UNIVERSIDADE PAULISTA FRANCISCA RODRIGUES KELI GOIS SANTO AMARO O município que virou bairro SÃO PAULO 2012 FRANCISCA RODRIGUES KELI GOIS SANTO AMARO O município que virou bairro Trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de graduação em jornalismo apresentado à Universidade Paulista – UNIP Orientador: Marques SÃO PAULO 2012 Profº Drº Luís Henrique FRANCISCA RODRIGUES KELI GOIS SANTO AMARO O município que virou bairro Trabalho de conclusão de curso para obtenção do título de graduação em jornalismo apresentado à Universidade Paulista – UNIP Aprovado em: BANCA EXAMINADORA __________________________________/_____/_____ Prof. Universidade Paulista – UNIP __________________________________/_____/_____ Prof. Universidade Paulista – UNIP __________________________________/_____/_____ Prof. Universidade Paulista – UNIP DEDICATÓRIA Dedicamos esse trabalho à nossa família por nos apoiar em nossas decisões e a todos os santamarenses que buscam a preservação da história do bairro. AGRADECIMENTOS Agradecemos primeiramente a Deus por ser a base de nossas conquistas e por nos possibilitar a realizar um projeto de tamanha importância; Aos nossos pais por acreditarem e terem interesse em nossas escolhas, apoiando-nos e esforçando-se junto a nós; A todos aqueles que colaboraram para que o documentário se tornasse possível; Ao Profº Drº Luís Henrique Marques por sua extrema dedicação em suas orientações prestadas na elaboração deste trabalho, nos incentivando e colaborando no desenvolvimento de nossas ideias. "Viemos para ficar; Criar nossos filhos, trabalhar! Construir, ombro a ombro, com todos que aqui encontramos, uma grande nação... nossa pátria". (H.M.F. Bremberger) RESUMO A história de Santo Amaro tem início com a chegada dos portugueses João Paes e Suzana Rodrigues, que cedeu uma de suas terras para a construção de uma capela que recebeu a imagem de Santo Amaro, doada pelo casal. A região de Santo Amaro foi, então, elevada à paróquia em 1680 e transformada em freguesia em 1686. Com o passar dos anos, as terras de Santo Amaro passaram a ter grande visibilidade. Muitos colonos alemães foram trazidos para a região e instalados em terras doadas. No ano de 1832, Santo Amaro foi elevado a Vila e se tornou um município independente; tinha sua própria economia, política e mão de obra. Em 1935, um decreto estadual (Nº 6.983) determinou a extinção do município, tornando-o um bairro dentro da cidade de São Paulo. Algumas hipóteses são apontadas para que o município tenha se tornado bairro, uma delas é referente à rivalidade dos santamarenses com os paulistas após a Revolução Constitucionalista de 1932. Outra hipótese apontada para que o município tenha se tornado um bairro, é uma dívida de 500 contos de réis de Santo Amaro com São Paulo, dívida que muitos santamarenses não reconhecem. Palavras-chave: Santo Amaro, Município, Bairro, Cidade, São Paulo ABSTRACT The history of Santo Amaro begins with the arrival of the Portuguese João Paes and Suzana Rodrigues, who ceded their land to build a chapel that received the image of Santo Amaro, donated by the couple. The region of Santo Amaro was then elevated to the parish in 1680 and transformed into a parish in 1686. Over the years, the lands of Santo Amaro started to become visible. Many German settled were brought to the region and installed on land donated. In the year 1832, Santo Amaro was raised to a village became an independent municipality, had its own economic, political and labor. In 1935, a state decree (No. 6983) determined the extinction of the county, making it a neighborhood within the city of São Paulo. Some hypotheses are put forward for the município neighborhood has become, one is referring to the rivalry with the Paulistas santamarenses after a Constitutionalist Revolution of 1932. Another hypothesis pointed that the municipality has become a neighborhood, it is a debt of 500 contos de Santo Amaro in Sao Paulo, santamarenses debt that many do not recognize. Key-words: Santo Amaro, County, District, City, São Paulo SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 10 2 PROBLEMA 12 3 OBJETIVOS 13 4 JUSTIFICATIVA 14 5 REVISÃO DE LITERATURA 16 5.1 Documentário em vídeo como produto jornalístico 16 5.2 Santo Amaro: O município que virou bairro 18 6 METODOLOGIA 23 7 ESTRUTURA DO TRABALHO 24 8 REFERÊNCIAS 26 9 BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA 27 10 ROTEIRO 28 11 ANEXOS 51 INTRODUÇÃO O primeiro registro de ocupação das terras de Santo Amaro se deve a uma missão jesuíta de índios Guaianases chamada “missão de Ibirapuera”. José de Anchieta percebeu em algumas de suas visitas a Santo Amaro que a região contava com um grande número de índios catequizados e colonos instalados. Com isso, era possível constituir um povoado. Após a instalação dos índios, os portugueses começaram a chegar a Santo Amaro. Foi construída no local, em terras dos portugueses João Paes e Suzana Rodrigues, uma capela que recebeu a imagem de Santo Amaro, doada pelo casal. A região foi, então, elevada à paróquia em 1680 e transformada em freguesia em 1686. Com o passar dos anos, as terras de Santo Amaro passaram a ter grande visibilidade. Muitos colonos alemães foram trazidos para a região e instalados em terras doadas, contribuindo, assim, com o crescimento e desenvolvimento econômico do local. No ano de 1832, Santo Amaro foi elevado a Vila e se tornou um município independente; tinha sua própria economia, política e mão de obra. Em 1935, um decreto estadual (Nº 6983) determinou a extinção do município, tornando-o um bairro dentro da cidade de São Paulo. Algumas hipóteses são apontadas para o município tenha se tornado bairro, uma delas é referente à construção do Aeroporto de Congonhas, já que durante a Revolução Constitucionalista de 1932, o governo de Getúlio Vargas procurou locais alternativos para o transporte aéreo em São Paulo. Desse modo, o município de Santo Amaro foi subdividido. Outra hipótese é uma dívida de 500 contos de réis de Santo Amaro com São Paulo, dívida que muitos santamarenses não reconhecem. Com tudo isso, percebemos a importância de Santo Amaro para a história de São Paulo e a importância de esclarecer os motivos pelos quais o município tenha se tornado um bairro. O local possui uma história que ainda é desconhecida para muitas pessoas e, por meio deste video documentário, o público tomará conhecimento do que Santo Amaro representou para a época e o que ele representa hoje. Temos por objetivo promover uma investigação jornalística para conhecer e revelar os reais motivos para que Santo Amaro se tornasse um bairro e deixasse de ser município. PROBLEMA Embora o município de Santo Amaro