagem de Nossa Senhora do Rosário. ................................................................. 31
Fig. 13 - A Missa campal........................................................................................................ 32
Fig. 14 - O Encontro. .............................................................................................................. 33
Fig. 15 - O Grande evento. ..................................................................................................... 34
SUMÁRIO
RESUMO
ABSTRACT
LISTA DE FIGURAS
1. Introdução ........................................................................................................................... 12
2. A Cidade de Pombal ........................................................................................................... 14
2.1. Fundação ...........................................................................................................................14
2.2. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário.............................................................................15
2.3. A Irmandade do Rosário de Pombal.................................................................................19
2.4. A Devoção do Rosário pelos Pretos ..................................................................................23
2.5. A Festa e os Grupos Folclóricos .......................................................................................24
2.6. As Procissões .....................................................................................................................28
2.7. O Profano ..........................................................................................................................32
2.8. A Festa como Atrativo Turístico .......................................................................................34
2.9. Depoimentos Informais .....................................................................................................36
3. Propostas de Ações para o Desenvolvimento Turístico de Pombal ............................... 37
4. Considerações Finais .......................................................................................................... 38
5. Referências Bibliográficas ................................................................................................. 39
***
1. INTRODUÇÃO
A religiosidade do povo brasileiro reflete as características da colonização do país, onde
claramente se observa a miscigenação de crenças e crendices do índio, do negro e do branco,
colonizador. Vale ressaltar que a catequese feita pelos missionários franciscanos, carmelitas,
beneditinos e jesuítas, levou ao predomínio do catolicismo no Brasil, assumindo um papel
dominante na história religiosa do povo brasileiro.
Em Pombal, no alto sertão da Paraíba, esta religiosidade se faz presente através de
manifestações de adoração a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros. Adoração esta
manifestada na Festa do Rosário, com duração de nove dias, terminando no segundo domingo
de outubro, com uma procissão encabeçada pelo rei e pela rainha do Rosário, seguida da
celebração de uma missa campal.
Esta festa é, acima de tudo, o resgate de toda uma cultura popular nordestina, com a
presença de elementos culturais como a Irmandade do Rosário, os Congos, os Negros dos
Pontões e o Reisado. Estes grupos folclóricos se apresentam no decorrer da festa, com suas
vestes, adereços e danças, representativos de suas tradição, fé e simbolismo, tendo o negro um
relevante papel neste contexto cultural, sendo a festa considerada como “dos negrinhos”.
A Igreja do Rosário, exemplo raro do barroco no sertão do Nordeste, abre suas portas
para receber de volta o Santo Rosário, acompanhado durante a procissão pelos grupos
folclóricos e o cortejo da multidão. Os devotos mais fervorosos, geralmente aproveitam a
festa, para pagar as promessas feitas a Nossa Senhora do Rosário, acompanhando a procissão
com pedra ou coroa de espinhos na cabeça. No palco armado na calçada da Igreja o pároco
local e demais autoridades civis e religiosas da cidade recebem a procissão com cânticos,
aplausos e aclamações de “Viva Nossa Senhora do Rosário”.
Paralelo às celebrações religiosas, a cidade é contagiada pelo lado profano,
transformando-se numa espécie de “Las Vegas do Sertão” (Jerdivan,1997), com os mais
variados jogos de azar, como roletas, laça-laça, bingos etc. O som dos alto-falantes toca
melodias que são oferecidas a alguém em forma de recado. A cidade e seus filhos se enfeitam,
todos vestem sua melhor roupa e calçados, para andar entre os parques, em volta da praça
centenária, sentar nas barracas do cordão encarnado ou azul e, finalmente, acompanhar a
procissão.
Na Festa do Rosário de Pombal o sagrado e o profano, a beata, a prostituta e o bêbado
convivem numa miscigenação pautada pelo respeito mútuo. A constatação deste fato, e a
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o caso da cidade de Pombal - PB
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diversidade cultural presente neste festejo, embasada na literatura consultada, foram
determinantes para a realização deste trabalho, através do qual esperamos caracterizar uma
análise desta dualidade de manifestação popular religiosa cultural, e o seu papel como gestor
do turismo religioso-cultural.
Dentro deste contexto, objetivamos traçar a trajetória da identidade da Festa do Rosário
de Pombal, e propor ações estratégicas que possam capacitar este festejo, como um atrativo
turístico da Paraíba.
***
2. A CIDADE DE POMBAL
A cidade de Pombal está situada no alto sertão da Paraíba, a 380 km de João Pessoa. Foi
elevada a categoria de cidade em 21 de julho de 1862, pela Lei Nº 68, tendo sido o primeiro
município do sertão paraibano. A cidade foi edificada a seis quilômetros da confluência dos
rios Piancó e Piranhas, dois grandes cursos fluviais intermitentes, que correm da serra
paraibana para os confins do Ceará, e se unem ao rio Açú no Rio Grande do Norte (SEIXAS,
1962).
Conhecida também como a terra de Maringá, Pombal, o mais antigo núcleo de
povoamento do sertão paraibano, tem como maior acontecimento religioso a Festa dos
Negros do Rosário, comemorada há mais de cem anos (ARAÚJO NETO, 1998).
Rica em tradições populares, a cidade procura preservar suas tradições, através de
manifestações vivas de grupos folclóricos, como os Negros dos Pontões, os Congos e o
Reisado, que se apresentam, anualmente, durante a tradicional Festa do Rosário, que tem
como ponto máximo o primeiro domingo de outubro, quando estes grupos se apresentam em
frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário (MORAES, 1994).
2.1. Fundação
Em 1695 o capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo adentrava o sertão de Piranhas, na
tentativa de fundar um arraial. Encontrando, porém, uma grande resistência por parte dos
índios cariris, que guerreavam pelo direito ao domínio das terras. Depois de infrutíferas
batalhas, Teodósio voltou à província para pedir auxílio no sentido de conter a resistência dos
índios (SEIXAS, 1962; SOUSA, 2002).
No início de janeiro de 1698, Oliveira Ledo retornou ao sertão de Piranhas,
acompanhado de soldados, caboclos, algumas mulheres, índios domesticados, mantimentos,
um arsenal de armas, munição de guerra e um religioso da ordem de São Francisco, que se
encarregou da conversão dos índios. Em 27 de julho de 1698, no lugar conhecido por
povoação do Piancó, foi fundado o Arraial de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó,
assim denominado, considerando o “bom sucesso” da campanha contra os índios inimigos. A
povoação passou à categoria de Vila, a 4 de maio de 1772, com a denominação de Vila de
Pombal, sendo esta a data de sua emancipação política. Em 21 de julho de 1862 é elevada à
categoria de cidade (SEIXAS, 1962; SOUSA, 2002). A rapidez com que o Arraial se
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transformou em Vila, aponta para seu caráter de povoamento dinâmico e a sua importância na
região do sertão paraibano (AYALA, 1995).
