DESENVOLVIMENTO DE UM MOTOR A COMBUSTÃO INTERNA ROTATIVO COM DESLOCADORES DE VELOCIDADE ANGULAR VARIÁVEL E MECANISMO INOVADOR Hugo Julio Kopelowicz1, Red Duenas Jiménez2 e José Alberto Reis Parise2 1 2 Dalvic Comércio e Indústria Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro E-mails: [email protected], [email protected] , [email protected] RESUMO O presente trabalho apresenta um inovador motor a combustão interna rotativo com ignição por centelha. Neste motor, quatro deslocadores (que fazem o papel de “pistões”) giram concentricamente em um espaço circular de seção reta retangular (“cilindro”), a velocidade angular variável, de tal forma que quatro espaços (volumes de controle) de volume variável são criados entre eles. Dois eixos concêntricos são acionados, cada um, por um par de deslocadores opostos. Um mecanismo inovador é responsável por impor velocidades angulares variáveis a cada um dos eixos concêntricos e, consequentemente, a cada par de deslocadores opostos. O mecanismo também oferece a possibilidade de um controle efetivo da taxa de compressão do motor. Um protótipo foi construído e procede-se atualmente a ensaios preliminares, com e sem ignição, com o motor sendo acionado eletricamente. INTRODUÇÃO Investigações com relação a novos motores a combustão, e seu desenvolvimento, têm ocorrido sistematicamente, na academia ou em empresas, visando possíveis aplicações específicas, principalmente na indústria automotiva. De um modo geral, os motores rotativos, se comparados com motores alternativos convencionais, apresentam menor índice de emissão de ruídos, menor vibração, e são mais compactos. Obviamente, de todos os motores rotativos conhecidos, o motor Wankel foi o obteve maior grau de desenvolvimento, tendo movido diversos veículos automotivos, inclusive o atual Mazda RX-8.A literatura técnica e especializada sobre o motor Wankel é vasta e disponível de longa data, por exemplo [1] e [2]. Outros motores a combustão interna rotativos são descritos na literatura, podendo-se citar, a título de exemplo, os motores Roundengine [3], MYT [4], Rotoblock [5], DAR [6], Toroidal Taurozzi [7] e [8] e Rotatorque [9], cada um em distinto grau de desenvolvimento, todos, porém, muito aquém do que foi obtido pelo motor Wankel. O motor em estudo no presente trabalho denomina-se Kopelrot e resulta de patentes depositadas por um dos autores [10], [11] e [12]. Seu princípio de funcionamento foi aplicado com sucesso em compressores, estando os resultados relativos a seus ensaios e simulação apresentados em [13], [14] e [15]. 1. O MOTOR ROTATIVO KOPELROT Neste novo motor rotativo utiliza-se o princípio da variação de volume no interior da câmara (isto é, uma máquina de deslocamento positivo), conseguida através do movimento angular concêntrico de quatro deslocadores no interior de um cilindro, formando quatro câmaras, conforme apresentado na Fig. 1. Fig. 1 Deslocadores do motor rotativo Por meio de um mecanismo de acionamento inovador, estes deslocadores percorrem uma circunferência (360º) com velocidades angulares variáveis e defasadas, para uma velocidade angular constante do eixo de potência, o que faz com que se aproximem e se afastem, enquanto se deslocam, produzindo, assim, uma variação de volume na câmara. Fig. 2 Motor rotativo O mecanismo de acionamento, que proporciona uma velocidade angular constante do eixo de potência do motor, é composto por 2 quadriláteros articulados, que compartilham o braço estático, chamado também de excentricidade. O braço, que se move a uma velocidade angular constante para cada um dos quadriláteros, é o raio do volante do motor conforme apresentado nas figuras 3 e 4. Fig. 3 Mecanismo de acionamento do motor rotativo, instante t Fig. 4 Mecanismo de acionamento do motor rotativo, instante t+ t Para o entendimento do mecanismo de funcionamento deste motor, em primeiro lugar deve-se explicar o mecanismo do quadrilátero articulado. Segundo as figuras 5 e 6, têm-se quatro barras articuladas (algumas virtuais), das quais a barra A se move a uma velocidade angular constante. O mecanismo proposto por Kopelowicz (2008) permite que B e C se movam com