ISSN 1982 - 0283
EDIÇÃO ESPECIAL
PAULO FREIRE:
50 ANOS DE ANGICOS
Ano XXIII – Setembro 2013
EDIÇÃO ESPECIAL:
PAULO FREIRE: 50 ANOS DE ANGICOS
SUMÁRIO
Paulo Freire - 50 anos de Angicos............................................................................................. 3
Genuíno Bordignon
Anexo - Cronologia da Experiência de Angicos.........................................................................9
Moacir Gadotti (Organizador)
Edição Especial
PAULO FREIRE – 50 ANOS DE ANGICOS
A leitura do mundo precede a leitura da palavra
Genuíno Bordignon1
Em 2 de abril de 1963, o Presidente
nacional e internacionalmente, Paulo Freire
João Goulart presidiu, em Angicos, no Rio
e seu método. O projeto político-pedagógico
Grande do Norte, a cerimônia de entrega de
de alfabetização idealizado por Paulo Freire
certificados aos 300 adultos que haviam se
e coordenado por Marcos Guerra, em Angi-
alfabetizado em 40 horas/aula, em processo
cos, significou, fundamentalmente, um re-
iniciado em 18 de janeiro daquele ano. Essa
pensar da própria educação em geral e da
solenidade mereceu, por seu ineditismo e
educação pública e popular, em particular,
pelo significado da experiência de alfabeti-
como uma contribuição para a constituição
zação idealizada pelo educador Paulo Freire,
da democracia e da cidadania.
a presença do presidente, além da do Ministro do Planejamento, Celso Furtado; do Go-
Angicos foi o marco de uma peda-
vernador do estado, Aluízio Alves; e de vários
gogia de educação para a cidadania ativa,
governadores do Nordeste, entre outras au-
pensada para uma mudança radical da so-
toridades.
ciedade brasileira, transformando massa
amorfa em povo participante. É isso que nos
O ineditismo foi caracterizado, não
revela um trecho da fala de Antônio da Silva,
apenas pela eficácia do método que alfabe-
aluno alfabetizado pelo método, dirigindo-
tizou os adultos em tão curto tempo, mas,
-se, em nome da turma, ao Presidente da
especialmente, pelo significado político des-
República, João Goulart, na cerimônia de
sa experiência educacional que notabilizou,
entrega dos certificados de alfabetização:
1
Prof. UNB, Assessor do Instituto Paulo Freire, Consultor do MEC para a Conae e Consultor do Salto para
esta Edição Especial.
3
“Naquele momento anterior veio o Pre-
mais simples, como povo, voto ou tijolo, os
sidente Getúlio Vargas, matar a fome do
alunos aprendiam o que eles mesmos apeli-
pessoal, a fome da barriga, que é uma
daram carinhosamente de famílias silábicas.
fome fácil de curar. Agora, na época atu-
E, a partir delas, aprendiam que poderiam
al, veio o nosso Presidente João Goulart
formar novas palavras.
matar a precisão da cabeça que o pessoal todo tem necessidade de aprender.
O processo de alfabetização de Paulo
Temos muita necessidade das coisas que
Freire, por se basear na experiência de vida
nós não sabia, e que hoje estou sabendo.
das pessoas e por estimular no aluno o espí-
Em outra hora nós era massa, hoje não
rito crítico sobre seu papel no mundo, sub-
somos massa, estamos sendo povo”.
verteu as práticas de alfabetização da época,
baseadas em cartilhas descontextualizadas e
Paulo Freire idealizou a experiência
acríticas.
de Angicos em 1962, quando esse grande
educador era diretor do Departamento de
Marcos Guerra, no texto “As 40 ho-
Extensões Culturais da Universidade de Per-
ras de Angicos – um legado”2 e Carlos Bran-
nambuco. Freire criticava o processo didá-
dão (1981), no livro “O que é o método Paulo
tico tradicional de cartilhas, que utilizava a
Freire”, detalham as etapas e processos da
repetição de palavras soltas e descontextua-
experiência de alfabetização de Angicos, que
lizadas para o ensino da leitura e da escrita.
fez parte de uma concepção de educação
emancipadora, com dimensão abrangente,
Paulo Freire pensou o processo de alfabeti-
a perpassar todas as etapas e modalidades
zação a partir de palavras geradoras, sele-
de ensino.