O nome Pombal é uma homenagem a Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marques de
Pombal, ministro de Dom José I, rei de Portugal. Embora na trajetória histórica-política da
cidade não se tenha registro de nada que justificasse esta homenagem, seja no que diz respeito
à Paraíba, seja no que se refere particularmente ao município de Pombal. Merecedores de tal
homenagem, na verdade, seriam os primeiros missionários em seu trabalho de catequese,
educação, criação de escolas e construção de igrejas, como a atual Igreja do Rosário
(SEIXAS, 1962).
2.2. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário
Seixas (1962) relata que da antiga capelinha de 1701, de taipa e palha, chamada de
“Casa de Orações”, não existe nenhum vestígio. Em seu lugar, foi erguida a primitiva matriz
de Nossa Senhora do Bom Sucesso, hoje denominada Igreja do Rosário, cujo início de
construção data de 24 de fevereiro de 1721, com escritura lavrada pelo escrivão local, Álvaro
de Lima Oliveira. Aquele documento obrigava o mestre pedreiro Simão Barbosa Moreira a
construir a igreja em um período de três anos, quando seria pago, pela Confraria, a quantia de
seiscentos e cinqüenta mil réis.
A matriz foi erguida de pedra, barro e tijolo, com capela mor de vinte e oito palmos (1)
de comprimentos e vinte de largura, e o corpo da Igreja com sessenta palmos de comprimento
e trinta de largura com sua sacristia. Suas cornijas de tijolos e o telhado com beirada de
cumeeira argamassada. Com a construção da igreja matriz, deve ter sido criada a freguesia
sem se constituir patrimônio. Embora a construção da igreja tenha se iniciado a 24 de maio de
1721, somente em 1724 se registra a primeira doação patrimonial do terreno, feita pelo
coronel Francisco Dias D´Ávila. Após a construção da nova Matriz de Nossa Senhora do Bom
Sucesso, em 1897, a igreja primitiva passou a ser denominada de Igreja de Nossa Senhora do
Rosário.
Aquele templo é um dos raros exemplos do barroco no sertão do Nordeste, e a data de
sua edificação (1721), consta em seu frontão. Em 1897, a imagem de Nossa Senhora do Bom
Sucesso foi transladada para uma nova igreja, ficando a velha destinada ao culto de Nossa
Senhora do Rosário, pelos pretos. Externamente a igreja apresenta uma única torre. O
(1)
Cada palmo equivale a 22 cm.
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monumento representa um marco histórico do primeiro núcleo do império colonial no sertão
da Paraíba (SEIXAS, 1962; BENJAMIM, s/d; SOUSA, 2002).
Fig. 1 - Fachada da Igreja do Rosário.
Foto: José Martins (2000)
Há no seu interior três artísticos altares esculpidos em madeira de cedro, um altar-mor
central, com antigo trono da Padroeira de Pombal que, hoje, abriga a imagem de Nossa
Senhora do Rosário. O altar-mor e o arco-cruzeiro da igreja, em estilo barroco romano, são
painéis de fina talha e revestidos em sua maior parte, por uma camada de folha de ouro.
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Fig.2 - Altar-mor central da Igreja do Rosário.
Foto: José Martins (2002).
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Fig. 3 - Altar de São Miguel Arcanjo.
Foto: José Martins (2003).
De acordo com Benjamim (s\d) e Seixas (1962), a Igreja do Rosário mantém o seu
aspecto barroco quase intocado, toda pintada em branco, com uma só torre, frontão recortado,
uma nave e uma capela lateral que se projeta para fora do prédio principal, de proporções bem
acertadas. O acesso ao altar-mor é feito por poucos degraus. Há ainda quatro imagens antigas
no altar-mor, entre colunatas e relevos: Nossa Senhora das Dores, Santana, São Gonçalo e São
Bento. Existe um altar lateral do lado direito, com a imagem de São Miguel Arcanjo e outro
do lado esquerdo, com a imagem de São Sebastião. Ambos ficam no corpo da igreja, que não
tem forro, e terminam num baldaquim, com talha dourada imitando uma fina cortina com
pingentes.
A capela do Santíssimo Sacramento se projeta lateralmente à esquerda da igreja,
separada da nave por um arco cruzeiro revestido em madeira, com pintura marmorizada. No
seu interior, encontra-se um pequeno retábulo, com talha em madeira dourada em forma de
volutas e folha de canto. Centralmente encontramos uma pintura em têmpera sobre a madeira,
representado a Santa Ceia.. O púlpito é em madeira, com pinturas marmorizadas. Encimada
na porta de acesso ao púlpito, também com pintura marmorizada, há uma safena composta por
lambrequins, coroada por elementos escultórios com duas cartelas, contendo as seguintes
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inscrições em latim: Spiritus Sancti Gratia Iluminei Sensus et Corda Nostra, Pratica Verbum
Inflaopportuné Importuné, Atque Obiecra Increpa e Inomini Pratientia et Doctriana2
(MORAES 1994, p.25-26).
No batistério encontra-se pintado por artista anônimo, o “Batismo no Jordão”. O púlpito
e as safenas sobre as portas e janelas laterais, apresentam talhas douradas. As talhas do
púlpito, das safenas e do baldaquim de São Miguel, apresentam fino lavor e as colunatas são
ornadas com motivos florais, constituindo-se em um trabalho um pouco mais grosseiro
(SEIXAS, 1992).
Fig. 4 - Fachada frontal e lateral da Igreja do Rosário.
Foto: José Martins (2000).
Para Moraes (1994, p.11, p.14), a fachada da igreja de Nossa Senhora do Rosário, é
muito simples. No frontispício, há uma porta principal em madeira almofadada, com vergas
em cantaria, encimada por duas janelas em madeira, também com vergas em cantaria, e um
nicho em arco pleno vazio, onde possivelmente já abrigou uma imagem.
Possui duas colunatas de sustentação, coroadas por pináculos, a cimalha arremata a
parte superior, com frontão ondulado, onde se encontra uma tarja com a data da construção da
igreja.
2
Que a graça do espírito santo ilumine nossa mente e nossos corações, inflama-nos para praticarmos o que
pregamos. Além disso, obceca-nos e impetra-nos em nome da paciência e da doutrina.
