F A S C Í C U L O
1
Ficha catalográfica por Maria Nazaré Fabel,
Bibliotecária, CRB-199, 14.Região
617.7523
C787 CORAL-GHANEM, Cleusa, STEIN, Harold A. & FREEMAN,
Melvin I. – Lentes de Contato; do básico ao avançado. –
Joinville: Soluções e Informática, 1999.
32p.
1. Lentes de contato. I. Stein, Harold II. Freeman, Melvin
III. Título.
Capa e Diagramação:
Soluções e Informática Ltda. - Joinville - SC
www.solucoes.com.br
Redação/Apresentação:
Dra. Cleusa Coral-Ghanem
Supervisão:
Dra. Cleusa Coral-Ghanem
DIREITOS DE REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO::
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qualquer meio ou processo, sem permissão expressa dos autores. A violação dos direitos
é punível nos termos do art. 184 e parágrafos do Código Penal, conjuntamente com
busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 122, 123, 124 e 126 da Lei 5988, de
14.12 1976, Lei dos Direitos Autorais).
Lentes de Contato
do Básico ao Avançado
Dra. Cleusa Coral-Ghanem
• Chefe do Departamento de Lentes de Contato do Hospital de Olhos Sadalla Amin
Ghanem - Joinville - Santa Catarina
• Representante Internacional da Sociedade Brasileira de Lentes de Contato e Córnea SOBLEC - biênio 97/99
• Finance Committee Chairperson for the ICLSO - International Contact Lens Society of
Ophthalmologists
• SOBLEC’s Representative at ICLSO 1994 - 1998; 1998 - 2002
• Ex-Presidente da Sociedade Catarinense de Oftalmologia
• Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Lentes de Contato e Córnea - SOBLEC biênio 93/95
Harold A. Stein, MD, FRCS (C)
• Professor of Ophthalmology, University of Toronto, Ontario, Canada
• Director, Bochner Eye Institute, Toronto, Canada
• Attending Ophthalmologist, Scarborough General Hospital, Scarborough, Ontario
• Attending Ophthalmologist, Mount Sinai Hospital, Toronto, Canada
• Past President, International Refractive Surgical Club
• Past President, International Contact Lens Council of Ophthalmology
• Past President, Joint Commission on Allied Health Personnel in Ophthalmology, St.
Paul, Minnesota
• Past President, Contact Lens Association of Ophthalmologists, New Orleans, Louisiana
• Past President, Canadian Ophthalmological Society, Otawa, Canada
• Director, Professional Continuing Education, Centennial College of Applied Arts,
Toronto, Ontario, Canada
Melvin I. Freeman, MD, FACS
• Clinical Professor of Ophthalmology, Emeritus, University of Washington School of
Medicine, Seattle, Washington
• Affliliate Clinical Investigator, Virginia Mason Research Center, Seattle, Washington
• Past Head, Section of Ophthalmology, Virginia Mason Clinicand Medical Center,
Seattle, Washington
• Medical Director, Emeritus, Department of Continuing Medical Education, Virginia
Mason Medical Center, Seattle, Washington
• President, Alliance for Continuing Medical Education, Birmingham, Alabama
• Past President, Contact Lens Association of Ophthalmologists, New Orleans,
Louisiana
• Past President, Joint Commission on Allied Health Personnel in Ophthalmology, St.
Paul, Minnesota
Sumário
Lista de Siglas ......................................................................................................................... VI
Capítulo 1
HISTÓRICO DAS LENTES DE CONTATO (LC) ....................................................... 01
Autor: Cleusa Coral-Ghanem
1.1 - LC DE POLIMETILMETACRILATO (PMMA) .................................................. 03
1.2 - LENTES HIDROFÍLICAS (LCH) ......................................................................... 04
1.3 - LENTES RÍGIDAS GÁS-PERMEÁVEIS (RGP) .................................................. 05
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................. 05
Capítulo 2
MATERIAIS DAS LC ....................................................................................................... 06
Autor: Cleusa Coral-Ghanem
2.1 - PROPRIEDADES DOS POLÍMEROS ................................................................... 06
2.1.a - Função do Plastificador ................................................................................ 07
2.1.b - Ligação Cruzada (Cross-link) ........................................................................ 07
2.2 - CLASSIFICAÇÃO DOS POLÍMEROS DAS LC .................................................. 08
2.2.a - Termoplásticos ............................................................................................... 08
2.2.b - Rígidos Gás-Permeáveis ............................................................................... 09
2.2.c - Elastômeros Sintéticos .................................................................................. 09
2.2.d - Hidrofílicos .................................................................................................... 10
2.2.d.1 - Novos Materiais .............................................................................. 11
2.2.d.2 - Classificação do FDA para os polímeros das LC Hidrofílicas ... 11
2.3 - CARACTERÍSTICAS FÍSICAS DOS POLÍMEROS ............................................ 12
2.3.a - Permeabilidade dos Materiais ao Oxigênio ................................................ 12
2.3.b - Dk/L e PEO ................................................................................................... 13
2.3.c - Umectabilidade .............................................................................................. 14
2.3.d - Transparência ................................................................................................ 14
2.3.e - Dureza e Rigidez ........................................................................................... 14
2.3.f - Força Tensional .............................................................................................. 15
2.3.g - Elasticidade .................................................................................................... 15
2.3.h - Gravidade ou Densidade .............................................................................. 15
2.3.i - Índice de Refração ......................................................................................... 15
2.3.j - Hidratação ...................................................................................................... 15
2.3.l - Ionicidade ....................................................................................................... 16
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................. 16
Capítulo 3
PRINCIPAIS TIPOS, DESENHOS E PARÂMETROS DAS LC ................................. 17
Autores: Cleusa Coral-Ghanem, Harold A. Stein e Melvin I. Freeman
3.1 - PRINCIPAIS TIPOS DE LC ...................................................................................
3.1.a - LC Rígidas .....................................................................................................
3.1.b - LC de Elastômero de Silicone ......................................................................
3.1.c - LC Hidrofílicas ..............................................................................................
3.1.d - LC Silicone-Hidrofílicas ..............................................................................
17
17
17
17
17
3.2 - DESENHOS .............................................................................................................. 17
3.2.a - LC de Corte Simples .....................................................................................
3.2.b - LC Lenticular ................................................................................................
3.2.c - LC Tóricas ......................................................................................................
3.2.d - LC Bifocais / Multifocais .............................................................................
18
18
18
19
3.3 - PARÂMETROS DAS LC ......................................................................................... 20
3.3.a - Face Posterior da LC ..................................................................................... 21
3.3.a.1 - Curva Central Posterior (CCP) ou Curva Base (CB) .................. 21
3.3.a.2 - Curva Intermediária Posterior (CIP) ............................................ 22
3.3.a.3 - Curva Periférica Posterior (CPP) .................................................. 23
3.3.b - Face Anterior ou Frontal da LC .................................................................. 23
3.3.b.1 - Curva Central Anterior (CCA) ...................................................... 23
3.3.b.2 - Curva Intermediária Anterior (CIA) ............................................ 23
3.3.b.3 - Curva Periférica Anterior (CPA) ................................................... 23
3.3.c - Outros Parâmetros Importantes ................................................................... 24
3.3.c.1 – Zona Óptica (ZO) ........................................................................... 24
3.3.c.2 – Diâmetro (Ø) ................................................................................... 24
3.3.c.3 – Borda ................................................................................................ 24
3.3.c.4 – Poder Dióptrico ou Grau ............................................................... 25
3.3.c.5 – Espessura Central ........................................................................... 25
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................. 26
V
Lista de Siglas
CAB
– Acetato Butirato de Celulose
CB
– Curva Base
CCA
– Curva Central Anterior
CCP
– Curva Central Posterior
CIA
– Curva Intermediária Anterior
CIP
– Curva Intermediária Posterior
CPA
– Curva Periférica Anterior
CPP
– Curva Periférica Posterior
Ø
– Diâmetro da Lente de Contato
HEMA
– 2-hidroxietil metacrilato
LC
– Lente de Contato
LCH
– Lente de Contato Hidrofílica
ml
– Microlitros
mm
– Milimicras
mm
– Milímetro
hm
– Namômetro
O2
– Oxigênio
PEO
– Porcentagem Equivalente de Oxigênio
PHEMA – Poli(2-hidroxietil metacrilato)
VI
PMMA
– Polimetilmetacrilato
PS
– Profundidade Sagital
RGP
– Rígida Gás-Permeável
ZO
– Zona Óptica
ZOA
– Zona Óptica Anterior
ZOP
– Zona Óptica Posterior
Capítulo 1
Histórico das Lentes de Contato (LC)
Histórico das
Lentes de Contato (LC)
1
Cleusa Coral-Ghanem
A
lgumas fontes atribuem a
primeira idéia sobre LC aos
tempos da Renascença: Leonardo da
Vinci (1452-1519) e René Descartes
(1596-1650).
