UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI ALINE CRISTINA MENDES A CIRCULAÇÃO DA DÁDIVA NO TERCEIRO SETOR: ESTUDO DE CASO DA ONG OPERAÇÃO MOBILIZAÇÃO SÃO PAULO 2008 ALINE CRISTINA MENDES A CIRCULAÇÃO DA DÁDIVA NO TERCEIRO SETOR: ESTUDO DE CASO DA ONG OPERAÇÃO MOBILIZAÇÃO Dissertação de Mestrado apresentado à Banca Examinadora, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre do Programa de Mestrado em Hospitalidade, área de concentração em Planejamento e Gestão Estratégica em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi, sob a orientação da Profa. Dra. Marielys Siqueira Bueno. SÃO PAULO 2008 ALINE CRISTINA MENDES A CIRCULAÇÃO DA DÁDIVA NO TERCEIRO SETOR: ESTUDO DE CASO DA ONG OPERAÇÃO MOBILIZAÇÃO Dissertação de Mestrado apresentado à Banca Examinadora, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre do Programa de Mestrado em Hospitalidade, área de concentração em Planejamento e Gestão Estratégica em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi, sob a orientação da Profa. Dra. Marielys Siqueira Bueno. Aprovada em: Agosto 2008 ________________________________ Profa. Dra. Marielys Siqueira Bueno Universidade Anhembi Morumbi ________________________________ Profa. Dra. Maria do Rosário Salles Universidade Anhembi Morumbi ________________________________ Prof. Dr. Lourenço Stelio Rega Faculdade Teológica Batista Ao meu amado avô, Geraldo Glöe, pela dádiva da vida. AGRADECIMENTOS Considero que a elaboração de uma dissertação de mestrado é um produto coletivo embora sua redação, responsabilidade e stress seja predominantemente individual. Várias pessoas contribuíram para que este trabalho chegasse a bom termo. A todas elas registro minha gratidão. À Prof. Dra. Marielys Siqueira Bueno que tive a oportunidade de conhecer na academia e descobrir as inúmeras “dádivas” que possui e compartilha com todos. Sua disponibilidade irrestrita, bem como sua forma exigente, crítica e criativa de argüir as idéias apresentadas deram norte a este trabalho, facilitando o alcance de seus objetivos. À ela meu profundo agradecimento. À Professora Doutora Maria do Rosário Salles, por participar desta banca de mestrado, por sua produção científica e lição de vida, meus eternos agradecimentos. À Professora Doutora Sênia Bastos, por suas reflexões criativas sobre nosso objeto de estudo que muito me ajudaram a compreendê-lo e a realizar uma análise crítica sobre o mesmo, meus sinceros agradecimentos. À Alessandra por seu tempo e dedicação a todos os professores e alunos do mestrado. A redação desta dissertação foi viabilizada através do apoio prestado pelos missionários da Organização Operação Mobilização. Neste sentido a autora agradece a seus colegas que participaram de inúmeras aventuras missionárias. À Iara Vasconcellos pelo seu trabalho de revisão e formatação do texto, que fizeram com que este trabalho se concretizasse de forma a observar as normas acadêmicas vigentes, também expresso meus agradecimentos. A todos que por suas compreensões em prol da realização deste trabalho, me encorajaram a prosseguir na execução desta dissertação, suas presenças foram responsáveis pela minha saúde afetiva. Aos meus pais, pela sólida formação dada até minha juventude, que me proporcionou a continuidade nos estudos até a chegada a este mestrado, meus eternos agradecimentos. A "verdadeira" dádiva é um gesto socialmente espontâneo, um momento impossível de captar em movimento, uma obrigação que o doador dá a si mesmo, mas uma obrigação interna, imanente. A dádiva seria uma experiência em que a distância entre fins e meios é abolida, em que não há mais fins e meios, mas um ato que preenche o espaço de significação do sujeito e faz com que sejamos ultrapassados pelo que passa por nós, e pelo que se passa em nós. Godbout RESUMO O foco principal será a análise do serviço voluntário na organização não governamental Operação Mobilização (OM) e suas interligações com o conceito da dádiva desenvolvido por Mauss. O conceito de dádiva constitui-se como elemento explicativo na compreensão dos vínculos estabelecidos entre o voluntário e as populações carentes a partir da tripla obrigação de dar, receber e retribuir. A dádiva é o ato de se doar livremente ou de doar algo a alguém. Pretende-se entender como o serviço voluntário propicia o desenvolvimento dessa relação, onde a missão e a população objeto de ação missionária busca promover melhorias nas condições humanitárias no mundo. Para entender como ocorre a circulação da dádiva nessas relações, o estudo se propõe a analisar o relato de experiências de missionários que atuaram em diferentes países a serviço da Organização Operação Mobilização. Pretende-se fazer uma reflexão sobre a prática da missiologia a partir da perspectiva dos missionários e da interpretação que fazem de suas ações, das dificuldades encontradas e dos eventuais resultados obtidos nas missões. Para tanto, buscaremos referencial no campo da missiologia, dádiva, solidariedade e Terceiro Setor, sendo a análise baseada em pesquisas bibliográfica e documental, além de ser um estudo caso que utilizará técnicas de abordagem qualitativa com uma releitura da própria experiência da pesquisadora e de outros missionários envolvidos com o trabalho da ONG Operação Mobilização realizada através de entrevistas semi-estruturadas. Palavras-Chaves: Terceiro Setor. Voluntariado. Missiologia. Dádiva. Organização Operação Mobilização. ABSTRACT The main focus is an analysis of voluntary services in the non-governmental organization Operation Mobilization (OM) and its connections with the concept of grace, developed by Mauss. The concept of grace consists of the comprehension of how certain links and relationships are established between the missionary and the society through the triple obligation of giving, receiving and retribution. Grace is the act of giving of oneself freely or giving something to someone. We will try to understand how these voluntary services lean towards the development of these relationships, where the mission and the population object of these missionary actions attempt to improve humanitarian conditions around the world. We will reflect on the implications of missiology from the point of view of these missionaries and their interpretations of their actions, of the difficulties and the results obtained in their missionary trips. In order to understand how grace circulates in these relationships, the study will analyze experiences of certain missionaries who worked in different countries and projects for the Organization Operation Mobilization. References from missiology, grace, solidarity and the Third Sector will be used in order to analyze the object, as well as being a case study that will adopt qualitative techniques, such as semi-structured interviews, reflecting on the researcher’s own experience and that of others involved with the Organization Operation Mobilization. Key-Words: Third Sector. Voluntary Services. Missiology. Grace. Organization Operation Mobilization. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Ilustração 1: Apresentação em Treinamento................................................................655 Ilustração 2: Grupo em Treinamento na Espanha..........................................................65 Ilustração 3: Grupo Instrumental Marroquino .................................................................66 Ilustração 4: Família Marroquina ..................................................................................677 Ilustração 5: Programação para Crianças na Rússia ...................................................699 Ilustração 6: Orfanato na Rússia ....................................................................................69 Ilustração 7: Acampamento para Adolescentes na Rússia ............................................70 Ilustração 8: Doulos......................................................................................................711 Ilustração 9: Trabalho com Mulheres Marroquinas ......................................................744 Ilustração 10: Família Marroquina ................................................................................755 Ilustração 11: Noite Internacional .................................................................................755 Ilustração 12: Futebol de Praia no Marrocos..................................................................80 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS (ORDEM ALFABÉTICA) ABONG – Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais CMI – Conselho Mundial de Igrejas CMI – Curso Missiológico Intensivo DLIS – Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação OIT – Organização Internacional do Trabalho OM – Operação Mobilização ONG – Organização Não Governamental ONU – Organização das Nações Unidas OSFL – Organização Sem Fim Lucrativo OSC – Organização Social Civil OSCIP – Organização Social Civil de Interesse Público UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação WBCSD – World Business Council for Sustainable Development WCED – Comissão Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...............................................................................................................12 CAPÍTULO I - O TERCEIRO SETOR E A DÁDIVA.......................................................20 1.1 A Situação do Terceiro Setor ...........................................................................34 1.2 Organizações Não-Governamentais ................................................................39 CAPÍTULO II - MISSIOLOGIA E EVANGELIZAÇÃO ....................................................45 2.1 Histórico – Organização Operação Mobilização (OM)..........................................49 CAPÍTULO III - ASPECTOS DA PRÁTICA MISSIONÁRIA ...........................................64 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................87 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...............................................................................95 BIBLIOGRAFIA AMPLIADA .........................................................................................100 GLOSSÁRIO ................................................................................................................104 ANEXO.........................................................................................................................113 Roteiro das Entrevistas.............................................................................................113 Íntegra das Entrevistas .............................................................................................114 INTRODUÇÃO O interesse pelo tema da missiologia surgiu após a realização de duas viagens missionárias à Polônia, Rússia, Espanha e Marrocos, entre os anos de 2000 e 2002, ocasião em que foi possível observar e participar efetivamente da atividade que constitui o auxílio humanitário a populações carentes. As viagens missionárias foram patrocinadas pela ONG Operação Mobilização, que é uma instituição cristã interdenominacional (instituição ou organismo que não é ligado a nenhuma linha de pensamento teológico específica – vide Glossário) sem fins lucrativos. Através das ações missionárias foi possível perceber que diversos laços e vínculos eram estabelecidos entre a população local e os voluntários da ONG. Esse interesse concretizou-se com o início do Mestrado em Hospitalidade, e particularmente o conceito de dádiva (a tríplice relação de dar, receber e retribuir) pareceu adequada para a análise do trabalho missionário, que apresenta uma clara dedicação de tempo e esforços no exercício do ofício. Utilizamos como referencial a teoria da dádiva, a partir da concepção de Marcel Mauss nos Ensaios sobre a Dádiva, contemplando, também, os teóricos contemporâneos do M. A.U.S.S (Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais), os quais apresentam um debate sobre a dádiva evitando percebê-la como um momento exclusivo do pólo do interesse ou do desinteresse, contribuindo assim, para apreendermos a riqueza da ação voluntária nas sociedades contemporâneas. Dádiva é doação. Doação de um bem material ou algo simbólico. Doação de si para o outro, a fim de estabelecer um laço e minimizar os desentendimentos ou possíveis guerras. A dimensão do dom na associação é indissociável, posto que se associar é dar seu tempo e sua pessoa. Essa relação do dom com a associação evidencia-se quando observamos que a dádiva privilegia o interesse pelo outro, a aliança, a solidariedade, a amizade, em relação aos interesses instrumentais e à obrigação. Caillé (2002b) argumenta que não é possível sermos solidários com outros sem uma contribuição pessoal, limitando-nos somente a preservar nossos próprios interesses. Sendo assim, trata-se, portanto, de um movimento que, visando a doação-vínculo, subordina os interesses instrumentais aos não-instrumentais. A solidariedade, neste caso, se dá a partir de trocas não circunscritas num espaço de tempo, traduzindo-se pela reafirmação de vínculos sociais que se prolongam pela circulação de bens e serviços dados e retribuídos. Segundo Godbout (1992) as atividades voluntárias estão mais próximas do vínculo social. A ação voluntária se apresenta como uma opção que o indivíduo faz de romper com a sua individualidade e ir ao encontro do outro, redesenhando desta maneira, uma forma pessoal de participação na sociedade. A ação voluntária não é apenas generosidade e doação, mas também abertura a novas experiências, oportunidade de aprendizado, prazer de se sentir útil, criação de novos vínculos de pertencimento e afirmação do sentido comunitário. Atualmente, a percepção da maioria das pessoas engajadas em um trabalho voluntário é de que retiram ou ganham mais do que doam. Segundo Pereira (2008) o comportamento de indivíduos é determinado por normas e regras morais que mudam com a transformação da sociedade. Assim surgem os laços de solidariedade, sejam eles mecânicos ou orgânicos como Durkheim os divide. Com reação ao individualismo e o materialismo a preocupação quanto ao outro e quanto à aspectos da sociedade aumenta e dá-se a origem da emergência da solidariedade orgânica ou, como a chamaremos nesse estudo, solidariedade humanitária. Ou seja, abranger muito mais a grande sociedade do que a comunidade. A solidariedade humanitária é determinada pela consciência coletiva, ou seja, o conjunto das crenças, dos sentimentos comuns, à media dos membros de uma sociedade e não pressupõe uma identidade, mas a diferença entre os indivíduos nas suas crenças e ações. Com o aumento dos males que interpelam os indivíduos cotidianamente e a carência de auxílio do Estado, é que surge a necessidade da solidariedade humanitária, ou seja, um apelo para dar, partilhar, expandindo assim o número de indivíduos e organizações envolvidos com serviços voluntários direcionados a populações carentes no mundo. As pesquisas sobre organizações não governamentais decorrem da importância que estas estão assumindo na sociedade, oferecendo auxílio a diversas pessoas com diferentes dificuldades, entre essas, a situações de desamparo, sobretudo de crianças e adolescentes, submetidas muitas vezes à violência decorrente de carências públicas de diferentes ordens e da insuficiência, muitas vezes, do poder público. As relações que se estabelecem entre os indivíduos empenhados no desenvolvimento de ações missionárias de caráter religioso e as populações às quais tais ações são direcionadas, poderiam ser analisadas a partir do paradigma da dádiva. A doação pessoal do missionário que acredita estar levando, além de ajuda material, algo sagrado proveniente de suas próprias crenças, é uma ação que coloca, enquanto objetivo último, o acolhimento do outro no seio da comunidade religiosa. Para o missionário voluntário esse é um ato de doação pessoal e acolhimento, ainda que se possa argumentar a existência, da possibilidade, de interesses de outras ordens por parte da organização à qual o missionário pertence ou de interesses egoístas por parte do próprio voluntário. Essa doação do missionário, que geralmente envolve ajuda material e de uma pregação de princípios de ordem religiosa, pode possivelmente ser vista pela comunidade com desconfiança, sentindo que a presença do missionário é uma interferência em suas vidas. Ao receber, o outro geralmente é o anfitrião que tem o poder de mando sobre o espaço que ocupa. Entretanto, nas populações carentes para as quais a ajuda missionária é geralmente enviada, o missionário parece estar em uma relação de superioridade. Ao mesmo tempo em que chega ao espaço do outro, e oferece abrigo, alimento, remédio e ajuda espiritual, decidindo o que é melhor para o outro, e aparentando, assim, pretensão. As relações e os vínculos que se estabelecem passam por leituras culturais diversas pelos que recebem essa ajuda de caráter humanitário. Existe uma grande ambigüidade que pode ser percebida nessas relações que são permeadas pela carência. O desprovimento desse público-alvo faz com que essas populações tenham interesse em receber ajuda, o que facilita a pregação doutrinária do missionário que, por sua vez, acredita estar a serviço de Deus. É possível que as ações empreendidas pela Operação Mobilização não promovam os resultados desejados, devido à insuficiência monetária e ao convívio com o desconhecido, ou seja, o voluntário sai de sua zona de conforto e se depara com ambientes muito diferentes do habitual. Situações essas, que serão analisadas no decorrer do trabalho. Algumas dificuldades que os voluntários da Operação Mobilização encontram são: insuficiência monetária, dificuldade de adaptação às diferentes culturas, dificuldade de aprendizagem do idioma, problemas de saúde que são gerados, muitas vezes, pelo clima ou alimentação local, acessibilidade às áreas de atuação, falta de comunicação com familiares e amigos, convivência com os demais membros do grupo, e diversos problemas em relação à segurança. Para entender como ocorre a circulação da dádiva nessas relações, o estudo se propõe a analisar o relato de experiências de missionários que trabalharam em diferentes países, a serviço da ONG Operação Mobilização (OM). Tendo, a própria pesquisadora, atuado como missionária na Sibéria e em outros países, como relatado, foi possível averiguar por sua experiência, e pelo relato de outros missionários, as circunstâncias muitas vezes comuns, vivenciadas pelos que se dedicam a esse trabalho. Tal fato redundou em questionamentos sobre a efetividade e a validade dessa ação, tanto no que se refere à experiência pessoal dos missionários, quanto aos possíveis benefícios efetivamente prestados às populações visitadas. Assim, pretende-se fazer uma reflexão sobre as implicações da prática da missiologia a partir da perspectiva dos missionários e da interpretação que estes fazem de suas ações, das dificuldades encontradas e dos eventuais resultados obtidos nas missões. Sendo a OM uma Organização Não Governamental de âmbito internacional, o trabalho contém uma descrição da OM e das ações que desenvolve. Centra-se na análise do serviço voluntário e suas interligações com o conceito da dádiva. Pretendemos entender como o serviço voluntário acontece, de fato, em sua tentativa de promover melhorias nas condições humanitárias no mundo. Assim, o objetivo da pesquisa será entender, sob a ótica da dádiva, as ações missionárias da Organização Operação Mobilização (OM). O objeto da pesquisa é o trabalho social desenvolvido pela OM, voltado às populações carentes de diversos países, formadas principalmente por crianças, adolescentes e mulheres. O foco principal do trabalho foi identificar as relações e os vínculos estabelecidos através de uma releitura da experiência da pesquisadora e de outros missionários envolvidos nas atividades voluntárias e ações sociais da ONG Operação Mobilização. A pesquisa constituiu-se em um estudo de caso que utilizou técnicas de abordagem qualitativa com uma releitura da própria experiência da pesquisadora e de seis outros missionários envolvidos com o trabalho da ONG Operação Mobilização realizada através de entrevistas semi-estruturadas realizadas durante os anos de 2007 e 2008 (vide Anexo). Três entrevistas foram feitas pessoalmente, sendo possível assim captar as emoções dos entrevistados ao relatarem suas experiências e os vínculos estabelecidos com as populações carentes. As outras três entrevistas foram respondidas através da Internet, ou seja, por e-mail, pois esses missionários, na época da realização das entrevistas, ainda se encontravam engajados com os serviços prestados pela ONG Operação Mobilização. As entrevistas também foram realizadas em duas fases. A primeira manteve-se nos aspectos dos custos e financiamento dos programas, das ações sociais e evangélicas empreendidas, das motivações dos missionários e de seu crescimento pessoal. A segunda focou nas reações das populações carentes e como esses recebiam os missionários. Segundo Martins (2006) com a utilização do estudo de caso busca-se criativamente apreender a totalidade de uma situação, identificar e analisar a multiplicidade de dimensões que envolvem o caso e de descrever, discutir e analisar a complexidade de um caso concreto, possibilitando uma penetração em uma realidade social e uma avaliação quantitativa. Sendo a análise baseada também em pesquisas bibliográficas e documentais, visa-se descrever a situação da solidariedade missionária da OM no mundo, complementando-as com as possíveis conseqüências e os resultados que podem ser atingidos por meio das ações sociais. Entendendo que a realização da pesquisa documental de boletins missionários, de documentos do Colégio Episcopal e do Conselho Mundial de Igrejas e de documentos fornecidos pela Organização Operação Mobilização, é necessária para o melhor entendimento do caso e também para corroborar evidências coletadas por outros instrumentos e fontes orais. O referencial teórico foi encontrado nos campos da pesquisa em missiologia fornecida por dissertações do Instituto Metodista de Ensino Superior e dos teólogos Neill e Bosch, da dádiva fornecida por Mauss e dos teóricos contemporâneos do M.A.U.S.S (Movimento Anti-utilitarista nas Ciências Sociais) e da Isabel Baptista, da solidariedade fornecida pelos teóricos Cacciari, Martini, Durkheim e Duvignaud e do Terceiro Setor encontrado em dissertações e estudos de Montaño, Albuquerque, Martins entre outros. Esses conceitos nos ajudarão a compreender o conjunto das propriedades características que são específicas do objeto pensado, permitindo que víssemos os aspectos, as dimensões, as notas que constituem um ser ou um objeto, um fato ou acontecimento. Alguns dos artigos e livros utilizados nesta dissertação foram obtidos por meio da Internet. Entre os documentos que consultamos na World Wide Web, alguns apresentavam paginação, especialmente os arquivos disponíveis em PDF. Outros textos, porém, foram acessados em páginas-web que não contêm numeração. Assim, tratando-se de material extraído por meio da Internet, adotamos, para o corpo desta dissertação, o seguinte critério: se o documento estiver em PDF, a referência obedece ao mesmo padrão estipulado para artigos e livros não-digitais: nome do autor, ano da publicação e número da página; nos casos das páginas-web, que não dispõem de numeração, mencionaremos, apenas, o nome do autor e o ano da publicação. Não se pretende, portanto, investigar em profundidade a própria OM enquanto organização, pois se entende que, similarmente a outras organizações, ela pode ser analisada a partir de múltiplas abordagens, sendo, então, impossível abranger a todas em uma dissertação de mestrado. Nosso objetivo é mais despretensioso e se restringe aos serviços oferecidos pela Operação Mobilização e como isso é vivenciado pelos missionários encarregados dessas tarefas. Tendo em vista o objetivo proposto, e as considerações acima apresentadas, foi elaborado o presente estudo, constituído por uma dissertação estruturada em três capítulos. Será estruturado conforme as necessidades do plano definitivo da obra e as subdivisões dos tópicos, os itens e seções surgem das exigências da logicidade e da necessidade de clareza e não de um critério puramente espacial. O início se dá com uma exposição dos conceitos e uma reflexão referente ao papel do Terceiro Setor, Organizações Não Governamentais, o Voluntariado, a Solidariedade e a Dádiva, pois nosso objeto de estudo inseri-se dentro desses campos. Serão brevemente abordadas a história do Terceiro Setor e suas definições, além de aspectos da gestão, captação de recursos, marketing social, definições de organizações não governamentais e o voluntariado em si. Nessa fase, constatamos a carência de literatura específica sobre a ação voluntária, pois os registros existentes referem-se basicamente às associações e instituições e não ao trabalho do voluntário. De maneira que, buscamos na teoria da dádiva um caminho para uma melhor compreensão do nosso objeto de estudo. Seguimos com uma abordagem dos conceitos de missiologia e evangelização, e por fim, reservamos uma reflexão, por meio de relatos de experiências missionárias vivenciadas no contexto da Organização Operação Mobilização com a circulação da dádiva. Faremos referência aos conceitos de missiologia e evangelização, para que possamos compreender melhor o trabalho da Organização Operação Mobilização, além de apresentarmos um panorama das ações missionárias e as mudanças em seus processos evangelísticos. Os métodos e processos de evangelização mudaram com o decorrer do tempo. No início a evangelização era fundada no projeto colonial de dominação, sendo a atuação missionária uma ação destruidora perante os nativos dos novos continentes. Porém, hoje em dia, a evangelização está vinculada ao respeito às raízes culturais, tradições e costumes, de maneira a ajudar o ser humano em suas realidades contextuais. Descrevemos a Operação Mobilização com um relato de seus propósitos e valores, programas oferecidos, treinamentos, recursos financeiros e ações missionárias. Analisamos, através de entrevistas, casos de alguns voluntários que participam, ou já participaram, dos programas oferecidos pela organização. Optamos por não mencionar o nome das pessoas entrevistadas, ou com as quais tivemos contato durante o desenvolvimento deste trabalho. Contudo, não podemos deixar de mencionar que cada encontro foi para nós como compartilhar do cotidiano da sociedade, e sentir suas carências sociais, materiais e afetivas. Mas, sobretudo, possibilitou-nos observar o sistema da dádiva sendo formado nas relações que as pessoas travavam cotidianamente. Notamos que também nos inserimos nas experiências que os entrevistados nos relatavam, nas narrativas sobre os seus valores, suas angústias, dificuldades, medos e lições de vida. Durante todas as etapas do estudo, a pesquisadora procurou estar atenta para não assumir posições preconcebidas. Visou-se coletar dados de forma imparcial e buscou-se analisá-los de modo a garantir a isenção de posições pessoais, ou seja, realizou-se a crítica com base nas evidências colhidas. CAPÍTULO I - O TERCEIRO SETOR E A DÁDIVA A expressão “Terceiro Setor” é uma tradução do termo inglês third sector, que também é conhecido como nonprofit organizations (organizações sem fins lucrativos) e voluntary sector (setor voluntário). O termo organizações sem fins lucrativos significa um tipo de instituição cujos benefícios financeiros não são distribuídos entre seus diretores e associados e o termo setor voluntário deriva-se do fruto de um puro ato de vontade de seus fundadores, sem ação governamental e sem lucro. Essas organizações se mantêm por um conjunto de adesões e contribuições voluntárias. Na Inglaterra se utiliza a expressão charities (caridades), cuja origem deriva da obrigação religiosa das primeiras ações comunitárias, nos remetendo a idéia da doação de si para o outro. Existem também as expressões filantropia e mecenato, derivado da caridade religiosa e ao apoio generoso às artes e ciências. Foi na Europa Continental que surgiu o termo organizações não-governamentais (ONGs), cuja origem vem da nomenclatura do sistema de representações das Nações Unidas e que são de âmbito internacional de cooperação para o desenvolvimento. No século XVIII surgiu o termo sociedade civil, predominantemente na América Latina. Segundo Fernandes (2005) as instituições da sociedade civil interagem com a sociedade, porém são limitadas e integradas pelas leis nacionais. Esse termo destaca um espaço próprio, não-governamental e com participação nas causas coletivas. O Terceiro Setor envolve um número significativo de organizações e instituições – organizações não-governamentais (ONGs), sem fins lucrativos (OSFL), instituições filantrópicas, empresas “cidadãs”, sujeitos individuais (voluntários ou não) e até mesmo o Estado, pois este promove o Terceiro Setor na esfera financeira e legal. As organizações sem fins lucrativos são criadas e mantidas por participações voluntárias, praticando caridade, filantropia, mecenato, graça e cidadania. As características que marcam as diferentes organizações no Terceiro Setor são muitas, desde sua origem, seus recursos, seus fins, sua longevidade, sua forma de atuar, seu âmbito de atividade e até em seu tratamento fiscal. Devido a esse fato, a definição exata de cada tipo de instituição nesse setor é imprecisa, com semelhanças entre cada uma. Segundo Cardoso (2005), o Terceiro Setor inclui instituições dedicadas à prestação de serviços nas áreas de saúde, educação e bem-estar social. Além disso, inclui organizações que enfocam a defesa dos direitos de grupos específicos da população, como as mulheres, negros e povos indígenas, ou proteção ao meio ambiente, promoção do esporte, da cultura e do lazer. De acordo com Falconer (apud ALBUQUERQUE, 2006, p. 34-5) as organizações do Terceiro Setor podem ser definidas como: Igrejas e Instituições Religiosas, Organizações Não-Governamentais, Movimentos Sociais, Empreendimentos Sem Fins Lucrativos e Fundações Empresariais. As principais áreas de atuação das entidades do Terceiro Setor são: educação, organização e participação popular, justiça e promoção de direitos, fortalecimento de outras ONGs sem movimentos populares e a relação de gênero e discriminação sexual. Alguns dos valores do Terceiro Setor são: altruísmo, compaixão, sensibilidade para com os necessitados e compromisso com o direito de livre expressão. Ou seja, é um conjunto de instituições que encaram os valores da solidariedade e os valores da iniciativa individual em favor do bem público. Para Martinelli (2005) as organizações filantrópicas são divididas em dois grupos: as instituições e as entidades sem fins lucrativos, ambas com o objetivo de ajudar o ser humano. Entre as atividades desenvolvidas encontram-se as escolas, creches, hospitais, escoteiros, grupos de proteção