PUBLICAÇÃO QUADRIMESTRAL EDITADA PELO PUBLICATION EDITED EVERY FOUR MONTHS BY Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (C EBES) Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (C EBES) Diretoria Nacional Avenida Brasil, 4036 – sala 802 – Manguinhos 21040-361 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil Tel.: (21) 3882-9140, 3882-9141 Fax.: (21) 3104-7251 E-mail: [email protected] Home page: http://www.ensp.fiocruz.br/parcerias/cebes/cebes.html National Board of Directors Avenida Brasil, 4036 – sala 802 – Manguinhos 21040-361 – Rio de Janeiro – RJ – Brazil Tel: (21) 3882-9140, 3882-9141 Fax.: (21) 3104-7251 E-mail: [email protected] Home-page: http://www.ensp.fiocruz.br/parcerias/cebes/cebes.html DIREÇÃO NACIONAL (GESTÃO 2003-2006) NATIONAL BOARD OF DIRECTORS (YEARS 2003-2006) Presidente 1O Vice-Presidente 2O Vice-Presidente 3O Vice-Presidente 4O Vice-Presidente Sarah Escorel (RJ) José Gomes Temporão (RJ) Carlos Octavio Ocké Reis (RJ) Rita Sório (DF) Jacob Portela (RJ) President 1 st Vice-President 2 nd Vice-President 3 rd Vice-President 4 th Vice-President Sarah Escorel (RJ) José Gomes Temporão (RJ) Carlos Octavio Ocké Reis (RJ) Rita Sório (DF) Jacob Portela (RJ) 1O Suplente 2O Suplente Maria Ceci Misoczky (RS) Carmen Teixeira (BA) 1 st Substitute 2 nd Substitute Maria Ceci Misoczky (RS) Carmen Teixeira (BA) CONSELHO FISCAL Anamaria Testa Tambellini (RJ), Áquilas Nogueira Mendes (SP) & Nelson Rodrigues dos Santos (SP) CONSELHO CONSULTIVO Ary Carvalho de Miranda (RJ), Eduardo Jorge Alves Sobrinho (SP), Gastão Wagner de Souza Campos (SP), Gilson Cantarino O‘Dwyer (RJ), Gilson de Cássia M. de Carvalho (SP), Hésio de Albuquerque Cordeiro (RJ), Jairnilson da Silva Paim (BA), Jorge Antônio Zepeda Bermudez (RJ), José Carvalho de Noronha (RJ), José Ruben de Alcântara Bonfim (SP), José da Rocha Carvalheiro (SP) Roberto Passos Nogueira (DF), Sebastião Loureiro (BA), Sonia Maria Fleury Teixeira (RJ), Volnei Garrafa (DF) CONSELHO EDITORIAL FISCAL COUNCIL Anamaria Testa Tambellini (RJ), Áquilas Nogueira Mendes (SP) & Nelson Rodrigues dos Santos (SP) ADVISORY COUNCIL Ary Carvalho de Miranda (RJ), Eduardo Jorge Alves Sobrinho (SP), Gastão Wagner de Souza Campos (SP), Gilson Cantarino O‘Dwyer (RJ), Gilson de Cássia M. de Carvalho (SP), Hésio de Albuquerque Cordeiro (RJ), Jairnilson da Silva Paim (BA), Jorge Antônio Zepeda Bermudez (RJ), José Carvalho de Noronha (RJ), José Ruben de Alcântara Bonfim (SP), José da Rocha Carvalheiro (SP) Roberto Passos Nogueira (DF), Sebastião Loureiro (BA), Sonia Maria Fleury Teixeira (RJ), Volnei Garrafa (DF) PUBLISHING COUNCIL Coordenador: Emerson Elias Merhy (SP) Coordinator: Emerson Elias Merhy (SP) Ana Maria Malik (SP), Carlos Botazzo (SP), Célia Maria de Almeida (RJ), Francisco Antonio de Castro Lacaz (SP), José Augusto Cabral de Barros (PE), Lia Giraldo da Silva Augusto (PE), Lígia Bahia (RJ), Lígia Giovanella (RJ), Luis Cordoni Júnior (PR), Luiz Augusto Facchini (RS), Luís Carlos de Oliveira Cecílio (SP), Maria Cecília de Souza Minayo (RJ), Naomar de Almeida Filho (BA), Nilson do Rosário Costa (RJ), Paulo Duarte de Carvalho Amarante (RJ) Ana Maria Malik (SP), Carlos Botazzo (SP), Célia Maria de Almeida (RJ), Francisco Antonio de Castro Lacaz (SP), José Augusto Cabral de Barros (PE), Lia Giraldo da Silva Augusto (PE), Lígia Bahia (RJ), Lígia Giovanella (RJ), Luis Cordoni Júnior (PR), Luiz Augusto Facchini (RS), Luís Carlos de Oliveira Cecílio (SP), Maria Cecília de Souza Minayo (RJ), Naomar de Almeida Filho (BA), Nilson do Rosário Costa (RJ), Paulo Duarte de Carvalho Amarante (RJ) SECRETARIA EXECUTIVA Ana Cláudia Gomes Guedes & Renata Machado da Silveira EDITOR Emerson Elias Merhy EDITORA EXECUTIVA Ana Cláudia Gomes Guedes INDEXAÇÃO EXECUTIVE SECRETARIES Ana Cláudia Gomes Guedes & Renata Machado da Silveira PUBLISHER Emerson Elias Merhy EXECUTIVE PUBLISHER Ana Cláudia Gomes Guedes INDEXATION Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) Os artigos sobre História da Saúde estão indexados pela Base HISA – Base Bibliográfica em História da Saúde Pública na América Latina e Caribe The articles about Health History are indexed according to the HISA Base – Base Bibliográfica em História da Saúde Pública na América Latina e Caribe (Bibliographic Base on History in Latin America and the Caribbean) Apoio A Revista Saúde em Debate é associada à Associação Brasileira de Editores Científicos REVISÃO DE TEXTO Maria Fernanda Magro Dionysio – português e revisão tipográfica, Sonia Regina P. Cardoso – português e revisão tipográfica, Nívea Segretto – português e revisão tipográfica & Juliana Monteiro Samel – inglês CAPA, DIAGRAMAÇÃO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Adriana Carvalho & Carlos Fernando Reis da Costa PROOFREADING Maria Fernanda Magro Dionysio – portuguese & proofreading, Sonia Regina P. Cardoso – portuguese & proofreading, Nívea Segretto - portuguese & proofreading & Juliana Monteiro Samel – english COVER, LAYOUT AND DESK TOP PUBLISHING Adriana Carvalho & Carlos Fernando Reis da Costa IMPRESSÃO E ACABAMENTO PRINT AND FINISH TIRAGEM NUMBER OF COPIES 3.000 exemplares 3,000 copies Esta revista foi impressa no Rio de Janeiro em março de 2004. This publication was printed in Rio de Janeiro on march, 2004. Capa em papel couche 180 gr Cover in couche paper 180 gr Miolo em papel off set 75 gr Core in off set paper 75 gr Saúde em Debate, Revista do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, CEBES – v.1 (out./nov./dez. 1976) – São Paulo: Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, CEBES, 2003. v. 27; n. 65; 27 cm Quadrimestral ISSN 0103-1104 1. Saúde Pública, Periódico. I. Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, CEBES CDD 362.1 Rio de Janeiro v. 27 n. 65 set./dez. 2003 ÓRGÃO OFICIAL DO CEBES Centro Brasileiro de Estudos de Saúde ISSN 0103-1104 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 182-183, set./dez. 2003 179 SUMÁRIO / SUMMARY EDITORIAL / EDITORIAL 182 ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES A saúde é um direito ! Health is a right ! Carlos Emmanuel F. Bartolomei, Mariana S. de Carvalho & Maria Célia Delduque 184 Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) Health Promotion and Different Sectors: contributions and limitations of Worker Health surveillance within the Unified Health System (SUS) Marcelo Firpo de S. Porto, Francisco A. de C. Lacaz & Jorge Mesquita H. Machado 192 As três esferas de governo e a construção do SUS: uma revisão The three spheres of government and the building of SUS: a revision Celia Almeida 207 Descentralização e accontability em uma Região de Saúde Decentralization and accountability in a Health District Juliano de Carvalho Lima 221 Necessidades, demanda e oferta: algumas contribuições sobre os sentidos, significados e valores na construção da integralidade na reforma do Setor Saúde Needs, demand and offer: a few contributions on the meaning, sense and value in the construction of integrality within the Health Sector reform José Paulo V. da Silva, Roseni Pinheiro & Felipe Rangel de S. Machado 234 Avaliação das características organizacionais dos serviços de Atenção Básica em Petrópolis: teste de uma metodologia Evaluation of the Primary Care services organization in Petrópolis: a methodological test James Macinko, Célia Almeida & Eliane Oliveira 243 A mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços The change in the model of health care in SUS: untying knots and creating links Carmen Fontes Teixeira 257 180 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 182-183, set./dez. 2003 Porta de entrada pela Atenção Básica? Integração do PSF à rede de serviços de saúde Entrance through Basic Care? Integration of the Family Health Program to the network of health services Lígia Giovanella, Sarah Escorel & Maria Helena Mendonça 278 Educação permanente de profissionais em saúde mental: competências para o trabalho interdisciplinar Permanent education of mental health professionals: competencies for interdisciplinary work João Paulo Lyra da Silva & Cláudia Mara de M. Tavares 290 Trabalho em Saúde: quem implementa o Sistema Único de Saúde no hospital universitário conhece sua filosofia? Work in Health: do those who make the Unified Health System work in the university hospital know its philosophy? Islândia M. C. de Sousa, Adriana F.B. Bezerra & Ana Paula de O. Marques 302 Recursos Humanos em Saúde: reflexões sobre o cotidiano do SUS que temos e as possibilidades do SUS que queremos Humans Resources in Health: reflections about everyday life in the SUS we have and the possibilities in the SUS we want Denise R. Bourguignon, Geruza R. P. Tavares, Liliana Graça Santana, Marta Z. e Silva, Rita de Cássia D. Lima & Scheila S. Rasch 310 Por uma Composição Técnica do Trabalho em Saúde centrada no campo relacional e nas tecnologias leves. Apontando mudanças para os modelos tecnoassistenciais For a Technical Composition of Health Work Based on the Relationship Field and Light Technology. Pointing to Changes in the Technical-Assistance Models Emerson Elias Merhy & Túlio B. Franco 316 O processo de construção do controle social no Sistema Único de Saúde e a gestão nos espaços institucionais The building process of social control in the Brazilian Unified Health System and administration in institutional areas Marluce Maria Araújo Assis 324 Gestão participativa em saúde: potencialidades e desafios para o aprofundamento da democracia Participative management in health: potentialities and challenges for deepening democracy Maria Ceci Misoczky 336 DOCUMENTOS / DOCUMENTS Controle Social: de quem? Para o quê? Social control: of who? For what? Soraia Dornelles & Maria Teresa Locks 348 Controle Social na Saúde: construindo a Gestão Participativa Social Control in Health: building a Participative Administration Ana Maria Costa & José Carvalho de Noronha 358 A participação popular na vigilância sanitária para a garantia do direito à saúde Popular participation in health surveillance as a guarantee of the enforcement of the right to health Sueli Gandolfi Dallari 364 Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro Equity in the distribution of financial resources: an alternative for the Brazilizn case Silvia M. Porto, Francisco Viacava, Célia Landmann Szwarcwald, Mônica Martins, Claudia Travassos, Solon Magalhães Vianna, Sérgio Piola, Maria Alicia Ugá & Cid Manso Vianna 376 Os (Des) caminhos do financiamento do SUS The Sinuous ways of SUS financing Áquilas Nogueira Mendes e Rosa Maria Marques Transgênicos: decisões açodadas envolvendo uma questão de perigo que exige maior segurança Transgenic: diligent decisions involving a matter of danger that requires greater security 429 Carta Aberta ao Presidente Luis Inácio Lula da Silva Open Letter to President Luis Inácio Lula da Silva 431 1ª Conferência