tenha ocupado quase a metade da cidade de São Paulo e tenha tido uma grande contribuição para a economia e desenvolvimento da capital, sua história é ainda desconhecida por muitas pessoas. O município cresceu e se desenvolveu a ponto de abrigar, além dos santamarenses, muitos estrangeiros, como os primeiros colonos portugueses e alemães e italianos que se instalaram nas terras de Santo Amaro para viver e trabalhar. Com isso, o município se tornou muito importante, já que tinha sua própria política e economia, pois produzia tudo o que necessitava, além de enviar para outras cidades de São Paulo. O que talvez tenha sido um dos motivos para que fosse anexada a capital tornando-se “dependente”. Após a integração de Santo Amaro a São Paulo, muitos santamarenses lutaram pela volta do município, mas foi em vão, já que nenhuma das tentativas foi concretizada. OBJETIVOS Objetivo Principal Produzir um videodocumentário que retrate a importância de Santo Amaro para São Paulo e para todos os santamarenses que buscam preservar a história do local. Contar a história do município e revelar os motivos que o fizeram tornar-se um bairro dentro da cidade de São Paulo. Objetivos Específicos Apresentar a história de Santo Amaro para o grande público que ainda desconhece que Santo Amaro já tenha sido um município independente de São Paulo. Fazer uma investigação e promover uma discussão sobre as razões pelas quais o então município tenha se tornado um bairro, tornando-se assim, dependente da economia de São Paulo. Levantar informações, por meio de entrevistas e documentos, que revelem os reais motivos pelos quais o município de Santo Amaro, que ocupava mais da metade da cidade de São Paulo e tenha perdido a sua autonomia e se tornado um bairro. JUSTIFICATIVA Quando estudamos a história do Brasil, podemos perceber que entre os principais fatos da colonização no país está a fundação da vila de São Paulo. No entanto, não conseguimos identificar nos livros de história o fato que antes mesmo do surgimento da cidade, já existia a aldeia localizada à margem esquerda do rio Jeribatyba (ou Jurubatuba) que, mais tarde, seria elevada à freguesia e, em 1832, se tornaria um município dentro da cidade de São Paulo, ocupando uma parte significativa da capital. A produção de um video documentário que retrata a história de Santo Amaro enquanto município tem grande valor social e cultural por se tratar de um período histórico muito importante que auxiliou no desenvolvimento da cidade de São Paulo. Com o vídeo documentário poderemos difundir e contribuir para a preservação da história, além de servir de referência para outros estudantes e historiadores. A história de Santo Amaro pode ser encontrada em alguns livros sobre o tema, mas não há nada em vídeo. Por isso, o formato de videodocumentário será uma forma de inovar ao contar a história do local. O videodocumentário fará um resgate histórico, contribuindo com a preservação da memória dos santamarenses. Além do valor histórico, um video documentário sobre Santo Amaro tem um grande valor jornalístico, por ser um exercício de pesquisa e investigação que exija uma grande reportagem. Esse gênero do jornalismo permite uma abordagem mais aprofundada do assunto, o que exige maior dedicação e investigação por parte do jornalista. Nesse sentido, temos a pretensão de que este trabalho seja um estímulo e sirva de um pequeno exemplo a outros jornalistas, professores e futuros profissionais dessa área. Um video documentário sobre Santo Amaro tem grande valor jornalístico, já que permite, por meio de entrevistas, pesquisas e documentos, revelar, recontar e esclarecer a história do local. Com o trabalho iremos apresentar ao público uma investigação e uma grande reportagem, que por meio dos depoimentos dos entrevistados, vai dar subsídios ao expectador para que ele tire as suas próprias conclusões referenteas a extinção do município e a anexação a São Paulo. REVISÃO DE LITERATURA O documentário em vídeo como produto jornalístico O documentário é um gênero cinematográfico que tem como principal objetivo explorar e documentar a realidade. O documentário permite que seja feita uma reportagem mais aprofundada. Nesse sentido, o jornalista pode explorar mais o assunto e destacar pontos e dar enfoques diferentes de uma reportagem comum, pois ele pode ir além do factual, do noticiário diário. Podemos dizer que o documentário, assim como o jornalismo, procura contar os fatos de forma objetiva, sem expressar opinião. Porém, o documentário apresenta certa tendência de quem o produziu, ou seja, da visão do autor. O vídeodocumentário pode ser tanto uma obra de ficção quanto uma grande reportagem, feita com entrevistas e personagens reais. “Esses filmes representam de forma tangível aspectos de um mundo que já ocupamos e compartilhamos. Tornam visível e audível de maneira distinta a matéria de que é feita a realidade social, de acordo com a seleção e a organização realizados pelo cineasta” (NICHOLS, 2007, p 26). De acordo com as aulas ministradas pelo professor Ulisses Rocha, nos dias 16 e 23 de agosto e 6 e 13 de setembro, na disciplina Técnicas de documentário, do curso de Jornalismo da Unip-Campus Chácara Santo Antônio, no representação vídeodocumentário, que funcionam podemos como identificar subgêneros: seis poético, modos de expositivo, participativo, observativo, reflexivo e performático. Poético: O modo poético sacrifica as convenções da montagem em continuidade. Esse gênero abstrato explora associações e padrões que envolvem ritmos temporais e justaposições especiais. Este modo de fazer documentário enfatiza mais o estado de ânimo, o tom e o afeto do que as demonstrações de conhecimento ou ações persuasivas. Expositivo: Dirigi-se ao expectador diretamente, com legendas ou vozes que propõem uma perspectiva, expõem argumentos ou recontam uma história. Enfatiza a impressão de objetividade e argumento bem embasado. O tom do narrador se parece com o estilo dos âncoras e repórteres dos noticiários os quais utilizam características como distância, naturalidade e indiferença. Participativo: Neste modo, os documentaristas também vão a campo, vivem entre os personagens e falam sobre suas experiências ou até mesmo representam aquilo que experimentam. O documentário participativo nos dá a idéia do que é para o cineasta estar numa determinada situação e como aquela situação consequentemente se altera. Nele, o cineasta torna-se um ator social, como qualquer outro que aparece no documentário. Observativo: Neste modo, os atores sociais interagem uns com os outros ignorando a presença do cineasta/documentarista. Frequentemente, os personagens são surpreendidos em ocupações