ao meio ambiente, agrupados por áreas temáticas, porém com a mesma meta: o bem comum. As instituições do Terceiro Setor são de natureza privada com finalidade pública e sem finalidade de lucro. Para Salvatore (2004) as ações estão voltadas para questões como cidadania, emancipação, autonomia e direitos da população em geral e dos excluídos. A mão de obra nessas instituições é selecionada levando-se em conta critérios como competência, experiência e qualificação, entre outros, pois o colaborador é quem viabiliza a missão. Conforme Albuquerque (2006, p,19) as organizações que compõem o “terceiro setor” têm características comuns: • Os bens e serviços públicos resultam da atuação do Estado e de várias iniciativas particulares; • Incentivam os interesses coletivos para uma iniciativa individual; • Realçam o valor político e econômico das ações voluntárias; • Enfatizam a complementação entre ações públicas e privadas. De acordo com o Handobook on Nonprofit Institutions of National Accounts (Manual sobre as Instituições sem Fins Lucrativos no Sistema de Contas Nacionais) (ALBUQUERQUE, 2006, p. 19-20) as características e critérios para denominar entidades pertencentes ao Terceiro Setor são: • Formais com estabilidade e (distinguindo) distinção entre sócios e (de) nãosócios; • Separadas institucionalmente do governo; • Auto-administradas ou capazes da própria administração das atividades; • Sem fins lucrativos (não distribuem lucros a seus proprietários ou administradores); • Em grande parte compostas por atitudes cidadãs ou do voluntariado. O termo Terceiro Setor é construído de um recorte social, em que o Estado é considerado o “Primeiro Setor”; o mercado o “Segundo Setor” e a sociedade civil o “Terceiro Setor”. O Primeiro Setor constitui-se fundamentalmente por órgãos da administração direta (federal, estadual e municipal), órgãos da administração indireta, empresas públicas, sociedades de economia mista, autarquias, fundações e estatais afins. Essas organizações governamentais posicionam-se em áreas específicas de atuação, detendo o monopólio ou o controle do mercado, cuidando da manutenção de preços, tarifas e dimensões economicamente vantajosas. Com o aumento da demanda de serviços públicos, a capacidade do Estado para exercer suas atividades como saúde, segurança, saneamento básico, educação e transporte, ficou debilitada. As prefeituras municipais realizam parcerias e convênios com organizações privadas e ONGs para a solução de problemas como lixões e saneamento básico em bairros, devido aos altos resíduos sólidos gerados pelas indústrias. Assim, abrindo algumas oportunidades para o desenvolvimento de projetos sociais e ambientais, integrando ações operacionais baseadas em critérios ambientais, sociais e técnicos. É fundamental o exercício da responsabilidade social por parte do mundo empresarial, conhecido como Segundo Setor. Segundo Tachizawa (2004) a responsabilidade social é convergente com estratégias de sustentabilidade de longo prazo, excluindo, portanto, atividades no âmbito da caridade ou filantropia tradicionalmente praticada pela iniciativa privada. A responsabilidade social está relacionada a diferentes idéias, conforme expostas por Oliveira (2006), a primeira sendo a ética frente aos negócios e a segunda o cumprimento de leis que regem o negócio da empresa, além de suas contribuições sociais de forma voluntária. A empresa, por obter recursos da sociedade, sente o dever de restituí-los, sob forma de produtos e serviços comercializados e principalmente por meio das ações voltadas para a solução de problemas sociais. Segundo a World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) (IN: OLIVEIRA, 2006, p. 21), responsabilidade social é o (comprometimento) compromisso permanente dos empresários em adotar um comportamento ético e contribuir para o desenvolvimento econômico, melhorando a qualidade de vida de seus empregados e de suas famílias, da comunidade local e da sociedade como um todo. Uma empresa parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social é aquela que é capaz de ouvir os interesses das diferentes partes envolvidas, desde os acionistas e funcionários para a comunidade e meio ambiente, e consegue incorporálos às atividades desenvolvidas. Os interesses estão relacionados aos padrões de ética, normas e expectativas da comunidade, ou seja, o que a comunidade considera como ação justa e moral. Criou-se assim, um novo ambiente empresarial, em que será exigida dos gestores a responsabilidade em relação aos membros funcionais da organização. “A responsabilidade social e ambiental pode ser resumida no conceito de efetividade [grifo do autor] como o alcance de objetivos do desenvolvimento econômico-social. Portanto, uma organização é efetiva quando mantém uma postura socialmente responsável (TACHIZAWA, 2004, p. 58)”. Ou seja, se a sociedade estiver satisfeita com o atendimento de seus requisitos sociais, econômicos e culturais, a organização estará sendo efetiva. Como uma organização precisa de um bom relacionamento com a sociedade para se desenvolver, notamos a relevância de uma transformação e decisões estratégicas integradas a questões ambientais, ecológicas e sociais. Segundo Oliveira a responsabilidade social busca promover uma maior aproximação da empresa com a comunidade através de ações que visam à melhoria das necessidades sociais da população local, criando um ambiente de convivência mais harmonioso. Porém, de acordo com Rifkin (apud MONTAÑO, 2005, p. 54) historicamente é a sociedade que produz suas instituições, o Estado e o mercado, assim o Terceiro Setor seria, na verdade, o Primeiro Setor. Podemos destacar que o Terceiro Setor faz contraponto às ações do governo, pois os bens e serviços públicos resultam não apenas da atuação do Estado, mas em conjunto com as iniciativas privadas. Áreas típicas da atuação governamental, como assistência social, educação, saúde, ciência e tecnologia, meio ambiente, cultura, esporte, comunicação, geração de renda e trabalho são igualmente objetos da ação das organizações sem fins lucrativos. De acordo com Fernandes (2005) não existe serviço público que não possa ser trabalhado pelas iniciativas privadas. O Terceiro Setor também faz contraponto às ações do mercado, pois expõe para todos os indivíduos e empresas a pergunta sobre sua participação direta na produção ou destruição de bens e serviços de interesse comum. Como o mercado gera demandas e recursos humanos, simbólicos e ambientais que não consegue repor e satisfazer, as instituições sem fins lucrativos atendem em parte as condições viabilizadas pelo mercado. Conforme Albuquerque (2006) as organizações do Terceiro Setor devem preparar-se, capacitando-se para atender às necessidades e demandas futuras e crescentes que a sociedade lhes fará. As organizações sociais não devem querer substituir o Estado, mas sim, dar aos cidadãos, e ao setor privado, exemplos de como enfrentar os graves problemas sociais e econômicos dos países em desenvolvimento. Vê-se necessário essa capacitação, pois todas as ações do Terceiro Setor buscam modificar modos de pensar, de atuar e de sentir. De acordo com Thompson (2005) as organizações desse setor deveriam funcionar como empresas eficientes no fornecimento de serviços e deveriam funcionar como organizações portadoras de idéias de transformação e de utopias sociais. As ações do Terceiro Setor são importantes, pois mobilizam indivíduos e organizações contra a fome, miséria e outros infortúnios. No entanto, ali também há problemas: O problema é, primeiramente, ignorar que se tratam de ações emergenciais que, dando respostas imediatas e assistenciais, não resolvem a médio e longo prazos as causas da fome e da miséria, consolidando uma relação de dependência dessa população por estas ações. Por outro lado, o problema consiste em acreditar que nestas ações devem-se concentrar e esgotar todos os esforços reivindicatórios e as lutas sociais. Ao esquecer as conquistas sociais garantidas pela intervenção e no âmbito do Estado, e ao apostar apenas / prioritariamente nas ações dessas organizações da sociedade civil, zera-se o processo democratizador, volta-se à estaca zero, e começa-se tudo de novo, só que numa dimensão diferente: no lugar de centrais lutas de classes, temos atividades de ONGs e fundações; no lugar da contradição capital / trabalho, temos a parceria entre classes por supostos “interesses comuns”; no lugar da superação da ordem como horizonte, temos a confirmação e “humanização” desta (MONTAÑO, 2005, p.18). Ao longo da história podemos averiguar várias tentativas de formação de associações, sejam elas organizadas, institucionais, governamentais ou não, como por exemplo, as guildas, as fraternidades e os cultos. Segundo Carvalho (1995) os movimentos associativos tiveram origem nos séculos XVI e XVII com caráter religioso ou político, porém influenciadas pelos sistemas de governo e pelas políticas nacionais vigentes. Estes movimentos associativos eram determinados pela Igreja e pelo Estado, estabelecendo uma administração centralizadora e controladora. De acordo com Salvatore (2004) as organizações do Terceiro Setor, em sua origem, existiam no espaço da Igreja Católica, baseadas em valores da caridade cristã e em sua relação com o Estado. Misturando o público e o privado, o confessional e o civil, as organizações se baseavam também nas tradições de generosidade, solidariedade e valores assistencialistas e paternalistas. Devido à Segunda Guerra Mundial, profundas mudanças ocorreram nas diversas áreas da vida social, como por exemplo, políticas sociais e econômicas, gerando assim aumento da pobreza, da violência, de doenças, da poluição ambiental e de conflitos religiosos, étnicos, sociais e políticos. Assim nas décadas de 1950 e 1960 manifestações e tensões, como lutas dos negros, campanhas pacifistas, movimentos feministas, homossexuais, estudantis que reivindicavam direitos sociais, políticos e culturais, possibilitaram o surgimento de outros tipos de instituições no Terceiro Setor na Europa e nos Estados Unidos. Elas iniciaram campanhas educativas e se envolveram em lutas ecológicas e de defesa dos direitos humanos contra diferentes formas de violência e a favor da anistia. Houve uma busca pelas minorias, pela autonomia do sujeito e pelos direitos logo após o término da guerra, pois todos se encontravam em situações de extrema miséria, sem expectativa de melhora e sem esperança. Assim, esses movimentos serviram para unir a sociedade em torno de um objetivo – caminhar para um futuro melhor. Nas décadas de 1960 e 1970 as instituições cresceram na Europa Ocidental. Elas visavam promover projetos de desenvolvimento nos países de Terceiro Mundo, estabelecendo parcerias com vários países e fazendo surgir as ONGs no hemisfério sul. Na década de 1970 as organizações da sociedade civil atuaram fortemente na redemocratização de diversos países, com ações para o desenvolvimento comunitário e atividades de assistência e serviços nos campos de consumo, educação, saúde, entre outros. O Terceiro Setor nas décadas de 1970 e 1980 surge com o tema central de “gestão social”, pois as organizações não eram gerenciadas por administradores com a visão típica das escolas de administração de empresas. Hoje em dia, o Terceiro Setor tem como tema central a “gestão” e opera segundo a lógica e a racionalidade do setor privado. O mercado, pois, emerge no âmbito das ciências da administração. Na década de 1980 se desvanece a idéia de que o Terceiro Setor era formado por dois blocos preponderantes de instituições: um histórico, tradicional e conservador e o outro alternativo, opositor e moderno. Esses dois blocos se unem em uma percepção funcional, em vez de uma político-ideológica, além do mercado e do Estado. Segundo Matos (2005) o reconhecimento das ONGS surgiu após a Eco-92 onde o termo foi adotado para denominar as organizações responsáveis pela implementação de projetos de promoção do desenvolvimento social. Antes da Eco-92 a ONU utilizava o termo para se referir a um conjunto variado e heterogêneo de organizações internacionais no âmbito supranacional, como a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a Cruz Vermelha Internacional, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação) e a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). Se as ONGs da década de 1980 buscavam articulações partidárias, sindicais e com a Igreja progressista, na década de 1990, com as alterações nas formas de mobilização, as ONGs mudaram de natureza, promovendo mobilizações pontuais, locais, atuando a partir de demandas específicas, plurais, com objetivos humanitários, incorporando o plano da cultura, na busca de causas identitárias e éticas, trazendo à tona as questões de gênero, geração, raça-etnia, com o intuito mais de afirmação do que de contestação. Assim, junto a organizações caritativas e cidadãs, cresceu o número das ONGs desenvolvimentistas e ambientalistas, articuladas em redes de caráter internacional e cuja contribuição foi decisiva para a mudança de âmbito local (MATOS, 2005, p. 26-7). O termo “sociedade civil surgiu no Brasil e na América Latina” no século XVIII com o objetivo de interagir com as populações carentes. Segundo Albuquerque (2006, p.19), “a sociedade civil também pode ser entendida como um conjunto de associações e organizações livres, não pertencentes ao Estado e não econômicas que, entretanto, têm comunicação com o campo público e com os componentes sociais”. Segundo Tachizawa (2006), no Brasil, as ONGs começaram a existir durante o regime militar, se opondo ao poder político. Com o fortalecimento e criação de associações civis, as ONGs foram fundadas e consolidadas. Com dados da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) podemos notar que na década de 1980 as entidades pioneiras estavam vinculadas às igrejas cristãs, trabalhando com movimentos comunitários de bairros, de periferia e sindicais. Hoje em dia, as ONGs são mais secularizadas e diversificadas quanto às suas origens, atividades e objetivos. O Terceiro Setor é um conceito que deve expressar compromisso com a adoção e a difusão de valores, de procedimentos que induzam e estimulem o contínuo aperfeiçoamento dos processos empresariais, para que resultem em preservação e melhoria da qualidade de vida da sociedade do ponto de vista ético, social e ambiental. Segundo Singer (2006) diante do contexto de exclusão que marca a sociedade capitalista, uma das possíveis formas de inclusão seria a de ação solidária dos que se unem por possuírem o mesmo problema, por uma mesma necessidade, buscando benefícios comuns. A solidariedade dos que enfrentam as mesmas dificuldades é o melhor caminho para cada um entendê-las e enfrentá-las, não no confinamento do seu eu individual, mas numa forma nova de pensar e agir: a consciência de grupo e a forma da cooperação. Godelier (2001) ressalta que a economia provoca a exclusão dos indivíduos não apenas do mercado, mas da própria sociedade. Por outro, o Estado tem a tarefa de recompor a sociedade e diminuir os males que interpelam os indivíduos cotidianamente. É neste contexto que surge um apelo para dar, partilhar, expandindo assim o número de organizações voluntárias. Com isso, o gesto de solidariedade entre os seres humanos surge. Para o autor, essa ação que tinha diminuído quando existiam menos excluídos, “retorna e volta a ser necessária quando existem cada vez mais excluídos e o Estado já não é capaz de fazer com que haja menos injustiça, menos solidões abandonadas (Godelier, 2001, p.10)”. A solidariedade, neste caso, se dá a partir de trocas não circunscritas num espaço de tempo, traduzindo-se pela reafirmação de vínculos sociais que se prolongam pela circulação de bens e serviços dados e retribuídos. A solidariedade pode ser entendida como uma atitude de apoio, proteção e cuidado com alguém. Normalmente, as grandes epidemias, guerras e catástrofes são situações em que pessoas necessitam ser apoiadas, protegidas e cuidadas. Segundo Duvignaud (2000, p. 196), “O termo solidariedade, toda a gente o usa. Para confortar a consciência de uns ou para conseguir uma esmola da má consciência de outros”. É fácil conceber a importância da solidariedade numa sociedade marcada pela competição e pelo individualismo. A compreensão do sentido da solidariedade é maior que o exercício de atitudes solidárias, faz-se mister compreender a real necessidade dos que recebem ajuda e de ter uma consciência e organização coletiva. Em vários momentos da história humana são registradas ações de caridade, de auxílio em favor dos necessitados. Entretanto, essas atitudes solidárias nunca conseguiram ser significativas como alternativas, pelo seu caráter paliativo, isolado e descontinuado, não conseguindo configurar um movimento ou organização. Assim, a atitude solidária representou pouco como alternativa aos problemas que pretendeu resolver, e não conseguiu reproduzir-se enquanto ação. De acordo com Duvignaud (2002) quando nos referimos ao sentido da solidariedade estamos fazendo menção à necessidade de construirmos uma “cultura solidária” entre as pessoas, não com base no simples altruísmo ou “espírito de ajuda ao próximo”, mas com significado de resistência conjunta diante de adversidades comuns e de criação de instrumentos coletivos para intervenção na realidade e superação de problemas de maneira organizada. É esse o sentido da solidariedade: a consciência de grupo diante de problemas comuns e a organização coletiva para construir soluções. Segundo Cacciari (2003) o valor da solidariedade é considerado e reconhecido como um dos mais importantes do mundo. E porque não dizermos dentro das ações das instituições do Terceiro Setor? Para Duvignaud (2002) a solidariedade é um laço que une os homens através de formas naturais e tradicionais. É arriscado, hoje em dia, falar sobre o tema da solidariedade, sobretudo por duas razões: a primeira por tratar-se de uma palavra inflacionada a ponto de ficar totalmente desgastada; a segunda razão é porque, justamente por ser uma palavra usada por todo o mundo, muitas vezes foi forçada a significar até mesmo aquilo que não é, sendo inclusive freqüentemente instrumentalizada para fins que não lhe cabem. Entretanto, jamais como agora é invocada pelo fato de ser percebida como uma “exigência” [grifo do autor] para a vida pessoal e coletiva. Na verdade, sem ela a vida morre e a convivência reduz-se a uma cohabitação forçada onde a solidão, a indiferença, as tensões e as prevaricações acabam sobrepondo-se à sociabilidade e à fraternidade (BARONIO, 2003, p. 8). Nessa perspectiva, essa doação não se restringe às relações entre conhecidos, à esfera doméstica, mas também ocorre entre estranhos, nas ações de solidariedade que mobilizam indivíduos e organizações a atuarem na esfera pública. Sob este ângulo, trata-se de uma circulação de bens complexa que não envolve somente voluntário e população carente, mas uma rede de solidariedade difusa que expõe as necessidades individuais e coletivas e convida todos a participarem. O estranho, neste caso, assume um caráter paradoxal, pois ao mesmo tempo em que é um desconhecido precisando de ajuda, através da relação solidária que se estabelece torna-se alguém muito próximo, "um amigo", um "irmão". Com isso é possível notarmos a circulação da dádiva nas ações voluntárias do Terceiro Setor. A dádiva é considerada um fenômeno importante ou princípio de base de um modelo sociológico. A dádiva sugere um novo paradigma, além dos dois grandes paradigmas do neoliberalismo e o holismo existentes nas ciências humanas. Segundo Mauss (2001) a dádiva entende-se por tudo que circula na sociedade que não está ligado nem ao mercado, nem ao Estado (redistribuição) e nem à violência física. Podemos dizer que é o que circula em prol do ou em nome do laço social. Pensemos no que circula entre amigos, entre vizinhos, entre parentes, sob a forma de presentes, de hospitalidade e de serviços. Na sociedade moderna também podemos presenciar a dádiva entre desconhecidos: doações de sangue, de órgãos e doações humanitárias. Nessa esteira, a dádiva ultrapassa os valores de uso e de troca do objeto que circula, inserindo o valor do vínculo que traduz a intensidade da relação entre os atores envolvidos (ou seja, a relação tripartitie de dar, receber e retribuir). Os objetos doados, aceitos e retribuídos não são trocados em função de sua utilidade, tampouco pela sua equivalência monetária, mas por significarem simbolicamente o desejo de construir uma relação. Outrossim, na dádiva, a relação conta mais que o bem doado e está a serviço dos vínculos sociais. Segundo Caillé (2002) o verdadeiro dom só poderia ser gratuito e também são palavras, frases e discursos que o ser humano produz e troca em primeiro lugar com os outros. Sendo preciso estabelecer uma confiança mínima com o outro, que implica geralmente dar e não esperar uma retribuição. Godbout (1992) expõe que a dádiva encarna a tarefa impossível de estabelecer esperança e alma a um mundo perdido. É a única coisa que permite a sobrevivência num mundo louco. É possível dar, tomar, retribuir, retomar a palavra. Mas, quem a dá e quem a recebe? E o quê? Quando um orador termina seu discurso, agradece ao auditório por ter aceitado escutá-lo, assim como ao presidente da mesa que lhe deu a palavra que ele tomou; por sua vez, o presidente retoma a palavra, agradece ao orador por ter aceitado falar. Quem é o credor e quem é devedor? A linguagem do agradecimento, ritualmente utilizada nesta ocasião, evoca por si só as duas dimensões paradoxalmente unidas no dom: a da graça e da gratuidade, por um lado, e por outro, a da obrigação. Aos doadores de palavras, lhes demonstramos homenagens ou lhes ficamos agradecidos. De qualquer forma, é grande a presunção de que credores ou devedores, tomadores ou doadores de palavras, não se contentem com conversa (CAILLÉ, 2002, p. 99). Por outro lado, a dádiva também pode ter o seu lado perverso, conhecido como o dom veneno. O próprio Mauss (2001), analisando esse fenômeno, observa que nessa ação, quando o presente doado não tem possibilidade de ser retribuído, acaba humilhando o recebedor. A partir do momento que o outro não recebe ou retribui a ação, cria-se uma inimizade e uma possível guerra. Assim, o dom (troca) configura-se numa expressão de poder, sendo ao mesmo tempo um jogo de interesse e desinteresse, de generosidade e de cálculo, expressos numa dimensão simbólica, especialmente nas relações entre desiguais. Sua análise, desse modo, remete-nos ao fato de que a ação voluntária pode ser também uma expressão de poder, uma vez que, normalmente, é uma troca entre desiguais, pois o recebedor não tem condições de retribuir a doação, o que pode provocar até mesmo um sentimento de humilhação. Isso nos remete a Caillé (2002b), que chama a atenção sobre o fato de que o dom não é uma espécie de compra dos outros, de ação efetuada com a perspectiva da retribuição antecipada. Nas relações de dádiva, ao contrário, não há a expectativa de que o outro está obrigado a retribuir. Se há retribuição, esta é bastante valorizada, pois significa que o donatário age pela relação, para fortalecer o vínculo existente entre doador e recebedor. Neste sentido, a gratuidade consiste numa dimensão relevante da dádiva presente nas ações voluntárias que se apresentam como espontâneas, livres, no sentido de que não se espera algum retorno, tampouco coerção para agir. Por isso, esta ação é permeada pela regra do não-dito, do implícito para que não seja percebida como uma troca, pois não se deve demonstrar aquilo que se dá. Mas, vale destacar que ainda mesmo não esperando o retorno, este sempre vem espontaneamente, mesmo que seja no plano simbólico. Por isso, muitas vezes aqueles que não fazem parte do ciclo do dom, percebem este ato apenas como "sacrifício". Acontece do retorno dessas ações estar presente no próprio ato de dar na medida em que o voluntário entende que, ao ajudar os outros, ajuda a si mesmo. Não por recompensa, mas porque com sua ação, realiza-se como pessoa e acaba "curandose do egoísmo e do orgulho". O voluntário sai de si até a população e, ao encontrá-la, acaba encontrando a si mesmo, nesse momento revê seus valores e atitudes e até mesmo sua postura de doador, pois percebe que os principais doadores da relação são as pessoas, objeto de suas ações. Baptista (2006c) expõe a idéia de proximidade humana, um sentido que ultrapassa os laços de parentesco ou de vizinhança, como algo que deveria fazer parte de nossas atitudes e comportamentos, desenvolvendo sociabilidade e hospitalidade à alteridade. A proximidade humana significa um esforço contínuo de entrar em contato com outro mundo pessoal, ou seja, se aproximar do outro, que possui uma vida interior e uma história singular. É neste sentido que os canais de comunicação e de interação se formam no Terceiro Setor. Com a fragilidade, e instabilidade, das populações-alvo dos serviços do Terceiro Setor são mais valorizadas a relacionalidade, a convivência, a solidariedade e a paz. Os voluntários vão ao encontro do outro, trabalhando com as pessoas e não apenas para as pessoas, agindo em favor dos interesses e projetos de vida do próximo. Esse movimento visa resgatar os valores de ajuda, da generosidade e da dedicação desinteressada. Segundo a referida autora (2006c, p. 3) devemos ir ao encontro do outro, sempre em sua condição de ‘rosto’, pois: O brilho de significação testemunhado pelo rosto de uma pessoa é de tal forma único, excepcional, incomparável, surpreendente e belo, que rompe com todos os esquemas conceptuais, abrindo o ser para uma aventura maior do que o simplesmente ser. Dussel (1993) expõe que por traz da expressão face a face percebemos o outro e que mais importante do que ver o outro, é ouvir o outro. Destacamos o fato de que devemos ter a atenção para o outro – partindo do outro. Quando falamos, quando vemos, quando partimos de nós – somos agentes; mas quando ouvimos o outro – partimos das demandas dele. Assim, é a experiência do face a face na exterioridade que permite superar os limites do sistema para ver o próximo, o outro enquanto semelhante e não mais idêntico, enquanto o mesmo. Estar face a face é se abrir ao infinito. Isso é o que Dussel (1993) irá chamar de experiência metafísica da alteridade. Vê-se necessário manter uma referência de que o outro não é um cliente, um beneficiário, um sem teto ou um indivíduo incluído na população-alvo. É imprescindível ver o outro como um ‘rosto’. Somente assim, nos tornamos mais aptos a criar laços de solidariedade. Para Baptista (2006) o outro não é um inimigo, sua presença não apresenta nenhuma ameaça. Pelo contrário, a presença do outro dá razão ao nosso ser, pois vemos o outro ‘rosto’ como o nosso ‘rosto’. Testemunhando a presença viva de outra identidade, de outra soberania, o rosto ensina, o rosto traz novidade. A alteridade testemunhada por um rosto é totalmente impossível de captar racionalmente, de possuir ou de levar para casa como simples coisa ou alimento (BAPTISTA, 2005, p. 3). O ‘rosto’ pede por respostas, assim, o ‘rosto’ significa uma emergência de responsabilidade. Ninguém poderá tomar o lugar de ninguém, pois somos insubstituíveis na resposta ao apelo que nos é dirigido pelo outro. É claro que temos o direito de escolher permanecer numa esfera de auto-suficiência, recusando assumir responsabilidade. Porém, essa atitude não será inocentada. De acordo com Baptista (2006b) não existe solidariedade e generosidade sem o respeito e direito ao ‘rosto’, ao nome, à memória, ao sonho e à palavra pessoal. Proximidade humana é solidariedade e também responsabilidade social, que deverá permear-se pelo movimento da dádiva e não de afirmações egoístas. Julga-se que os valores da dedicação, da generosidade e da misericórdia desinteressada ao próximo, veiculadas através das ações voluntárias constituem um patrimônio precioso e um capital de experiência. A autora (2006b, p. 13) expõe princípios de ação que deverão permear todas as relações e vínculos estabelecidos pelos voluntários e os outros: primeiramente, a paciência, que trata-se de ajudar a encontrar os meios que permitam, a cada um, chegar ao objetivo almejado pelo próprio pé e no próprio tempo. Em segundo, a sensibilidade, que é manter uma escuta ativa, uma atitude de acolhimento, uma aceitação do outro enquanto outro. Em terceiro, a distância, que resume-se na capacidade de estar próximo ao outro e senti-lo para estabelecer laços e confiança, porém mantendo a capacidade de afastamento crítico. Em quarto, é o espírito de renúncia, a capacidade de aceitar o pior, sem deixar de desejar o melhor. E em quinto, a humildade, demonstrando moderação na entrega, abertura ao imprevisível e a disponibilidade para interrogar as suas próprias intenções interiores. Neste sentido, todas as ações de solidariedade, generosidade e hospitalidade serão subordinadas ao modo de ser para o outro, implicando um dom sem contra-dom, uma dádiva incondicional, um desinteresse absoluto e uma paciência da vontade. Pois, segundo Baptista (2005, p. 4), “Reconhecer o outro é reconhecer uma fome. Reconhecer o outro é dar”. 