ORAÇÃO DE SAPIÊNCIA
Eugénio Alves da Silva
Tema: Ensino superior, formação de quadros e responsabilidade social da universidade
em Angola.
Introdução
É uma honra estar neste púlpito e nesta circunstância para abordar uma questão fulcral
para a vida das universidades - o seu papel e o seu contributo para o desenvolvimento
social e, em particular, para a criação de uma massa crítica pensante (e actuante) capaz
de sustentar o progresso do país. Efectivamente, o desenvolvimento da sociedade
angolana não pode prescindir do contributo da Universidade nem dos intelectuais e
quadros nacionais qualificados.
É consensual a assunção do papel impulsionador da universidade que decorre da sua
tripla missão: formar profissionais através do ensino e da formação, produzir e difundir
conhecimento por via da investigação e prestar serviços à comunidade através de acções
de extensão e interacção com as forças vivas sociais (Pelikan, 1992:76).
Isso requer não apenas infraestrutura física adequada, quadros capacitados e
organização do trabalho mas, acima de tudo, espírito de missão, compromisso com a
sociedade e seriedade no exercício da sua missão, sob pena de se descredibilizar
socialmente. Na verdade, mais do que a imagem de um edifício imponente, ou a
imagem simbólica do que uma universidade representa, o que conta mesmo é a imagem
associada à qualidade do seu serviço educativo com que constrói a sua credibilidade.
Por isso, a controvérsia instala-se quando se concebe a universidade não como locus de
reprodução de saberes e de agentes executores, fechada sobre si e sobre a sua áurea, mas
como instância de questionamento, de produção crítica do saber, de debate académico
segundo uma lógica de abertura ao meio. A questão consiste em saber como conseguir
isso num contexto em que a matéria-prima humana ainda tem as limitações que
conhecemos e as condicionantes ambientais (socioculturais, económicas e políticas)
nem sempre favoráveis interferem negativamente na sua acção.
Mais do que conseguir um protagonismo eticamente questionável e de resultados
duvidosos, importa assumir uma postura séria e responsável perante a obrigação moral
de dotar a sociedade com os melhores profissionais, e de gerar contributos em termos de
saberes e inovações, daí o apelo à responsabilidade social a que me referirei mais
adiante.
Falar de ensino superior e de Universidade em Angola remete-nos necessariamente para
a dimensão universal do saber e para o carácter humanista da sua função ligada ao
desenvolvimento da consciência cívica, da profissionalidade, da cidadania e da cultura,
da produtividade, e para a consolidação da democracia já que a universidade é, por
essência, um lugar de debate plural e de construção do saber sem peias nem amarras.
Universidade, em qualquer lugar, evoca saber, ciência, progresso tecnológico, cultura
avançada, pesquisa e inovação. Representa a possibilidade de superação dos índices de
1
atraso científico, tecnológico e cultural e um factor de desenvolvimento de uma
sociedade que se quer próspera, competitiva e integrada no sistema global das nações.
Basta reconhecer que o conhecimento é, hoje em dia, uma força produtiva inestimável.
É sob estes pressupostos que apresentarei algumas reflexões sobre a universidade em
Angola.
1. Escolarização, qualificação e desenvolvimento social
Um dos indicadores de desenvolvimento humano é o grau de escolarização da
população, que constitui a base para a qualificação para o trabalho e a condição para o
crescimento pessoal dos cidadãos, já que o défice de escolarização contribui para o
atraso sociocultural e económico pois, assim, uma sociedade não pode contar com os
seus cidadãos como recurso vital para o desenvolvimento. A baixa escolarização e os
défices de formação tornam o país vulnerável em termos de realização dos grandes
projectos de desenvolvimento e dependente dos recursos humanos estrangeiros ou de
tecnologia importada que não se consegue dominar.
Um país cujos cidadãos não têm a escolarização básica, em que os quadros têm
insuficiente formação técnica e profissional está à mercê de outros a quem tem de
recorrer para enfrentar os desafios do desenvolvimento. Logo, nunca chega a
emancipar-se cultural, técnica e cientificamente pelo que não consegue resolver os seus
próprios problemas por incapacidade técnica e humana.