cionadas do universo vocabular dos alunos,
mediante conversas informais, que serviam
de base para as lições. Depois de compos-
muito mais do que um processo de codifi-
to o universo das palavras geradoras, elas
cação e decodificação de palavras. Acima
eram apresentadas em cartazes com ima-
de tudo, era promover a conscientização, a
gens e discutidas para significá-las na rea-
compreensão do mundo e o conhecimento
lidade daquela turma (o que se denominou
da realidade social com base na discussão
de “círculos de cultura”). Compreendido o
sobre os diversos temas surgidos a partir das
significado da palavra, ela passava a ser es-
palavras geradoras e das novas palavras for-
tudada. Assim, a partir de uma expressão
madas pelos alunos.
2
Ver site Angicos50anos.paulofreire.org
Para Paulo Freire, alfabetizar era
4
Assim, a aprendizagem da leitura e
como capaz de modificá-la. Sua pedagogia
da escrita era precedida pela compreensão
proporciona aos educandos a compreen-
do significado da palavra no contexto polí-
são de que a forma de o mundo estar sen-
tico. Mais tarde, Paulo Freire (1981), no livro
do não é a única possível. Ela revela, como
“A importância do ato de ler”, viria a expli-
possibilidade, tudo aquilo que a totalidade
citar o princípio fundamental que orientou
opressora apresenta como determinação.
aquele projeto político-pedagógico de alfabetização, expresso na frase: “A leitura do
Nesse processo de leitura e de relei-
mundo precede a leitura da palavra, daí que a
tura do mundo, de leitura e de releitura da
posterior leitura desta não possa prescindir da
palavra, uma leitura mais crítica do mundo
continuidade da leitura daquele”.
e da palavra forma o sujeito, que constrói
uma visão de mundo e que pode, a partir
Segundo Ângela Antunes, para Frei-
dessa visão, não apenas vê-lo e entendê-lo
re, educar é promover a capacidade de ler a
melhor, mas pode, assim fazendo, entender
realidade e de agir para transformá-la, im-
melhor como somos capazes de mudar o
pregnando de sentido a vida cotidiana. Para
mundo pela nossa ação. Nessa problema-
isso, a educação não pode se dar alheia ao
tização, o educador desafia os alunos para
contexto do educando, nem o conhecimen-
que expressem de maneiras variadas o que
to pode ser construído ignorando-se o saber
pensam sobre diferentes dimensões da rea-
dos alunos. Daí a importância da leitura do
lidade vivida. O educando dialoga com seus
mundo.
pares e com o educador sobre seu conhecimento, sobre sua vida. Essas discussões
Desde seus primeiros escritos, Frei-
permitirão ao educador apreender a visão
re procurava uma teoria do conhecimento
dos alunos sobre a situação problematizada,
que possibilitasse a compreensão do papel
para fazê-los perceber a necessidade de ad-
de cada um no mundo, bem como sua in-
quirir outros conhecimentos, a fim de me-
serção na história. Ele estava preocupado
lhor entendê-la. No processo de construção
em elaborar uma pedagogia comprometida
do conhecimento, ele parte sempre de te-
com a melhoria das condições de existên-
mas relacionados ao contexto do educando
cia das populações oprimidas. O conheci-
e da compreensão inicial que este tem do
mento construído através do processo edu-
problema, para, por meio de um processo
cativo, nessa perspectiva, tem a função de
dialógico, da relação entre educandos e edu-
motivador e impulsionador da ação trans-
cadores, ir ampliando a compreensão dos
formadora. O ser humano deve entender a
alunos, construindo e reconstruindo novos
realidade como modificável, e, a si mesmo,
conhecimentos.