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O corpo da igreja é composto por uma nave única, capela-mor e sacristia. A nave não
possui forro, aparecendo toda a estrutura de madeira da cobertura e as telhas aparentes. O piso
de toda a igreja apresenta-se em estado original, executado em tijoleira de barro. Do lado da
torre está localizado um corredor, com quatro portas que se abrem para a rua e do lado
esquerdo, encontra-se uma saliência que é a capela do Santíssimo Sacramento. Após a capela,
há uma sala, paralela à sacristia, com uma porta e duas janelas que se abrem para a rua. Em
frente à igreja há um cruzeiro, com pedestal em pedra e cal, que serve de base para uma cruz
em madeira.
Fig.5 - Cruzeiro em Madeira.
Foto: José Martins (2002).
2.3. A Irmandade do Rosário de Pombal
Nos velhos arquivos da paróquia de Pombal há registros datados de 28 de julho de 1895,
como a data do despacho do Bispo de Olinda, Dom João Fernandes Esberardi, para a criação
da Confraria da Irmandade do Rosário. O documento destina-se ao requerente, o negro
Manoel Antonio de Maria Cachoeira, que viajara a pé, de Pombal a Olinda, para solicitar tal
ato (SEIXAS, 1962; BEJAMIN, s/d e SOUSA, 2002).
Turismo Religioso-Cultural:
o caso da cidade de Pombal - PB
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Segundo Benjamim (s/d), a data de 28 de julho de 1895 é considerada incorreta quanto
ao ano, do ponto de vista de leitura paleográfica, e provavelmente, o número de três (3)
viagens a Olinda, feitas por Mané Cachoeira, seja fictício e lendário, podem representar as
três tarefas difíceis, sempre narradas nos contos folclóricos.
De acordo com o despacho, firmado pelo escrivão de registro da Comarca Eclesiástica
de Olinda e autorizado pelo mesmo Bispo, ficava instituída a irmandade de Nossa Senhora do
Rosário. Diz o artigo 1º dos Estatutos e Compromisso desta Irmandade:
“Fica instituída a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário com sua
criação na Igreja Matriz da freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso
de Pombal, até que sob os auspícios da mesma irmandade se construa
uma capela com aquela invocação”. Constitui-se o governo da Irmandade
de um Juiz, um Escrivão, um Tesoureiro, um Zelador e doze Irmãos de
Mesa ou mesários (SEIXAS, 1962, p.232).
Em seu trabalho Neri (2001) relata, em versos, que o governo da Irmandade é composto
por pessoas de bem, organizadas, e que gostam de trabalhar. Só poderá ser juiz o irmão
destacado e eleito para dirigir a Irmandade com verdade, respeito e paz. Deverá ter idade
mínima de 25 anos, e terá atribuições de presidir as reuniões, resolver com dedicação os
problemas que aparecerem, autorizar despesas e ser um fiel servidor da associação, com
devoção máxima ao Rosário.
Além do escrivão, tesoureiro e zelador, escolhem-se, através de eleição, senhores de
bom comportamento para suplentes de tesoureiro e escrivão. São escolhidos do mesmo modo
os doze mesários e dezoito devotos da Irmandade, que acompanham os mesários na coleta dos
donativos nos dias da festa. A eleição é realizada apenas entre os adultos, por escrutínio
secreto. Ocorrendo um empate, elege-se o candidato que vencera noutra ocasião ou o mais
velho.
As eleições seguem uma ordem descendente: primeiro o juiz e escrivão, seguido do
tesoureiro. Depois se elegem os doze irmãos entre os de opa3 e suplentes, convocando os de
devoção. Quanto à sucessão para o cargo de juiz, pelo que é de direito, há o escrivão, que
sabe, ao ser eleito desse precedente e cede lugar ao tesoureiro. Nos estatutos, nada consta
acerca do papel do zelador. Informação verbal diz que o seu valor está no respeito pela
preservação e amor ao trabalho. O irmão empossado tem que mostrar desempenho em
qualquer cargo e, se solicitado pelo juiz como aprendiz, não pode ficar calado.
3
Capa sem mangas, com aberturas para os braços, usada pelos membros de confrarias e irmandades religiosas
em procissões e cortejos.
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Após trinta dias da posse, aquele que não assumir na data marcada será tido como
perdedor da eleição. Compete ao tesoureiro fazer o balancete da receita e da despesa da
irmandade, zelar pelos donativos e ofertas, guardar bem as doações, nas missas, na santa hora
ou nas ruas, depositar ou pedir a cada um dos irmãos sua contribuição que será registrada na
ata da Associação.
Continua o autor, relatando que a admissão de um novo confrade é feita através de um
atencioso convite por membros da irmandade, que se aproximam do novo confrade e o
convidam para assistir uma reunião. Os irmãos de opa decidem em reunião, através de eleição
a aceitação do suplente, para ficar entre os mesários. O suplente assume quando por morte de
um confrade ou por expulsão do membro que transgrediu as normas da irmandade. Mulheres
menores e suplentes trabalham para a Igreja da mesa, sem direito a decisões. O estatuto
determina a idade de quatorze anos, para os homens e doze anos de idade para as mulheres.
A Irmandade realiza quatro reuniões na igreja do Rosário para ouvir opiniões e inovar.
Confrades e convidados ficam lado-a-lado esperando a convocação. Os doze mesários
participam sempre das reuniões juntamente com o juiz, o escrivão e o tesoureiro. No primeiro
domingo de janeiro, todos rezam de mãos dadas, e escutam a prestação de contas do
tesoureiro. O anúncio dos candidatos a juiz é feito no domingo da ressurreição e a eleição
ocorre no segundo domingo de agosto.
Para Ayala (1995), possivelmente a Irmandade já estivesse estabelecida, informalmente,
quando recebeu a autorização eclesiástica para seu funcionamento. A dificuldade enfrentada
por Mané Cachoeira para a criação da Irmandade estaria no vigário de Pombal, que
discordava da criação da confraria.
O preconceito do vigário contra os negros fez com que o mesmo se opusesse também à
“religião dos negros” - a devoção ao Rosário, e a existência de sua confraria. Esta confraria,
assim como grande parte das associações leigas dessa invocação no Brasil, proíbe em seu
regulamento a participação de brancos. Esta é uma das características das Irmandades do
Rosário dos Pretos, criadas durante a escravidão e que exerciam entre outras funções, a
integração do negro (escravo, foro ou liberto) à religião católica além da proteção dos negros,
incluindo-se a arrecadação de fundos para a alforria de escravos.
