Revista da Escola de Música da UEMG Ano VI - n. 9 - Novembro 2011 1 REVISTA MODUS – ANO VI / Nº 9 ISSN: 1679-9003 Publicação da Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais - UEMG Campus de Belo Horizonte [email protected] Conselho Editorial Antônio Carlos Guimarães - UFSJ - São João del-Rei, Minas Gerais Clovis Salgado Gontijo de Oliveira - FAJE - Belo Horizonte, Minas Gerais Felipe de Oliveira Amorim - FEA - Belo Horizonte, Minas Gerais Fernando Henrique de Oliveira Iazzetta - USP, São Paulo, São Paulo Florivaldo Menezes Filho - UNESP, São Paulo, São Paulo Guilherme Paoliello - UFOP - Ouro Preto, Minas Gerais Luciana Marta Del Ben - UFRGS - Porto Alegre, Rio Grande do Sul Luciana Monteiro de Castro - UFMG - Belo Horizonte, Minas Gerais Mary Angela Biason - Museu da Inconfidência - Ouro Preto, Minas Gerais Maria Betânia Parizzi Fonseca - UFMG - Belo Horizonte, Minas Gerais Oilian José Lanna - UFMG - Belo Horizonte, Minas Gerais Regis Duprat - USP - São Paulo, São Paulo Rodrigo Miranda de Queiroz - UCONN - Storrs Mansfield, Connectitut, USA Ronaldo Cadeu de Oliveira - UEMG - Belo Horizonte, Minas Gerais Sissy Veloso Fontes - UNIFESP - São Paulo, São Paulo Modus : revista da Escola de Música da UEMG / Universidade do Estado de Minas Gerais – Ano 6, n. 9, (novembro 2011) – Barbacena MG : EdUEMG, 2011. 104 p. Semestral. ISSN 1679-9003. 1. Música – Periódicos. I. Universidade do Estado de Minas Gerais. II. Título. CDU: 78 2 Elaborada por: Marcos Antônio de Melo Silva - Bibliotecário CRB/6: 2461 ISSN: 1679-9003 Revista da Escola de Música da UEMG Ano VI - n. 9 - Novembro 2011 3 REVISTA MODUS – ANO VI / Nº 9 ISSN: 1679-9003 Editor responsável José Antônio Baêta Zille UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS Projeto gráfico Laboratório de Design - UEMG Reitor Dijon De Moraes Júnior ESCOLA DE MÚSICA DA UEMG Rua Riachuelo, 1.321 - Padre Eustáquio Belo Horizonte - CEP: 30720-060 Diretora Gislene Marino Costa Vice-reitora Santuza Abras Pró-reitora de Extensão Vânia Aparecida Costa Pró-reitora de Ensino Renata Nunes Vasconcelos Pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação Terezinha Abreu Gontijo Vice-Diretor Helder da Rocha Coelho Pró-reitor de Planejamento, Gestão e Finanças Giovânio Aguiar Coordenador do Centro de Pesquisa Armon Sávio Reis de Oliveira Diretor geral do Campus de Belo Horizonte Rogério Bianchi Brasil Tiragem: 400 exemplares Revista semestral EdUEMG EDITORA DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS Coordenação Daniele Alves Ribeiro Preparação de Textos e Revisão Daniele Alves Ribeiro Capa e diagramação Marco Aurélio Costa Santiago http://eduemg.uemg.br [email protected] (32) 3362-7385 - ramal 105 Linha editorial A revista MODUS é uma publicação semestral editada pelo Centro de Pesquisas da Escola de Música da UEMG com o propósito de estimular a reflexão e a atuação crítica em contextos culturais diversos. Procura ser um agente catalisador do desenvolvimento da produção e do intercâmbio de conhecimentos relacionados à música. Dentro dessa perspectiva, abrange a produção de cunho científico, teórico ou histórico, que envolve a musicologia e as áreas que colocam a música, direta ou indiretamente, frente à educação, tecnologia, performance e outros sistemas de linguagem. SUMÁRIO 7 9 21 EDITORIAL ESCUTA E LABIRINTO Leonardo Aldrovandi HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE Loque Arcanjo Júnior 37 ESTUDOS TRANSCENDENTAIS DE FRANCISCO MIGNONE: NACIONALISMO OU INTERNACIONALISMO? Neander Cândido da Silva, Guilherme Silveira Nascimento 47 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida 67 81 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS Matheus Almeida Rodrigues AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS Gláucia de Andrade Borges 96 NORMAS PARA PUBLICAÇÃO MODUS EDITORIAL A revista Modus pretende discutir, promover e possibilitar o desenvolvimento da ciência, fruto do somatório de esforços coletivos de pesquisadores que estão envolvidos com a musicologia e as áreas que colocam a música, direta ou indiretamente, frente à educação, à tecnologia, à performance e a outros sistemas de linguagem. Por sua vez, considera que a ciência não está separada da prática profissional. Ou seja, considera que a pesquisa deve vislumbrar a prática, nela ter suas bases ou a ela dar suporte. Sendo assim, ciência e práticas profissionais devem estar amalgamadas. Sob essa perspectiva, a Modus busca colecionar trabalhos que espelham os pensamentos puramente teóricos ou emergidos da prática, voltados ao universo de conhecimentos a que se propõe divulgar. Dessa forma, busca expor um retrato desse universo, mostrando o grau de maturidade e de conhecimento da ciência e suas práticas. Nesse sentido, constitui-se como veículo que expõe, não só o que se há de melhor, mas também aquilo que há por melhorar e, assim, atua no auxilio para o crescimento da ciência e das práticas profissionais. Considerando esses pressupostos, este número da Modus traz seis artigos que espelham parte desse universo de saberes. Leonardo Aldrovandi apresenta um ensaio que discute a escuta musical, comparando-a a um percurso fortuito e efêmero por um labirinto, que, por sua vez, é “desenhado” na composição musical. Loque Arcanjo Júnior, no segundo artigo, analisa a construção da identidade musical de Villa-Lobos a partir das perspectivas do Nacionalismo de Mário de Andrade e do Americanismo de Curt Lange. O autor mostra que um diálogo entre esses dois projetos musicológicos emerge na identidade musical do compositor. Neander Cândido da Silva e Guilherme Silveira Nascimento também abordam a questão do Nacionalismo, por sua vez na obra de Francisco Mignone. Avaliando alguns aspectos composicionais dos Estudos transcendentais, os autores sugerem que Mignone recorre ao emprego de títulos poéticos brasileiros para camuflar uma linguagem musical internacional e, com isso, estaria fugindo da patrulha nacionalista de Mário de Andrade. José Antônio Baêta Zille e Nathália Pereira de Almeida propõem algumas diretrizes para auxiliar no direcionamento do processo de educação musical para adolescentes. Para isso, os autores se apoiam nas teorias relacionadas ao desenvolvimento humano voltadas a esses sujeitos, ao mesmo tempo em que as vinculam a teorias contemporâneas da pedagogia para o ensino de música. Em seu artigo, Matheus Almeida Rodrigues apresenta os resultados da pesquisa que avaliou várias técnicas de vibrato aplicadas ao violão, discutindo as possibilidades e eficácias 7 MODUS como recursos expressivos. Gláucia de Andrade Borges também traz o resultado de uma pesquisa e, por sua vez, classifica as canções mais conhecidas por crianças em curso de musicalização, no universo das canções folclóricas brasileiras. Além disso, a autora relaciona as principais características rítmicas e melódicas dessas canções. Em nome da Modus, agradecemos o valioso esforço do conselho editorial e de todos os colaboradores que contribuíram com seus trabalhos. Esperamos continuar contando com a participação de todos e com aqueles que possam e queiram fazer parte de nossos esforços para a difusão de conhecimentos. José Antônio Baêta Zille Editor 8 Novembro de 2011 ESCUTA E LABIRINTO Leonardo Aldrovandi Professor, pesquisador, compositor e escritor. Atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). [email protected] Resumo O ensaio discorre sobre a relação entre escuta e labirinto. A vivência de ambas as experiências, a da escuta e a do labirinto, compartilha mais características do que costumamos imaginar de início. Palavras-chave: Escuta; labirinto; imaginário. Não posso pisar sobre estes esplendores pintados sem que o medo não seja jogado pelo caminho. AGAMEMNON, Ésquilo.1 Escutar é como entrar num labirinto. Percorrer entrevias, entornos, reentrâncias, pausas e volteios. A música é vivida e criada como labirinto; arquitetura para o esforço de uma viagem efêmera. Viagem efêmera como razão de um esforço construtivo. Não existe relação de antecedência entre música e escuta. Escutamos música, porque musicamos a audição. Musicamos a audição, porque escutamos o mundo muito além de apenas ouvi-lo fisiologicamente. Escuta e música: experiências labirínticas. Ambas dissipam-se, como numa lareira, em que a dança das centelhas, breve ou demorada, lambisca uma fibra para iluminar uma textura e subitamente retornar às trevas. Como definir distâncias e formas em condições tão passageiras e sombrias? Estrelas cadentes, fios de palha incandescente, práticas estranhas. Uma chama sonora arde efêmera enquanto os pontos e as passagens podem promover alguma fixação constelada, abstrata e cintilante. 1 AGAMEMNON, Ésquilo. The Agamemnon of Aeschylus: the greek text with a translation into english verse. Tradução de John Conington. Londres: John Parker-West Strand, 1848. pp. 102-3. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 9 ESCUTA E LABIRINTO MODUS Labirinto-escuta. Conjunto de sombras e cristais, vias e câmaras abertas, embutidas umas nas outras, onde cultura e linguagem tecem paredes condutoras junto à pele. No labirinto, nunca estamos nus e sempre parecemos entrar em outra esfera de tempo. Ferramentas e utensílios da inteligência permanecem entorpecidos. A pele, medrosa, estremece, escuta e estrebucha, enquanto as vias se multiplicam ou involuem. Vias nunca subtraídas, apenas recuadas da percepção e da memória. A entrada no labirinto é a aventura de outra espécie de sensação do mundo, assim como a escuta. Um labirinto pode ocultar a receita da sua saída, o meio mais ou menos simples de encontrar uma solução. Por mais rebuscado e complexo que seja, é sempre uma construção arquitetada e finita, na qual um curso histórico pode ou não triunfar. Mas o que importa no labirinto, como na escuta, não é solucioná-lo. Sua vitalidade encantatória alimenta e é alimentada por duas grandes faces vorazes: esforço e errância (labores et errores)2, em que rito e jogo fazem bodas eternas. As circunstâncias matizam e riscam o espaço e o tempo, onde a vida pode se transformar, atônita. É preciso adentrar, entrecortar, costurar, bordejar por entre as paredes intermináveis. Terreno de atos sem planejamento, lei ou regra de antemão. Sonhos sempre amanhecentes. Gesto de composição. Se o labirinto está presente em quase todas as tradições humanas, o que ele, como a escuta, oferece de tão fundamental à nossa experiência? Emergência em um novo mundo, transcendência, renascimento, vitalidade dos desvios e dos retornos, gestação, útero, via da digestão, operação sem guia terreno ou divino, jogo dançante, enredo corporal e material, campo social limítrofe, marcado por certa indiferença ao grupo, impessoalidade munida de uma consistência intemporal, forma de trabalho lúdico, ação do corpo e da alma. Podemos encontrar tantas potências significativas para o labirinto quanto se queira. Viver seus volteios, enredar-se em sua armadilha, tecer um trajeto delirante e errático, tudo isso parece nos alimentar. Nenhum olhar científico, estético, histórico, antropológico ou social parece satisfazer nossa curiosidade por completo. Daí o surgimento espontâneo de um expert, o especialista em labirintos, formando um campo pouco institucional e praticamente autônomo de conhecimento. Alguns chegam a viajar pelo mundo como consultores e construtores de pavimentos, jogos e jardins. Escuta-labirinto, toalha de renda granitada por imagens. Botânica do devaneio. Como viver este mundo? Há no labirinto um enleio vital que vai muito além do 2 Referência à Eneida, de Virgílio (1866, p. 121), onde há vários momentos de associação entre a ideia de labor e a ideia de erro para os contextos labirínticos. Exemplo: “Minotaurus inest, Veneris monimenta nefandae, hic labor ille domus et inextricabilis error”, livro 6, versos 26-27. 10 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 Novembro de 2011 Leonardo Aldrovandi mero desafio espacial. Tantas peças soltas de um mundo sonhado. Nos parques de diversão e no imaginário mais fantástico, portas falsas e passagens camufladas, espelhos, truques e seres sobrenaturais; esses últimos quase sempre inofensivos, embora pouco confiáveis. Suspeição como grande motor. Tudo no labirinto é vivido na forma da mistura espúria: signos e sensações bastardos, fugidios, efêmeros. Vestígios encalacrados. Suspense. Não se pode descartar dali qualquer memória eidética. Volúpia dos fantasmas, dos reflexos, graça do engano, perambulação amnésica, sedução dos mistérios imaginativos. Qualquer descrição possível através dos nossos conceitos e gramáticas, sujeitos, seres, entes, linhas, planos, afetos, estruturas, objetos, substâncias ou pronomes, teorizações ou palavras, não poderá substituir sua experiência de feitura e de viagem. Se descrito como campo paratático, por exemplo, abstrai-se e reduz-se sua vitalidade a condições linguísticas ou psíquicas. Mas sempre podemos afirmar algo sobre suas características infinitamente desdobráveis. Formas e signos como ervas daninhas. Ação multiplicadora do espelhamento, não apenas das paredes, mas de todas as formas de vida ali encontradas, objetos e seres esquivos, refletidos e reflexivos, conscientes ou inconscientes, deformados ou não por anamorfismos diversos. Tudo pode moldar ou influenciar o rico processo da decisão, povoar de diferença o estágio e a direção de uma travessia. Risco como a própria efetuação do traço ou retraço, mimesis indefinível. Marca de caminhos e descaminhos em historicidade frágil. Projeções psíquicas refletidas, deformadas, deformadoras. Risco, também, como lance de coragem da nossa ignoscência3 e, com ela, das impropriedades necessárias em toda ação artística, em toda imaginação. Ponteio, fuga, fermata. Tantos são os nomes que a própria música sugere como experiência labiríntica. Rondó, rapsódia, da capo. Arte milenar do contraponto: rede de linhas que se combinam ou trama de sonoridades dada pela construção de trajetórias sonoras que ora se fundem, ora se articulam, ora se desfazem. A tradição do contraponto e da polifonia talvez carregue uma imagem bem clara ou mais objetiva da constante tentativa dos procedimentos musicais de gerar labirintos para a escuta. E não apenas por linhas melódicas. Laborintus, de Sanguineti/ Berio ou teatro de sombras em François Bayle, contraponto dantesco e sombrio de gestos sonoros. Como entremear signos repletos de carga cultural e historicidade? Não rara também é a tendência ao grande monumento formal como labirinto de escuta, arquitetado para uma longa viagem do ouvinte, como nas coleções de peças de 3 Ignoscência como algo diferente de ignorância, já que esta pode ter conotação pejorativa. Como a fosforescência ou a luminescência, a ignoscência seria a condição frágil e momentânea na qual nos dispomos a conhecer sem nos guiarmos por um conhecimento prévio ou uma espécie de estado criativo de ignição momentânea sem base em conhecimento. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 11 ESCUTA E LABIRINTO MODUS Olivier Messiaen ou de Michael Finnissy, formando no conjunto um enorme arco temporal de associações infindáveis. Ou ainda, o cortejo de uma vida, como os Nine Rivers, de James Dillon: grande costura gradual de peças de épocas diferentes que desembocam, ao final, numa temporalidade global, mais lenta e densa, não à toa chamada Oceanus. Diz-se, talvez em parte por algum desejo moderno, que o labirinto é fabricado para revelar algo sobre nós mesmos, instrumento ético incomparável, terapêutico e lúdico, como muitas vezes foi concebida a escuta. Grande engenho de ilusões para rituais de iniciação particulares, não redutíveis ao culto simplesmente fetichista ou pessoal. O labirinto nunca é um objeto, simples cenário ou palco de um herói e suas feras. Ele não é vivido diante de nós, e sim no seu interior. A ideia de desafio só existe ali na medida em que o herói está em foco, especialmente para o discurso glorioso da cidade. O labirinto lá permanece, independente do que aconteça, como bem sentiram J. L. Borges e Júlio Cortázar. Quase-limbo, ele escapa de uma condição trágica ou dramática. Certa indiferença temporal ou estrutural o sustenta, alheio ao destino particular, ao acontecimento ou história que nele pode ocorrer; mais que estrutura, configuração infinitamente heterogênea e cambiante, com doses maiores e menores de impessoalidade. Distanciado das formas e dos discursos familiares, coletivos ou civis, é um espaço basicamente introspectivo e concentrado da conduta respeitosa à distração produtiva. Pelos caminhos de um labirinto não se encontra qualquer távola redonda, pódio, boteco, palco ou salão de festas. Descobrir caminhos e passagens significa, ali, sair minimamente do enxame social. Imenso ouvido interno, labirinto. Mesmo quando entramos em grupo, sua experiência fundamental tende a um perder-se ou enredar-se mais silencioso e solitário. Viagem iniciática da escuta criativa. No filme de aventura mais banal, lá estará a personagem que se desvia do grupo para a descoberta. Descoberta somente possível através dessa força observadora que o artista saberia deslindar, sem a sentença imediata normalmente exigida pela tribuna, pelo coletivo. Um estado corporal, em que se favorece ser ao mesmo tempo desbravador e prisioneiro da própria conduta, sem nunca saber se certas passagens são entradas, meios ou saídas. Na experiência do labirinto e da escuta, qualquer conhecimento pode ser dissolvido e recuperado na constante travessia, em operações de choque e mudança na posição de signos mais ou menos esparsos. Objetivos, mesmo se claros, nunca estão garantidos. É justamente a ausência das garantias de uma linguagem, dos mapas, das tipologias, de algum pacto social ou fio narrativo, de qualquer sucesso da empreitada, o que pode trazer à luz algum conhecimento diferente, mesmo que precário, oferecer a chave de algum outro caminho, abrir um portal de uma renovação. Encruzilhada 12 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 Novembro de 2011 Leonardo Aldrovandi tépida e fresca, seca e úmida, calma e ventosa. Escuta e labirinto. Símbolos da ponte entre estado civil e estado “selvagem”, zona franca entre ser e existência, entre homem e animal, entre conhecimento e ignoscência? Logo percebemos como é fácil nadar na especulação sem fim a respeito e como a nossa analogia quase banal pode ser moldada. Afinal, o que a escuta tem a ver com este jogo-rito fantástico, além de compartilhar uma essência ética, um nome em comum na sua base fisiológica (o labirinto dentro dos nossos ouvidos), e uma experiência espaço-temporal potencialmente intrincada e complexa como a de um labirinto? Como descrever, por um instante, a experiência de um mundo sonoro? Camadas rítmicas, melódicas, ruidosas, disposição de timbres diversos, vozes, fonemas, ganidos, motores, instrumentos, rosnados acústicos, elétricos, sons eletrônicos, guizos, surdos, sussurros, badalos, estrondos, zunidos, paisagens sonoras, urros, ventos, gotas e cascatas, fogos, golpes de fósforo ou tinido de faíscas, cantos de coruja, de gente, de baleia, uivo e rugido, explosão, chiados do rio, da língua, da prece, grande tombo, fundo grave e distante, pequeno suspiro na pele do pavilhão, estilhaço, ranhura, estalo, trincado, trovoada, eco, sopro e raspagem; tudo o que, nas misturas as mais diversas, pode provocar nossos ouvidos, oferecer vias, aberturas ou fechamentos, brechas e barreiras de uma vitalidade encantatória. Experiência análoga a de um labirinto. Qualquer estratificação de ritmos, barulhos ou traços melódicos, mais ou menos objetivos (não importa), é capaz de fabricar o delírio precioso de ritmos, sensações e traçados mais ou menos subjetivos (não importa também). Trevo perpétuo em miríades, turbilhão calmo da noite. Uma composição musical pode oferecer mosaicos ou configurações sonoras, verdadeiros geradores de impressões, transformações, desvios e torções imprevisíveis em cada um de nós. São esses processos de escuta que fundamentam a própria fabricação dos mosaicos, campo onde causa e efeito se tornam quase permutáveis, semicíclicos. Os processos de escuta, criativos, não são simplesmente efeitos degenerados ou posteriores de uma obra musical. Mas o que pode, então, descrever o ato de escutar dentre tantas projeções possíveis? Base da nossa pequena viagem analógica: escutar pode ser descrito, entre tantas possibilidades, como a entrada em um labirinto, ou seja, em alguma forma de perplexidade - perplexus, através (per), da costura, das voltas, dos entornos, do pulso (plectere). Sempre é bom lembrar como o inglês maze (labirinto) está atrelado a amazed (perplexo), ligação etimológica com a qual vários estudiosos e construtores de labirinto costumam brincar. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 13 ESCUTA E LABIRINTO MODUS Smarrimento, termo italiano que aponta para vários desses sentidos: perplexidade, perda, confusão, distração, comportamento errático, incerteza, degradação. Nada mais musical do que estar perplexo, perdendo a fala e o conhecimento, como Orfeu perde Eurídice, fantasma de linguagem, e, ao retornar, é granulado, devorado, estilhaçado pelas Bacantes rejeitadas. Vingança nada divina. Jogo de retornos e certo tipo de solidão. Através das urdiduras sonoras, musicais, através dos pulsos, entornos e volteios sentidos em toda a experiência de escuta e em toda a música, toda a perplexidade. Por entre emissores e filtros, montagens, empilhamentos, fiações, cruzamentos, transferências, encaixes, rumores bifurcantes ou curvilíneos, ruídos de fundo, a experiência ampla e multiforme do retorno. Minhocas auditivas. Retorno como reflexos sonoros, anamórficos ou não, psíquicos e físicos, também partindo das construções materiais, configurações técnicas, caixas de som, mesas de mixagem, cabeamentos e fones de ouvido, reflexões acústicas e formas arquiteturais, das sinapses e dos axônios, buscando alguma organização dos sinais, todos acoplados uns aos outros para potencializar a escuta através dos re-envios os mais diversos. Retorno como chão ou pulsação de base de qualquer princípio musical ou sonoro, mas também como a caixa de som do palco para que o artista escute a si mesmo, retorno como prova ou promessa de saída ou reencontro em qualquer mistura sonora mais ou menos complexa ou considerada caótica. Retorno como estratégia de desorientação e de organização, baseada no que regressa, força específica da seta curvada para trás, experiência de uma villa rotonda; a própria condição vivida e confusa do mosaico. Retorna-se a um ponto equivalente, mas diferente, num tempo diferente. Esse caminho da volta é o próprio esforço do sentido ao constituir-se. Meia-lua ou balão, o retorno não é repetição. Ele se realiza na vontade de voltar em meio à perplexidade. O que importa é tentar fazer a volta sem necessariamente cumprir o retorno, curvar o sentido em que se estava para tentar criar sentido em meio à confusão e, talvez, acabar por cair em alguma outra situação. Os exemplos de mosaicos sonoros feitos para a experiência da perplexidade são muito variados. É frequente pensarmos em músicas como as da África Central, as do minimalismo, nas diversas formas musicais processuais, dada sua ênfase na experiência hipnótica do presente. Mas também sentimos toda perplexidade provinda de contextos sonoros em que a vivência temporal é empurrada simultaneamente para o passado e para o futuro, ou seja, naquelas onde a diferenciação de sensações por oposição de materiais ou por forças dramáticas ou narrativas é mais intensa. Teatro sonoro. Uma Abertura de Beethoven, um tenso discurso formal de Helmut Lachenmann, uma “tragédia de escuta” em Luigi Nono, uma explosão de tensão sob o grande arco congelado, reverberado, em Wagner, ou, cá entre nós, uma valsa de esquina de Minogne ou o ponteio de tantos autores. A perplexidade, portanto, também é dada pela ação ou disposição de formas do tempo em planos possivelmente concomitantes de suspense, evocação e expectativa. 