5
O respeito, então, ao saber popular,
alfabetizar dois milhões de adultos. Quando
implica necessariamente o respeito ao con-
já haviam sido organizados vinte mil círcu-
texto cultural. A localidade a que pertencem
los de cultura, em 1964, sobreveio o Golpe
os educandos é o ponto de partida para o
de Estado que reprimiu toda a mobilização
conhecimento que eles vão criando do mun-
social pela alfabetização e o método foi con-
do. É a partir do conhecimento da localida-
siderado subversivo, pois, de fato, subvertia
de e da percepção desta pelos educandos,
toda uma prática de educação passiva, acrí-
de sua visão do mundo, que Freire considera
tica e que mantinha a alienação. O método
possível organizar um conteúdo libertador.
ensinava aos alunos mais que as letras, ensi-
A realidade imediata vai sendo inserida em
nava o papel e a importância de cada um na
totalidades mais abrangentes, revelando ao
sociedade e no mundo. Paulo Freire teve que
educando que a realidade local, existencial,
se exilar no Chile, onde continou seu traba-
possui relações com outras dimensões: re-
lho e escreveu seu mais emblemático livro:
gionais, nacionais, continentais, planetária
“Pedagogia do oprimido”.
e, em diversas perspectivas: social, política e econômica, que se interpenetram. A
Tendo de abandonar também o Chile,
localidade do educando é, dessa forma, o
pois o obscurantismo se abateu sobre toda a
ponto de partida para a construção do co-
América Latina, Paulo Freire foi semear sua
nhecimento do mundo. Fazer os educandos
utopia de educador em outros continentes,
falarem a partir de seu território, do seu lu-
especialmente na Africa, tornando-se refe-
gar de vida, convivência, trabalho, relações
rência mundial, não só na educação de adul-
sociais, e, num movimento solidário, dialé-
tos, mas na concepção de uma pedagogia
tico e dialógico, ir permitindo que eles des-
emancipadora.
vendem o local e o universal, denominem o
mundo e se comprometam com as ações ne-
Para Marcos Guerra, coordenador do
cessárias à construção do mundo novo, com
projeto de Angicos, o método não envelhe-
justiça social e sustentabilidade, é a grande
ceu. No seu cinquentenário, continua sendo
exigência de um projeto político-pedagógico
referência e inspiração para os educadores
voltado à formação da cidadania ativa e da
brasileiros. Para Moacir Gadotti, do Institu-
transformação social.
to Paulo Freire, é um método que desperta o
desejo de continuar aprendendo pelo resto
Empolgado com a eficácia didática e
da vida. Embora de curta duração, o método
política do método, João Goulart convidou
fez de Paulo Freire, até hoje, um dos brasilei-
Paulo Freire para organizar a Campanha Na-
ros mais estudados no exterior.
cional de Alfabetização, com o objetivo de
6
Considerando o significado histó-
nuscritos do livro Pedagogia do Oprimido pelo
rico da experiência de Paulo Freire, em se-
ex-Ministro da Reforma Agrária do Chile, Jac-
tembro de 2005, o Presidente da República,
ques Chonchol, à Presidenta Dilma Roussef;
Luiz Inácio Lula da Silva, esteve em Angicos
e a edição de livros, vídeos e selos, além de
na cerimônia de entrega dos certificados de
diversos eventos regionais. A realização de
alfabetização de três mil alunos do Projeto
um programa Salto para o Futuro, da TV-Esco-
MOVA-Brasil/Brasil Alfabetizado.
la, se insere no contexto dessas celebrações.
O Programa de Celebrações, organizado pela
Em 2012, o Congresso Nacional apro-
Comissão, encontra-se disponível no site
vou a Lei n.º 12.612, de 13 de abril, declaran-
http://angicos50anos.paulo-
do Paulo Freire como Patrono da Educação
freire.org/agenda-celebracoes/
Brasileira.
Em anexo, é apresentada, de forma
O legado do educador Paulo Frei-
sintética, a cronologia da experiência de
re passou a ser o ethos de toda a educação
Angicos, organizada por Moacir Gadotti, do
brasileira. Angicos, além de um símbolo da
Instituto Paulo Freire.
luta contra o analfabetismo no Brasil, é um
marco pela universalização da educação em
Em 6 de novembro de 2012, pela
todos os graus, superando a visão elitista.