velocidades angulares variáveis. A barra D é o braço estático ou imóvel, chamado também de excentricidade, já que representa o comprimento entre o eixo de potência e o eixo dos braços. Fig. 5 Mecanismo do quadrilátero articulado, instante t Assim, após um instante t, os braços terão outra posição, como indica na figura 6. Fig. 6 Mecanismo do quadrilátero articulado, instante t+ t Cada um destes dois quadriláteros tem um eixo motriz de velocidade angular variável (o eixo de cada quadrilátero encontra-se solidário ao braço C). Cada eixo motriz dos quadriláteros articulados tem uma engrenagem de diâmetro "D" acoplada a seu eixo motriz de velocidade angular variável. Cada engrenagem de diâmetro "D" é acionada por outra engrenagem de diâmetro "2D" de maneira que a relação entre ambas é de 1 : 2, como se vê na figura 7. Fig. 7 Motor rotativo: detalhe das engrenagens Cada engrenagem de diâmetro "2D" está acoplada, em seu eixo, a 2 deslocadores opostos 180º entre si (como se vê na figura 7). No cilindro contam-se com 4 deslocadores, que formam 4 câmaras, assim como a câmara de combustão de um motor convencional de 4 cilindros. Estes deslocadores se movem com velocidades angulares variáveis. Os dois deslocadores azuis (az) mover-se-ão à mesma velocidade angular variável no tempo, e os outros dois deslocadores amarelos (am), mover-se-ão com outra velocidade angular variável no tempo. Na figura 8 é apresentada a vista explodida do cilindro e deslocadores. Vêem se os deslocadores, a parte central do cilindro, que fecha as câmaras na parte interna, a carcaça, que define as câmaras na parte externa e sua tampa, onde se encontram as janelas para a admissão e exaustão, e onde está posicionada a vela de ignição. Fig. 8 Vista explodida da câmara de combustão do motor rotativo Na figura 9 mostra-se a vista isométrica do motor rotativo. Nela pode-se observar todo o mecanismo do motor com o eixo de potência, os braços dos quadriláteros articulados, as engrenagens menores, as engrenagens maiores, os eixos, os deslocadores e a câmara de combustão. Fig. 9 Vista isométrica do motor rotativo Na vista lateral, figura 10, pode-se observar a disposição da câmara de combustão, os eixos, as engrenagens e o mecanismo dos braços articulados que movem o eixo de potência do motor. Fig. 10 Vista lateral do motor rotativo A vista frontal do motor, figura 11, mostra o detalhe das janelas da carcaça, as quais permitem os fluxos mássicos de admissão – azul (az) – e exaustão – amarelo (am) – do motor rotativo. Pelo exposto tem-se que os deslocadores cumprem as mesmas funções de um pistão, também comandando o início e término dos processos de admissão e de exaustão um motor convencional. Este princípio é usado pelos motores de dois tempos, onde o pistão controla a admissão e a exaustão pelas janelas (Piston controlled inlet and outlet ports), as quais são orifícios, ou aberturas, existentes no cilindro. No presente caso do motor rotativo, tem-se que as janelas (orifícios) estão na parte plana lateral da carcaça. Estes orifícios têm a mesma forma lateral dos deslocadores, mas de menor dimensão (Figura 11). Fig. 11 Vista frontal do motor rotativo A seguir, apresenta-se uma seqüência de figuras que representam o ciclo real do motor rotativo em estudo, para uma das quatro câmaras que o compõem. Na figura 12 apresenta-se a fase da admissão, a qual se dá pela janela de admissão. Neste momento, o deslocador vermelho (ve) se move mais rapidamente que o deslocador azul (az). Isto se evidencia na rotação rápida do braço vermelho (ve) do quadrilátero articulado com respeito ao braço azul (az). O deslocador vermelho (ve) é o que promove a admissão, com a geometria da janela de admissão facilitando o fluxo de mistura fresca para o interior da câmara. O processo de admissão culmina quando o deslocador azul (az) termina o fluxo entre o coletor (exterior) com a câmara. Isto se dá quando o delocador azul (az) "fecha" a janela de admissão. Fig. 12 Processo da admissão do motor rotativo Imediatamente depois do processo de admissão tem-se o processo de compressão, figura 13. Nesta fase o deslocador vermelho se desloca com