Outros estudiosos também são citados como colaboradores para o desenvolvimento da primeira LC: Philip de la
Hire (1685), trabalho citado por DukeElder (1970) e Thomas Young (1801),
relatado por Airy (1827).
Na realidade, a primeira descrição
definitiva de uma LC foi publicada por
volta de 1827 a 1845, pelo astrônomo
inglês John Frederick William Herschell,
que relata uma cápsula de vidro cheia de
geléia funcionando como uma superfície
refrativa posterior.
Em 1886, Xavier Galezowksi criou a
primeira LC terapêutica. Essa era um
quadrado de gelatina mergulhado em
uma solução de cloreto de mercúrio e
hidrocloreto de cocaína. O quadrado era
mantido no lugar através de uma cobertura de goma aplicada à córnea. A LC de
Galezowski era utilizada para auxiliar a
cura e reduzir infecções após a cirurgia
de catarata.
O ano de 1888 presenciou progressos importantes em LC. Na França,
Eugene Kalt desenvolveu a primeira LC
para uso em ceratocone e apresentou o
primeiro trabalho de LC em ceratocone,
na Academia de Medicina de Paris. Na
Alemanha, Adolf E. Fick produziu o
primeiro estudo clínico sobre LC. Posteriormente, Fick testou conchas corneoesclerais com correção óptica ao invés de
furos estenopêicos centrais. Ele teve
dificuldade, no entanto, em encontrar
ópticos para fabricá-las conforme suas
especificações.
Um importante resumo precoce da
teoria de LC foi a tese de doutorado de
August Müller para a Universidade de
Kiel, Alemanha, em 1889. Müller descreveu seu conceito de uma lente corneana
com a prescrição corretiva na sua superfície anterior e foi o primeiro a utilizar o
termo lente corneana. Ele postulou que a
lente iria aderir à superfície da córnea
devido à atração capilar do filme lacrimal. Müller fabricou várias lentes corneoesclerais, das quais nenhuma foi bem
sucedida. No entanto, como um resultado
dessas tentativas, Müller descobriu que o
filme lacrimal possui uma importante
função metabólica e que é necessária a
circulação adequada da lágrima para o
uso bem sucedido da LC.
As dificuldades na fabricação de
LC associadas à inabilidade do olho em
adaptar-se às lentes de vidro tornaram o
progresso mais lento, de meados de 1890
até cerca de 1912.
Com o desenvolvimento da indústria óptica, voltou-se a investir nessa
área. Duas companhias alemãs, a Carl
Zeiss e a Müller, fabricaram LC que
foram utilizadas principalmente por
pacientes portadores de ceratocone.
Várias melhorias notáveis no desenho de LC foram alcançadas na década
de 30 por Joseph Dallos, de BudapesteHungria. Dallos descobriu que as LC que
se movimentavam ao piscar eram melhor
toleradas do que as LC mais apertadas.
Ele deduziu que essa tolerância devia-se
ao fato de as LC frouxas permitirem uma
maior circulação de lágrimas. Por isso,
projetou uma LC com curva suplementar
na altura do limbo. Dentre as melhorias
desenvolvidas estava o uso de fenestrações
(furos através do material da LC) na junção corneoescleral e a adoção de novas
técnicas de fabricação.
1
Histórico das Lentes de Contato (LC)
Capítulo 1
Fatos Importantes
Ano
Responsável
Acontecimento
1827 ou
1845
John Frederick
William Herschell
fez a primeira descrição definitiva de
uma LC.
1886
Xavier Galezowksi
criou a primeira LC terapêutica.
1888
Eugene Kalt
desenvolveu a primeira LC para uso em
ceratocone.
1888
Adolf E. Fick
produziu o primeiro estudo clínico
sobre LC.
1889
August Müller
postulou que a LC iria aderir à
superfície da córnea devido à atração
capilar do filme lacrimal.
1930
Joseph Dallos
descobriu que as LC que se
movimentavam ao piscar eram melhor
toleradas do que as LC mais apertadas.
Projetou uma LC com curva
suplementar na altura do limbo.
Até a década de 30, o
vidro foi o único material
utilizado para a
fabricação de LC.
ugust Müller
Em 1889, A
August
foi o primeiro a utilizar o
termo lente corneana.
1888 - Primeiro Estudo Clínico sobre LC – por Adolf E. Fick
P
rimeiramente, Fick trabalhou com coelhos retirando moldes de seus olhos e
projetando conchas de vidro sopradas, enchidas
com uma solução de glicose. As conchas aderiam
com sucesso aos globos oculares e se moviam com
os olhos.
Depois disso, Fick produziu as conchas a
partir de moldes de olhos de cadáveres humanos.
Essas conchas se ajustavam ao raio da esclera e
tinham um raio de córnea mais elevado.
2
Em testes com olhos de humanos vivos essas
conchas eram toleradas por 2 horas. Devido ao
fato de suas primeiras lentes não terem qualquer
poder óptico, Fick projetou então conchas de
qualidade óptica que foram adaptadas em seis
pacientes com córneas irregulares, portadoras de
cicatrizes. As conchas eram tingidas de preto,
deixando uma pupila estenopêica transparente
central, o que permitiu uma melhora mensurável
na visão dos seis pacientes.
Capítulo 1
Histórico das Lentes de Contato (LC)
LC de Polimetilmetacrilato (PMMA)
1.1
E
m 1936, fabricando uma lente escleral, o norte americano
W. Fleinbloom introduziu o plástico
em combinação com o vidro. A parte
corneana era feita de vidro e a escleral de plástico.
Em 1938, Müller e Obrig utilizaram,
pela primeira vez, o polimetilmetacrilato
(PMMA) para a fabricação de prótese
ocular. Com a introdução do PMMA,
uma combinação de monômeros de metilmetacrilato, a LC corneana tornou-se
viável porque o novo material era muito
mais leve do que o vidro, fácil de ser trabalhado e inerte aos tecidos oculares.
Em 1947, o americano Kevin Tuohy
iniciou a era moderna das LC introduzindo as LC corneanas. Recebeu uma
patente por sua LC, em 1948. Essa lente,
denominada Solex, provou ser bem sucedida em testes humanos.
Em 1952, Dickinson, Neil e
Soehnges reduziram o diâmetro das LC
corneanas para 9,5 mm e a denomiram
de micro-lente.
Até 1949, 200.000 pares de LC de
PMMA haviam sido produzidas nos
Estados Unidos.
Fatos Importantes
Ano
Responsável
Acontecimento
1936
W. Fleinbloom
introduziu o plástico em combinação
com o vidro na fabricação de uma LC
escleral.
1938
Müller e Obrig
utilizaram o PMMA para a fabricação
de prótese ocular.
1947
Kevin Tuohy
introduziu as LC corneanas.
1952
Dickinson , Neil e
Soehnges
reduziram o diâmetro das LC
corneanas para 9,5 mm.
3
Histórico das Lentes de Contato (LC)
Capítulo 1
1.2
N
os anos 50, a descoberta que
as LC poderiam ser fabricadas
a partir de hidroxietilmetacrilato polimerizado (HEMA) estabeleceu o estágio para as LC hidrofílicas de hoje. O
trabalho pioneiro com LC de HEMA
foi feito em Praga, Tchecoslováquia,
por Otto Wichterle, Daroslav Lim e
Maximillian Dreifus.