Portaria nº 1.319, o Ministro da Educação,
Angicos foi um projeto de cultura popular
Aloizio Mercadante, criou a Comissão Orga-
que imaginou e concebeu um projeto nacio-
nizadora, com o objetivo de apresentar ao
nal de educação para uma sociedade demo-
Ministro proposta de um programa de cele-
crática e socialmente justa.
brações “Paulo Freire – 50 anos de Angicos”,
organizando, executando e/ou apoiando as
atividades.
tuoso na educação brasileira, com grandes
O Brasil vive um momento novo e vir-
realizações no acesso à Educação Infantil e
Dentre as propostas do programa,
ao Ensino Superior, na expansão do Ensino
destacam-se: a criação do Memorial Pau-
Técnico, na política de educação inclusiva e
lo Freire: Museu e Centro de Formação, no
na melhoria da educação básica em busca
campus de Angicos da Universidade Federal
de sua universalização. Angicos nos inspi-
do Semi-Árido (Ufersa), em parceria entre o
ra a continuar nesse processo, ampliando
MEC e a Petrobras; a definição das bases de
a luta pelo fim do analfabetismo na vida
uma nova política nacional de educação de
de milhões de jovens e adultos brasileiros,
jovens e adultos; a entrega dos originais ma-
como compromisso de um governo demo-
7
crático e popular. Esta poderá ser uma mar-
50 anos de Angicos, sintetiza-se num es-
ca fundamental de um “Brasil sem miséria”,
forço nacional pela universalização da
pois é sabido que o analfabetismo é fator e
alfabetização no Brasil. Este é o sentido
produto da miséria de um povo.
maior das celebrações dos 50 anos da experiência de Paulo Freire em Angicos.
Entendemos que a melhor home-
nagem a Paulo Freire, na passagem dos
REFERÊNCIAS:
ANTUNES, Angela. Leitura do mundo no contexto da planetarização: por uma pedagogia da sustentabilidade. São Paulo: Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2002. Tese de
Doutorado.
8
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é o método Paulo Freire? São Paulo: Brasiliense, 1981.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo:
Cortez. 1981.
Sites para consultas sobre a experiência de Angicos
Angicos50anos.paulofreire.org
http://acervo.paulofreire.org/xmlui/o-projeto
http://www.projetomemoria.art.br/
www.eff.comunicacao.com.br/angicos50anos
ANEXO
CRONOLOGIA DA EXPERIÊNCIA DE ANGICOS
(ORGANIZADA POR MOACIR GADOTTI – IPF)
1958 – 09 a 16 de Julho – Paulo Freire apresenta as bases teóricas de seu sistema de alfabetização de adultos no II Congresso Nacional de Educação de Adultos, realizado no Rio de
Janeiro, como coordenador do relatório do grupo de trabalho sobre “A educação de adultos
e as populações marginais: o problema dos mocambos”. Este relatório “é o germe de toda a
literatura ético-político-crítica de Paulo da educação para a transformação” (FREIRE, 2006, p.
126).
1959 – Paulo Freire apresenta sua tese de concurso para a cadeira de História e Filosofia da
Educação na Escola de Belas-Artes de Pernambuco, com o título: Educação e atualidade brasileira. Trata-se da “primeira elaboração sistemática” do seu pensamento, cujos “eixos e categorias
iriam perpassar toda a sua obra” (ROMÃO, 2001, p. XIII).
1960 – 13 de Maio – Fundação do Movimento de Cultura Popular (MCP), em Recife, na gestão
do recém-empossado prefeito Miguel Arraes, com 90 sócios fundadores, tendo Germano Coelho como um dos seus idealizadores e Paulo Freire como um de seus membros mais atuantes.
Os ideais do MCP espalharam-se rapidamente por diversos Estados do Nordeste. O MCP associava a cultura popular à luta política, conscientizando as massas e alfabetizando por meio de
círculos de cultura.
1961 – Fevereiro – Lançamento, em Natal, pelo Secretário da Educação Moacyr de Góes, da
campanha: De pé no chão também se aprende a ler, na gestão do Prefeito Djalma Maranhão,
entendendo a educação e a cultura como instrumentos de libertação.
1961 – 21 de Março – Por iniciativa da Igreja Católica, foi criado o Movimento de Educação de
Base (MEB), por meio do Decreto 50.370, uma parceria entre o Governo Federal e a Conferência
Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), para contribuir no processo de alfabetização de adultos,
9
utilizando a rede de emissoras católicas para promover a valorização do ser humano e o desenvolvimento das comunidades.