1.1 A Situação do Terceiro Setor Devido à eficiência e à importância do trabalho desenvolvido pelo Terceiro Setor é que sindicatos, associações, movimentos, redes sociais, igrejas, órgãos governamentais e universidades formam parcerias para auxiliá-lo em programas, projetos, seminários e campanhas no mundo. De acordo com o relatório da John Hopkins University (In: TACHIZAWA, 2004, p. 20), o setor sem fins lucrativos emprega 19 milhões de pessoas, gerando recursos de US$1,1 trilhão em todo o mundo. Segundo pesquisa da Gazeta Mercantil de maio de 2002 (In: TACHIZAWA, 2004, p. 21) as organizações não governamentais sem fins lucrativos de finalidade ambiental, social, cultural e afins movimentam mais de US$1 trilhão em investimentos no mundo. Estima-se que o número de entidades, incluindo ONGs, fundações, associações civis e unidades assistenciais, supera 540 mil e geram aproximadamente 5% dos empregos do mundo. Para Tachizawa (2004) a captação de recursos financeiros pode ser por doações, aporte de recursos do Estado (federal, estadual e municipal) e aporte de recursos externos: Agência Internacional de Cooperação Não Governamental, Agência de Cooperação Multilateral, Agência de Cooperação Bilateral, Órgãos brasileiros de governo, venda de produtos/serviços, doações individuais, empresas, Fundações Nacionais e outras. O autor divide os recursos financeiros em três fontes, a internacional, a pública e a privada. A fonte internacional é pública ou privada e se refere aos recursos provenientes do exterior, seja de governos, de organismos multilaterais ou instituições privadas. A fonte pública local é de governos nacionais, estaduais ou municipais. Com os processos de reforma do Estado, mais a influência de organizações internacionais (BID, Banco Mundial etc), iniciou-se um incipiente processo de “terceirização” por parte do Estado, que delega às OSCs a responsabilidade de implementar diversos planos com recursos públicos. A fonte privada refere-se aos recursos provenientes dos indivíduos, das empresas e instituições. A venda de produtos e/ou serviços se refere à cobrança de tarifas pelos serviços prestados, relacionada à natureza e origem da organização. A captação de recursos é um dos maiores desafios que as organizações do Terceiro Setor enfrentam, devido à escassez de recursos e aumento de competitividade para obter fundos. O sucesso depende do relacionamento entre organização e doador. Os potenciais doadores são pessoas ou instituições que compartilham da mesma missão, valores e objetivos gerais da organização e estão dispostos a contribuir. Tachizawa (2004) também comenta que é interessante a organização desenvolver material institucional que apresente os objetivos e a lógica da organização, bem como as razões pelas quais o doador potencial venha a oferecer seu apoio. O material precisa demonstrar como os recursos captados serão utilizados para a ampliação das atividades. Yoffe (2004, p. 216) expõe que a base de sustentabilidade das organizações do Terceiro Setor encontra-se na diversificação das fontes de ajuda e dos seus recursos humanos: “O desenvolvimento estratégico dos recursos, caminho fundamental para a sustentabilidade, implica uma visão das possíveis articulações entre as fontes potenciais e os recursos humanos exigidos para seu acesso”. Segundo Albuquerque (2006) as formas de apoio e financiamento das atividades podem ser categorizadas da seguinte maneira: auxílios (entidade de direito público ou privado sem finalidade lucrativa), contribuições (atender o ônus ou encargos assumidos pela União), subvenções (cobrir despesas de custeio de empresas públicas ou privadas e instituições públicas ou privadas de caráter assistencial), convênios / acordo ou ajustes (órgãos e entidades da administração federal e de outras entidades públicas ou particulares), contratos, termo de parceria (atender às entidades que desenvolvem projetos conjuntos com o Estado) e contratos de gestão (destinação de recursos para entidades sem fins lucrativos). Faz-se necessário, segundo Toro (2005), que as instituições do Terceiro Setor consigam criar condições para que as diferentes formas de ver, produzir e entender o mundo dos setores populares possam circular e competir em igualdade de condições. Uma autêntica parceria com as formas de apoio deverá procurar instrumentos para equilibrar a participação e os direitos de expressão de todas as partes envolvidas. No Terceiro Setor as parcerias e alianças estratégicas são de suma importância, pois permitem melhor eficiência em suas ações estratégicas, e isso requer habilidade, desprendimento, desejo de juntar as forças e recursos. Parceria é a idéia de ações mais pontuais, um projeto ou uma iniciativa conjunta. As ações de longo prazo ou uma associação permanente buscam uma aliança estratégica. Com parcerias e alianças, as organizações podem desenvolver novas atividades, iniciar projetos, abrir frentes de atuação, fortalecer planos em andamento, ampliar o leque de conhecimentos, captar e reduzir a alocação de recursos, superando, assim, lacunas e preenchendo espaços deficitários. O processo de selecionar, avaliar e identificar os fatores que levam às parcerias ou alianças é um desafio para a organização que quer crescer globalmente em suas atuações. Os aspectos levados em consideração pela organização no processo avaliativo são: atuação, tempo de existência, credibilidade, imagem, missão, valores, intencionalidade ética, capacidade de investimento, saúde financeira, gestão de pessoas e projetos já desenvolvidos. Cooperação e parceria são consideradas necessárias e inestimáveis, por toda e qualquer organização. Tachizawa (2004) comenta a necessidade da implementação de formas de acompanhamento, discussão e renegociação dos termos do trabalho conjunto e das motivações, pois tensões e conflitos aparecerão em qualquer parceria ou aliança. Por um lado, é preciso reconhecer o fato de que tanto o ambiente quanto as pessoas que compõem uma organização mudam. Portanto, é natural que interesses, papéis, poderes, objetivos, vantagens obtidas e capacidades das organizações possam não ser mais os mesmos depois de certo tempo. Por outro lado, se uma organização detecta problemas ou se se percebe insatisfeita na relação e não consegue abordar direta e objetivamente seu parceiro, provavelmente o problema acaba assumindo dimensões maiores e pode colocar em dúvida todo o trabalho, quando talvez não fosse o caso (TACHIZAWA, 2004, p. 159). Por esse motivo o estabelecimento de um relacionamento da ONG com seus colaboradores, fundados em bases sólidas e valores importantes, é de extrema importância. Também é permitido que as entidades recebam doações de pessoas físicas, mesmo as de utilidade pública, porém sem qualquer vantagem fiscal. De acordo com a Consulting Ogilvy One Worldwide (In: ALBUQUERQUE, 2006, p. 96) os perfis dos doadores podem ser determinados da seguinte maneira: Pró-ONGs (contribuem espontaneamente com diversas organizações sem qualquer solicitação e normalmente são sócios contribuintes de mais de uma ONG), colaboradores (pessoas que, além de contribuir, participam ativamente das ações e atividades das ONGs e são normalmente sócios de uma única organização), sem fidelidade exclusiva (têm o hábito de contribuir com uma organização, mas sentem-se livres para fazer o mesmo com outras entidades), eventuais (pessoas que se mobilizam diante de grandes calamidades e doam a qualquer organização que canalize ajuda para esse fim) e “telemaratonianos” (parecidos com os eventuais, mas colaboram devido a um envolvimento emocional provocado por campanhas desencadeadas pelas redes de rádio e TV). Singer (2006) comenta que as instituições do Terceiro Setor têm uma carência de capital de giro e que, normalmente, não investem em instrumentos próprios e em formação, ou seja, o “capital humano”, que hoje em dia é fundamental. A economia solidária pobre e carente tem grandes dificuldades de se consolidar e se viabilizar economicamente. A esse respeito não pode haver ilusões. Existe um número grande de empreendimentos com um pé na solidariedade, tipo terceiro setor, que depende de subsídio e apoio. Como não consegue viabilizar-se economicamente, uma parte acaba perecendo, com muita dor no coração dos participantes pobres e com a vida para ganhar. É a heróica busca para se abandonar a pobreza. Se não podem fazê-lo dessa maneira, cada um vai saltando aos poucos do navio para se virar de outra maneira (SINGER, 2006, p. 20). O processo de captação e mobilização de recursos é relativamente complexo e demanda tempo e organização da instituição. Segundo Albuquerque (2006) para incentivar e mobilizar doadores é necessário seguir algumas regras básicas. Por exemplo: a necessidade deve estar clara e ser apresentada de forma convincente; as pessoas desejam ajudar e se mobilizam ao verem nos noticiários casos de incêndios em favelas, secas, enchentes, terremotos ou maremotos; é preciso compreender o valor desses programas, e a importância vital das doações. Por esse motivo, não se deve fazer um pedido modesto, pois pode-se subestimar a capacidade e vontade do doador. É importante, também, pedir apoio de alguém que seja do meio em que o recurso está sendo solicitado e, por último, é essencial que a entidade reconheça e agradeça aos seus doadores e crie oportunidades e meios para que eles compreendam e valorizem ainda mais o trabalho que a sua contribuição ajudou a tornar realidade. Segundo Tsugumi (2006) uma ferramenta extremamente útil e fundamental em qualquer organização é o marketing. Observa-se que a maioria das ONGs se limita a divulgar seu trabalho em nível micro, centradas somente na comunidade e bairro. Até a década de 1990 não se falava em marketing aplicado à atividade social, o qual restringia-se, apenas, a algumas ONGs. As instituições do Terceiro Setor, até pouco tempo, demonstravam preconceito e desinformação referente ao marketing, pois não compreendiam a amplitude conceitual e a extensão de suas possibilidades no planejamento de matéria-prima e desenvolvimento de estratégias, acreditando que fosse apenas uma ferramenta para a sustentabilidade financeira. Sendo assim, era tido como inadequado para se utilizar em organizações sem fins lucrativos, por ser uma ferramenta originária do campo das organizações rentáveis. Porém, para atrair a participação de indivíduos para ações assistencialistas, estas instituições adotaram as técnicas de marketing. Criou-se, então, o chamado marketing institucional ou marketing de idéias, ou seja, o marketing que atua no “mercado simbólico”, onde os produtos são bens intelectuais, idéias, e a troca é o interesse de indivíduos ou grupos. Algo sobre ele, no entanto, precisa ser explicado para que não lhe sobrevenham, na área social, resistências ainda mais duras, e para que se possa refletir com desejável razoabilidade sobre o seu uso: para o bem e para o mal, o marketing é acima de tudo uma ferramenta cujos resultados dependem tão-somente da aplicação que dele se faz. Pode servir tanto à iniqüidade quanto à transformação social. Pode vender a mentira, a idéia da erradicação do trabalho infantil e o produto fabricado com a participação de crianças em sua produção, a estupidez da guerra e a redenção da paz (VOLTOLINI, 2004, p. 149). Segundo Voltolini (2004) para que uma organização possa superar os desafios da legitimação, eficácia, sustentabilidade e cooperação, ela precisa adotar o marketing de idéias, pois funciona como um instrumento que envolve análise, planejamento, implantação, controle e ainda cria condições para a ocorrência de trocas, obtendo-se assim recursos financeiros e outros auxílios necessários, como - material humano, de conhecimento, de tempo, de experiências e de imagem. Os resultados de estudos recentes demonstram que entre os fatores que motivam alguém a doar a uma organização social estão a crença e a identificação com a causa, a credibilidade de quem requisita o recurso e o sentimento de participar de uma ação que beneficia pessoas carentes. O marketing é fundamental para expor uma imagem com base em uma combinação de atributos como credibilidade, transparência, austeridade, eficácia e criatividade, formando assim uma imagem para o bem ou para o mal, afetando o comportamento do público com quem se relacionará. Para garantir a longevidade e auxílio nas áreas sociais e humanitárias no cotidiano das pessoas, as instituições do Terceiro Setor precisam se posicionar significativamente, criando uma imagem afinada com sua missão, clara e diferenciada, para garantir um “domínio” na mente dos beneficiários, dos doadores, dos financiadores, da comunidade e da sociedade em geral. 1.2 Organizações Não-Governamentais De acordo com Matos (2005), as ONGs são agrupamentos coletivos com nível de institucionalização, entidades privadas com fins públicos e sem fins lucrativos, contando ou não, com participação voluntária e identificando-se com a sociedade civil. Elas atuam como mediadoras de parcerias entre a comunidade local organizada, setores públicos e privados e implementam programas sociais na parte da educação, saúde, saneamento, meio ambiente e geração de renda. Ou formam-se para a defesa dos direitos humanos dos trabalhadores ou dos consumidores. As ONGs devem ser analisadas em três aspectos: 1) o da organização como tal, com ações e objetivos propostos pela instituição e pelo público-alvo; 2) o dos indivíduos atuantes dentro e em torno das ONGs; 3) o das redes sociais que fornecem suportes para a atuação das organizações. Carvalho (1995, p. 16) diz, “As ONGs não somente se generalizaram como modo de organização, mas transformaram-se em nova forma de governo das massas contemporâneas”. Ou seja, as ONGs atuam no sentido de formar uma governabilidade global, permitindo a inferência de novas territorialidades. Assim é possível dizer que as ONGs visam solucionar os problemas a norte e a sul, a leste e a oeste, investindo um esforço abrangente com capital mínimo, porém a informação e a participação são seus recursos máximos. É importante lembrar que as ONGs provêm de iniciativas da cidadania, dos trabalhadores e de grupos culturais e agregam uma multiplicidade de temas, diversidade econômica, cultural, política e social. As ONGs buscam diversas formas de fontes de financiamento, fugindo do controle do Estado e crescendo no empenho da captação dos recursos, fazendo-se mais visíveis para o governo e para a sociedade em geral. As organizações criam estratégias para uma autonomia financeira, como a administração de cursos, palestras e oficinas, realização de bazares e atividades beneficentes, campanhas para arrecadar fundos e recebimento de doações. Segundo Matos (2005, p. 107-8), as ONGs enfrentam alguns desafios como: a dependência financeira dos recursos de cooperação internacional implica ser afetada por decisões políticas e prioridades internacionais; as ONGs tendem a se concentrar na execução de projetos locais, regionais, canalizando a maior parte dos recursos para isso; as ONGS não têm de prestar contas às populações alvo nem ao Estado, apenas às agências financiadoras, assim acabam por responder mais aos interesses dessas agências; as ONGS enfrentam o paradoxo do excessivo profissionalismo e do amadorismo; as ONGS acabam se especializando mais em imposições temáticas das agências financiadoras que dirigem as orientações pela oferta dos fundos; e apesar da expansão de redes, a maioria das ONGs opera em territórios considerados próprios e ainda enfrenta dificuldades para coordenar-se com as demais. Os voluntários das organizações não-governamentais são indivíduos que se envolvem nessas atividades movidos por valores como justiça, igualdade ou pelo desejo de provocar mudanças sociais, normalmente com vínculo religioso ou partidário. Sua adesão ou receptividade ocorre quando se identificam com os interesses compartilhados. Por isso, não é raro que a participação cesse tão logo os benefícios sejam alcançados ou a organização se mostre ineficiente para conquistá-los. Segundo Toro (2005) os voluntários devem ser cidadãos capazes de construir, em cooperação com as outras, uma ordem social em que ele mesmo quer viver, cumprir e proteger para dignidade de todos. O trabalho voluntário não gera vínculo empregatício, nem obrigação de natureza trabalhista ou previdenciária. O voluntariado não pode ser imposto ou exigido como contrapartida a algum benefício prometido pela entidade; deverá ser gratuito; prestado pelo indivíduo isoladamente e direcionado à entidade governamental ou privada sem fins lucrativos e voltada para objetivos públicos. De acordo com a Lei no. 9.608, de 18 de fevereiro de 1999 (apud TSUGUMI, 2006, p. 49): - O serviço voluntário é considerado uma atividade não remunerada, prestada por pessoa física à entidade pública de qualquer natureza ou à instituição privada de fins não lucrativos, não gera vínculo empregatício, nem obrigação de natureza trabalhista, previdenciária ou afim. - Será exercido mediante termo de adesão entre a entidade pública ou privada e o prestador do serviço voluntário. - Poderá ser ressarcido pelas despesas que comprovadamente realizar no desempenho das atividades voluntárias, desde que devidamente autorizada pela entidade a que for prestado o serviço voluntário. De acordo com Melluci (2001), a ação voluntária caracteriza-se pela espontaneidade da pessoa em aderir a alguma forma de solidariedade. Na realidade, consiste numa ação orientada para a busca de objetivos comuns, configurando-se como uma prestação de serviço ou distribuição de bens aos outros. É um componente relevante ao processo de renovação de uma sociedade civil capaz de fazer a diferença e reforçar a solidariedade. É possível apontar para uma tendência a se formar entre as pessoas que realizam o trabalho voluntário, que é a consciência solidária, ou seja, uma conscientização de que essa ação é cada vez mais necessária face aos problemas que se avolumam. Nesse prisma, o voluntário sente-se responsável e capaz de realizar mudanças, sendo que sua participação através desta atividade seria um meio de expressar que o problema não é só do "outro", ou do "governo". Sob este ângulo a ação voluntária, antes de ser um compromisso pessoal, é assumida como um compromisso com o social. Isso nos remete a Caillé (2002b), ao enfatizar que o primeiro passo da solidariedade é aquele através do qual os homens se reconhecem membros da mesma sociedade, da mesma politie e, neste sentido, têm a obrigação de olharem uns pelos outros. Segundo Rosanvallon (apud MONTAÑO, 2005, p. 113) é necessário: [...] reinserir a solidariedade (voluntária) na sociedade. Dito de outra forma, a solidariedade social, supostamente usurpada pelo Estadoprevidência, e transformada em automática, compulsória, obrigatória, que ofusca as relações sociais, dada intermediação do Estado e que não atende às particularidades de cada segmento social, deve deixar lugar à nova solidariedade voluntária e direta. Com isto, a sociedade tornar-se-ia mais densa, voltada para si mesma, com indivíduos inseridos voluntariamente em ‘redes de solidariedade direta’. Um dos maiores problemas seria o de desenvolver a solidariedade em uma sociedade individualista. O individualismo é o maior obstáculo para uma ação de ajudamútua, pois gera na civilização urbana o esvaziamento ético e o declínio humano. Existe, porém outra barreira: o conhecimento limitado da imagem do outro. De acordo com Cacciari (2003) alguns indivíduos utilizam a solidariedade para ganhar vantagem própria, ou as empresas a utilizam para formar vínculos corporativistas, criando obrigações de retribuição. Boeira diz (2007): A auto percepção, neste caso, inclui o outro, ou seja, o “eu” [grifo do autor] é ampliado à condição de “nós” [grifo do autor]. Suspendemos continuamente as imagens que temos do outro e abrimos nossa autopercepção a ponto de incluir a liberdade do outro. Observamo-nos, na relação solidária, evitando autocensura e autojustificação, permanecendo atentos à possibilidade de ver nossa liberdade acompanhar a liberdade do outro, momento a momento, sem expectativa de um resultado concreto, de um fim. Para isso, é preciso contar não só com a desmistificação dos estereótipos dos inúmeros artifícios sociais, mas também com o propósito claro, explícito, de desenvolver a solidariedade. Segundo Cacciari (2003, p. 48) toda a idéia de solidariedade fundamenta-se no meu socius essencial, eu mesmo sou o outro. Por isso, ao analisar o tema solidariedade torna-se necessário compreender que o outro está em nós, seja por amor ou ódio. “Eu não sou um sujeito simples, alguém indivisível, ou um eu individual. Existe em mim uma sociedade de indivíduos que precisa dos outros, que se divide entre si, que faz a guerra e a paz. Eu não posso ignorar o outro porque eu “sou” [grifo do autor] o outro”. Sendo este relacionamento sempre relacionado à gratuidade e ao dom. A solidariedade cria fortes laços de amizade e gera valores como amor, paz, liberdade e harmonia, resgatando o sentido original da palavra respeito. Não podemos confundir solidariedade com bondade ou envolvimento romântico, pois está relacionado aos movimentos sociais, ou seja, ações sociais, fornecendo auxílio aos povos carentes. Para satisfazer a necessidade da presença de outro ser humano é que se desenvolve a solidariedade. Dependemos da ação de indivíduos e de suas interações. Somos todos portadores de necessidades que só poderão ser supridas por meio do estabelecimento de vínculos sociais. Por causa dessa busca incessante de vínculos e relacionamentos são criadas diversas formas de interação, como o relacionamento afetivo, a elaboração de conhecimentos, de atividades lúdicas e artísticas e a produção de bens e serviços. Zaina (2005) expõe que a dádiva é uma ação voluntária e espontânea da solidariedade, que está associada a um sistema público de distribuição por meio de um conjunto de dádivas mecânicas e impessoais. O primeiro passo da solidariedade é quando o homem se reconhece membro da mesma sociedade e sente-se obrigado a cuidar do outro. As leis da dádiva (dar, receber, retribuir) insinuam-se como uma trégua e um voto de confiança ao outro, estrangeiro, estranho e potencial inimigo. A circulação da dádiva é exatamente a renovação do voto de confiança mútua, onde a reciprocidade se submete à aliança e ao laço social. As normas que permeiam as ações solidárias têm suas origens em instintos sociais e biológicos, que evoluíram pelo processo de ritualização cultural, conforme exposto por Ridely (2000). O autor diz que a solidariedade surge não devido ao parentesco próximo, da reciprocidade ou de ensinamentos morais, mas por causa da ‘seleção de grupos’, onde a seleção natural aconteceu não no nível do indivíduo, mas no bando ou da tribo. Virtude é de fato, graça – ou instinto. É algo que se tem como certa, à qual se pode recorrer e que se deve estimar. Não é alguma coisa que tenhamos de lutar para criar, contrariando a natureza humana – como seria se fôssemos pombos, por exemplo, ratos, sem uma máquina social para olear. É um lubrificante instintivo e útil, parte da nossa natureza. Assim, em vez de tentar preparar as instituições para reduzir o egoísmo humano, talvez devêssemos prepará-las para que a virtude humana viesse à tona (2005, p. 166). Pelo que podemos compreender essa relação entre voluntário e a populaçãoalvo de suas ações, é estruturada por uma interação dinâmica fornecida pela circulação de doações, recebimentos e devoluções de bens entre os mesmos - a dádiva. Tal circulação não está subordinada à racionalidade utilitária de aumentar bens, tampouco à racionalidade política que seria aumentar o poder, ela está subordinada à criação dos vínculos sociais. Nesse sentido, os objetos doados, aceitos e retribuídos não são trocados em função de sua utilidade, tampouco por sua equivalência monetária, mas sim por significar simbolicamente o desejo de construir uma relação. Dar é essencial para obter prestígio; é preciso ostentar a fortuna por intermédio de sua distribuição. Por sua vez, receber também está longe de ser um ato voluntário; aquele que recusa a dádiva ofertada tem seu prestígio ameaçado, uma vez que recusar a dádiva tem o sentido de dar-se por vencido antecipadamente. Ao mesmo tempo, se dar é um convite à aliança, receber equivale a aceitá-la, recusar um presente sendo algo assim como uma declaração de guerra. A terceira obrigação – retribuir – completa o “sistema da dádiva”, uma vez que a coisa ofertada em retribuição, em vez de quitar a dádiva inicial recebida, corresponde a aceitar estar em relação como o doador inicial. (MAUSS, apud Maria Coelho, 2006, p. 23) CAPÍTULO II - MISSIOLOGIA E EVANGELIZAÇÃO Julgamos necessária a menção à missiologia e à evangelização porque este projeto de pesquisa optou pelas ações sociais da Organização Operação Mobilização, uma vez que a entidade tem como missão pregar as Boas Novas, que é entendida como a mensagem de que Cristo oferece salvação a todo aquele que Nele crê, por meio do veículo de auxílio humanitário e social. O envio de missionários é baseado na Bíblia, no livro de Mateus, capítulo 28, versículos 18-20, e na natureza da fé cristã. De acordo com Bosch (1991), até a década de 1950 o termo “missão” tinha várias aplicações: o envio de missionários a determinados territórios; e as atividades desenvolvidas por estes. Num sentido mais teológico, o termo “missão” significa a propagação da fé, a expansão do reino de Deus, a conversão dos hereges e a construção de novas igrejas. Segundo Bosch (1991), foram vários os motivos para a Grande Comissão (o envio de missionários para pregar o Evangelho ao redor do mundo), alguns eram positivos e outros negativos. O motivo imperial se baseava no desejo de transformar os nativos, que eram considerados bárbaros e incivilizados, em pessoas dóceis pela autoridade colonial obrigando-os a se converterem ao Catolicismo. O motivo cultural evidenciava a Igreja, a qual acreditava ser a única fonte da verdade, superioridade e justiça. Dessa forma, seu objetivo era transferir a cultura e fé do missionário às populações alvo de suas ações. Havia, também, o motivo do colonialismo eclesiástico, baseado no desejo de domínio de terras para o aumento de poder e assim, frisar a necessidade do aumento de igrejas para controlar o domínio, tanto da terra como dos nativos. Hoje em dia há muitos outros motivos, seja o motivo romântico (vontade de conhecer países exóticos e distantes, com custos mais baixos e com a ajuda financeira de outros),, o escatológico, que se baseia na urgência da humanidade fixar seus olhos em Deus, ignorando as exigências deste mundo. Na Igreja também existe o motivo do plantatio ecclesiae, ou seja, a urgência de se implantar novas igrejas para facilitar o trabalho dos missionários, criando dessa forma as redes de apoio. Existe também o motivo filantrópico, que ocorre quando a igreja se vê desafiada a buscar justiça e igualdade no mundo. Por fim e, provavelmente o motivo mais real, o da conversão que seria a idéia de abordar o indivíduo em sua individualidade e compartilhar com ele o Evangelho visando obter-se uma decisão e um compromisso individual. Durante a época da cristandade, a missão foi sempre tratada como um apêndice da sociedade cristã, uma simples expansão territorial da Igreja. Quando o Vaticano II integrou a missão dentro da Igreja, ficou claro que esta era essencialmente missionária e que todos os cristãos eram chamados para serem missionários. Com o Vaticano II, a teologia da missão teve que enfrentar problemas eclesiásticos globais: como anunciar o Evangelho no Terceiro Mundo? Como refazer a missão na Europa muito secularizada? Segundo Diáz (1996), a evangelização era fundada no projeto colonial de dominação, ou seja, os missionários que embarcavam rumo ao novo continente juravam fidelidade à coroa. A conquista era imposta como um projeto de expansão da civilização e da doutrina cristã aos bárbaros. Os missionários não se preocupavam em conhecer e entender a cultura dos nativos, pois estes eram considerados incivilizados, idólatras, pagãos e bárbaros. Assim, a atuação missionária era uma ação de destruição e suplantação da identidade religiosa e cultural dos povos originários das terras conquistadas. O Novo Continente em sua complexidade, segundo Dussel (1993), foi encoberto quando os primeiro europeus chegaram. O descobrimento da América por espanhóis e portugueses significou uma revolução geopolítica sem precedentes na história mundial, pois o outro não foi descoberto como outro, mas sim como o “si-mesmo”, e portanto afirmando que o outro foi negado como “encobrimento”. O Novo Mundo foi tratado como o mesmo, como o idêntico. Deixou-se de compreender um Novo Mundo, portador de lógicas abertas, em expansão formando um manancial de multiplicidade e contigüidade textuais. O descobrimento, como encobrimento do outro, foi o primeiro grande holocausto da história humana. Os africanos e indígenas não foram evangelizados nem cristianizados por processos de catequese, muito pelo contrário, foram cristianizados por “imersão cultural”. O que ocorre aqui é o que Dussel (1993) descreve como uma evangelização guerreira, uma implantação de uma cultura. Essa evangelização deixa três dívidas frente aos povos deste continente: uma dívida cultural – os colonizadores destruíram as culturas autóctones ou as submeteram a formas desestruturadoras de sincretismo de resistência; uma dívida antropológica – o quadro da dominação atingia todas as instâncias da sociedade e abrangia a dominação dos corpos e a conquista das “almas”, vale dizer, por meio da educação e da catequese o cristão foi europeizado, num processo de imposição-adaptação à cultura do dominador; e uma dívida de evangelização – a transposição das instituições, dos símbolos, dos conceitos e dos hábitos da cultura cristã européia (DIÁZ, 1996, p. 21-2). De acordo com Neill (1990) entre os anos de 1808 a 1862, com os processos de independência e a expansão do pensamento liberal, a Igreja começa a se subordinar diretamente à Roma, e o protestantismo é introduzido. Porém, os conteúdos e métodos da evangelização não foram modificados. O ocidente se auto-identifica como força espiritual e é a única portadora de civilização. O mais importante, nessa época, era a expansão do capitalismo. Assim, a hierarquia eclesiástica era o único sujeito autorizado da evangelização. Aos missionários eram atribuídas tarefas de controle ideológico e de modificação das formas de organização sociocultural. Hoornaert (1995) descreve que nessa época o campo religioso estava fragmentado em dezenas de sociedades religiosas rivais, combatendo-se com unhas e dentes. Não se encontrava mais a velha luta entre os deuses pagãos e os cristãos, mas sim a luta entre divindades cristianizadas. A missiologia nasceu na Europa somente no século XX e, em muitas regiões, somente depois da segunda Guerra Mundial. Antes disso, o tratado da Igreja era apologético. A Igreja era vista como a regra da revelação, como poder revelador. Era parte do tratado sobre a revelação, ou seja, da teologia fundamental. Devemos nos atentar a diferença entre missiologia e ação missionária. Missiologia é o estudo sobre missões ou ação missionária e ação missionária é o ato de pregar as Boas Novas a todos. De acordo com Anderson (1988), quatro mudanças de paradigmas ocorreram nas últimas décadas no pensamento missiológico. São elas: 1) Outras religiões, além do cristianismo, deixaram de ser consideradas totalmente falsas; 2) O trabalho missionário passou a ter menos pregação e mais atividade - caridade e ajuda humanitária; 3) O foco foi transferido para a salvação na vida presente; A ênfase das missões mudou do individual para o coletivo (sociedade em geral). A grande mudança na Igreja atual foi provocada pela descolonização e pela emergência do Terceiro Mundo. Estes dois fatos produziram duas conseqüências. Primeiro, a teologia foi obrigada a contemplar os valores positivos das outras religiões, deixando sua atitude sectária, para introduzir em sua reflexão o caráter planetário da Igreja e da missão. A principal contribuição da missiologia moderna para a Igreja seria obrigar a Igreja a levar em conta o outro. Uma missiologia intercultural parte do reconhecimento de todas as diversidades religiosas. Na mesma linha, alguns defenderam a missiologia como xenologia. A arte de conquistar os outros seria substituída pela arte do encontro com o outro. Dentro do cristianismo a evangelização é uma prioridade, pois coloca o objeto de sua adoração, Cristo, na vida individual, na vida familiar, na vida social e na vida nacional. O Evangelho é visto como um remédio para as desordens e misérias do mundo. Evangelização significa as atividades envolvidas para a proclamação do Evangelho e uma reflexão teológica sobre elas. Bosch (1991) expõe que para se distinguir entre evangelização e responsabilidade social é necessário compreender dois mandatos diferentes, sendo o primeiro espiritual e o segundo social. O primeiro se refere à comissão para anunciar as Boas Novas da salvação de Jesus Cristo, e o segundo é a participação responsável na sociedade humana, incluindo serviços humanitários e de justiça. Os dois mandatos, para o missionário, devem caminhar juntos, pois a comissão evangélica para a reforma social é relacionada ao entusiasmo da proclamação do Evangelho. Porém, nos dias de hoje, evangelizar não é mais comunicar o Evangelho ignorando as raízes culturais, tradições e costumes, mas sim, uma análise de estratégias para se ministrar a Palavra de Deus de maneira a atingir o ser humano em suas necessidades e realidades contextuais, sempre respeitando sua herança cultural. Para Boff (1990) a vida humana é cultural nos sentidos cósmico, pessoal, econômico, simbólico e religioso. Sendo assim, a valorização e respeito pela cultura do evangelizado é de extrema importância para que haja um afastamento da evangelização proselitista e comercial. Urge evitar-se uma evangelização marcada pelo domínio do projeto colonial, que desrespeita a cultura local e pratica uma evangelização visando apenas lucro financeiro da organização missionária. Faz-se necessário uma identificação com as reais questões do evangelizado e suas necessidades, suas lutas contra as injustiças e opressões. Porém, apesar dos esforços nesse sentido, ainda ocorre o fato da igreja ou do missionário não perceber com clareza as necessidades do evangelizado, assumindo assim uma função distante da necessidade real do indivíduo. Desta forma se posiciona o Conselho Mundial de Igrejas: Não há Evangelização sem solidariedade cristã que não envolva a partilha do conhecimento do reino, que é a promessa de Deus aos pobres. Há aqui um duplo teste de credibilidade: uma proclamação que não as promessas da justiça do reino para os pobres é uma caricatura do evangelho; mas a participação cristã nas lutas por justiça que não aponte para as promessas do reino constitui também uma caricatura de uma compreensão de justiça. Um crescente consenso entre os cristãos fala hoje da opção de Deus pelos pobres. Temos aí um padrão válido para aplicar às nossas vidas como indivíduos cristãos, igrejas locais e povo missionário de Deus no mundo (CONSELHO MUNDIAL DE 1 IGREJAS, 1992, pág. 59). Compreendemos pelo texto acima que quando o missionário respeita e é sensível à necessidade do ser humano e às suas tradições e culturas, criam-se condições e oportunidades para que o evangelizado compreenda melhor a proposta do Evangelho para sua vida e aceite a ajuda do missionário sem desconfiança ou medo. 2.1 Histórico – Organização Operação Mobilização (OM) A Organização Operação Mobilização (OM) tem suas raízes nas orações de uma dona de casa americana. Na década de 1950, Dorothea Clapp começou a orar fielmente pelos alunos de uma escola da sua vizinhança. Ela pedia que Deus tocasse o mundo através das vidas daqueles jovens. Em uma de suas visitas à escola, ela conheceu George Verwer, que mais tarde fundou a Operação Mobilização, sendo também, seu diretor internacional. 