Lentes Hidrofílicas
As primeiras LC de HEMA, em
1963, tiveram pouca aceitação por serem
muito frágeis e pesadas. Sua evolução
deu-se após a invenção de uma máquina
que produzia LC através do processo spin
casting, desenvolvido por Wichterle. Em
1966, a patente desse processo foi comprada pela Bausch & Lomb, que levou a
um grande desenvolvimento nessa área.
Fatos Importantes
Data
4
Acontecimento no Mercado Mundial
Março de 1971
- disponibilização das LCH.
Junho de 1973
- utilização das primeiras LCH terapêuticas.
Junho de 1978
- disponibilização das LCH tóricas.
Junho de 1979
- aprovação das LC de uso prolongado para afácicos.
Janeiro de 1971
- desenvolvimento das primeiras LCH para uso
prolongado, por John de Carle.
Setembro de 1981
- introdução das LC pintadas.
Junho de 1982
- aprovação pelo FDA da primeira LCH bifocal.
Junho de 1987
- introdução das LC descartáveis para uso contínuo
de uma semana ou uso diário de duas semanas.
Agosto de 1994
- lançamento das LC descartáveis de um dia.
Setembro de 1998
- lançamento das LC descartáveis multifocais.
Setembro de 1998
- lançamento das LC descartáveis de silicone hidratado.
Capítulo 1
Histórico das Lentes de Contato (LC)
Lentes Rígidas Gás-Permeáveis (RGP)
N
1.3
a década de 70, tentativas foram feitas para produzir LC
que combinassem a habilidade do PMMA
em corrigir astigmatismo com a qualidade gás-permeável das LCH. O resultado
foi a introdução, em 1978, das LC rígidas
gás-permeáveis (RGP) de acetato butirato de celulose (CAB). Esse material
tinha boa permeabilidade aos gases, mas
parou de ser utilizado devido à falta de
reprodutibilidade, instabilidade de parâmetros e pela sua afinidade com depósitos lipídicos.
Nos anos 80, o problema clínico foi
resolvido com o desenvolvimento de outro material derivado da copolimerização do PMMA e do siloxane (LC siliconadas). Com a adição do monômero de
flúor às LC siliconadas (LC fluorcarbonadas), o que aumentou a permeabilidade ao oxigênio, foi possível o uso prolongado das RGP.
As primeiras LC RGP para uso
prolongado foram lançadas em 1985.
Fatos Importantes
Data
Acontecimento
1978
- introdução das LC RGP de acetato butirato
de celulose (CAB).
Década de 80
- desenvolvimento das LC siliconadas e depois,
das fluorcarbonadas.
Referências Bibliográficas
BARR, J.T.; BAILEY, N.J. History and development of contact lenses. In: BENNETT,
E.S.; WEISSMANN, B.A. Clinical Contact Lens Practice. Philadelphia: Lippincott –
Raven Publishers, 1994, Chapter 11, p. 1–8.
BARR, J.T. Anniversary of a revolution – 25 years of soft contact lenses in the U.S.
Spectrum, p. 11, 1996.
STEIN, H. A.; SLATT, B.J.; STEIN, R.M. History of Contact Lenses. In: _____, Fitting
Guide for Rigid and Soft Contact Lenses, 3rd ed. Toronto: The C.V. Mosby Company,
1990, Chapter 15, p. 162-163.
SABELL, A.G. The history of contact lenses. In: PHILLIPS, A.J.; SPEEDWELL, L.
Contact Lenses, 4th ed. Oxford: Butterworth-Heinemann, 1997, Chapter 1, p. 1-16.
5
Materiais das LC
Cleusa Coral-Ghanem
Capítulo 2
2
Materiais das LC
2.1
Propriedades dos Polímeros
A
s LC são manufaturadas a partir de plásticos que, por sua vez,
são polímeros. Um polímero consiste na
formação de cadeias de unidades chamadas monômeros.
As propriedades dos polímeros derivam da habilidade de certos átomos se
unirem para formar ligações covalentes
estáveis. O primeiro entre esses átomos é
o carbono (C) que pode se unir a outros
quatro átomos iguais a si ou, alternativamente, a átomos de, por exemplo, hidrogênio (H), oxigênio (O2), nitrogênio (N),
enxofre (S), e cloro (Cl). Esses polímeros
podem ser puramente naturais, como a
celulose; polímeros naturais modificados,
como o acetato de celulose; ou completamente sintéticos, como o polimetilmetacrilato (PMMA).
A única característica que une esses
e outros polímeros é o fato de serem conectados em longas cadeias. Os polímeros
com os quais são fabricadas as LC pertencem ao reino da química orgânica, ou
a química dos compostos de carbono.
A maioria desses polímeros são sintéticos e processados por polimerização.
Assim, o polímero mais simples, polietileno, é obtido pela polimerização do
monômero etileno (fig. 1).
Figura 1 - Polimerização do monômero etileno
6
Isso é normalmente representado
por uma equação geral que mostra a conversão de n unidades etileno numa cadeia
de polietileno de n unidades de comprimento (fig. 2).
Figura 2 - Cadeia de polietileno de n unidades de comprimento
Em um polímero comercial, n poderia ter o valor de alguns milhares.
A polimerização de metilmetacrilato
pode ser demonstrada de maneira parecida (fig. 3).
Figura 3 – Polimetilmetacrilato (PMMA)
A estrutura fechada entre parênteses é
conhecida como a unidade repetente
repetente, e é
praxe que quando se escreve o nome de um
polímero se identifique especificamente o
que é essa unidade. Portanto, deve-se escre-
Capítulo 2
Figura 4 - Poliestireno
Figura 5 - Cloreto de
Polivinila
Materiais das LC
ver poli(etileno) ou poli(metil-metacrilato), mas como esses são polímeros comerciais conhecidos, os parênteses são
normalmente omitidos. O mesmo serve
para poliestireno (fig. 4) e cloreto de
polivinila (fig. 5).
Para indicar que um polímero tem
mais de um tipo de unidade repetente
obtida pela polimerização de diferentes
tipos de polímeros ao mesmo tempo, utiliza-se o termo copolímero
copolímero; portanto, ao
se copolimerizar o estireno e o metilmetacrilato, obtém-se um copolímero de estireno e de metilmetacrilato.
O termo copolímero pode ser utilizado para descrever a mistura de dois ou
mais monômeros, embora exista um
termo específico para descrever polímeros formados pela polimerização de
três monômeros.
Se as propriedades químicas e a organização de uma corrente de polímeros for
modificada, pode-se mudar as propriedades físicas e obter um comportamento
flexível, elástico, ou o inverso, um comportamento duro, vítreo.
Existem várias sutilezas adicionais
envolvidas no desenho de polímeros que
permitem submetê-los a grandes deformações e recuperá-los instantaneamente. É a
característica ideal de comportamento
elastomérico.
Em temperaturas muito baixas, todos os polímeros são
duros e vítreos. Em temperaturas altas, a energia térmica
do sistema aumenta, permitindo que as correntes
individuais de polímeros tenham energia suficiente para
suportar rotação.
2.1.a Função do Plastificador
U
m material duro, vítreo e
termoplástico como o PMMA
ou o cloreto de polivinila, pode ser convertido em material flexível pela incorporação de um plastificador
plastificador. Este é um componente móvel, geralmente um líquido
orgânico com ponto de ebulição alto, que
agirá como um lubrificante interno. Sua
presença separa as correntes poliméricas
permitindo assim que se movam com
mais liberdade. Sua função é elevar a
temperatura na qual ocorre a mudança de
estado vítreo ao flexível. Assim, cloreto de
polivinila, em seu estado intacto, é um
material rijo e vítreo, conhecido comercialmente como telhas transparentes onduladas. Quando um plastificador é incorporado, o material se torna flexível como,
por exemplo, assentos de carro de vinil.
Nesses casos, pigmentos e outras mudanças nos processos também permitirão que
o polímero seja produzido em várias cores
e texturas.