Temos o exemplo de países, como o Japão e a Austrália que, até bem recentemente
(final da II Guerra Mundial), nada valiam em termos científicos e tecnológicos e que,
após três décadas de aplicação de uma política de formação de quadros nacionais, se
tornaram referências mundiais em matéria de ciência e tecnologia. Daqui decorre o
reconhecimento da importância da educação e da formação dos cidadãos como factor
gerador de capital humano (ou capital social) com o qual uma nação sustenta o seu
próprio desenvolvimento.
Assim, é lógico inferir que uma população instruída, que a existência de quadros bem
formados constitui um factor favorável ao desenvolvimento da consciência cidadã
(consciência dos direitos e deveres), da cultura cívica (comportamento social patriótico
sustentado nos valores da democracia) e da disposição para participar na consolidação
do modo de vida democrático e nos desafios do progresso social.
A educação, a instrução e a formação constituem, pois, as bases para a ilustração
científica e cultural e para a conformação do perfil dos cidadãos de acordo com as
exigências socioprofissionais e ético-culturais da sociedade em que estão inseridos. Não
se trata apenas de depositar conhecimentos que poderão, eventualmente, transformar-se
em saberes e acções (competências), mas, acima de tudo, de desenvolver condutas e
valores congruentes com os da sociedade em democratização.
É aqui que entra a Universidade concebida não apenas como “centro de formação
profissional” mas também como “centro cultural da vida nacional” (Pelikan, 1992:139),
ou seja, no dizer de Bourdieu,“uma espécie de casa comum, centro de encontro entre
diferentes gerações e diferentes meios sociais, entre a cultura escolar e a cultura
2
universal” (1987:118) ou, segundo Boaventura de Sousa Santos (1997:164), “um centro
de cultura disponível para a educação do homem no seu todo”. Isto obriga a repensar o
carácter formativo da acção universitária que deve abarcar muito mais do que a
dimensão técnica e profissional.
2. A universidade na esteira do desenvolvimento social sustentado
Na última década e meia a universidade (também em África) vem sendo confrontada
com uma nova missão (Banque Mondiale, 2009:57-62) que consiste em responder às
demandas inerentes à economia do conhecimento para ajudar a sociedade a competir no
mercado global. Isso implica uma estratégia para a produção e gestão do conhecimento
enquanto factor de inovação com impacto na economia, daqui surgindo o epíteto de
“universidade empreendedora” (Muzial, 2007:125; Tjeldvoll & Blazènaité, 2007) o que
denota uma orientação para o mercado em termos de transferência do conhecimento,
agenciamento e prestação de serviços (Saénz de Miera, 1998:37), associação com o
empresariado, incubação e patenteamento de ideias, segundo uma cultura empresarial
que a torna uma “empresa de conhecimento”, prestadora de serviços.
Para além desta missão espera-se que a universidade seja capaz de contribuir para
resolver os desafios do desenvolvimento. Aqui reside o seu papel de “motor da
sociedade” que, segundo Rodrigues (1998:65), se exerce “através de dois meios: acção
dos universitários que, no seu quotidiano, vão dando testemunho do seu trabalho
enquanto académicos; a força das ideias e das teorias que, quando bem expostas e
desenvolvidas, são mais poderosas que muitos exércitos.” Deste modo, a universidade
pode constituir uma mais-valia “formando quadros com capacidade real para
transformar as empresas em fontes permanentes de criação sustentada de riqueza”
(Rodrigues, 1998:65).
As funções da Universidade incidem sobre as tarefas do desenvolvimento social
realçadas por Debbasch (1971:56) quando afirmou que “a universidade deve contribuir
também para a elevação do nível cultural do país sendo que o seu raio de acção não
deve estar limitado ao seu campus”. Ela deve participar no desenvolvimento económico
e social de cada região, o que revela a função de promoção do desenvolvimento
assumida como uma das funções prioritárias.
Estas tarefas constituem o desafio de universidades em países caracterizados pela
escassez de profissionais qualificados e por défices de desenvolvimento tecnológico. No
início deste século, a tónica nas tarefas da universidade vem incidindo sobre aspectos
como a diversificação e modernização do ensino, a investigação e criação de know-how
próprio e a qualidade da formação, como requisitos para ajudar as sociedades africanas
a apetrecharem-se com os instrumentos cognitivos, tecnológicos e simbólicos que as
tornem aptas a integrar o sistema global de intercâmbio científico e tecnológico.