1 O Conselho Mundial de Igrejas (CMI) é a principal organização ecumênica cristã em nível internacional, fundada em 1948 em Amsterdã, Holanda. O CMI congrega mais de 340 igrejas e denominações em sua membresia. Enfatizam a busca de unidade das igrejas e trabalham em alguns projetos, por exemplo a Comissão de Fé e Ordem e na Comissão de Missão e Evangelização, para compartilhar o Evangelho aos confins da terra, conforme a solicitação na Grande Comissão. Na faculdade, George Verwer e mais dois amigos se encontravam regularmente para orar por diversos países carentes do mundo. Em 1957, decidiram vender tudo que possuíam para arrecadar fundos suficientes e dedicar um verão para realizar serviços humanitários e missiológicos no México. Quando se formaram em 1960, Verwer e seus amigos viajaram à Europa. Começaram trabalhando na Espanha, compartilhando sua fé e distribuindo literatura. Mas, para eles, a tarefa de alcançar toda a Europa parecia impossível. Verwer e seu grupo perceberam que a melhor maneira de alcançar as pessoas carentes seria incentivando a igreja a ajudar financeiramente, ou a se envolver em trabalhos missionários. Começaram, então, compartilhando sua visão com as igrejas locais, e muitos cristãos responderam positivamente. Foi através do engajamento desses indivíduos que surgiu a Organização Operação Mobilização (OM), um ministério de evangelização, treinamento em discipulado, implantação de igrejas e serviços humanitários. No ano de 1963, duas mil pessoas se uniram aos programas de verão patrocinados pela OM na Europa. Ao mesmo tempo, dois grupos entraram no continente indiano e no mundo mulçumano, com o intuito de alcançar certos povos que nunca tinham ouvido falar do Evangelho. Com início modesto, a OM, conta hoje com mais de quatro mil membros trabalhando anualmente em mais de cem paises, levando ajuda humanitária e o Evangelho para milhões de pessoas. Aspectos referentes aos programas como formação, periodicidade e processo de recrutamento e treinamento serão abaixo desenvolvidos. PROPÓSITO, VALORES E DECLARAÇÃO DE FÉ A Operação Mobilização, organização de caráter interdominacional (instituição ou organismo não ligado a nenhuma linha específica de pensamento teológico), encontra-se presente em mais de cem países, motivando e equipando pessoas a compartilharem o amor de Deus a todas as nações. A OM visa ajudar a implantar e fortalecer igrejas, especialmente nas áreas do mundo onde ainda não foram criadas, através de serviços humanitários e sociais. Apesar de Verwer ser americano, a matriz da ONG situa-se em Londres na Inglaterra, onde o departamento de administração supervisiona todas as doações feitas para os diversos programas e equipes posicionadas em outros países e nos três navios. Há também uma “segunda matriz” localizada em Atlanta, nos EUA, cujo objetivo principal é supervisionar as ações e serviços dos programas do Global Challenge e Global Action. Em cada país que houver uma equipe trabalhando, existirá uma sede normalmente baseada em grandes capitais. As sedes têm como objetivo auxiliar os missionários, que podem ou não morar na mesma cidade, a organizar campanhas missionárias, programas de curta duração e a administrar os recursos financeiros. Cada um dos navios também conta com uma equipe de organizadores e administradores que desenvolve as atividades sociais e missiológicas, além de gerenciar os recursos financeiros. Segue abaixo a transcrição do documento em que se discutem os valores da OM (tradução nossa): - Conhecer e glorificar a Deus - Viver em submissão à Palavra de Deus - Constituir-se de “graça” e integridade - Servir sacrificialmente - Amar e valorizar o outro - Evangelizar o mundo - Refletir a diversidade do Corpo de Cristo - Interceder de forma geral (orar por pessoas ou grupos) - Fortalecer a Igreja Para a OM cada missionário voluntário deverá compartilhar da mesma fé em Cristo, viver uma vida honesta, obedecer a Palavra - a Bíblia, e glorificar a Deus. Os missionários deverão, também, orar pelas pessoas, familiares e países para que o processo de Evangelização seja visto com bons olhos pelas populações objeto de suas ações sociais. O alvo da organização é fortalecer a Igreja através de movimentos missionários veiculados através de ações sociais e humanitárias, sempre valorizando o indivíduo e sua herança cultural. Os valores da OM estão todos fundamentados em princípios bíblicos, porém algo mais complexo é certificar-se de que todos os missionários voluntários tenham realmente os valores acima, adotando-os em suas vidas e ações. Segue abaixo a transcrição da declaração de fé da OM (tradução nossa): - Acreditamos que as Escrituras, tanto do Antigo Testamento como do Novo Testamento são textos originais e totalmente inspirados pelo Espírito Santo, sem erro e é a autoridade final para a Igreja. - Cremos que exista um Deus, eternamente existente em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. - Cremos na divindade de Jesus. Acreditamos no seu nascimento virginal, em sua vida sem pecado, na autenticidade de seus milagres, em sua morte salvadora, em sua ressurreição e no fato dEle estar atuando como mediador no céu. - Cremos na personalidade e divindade do Espírito Santo. Acreditamos que Ele fornece vida, que santifica e fornece força e conforto aos cristãos. - Cremos que o homem foi originalmente criado sem pecado. E que, tentado por Satanás, caiu e trouxe condenação e separação eterna para toda raça humana. - Cremos que o homem é salvo por arrependimento e fé na morte sacrificial de Cristo, e que justificação é apenas concedida pela graça. - Cremos que a Igreja é o Corpo de Jesus Cristo, composto por todos os convertidos. O atual serviço da igreja é a adoração, o aperfeiçoamento dos santos e a evangelização das nações. - Cremos na volta do Senhor Jesus Cristo, em forma pessoal e física, para a consumação de nossa salvação e estabelecimento de seu reino. É de extrema importância a declaração de fé para uma organização missionária, pois é ela que norteia todas as ações humanitárias e sociais praticadas pelos missionários voluntários. Os itens acima expostos deverão estar presentes em cada ação praticada e em cada palavra dita pelo missionário. A declaração de fé possibilita que a OM “padronize” seus serviços, evitando assim conflitos denominacionais. Mesmo assim, não há garantias de que tais problemas não surgirão. Porém, a livre exposição da declaração de fé proporciona um maior controle das sedes sobre as equipes nos diversos países e nos navios. OPORTUNIDADES A OM trabalha em diversos países, entre eles: Angola, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, Cazaquistão, Uzbequistão, Chile, República Checa, Dinamarca, Equador, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Índia, Indonésia, Irlanda, Japão, República da Coréia, Cosovo, Macedônia, Malásia, Moçambique, Namíbia, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Papua Nova Guiné, Filipinas, Polônia, Rússia, Singapura, Slovakia, África do Sul, Espanha, Ceilão, Suécia, Taiwan, Turquia, Ucrânia, Estados Unidos, Yugoslávia e Zimbábue. Segue abaixo a descrição de oportunidades de serviço em alguns países escolhidos pela divisão sugerida pela OM, América do Norte, América Central, América do Sul, Norte e Oeste da Europa, Sul e Sudeste da Europa, Europa Central, Leste da Europa, Norte e Centro da Ásia, Sul da Ásia, Leste da Ásia, Sudeste da Ásia, Oriente Médio, Sul e Sudeste da África e a Oceania: Canadá O serviço no Canadá se diferencia do de outros países, como por exemplo Angola, pois seu foco principal é encorajar e motivar cristãos, com a parceria de igrejas e outras organizações cristãs a participarem com a OM em seus projetos de evangelização na mídia. Recrutam e treinam voluntários para os programas de curta duração, como o Global Challenge. Arrecadam doações de pessoas físicas e de empresas e enviam para as sedes da OM em outros países para que possam ser usadas na compra de materiais e alimentação para os missionários e para a população carente. Arrecadam doações de alimento, roupas, livros e remédios para determinados serviços da OM em outros países. Costa Rica A OM trabalha em conjunto com as igrejas locais em Costa Rica, oferecendo treinamento e envolvendo pessoas em projetos de curta duração ali e em toda a América Central. Os programas de curta duração incluem trabalhos como assistência médica aos nativos, auxílio para as áreas mais pobres da região, evangelização e cursos de esclarecimento para a população local, como por exemplo, sobre doenças sexualmente transmissíveis. Colombia A equipe da OM na Região Andina focou seus esforços em quatro diferentes áreas: a primeira foi a evangelização, que é um trabalho comunitário com as igrejas e instituições cristãs, com o intuito de compartilhar o Evangelho com crianças e com as populações mais atingidas pelos problemas políticos e sociais do país. A segunda área foi a distribuição e venda de livros para promover o hábito da leitura na comunidade local. A terceira foi a fundação de uma escola de Comunicações Transculturais e Missões para oferecer treinamento e workshops para a comunidade local e para as igrejas. A quarta área foi a distribuição de alimentos, roupas, brinquedos e remédios em prisões e orfanatos. Holanda As equipes na Holanda estão engajadas em dois centros para adolescentes em Delft e Emmeloord, com foco nos imigrantes da cidade de Amsterdã e com um programa de música para crianças e adolescentes. A OM na Holanda também oferece treinamento para missionários antes de enviá-los a outros países. Albânia Desde 1989, com a queda do comunismo, a OM tem atuado como instrumento na implantação de igrejas em todo o país, além de instruir e preparar albaneses para serem pastores e líderes de suas igrejas. A equipe da OM presta serviço não apenas providenciando orientação espiritual, mas também prestando auxílio aos pobres e aos doentes. A OM treina os voluntários estrangeiros e nacionais através de seu programa Action Team, que une estudo bíblico intensivo com atividades práticas, como construção de casas, distribuição de alimentos, roupas e trabalhos de recreação com crianças. A OM também oferece cursos de corte-costura para mulheres, atendimento na Clínica Médica Emmanuel (localizada na cidade de Durres), acampamentos de verão para adolescentes e auxílio humanitário à crianças de rua em Durres. A OM também colaborou com o desenvolvimento e construção de junções de água para vilarejos remotos que não tinham água potável. República Checa Os voluntários da OM trabalham com evangelização, implantação de igrejas, apresentações em restaurantes e clubes e com crianças e adolescentes. Também oferecem aulas de inglês para os Checos e organizam o Teen Street (um programa oferecido pela OM que será abordado mais abaixo). República de Moldava Desde 1982, dois anos após a queda do regime socialista, a OM passou a trabalhar em conjunto com as igrejas locais para incentivar seus membros a serem mais ativos na evangelização, discipulado e implantação de igrejas. Mesmo antes de iniciarem uma equipe em Moldava, a OM já levava literatura cristã ao país. Em Telenesti a OM dirige uma programação com crianças e, em Paicu a equipe ajuda na construção de igrejas, além de providenciar alimentos e vestuário para crianças e idosos. A OM também organiza eventos esportivos em várias cidades da Moldava. Rússia Os voluntários da OM trabalham com as igrejas locais em estudos bíblicos, seminários, evangelização, discipulado e na implantação de igrejas, em centros de reabilitação, em orfanatos, na publicação e distribuição de livros, com auxílio humanitário e com a distribuição de alimentos e roupas. Irã Devido aos diversos problemas étnicos e políticos, a equipe da OM situada no Irã precisa manter-se protegida, sendo assim esses dados são mantidos em sigilo. Sabese, porém, que trabalham em centros de reabilitação e de refugiados oferecendo-lhes orientação psicológica. Índia Os voluntários missionários da OM se engajam em projetos de auxílio humanitário e reabilitação para viciados em drogas, publicação e distribuição de livros, cursos referentes a doenças sexualmente transmissíveis, grupos de estudos bíblicos e com exibições de filmes em escolas, orfanatos e asilos. Hong Kong e Macau As equipes em Hong Kong e Macau trabalham lado a lado com as igrejas locais na evangelização e serviços sociais. As atividades incluem visitas, aulas de inglês e aconselhamentos. Muitos habitantes de Macau são viciados em cassinos, então um dos projetos da OM é trabalhar com as pessoas portadoras desse tipo de compulsão, ajudando-as a sair do vício do jogo. Malásia A OM associa-se às igrejas locais para organizar projetos de distribuição de livros, projetar filmes e dar cursos e treinamentos para a população local. As equipes da OM também organizam acampamentos para crianças e adolescentes e trabalham em conjunto com o Wycliffe Malaysia (tradutores da Bíblia) oferecendo cursos em escolas. Angola A OM iniciou seu trabalho no sul de Angola em 1995, logo após o término da guerra que surgiu com a independência do país. A equipe oferece aulas de inglês e de informática para adolescentes e crianças. Auxiliam na organização dos 1.5 milhões de refugiados, oferecem roupa e alimentos para órfãos e ajudam na reconstrução de ruas, estradas, casas, hospitais, escolas e igrejas. Papua Nova Guiné A equipe da OM oferece treinamento de um mês para novos missionários, abordando temas como religiões, cultura, alimentação, idioma e valores para os que se interessam em trabalhar em Papua Nova Guiné. Ministram cursos e seminários em acampamentos, universidades e igrejas. TREINAMENTO Os treinamentos para o ingresso do voluntário nos programas da OM que serão discutidos detalhadamente abaixo, variam dependendo do programa escolhido e do país em questão. No Brasil, por exemplo, os voluntários que optarem pelos programas Global Action, Global Service ou pelos navios, deverão, obrigatoriamente, fazer o Curso Missiológico Intensivo (CMI). Os custos do treinamento, incluindo hospedagem e alimentação, deverão ser pagos pelo próprio voluntário ou por doações de familiares, instituições e igrejas. As disciplinas oferecidas em cada treinamento são feitas por voluntários da OM que participam do Global Service. Esses voluntários não recebem remuneração pelas horas dedicadas ao ensino de novos voluntários missionários. O CMI tem duração de cinco meses em período integral, sendo três meses na Base (aulas teóricas) e dois meses no Pré-Campo (aulas práticas). O curso é oferecido semestralmente, e tem início apenas nos meses de fevereiro e agosto. O objetivo é oferecer lições práticas da vida no campo missionário e, também, oportunidades para se descobrir e desenvolver dons e talentos. Durante o período teórico os voluntários estudam métodos de evangelização, praticam atividades em grupo, desenvolvem e aprendem a manter um bom relacionamento em equipe. No período prático, além da experiência transcultural que envolve trabalho social e evangelístico, coloca-se em prática o que se aprendeu nas aulas teóricas, enfrentando as dificuldades reais da vida em grupo. Adotaremos o conceito de experiência e exposição transcultural conforme compreendido pela organização e os missionários envolvidos com os programas e ações sociais. Do ponto de vista da organização e missionários uma experiência transcultural seria a vivência com a cultura do outro, conhecendo a comida, o idioma, os rituais e hábitos da população local ou dos próprios membros da equipe, pois em grupos da OM pode-se encontrar voluntários de diversos países. A matriz curricular do CMI inclui aulas como teologia bíblica de missões, auto conhecimento, introdução à antropologia missionária, comunicação transcultural, vida em equipe e liderança, homilética (estudo de versículos), introdução à sociologia, evangelização e discipulado, gestão de projetos e noções de espanhol. Além do Curso Missiológico Intensivo, os voluntários que não têm o domínio do idioma inglês deverão passar, obrigatoriamente, por um curso de cinco meses em período integral que conta com cinco horas diárias de estudo (conversação, leitura e compreensão). A ênfase do curso é na conversação para que o voluntário possa entender e se fazer entender utilizando a língua inglesa através da repetição e leitura. Também são utilizados recursos complementares como assistir filmes em inglês (sem legendas) e participar das atividades na igreja. Outro país que também fornece treinamento para os voluntários que optaram pelos programas Global Action, Global Service e os navios, é a África do Sul. Os cursos também são oferecidos semestralmente, com início em fevereiro ou em julho e visam o preparo para o trabalho missionário. Nas primeiras seis semanas o programa aborda os temas de evangelização, ministério com crianças e adolescentes e treinamento em liderança, além dos estudos bíblicos. Uma das coisas mais importantes que os voluntários aprendem durante o curso é o convívio com pessoas de outras culturas e países. No restante do treinamento eles são enviados para locais diferentes para que tenham uma experiência prática. A matriz curricular inclui: aulas sobre a soberania de Deus, evangelização, ministérios criativos (aulas de teatro, dança, música etc), ministério para crianças, vida em equipe e liderança, aspectos culturais e crenças de outras religiões, perspectivas culturais, aulas práticas envolvendo trabalho social com moradores de rua, prostitutas, crianças de rua, de orfanatos e viciados em droga. Alguns países não fornecem treinamento para os voluntários. Eles passam uma semana em Amsterdã (Holanda) conhecendo em detalhe a organização e os trabalhos em andamento. Depois disso já são enviados para o local ou programa escolhido. Para os programas Global Challenge ou Teen Street, ou seja, os programas de curta duração, os voluntários obtêm uma semana de treinamento na sede emissora de determinadas regiões, por exemplo, para os países da África o treinamento é na Espanha, para a Rússia, Polônia, Finlândia e Romênia o treinamento é na Polônia. Nessa semana de treinamento abordam-se temas como evangelização criativo (teatro, dança, música), ministério de crianças e adolescentes, trabalho em equipe e uma introdução básica do idioma do país a ser visitado. Após o término do programa é feito um debriefing de três dias. Debriefing é o momento em que cada participante compartilha suas experiências positivas e as dificuldades encontradas durante a viagem. O objetivo dessa prática é auxiliar não somente o voluntário na volta para casa, mas a própria OM em como melhorar o programa tendo em vista minimizar problemas futuros. PROGRAMAS Trabalhando em todos os continentes e em todos os oceanos através de equipes e três navios, a Operação Mobilização visa demonstrar e proclamar o amor de Deus por meio de auxílio humanitário e social. Em todas as situações, as equipes da OM se adaptam à cultura local e às situações, buscando a melhor maneira de compartilhar o Evangelho. A preparação dos missionários para se conscientizarem desses aspectos em relação ao outro (ao que será evangelizado), é feita mediante treinamentos antes e durante o envolvimento com a OM. Os métodos de serviço são através de leitura, artes criativas, criação de vínculos, estudos bíblicos, vídeos e fitas cassetes, cursos por correspondência e trabalho de desenvolvimento humanitário. Quando possível a OM trabalha em parceria com a igreja local, encorajando e dando suporte aos membros. E, quando o local em que se encontram não tem nenhuma igreja, procuram implantá-las. A OM disponibiliza várias oportunidades e programas de participação de curta (duas semanas a seis meses) ou longa (dois a cinco anos) duração. O interessado deverá preencher um formulário de requisição de material e formulário de adesão (encontrados na Internet), onde ele receberá todas as informações pertinentes referentes ao custo, duração, local de participação, procedimento para aquisição de vistos (quando necessário) e diretrizes de como preencher o formulário de requisição, além de outras informações pertinentes. O voluntário pode escolher entre os seguintes programas: Teen Street, Global Challenge, Global Action, Global Service ou os navios. GLOBAL CHALLENGE O Global Challenge é um programa de curta duração, em que qualquer pessoa que compartilhe da mesma fé pode participar e deverá ter acima de 18 anos. É um programa que dura de seis dias a seis meses, em viagens internacionais. Os métodos de serviço variam entre oração, construção de casas e igrejas, música, esporte, arte, auxílio humanitário e amizade. As opções de países também variam entre os continentes da Ásia, Oriente Médio, África, América Latina e também são oferecidos nos três navios da OM. As oportunidades oferecidas neste programa não são remuneradas, e os participantes precisam arrecadar fundos financeiros para cobrir todos os seus custos que variam devido ao local optado e a duração. Esses fundos, normalmente, vêm através de doações feitas pela igreja local do voluntário ou por patrocinadores particulares. GLOBAL ACTION O Global Action é um programa de longa duração em que somente maiores de idade podem participar. É um programa que dura de seis meses a dois anos, em um local específico de serviço. As possibilidades variam entre implantação de igrejas no mundo árabe, ajuda ao desenvolvimento comunitário, auxílios humanitários na Ásia Central ou encorajamento dos cristãos na evangelização na Europa Central. Enfim, é possível escolher entre mais de duas mil oportunidades de serviço, em mais de oitenta países. Pode-se usar os talentos e conhecimentos profissionais, por exemplo, na área da computação, secretariado, mecânica, gastronomia ou medicina. Os empregos oferecidos neste programa não são remunerados. A maior parte dos membros precisa arrecadar fundos para cobrir suas despesas, que também variam de acordo com o local escolhido e a duração. TEEN STREET O Teen Street é um programa de curta ou longa duração que varia de uma semana a dois anos. Este programa é especialmente voltado para trabalhos recreativos e evangelização com adolescentes da Europa. Para o programa de curta duração, não se estipula uma idade mínima, mas para o de longa duração é necessário ser maior de idade. Novamente, as oportunidades ou empregos neste programa não são remunerados. O voluntário deverá arrecadar os fundos necessários para cobrir todos os custos. GLOBAL SERVICE O Global Service é um programa de longa duração que somente maiores de idade, e os que já tenham participado do Global Action por dois anos, podem participar. É um programa sem duração prevista e, normalmente, se estende por quatro ou cinco anos. As possibilidades de serviço e emprego são as mesmas citadas no Global Action. Os empregos oferecidos neste programa também não são remunerados e os fundos financeiros são doados pelas igrejas ou por patrocinadores particulares. OS NAVIOS A OM possui três navios, dois ativos e um em fase de reconstrução, o Logos II, o Doulos e o Logus Hope. Logos é uma palavra grega que significa “a palavra”. Ele foi comprado em 1989 por Educational Book Exhibits Ltd., uma organização privada sem fins lucrativos registrada no Reino Unido. Doulos é uma palavra grega que significa “servo ou escravo”. Ele foi comprado em 1977 por Gute Bücher für Alle e.V. (Good Books for All), também uma organização privada sem fins lucrativos, registrada na Alemanha. O Doulos foi recentemente reconhecido pelo Guiness Book of World Records como o mais velho navio passageiro ainda em funcionamento. O Logus Hope foi comprado em abril de 2004 da empresa Faroese com o intuitio de substituir o Logus II, pois dispõe de um espaço maior para atividades sociais e esportivas. O navio ainda não está engajado em todos os projetos missionários e sociais como o Logus II e o Doulos, porém dentro do próximo ano (2009) a reforma estará pronta e as equipes treinadas. Segundo dados fornecidos pela OM desde 1970, os navios da OM visitaram mais de 470 portos diferentes em mais de 140 nações ao redor do globo. Em média, mais de um milhão de visitantes são anualmente recebidos nos navios. Os navios da OM visitam os portos das cidades ao redor do mundo, distribuindo livros, vídeos e CDs, encorajando conhecimento transcultural, oferecendo treinamento profissionalizantes para jovens, providenciando ajuda humanitária e compartilhando o Evangelho, sempre que surge a oportunidade. Uma equipe internacional de voluntários, representando mais de cinqüenta nações, vive e trabalha nos navios da OM e normalmente ficam por dois anos. Alguns trabalham utilizando suas capacidades profissionais como engenheiros, carpinteiros, ferreiros, marinheiros, eletricistas, médicos, enfermeiras, cozinheiros etc. E há, também, aqueles que participam do programa de treinamento oferecido no navio. Cada participante do programa de treinamento combina uma semana de trabalho em um departamento específico (cozinha, limpeza, livraria etc), com elementos do programa, como devocionais, discipulado, oração e a aprendizagem de talentos específicos de ministério (dança, teatro, canto e instrumentos). Os voluntários recebem exposição transcultural devido à comunidade internacional do navio. As visitas aos portos também oferecem oportunidades únicas para conhecerem as necessidades de cada país e se unirem com a comunidade local para oferecer ajuda humanitária e compartilhar o Evangelho. Em cada porto é organizado o Evento da Noite Internacional, que é feito em terra firme e segundo dados coletados pela OM é assistido por mais de mil pessoas. O evento focaliza a natureza multinacional do navio através de fantasias, música, dança e teatro. Cada navio tem uma livraria aberta para visitantes. No total, de acordo com dados fornecidos pela OM, mais de 35 milhões de visitantes já passaram pelas livrarias para desfrutar de uma seleção com mais de 4 mil títulos disponíveis. Os assuntos dos livros variam entre ciência, esportes, hobbies, cozinha, arte, filosofia, medicina, literatura infantil além de livros cristãos. Os livros são cuidadosamente escolhidos para interessar um público maior nas comunidades visitadas. Eles são vendidos por um quarto do preço original, e, em alguns portos, são até doados. Os livros disponíveis no navio são fornecidos pelos autores ou editoras. Todas as arrecadações recebidas com a venda dos livros são usadas para comprar novos volumes e pagar as taxas alfandegárias. As ajudas humanitárias são focadas no auxílio médico, construção de projetos como orfanatos, asilos, clínicas, hospitais, escolas e igrejas, doações de literatura, doação de alimentos e roupas para escolas, faculdades, igrejas e hospitais. Cada navio é financiado, principalmente, por doações mensais de pessoas físicas e de doações esporádicas de outras organizações ou empresas. Cada voluntário do navio também deverá cobrir todos os custos com doações feitas por amigos, igreja ou financiadores particulares. A maior parte dos voluntários trabalha no navio por dois anos, mas existem oportunidades de serviço por um período menor ou maior. Os navios são mantidos continuamente dentro das normas e regulamentações de segurança da navegação internacional. Todos os serviços técnicos, das refeições dos voluntários ao custo do combustível também são arrecadados através de doadores ao redor do mundo. CAPÍTULO III - ASPECTOS DA PRÁTICA MISSIONÁRIA A Organização Operação Mobilização oferece auxílio humanitário e social através de equipes posicionadas em grandes capitais, os três navios e os missionários voluntários