Com relação aos aspectos folclóricos da devoção do Rosário, Benjamim (s/d), relata que
Mané Cachoeiro teve uma atuação marcante na Irmandade, naturalmente tido como o pai das
manifestações lúdicas ligadas ao culto do Rosário, fundador da Irmandade e o introdutor das
manifestações folclóricas. A dimensão da atuação deste homem, perdeu-se na história,
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podendo ter sido um dos chamados “brancos de algodão”, assim denominados os negros
livres, que obtiveram uma ascensão social através do enriquecimento proveniente do plantio e
beneficiamento do algodão.
O governo da Irmandade é composto por um juiz, um escrivão, um tesoureiro, um
zelador e doze irmãos de mesa, escolhidos entre os membros da Irmandade com melhor
conduta. Os dirigentes e irmãos de mesa são altamente religiosos, praticantes dos
mandamentos, não bebem e tem uma vida bastante ascética. O patrimônio da Irmandade é
constituído pelo templo, seus móveis e alfaias e uma rua de casas modestas, a Rua do Rosário,
onde moram o juiz e os membros mais necessitados da confraria. A casa do juiz é a “Casa do
Rosário”, na qual o Rosário pernoita na véspera da grande festa. O juiz da Irmandade é o rei
da Festa do Rosário, embora se apresentem durante os festejos, mais dois outros reis, o dos
Congos e o do Reisado (SEIXAS, 1962; BEJAMIN, s/d).
De acordo com Seixas (1962, p.232), a irmandade do Rosário foi instituída para a
coroação anual da festa do Rosário, a festa dos “Negros”, na qual os escravos obtinham dos
seus senhores relativa liberdade, para tributar “um culto especial de hiperdulía a Nossa
Senhora do Rosário”. Tornou-se uma festa tradicional e chegou aos nossos dias, embora sem
toda a pompa e beleza primitivas, que foram se perdendo no tempo, por falta de zelo e
conservação.
Benjamim (s/d) cita que documentos de 1496 referenciam as Irmandades do Rosário dos
Pretos, em Lisboa, como instituição pré-existente e bem estruturada, associadas aos conventos
de padres dominicanos.
Sabe-se que as irmandades de pretos exerceram proselitismo religioso, na África, na
Índia e no Brasil. No entanto, não há comprovação científica da origem da irmandade pioneira
no Brasil. Artur Ramos, citado pelo autor, considera como provável terem sido trazidas da
África, por negros convertidos. Aceita-se que em São Paulo, o próprio padre José de Anchieta
criou a Irmandade do Rosário dos Pretos de Piratininga, nos primórdios da colonização,
surgindo em seguida, outras irmandades, como a de Olinda em 1711, a da freguesia de São
Miguel do Ipojuca - PE, em 1724, a de Goiana em 1783 e a de Igarassú em 1796, entre outras.
Continuando seu relato, Benjamim (s/d) afirma, que as confrarias foram criadas por
motivos devocionais e pios, como a realização dos cultos religiosos, a prática dos
sacramentos, a difusão da oração do rosário, a catequese e iniciação religiosa, a comemoração
das festas religiosas, o enterro e as missas de defuntos. As confrarias dos pretos, assim como a
dos brancos, tiveram funções sociais mais abrangentes, integrando os escravos na cultura
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européia, não só do ponto de vista religioso, mas influenciando-os a abandonar seus costumes
e crenças. Podendo ser visto mais como um instrumento de dominação do branco sobre o
escravo. Sabe-se, hoje, que na maioria dos casos, as irmandades se constituíram de meras
fachadas, ocultando e preservando os aspectos culturais africanos no Brasil.
Sem dúvida, as Irmandades tiveram um papel fundamental como agente fomentador da
reorganização social do negro e da reconstituição de suas comunidades. A princípio eram
comunidades religiosas, exclusivamente de escravos (depois surgiram os foros), porém,
recebiam do Estado e da Igreja um status semelhante ao das Irmandades dos brancos e livres.
Seus membros tinham status social diferenciado, destacando-se a visão beneficente, prestando
socorro aos necessitados (velhos, enfermos e encarcerados). No entanto, a ação em prol da
libertação dos escravos foi bastante limitada. Geralmente meramente caritativa e, em alguns
casos, funcionando como uma caixa beneficente de alforrias, através de empréstimos em
dinheiro, para obtenção da liberdade.
As Irmandades tinham um caráter individualista, e agiam conforme as oportunidades
ofertadas pela sociedade escravocrata, da qual faziam parte. Em Pombal, a Irmandade é a
própria festa, e lá, assim como em todo o sertão, a festa é conhecida como Festa do Rosário e
não de Nossa Senhora do Rosário.
De acordo com Ayala (1995), se oficialmente a efetivação da Irmandade do Rosário se
deu no final do século passado, pode-se aceitar que os negros de Pombal recriaram, no sertão
da Paraíba, algumas tradições afro-brasileiras, como a Irmandade, o “brinquedo” dos Congos
e a realização da Festa do Rosário.
2.4. A Devoção do Rosário pelos Pretos
Em seus relatos, Benjamim (s/d), afirma que a facilidade da devoção de nossa Senhora
do Rosário pelos pretos, tem sido questionada por diversos autores, assim como a propagação
da mesma padroeira em diferentes localidades. Esta devoção se fundamenta no sincretismo
religioso do rosário católico, com o tecebá (rosário) muçulmano.
Para Artur Ramos, referenciado pelo autor, inúmeros escravos vindos de Portugal para o
Brasil., “receberam em maior ou menor grau a contribuição da cultura maometana”. Registros
de estudos no Rio de Janeiro, Salvador e Recife mostram que o Islamismo, no Brasil,
apresentava-se sempre misturado a práticas religiosas primitivas, como o uso do tecebá pelos
sacerdotes melês, pendente na cintura, com meio metro de comprimento, noventa e nove
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contas de madeira e terminado por uma bola, em vez de cruz, representa uma das
sobrevivências culturais maometanas.
Segundo Benjamin (s/d) o uso do rosário como fetiche, com virtudes mágicas próprias,
representa um aspecto cultural da tradição do Rosário no Nordeste do Brasil, sendo ela
exaltada na poesia popular dos folhetos sertanejos. O rosário que os sertanejos devotam, é
formado por um colar de contas azuis e brancas, sem crucifixo, assim como também é sem
crucifixo o Rosário de ouro da imagem de Nossa Senhora do Rosário de Pombal.
2.5. A Festa e os Grupos Folclóricos
No primeiro domingo de outubro de 1895, em uma cerimônia simples, ocorreu a
primeira Festa do Rosário de Pombal. Sua celebração observa os dispositivos dos
mandamentos diocesanos, com encerramento na primeira semana do mês de outubro, mais
precisamente no primeiro domingo, como foi institucionalizada. Realizam-se novenas, nos
nove dias que antecedem o encerramento. O sábado é dia de feira na cidade e no domingo
ocorre o encerramento da festa (SEIXAS, 1962).