Nacional de Medicamentos e Assistência Farmacêutica: um olhar sobre os acontecimentos 1 st National Conference of Medications and Pharmaceutical Assistance: an eye on the news 433 Convocatória do IX Congresso da Associação Latino-americana de Medicina Social (ALAMES) Call for the 9 th Latin-American Association Social Medicine (A LAMES) Congress 437 389 O SUS que temos e a informação como estratégica de (in)visibilidade The SUS we have and information as strategy of (in)visibility Fábio L. Tavares, Mariana R. Laignier, Raphaella F. Daros, Marta Zorzal da Silva e Rita de C.D Lima 405 ARTIGOS DE OPINIÃO / OPINION ARTICLES Seguridade Social: a agenda pendente Social Security: incomplete agenda Sonia Fleury 414 O Financiamento do SUS SUS Financing Elias Jorge 425 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 182-183, set./dez. 2003 181 EDITORIAL E ste número da revista Saúde em Debate foi elaboa A posição política do Centro Brasileiro de Estudos rado especialmente para a 12 Conferência Nacio- de Saúde (CEBES) será apresentada, em conjunto com a nal de Saúde Sergio Arouca. Agradecemos a todos os Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Cole- que responderam à nossa convocatória para o envio de tiva (ABRASCO ), no documento “Saúde, justiça e inclusão artigos relacionados com os dez eixos temáticos da Con- social”, a ser distribuído aos delegados. ferência. Recebemos um número muito maior do que foi Apresentamos neste número, sob a denominação de possível publicar, mas fizemos um esforço para não ‘des- Carta em Defesa da Saúde do Povo Brasileiro, o docu- perdiçar’ qualquer contribuição. Por isso, a revista está mento elaborado na reunião de 13 de setembro de 2002 com um número de páginas muito maior do que o habi- – em pleno processo eleitoral para presidente da Repú- tual e com mais do dobro de artigos. Os textos envia- blica, governadores, parlamentares federais e estaduais. dos, para os quais os pareceristas sugeriram modifica- Avaliamos que, mesmo tendo sido publicada na Saúde ções, impossíveis de serem realizadas no curto tempo em Debate 62, contém considerações e propostas atinen- disponível, serão publicados nos próximos números de tes a quase todos os eixos temáticos da 12 a Conferência. nossa Saúde em Debate. Julgamos que o texto continua representando nosso ideá- Com a nova metodologia da Conferência, para esta a rio a ser conquistado, nossa ‘utopia’ a ser alcançada. 12 edição, não foram encomendados textos que sub- Essas são as nossas contribuições no sentido de sem- sidiassem o debate. Desta vez os delegados terão o Con- pre produzir e divulgar conhecimento e intervir politica- solidado dos Relatórios Finais das Conferências Estadu- mente na defesa da Saúde como um direito de cidada- ais de Saúde como documento de base para suas delibe- nia e como um bem comum. Mas, é preciso um salto de rações. Assim, este número de Saúde em Debate pode ser qualidade na forma como a saúde é distribuída e usu- a considerado, ao nosso ver, como os ‘Cadernos da 12 ’. Nem todos os eixos temáticos foram abordados pelos autores e sobre alguns temas há mais artigos fruída em nosso país. É preciso fazer chegar o ideário da Reforma Sanitária ao cidadão no seu dia-a-dia. Essa é, ao nosso ver, a nossa tarefa e a tarefa do governo. do que sobre outros. Isso permite analisar a relação entre a produção de conhecimento, as necessidades da população e as demandas da gestão em suas respostas ao tema central “A saúde que temos, o SUS que queremos”. Tempos diferentes de elaboração e de respostas é a confluência, que confere a característica central do Movimento da Reforma Sanitária: a convergência das práticas política, científica e ideológica para a transformação das condições de saúde e de atenção à saúde da população brasileira. 182 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 182-183, set./dez. 2003 A Diretoria Nacional EDITORIAL T his issue of Saúde em Debate was specially The political position of the Health studies Brazilian th prepared for the 12 Sergio Arouca National Center (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde – CEBES) Health Conference. We thank all who have answered shall be presented, along with that of the Brazilian our call to send articles related to the Conference’s ten Association of Post-graduation in Collective Health theme axles. We have received a much greater number (Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde than what it was possible to publish and we have Coletiva – ABRASCO) in the document “health, justice and made every effort to avoid ‘wasting’ any social inclusion” to be distributed to delegates. contributions. Therefore, the magazine has many more We present in this issue, under the denomination of pages than the usual, with double the number of Letter in Defense to the Health of the Brazilian People, articles. Texts forwarded to which modifications were the document prepared in the meeting held on 13 th suggested by the revisers, impossible to be carried out September 2002 – during the voting process to choose under the short available time, shall be published in the President of the Republic, governors, federal and the next issues of our Saúde em Debate. With the new Conference methodology, for this 12 state deputies. We have evaluated that, even if th published in Saúde em Debate 62, it contains issue, no texts subsidizing the debate were requested. considerations