Esta diferença reflecte uma evolução da situação social mas, também, um aumento das
exigências colocadas às universidades tidas como factores de desenvolvimento, o que se
traduz numa alteração das suas funções porque se parte do princípio de que a
3
Universidade em África não tem de reproduzir o atraso estrutural mas deve constituir
um factor de aproximação com o “mundo desenvolvido”, conferindo às sociedades
africanas capacidade para a criação científico-cultural, a inovação tecnológica e a
cooperação científica e tecnológica com as demais sociedades.
Destas universidades espera-se que se tornem parceiras na criação da base material e
espiritual com que se assegura o progresso, a coesão social e a cooperação
internacional. Além disso, para as sociedades africanas, a existência de uma
universidade representa a possibilidade de questionar e problematizar a realidade
regional, de criar conhecimento endógeno, geri-lo, difundi-lo e aplicá-lo, de formar
quadros altamente qualificados e de enriquecer o património cultural nacional. Nisto
assenta o desenvolvimento das sociedades.
3. A formação de quadros nacionais e o PNFQ
Aqui chegados, torna-se pacífico admitir que o desenvolvimento da sociedade angolana
só é possível desde que esta possa contar com o contributo de quadros, técnicos e
profissionais capacitados, isto é, de recursos humanos qualificados. Estes são o
elemento vital com que se constrói o futuro, cuja sustentabilidade reside no capital
humano, essa reserva estratégica de que não se pode dispensar.
Infelizmente, a sociedade angolana, quase 40 anos depois da sua independência, ainda
não dispõe dos recursos humanos necessários em quantidade e em qualidade, razão pela
qual o governo elaborou a Estratégia Nacional de Formação de Quadros que decorre da
Estratégia Nacional de Longo Prazo (Angola 2025) que, em matéria de educação, visa
“promover o desenvolvimento humano e educacional do povo angolano, com base
numa educação e aprendizagem ao longo da vida para todos” e do Programa do
Governo 2012-2017. Aí, foram identificadas as prioridades em matéria de formação de
quadros, na base das quais se concebeu o Plano Nacional de Formação de Quadros
(PNFQ). Este preconiza os seguintes 3 grandes objectivos:
a) Apoiar o desenvolvimento, quantitativo e qualitativo, do potencial humano de
Angola, condição essencial para a sustentabilidade do desenvolvimento económico,
social e institucional e a inserção internacional competitiva da economia angolana;
b) Assegurar a formação e qualificação de recursos humanos qualificados e altamente
qualificados que correspondam às necessidades de desenvolvimento do País;
c) Promover o ajustamento, quantitativo e qualitativo, entre as necessidades e a oferta
formativa.
O PNFQ identifica os domínios de formação prioritários, desde o nível básico ao
superior, e estrutura a sua oferta formativa em 8 grandes Programas de Acção, a saber:
- Programa de Acção 1 - Formação de Quadros Superiores
- Programa de Acção 2 - Formação de Quadros médios
- Programa de Acção 3 - Formação e Capacitação de Professores e de Investigadores
para o Ensino Superior e Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
- Programa de Acção 4 - Formação de Quadros Docentes e de Especialistas e
Investigadores em Educação
4
- Programa de Acção 5 - Formação de Quadros para a Administração Pública:
- Programa de Acção 6 - Formação de Quadros para o Empreendedorismo e o
Desenvolvimento Empresarial
- Programa de Acção 7 - Apoio à Procura de Formação Superior: Política Pública de
Bolsas de Estudos
- Programa de Acção 8 - Formação Profissional
Em termos de metas, só para o ensino superior, o quadro seguinte é revelador do desafio
que se coloca:
INDICADORES
Ensino
Superior
Alunos matriculados
Diplomados (graduação)
Professores
Mestres
Doutores
Investigadores
Médicos
2014
2020
146.001
13.547
4.379
2.708
308
50
3.200
275.000
22.000
6.900
4.800
1.500
140
8.500
Se tomarmos como exemplo, o caso da formação de médicos, podemos constatar que o
défice até 2020 é de 5300. Considerando que os 9 cursos actualmente existentes podem
formar, anualmente, cerca de 900 médicos, teremos no cômputo dos 6 anos que faltam,
um total de 5400 médicos, o que revela a eficácia da medida de alargamento de cursos
nesta área. O mesmo já não se pode dizer a respeito da formação de matemáticos, pois
êm sido formados anualmente menos de 20% das necessidades do país, o que indicia
que, no ano de 2020, continuaremos a ter um défice elevado. Esta situações deve
constituir um alerta e exigir a tomada de medidas para minimizar o défice.