urgentes ou numa crise pessoal, que exigem sua atenção, afastando-a da presença do cineasta. Como na ficção, as cenas costumam revelar traços do caráter e individualidade. Nesse modo, tiramos as nossas próprias conclusões, baseadas no comportamento que observamos e daquilo que ouvimos. Reflexivo: Questiona a forma do documentário, tira a familiaridade dos outros modos. Abstrato demais, e acaba perdendo de vista as questões concretas. Performático: Enfatiza aspectos subjetivos de um discurso classicamente objetivo. A perda de ênfase na objetividade pode relegar esses filmes a vanguarda. Esse modo faz o uso excessivo do estilo. O documentarista ou jornalista deve estudar cada forma de produzir um documentário, para ver qual se encaixa melhor a proposta do seu filme, pode também, intercalar alguns gêneros. “Os filmes, considerados individualmente, podem ser caracterizados pelo modo que mais parece ter influenciado sua organização, mas também combinam harmoniosamente os modos, conforme a ocasião”. (NICHOLS, 2007, p 63). Os jornalistas escolhem esse modo para desenvolver seus trabalhos porque têm um espaço maior para trabalhar e explorar as reportagens, já que ele tem um tempo maior para as pesquisas, entrevistas e filmagens. Além disso, o documentário permite ao jornalista fazer uma reportagem em que ele pode ser objetivo, pois pode contar a história por meio dos personagens e narração, sem ser necessária a sua presença. Como estamos tratando de um período histórico, o vídeo documentário nos dá a oportunidade de aprofundar mais a nossa reportagem e tornar a maneira como vamos narrar os acontecimentos mais dinâmica, em que o público poderá assistir a um vídeo, que vai contar de forma aprofundada a história do bairro e todos os acontecimentos importantes da época do centenário de Santo Amaro, 1832- 1932. O nosso videodocumentário será expositivo. As pessoas entrevistadas farão um relato dos acontecimentos. Além do relato dos entrevistados, algumas imagens serão cobertas por uma narração, além de legendas que abordam algumas informações importantes e pequenas introduções para mudar de assunto, como forma de situar o telespectador. Santo Amaro: o muncípio que virou bairro Santo Amaro é hoje um dos bairros mais importantes de São Paulo. Muitas pessoas ainda desconhecem o fato de Santo Amaro existir antes mesmo da cidade e de ter sido no princípio, uma aldeia que abrigava os índios Caiubi, tendo passado para freguesia, depois para a condição de vila até se tornar município. Santo Amaro tinha uma economia independente de São Paulo. Anos depois, mais exatamente em 1935, por meio de um decreto da província de São Paulo, o então município passaria a ser um bairro. O núcleo formado pela igreja da Matriz (hoje, Catedral de Santo Amaro), o Largo Treze de Maio, a Praça Floriano Peixoto, a Casa Amarela (antigas prefeitura e Subprefeitura), e o mercado velho (atual Casa da Cultura do bairro) é testemunha de uma longa história que começa no século XVI com os índios; segue com os jesuítas e bandeirantes, e passa pela colonização portuguesa e alemã e pela independência da região no século XIX, seguido de sua anexação a São Paulo no século XX (ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO, 2012, p 42). Quando fundada, a vila de Santo Amaro era simples e discreta, tinha poucos habitantes e uma economia estável, mas seu território abrangia boa parte do que hoje se subdividiu em diversos bairros espalhados pela Zona Sul de São Paulo. “Encartada com extrema felicidade na própria geografia, Santo Amaro tinha notável os morros do Morumbi, o Rio Jurubatuba e uns campos alegres, puros, intocados, desde os velhos tempos de Ibirapuera...” (ZENHA, 1977, p 5). Santo Amaro passou a ser assim denominado em 1560, quando o casal de portugueses João de Paes e Suzana Rodrigues, vindos há pouco de Portugal, doaram a imagem de Santo Mauro, que mais tarde passou a chamarse Santo Amaro, e que foi abrigado na Capela construída na região, onde hoje é a Igreja Matriz de Santo Amaro “...Suzana Rodrigues casou-se com João Paes, homem que na vida paulista de então desempenhou papel notável. Ambos teriam construído a capela em honra de Santo Amaro e feito a doação da imagem...” (ZENHA, Ibid, p 33). O local teve papel muito importante para a economia e para o desenvolvimento da cidade de São Paulo, pois abrigou em suas terras muitos estrangeiros, como os colonos portugueses e alemães, que passaram a viver nas terras santamarenses, contribuindo com o seu desenvolvimento social e econômico. Os primeiros imigrantes alemães chegaram a São Paulo em 1827, por meio do contrato de colonização com o Império do Brasil, firmado em Bremem. São Paulo não estava preparado para receber esses colonos e pagar-lhes o subsídio estabelecido no contrato de colonização. Assim, os colonos passaram por diferentes locais até chegar a Santo Amaro, local de terras boas para cultivo e plantio, onde se instalaram definitivamente. “(...) o conselho realiza a sessão extraordinária de 12 de fevereiro de 1829 em que fica a colônia instituída, definitivamente, em Santo Amaro...” (ZENHA, 1977, p 78). Instalados nas terras santamarenses, os alemães tiveram um papel importante para o desenvolvimento social e econômico do local. Passaram a substituir o trabalho escravo e a ocupar diferentes cargos, que contribuíram com o desenvolvimento da vila. Em de julho de1832, por meio de um decreto da Regência, a freguesia de Santo Amaro foi reconhecida como município independente de São Paulo. Passou a abrigar cerca de dez mil habitantes, que viviam em uma rotina simples e pacata e que tinham como principal meio de transporte cavalos ou carroças puxadas por carros de boi. Berardi afirma que, na segunda metade do século 19, Santo Amaro teve papel importante para economia de São Paulo “... A vila de Santo Amaro tornou-se o celeiro de São Paulo: todos os gêneros de primeira necessidade, mandioca, milho, feijão, arroz, batatas inglesas, eram comprados dos santamarenses...” (BERARDI, 1969, p. 79). Foi por conta desse quadro que o engenheiro Alberto Kulhmann projetou uma ferrovia que partia da Vila Mariana e passaria por Santo Amaro. A ferrovia foi inaugurada em 14 de março de 1886 e funcionou até 1900, quando seu acervo foi arrematado em leilão pela The São Paulo Tramway Light and Power.1 Logo após a arrematação da companhia, seu patrimônio foi comprado pela Companhia Light, que continuou a explorá-lo até 1913, sendo a linha utilizada para o tráfego de bondes, o qual, no entanto, tinha um trajeto diferenciado da ferrovia. O bonde passou, desse modo, a ser o principal meio de transporte e ligação entre a capital e Santo Amaro. Por conta disso, surgiram