que participam de programas de curta ou longa duração. A OM inclui como um de seus objetivos a pregação do Evangelho, a fim de trazer esperança aos povos não alcançados. Observa-se que nesse envolvimento a pretensão da OM é de sensibilidade e consciência da relação histórica entre a proposta e o contexto, contribuindo, assim, para a abertura de novos horizontes na criação de vínculos entre missionários e sociedade. Busca-se, diariamente, recuperar os valores, os costumes e as tradições, com o intuito de atingir mais pessoas com o Evangelho. A OM oferece treinamento de uma semana para os voluntários dos programas Global Challenge. Em alguns países, o treinamento tem a duração de seis meses a um ano para os voluntários que participarem dos programas Global Action e Global Service. Os treinamentos abordam diversos temas como conhecimento de religiões, conhecimento básico do idioma local e inglês instrumental, aulas de teologia, e aulas práticas como dança, canto e música. Esse treinamento é necessário em todos os países, especialmente para os voluntários dos programas de longa duração, pois os prepara para se relacionarem com pessoas de diversas nacionalidades e culturas. O treinamento visa equipar os voluntários com ferramentas adequadas para o trabalho humanitário, social e evangelístico. A ausência de treinamento propicia um maior número de desistência, pois os voluntários se sentem inaptos e com dificuldade de adaptação a outras culturas. Conseqüentemente, ao se sentirem inadequados para trabalhar no local escolhido, os serviços oferecidos e até o próprio evangelização não alcançarão o objetivo inicialmente proposto pela equipe. Para que se obtenham melhores resultados nos serviços humanitários e sociais, a equipe precisa se adaptar o mais rápido possível ao local, aprender o idioma e os aspectos culturais. Para que isso seja possível, cada voluntário precisa ser treinado antes do início do programa. Ilustração 1: Apresentação em Treinamento Fonte: O Autor Ilustração 2: Grupo em Treinamento na Espanha Fonte: O Autor Como notamos no caso da Entrevistada 3 e seu esposo que trabalham no Marrocos, eles receberam uma orientação intensiva de duas semanas que cobria tópicos como: introdução à cultura marroquina, o que fazer e não fazer, introdução ao Islamismo e o contexto marroquino, feriados religiosos no Marrocos, orientações sobre como trabalhar e se relacionar com os membros da equipe, dicas de como manter a saúde, de como lidar com as finanças, os propósitos e a visão da organização e curso de árabe básico. Além das aulas, eles também passaram pela experiência de morar durante uma semana com uma família marroquina para compreender melhor seus hábitos e costumes. Essa vivência facilita, parcialmente, a adaptabilidade aos costumes marroquinos. O marido da Entrevistada 3 trabalha em uma escola de idiomas ministrando aulas de inglês. Ela trabalha na criação de vínculos através da amizade com senhoras de seu prédio e da vizinhança. Eles também recebem, em sua casa, famílias marroquinas para jantar ou para um estudo bíblico. Participam de alguns seminários e fazem pequenas tarefas durante o mês. Eles ajudam a organizar e a liderar equipes do programa do Global Challenge nos meses de julho e novembro. Possivelmente não se sentiriam confortáveis para se aproximarem dos marroquinos se não fosse pelo treinamento intensivo que receberam antes de iniciar seu trabalho com a OM. Ilustração 3: Grupo Instrumental Marroquino Fonte: O Autor Ilustração 4: Família Marroquina Fonte: O Autor Muitos voluntários da OM fazem cursos de Teologia antes de participarem dos programas oferecidos na OM e do curso de treinamento. Esse é o caso da Entrevistada 5, em seu relato: Primeiro de tudo fiz Teologia com a instituição Bethany Fellowship (Teologia e Serviço Social), 4 anos de curso. Depois, o C.T.M. - Curso de Treinamento Missionário Transcultural por 1 ano, cujo objetivo era nos expor à situações que, possivelmente, teríamos de lidar quando chegássemos ao campo de trabalho. Tivemos de liderar e ser liderados, e passávamos por avaliação periódica com os líderes concernentes ao nosso comportamento moral, emocional, espiritual e ético, nestas duas condições, como líder e liderado. No Logos II passei pelo treinamento chamado Pre-ship training que dá noções básicas de evangelização, usando recursos criativos e onde também foi bem focado pregar Jesus e não doutrinas denominacionais. Os valores para cada programa variam de acordo com o país de destino e com a sua duração. Todos os voluntários precisam arrecadar fundos suficientes para pagar todas as despesas referentes às passagens de avião e ônibus para os locais de treinamento e para os países escolhidos. Esses fundos geralmente provêm de doações feitas pela igreja como organização, ou por membros individuais da comunidade, amigos e familiares. Há casos raros em que os voluntários conseguem receber algum sustento através de serviços oferecidos durante o programa, como por exemplo, ministrar aulas de inglês em instituições de idiomas ou aulas particulares. O Entrevistado 1 comenta sobre os valores arrecadados para sua viagem: Primeiramente, eu não sabia nada a respeito de como levantar sustento. Comecei, então, conversando com meus amigos. Alguns deles também gostariam de ir para o navio, mas já que não podiam por causa do trabalho decidiram me ajudar no sustento. Conversei, também, com meu pastor que me autorizou a compartilhar minhas necessidades em um culto. Dessa forma, as pessoas da minha igreja ficaram sabendo o que eu ia fazer, e algumas se manifestaram dizendo que gostariam de me ajudar no sustento para a viagem missionária. No começo, “me dava frio na barriga” só de pensar nos custos. Foram, mais ou menos, R$3.500,00, o curso na OM por 4 meses. Logo depois, tive que pagar uma viagem para o Paraguai e voltar para o Brasil. Também precisei levantar sustento para uma conferência na Holanda e depois um vôo da Holanda para a África do Sul. Isso tudo, fora as mensalidades do navio, que foram de US$500,00 (quinhentos dólares) mensais, mais o seguro-saúde (tenho certeza de estar esquecendo vários outros valores que não estão claros em minha cabeça). Só sei que Deus levantou tudo o que eu precisava para a viagem! As tarefas e obrigações dos voluntários, tanto do navio como das equipes alocadas em terra, variam de acordo com a idade, conhecimento e experiência. Entre muitas outras obrigações estão entre as tarefas cotidianas a preparação das refeições dos voluntários e das pessoas carentes, ministração das aulas de inglês, trabalho na venda e distribuição de livros nos navios, controle do recebimento e estoque de alimentos, roupas e livros. Todos aprendem e têm a oportunidade de colocar em prática métodos de evangelização, como dança, teatro, pinturas e esportes. A Entrevistada 5 participou do programa Love Europe em 1994 que compreendia um percurso da Hungria, República Checa, Polônia, Romênia à Alemanha, por um período de três meses. No ano de 1997 participou do mesmo programa, que dessa vez compreendia um percurso entre Portugal, Espanha, Alemanha, Suíça, Holanda à Inglaterra, por um período de 6 meses. Ela trabalhou com evangelização, tradução, liderança e a equipe procurava suprir as necessidades dos moradores locais nas áreas de alimento, roupa e educação. Ela relata que sempre se dava ênfase às situações de saúde e educação. Também fazia, com o apoio de uma equipe, a pintura de igrejas, prédios, quartos de moradia, envernização de bancos de igrejas e pinturas de carrocerias de caminhão. Além disso, trabalhava com a manutenção e com outras áreas do navio (protegia os motores elétricos como a bomba de água, motores de corte de ferro, amplificadores sonoros usados por conjuntos musicais evangélicos). Nas praças, ruas e igrejas de cada porto, eu participava de peças teatrais e evangelização de porta em porta. Ilustração 5: Programação para Crianças na Rússia Fonte: O Autor Ilustração 6: Orfanato na Rússia Fonte: O Autor Ilustração 7: Acampamento para Adolescentes na Rússia Fonte: O Autor O Entrevistado 6 trabalhava com serviços de pintura, na distribuição de literatura, jogava futebol e basquete com adolescentes, atuava no evangelização, em peças teatrais, fazia seminários, visitas à igrejas locais e trabalhava na manutenção da sala de motores do navio. Como notamos com os relatos dos entrevistados, suas vidas eram sempre repletas de atividades que podiam ser, ou não, envolvidas com o evangelização. A vida no navio é cheia de compromissos. É preciso estar sempre “de olho” no relógio, atento para o próximo evento. Durante a semana temos de trabalhar 8 horas por dia, mas o tempo restante pode ser usado para evangelizar, ler ou descansar. Os trabalhos no navio são diversos: cozinha, limpeza, deck, casa de máquinas, como repórter, fotógrafo, agente de viagens etc... Uma vez por semana temos o dia chamado “Evangelism Day“, quando saímos do navio e vamos fazer serviços diversos com o mesmo objetivo: evangelizar. Isto inclui visitas a igrejas, orfanatos, centros de recuperação para drogados, hospitais, e até mesmo trabalhos braçais, como construir uma casa, escola, pintar paredes etc (Entrevistado 1). Ilustração 8: Doulos Fonte: Entrevistado 1 Os maiores problemas enfrentados pelos voluntários, em qualquer atividade da OM, são: dificuldade financeira (por não receberem pagamento pela participação, cada voluntário precisa levantar patrocínio suficiente); dificuldade na adaptabilidade à cultura local (seja pelo idioma ou por hábitos e costumes), difícil acesso aos locais de serviço (falta de estrada adequada, trajeto viável apenas por barco ou longas caminhadas, complicações geradas por enchentes ou nevascas); doenças causadas pela alimentação ou clima local; segurança (muitas vezes por prestarem serviço em países ou regiões mulçumanas ou com problemas políticos, os voluntários enfrentam perseguições, ataques e prisões) e a falta de contato com os familiares (em algumas regiões não existe acesso à internet nem telefone). O Entrevistado 6 relatou uma experiência delicada e perigosa que os voluntários do navio tiveram de enfrentar: A maior dificuldade que encontrei foi em Zamboanga, Filipinas. Estávamos em uma área mulçumana e algumas pessoas do navio fizeram alguns comentários desnecessários e maldosos referente ao profeta Maomé. Em conseqüência (não sabemos quem ou quantos) um grupo militar extremista jogou uma bomba no navio durante uma de nossas apresentações. Havia, aproximadamente, mil pessoas na platéia e, felizmente, ninguém de lá se machucou. Porém, por volta de 35 voluntários do navio ficaram gravemente machucados e duas moças morreram. Eu fui seriamente ferido, pois pedaços de metal e madeira perfuraram meu pé, costas e coxa direita. Não preciso nem comentar como essa experiência foi traumática, mas Deus me ensinou a importância do Corpo de Cristo e me preparou para seu serviço. A missionária voluntária Ângela Pierangeli participou por dois anos no navio e depois ficou mais dois na Espanha. Ela ajudava na organização e envio de equipes para a Espanha, Marrocos, Egito e Jordânia. Trabalhava em algumas escolas e orfanatos apresentando peças teatrais, contando estórias através de pinturas, participava de eventos esportivos e também trabalhava na criação de vínculos através da amizade. O sustento dela provinha de amigos, da família e de sua igreja. Ângela Pierangeli trabalhou no navio Logus I, em 1986, e conheceu diversos países e pessoas. Ela aprendeu a respeitar a diversidade cultural, a importância da solidariedade e ajuda humanitária. Uma de suas experiências mais marcantes, relatada em sua autobiografia, aconteceu ao final de seus dois anos, em janeiro de 1988 (2004, p. 27-31): Em janeiro de 1988, o navio Logos deixara o Chile em torno das 22:00 horas do dia 04/01 em direção a Argentina, que seria meu penúltimo porto antes de desembarcar no Brasil. Duas horas depois de iniciada a navegação, ainda no Canal de Beagle, em torno das 0:00 horas do dia 05/01, o navio chocava-se contra uma grande rocha. O impacto foi estrondoso, mas, imediatamente, fomos tranqüilizados com a notícia de que estávamos ancorados sobre a rocha e que, providências seriam tomadas para que o peso do navio fosse aliviado e, desta forma, quando a maré subisse, em torno das 4:00 da madrugada, pudéssemos ser tirados naturalmente, pelo mover das águas, daquele lugar. [...] Eu estava tão tranqüila que até mesmo voltaria à cabine para dormir um pouco mais e, teria que ser livrada da morte de forma muito especial. [...] Como mencionei, eu julgava firmemente, que toda aquela situação seria resolvida dentro de pouco tempo e, como estava com muito frio, resolvi voltar a minha cabine que se localizava no terceiro pavimento da navio, para aquecer-me um pouco. Adormeci, mas acordei cerca de 40 minutos depois, quando fui derrubada no chão. Tentei levantar-me e caí novamente. Ergui, entoa, os olhos e percebi que minha cabine estava submersa. Arrastei-me com dificuldade para fora dela. Ainda recordo-me de alcançar o primeiro lance de escadas que me levaria ao pavimento superior, ouvindo as portas das cabines onde eu, estava minutos antes, sendo fechadas. Depois, saberia que, naquele momento, as águas tinham entrado com tal força que arrastaram tudo que estava naquele pavimento para o mar. [...] As horas se passaram e toda carga do navio, incluindo as quatro toneladas de livros cristãos e didáticos e, toda água potável, já haviam sido lançadas em alto mar, não alterando em nada a posição do navio sobe aquela rocha. Todavia, sendo os ventos contrários, o navio era a cada hora jogado mais e mais sobre a rocha, aumentando significativamente, o atrito com esta. Desta forma, em torno das 5:00 horas da manhã, o casco, não suportando mais o atrito com a rocha rompeu-se e, imediatamente, fomos avisados de que teríamos que deixar o navio. Dois perigos iminentes se tornavam muito reais: a água entrando com velocidade poderia provocar um redemoinho, sugando o navio para o fundo do mar ou então, a água alcançando toda a parte elétrica poderia provocar explosões ferindo muitos dentro do navio. Ouvíamos a voz do comando dizendo que todos, rapidamente, deveríamos abandonar o navio. Finalmente, jamais me esquecerei das experiências imediatas que se sucederam na primeira semana após a perda total do navio. Fomos todos levados para uma base naval do Chile em Porto Willians. Em comum, todos tínhamos a roupa do corpo, o que significava para a maioria de nós, pijamas ou abrigos. Havíamos perdido tudo, exceto o passaporte guardado na caixa preta do navio, portanto, recuperado. Embora todos tenham sentido esta perda, principalmente os que já viviam a bordo há 10, 15, 20 e até 30 anos, como maior intensidade, para mim, perder tudo o que eu havia ganhado nestes dois anos e o que havia obtido anteriormente de forma repentina foi um processo muito doloroso. [...] Em minutos, tudo isto estava no fundo do mar, sem possibilidade de recuperação. O sentimento de um vazio enorme ocupava minha mente e coração. Ali estávamos orando que Deus enviasse, através da Cruz Vermelha, uma possível doação de roupa para podermos vestir. Nos primeiros dia, tivemos que compartilhar todas as coisas. Um pente de cabelo era usado por muitos, assim como o sabonete e até uma mesma escoava de dente para cada três pessoas. Felizmente, ninguém se feriu e não houve nenhuma morte no naufrágio do Logus I. Porém, muito material e lembranças em formas de fotografia e presentes se perderam. Após uma semana, muitos voluntários que estavam no Logus voltaram para suas casas. Outros continuaram na OM ajudando em diferentes programas, como foi o caso de Ângela, que foi transferida para a Espanha. Apesar das dificuldades e frustrações, a maior parte dos voluntários se sentem gratificados com seus serviços e ações sociais. Eles relatam que as experiências positivas tiveram muito mais valor e que sempre aprenderam coisas importantes através das dificuldades. Muitos ressaltaram o encontro com diversas culturas através da OM como algo extremamente enriquecedor e inesquecível, além dos gestos e agradecimentos trocados pela população local com os voluntários. Os voluntários expõem que sua visão sobre a importância da ajuda social e humanitária bem como do amor de Cristo aumentou e se intensificou através dos programas oferecidos pela OM, fossem eles de curta ou de longa duração. A Entrevistada 3 participou inicialmente do Global Action no Marrocos e agora trabalha no Global Service. Ela relatou algumas experiências positivas que teve durante sua participação no Global Action. Recebemos ajuda dos mais experientes em nossa equipe. As duas famílias, com quem tínhamos mais contato, nos contaram muitas curiosidades referentes a cultura e ao ministério oferecido pela OM para a população local. Outra experiência positiva foi a possibilidade de liderar equipes participando do Global Challenge no Marrocos. Adorávamos a oportunidade de mostrar o Marrocos para outras pessoas e de ver as respostas de nossas orações com a criação de vínculos com a comunidade, as oportunidades de compartilhar o Evangelho, de distribuir livros e de orar pelas pessoas. Adoramos a multi-culturalidade da OM, apesar disso significar que enfrentaremos mais desafios. Existem muitos aspectos da cultura marroquina pelos quais me apaixonei: a hospitalidade, a música, a comida, a beleza natural e arquitetônica, e até a correria de uma grande cidade. Ilustração 9: Trabalho com Mulheres Marroquinas Fonte: O Autor Ilustração 10: Família Marroquina Fonte: O Autor O Entrevistado 6 participou do programa oferecido no navio Doulos e comentou, em sua entrevista, sobre algumas experiências ocorridas durante sua estadia no navio: Uma das experiências mais positivas foi a de viver com irmãos e irmãs de diferentes culturas e denominações. Quando participei do Doulos havia aproximadamente 320 pessoas de 35 países diferentes. Eu dividia minha cabine com alemães, holandeses, canadenses, italianos, japoneses, burmeses e filipinos. Foi uma experiência enriquecedora! Ilustração 11: Noite Internacional Fonte: Entrevistado 1 O Entrevistado 1 participou do programa Global Action por dois anos no navio Doulos e deu o seguinte depoimento em sua entrevista: Com certeza, minha visão de mundo foi transformada e se ampliou completamente. Tive a oportunidade de ver tantas pessoas dirigindo carros luxuosos em Singapura, como a pobreza da África. Pessoas comendo até não agüentarem mais, em Taiwan (deixando muitas sobras para o lixo) e pude, também, ver pessoas desnutridas, sem feijão, no Cambodja. Eu pude ver a injustiça do mundo onde poucos têm muito, e muitos têm pouco. Um mundo onde todos querem passar férias na Suíça, Seishelles ou Disney, mas nunca gastaram uma nota sequer para ajudar pessoas na Etiópia. Eu pude ver que o mundo nunca vai ser o que eu gostaria que fosse com as pessoas amando-se mutuamente - embora todos peçam paz e amor. Eu descobri que todas as experiências que tive não poderão ser usadas 100%, embora eu tenha um imenso desejo de chacoalhar o mundo e mostrar a realidade dos nossos irmãos. Eu também sei que, mais cedo ou mais tarde, eu também estarei sentado em uma mesa do StarBucks tomando um café de 10 reais, enquanto do outro lado da rua um mendigo estará implorando por algumas moedas para comprar um cachorro quente para o jantar. Contudo, não colocarei um ponto final aqui, mas que seja feita a vontade de Deus na minha vida, pois Ele tem o meu futuro em suas mãos. Com Deus em nossos corações estaremos sempre dispostos a entregar o nosso café nas mãos dos menos favorecidos. Pelo que podemos compreender, essa relação entre missionário voluntário e população alvo de suas ações é estruturada por uma interação dinâmica fornecida pela circulação de doações, recebimentos e devoluções de bens entre os mesmos, ou seja, pela dádiva. Tal circulação não está subordinada à racionalidade utilitária de aumentar bens, tampouco à racionalidade política que seria aumentar o poder, ela está subordinada à criação dos vínculos sociais. Existem retornos nessas relações, dentre esses, uma nova postura adotada frente aos problemas cotidianos. Por outro lado, embora seja uma ação da qual não se espera algo em troca, não se pode afirmar que nada se espera. Se não se esperasse nenhuma retribuição, então o dom, simbolizando um desprezo por seus beneficiários, seria somente, segundo Caillé (2002), um dom-veneno, aquele que mata. Algo interessante dos navios da OM é a utilização de voluntários locais pelo período de duas a três semanas ou enquanto durar a visita em cada porto. Voluntários locais são muito importantes para a programação desenvolvida nos navios. Como relatado em entrevistas, em praticamente todos os departamentos a bordo como cozinha, serviços de limpeza, deck há sempre falta de trabalhadores, então a ajuda de voluntários locais é de extrema importância. Por envolverem a comunidade local, os papéis de doadores e recebedores se trocam constantemente, pois se por um lado os missionários voluntários visitam os países para oferecer ajuda humanitária e espiritual, por outro recebem ajuda da população local. Não podemos negar o fato de que muitos enxergam os missionários como invasivos, ou acreditam que as ações desenvolvidas pela OM sejam apenas para dominá-los. Porém, os relatos dos entrevistados demonstram que a população local e carente, os aceitavam e não se sentiam inseguros ou constrangidos pela presença deles na cidade. Segundo a Entrevistada 3, as pessoas são curiosas e querem saber mais no que se refere ao Evangelho, levantando questionamentos sobre a vida cristã e seus mandamentos. Muitos nunca viram ou conheceram um cristão antes da vinda dos missionários da OM ou de qualquer instituição missionária, portanto querem conversar, expor suas opiniões, trocar idéias com os missionários sobre Jesus e o cristianismo. A Entrevistada 3 também expõe que a troca de idéias sobre fé e o Evangelho é uma coisa, porém penetrar as barreiras culturais, políticas e religiosas de cada local é outra. Ela diz que há muitos obstáculos e preconceitos de ambas as partes quanto a fé e a religião, e que é difícil colocar de lado essas pré-noções, sendo necessários para isso treinamento e tempo. No entanto, a população local sempre quer conhecer mais sobre a Bíblia e sobre Jesus. Ela comenta que as pessoas com quem mantém contato não se sentem inseguras com sua presença e acredita que é possível que tenha havido ocasiões em que alguém tenha se sentido dominado e constrangido pelos serviços oferecidos pela OM, possivelmente os fundamentalistas, que preferem não se misturar e costumam se manter à distância. A receptividade e reação das pessoas ao escutar o evangelho varia muito de país e cultura. De acordo com o Entrevistado 1 nunca será demais recomendar que os missionários voluntários tenham bastante cautela e procurem agir de forma a não afetar negativamente as pessoas carentes. Eles devem se preocupar em mostrar o que Deus fez em suas vidas e oferecer-lhes a opção de aceitarem a mesma mudança. Apenas a Entrevistada 5 expôs algumas situações em que a população-alvo de suas ações foram agressivas e contrárias ao Evangelho: No Leste Europeu, principalmente na Romênia, tivemos alguns problemas e dificuldades. As crianças estavam sempre abertas, pois queriam algo novo. No entanto, os adultos, por terem suas convicções, não nos aceitavam muito bem. As pessoas arrancavam os cartazes que pendurávamos nas ruas e rasgavam as Bíblias que distribuíamos. Na República Checa uma mulher correu atrás de mim para me atacar, felizmente consegui escapar e me escondi dentro de um chafariz. Um voluntário missionário da OM que estava comigo tentou acalmar a mulher, mas ela o xingou e o agrediu. Tristemente ela relata que também sentiu rejeição por parte da própria comunidade evangélica de muitas das cidades visitadas. Como os cristãos não conheciam suas intenções e motivações, tinham medo de abrir suas portas para o trabalho da OM. Eles não avisavam os horários de culto nem os trajes apropriados para os eventos nas igrejas para impedir que os missionários voluntários da OM organizassem eventos e seminários. De acordo com as entrevistas, a população local aceitava muito bem qualquer tipo de ajuda, fosse em dinheiro, alimentos, roupas, ou doações de livros, materiais ou doação do tempo do missionário para se dedicar a pinturas, manutenções e construções de casas e escolas. A Entrevistada 3 relatou uma dificuldade encontrada durante a distribuição de alimentos, roupas e material, que obrigou os missionários da OM a adotar um sistema rigoroso na distribuição: As pessoas ficavam alegres, porém se não tivéssemos uma estratégia ao entregar os alimentos, livros e roupas, causávamos brigas e conflitos entre as pessoas. Eles arrancam até os bancos dos carros se fosse preciso para pegar alguma coisa. Muitos nos empurravam, entravam nos carros, agarravam o máximo de coisas que conseguiam e saíam correndo. Todos os países foram assim. Quanto mais necessidade tinham, mais agressivos eram. É uma mistura de alegria, porém de luta, podendo causar inimizades entre as pessoas. As vezes fizemos até sorteios para diminuir a confusão, mas as pessoas nos pediam para manipular o resultado. A população carente, alvo das ações missionárias, demonstra sua gratidão de diferentes maneiras. Muitos convidam os missionários para almoçar ou jantar em suas casas, outros oferecem de seu tempo para auxiliar o missionário em seu trabalho, outros ainda se oferecem para levá-los a um tour pela cidade para mostrar as curiosidades locais. Algumas pessoas até colocam os nomes dos navios em seus filhos como símbolo de gratidão pela ajuda recebida durante a visita dos missionários a seus países. A pesquisadora deste trabalho participou apenas dos programas oferecidos no Global Challenge que contava com treinamento de cinco dias para cada um das viagens. Para o trabalho na Rússia o treinamento deu-se na Polônia e para o Marrocos, na Espanha. O treinamento incluía tópicos como hábitos e costumes dos países, conhecimento das religiões locais, procedimentos adequados em cada país, como cuidar da saúde, aprendizagem de canções evangélicas em russo e árabe e treinamento de peças teatrais, danças e músicas com a equipe. Recebeu-se “debriefing” (acompanhamento após o término do trabalho) apenas na viagem para o Marrocos. Houve um momento onde todos compartilharam experiências interessantes e dificuldades encontradas durante a viagem. Recebeu-se também um treinamento de como se comportar na volta à vida normal, como responder perguntas e manter os nomes e cidades em sigilo para que a organização e os missionários permanecessem seguros, principalmente os voluntários alocados em países mulçumanos ou com regime socialista. A pesquisadora e a equipe com a qual viajou doaram tempo e conhecimento para ajudar a suprir diversas necessidades, além de compartilhar o Evangelho em cada uma dessas ocasiões. A população carente, em troca, ofereceu, em agradecimento, o que tinha de melhor. Abriam suas casas, nos ofereciam almoços ou jantares, e caminhavam longas distâncias somente para ouvir e ver os voluntários. Na Rússia organizava-se diversos eventos esportivos em orfanatos e escolas, jogava-se futebol, basquete e vôlei, além de contarmos estórias através de pinturas. Eram apresentados eventos também em asilos e em prisões juvenis, envolvendo peças teatrais e música. Equipes trabalhavam na construção e na pintura de casas. Roupas e alimentos eram distribuídos em bairros e cidades mais carentes, bem como na distribuição de sopa para as crianças de rua. No Marrocos investíamos mais no cultivo de laços através de conversas, visitávamos famílias, jogávamos futebol de praia com adolescentes e organizávamos atividades de recreação com crianças. Ilustração 12: Futebol de Praia no Marrocos Fonte: O Autor Para que a pesquisadora pudesse participar da viagem para a Rússia foram arrecadados aproximadamente US$4000 (quatro mil dólares). Parte do dinheiro foi doada por amigos e conhecidos de sua igreja e escola, como resposta a uma carta explicativa de seus objetivos e de suas necessidades financeiras. Outra parte foi levantada através de trabalhos temporários, como o serviço de babá, venda de flores em feriados específicos e em faxina de algumas residências. Metade do valor foi coberta por uma instituição que visa ajudar projetos missionários. Foi enviada uma carta apresentando os trabalhos que seriam feitos durante a viagem, as cidades que seriam visitadas e os custos totais da viagem (incluindo alimentação, vistos, passagens aéreas etc) bem como um formulário de solicitação de ajuda financeira. Após um processo de seleção a pesquisadora foi escolhida como um dos missionários daquele ano para serem sustentados financeiramente. Uma semana antes da viagem a pesquisadora já havia arrecadado US$4500 (quatro mil e quinhentos dólares). Ao receber sustento financeiro o voluntário sente a necessidade e a responsabilidade de manter suas ações e serviços transparentes para que o patrocinador não se sinta enganado e, conseqüentemente, desista de sustentá-lo. Deve-se, portanto, manter contato constante com os patrocinadores através de cartas, e-mails ou telefonemas. Faz-se mister o envio de fotos e testemunhos pessoais para que os patrocinadores vejam e compartilhem de cada experiência, vivenciando assim, um pouco da cultura dos lugares visitados. Ao término de cada programa o voluntário também deve enviar uma carta-relatório a todos os patrocinadores abordando os objetivos alcançados e o que se aprendeu através das dificuldades e desafios emfrentados. Além disso, sempre que possível recomenda-se visitar os patrocinadores. Em julho e agosto de 2000 a pesquisadora deste trabalho, teve o privilégio de, como voluntária, participar de um dos projetos do Global Challenge, chamado Trans Siberian Railway. Éramos uma equipe de sete e por um mês viajamos a Rússia de ponta a ponta. Trabalhamos com crianças de rua, orfanatos, asilos, prisões juvenis, vilarejos precários e igrejas. Oferecíamos à crianças e idosos programas educativos e atrativos, alimentos e roupa aos pobres e moradores de rua, bem como auxílio na construção de casas e igrejas. A situação da Sibéria nos mobilizou à solidariedade. Por motivos de segurança os nomes das pessoas envolvidas e da cidade em questão serão mantidos em sigilo, pois a Rússia ainda é um país fechado para trabalhos missionários. Adotaremos para a cidade o nome fictício de XY. A cidade de XY é extremamente precária e muito pequena. Os habitantes vivem em situações de extrema escassez. Não há fornecimento de luz elétrica e nem de água potável, o que obriga os habitantes a utilizarem velas durante a noite e a dependerem de bebidas alcoólicas para diminuir a sensibilidade ao frio e à fome. O meio de sobrevivência é obtido através das pequenas plantações de batata, arroz e vegetais que são