A implementação do PNFQ exige a participação das instituições de ensino e formação,
de todos os níveis, para dotarem a sociedade angolana dos técnicos e profissionais com
o perfil requerido pelo mercado de trabalho em contexto de competitividade e
integração regional. Às universidades cabe, portanto, a missão de formação de quadros,
concomitantemente com a de produzir e reproduzir saber.
O programa de Acção 1 contém 4 projectos que se referem aos domínios estratégicos de
formação: sem oferta formativa, com oferta deficitária, com oferta em equilíbrio e com
oferta excedentária. Por exemplo, os domínios sem oferta abrangem os cursos de Artes;
os domínios com oferta deficitária incluem os cursos nas áreas das Ciências Exactas,
Ciências Naturais e do Ambiente, Ciências da Saúde e Engenharias; os domínios com
oferta excedentária incluem os cursos de Engenharia Informática, Direito, Economia,
Gestão de Recursos Humanos, Ciências da Comunicação e Gestão e Administração de
Empresas; os domínios com oferta equilibrada incluem os cursos de Psicologia,
Arquitectura e Sociologia.
Portanto, temos aqui uma indicação sobre as que áreas devem merecer atenção em
termos de criação, ampliação e moderação de cursos para corrigir os défices de quadros,
5
por um lado, e, por outro, evitar excedentes que se traduzirão em diplomados
desempregados. É este quadro de referência que deve nortear o exercício de
programação da oferta formativa a curto e a médio prazo, no subsistema de ensino
superior, o que envolve necessariamente todas as Instituições de Ensino Superior.
Para a concretização destes objectivos e metas estabelecidas para o horizonte de 2020,
apontam-se algumas medidas de política que incluem: recurso à oferta interna, com
criação ou ampliação de instituições, cursos e vagas, recurso à oferta externa com envio
de estudantes para o estrangeiro, constituição de parcerias entre instituições e de
contratos-programa e concessão de bolsas de estudo internas e externas.
Reconhecendo o papel fulcral dos docentes, neste processo de formação de quadros, foi
concebido o Programa 4 que visa formar e capacitar o corpo docente universitário de tal
forma que, no geral, do cômputo dos 6900 docentes, 40% tenham concluído o mestrado
e 20% o doutoramento em 2020.
A implementação do PNFQ impõe o ajustamento da oferta formativa às necessidades e
prioridades nacionais, o que pressupõe um exercício de planeamento anual e plurianual,
sendo desejável que as universidades adoptem estratégias que incluam a constituição de
parcerias ou de consórcios para gerirem mais facilmente os recursos que isso exige.
Concomitantemente, devem ser envidados esforços para o aumento da qualidade da
formação em todas a dimensões para não comprometer a concretização do perfil dos
quadros formados face às exigências do mercado de trabalho.
Neste exercício importa considerar o quadro normativo nacional e aos padrões de
desempenho locais e internacionais para que a formação de quadros tenha a qualidade
recomendável e orgulhe a sociedade angolana, contribuindo desta forma para restaurar o
capital de credibilidade de que o ensino superior angolano necessita.
4. Papel e responsabilidade social das IES
O papel fulcral da Universidade em Angola liga-se não apenas ao incremento da
sociedade ao conhecimento e das novas tecnologias de que dependerão os processos de
inovação, mas também à promoção da educação cívica, base da construção de uma
cidadania consciente e interventiva. Inserida no tecido social e imbricada na realidade
de que se nutre, é desejável que a Universidade angolana reforce a sua vertente
democrática, constituindo-se como trincheira de construção da vivência democrática. O
seu compromisso com a sociedade em democratização implica uma obrigação de
promover a ciência e o conhecimento como factores de democratização da sociedade,
ou seja, tal como Paulo Freire (1961:6) defendia, a universidade “não deve furtar-se à
discussão dos problemas”, mas adoptar uma postura na qual “renuncia às suas velhas
posições de espectador e ensaia novas posições de participante” e “exercita um
profundo esforço de consciencialização da sociedade em torno dos problemas da região
e dos problemas nacionais” (1961:13).
Vale a pena referir aqui a abertura da Universidade à comunidade, o que lhe confere
legitimidade para realizar a extensão universitária, concebida como factor de construção
da consciência crítica e de promoção do desenvolvimento pessoal e social. Pela
6
actividade de extensão a universidade converte-se em “centro cultural da vida nacional”
(Pelikan, 1992:139) sem a qual permanece desenraizada e estranha ao seu contexto. É
preciso que a comunidade se reveja na universidade, como uma mais-valia, e que esta se
coloque ao serviço daquela, interessando-se pela solução dos problemas essenciais.