Um princípio quase idêntico está
envolvido na formação de polímeros conhecidos como hidrogel.
2.1.b Ligação Cruzada (Cross-link)
É
necessário que se descreva mais
uma característica molecular
que é importante para polímeros elásticos (ambos hidrogel e elastômeros sintéticos), que é a ligação cruzada (cross-link).
A cadeia cruzada deriva da reação do HEMA
com o etileno glicol dimetacrilato (EGDMA).
Outros monômeros, como por exemplo
o N-vinil pirrolidona e o ácido metacrílico,
quando combinados com HEMA podem
formar copolímeros de alto poder aquoso.
7
Materiais das LC
Capítulo 2
O número de ligações cruzadas provocam um efeito importante sobre as
características físicas do plástico, demonstrado por bom ou mau comportamento elástico.
Para se obter bom comportamento
elástico, as correntes têm que ser suficientemente móveis para mudarem de posição quando uma força é aplicada sobre
elas, mas também precisam de conexões
para garantir que conseguirão voltar às
suas posições originais. A incorporação
de um número excessivo de ligações cruzadas restringirá a deformação elástica.
Para um bom comportamento elástico, o limite máximo de densidade de ligações cruzadas (cross-link) está na proporção de um cross-link para cada 100 átomos
da coluna principal de monômeros.
2.2
O
s polímeros utilizados ou sugeridos como materiais para LC
dividem-se em quatro grupos:
- termoplásticos;
- rígidos gás-permeáveis;
Classificação dos Polímeros das LC
- elastômeros sintéticos;
- hidrofílicos e
- copolímeros híbridos.
Cada grupo tem suas próprias vantagens e desvantagens.
2.2.a Termoplásticos
O
s termoplásticos representam
um grupo de polímeros que
podem ser moldados sob o efeito de calor
e pressão.
Em temperatura ambiente, são razoavelmente rígidos com possibilidades de
mostrarem alguma flexibilidade, mas
certamente não elástica.
O primeiro dentro desse grupo é o
polimetilmetacrilato (PMMA) que, após
sua introdução na década de 1940, foi o
primeiro material plástico e o mais utilizado para a confecção de LC durante os
trinta anos seguintes.
O PMMA é o resultado da combinação de unidades de monômeros de metilmetacrilato. Possui alta umectação, excelente qualidade óptica, leveza, transparência e durabilidade. É facilmente processado e esterilizado.
Dentre as desvantagens estão a rigidez
e a impermeabilidade virtual ao O2. Por
mais que a rigidez seja o maior fator de
desconforto do usuário, a LC se encaixa de
maneira a permitir que o líquido lacrimal
flua atrás da LC, compensando assim, até
certo ponto, a falta de transmissibilidade de
O2 através do material.
Polimetil-metacrilato (PMMA)
não é gás-permeável.
Por não ser permeável aos gases foi
amplamente substituído pelos materiais
gás-permeáveis, descritos a seguir. É consenso geral que os usuários de PMMA
devem ser readaptados com materiais gás-
8
permeáveis, por terem menor probabilidade de comprometer a saúde da córnea.
Entretanto, deve-se mencionar que muitas
pessoas têm utilizado LC de PMMA por
mais de 20 anos sem apresentar problemas.
Capítulo 2
Materiais das LC
2.2.b Rígidos Gás-Permeáveis
A
primeira LC RGP disponível
no mercado foi a CAB (acetato
butirato de celulose), em 1970. Esse polímero foi conseguido pela esterificação da
celulose com os ácidos butírico e acético.
Logo foi abandonado devido a sua grande
afinidade com depósitos lipídicos, falta
de estabilidade de parâmetros e de reprodutibilidade.
Para melhorar a permeabilidade ao
O2, ausente nas LC de PMMA, tentou-se
misturar o PMMA com polímeros de
permeabilidades mais altas, mas o problema sempre foi alcançar um equilíbrio
de propriedades.
Materiais de silicone acrilato combinam
a dureza e a claridade óptica do PMMA com
a permeabilidade de O2 derivada de seu conteúdo de silicone. As LC de silicone acrilato,
com valores Dk variando de 15 a 55, são amplamente utilizadas. O componente de silicone é hidrofóbico, o que cria problemas de
umectabilidade, por isso as LC necessitam de
tratamento de superfície.
Especialistas em química de polímeros têm trabalhado arduamente para
variar as proporções dessas substâncias e
adicionar outros ingredientes, tais como
ácido metacrílico, para desenvolver qualidades diferentes de materiais. O objetivo é
aumentar a permeabilidade de O2 e manter
a dureza, ao mesmo tempo.
LC de resina de silicone são polímeros puros de silicone em estado rígido.
Elas não são muito populares devido a
sua pobre umectabilidade e flexibilidade.
As LC de fluoropolímeros incorporam um monômero fluorado com material
siloxane ou polímeros de não silicone. A
permeabilidade ao O2 aumenta devido a
capacidade do flúor de dissolver moléculas
de O2, aumentando a permeabilidade de O2
a valores tão altos quanto Dk 150.
As LC RGP fluoradas dividem-se em
duas categorias: as de copolímeros fluorosilicone-acrilato e as de fluoro-polímeros
flexíveis. O copolímero fluoro-siliconeacrilato combina um monômero fluoretato com o copolímero de siliconeacrilato e as LC de fluoro-copolímero
flexível têm sua flexibilidade resultante
da presença de poliper-fluoro-éter no
lugar do silicone acrilato.
Esses materiais possuem excelente
umectabilidade, maior resistência à
formação de depósitos do que as LC
siliconadas e contêm filtro de luz
ultra-violeta incorporado na matériaprima do polímero. São mais flexíveis
do que os outros materiais RGP, por
isso mais resistentes à quebra.
2.2.c Elastômeros Sintéticos
O
s elastômeros sintéticos são um
grupo de polímeros semelhante
à borracha que, além de flexíveis, podem
ser comprimidos ou esticados, retornando
a sua forma original quando cessada a
força deformante. Suas propriedades são
intermediárias entre aquelas dos termoplásticos e dos hidrofílicos.
Teoricamente, seriam ideais para se
fabricar LC. Entretanto, a forma molecular que dá o comportamento elástico
produz polímeros com superfícies hidrofóbicas. Além da borracha natural, muitos elastômeros sintéticos foram patenteados para a fabricação de LC (Dow
Corning 1967). Esses polímeros podem
ser de 100 a 1.000 vezes mais permeáveis
ao O2 do que o PMMA.
A borracha de silicone, que é um poli
(dimetil-siloxane), foi um dos primeiros
polímeros utilizados. Apresenta mais permeabilidade ao O2 do que qualquer material comercialmente disponível, sendo por
volta de mil vezes mais permeável que o
PMMA. Além disso, a borracha de silicone é maleável e flexível, semelhante aos
materiais de hidrogel, mas ao contrário
desses, ela é altamente hidrofóbica. A
borracha de silicone é um precursor muito importante dos materiais RGP atuais.
9
Materiais das LC
As primeiras LC de borracha de
silicone foram manufaturadas pelas técnicas de moldagem por compressão e
conseguiu-se bordas de alta qualidade. O
maior obstáculo para o uso dessas LC
foram as propriedades inadequadas de
umectabilidade, e não a falta de força
mecânica de composição básica do material, ou de durabilidade.
Os primeiros métodos de tratamento
de superfície da borracha de silicone, tentando deixá-la hidrofílica, envolviam ataques químicos diretos com alkyl titanate ou
ácido clorosulfônico, seguidos de hidrólise.
Capítulo 2
Logo foram usados tratamentos mais
sofisticados que envolveram uma variedade de tipos de radiação, ionizantes e não
ionizantes, muitas vezes auxiliadas por
N-vinil pirrolidona (NVP) ou HEMA. Por
mais que os métodos sejam diferentes em
detalhes e complexidade são, essencialmente, reações de radicais livres.
Concluiu-se que, apesar da alta permeabilidade ao O2, é difícil utilizar a
borracha de silicone em forma de LC
clinicamente aceitável, por causa da natureza hidrofóbica do polímero e da dificuldade em se gerar uma superfície hidrofílica permanente.