cultivos que suportam as intempéries do inverno. As casas são feitas de concreto e muitas não têm janelas para evitar a entrada do frio, pois a temperatura durante o inverno oscila entre -15°C e -30°C. Não existe atendimento médico e para se obter socorro é necessário deslocar-se até a cidade mais próxima que fica, aproximadamente, a duas horas de XY. Apesar dessa dura realidade, o povo é alegre e nutre esperança por um futuro mais próspero. Os habitantes mais idosos de XY eram mais resistentes em receber nossa ajuda, pois acostumados ao regime comunista, se opunham aos estrangeiros e à modernidade. Já os mais jovens nos receberam de braços abertos. A experiência mais impressionante, para todos da equipe, foi uma visita que fizemos a uma senhora de, aproximadamente, 70 anos de idade. Ela estava muito doente há mais de seis anos e, há quatro, perdera os movimentos da cintura para baixo. Ela morava com a filha e com o genro, pois não conseguia cuidar de si mesma. Por outro lado, a filha também não tinha condições financeiras para cuidar de sua mãe. Ela havia construído um pequeno quarto no fundo da casa para abrigá-la. Esse quarto não tinha mais de 10m², o suficiente para caber uma cama e uma cadeira, sobrando pouco espaço além disso. Não havia janelas, nem ventilação e, muito menos, iluminação. Essa senhora, há mais de quatro anos, passava dia e noite deitada na cama sem ver ninguém, a não ser a filha. Ela comia, dormia e fazia suas necessidades fisiológicas na cama. Por falta de tempo, dinheiro, materiais básicos, ajuda de terceiros e por desconhecimento de higiene básica em cuidados com enfermos idosos, a filha não dava banho na mãe há mais de cinco anos e só trocava os lençóis uma vez ao mês. Aquela senhora ficava naquele quarto, naquele estado, separada do mundo. Quando a porta daquele quarto foi aberta, uma mistura de odores acres e putrefatos inundou o ar, causando náusea à maior parte do grupo. Ao entrarmos, nos deparamos com a situação degradante em que aquela senhora se encontrava. Nossa missão era levar um pouco de alegria no meio de tanta tristeza, mas a dúvida de todos, naquele momento, era como fazê-lo! Quando entramos no quarto a filha ajudou a senhora a se sentar na cama, e quando ela se deparou com nossa presença começou a chorar copiosamente, pois nunca recebia visitas. Apresentamo-nos, conversamos um pouco com ela sobre os países de onde vínhamos e o que estávamos fazendo na Rússia. Também cantamos algumas músicas e ao final todos nós a abraçamos. Não ficamos mais de quarenta minutos ali, mas durante aquele tempo, ela não parou de chorar. Para nós, receber visitas ou ouvir música pode ser apenas um ato rotineiro. Mas para aquela senhora foi algo muito especial, pois a fez sentir-se amada. Levamos um pouco de alegria e esperança em um simples ato de dádiva. Não mudamos o mundo, mas fizemos diferença na vida de uma senhora afetada pelas injustiças da vida, em um vilarejo no meio da Sibéria. Já no Marrocos, os trabalhos que oferecemos foi mais de apoio, pois algumas mulheres e crianças sofrem abusos emocionais e físicos, com difícil acesso a tratamentos de terapia. Os dois relatos a seguir foram especialmente marcantes. O primeiro deu-se quando a pesquisadora e outra missionária achavam-se perdidas em uma cidade no Marrocos e decidiram perguntar por direções a uma senhora que estava no ponto de ônibus. Surpreendentemente, ela não somente deu a direção correta para o hotel, como também as convidou para tomar um lanche em sua casa que ficava ali perto. Esta pesquisadora e sua amiga a acompanharam. Ela lhes ofereceu um verdadeiro banquete com grande variedade de geléias, pães, biscoitos, bolos, suco, café e chá (vide foto 10). Este foi um nítido exemplo de como nas ações missionárias os papéis de doador e recebedor se trocam constantemente. Ela não nos conhecia e nem sabia porque estávamos no Marrocos, mas abriu sua casa e nos ofereceu o que tinha de melhor. Aos poucos o marido e o pai se juntaram ao banquete e ficamos por aproximadamente três horas conversando sobre uma variedade de assuntos. Por fim o marido nos acompanhou até o hotel para que não nos perdêssemos. Notamos com esse relato que eles não nos viram como uma ameaça, mas como pessoas, como rostos. E se sentiram honrados em receber duas extrangeiras em sua casa. O segundo acontecimento foi em outra cidade do Marrocos em que a pesquisadora decidiu ir até o terraço do hotel para obter uma visão panorâmica da cidade. Ao chegar, notou uma senhora sentada sozinha em um sofá e decidiu conversar com ela. A comunicação não foi fácil, pois a senhora só falava árabe e a pesquisadora em inglês e espanhol. Porém notou-se que a senhora esforçava-se para se fazer compreendida e para compreender o que a pesquisadora tentava falar. Percebeu-se, também, o interesse e a alegria da senhora em conversar com uma estrangeira e poder explicar um pouco de sua cidade. Ambas conversaram por volta de uma hora sobre diversos temas. Dois dias após a conversa a pesquisadora descobriu que a senhora era a faxineira do hotel. Por costumes árabes, os faxineiros não deveriam conversar com os hóspedes e estes normalmente, não se misturavam aos empregados. Aquela situação acabou desafiando os costumes e os hábitos culturais em prol do vínculo. Podemos nos perguntar se as ações missionárias praticadas pelos voluntários da OM não são apenas atos de assistencialismo que insinuam uma relação em parâmetros de retribuição de favores, ou seja, os assistidos se vinculam ao titular das ações de caráter assistencialista. Amar o próximo como a si mesmo e fazer pelos outros o que se gostaria que fizessem por si é a expressão mais completa da missiologia, porque resume todos os deveres do homem para com o próximo, ou seja, uma solidariedade natural. Do ponto de vista do cristianismo todo cristão é chamado para ajudar o próximo, seja com doações de alimentos ou com um simples ombro amigo, para que se tenha esperança de um mundo melhor. Algo interessante nos serviços da OM, diferentemente de algumas organizações, é a formação de um grupo de apoio nas cidades em que são realizadas as campanhas, ou próximas a elas, para que se possa ter um suporte diário às populações alcançadas. Esses grupos de apoio são formados por voluntários da OM, ou por voluntários locais, e visam continuar o trabalho iniciado por equipes de outros programas oferecidos. Eles mantêm contato com as pessoas alcançadas, convidando-as para almoços ou jantares. Oferecem cursos de inglês, costura, informática entre outros. Têm com objetivo primordial continuar estabelecendo o vínculo com a população local para que o trabalho social e evangélico possa se solidificar. Com os programas do Global Challenge as campanhas e ações são realizadas com mais intensidade em um curto período de tempo, assim qualquer contato é passado para esse grupo de apoio. Juntamente com os programas do Global Action e Service um trabalho estável e duradouro é assim desenvolvido. Nota-se, sem dúvida, que muitas vezes as ações no campo missionário são vistas como meio de dominação, do superior ao inferior. Porém como podemos ver na declaração de fé da organização Operação Mobilização e em alguns relatos de missionários da OM (vide anexo I) busca-se ser humilde e manter uma postura de servo para que não se crie a idéia de um imperialismo missionário. As ações missionárias da OM buscam realizar trabalhos individuais, criando assim um sentido de comunidade, de fraternidade e de contentamento, em vez de cumprir meros programas e agendas institucionais. Na realidade, os valores religiosos sempre estimularam o desenvolvimento do setor voluntário, apontando a obrigação e a responsabilidade de cada um para com o próximo. Porém, além do enfoque religioso diretamente relacionado com a motivação de cada voluntário, podemos também citar a existência de outras motivações formadas através das práticas missionárias - a satisfação pessoal obtida através da solidariedade oferecida ao público-alvo, e o aprendizado proveniente das experiências vivenciadas. Percebe-se que muitas vezes ao oferecer carinho, atenção, alimentos, roupas, ou mesmo ao ajudar na construção de uma casa, os voluntários foram presenteados com muito mais do que poderiam esperar. Nessas horas, um simples sorriso ou abraço vale mais do que qualquer quantia em dinheiro. Seguindo essa idéia sobre a ação social, baseando-nos nos relatos das entrevistas, podemos dizer que a ação voluntária é tecida por uma multiplicidade de fios motivadores. Posto que, ao mesmo tempo em que é movida por elementos espontâneos e pelo desinteresse, ela não exclui a racionalidade, a utilidade, tampouco, o interesse. Por um lado, sentimentos como "fraternidade", "amor ao próximo", "solidariedade", "espontaneidade" e "necessidade de ajudar", são colocados como alavancas que mobilizam as pessoas a ingressarem numa atividade voluntária. Por outro, a efetivação desses impulsos solidários em ações práticas ocorre em função dessa ação ser vista como um meio possível de proporcionar o alcance dos objetivos de quem a executa. Nessa linha de raciocínio, a ação se realiza de modo interessado e desinteressado, ou seja, é interessada porque o voluntário tem interesse que a população carente receba ajuda, tanto material como emocional e espiritual, como também almeja através dessa ação "dar um novo sentido à vida". Como observa Caillé (2002), a pessoa que dá não é capaz de satisfazer seu interesse próprio a não ser satisfazendo também o interesse do outro, isto é, a satisfação do interesse próprio dáse pelo desvio da satisfação do interesse do outro, pelo desinteresse de si. Os bens doados, aceitos e retribuídos não são trocados em função de sua utilidade, tampouco pela sua equivalência monetária, mas por significarem simbolicamente o desejo de construir uma relação. Outrossim, na dádiva, a relação conta mais que o bem doado, posto que essa circulação está a serviço dos vínculos sociais. Assim, a dádiva constituiria o meio encontrado de ultrapassar a fragmentação das relações sociais e de unir toda a sociedade em torno do outro, necessitado de atenção. O impacto das atividades missionárias é atualmente discutido por muitos, pois suas ações geram mudanças culturais, políticas e religiosas. Os missionários providenciam auxílio crucial, como educação e assistência médica, cursos para mulheres sobre higiene e primeiros socorros, algo que em muitos países não é comum. Nota-se, com apoio nos relatos, que essas mudanças e auxílio são bem-vindas, com exceção dos grupos extremistas. Percebe-se que os missionários doam pelo simples fato de quererem levar esperança às populações carentes, doam com modéstia, doam pelo prazer de ver um sorriso estampado no rosto da pessoa que recebeu ajuda e amparo, e não por interesse de retribuição. CONSIDERAÇÕES FINAIS Notou-se que a conceituação do Terceiro Setor a qual reúne os pontos comuns das mais diversas organizações que o compõem, é essencial para determinar os limites entre o Terceiro Setor, o Mercado e o Estado. Essa delimitação permite compreender que os três setores se permeiam sem uma lógica específica. Acredita-se que, neste contexto, o comportamento do Terceiro Setor deverá influenciar as esferas política e econômica. Foi possível compreender que um dos problemas do Terceiro Setor é a falta de consciência de sua própria condição: as entidades que o integram ainda não se aperceberam como um conjunto concreto e coeso. A obtenção dessa consciência, e a construção de uma identidade do setor são fundamentais para que suas ações políticas tenham força e notoriedade, permitindo que se consolidem ainda mais. Outro problema, igualmente crítico, é a falta de financiamento. Por serem entidades sem fins lucrativos e não governamentais a arrecadação de fundos é complexa e, por esse motivo, avaliações de desempenho e monitoramento são essenciais para se manter transparência e clareza em todas as ações adotadas pela entidade. Além disso, a definição do papel desse setor permite compreender as transformações às quais as sociedades estão sujeitas. Ressaltamos a importância do Terceiro Setor como veículo de melhoria nos papéis sociais tradicionais, afirmando que seu conceito é um espaço participativo e experimental de novos modos de pensar e agir sobre a realidade societária. Surge assim, uma dinâmica social mais fortalecida, com o aumento do número de iniciativas privadas com sentido público. As instituições do Terceiro Setor precisarão redefinir o seu papel em uma sociedade onde os partidos e sindicatos começam a ter maior peso. Essas organizações não poderão ser apenas sinônimas da sociedade civil, mas sim de um conjunto de interesses e agendas, explorando novos diálogos e uma nova participação cidadã. É necessário colocar no centro do cenário das instituições do Terceiro Setor o social, as pessoas. Deve-se estruturar cada vez mais nas necessidades humanas. Um dos objetivos principais dessas organizações deveria ser o de satisfazer as carências de bens e serviços da maioria da população e não de uma minoria, além de inserir as pessoas no centro das preocupações políticas. Compreendeu-se que criar condições adequadas para o Terceiro Setor significa fornecer recursos e condições para que as organizações possam se estabilizar, crescer e atingir os objetivos propostos. Implica, também, reconhecer as etapas das organizações e providenciar auxílio nos diferentes estágios. A preocupação com o bem estar social, o desejo de proporcionar melhora à atual realidade, ou até mesmo a necessidade de empresas “socialmente responsáveis”, fizeram com que existisse o atual número de organizações do Terceiro Setor. Porém, é necessário que a ética esteja presente em todo esse processo, para que o resultado proposto seja atingido. A qualidade ética do Terceiro Setor é de extrema importância para que suas organizações se desenvolvam. Tendo em vista que o seu produto é fruto direto de voluntariado, é necessário que este seja feito de maneira responsável e consciente. Deve-se despender a devida atenção às suas atividades e verificar se estas estão incluídas nas definições recomendáveis para o setor em questão. Ainda que pareça contraditório, a "profissionalização" do voluntariado está em curso no Terceiro Setor. Isto implica em desenvolver a capacidade de recrutar e preparar pessoas a atuar como voluntárias, definir eficientes planos de trabalho e acompanhar a sua atuação para que as funções sejam efetivamente realizadas, sem deixar brechas para o amadorismo. E isso implica em dizer que a pessoa deve ter o espírito voluntário, isto é, estar disposta a ser voluntária além dos muros da entidade. O debruçar sobre o fenômeno do voluntariado revelou as motivações dessa ação entre o voluntário missionário e o recebedor, verificando que a dádiva configura-se como elemento formativo dos elos de ambos os lados. Esta atitude de gratuidade pode parecer estranha para aqueles que apenas conseguem perceber a ação social segundo a lógica utilitarista, acreditando haver sempre vantagem individual nestas ações, sejam bens materiais, ou formas de reconhecimento social. Contudo, mesmo que haja reconhecimento na ação voluntária, este é implícito e não consciente, de maneira que não se configura como um dispositivo relevante para a adesão do voluntariado. A ação voluntária não diz respeito somente à doação, mas também à retribuição. Além da satisfação pessoal por estar ajudando a alguém, notamos conforme algumas entrevistas, uma transformação nos voluntários. Eles passam a ampliar os horizontes, deixando de se voltar apenas para si mesmos e estendendo para outras pessoas sentimentos como a solidariedade e a fraternidade. Dessa forma, percebeu-se que a solidariedade acaba aproximando estes estranhos "doadores e recebedores", sendo esta relação fundamentada pelo dom de si, ou seja, por um ato que se inicia com o envolvimento da própria pessoa, do seu tempo e das habilidades para ajudar a alguém, posto que não é apenas doar algo, mas doar o melhor de si e sem humilhar o receptor. Portanto, para assegurar o vínculo entre os agentes no circuito da dádiva, os bens que circulam significam muito mais do que aparentam. Nessa relação entre voluntário e populações carentes, os bens doados e retribuídos são bens que, embora aparentemente não custem nada, não deixam de ser menos preciosos e são sempre carregados de mais valor simbólico quando devolvidos. De modo que nessa relação, tanto o voluntário quanto as populações carentes afirmaram que receberam mais do que deram, ou seja, cada um se sentiu em dívida para com o outro, em vez de considerar o outro em dívida consigo. Desse modo, existe uma troca entre eles que não segue a lógica do mercado, já que nessa relação de reciprocidade a ênfase situa-se no ato de dar e devolver o favor recebido. Reconheceu-se a existência dessas ações sociais, bem como o papel que elas desenvolveram nos momentos de crise. Compreendeu-se, também, a capacidade da sociedade em resistir aos impactos externos – miséria, desemprego, doença - e as emoções como insegurança, medo, culpa, entre outros. Podemos dizer que a ação voluntária é tecida por uma multiplicidade de fios motivadores impedindo, assim, uma compreensão unilateral. Não se trata de uma ação feita sem propósito, pelo contrário, os voluntários agem movidos pelos ideários de participação cidadã no sentido de melhorarem as condições humanitárias no mundo. Assim, sentem a necessidade de fazer um trabalho que dê resultados, de modo que o êxito de suas ações faça com que os mesmos se dediquem ainda mais ao outro. Na ação social embora haja o interesse, também encontramos a espontaneidade, a solidariedade e a amizade. Portanto, o resultado é relevante para a continuidade da ação, o que não significa ser ele o único fator, pois o vínculo criado entre o voluntário e as populações carentes acaba sendo um estimulador singular, com os laços de amizade assumindo, também, um importante papel. Por conta disso, tal ação se revela como forma de estender e multiplicar os vínculos sociais..Exercer um trabalho voluntário, então, implica ter vontade de ajudar e sentir prazer nisso. Não se trata de pessoas “santas”, mas de indivíduos normais que ao buscarem as populações carentes, encontraram sentido para suas vidas e oportunidade de fazer algo por si e pelo outro. Nesse contexto, o voluntário passa a ser visto como alguém que "estende a mão" e compartilha seus conhecimentos e sentimentos chegando até a sofrida realidade do outro. A representação do que seja voluntário está intrinsecamente atrelada aos bens simbólicos que circulam essa relação. O voluntário dá carinho, atenção e apoio. Neste sentido, as ações sociais que iniciam o vínculo dão significado à esse intercâmbio. O fato de ter recebido essas doações acaba provocando nos recebedores o desejo de retribuição em forma de gestos, palavras de afeto e esperança. Trata-se, na realidade, de uma dívida mútua, pois o voluntário ao dar apoio compartilha não apenas a dor do outro, mas lições de vida inalienáveis que o fazem sentir-se agradecido. Desta forma, a posição de doador e recebedor varia, fazendo com que a relação ocorra de modo horizontal e muito próxima. Isso não implica afirmar que as populações carentes apenas recebam dos voluntários, mas sim que são capazes de retribuir através de doações, tornando-se agentes participativos nesse circulo de dádiva. Na sociedade materialista em que vivemos somos, diariamente, atingidos por comportamentos egoístas e individualistas. A tendência do ser humano é pensar muito em si e esquecer-se dos outros. Por sermos dotados de racionalidade é nosso dever parar, avaliar e refletir sobre as condições em que vive a humanidade, principalmente os mais próximos de nossa sociedade. Para a ONG Operação Mobilização e os missionários voluntários, o mundo poderia ser melhor se o outro fosse objeto de nossa preocupação e se o espírito de solidariedade fosse o elemento predominante em nosso convívio social. Existe uma falta de humanidade na convivência humana. A vida seria mais significativa se houvesse cooperação mútua entre os homens. Precisamos de uma sociedade mais fraterna, mais humana, mais ‘cristã’ e menos materialista. Somos todos interdependentes e, mesmo a pessoa mais auto-suficiente, algum dia acabará buscando ajuda. Devido aos problemas econômicos constantes, as sociedades em situação de miséria estão aumentando e as pessoas se afastando da solidariedade por terem se tornado insensíveis ao sofrimento alheio. Nessa linha de conduta agimos em função do lucro, buscando sempre a recompensa material em detrimento do semelhante. Se não fosse assim, a solidariedade constituiria o meio encontrado de ultrapassar a fragmentação das relações sociais e de unir toda a sociedade, independente das diferenças, em torno do “outro”. Para o missionário é gratificante poder servir e ajudar ao próximo em suas necessidades. Compreendeu-se que, para os voluntários a solidariedade humana predomina os interesses partidários e que não deverão se envolver com o credo religioso. Acima das diferenças individuais, raciais e ideológicas deve ser colocada a dignidade humana. Portanto, o interesse do voluntário missionário deve se caracterizar pelo respeito distanciado dessa característica, para que sua ação não seja imunizada pelos preconceitos que os compromete. Não foi possível analisar as ações voluntárias sob o prisma de outras teorias, porém não pretendemos reduzir o estudo deste fenômeno ao sistema da dádiva, tampouco afirmar que tudo se explica a partir deste paradigma. Entretanto, no decorrer da pesquisa, a cada relato tivemos a oportunidade de observar a adequação conceitual com relação à ação voluntária, já que esta caracteriza-se como um ato de se doar livremente. Para aqueles que só percebem a coletividade como algo resultante de interesses egoísticos e não acreditam na presença da dádiva nas sociedades modernas, faz-se mister levar em conta os exemplos dos entrevistados e de vários outros missionários da OM e de outras entidades afins. Não se deve, também, com apoio nesse fato, desviar a missão precípua da Igreja para a ação social. Entretanto, o cristão, individualmente, tem o dever de solidariedade, que lhe é determinado pelo cristianismo – o amor ao próximo. O missionário visa socorrer o outro em suas necessidades e tentar minimizar-lhe os sofrimentos. Os voluntários da OM provêem de diferentes culturas e têm diferentes níveis acadêmicos. Porém, todos devem ter conhecimento bíblico e treinamento antes de ingressar em qualquer atividade missionária, para que não entrem no campo missionário por impulso, sem a devida reflexão e preparação mental para as dificuldades que enfrentarão. Não podemos deixar de mencionar que é possível encontrar missionários exercendo esse tipo de trabalho como forma de satisfazer seus próprios interesses afirmando-se como pessoas virtuosas e não reconhecendo naquele que sofre alguém capaz de retribuir o bem doado. As populações alvo das ações missionárias se vêm numa situação desconfortável e acabam não valorizando os bens doados pelos voluntários que se colocam em posição superior. Assim não se criam vínculos, pois o recebedor não sente o desejo de retribuir. A não retribuição revela o desejo de não se estabelecer uma relação pessoal com este tipo de missionário para evitar uma posição de humilhação. Desse modo o interesse egoísta do doador acaba comprometendo o contato mais íntimo. Conforme os relatos, notamos a existência de muitas alegrias na vida de um missionário, como as amizades formadas, o sorriso no rosto de alguém que recebeu ajuda e amor, e do ponto de vista bíblico, a oportunidade, através de trabalhos realizados em escolas, igrejas e ruas, de pregar as Boas Novas. Porém, também existem dificuldades na vida de um missionário. Em alguns países trata-se dos alimentos. Alguns não têm refrigeradores. Outros, precisam caminhar diversos quilômetros para chegar ao mercado mais próximo. É necessário barganhar. As aves precisam ser depenadas e limpas. Os alimentos devem ser lavados com água fervida ou mineral, pois a água encanada não pode ser ingerida. Apesar da dificuldade financeira (alguns missionários acabam desistindo de participar de programas oferecidos pela OM por terem ficado sem sustento) muitos voluntários continuam na ativa. O missionário da OM sempre se deparará com transições culturais. Muitos nem chegam a pensar nos sacrifícios que terão de enfrentar em suas viagens e ações sociais, até começarem a batalhar emocional e fisicamente. Por esse motivo é necessário que se preparem o quanto antes. O choque cultural, um dos efeitos mais comuns, pode causar várias complicações à saúde. Outro efeito é o desequilíbrio emocional. Por experiência e observação pode-se notar que muitos missionários sentem-se incapazes, entram em depressão e acabam abandonando suas funções. Apesar dessas experiências traumáticas muitos missionários continuam dedicados, entusiasmados e fiéis aos seus propósitos. Através dessa vivência aprendem a ampliar as visões de si mesmos, dos povos carentes, do lugar em que trabalham e da própria mensagem de Boas Novas. Diante desses relatos tornar-se missionário consiste em deslocar-se do mundo familiar, vivenciando realidades distantes e difíceis, obtendo assim um novo "olhar" sobre a realidade social. Ou seja, assumir o compromisso de colocar em prática uma forma de convivência e de atuação que leve em conta o fato de se estar vivendo algo maior que si mesmo. Os missionários dedicam seu tempo e suas energias em prol de ações sociais e missionárias. Percebe-se com as entrevistas que eles doam para se conectar à vida, para romper a solidão, para sentir que não estão sós. A dádiva é o que circula a serviço do laço social. Presencia-se a circulação da dádiva nas ações sociais da OM, nas roupas e nos alimentos distribuídos, nas apresentações de peças e musicais em orfanatos, asilos e escolas e nas confraternizações com jovens em acampamentos ou jogos esportivos. Daí o sentimento de transformação, de abertura, de vitalidade que invade os missionários. A dádiva não é, de modo algum, desinteressada; simplesmente, ela dá o privilégio em prol da amizade (de aliança, sentimento de amor, solidariedade). Para os missionários o oferecimento de serviços e energias não está desvinculado de criar laços e amizade, ou de sentir-se produtivo na capacidade de ajudar os outros. Nos relacionamentos entre missionários e populações carentes sempre ocorrem trocas, sejam objetos ou sentimentos, criando assim uma mistura entre coisas e alma. Essa troca expressa não apenas os sentimentos dos missionários, mas também os dos povos atingidos. O vínculo entre a população e os missionários voluntários da OM é formado entre os que participam dos programas de longa duração ou entre os grupos de apoio localizados em diversas cidades – dando continuidade da circulação da dádiva. Os missionários que participam dos programas de curta ou longa duração da Organização Operação Mobilização são dedicados às suas ações sociais e missionárias. São pessoas normais tentando levar esperança e ajuda aos mais carentes. Muitas vezes enfrentam dificuldades, mas recebem, também, muitas alegrias. Por mais frustrante que seja o trabalho voluntário, as recompensas são compensadoras. A grande maioria dos missionários da OM considera seus anos de voluntariado como os mais preciosos de suas vidas e não os trocariam por nada. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE, Antonio Carlos Carneiro. Terceiro Setor: História e Gestão de Organizações. 1ª ed. São Paulo: Summus Editorial, 2006. ANDERSON, Gerald H. American Protestants in Pursuit of Mission. 