De acordo com Ayala (1995), esta festa tem, na manifestação da produção cultural dos
negros, um marco de sua identidade. Quatro grupos de cultura popular são responsáveis pela
festa. A Irmandade do Rosário e três grupos de dança: os Congos, os Pontões e o Reisado. Os
três primeiros grupos são conhecidos pela expressão “negros do Rosário” e atuam na festa
desde a sua criação, em fins do século passado. A partir da década de 60, o Reisado
incorporou-se à festa. Integram os quatro grupos, trabalhadores braçais, rurais ou urbanos, em
sua maioria negros, que fazem parte do segmento sócio-econômico menos favorecido da
comunidade local. No entanto, “os negros do Rosário”, ocupam um lugar de destaque na
história cultural da cidade, chegando a festa a ser considerada como a “festa dos negrinhos”.
Para o autor, a Festa do Rosário de Pombal pode ser enquadrada em algumas
características indicadas por Hobsbawm: “Por tradição inventada, entende-se um conjunto de
práticas, normalmente reguladas por regras tácticas ou abertamente aceitas; tais práticas, de
natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento (...)”.
Complementa afirmando que, a realeza negra da Festa do Rosário de Pombal, embora
vinculada a uma tradição secular, é “importada”, e que remete ao passado colonial escravista,
porém com valorização dos negros, ao serem elevados à categoria de reis. Esta “tradição reinventada”, pelos “negros de Pombal”, representa a reafirmação da identidade negra e,
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também, a negação do início de sua história só a partir de quando foram escravizados e
transformados em mercadoria.
As descrições dos grupos Congos, Negros dos Pontões e Reisados, seus trajes, adereços
e apresentações, relatadas por Seixas (1966), Benjamim (s/d) e Sousa (2002), se assemelham
e se complementam.
No sábado que precede o domingo de encerramento da festa, os mesários da Irmandade
do Rosário e os Negros dos Pontões percorrem a feira local, angariando donativos que serão
destinados aos serviços de reparo, limpeza e manutenção da igreja de N. S. do Rosário.
Conduzem lanças ornamentadas com laços de fitas multicoloridos, ao som do congo, maracás,
pífanos, reco-recos e uma sanfona.
Os Congos ou “pretinhos do Congo”, se apresentam apenas no domingo do Rosário,
usam trajes mais exóticos, um entrecho dramático, cortejo e embaixada. Aceita tratar-se de
uma versão local, ou adaptado da versão olindense desaparecida.
O grupo é composto por 11 pessoas do sexo masculino, que cantam, dançam e tocam,
além de um, ou dois músicos que tocam viola, com destaque para três personagens: o rei, o
secretário e o embaixador. O rei é a figura central, sem nome específico, sendo tratado pelo
grupo por “o reis”, tanto no cortejo como na apresentação do entrecho, porém o verdadeiro
mestre é o secretário. O primeiro rei foi Mané Cachoeira. O embaixador é uma figura passiva,
que ouve e responde com o coro cantando na “cabeceira”.
A única personagem do sexo feminino, que acompanha o grupo, é a zeladora, tendo a
função de cuidar do vestiário do grupo, lavar, passar, ajudar a vestir e arrumar os trajes e
adereços antes das apresentações. É muito discreta, mas exerce grande influência sobre o
grupo, fiscaliza o comportamento e principalmente os excessos no consumo de aguardente.
No domingo do Rosário o grupo vai à casa do Juiz e acompanha a procissão até a igreja,
assim como os demais grupos, assiste a missa e depois começa a exibição, isolado dos demais
grupos, visitando as famílias mais importantes da cidade. O grupo se desloca de uma
residência para outra, em duas alas, de maracás nas mãos, encabeçados pelo secretário e pelo
embaixador, no centro, “o reis”, de chapéu-de-sol aberto, segurado por ele mesmo, com a mão
direita. O chapéu-de-sol substitui o pálio real ou umbrela do Maracatu. Durante o cortejo, não
cantam nem dançam.
Ao chegar na residência escolhida para dançar pedem licença e entram para o terraço ou
sala de visitas. O dono da casa afasta as cadeiras, abrindo espaço e oferece uma cadeira ao
“reis” - o trono real. O “reis” senta-se no trono de frente para os dois cordões e se inicia a
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dança com entrecho dramático. Depois da exibição o dono da casa oferece bebidas alcoólicas,
cerveja, aguardente, bate-bate e tira-gosto e dá sua contribuição em dinheiro. Eles fazem três
ou quatro exibições em residências e depois se retiram da cidade. É uma honra ser visitado
pelos Congos.
A dança é executada em 4 passos: aboi, zabelinha, tesoura ou tesourinha e volta em
cheia, e a música é produzida por maracás e marcada por vigorosos passos da dança,
acompanhada de viola.
Os Congos fazem as invocações iniciais, e dançam sem se preocupar com a presença do
“reis”. Este, sempre ausente da cena do ponto de vista antiilusionista da apresentação,
somente na sétima estrofe entra no brinquedo. A fala da embaixada e todo canto, são ditos em
português estropiado e algumas palavras soltas, parece um dialeto africano, de sentido
totalmente esquecido. Nas cantigas e embaixadas há referência geográfica ao Congo, à
Aruanda, à Guiné e à Bahia.
Os Congos se dividem em duas alas (cordões) de cinco participantes cada. Os dois
cordões vestem saias rendadas brancas, por baixo uma saia de armar com um aro de arame,
sob a calça comprida branca. Nos pés, sandálias sertanejas ou sapatos. Portam chapéus,
afunilados, de papelão, na cor da blusa, enfeitados de espelhos, vidrilho e areia prateada.
Fig. 6 - Os Congos com seus adereços.
Foto: José Martins (2002).
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Os congos do cordão do secretário vestem blusas azuis e os do cordão do embaixador,
encarnado. O secretário porta uma faixa encarnada sobre a blusa azul e o embaixador uma
faixa azul sobre a blusa encarnada. O “reis” usa calça branca, camisa branca de colarinho,
paletó preto, sem gravata e coroa na cabeça, no braço, o chapéu-de-sol. A coroa é de papelão
dourado, sem detalhes. Não há cerimônia oficial de coroação do “reis”.