2.2.d Hidrofílicos
R
epresentam o quarto e o maior
grupo em termos de variedade
estrutural. São polímeros que ao absorver
a água tornam-se gelatinosos, maleáveis e
elásticos.
O hidrogel PHEMA tem um conteúdo de água aproximado de 39%, dependendo das condições de medição, que podem ser influenciadas pela temperatura e
pelo tipo de água, pura ou solução salina.
Os polímeros de hidrogel não são
completamente hidrofílicos; seu ângulo
de contato está em torno de 20 o.
O conteúdo de água pode ser progressivamente reduzido pela copolimerização com quantidades crescentes de um polímero tipo metilmetacrilato, fluoroalquilmetacrilato ou
siloxilmetacrilato, que formam a base
para materiais RGP. Em princípio, esse
é o caminho utilizado para a preparação
dos materiais de hidrogel de silicone.
A estrutura do PMMA pode tornarse mais hidrofílica pela incorporação de
grupos hidroxil.
Quando HEMA absorve água, ele se
torna mole, apesar de continuar resistente.
É altamente transparente e mantém seu
formato mesmo após a eversão. HEMA é
inerte e bem tolerado pela córnea. Seu
índice de refração médio (1,43) encontrase entre o índice de refração da córnea
(1,37) e o da LC de PMMA (1,49).
A polimerização do monômero HEMA
resulta no poli(2-hidroxietil metacrilato) –
PHEMA, que foi o primeiro polímero a
alcançar alguma significância no mercado,
podendo ser utilizado para a fabricação de
diversos tipos de desenho de LC.
Em seu estado seco, PMMA e
PHEMA têm características muito
similares – ambos são polímeros vítreos e duros. Enquanto o PMMA permanece relativamente inalterado pela
água, pois absorve apenas 0,5% de seu
próprio peso, o PHEMA é mais hidrofílico e na presença de água forma um
hidrogel elástico.
10
O conteúdo de água de um hidrogel
pode, por outro lado, ser progressivamente
aumentado pela copolimerização com
quantidades crescentes de um monômero
hidrofílico tipo N-vinil pirrolidona ou Ndimetil acrilamido. A quantidade de água
do polímero resultante depende das proporções relativas de monômeros hidrofílicos e hidrofóbicos utilizados.
Na polimerização, o objetivo é se
obter um maior conteúdo de água, pois a
água absorvida é o meio pelo qual o O2
atravessa o material da LC de hidrogel. O
conteúdo de água de LCH varia de 37,5%
a 79%. A espessura da LC também afeta
Figura 6 – Polimerização
a transmissibilidade de O2, tanto que, ao
do HEMA = PHEMA
se dobrar a espessura, o valor DK/L cai
pela metade.
Os polímeros hidrofílicos, mesmo
os de maior conteúdo de água, não proporcionam um Dk/L que permita o
Capítulo 2
Materiais das LC
fornecimento de O2 adequado para que
a LC possa ser utilizada durante o sono,
com tranqüilidade.
O Dk/L médio da maioria das LC
para uso prolongado, disponíveis no mercado, é de 30x10-9, enquanto o Dk/L mínimo exigido numa LC para que a mesma
não provoque alterações fisiológicas importantes na córnea é de 87 x 10-9.
Foram desenvolvidos outros polímeros hidrofílicos não derivados do
HEMA, mais resistentes a depósitos
de proteínas, com os quais também se
fabrica LC.
2.2.d.1 Novos Materiais
Valores Dk/L de
LC HEMA
variam de
5 a 15.
Recentemente, foram desenvolvidos
materiais que misturam o RGP com o
hidrogel: silicone hidrofílico, onde a permeabilidade ao O2 é alta através do silicone e baixa na porção hidrogel. A finalidade da fase aquosa é promover o movimento e o conforto.
Um exemplo de LC com esse novo
material é a fabricada com Lotrafilcon A,
silicone-hidrofílico. Apresenta superfície
plasmática tratada para ser resistente à
depósitos; Dk 140; teor de água 24%;
índice de refração igual a 1,42.
2.2.d.2 Classificação do FDA para os polímeros
das LC Hidrofílicas
Está dividida em quatro grupos, de
acordo com o conteúdo de água e com as
propriedades iônicas ou não iônicas dos
polímeros. Os materiais não iônicos são
eletricamente neutros e menos reativos,
enquanto os iônicos apresentam superfície com carga negativa, mais reativa.
Numa LC de superfície iônica, quanto
maior o conteúdo de água, maior a tendência à formação de depósitos.
CLASSIFICAÇÃO DOS MA
TERIAIS DE LC HIDROFÍLICAS QU
ANTO À HIDR
ATAÇÃO E À IONICID
ADE.
MATERIAIS
QUANTO
HIDRA
IONICIDADE.
(FD
A - FEDER
AL DRUG ADMINISTR
ATION - USA)
(FDA
FEDERAL
ADMINISTRA
Figura 7 – Classificação dos materiais de LCH quanto à hidratação e à ionicidade (FDA – Federal Drug Administration – USA)
11
Materiais das LC
Capítulo 2
A relação das LC atualmente em uso nos Estados Unidos, e suas
características, pode ser encontrada na “Contact Lenses Quarterly” ou no
suplemento da “Contact Lens Spectrum”. A relação das LC disponíveis
no Brasil pode ser conferida em “O Consultor”, 1999.
2.3
Características Físicas dos Polímeros
2.3.a Permeabilidade dos Materiais ao Oxigênio
A
maior fonte de O2 para o metabolismo aeróbico da córnea é o
ar atmosférico. Sendo a LC uma barreira,
a transmissibilidade de O2 através de seu
material é uma das propriedades mais
importantes a ser considerada.
Uma LC de PMMA, cujo material
não é permeável ao O2, deve ter uma relação lente-córnea muito boa, porque a
oxigenação debaixo da LC depende de
uma eficiente bomba lacrimal. O O2 at-
Figura 8.a – Oxigenação da córnea com RGP = Dk/L
da LC + troca 20% da lágrima a cada piscar.
As condições essenciais de oxigenação
da córnea têm sido expressas de várias
maneiras, incluindo um cálculo direto
para o consumo de O2 e a pressão parcial
mínima de O2 necessária para manter o
metabolismo normal da córnea.
A pressão parcial mínima necessária
para prevenir um edema de córnea, conforme POLSE e MANDELL (1970), era
12
mosférico dissolvido no fluído lacrimal
pré-corneal é bombeado para baixo da
LC pelo movimento do piscar. FATT
(1970) concluiu que a cada piscar 20% do
filme lacrimal é trocado debaixo de uma
LC rígida bem adaptada, enquanto essa
troca sob uma LCH é de 1 a 5%, no máximo (fig. 8.a e fig. 8.b). A troca lacrimal
além de prover O2 e outros nutrientes
para a córnea, remove produtos como
dióxido de carbono, ácido lático e células
epiteliais mortas.
Figura 8.b – Oxigenação da córnea com LCH = Dk/L
da LC + troca de lágrima de apenas 1% a cada piscar.
11-19 mmHg; em 1980, MANDEL e FARREL atualizaram para 23-37 mmHg e, em
1984, HOLDEN demonstrou ser 74 mmHg.
Os resultados dos diversos trabalhos
são difíceis de avaliar pela complexidade
de medir com exatidão a permeabilidade
dos materiais de uma forma que traduza
seu efeito quando em uso.
Capítulo 2
Materiais das LC
2.3.b Dk / L e PEO
A
quantidade de O2 que passa
através de um material de
espessura conhecida quando medida in
vitro é referida como Dk/L e, quando
medida in vivo é referida como PEO
PEO.
O termo permeabilidade refere-se a
capacidade de uma substância de atravessar uma membrana ou outro material. A
permeabilidade de um polímero de LC é
expresso como um coeficiente de permeabilidade denominado Dk
Dk.
O termo transmissibilidade de oxigênio refere-se a uma LC específica, que
relaciona a permeabilidade ao O2 do material com a espessura central da LC, que
é representada por L.