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GLOSSÁRIO Assistência Social: Conjunto de atividades patrocinadas pelo Poder Público e pela sociedade em geral que visa atender a pessoas carentes, ou hipossuficientes, em suas necessidades básicas, por meio da concessão de determinados benefícios sociais, independentemente de contribuição por parte dos beneficiários. Tais benefícios podem ser financeiros, ações na área da saúde, fornecimento de alimentos, entre outros. A Assistência Social é definida e organizada por um conjunto de normas e instituições que dão operacionalidade ao conceito e colocam em prática uma política social de assistência. Associação: Conjunto de pessoas, dotadas de personalidade jurídica própria, de direito privado, que se unem para atingir determinadas finalidades (culturais, sociais, pias, religiosas, recreativas) sem intuito de distribuição de lucro. É constituída e regida por um estatuto social. Na associação, o elemento “pessoas” é predominante e de maior importância, uma vez que são elas que se organizam, definem os fins a serem alcançados pela entidade e agregam esforços para que tais objetivos sejam atingidos. As entidades do Terceiro Setor, justamente por não possuírem finalidade lucrativa, constituem-se predominantemente sob a forma de associação ou fundação. Outras denominações como ONG, Instituto, Pacto, Movimento, Confraria não são conceitos propriamente jurídicos, podendo ser considerados “nome fantasia” das entidades. No entanto, as formas de sociedade civil e comercial não podem ser adotadas por entidades sem fins lucrativos, exatamente porque pressupõem a busca e repartição de lucro. Auxílio e Contribuição: Constituem-se em transferências de recursos públicos que poderão ser utilizados pelas entidades sem fins lucrativos para custear despesas de capital, ou seja, as que geram uma riqueza ou aumento de patrimônio (ampliação, reforma, aquisição e instalação de equipamentos e aquisição de material permanente). Captação de Recursos: Busca de recursos (não exclusivos, mas predominantemente financeiros) como forma de atingir a missão de uma entidade, implementando programas e projetos de organizações do Terceiro Setor. Conjunto de técnicas destinadas a organizar e a potencializar a busca de recursos. Contribuições Sociais: Espécie de tributo, destinadas ao financiamento do Seguro Social (que engloba as áreas da saúde, previdência social e assistência social pública). Denominação: Um grupo organizado de congregações religiosas, tendo valores e teologias em comum e específica. Doação: Ato de liberdade por meio do qual uma pessoa física ou jurídica transfere à outra pessoa física ou jurídica, bens ou vantagens de seu próprio patrimônio. Além da vontade do doador em transferir, deve haver a manifestação do beneficiário em receber. Em geral, a doação é feita verbalmente ou mediante instrumento particular. Para bens imóveis de valor mais alto é exigida escritura pública. Entidade Beneficente: É a que atua em benefício de outros, que não o da própria entidade ou de seus integrantes podendo, ou não, estabelecer contrapartida. Entidade Filantrópica: Atua no interesse ou benefício de terceiros, mas sem qualquer contrapartida por parte desses, ou seja, os benefícios são gerados por meio do patrimônio da entidade, sem ônus direto dos beneficiados. Pode ser considerada uma “espécie” do gênero “entidade sem fins lucrativos”. O conceito de entidade filantrópica está intimamente ligado ao de assistência social, a qual é prestada sem quaisquer cobranças de taxas, mensalidade ou contraprestação. Entidade sem Fins Lucrativos: A que não distribui eventuais excedentes operacionais, brutos ou líquidos, dividendos, bonificações, participações ou parcelas de seu patrimônio, auferidos mediante o exercício de suas atividades, entre seus sócios e associados, conselheiros, diretores, empregados ou doadores e que os aplica, integralmente, na consecução do respectivo objeto social. Evangelização Ato ou efeito de evangelizar, ou seja, pregar o Evangelho. Filantropia: Amor ao homem, desejo de ajudar ao próximo e à sociedade. Fundação: Constitui-se em um conjunto de bens livres, destinados a um determinado fim, por meio de escritura pública ou testamento. A lei atribui personalidade jurídica a esse conjunto de bens, que passa a tornar-se uma pessoa jurídica, com capacidade para adquirir direitos e obrigações, tudo visando à consecução do fim a que se destina e em obediência ao estatuto. Interdenominacional: Uma instituição ou organismo que não segue uma linha de pensamento teológico específica. Marketing Social: É a aplicação dos conceitos e métodos clássicos de marketing para disseminar idéias benéficas para o homem e a sociedade. Pressupõe análise, planejamento, instrumentação e controle dos programas desenhados para criar, construir e manter o intercâmbio de relações benéficas com os públicos escolhidos para alcançar os objetivos da organização. O Marketing Social tem como função aumentar o potencial de arrecadação das entidades do Terceiro Setor, reforçar sua imagem institucional e conseguir respostas mais rápidas e eficientes à suas ações. Missão: Estabelece de forma sucinta os propósitos da entidade e sua filosofia. Deve especificar as razões fundamentais de existência da entidade, identificar as características que a distinguem e, de certa forma, os objetivos mais amplos e gerais pretendidos a longo prazo. Missiologia Ciência das missões. Envio de pessoas em missões, ter o compromisso com a pregação do Evangelho. ONG: O termo ONG é oriundo do inglês (Non Governmental), tendo sido utilizado oficialmente pela primeira vez em 1950 pela Organização das Nações Unidas (ONU) no Conselho Econômico e Social (ECOSOC). ONG é uma terminologia adotada para as entidades sem fins lucrativos que se dedicam a realizar tarefas essenciais pertencentes ao Estado; entretanto, em razão de sua omissão em atuar nesse segmento, por incapacidade administrativa ou financeira, essas tarefas são encampadas por segmentos da sociedade civil que, sensibilizados, organizam-se para suprir tais deficiências. São, portanto, instituições privadas que têm finalidade pública, sem fins lucrativos. As ONGs, normalmente, são constituídas para atuar nas áreas de saúde, educação, assistência social, cultura, preservação e conservação do meio ambiente. Ainda não existe uma terminologia uniforme aceita unanimemente, sendo usados vários termos de forma indiscriminada para designar essas entidades, como, por exemplo, “organizações sem fins lucrativos”, “organizações voluntárias”, “Terceiro Setor”, entre outros. Apesar de o termo ter-se popularizado bastante no Brasil, sua significação parece estar mais fortemente associada às entidades que têm em sua missão atividades relacionadas a direitos da cidadania em geral, proteção a minorias, aos direitos humanos.. Tem, também, forte atuação no Estado, na sociedade e na educação, fornecendo sugestões e reivindicações na formulação das políticas públicas estatais, denunciando a violação de direitos humanos, entre outras. Da mesma forma, não se costuma associar o termo “organizações não governamentais” às tradicionais entidades filantrópicas e assistenciais, apesar das mudanças pelas quais muitas vêm passando, a fim de modernizar sua gestão e sua visão sobre o significado da filantropia. Organização Social: Qualificação concedida pelo Poder Executivo com o objetivo de fomentar e incentivar entidades privadas sem fins lucrativos nas áreas de ensino, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, meio ambiente, cultura e saúde. À Organização Social também poderão ser transferidas atividades relacionadas às áreas de atuação anteriormente mencionadas e que antes eram desempenhadas pelo próprio Poder Público. Para que uma entidade possa se qualificar como organização social, além da natureza social e coletiva de seus objetivos, bem como a finalidade não lucrativa, deverá também prever no estatuto, a participação em seu órgão de deliberação superior, de representantes do Poder Público e membros da comunidade, de notória capacidade profissional e idoneidade moral. A remuneração aos conselheiros é vetada, com a ressalva de eventual ajuda de custo por reunião da qual participem. Está autorizada, no entanto, a remuneração a dirigentes, a ser estipulada no contrato de gestão. A entidade assim qualificada poderá celebrar o chamado “contrato de gestão” com o Poder Público, para um melhor fomento e desenvolvimento de suas atividades. A aprovação e concessão dessa qualificação ficam a cargo do Ministério ou Órgão Supervisor ou Regulador da área da atividade correspondente à atuação da organização social, segundo critérios de conveniência e oportunidade. As entidades que obtiverem essa qualificação serão automaticamente consideradas como de interesse social e utilidade pública. Organização da Sociedade Civil de Interesse Público: Qualificação concedida pelo Poder Executivo às entidades privadas sem fins lucrativos estabelecendo a possibilidade de firmar os denominados “termos de parceria” com os governos federal, estadual e municipal, bem como a possibilidade de remunerar diretores que efetivamente exerçam alguma atividade, dentro dos parâmetros salariais do mercado. Para obter a qualificação, as entidades terão, necessariamente, de atuar em alguma das atividades estabelecidas, por exemplo, promoção da assistência social, cultura, defesa do meio ambiente, voluntariado, combate à pobreza, promoção gratuita da saúde e educação, de direitos, cidadania, desenvolvimento de tecnologias alternativas, entre outras. Responsabilidade Social: Normalmente, o conceito de responsabilidade social é aplicado principalmente no âmbito das empresas. Segundo definição dada pelo Instituto Ethos, “é uma forma de conduzir os negócios da empresa de tal maneira que a torna parceira e coresponsável”. É aquela que possui a capacidade de ouvir os interesses das diferentes partes (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente) e consegue recebê-los no planejamento de suas atividades, buscando atender às demandas de todos e não apenas dos acionistas ou proprietários. A Responsabilidade Social foca a cadeia de negócios da empresa e engloba preocupações com um público maior (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente), cujas demandas e necessidades a empresa deve buscar entender e incorporar em seus negócios. Assim, a Responsabilidade Social trata diretamente dos negócios da empresa e como ela os conduz. No entanto, o conceito de responsabilidade social poder ser aplicado tanto no âmbito do Estado, quando esse busca o aprimoramento e a maior eficiência na condução de suas políticas públicas de combate aos problemas sociais, como também em relação ao cidadão, quando esse procura realizar trabalhos voluntários ou de alguma forma contribuir para as entidades do Terceiro Setor e para as questões que lhe são pertinentes. Serviços Sociais Autônomos: Criados mediante lei, têm personalidade jurídica de direito privado, finalidade não lucrativa e objetivo de auxiliar o Estado na prestação de assistência social, médica e ensino à população em geral, ou à categorias profissionais específicas. Recebem oficialização do Estado e são mantidos por doações orçamentárias ou contribuições parafiscais, as quais são arrecadadas ao ente, mediante autorização legal, das empresas e dos beneficiários dos serviços. Como exemplos, podem ser citados o Sesc, Senac, Senai, entre outros. Serviço Público: Atividades que a Constituição ou a lei atribui como responsabilidade do Estado, o qual deverá prestá-las, diretamente, por entes estatais da Administração Pública Indireta (Autarquias, Fundações, Empresas Públicas ou Sociedades de Economia Mista) ou delegação a particulares, com o objetivo de satisfazer de forma concreta necessidades coletivas e públicas da sociedade. O regime jurídico da prestação de tais serviços será sempre o de direito público (ainda que apenas parcialmente), o que implica supremacia do interesse público sobre o particular. Sociedade Civil e Comercial: Formas de constituição de pessoas jurídicas que visam ao fim econômico ou lucrativo, o qual deve e pode ser repartido entre os sócios, pelo exercício de atividade não mercantil, no caso da primeira, como, por exemplo, prestação de serviços ou exercício de profissão liberal, e, no caso da segunda, pela prática de atos de comércio, mediante exercício de atividade mercantil. Por visarem ao lucro, tais formas associativas não podem ser adotadas pelas entidades do Terceiro Setor. Terceiro Setor : Engloba as organizações da sociedade civil que prestam algum tipo de serviço ou atividade de relevância social, fora do aparato estatal e que também não se confundem com os entes do mercado, por não apresentarem objetivo ou finalidade lucrativa. O termo parte da idéia de que a sociedade e suas atividades podem ser divididas em três setores: o Primeiro Setor seria o “Estado”, cuja ação é organizada e delimitada por um arcabouço legal, sendo dotado de poderes coercitivos em face da sociedade para que possa atuar em seu benefício, devendo ter sua atuação dirigida a todos os cidadãos, indiscriminadamente, promovendo de modo universal suas necessidades sociais. O Segundo Setor seria o “Mercado”, no qual a troca de bens e serviços objetiva o lucro e sua maximização. O Terceiro Setor, por sua vez, reuniria as atividades privadas não voltadas para a obtenção de lucro e que, mesmo fora da órbita da atuação estatal, ainda assim visariam ao atendimento de necessidades coletivas e/ou públicas da sociedade. Para alguns teóricos americanos, as entidades que compõem o Terceiro Setor ainda teriam como características fundamentais o fato de serem estruturadas, autogovernadas e envolverem pessoas em um grande esforço voluntário. O vocábulo pode ser considerado mais amplo e neutro, por conseguir abarcar as diversidades existentes entre as entidades e estar sendo sendo cada vez mais utilizado tanto no meio acadêmico como pelo senso comum. Ou seja, existem sociedades que dividem suas atividades e processos entre Estado, mercado e sociedades civis sem finalidade lucrativa, com capacidade de gerar projetos, assumir responsabilidades, empreender iniciativas e mobilizar recursos necessários ao desenvolvimento social do país. São exemplos de organizações do Terceiro Setor as organizações não governamentais, organizações da sociedade civil, as associações, as fundações e outras organizações correlatas. Trabalho Voluntário: Atividade não remunerada, prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza ou a instituição privada de fins lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive mutualidade. O trabalho voluntário não gera vínculo empregatício, não havendo qualquer obrigação de natureza trabalhista, ou previdenciária, para as entidades. É considerado como de suma importância para o desenvolvimento e a consolidação da cidadania participativa, por meio da implantação e cultivo de uma cultura moderna de voluntariado. Voluntário: Pessoa física que realiza atividade não remunerada em entidade pública de qualquer natureza ou em instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive mutualidade. Xenologia Ciência das relações entre parasitas e hospedeiros. ANEXO Roteiro das Entrevistas 1) Quantos anos você tinha quando ingressou na OM? 2) De qual programa participou? Para onde foi? E por quanto tempo? 3) Quais eram seus custos mensais? 4) Quais eram suas fontes de recursos? 5) Houve algum treinamento antes de ingressar no campo missionário? Por quanto tempo? Quais os temas abordados no treinamento? 6) Que tipo de serviço executava no programa (trabalho e evangelização)? 7) Por que decidiu participar do programa? Ao final, você se sentiu realizado ou algo poderia ter sido feito melhor? 8) Você mantinha contato com a família, amigos e igreja? Como? 9) Ao término do programa há algum tipo de acompanhamento da OM? 10) Comente algumas dificuldades durante os anos que participou do programa. 11) Comente algumas experiências positivas durante os anos que participou do programa. 12) Qual foi a reação das pessoas ao receberem ajuda? 13) Qual foi a reação das pessoas ao ouvirem o Evangelho? 14) Você acredita que as pessoas possam ter compreendido sua ação como um ato evasivo? 15) Você ou a OM mantém contato com as pessoas para continuar estabelecendo um vínculo? 16) Sua visão de mundo e o nosso papel como indivíduos mudou após a experiência na OM? Comente. Íntegra das Entrevistas ENTREVISTADO 1 1) Quantos anos você tinha quando ingressou na OM? Eu recebi meu chamado missionário aos 11 anos de idade, de certa forma eu sabia que Deus queria me usar no futuro, mas não sabia muito bem quando. Depois de alguns anos, eu já estava trabalhando e fazendo os exames finais para terminar o colegial, quando ouvi sobre o navio Doulos. Só que, naquele momento, eu queria muito ir para a universidade. De certa forma Deus fechou as portas da universidade e abriu as do navio Doulos. Então, aos 18 anos, eu aceitei fazer a vontade dele, e não a minha, e me uni à missão do navio, chamada Operação Mobilização. 2) De qual programa participou? Para onde foi? E por quanto tempo? Ao entrar na OM pude ver que não havia somente o navio Doulos na missão, mas que ela atuava em muitos lugares ao redor do mundo. Quando eu entrei para fazer o curso de 5 meses, chamado Missiológico - curso esse que ajuda os alunos a saberem que caminho querem realmente ingressar - antes de terminar eu já tinha certeza de que iria para o Doulos, segundo as promessas que eu recebera dEle. Ao terminar o curso entrei no programa chamado Global Action da OM e fui para o navio OM Doulos por 2 anos. Todas as pessoas que ingressam no navio por dois anos precisam participar do programa Global Action. 3) Quais eram seus custos mensais? No começo, “me dava frio na barriga” só de pensar nos custos para a viagem. Foram, mais ou menos, R$3.500,00 (três mil e quinhentos reais) o curso na OM por 4 meses. Logo depois, tive que pagar uma viajem para o Paraguai e voltar para o Brasil. Também precisei levantar sustento para uma conferência na Holanda e depois para o vôo da Holanda para a África do Sul. Fora as mensalidades do navio, que foram US$500,00 (quinhentos dólares americanos),mensais mais o seguro-saúde (tenho certeza de que estou esquecendo de vários outros valores que não estão claros em minha cabeça), mas sei que Deus levantou tudo o que eu precisava para a viagem. 4) Quais eram suas fontes de recursos? Primeiramente, eu não sabia nada a respeito de levantar sustento. e então, comecei conversando com meus amigos. Alguns deles gostariam muito de também participar do navio, mas já que não podiam por casa do trabalho decidiram me ajudar no sustento. Conversei, também, com meu pastor que me autorizou a compartilhar minhas necessidades em um culto. E foi aí que todas as pessoas da minha igreja ficaram sabendo o que eu ia fazer, e alguns deles se manifestaram dizendo que gostariam de me ajudar no sustento para esta viajem missionária. 5) Houve algum treinamento antes de ingressar no campo missionário? Por quanto tempo? Quais os temas abordados no treinamento? Como mencionado, eu participei do Curso Missiólogico da OM que durou 5 meses.- 3 meses de teoria e 2 meses de prática. São abordados temas como teologia, antropologia, evangelização etc, mas não se aprofundam, alegando que é apenas para os alunos terem uma idéia do assunto. Ele acaba, então, se tornando um curso cheio de informações superficiais. 6) Que tipo de serviço executava no programa (trabalho e evangelização)? A vida no navio é cheia de compromissos. É preciso estar sempre “de olho” no relógio, atento para o próximo evento. Durante a semana temos de trabalhar 8 horas por dia, mas as horas restantes podem ser usadas para evangelizar, ler ou descansar. Os trabalhos no navio são diversos: na cozinha, limpeza, deck, casa de máquinas, como repórter, fotógrafo, agente de viagens etc... Uma vez por semana temos o dia chamado “Evangelism Day, “quando vamos para fora do navio fazendo serviços diversos com o mesmo objetivo: evangelizar. Isto inclui visitas a igrejas, orfanatos, centros de recuperação para drogados, hospitais, e até mesmo trabalhos braçais, como construir uma casa, escola, pintar paredes etc. 7) Por que decidiu participar do programa? Ao final, você se sentiu realizado ou algo poderia ter sido feito melhor? A maior razão de eu ter vindo para o navio foi a vontade e ajuda de Deus, se não fosse isto, com certeza, eu não estaria aqui hoje, até mesmo por tudo o que Deus providenciou para que eu pudesse ter vindo. Já estou chegando ao final dos meus 2 anos no navio, e sinto que ao voltar “para a vida normal” irei sentir saudade dos meus tempos de navio, mas da mesma forma que eu hoje sinto falta da minha igreja, amigos e família. Contudo, eu sei que dei o meu melhor durante estes 2 anos, não ficando nada para trás a ser feito e lamentado. No entanto, sei que este é o momento de voltar e a experiência aqui adquirida será utilizada lá fora. 8) Você mantinha contato com a família, amigos e igreja? Como? Eu mantive contato com minha igreja e família usando mais a modernidade da Internet. No navio não tínhamos Internet durante os meus 2 anos (agora colocaram) mas tinha Outlook, e e-mail. 9) Ao término do programa há algum tipo de acompanhamento da OM? Ao terminar os 2 anos no campo a OM recebe o missionário por uma semana para dar um reentry training. No meu caso já que eu não estarei voltando para o Brasil eu tive o reentry course aqui no navio, que prepara o missionário para entrar no mundo que ele deixou durante 2 anos. 10) Comente algumas dificuldades durante os anos que participou do programa. Viver no navio é um pouco difícil por causa das viagens, muitas pessoas ficavam muito doentes a cada viagem. O mesmo aconteceu comigo, sendo que uma das vezes o caso foi tão sério, que comecei a vomitar sangue. Eu sempre esperei pelo dia que, como todos os outros, eu também me acostumaria. Porém, mesmo agora, depois de 2 anos, esse dia nunca chegou. Creio, também, que as regras do navio são muito rígidas, embora necessárias. Por 2 anos é muito fácil se sentir controlado. 11) Comente algumas experiências positivas durante os anos que participou do programa. Olhando para traz tive muitas experiências positivas, sendo elas com meus amigos durante o trabalho, grupo de latinos e os cafés noturnos com os meus colegas de cabine. Mas, com certeza, viajar para os países mais pobres foram as melhores. Sempre tentei entender as culturas e um pouco do passado para descobrir o porquê de as pessoas se comportarem ou viverem daquela forma. É difícil entender, mas sempre procurei olhar para eles com o mesmo amor com que Jesus olhou para mim. Alguns dos países que mais me marcaram foram: TAILANDIA Um lugar muito bonito, mas o inimigo tem atuado grandemente ali. A Tailândia é o maior campo de prostituição do mundo! Pessoas na Europa vão para lá por 3 dias apenas por esta razão. Infelizmente, as mulheres não têm outra perspectiva de vida, a prostituição é um jeito muito fácil de ganhar dinheiro e elas continuam nesse ramo ate morrerem de Aids. Como eu, sendo homem posso compartilhar para elas a respeito de um amor verdadeiro como o de Jesus por elas? É muito difícil porque elas não são amadas e sim usadas, e por esta razão, pensam que, se realmente existisse o sentimento chamado AMOR, certamente não viria de um homem. CAMBODJA Um país derrotado pelo passado. Cada pessoa que tive a oportunidade de conhecer mencionou de como seus avós foram torturados por causa de livros. SIM, livros, nada além disso! Alguns anos atrás, o Cambodja era um país desenvolvido, mas quando o governo mudou, instituiu-se uma nova ordem de que todos os livros deveriam ser retirados das mãos do povo. Doutores, homens de negócios e professores foram enviados para campos de concentração! Ninguém poderia saber mais do que as pessoas no governo, e todos que tinham estudos eram torturados até a morte. Um país com este passado, hoje em dia sofre as conseqüências. Há muitas crianças morrendo de fome, elas mendigam mas, ao final do dia, a quantia que recebem é insignificante. O governo é totalmente corrupto e a população não tem força para se levantar e protestar contra as injustiças. FILIPINAS Diferente da Tailândia, quem se prostitui são os homens. Nas Filipinas o homossexualismo é muito grande, para todos os lugares que se olha só se vê mulheres, mas... É bom olhar uma segunda vez para ter certeza! As razões são diversas, mas uma delas, que eu gostaria de destacar, é que se uma mulher grávida quer muito ter uma menina e, de repente nasce um menino, a mãe e o pai irão tratá-lo como menina, comprando vestidos cor de rosa e bonecas! Estas experiências ficarão marcadas para sempre. 12) Qual foi a reação das pessoas ao receberem ajuda? Como o navio Doulos esta envolvido em uma atividade internacional nós visitamos pessoas com vários tipos de culturas e passado histórico, eu creio que isso influência muito a reação de pessoas quando oferecendo ajuda. Países em desenvolvimento são muito mais receptivos à ajuda externa, um exemplo é a África do Sul onde eu tive a oportunidade de visitar um orfanato para apenas lixar as janelas que estavam enferrujadas, este tipo de serviço poderia ser feito por qualquer outra pessoa da comunidade. Quando a diretoria preparou a nossa visita missionária creram que apenas iríamos pregar o evangelho para as crianças mas além de apoio espiritual nós nos oferecemos a fazer algo mais duradouro que veio ser lixando janelas, este tipo de trabalho apenas não só da o testemunho de que precisamos ajudar uns aos outros de qualquer forma mas também é de certa forma uma grande ajuda financeira, já que a diretoria do orfanato pode agora investir o dinheiro que seria usado para o lixamento de janelas em novos projetos beneficentes. Quando visitando as Filipinas o tipo de ajuda oferecido foi diferente, vimos que havia um número muito grande de crianças nas ruas e pensamos em alguma forma de tentar ajuda-las foi quando decidimos em fazer uma limpeza no Charli, uma sala especial do navio onde as meninas que trabalham na lavanderia depositam as dezenas peças de roupas perdidas todos os dias, no Charli os tripulantes também depositam suas roupas que estao pequenas ou grandes demais ou que ja não há mais uso. Ao limparmos o Charli retiramos muitas roupas que poderiam ser re-usadas e doamos às crianças de rua que as aceitaram como se fosse ouro. Claro que gostaríamos de ter feito uma doação de roupas novas mas o navio é também uma entidade com fundos limitados, nos forçando a sermos criativos em pensarmos nas diferentes formas que possamos ajudar as pessoas locais. Como mencionado países em desenvolvimentos são muito mais receptivos a ajuda e de certa forma mais gratos também. Olhando por uma nova perspectiva nós do navio vimos que a ajuda que oferecemos é minima como por exemplo sair em um sabado limpando as ruas ou dando água às pessoas que estão nas filas esperando para entrar na livraria dentro do navio. Pelo ponto de vista local, onde eles pensam que todos os extrangeiros vivem uma vida de luxo como Hollywood, é possível ver os missionários limpando o chão, oferecendo água, lixando janelas é de certa forma impactante. Quando visitamos países desenvolvidos como Japão também pensamos na melhor forma de ajuda-los, contudo limpar o chão não funciona pois é um país muito limpo e também não há muitos moradores de rua para ajudar então tentamos oferecer serviços que são de certa forma úteis como por exemplo ajuda-los a achar um local para estacionarem seus carros para visitarem o Doulos. Claro que deve soar um pouco extranho mas é sim algo muito desafiante achar um lugar vago para estacionar especialmente quando toda a população da cidade tem a mesma idéia de fazer um passeio ao navio em um caloroso sabado pela manhã. Bem para nós que estamos ajudando precisamos ter muita paciência e tentar não ligar para a poluição de combustível ao redor. Com nossa garrafa de água, protetor solar, óculos escuro e claro uma terrível camiseta de cor laranja shock enfrentamos mais outro desafio em ajudar uma comunidade. Claro que o navio não é apenas uma instituição que oferece ajuda mas também somos muito ajudados pela comunidade. Antes do navio chegar a um país é enviado antecipadamente Line-Ups, um grupo que irá fazer todas as preparações como levantamento de patrocínio, publicidade entre igrejas e media, serviços de escritório em geral referente a taxas necessárias a serem pagas referente a estadia do navio no porto. Eles também são os responsáveis em investigarem quais os tipos de ajuda o navio poderá oferecer a igreja local e a comunidade e se eles podem nos ajudar com seus serviços voluntários. Um dos serviços os Line-Ups são responsáveis é o levantamento de voluntários que podem oferecer seus serviços ao navio por curto período durante a estadia do navio em seu país. Normalmente o navio fica no porto por 3 semanas e várias pessoas que pertencem a igreja local se disponibilizam a trabalhar conosco por este período de três semanas, eles também são treinados em vários tipos de assuntos toda manhã antes de começarem seus trabalhos que duram 6 horas. Voluntários locais são muito importante para o ministério do navio Doulos, em outras palavras o navio nao é somente uma instituição ajudadora mas uma recipiente também. Em praticamente todos departamentos abordo como cozinha, serviços de limpeza, deck há sempre uma falta de pessoas então voluntários locais são a grande força ajudadora por trás do ministério do navio e sem a ajuda dos locais com certeza as pessoas que moram no navio teriam que trabalhar dobrado diminuindo a qualidade do serviço. 13) Qual foi a reação das pessoas ao ouvirem o Evangelho? A reação de pessoas ao escutarem o evangelho varia muito no que diz respeito a culturas e países diferentes. Quando o navio Doulos está na Europa as pessoas não cristãs são mais resistentes e de certa forma preferem ignorar qualquer tipo de mensagem que venha por parte de missionários, principalmente as pessoas mais jovens que preferem uma vida mais livre de qualquer tipo de pressão religiosa ou política. No meio à esta cultura Européia sabemos que temos que mudar o estilo de evangelização oferecido, não podemos apenas sair com placas nas ruas dizendo a todos que Jesus os ama pois não será efetivo, mas oferecemos outras atividade como apresentações trans-culturais de danças, teatros e mimicas dessa forma eles se interessam mais e querem saber qual a razão de estarmos nos países deles. Na Ásia também apresentamos musicas, dramas e mímicas mas a receptividade das pessoas ao evangelho não depende apenas disso, pois todos são muito mais abertos por sua curiosidade em conhecer mais a respeito do cristianismo. Asiáticos tendem a ser Budistas, Mulculmanos e Hinduistas e entre estas religiões não há muito opção de escolha em ser ou não pois é algo como uma herança de familia. Quando asiáticos escutam o evangelio eles gostam muito do estilo de vida e pensamento por trás de um Deus que os ama, mas estão muito ligados a religião de sua familia e temem a pressão em caso de apenas pensar em deixa-la. Sua religião é vista também como parte de sua cultura e a deixar pode causar vários conflitos. Portanto a receptividade e reação de pessoas ao escutarem o evangelho varia muito de país e cultura (entre outras razões). Isso nos influência a sermos mais cautelosos e pensarmos em algo que não tente convencer pessoas de uma forma negativa como no passado mas sim em principalmente mostrando as pessoas o que Deus fez em nossas vidas e dando-os a opção em aceitarem a mesma mudança, fazendo isso de uma forma mais artística com certeza produz uma reação mais positiva. 14) Você acredita que as pessoas possam ter compreendido sua ação como um ato invasivo? Pela fato de o Doulos ser o navio mais antigo do mundo, ser o unico maior navio livraria e por todos tripulantes serem voluntários ele tem uma certa fama em todos os países que visita. Como mentionado anteriormente antes da chegada do navio à um porto os Line Ups que são as pessoas responsáveis pela a visita do navio à um certo país, entram em contato com todos os meios de mídia, como rede de televisões, radios e jornais promovendo a história e propósito da visita do navio. Com isso a o público já sabe o proposito para sua visita é em trazer Conhecimento, Ajuda e Esperança ao seu país. Esta fama influência muito a facilidade de nossa entrada em favelas, prostibulos, hospitais e entre outros lugares com muita receptividade. Um exemplo hipotético para entender melhor o impacto da visita do Doulos em muitos Africanos, Asiaticos ou até mesmo Europeus sería a mesma coisa da chegada do Cirque D’Soleil ao Brasil mas com o proposito de ajudar e estar em contato com o povo, sem nenhuma barreira de fama. Com certeza todos ficariam muito felizes em ter este contato intimo com estas pessoas internacionais podendo até convida-las para um café. O único fato em que se pode dizer que uma minoria não aceite a chegada do navio em certos países são grupos religiosos que sabem que Doulos é dirigido por uma organização cristã e são contra isso. Um exemplo desse tipo de oposição à chegada do navio foi em 1991 quando ele estava aportado em uma ilha mulculmana nas Filipinas. Durante um programa chamado “Noite Internacioal” onde os voluntários que vivem no navio apresentam shows culturais um grupo de mulcumanos jogou uma granada perto do palco causando a morte de 2 tripulantes. Pode-se dizer que esta foi a única forma extrema de oposição à visita do navio Doulos, mas tais acontecimentos nâo são suficientes para fazer Doulos perder seu foco pois existe uma vontade maior em não olhar para a oposição mas sim nas vidas de centenas de pessoas que são mudadas por causa de sua visita. Muitas pessoas até mesmo colocam o nome em seus filhos “Doulos” como gratidão à ajuda recebida durante a visita do Doulos em seus países 15) Você ou a OM mantém contato com as pessoas para continuar estabelecendo um vínculo? Em cada porto que visitamos conhecemos centenas de pessoas. Nós temos a oportunidade de ter longas conversas e até mesmo convida-las para um café abordo. Através dessas visitas sempre procuramos pegar o email ou endereço para que possamos continuar tendo contato mas há uma grande probabilidade de nunca mais nos vermos ou comunicarmos novamente. Durante meus primeiros meses a bordo eu sempre tentava escrever para as pessoas que eu havia conhecido no último porto mas com a visita em novos paises passei a conhecer outras dezenas, e outras. Isso me fez ver que éra impossível me comunicar com todos mesmo querendo. Hoje em dia eu ainda tenho contatos com dezenas de pessoas que conheci e tive a oportunidade de evangelizar, mas não se compara ao numero real de pessoas que eu conheci durante os meus 2 anos a bordo. A Operação Mobilização, responsável pelo ministério do navio tem muitos escritórios internacionais ao redor do mundo então durante a visita do navio em seu país há uma parceria onde encaminhamos os endereços das pessoas que conhecemos para que eles dêem uma assistência maior quando o navio deixa o porto. 