1961 – Abril – A União Nacional dos Estudantes (UNE) cria o Centro Popular de Cultura (CPC),
abrindo caminho para a politização das questões sociais. Seu objetivo era criar e divulgar uma
arte popular revolucionária, defendendo o engajamento político do artista para superar a alienação e a consciência ingênua das massas. Para isso, promovia a encenação de peças de teatro
críticas em portas de fábricas, nas ruas e em sindicatos.
1961 – Aluísio Alves toma posse como governador do Estado do Rio Grande do Norte.
1961 – 25 de Agosto – Jânio Quadros deixa a presidência que exercia desde o dia 31 de janeiro
daquele ano.
1961 – 7 de Setembro – Posse do presidente João Goulart exercendo o mandato até dia 1 de
abril de 1964 (golpe militar).
1962 – Janeiro – Paulo Freire e sua equipe, do Serviço de Extensão Cultural da Universidade
do Recife, assessoram a Campanha de Educação Popular da Paraíba (CEPLAR), criada em João
Pessoa, por estudantes universitários e profissionais recém-formados para a alfabetização de
adultos.
1962 – 13 de Abril – João Goulart assina, em Washington, “O Acordo Brasil-Estados Unidos
sobre o Nordeste”.
1962 – 18 de Setembro – Darcy Ribeiro assume o Ministério da Educação, exercendo o mandato até 23 de janeiro de 1963.
1962 – Setembro (meados) – Calazans Fernandes, Secretário de Educação do Estado do Rio
Grande do Norte e coordenador do Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte
10
(SECERN) e Maria José Monteiro, ex-aluna de pedagogia de Paulo Freire, reúnem-se com ele no
Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife para falar sobre o projeto de Angicos de
Alfabetização de Adultos.
1962 – Setembro (final) – Na casa de Paulo Freire (Rua Alfredo Coutinho, 79, Recife), Aluísio
Alves, Calazans Fernandes e Maria José Monteiro reúnem-se com ele, dando o aceite para participar do projeto, com duas condições: autonomia para contratar os coordenadores e alfabetizadores e não interferência político-pedagógica e ideológica (Paulo Freire temia que o fato dos
recursos virem da Aliança para o Progresso pudesse interferir no seu trabalho).
1962 – Dezembro – Marcos Guerra, estudante de Direito e presidente da União Estadual dos
Estudantes, a pedido de Paulo Freire, forma a equipe de alfabetizadores (monitores) para o
Programa de Alfabetização de Angicos, uma parceria entre o SECERN e o Serviço de Extensão
Cultural da Universidade do Recife (SEC/UR) do qual Paulo Freire era Diretor. O trabalho se
inicia com levantamento do número de analfabetos de Angicos e com a pesquisa do “universo
vocabular” (palavras e temas geradores).
1962 – 3 de Dezembro – Celebração do Convênio entre o MEC, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), o Estado do Rio Grande do Norte e a United States Agency
for International Development (USAID), dentro dos propósitos da Aliança para a Progresso.
1963 –
Janeiro - Seleção dos 21 coordenadores (alfabetizadores) dos Círculos de Cultura,
entre eles Madalena Freire, e seu supervisor Carlos Lyra. Formação da equipe com a colaboração de Elza Freire.
1963 – 18 de Janeiro – Lançamento do projeto com a aula inaugural do Experimento de Angicos, com a presença de Aluísio Alves: 380 moradores começam a sua alfabetização.
1963 – 24 de Janeiro – Primeira aula regular do projeto sobre o tema: Conceito antropológico
de cultura, iniciando a primeira das Quarenta horas de Angicos.
1963 – 28 de Janeiro – Primeira aula de alfabetização, começando pela palavra geradora “belota”.
11
1963 – Fevereiro e Março – As aulas foram sendo dadas ao mesmo tempo em que aconteciam
as reuniões de formação continuada dos coordenadores dos Círculos de Cultura, refletindo
sobre a sua prática.