and proposals pertinent to almost all This time the delegates shall have the Health State them axles of the 12th Conference. We therefore, think Conferences Final Reports consolidated as the base that the text remains representative of our ideals to be document for their deliberations. Thus, this issue of conquered, our ‘utopia’ to be reached. Saúde em Debate may be considered, in our point of th view, as the ‘12 ’s Books’. Not all theme axles were discussed by the authors These are our contributions in order to always produce and disclose knowledge and politically intervention in defense of Health as a citizenship right and regarding some themes there are more articles and as a common asset. But it is necessary a then others. This allows the analysis of the considerable quality improvement in the way how relationship between the product of knowledge, health is distributed and enjoyed in our country. It is population’s needs and the management demand in necessary to make the ideal Sanitary reform reach the the response to the central theme - “The health we citizen in his/her day-to-day routine. This is, in our have, the Unified Health System we have”, different view, our task and the task of the government. times for the preparation and the responses is the confluence that grants the central characteristic of the The National Board Sanitary reform movement: the convergence of political, scientific and ideological practices in order to transform health conditions and attention to the health of the Brazilian population. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 182-183, set./dez. 2003 183 BARTOLOMEI, Carlos Emmanuel Fontes; CARVALHO, Mariana Siqueira de & DELDUQUE, Maria Célia ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES A Saúde é um Direito! Health is a Right! Carlos Emmanuel Fontes Bartolomei1 Mariana Siqueira de Carvalho2 Maria Célia Delduque3 Consultor BIREME/OPAS /OMS, editor executivo da revista de direito sanitário Journal of Health Law do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário e Núcleo de Pesquisas de Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (USP), bacharel em Direito, pós-graduando da USP Rua Ministro Sinésio Rocha, 198 – Sumaré CEP 05030-000 – São Paulo – SP e-mail: [email protected] 1 Oficial de Chancelaria, técnica de Cooperação Técnica Recebida Multilateral (CTRM), Agência Brasileira de Cooperação (ABC), do Ministério das Relações Exteriores (MRE), bacharel em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), especialista em Direito Sanitário pela Universidade de São Paulo (USP), mestranda em Direito Público pela Universidade de Brasília SQS 315 – Bl. G – Ap. 302 CEP: 70384-070 – Brasília – DF e-mail: [email protected] 2 Advogada do Núcleo de Direito Sanitário da Diretoria (DIREB) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) em Brasília, especialista em Direito Sanitário pela Universidade de São Paulo (USP), mestranda em Gestão e Planejamento em Meio Ambiente na Universidade Católica de Brasília SHIS QI –03 Conjunto 5 Casa 9 CEP: 71605-250 – Brasília – DF e-mail: [email protected] 3 RESUMO Traça-se uma retrospectiva dos direitos fundamentais até o direito à saúde, trazendo a visão de como os direitos fundamentais estão dispostos na Constituição Federal de 1988, como os direitos sociais fazem parte deste rol e como o direito à saúde é tratado pelo ordenamento jurídico nacional. Salienta-se a necessidade de implementação do direito à saúde pela vontade política para realizar políticas públicas. DESCRITORES: Direito à Saúde; Direito Sanitário; Legislação Sanitária. ABSTRACT This article aims present a retrospective of fundamental rights up until the right to health, bringing forward the view of how fundamental rights are approached in the 1988 Brazilian Constitution, how social rights integrate them and how the right to health is regarded by the National Law. The need to implement the right to health through political will to realize public policies is reinforced. DESCRIPTORS: Right to Health; Health Law; Legislation Health. 184 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 A Saúde é um Direito! O DIREITO À SAÚDE COMO DIREITO FUNDAMENTAL mos citar o Petition of Rights (Peti- do Homem e do Cidadão, de 1789, ção de Direitos) de 1668, Ata de decorrente da Revolução Francesa Habeas Corpus de 1679 e Bill of protegiam os direitos em uma acep- A idéia de direito humano sem- Rights (Declaração de Direitos) de ção individualista, isto é, a função pre esteve presente nas sociedades, 1689. Embora a concessão dos di- do Estado restringia-se apenas a seja por razões religiosas ou filosó- reitos assegurados nessas declara- proteger a propriedade e a seguran- ficas. Portanto, faz-se necessário co- ções ficasse condicionada à vonta- ça dos indivíduos, e as relações nhecer a evolução da idéia de direito de do soberano, é indiscutível que sociais e econômicas desenvolviam- humano e de direito fundamental houve um avanço, que fará das re- se sem a interferência estatal. Foi para que se possa compreender a voluções liberais do século XVIII o a fase da consagração dos direi- moderna noção do Direito à Saúde. marco inicial da fase das reivindi- tos de liberdade. O primeiro documento estatal a cações dos direitos humanos dos No entanto, não era suficiente proteger os direitos fundamentais é oprimidos contra os opressores e da apenas garantir a liberdade formal