16) Sua visão de mundo e o nosso papel como indivíduos mudou após a experiência na OM? Comente. Com certeza minha visão de mundo mudou e se abrangeu completamente. Tive a oportunidade de ver o luxo em Singapura, e a pobreza na África. Pessoas comendo até não agüentarem mais em Taiwan, deixando um monte de sobras para o lixo e pude ver, também, pessoas desnutridas, sem feijão no Cambodja. Eu pude ver a injustiça do mundo, onde poucos têm muito e muitos têm pouco. Um mundo onde todos querem passar as férias na Suíça, Seishelles ou Disney, mas nunca gastaram uma nota sequer para ajudar pessoas na Etiópia. Eu pude ver que o mundo nunca vai ser o que eu gostaria que fosse, com as pessoas amando-se mutuamente, embora todos peçam paz e amor. Eu descobri que todas as experiências que eu vivi não poderão ser usadas 100%, embora eu tenha um imenso desejo de chacoalhar o mundo e mostrar a realidade dos nossos irmãos. Eu também sei que, mais cedo ou mais tarde, eu também estarei sentado em uma mesa do StarBucks tomando um café de 10 reais enquanto do outro lado da rua um mendigo estará implorado por algumas moedas para comprar um cachorro quente para jantar. Contudo, não colocarei um ponto final aqui, mas que seja feita a vontade de Deus em minha vida, pois meu futuro está em suas mãos. Com Deus em nossos corações estaremos sempre dispostos a entregar o nosso café nas mãos dos menos favorecidos. ENTREVISTADO 2 1) Quantos anos você tinha quando ingressou na OM? 20 anos. 2) De qual programa participou? Para onde foi? E por quanto tempo? Global challenge. No Marrocos em 2003 e na Turquia em 2004. Marrocos foi por quatro semanas e na Turquia por três semanas. 3) Quais eram seus custos mensais? Não me lembro mais com detalhes, mas acredito que foi aproximadamente 2000 francos suíços. 4) Quais eram suas fontes de recursos? Eu paguei por tudo sozinha. Não recebi ajuda financeira de ninguém. 5) Houve algum treinamento antes de ingressar no campo missionário? Por quanto tempo? Quais os temas abordados no treinamento? Sim, em ambas as viagens que fiz, cada treinamento durou uma semana. O Marrocos e a Turquia são países islâmicos, por isso recebemos treinamento em como nos portar e o que dizer e o que não dizer em diversas situações. Aprendemos diversos aspectos interessantes da cultura de cada país e tivemos tempos de oração e adoração com nossa equipe. 6) Que tipo de serviço executava no programa (trabalho e evangelização)? Eu gostava de entregar o Novo Testamento para pessoas na rua ou em estações de ônibus. Visitávamos famílias, freqüentávamos pequenas reuniões e fazíamos caminhadas de oração. 7) Por que decidiu participar do programa? Ao final, você se sentiu realizado ou algo poderia ter sido feito melhor? Eu queria conhecer um país islâmico e a OM oferecia programas de curta duração (de três a quatro semanas) com um preço acessível. Eu também conheço algumas pessoas que trabalharam na OM. 8) Você mantinha contato com a família, amigos e igreja? Como? Eu ligava para minha família e enviava mensagens de texto pelo celular, porém os custo era muito elevado, então era muito pouco. Quando tínhamos a oportunidade usávamos o serviço de uma Lan House. 9) Ao término do programa há algum tipo de acompanhamento da OM? Sim, por três dias. 10) Comente algumas dificuldades durante os anos que participou do programa. Problemas de comunicação, devido ao desconhecimento do idioma. 11) Comente algumas experiências positivas durante os anos que participou do programa. É incrível viajar com uma equipe com pessoas de diversos lugares do mundo. Éramos tão diferentes mas conseguíamos nos unir com um só propósito, que era compartilhar o Evangelho. 12) Qual foi a reação das pessoas ao receberem ajuda? Elas aceitavam bem e ficavam muito felizes. 13) Qual foi a reação das pessoas ao ouvirem o Evangelho? Nos não podíamos compartilhar o Evangelho abertamente, mas quando perguntávamos se poderíamos orar pela pessoa ou compartilhar sobre nossa fé as reações eram quase sempre positivas. 14) Você acredita que as pessoas possam ter compreendido sua ação como um ato invasivo? Acho que não, acho que sempre nos aceitavam bem. 15) Você ou a OM mantém contato com as pessoas para continuar estabelecendo um vínculo? Infelizmente não mantive contato com as pessoas que conheci. Informei os e-mail, telefones e endereços as equipes da OM, porém não sei se eles mantêm contato. Continuo escrevendo para alguns membros das equipes com as quais viajei. 16) Sua visão de mundo e o nosso papel como indivíduos mudou após a experiência na OM? Comente. Sim, mudou. Acho que percebi que não precisamos atravessar o mundo para ajudar ao próximo. Temos amigos e conhecidos no nosso próprio bairro que também precisam de ajuda! ENTREVISTADO 3 1) Quantos anos você tinha quando ingressou na OM? 26 anos. 2) De qual programa participou? Para onde foi? E por quanto tempo? Curta duração - 6 semanas de Dez 98 a Jan 98 no Marrocos. Longa duração - Maroccos- 2 anos de Set 2001 a Out 2003. Global Service – Marrocos, comecei em Maio de 2004. 3) Quais eram seus custos mensais? US$700,00 por pessoa, como sou eu e meu marido, então R$1400,00. 4) Quais eram suas fontes de recursos? A maior parte do sustento vem de amigos e de nosso igreja local. Nossos amigos da igreja e familiares nos ajudam também. 5) Houve algum treinamento antes de ingressar no campo missionário? Por quanto tempo? Quais os temas abordados no treinamento? Sim, ao chegar ao Marrocos recebi um treinamento intensivo de duas semanas que cobria: - Introdução à cultura Marroquina (o que fazer e o que não fazer em determinadas situações) - Introdução ao Islamismo e o contexto Marroquino - Feriados Religiosos no Marrocos - Trabalho em equipe - Como se manter saudável - A visão da OM e a visão da equipe - Introdução ao idioma - 1 semana de treinamento prático com família marroquina (nos hospedamos com uma família e tivemos que nos adaptar aos costumes e hábitos). 6) Que tipo de serviço executava no programa (trabalho e evangelização)? Durante os dois primeiros anos meu foco se concentrou em aprender o idioma. Tivemos aula quatro vezes por semana no primeiro ano e depois duas vezes por semana no segundo ano. Também criamos vínculos de amizade com as famílias que moravam próximo ao nosso apartamento e próximo ao Instituto de Idiomas. Participávamos de seminários e outros treinamentos. Lideramos duas equipes que participaram dos programas do Global Action. 7) Por que decidiu participar do programa? Ao final, você se sentiu realizado ou algo poderia ter sido feito melhor? Nós já conhecíamos a OM através de amigos e outros trabalhos realizados em outros países. Conhecíamos o diretor da OM na Austrália e o respeitamos muito. Investigamos diversas outras instituições e os programas que ofereciam no Marrocos, a OM foi a única que nos forneceu informações detalhadas e nos pareceu bastante organizada. Viajamos para o Marrocos por seis semanas em 97/98 para conhecer a OM e tivemos a oportunidade de participar de uma viagem missionária de duas semanas com outros participantes. Fomos convidados para participar do retiro anual da equipe no Marrocos, e ficamos impressionados com a hospitalidade e a transparência dos serviços oferecidos. Então nos unimos a OM alguns anos depois e voltamos para o Marrocos. Sim, acredito que a OM nos permitiu conhecer muitas pessoas interessantes, responsáveis e determinadas. Pessoas comuns tentando realizar coisas extraordinárias para Deus. As vezes é difícil, porém é uma alegria trabalhar com tanta gente. As vezes é tão recompensador, porém as vezes é tão frustrante. Mas por enquanto, eu não gostaria de estar fazendo outro coisa e nem de estar em nenhum outro lugar. 8) Você mantinha contato com a família, amigos e igreja? Como? Mantemos contato com nossa família e amigos por e-mail e por telefone (porém esse recurso é bastante caro). 9) Ao término do programa há algum tipo de acompanhamento da OM? Sim, ao final dos dois anos recebemos um acompanhamento (debrief) com o líder da equipe do Marrocos. Depois voltamos para a OM na Australia onde recebemos mais três dias de acompanhamento antes de voltarmos para casa. 10) Comente algumas dificuldades durante os anos que participou do programa. Acredito que o mais difícil foi de não continuar recebendo treinamento. Nosso coordenador morava em outra cidade, então tínhamos pouco contato e oportunidades para discutir melhorias no programa. Nossa pequena equipe é que se reunia para organizar os programas e oferecer treinamento. Por isso nos interessamos em nos tornarmos os coordenadores das equipes no Marrocos, para oferecer um programa que fornece mais auxílio e treinamento para os voluntários. Acredito que nosso programa é bem diferente agora! Um aspecto difícil de se adaptar na cultura marroquina seria o modo pelo qual os homens nativos tratam as mulheres, eles fazem comentários, emitem ruídos, nos perseguem, as vezes até fisicamente e verbalmente assediadas. Foi muito difícil, principalmente no primeiro ano de serviço. Algo interessante, porém complicado, é o fato de termos que não somente nos adaptar a cultura marroquina, mas as diversas culturas dos voluntários em nossa equipe. 11) Comente algumas experiências positivas durante os anos que participou do programa. Recebemos ajuda dos mais experientes em nossa equipe. As duas famílias, com quem tínhamos mais contato, nos ensinaram muitas curiosidades referente a cultura e o ministério oferecido pela OM para a população local. Outra experiência positiva foi a possibilidade de liderar equipes participando do Global Challenge no Marrocos. Adorávamos a oportunidade de mostrar o Marrocos para outras pessoas e de ver as respostas de nossas orações com a criação de vínculos com a comunidade, as oportunidades de compartilhar o Evangelho, de distribuir livros e de orar pelas pessoas. Adoramos a multi-culturalidade da OM, apesar disso significar que enfrentaremos mais desafios. Existem muitos aspectos da cultura marroquina pelo qual me apaixonei: a hospitalidade, a música, a comida, a beleza natural e arquitetônica, e até a correria de cidade grande. 12) Qual foi a reação das pessoas ao receberem ajuda? A ajuda oferecida sempre é bem vinda e apreciada. Ajudas com dinheiro, suporte e aconselhamento conjugais e tratamento para famílias, além da ajuda médica são sempre recebidas com muita alegria. Nosso trabalho com as pessoas portadores de deficiências físicas também está crescendo e é bem aceito pela comunidade. 13) Qual foi a reação das pessoas ao ouvirem o Evangelho? Muitos são curiosos sobre o Evangelho – querem ouvir e saber mais e querem conversar sobre religião. Muitos até nunca conheceram um cristão antes, mas já ouviram falar alguma coisa referente a Jesus e o cristianismo e querem expor suas opiniões e conversar sobre suas dúvidas e oposições. Conversar sobre fé e o Evangelho é uma coisa, mas superar as barreiras é outra. Existe várias barreiras criadas pelos Mulçumanos e suas pre-noções do Evangelho, muitas pré-noções que não são verdades, e isso torna o nosso trabalho mais difícil ainda. Porém, no geral as pessoas querem ouvir mais sobre Jesus, sua vida e suas promessas. 14) Você acredita que as pessoas possam ter compreendido sua ação como um ato invasivo? As pessoas não nos vêm como uma ameaça. Pelo menos, não as pessoas com quem mantemos mais contato ou as pessoas com quem temos amizades. Muito raramente sentimos que as pessoas se sentiam ameaçadas ou invadidas. Somente os fundamentalistas nos países árabes nos veriam desta maneira, e normalmente não querem conversar conosco ou estarem envolvidos. 15) Você ou a OM mantém contato com as pessoas para continuar estabelecendo um vínculo? Sim, sempre mantemos contato com as pessoas que conhecemos, para continuar estabelecendo vínculos de amizade. Caso morem longe de nossa cidade, sempre enviamos o telephone e e-mail para um time mais próximo ou até para pessoas da própria comunidade que gostaria de ajudar a OM. 16) Sua visão de mundo e o nosso papel como indivíduos mudou após a experiência na OM? Comente. Sim. Me permitiu estar mais ciente de como vivo e qual o tipo de exemplo que estou transmitindo para os outros – desejando cada vez mais viver uma vida íntegra para que as pessoas não possam questionar o que digo ou faço. Eu quero que seja uma vida digna porque meu vizinhos e amigos estão sempre me observando. Aprendi a maximizar meu tempo e oportunidades, sem perder a chance de compartilhar o Evangelho. Fez-me refletir sobre meu ministério antes de entrar na OM, se eu era realmente eficaz ou não. Duvidava se meu ministério em casa, na Austrália, realmente surtia o efeito desejado. Acredito que quando voltar para casa tomarei uma atitude diferenciada perante meus amigos, vizinhos e família em detrimento dos meus anos servindo a OM. ENTREVISTADO 4 1) Quantos anos você tinha quando ingressou na OM? Eu tinha 13 anos quando comecei a trabalhar com a OM. 2) De qual programa participou? Para onde foi? E por quanto tempo? Fui para o México por duas semanas, e depois para o Perú por mais duas semanas e por último visitei o Brasil duas vezes, cada programa com duração de duas semanas também. 3) Quais eram seus custos mensais? Entre US$1700,00 a US$2500,00. 4) Quais eram suas fontes de recursos? Recebi ajuda de amigos, família, membros da igreja e consegui um pouco de dinheiro com alguns trabalhos, por exemplo, limpando carros e casas. 5) Houve algum treinamento antes de ingressar no campo missionário? Por quanto tempo? Quais os temas abordados no treinamento? Sim, os treinamentos aconteciam antes do programa começar e duravam em média três dias. 6) Que tipo de serviço executava no programa (trabalho e evangelização)? Peças teatrais, apresentação em seminários e cursos, música e visitas a orfanatos e asilos. 7) Por que decidiu participar do programa? Ao final, você se sentiu realizado ou algo poderia ter sido feito melhor? Eu senti Deus me incentivando para compartilhar o Evangelho e pensei que seria uma experiência inesquecível participar da OM. 8) Você mantinha contato com a família, amigos e igreja? Como? Sim, através da utilização de Lan House para enviar e-mails. 9) Ao término do programa há algum tipo de acompanhamento da OM? Não muito, apenas alguns dias de folga e algumas reuniões. 10) Comente algumas dificuldades durante os anos que participou do programa. Adaptação a cultura, compreensão do idioma. 11) Comente algumas experiências positivas durante os anos que participou do programa. Conhecer pessoas de outros páises e com outras culturas, me tornando mais confiante em minha fé, aprender outros idiomas, crier vínculos e a oportunidade de compartilhar o Evangelho. 12) Qual foi a reação das pessoas ao receberem ajuda? Muitos eram abertos em receber nossas orações por eles ou por seus familiares. Nossa viagem era curta, então não tivemos a oportunidade de distribuir roupa e alimento, mas informávamos a igreja local algumas das necessidades mais gritantes que víamos. Muitas pessoas nos pediam dinheiro, porém evitávamos fornecer ajuda financeira, pois não tínhamos como verificar como o dinheiro seria realmente usado. 13) Qual foi a reação das pessoas ao ouvirem o Evangelho? Variou, mas quase todos foram receptivos ao Evangelho. Existia uma grande influência católica, então muitos já conheciam o Evangelho, então, ou estavam abertos a aprenderem mais, ou já se sentiam convictos quanto à suas crenças e não precisavam perder seu tempo nos ouvindo. 14) Você acredita que as pessoas possam ter compreendido sua ação como um ato invasivo? Acho que ninguém nos viu como uma ameaça. As pessoas estavam curiosas e queriam conversar conosco. Aqueles que possivelmente nos viam como uma ameaça ou como sendo invasivos simplesmente nos ignoravam e não nos convidavam para um chá em suas residências. Nunca senti ou medo das pessoas com as quais tivemos contato, pelo contrário, todos estavam curiosas e foram muito hospitaleiros. 15) Você ou a OM mantém contato com as pessoas para continuar estabelecendo um vínculo? Eu sei que meu esposo continua mantendo contato com as igrejas que ajudamos, porém eu não mantenho contato com ninguém que conheci durante o programa. Mantenho pouco contato com meu intérprete e alguns colegas da equipe. 16) Sua visão de mundo e o nosso papel como indivíduos mudou após a experiência na OM? Comente. Um pouco, me conscientizei mais referente ao amor de Deus e o meu papel como cristã de compartilhar o Evangelho. ENTREVISTADO 5 1) Quantos anos você tinha quando ingressou na OM? 26 2) De qual programa participou? Para onde foi? Por quanto tempo? C.T.M. - Petrópolis com prático nos três estados do sul do Brasil, Minas Gerais e Rio de Janeiro num total de um ano; Logos II - Preship training, Ship’s member - 1991 até 1993, toda a América Latina, menos Cuba,as pequenas ilhas do Caribe e também Bolívia e Peru devido ao surto de cólera. Love Europe 1994 - Hungria, República Tcheca, Polônia, Romênia e Alemanha, por um período de 3 meses. Love Europe 1997 - Portugal, Espanha, Alemanha, Suíça, Holanda e Inglaterra, por 6 meses. Em todos, os trabalhos foram evangelização, tradução, liderança e também observação cultural e necessidades com as quais pudéssemos trabalhar para suprir suas necessidades e principalmente pregar o evangelho. Sempre foi dada muita ênfase às situações de saúde e educação. 3) Quais eram seus custos mensais? Variou de acordo com o ministério e o país a ser visitado. Entre US$ 450,00 e US$ 1.200,00. 4) Quais eram suas fontes de recursos? A minha igreja, mas, com uma quantia mínima e tinha mantenedores, 2 na Alemanha, 1 na Inglaterra e 1 na Suíça. 5) Houve algum treinamento antes de ingressar no campo missionário? Por quanto tempo? Quais os temas abordados no treinamento? Primeiro de tudo, fiz Teologia com a instituição Bethany Fellowship (Teologia e Serviço Social), 4 anos de curso. C.T.M.: Curso de Treinamento Missionário Transcultural por 1 ano, o curso teve como objetivo nos expor à situações que, possivelmente, teríamos de lidar quando chegássemos ao campo de trabalho. Tivemos de liderar e ser liderados, e passávamos por avaliação periódica com os líderes concernente ao nosso comportamento moral, emocional, espiritual e ético, nestas duas condições, como líder e liderado. Logos II: Tem o treinamento chamado Pre-ship training que dá noções básicas de evangelização, usando recursos criativos e também foi bem focado pregar Jesus e não doutrinas denominacionais. 6) Que tipo de serviço executava no programa (trabalho e evangelização)? No Bethany, trabalhei 6 meses na lavanderia, 1 ano na pintura (igreja, prédios, quartos de moradia, envernização de bancos de igreja e pinturas de carrocerias de caminhão), e 2 anos na manutenção (enrolava motores elétricos como bomba de água, motores de corte de ferro, montagem de amplificadores sonoros usados por conjuntos musicais evangélicos); o evangelização era feito todos os finais de semana e mais 2 dias da semana, através de pregação, evangelização porta a porta, peças teatrais e várias formas. Isso ocorria nas praças, igrejas, ruas e em cima de caminhões. C.T.M..... 7) Por que decidiu participar do programa? Ao final do programa, você se sentiu realizada ou algo poderia ter sido feito melhor? Como eu gostaria de trabalhar com o leste europeu, quando eu terminei o CTM, fui convidada para trabalhar no navio como líder de equipes mistas durante o período em que o navio esteve no Brasil em 1991, e quando o navio estava para sair do Brasil o líder de pessoal, Emmanuel Bokker, me convidou para permanecer e no futuro trabalhar com evangelização e foi o que aconteceu. Tudo isso seria um preparo para um período futuro no leste europeu. Sim, me senti realizada, mas, não concluí como gostaria, pois, deixei o ministério por motivo de doença grave. 8) Mantinha contato com família, amigos e igreja? Como? Sim, por carta e telefone e uma vez os pastores da igreja foram me visitar. 9) Ao voltar (no término do programa) houve acompanhamento da OM? Sim, por parte da OM da Alemanha. O Brasil foi sempre muito ausente até no período a bordo, nem o dinheiro que eles recebiam do meu sustento chegava em Mosbach. Inclusive um Line-up me acompanhou até o Brasil e não voltou antes de acertar com meu pastor um suporte objetivo para minha saúde e necessidades básicas. 10) Comente algumas dificuldades durante os anos que participou do programa. A questão de suporte financeiro foi grave, pois muitas vezes não era suficiente. 11) Comente algumas experiências positivas durante os anos que participou do programa. Por exemplo, quando fiquei doente, eu estava em Porto Rico (USA - Porto Rico não fica nos Estados Unidos!) onde você podia ir ao médico somente 3 meses após sua chegada. Eu fui para a UTI 3 dias depois, e o médico que me atendeu me conhecia (ele tinha me visto em uma foto minúscula que a sua atual secretaria havia lhe mostrado, eu tinha trabalhado com ela 7 anos antes e naqueles dias ela era secretaria dele por 5 meses) ele liderou o tratamento e também pagou a conta. Houve muitas conversões, muitos livramentos, conheci muitas pessoas, acho que tudo isso é positivo. Tenho bons amigos / irmãos até hoje. 12) Qual foi a reação das pessoas ao receberem ajuda? As pessoas ficavam alegres, porém se não tivéssemos uma estratégia ao entregar os alimentos, livros e roupas, causávamos brigas e conflitos entre as pessoas. Eles arracam até os bancos dos carros se for preciso para pegar alguma coisa. Muitos nos empurravam, entravam nos carros, agarravam o máximo de coisas que conseguiam e saíam correndo. Todos os países foram assim. Quanta mais necessidade tiver, mais agressivos eles são. É uma mistura de alegria, porém de luta, podendo causar inimizades entre as pessoas. As vezes fizemos até sorteios para diminuir a confusão, mas as pessoas nos pediam para manipular o resultado. 13) Qual foi a reação das pessoas ao ouvirem o Evangelho? Tem pessoa preparada para receber e ouvir o Evangelho e outras não. Mas a situação sempre causou um momento onde a pessoa refletia e ponderava sobre sua vida e princípios. É sempre o Espírito que move, porém nós plantamos as sementes. No Leste Europeu, principalmente na Romênia, tivemos alguns problemas e dificuldades. As crianças estavam sempre abertas, pois queriam algo novo. No entanto, os adultos, por terem suas convicções, não nos aceitavam muito bem. As pessoas arrancavam os cartazes que pendurávamos nas ruas e rasgavam as Bíblias que destribuíamos. Na República Checa uma mulher correu atrás de mim para me atacar, felizmente consegui escapar e me escondi dentro de um chafariz. Um voluntário missionário da OM que estava comigo tentou acalmar a mulher, mas ele o xingou e o agrediu. 14) Você acredita que as pessoas possam ter compreendido sua ação como um ato invasivo? Entre as populações carentes acredito que não. Mas sentimos isso dentro da própria comunidade evangélica das cidades que visitávamos. Eles não nos conheciam e não sabiam quais eram nossas reais intenções e motivações, portanto tinham medo. Muitas vezes não nos informavam dos horários dos cultos ou de como deveríamos nos vestir de propósito, para impedir que trabalhássemos. Na Bolívia as populações carentes tinham um pouco de receio de se aproximar e aceitar nossa ajuda. Porém, em todas as cidades e países que visitávamos, quando aceitavam nossa ajuda, nos agradeciam e nos convidavam para um almoço ou jantar. As vezes as pessoas deixavam de comer para oferecer algo de jantar. 15) Você ou a OM mantém contato com as pessoas para continuar estabelecendo um vínculo? Eu não permaneci em contato, pois como participei por dois anos no navio Doulos, nossa preocupação sempre era de preparar para o próximo porto. Porém, sempre anotávamos o endereço, telefone e e-mail (se fosse o caso) e passávamos para a equipe de “follow-up”. A equipe de “follow-up” se encarregava de entrar em contato com as pessoas e de convidá-las para pequenas reuniões, atividades e ao culto na igreja. Normalmente essa equipe é formada por pessoas da própria cidade que se oferecem a ajudar a OM. Caso tenha uma equipe ou sede da OM na cidade, a OM se encarrega de continuar mantendo contato com as pessoas. 16) Sua visão do mundo e o nosso papel como indivíduos mudou após a experiência na OM? Comente. Definitivamente sim! Primeiro acho que a nossa igreja no Brasil tem uma visão missionária muito errada, os missionários tem que viver como as freiras e padres meio que de migalhas e favores ao mesmo tempo se Deus te chamou, carregue a carga e faça o favor de representar bem a nossa igreja. Definitivamente temos mesmo que nos empenhar em pregar o evangelho, porque nas diferentes camadas existe a certeza de estar servindo a Deus quando na realidade seguem uma filosofia integralmente humana. Outro detalhe é que nossa cultura sabe fazer bem certas coisas, mas, outras são melhores executadas por outras culturas, então, tenho a oportunidade de avaliar e ver o que colocar em prática, o nosso jeito ou o do outro. ENTREVISTADO 6 1) Quantos anos você tinha quando ingressou na OM? Eu tinha 18 anos quando ingressei na OM. 2) De qual programa participou? Para onde foi? E por quanto tempo? Primeiramente participei da conferência annual em DeBron, Holanda, por uma semana. Após a conferência tive um treinamento intensive de três semanas em Mosbach na Alemanha para participar do programa oferecido no Doulos por dois anos. 3) Quais eram seus custos mensais? Precisei de US$400,00 por mês. 4) Quais eram suas fontes de recursos? Recebi 30% de minha ajuda financeira da igreja e o restante de amigos e familiars no Brasil e nos EUA. 5) Houve algum treinamento antes de ingressar no campo missionário? Por quanto tempo? Quais os temas abordados no treinamento? Como citado acima, recebi um treinamento de três semanas. As disciplinas eram variadas e abordavam temas como evangelização criativo (teatro, pantomima, truques com cordas, musica, etc.). Recebemos também treinamento em discipulado, evangelização e teologia. 6) Que tipo de serviço executava no programa (trabalho e evangelização)? Fiz muitas coisas durante os dois anos em que participei do programa. Abaixo consta uma lista de algumas das atividades: A. Pintura B. Controle de estoque dos livros da Biblioteca C. Atendente na Livraria D. Joguei futebol e basquete como uma atividade de evangelização criativo E. Participei nas peças de teatro F. Participei da equipe de bombeiros do navio G. Pregação em igrejas H. Vistamos diversas igrejas e cidades I. Visitas em seminários e universidades J. Trabalhei na sala de motor do navio 7) Por que decidiu participar do programa? Ao final, você se sentiu realizado ou algo poderia ter sido feito melhor? Decidi trabalhar com a OM porque oferecia um programa com dois anos de duração (nem tão longo e nem tão curto) e porque conhecia muitas pessoas da igreja que já trabalharam com a OM antes. Como eu já conhecia os valores e o trabalho que a OM fazia com os navio, me pareceu natural optar por eles. 8) Você mantinha contato com a família, amigos e igreja? Como? Mantive contato apenas com minha família, igreja e amigos que me ajudavam financeiramente. Normalmente por e-mail. 9) Ao término do programa há algum tipo de acompanhamento da OM? Não recebi nenhum acompanhamento após o término do programa de dois anos. 10) Comente algumas dificuldades durante os anos que participou do programa. A maior dificuldade que encontrei foi em Zamboanga, Filipinas. Estávamos em uma área mulçumana e algumas pessoas do navio fizeram alguns comentários desnecessários e maldosos referente ao profeta Mohamed. Em conseqüência (não sabemos quem ou quantos foram) um grupo militar extremista jogou uma bomba no navio durante uma de nossas apresentações. Havia, aproximadamente, mil pessoas na platéia e, felizmente, ninguém da platéia se machucou. Porém, por volta de 35 voluntários do navio ficaram gravemente machucadas e duas moças morreram. Eu fui seriamente ferido, pois pedaços de metal e madeira perfuraram meu pé, costas e coxa direita. Não preciso nem comentar como essa experiência foi traumática, mas Deus me ensinou a importância do Corpo de Cristo e me preparou para seu serviço e ensinamentos. 11) Comente algumas experiências positivas durante os anos que participou do programa. Uma das experiências mais positivas foi a de viver com irmãos e irmãs de diferentes culturas e denominações. Quando participei do Doulos havia aproximadamente 320 pessoas de 35 países diferentes. Eu dividia minha cabine com alemães, holandeses, canadenses, italianos, japoneses, burmeses e filipinos. Foi uma experiência enriquecedora! A maior parte das minhas experiências foram positivas, porém as vezes difíceis. Foi durante meu segundo ano no navio que um dos líderes do navio me confrontou referente à algumas atitudes que eu havia tomado, principalmente sobre meu orgulho. Não foi fácil, mas essa experiência me transformou em quem sou hoje. Também durante meus anos de serviço minha fé se tornou minha. Por ter estudado em um colégio cristão e sido criado por pais cristãos – sempre me basiei no que os outros me diziam, ao invés de buscar a Deus por conta própria. Os dois anos que tive no navio realmente me ajudaram nesse aspecto. 12) Qual foi a reação das pessoas ao receberem ajuda? 13) Qual foi a reação das pessoas ao ouvirem o Evangelho? 14) Você acredita que as pessoas possam ter compreendido sua ação como um ato evasivo? 15) Você ou a OM mantém contato com as pessoas para continuar estabelecendo um vínculo? 16) Sua visão de mundo e o nosso papel como indivíduos mudou após a experiência na OM? Comente. Minha visão da importância do corpo de Cristo mudou com a experiência que obtive no navio. Mesmo sabendo que todos éramos iguais perante os olhos de Deus, eu acreditava que alguns eram mais cruciais para o avanço do reino de Deus. Com os dois anos no navio aprendi que todos são importantes e de que precisamos amar ao próximo como Cristo nos amaria.