muitos sítios e chácaras, que formaram bairros ao redor da estrada, contribuindo para o desenvolvimento social, econômico e urbano de Santo Amaro. Santo Amaro também serviu de berço para muitos artistas e poetas. A localidade abrigou por muitos anos Paulo Francisco Emílio de Sales, o poeta Paulo Eiró, que nasceu quando Santo Amaro já era um município. Paulo Eiró foi uma das principais personalidades de Santo Amaro; teve importância 1 Companhia especializada em geração e distribuição de energia elétrica e os serviços de bondes elétricos em São Paulo. Foi responsável pela contrução da represa do Guarapiranga, Billings e pela retificação do Rio Tietê e Pinheiros. cultural e política para o local, assim como seu pai Francisco das Chagas. O poeta faleceu em 1871, deixando inúmeras obras. Nasceu o poeta e fez-se moço em Santo Amaro, localidade pequena e atrasadíssima, ao tempo em que a própria capital era uma aldeia grande, de vinte e poucas mil almas; pobre, doentio, tímido, viveu até os 25 annos entre difficuldades, trabalhos e soffrimentos [Sic] enlouquecendo naquela idade. Suas obras poéticas ficaram inéditas... (GUERRA, 1932, p. 41) Quando, em 1932, Santo Amaro estava se preparando para comemorar o primeiro centenário como município, recebeu a notícia de que o Estado de São Paulo havia declarado guerra contra o autoritarismo do então presidente da República, Getúlio Vargas, e pelo direito do País a uma nova Constituição. Os santamarenses decidiram então lutar contra Getúlio. Com a vitória de Getúlio sobre os paulistas, este nomeia um interventor para o Estado. Nesse contexto, em 1935, foi decretado que Santo Amaro seria anexado à cidade de São Paulo. Santo Amaro dormiu município e acordou bairro “em 22 de fevereiro de1935, através do decreto 6.988, assinado pelo interventor federal Armando Salles de Oliveira, Santo Amaro foi anexado à cidade de São Paulo” (DURÁN, 2012, p 50). Até hoje alguns santamarenses afirmam que um dos motivos para que o município de Santo Amaro deixasse de existir seria a rivalidade dos paulistas e moradores do antigo município, devido às batalhas durante a Revolução de 1932. Mas o argumento utilizado pelo governo para a anexação foi que Santo Amaro devia 500 contos de réis ao Tesouro do Estado. Alguns santamarenses, insatisfeitos, organizaram várias tentativas de emancipação, como aconteceu em 1957 e também em 1985, ambas fracassaram. Ainda insatisfeitos com a anexação de Santo Amaro à capital, os santamarenses foram às urnas em plebiscito sobre a emancipação. No entanto, dos 60.383 moradores que votaram, 56.232 rejeitaram a proposta, em 15 de setembro de 1985... (DURÁN, 2012, p. 54). Após a anexação os 640 quilometros quadrados que pertenciam a santo Amaro foram divididos em bairros, hoje são 15 subdistritos (Campo Grande, Campo Belo, Itaim Bibi, Cidade Ademar, Pedreira, Campo Limpo, Capão Redondo, Vila Andrade, Jardim Ângela, Jardim São Luís, Socorro, Cidade Dutra, Grajaú, Parelheiros e Marsilac) que passaram a existir nas terras que um dia pertenceram ao município. METODOLOGIA A produção deste trabalho teve início com a concepção e elaboração deste mesmo pré-projeto, o qual implicou as primeiras pesquisas a respeito do tema. Já para a construção do videodocumentário propriamente dito faremos pesquisas bibliográficas e documentais, que nos ajudarão a compor o material para a elaboração das pautas, com perguntas específicas para cada entrevistado, realizaremos entrevistas com santamarenses que viveram alguma época do período citado, assim como famílias tradicionais em Santo Amaro e pessoas de alguma forma envolvidas com a história e a cultura do local. Contaremos com o auxílio especial de um historiador e do CETRASA (Centro das Tradições de Santo Amaro), que irá nos fornecer documentos e materiais da época. Fontes: Adelino Ozores – Jornalista e coordenador da Casa de Cultura de Santo Amaro Adozinda Kuhlmann – Professora e moradora do bairro neta do engenheiro Alberto Kulhmann Alexandre Moreira Neto – Presidente do CETRASA (Centro das Tradições de Santo Amaro). Carlos Fatorelli – Historiador Daniela Rothfiss – Coordenadora do Arquivo Instituto Martius Staden Henrique Novak – Jornalista e santamarenses que luta pela preservação da história e da cultura do local. Inez Garbuio Peralta – Historiadora e professora Roberto Pavanelli – Advogado e Santamarense ESTRUTURA DO TRABALHO O projeto será veiculado por meio de um videodocumentário que terá duração aproximada de 35 minutos, dividido em 23 cenas sendo elas feitas em locais internos e externos, seguindo uma sequência cronológica em que vários personagens contarão a história do município de Santo Amaro no período de 1832 a 1935. O gênero escolhido é o documentário expositivo, em que os personagens contarão a história por meio de narrações, fotografias e documentos. Os personagens farão um relato, que acaba aproximando o espectador. As cenas contam com os seguintes entrevistados: • Adelino Ozores – Já desenvolveu trabalhos acadêmicos sobre a primeira ferrovia que ligava Santo Amaro a São Paulo. Ele falou sobre a ferrovia e como ela contribuiu para o desenvolvimento do município. • Adozinda Kuhlmann – professora (aposentada de 95 anos) moradora do bairro, cujo avô engenheiro Alberto Kuhlmann foi quem projetou a primeira ferrovia do município, a qual ligava Santo Amaro a São Paulo. Adozinda fez um recorte do engenheiro e da importância da ferrovia para a época. • Alexandre Moreira Neto – Presidente do CETRASA (Centro das Tradições de Santo Amaro). Nascido em Santo Amaro, Dr. Alexandre cresceu ouvindo histórias do município. • Carlos Fatorelli – Historiador, participante assíduo do CETRASA (Centro das Tradições de Santo Amaro). Fatorelli tem um blog que entre seus principais temas está a história de Santo Amaro, principalmente sobre a colônia alemã no antigo município. http://carlosfatorelli27013.blogspot.com • Daniela Rothfiss – Coordenadora de arquivo do Instituto Martius Staden, coordena todo o material bibliográfico sobre a colonização Alemã no Brasil. Daniela falou sobre a colonização Alemã em Santo Amaro. • Henrique Novak - Jornalista e santamarense que trabalhou em alguns dos principais jornais de Santo Amaro, como “A tribuna”. Durante muito tempo escreveu sobre os principais acontecimentos do bairro. Henrique procura preservar e resgatar a memória de Santo Amaro enquanto município. • Inez Garbuio Peralta – Historiadora e professora universítária. Está escrevendo um livro sobre o período em que Santo Amaro foi um município (1932-1935). O livro será baseado nas atas da Câmara de Santo Amaro na época. Seu livro contrapõe todas as afirmações encotradas nas bibliografias