1963 – 2 de Abril – 40ª hora (aula) dada pelo presidente da República, João Goulart, com a
presença de vários governadores do Nordeste e de representantes da Aliança para o Progresso,
na qual também falaram Aluísio Alves, Paulo Freire e o ex-analfabeto Antonio Ferreira. A aluna
mais idosa, Maria Hermínia, entregou cartas, escritas pelos participantes do curso, ao presidente. Assim se formava a primeira turma de Angicos. Nessa ocasião, foi notada a presença
do General Humberto de Alencar Castelo Branco, fardado, comandante da Região Militar no
Recife, que, ao final da aula, teria dito a Calazans Fernandes: “Meu jovem, você está engordando cascavéis nesses sertões” (FERNANDES; TERRA, 1994, p. 18).
1963 – Abril – Com o término da experiência, saem os resultados da avaliação do aprendizado do experimento de Angicos: 300 participantes são considerados alfabetizados, com 70% de
aproveitamento no “Teste de Alfabetização” e 87% no “Teste de politização” (LYRA, 1996, p. 171).
1963 – Abril-Junho – A Revista Estudos Universitários, da Universidade do Recife (nº 4), publica os primeiros estudos sobre o Sistema Paulo Freire, com ensaios de Jarbas Maciel, Jomar
Muniz de Britto, Aurenice Cardoso, Pierre Furter e do próprio Paulo Freire, que, em seu artigo,
Conscientização e Alfabetização, rebate críticas da imprensa conservadora que o acusavam de
confundir alfabetização com politização.
1963 – Maio – A cidade de Angicos teve sua primeira greve. Os proprietários rurais chamam a
experiência de Paulo Freire de “praga comunista” (FERNANDES; TERRA, 1994, p. 126).
1963 – 29 de Maio – Em carta a Aluísio Alves, o embaixador norte-americano, Lincoln Gordon,
recomenda que o Programa de Angicos para a eliminação do analfabetismo seja adotado em
todos os Estados.
12
1963 – Junho – Lançamento do filme As quarenta horas de Angicos, de Luiz Lobo, uma produção do Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte” (SECERN), mostrando a
experiência de Angicos, uma “primeira fase” do programa de alfabetização, por meio de um
“método simples, claro e eficiente” que, “matando a fome da cabeça” e “transformando Angicos numa comunidade forte, consciente e empreendedora”, forma pessoas para “contribuir
com as magnas decisões da Pátria”.
1963 – 2 de Junho – Repercute a reportagem do jornal The New York Times sobre a experiência de Angicos. Para Angicos se deslocaram representantes de outros jornais, tais como:
Time Magazine, Herald Tribune, Sunday Times, United e Associated Press e Le Monde.
1963 – 18 de junho – Paulo de Tarso Santos assume o Ministério da Educação, exercendo o
mandato até 21 de outubro de 1963. Darcy Ribeiro recomenda a seu substituto, Paulo de Tarso
Santos, que chame Paulo Freire a Brasília para conceber um programa nacional de alfabetização, baseado no experimento de Angicos.
13
1963 – 16 de julho – Portaria Ministerial 195 institui, junto ao Gabinete do Ministro da Educação, a Comissão de Cultura Popular, “com o objetivo de implantar, em âmbito nacional, novos
sistemas educacionais de cunho eminentemente popular, de modo a abranger áreas ainda não
atingidas pelos benefícios da educação”. Paulo Freire é nomeado presidente desta Comissão.
Sua primeira tarefa foi fazer um levantamento nacional do número de analfabetos para subsidiar o futuro Programa Nacional de Alfabetização. O número de analfabetos entre 15 e 45 anos,
em setembro de 1963, era de 20.442.000.
1963 – Julho – Celso Beisiegel, docente do Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São
Paulo (CRPE), visita a experiência de alfabetização de adultos de Angicos, observando o funcionamento dos Círculos de Cultura para realizar experiência com o mesmo método no município
paulista de Osasco.
1963 – 15 a 21 de Setembro – Realização, em Recife, do I Encontro Nacional de Alfabetização
e Cultura Popular, convocado pelo MEC, com a participação de educadores, artistas, políticos,
estudantes, trabalhadores, sindicalistas, religiosos, dentre outros atores, que se uniram com o
objetivo de transformar a sociedade brasileira por meio da educação e da cultura.
1963 – Outubro – Um grupo da embaixada norte-americana visita o governador Aluísio Alves,
em Natal, para preparar a visita do presidente John Kennedy a Angicos, programada para dezembro daquele ano. No entanto, Kennedy seria assassinado, em Dallas, no dia 22 de novembro.