14 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 Novembro de 2011 Leonardo Aldrovandi Sem perplexidade, não existe escuta nem labirinto. Em seu lugar, não é raro encontrarmos alguma ação antecipada e apaziguadora da linguagem, como na audição formal, analítica ou didática, alguma anestesia aplicada à escuta por teorizações variáveis, por solfejos ou “ditados”, por alguma coação estabelecida pelo É-dito, tratado, guia ou garantia linguística civil para o reconhecimento e a descrição de objetos, formas e estruturas: fios de Ariadne, formando o pacto social e nos livrando das ameaças da experiência labiríntica, mesmo que essas sejam sempre bem mais calmas, doces e suaves que as de qualquer terra realmente selvagem. Para Julio Cortázar, o herói Teseu pode ser “o gangster do rei Minos... com procedimentos de um perfeito fascista”. O herói sempre poderá representar a ordem política e social a partir de alguma indumentária, bandeira ou narrativa, numa ordem cujo resultado desfaz a aventura, mata a fera e abandona o labirinto. O minotauro, por sua vez, não é um anti-herói dos mais típicos. Colecionador e signo de perdas. Toda quietude, paz, solidão e monstruosidade trazem consigo uma aura similar a da pantera negra em algumas mitologias. Haines, a personagem inglesa do Ulisses, de James Joyce, sonha com uma pantera negra passageira, arisca, que deixa seu grande rastro sombrio. Uma história atribuída ao cardeal Nicholas Wiseman versava sobre o uso eficiente das panteras negras justamente para matar os mártires. Pantera que também é o símbolo cristão vinculado ao “filho de Deus”, não tanto a Jesus, mas àquele que blasfema, como o que sentimos por trás da nossa expressão tão comum “ele também é um filho de Deus”. Ora, na mitologia cretense, o labirinto nada mais foi que o esconderijo criado por Minos para esconder o filho bastardo da esposa adúltera. O Minotauro, assim, também se presta a essa analogia com a escuta mais viva, a qual opera com o rosto voltado para fora dos códigos civis: ambos filhos prodigiosos e quimeras ao mesmo tempo. Por entre frestas e imagens, paredes carcomidas e sobreposições de texturas, corredores de entulho, musgo e sombras do inconsciente, ambos dimensionam a arquitetura segundo um corpo e um trajeto. Uma vez bastardos e isoláveis da civilização, nunca deixam de ser recolhidos e domesticados por ela. Mas uma construção labiríntica não precisa ser vista apenas como cárcere, templo ou palácio. Podemos sentir a escuta como o universo da casa e do corpo do próprio Minotauro: medo e conhecimento, homem e animal, este Asterion, rei-estrela não-letrado, silencioso e pacífico, em sua casa quase infinita. No conto A casa de Asterion, de Jorge Luís Borges, o labirinto não tem a pompa dos palácios, nem as portas fechadas. A vitalidade quase infinita da escuta é como esse espaço de galerias múltiplas, na quietude, paz e solidão, onde somente cadáveres permitem distinguir lugares fixados, uns em relação a outros. O ser vivo, ou melhor, a escuta viva, REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 15 ESCUTA E LABIRINTO MODUS criadora, deve se perder na condição “a-locada”, para criar e sair de seus hábitos (habitações) comuns. É que apenas o Minotauro habita o labirinto, homens apenas o “a-locam” por um tempo. Nele, estão sempre de passagem, amedrontados, fugazes e maravilhados, na mesma situação da escuta mais aventureira. Ali não há lugar seguro, mas nada é tão perigoso assim. Minotauro-escuta, labirinto-escuta; casa vivível de forma infinita para que as pessoas se percam e para pessoas que se permitem perder. Processo circulante do retornável que é simultâneo aos novos destinos, onde nada se polariza, onde correr o risco ou enfrentar/ser minotauro é não se pautar pela garantia de conceitos e codificações sem, no entanto, ignorar sua influência direta ou indireta. Lá estarão eles em toda nossa fantasia. Destino e decisão, tentativa e erro, perigo, experiência; escuta como esta viagem aberta e limitada. Possibilidade desse homem-animal, nos limiares entre caos e ordem de uma escuta-labirinto. Mas terá a escuta alguma forma comparável a de um labirinto? Qual seria o tipo de labirinto que mais se aproximaria da sua natureza? Captador infindável, podendo abrigar relíquias e larvas imaginárias. Seja qual for a complexidade da experiência, o tipo de labirinto que, provavelmente, mais se aproximaria da escuta é o Dédalo interativo, ou seja, aquele que, além de poder ser multidimensional, também se modifica de acordo com o passeio e as características do próprio andarilho. Ele pode ter aberturas ou barreiras acionadas no tempo, sensores de movimento, mecanismos que se identificam e interagem com as características do caminhante e do seu traçado. Internaútica de um Orfeu, passagem por lugares mutantes, homem do retorno custoso e sem estratégia. Retornar, volver, voltar-se. Com as orelhas abertas, antípoda do homem glorioso, Orfeu escolhe a cada momento um instante inquietante. Músico; outro colecionador de perdas. Dédalos que se conectam e se desconectam continuamente; eis a escuta. Fabricamos certos caminhos repletos de ou levados por signos e temos o campo de forças da memória e da cultura como um guia turístico mais ou menos inquisitivo. Mais que isto, a cultura (aqui como no que diz Marshall Sahlins, “organização da experiência humana por meios simbólicos”) age como construtora, ou melhor, empreiteira. Ela fabrica as paredes do labirinto, as quais orientam nossos traços e retraços de escuta. No entanto, mesmo o mais previdente dos seres não saberá o que a cela ou encruzilhada vizinha pode lhe reservar. Cada instante abre caminho, sonho da melodia infinita. Paredes culturais podem ser dissolvidas e construídas ao longo da vida, em dimensões e relações de localidade e globalidade variáveis. O labirinto-escuta não é, portanto, uma 16 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 Novembro de 2011 Leonardo Aldrovandi floresta ou um jardim. Ele é o produto de uma ordem simbólica, embora sua experiência não seja simplesmente determinada por ela. Se o jardim também é moldado pela cultura, ele nunca está fora da cidade, não representa qualquer ameaça com sua natureza domesticada. Por outro lado, o labirinto-escuta também não é selvagem, natural, livre, floresta de mata virgem. Na escuta, não existe liberdade em relação à cultura. Para o artista, uma espécie de topografia do segredo serve de fonte para a criação e sua aura; truque do sonho, enigma sem chave. O labirinto também pode dar abrigo a esta condição da magia, da elaboração do trickster. Mas como lidar com um lugar que não acolhe com facilidade? Misterioso, hostil, parece querer excluir a presença humana. Com traços multiplicáveis ao infinito, a coroa do descaminho reina sem semblante. Arte e mistério, gêmeos bem antigos. Túneis e passagens. Abertura e limite de uma forma voltada a algum dado ainda inumano, desconhecido, com o qual o homem pode operar a partir de sua própria capacidade limitadíssima de transcendência. Por isso também, o labirinto não pode ser reduzido a um modernismo narrativo, tecnológico, conceitual ou imagético, à imagem urbana ou futurista revestida por sensações e descrições de múltiplas entradas e fluxos, videoclip, matrix, teias narrativas babélicas, estéticas da fragmentação e da ruína. O artista e o ouvinte devem viver o labirinto a partir de uma condição ainda mais fundamental. Estar perdido não resulta simplesmente da tomada de rotas e caminhos confusos ou complexos. Estar perdido é um estado de sujeição ativa; colocar-se simultaneamente como conterrâneo e estrangeiro a si no momento mesmo da relação com qualquer coisa mais ampla, variável e desconhecida. Perplexidade, experiência bem além de um sujeito diante de um jogo de referências, de objetos ou vias mais ou menos secretas. Orfeu perde e se estilhaça. Amansa as feras, sai perdedor, morre granulado. Estar perdido é retraçar constantemente as coisas de tantas maneiras, ao ponto de sairmos das formas de identificação e de habitação estabelecidas. Sendo parcialmente responsável pelo equilíbrio do corpo, o labirinto fisiológico, também chamado de sistema vestibular, é fundamental para o senso de direção, para a audição e para a orientação espacial. Através de uma estrutura delicada e complexa, faz parte de uma rede de estímulos e reflexos entre muitas regiões do corpo. Imensa rede inabarcável. Parte da complexidade de seu estudo e avaliação deve-se ao fato de que nunca atua sozinho: em todas as suas ações, sem que seja necessário considerarmos o campo simbólico, existe o auxílio e a interação de muitas outras estruturas fisiológicas do corpo. Existe nele melhor fonte para nossos sonhos e metáforas? Canais semicirculares e vestíbulos. Lápilus e rágatas, sáculos e urículos, perilinfas e endolinfas. Máculas REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 17 ESCUTA E LABIRINTO MODUS que regimentam células ciliadas. Cristas ampolares, meatos acústicos, estruturas gelatinosas e aquedutos. Espeleologia infinita do equilíbrio e da sensação sonora pelo corpo. Músculos, olhos, tato, posição, todos envolvidos. Cúpula e estria, cílios e neurônios, rotunda de estalagmites e estalactites? Ramos do Gânglio de Scarpa, onde axônios e corpos celulares são mielinizados. Grande caverna de passagens e transformações ao ponto da velocidade da luz. Tanta riqueza na irregularidade dos meios e das estruturas. Aos núcleos vestibulares ligam-se as diversas centrais do sistema nervoso. Cerebelo, tálamo, mesencéfalo, córtex cerebral. Estímulos do labirinto podem atingir o córtex, mas também outras regiões, gerando informações em rede. Para a visão ou o olfato parece haver um âmbito mais específico. Audição e equilíbrio estão associados às regiões periféricas do sistema nervoso, com diversas vias de mão dupla. Ouvimos e nos equilibramos com o corpo inteiro. Nosso senso de direção, e com ele, o de audição, estão enredados numa conjunção labiríntica de associações do corpo todo. Localmente, o próprio caminho que o som percorre até chegar à cóclea (ou ouvido interno) é cheio de meandros, instâncias e transformações. Faroeste sonoro com suas imagens de vibração: a bigorna, o estribo e o martelo são os ossos mais delicados e ao mesmo tempo mais duros e densos do corpo. Necessidade da grande densidade flexível e bem localizada. Blocos, tijolos e passagens de um labirinto. No ouvido interno, pedrinhas de cálcio ajudam a sinalizar a aceleração linear e a orientação da cabeça. Somente uma tal capacidade de resistência, flexibilidade e sensibilidade seria capaz de suportar vibrações complexas e caóticas, orientar o fluxo enorme de sensações recebidas pelo corpo, absorvendoas e amortecendo-as. Flexíveis e múltiplas, essas formações auxiliam a canalizar as sensações até o ponto possível do caminho, do sentido e da linguagem. Alguns pescadores nórdicos constroem labirintos à beira-mar para canalizar e acalmar ventos fortes. Grande orelha de captação, rota de suavização, calmante. No labirinto, o silêncio se torna trivial. Mesmo quando o som não é absorvido por tecidos, paredes ou ossos de alta densidade, ele também pode se dissolver mais facilmente dado que mantém vias múltiplas, adaptáveis e sempre abertas. É a grande permeabilidade do labirinto, como na escuta; enorme poder de absorção. A grande galeria de múltiplas passagens pode gerar um silêncio continuado, um silêncio não extraordinário, cotidiano, como aquele descrito por Borges. “Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas de mulher nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão” (BORGES, 1996, p. 60). Esse silêncio não é produzido pelo isolamento, mas antes, pela multiplicidade dos caminhos sem portas. 18 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 Novembro de 2011 Leonardo Aldrovandi Condição da perplexidade, um silêncio mais cotidiano, menos religioso. Qualquer vibração pode se dissipar mais rapidamente num lugar tão cheio de caminhos. No labirinto, o silêncio parece não precisar ser transcendental nem parte de algum naturalismo. Ele se torna um silêncio-criatura, fabricado pela rica arquitetura, podendo fazer com que os sons tenham mais força, nuance e diferença em aparições localizadas. Toda uma mitogenia à respeito da escuta poderia assim ser evitada. O silêncio ativo exige o abandono de qualquer pretensão de plenitude, seja de poder ou de liberdade. Mente atenta, sem desejo de pureza, naufragada na cultura, com uma face para fora. É com um gesto de submissão a um insondável sentido que o passante sente a fluência ou constância da presença silenciosa. Massa que pode fazer aparecer o embate latente entre vozes passadas e do porvir, atenuando impactos impositivos de qualquer presente mais ruidoso, tumultuado. Há um mistério que só a sensação de silêncio frutifica e que, somado a tantos outros propulsores de mistério num labirinto, alimenta uma força produtiva de descentralização temporal. Talvez, ou mais do que nunca, seja preciso pensar em como projetar uma riqueza de labirintos para nossa experiência. Câmaras dentro de câmaras, vias dentro de vias, todas dinâmicas, mutáveis, infindáveis, cavernas infinitamente mais ricas e irregulares que nossas atuais formações arquitetônicas... sonho, apenas, de verdadeiros geradores de silêncio, de escuta e de música. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 19 ESCUTA E LABIRINTO MODUS REFERÊNCIAS BORGES, Jorge Luiz. O Aleph. In: ______. A casa de Asterion. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. VIRGIL. Aeneid. New York: D. Appleton and Company, 1866. Labyrinth and listening Abstract The essay relates a labyrinth’s experience and symbolism to listening experience. Both listening and labyrinth can be approached according to many features they share. Keywords: Listening; labyrinth; imaginary. 20 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 9-20 Novembro de 2011 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE Loque Arcanjo Júnior Graduado em História pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UNIBH), pósgraduado (lato-sensu) em História da Cultura e da Arte e mestre em História pela Universidade Federal do Estado de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, desenvolve pesquisa de doutorado no Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais na linha de pesquisa História Social da Cultura. É professor nos cursos de História na UNIBH e no Centro Universitário UNA. [email protected] Resumo Este artigo tem como objetivo analisar a construção da imagem de Heitor Villa-Lobos a partir do olhar de dois projetos musicológicos: o Nacionalismo de Mário de Andrade e Americanismo de Francisco Curt Lange. Entre as décadas de 1930 e 1940 estes produziram diferentes representações sobre a identidade musical do compositor brasileiro. O objetivo deste artigo é demonstrar que além de seus contatos com a Europa, em especial com a França, os diálogos do Nacionalismo Musical brasileiro com o Americanismo Musical foram um elemento significativo para construção da identidade musical do compositor brasileiro. Palavras-chaves: Villa-Lobos; Mário de Andrade; Curt Lange; nacionalismo; americanismo. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 21 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE MODUS Introdução Ao abordar o nacionalismo como fenômeno cultural específico, Anderson (2008) acredita ser necessário, ao pensar suas origens históricas, compreender a maneira por meio da qual os significados foram transformados ao longo do tempo. Esse procedimento explicaria, segundo o autor, o porquê de sua legitimidade emocional tão profunda nos dias atuais. Os nacionalismos - enquanto produtos do cruzamento complexo de forças históricas - são capazes de serem transplantados “com diversos graus de autoconsciência para uma grande variedade de terrenos sociais, para se incorporarem e serem incorporados a uma variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas” (ANDERSON, 2008, p. 30). O livro de Benedict Anderson se destaca por dedicar boa parte de seus estudos sobre o nacionalismo às Américas e à Ásia e por perceber as raízes da “cultura do nacionalismo” não na teoria política, mas em atitudes inconscientes ou semiconscientes, dando importância ao veículo das publicações, especialmente os jornais, e da língua escrita e falada, na construção das novas comunidades imaginadas, como a nação. Anderson valorizou, assim como os historiadores do imaginário franceses, o poder da imaginação coletiva, das imagens partilhadas (BURKE, 2005, p. 86). Por meio da música e dos discursos teóricos sobre ela, no caso a musicologia, podese visualizar as diferentes imagens que são construídas sobre as nações. Dentro desse cenário, no qual as nações são identificadas como construções simbólicas, a música e a musicologia são campos bastante fecundos. “Para um estudo de caso na história das representações, a musicologia é uma disciplina em que alguns praticantes agora se definem como historiadores culturais” (BURKE, 2005, p. 110). Como exemplo da relação entre a história cultural e a música, Burke (2005) destaca o trabalho de Edward Said, Culture and imperialism. Nesse texto, Said promove um debate “sobre Aída de Verdi, em que sugere que a obra confirma a imagem ocidental do Oriente como um lugar essencialmente exótico, distante e antigo, onde os europeus podem ostentar certo poder” (BURKE, 2005, p. 110). O objetivo deste artigo é demonstrar que a construção do Nacionalismo de VillaLobos estava ligado às suas relações com o Nacionalismo Musical liderado por Mário de Andrade e o movimento musical criado pelo musicólogo Francisco Curt Lange intitulado Americanismo Musical. Franz Kurt Lange nasceu em Eilembug, Prússia, atual Alemanha, em 1903. Mais tarde, quando adquirira a cidadania Uruguaia passara a se chamar Francisco Curt Lange. Como ocorrera com diversos outros intelectuais alemães no entre guerras, Lange emigrou para a América do Sul, fugindo da crise que assolava seu país natal. Chegou, inicialmente, em Buenos Aires e visitou Córdoba e 22 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 Novembro de 2011 Loque Arcanjo Júnior Mar Del Plata, radicando-se no Uruguai a partir de 1926, onde permaneceu até fins da década de 1940. Entre os anos 1930 e 1940, o movimento musical e musicológico, denominado por seu criador, a partir de 1933, como Americanismo Musical, apresentava algumas metas centrais que são identificadas nos seus textos: a integração da música nas Américas, o incentivo a publicações no campo musical e musicológico, a fundação de instituições culturais, discotecas e bibliotecas responsáveis pela guarda da cultura musical e musicológica. Projetos expressos por meio de publicações tais como: Dicionário Latino-Americano de Música; Guia Profissional Latino-Americano e Boletin Latino-Americano de Música. Na montagem de seu projeto musicológico, que envolvia diversos países das Américas, Curt Lange manteve contato com músicos e musicólogos brasileiros, dentre eles Mário de Andrade e Villa-Lobos. Dessa forma, são muito significativas questões tais como: quais as consonâncias e as dissonâncias entre os dois projetos musicológicos? Como a percepção de Mário de Andrade com relação ao Americanismo foi importante para a construção do Nacionalismo musical no Brasil entre os anos 1930 e 1940? Como esse debate envolveu Heitor Villa-Lobos e sua obra? Villa-Lobos: um músico moderno, nacional e latino-americano Aos 35 anos de idade, Villa-Lobos recebeu o convite para participar da Semana de Arte Moderna em São Paulo. Graça Aranha, Ronald de Carvalho e Paulo Prado foram à casa de Villa-Lobos convidá-lo para participar do evento projetado. Era a primeira vez que o compositor apresentaria suas obras fora do Rio de Janeiro. Naquele ano de 1922, Heitor Villa-Lobos foi o único músico a se apresentar nos três dias do evento, 13, 15 e 17 de fevereiro. O repertório de sua autoria, apresentado por ele na semana, foi composto em diferentes momentos no período entre 1914 a 1921: duas sonatas, dois trios, dois quartetos, um octeto (nas Danças africanas), seis peças para canto e piano e sete peças para piano-solo. As apresentações de Villa-Lobos em 1922 foram consideradas pela historiografia como o marco na vida artística do compositor, que, a partir daquele momento, se transformaria num músico essencialmente brasileiro. Os anos anteriores à década de 1920 são apontados como uma etapa preliminar na consolidação de Villa-Lobos enquanto expoente máximo da música brasileira (KIEFER, 1981; WISNIK, 1983). Um dos responsáveis pela criação dessa imagem foi o próprio Mário de Andrade. O musicólogo afirmava que “poucos anos depois de finda a guerra, e não sem antes REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 23 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE MODUS ter vivido a experiência bruta da Semana de Arte Moderna, Villa-Lobos abandonava consciente e sistematicamente o seu internacionalismo afrancesado, para se tornar o iniciador e figura máxima da Fase Nacionalista” (ANDRADE, 1991, p. 25). Relativizando as afirmações de Mário de Andrade, Guérios (2005) defende a ideia de que não foram as experiências de Villa-Lobos na Semana de Arte Moderna que transformaram o compositor em um músico nacional. “Apesar de já ter escrito algumas peças exaltando elementos da cultura musical brasileira, foi apenas após suas viagens a Paris em 1923 e 1927 que o compositor transformou suas composições, passando a exprimir, por meio destas, um conteúdo nacional” (GUÉRIOS, 2005, p. 124). Sobre a relação dos modernistas brasileiros com as vanguardas europeias, Moraes (1978) destaca que, num primeiro momento, os artistas modernistas não direcionaram suas preocupações para a construção de uma arte nacional. O modernismo brasileiro se caracterizava pelo combate ao que se denominava “passadismo”. De acordo com Moraes, Mesmo nos momentos em que nossos modernistas estão mais próximos das vanguardas européias, e é esta situação dos primeiros anos da década de 20, o que o analista do desenvolvimento do processo modernista precisa perceber é que este contato com o exterior pode ser imaginado com o da escolha das armas para uma guerra que se trava aqui mesmo no Brasil. Quando Oswald e Tarsila partiam para a Europa, quando Mário comentava com Sérgio Milliet as novidades de Paris, o que se tinha em mente era a adaptação, a utilização do material trazido da Europa na querela que prosseguia no Brasil contra o passadismo (MORAES, 1978, p. 63). É inegável a ascensão de Villa-Lobos à posição de “expoente da nova música” após as apresentações de 1922. Naquele mesmo ano, diversos convites foram feitos ao compositor para concertos na capital paulista, em sua maioria patrocinados pelo governo municipal. Com o apoio de órgãos públicos e de homens influentes na sociedade paulista e carioca, Villa-Lobos conseguiu fundos para realizar sua primeira viagem à França. Para tanto, reuniram-se diversas personalidades do cenário artístico e político que promoveram concertos, graças aos quais o compositor pôde organizar a viagem financeiramente. Fizeram parte dessas iniciativas em apoio a Villa-Lobos: o magnata Arnaldo Guinle, Olívia Penteado, Antônio Prado, os compositores Francisco Braga e Henrique Oswald e o poeta Ronald de Carvalho. Villa-Lobos partiu então para Paris, onde permaneceu no período de julho de 1923 a setembro de 1924, quando retornou ao Brasil. Em pouco mais de um ano na capital 24 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 Novembro de 2011 Loque Arcanjo Júnior francesa, ele conseguiu promover a apresentação de algumas de suas peças como Epigramas irônicos e sentimentais e a Prole do bebê, esta última interpretada por Arthur Rubinstein, um dos mais importantes pianistas daquele momento na Europa. De um modo geral, o contato dos modernistas brasileiros com as vanguardas europeias é considerado um marco na construção da nacionalidade no campo das artes e da cultura: Em suas linhas mestras a pesquisa de Aracy Amaral e a de diversos pesquisadores, como Antônio Candido e Benedito Nunes, para citar apenas os mais importantes, levam-nos a pensar que o nacionalismo literário que se esboça no ano de 24 e se amplia nos anos seguintes, num projeto de construção de uma cultura nacional, foi, mais uma vez, resultante do contato de nossa cultura dependente dos meios dominantes da Europa deste período (MORAES, 1978, p. 79). Para Moraes, apesar do pioneirismo de Graça Aranha em sua obra A estética da vida, publicada pela primeira vez em 1920, a questão da brasilidade e do Nacionalismo se apresenta no discurso modernista apenas a partir de 1924, com o Manifesto PauBrasil, de Oswald de Andrade. De 1917 até o ano de 1924, a questão modernista se direcionava para a crítica ao “passadismo”. Somente a partir desse ano é que o modernismo brasileiro voltou suas forças para a busca de uma nacionalidade artística. De acordo com Moraes, Uma leitura atenta dos documentos modernistas pode nos revelar que a tentativa de conciliar seus propósitos internacionalistas com o ideário nacionalista não foi uma preocupação que motivasse o grupo modernista até o ano de 1924 e que, a partir desta data, quando esta questão se colocou, sua solução exigiu uma elaboração bem mais complexa do que a simples enumeração dos atributos permite entender [...] é apenas no final de 1924 que a questão de fato surge como um problema para o escritor Mário de Andrade (MORAES, 1978, p. 52). Em 1927, dentro desse contexto de transformações no cenário artístico-cultural brasileiro, Villa-Lobos retornaria novamente à França, com uma fama já conquistada desde sua primeira viagem. Nessa última viagem, permaneceu por três anos. Em 1930 retornou a São Paulo, quando começou a compor as partituras que mais tarde, quando concluídas, após quinze anos de trabalho, formariam as nove Bachianas brasileiras (ARCANJO, 2008; 2010a) REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 25 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE MODUS Esse segundo momento do movimento modernista deslocava seu foco daquela preocupação inicial com a atualização estética, centrada na luta contra o denominado “passadismo”, para a consolidação de uma cultura nacionalista. Sobre essa mudança nos quadros gerais do modernismo brasileiro, a partir dos anos de 1930, as obras de Villa-Lobos passariam a expressar a preocupação com o nacional de forma mais explícita. Além da influência da cultura francesa, em que medida as relações entre o nacionalismo modernista de Mário de Andrade com o Americanismo Musical estão conectadas à construção da identidade nacional de Villa-Lobos e de sua obra? Buscacio (2009), tendo como tema a correspondência entre Curt Lange e o compositor brasileiro Camargo Guarnieri, analisou a construção de uma complexa rede de sociabilidades para mapear diversas questões que envolviam o Americanismo e o Nacionalismo musicais no Brasil. No que se refere às relações entre Curt Lange e Mário de Andrade, Buscacio afirma que o musicólogo brasileiro é o literato mais citado nas cartas trocadas entre Curt Lange e Camargo Guarnieri. O autor destaca que por várias vezes Curt Lange recorrera a Mário de Andrade, algumas sem sucesso, para solicitar apoio aos seus projetos: “no intuito de favorecer os projetos do Instituto Uruguaio-Brasileiro de Cultura, [...] em eventos musicais para os quais Curt Lange apelou à influência de Mario de Andrade [...] e para edição do Boletín Latino-Americano de Música” (BUSCACIO, 2009, p. 216). Ainda de acordo com Buscacio, “os laços entre Mario de Andrade e Curt Lange passaram por algum estremecimento, face às críticas do literato a alguns projetos encampados pelo musicólogo alemão” (BUSCACIO, 2009, p. 