dos santamarenses. • Roberto Pavanelli - Advogado e santamarense apaixonado, contou a história do bairro e falou sobre a tentativa de emancipação de Santo Amaro, que aconteceu no ano de 1985. As pessoas descritas acima foram os entrevistados e os personagens que ajudaram na construção do documentário. Porque eles fazem parte da história do local, pois têm familiares que fizeram parte da história ou desenvolvem estudos sobre o antigo município. Buscamos construir a estrutura do documentário com informações como cultura, política, relatos pessoais e economia da época. Os especialistas do documentário são o historiador Carlos Fatorelli, que tem publicações relacionadas ao bairro e sua história, e a professora e historiadora Inez Peralta, que está escrevendo um livro sobre o município de Santo Amaro, que contrapõe todas as bibliografias de Santo Amaro. As informações dos especialistas foram tomadas como ponto de partida para a construção e realização do documentário. REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SANTO AMARO. Santo Amaro: Jubileu de Ouro da Distrital Santo Amaro da Associação Comercial de São Paulo. São Paulo: Associação Comercial de São Paulo Distrital Santo Amaro, 2012. BERARDI, Maria Helena Petrillo. Santo Amaro, memórias e histórias: da botina amarela ao chapéu de couro. São Paulo: Scortecci, 2005. NICHOLS. Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus, 2007. ZENHA, Edmundo. A vila de Santo Amaro. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1977. BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA ALMANAQUE comemorativo do 1° centenário do municípi o de Santo Amaro, 1932. BERARDI, Maria Helena Petrillo. Histórias do bairro de São Paulo. São Paulo: Departamento de Cultura, 1969. LUIZA, Maria. A cidade de São Paulo: Povoamento, população. São Paulo: Pioneira, 1973. PAULISTÂNEA – O IV centenário da fundação de Santo Amaro. São Paulo: 1932. ZENHA, Edmundo. A Colônia Alemã de Santo Amaro: sua instalação em 1829. São Paulo: In Revista do Arquivo v. CXXXI. Departamento de Cultura, 1950. ROTEIRO “SANTO AMARO: O MUNICÍPIO QUE VIROU BAIRRO” VÍDEO ÁUDIO T1 Imagem: Musica Santo Amaro – Andréa Souza Igreja Matriz de Santo Amaro T2 Título do filme: Santo Amaro: O município Musica Santo Amaro – Andréa Souza que virou bairro T3 Imagem: Praça Floriano Peixoto Musica Santo Amaro – Andréa Souza Legenda: Quando tudo começou... T4 Imagem: Locução ao Vivo: “Santo Amaro é Santo Mauro na verdade, Sala de reuniões do Cetrasa: Alexandre né? Era um abade, criado por São Bento, um discípulo de São Bento, protetor da Moreira Neto agricultura. Legenda: Alexandre Moreira Neto E também tem duas teses: uma que a Pres. Cetrasa Suzana Rodrigues e o marido teriam trazido de Portugal quando vieram com Martin Afonso, e eles teriam fundado o sítio de Santo Amaro e depois aí doado a imagem para o Anchieta. Em 1832, um cidadão que ninguém fala muito dele, Antônio das Chagas, mais conhecido como Chico Doce, autodidata, falava três idiomas, lecionava, antes de existir escola ele já lecionava, e ele é pai do Paulo Eiró, e que resolveu brigar para que Santo Amaro fosse Vila”. T5 Imagem: Biblioteca Belmonte: Inez Peralta Legenda: Inez Peralta Historiadora Locução ao Vivo: “Um grupo de pessoas, entre os quais o pai do Paulo Eiró, o Francisco das Chagas, criou uma movimentação e foram falar, esse grupo e outras pessoas também, não é? Parece que havia dois grupos, não é? Foram falar com o representante da província, a província de São Paulo, os deputados, para que Santo Amaro fosse elevado. A discussão vem antes de 32, né? Foram alguns anos de insistência, dizendo que o município era muito importante, a freguesia, que não era município ainda, que era muito importante, que era rica e que tinha um papel significativo e aí convenceram não é, os deputados a levarem o projeto e aí foi aprovado o projeto”. T6 Locução ao Vivo: Imagem: “Em 1932, 33, não sei exatamente a data, o aldeamento aqui em Santo Amaro tinha crescido muito. E aí a exemplo dos outros municípios da grande São Paulo, aqui se tornou independente, tonando-se um município, com a criação da Câmara municipal, e aí teve sua vida, assim, que queria um desenvolvimento muito grande. Desenvolveu de tal forma que isso acabou Escritório Roberto Pavanelli Legenda: Roberto Pavanelli Advogado gerando um certo ciúmes da capital de São Paulo, porque num determinado momento, Santo Amaro chegou até a responder por 40% de todo o movimento de São Paulo inteiro. E acabou perdendo a condição de município em 1935, exatamente pelo progresso que obteve, porque a região de Santo Amaro tinha uma extensão muito grande. Fazia limites lá com o ABC, englobava Embu-Guaçu, Itapecerica, fazia limite, o município fazia limite na parte Leste com o Litoral de São Paulo, com Itanhaen. E essa grandiosidade toda acabou por sufocar Santo Amaro a ponto de perder a condição de município”. Locução ao Vivo: T7 Imagem: Biblioteca Belmonte: Inez Peralta “Quando Santo Amaro foi elevado a município, em 1832, outras cinco freguesias foram elevadas a município, entre elas Araraquara, Capivari, Santa Isabel, Paraibuna, e aí outros. Desses municípios eu comparei, no começo, neh? Por volta de 1835, 36, por aí, não comparei, em 1924, mas comparei lá em 1835, 1840, por aí, e vi que a renda de Santo Amaro, do município de Santo Amaro era menos de 50% da renda dos demais municípios. E isso leva a gente a uma questão: se a renda do município é tão pequena, comparativamente aos demais, por que Santo Amaro foi elevado a município? Eu acho que essa é uma grande questão que a gente tem que descobrir. Esses outros municípios, por que eles avançaram? Porque em 1840, 50, aí, São Paulo está começando a produzir café, São Paulo produz café, e esses municípios eram regiões de produção de café, então você vê que a renda desses municípios, ela sobe bastante, enquanto que a de Santo Amaro não. Santo Amaro tem uma dificuldade financeira muito grande, tanto é que para canalizar água é anos e anos e anos, até conseguir alguma coisa. As rendas, o balanço era sempre, o saldo era muito pequeno e não fazia uma série de benefícios que deveriam ser feitos. A verba, o que se pagava pra secretário, porteiro, enfim, procurador, era quase 50% da renda do município, então era um município relativamente pobre, muito pobre. Em 1833, finalmente é instalada a Câmara, onde é instalada a Câmara? Numa sala da igreja, eles não tinham o lugar adequado para se instalar uma Câmara. É instalada numa sala da igreja e pelo regulamento das Câmaras de 1828, uma vila, porque Santo Amaro é vila, não é município, é cidade, Santo Amaro, em 1833, quando é instalada a Câmara, o poder, que aí nessa