velocidades angulares pequenas, enquanto que o deslocador azul (az) se move mais rapidamente, comprimindo o gás capturado dentro da câmara. O movimento lento do deslocador vermelho (ve) e o movimento rápido do deslocador azul (az) se evidenciam com o movimento lento de braço vermelho (ve) e o movimento rápido do braço azul (az), dos quadriláteros articulados. A etapa de compressão termina quando se inicia a fase de combustão (a partir da centelha). Fig. 13 Processo de compressão do motor rotativo O processo da combustão é apresentado na figura 14. Esta fase se inicia com alguns graus antes de se atingir a abertura mínima dos deslocadores (volume mínimo da câmara de combustão). O início da combustão é definido pela centelha da vela (ignição), a qual se localiza na parte plana ("tampa") do cilindro. O mecanismo aqui apresentado permite manter os deslocadores com velocidades muito pequenas nesta fase (o volume dentro da câmara se mantém praticamente constante por um tempo considerável - com respeito ao período completo do ciclo). Com isto consegue-se uma boa combustão, isto é, a volume praticamente constante. As velocidades pequenas dos deslocadores evidenciam-se com o movimento lento dos braços - azul (az) e vermelho (ve) - dos quadriláteros articulados. Fig. 14 Processo de combustão do motor rotativo Imediatamente após o processo de combustão tem-se o processo de expansão, figura 15. Neste momento o deslocador vermelho se move mais rápido que o deslocador azul. Isto se evidencia na rotação rápida do braço vermelho (ve) do quadrilátero articulado com respeito ao braço azul (az). O deslocador vermelho (ve) é o que promove a expansão. O processo de expansão culmina quando o deslocador vermelho (ve) atinge a posição da janela de exaustão. Fig. 15 Processo de expansão do motor rotativo Imediatamente após o processo de expansão tem-se o processo de exaustão, figura 16. Nesta fase o deslocador vermelho (ve) se move com baixas velocidades, enquanto que o deslocador azul (az) se move mais rapidamente. Isto se evidencia na rotação rápida do braço azul (az) do quadrilátero articulado com respeito ao braço vermelho (ve) do outro quadrilátero articulado. O deslocador azul (az) é o que promove o escape, com a geometria da janela de escape facilitando o fluxo dos gases queimados para o exterior. O processo de exaustão culmina quando o deslocador azul (az) termina o fluxo entre a câmara e o exterior, quando o delocador azul (az) "fecha" a janela de escape. Fig. 16 Processo de exaustão do motor rotativo 2. PROTÓTIPO DO MOTOR KOPELROT As figuras 17 a 22 apresentam detalhes do protótipo construído. Nas figuras 17 e 18 observam-se as peças do conjunto motor e do conjunto de acionamento, respectivamente. São dois conjuntos de mecanismos concêntricos, cuja excentricidade entre seus dois respectivos eixos é responsável pela velocidade angular variável dos deslocadores. Conforme já mencionado anteriormente, é esta variação da velocidade angular que cria os espaços de volume variável que abrigarão os processos habituais de um motor a combustão interna com ignição por centelha (admissão, compressão, combustão expansão e exaustão). Na figura 18 são apresentados as peças (rolamentos, engrenagens e “bielas”) do mecanismo responsável pelo estabelecimento de um movimento angular variável a partir de um eixo de potência de velocidade angular constante. Fig. 17 Peças do conjunto motor A figura 19 apresenta o conjunto do rotor externo com seus respectivos deslocadores. Observa-se que o cilindro externo, apoiado em roletes em sua superfície externa, movimentase em movimento angular de velocidade igual aos seus dois respectivos deslocadores. Consegue-se, desta forma, um menor movimento relativo entre parede e deslocador, com conseqüente redução no atrito interno e melhora na vedação entre câmaras. O conjunto do rotor interno, com seus respectivos deslocadores (“pistões”), é apresentado na figura 20 e, comparativamente ao conjunto de rotores externo, na figura 21. Fig 18 Peças do conjunto de acionamento (articulações, engrenagens e pinos) Fig 19 Conjunto do rotor externo com deslocadores Fig 20 Conjunto do rotor