Dk – É o coeficiente de permeabilidade ao oxigênio do material com
que é fabricada a LC, avaliado numa
certa quantidade de tempo, sob condições específicas. Não é, portanto, a
quantidade exata que passará através
de uma LC específica, porque não leva
em conta sua espessura.
Os métodos mais utilizados para
avaliação do Dk são Gas to Gas e Iso/
Fatt.
D – É o coeficiente de difusão
difusão, que
define quão rapidamente as moléculas de
gás se movimentam no material. A difusão é um processo pelo qual as moléculas
atravessam o material, sendo que a direção do movimento é sempre de uma área
de maior concentração de O2 para uma de
menor concentração (fig. 9).
k – É o coeficiente de solubilidade
que define quanto gás pode ser dissolvido
numa unidade cúbica do material. Seu
valor se expressa em milímetros de O2,
dissolvidos em milímetros de material,
pela tensão do O2 em mm Hg (ml O2/ml
x mm Hg).
L – É a espessura do material da LC.
Dk/L – É uma técnica in vitro que
expressa a transmissibilidade de O2 através do material de uma LC de espessura
conhecida. A transmisibilidade do O2
(Dk/L) é inversamente proporcional ao
aumento da espessura da LC (fig. 10.a e
fig. 10.b).
Figura 9 – Difusão de O2 através da LC
Figura 10.a – Efeito do Dk na transmissão do O2
Figura 10.b – Efeito da espessura na transmissão do O2
PEO (Porcentagem Equivalente de
Oxigênio) – É uma técnica realizada in
vivo que mede a quantidade de O2 apreendida pela córnea, após um período de
uso da LC. Refere-se à quantidade de O2
equivalente a uma mistura gasosa contendo entre 0% de O2 (nitrogênio puro) e
20,8% de O2 (ar atmosférico). Para evitar
edema, é necessário que debaixo da LC
exista um PEO superior à 7%, valor que
13
Materiais das LC
corresponde a uma pressão parcial de O2
atmosférico de 55 mm Hg.
O valor PEO é mais real quando se
refere a LCH, porque as LC RGP também proporcionam O2 por meio da bomba lacrimal.
Capítulo 2
O Dk/L e o PEO são diretamente
proporcionais à permeabilidade ao O2 e
inversamente proporcionais à espessura
da LC. No caso da LCH a permeabilidade ao O2 é diretamente proporcional
também ao teor de hidratação da LC.
2.3.c Umectabilidade
A
umetabilidade é representada
pelo ângulo de umectação, que
é o ângulo formado pela superfície do
material da LC com a borda de uma gota
de água depositada sobre ela. A umectação do material é inversamente proporcional ao ângulo de contato, significando
que quanto menor o ângulo, maior a habilidade de umectação da LC e quanto
maior, mais hidrofóbico é o material.
Portanto, um líquido que se espalha espontaneamente sobre uma superfície tem
um ângulo de contato zero, e a superfície
é considerada hidrofílica.
Quanto mais umectável for a superfície da LC, mais estável será o filme
lacrimal, maior será a resistência à depósitos e melhor será a acuidade visual.
Figura 11 – Ângulo de umectação
2.3.d Transparência
R
efere-se a claridade do material
e depende, entre outros fatores,
da química, pureza e hidratação do material. Nenhum material é completamente
transparente.
2.3.e Dureza e Rigidez
A
dureza do material é uma
qualidade importante a ser
considerada porque afeta sua habilidade
de ser trabalhado, bem como a sua durabilidade. Esse é um atributo mais relevante para LC rígida do que para LCH.
14
A rigidez é o grau de flexibilidade
do material. Os mais flexíveis geralmente
são mais confortáveis, mas não mascaram
o astigmatismo, porque se amoldam à
córnea.
Capítulo 2
Materiais das LC
2.3.f
É
Força Tensional
o valor que expressa a quantidade de força que pode ser aplica-
da sem quebrá-lo. Os materiais com alta
força tensional tendem a ser mais duráveis.
2.3.g Elasticidade
É
uma constante que expressa a
habilidade do material para
guardar sua forma, quando submetido
ao estresse.
Materiais com um módulo baixo de
elasticidade são menos resistentes ao
estresse, enquanto aqueles de alta elasticidade são mais resistentes, conservam
melhor os seus parâmetros e permitem
melhor acuidade visual.
2.3.h Gravidade ou Densidade
G
ravidade específica é a razão do
peso de um material no ar pelo
peso de um volume igual de água no ar,
na mesma temperatura, sendo que a gravidade específica da água é igual a 1.
2.3.i
Índice de Refração
É
a razão da velocidade da luz no
ar pela velocidade da luz no
material. Materiais com alto índice refra-
2.3.j
A
A gravidade específica pode ser importante clinicamente quando a massa ou
o peso da LC é significativo, como em
casos das LC positivas.
tivo causam mais refração de luz incidente.
Esse índice, nos materiais de LCH, está
relacionado com o conteúdo de água.
Hidratação
maioria dos materiais de LC
absorvem um pouco de água. A
quantidade absorvida é expressa como
uma percentagem do peso total da LC.
Materiais que absorvem menos do que
4% do seu peso são referidos como sendo
polímeros hidrofóbicos. E aqueles que
absorvem quantidade igual ou maior do
que 4% são os hidrofílicos.
Acrescentando água nos polímeros
hidrofílicos, aumenta-se a permeabilidade
ao O2, a fragilidade da LC e a facilidade
na formação de depósitos.
15
Materiais das LC
2.3.l
Capítulo 2
Ionicidade
O
s materiais das LC podem ter
uma carga elétrica, quando são
chamados de iônicos, ou serem neutros,
os não iônicos.
Essa propriedade é importante especialmente nos materias de LCH porque,
entre outros fatores, afetam a compatibilidade com soluções e a formação de depósitos na superfície da LC.
Um material com carga iônica negativa é mais reativo e, na presença de soluções ácidas, pode sofrer alterações dimensionais e degradação. Além disso, são
mais propensos à formação de depósitos
porque os depósitos provenientes das
lágrimas carregam carga positiva e são
atraídos para a superfície da LC.
Os materiais não iônicos tendem a
ser menos reativos, por isso são mais resistentes a depósitos.
Referências Bibliográficas
ALVES, M. R. & KARA-JOSÉ, N. Importância da avaliação do filme lacrimal no candidato ao uso de lentes de contato. In: CORAL-GHANEM, C.; KARA-JOSÉ, N. Lentes
de Contato na Clínica Oftalmológica. 2 ed., Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1998. Capítulo 2, p. 9-13.
FATT, I. Oxigen transmission. In: BENNETT, E.S. & WEISSMAN, B.A. Clinical Contact
Lens Practice. Philadelphia: J.B. Lippicott, Co., 1995. Chapter 13, p. 1-10.
FATT, I. & HILL, R. M.. Oxygen tension under a contact lens during blinking-a
comparison of theory and experimental observations. Am J Optom, 47:50, 1970.
HOLDEN, B. & MERTZ, G.. Critical oxygen levels to avoid corneal edema for both daily
and EW contact lenses. Invest. Ophtalmol. Vis. Sci., 25:1161, 1984.
MANDELL, R. B. & FARREL, R.: Corneal swelling at low atmospheric oxigen pressures.
Invest. Ophtalmol. Vis. Sci., 19:697, 1980.
POLSE, K. A. & MANDELL, R. B.: Critical oxygen tension at the corneal surface.
Arch. Ophtalmol., 84:505, 1970.
TIGHE, B. J.. Contact lens materials. In: PHILLIPS, A. J. & SPEEDWELL, L. Contact
Lenses. 4th ed. Rochester, Kent: Butterworth Heinemann, 1997. Chapter 3, p. 50-92.