217). Apesar disso, “além de prestar auxílio para a concretização dos projetos pleiteados por Curt Lange, Mario de Andrade traçou incisivos elogios à produção editorial do Boletín Latino-Americano de Música, a cargo do musicólogo alemão” (BUSCACIO, 2009, p. 217) O distanciamento que supostamente se apresenta apenas como “um estremecimento” na relação entre Mário de Andrade e Curt Lange “face às criticas do literato a alguns projetos encampados” pelo musicólogo alemão, como afirma Buscacio, deve ser redimensionado. Contier aponta para um caminho fecundo e pouco explorado ao afirmar que Nas conferencias de Buenos Aires (1936) e de Lima (1938), a questão musical foi debatida como “valioso meio de vinculação entre os povos”. Nessas conferências, discutiu-se a criação de um Centro de divulgação de obras de compositores das Américas e uma Secção de Pesquisas Musicais do Instituto de Estudos Superiores do Uruguai, sob a direção do musicólogo de origem alemã, Francisco Curt Lange. Em sua essência, essa cooperação entre os Estados das Américas chocava-se com a tradição ibérica da maioria 26 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 Novembro de 2011 Loque Arcanjo Júnior dos países americanos e a formação cultural dos Estados Unidos. Lange desde os inícios da década de 30, defendia o “americanismo musical”, uma espécie de criação de uma Nação latinoamericana, entrando em choque com os ideais nacionalistas de Mário de Andrade, que buscava traçar o perfil sonoro do Brasil (CONTIER, 2004, p. 7). A ideia de integração esteve presente por diversos momentos da história da América Latina durante o século XX, debate ligado às relações com os Estados Unidos e à busca por uma identidade comum a todas as nações hispânicas. O lugar do Brasil dentro desse cenário foi sempre oscilante: ora o país se apresentou como parte integrante da América, ora como o “outro” diferente (BAGGIO, 1998; DORELLA, 2010; PRADO, 2001; CAPELATO, 2010). Esses estudos mais recentes sobre a América Latina têm demonstrado que “há no pensamento brasileiro sobre a América Hispânica significativas imagens e representações de discriminação. Essa ‘outra’ América é vista como um lugar menos desenvolvido e mais caótico que o Brasil” (DORELLA, 2010, p. 107). A primeira metade do século XX é um momento em que os intelectuais brasileiros nutriam grande resistência em relação aos países hispano-americanos, resistência que remontaria ao processo de colonização e às rivalidades entre Espanha e Portugal. Em que medida a compreensão das relações entre os intelectuais no Brasil e na América Hispânica esclarece as relações entre Americanismo e Nacionalismo musicais, bem como o lugar desse debate no contexto musicológico nacionalista brasileiro dos anos 1930 e 1940? Num dos trechos de O banquete, escrito em 1944, o musicólogo brasileiro explicitou diretamente sua visão sobre o lugar do Brasil em relação aos países da América Hispânica e em relação à cultura norte-americana. Uma análise do olhar de Mário de Andrade sobre esse tema é fundamental, pois é, também, a partir da necessidade de reforçar a diferença com relação às outras influências culturais que o seu nacionalismo se construiu. Nas palavras de Mário de Andrade: Nós somos um terreno de luta, não só comercial, mas cultural para as nações de primeira grandeza. E com a Guerra, com a derrota da França, a América do Norte aproveitou a ocasião, para ver se nos dominava culturalmente também. Empregou métodos excelentes, e hábeis quase todos, e não há dúvida de que a cultura latina, especialmente a francesa está periclitando por aqui. É um bem? É um mal. Nós não somos latinos eu sei. Mas também não somos norte americanos. Nossa cultura nacional é demasiado frágil para não sofrer conseqüências funestíssimas si se ianquizar. É engraçado: há culturas cuja REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 27 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE MODUS influência é perigosa, outras não. Por exemplo, eu acho a cultura espanhola muito perigosa para nós, porque desvirtua os caracteres íntimos da língua nacional. Toda influencia cultural enche de estrangeirismos, não há dúvida. Mas, é curioso como um galicismo, um anglicismo, um germanismo não deturpam a sensibilidade psicológica de nossa síntese. Talvez por virem de linguagens distantes demais da nacional. Mas, os italianismos e, sobretudo os espanholismos, por isso mesmo que muito mais sutis, muito menos visíveis, têm o dom terrível de deturpar as essências íntimas de nossa linguagem. Hoje eu estou convencido que a influencia francesa é a mais benéfica, mais fecunda para nós (ANDRADE1, 1944 apud DORELLA, 2010, p. 109). Num artigo publicado no Estado de São Paulo, em 14 de maio de 1939, intitulado Nacionalismo musical, Mário de Andrade analisava a forte irritação dos musicólogos brasileiros pela crítica feita por Curt Lange à música nacionalista. Ao longo do texto o musicólogo brasileiro afirmou: Escritor e crítico musical de rara abundância, para coroar seu sonho, o Sr. Curt Lange chamou de “Americanismo Musical”, palavras incontestavelmente muito lindas, mas que, objetivamente não parecem corresponder a nenhuma verdadeira realidade. [...] Para realização do seu nobre intuito o prof. Curt Lange ideou uma revista musical panamericana, e como é realmente um realizador, indiferente às desilusões e ao perigo de se tornar, para os indiferentes, um cacete: sem dinheiro, buscando elementos onde os encontra, lutando com a feroz indiferença dos governos e a incompreensão das sociedades lançou o Boletim Latino Americano de Música (ANDRADE, 1963, p. 293). Em artigo intitulado Distanciamentos e aproximações, publicado no Estado de São Paulo, no dia 10 de maio de 1942, Mário de Andrade demonstrava uma resistência ao projeto de Curt Lange ao afirmar que: Os compositores brasileiros andam preocupados com certas observações e exemplos apresentados ultimamente por compositores e críticos do resto das Américas a respeito da música nacional. No último número do seu admirável boletim latino-americano de música, o professor Curt Lange, insistindo sobre o caráter fortemente “folclórico” de certas obras de compositores brasileiros, chama atenção para o grupo, 1 ANDRADE, Mário. O banquete. São Paulo: Ed. Duas Cidades, 1944. 28 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 Novembro de 2011 Loque Arcanjo Júnior aliás interessantíssimo, de compositores chilenos, já... libertos da pesquisa nacionalizante. [...] E na Argentina, no Uruguay, por várias partes da América, surgem grupos de compositores moços, não sei se direi... avançadíssimos, mas resolutamente convertidos à “música pura”, despreocupados por completo de soluções técnicas nacionais para as obras. [...] Eu não conheço suficientemente a situação erudita nos outros países americanos, e por isso nada quero censurar a ninguém. Mas, entre nós, o caso talvez seja outro (ANDRADE, 1963, p. 363). Pode-se notar nesses textos que Mário de Andrade deixa explícita sua resistência ao projeto de Curt Lange, que possuía pressupostos conflitantes em relação ao modernismo nacionalista de Mário de Andrade. No seu prólogo do Boletim Latino Americano dedicado ao Brasil, publicado em 1946, Curt Lange afirmou que: La música del Brasil no avanzó en forma concatenada sino por etapas. La última y más prolongada, basada en el nacionalismo musical y fuertemente apoyada por el Gobierno del Presidente Vargas, elevó a la consideración del mundo diversos nombres que honran a su patria y a América entera. Desde Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Mignone y Camargo Guarnieri hasta creadores de menor producción y categoría, llenan una página de gloria cuyos resultados se prolongarán para siempre. Creemos, sin embargo, que la era del nacionalismo ha llegado a su mayor oscilación y que el péndulo se dirige al outro extremo. Nuevas fuerzas genera ese Brasil inmenso y de ellas ya se ven resultados notables en Claudio Santoro y más recientemente, en las obras de Guerra-Peixe, cuya Sinfonia es un paso importante. El universalismo en música es representado por un sector de menor proporción y peso, en instantes en que vuelve la paz y se espera del intercambio de productos espirituales un mayor incentivo para nuestros medios. Este grupo es el resultado directo de la labor docente desarrollado por H.J.Koellreutter, el cual, como opositor al régimen nazi, se trasladó voluntariamente al Brasil, donde formó su hogar y vive la metamorfosis del europeo incorporado a América (LANGE2, 1943 apud ASSIS, 2010, p. 68) Pode-se perceber nesse texto publicado no Boletim Latino Americano dedicado ao Brasil em 1946, que Curt Lange ao citar Villa-Lobos e outros compositores nacionalistas destacou o nacionalismo como um movimento que oscila. Lange deixa 2 LANGE, Francisco Curt, Boletín Latino-Americano de Música. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1946. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 29 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE MODUS implícita a ideia de que a música nacionalista encontrava-se em declínio. Por duas vezes, a América é citada e toma o sentido de um novo espaço de expressão musical. Além disso, Koellreuter, Santoro e Guerra-Peixe são colocadas como representantes do que as seriam “novas forças” musicais. Como destaca Kater (1993), entre os anos 1930 e 1940, o Americanismo Musical de Curt Lange se aproximava muito mais do movimento Música Viva e de outros movimentos estéticos que do Nacionalismo Musical de Mário de Andrade e VillaLobos. Os diferentes projetos eram em muitos pontos divergentes e criaram algumas tensões que se apresentam de forma implícita na correspondência de Curt Lange com os interlocutores brasileiros. Essas tensões ficaram latentes no contexto político dos anos 1930 e 1940 e, em particular, quando da publicação do VI Tomo do Boletim Latino Americano de Musicologia, obra de Curt Lange dedicada ao Brasil, cuja escolha dos colaboradores e das obras musicais que constariam na publicação passou a ser tema de debates acalorados entre Lange e os brasileiros com os quais estabelecera contatos para viabilizar a empreitada (ARCANJO, 2010b). Desenvolvido entre os anos de 1935 e 1946, um dos projetos mais importantes da carreira musicológica de Curt Lange foi a edição dos Boletins Latino-Americanos de Musicologia. Num total de seis volumes, cada um deles foi dedicado a um país. O formato da publicação dividia-se em duas partes: a primeira consistia em estudos musicológicos, sob a forma de artigos, resenhas, traduções. A segunda parte, Suplemento musical, era formada por partituras de músicas escritas por compositores do país ao qual era dedicado o volume. O governo do país tratado no volume era responsável pela escolha dos textos e das obras que deveriam ser publicadas. A partir dos contatos realizados por Curt Lange com os órgãos oficiais de diversos países da América Latina, o musicólogo conseguia angariar fundos e apoio político para o seu projeto. O debate acerca da organização e da publicação do volume VI do boletim, inteiramente dedicado ao Brasil, foi temática recorrente na correspondência entre Curt Lange e os modernistas brasileiros entre os anos de 1943 e 1946. Esse debate expressa em suas entrelinhas as relações entre a música, sua produção e difusão e aquele contexto político, bem como o papel desempenhado pelos personagens envolvidos. Villa-Lobos tornou-se o principal correspondente de Curt Lange no governo brasileiro. O compositor dificultou ao máximo o projeto de publicação do boletim dedicado ao Brasil. Lange mudou-se temporariamente para o Rio de Janeiro e ali permaneceu entre os anos de 1944 e 1945 na tentativa de concretizar a publicação, mas o boletim foi publicado somente em 1946. A resistência às vanguardas europeias que estavam mais próximas do Americanismo 30 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 Novembro de 2011 Loque Arcanjo Júnior musical de Curt Lange está presente nos textos de Villa-Lobos, nos quais se nota, sob a influência de Mário de Andrade, a crítica à presença dessas vanguardas na música do “novo mundo”, presença marcada, nas palavras do compositor, por um “atonalismo ortodoxo e estéril”. Em 1949, no seu artigo intitulado A música nas Américas, Villa-Lobos afirmava: Seja essa atitude de aceitar a tutela da Europa, seja outra diametralmente oposta, no sentido de ultrapassar os limites alcançados no Velho Mundo, lançando mão de um atonalismo ortodoxo e estéril sem raízes no Novo Mundo, os americanos enveredam por um falso caminho que só poderá levar ao esgotamento dos meios de expressão, conquanto disponhamos de um rico material a ser trabalhado (VILLALOBOS, 1970, p. 104). O Americanismo Musical de Curt Lange correspondia às estratégias de atuação da União Pan-americana e, nesse sentido, Lange realizaria na Biblioteca do Congresso de Washington, por solicitação do Secretário de Estado dos Estados Unidos, a Primeira Conferência de Relações Interamericanas no campo da música. Como ressonância desses interesses, foi oficializado, pelo governo do Uruguai, em 26 de junho de 1940, o Instituto Interamericano de Musicologia, por iniciativa de Curt Lange e por recomendação da VIII Conferência Internacional Americana de Lima, em 1938, do Congresso Internacional de Musicologia de Nova York e da já mencionada Conferência de Relações Interamericanas de Washington, essas duas últimas de 1939 (MOURÃO, 1990). Em 1940, Villa-Lobos realizou uma série de concertos no Serviço Oficial de Difusão Rádio Elétrica do Uruguai (SODRE), órgão dirigido por Curt Lange. Por iniciativa do SODRE, Villa-Lobos levou ao público uruguaio algumas de suas obras escritas nas décadas de 1910 e 1920. Sob a direção do maestro brasileiro, o concerto contaria com a apresentação de três obras de sua autoria e outras obras de cinco compositores da música nacionalista brasileira. As obras apresentadas por VillaLobos em Montevidéu eram todas de sua autoria e ligadas às temáticas nacionalistas. Mas é muito significativo observar que os recortes de jornais da época selecionados por Curt Lange no seu arquivo apresentavam Villa-Lobos como “O mais alto valor musical da América”3 “Artista mais genial e original da América”4, “Villa-Lobos terminou a audição com uma suíte de danças afro americanas”5 3 JORNAL EL DIÁRIO. Magnífica fiesta de arte ofreció ayer Villa-Lobos em el SODRE. 20 de out. de 1940. Recortes ACL/Biblioteca Central/UFMG, 2.2.S15.1096. 4 JORNAL EL PLATA. Entre Músicos y músicas. 16 de out. de 1940. Recortes ACL/Biblioteca Central/UFMG, 2.2.S15.1096. 5 LA TRIBUNA POPULAR. Festival Sinfônico de Villa-Lobos. 20 de out. de 1940. Recortes ACL/Biblioteca Central/UFMG, 2.2.S15.1096. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 31 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE MODUS Os jornais presentes na memória arquivística de Curt Lange que analisaram os concertos realizados por Villa-Lobos atribuem, portanto, uma identidade americana tanto à sua obra quanto à sua imagem enquanto compositor. Nesses concertos realizados no Uruguai, o repertório contava ainda com obras de outros compositores nacionalistas tais como Lorenzo Fernandez e Francisco Mignone6. É muito significativo notar também que as danças afro-americanas citadas pelo jornal La Tribuna Popular são as Danças Características Africanas, que foram escritas entre 1914 e 1916 e apresentadas por Villa-Lobos durante a semana de Arte Moderna de 1922. Dessa forma, é importante notar que às obras musicais são atribuídos significados que estão ligados ao contexto. Conclusão Para os estudos históricos que utilizam a música como temática, são fundamentais as análises que buscam a construção de significados atribuídos às obras e aos músicos. Em outras palavras, os críticos, os programas de concertos, os instrumentos de difusão das obras e os jornais são fontes importantes, juntamente com a linguagem musical, para historiadores que privilegiam a música como objeto de pesquisa. Nesse sentido, o que se nota a partir dessa discussão sobre a imagem de Villa-Lobos e sua obra é que as fontes apontam para um elemento pouco discutido. A partir dos anos 1940, Villa-Lobos se aproxima dos Estados Unidos e de outros países da América Latina, realizando concertos e atuando, fundamentalmente, como regente. Esse é um contexto muito rico e pouco explorado pelos estudiosos da trajetória artística do compositor brasileiro. Num cenário cujo contexto é caracterizado pela Segunda Grande Guerra, pela política de “boa vizinhança” e pelo debate sobre o lugar do Brasil no contexto latino americano, o papel de Villa-Lobos ainda está por se estudar. Quando a difusão de sua obra foi analisada, os textos, na maioria das vezes, destacavam esses eventos históricos, mas não os relacionam de forma crítica. O choque de interesses políticos que tinha como elemento central no Brasil a política “estadonovista” foi um elemento fundamental para o conflito de representações construídas sobre o compositor e sua obra. É nesse sentido que o Americanismo Musical de Curt Lange ao propor uma integração musical das Américas e o Nacionalismo Musical de Mário de Andrade calcado na utopia da busca por uma sonoridade nacional são panos de fundo de um contexto político e social que construiu interpretações diferentes de Villa-Lobos e sua obra. 6 Programa de Concerto. ACL/Biblioteca Central/UFMG, 2.2.S15.1096. 32 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 Novembro de 2011 Loque Arcanjo Júnior REFERÊNCIAS ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ANDRADE, Mário de. Música, doce música. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1963. ANDRADE, Mário. A evolução social da música no Brasil. In: ______. Aspectos da música brasileira. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Villarica, 1991. ANDRADE, M. de. Ensaio sobre a música brasileira. 4. ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2006 ANDRADE, M. de. Música e jornalismo. São Paulo: EDUSP/HUCITEC, 1993. ARCANJO, Loque. O ritmo da mistura e o compasso da história: o modernismo musical nas Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos. Rio de Janeiro: E-papers, 2008. ______. As representações da nacionalidade nas Bachianas Brasileiras de H. VillaLobos. Revista Escritas, Palmas, v. 2, ano 2, p. 77-101, 2010a. ______. Francisco Curt Lange e o modernismo musical no Brasil; identidade nacional, política e redes sociais entre os anos 1930 e 1940. Revista e-hum, Belo Horizonte, v. 3, n. 2, p. 66-81, 2010b. Disponível em: <http://www.unibh.br/ revistas/ehum/>. Acesso em: 20 de maio de 2012. ASSIS, Ana Cláudia. César Guerra-Peixe: entre músicas e músicos (1944-1949). Revista do Conservatório de Música da UFPEL, Pelotas, n. 3, p. 58-79, 2010. BAGGIO, Kátia Gerab. A “outra” América: a América Latina na visão dos intelectuais brasileiros das primeiras décadas republicanas. Tese (Doutorado em História) Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998. BURKE, Peter. O que é história cultural. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. BUSCACIO, Americanismo e nacionalismo musicais na correspondência de Curt Lange e Camargo Guarnieri (1934-1956). Tese (Doutorado em História Social) REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 33 HEITOR VILLA-LOBOS ENTRE O NACIONALISMO DE MÁRIO DE ANDRADE E O AMERICANISMO DE FRANCISCO CURT LANGE MODUS Instituto de Filosofia e Ciências Sócias, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. CAPELATO, M. H. R. O ‘gigante brasileiro’ na América Latina: ser ou não ser latino-americano. In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500-2000) A Grande Transação. 2 ed. São Paulo: Ed. Senac, 2010. p. 285-316. CONTIER, Arnaldo. O nacional e o universal nas obras de Mário de Andrade e Villa Lobos. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA, 7., Campinas, 2004. Anais... Campinas: ANPUH/SPUNICAMP, 2004. 1 CD-ROM. DORELLA, Priscila. Obstáculos à constituição de uma identidade latino-americana no Brasil em Silvio Júlio de Albuquerque. Revista Escritas, Palmas, v. 1, ano 1, p. 104-122, 2010. GUÉRIOS, Paulo Renato. Lutando por sua predestinação. Um estudo antropológico da trajetória de Heitor Villa-Lobos. Dissertação (Mestrado Antropologia) - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001. LANGE, Francisco Curt. Boletín Latino-Americano de Música. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1946. ______. Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2003. MORAES, Eduardo Jardim de. A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica. Rio de Janeiro: Graal, 1978. MOURÃO, Rui. O alemão que descobriu a América. Belo Horizonte: Itatiaia, 1990. KATER, Carlos. Música, educação musical, América Latina e contemporaneidade. In: ENCONTRO DA ANPPOM, 6., Rio de Janeiro, 1993. Anais... Rio de Janeiro: Programa de Pós-graduação em Música/UNICAMP, 1993. p. 97-104. KIEFER, Bruno. Villa-Lobos e o modernismo na música brasileira. Porto Alegre: Movimento, 1981. PRADO, Maria Ligia Coelho. O Brasil e a distante América do Sul. Revista de 34 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 Novembro de 2011 Loque Arcanjo Júnior História, São Paulo, n. 145, p. 127-149, 2000. SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais. In: RÉMOND, Réne. Por uma história política. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ; Ed. FGV, 1996. p. 231-262. VILLA-LOBOS, H. A música nas Américas. In:______. Presença de Villa-Lobos. Rio de Janeiro: MEC/Museu Villa-Lobos, v. 5, 1970. VILLA-LOBOS, H. Autobiografia. In: ______. Presença de Villa-Lobos. v. 4. Rio de Janeiro: MEC/Museu Villa-Lobos, 1969. p. 98-99. WISNIK, J. M. O coro dos contrários: a música em torno da semana de 22. São Paulo: Duas Cidades, 1983. Heitor Villa-Lobos between Mário de Andrade Nationalism and Americanism Francisco Curt Lange Abstract This article aims to analyze the construction of the image of Heitor Villa-Lobos from the look of two musicological projects: Nationalism Mário de Andrade and Francisco Curt Lange Americanism. Between the 1930 and 1940 they produced different representations of the musical identity of Brazilian composer. The aim of this paper is to demonstrate that in addition to its contacts with Europe, particularly with France, the dialogues of the Brazilian musical nationalism to the American Musical was a significant element for the construction of musical identity of the Brazilian composer. Keywords: Villa-Lobos; Mário de Andrade; Curt Lange; nationalism; americanism. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 21-35 35 MODUS 36 Novembro de 2011 ESTUDOS TRANSCENDENTAIS DE FRANCISCO MIGNONE: NACIONALISMO OU INTERNACIONALISMO? Neander Cândido da Silva Graduado em piano pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). Professor de piano e musicalização do Núcleo Villa-Lobos de Educação Musical. [email protected] Guilherme Silveira Nascimento Compositor, doutor em Música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e bacharel em composição pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor da Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). [email protected] Resumo Neste artigo pretendemos verificar alguns aspectos composicionais dos Estudos transcendentais, de Francisco Mignone, e suas possíveis relações com o Nacionalismo Musical da época. Nessa obra, composta em 1931, Mignone parece recorrer ao emprego de títulos poéticos brasileiros para camuflar uma linguagem musical internacional. Estaria ele fugindo da patrulha nacionalista de Mário de Andrade? Partindo de uma visão crítica dos Estudos transcendentais, nos perguntamos até que ponto pode-se relacionar o material musical à imagem “brasileira” sugerida pelos títulos. Palavras-chave: Francisco Mignone; Mário de Andrade; Estudos transcendentais; música brasileira; música nacionalista. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 37 ESTUDOS TRANSCENDENTAIS DE FRANCISCO MIGNONE: NACIONALISMO OU INTERNACIONALISMO? MODUS Este estudo parte da hipótese de que Francisco Mignone teria acrescentado títulos “brasileiros” aos seus Estudos transcendentais para camuflar uma linguagem musical internacional. O intuito seria, como acreditamos, melhor se enquadrar na ideologia nacionalista de Mário de Andrade, a influente no Brasil na ocasião da composição dessa obra. Os Estudos transcendentais de Mignone prestam-se à nossa investigação uma vez que, por terem sido compostos em 1931, apenas três anos após seu retorno da Europa, estão impregnados de elementos musicais europeus. Nos Estudos transcendentais, Mignone utiliza diversos elementos característicos da música europeia do início do século XX e largamente utilizados pelos compositores Debussy, Ravel, Stravinsky, Milhaud etc. Entre os recursos: abandono da tonalidade tradicional, alternância de compassos, flutuação de andamentos, especificação de articulações e dinâmicas executadas simultaneamente e apresentadas em vários pentagramas, ausência de barras e fórmulas de compasso, reconhecimento do “colorido sonoro” (escalas pentatônicas e modais) como elemento essencial. No ano da composição da obra, o Brasil estava vivendo um período histórico muito importante na música brasileira: a era do Nacionalismo. Mário de Andrade foi o grande idealizador do movimento. Pertenceu à Sociedade de Cultura Artística (1921), foi professor de História da Música e Estética no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (1922), diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo (1935) e do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, onde organizou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1938). Além disso, atuou como crítico em várias instituições: revista Klaxon (1922), crítico de arte e cronista do jornal Diário Nacional de São Paulo (1927-1932) e do jornal Diário de São Paulo (1932-1935). Também foi o criador da Sociedade de Etnologia e Folclore de São Paulo (1939), sócio fundador da Sociedade dos Escritores Brasileiros e colaborador dos jornais Diário de São Paulo e Folha de São Paulo (1942). Andrade (1972) pregava que a música brasileira deveria estar pautada por critérios sociais e não filosóficos, visando à constituição da identidade nacional. Defendia, também, [...] “a pesquisa do folclore (musica popular) como fonte de reflexão temática e técnica do compositor erudito brasileiro” (CONTIER, 2004, p. 1). Em 1928, lançou as bases da metodologia nacionalista em sua publicação Ensaio sobre a música brasileira, que continha as diretrizes para a produção da música nacional e um levantamento “científico” sobre a música folclórica brasileira. Segundo o idealizador, as composições deveriam conter fontes folclóricas para alcançar a apreciação do povo brasileiro. Mário de Andrade criticava os autores brasileiros que compunham suas músicas apresentando aspectos exóticos da cultura brasileira para alcançarem os 38 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 Novembro de 2011 Neander Cândido da Silva, Guilherme Silveira Nascimento críticos franceses que as valorizavam (CONTIER1, 1985 apud AMBROGI, 2010, p. 1312). O mesmo autor ainda afirma que os compositores, segundo Mário de Andrade, deveriam seguir três processos na composição: a) Empregar integralmente melodias folclóricas em suas peças (Luciano Gallett, por exemplo); b) Modificar um ou outro trecho de uma música folclórica (variações sobre um tema de cana-fita, de Sérgio Vasconcellos Corrêa); c) Inventar uma melodia folclórica própria. Não se trata de folclore “puro”, mas da música erudita de inspiração popular. As melodias não são simples pastiches dos documentos folclóricos, mas de livre criação do artista imbuído dos caracteres nacionais, conforme o pensamento esboçado no Ensaio Sobre a Música Nacional2 (AMBROGI, 2010, p. 1312) Mário de Andrade ainda criticava os compositores brasileiros que não produziam suas músicas dentro das bases da metodologia nacionalista propostas por ele e se referia a eles como artistas inúteis: Todo artista brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira é um ser eficiente com valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, se não for gênio, é um inútil, um nulo. E é uma reverendíssima besta (ANDRADE, 1972, p. 20). Francisco Mignone; no seu retorno ao Brasil, em 1928, apresenta a primeira audição da ópera L’inocente. Mário de Andrade, ao ver a ausência da linguagem nacional defendida pelo movimento nacionalista na obra de Mignone, o critica: O L`inocente. Mas que valor nacional tem o L`inocente? Absolutamente nenhum. Em Música italiana, Francisco Mignone será mais um, numa escola brilhante, rica e numerosa, que ele não aumenta. Aqui ele será um valor imprescindível (ANDRADE3, 1928 apud AZEVEDO, 1997, p. 13) Após a crítica de Mário de Andrade, Mignone resolve ouvir seus apelos e se volta às 1 CONTIER, Arnaldo Daraya. Música e ideologia no Brasil. São Paulo: Novas Metas, 1985. 2 Ambrogi (2010) lembrando Contier diz que o projeto estético-ideológico proposto por Mário de Andrade exerceu forte influência de cunho nacionalista em compositores do país, como Camargo Guarnieri, que “[...] conseguiu organizar uma Escola Nacionalista, formando um grupo de compositores de relativa importância no panorama da música brasileira contemporânea: Nilson Lombardi, Osvaldo Lacerda, Marlos Nobre, Aylton Escobar, Sérgio Vasconcellos Corrêa, Almeida Prado, Kilza Setti, entre outros” (CONTIER, 1985 apud AMBROGI, 2010, p. 1312) 3 ANDRADE, Mário de. Diário Nacional, 1928. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 39 ESTUDOS TRANSCENDENTAIS DE FRANCISCO MIGNONE: NACIONALISMO OU INTERNACIONALISMO? MODUS vertentes nacionalistas, focando ritmos e características melódicas brasileiros. Dessa forma, em 1929, compõe a Primeira fantasia brasileira para piano e orquestra. Essa obra teve sua primeira execução em São Paulo, em fevereiro de 1931, por Souza Lima ao piano, causando em Mário de Andrade uma boa impressão, que o elogia pelo nacionalismo alcançado. Começa, aí, uma grande amizade entre os dois, uma relação em que Mário de Andrade sempre aponta as diretrizes pelas quais Mignone deveria seguir para se tornar um compositor verdadeiramente brasileiro. Em 11 de janeiro de 1931, dedicados à Guiomar Novaes, Mignone compõe os Estudos transcendentais para piano solo. Eles são intitulados: Velho tema, A morte de Anhanguera, A voz da floresta, No coqueiral, A menina dos cabelos cor de graúna e Saci. Essa obra reafirma o íntimo e profundo conhecimento que o autor possuía do instrumento destinado. A musicalidade sempre pronta e fluente, o emprego de recursos técnicos amplos e de nobre qualidade são características primordiais que resultam numa linguagem rica de efeitos sonoros trágicos, onomatopaicos e solenes. A linguagem musical utilizada por Mignone se encaixaria não no Nacionalismo pregado por Mário de Andrade, mas no que poderíamos chamar de uma linguagem internacional de composição: Os Seis Estudos Transcendentais carregam consigo uma carga emocional-descritiva através da titulação induzidora. O conteúdo pianístico é abrangente. A ausência de barra de compassos do Velho Thema (eslavo?) dimensiona a liberdade de flutuação de andamento dessa página grandiosa. Em A Morte de Anhangüera o autor explora uma de suas mais marcantes inclinações, a busca timbrística, que distintamente estará explorada em A voz da Floresta. O Coqueiral contém seção que é homenagem nominal a Claude Debussy, em compartimento caro ao compositor francês, as baixas intensidades banhando notas que se destacam em passagens fluidamente arpejadas. A menina dos cabelos cor de graúna, logo após a homenagem a Debussy, não seria uma versão poético-tropical à La fille aux cheveux de lin do autor francês? Nesta peça, o compositor apresenta processo técnico-pianístico que lhe é extremamente familiar, as mãos alternadas. Por outro aspecto, é nítida a proximidade de La serenade interropue. Os desenhos em fusas rapidíssimas são típicos exemplos dessa visão pianística transparente, clara à Mignone. Esta estará presente em Saci, onde o autor realiza conjunção de desenhos expostos pela mão direita e igualmente em mãos alternadas e a transcendência maior volta-se à absoluta igualdade que deve transparecer (MARTINS, 1997, p. 64). 40 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 Novembro de 2011 Neander Cândido da Silva, Guilherme Silveira Nascimento Podemos perceber que a técnica composicional utilizada por Francisco Mignone nessa obra é muito semelhante à técnica já utilizada por outros compositores do século XX. No primeiro estudo, Velho tema, é proposto um tema inicial, sugerindo um ambiente sonoro eslavo. À moda de Rimsky-Korsakov, Stravinsky e Debussy, o tema exposto não é desenvolvido à maneira germânica, mas apresentado e retomado várias vezes, modificado apenas pela harmonização. O tema discorre até o piacere (recitativo) que dá o efeito de improvisação ao prelúdio, à moda de À l´après-midi d´un faune (1892-1894), de Debussy. Em A morte de Anhanguera, a alternância frequente de compassos contribui para uma maior fluidez da métrica. Mignone evoca a imagem da “morte”, tema muito utilizado no romantismo tardio por Mahler (últimas sinfonias, Kindertotenlieder), Strauss (Macbeth, Tod und Verklärung) e Schoenberg (Gurre-lieder). No terceiro estudo, A voz da floresta, a medida de tempo deixa de obedecer às barras de compasso e passa a depender da duração individual de cada semínima. Stravinsky utilizou uma técnica composicional semelhante na Dança do sacrifício (Sagração da primavera). Há também o uso de escalas pentatônicas em confronto com a escala diatônica, que sugerem uma paisagem sonora alusiva à natureza com elementos como água, pássaros e um ambiente misterioso de mata fechada. O som do mar, a curva do horizonte, o vento nas folhas, o grito de um pássaro deixam em nós impressões múltiplas. E de repente, independentemente de nossa vontade, uma dessas lembranças emerge de nós e se expressa em linguagem musical. Quero cantar minha paisagem interior com a simplicidade de uma criança. Claude Debussy (GRIFFITHS, 1998, p. 10). No coqueiral, a dificuldade técnica de uma rítmica extremamente complexa é confrontada com a leveza do toque exigido pelas intensidades que oscilam entre o pp (pianissimo) e o pppp (piano pianississimo). O uso abundante dos intervalos de quartas paralelas em blocos de acordes também foi utilizado por Paul Hindemith (Drei leichte Stücke I e III). A menina dos cabelos cor de graúna oscila entre as tonalidades homônimas dó sustenido maior e dó sustenido menor. O compositor trabalha a alternância das mãos e explora os contrastes em diversos planos sonoros com dinâmicas que vão do ppp (pianississimo) ao fff (fortississimo). A complexidade rítmica do acompanhamento alude ao prelúdio La serenade interropue, de Debussy. A frequente alternância de compassos nos remete aos balés da fase russa de Stravinsky. O título do último estudo faz uma alusão ao folclore brasileiro: Saci. Apesar de o foco principal da peça REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 41 ESTUDOS TRANSCENDENTAIS DE FRANCISCO MIGNONE: NACIONALISMO OU INTERNACIONALISMO? MODUS não ser uma melodia folclórica, como sugere as características andradianas, este recai sobre o ritmo, em que os acentos sugerem o andar irregular do Saci e a velocidade nos remete à agilidade e astúcia do personagem folclórico. Os Estudos transcendentais foram compostos em janeiro de 1931. De acordo com o manuscrito, arquivado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, esses estudos, com exceção do primeiro, que foi titulado Praeludium, não possuíam títulos. Cada estudo era numerado de um a seis e a ordem em que eles apareciam difere da edição editada. A obra foi aprovada pelo conselho técnico-administrativo do Instituto Nacional de Música para a sua inclusão ao repertório de piano, adotado pela Universidade do Rio de Janeiro e pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo em 26 de abril de 1933. A partir de então, surgem, na sua maioria, os títulos nacionalistas: Velho tema, A morte de Anhanguera, A voz da floresta, No coqueiral, A menina dos cabelos cor de graúna e Saci.4 Nesse espaço de tempo (1929 a 1933) Mignone compôs várias obras de cunho nacionalista e afinadas com os preceitos de Mário de Andrade, como Primeira e segunda fantasia brasileira, Miudinho, Valsa elegante, Três serenatas (Pierrot, Arlequim e Cornetas de papelão), Tango brasileiro, Festa na roça, Serenata humorística etc. Não foram encontrados nos Estudos transcendentais, os elementos nacionalistas pregados por Mário de Andrade para caracterizar o que se nomeava música brasileira. Ao contrário, as técnicas composicionais de Francisco Mignone nos remetem às técnicas utilizadas por vários compositores europeus da época. Dar títulos poéticos brasileiros aos Estudos transcendentais não seria, então, uma estratégia para camuflar uma linguagem musical europeia? Em meio a tantas obras nacionalistas editadas na época, essa não seria uma maneira de burlar a patrulha nacionalista e preservar a amizade de Mário de Andrade? Francisco Mignone confessou, em uma entrevista de 1983, que só se sentiu à vontade para escrever o que bem quisesse depois da morte de Mário de Andrade: “depois de sua morte, me libertei da pressão que ele fazia por uma música nacionalista” (PAES5, 1983 apud MARQUES, 2001, p. 19-20). Pouco provável que saibamos se Mignone pensou nos títulos antes de compor os estudos ou se os acrescentou posteriormente para burlar a patrulha ideológica de Mário de Andrade. O manuscrito conhecido, hoje preservado na Biblioteca Nacional, é um documento passado a limpo. A hipótese dos títulos terem sido dados 4 Marques (2001) defende a possibilidade dos títulos terem sido dados antes dos estudos serem compostos, pois que há, no manuscrito, uma folha de rosto separando cada estudo. Em cada uma delas há um papel colado, como que tampando o título. Em uma das páginas, após a descolagem do papel, pôde-se perceber que havia algo escrito por baixo. 5 PAES, Priscilla. Janeiro de 1983. 42 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 Novembro de 2011 Neander Cândido da Silva, Guilherme Silveira Nascimento a priori ou a posteriori só resolverá quando e se encontrarmos os rascunhos originais do compositor. Ainda assim, sem uma declaração do compositor, dificilmente saberemos se eles, alguma vez, foram explicativos ou descritivos. Talvez, nem um nem outro, mas apenas títulos significativos. O que nos chama a atenção, porém, é o fato de que ele escreveu música universal. Mesmo assim, foi aplaudida como música nacionalista, o que sugere que a fiscalização ideológica nacionalista poderia ser burlada, ou mesmo, que se poderia falar de cultura brasileira sem se abrir mão de um discurso universal. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 43 ESTUDOS TRANSCENDENTAIS DE FRANCISCO MIGNONE: NACIONALISMO OU INTERNACIONALISMO? MODUS REFERÊNCIAS AMBROGI, Lucas Dias Martinez. Notas dissonantes: as diferentes concepções de música nacional segundo Mário de Andrade e o grupo Música Viva (1920-1950). In: SEMINÁRIO DE PESQUISA EM CIÊNCIAS HUMANAS, 8., Londrina. Anais... Londrina: Eduel, 2010. Disponível em: <http://www.uel.br/eventos/ sepech/sumarios/temas/notas_dissonantes_as_diferentes_concepcoes_de_musica_ nacional_segundo_mario_de_andrade_e_o_grupo_musica_viva_1920_1950.pdf>. ANDRADE, Mário de. Ensaio sobre a música brasileira. Brasília: INL, 1972. AZEVEDO, Luiz Heitor Corrêa de. Francisco Mignone: viver de música e para a música. In: MARIZ, Vasco (Org.). Francisco Mignone: o homem e a obra. Rio de Janeiro: Editora da Universidade do Rio de Janeiro;FUNARTE, 1997. p. 11-17. CONTIER, Arnaldo Daraya. O nacional na música erudita brasileira: Mário de Andrade e a questão da identidade cultural. Fênix - Revista de história e estudos culturais, Uberlândia, v. 1, n. 1, p. 01-21, out./nov./dez. 2004. GRIFFITHS, Paul. A música moderna: uma história concisa e ilustrada de Debussy a Boulez. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. MARIZ, Vasco (Org.). Francisco Mignone: o homem e a obra. Rio de Janeiro: Editora da Universidade do Rio de Janeiro; FUNARTE, 1997. MARQUES, Thais Maura. Seis estudos transcendentais para piano de Francisco Mignone: análise e edição crítica. Belo Horizonte. 2001. 137f. Dissertação (Mestrado em Performance Musical e Musicologia) - Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais, 2001. MARTINS, José Eduardo. A pianística de Francisco Mignone. In: MARIZ, Vasco (Org.). Francisco Mignone: o homem e a obra. Rio de Janeiro: Editora da Universidade do Rio de Janeiro; FUNARTE, 1997. MIGNONE, Francisco. Seis estudos transcendentais (manuscritos do autor). São Paulo, 1931. MIGNONE, Francisco. Seis estudos transcendentais. São Paulo: L. G. Miranda, 1933. SANTOS, Paulo Sérgio Malheiros dos. Músico, doce músico. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004. 44 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 Novembro de 2011 Neander Cândido da Silva, Guilherme Silveira Nascimento Trancendental edudes by Francisco Mignone: nationalism or internationalism? Abstract In this paper we intend to verify some compositional aspects of Transcendental etudes, by Francisco Mignone, and their possible relationships with the musical nationalism of the time. In this work, composed in 1931, Mignone seems to appeal to the use of Brazilian poetic titles to camouflage an international musical language. Was he running away from Mario de Andrade’s nationalist supervision? Starting from a critical view of Transcendental etudes, we wonder to what extent one can relate the musical material to the “brazilian” image suggested by the titles. Keywords: Francisco Mignone; Mário de Andrade; transcendental etudes; brazilian music; nationalistic music. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 37-45 45 MODUS 46 Novembro de 2011 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES José Antônio Baêta Zille Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); mestre em Tecnologia pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) e especialista em Adolescência pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Atualmente é professor de ensino superior e pós-graduação da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG). [email protected] Nathália Pereira de Almeida Graduada em Licenciatura em Música pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e flautista da Banda de Música do 29º Batalhão da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais. [email protected] Resumo Este artigo aborda aspectos dos conhecimentos teóricos relacionados ao desenvolvimento dos sujeitos, com um maior enfoque no entendimento das características e comportamentos peculiares da adolescência. Ao mesmo tempo, vincula tais conhecimentos a algumas teorias pedagógicas para o ensino de música, escolhidas entre aquelas compatíveis com as demandas da adolescência. Ao confrontar esses conhecimentos, buscou-se sintetizar algumas bases que ajudam a direcionar o processo de educação musical mais coerente para esses sujeitos. Palavras-chave: Educação musical; adolescência; metodologia do ensino musical. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 47 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS Introdução Não raro, observa-se que as metodologias usadas para o ensino de música nas escolas especializadas são as mesmas para todas as faixas etárias. Ao se analisar o material didático usado na aplicação sistemática nas aulas, na maioria das escolas, percebe-se que esse material e atividades são comumente baseados em outros explicitamente desenvolvidos para crianças. Esse fato sugere uma inadequação dessas metodologias quando aplicadas a sujeitos adolescentes. Estudar o desenvolvimento humano, suas fases, características e peculiaridades, torna-se importante e necessário para que se tenham ações mais condizentes a cada etapa da vida, em todos os sentidos. Tal preocupação ainda deve ser maior no âmbito educacional, uma vez que a humanidade necessita do processo educacional para se manter como tal. As teorias a respeito do desenvolvimento humano são relativamente recentes. No entanto, existem teorias específicas para cada fase do desenvolvimento, inclusive para a adolescência. Há de se considerar também que vem sendo desenvolvidas teorias modernas para o ensino de música. Algumas delas considerando as várias fases da vida do ser humano. Porém, percebe-se que em alguns aspectos tais teorias são pouco ou não são levadas em consideração. A partir desse contexto, este artigo pretende abordar aspectos dos conhecimentos teóricos relacionados ao desenvolvimento dos indivíduos, com um maior entendimento das características e dos comportamentos peculiares da adolescência. Ao mesmo tempo, vincula tais conhecimentos a algumas teorias musicais contemporâneas. Assim, acredita-se contribuir para uma melhor adequação das metodologias propostas para o ensino de música frente às variantes comportamentais exibidas pelos adolescentes. Nesse sentido, estarão sendo equacionados os interesses dos adolescentes às funções e interesses da escola, proporcionando um ambiente de aprendizagem que favoreça uma relação mais íntima e natural com o conhecimento. 1 A adolescência 1.1 O sujeito adolescente As noções de adolescência têm origem ainda na Grécia Antiga, quando Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) fez referência às características fisiológicas e comportamentais dos jovens, distinguindo-as das crianças e dos adultos. No entanto, o conhecimento 48 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida a respeito do crescimento e do desenvolvimento humano, por muito tempo, esteve pouco sistematizado. Somente após o início do século XX, muitos estudos1 foram realizados com o objetivo de entender e explicar as teorias sobre o desenvolvimento humano, enfatizando o período da adolescência. Com esses estudos, procurou-se desenvolver teorias específicas a respeito desse período da vida humana, abordando vários aspectos como o físico, emocional, cognitivo e social. O primeiro estudo publicado que utiliza o termo adolescência aconteceu em 1904 por Stanley Hall, que caracterizou a adolescência em sua psicologia e sua relação com a fisiologia, sociologia, sexo, religião e educação. Para Hall (1904), o adolescente, paradoxalmente à criança, vive os momentos com muita intensidade e tem sua vida marcada por um dinamismo de transformações e por uma reflexão constante sobre as emoções e experiências vivenciadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (1995) a adolescência tem início bem definido com as mudanças puberais2. Porém, o limite final da adolescência não é tão preciso assim, pois, não é definido por um aspecto puramente fisiológico. Nesse sentido, atribuem o término da adolescência à concomitância do amadurecimento da sexualidade, da independência afetiva e familiar, da autodeterminação, da responsabilidade e da consolidação da identidade. Sob essa perspectiva, do ponto de vista psicológico, a adolescência é compreendida não como uma fase etária, mas como um processo psíquico dinâmico independente da idade. Muuss (1966) chama atenção para o fato de que a adolescência é um período de transição. Para esse autor, a adolescência é um período no qual o indivíduo vive uma situação marginal, que exige ajustamentos que devem ser feitos entre o comportamento de criança e o de adulto. Esse trabalho psíquico dependerá do tempo próprio de cada indivíduo para que realize todo o processo subjetivo na busca de seu lugar como sujeito num contexto diferente do infantil. Aberastury e Knobel, ainda nesse contexto, reafirmam essas características quando dizem que a adolescência se caracteriza como sendo “um período de contradições, confuso, ambivalente, doloroso, caracterizado por fricções como meio familiar e social” (ABERASTURY; KNOBEL, 1981, p. 13). Esses autores denominam esse conjunto de características como Síndrome Normal da Adolescência. Isso porque algumas das características se confundem com aspectos psicopatológicos, apesar de serem extremamente comuns e necessárias para o desenvolvimento do sujeito. Dentro 1 Hall (1904), Erikson (1950), Freud (1972), Aberastury e Knobel (1981). 2 Mudanças puberais referem-se ao conjunto de transformações psicofisiológicas ligadas à maturação sexual. Variável quanto ao gênero, genética e cultura, que é desencadeada, predominantemente, entre os 10 e 14 anos. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 49 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS desse contexto, os autores consideram que o objetivo final do desenvolvimento do adolescente é a criação da própria identidade, que se processa através da interação3 do mundo interno com o externo. 1.2 Formação de identidade O corpo do adolescente se desenvolve no sentido de preparar-se para o exercício da sexualidade genital e para a reprodução. Nesse processo, o adolescente vai perdendo o corpo infantil e se depara a “habitar” um novo corpo. Ao mesmo tempo em que ocorrem as transformações fisiológicas, o adolescente vivencia a construção de uma nova identidade, que permeia a compreensão desse novo sujeito em que está se transformando. A identidade é a combinação de características da personalidade e estilo social, pela qual o sujeito se define e é reconhecido pelo seu ambiente cultural. É também o sentimento subjetivo de coerência e de continuidade da personalidade. É a possibilidade do adolescente se ver ao longo da sua história, integrando passado e presente e visualizando perspectivas futuras. É se ver e se sentir reconhecido (ZILLE; OLIMPIO, 2008, p. 48-49). Segundo Martins et al. (2003), o adolescente procura se definir por meio de suas inclinações e relações afetivas, participando intensamente da construção do seu projeto de vida. A experimentação de novos papéis, assim como os valores, a identidade, a sexualidade e o grupo de amigos, tornam-se importantes nas suas relações com o seu mundo. É nesse sentido, que Papalia e Olds (2000) chamam atenção para a importância dos grupos na adolescência e para o fato de que nos grupos, uns exercem influência sobre os outros. Os adolescentes escolhem amizades as quais estejam relacionados, associandose a grupos que compartilham os mesmos ideais, pensamentos e atitudes, ou seja, um adolescente não pertence a um grupo por acaso. Nesse aspecto, até mesmo características físicas, gostos pessoais e estilos de vida influenciam na escolha de cada grupo. Zille (2004) afirma que, perante suas novas capacidades mentais desenvolvidas ao longo desse período da vida, o adolescente passa a questionar as leis e obrigações que lhes são impostas. Os exemplos de outras gerações que lhes são apresentados muitas vezes não os convencem, levando-os a criar regras e códigos próprios, que coincidam com as suas visões de mundo. 3 Primo e Cassol entendem interação como sendo “as relações e influências mútuas entre dois ou mais fatores, entes, etc. Isto é, cada fator altera o outro, a si próprio e também a relação existente entre eles” (PRIMO; CASSOL, 2006, p. 197). 50 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida A fase da adolescência, de acordo com Zille e Olímpio: É o momento em que o sujeito, buscando se compreender, se identifica com os seus iguais. Assim, estabelece-se um processo inconsciente que resultará em desbancar a cultura social vigente e com isso, destituir os próprios pais numa tentativa de superá-los e separar-se deles. Como consequência, na adolescência, é comum se desenvolver uma admiração pelo líder, que encarna a figura de autoridade antes ocupada pela figura paterna e pelo professor da infância (ZILLE; OLÍMPIO, 2008, p. 94). Os mesmos autores ainda afirmam que, ao colocar em xeque os valores que lhes eram apresentados até então pelos seus cuidadores4 da infância, na adolescência, o indivíduo direciona os afetos para os grupos sociais. Ao entrar para o grupo, abandona sua subjetividade e se identifica com o seu líder e com os seus ideais, copiando e imitando-o. Assim, diante da figura de um líder, o pensar coletivo do grupo se unifica. 