espanhol, concedido pelo rei Afonso dos indivíduos, precisava-se avan- IX, nas cortes de Leão, em 1188, çar mais. Com a revolução indus- que, já na época, protegia os bens trial iniciada em meados do século dos súditos, tais como a vida, a XIX ficou evidente a necessidade de honra e a propriedade. Contudo, o AO LADO DOS DIREITOS mais famoso texto é da Idade Mé- INDIVIDUAIS JÁ GARANTIDOS derivados das reclamações resultantes dos problemas sociais e econô- garantia aos direitos fundamentais, PELO E STADO LIBERAL, micos surgidos com a industriali- a Magna Carta de João-Sem-Terra SURGE UM NOVO ELENCO zação. Assim, ao lado dos direitos (Magna Charta Libertatum), elabo- DE DIREITOS , OS DIREITOS SOCIAIS individuais já garantidos pelo Esta- dia, esboçando as linhas iniciais de rada no ano de 1215, na Inglaterra. reconhecer certos direitos sociais Muito embora os direitos não fossem do Liberal, surge um novo elenco de direitos, os direitos sociais. assegurados a todos os súditos, ape- Após a Segunda Guerra Mundial, nas às classes privilegiadas, pro- quando o mundo inteiro ficou estar- prietárias de terras e capazes de ler constitucionalização dos direitos recido com as atrocidades sofridas em latim, o texto restringia o poder fundamentais. Assim, os ex-colonos durante o conflito, começou-se a do monarca e apresentava as primei- ingleses que viviam na América edi- questionar as condições humanas e ras chamas de garantia de direitos. taram suas declarações de direito a necessidade de garantia efetiva dos A partir de então e antes do libe- e, do mesmo modo, os burgueses direitos humanos. Os Estados viram- ralismo, começaram a surgir nume- franceses, ao tomarem o poder po- se obrigados a dar sentido concreto rosas declarações visando garantir lítico dos nobres, aprovaram sua aos direitos sociais. Tal movimento aos súditos determinados direitos, declaração. A Declaração de Direi- iniciou-se com a própria Organiza- como a liberdade de expressão e a tos da Virgínia, de 1776, decorren- ção das Nações Unidas (ONU), que liberdade política. Como exemplos te da Revolução Americana, e a elaborou a Declaração Universal dos ingleses desses documentos pode- Declaração Universal dos Direitos Direitos Humanos (DUDH) em 1948, 1 1 O texto da Magna Charta Libertatum era escrito em latim, sendo traduzido para o inglês somente no século XVI. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 185 BARTOLOMEI, Carlos Emmanuel Fontes; CARVALHO, Mariana Siqueira de & DELDUQUE, Maria Célia “fonte mais importante das moder- berdades; os direitos sociais, de se- ra geração, pois tanto diz respeito à nas constituições” (S ÜSSEKIND, 1986 gunda geração, consistem em pode- individualidade como à coletividade, p.21) estabelecendo um vasto cam- res, que se realizam por intermédio em uma idéia de direito difuso. po de dispositivos referentes aos di- da imposição de obrigações a ou- A Constituição Federal do Brasil reitos sociais, em especial à saú- tros, incluído o poder público, e os erigiu a dignidade da pessoa huma- de, a saber: de terceira geração são os direitos na a um princípio fundamental. Este individuais e coletivos inexistindo é o núcleo informador do ordena- determinação de seus titulares. mento jurídico brasileiro e o crité- Schwartz (2003. p.118) particulari- rio de valoração a orientar a inter- za esta idéia com a saúde, esclare- pretação e compreensão do sistema cendo que esta é um direito de pri- instaurado em 1988. Ou seja: Art. XXV – Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bemestar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. meira geração, caracterizado pela titularidade individual e pela possibi- A partir desses documentos, os AS NORMAS SOBRE ordenamentos jurídicos de cada país tenderam a garantir internamente os DIREITOS FUNDAMENTAIS direitos fundamentais (sem perder de CONCRETIZAM-SE POR vista a necessidade conjunta de in- INTERMÉDIO DO AGIR POLÍTICO , ternacionalização), sob uma perspectiva de generalização (extensão SOBRETUDO EM SUA da titularidade desses direitos a to- DIMENSÃO SOCIAL dos os indivíduos). Fruto desse pro- A dignidade humana e os direitos fundamentais vêm constituir os princípios constitucionais que incorporam as exigências de justiça e dos valores éticos, conferindo suporte axiológico a todo sistema jurídico brasileiro. (B ARROS, 1996. p.141) No entanto, para a realização do direito à saúde e demais direitos fundamentais não é suficiente que os mesmos estejam consagrados na Constituição; eles precisam ser vividos indivíduo a indivíduo na sociedade e estará tanto mais cumpri- cesso, a Constituição brasileira de do quanto mais os indicadores so- 1988 é um marco no que tange à ciais refletirem condições ideais de garantia dos direitos fundamentais. lidade de ser oposto à vontade do vida para todos. Assim, as normas Em seu Título II – Dos Direitos e Estado e que por isso se torna um sobre direitos fundamentais concre- Garantias Fundamentais, o texto direito irrenunciável, indisponível e tizam-se por intermédio do agir po- constitucional desfia um rol desses inalienável. Esclarece também que a lítico, sobretudo em sua dimensão direitos, que vão desde os direitos saúde é um direito de segunda gera- social. É fácil perceber que a efeti- fundamentais de primeira geração, ção porque está ligada a um pensa- vação desses direitos torna-se uma passando pelos de segunda geração mento preventivo e que, portanto, questão de operação sistêmica de até os de terceira geração.2 constitui uma vinculação direta e uma política de direitos fundamen- Bobbio (1992. p.21) assevera que orgânica aos poderes instituídos. tais e que se de um lado está o di- os ditos direitos fundamentais, de Aduz ainda o autor que a saúde é reito à saúde, constitucionalmente primeira geração, consistem em li- compreendida como direito de tercei- estabelecido, do outro está o dever 2 Classificação segundo a Teoria da Geração de Direitos, extraída dos ensinamentos de Norberto Bobbio. 