época é o poder legislativo e executivo, não existia o judiciário, ela deve ter seis vereadores. O Francisco das Chagas ao ficar presidente da Câmara, e, se você acompanhar as reuniões, você vê que há uma ausência constante de muitos vereadores, não é? E pelo regimento de 1828, o regimento das Câmaras, a Câmara só pode funcionar, só pode ter seção com 50% dos vereadores, e uma boa parte das seções não tinha 50% dos vereadores. E o Francisco das Chagas está lá, toda a seção tá o Francisco das Chagas presente. Chega uma hora ele tá tão cansado de tudo isso, e ele chega numa sessão e ele faz uma proposta louca, né? Ele propõe que se faça um ofício para a província, para os poderes da província para que Santo Amaro deixe de ser município. Olha, isso pegou todo mundo de surpresa, neh? Os vereadores que estavam ficaram horrorizados e votaram contra e tal, e aí ele nunca mais fez essa proposta, neh? Mas uma outra vez, um outro vereador fez essa proposta e não foi a primeira vez, porque eles não iam pra Câmara. Por que eles não iam para a Câmara? Diferentemente dos nossos dias, os vereadores não tinham salário e nem ordenado, que chamava ordenado antigamente, eles não tinham ordenado, mas eles eram multados se não comparecessem, e é por isso que os vereadores precisavam ser os chamados homens bons, aqueles homens que tinham uma renda, porque o serviço de vereança era um serviço gratuito. Então ele desestimulado de tudo faz essa proposta. Mas aí ele volta atrás, ele continua lutando, ele é um homem, a meu ver, o Francisco das Chagas, no começo de Santo Amaro é um homem público, que assume realmente aquilo, muitas vezes paga contas da Câmara com o dinheiro dele, porque ele era professor, enfim, ele tinha uma verba, e ele assume as finanças da Câmara”. Música Sidewalk –ÁudioNautix T8 Imagem: Terras de Santo Amaro Legenda: Aqui chegaram os Alemães... Locução ao Vivo: “Os primeiros Alemães chegaram à cidade de São Paulo em fevereiro de 1828, eles T9 foram alojados em um hospital militar na Chácara Bento Santo André, que fica em Imagem: Santo Amaro. Lá, o pessoal ficou mais ou Biblioteca Instituto Martius-Staden: Daniela menos um ano, até junho de 1829, até Rothfuss finalmente receberem os lotes lá na colônia. Legenda: Daniela Rothfuss Coord Inst Martius Staden Pelo que nós sabemos eram mais ou menos entre noventa e cem famílias que participaram do sorteio, mas não sabemos o número exato de quantas famílias no final se mudaram lá para a colônia. Nós sabemos que hoje em dia ainda moram lá dezoito famílias, os nomes mais comuns dessas famílias Alemãs são família Hessen, Reimberg, Rocumback, Hannichel, Gilgers, Zillig, Shunk, esses são os nomes mais comuns ainda da região”. T10 Locução ao Vivo: Imagem: “Em todos os anais da Subprefeitura, Biblioteca Instituto Martius-Staden: Carlos quando a gente pega algum documento, há sempre um sobrenome Alemão. Por Fatorelli exemplo, os Gilgers, que nós Legenda: Carlos Fatorelli santamarenses chamamos de Gilgers. Então essa relação do nome, mas eles Historiador tiveram participação ativa dentro de Santo Amaro, porque Santo Amaro era um interior, e quando os Alemães vieram pra cá era mata virgem e eles tiveram que se resolver”. Locução ao Vivo: “Pelo que nós sabemos, na Alemanhã foi prometido para os imigrantes que cada um receberia 400 morgan, que é mais ou Imagem: menos 100 hectares. Só que quando o Biblioteca Instituto Martius-Staden: Daniela pessoal chegou aqui o termo morgan foi Rothfuss traduzido com braços e 400 braços seriam mais ou menos mil e setecentos metros quadrados ou mil e oitocentos metros quadrados, por causa disso ficou uma confusão muito grande. O pessoal primeiro não queria aceitar os lotes. T11 A colônia era a única região que produziu batatas na época. Mais tarde, os colonos possuiram cerradeiras e forneceram madeiras e carvão de madeira para Santo Amaro e para a cidade de São Paulo. Nós sabemos, mais ou menos, que em 1830, aproximadamente 100 famílias ainda estavam morando em Santo Amaro. Em 1852, havia só 36 famílias. Isso significa que mais do que 60 famílias deixaram Santo Amaro. E sabemos que muitas famílias se mudaram para Itapecerica da Serra, para Itú, Rio Negro, Cubatão e em outras cidades no interior de São Paulo e no Paraná. Como a colônia é muito afastada de São Paulo e até de Santo Amaro, os colonos se intregaram muito rápido na sociedade e conviveram lá com os caboclos da região, isso mais tarde, no começo do século vinte os alemães lá da região foram chamados de " os caboclos loiros". O que aconteceu é que já na terceira geração se perdeu o idioma, a tradição e cultura alemã. A maioria dos imigrantes eram luteranos, então provavelmente mais que 80% eram luteranos e só 20% eram católicos. Esses luteranos, a igreja católica não liberou o casamento na igreja católica, nem o batismo, nem o enterro no cemitério, então os luteranos, nos primeiros anos não conseguiram casar e mais tarde fizeram um contrato no cartório civil, um contrato de casamento. Sabemos que mais ou menos em 1840 foi construido o primeiro cemitério lá em colonia, mas antes o pessoal tinha que trazer os corpos para Santo Amaro ou provavelmente enterrar em suas próprias terras. Uma pessoa que se destacou mais tarde é o engenheiro Alberto Kuhlmann”. Locução ao Vivo: T12 “Esse é o Alberto Kuhlmann e a vovozinha que se chamava Josefina. Ele era um engenheiro, e ele veio pra cá pra São Paulo, e houve um tempo em que eles Imagem: Casa Adozinda Kuhlmann Legenda: Adozinda Kuhlmann Professora residiram em Santo Amaro, e aí ele que fez então a estrada de ferro que saia da Vila Mariana, e a Vila Mariana tem o nome por causa de uma prima dele que se chamava Mariana, então saia de Vila Mariana a estrada de ferro a aí que veio aqui pra Santo Amaro”. Música Sidewalk –Áudio Nautix T13 Imagem: Ferrovia de Santo Amaro Legenda: O projeto de Kuhlmann... Locução ao VIVO: T14 Imagem: Casa Adelino Ozores Legenda: Adelino Ozores Jornalista “A história da estrada de ferro de Santo Amaro tem o seu inicio lá em 1890, mais ou menos, ou em 1880, até um pouco antes, com a chegada, ali na Vila Mariana, dos primeiros matadouros. Foi criado um primeiro matadouro numa área mais central e eles criaram um caminho até a Vila Mariana, em torno de uns três quilômetros, e naquela época, eles levavam a carne dali do centro de São Paulo ainda por trilho, mas puxado a tração animal, um trabalho feito, puxado por burros, e eles levavam esse material. Em 1800, mais ou menos, em 1883, eles colocam ali a primeira máquina a vapor e começa a fazer esse pequeno trajeto, um pouco mais depois disso, nessa época também ficou assinado um acordo para se construir o primeiro matadouro