Muito mais haveria a dizer, nomeadamente a respeito das dimensões intrínsecas do
trabalho académico (autonomia e liberdade de pensamento, gestão democrática,
avaliação do desempenho, programação da oferta formativa, política de investigação,
interacção com a comunidade, prestação de contas, etc.) mas, por razões óbvias, prefiro
deixar para outra ocasião.
Considerações finais
A acção da Universidade angolana deve ser entendida no contexto de um compromisso
com o projecto social de desenvolvimento e sob o desígnio da responsabilidade social
com a qual marca a sua posição de impulsionadora do desenvolvimento. Sobre esta
matéria Paulo Freire propunha um envolvimento e compromisso entre a universidade e
o meio de tal forma que ela se tornasse “uma criação da cidade, estendendo, aos poucos,
a sua influência à zona em que a cidade se insere” (1994:170), comprometida com “a
formação intelectual crítica das maiorias e não só de uma elite egoísta e centrada em si
mesma”, capaz de dizer e desdizer o seu contexto para nele intervir. Esta concepção
corresponde à ideia da “universidade cidadã”1, empenhada na resolução dos problemas
locais e comprometida com o desenvolvimento sustentado da região. Supõe, portanto, a
assunção de uma responsabilidade social que inclui a democratização do acesso e o
compromisso com o desenvolvimento local, tornando-se uma força operante e um
parceiro insubstituível da governação local (Pinto, 1998:44).
Desta universidade espera-se que forme cidadãos críticos e de mente aberta, “capazes de
compreender amplamente as realidades do mundo, reflectir rigorosamente sobre os
diversos contextos de forma integrada, fazer a crítica radical e agir sobre as
especificidades locais, sem perder a dimensão da globalidade” (Sobrinho, 2000:29)
pois, de outra forma, deixaria de “formar pensadores para passar a formar profissionais
e teóricos programados para cumprir um papel específico na cadeia de produção”
(Buarque, 1994:59).
A Universidade angolana, sob obrigação de um “compromisso social”, terá de se
assumir como instituição vital para a criação de uma “consciência social” enquanto base
de qualquer projecto social de desenvolvimento sustentado, cuidando que, tal como
considera Sobrinho (2000:31-32), “os principais compromissos sociais da universidade
não podem estar voltados para os propósitos de exclusão dos cidadãos e para o
fortalecimento das relações de dinheiro do mercado supranacional, não podem estar
reforçando a ideologia da competitividade selvagem que medra num terreno em que já
1
Com o sentido atribuído por Gadotti (2006) à “escola cidadã”, valorizando o fomento da democracia, da
participação e da autonomia, a promoção da justiça, o cultivo da crítica e auto-crítica, a manutenção da interacção
com o meio, a prestação pública de contas (Rhodes, 1999:169). Uma “universidade cidadã” seria aquela onde se
presta atenção à diversidade e às necessidades do contexto social; baseada numa ética do interesse público; centrada
numa cultura de solidariedade e de diálogo com a comunidade; que busca coerência entre o discurso da cidadania e a
prática da educação cívica; que se assume como parceira da governação local visando o desenvolvimento regional.
7
se sabe de antemão quais são os pouco vencedores e quais são os muito vencidos”. Esta
ambição, baseada na valorização dos elementos culturais da região e nas necessidades
de desenvolvimento, influencia a definição das políticas educativas para o ensino
superior orientadas por tendências de internacionalização2 do ensino tendo em conta a
mobilidade de docentes e alunos no espaço internacional e a aproximação e diálogo com
África e o resto do mundo.