Os Negros dos Pontões é o grupo mais numeroso do folclore do Rosário de Pombal,
sem número fixo, sendo exclusivamente masculino. Exibem-se em dois cordões, encarnado e
azul e calçam sandálias sertanejas rústicas ou sapatos e trazem na cabeça chapéus de palha
enfeitados com fitas coloridas e lanças (pontões) semelhantes aos bordões da irmandade, mas
terminados em maracás, enfeitados de fitas multicoloridas. Usam as lanças tanto para abrir
caminho na multidão durante a procissão, como para fazer figurações na dança e para marcar,
com o rufar dos maracás, o ritmo de suas músicas. São acompanhados por uma banda cabaçal,
formada por adufe, caixa, tambor prato, fole e pífanos, alem de maracás de lanças.
Os Pontões não cantam. Visitam as casas e vendas, bebendo e recolhendo dinheiro
durante as exibições. Dançam com belicosidade e ao solicitar as doações em dinheiro,
apontam a lança na direção do doador, deixando cair sobre seus ombros, as fitas do maracá.
Assemelham-se estruturalmente a grupos folclóricos de outras regiões ligadas a devoção do
Rosário (Santa Luzia, Jardim do Seridó e até os Caboclos de Lança do carnaval de
Pernambuco). O chefe é chamado de “Capitão dos Pontões” e constitui a guarda do rei da
Irmandade, durante as procissões.
O Reisado não costuma manter uma freqüência de apresentações na Festa do Rosário.
Apresentam-se com o “reis”, o secretário, o general e o Mateus. O grupo é constituído de dez
a doze elementos, vestem calças brancas e camisetas com poucos bordados de vidrilhos em
forma de estrelas. O rei senta-se no trono de costas para o altar-mor, conduzindo uma espada
e uma coroa de papelão dourado, tendo um papel passivo durante toda apresentação. O canto
faz referências a mestre e contra-guia, embora nada os distinga no grupo.
A orquestra é composta por violão e pandeiro, um apito que, juntamente com o
sapateado e o canto, completa a parte musical. O bailado e o canto dos reisados são bem
diferentes da coreografia dos congos. O rei apresenta-se com calça branca, blusão encarnado,
peitilho bordado e coberto de espelhos, coroa e espada. As figuras mais importantes são o
general, o príncipe, o secretário e o Mateus (o espantalho das crianças), cada qual exibindo
trajes próprios para a folgança.
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O entrecho dramático, pobre, narra uma revolta na corte do rei Clarião do Congo,
comandada pelo secretário. O Mateus, figura diabólica, trunca o sentido das embaixadas e
precipita a guerra. Ao final, morrem o “reis” e o secretário, sobrevivendo o Mateus e o
general. O Mateus é consultado sobre a duração da guerra e verifica as horas em seu relógio
sem ponteiros (uma velha lata de óleo comestível)...A seqüência é encerrada com uma
exaltação cívica da bandeira brasileira. O Reisado de Pombal é o grupo mais arredio,
assemelhando-se mais ao reisado alagoano descrito por Abelardo Duarte (SEIXAS,1962;
BEJAMIN, s/d e ARAÚJO, 1997).
2.6. As Procissões
O primeiro domingo de Outubro é o grande dia da festa do Rosário. Todo o povo da
cidade e seus visitantes, aos poucos, vão se concentrando em frente à casa do Rosário,
patrimônio de Nossa Senhora do Rosário para, em procissão, trazer de volta para a igreja o
Rosário de Nossa Senhora.
Em seu trabalho Benjamim (s/d), descreve a participação dos grupos folclóricos,
iniciando pelo sábado, que antecede o grande domingo do Rosário, quando, após a feira ao
entardecer, os grupos folclóricos, devidamente uniformizados, ingressam na igreja e se
apresentam na capela-mór. Quando a Irmandade está toda reunida e a igreja lotada pelos
devotos, celebra-se uma missa ao som de zabumbas, adulfes, pífis e maracás. Após o
encerramento da liturgia, o rei, a rainha, o padre, a Irmandade e os grupos folclóricos recebem
o Santo Rosário e conduzem em uma salva de prata, coberta de rendas, acompanhado pela
procissão de fiéis, para a casa do Juiz-Rei da Irmandade.
Fig. 7 - O Santo Rosário.
Foto: José Martins (2002).
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O rei traja uma calça azul escuro, camisa branca de mangas compridas e sobre a mesma,
um corpete de cor azul celeste, na mão traz um cajado ornamentado de flores, numa evocação
ao cajado de São José, e na cabeça, a coroa real. A rainha veste um vestido cor-de-rosa,
usando na cabeça um véu curto sobre o qual assenta uma coroa.
Os negros dos Pontões abrem o cortejo à frente da Irmandade, com suas lanças-maracás
enfeitadas com múltiplas fitas coloridas, seguidos pelos congos e uma banda de música. A
multidão de fiéis atravessa becos e ruas até a rua do Rosário, onde os pontões se postam à
porta da casa do Juiz-Rei da Irmandade, e cruzam as lanças para o cortejo passar.
No interior da humilde casa, está armado um pequeno altar, onde o Rosário é depositado
e passará a noite sob a vigília da Irmandade, que rezam sucessivos rosários e cantam benditos.
Os devotos, aos poucos, ingressam na casa, se ajoelham diante do altar e beijam o Rosário.
Segundo Sousa (1993), a procissão do domingo do Rosário, inicia-se as 8:00 horas da
manhã, quando uma grande multidão vai se concentrando em frente à casa do Rosário. A
Irmandade abre o cortejo, com uma grande cruz azul, acompanhada do padre da freguesia.
Fig. 8 - A Irmandade do Rosário.
Foto: José Martins (2002).
Os irmãos trajam opas azul e branco e se organizam em dois cordões, tendo ao centro o
Rei e a Rainha, que conduzem o Rosário. Em meio à multidão, os Negros dos Pontões abrem
o caminho, enquanto os congos e a banda de música fecham o cortejo.
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Fig. 9 - Os Negros dos Pontões abrindo o cortejo.
Foto: José Martins (2002).
Vale ressaltar a presença dos devotos, que vão pagar suas graças e promessas
alcançadas, e acompanham a procissão com coroas de espinhos e pedras na cabeça, ou
vestidos de São Francisco, com pés descalços e outras estranhas formas de demonstração de
fé.
Fig. 10 - Os Pagadores de Promessas.
Foto: José Martins (2002).
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Ao chegar a igreja, o Rei e a Rainha, sobem ao palanque armado na calçada, o padre
concede a “Benção do Rosário”, e o Rosário é colocado pelo Rei e pela Rainha na imagem de
Nossa Senhora do Rosário.
Fig. 11 - O Rei e a Rainha do Rosário no altar.