1963 – 21 de outubro – Júlio Furquim Sambaqui assume o Ministério da Educação, exercendo
o mandato até 6 de abril de 1964.
1963 – Segundo semestre – A experiência de Angicos é levada para outras cidades: Quintas,
Mossoró, Caicó, Macau, Ubatuba, Osasco, Rio de Janeiro, Brasília, Aracaju, Porto Alegre e outras, como “projeto-piloto” do Programa Nacional de Alfabetização. Paulo Freire percorre o
país estruturando o Programa Nacional de Alfabetização, que seria iniciado na Baixada Fluminense no início de 1964.
1964 – 21 de Janeiro – O Decreto nº 53.465, de 21 de janeiro de 1964, institui o Programa Nacional de Alfabetização, consagrando o Sistema Paulo Freire para alfabetização em tempo rápido. O Programa Nacional de Alfabetização previa a “cooperação e os serviços” de “agremiações
estudantis e profissionais, associações esportivas, sociedades de bairro e municipalistas, entidades religiosas, organizações governamentais, civis e militares, associações patronais, empresas privadas, órgãos de difusão, o magistério e todos os setores mobilizáveis”. Desde seus
primeiros escritos e sua práxis político-pedagógica, Paulo Freire preconizava a necessidade da
participação popular na luta contra o analfabetismo. O programa previa a criação de 60.870
círculos de cultura, cada um com a duração de três meses, em todas as unidades da federação,
para alfabetizar, em 1964, 1.834.200 analfabetos na faixa de 15 a 45 anos. A sua implantação
efetivou-se por meio de projetos-piloto na região Sul, Sudeste e Nordeste. O PNA representava
um salto qualitativo em relação às campanhas de alfabetização anteriores.
14
1964 – 27 de janeiro – O MEC designa Paulo Freire e outros membros para a Comissão Especial do Programa Nacional de Alfabetização, sob a presidência do próprio ministro (Portaria
72, de 27 de fevereiro de 1964). A Portaria de n° 92. de 16 de março, designa Paulo Freire para
exercer as funções de substituto eventual do Presidente da Comissão Especial.
1964 – 14 de Abril – Logo após o golpe de estado de 1 de abril de 1964, o Decreto nº 53.886, de
14 de Abril de 1964, extingue o Programa Nacional de Alfabetização. Ranieri Mazzilli, presidente
em exercício, por meio deste ato, afirma que extinguiu esse Programa considerando a necessidade de “reestruturar o Planejamento para a eliminação do analfabetismo no país” e para
“preservar as instituições e tradições de nosso país”. O presidente João Goulart havia marcado
a inauguração oficial do Programa, simbolicamente, para o dia 13 de Maio, na praça principal
de cidade de Caxias (RJ). Nesta mesma data, o MEC, por meio da Portaria 237, “revogava todas
as portarias anteriores e divulgava, pela imprensa, um levantamento do material usado na
campanha de alfabetização, com o ‘arrolamento de um vasto equipamento fotográfico, avaliado em vários milhões de cruzeiros e publicações de caráter subversivo’ que seriam em seguida
expostas à visitação” (BEISIEGEL, 1974, p. 171).
15
1964 – 15 de abril – Posse do General Humberto de Alencar Castelo Branco na presidência da
República.
1964 – 16 de Junho - Paulo Freire foi preso e passou 70 dias numa cadeia do quartel de Olinda, acusado de “subversivo e ignorante”. Detalhe: na prisão, um dos oficiais responsáveis pelo
quartel, sabendo que ele era professor, solicitou a Paulo Freire que alfabetizasse alguns recrutas. Paulo explicou-lhe que foi exatamente porque queria alfabetizar que fora preso. Alguns de
seus alunos também foram presos e passaram por outras dificuldades depois da experiência de
Angicos, considerada “subversiva”, a qual, mais tarde, também foi extinta.
1964 – Setembro - Paulo Freire partiu para o exílio. Depois de uma rápida passagem pela Bolívia, não suportando a altitude, em novembro de 1964, embarca para o Chile para trabalhar no
Instituto de Capacitación y Investigación de la Reforma Agrária (ICIRA), onde permaneceu até
1969. Retornará ao Brasil, provisoriamente, apenas no final de 1979, e, definitivamente, apenas
no ano seguinte.