Para o efeito, importa destacar alguns desafios, como os:
- da democraticidade, que consiste na garantia do acesso a todos os candidatos que
reúnam as condições exigidas, cabendo ao Estado (e aos doadores) o suporte financeiro
em termos de bolsa de estudo para os estudantes mais carenciados e que demonstrem
aproveitamento. Embora exista selecção mediante provas de admissão, todos os alunos
devem ter iguais condições de acesso;
- da qualidade, que envolve o asseguramento dos níveis de qualidade desejados, ou seja,
da capacidade de satisfazer as expectativas do público e os padrões estabelecidos, ou
seja, a demonstração da competência em formar bons quadros, produzir e difundir
conhecimento e interagir com as forças vivas do meio em que está inserida. A qualidade
da formação será o fiel da balança que ajudará a resgatar a confiança nas IES e no
ensino superior angolano;
- da ética, traduzido na manifestação de uma postura séria e responsável ante o labor
académico e face aos normativos legais para que a acção educativa no interior da
Universidade pugne pela dignidade académica e pelo respeito aos valores éticos da
academia e da sociedade angolana;
- da avaliação: mediante a avaliação, as IES revelam as suas competências e colocam à
disposição do Estado e da sociedade em geral informações pertinentes sobre o trabalho
que desenvolvem e, com isto, podem ganhar maior credibilidade e legitimidade pois,
“quanto mais expostos a este controlo, mais legitimidade adquirem os atores que podem
tomar decisões de forma competente e responsável e quanto mais legitimidade se
alcança mais fundamentos se produzem para o reforço da autonomia individual e
institucional” (Silva, 2009, p. 17).
Cumprindo estas funções com o sentido de responsabilidade social3 perante o meio que
a envolve e a suporta, a Universidade angolana poderá assumir-se como uma
“universidade criativa e interventiva”4 cujas preocupações, derivadas de um “contrato
moral”, apontam para uma maior ligação aos problemas sociais e ao sector produtivo,
2
Inclui a equiparação dos diplomas e a mobilidade académica, passando a constituir preocupação das universidades
africanas (Simão, Santos & Costa, 2002:319-320). A Associação para o Desenvolvimento da Educação para África
(ADEA) defendeu em 1999, a internacionalização dos curricula como condição para a mobilidade académica de
alunos e professores.
3
Smith (2007:30-31) inclui nesta noção de responsabilidade social o compromisso da universidade perante o
contexto cultural, as demandas da economia, a formação de profissionais para a economia global, a produção de
conhecimento e a educação dos cidadãos ou emancipação do espírito humano. Para Santos (2008:61-62 e 76) a
responsabilidade social da universidade decorre do seu reconhecimento como “espaço público” e “bem público
ligado ao projecto de país”. Para Pinto (1998:48) essa responsabilidade decorre do compromisso da universidade com
os problemas do desenvolvimento.
4
De acordo com o documento da UNESCO (1995:45) “este amplo conceito de universidade supõe um processo de
adaptação criativa passando pela pesquisa de práticas e de modelos institucionais específicos correspondendo às
necessidades, à situação e às possibilidades de estabelecimentos, de comunidades, do país e de determinadas regiões”.
8
ou seja, para a promoção do desenvolvimento social integrado, extravasando os seus
muros, reflectindo e gerando saber a partir dos problemas da comunidade. Assim, vai
poder sair do campus onde fica geralmente confinada e abraçar a polis, servindo-a e
prestando-lhe publicamente contas da sua actuação e resultados (Rhodes, 1999:).
Transpondo os muros e abrangendo a comunidade a que pertence, a universidade
converte-se num locus de geração de conhecimento e transformação da realidade e num
centro de irradiação cultural e de fortalecimento da democracia, decorrente da sua
posição de “espaço público de debate e crítica” (Santos, 2008:62), assumindo-se como
instituição útil pois “a universidade somente conseguirá justificar socialmente a sua
existência se assumir uma vocação ética e política de fortalecimento da democracia, de
consolidação da formação cidadã e de aprofundamento do sentido público da educação”
(Sobrinho & Ristoff, 2002:12).
Daqui resulta uma Universidade entendida como extensão do meio e como incrustação
nesse meio no qual se inspira, do qual beneficia e para o qual contribui, uma vez que a
actividade académica é o reflexo da própria vida onde radicam os problemas a
investigar. Aí, teremos a “universidade cidadã”, assumida como “laboratório do mundo
que a penetra” (Gadotti, 2006:57) e parte integrante do território da cidade, apropriada
por esta, o que implica um compromisso com o projecto de desenvolvimento local, à
qual Filho (2008:124) chamou “universidade renovada”, ou seja, uma “instituição
verdadeiramente pública, aberta ao controle e à participação política das comunidades
às quais ela serve”.
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Luanda, 27 de Fevereiro de 2015
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ORAÇÃO DE SAPIÊNCIA Eugénio Alves da Silva Tema: Ensino