186 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 A Saúde é um Direito! do Estado em garantir o gozo desse esse tema: Direito à Saúde, Direito direito à população, por intermédio da Saúde e Direito Sanitário. E, por fim, o direito sanitário, conceituado como o estudo interdis- da adoção de políticas públicas que O direito à saúde pode ser con- ciplinar que permite aproximar co- têm como instrumentos de realiza- ceituado como o valor ideal da ex- nhecimentos jurídicos e sanitários. ção o arcabouço legal, a execução periência humana, tanto na dimen- Em outras palavras, é a disciplina de ações e a eleição de prioridades. são individual como na coletiva, que estuda o conjunto de normas erigido a preceito constitucional. jurídicas que estabelecem direitos e ACEPÇÕES DOS TERMOS ‘DIREITO’ E ‘SAÚDE’ Já o direito da saúde é conceitua- obrigações em matéria de saúde. do como o conjunto de normas jurí- É no escopo do direito da saúde dicas que regulam as atividades que está o tratamento jurídico do Tem o Estado a missão de asse- sanitárias estatais e definem os mei- tema em toda a sua complexidade gurar a dignidade da pessoa huma- os de que o Estado dispõe para con- de planos constitucional, legal, ad- na, por meio da concretização da cretizar esse direito, desde a defini- ministrativo, regulatório, civil, pe- igualdade em situações reais. As- nal e internacional. É a legislação sim, no que se refere à saúde, di- em saúde, muito embora este ter- reito humano e fundamental, deixa mo tenha um sentido estreito que não alberga a acepção jurídica em protagonista de prestações positi- A C ONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DO B RASIL ADOTOU O ENTENDIMENTO vas que são implementadas medi- DE QUE SAÚDE É UM DIREITO ADVINDO a interpretação da literatura dou- ante políticas e ações estatais. A Or- DA CONDIÇÃO DE PESSOA HUMANA, trinária nem a sucessão convergente (OMS), em 1946, quando do preâm- INDEPENDENTEMENTE DE QUAISQUER ou de resoluções administrativas bulo de sua Constituição procla- OUTRAS CONDIÇÕES de ser mero garantidor de direitos e liberdades individuais para ser ganização Mundial da Saúde toda a sua amplitude, como as fontes do direito, os usos e costumes, e coincidente de decisões judiciais (jurisprudência). mou que “saúde é o completo bem- FUNDAMENTOS DO SISTEMA DE SAÚDE BRASILEIRO estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou outros agravos”, ofereceu a matriz ção dos aspectos organizacionais e embrionária ao ordenamento jurí- operacionais do sistema de saúde, Como dito, a Constituição da Re- dico constitucional da atualidade, o estabelecimento da forma e dos cri- pública do Brasil adotou o entendi- que acolheu o conceito sob dupla térios a serem observados na formu- mento de que saúde é um direito perspectiva: a individual, de busca lação e implementação das políticas advindo da condição de pessoa hu- de ausência de moléstia e a coleti- de saúde até as normas específicas mana, independentemente de quais- va, de promoção da saúde em co- aplicáveis a bens e serviços de inte- quer outras condições, redundando munidade. Essa confluência das resse à saúde. É o sistema de nor- na afirmação de acesso universal e duas dimensões, individual e cole- mas jurídicas que disciplinam as igualitário às ações e serviços de tiva, do direito à saúde é que per- situações que têm a saúde por obje- saúde. O modelo de saúde adotado mite estabelecer algum critério na to e regulam a organização e o fun- pela ordem jurídica brasileira trou- diferenciação das expressões geral- cionamento das instituições destina- xe um enfoque das ações de saúde mente utilizadas para se referir a das à promoção e defesa da saúde. pública, não mais com ações pre- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 187 BARTOLOMEI, Carlos Emmanuel Fontes; CARVALHO, Mariana Siqueira de & DELDUQUE, Maria Célia dominantemente curativas, mas com p. 101). O federalismo, como ex- (BERCOVICI, 2002). Este tipo de repar- ações preventivas e a idéia de que pressão de Direito Constitucional, tição é chamada de competência as doenças não têm apenas causas baseia-se na união de coletividades concorrente e está prevista no arti- biológicas, mas também causas políticas autônomas que são: go 24 da Constituição de 1988. Já sociais: alimentação, moradia, União, Estados Federados, Distrito no artigo 23, nas chamadas compe- saneamento básico, meio ambiente, Federal e Municípios. tências comuns, se revela a coope- trabalho, renda, educação, transpor- A Carta Magna descreve, expres- ração. Nesta, a decisão é de todos, te, lazer e acesso a bens e serviços samente, as competências de cada mas a execução se realiza em se- essenciais. Além disso, o texto cons- esfera de poder público. “Esta dis- parado, muito embora possa haver, titucional reconheceu a essência co- tribuição constitucional de poderes no que se refere ao financiamento letiva do direito à saúde, condicio- é o ponto nuclear do Estado Fede- das políticas públicas, uma atua- nando sua garantia à execução de ral” (SILVA, 1995. p. 454). No federa- ção conjunta. O Brasil é um exem- políticas públicas: lismo, as competências são distri- plo de federação em que a cooperação é obrigatória. Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. No que se refere às competências em matéria de saúde, observase, que “a CF/88 não isentou qual- Mas, enquanto o legislador cons- O TEXTO CONSTITUCIONAL quer ente federativo da obrigação de RECONHECEU A de”. (D ALLARI, 1995. p. 42). A atuação ESSÊNCIA COLETIVA tituinte não almejou construir um DO DIREITO À SAÚDE Estado de modelo neoliberal – e para proteger, defender e cuidar da saúconjunta e coordenada entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios é uma imposição constitucio- averiguar esta afirmativa basta a nal. Portanto, a saúde – “dever do leitura dos artigos 1° a 4° da Consti- Estado” (artigo 196) – é responsabi- tuição – o Poder Executivo apoiado lidade constitucional de todos. pelo Legislativo tem caminhado na direção contrária, mediante a trans- buídas, necessariamente entre os ferência da prestação dos serviços entes públicos e podem se dar de públicos para a iniciativa privada.3 maneira coordenada ou cooperada. O SUS COMO INSTRUMENTO PARA A APLICAÇÃO DAS NORMAS SANITÁRIAS Assim, no federalismo cooperativo Como já exposto, a implementa- os resultados buscados são comuns ção do direito à saúde vincula-se e do interesse de todos. A decisão intrinsecamente a elaboração e rea- “O Brasil é uma República Fede- tomada em escala federal é adapta- lização de políticas públicas. Para rativa, isto é, optou pela Federação da e executada de modo autônomo tanto, a Constituição previu instru- como forma de organização polí- pelo ente federado, adequando-a às mentos realizadores ou garantido- tico-administrativa” (S ILVA , 1995. suas peculiaridades e necessidades res dessa implementação. O Siste- COMPETÊNCIA EM MATÉRIA DE SAÚDE Ver o “Plano Diretor da Reforma do Estado”, documento emanado pela Presidência da República em novembro de 1995, proposto pelo então ministro da Administração Federal e Reforma do Estado, sr. Luiz Carlos Bresser Pereira. 3 188 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 A Saúde é um Direito! ma Único de Saúde (SUS) é o mais importante deles. O SUS tem as suas principais atribuições previstas no art. 200, PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE NA APLICAÇÃO DAS NORMAS SANITÁRIAS – O CONTROLE SOCIAL A criação constitucional do SUS da CF/88, que vão desde “controlar é uma vitória dos movimentos so- e fiscalizar procedimentos, produ- ciais de apoio à Reforma Sanitária, tos e substâncias de interesse para A pressão dos movimentos soci- que acabaram sensibilizando um a saúde” (inciso I) até “colaborar ais sanitários realizada no momen- grupo de parlamentares membros na proteção do meio ambiente, nele to da Constituinte ensejou a intro- da Assembléia Nacional Constituin- compreendido o do trabalho” (inci- dução de novos instrumentos de par- te com a demonstração pungente da so VIII). “As suas atribuições têm ticipação social na formulação, exe- inadequação do sistema de saúde como objetivo a promoção (elimi- cução e fiscalização das políticas então vigente, que não conseguia nar ou controlar as causas das do- públicas, em especial no que tange enfrentar problemas sanitários como: quadro de doenças de todos enças e dos agravos), proteção (prevenir riscos e exposições a doen- os tipos, baixa cobertura assisten- tos públicos etc., conforme Westphal & Almeida (2001). A partir dessa pressão social, a Constituição Federal de 1988 pre- dade’ como diretriz do SUS. A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988, APOIANDO-SE A Lei 8.080/90 reafirmou a participação da comunidade no SUS, NESTES IDEAIS DE DEMOCRATIZAÇÃO DOS ESPAÇOS DECISÓRIOS, CONSAGROU viços de saúde em um sistema úni- A PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE ta a possibilidade de os entes pú- ando-se nestes ideais de democratisagrou a ‘participação da comuni- viu a estruturação das ações e serco, o SUS. A idéia de unidade afas- a Constituição Federal de 1988, apoização dos espaços decisórios, con- cial da população, ausência de critérios e de transparência dos gas- ao setor saúde. Em seu artigo 198, COMO DIRETRIZ DO SUS porém, teve seu artigo 11, que regulamentava esta participação, vetado pelo então Presidente da República Fernando Collor. O dispositivo estava inserido no capítulo “Da Organização, da Direção e da Gestão”, blicos componentes do SUS cons- e o seu veto demonstrou a enorme tituírem sistemas autônomos ou dificuldade que existia (e ainda existe) para a implementação das con- subsistemas de saúde. Aliás, a própria referência constitucional a um ças) e recuperação (atuar sobre o sistema de saúde já traz de ime- dano já existente) da saúde” (WESTPHAL; diato a idéia de ordenação e uni- A LMEIDA , 2001. p. 36). Para alcan- dade, ou seja, “um conjunto de co- çar essas metas, o SUS, por meio nhecimentos ordenados segundo de sua direção em cada esfera go- princípios que devem ser seguidos vernamental (Secretários de Saúde, de forma unívoca pelas três esfe- Estaduais e Municipais, e Ministro ras de governo” (CANARIS, 1996. p. 9). da Saúde), deverá promover as po- Para Afonso (1994. p. 360), o úni- líticas públicas necessárias, com