1983 – 21 de Maio – Em entrevista à TV Universitária de Natal, Paulo Freire afirma: “Eu não
aceito coisa alguma da Aliança para o Progresso, mas não tenho nada contra usar o dinheiro
que ela pensa que é dela, mas que não é, porque, no fundo, o dinheiro da Aliança para o Progresso era o dinheiro que voltava ao Brasil, ainda mais em termos de favor, mas o dinheiro é
nosso, o dinheiro dessa área subdesenvolvida, que só é subdesenvolvida porque é explorada,
dominada. Então, por que não aproveitar esse dinheiro no retorno, desde que a gente pudesse
assegurar o que fazer com ele? A minha posição era essa: se eu tenho autoridade sobre o que
se vai fazer no projeto, eu não quero saber se esse dinheiro vem da Aliança ou vem do japonês”
(LYRA, 1996, p. 182).
1993 – 28 de Agosto – 30 anos depois, Paulo Freire e sua esposa, Ana Maria Araújo Freire,
acompanhados por dois fundadores do Instituto Paulo Freire (1991), Carlos Alberto Torres e
Moacir Gadotti, visitam Angicos, reencontrando-se com antigos alunos e monitores, entre eles,
Marcos Guerra e o ex-analfabeto Antonio Ferreira, que, na histórica visita de João Goulart a
Angicos, discursou em nome dos colegas.
2002 – Analisando os “efeitos a longo prazo do método de alfabetização” da experiência de
Angicos, Nilcéa Lemos Pelandré (2002), após entrevistar alunos que se alfabetizaram em 1963,
passados 34 anos, evidenciou que os participantes aprenderam a escrever palavras isoladas e
frases simples e curtas e que alguns escreviam seguindo regras próprias. A aprendizagem mais
significativa foi a elevação da sua autoestima e a consciência de não se sentirem mais excluídos
do mundo letrado. Nesta tese de doutorado em linguística, a autora conclui que o segredo da
eficácia de Angicos foi a “promoção humana, professores preparados e motivados e imersão
intensiva”. Tempo curto, convívio intenso!
2005 – 3 de Setembro – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, esteve presente
na cerimônia de entrega de certificado de alfabetização de três mil alunos do Projeto MOVA-Brasil, em Angicos. O projeto é uma parceria da Petrobras com a Federação Única dos Petroleiros e o Instituto Paulo Freire.
2012-2014 – Celebrações dos 50 anos do experimento de Angicos e do Programa Nacional
de Alfabetização.
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REFERÊNCIAS
BEISIEGEL, Celso de Rui. Estado e educação popular. São Paulo: Pioneira, 1974.
FERNANDES, Calazans; TERRA, Antonia. 40 horas de Esperança: o método Paulo Freire, política e
pedagogia na experiência de Angicos. São Paulo: Ática, 1994.
FREIRE, Ana Maria Araújo. Paulo Freire: uma história de vida. Indaiatuba: Villa das Letras, 2006.
GADOTTI, Moacir (Org). Paulo Freire: uma biobibliografia. São Paulo: Cortez/Instituto Paulo
Freire, 1996.
GERHARDT, Heinz Peter. Angicos – Rio Grande do Norte – 1962/63”. Revista Educação & Sociedade, ano 4, n. 14. Campinas: Unicamp, 1983.
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LYRA, Carlos. As quarenta horas de Angicos: uma experiência pioneira de educação. São Paulo:
Cortez, 1996.
MANFREDI, Sílvia Maria. Política e educação popular: experiências de alfabetização no Brasil com
o Método Paulo Freire – 1960/1964. São Paulo: Cortez, 1981.
PELANDRÉ, Nilcéa Lemos. Ensinar e aprender com Paulo Freire: 40 horas 40 anos depois. Biblioteca freiriana, v. 2. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2002.
ROMÃO, José Eustáquio. Paulo Freire e o pacto populista (contextualização). Educação e atualidade brasileira. São Paulo: Cortez, 2001. p. XIII-XLVIII.
ROSAS, Paulo (Org.). Paulo Freire: educação e transformação social. Recife: Centro Paulo Freire/
UFPE, 2002.t
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Setembro 2013
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