Foto: José Martins (2002)
Fig. 12 - Imagem de Nossa Senhora do Rosário.
Foto: José Martins (2002).
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Os sinos da igreja tocam, e a multidão se ajoelha sobre o calçamento, se curva e reza em
agradecimento. Muitos choram de emoção. É celebrada a missa campal e, após o ato litúrgico,
os penitentes depositam as coroas de espinho de mandacaru, pedras e demais objetos de
promessa ao pé do Cruzeiro da Igreja.
Fig. 13 - A Missa campal.
Foto: José Martins (2002).
2.7. O Profano
A Festa do Rosário simboliza o encontro máximo dos pombalenses. Neste período, as
ruas da cidade se transformam. Parece até que se vestem de uma aura mística que acende os
corações dos moradores e dos filhos de Pombal, mesmo os que moram em outras localidades.
Não importa onde residam, todos se encontram durante a Festa.
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Fig. 14 - O Encontro.
Foto: José Martins (2002).
Segundo Araújo (1997), os que, pelos mais diversos motivos tiveram que sair da cidade,
retornam exatamente nesta época, porque sabem que ali vai ocorrer uma oportunidade de
reencontro e de matar a saudade: “Como se fosse combinado, é assim que acontece”. A
presença do Parque Maia é garantida, com suas rodas gigantes, carrossel, canoas e demais
brinquedos, sendo atrativos constantes, e embora se faça presente anualmente, é sempre como
se fosse a primeira vez.
Na descrição do autor, todos os tipos de jogos de azar, condenados pela igreja, também
têm seu espaço garantido, assim como a barraca de tiro ao alvo, o vendedor de bexigas, de
abacaxi e até o Seu Otacílio da Gelada, que toca o Hino Nacional nas garrafas coloridas de
corantes. Poetas de rima pobre e idéia rica são constantes na Festa. As barracas de palha que
circundam a praça do Bar Centenário vendem os mais variados tipos de bebidas e tira-gostos.
As músicas, tocadas pelo som do Parque Maia, são oferecidas de alguém para alguém.
As crianças são uma preocupação financeira para os pais, pelo que gastam nos parques e
demais brinquedos (chibatinha, bola de sopro, réu-réu etc). No domingo do Rosário, à noite,
grande parte dos filhos de Pombal que moram em outras localidades, embarcam em um
ônibus e retorna às suas cidades, com a certeza de um novo reencontro, no primeiro domingo
de outubro do próximo ano.
Assim é a Festa do Rosário de Pombal, um evento que reúne milhares de fiéis, devotos
de Nossa Senhora do Rosário, e que sobrevive à modernidade (Araújo, 1999).
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Fig. 15 - O Grande evento.
Foto: José Martins (2002)
2.8. A Festa como Atrativo Turístico
O turismo religioso representa um segmento importante para o desenvolvimento de uma
localidade, fato que pode ser comprovado a nível internacional, como a cidade de Lourdes na
França, Fátima, em Portugal e Santiago de Compostela, na Espanha. A nível nacional,
podemos citar Aparecida em São Paulo e Juazeiro do Norte ou do Padre Cícero, no Ceará.
A manifestação do sagrado representa uma realidade reproduzida pelos homens para se
entender e se explicar a si mesmos, e a peregrinação é para o devoto o exercício da religião.
Diferentemente de outros tipos de viagem, na romaria os devotos, quando partem para um
centro religioso, já o fazem na expectativa do que desejam encontrar. Como padrão de
turismo religioso, a cidade santuário de Lourdes, na França, é um exemplo notável, não só
pela veneração à natureza, assim como por sua infra-estrutura, de forma planejada ou
espontânea. Há uma integração entre as instituições religiosas e a política pública, para
fornecer o melhor para os peregrinos e turistas religiosos (ROSENDAHL, 1998)
Para Araújo (1997), com a escassez da agropecuária, as cidades do interior estão
descobrindo nas chamadas “festas do interior”, uma saída para a crise financeira, fazendo com
que os administradores municipais usem de toda criatividade para driblar a crise. Assim é que
Campina Grande tem o maior São João do Mundo; Guarabira, a Festa da Luz; Cajazeiras o
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Forrofest; Pilar, o tamarineiro de Augusto dos Anjos; Sousa, o Vale dos dinossauros; e
“Pombal tem... a Festa do Rosário”, primeiro encontro folclórico da Paraíba, um dos mais
tradicionais representantes da Irmandade dos negros do Rosário existentes no Nordeste
brasileiro.
Ainda na visão do autor, a festa deveria ser mais valorizada, visto que os grupos
folclóricos, como os Negros dos Pontões, não são “negrinhos” dançando, mas sim
representações autênticas da mais rica e original cultura afro-brasileira, além de já terem
chamado a atenção de vários pesquisadores, por ainda existir esse tipo de manifestação em
Pombal. A realeza dos Congos e do Reisado, tradições da cultura africana, com certeza,
deveriam ser mais exploradas turisticamente, acabando com o amadorismo e fazendo desta
festa uma forma de redenção para a cidade.
Apesar de mais de cem anos de tradição, a festa é realizada de forma amadora, sem
divulgação, estrutura e apoio da imprensa televisa ou escrita. Necessário se faz que os
administradores públicos, os comerciantes da cidade e a comunidade em geral, entendam que
o turismo não se restringe apenas à simples visitação de “pessoas esquisitas” à cidade.
Para Ayala (1995), a festa do Rosário de Pombal é o evento anual mais importante da
cidade, à semelhança do São João no Nordeste, tendo uma enorme importância na vida local
do ponto de vista sócio-econômico e político. É um evento muito concorrido, tanto quanto às
atividades lúdicas, aos brinquedos populares, parques de diversões, barracas de comidas
típicas e bebidas, quanto ao comércio e as manifestações religiosas.
De acordo com Pereira, citado por Araújo (1997), a Festa do Rosário de Pombal, é algo
que precisa ser vista “com olhos de turista”, como diria Graciliano Ramos. Esta tradição
secular, que se mantém acesa nos corações de seu povo, é o evento anual de registro da
história de Pombal. Todos desligam suas TV, fecham suas casas durante os três últimos dias
da festa e vão para a rua. Muitas donzelas (virgens), perdem sua virgindade por trás dos
muros e entre os becos da cidade, algumas engravidam, outras aproveitam a festa para fugir
com os namorados.