interno Fig 21 Rotores interno e externo lado a lado Finalmente, a figura 22 apresenta o conjunto de acionamento já montado à base, pronto para receber o conjunto motor. Fig 22 Montagem do conjunto de acionamento e base CONCLUSÃO Deu-se continuidade ao desenvolvimento de um novo motor rotativo de combustão interna com ignição por centelha. O motor Kopelrot, com suas peças de maior massa (deslocadores e rotores) deslocando-se em movimento angular concêntrico, ao contrário, por exemplo, do motor Wankel, por exemplo, apresenta inerente simplicidade e baixo nível de vibrações. Um protótipo foi construído, e tem sido testado a baixas rotações. Procede-se, atualmente, a testes volumétricos e testes de acionamento (por motor elétrico) com ignição. Vislumbra-se um potencial de aplicações específicas para este motor, não obstante a ainda predominante presença do tradicional motor alternativo. Dar-se-á continuidade ao programa de desenvolvimento deste promissor motor, com um programa gradual de ensaios e com o uso de ferramentas de simulação [16]. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao CNPq, FAPERJ e FINEP, agências governamentais de fomento à pesquisa, pelo apoio recebido. REFERÊNCIAS [1] NORBYE, J.P., The Wankel Engine, Radnor, EUA, Chilton Book Company, 1971. [2] KAWAHARA, N., TOMITA, E., HAYASHI, K., Cycle-resolved measurements of the fuel concentration near a spark plug in a rotary engine using an in situ laser absorption method, Proceedings of the Combustion Institute, vol. 31, pp. 3033-3040, part 2, 2007. [3] Karim G.A., Shrestha O.M.B., The Performance of a Variable Geometry Toroidal Engine. Department of Mechanical and Manufacturing Engineering University of Calgary, 2000. [4] MONGADO, R.G. , Internal Combustion Engine and Method, United States Patent number 6739307 B2, 2004. [5] __, Rotoblock, Oscillating Piston Engine, Disponível em http://www.rotoblock.com/ ,Acesso em 24/08/2008. [6] __, DAR Engines, Technical overview, Disponível em http://www.darengines.co.il/technology.asp, Acesso em 24/08/2008. [7] TAUROZZI, E.H., Rotary Engine, United States Patent number 3854457 B2, 1974. [8] TAUROZZI, E.H., ST Racing, Motor Taurozzi, Disponível em http://www.stracing.com.mx/phpBB3/viewtopic.php?f=19&t=1850&hilit=taurozzi, Acesso em 24/08/2008. [9] __, Rotatorque, The Second Prototype, Disponível em http://www.rotatorque.de/english/index.htm, Acesso em 24/08/2008. [10] KOPELOWICZ, H.J., Sistema para Transformar um Movimento Circular Continuo de um Eixo num Movimento Conjunto ou Separado com Estados de Repouso e Movimento Alternado de Dois ou mais Eixos e Vice-Versa, pedido de deposito patente 008155,30, 1988. [11] KOPELOWICZ, H.J., A system for the construction of pumps, compressors and motor engines, formed by a rotary chamber and pistons which are driven in the same direction at varying velocities alternatively opposite to each other, inside a fixed open or closed structure. International Patent Application under PCT, International Publication Number WO03/014549 A1, 2003. [12] KOPELOWICZ, H.J., Sistema para Transformar um Movimento Circular Continuo de um Eixo num Movimento Conjunto ou Separado com Estados de Repouso e Movimento Alternado de Dois ou mais Eixos e Vice-Versa, 2008. [13] BARRETO, A.R., WEBER, H.I., PARISE, J.A.R., Análise Teórica e Simulação Numérica de um Compressor Rotativo. X CREEM Congresso Nacional de Estudantes de Engenharia Mecânica, Santos, 2003. [14] BARRETO, A.R., KOPELOWICZ, H.J., PARISE, J.A.R., Simulation of an Innovative Rotary Compressor with Variable Speed Displacers. Seventh International Compressor Engineering Conference at Purdue. USA, 2004. [15] KOPELOWICZ, H.J., SIQUEIRA, C.E.R., MOUTELLA, F.L.C., AREAS, H.T, PARISE, J.A.R., Experimental Evaluation of an Innovative Rotary Compressor with Variable Speed Displacers, International Conference on Compressors and their Systems, IMechE, London, 2005. [16] JIMÉNEZ, R.D., Simulação de um novo motor a combustão interna rotativo com ignição por centelha, Dissertação de Mestrado, Departamento de Engenharia Mecânica, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, setembro de 2008.