16
Capítulo 3
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
Principais Tipos,
Desenhos e Parâmetros
das LC
Principais Tipos de LC
3
Cleusa Coral-Ghanem, Harold A. Stein e Melvin I. Freeman
3.1
3.1.a LC Rígidas
. Siliconadas: combinação de
PMMA e siloxane
– Não permeáveis aos gases
. PMMA
– Gás-permeáveis
. CAB – acetato butirato de celulose
. Resina pura de silicone
. Fluorcarbonadas: combinação
de PMMA, siloxane e flúor
. Fluoropolímeros flexíveis
3.1.b LC de Elastômero de Silicone
3.1.c LC Hidrofílicas
– HEMA
– Não HEMA
3.1.d LC Silicone-Hidrofílicas
Desenhos
3.2
O
s princípios básicos do desenho das LC rígidas foram os fundamentos
históricos para o desenho das LCH. As propriedades físicas dos materiais com que são fabricadas têm um efeito muito importante no seu desenho e nas
características de adaptação.
17
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
Capítulo 3
3.2.a LC de corte simples
É
constituída de:
• uma face anterior de curva contínua, denominada curva central anterior (CCA);
• uma face posterior que contém a curva central posterior (CCP) ou curva base
(CB), a curva intermediária posterior (CIP), também chamada de curva de fusão
ou blend e uma curva periférica posterior (CPP) (fig. 1).
Figura 1 - Configuração de LC
de corte simples
3.2.b LC Lenticular
É
um desenho comumente utilizado em pacientes com altas
hipermetropias, ou afácicos, principalmente quando associadas à
córneas planas. Uma LC de alto poder positivo é espessa na região central,
tornando-se pesada, com tendência a se posicionar inferiormente.
Para melhorar a centralização, utiliza-se o desenho de borda negativa
(LC lenticular) que facilita a captura da LC pela pálpebra superior (fig. 2).
3.2.c LC Tóricas
A
s LC tóricas apresentam desenho esferocilíndrico utilizado
para a correção de astigmatismo. Diferem das esféricas, portanto, por terem
raios diferentes de curvatura em meridianos opostos a 90o.
A LC tórica de superfície frontal
apresenta dois raios diferentes de curvatura na superfície anterior enquanto a
superfície posterior é esférica.
A LC tórica de superfície posterior
apresenta dois raios diferentes de curva-
Figura 2 - LC Lenticular com
borda negativa
tura na superfície posterior enquanto a
superfície anterior é esférica.
A LC bitórica apresenta raios de
curvatura diferentes nas superfícies anterior e posterior.
A LC movimenta-se no olho com o
piscar, deslocando-se, geralmente, para
cima e para o lado medial. Quando se
utiliza um desenho esferocilíndrico, a
estabilização do eixo é indispensável para
manter uma visão estável. Para isso, utiliza-se diversos mecanismos, influenciados
pelo desenho da córnea e das pálpebras.
LC com Prisma de Lastro
É
uma LC que possui um prisma
de 0,75 a 1,50 D, cuja base,
localizada às seis horas, faz com que seu
peso desloque o centro de gravidade da
LC para baixo, diminuindo a rotação da
mesma (fig. 3). Funciona bem em córneas
planas, pálpebras apertadas e em astigmatismo oblíquo.
Figura 3 – LC com prisma de lastro
18
Capítulo 3
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
LC Truncada
É
uma LC cortada horizontalmente na sua porção inferior,
ficando com a borda mais espessa capaz
de se apoiar na borda palpebral inferior
(fig. 4). Esse desenho alinha a LC e mantém sua orientação, mas pode ser desconfortável e depende do posicionamento da
borda palpebral inferior.
Figura 4 – LC truncada
LC com Bordas Chanfradas
A
presenta as bordas superior
e inferior chanfradas, facilitando o posicionamento debaixo
das pálpebras e evitando a rotação
(fig. 5.a e 5.b).
Figura 5.b - LC com zonas periféricas chanfradas – frontal
Figura 5.a - LC com zonas periféricas
chanfradas - perfil
3.2.d LC Bifocais / Multifocais
A
s LC bifocais/multifocais, através de
seus desenhos segmentado e concêntrico, fornecem basicamente dois tipos de imagens: alternante e simultânea.
• Desenho segmentado (fig. 6) e concêntrico
(fig. 7.a e fig. 7.b);
• Desenhos concêntrico, asférico (fig. 8) e
difrativo (fig. 9).
Figura 6 – LC Bifocal de desenho segmentado de diferentes modelos
19
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
Capítulo 3
Figura 7.b – LC bifocal de desenho concêntrico para visão simultânea. Zona central
para perto (A) e concêntrica para longe (B), podendo ser o inverso.
Figura 7.a – LC Bifocal de desenho concêntrico
para visão alternada.
Observação - Outros desenhos no capítulo específico.
Figura 9 – LC bifocal de desenho
difrativo (frontal)
Figura 8 – LC asférica positiva
podendo ser negativa
3.3
Q
uase todas as variáveis de um
desenho de LC podem ser medidas e são expressas em valores numéricos,
chamados de parâmetros das LC (fig. 10).
Para adaptar LC, três são os parâmetros mais importantes:
• curva base (CB),
Parâmetros das LC
• desenho da LC e
• ângulo de umectação do material.
Para escolher a melhor LC entre
tantas alternativas disponíveis, o profissional necessita conhecer o que significa
cada um desses termos e suas funções na
adaptação da LC.
• grau e
• diâmetro (Ø).
Entretanto, para se conseguir uma
boa relação lente-córnea, muitos outros
fatores devem ser levados em conta:
• tamanho de ZO;
• espessura central;
• curva secundária;
• curva periférica;
• desenho de borda;
20
Figura 10 - Parâmetros
básicos LC perfil
Capítulo 3
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
3.3.a Face Posterior da LC
3.3.a.1 Curva Central Posterior (CCP) ou Curva Base (CB)
É
o raio de curvatura da parte
central posterior da LC que pode
ser expresso em milímetros (mm) ou em
dioptrias (D). Corresponde à ZO da LC.
Uma LC com apenas uma CB é chamada de monocurva. Outras curvas podem ser adicionadas, tornando-a bicurva,
tricurva ou multicurva.
Um raio de curvatura mais longo
significa uma CB mais plana; inversamente, um raio mais curto representa
uma CB mais fechada.
As curvas que cercam a CB, na superfície posterior da LC, são chamadas
curvas periféricas. A primeira curva, logo
após a CB, é chamada de curva secundária; se existir outra curva periférica, é
denominada curva terciária.
A CB é o principal parâmetro a ser
escolhido no processo de adaptação de
uma LC. Deve ser similar à superfície
frontal do olho sobre a qual será adaptada, para promover conforto e boa visão. A
princípio, é selecionada de acordo com a
curvatura do ápice da córnea.
Cada curva periférica é mais plana
do que a precedente, do centro para a
periferia, o que significa um raio de curvatura maior.
A CB Pode ser Esférica ou Asférica
• A CB esférica apresenta um raio cuja curvatura é igual em todos os pontos ao longo da curva, semelhante à face interna de uma bola.
• A CB asférica apresenta um aplanamento
gradual do centro para a periferia até a borda, sem
zona de transição. Na área apical o desenho é mais
esférico, tornando-se progressivamente mais plano
em direção à borda da LC (fig. 11).
Figura 11 – Curva Esférica x Asférica
A CB asférica é especificada por um valor de excentricidade numérica. Quanto maior for esse valor, maior será a taxa
de aplanamento do centro para a periferia. Um valor de excentricidade zero é igual a uma superfície esférica; valores de
excentricidade entre zero e 1,0 especificam curvas elípticas;
igual a 1,0, curva parabólica e maior do que 1,0, curva hiperbólica. A maioria das superfícies asféricas usadas clinicamente
apresentam um valor de excentricidade de 0,3 a 1,1 (fig. 12).
Figura 12 – Curvas asféricas.
21
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
Capítulo 3
Como a superfície corneana também
é asférica, muitos profissionais preferem
adaptar LC asféricas, especialmente em
se tratando de LC rígidas.
Curvas asféricas posteriores com
grandes valores de excentricidade podem
proporcionar um efeito multifocal, com
diferentes graus nas diferentes posições
da superfície da LC, e são usadas em
alguns desenhos de LC para présbitas.
Como a área óptica periférica da LC tem
uma curvatura diferente da área óptica
central, os graus também são diferentes, e
essas LC são desenhadas de tal forma que
uma parte dela proporciona visão para
perto e a outra para a distância.