Enfim, a Festa do Rosário de Pombal, pelo potencial de sua tradição, é motivo de
orgulho e um marco na vida dos pombalenses. Resgata elementos da cultura nordestina, com
seus grupos folclóricos, a feira com vendedores de folhetos, artesanato de cerâmica e tudo o
mais que se possa imaginar. Durante os dias da festa, tudo é magia, e leva os que dela
participam a se deixar conduzir pelo fantástico e poético da sua sedução. Segundo Araújo
(1997), esta festa, traz imagens de um grande circo, de criaturas românticas: seresteiros,
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sanfoneiros, cantadores de viola, bêbados, prostitutas, e bonitas donzelas com vestidos
estampados.
2.9. Depoimentos Informais
No decorrer das duas visitas que realizamos para pesquisa de campo, foram coletados
depoimentos de diversas pessoas, dente elas, representantes de grupos folclóricos, moradores
locais e visitantes. Coletamos principalmente informações sobre o contexto geral da Festa.
Para os moradores locais, a festa representa o maior momento da cidade, e todos se
sentem envolvidos pelos festejos, participam ativamente das manifestações religiosas,
procissões e missas e têm grande prazer em receber os parentes e amigos no decorrer do
evento. Os moradores relatam que seria bom se a cidade tivesse melhores condições para
acolher os visitantes, e reclamam do escasso apoio dos políticos e comerciantes, não só
quanto à infra-estrutura da cidade, como também quanto à ajuda necessária para a
conservação e preservação dos grupos folclóricos. No entanto, são unânimes ao afirmar que se
sentem felizes com a chegada da festa, mesmo os que moram no centro da cidade, onde
transcorre o festejo religioso e profano. Concordam que é uma manifestação viva de fé e
representa um grande reencontro dos filhos e amigos de Pombal.
Dos participantes de alguns grupos folclóricos, registramos a imensa satisfação de
pertencerem a suas entidades, pois assumem com orgulho e responsabilidade suas atribuições,
e têm muita fé em Nossa Senhora do Rosário. Porém, adoram as brincadeiras, e a maioria
curte “uma branquinha”, e todo o lado profano da festa, que para eles, representa o momento
de rever os amigos e de esquecer por alguns momentos as dificuldades da vida. Gostariam
muito de ter mais ajuda dos políticos.
***
3. PROPOSTAS DE AÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO DE POMBAL
É inquestionável a grande manifestação de religiosidade e de folclore popular presente
na Festa do Rosário de Pombal, sendo evidente a falta de ações capazes de transformar este
evento em um atrativo turístico do Estado. Para tanto, se faz necessária a elaboração de um
plano estratégico de turismo que envolva a comunidade local os órgãos públicos e privados,
para resgatar e preservar a história e tradição da cidade, presentes neste festejo.
A seguir traçamos algumas propostas que possam sinalizar para a inclusão da Festa do
Rosário de Pombal, no calendário de eventos do Estado.
Criar um Comitê de Conservação e Preservação das Tradições e Cultura da Festa do
Rosário, com apoio do Município e do Estado.
Elaborar um Plano de Desenvolvimento do Turismo Religioso-Cultural para a cidade
de Pombal, a ser desenvolvido a pequeno, médio e longo prazo.
Submeter este Plano para apreciação e aprovação de órgãos competentes do
desenvolvimento turístico, a nível municipal e estadual.
Incentivar a população local para o evento, através de campanhas educativas acerca
do valor sócio-cultural da Festa e da importância do turismo religioso-cultural para o
desenvolvimento da cidade.
Utilizar os meios de comunicação, como emissoras de televisão, rádio e mídia em
outdoor, para divulgar o evento.
Envolver os comerciantes locais, para que assumam a responsabilidade pelos trajes e
adereços dos grupos folclóricos.
Cadastrar residências e fazendas que possam receber turistas no período da Festa.
Restaurar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o Cruzeiro, a matriz de Nossa
Senhora do Bom Sucesso, a Cadeia Pública, alicerçada ainda em 1847, a antiga
Estação Ferroviária, a Fábrica da Brasil Oiticica e os casarios antigos.
Transformar alguns locais em mercado de artesanato, oficina-escola ou entidades que
coordenem as ações turísticas, beneficiando a comunidade local.
Criar, em parceria com o SEBRAE/PB, uma Cooperativa de Artesões, para resgatar o
artesanato local (cerâmica, bordado manual e tricô), para que possa ser exposto e
comercializado durante a Festa.
***
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O turismo religioso-cultural é um segmento já consolidado em algumas regiões do
Brasil, e que aponta como alternativa promissora para o desenvolvimento turístico de uma
localidade.
O sagrado e o simbolismo do misticismo fazem parte da vida do homem desde os
primórdios da humanidade. Assim é que ele sempre busca expressar suas crenças, através das
mais variadas formas, constituindo-se sobretudo em nosso país, de um sincretismo religioso
de grande riqueza cultural.
Em países como a França, Portugal e Espanha, é notório o papel do turismo religioso
como fonte de dividendos. Em nosso país, Aparecida e Juazeiro do Norte se destacam neste
segmento, enquanto outros centros estão surgindo, como O Caminho das Águas no interior de
São Paulo e na Paraíba, se tem conhecimento de peregrinação à Cruz da Menina em Patos.
Será que apenas estas manifestações, despontam para o turismo religioso em nosso Estado?
Ou será que falta planejamento e divulgação de outros focos de grande manifestação do
sincretismo religioso?
Com base na bibliografia pesquisada, constata-se que a Festa do Rosário de Pombal
representa um ícone da manifestação religiosa-cultural do povo brasileiro. Estudada por
diversos autores, por sua singularidade de representação da religiosidade, com folguedos
populares característicos da miscigenação do nosso povo. Chama a atenção pela sua
temporalidade, com mais de cem anos de manifestação, pela dualidade do sagrado e do
profano e pela preservação de sua história e identidade.
Neste trabalho, foi realizada uma trajetória histórica, religiosa e cultural da Festa do
Rosário de Pombal, para contextualizar a importância da Festa, tanto como manifestação de
uma tradição que deve ser conservada e preservada como, também um atrativo que deve ser
explorado.
Deste modo, esperamos contribuir para a divulgação de tão rica manifestação popular, e
acenar com algumas propostas para o desenvolvimento do turismo religioso-cultural na cidade
de Pombal.
***
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A FESTA do Rosário de Pombal. Correio da Paraíba. João Pessoa, 2 out. 1997, Caderno Cultura, p. 6.
ARAÚJO, Jerdivan Nóbrega de. Sob o céu estrelado de Pombal. João Pessoa: A União, 1997.
ARAÚJO NETO, José Tavares de. Ainda sobre a Festa do Rosário de Pombal. Correio da Paraíba. João
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TURISMO RELIGIOSO-CULTURAL: O CASO DA CIDADE DE