1.3 Desenvolvimento cognitivo Todo o processo de conformação bio-psico-social pelo qual o adolescente passar terá uma concomitante adequação cognitiva. O adolescente tem à sua disposição uma infinidade de variantes possíveis de pensamentos, comportamentos e informações. Segundo Zille (2004), essas possibilidades contribuem para as capacidades cognitivas dos sujeitos, suas relações interpessoais, a construção da identidade pessoal e para o desenvolvimento como um todo. A teoria psicogenética de Piaget aborda o desenvolvimento cognitivo mediante um sistema de transformações contínuas que comportam uma história e uma evolução das funções psicológicas, que geram mudanças na capacidade de interação com o meio. Essa teoria, segundo Coutinho e Moreira (2001), explica o conhecimento como uma construção efetiva e contínua, resultante de trocas dialéticas entre o indivíduo e o meio de conhecimento. Segundo esses autores, a teoria Piagetiana faz referência a quatro estágios do desenvolvimento cognitivo: sensório-motor (inteligência prática), pré-operatório (inteligência simbólica), operatório-concreto (inteligência lógica concreta), e operatório-formal (inteligência lógica abstrata). O primeiro estágio faz referência à 4 Segundo Zille e Olímpio (2008) o termo “cuidador” serve para designar a pessoa que atende às necessidades básicas para a sobrevivência do infante, podendo ser os próprios pais ou quaisquer outras pessoas. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 51 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS época da infância até os dois anos de idade. O segundo aproximadamente dos dois aos sete anos, o terceiro se estende até os 12 anos e o quarto compreende o desenvolvimento a partir dos 12 anos de idade, ou seja, o início da adolescência de modo geral. Sob essa perspectiva, na adolescência, o indivíduo entra no estágio das operações formais ou raciocínio hipotético-dedutivo. Ou seja, o pensamento do adolescente já adquiriu a forma conceitual capaz de efetuar raciocínios abstratos sem a necessidade de se apoiar nas percepções concretas. Nesse sentido, frente a um problema, um indivíduo será capaz de elaborar hipóteses como possíveis soluções e testá-las a fim de descobrir se são verdadeiras ou não. Segundo Zille (2004), o pensamento do adolescente se desenvolverá caracterizado, diferentemente da criança, por operações mentais predominantemente efetuadas sobre dados abstraídos de conteúdos reais. Segundo Coutinho e Moreira (2001), no estágio do pensamento lógico-formal, o adolescente é capaz de refletir sobre suas próprias operações, independente do seu conteúdo. Os mesmos autores ainda acrescentam que o adolescente Torna-se capaz de pensar em todos os tipos possíveis de relações que podem existir entre acontecimentos, em vez de se limitar, simplesmente, à compreensão das relações que efetivamente existem. [...] Torna-se capaz de rever, sistematicamente, todas as escolhas, numa determinada situação, de modo a esgotar todas as combinações possíveis (COUTINHO; MOREIRA, 2001, p. 113). Segundo Azevedo (1993), o pensamento possibilitado com operações formais é caracterizado: a) pela inversão entre o real e o possível, b) pela possibilidade de referência a elementos puramente verbais, c) pelo aparecimento do raciocínio hipotéticodedutivo, d) pelo raciocínio científico ou indutivo, e) pela abstração reflexiva5. 5 a) Inversão entre o real e o possível - O pensamento concreto encontra-se ligado ao real, e o possível só é atingido como uma extensão do real. No pensamento formal dá-se uma inversão, e é o real que se subordina ao possível. Os próprios acontecimentos só são admitidos como fatos depois de se verificar que são compatíveis com o domínio do possível numa dada situação. Essa sobreposição do possível sobre o real explica as demais características do pensamento formal. b) Possibilidade de referência a elementos puramente verbais - O pensamento formal consegue fazer implicações que se referem a elementos expressos exclusivamente de forma verbal, sem apoio concreto. Essa manifestação do pensamento formal é indicativa de que a lógica das relações foi substituída pela lógica das proposições. Essa nova lógica caracterizase por ser uma lógica de todas as combinações possíveis. c) Raciocínio hipotético-dedutivo - O pensamento agora é capaz de lidar não somente com o real, mas também com dados hipotéticos, quer possíveis, independentes do real; quer impossíveis, contradizendo o real. d) Raciocínio científico ou indutivo - O raciocínio científico implica a formulação de hipóteses, o controle e manipulação de variáveis (experimentação) e a descoberta de leis ou relações funcionais entre as variáveis, bem como a articulação das leis em teorias mais abrangentes. e) Abstração reflexiva - A abstração reflexiva é capaz de chegar a generalizações ou regras de extrapolação que não foram ou não podem ser diretamente observadas na experiência cotidiana. Consiste no processo de formular regras possíveis antes dos fatos reais, atingindo idealizações de regularidades que nunca são perfeitamente confirmadas na prática. 52 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida Em geral, as transformações no âmbito cognitivo florescem com maior intensidade no ambiente escolar, onde o número de grupos, de experiências e de desafios é mais extremo para os adolescentes. Nesse contexto, Coutinho e Moreira (2001) afirmam que o ensino nas escolas não pode se limitar ao ensino de técnicas, hábitos e aptidões. Segundo eles, na escola deve-se procurar também estimular o desenvolvimento do pensamento do aluno, de sua capacidade de analisar os fatos reais, de raciocinar corretamente. Ou seja, a escola deve procurar desenvolver as estruturas operatórias do desenvolvimento cognitivo do indivíduo, sendo essa a principal tarefa da escola. 2 Metodologias de educadores musicais do século XX 2.1 Ideias pedagógicas de Hans-Joachim Koellreutter Segundo Brito (2001), Koellreutter (1997) defende os exercícios de criação e improvisação de forma a realizar um projeto de educação musical voltado para qualquer faixa etária, iniciantes ou iniciados. Esse projeto tem como objetivo primeiro o desenvolvimento global das capacidades humanas, privilegiando a formação integral do indivíduo. Ainda segundo a mesma autora, Koellreutter (1997) desenvolveu uma série de jogos e modelos de improvisação em que são apresentadas reflexões essenciais à pedagogia musical. Essas atividades buscam incentivar a vivência e a conscientização de aspectos musicais fundamentais para o ensino. Koellreutter ainda propôs que os professores inventem seus próprios modelos de improvisação, adequando-os a suas realidades e a seus objetivos. Como professor, Koellreutter (1997) sempre defendeu a necessidade de proporcionar ao aluno a atuação de seu “espírito criador”. Nesse sentido, usava a improvisação como ferramenta pedagógica a fim de desenvolver a intuição e o processo criativo. Segundo ele, seria uma forma de abrir espaço para o debate e o diálogo, e depois sim, introduzir os conteúdos específicos. A melhor hora para apresentar um conceito, ou ensinar algo novo, é aquela em que o aluno quer saber. E o professor deve estar atento e preparado para perceber e atender às necessidades de seus alunos. [...] Não é preciso ensinar nada que o aluno possa resolver sozinho. É preciso aproveitar o tempo para fazer música, improvisar, experimentar, discutir e debater. O mais importante é - sempre - o debate e, nesse sentido, os problemas que surgem no decorrer do trabalho interessam mais do que as soluções (BRITO, 2001, p. 32). REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 53 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS Segundo a autora, Koellreutter, com sua postura de característica dinâmica, tentava proporcionar alternativas para um fazer musical criativo, visando contribuir para a formação musical como um todo. Sob essa perspectiva, seus estudos objetivavam várias questões musicais, entre elas: o treinamento auditivo, a estética e a análise musical, a transformação da consciência humana e seu inter-relacionamento com a produção artística. Koellreutter (1997) questionava a situação da educação musical no Brasil, que passou anos orientada por normas baseadas em currículos dos conservatórios europeus. Portanto, se apresentavam distantes da realidade e dos interesses culturais do país. Diante disso, apontou necessidades de desenvolver uma educação musical voltada às características brasileiras e defendeu a necessidade de promover o desenvolvimento das capacidades humanas, visando a atualização dos conceitos musicais para a contextualização da música no século XX. Koellreutter (1997 apud BRITO, 2001), sempre refletiu sobre os modelos tradicionais de ensino, questionando métodos que, segundo ele, minavam os espíritos curiosos dos alunos. Dessa forma, limitava-os à participação ativa, à criação, ao debate, à análise crítica, ao questionamento, entre outros que se ausentavam dos princípios básicos do modelo ensino-aprendizagem tradicional. Sabemos que é necessário libertar a educação e o ensino artísticos de métodos obtusos, que ainda oprimem os nossos jovens e esmagam neles o que possuem de melhor. A fadiga e a monotonia de exercícios conduzem à mecanização tanto dos professores quantos dos discípulos. Não é a rotina que governará os “Seminários”, mas sim o espírito de pesquisa e investigação, pois é indispensável que, em todo o ensino artístico sinta-se o alento da criação. Inútil a atividade daqueles professores de música que repetem doutoral e fastidiosamente a lição, já pronunciada no ano anterior. Não há normas, nem fórmulas, nem regras que possam salvar uma obra de arte, no qual não vive o poder da invenção. É necessário que o aluno compreenda a importância da personalidade e da formação do caráter para o valor da atuação artística e que na criação de novas idéias reside o valor do artista (KOELLREUTTER, 1997, p. 31). Segundo Brito (2001), Koellreutter propunha a superação do currículo fechado, a superação do que determinava o que devia ser transmitido aos alunos. Koellreutter buscava trabalhar em contextos em que o currículo era uma estrutura aberta e dinâmica. Assim, Koellreutter (1997) propôs um ensino que transcendia o modelo 54 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida tradicional. Chamou sua proposta de “ensino pré-figurativo”. Nessa proposta, o ensino se apresenta com atitude pedagógica e educadora, aberta e que proporciona condições aos alunos de uma conscientização através do debate e do diálogo, preparando-os para um mundo cada vez mais dinâmico. Esse mesmo autor propõe ainda uma contraposição entre o que ele chama de ensino pré-figurativo e ensino pós-figurativo. Nesse sentido, procura mostrar que o professor deve atuar de forma a orientar o aluno em seu aprendizado e não obrigá-lo a aceitar hábitos tradicionais do ensino. Considera ainda que o ensino tradicional discrimina, categoriza, possibilitando um mundo de distinções intelectuais e opostas. Isso se contrapõe ao ensino inovador da segunda metade do século XX, que unifica conceitos, apontando caminhos para enriquecer o espírito criador do fazer musical e artístico. Ensinar a teoria musical, a harmonia e o contraponto como princípios de ordem indispensáveis e absolutos é pós-figurativo. Indicar caminhos para a invenção e a criação de novos princípios de ordem é pré-figurativo. Ensinar o que o aluno pode ler em livros ou enciclopédias é pós-figurativo. Levantar sempre novos problemas e levar o aluno a controvérsias e ao questionamento de tudo que se ensina é pré-figurativo. Ensinar a história da música como consequência de fatos notáveis e obras-primas do passado é pós-figurativo. Ensiná-la interpretando e relacionando as obras-primas do passado com o presente e com o desenvolvimento da sociedade é pré-figurativo. Ensinar composição fazendo o aluno imitar as formas tradicionais e reproduzir o estilo dos mestres do passado, mas também, os dos mestres do presente é pósfigurativo. Ensinar o aluno a criar novas formas e novos princípios de estruturação e forma é pré-figurativo (KOELLREUTTER, 1997, p. 42). Koellreutter (1997) sugeria que se proporcionassem meios para o aluno desenvolver sua personalidade, conduzindo-o não somente ao domínio da técnica instrumental, mas a ensinamentos que visavam à formação integral do indivíduo como um todo. Sob seu ponto de vista, não deveria haver padrões nem métodos que limitavam o aluno à criação e à expressão musical. 3.2 Ideias pedagógicas de Murray Schafer Segundo Fonterrada (1991), Schafer6 (1986) amplia o cenário de possibilidades no âmbito da educação musical. Sua proposta é de um ensino para abranger toda população, desconsiderando qualquer ideia de talento, classe social ou faixa etária. Além disso, ele propõe trabalhos com diversas formas musicais, desde a exploração 6 SCHAFER, M. R. O ouvido pensante. Toronto: Arcana Editions, 1986. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 55 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS dos sons ambientes, incluindo brincadeiras com sons, incentivo a descobertas de sonoridades, criação e até mesmo improvisação. Schafer (1986) não preocupa com o ensino sistemático e com aplicações de regras rígidas. Busca a mudança de consciência através do diálogo e da discussão, substituindo regras rígidas por propostas que estimulam os estudantes à busca por respostas às questões que o professor propõe. O autor busca o despertar para o universo sonoro, trabalhando com formas verbais, gráficas ou sonoras. Ele explora o ambiente sonoro através de sons da natureza, sons inusitados, sons do cotidiano, entre outros. São sons que, segundo ele, fazem parte do cenário ambiental e que compõem o universo sonoro contemporâneo. Schafer7 (1986 apud BRANDÃO [19-?]) propõe exercícios práticos de criação, fazendo do ambiente uma oficina de experimentação sonora. Ele tem como base do trabalho coletivo a música descritiva, de forma a se ter a reprodução de sons do ambiente, explorando através desses, a improvisação. Nesse contexto, os diversos sons encontrados durante a experimentação de objetos, dos sons provenientes do ambiente, dos sons de instrumentos ou do corpo podem ser, de forma ordenada e estruturada, constituintes de motivos, períodos ou frases de uma peça musical original. Schafer (1986) procura proporcionar aos alunos um entrosamento com os aspectos técnico-musicais, para que através dos sons, eles se expressem com liberdade e imaginação. Segundo a autora, a presença do lúdico nas aulas de música proporciona ao aluno alegria e prazer ao se comunicar com o sonoro. Para Schafer, “no lúdico o ser humano está inteiro. O jogo, o faz de conta constitui o principal processo de conhecimento do mundo e a construção da identidade do sujeito” (SCHAFER, 1986 apud BRANDÃO, [19-?]). Tendo como principal objetivo o fazer musical criativo, Schafer (1986 apud FONTERRADA, 1991) procura descobrir o potencial criativo dos alunos para que possam fazer música por si mesmos, além de fazer com que o aprendizado seja sempre um ato de descoberta. Schafer apresenta a ideia da paisagem sonora, sendo essa paisagem um “retrato” dos sons do ambiente. Fonterrada (1991) destaca que Schafer trata a paisagem sonora como uma composição musical em que o homem é o principal compositor. Ao criar a partir de uma paisagem sonora, os alunos desenvolvem em si a percepção, a criatividade e a experimentação através de descobertas. Diante dessa experiência, o aluno obtém melhor conhecimento do próprio ser humano e apresenta rápida assimilação do resultado desejado. 7 SCHAFER, M. R. O ouvido pensante. Toronto: Arcana Editions, 1986. 56 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida Pascoal (1994) ainda acrescenta que em seus trabalhos, Schafer estimula a improvisação mais como um exercício de percepção: Procurar ouvir-se e ouvir o que o outro toca, a questão mais importante na educação musical. Começa pedindo uma expressão sonora individual, como diga algo ríspido, diga alguma coisa doce. Estão muito tensos a princípio; aos poucos vão desenvolvendo como uma conversa, onde se diz eu sei, concordo com você, não concordo. Passam a tocar pequenos motivos, com duas notas. Imitam. Começam a trabalhar texturas contrastantes, tudo o que for possível com duas notas. Vão fazendo variações, como mudar os valores, mudar as alturas, mudar as dinâmicas, inverter as alturas, inverter o ritmo. Descobrem o som e o silêncio. Fazem variações, solos e acompanhamentos. Depois de várias tentativas, tudo vai ficando mais claro e os alunos percebem que, como numa conversa, é preciso ouvir os outros, falar quando tiver algo a dizer, fazer silêncios, enfim, expressar-se (PASCOAL, 1994). Segundo Fonterrada (1991), Schafer sempre resistiu à leitura de partituras ou qualquer notação na iniciação. Ele sugere que o trabalho deve ser feito a partir da escuta de sons e à medida que as tarefas ficam mais elaboradas, surge a necessidade da escrita, da grafia. Nesse sentido, deve-se valorizar uma grafia de forma livre, algo que não exige conhecimento musical e nem habilidades para que sejam realizadas, explorando formas alternativas de notação musical. Schafer (1986 apud BRANDÃO [19-?]) sugere aos professores que criem problemas que exijam mais atenção e concentração dos alunos, permitindo soluções inesperadas: A grande tarefa do professor, segundo Schafer, é colocar na cabeça dos alunos a centelha de um tema que faça crescer, mesmo que este crescimento tome formas imprevisíveis. Tal prática exigiria do educador uma grande atenção para aproveitar, no decorrer da atividade, qualquer oportunidade para questionar, dialogar, incorporar imprevistos, transformar [...] Portanto, os professores e suas proposições não podem ser inflexíveis, sendo fundamentais a mudança e adaptação dos planos quando necessário. O professor deve compreender o seu papel como mediador - e não como instrutor. Ele deve garantir a organicidade do trabalho como crescente apropriação criativa dos alunos e participar da criação coletiva do grupo, reinventando suas proposições. Sua função é zelar para que o ato de ensinar se torne experimentação (BRANDÃO, [19-?]). REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 57 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS Schafer (1986) desconsidera os conceitos da educação tradicional, em que o professor de música atua somente como transmissor de conhecimentos para os alunos e não se faz aprendiz. Para esse autor, o professor precisa continuar a aprender com os alunos e formar na escola uma comunidade de aprendizes. Nessa comunidade, o professor deve estar sempre aberto à sensibilidade e às mudanças, permitindo-se sempre ensinar diferentemente. Schafer (1986 apud PASCOAL, 1994) sintetiza as aulas, propondo composições coletivas, dividindo a turma em grupos. Dentro dos grupos, os alunos aprendem a atuar como regentes, desenvolvem solos, tutti, alternam grupos contrastantes, praticam diferentes texturas, ritmos e desenhos melódicos. De acordo com Fonterrada (1991), Schafer emprega em seus trabalhos de educação musical, técnicas da psicologia social, no que diz respeito à dinâmica de grupo. Nesse sentido Schafer mostra que, ao se trabalhar com grupos em sala de aula, não é necessário que se indique um líder, pois automaticamente os alunos descobrem aquele que tem os requisitos necessários para liderar e coordenar o grupo. Schafer (1986 apud FONTERRADA, 1991) questiona a institucionalização da criatividade, enfatizando que currículos organizados não abrem espaço para expressão individual. Ele desenvolve seus trabalhos baseando-se em um currículo que é experimental e organizado de acordo com suas propostas de experimentação, limpeza dos ouvidos, história e teoria da música, instrumento e criatividade. Schafer (1986) reforça a ideia de que a música estimula e auxilia na coordenação intelectual. Segundo ele, a música une corpo e mente em ações de autodisciplina e descoberta. O autor ainda chama a atenção: aquilo que é ensinado deve passar por experiências musicais vivenciadas de cada sociedade. 3.3 Ideias pedagógicas para o ensino em grupo Alguns educadores musicais brasileiros8 vêm desenvolvendo significativos trabalhos de ensino em grupo. Esses autores procuram traçar um panorama do ensino coletivo de música, utilizando-o como metodologia eficiente na iniciação instrumental. Segundo Cruvinel (2003), o ensino coletivo de instrumento musical contribui para o desenvolvimento da autonomia, do senso crítico e da motivação. A autora acredita que ele veio para democratizar o acesso à formação musical. Sob essa perspectiva, é possível criar um ambiente favorável ao ensino, estimulando a participação efetiva dos alunos e a troca de experiências. 8 Entre eles: Cruvinel (2003); Moraes (1997); Oliveira (1998); Galindo (2000). 58 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida Oliveira (1998) por sua vez, acredita que o ensino coletivo possibilita um maior desenvolvimento do aluno iniciante. O autor ressalta que considerando o uso de técnicas pedagógicas usadas no ensino coletivo, os alunos podem executar arranjos com os integrantes do grupo, proporcionando para eles uma sonoridade mais agradável que nas aulas individuais, podendo ser essa condição, um estímulo para o aluno iniciante. Da mesma forma, Galindo (2000) afirma que nas aulas coletivas de instrumento, o estímulo está na interação do grupo, que reflete num maior rendimento do aprendizado dos alunos. Para o autor, ocorre um maior desenvolvimento da aprendizagem nas aulas coletivas de instrumento, porque o aluno observa, compara, escuta e aprende com o grupo com o qual interage nas aulas. Por sua vez, Moraes (1995) acredita que a motivação pode surgir de uma competição no seio do grupo que, por sua vez, pode estimular um aprendizado de melhor qualidade e ser desenvolvido com mais presteza. Através do ensino coletivo, segundo Green (2001) e Cruvinel (2003), os alunos poderão vivenciar novas experiências, interagindo e socializando com os colegas do grupo. Diante da experiência em grupo, o educador deve conduzir a aula, procurando trabalhar os conhecimentos musicais de forma lúdica. Assim, os alunos poderão vivenciar as situações e dinâmicas propostas em sala de aula com mais interesse, contribuindo diretamente para sua formação musical e instrumental. Além disso, o educador precisa trabalhar os conhecimentos musicais interdisciplinarmente, proporcionando para o aluno uma formação musical mais ampla e crítica. Green (2008), por sua vez, ainda ressalta a importância do ingresso dos territórios culturais e estéticas musicais dos jovens nas aulas de apreciação musical como estratégia pedagógica de construção de significação de sentido e identidade. Ou seja, o conteúdo, o programa e as estratégias de ensino devem ser utilizadas de acordo com a realidade e a necessidade de cada grupo, considerando cada fato novo surgido em sala de aula. A autora considera que as estratégias de ensino e dinâmica em grupo contribuem para a socialização, autoconfiança, respeito ao colega, senso crítico e independência dos sujeitos. Em uma entrevista realizada por Cruvinel (2003), educadores musicais de diversos países que adotam o ensino coletivo disseram que essa metodologia apresenta algumas vantagens ao ser comparada com o ensino individual. Conforme a autora, as principais vantagens são: a interação entre os alunos, o ambiente lúdico, o desenvolvimento do repertório, a afinação do grupo, o desenvolvimento do ouvido harmônico, a economia de tempo, a baixa desistência dos alunos, a melhora de REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 59 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS autoestima dos alunos, o melhor rendimento, o estímulo, a disciplina, a cooperação e a desinibição. Para Swanwick (1994), fazer música em grupo possibilita o aumento do leque de experiências. As atividades propostas aos alunos em sala de aula permitem um julgamento crítico da execução dos outros colegas do grupo, a sensação de estar se apresentando em público e ainda, a motivação através da imitação e da competição saudável, que acontece entre os alunos. Concordando com esse autor. Moraes reforça essa ideia, dizendo que o ensino em grupo, quando bem ministrado, “possibilita aos alunos o desenvolvimento de uma grande variedade de habilidades como prontidão, interação social, dinamismo pessoal, julgamento e pensamento crítico em relação à música e a performance dos outros” (MORAES, 1997, p. 73). Teixeira (2008) chama atenção para o papel do educador musical, que deve se preocupar com o desenvolvimento musical, humano e social dos seus alunos, levando em conta a realidade dos mesmos. Ele deve ter reflexão do seu papel de educador, que vai intervir na realidade social de pessoas, tendo compromisso com a formação crítica, fortalecendo a construção da cidadania e reconhecendo a disciplina como agente de transformação dos alunos e consequentemente da sociedade. Considerações finais A sociedade contemporânea, especialmente no que tange ao sistema educacional, passa por situações que levam a questionamentos aparentemente indissolúveis. Diante das rápidas transformações a que o mundo vem passando, percebe-se que as relações humanas são permanente e contundentemente atingidas e afetadas. Faz-se necessário, então, um maior empenho no sentido de se buscar o entendimento acerca dos antigos e novos valores e concepções do ser humano como um todo, para que se possam ter ações mais condizentes a cada etapa da vida e contextualizadas no tempo e no espaço. As mudanças pelas quais o mundo contemporâneo vem passando refletem diretamente no processo educacional. Tal reflexo se dá uma vez que a formação do homem e de todo o seu contexto sociocultural é fortemente dependente do modelo educacional ao qual ele se submete. Como o foco deste trabalho envolve o processo educacional e o sujeito adolescente, buscou-se pesquisar na literatura aspectos que devem ser levados em consideração quanto ao ensino de música para esses sujeitos. Avaliando-se os diversos autores 60 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida pesquisados, pôde-se perceber que o ensino musical para adolescentes requer, em síntese, uma metodologia que privilegie o ensino em grupo - levando em conta características específicas -; que seja permeada pelo contexto de cada indivíduo; valorize a capacidade de improvisação e criação - favorecendo abstrações -; contribua para o desenvolvimento da autonomia, do senso crítico e da motivação; possibilite a troca de experiências, a melhora da autoestima dos alunos, a cooperação e a desinibição; além de ter o professor como líder. QUADRO 1 Aspectos relevantes a se considerar na relação ensino/aprendizagem de música para adolescentes Características O adolescente é dinâmico Na adolescência se desenvolve o pensamento hipotético dedutivo Desdobramentos Requer ação Necessita abstrações Alguns procedimentos Atividades práticas com a presença de elementos lúdicos e tecnológicos; execução de peças do repertório acadêmico com instrumentação convencional e/ou alternativa; execução de projetos multimídia; aplicação de softwares auxiliando em composições, edição, performance e pesquisa; atividades de performance. Atividades que fomentem o exercício do pensamento abstrato, tais como: composição; improvisação; atividades que lidem com as possíveis relações entre formas verbais, gráficas e sonoras; uso da grafia de forma livre, explorando formas alternativas de notação musical, conduzindo à notação convencional; uso de conhecimentos musicais interdisciplinares; fusões e reinterpretações musicais; uso dos conceitos de paisagens sonoras e música descritiva; criação de projetos multimídia; apresentação de problemas em que as soluções requeiram abstrações, formulação de hipóteses e verificações argumentáveis; atividades que exijam o entendimento das estruturas intrínsecas ao funcionamento e/ou forma. É desejável que as atividades sejam acompanhadas de análises, discussão e reflexão. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 61 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES Características O adolescente busca a consolidação da sua identidade 62 Desdobramentos MODUS Alguns procedimentos Atividades em grupo preferencialmente com componentes que tenham interesses afins, sob uma liderança (desejável que seja do professor ou o mesmo intermedeie a liderança) e com intercâmbio entre todos. Demanda socialização Os limites devem ser definidos por regras acordadas e não impostas despoticamente na forma de leis. Aproveitamento do contexto, seja do aluno ou do ambiente de aula, para daí expandi-lo. Utilização de comunidades virtuais e serviços de redes sociais. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida REFERÊNCIAS ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal - um enfoque psicoanalítico. 3. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1981. ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Tradução de Antônio Pinto Carvalho. São Paulo: Difusão Européia, 1964. AZEVEDO, Mário. Notas sobre a teoria de Jean Piaget. Lisboa: Universidade de Lisboa, FCH,1993. BRANDÃO, Ana Teresa Melo. Dos princípios - didática da invenção. [19-?] Belo Horizonte. Disponível em: <http://www.aic.org.br/index.php/metodologia/ publicacoes/>. Acesso em: 31 de out. de 2009. BRITO, Teca Alencar de. Koellreutter educador: o humano como objetivo da educação musical. São Paulo: Peirópolis, 2001. COUTINHO, Maria Tereza da Cunha, MOREIRA, Mércia. Psicologia da educação: um estudo dos processos psicológicos de desenvolvimento e aprendizagem humanos, voltados para a educação: ênfase nas abordagens interacionistas do psiquismo humano. 10. ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Formato Editorial, 2004. CRUVINEL, Flávia Maria. Efeitos do ensino coletivo na iniciação instrumental de cordas: a educação musical como meio de transformação social. Dissertação (Mestrado em Música) - Escola de Música e Artes Cênicas, Universidade Federal de Goiás, Goiania, 2003. Disponível em: <http://www.abemeducacaomusical.org.br/ revistas.html>. Acesso em: 23 de out. de 2009. ERIKSON, E. H. Childhood and society. New York: W. W. Norton, 1950. FONTERRADA, Marisa Trench. De tramas fios: um ensaio sobre música e educação. São Paulo: Editora da Unesp, 2005. FREUD, Anna. O ego e seus mecanismos de defesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1972. GALINDO, João Maurício. Instrumentos de arco e o ensino coletivo: a construção de um método. Dissertação (Mestrado em Música) - Escola de Comunicação e REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 63 BASES PARA O DESENVOLVIMENTO DE TÉCNICAS DE EDUCAÇÃO MUSICAL VOLTADAS PARA ADOLESCENTES MODUS Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000. Disponível em: <http://www. abemeducacaomusical.org.br/revistas.html>. Acesso em: 23 de out. de 2009. GREEN, Lucy. Music, informal learning and the school: a new classroom pedagogy. Aldershot: Ashgate, 2008. ______. How popular musicians learn: a way ahead for music education. London: London University; Institute of Education, 2001. HALL, G. Stanley. Adolescence: its psychology and its reation to anthropology, sociology, sex, crime, religion and education. New York: Appleton, 1904. KOELLREUTTER, H. J. O ensino da música num mundo modificado. Cadernos de Estudo: Educação Musical, Belo Horizonte, n. 6, p. 37-44, fev. 1997. MARTINS, P. O. et al. O ter e o ser: representações sociais da adolescência entre adolescentes de inserção urbana e rural. Psicologia Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 16, n. 3, p. 555-568, 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/%0D/ prc/v16n3/v16n3a14.pdf>. Acesso em: 20 de jun. de 2009. MORAES, Abel. Ensino instrumental em grupo: uma introdução. Música Hoje Revista de Pesquisa Musical, Belo Horizonte, n. 4, p. 70-78. 1997. Disponível em: <http://www.abemeducacaomusical.org.br/revistas.html>. Acesso em: 23 de out. de 2009. MUUSS, R. E. Teorias da adolescência. Belo Horizonte: Interlivros, 1976. OLIVEIRA, Enaldo Antônio J. O ensino coletivo dos instrumentos de corda: reflexão e prática. Dissertação (Mestrado em Música) - Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998. Disponível em: <http://www. abemeducacaomusical.org.br/revistas.html>. Acesso em: 23 de out. de 2009. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. La salud de los jóvenes: un reto y uma esperanza. Geneva: OMS, 1995. PAPALIA D. E.; OLDS S. W. Desenvolvimento humano. 7 ed. Porto Alegre: ArtMed, 2000. PASCOAL, Maria Lúcia. A aula do compositor. Cadernos de Estudos- Educação Musical, Belo Horizonte, n. 4/5, nov. 1994. Disponível em: <http://www.atravez. org.br/ceem_4_5/aula_compositor.htm> Acesso em: 31 de out. de 2009. 64 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 Novembro de 2011 José Antônio Baêta Zille, Nathália Pereira de Almeida PRIMO, Alex. Interação mediada por computador: comunicação, cibercultura, cognição. Porto Alegre: Sulina, 2006. SCHAFER, R. Murray. O ouvido pensante. Tradução Maria Trench de O. Fonterrada, Magda R. Gomes da Silva, Maria Lúcia Pascoal. São Paulo: UNESP, 1991. SWANWICK, Keith. Ensino instrumental enquanto ensino de música. Cadernos de Estudo - Educação Musical, São Paulo, n. 4/5, p. 7-14, 1994. TEIXEIRA BARRETO, M. S. Ensino coletivo de violão: diferentes escritas no aprendizado de iniciantes. 2008. 40f. Monografia (Licenciatura em Música) Instituto Villa-Lobos, Centro de Letras e Artes, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. ZILLE, José Antônio Baêta. O universo dos jogos virtuais como gerador de possibilidades para a educação. 2004. 139 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2004. ZILLE, José Antônio Baêta; OLÍMPIO, Eliana. A transferência como base da relação professor-aluno e fator catalisador do aprendizado. Modus - Revista da Escola de Música da UEMG, Belo Horizonte, n. 6, p. 41-54, maio 2008. Bases for the development of music education techniques for teenagers Abstract This article presents some theoretical aspects related to the development of subjects, with emphasis on understanding characteristics and behaviors peculiar to adolescence. At the same time, it links these aspects to some pedagogical theories on music education, particularly to those compatible with the demands of teenagers. By confronting these theories, the article tries to synthesize some bases that help to direct the processes of music education for teenagers. Keywords: Music education; adolescence; music teaching methodology. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 47-65 65 MODUS 66 Novembro de 2011 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS Matheus Almeida Rodrigues Violonista e professor da Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), mestrando em educação na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MG), na linha de pesquisa “Educação escolar: políticas e práticas curriculares, cotidiano e cultura”. [email protected] Resumo Os estudos em expressividade desenvolvidos por meio de processos computacionais muitas vezes não consideram características importantes do instrumento. Tal fato foi constatado neste trabalho, no qual identificamos grandes diferenças entre técnicas de vibrato no violão. Pouco se falou até hoje dessas variadas técnicas, levando em conta suas especificidades e o que fazem pelo instrumento. O objetivo deste artigo é, então, trazer para a discussão essas possibilidades técnicas do violão, utilizando a metodologia de análise desenvolvida em 2004 por Dirk Moelants, para que se possa saber mais sobre a eficácia de cada técnica de vibrato no violão. Palavras-chave: Vibrato; violão; musicologia empírica. Introdução A pesquisa em música evoluiu muito nos últimos anos, impulsionada pelo uso da tecnologia e pelo surgimento de metodologias experimentais mais objetivas. No século XX, pioneiros como Binet e Courtier iniciaram a pesquisa em uma área que se desenvolve com cada vez mais força: a musicologia empírica. A utilização de métodos experimentais para investigar aspectos como timbre, volume, expressividade e percepção humana dos sons é de grande importância para uma maior compreensão do universo da música. Tais pesquisas concentraram-se, em sua maioria, em instrumentos de orquestra como o violino ou o piano, muitas vezes deixando de lado instrumentos de som impulsivo, como, por exemplo, o violão. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 67 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS MODUS O violão, diferentemente de instrumentos de corda com arco ou sopro, possui características peculiares no que diz respeito à técnica do instrumento. Volume, timbre, o caráter impulsivo das notas (sons curtos com decaimentos rápidos é muito ruído em seu ataque) e outros aspectos acústicos e de construção interferem de forma significativa na realização de certos recursos expressivos e de ornamentos amplamente utilizados na maioria dos instrumentos, como o vibrato. Esse ornamento, em particular, representa um desafio para os violonistas, pois o que caracteriza um vibrato é a oscilação (seja de altura e/ou de amplitude) que deve ser realizada no âmbito de uma nota, o que, para o instrumento, é um intervalo muito curto. A técnica para a realização do vibrato no violão é mista, podendo realizar-se de até quatro maneiras distintas, criando efeitos diferentes. A literatura sobre o instrumento leva em conta duas delas, realizadas pela mão esquerda do instrumentista, definidas na obra de Abel Carlevaro (1985) como vibratos longitudinal e transversal. Outras duas técnicas utilizadas são realizadas com a mão direita. Serão chamadas, neste trabalho, de vibrato de boca e vibrato de tampo. Estudos anteriores investigaram tanto os aspectos acústicos do vibrato (que tipos de oscilação podem caracterizá-lo e qual a influência de cada um deles na percepção do ornamento) quanto os aspectos técnicos (a relação da taxa de oscilação ou taxa de vibrato em diferentes instrumentistas). Entretanto, muitos desses estudos utilizaram como objeto sons sintetizados ou de instrumentos que podem sustentar notas, o que não é o caso do violão. As características acústicas de cada um dos quatro vibratos violonísticos ainda não foram estudadas, assim como pouco se sabe da percepção dos ouvintes com relação a cada uma das técnicas. Colocam-se, assim, algumas questões importantes, tais como: Quais são as características de cada vibrato violonístico e que fatores acústicos podem interferir em sua realização? Como é a percepção de cada uma das técnicas pelos ouvintes? Qual das técnicas é mais eficaz? Essas são questões que demonstram a importância da realização de estudos mais acurados que contribuam para um melhor entendimento do funcionamento do instrumento. A pesquisa em musicologia empírica muitas vezes deixa de lado instrumentos de som impulsivo e polifônicos como o violão. Suas técnicas e particularidades ainda são pouco estudadas, ainda que ele seja um instrumento presente em diversas culturas. Dominar a técnica do vibrato é um grande desafio para os violonistas, pois há quatro formas distintas de realização. Investigar a eficácia delas se faz necessário para uma melhor compreensão do instrumento. 68 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 Novembro de 2011 Matheus Almeida Rodrigues Objetivo Investigar as diferenças entre as quatro técnicas de vibrato do violão e analisar a eficácia de cada uma delas, utilizando a mesma metodologia aplicada no estudo The timing of tremolo, trills and vibrato by string instrument players, de Dirk Moelants, publicado em 2004. Expressividade musical Diversos estudos demonstram que os músicos utilizam variações de diversos parâmetros acústicos para transmitir uma intenção expressiva. O instrumentista utiliza seu instrumento para afetar inúmeros aspectos da música, como o timbre, a articulação de nota e sua duração, e até modificações mais profundas que podem inclusive refletir na estrutura da composição, como é mostrado por Tanaka: No caso de um instrumento acústico tradicional, definir no que consiste um instrumento é simples - é o objeto que o performer segura ou usa para tocar. Esse objeto e suas propriedades acústicas são o meio que permitem a transformação da ação do músico em um som. Através do instrumento, o músico consegue afetar todos os aspectos da música: do micronível do timbre na articulação das notas até o macronível que afeta a estrutura da composição. Num instrumento de sopro, o sopro do músico afeta tanto as qualidades microtimbrais quanto a articulação de notas do instrumento - articulando o evento e definindo a harmonia a ser articulada. Os dedilhados trabalham de forma sequencial para definir a articulação das notas. Tocar utilizando recursos como abafar as cordas (mute) pode funcionar tanto no micronivel, pois afetam o timbre do instrumento quanto no nível estrutural, causando uma diferença de som naquele ponto da peça1 (TANAKA, 2000, p. 390, tradução do autor). Recursos expressivos são amplamente utilizados pela maioria dos músicos em suas 1 With a traditional acoustic instrument, defining what comprises the instrument is straightforward – it is the object that the performer holds or plays on. It and its acoustical properties are the medium between performer action and sound. Through the instrument, the performer is able to affect all aspects of the music: from the micro-level of timbre to the event level of note articulation, to the macro level that reflects compositional structure. In a wind instrument, the breath of the performer affects both the micro-timbral qualities as well as articulate the note-events from the instrument - articulating the event, defining the harmonic being articulated. The fingerings work in tandem to further define the note-level event. Na attachment like mute can be seen to work on the micro level, affecting the timbre of the instrument at the same time it can be considered to work at a structural level - causing a section of a piece to take on a certain sound. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 69 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS MODUS performances para ressaltar uma determinada nota ou trecho musical. Tais recursos podem variar em técnica e resultado, de acordo com as características de cada instrumento, e o seu domínio, na maioria das vezes, é alcançado através do constante estudo técnico do instrumento, já que isso permite ao músico desenvolver um maior conhecimento de cada parâmetro expressivo. A pesquisa em expressividade musical se desenvolveu bastante no século XX, principalmente com a evolução da tecnologia. Instrumentos como o Disklavier, piano acústico com recursos MIDI, foram amplamente utilizados em pesquisas em performance musical. Há diversos estudos que tentam mensurar características da expressividade musical, embora se concentrem, em sua maioria, apenas em análises de sons “não impulsivos”, monofônicos (como melodias em flautas, violinos etc.) como nos estudos de Shoonderwaldt et al. (2001), Dillon (2002) e Canazza et al. (1997), ou em análises de performances pianísticas, encontradas nos estudos como o de Zanon et al. (2003). Dillon (2004), no entanto, apresenta uma metodologia usada para extrair amostras de um fragmento sonoro chamadas de audio cues. Em seu estudo, o autor privilegiou o trabalho com instrumentos polifônicos como o piano, realizando uma análise que não identifica cada nota tocada, mas a articulação global de grupos de acordes ou notas que se sobrepõem numa análise de sons impulsivos. Esse tipo de análise apresenta especificidades tanto para a percepção humana quanto no processamento desses sinais, uma vez que apresentam “ataques que são seguidos por decaimentos imediatos, não apresentando, portanto, estados estacionários claros” (NAVEDA, 2002, p. 189). Técnica e expressividade Pode-se afirmar, levando em conta apenas o universo da música ocidental erudita, que existe uma relação direta entre técnica e expressividade. Por mais que um músico compreenda a necessidade da realização de um “crescendo”, um ornamento ou qualquer recurso interpretativo em uma peça, se não possuir o domínio técnico de seu instrumento, sua performance provavelmente não atingirá o resultado esperado. Em estudos realizados por França (2000), é afirmado que tanto o fazer musical quanto o desenvolvimento musical ocorrem em duas dimensões que se complementam: a compreensão musical e a técnica. Consideramos a compreensão como o entendimento do significado expressivo e estrutural do discurso musical, uma dimensão conceitual ampla que permeia e é revelada através 70 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 Novembro de 2011 Matheus Almeida Rodrigues do fazer musical. As modalidades centrais de comportamento musical - composição, apreciação e performance - são, portanto, indicadores relevantes da compreensão musical, as “janelas” através das quais esta pode ser investigada. A técnica, por sua vez, refere-se à competência funcional para se realizar atividades musicais específicas, como desenvolver um motivo melódico na composição, produzir um crescendo na performance, ou identificar um contraponto de vozes na apreciação. Independentemente do grau de complexidade, à técnica chamamos toda uma gama de habilidades e procedimentos práticos através dos quais a concepção musical pode ser realizada, demonstrada e avaliada (FRANÇA, 2000, p. 52). Essa relação também pode ser percebida ao observar os diversos métodos de ensino de instrumento, nos quais se pode perceber uma grande ênfase em exercícios técnicos. O violão erudito não foge a essa regra, uma vez que o estudo de sua técnica pode ser encontrado tanto nas primeiras publicações de Matheo Carcassi e Fernando Sor no século XVIII, na ainda muito utilizada escola clássica do violão erudito, quanto em métodos mais modernos como Escuela de la Guitarra (CARLEVARO, 1985), que apresenta grande ênfase em exercícios técnicos tanto para a mão direita quanto para a esquerda, baseados na repetição exaustiva de padrões, escalas, ornamentos e movimentos do instrumento. Muitos desses recursos expressivos utilizados pelo violão são importados e adaptados de outros instrumentos, alguns deles, porém, sofrendo modificações por conta de características próprias do funcionamento do violão. Um “crescendo” em uma mesma nota, como um instrumento de arco pode facilmente realizar, não pode ser feito no violão. Recursos expressivos utilizados por outros instrumentos de orquestra, como o vibrato, tremolo e trillo, são muito recorrentes quando se toca o violão, apesar de esse ser um instrumento de som impulsivo. Tais recursos são adaptações de técnicas utilizadas por instrumentos de arco. Contudo, em razão da pouca duração da nota, a presença dos trastes e a velocidade dos dedos da mão direita podem influenciar o resultado dessas três técnicas, como visto em estudos realizados por Moelants sobre os aspectos temporais em performances de tremolo, trillos e vibratos: O trillo, alternância de duas notas diferentes, geralmente separadas por um segundo, é produzido pela movimentação do dedo para cima e para baixo, segurando e soltando a corda alternadamente. No caso do vibrato, o dedo fica na corda e executa um movimento repetitivo e gradual para cima e para baixo. Diferente do trillo e do vibrato, o tremollo, REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 71 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS MODUS basicamente a repetição de uma mesma nota, é executado por um movimento da mão direita. Em instrumentos de arco, isso é feito pela movimentação do arco para frente e para trás. Em instrumentos com traste e corda dedilhada, há diferentes possibilidades, podendo o músico utilizar-se da alternância do dedão em uma corda e o enrijecimento da corda seguinte sucessivamente com vários dedos, ou executar um movimento repetido para cima e para baixo utilizando uma palheta ou a unha2 (MOELANTS, 2004, p. 281, tradução do autor). Vibrato Segundo o dicionário Grove (SADIE, 2001), vibrato é uma palavra originada do latim vibrare (cuja tradução é vibrar, balançar), sendo definida como a técnica de empregar uma flutuação regular de altura e/ou intensidade em uma nota. Essa terminologia não foi padronizada até o século XX. Termos mais antigos como flattement, flatté, balancement, balancé, plainte, langueur, verre cassé, tremolo, tremolo sforzato, ardire e triletto eram utilizados para definir graus de vibrato, principalmente na música vocal. Tal variedade de termos se dá, pois o vibrato não é apenas um ornamento simples, e sim um complexo conjunto de ornamentos que podem ser modificados na performance de acordo com a necessidade expressiva do trecho, variando aspectos como a velocidade e a intensidade. O vibrato pode ser realizado por uma enorme gama de instrumentos e na voz, mas a técnica utilizada para sua produção varia (assim como o resultado em si) de acordo com as características de cada instrumento. Em instrumentos de corda (violinos, violas etc.), o vibrato é realizado através da movimentação dos dedos do músico para frente e para trás, não podendo ser realizado em notas provenientes de cordas soltas ou através da variação de pressão no arco, técnica utilizada do século XVII até o início do XIX, chamada de measured vibrato. O grau de variação da frequência da nota é dado pelo tamanho do deslocamento do dedo pelo braço do instrumento (em instrumentos sem trastes) e a velocidade do vibrato é dada pela velocidade do movimento da mão esquerda. Nos instrumentos com trastes (como o alaúde e o violão), a técnica do vibrato pode variar, sendo às vezes até mesmo confundida com o trillo. 2 The trill, an alternation of two different notes, usually a second apart, is produced by moving a finger up and down, alternately touching and releasing the string. For (pitch) vibrato, the finger stays on the string and performs a repeated gradual up-and-down movement. Contrary to trills and vibrato, the tremolo, essentially a repetition of the same note, is performed by a right hand movement. On bowed strings this is done by moving the bow back and fro. On plucked strings different possibilities exist, the player can use an alternation of the thumb on one string and toughing the next string successively with several fingers, or alternatively perform a repeated up and down movement using a plectrum or a fingernail. 