Relação entre Valor de Excentricidade e Forma da LC Asférica
Valor da Excentricidade
Forma
0
circular
0.1 a 0.9
elíptica
1.0
parabólica
maior que 1.0
hiperbólica
3.3.a.2 Curva Intermediária Posterior (CIP)
T
ambém chamada de curva secundária, curva de fusão ou
blend, descreve a curvatura da superfície
posterior de uma LC na área ao redor da
ZO (fig. 13.a e fig. 13.b).
Corresponde à zona de transição
entre a curva central posterior (CCP) e a
curva periférica posterior (CPP). Costuma ser 2 a 7 dioptrias mais plana do que
a CCP. Uma LC pode ter várias curvas
secundárias, fazendo com que a zona de
transição seja mais suave e torne a LC
mais confortável. Pode-se verificar a qualidade do blend através do reflexo de um
bulbo fluorescente na borda da LC.
Figura 13.a – LC tricurva – perfil
Fusão das curvas ou Blend – é a zona de
transição entre a CCP e a CPP
CPP.. O blend é a
fusão das diferentes curvas intermediárias
obtida pela remoção do material rígido na
zona de transição. É importante para
promover o conforto e permitir o bom fluxo
de lágrima debaixo da LC.
Figura 13.b – LC tricurva - frontal
22
Capítulo 3
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
3.3.a.3 Curva Periférica Posterior (CPP)
É
construída de forma a permitir uma passagem suave entre
a CIP e a borda da LC, possibilitando uma boa circulação
de lágrimas a cada piscar.
3.3.b Face Anterior ou Frontal da LC
3.3.b.1 Curva Central Anterior (CCA)
É
o raio de curvatura da face anterior
da LC que determina o seu poder
refrativo. Essa superfície, que é convexa, deve
ser opticamente perfeita, porque representa a
superfície anterior da córnea. Irregularidades
sobre a CCA, causadas por depósitos ou arranhões, provocam alterações visuais.
Numa LC de corte simples ela está representada por uma curva contínua única, enquanto numa LC de corte lenticular é composta por
uma porção óptica central, circundada por uma
aba periférica, também denominada carrier (fig.
14a, b e c).
Figura 14 - a - LC desenho simples
b - LC positiva com borda negativa
c- LC negativa com borda positiva
O desenho lenticular permite a redução da
espessura da LC, aumentando o conforto e a
permeabilidade ao O2. A CCA, embora determine o grau final, não tem importância clínica
para a adaptação da LC e é pré-determinada por
outras variáveis: CB, índice de refração e espessura da LC. Essa curva frontal é geralmente
esférica, embora possa ser asférica.
3.3.b.2 Curva Intermediária Anterior (CIA)
É
construída em LC de graus negativos altos ou em LC lenticulares para diminuir a espessura da borda.
3.3.b.3 Curva Periférica Anterior (CPA)
R
epresenta a curva mais periférica da superfície anterior e é utilizada para reduzir a espessura da borda em LC negativas.
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Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
Capítulo 3
3.3.c Outros Parâmetros Importantes
3.3.c.1 Zona Óptica (ZO)
C
orresponde à área central da
LC que se move normalmente
sobre a parte central da córnea. Seu diâmetro, expresso em milímetros, deve
variar de acordo com o diâmetro total da
LC, do diâmetro e forma da pupila, da
centralização e do movimento da LC.
Varia de 7,0 a 8,5 mm em LC rígidas,
podendo chegar a 12,0 mm em LCH.
Uma pupila grande exige uma ZO grande
para evitar reflexos.
O termo refere-se tanto à zona óptica
anterior (ZOA) quanto à zona óptica posterior
(ZOP) e contém o poder refrativo (fig. 15).
Figura 15 – Relação do Ø total da LC com a ZO.
A ZOA, numa LC de corte simples,
corresponde à superfície total da face
anterior. Numa LC de corte lenticular,
corresponde à porção óptica central que
é 2 mm menor do que o Ø total, valor
que representa a aba da LC.
3.3.c.2 Diâmetro (Ø)
É
a largura máxima de uma LC
medida linearmente de borda a
borda, expressa em milímetros. Numa LC
esférica, o Ø deve ser o mesmo em qualquer meridiano em que a medida seja
tomada (fig. 15).
Em LC de PMMA costuma-se utilizar
Ø pequenos, de 7,5 a 8,8 mm, enquanto
nas LC RGP usa-se entre 9,0 e, no máximo, 11 mm. Em LCH, o Ø varia entre 13,0
e 15,0 mm para o adulto, podendo ser tão
pequeno quanto 11,00 mm para o bebê.
O Ø da LC deve respeitar o Ø da córnea e o tamanho da abertura palpebral.
3.3.c.3 Borda
A
borda ou bisel de uma LC é a junção da CPA e CPP.
Deve ser delgada e bem polida porque sua forma e espessura são determinantes no conforto do usuário.
As LC negativas possuem bordas espessas que provocam
desconforto e descentralização. Por esse motivo, deve-se desbastálas na periferia, fazendo um perfil positivo, para torná-las mais
delgadas, ou usar corte lenticular.
Uma grande variedade de contornos de borda são possíveis.
São utilizados especialmente nas LC rígidas para melhorar o posicionamento e evitar que a LC interfira no ritmo normal de piscar do usuário.
As LCH são flexíveis, possuem bordas finas que não tocam nas
bordas palpebrais, sendo por isso mais confortáveis.
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Figura 16 – Tipos de bordas de LC rígida
Capítulo 3
Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
3.3.c.4 Poder Dióptrico ou Grau
É
a característica de uma LC
divergir (LC negativa) ou convergir (LC positiva) à luz. Depende da
CB prescrita, isto é, da CCP e sua relação
com a córnea, da distância ao vértice e do
índice de refração do material.
O grau determina o raio de curvatura da face anterior da LC, sua geometria,
espessura e peso. Como a CB deve ser
trabalhada na face posterior para ser
adaptada à curvatura corneal, a curva
anterior é desenhada de forma a fornecer
o grau solicitado.
As LC de grau positivo são mais
espessas no centro do que na periferia, o
inverso das negativas. O poder dióptrico
é expresso em dioptrias e pode ser medido no lensômetro.
Fórmula para calcular o poder de uma superfície refratora
D=
Para medir a LC no lensômetro
lensômetro,
pode-se colocar a superfície convexa,
ou frontal, voltada para a fonte luminosa e medir o poder do vértice frontal, que é influenciado pela espessura.
n2 - n1
r
D = poder dióptrico
n1 = índice de refração do primeiro meio
n2 = índice de refração do segundo meio
r = raio de curvatura (metros)
3.3.c.5
Entretanto, a forma mais correta
é medir o poder do vértice posterior,
que mede diferentes espessuras sem
necessidade de ajustar o grau. Para
isso, coloca-se a LC com a superfície
côncava voltada para a fonte luminosa e a convexa para o examinador.
Espessura Central
É
a distância da superfície frontal à superfície posterior,
medida no centro geométrico da LC e expressa em centésimos
de milímetros. Depende do grau, da CB, do índice de refração do material
e do Ø final da LC. Quanto menor o Ø total da LC, mais fino é o seu centro e quanto maior, mais espesso. Uma LC de poder positivo terá uma
espessura central significativamente maior do que uma de poder negativo
do mesmo grau (fig. 17).
Os desenhos das LC lenticulares foram desenvolvidos para reduzir a
espessura central sem necessidade de diminuir o Ø.
Figura 17 – Espessura de LC negativa
comparada com LC positiva
do mesmo grau.
Em LC lenticulares, a medida da espessura da aba é feita na junção
da CCA com a CIA. A espessura central influencia diretamente na transmissibilidade do O2, espessura das bordas, estabilidade dos parâmetros,
centragem e conforto da LC.
A espessura da LC, calculada de acordo com o Ø e o grau, é fornecida
pelos fabricantes em forma de tabelas.
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Principais Tipos, Desenhos e Parâmetros das LC
Capítulo 3
Referências Bibliográficas
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