ali na Vila Clementino, onde hoje funciona a Cinemateca, que as pessoas conhecem a Cinemateca, ali era o antigo matadouro, e aquele matadouro foi o que começou a trazer a história pra se criar a estrada de ferro para Santo Amaro. A estrada de ferro de Santo Amaro tem inicio em 1890 mais ou menos, ou 1880, até um pouco antes, com a chegada ali na Vila Mariana, dos primeiros matadouros. Foi criado o primeiro matadouro numa área mais central, e eles criaram um caminho para a Vila Mariana, em torno de uns três quilômetros, e naquela época eles levavam a carne para o centro de São Paulo ainda por trilho, mas puxado a tração animal, era um trabalho feito puxado por burros e eles levavam esses materiais. Mais ou menos em 1883, eles colocam ali a primeira máquina a vapor e começa a fazer esse pequeno projeto. Um pouco mais depois disso, nessa época também ficou assinado um acordo para se construir o primeiro matadouro ali na Vila Clementino, onde hoje funciona a Cinemateca, para as pessoas que conhecem a Cinemateca, ali era o antigo matadouro, e aquele matadouro foi que começou a trazer história pra se criar a estrada de ferro até Santo Amaro. Quando se criou aquele matadouro ali na Vila Clementino, esse matadouro foi construído pelo engenheiro Alberto Kuhlmann, ele veio para o Brasil, e foi feito o projeto e ele começou a construir o matadouro da Vila Clementino, e começou a fazer toda essa obra, e enquanto ele fazia essa obra, abriu-se uma licitação naquela época pra se construir uma linha para ligar Santo Amaro, e o Alberto Kuhlmann como era um visionário, era um homem, um engenheiro, que veio para o Brasil pra descobrir e fazer a América, como eles falavam na época, que era pra eles poderem crescer aqui e fazer todo o seu trabalho, ele viu como uma grande oportunidade fazer essa ligação, e ele entrou nessa licitação e ganhou. E então o engenheiro Alberto Kuhlmann, que depois acabou se tornando até deputado pelo Brasil, um dos primeiros deputados estrangeiros que teve que se naturalizar brasileiro, inclusive, pra poder, e ele acabou entrando para o cenário político e vindo fazer todo esse trabalho aqui de Santo Amaro. Ele voltou para a Alemanha pra ir buscar na época, uns empreendedores para trazer para o Brasil, mas ele acabou ficando maravilhado com a sua própria terra que ele não via há muito tempo, que acabou ficando por lá, e acabou morrendo lá. Esse trem que veio ligar Santo Amaro e ampliou aqueles primeiros 700 metros que tinha, depois três quilômetros, aí se ampliou em mais treze quilômetros, deram um total de quase 20 quilômetros entre a cidade e a estação São Joaquim, um pouco mais pra frente, depois ele foi até o centro, e chegando aqui até Santo Amaro. Foi feito pela, eles montaram a empresa chamada Ferro Carril, essa empresa chama Ferro Carril São Paulo Santo Amaro, e essa empresa teve a incumbência de fazer essa ligação de toda a parte de mercadorias que eram produzidas aqui em Santo Amaro pra se levar pra cidade de São Paulo, e a partir dali começou todo esse trabalho. Santo Amaro mandava muita mercadoria pra lá, pedras, comida, gado também. A ferrovia começa um grande movimento, um grande progresso começa movimentar Santo Amaro, e movimenta tanto, e Santo Amaro começa a crescer tanto que a partir de 1887 é construído o primeiro mercado municipal em Santo Amaro no antigo prédio, ali na João Dias, que era o caminho também onde passava a boiada que ia pro matadouro, e dali também eles acabavam do matadouro saindo, eles acabavam trazendo as carnes pra estação onde hoje é o colégio Lineu Prestes, era o pátio de manobras onde ficava, e a estação de carga também ficava ali, então dali partia toda a nossa mercadoria, a nossa carne pra Vila Clementino, onde ficava estocada lá no matadouro, ou pela a cidade de São Paulo para abastecer a cidade toda, daí os cereais, toda a mercadoria que vinha do grande cinturão verde de Santo Amaro, claro que vinham mercadorias, que vinham de Itapecerica da Serra, de Taboão, lá de Parelheiros, quer dizer, essa região que era muito rica em plantação, em cultivo, em extrativismo, e que acabava trazendo essa mercadoria que era negociada nesse mercado, e desse mercado saia por trem, ou por lombo de burro que seguia pra São Paulo e acabou alimentando São Paulo. E o trem vai até mais ou menos em torno de 1900, quando começa a haver uma transição. A Light vem pro Brasil e começa a desenvolver todo um trabalho aqui na região e, inclusive já pensar em construir a represa de Guarapiranga, essas outras, pra poder fazer a transformação do rio e criar a usina Henry Borden, que faz toda a iluminação da Baixada Santista”. Música Sidewalk –Áudio Nautix T15 Locução ao Vivo: Imagem: “A construção da represa fez com que a expansão de São Paulo acabasse com Santo Amaro, uma hipótese é essa. Uma outra hipótese é que Santo Amaro teria feito uma política de oposição a São Paulo, e principalmente em duas ocasiões, em 1932, e portanto, teria atraído, vamos dizer assim, a má vontade de São Paulo para com o município, e aquela que foi alegada pra extinção do município que é a dívida de Santo Amaro. Santo Amaro Legenda: Santo Amaro vira bairro... T16 Imagem: Biblioteca Belmonte: Inez Peralta Então dessas hipóteses, eu acho que ninguém chegou ainda a explicar, com uma explicação convincente, qual delas teria atuado. Eu estou caminhando por uma hipótese: que realmente Santo Amaro não é um município rico, estou em 1924, e até 1924 eu posso afirmar que Santo Amaro não é um município rico. Tanto é que em 1917, Santo Amaro pede emprestado 60 contos de réis quando o orçamento de Santo Amaro era 90 contos de réis, aproximadamente. E pra pedir 60 contos de réis, um município que tem um orçamento de 90 contos de réis é um negócio complicado. Quer dizer, tá comprometendo toda a renda do município. Então a meu ver, essa hipótese é bastante razoável até a época que eu cheguei, em 1924, eu acho que é realmente um município pobre. Santo Amaro tem dívida interna. Santo Amaro, a câmara pede dinheiro emprestado pra várias pessoas. E há uma grande dívida que vai sendo paga aos poucos, que é uma dívida da iluminação pública, que dizer, tem uma dívida muito grande com a Light”. Locução ao Vivo: “Santo Amaro faria 100 anos de emancipação política no dia 10 de julho de 1932. E Santo Amaro estava em festa há uma semana, festa pra ninguém botar defeito. T17 Então, no dia 9 vem a notícia, era um domingo, vem a notícia que São Paulo ecludiu a revolução pedindo a constituição. Imagem: Sala de reuniões Moreira Neto Cetrasa: Alexandre Acabada a revolução, o amistício foi em 4 de outubro de 1932. Em 1933 nós tivemos o primeiro choque. O senhor Armando Sales de Oliveira