72 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 Novembro de 2011 Matheus Almeida Rodrigues O vibrato no violão O problema técnico da realização do vibrato no violão existe por duas de suas características mais marcantes, que são o caráter impulsivo de seu som e a divisão do braço em trastes. O som impulsivo do violão delimita um curto espaço de tempo para a realização do vibrato, à medida que, após o ataque, a nota rapidamente inicia seu decaimento e pelo fato de que dentro do universo de uma nota não é possível variar sua intensidade, tarefa facilmente realizada por instrumentistas de cordas com arco. Essa questão foi estudada anteriormente por Moleants (2004) ao comparar três tipos de ornamentos (vibrato, tremolo e trillo). O autor chegou a conclusões de que “a contínua ativação dos acordes pelo arco permite uma percepção mais fácil dos ornamentos mesmo em velocidades mais altas” (MOLEANTS, 2004, p. 282). Os trastes não permitem a variação de frequência através da movimentação do dedo transversalmente à corda, pois delimitam a região do braço onde uma nota é realizada. O que ocorre na tentativa de se realizar um movimento transversal no violão é um pequeno “esticamento” da corda por meio da movimentação do dedo, que provoca então uma variação de altura. Além disso, em instrumentos com arco, as notas podem ser sustentadas por um longo período de tempo, possibilitando um maior controle de ornamentos como o vibrato, o que não ocorre no violão. Técnicas Levando em conta o universo do violão erudito, é possível encontrar nos livros de técnica do instrumento duas formas de realização do vibrato: o vibrato longitudinal e o vibrato transversal. O vibrato longitudinal consiste na movimentação do dedo e do pulso esquerdo ao longo do sentido da corda (mantendo-se dentro de uma única casa), criando-se assim uma variação de tensão na corda, que, por consequência, varia a altura da nota. Já o vibrato transversal consiste na movimentação do dedo e do pulso para cima e para baixo (de forma a “cortar” a linha da corda), provocando assim a variação de altura. FIGURA 1: Vibrato longitudinal. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 73 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS MODUS FIGURA 2: Vibrato transversal Além dessas duas primeiras, também são utilizadas por diversos músicos outras duas formas de vibrato que se utlizam da mão direita: na primeira, chamada aqui de “vibrato de tampo”, um dos dedos da mão direita deve se apoiar no tampo ou na ponte do instrumento e imprimir uma pressão variável, modificando-se assim o som. Tal efeito é muito comum na guitarra elétrica, na qual é realizado através de um dispositivo chamado de “ponte flutuante” ou “ponte vibrante”, que pode ser movimentado para a realização do vibrato. Na segunda, chamada aqui de “vibrato de boca”, a mão direita deve posicionar-se na frente da boca do instrumento e movimentar-se no ar para frente e para trás. Ambas as técnicas podem ser realizadas em notas atacadas em cordas soltas, o que aumenta a gama de possibilidades para a realização do ornamento no violão. Apesar de haver quatro técnicas distintas para a realização do vibrato, a eficácia de cada uma delas não é amplamente conhecida. Trabalhos como o de Moleants (2004) visavam comparar as diferenças de sete instrumentos de cordas (entre eles violino, violoncelo, contrabaixo, violão e alaúde) na realização de três ornamentos distintos através de análises computacionais. No caso desse trabalho, as diferentes formas de realização do vibrato no violão não foram testadas, deixando então a pergunta: Qual técnica é mais eficaz para a realização do vibrato? No trabalho de Moleants (2004), foi encontrado um fator comum a todos os instrumentos estudados: o vibrato tende a ficar mais lento em cordas mais graves do que em cordas mais agudas, fato esse relacionado com a rigidez das cordas. No caso do violão, a diferença entre cordas de aço e cordas de nylon deve ser melhor investigada, pois sabe-se que existem diferenças na percepção de volume e timbre entre elas (NAVEDA, 2002.) Procedimentos metodológicos Um teste simples foi realizado utilizando o software livre Praat, no qual inicialmente foram gravadas quatro variações de vibrato na nota G2 (98hz), na corda mais grave do violão. As gravações foram realizadas utilizando um microfone AKG C1000S, a 74 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 Novembro de 2011 Matheus Almeida Rodrigues aproximadamente 10cm da boca do violão, utilizando uma taxa de amostragem de 44.1 Khz, 16 bits, mono e normalizadas a 0 dB. Uma amostra plana (sem vibrato) também foi gravada para servir como base de comparação. Durante a realização de cada tipo do vibrato, o músico foi orientado a tocar sempre a mesma velocidade, para não provocar resultados indesejados. As amostras foram então analisadas no Praat, onde foram gerados sonogramas com gráficos de instensidade da nota e variação de frequência (pitch). A taxa de variação da frequência da nota fundamental foi comparada entre as amostras e organizada em ordem crescente. Discussão e resultados Foi percebida uma notável diferença entre cada técnica de vibrato, como pode ser obsevado no quadro a seguir: QUADRO 1 Variação de frequência em cada técnica de vibrato Frequência Frequência Diferença entre minima (Hz) máxima (Hz) máx e min (Hz) 97,1 98,4 1,3 Longitudinal 96,8 99,8 3,0 Transversal 94,0 99,7 5,7 Boca 96,1 98,9 2,5 Tampo Vibrato O vibrato que possui menor variação de frequência foi justamente o de maior uso por violonistas, que é o vibrato longitudinal. O vibrato transversal é o que possui a relação mais simétrica entre máximo e mínimo, ao contrário do vibrato de boca, cuja frequência mínima está a 4hz da nota fundamental e a frequência máxima a 1,7hz. Apesar de tanto o vibrato de boca quanto o vibrato de tampo terem apresentado uma taxa de variação mais alta que o longitudinal, foi percebida uma demora no início do vibrato em si, criada pelo tempo que leva para o violonista atacar a corda e movimentar a mão direita até a boca ou tampo. Outro fator importante é a constância da oscilação de frequência e intensidade, que pode afetar bastante a percepeção do vibrato. Nas figuras abaixo, sobre o sonograma de cada amostra estão marcadas a variação da intensidade (preto) e a variação da frequência (cinza) através do tempo: REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 75 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS MODUS FIGURA 3 - G2 (98hz) - plano. FIGURA 4 - G2 (98hz) - longitudinal. FIGURA 5 - G2 (98hz) - transversal. FIGURA 6 - G2 (98hz) - boca. 76 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 Novembro de 2011 Matheus Almeida Rodrigues FIGURA 7 - G2 (98hz) - tampo. Dentre as técnicas analisadas, o vibrato longitudinal é o que mais se assemelha à nota sem vibrato, possuindo uma pequena variação de intensidade e frequência, mas mesmo assim é o mais utilizado por violonistas. A técnica mais constante é a do vibrato transversal, em que foi percebido um melhor controle da velocidade do movimento e uma maior simetria na variação das frequências. Como anteriormente demonstrado por Moleants (2004), as taxas de variação do vibrato no violão são menores do que as dos instrumentos de corda, mesmo quando são levadas em conta as demais técnicas (transversal, tampo e boca), deixadas de lado no trabalho anterior. Considerações finais Neste estudo preliminar foi possível compreender melhor as diferentes técnicas de vibrato no violão, demonstrando que suas múltiplas técnicas possuem grandes diferenças e que não se deve restringir o uso a apenas uma ou duas delas. Uma melhor análise dessas técnicas se faz necessária, visto que ainda não se sabe qual é a relação delas com as diferentes regiões do violão, qual fator é mais importante para o vibrato (variação de volume, de frequência ou a interação entre eles) e como é a percepção dos ouvintes para cada uma delas. Diferentes posicionamentos do microfone para a captação das notas e um espectro maior de amostras (notas mais agudas e em maior quantidade) também se fazem necessários para uma análise mais completa dessa técnica violonística. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 77 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS MODUS REFERÊNCIAS BOERSMA, P.; WEENINK, D. Praat: doing phonetics by computer. Disponível em: <http://www.praat.org>. Acesso em: 22 de agosto de 2007. BRESIN, R.; BATTEL, G. U. Articulation strategies in expressive piano performance. Journal of New Music Research, London, 29, p. 211–224. 2000. CANAZZA, S. et al. Monological analysis of clarinet expressivity. In: LEMAN, M. (Ed.). Music, gestalt and computing: studies in cognitive and systematic musicology. Berlin-Heidelberg: Springer Verlag, 1997. p. 431-440 CARLEVARO, A. School of guitar. London: Boosey & Hawkes, 1985 DILLON, R. On the recognition of expressive intentions in music playing: a computational approach with experiments na aplications. InfoMus Lab, DIST – University of Genoa, 2004. ______. Extracting audio cues in real time to understand musical expressiveness. Laboratory of Musical Informatics – University of Genoa, 2002. FRANÇA, Cecília Cavalieri. Performance instrumental e educação musical: a relação entre a compreensão musical e a técnica. Per Musi, Belo Horizonte, v. 1, p. 52-62, 2000. GUTIÉRREZ, Emília Gómez. Melodic description of audio signals for music content processing. Barcelona: University Pompeu Fabra, 2002. MOELANTS, Dirk. The timing of tremolo, trills and vibrato by string instrument players. Belgium: IPEM-Dept. of Musicology, Ghent University, 2004. NAVEDA, Luiz Alberto Bavaresco de. O timbre e o volume sonoro do violão: uma abordagem acústica e psico-acústica. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2002. SADIE, Tyrell. The new grove dictionary of music. London: Grove's Dictionaries, Macmillan, 2001. p. 523-525 SOTO, Oscar Mayor. From musical analisys to musical expression. Barcelona: University Pompeu Fabra, 2003. 78 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 Novembro de 2011 Matheus Almeida Rodrigues SHOONDERWALDT, E.; FRIBERG, A. Towards a rule-based model for violin vibrato. In: WORKSHOP ON COURRENT DIRECTIONS IN COMPUTER MUSIC RESEARCH, Barcelona, 2001. Procedings... Barcelona: Audiovisual Institute, Pompeu Fabra University. 2001 TANAKA, Atau. Musical performace pratice on sensor-based instruments. Wanderley, M. M.; Battier, M. (Eds.). Trends in gestural control of music. Paris: Ircam - Centre Pompidou, 2000. p. 389-406. WIDMER, G.; GOEBL, W. Computational models of expressive music performance: the state of the art. Journal of New Music Research, London, v. 33, n. 3, p. 203-216, 2004. ZANON, P.; WIDMER, G. Learning to recognize famous pianists with machine learning techniques. In: SMAC - STOCKHOLM MUSIC ACOUSTICS CONFERENCE, 3., Stockholm, Sweden, 2003. Procedings... Stockholm, Sweden: s.n., 2003. p. 581-584. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 79 A ANÁLISE DO VIBRATO NO VIOLÃO: PROBLEMAS E POSSÍVEIS ABORDAGENS MODUS The analysis of vibrato on the guitar: problems and possible approaches Abstract The recent research on expressivity through technological processes doesn’t give much importance to many technical characteristics of playing an instrument. In this essay we could notice the great difference between the vibrato techniques in guitar playing, which were left aside in previous studies on the subject. Little has been said about these techniques, taking into consideration the instrument’s specificities and how they enhance its possibilities. The main objective of this article is, thus, to dicuss the technical possibilities of the guitar, using the methodology of analysis developed in 2004 by Dirk Moelants, for us to get to know more about the effectiveness of each vibrato technique in this particular context. Keywords: Vibrato; guitar; empirical musicology. 80 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 67-80 Novembro de 2011 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS Gláucia de Andrade Borges Doutora em Música pela University of Iowa. Especializada no Método Suzuki, participou de cursos sob a orientação dos professores John Kendall e William Starr, lecionou na Preucil School of Music. Publicou artigos sobre o Método Suzuki e o cenário do ensino e profissionalização do instrumentista de cordas no Brasil. Professora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e integra a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais desde 2008. [email protected] Resumo Este artigo tem como objetivo apresentar os resultados relativos ao folclore brasileiro obtidos na pesquisa intitulada O Método Suzuki e a música tradicional mineira no ensino do violino. Uma classificação das canções mais conhecidas, de acordo com um teste de reconhecimento das canções folclóricas brasileiras aplicado junto às turmas de musicalização infantil da Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), e as principais características rítmicas e melódicas das canções utilizadas no processo mencionado serão apresentadas. A listagem dessas informações visa auxiliar professores do ensino infantil na escolha de um repertório folclórico apropriado para a abordagem e o desenvolvimento de habilidades musicais específicas. Um breve resumo das atividades desenvolvidas e dos aspectos mais relevantes dessa pesquisa será apresentado. Palavras-chave: Folclore brasileiro; Método Suzuki; ensino dos instrumentos de cordas; educação musical. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 81 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS MODUS Introdução A pesquisa intitulada O Método Suzuki e a música tradicional mineira no ensino de violino foi desenvolvida na Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais no período de agosto de 2003 a agosto de 20061, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). O principal objetivo dessa pesquisa foi desenvolver um material de estudo para o violino que apresentasse organização pedagógica e proporcionasse um ambiente com alto nível de motivação por meio da utilização do folclore brasileiro. O principal propósito do desenvolvimento desse material foi promover a captação de um maior contingente de alunos e mantêlos motivados no período da aprendizagem básica do instrumento (BORGES, 2007). Dois aspectos primordiais da didática instrumental, organização pedagógica e motivação, foram explorados, utilizando-se o folclore brasileiro, conhecido pelas crianças mineiras, e uma metodologia comprovadamente eficaz. O Método Suzuki2 foi a abordagem pedagógica escolhida devido à experiência da pesquisadora com essa metodologia de ensino, seus reconhecidos benefícios para o aluno e sua expansão pelo mundo. A maneira proposta para estimular a criança brasileira a estudar um instrumento de cordas foi a utilização de uma literatura musical com que ela estivesse familiarizada. A motivação do aluno, fator de constante preocupação do professor, pode ser maximizada por meio da utilização de um repertório familiar (SCOGGIN, 2003) e, consequentemente, divertido e eficiente para o iniciante. A maioria dos livros de estudo desses instrumentos, utilizados no Brasil, são estrangeiros (BORGESSCOGGIN, 1993). E quase todos eles utilizam material folclórico do próprio país3, pouco conhecido do nosso povo, estabelecendo um distanciamento entre o aprendizado do instrumento, a nossa cultura e a experiência musical de nosso aluno. Buscou-se, nesse estudo, selecionar um repertório brasileiro específico com a finalidade de iniciar o aluno nos aspectos técnicos e musicais abordados nos dois primeiros volumes do repertório para violino do Método Suzuki (BORGES, 2007). De acordo com Shinichi Suzuki (1983), idealizador do Método Suzuki, qualquer criança é capaz de desenvolver habilidades a um nível elevado se metodologias adequadas forem aplicadas no treinamento. Segundo ele, a língua materna é um 1 O artigo intitulado O Método Suzuki e o folclore brasileiro no ensino básico de violino foi publicado na Revista Modus de maio de 2007. Nele, o leitor encontrará informações mais detalhadas sobre a pesquisa realizada. 2 Informações mais detalhadas sobre a metodologia e a psicologia de ensino do Método Suzuki, em português, podem ser encontradas no artigo: BORGES, G. A. Shinichi Suzuki e a educação do talento. Modus, Belo Horizonte, n. 3, ano III, p. 24-36, dez. 2006. 3 A literatura de violino geralmente utilizada no ensino básico do instrumento inclui métodos de estudo tradicionais de origem francesa, alemã, inglesa e norte-americana. Essa observação baseia-se na experiência docente da pesquisadora e na literatura violinística disponível no mercado. 82 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 Novembro de 2011 Gláucia de Andrade Borges “método educacional perfeito” (SUZUKI, 1983, p. 2) em que o aprendizado ocorre com fluência e naturalidade, sem dificuldades ou fracassos. No processo inicial do aprendizado da língua, a criança ouve as mesmas palavras diversas vezes até ser capaz de pronunciá-las muito antes de aprender a ler e escrever. Sabe-se que, ao alcançar a idade entre cinco e seis anos, uma criança normal terá aprendido em torno de seis mil palavras do vocabulário falado por meio da audição, imitação e repetição (SLONE, 1988). No Método Suzuki, a criança aprende a tocar um instrumento da mesma maneira que aprende sua língua materna. Os alunos de instrumento são incentivados a ouvir, diariamente, as peças do repertório para se familiarizarem com elas (STARR, 1976). Assim, ao tocarem as músicas, já assimilaram seus padrões rítmicos e melódicos automaticamente. Cabe ao professor, por meio de demonstrações e ordens verbais, ensinar ao aluno os mecanismos de execução de cada peça ao instrumento, encorajando-o a imitá-lo (LANDERS, 1987) e a tocar o repertório aprendido inúmeras vezes. A escuta diária do repertório em estudo ajudará no desenvolvimento da percepção auditiva da criança e na memorização da peça, já que a instrução inicial se faz por ouvido, sem a utilização de notação musical (STARR, 1976). O aprendizado sem leitura de notas nos primeiros estágios de treinamento - um dos princípios da metodologia Suzuki - propicia o desenvolver dos mecanismos básicos de execução do instrumento, como boa postura, o manuseio do arco, a técnica de mão esquerda, agilidade motora, afinação e qualidade do som, os quais permitirão, mais tarde, maior liberdade para se concentrar nesse processo (BORGES, 2003). O ensino de violino por meio de canções folclóricas brasileiras, com as quais os alunos já estejam familiarizados, enquadra-se satisfatoriamente na abordagem da técnica violinística e no princípio do aprendizado da “língua materna” utilizados por Suzuki. A familiarização da criança com o repertório do método Suzuki acontece por meio da escuta diária. No caso do repertório brasileiro, a exemplo do aprendizado da língua, o aluno escuta, canta e memoriza as cantigas durante a infância, naturalmente, pela tradição oral. Esse processo torna-se um facilitador, porque uma das dificuldades com que o professor Suzuki se depara na sua atividade docente é convencer o aluno e seus pais da importância da escuta diária do repertório. Esse é o princípio fundamental da metodologia Suzuki e indispensável à assimilação do mesmo (STARR, 1976). A prática, comumente negligenciada pelo aluno, propicia um desenvolvimento técnico-musical mais rápido e eficiente. As canções folclóricas são formas simples, de apreensão rápida, que facilitam o ensino musical básico. Códigos musicais, como notas e intervalos, são assimilados intuitivamente, promovendo um fácil desenvolvimento da percepção auditiva (BORGES-SCOGGIN, 1993), indispensável à execução de qualquer instrumento de cordas. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 83 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS MODUS Teste de reconhecimento do folclore brasileiro Um teste direcionado aos alunos do Curso de Musicalização Infantil da Escola de Música da UEMG foi elaborado com o objetivo de identificar as cantigas mais conhecidas das crianças mineiras na faixa etária de cinco a 12 anos, fase em que as instituições de música tradicionais comumente introduzem o ensino teórico e o instrumental. A identificação dessas melodias foi de extrema importância, pois norteou a pesquisadora no processo de seleção do repertório folclórico para o violino. Em determinados casos em que os conceitos técnicos podiam ser abordados em mais de uma cantiga brasileira, optou-se sempre por selecionar aquela mais familiar. Das 302 canções originalmente coletadas, foram selecionadas e gravadas 285 para o teste de reconhecimento. 219 canções foram coletadas em livros, e outras 66 transcritas a partir de fontes fonográficas4. As 285 cantigas escolhidas para o teste não são originárias apenas da região Sudeste. Durante o processo de coleta e seleção do repertório folclórico, observou-se que diversas músicas de outras regiões são conhecidas e cantadas em Minas Gerais, como Na Bahia tem5 e Olê Mulher rendeira6, e também que uma mesma cantiga apresenta versões diferentes de acordo com a região onde foi coletada. Inicialmente, na elaboração do teste, pensou-se em um questionário em que fossem apresentados os títulos das canções selecionadas e as crianças marcassem aquelas que conhecessem. Porém, durante o processo de coleta das canções e elaboração dos testes, percebeu-se grande semelhança entre diversas cantigas. Algumas canções folclóricas apresentavam melodia idêntica, porém, títulos diferentes; em outros casos, os mesmos títulos, com versões distintas. Observou-se ainda que várias cantigas com títulos diferentes apresentavam melodias similares. Essas dificuldades encontradas no cancioneiro folclórico seriam um obstáculo para que as crianças identificassem as cantigas apenas pelo título. Outro fator complicador: a criança poderia conhecer a melodia e não saber o nome dela. Pelas razões citadas acima, decidiu-se modificar o processo de reconhecimento das peças folclóricas por parte dos alunos do referido curso. Então, o teste de reconhecimento foi elaborado com exemplos musicais gravados em formato MIDI, utilizando-se o piano como instrumento padrão. Buscou-se padronizar o timbre e a instrumentação utilizada para não influenciar o ouvinte. 4 Os títulos das fontes utilizadas na coletânea final são os seguintes: Quem canta seus males espanta; Música para a escola elementar; Ensine cantando para o curso primário; Alegria, alegria: as mais belas canções de nossa infância; Brincando de roda; 500 canções brasileiras; Quatro estações, Cantigas de roda, 80 duetos para flauta doce soprano e Guia prático. 5 Classificada em 75º lugar no teste de reconhecimento realizado (TAB. 2). 6 Classificada em 18º lugar no teste de reconhecimento realizado (TAB. 2). 84 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 Novembro de 2011 Gláucia de Andrade Borges A escolha da versão de cada melodia a ser utilizada no teste, quando foi o caso, seguiu o seguinte critério de seleção, em ordem crescente de importância: disponibilidade em fonte bibliográfica ou fonográfica de autor ou executante brasileiro e mineiro, especificamente, e da familiaridade da pesquisadora, que é mineira, com as versões existentes. Como as crianças testadas eram de Belo Horizonte, decidiu-se optar pelas modalidades da tradição oral dessa cidade. O conhecimento da pesquisadora das versões similares foi um facilitador na escolha de uma modalidade final do teste, já que muitas variações de uma mesma cantiga prolongariam a duração dele e poderiam confundir a criança avaliada. As 285 cantigas selecionadas foram separadas em cinco grupos de aproximadamente 57 peças cada. Nesse agrupamento, considerou-se o tempo de cada canção para que nenhum dos testes demorasse mais que trinta minutos. A gravação de cada teste teve o título da peça e a melodia seguida de dez segundos de silêncio, para que as crianças marcassem as respectivas respostas em uma lista com os nomes das músicas. A página de respostas (FIG. 1) consistiu de duas colunas com os títulos das músicas. Em frente a cada uma dessas colunas havia outras três, onde foram apresentadas as seguintes opções: “Conheço!” (cor verde e carinha sorridente), “Não sei...” (cor amarela e carinha indiferente) e “Não conheço!” (cor vermelha e carinha triste). A cada música executada, a criança deveria marcar a melhor opção. FIGURA 1 - Teste n.1 de reconhecimento do folclore brasileiro. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 85 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS MODUS Setenta e duas crianças, na faixa etária de cinco a 12 anos, participaram desse processo: teste 1 - 15 avaliados; teste 2 - 16; teste 3 - oito; teste 4 -13 e teste 5 - 20. Apenas algumas de cinco anos não conseguiram concluir o teste 3, pois o tempo foi um pouco longo, tendo em vista a capacidade de concentração dessa faixa etária. Em alguns casos, houve marcação de duas opções por música tocada. Por essa razão, as respostas foram excluídas dos resultados estatísticos. Todos os testes transcorreram de forma tranquila, sem contratempos. Resultado do teste de reconhecimento Constatou-se que 105 canções foram reconhecidas por 50% a 100% dos alunos, sendo que, 27 delas, por todos eles. Nenhuma das canções foi totalmente desconhecida dos participantes. Houve um número significativo de peças que não foram identificadas como “conhecida” ou “não conhecida”, mas como “não sei”. Esse fato demonstrou que algumas crianças eram familiarizadas com a melodia em questão, porém não tinham certeza. Por haver grande similaridade entre algumas cantigas folclóricas brasileiras, é provável que a criança conhecesse uma cantiga parecida. Como o objetivo foi selecionar canções com melodias familiares, essa informação foi considerada na seleção final do repertório brasileiro. As 27 canções folclóricas conhecidas por todos os alunos do Curso de Musicalização da Escola de Música/UEMG que participaram do teste foram: Atirei o pau no gato; Ciranda cirandinha; O cravo e a rosa; Fui morar numa casinha; Fui no Tororó; Marcha soldado; Meu pintinho amarelinho; Peixe vivo; Pirulito que bate, bate; Nesta rua; Se eu fosse um peixinho; Bambalalão; Boi da cara preta; Borboletinha; Cachorrinho está latindo; Cai, cai balão; Capelinha de melão; Caracol; Dorme neném; Meu lanchinho (Frère Jacques); Olé mulher rendeira; O sapo não lava o pé; Os escravos de Jó; Rebola, bola; Sambalelê; Trem de ferro e Um elefante incomoda muita gente7. Dificuldades encontradas na seleção final para o repertório de violino Antes do início da pesquisa citada, pensou-se ser difícil, praticamente impossível, selecionar apenas cantigas do folclore brasileiro que explorassem todos os conceitos técnicos que são abordados no repertório de violino do Método Suzuki. Contudo, pode-se constatar que, apesar de algumas dificuldades, foi possível fazer tal seleção de forma eficiente e completa. 