decretou que a prostituição viesse para Santo Amaro e pro bairro do Socorro, que era um bairro ítalosuiço, cheio de chalézinho e tal, principalmente a margem do paredão da represa e virou um Deus nos acuda. Isso foi a primeira. A segunda paulada, invetaram que Santo Amaro devia um dinheiro pra a Sabesp, a Sabesp na epoca não era Sabesp, era DAE – Departamento de Águas e Esgotos. Como que Santo Amaro devia, se Santo Amaro abriu mão da canalização de água passar por dentro do bairro, economizando doze quilômetros de extensão? Como é que o município podia dever? Eu nao consegui entender até ontem, pode ser que a partir de hoje eu entenda, mas arrumaram essa dívida e caçaram Santo Amaro. Anexaram á capital de São Paulo, em fevereiro de 1935” . Música Sidewalk – Áudio Nautix Locução ao Vivo: T18 “Em 1957, exatamente no dia 15 de abril, dia de Paulo Eiró, na Rua Voluntário Imagem: Emancipação Legenda: As tentativas de emancipação... T19 Imagem: Biblioteca Belmonte: Henrique Novak Legenda: Henrique Novak Jornalista Delmiro Sampaio, 92, na sede da Associação Comercial, numa reunião que durou quatro horas, com a presença da nata do empresariado e dos profissionais liberais de Santo Amaro, foi constituído o movimento autonomista de Santo Amaro. Esse movimento refletia o pensamento da maioria dos empresários que viam no crescimento econômico e social de Santo Amaro, uma oportunidade de expansão dos seus negócios, e viam que a autonomia de Santo Amaro poderia trazer reflexos, benefícios e vantagens para a sua atividade. E foi com esse pensamento que a Associação Comercial estimulou fortemente o movimento autonomista” Locução ao Vivo: T20 “Eu não sei se foi um movimento autonomista, sabe? Eu acho que, eu não sei se abalou tanto os jornais, a mídia como um todo. Como, legalmente pra um município deixar de existir é preciso que haja um plebiscito, então a alegação do santamarense é que não tinha ocorrido esse plebiscito, e que então, discutem para que haja esse plebiscito, a aí em 1985 é feito esse plebiscito. Imagem: Biblioteca Belmonte: Inez Peralta Olha, eu não vi uma grande movimentação, e eu morava em Interlagos, relativamente perto, e eu não vi uma grande movimentação. Alguns se exaltaram, poucos, os antigos santamarenses, mas não era, um, a maioria dos santamarenses não queria que Santo Amaro voltasse a ser município”. Locução ao Vivo: “A questão da busca pela emancipação de Santo Amaro, ela se deve, é um inconformismo que tem o santamarense de ter perdido a categoria de município e voltado a bairro de São Paulo num dos atos mais traiçoeiros do governo estadual e que o santamarense até hoje não se conforma com isso. T21 Imagem: Então, a partir de 1935, sempre houve movimentos em prol da emancipação, do retorno de Santo Amaro a município. Escritório Roberto Pavanelli E a questão do plebiscito de 1985, eu não sei se foi bom ou se foi ruim, porque na verdade aquilo se deu quando o movimento de alguns grupos políticos de Santo Amaro, cuja intenção a gente não conseguiu atingir lá no ano da coisa, se eram todos bem intencionados, ou muitas vezes nem tanto, não sei. Então, não existe uma avaliação, pelo menos de minha parte se foi bom Santo Amaro continuar bairro de São Paulo, ou se Santo Amaro teria sido melhor como município. E já em 85, Santo Amaro perdia o potencial econômico por conta de uma série de indústrias, que estabelecidas aqui na região do Jurubatuba foram saindo para o interior de São Paulo, e na medida em que São Paulo mudava a sua cara de produtor industrial para prestador de serviços como é hoje, Santo Amaro foi perdendo o poderil econômico. Mas Santo Amaro já respondeu por 40% e toda arrecadação de São Paulo, de forma que seria um município muito forte. Perdeu o plebiscito porque o grupo contrário a esse plebiscito acabou fazendo a cabeça dos eleitores dizendo que isso ficaria muito caro para o santamarense porque pagaria a ligação interurbana, o ônibus seria interurbano, e com isso, deuse uma ideia errada para as pessoas, que acabaram votando aí, 90% do não para que Santo Amaro continuasse bairro”. Locução ao Vivo: “O movimento autonomista não teve sucesso! O povo não foi suficientemente informado, motivado e levado a aceitar a ideia da autonomia como algo bom e interessante para Santo Amaro. T22 Imagem: Biblioteca Belmonte: Henrique Novak A população, então composta em grande parte de migrantes vindos de outras regiões do país, que vinham pra São Paulo em busca de emprego, e que se instalaram em Santo Amaro pelas facilidades imobiliárias, que Santo Amaro estava oferecendo com muitos loteamentos baratos, facilitando a posse de terra, inchou a população de Santo Amaro, que, no entanto, dentro do movimento autonomista não tinha nenhuma identificação com esses ideais cívicos e políticos. Os botina amarela, que seriam os eleitores eram um número reduzido e menor e que não aceitaram a ideia da autonomia, sendo até que muitos deles eram totalmente contrários ao princípio de autonomia. Então essa divisão de opinião realmente resultou no fracasso, e que acabou deixando durante 27 anos essa ideia numa espera, pra uma oportunidade que surgiu em 1985, por um novo movimento, quando na realização do plebiscito novamente Santo Amaro foi derrotado, quando dos 60 mil votantes, apenas 56 mil votaram contra a ideia da autonomia, apenas 4 mil aceitaram a ideia de retorno da autonomia. A Partir desse momento o sonho autonomista de Santo Amaro ficou enterrado pra sempre”. Música Santo Amaro – Andréa Souza T23 Imagem: Santo Amaro que te quero Depoimento Santamarenses Créditos Finais: Roteiro e produção Francisca Rodrigues Keli Gois Cinegrafistas Francisca Rodrigues Keli Gois Arte Raquel Correia Márcio Cruz Edição de som Márcio Cruz Edição e finalização Francisca Rodrigues Keli Gois tanto – Márcio Cruz Direção Geral Francisca Rodrigues Keli Gois Trilha sonora Santo Amaro- Andréa Souza Áudio Nautix Imagens Instituto Martius-Staden Carlos Fatorelli A fotografia como concepção histórica Acervo Eletropaulo Entrevistados Adozinda Kuhlmann Alexandre Moreira Neto Adelino Ozores Carlos Fatorelli Daniela Rothfiss Gilberto Natalini Inez Peralta José Calazans Henrique Novak Lourenço Miranda Borba Maria do Carmo Nadaes Roberto Pavanelli Roberto Costa Paulo Aguiar Agradecimentos Adilson Araújo Andréa de Souza Biblioteca Belmonte CETRASA - Centro das Tradições de Santo Amaro Ednéia Keller Gazeta de Santo Amaro Instituto Martius-Staden Jomar Santos Joseli Medeiros Maria Aparecida Weber Maria do Carmo Pedroso Mariela Carmo Norma Pseig Paço Cultural Júlio Guerra Raquel Correia Márcio Cruz Gildo Mendes Jairo Nascimento Edson Dias Thiago Bronzoni Homenagem Póstuma Maria Helena Berardi