7 As 11 primeiras melodias dessa lista foram selecionadas para os dois volumes de repertório brasileiro desenvolvidos para o violino e serão utilizadas no repertório para os outros instrumentos de cordas, como também nos arranjos para quinteto com acompanhamento de piano. O repertório está sendo elaborado na pesquisa em andamento intitulada O Método Suzuki e o folclore brasileiro no ensino dos instrumentos de cordas. 86 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 Novembro de 2011 Gláucia de Andrade Borges A dificuldade em encontrar cantigas que preenchessem algumas das demandas técnicas abordadas no repertório Suzuki despertou a atenção da pesquisadora para as características mais marcantes do folclore brasileiro. A classificação das canções mais conhecidas passou a ser considerada não apenas um facilitador na seleção do repertório folclórico de violino, mas também um valioso produto secundário da pesquisa, digno de crédito. Algumas peças do repertório Suzuki representaram maior dificuldade na seleção do conjunto brasileiro. Um dos casos que mais surpreendeu foi Brilha, brilha estrelinha (SUZUKI, 2007, p. 25), o quase “hino” do Método Suzuki. O maior obstáculo foi encontrar uma melodia que não fosse anacrústica e tão simples rítmica e melodicamente quanto Estrelinha. Das 285 canções coletadas, 227 iniciam em anacruse. Esse número equivale a quase 80% da coletânea. O Minueto 2, de J. S. Bach, volume 1 (SUZUKI, 2007, p. 39), também apresentou dificuldades: o arpejo de Sol M e o uso de quiáltera. Apesar de o folclore brasileiro ser profuso ritmicamente, havia apenas seis exemplos de passagens com quiálteras, equivalendo a aproximadamente 0,2% do total de peças. Outro fator de dificuldade no caso desse minueto e em todas as outras obras ternárias do repertório de Suzuki foi o reduzido número de cantigas brasileiras com mesma métrica, apenas 27 entre as 285 coletadas, ou seja, 9,5%. Somente uma cantiga brasileira apresentou passagem com arpejos de Sol M semelhante à encontrada no Minueto de Bach n. 2. As tonalidades, principalmente as menores, proporcionaram dificuldade ao processo de seleção das peças do repertório para violino. Alem do reduzido número de cantigas em tonalidades menores, algumas delas não permitiram seu uso por não estarem de acordo com os padrões de formas e dedilhados exigidos tanto na tonalidade coletada, quanto nas transposições. Veja na TAB. 1 a quantidade de canções que apresentam tonalidades maiores ou menores e a métrica de todas elas. A presença de anacruse, síncope, ritmos pontuados e quiálteras também é indicada. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 87 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS MODUS TABELA 1 Quantidade de canções que apresentam as características rítmicas mais marcantes, suas métricas e tonalidades Característica rítmica N. de canções em que ocorrem Anacruse Quiálteras Ritmos pontuados Síncopes Métrica 2/4 Métrica 4/4 Métrica 3/4 Métrica 3/4 alternada com 2/4 Métrica 2/2 Métrica 2/8 Métrica 3/8 Métrica 6/8 Métrica 6/8 alternada com 5/4 Métrica 6/8 alternada com 2/4 Tonalidade maior Tonalidade menor 227 6 130 105 177 64 22 4 2 1 1 11 1 2 265 20 Deduz-se que provavelmente os conceitos de anacruse, ritmos pontuados e síncopes devam ser facilmente assimilados pelas crianças brasileiras por estarem amplamente presentes nas cantigas que fazem parte da vivência musical dos nossos alunos. Uma lista classificatória das cantigas mais conhecidas (entre 100% e 63%) é apresentada em ordem decrescente na TAB. 2. São 80 canções contendo as seguintes informações: a) Classificação no teste de reconhecimento; b) título; c) porcentagens das três colunas: verde (“Conheço”); amarela (“Não sei”) e vermelha (“Não conheço”); d) tonalidades originais da fonte bibliográfica ou fonográfica; e) métrica; f ) presença de anacruses (A); g) presença de ritmos pontuados (P); h) presença de síncopes (S); i) presença de quiálteras (Q); j) fonte bibliográfica ou fonográfica. 88 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 Novembro de 2011 Gláucia de Andrade Borges TABELA 2 As 80 canções mais conhecidas e suas principais características rítmicas Título da peça Sim Não sei Não Tonalidade Métrica A P Bibliografia % % % SeQ SolM 4/4 Quem canta 100% 0% 0% 1 Atirei o pau no gato P FáM 4/4 Canções de ninar 100% 0% 0% 2 Bambalalão P RéM 4/4 Quem canta 100% 0% 0% 3 Boi da cara preta --LáM 4/4 Quem canta 100% 0% 0% 4 Borboletinha AP SolM 2/4 Quem canta 100% 0% 0% 5 Cachorrinho (está latindo) A FáM 2/4 Brincando de roda 100% 0% 0% 6 Cai, cai balão! AP SibM 4/4 Quatro estações 100% 0% 0% 7 Capelinha de melão AP DóM 2/4 Ensine cantando 100% 0% 0% 8 Caracol --MiM 2/4 Quatro estações 100% 0% 0% 9 Ciranda cirandinha AP LáM 3/4 Quatro estações 100% 0% 0% 10 Cravo brigou com a rosa A LáM 4/4 Canções de ninar 100% 0% 0% 11 Dorme neném P Sol M 2/4 Alegria, alegria 100% 0% 0% 12 Escravos de Jó, Os AP FáM 2/4 Cantigas de roda 0% 13 Frère Jacques/Meu lanchinho 100% 0% --DóM 4,4 Quatro estações 100% 0% 0% 14 Fui morar numa casinha p DóM 2/4 Cantigas de roda 100% 0% 0% 15 Fui no Tororó --SolM 2/4 100% 0% 0% 16 Marcha soldado --- Quatro estações e Quem canta SolM 4/4 Quatro estações 100% 0% 0% 17 Meu pintinho amarelinho PS LáM 4/4 Quatro estações 100% 0% 0% 18 Mulher rendeira, Olê APS Rém 4/4 Quatro estações 100% 0% 0% 19 Peixe vivo AP FáM 2/4 Quatro estações 100% 0% 0% 20 Pirulito que bate, bate A FáM 4/4 A S Q Quatro estações 100% 0% 0% 21 Rebola, bola FáM 2/4 Cantigas de roda 100% 0% 0% 22 Sambalelê S LáM 4/4 Quem canta 100% 0% 0% 23 Sapo não lava o pé, O APS Sim 4/4 Quem canta 100% 0% 0% 24 Se esta rua fosse minha A RéM 4/4 Quem canta 100% 0% 0% 25 Se eu fosse um peixinho A FáM 2/4 Alegria, alegria 0% 26 Trem de ferro (Trem maluco) 100% 0% A FáM 2/4 Cantigas de roda 100% 0% 0% 27 Um elefante incomoda... AP FáM 4/4 Quatro estações 93% 7% 0% 28 Havia uma barata AS LáM 4/4 Alegria, alegria 93% 7% 0% 29 Maré encheu, A AP DóM 2/4 Quem canta 93% 7% 0% 30 Sabiá AP Rém 3/4 Ensine cantando 93% 0% 7% 31 Terezinha de Jesus A RéM 4/4 Quatro estações 92% 8% 0% 32 Dedinhos A LáM 2/4 500 Canções 92% 8% 0% 33 Sapo Jururu PS LáM 4/4 Quem canta 90% 5% 5% 34 Canoa virou, A AP DóM 2/4 Cantigas de roda 90% 0% 10% 35 Barata mentirosa, A A SolM 4/4 Quatro estações 88% 13% 0% 36 Como vai amiguinho A DóM 2/4 Brincando de roda 88% 13% 0% 37 Debaixo do laranjal APS DóM 2/4 Brincando de roda 88% 13% 0% 38 Fui à Espanha --SolM 2/4 Brincando de roda 88% 13% 0% 39 Lá na ponte da vinhaça A SolM 6/8 2/4 Ensine cantando 88% 13% 0% 40 Mineira de Minas A DóM 2/4 Escola elementar 88% 13% 0% 41 Seu Joaquim APS Sol M 4/4 Alegria, alegria 88% 6% 6% 42 Roda, pião AS SolM 2/4 Quatro estações 88% 0% 13% 43 Indiozinhos, Os --MiM 2/4 500 Canções 85% 15% 0% 44 Pai Francisco PS DóM 2/4 Brincando de roda 85% 10% 5% 45 Alecrim APS REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 89 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 MODUS Título da peça Sim Não sei Não Tonalidade Métrica % % % Belo, belo! Formiguinha Fui ao mercado Pulga e a bicharada, A Juliana e D. Jorge Caracol, O Pombinha voou, A Coelhinho 1 Eu passei na ponte Margarida, onde está a Eu sou pobre (de Marré) Torce-retorce Caranguejo (versão incomp.) Coelhinho 2 Pezinho Rosa juvenil, (A linda) Ponte da vinhaça Gatinhos, Os Ai eu entrei na roda Meu limão, meu limoeiro Na loja do mestre André Olha o macaco na roda! Acalanto De abóbora faz melão Cabeça, barriga, perna e pé Carneirinho, carneirão Lua vem saindo, A Sinhá Marreca Piuí, piuí, piuí Na Bahia tem Marinheiro, O Pombinha Rolinha Mariquinha morreu ontem Carrocinha pegou, A Vamos passear no bosque 85% 85% 85% 81% 81% 80% 80% 80% 80% 80% 80% 80% 80% 77% 77% 77% 75% 75% 75% 75% 75% 75% 73% 73% 69% 69% 69% 69% 69% 67% 67% 67% 65% 65% 63% 8% 8% 8% 19% 6% 20% 20% 13% 13% 13% 10% 7% 5% 8% 8% 8% 25% 20% 19% 19% 13% 13% 27% 20% 31% 15% 15% 15% 8% 27% 20% 13% 25% 5% 25% 8% 8% 8% 0% 13% 0% 0% 7% 7% 7% 10% 13% 15% 15% 15% 15% 0% 5% 6% 6% 13% 13% 0% 7% 0% 15% 15% 15% 23% 7% 13% 20% 10% 30% 13% DóM DóM DóM Sol M DóM DóM DóM MiM LáM FáM DóM MiM DóM DóM DóM DóM Sol M DóM FáM LáM RéM FáM Solm FáM RéM RéM DóM Dóm DóM DóM MibM Si M DóM FáM DóM 2/4 4/4 4/4 4/4 3/4 2/4 2/4 3/4 2/4 2/4 2/4 2/4 2/4 2/4 4/4 2/4 2/4 2/4 2/4 4/4 4/4 2/4 2/4 2/4 2/4 2/4 2/4 2/4 2/4 2/4 4/4 2/4 2/4 2/4 2/4 AP SeQ Bibliografia --A --APS A A APS A PS AS A --A A AS A A --A APS AS Q PS APS AP AP AS AS AP --APS APSQ APS AS --- Brincando de roda Quatro estações Quem canta Quatro estações 500 Canções Brincando de roda Brincando de roda Quem canta Alegria, alegria Cantigas de roda Cantigas de roda Quatro Estações Cantigas de roda Brincando de roda Quatro estações Cantigas de roda Escola elementar Ensine cantando Brincando de Roda Quatro estações Alegria, alegria Brincando de roda 500 Canções Brincando de roda Quatro estações Alegria, alegria Cantigas de roda Ensine cantando Quatro estações Ensine cantando Quatro estações 500 Canções Brincando de roda Cantigas de roda Ensine cantando Nota: As letras A, P, S e Q representam a presença de anacruse, ritmos pontuados, síncopes e quiálteras, respectivamente. Os títulos das referências estão simplificados por questões de espaço. Consultar bibliografia para informação completa. A pesquisa desenvolvida atualmente Uma segunda pesquisa em andamento, intitulada O Método Suzuki e o folclore brasileiro no ensino dos instrumentos de cordas, surgiu devido ao resultado positivo do projeto citado, envolvendo o ensino do violino. Essa pesquisa está sendo apoiada pela 90 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 Novembro de 2011 Gláucia de Andrade Borges Fapemig. As mesmas condições de execução e organização didática de um repertório brasileiro básico estão sendo estendidas para os outros instrumentos da família das cordas friccionadas. Está sendo elaborado um material de estudo individual com cantigas do folclore brasileiro para viola, violoncelo e contrabaixo com a mesma abordagem utilizada no repertório de violino. A coletânea brasileira também irá complementar os dois primeiros volumes de peças empregadas no Método Suzuki para cada um desses instrumentos. O repertório de violino está sendo adaptado para os demais instrumentos de cordas, total, como no caso da viola8, ou parcialmente, de acordo com as necessidades de cada um deles. As peças comuns ao repertório dos quatro instrumentos terão arranjos elaborados para quinteto de cordas9. A elaboração final de materiais didático-pedagógicos incluirá, além dos quintetos, partes do instrumento solo com acompanhamento de piano, partes de duetos (aluno e professor) para cada um dos instrumentos e gravação do repertório citado10. Conclusão O uso do folclore brasileiro no ensino musical no Brasil é extenso e poderá ser extremamente válido no caso do ensino dos instrumentos de cordas. Por essa razão, buscaram-se transferir para o ensino de violino e, posteriormente, de viola, violoncelo e contrabaixo, os benefícios dessa prática nas pesquisas descritas. A inclusão organizada e criteriosa de músicas do repertório brasileiro na rotina de estudo do aluno poderá facilitar na assimilação do conteúdo técnico-musical envolvido na sua execução e no desenvolvimento de uma afinação precisa. Além disso, a familiaridade com as melodias tornará a prática diária do instrumento mais prazerosa e, consequentemente, eficiente. Além desses benefícios técnicos e motivacionais, o uso do folclore promoverá um resgate de nossa cultura musical. Há um vasto número de livros didáticos e opções de arranjos utilizando-se o folclore brasileiro que é empregado na educação musical e na prática coral. A ordem das 80 canções mais conhecidas pelas crianças mineiras e as características básicas de cada uma delas, apresentadas neste artigo, permitirão a utilização desse material de forma 8 A adaptação do repertório de violino para a viola já foi concluída. 9 Essa formação inclui violino I, violino II, viola, violoncelo e contrabaixo. Por motivos pedagógicos, partes de piano serão adicionadas aos arranjos. Os acompanhamentos dobrarão todas as vozes com o propósito de oferecer maior segurança aos executantes e poderão ser dispensados a critério do professor. 10 Apesar do aluno brasileiro possivelmente conhecer grande parte das músicas selecionadas, optou-se por graválas. Além de ser outro referencial significativo em adição à da tradição oral, a gravação viabiliza o uso desse material pedagógico em outros estados além de Minas Gerais. A disponibilização das gravações para a escuta diária também está de acordo com os princípios da metodologia de ensino de Shinichi Suzuki (SLONE, 1988). REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 91 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS MODUS mais ampla e objetiva tanto na educação musical quanto na instrumental. A escolha da canção mais apropriada para a abordagem do conteúdo previsto propiciará uma assimilação mais rápida e eficiente. A lista apresentada também poderá ajudar na elaboração de novos materiais pedagógicos para instrumentos musicalizadores, como a flauta doce, e na iniciação dos instrumentos de sopro e do piano. 92 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 Novembro de 2011 Gláucia de Andrade Borges REFERÊNCIAS ALMEIDA, T. M. M. Quem canta seus males espanta. São Paulo: Caramelo, 1998. ALMEIDA, T. M. M (Org.). Quem canta seus males espanta. São Paulo: Digital Studio, 1998. 1 CD. BORGES, G. A. Shinichi Suzuki e a educação do talento. Modus, Belo Horzonte, ano 3, n. 3, p. 24-36, dez. de 2006. ______. O Método Suzuki e o folclore brasileiro no ensino básico de violino. Modus, Belo Horizonte, ano 4, n. 4, p. 42-55, maio de 2007. BORGES-SCOGGIN, G. A. A study of the pedagogy and performance of string instruments in Brazil and the social cultural, and economic aspects affecting their development. 1993. 414f. Tese (Doutorado em Música) - Escola de Música, University of Iowa, Iowa. 1993. CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISAS EDUCACIONAIS. Música para a escola elementar. Rio de Janeiro: INEP, 1962. EDIÇÕES SABIDA. As mais belas cantigas infantis. Blumenau: Edições Sabida, [199-?]. Coleção quatro estações. EDIÇÕES SABIDA. Produção: Geziel Freitas. As mais belas cantigas infantis. Blumenau: Edições Sabida, [199-?]. 4 CDs. Coleção quatro estações. FONSECA, H. S. Ensine cantando para o curso primário. Belo Horizonte: Secretaria da Educação do Estado de Minas Gerais, 1962. HORTA, C. F. M. M. Alegria, alegria: as mais belas canções de nossa infância. 6. ed. Belo Horizonte: Leitura, 1999. HORTA, C. F. M. M. Alegria, alegria: as mais belas canções de nossa infância. Belo Horizonte: Lucas Estúdio Ltda, 1999. 1 CD . LANDERS, R. The talent education school of Shinichi Suzuki: an analysis. 4. ed. Princeton , NJ: Daniel Press, 1987. MAHLE, E. 80 duetos para flauta doce soprano. São Paulo: Ricordi, 1973. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 93 AS CANÇÕES FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS MAIS CONHECIDAS EM MINAS GERAIS: CARACTERÍSTICAS E POSSIBILIDADES DE SUA UTILIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO MUSICAL E SEU USO NO ENSINO DOS INSTRUMENTOS DE CORDAS MODUS NOVAES, I. C. Brincando de roda. São Paulo: Agir, 1983. PAZ, E. A. P. 500 canções brasileiras. Rio de Janeiro: Musimed, 1989. RODRIGUES, J. P. Cantigas de roda. 4. ed. Porto Alegre: Magister, 1992. SARUDIANSKY, J. C. Cantigas brasileiras: duetos progressivos para violinistas iniciantes. Brasília: Fundação Cultural do Distrito Federal, 1994. SCOGGIN, G. B. A pedagogia e a performance dos instrumentos de cordas no Brasil: um passado que ainda é realidade. Per Musi, Belo Horizonte, v. 7, p. 25-36, 2003. SLONE, K. C. They’re rarely too young and never too old to twinkle. 3. ed. Ann Arbor, MI: Shar Products Company, 1988. STARR, William. The Suzuki violinist: a guide for teachers and parents. Knoxvilli, Tenn.: Kingston Ellis Press, 1976. SUZUKI, Shinichi. Nurtured by love: the classic approach to talent education. Tradução de Waltraud Suzuki. 2. ed. Athens, OH: Ability Development Press, 1983. ______. Suzuki violin school. Van Nuys, CA: Alfred Music Publishing, 2007. VIANA, Marcus. As mais belas canções de ninar: nave dos sonhos. Belo Horizonte: Sonhos e sons, 1997. 1 CD. VILLA-LOBOS, H. Guia prático: estudo folclórico musical. São Paulo: Irmãos Vitale, 1941. 5v. 94 REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 Novembro de 2011 Gláucia de Andrade Borges The most known brazilian folk songs in Minas Gerais: characteristics and possibilities of its use in music education and its use in the teaching of string instruments Abstract This article has the objective to present the results, related to the Brazilian folklore, obtained in the research entitled O Método Suzuki e a música tradicional mineira no ensino do violino. A rank of the most known songs, according to a recognition test using Brazilian folk songs applied to the music education classes of the School of Music of UEMG, and the main rhythmic and melodic features of the songs used in this process will be presented. The listing of this information aims to assist early music educators in the choice of a folkloric repertory suitable for the approach and development of specific musical abilities. A short summary of the activities developed and the most relevant aspects of this research will be presented. Keywords: Brazilian folklore; Suzuki Method;teaching string instruments; music education. REVISTA MODUS – Ano VI / Nº 9 – Belo Horizonte – Novembro 2011 – p. 81-95 95 MODUS normas para publicação 1. O Conselho Editorial da revista MODUS aceita trabalhos originais e inéditos, de autoria individual ou coletiva, obedecendo ao seguinte padrão: Artigos originais: texto descritivo, científico, de temática cultural, que ofereça um ensinamento, sintetize resultados de estudos, proponha técnicas ou formulações didáticas ou ainda questione postulações teóricas ou práticas tradicionais. Artigos de revisão: reunião, discussão e/ou reformulação de conceitos tradicionais ou dados da literatura, revisada ampla e minuciosamente, com propósito didático. Trabalhos de pesquisa: conforme roteiro tradicional: objetivo(s), metodologia, análise dos dados e conclusões. Resenhas: relativas a livros, teses, CD sonoro, CD-ROM, produtos de hipermídia, sempre recentes, nacionais ou estrangeiros. Cartas ao editor: missiva crítica sobre artigos publicados na revista, com embasamento e referências bibliográficas ou resumo de achados, considerados úteis pelo(s) autor(es), referentes a pesquisas já publicadas ou a publicar. Observações: Trabalhos não inéditos somente serão aceitos nos seguintes casos: a) edição esgotada ou de difícil acesso para pesquisadores brasileiros; b) tradução para língua diversa da do original; c) outra circunstância ou motivo relevante e justificado, a critério do Conselho Editorial, tendo em vista o fomento do debate científico no país. 2. A publicação dos trabalhos está condicionada a pareceres dos membros do Conselho Editorial. Eventuais sugestões de modificação quanto ao conteúdo, por parte da editoria, serão previamente acordadas com os autores. Não serão admitidos acréscimos ou modificações depois que os trabalhos forem entregues para composição. As ideias e opiniões expressas nos artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões do Conselho Editorial. 3. O Conselho Editorial reserva-se ao direito de realizar nos textos todas as modificações formais necessárias ao enquadramento no projeto gráfico da revista. 4. Os trabalhos devem ser normalizados de acordo com as normas NBR 6023 (referenciação bibliográfica) e 10520 (citação no corpo do texto), de 2002, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Textos formatados fora dessas normas não serão aceitos pelo Conselho Editorial. 96 Novembro de 2011 5. Os textos, digitados em Word for Windows, devem ser escritos em português, em linguagem clara e acessível a leitores de várias categorias profissionais, evitando-se o uso desnecessário e excessivo de jargões e formulações demasiadamente prolixas, e respeitando rigorosamente a metodologia científica. 6. Os artigos deverão ser remetidos em CD ou por e-mail. O artigo deverá estar assim configurado: formato A-4 (210 x 297); margens de 2,5 cm; espaço 1,5 entre linhas; fonte Times New Roman, corpo 12. As páginas deverão ser numeradas no canto superior direito, desde a primeira. 7. Considerar como extensão máxima dos textos: [a] artigos originais, de pesquisa, ensaios e artigos de revisão – 15 páginas; [b] resenhas e cartas ao editor – 2 páginas, com até quatro referências. 8. Estrutura do artigo - Folha de rosto contendo título e subtítulo do artigo (apresentar também em inglês), nome do(s) autor(es) e endereço postal e eletrônico. O texto deverá apresentar os seguintes elementos: título e subtítulo do artigo; resumo; palavras-chave (até cinco); abstract; keywords; corpo do artigo; referências bibliográficas. 9. O título, breve e suficientemente específico e descritivo, deve ser alinhado junto à margem esquerda, em fonte maiúscula/minúscula, tamanho 14, negritado. O nome do autor deve ficar à direita, em fonte maiúscula/minúscula, tamanho 12, também negritado. 10. Os subtítulos no interior do artigo devem ser digitados em fonte maiúscula/minúscula, tamanho 12, em negrito. 11. O resumo informativo em português – entre cinco e dez linhas –, acompanhado de sua tradução para o inglês (abstract), deve anteceder o texto. 12. As credenciais acadêmico-profissionais do(s) autor(es) devem ser apresentadas ao final do texto, em até cinco linhas, seguidas de um endereço eletrônico de referência. 13. As notas, em tamanho 10, exclusivamente para comentários necessários ao desenvolvimento da exposição, e nunca para citações bibliográficas, devem ser indicadas com número ao alto, imediatamente após a frase a que diz respeito. Deverão figurar no rodapé da página, sendo numeradas sequencialmente. 14. A obtenção de permissão para reproduções sonoras e de ilustrações é de responsabilidade do autor. As imagens devem ser gravadas em formato jpg, com no mínimo 300 dpi. Arquivos sonoros devem ser gravados em formato mp3 ou wav, e de vídeo, em mpeg ou em fita mini DV. O arquivo deve ser enviado pela internet ou em CD-ROM. 97 MODUS 15. Gráficos e figuras (estritamente indispensáveis à clareza do texto) deverão estar numerados. As legendas devem vir abaixo deles. Assinalar, no texto, pelo número de ordem, os locais onde devem ser inseridos. As fontes são obrigatórias. 16. Os quadros deverão ser acompanhados de cabeçalho que permita compreender o significado dos dados reunidos, sem necessidade de referência ao texto. Assinalar, no texto, pelo número de ordem, os locais onde os quadros devem ser inseridos. 17. As citações literais curtas deverão ser inseridas no texto, entre aspas, seguidas de parênteses com sobrenome do autor em caixa alta, ano da publicação e número da página de onde foram retiradas (cf. NBR 10520/2002 da ABNT). Exemplo: (MARTIN, 1988, p. 321-322). As citações com mais de três linhas deverão ser digitadas sem aspas, com um recuo de 4 cm da margem direita e corpo 11. Entre parênteses, informar o sobrenome do autor em caixa alta, o ano da publicação e o número da página de onde foram retiradas. 18. A lista com as referências bibliográficas completas, por ordem alfabética de sobrenome do autor, com apenas a inicial do nome, deve vir ao final do texto, obedecendo à NBR 6023/2002 da ABNT. 19. As colaborações devem ser enviadas para o endereço da revista MODUS. Endereçamento editorial: REVISTA MODUS - Escola de Música da UEMG R. Riachuelo, 1.351 - Padre Eustáquio CEP: 30720-060 - Belo Horizonte - MG. [email protected] 98 Novembro de 2011 Formulário de Avaliação Nome do avaliador: Tipo de artigo: Título do trabalho: 1 - O trabalho se encontra em acordo com as normas de publicação da revista? ( ) Sim ( ) Não 2 - O conteúdo é adequado à revista? ( ) Sim ( ) Não 3 - O título expressa o conteúdo do trabalho? ( ) Sim ( ) Não 4 - O resumo apresenta os aspectos fundamentais do trabalho? ( ) Sim ( ) Não 5 - O título e o resumo foram traduzidos para o inglês de modo satisfatório? ( ) Sim ( ) Não 6 - As palavras-chave são adequadas? ( ) Sim ( ) Não 7 - A linguagem empregada é clara e apropriada? ( ) Sim ( ) Não 8 - O texto está bem organizado? ( ) Sim ( ) Não 9 - Os argumentos e as conclusões estão bem justificados? ( ) Sim ( ) Não ( ) Não se aplica 10 - Há coerência entre o objetivo proposto e as conclusões? ( ) Sim ( ) Não ( ) Não se aplica 11 - O autor utiliza as referências necessárias e adequadas? ( ) Sim ( ) Não 12 - O texto apresenta erros grosseiros de gramática ou ortografia? ( ) Sim ( ) Não 99 MODUS 13 - As figuras ou tabelas estão claras e com legendas apropriadas? ( ) Sim ( ) Não ( ) Não se aplica 14 - A extensão do texto é compatível com seu conteúdo científico? ( ) Sim ( ) Não 15 - Qualidade da apresentação: ( ) Excelente ( ) Boa ( ) Regular ( ) Insuficiente 16 - Qualidade geral do trabalho: ( ) Excelente ( ) Boa ( ) Regular ( ) Insuficiente 17 - Recomendação: Publicar sem alterações Publicar após pequenas alterações Reescrever e submeter novamente para avaliação Recusar 18 - Observações/comentários: 100 Novembro de 2011 Esta revista foi composta em Belo Horizonte para a Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais - EdUEMG e impressa em off-set, em papel reciclado, na tipologia Adobe Garamond, corpo 9, entrelinha 9,6, capa em papel triplex 250g, em maio de 2011. 101