co programa setorial de descentra- determinada autonomia, até para lização que relativamente prospe- destinar recursos para programas rou foi o da saúde. de saúde específicos. quistas da Reforma Sanitária já consagradas na Magna Carta. A Lei 8.142/90 retomou quase literalmente o dispositivo vetado, regulamentando assim a participação da comunidade no SUS. Em seu artigo 1º, estabelece que cada esfera do governo deve contar com a Conferência de Saúde e o Conselho de Saúde como instâncias colegiadas de participação social. Tem-se, assim, a tentativa de desdobramento inicial da previsão cons- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 189 BARTOLOMEI, Carlos Emmanuel Fontes; CARVALHO, Mariana Siqueira de & DELDUQUE, Maria Célia titucional de construção de esferas rágrafo 2º, da Lei 8.142/90, e po- sibilitam a participação sistemáti- de participação social, com o obje- dem ser divididas em dois grandes ca de milhares de pessoas no deba- tivo de efetivar o princípio da de- campos: a área de planejamento e te e na busca de soluções para os mocracia participativa no âmbito controle, cujo tema principal é o do problemas de saúde. da saúde. A Constituição Federal de financiamento; e a área de articula- 1988, de forma tímida, porém con- ção com a sociedade, com a atribui- creta e incontestável, contempla tal ção de organizar as conferências de princípio, ao dispor que “Todo po- saúde, examinar denúncias e pro- der emana do povo, que o exerce postas populares, e também estimu- por meio de representantes eleitos lar a participação comunitária no ou diretamente, nos termos desta controle da administração do SUS Constituição” (art. 1º, § único), além (Resolução 33/92, do Conselho Na- de prever, em outros dispositivos, cional de Saúde – CNS). As atribui- É possível que hoje o número de conselheiros de saúde, entre os quais os usuários são maioria, já se aproxime, talvez ultrapasse, o número de vereadores, o que configura uma situação inédita não só no setor saúde, mas no conjunto das políticas públicas. (C ARVALHO, 1995. p. 30-31) a participação social na implemen- Dessa forma, os conselhos de tação de políticas públicas no que saúde são importante instrumento tange não só à saúde, mas à assis- para a efetivação do SUS e para a A SAÚDE É DIREITO FUNDAMENTAL , INDIVIDUAL E COLETIVO, E NÃO MERA garantia do direito à saúde a todos. CONCESSÃO DO PODER ESTATAL saúde direta ou indiretamente, exi- tência social, à criança e do adolescente, ao processo de organização das cidades, etc. Percebe-se, portanto, que “a Constituição foi capaz de incorporar novos elementos culturais, surgidos na sociedade, na institucionalidade OU PALAVRAS BONITAS emergente, abrindo espaço para a ESCRITAS NA C ONSTITUIÇÃO prática da democracia participativa” Por meio de suas atribuições e poderes, esses órgãos podem intervir nas políticas estatais referentes à gindo que o Estado atue quando omisso e controlando as suas ações. CONSTRUÇÃO DO DIREITO DA SAÚDE (S ANTOS, 2002. p. 33). Nesse contexto, surgem os conselhos de saúde. Não é um fenômeno novo no Brasil, nem exclusivo da área da saúde, porém não há na atualidade nada semelhante aos conselhos de saúde, com a sua expressiva representatividade social, atribuições e poderes legais, além da extensão de sua implementação, englobando as esferas municipais, estaduais e federal e, em alguns lugares, ainda há conselhos locais e regionais. (CARVALHO,1995. p. 30-31) É preciso que todos saibam que ções específicas de caráter executivo a saúde é direito fundamental, indi- também estão na seara da competên- vidual e coletivo, e não mera con- cia legal dos conselhos, que cada vez cessão do poder estatal ou palavras mais participam na cadeia decisória bonitas escritas na Constituição. É da administração do SUS, como ins- certo que a legislação sanitária bra- tância deliberativa e recursal. sileira é muito mais avançada que Pelo exposto, parece claro que os a situação fática do país, o que não conselhos de saúde significam hoje invalida o paradigma do conceito de bem mais que uma prescrição legal saúde amplo, que deve ser persegui- de alcance duvidoso. Eles entraram do pelo esforço de todos os atores As competências legais básicas em cena, trazendo consigo a estréia sociais comprometidos com o siste- dos conselhos de saúde em todas as de alguns novos atores sociais. A ma a fim de buscar e construir o esferas encontram-se no art. 1º, pa- sua existência e funcionamento pos- SUS que queremos. 190 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 A Saúde é um Direito! REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS S CHWARTZ, Germano. Gestão Compartida Sanitária no Brasil: possibili- A FONSO, José Roberto Rodrigues. Des- dade de efetivação do direito à saú- centralização Fiscal: revendo Idéias. de. In: In: Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 15, os cuidados do Direito, UPF, 2003. n. 2, 1994. . (Org.). A saúde sob S ILVA, José Afonso. Curso de Direito BARROS, Suzane de Toledo. O Princí- Constitucional Positivo. São Paulo: pio da Proporcionalidade e o Con- Malheiros; 1995. 11.ed. p. 101, 454. trole de Constitucionalidade das S ÜSSEKIND, Armando. Direitos Sociais Leis Restritivas de Direitos Fundamentais. Brasília, DF: Ed. Brasília Jurídica, 1996, 141p. BERCOVICI, Gilberto. A descentralização de Políticas Sociais e o Federalismo na Constituinte. Rio de Janeiro: Freitas Barros, 1986. p. 21. WESTPHAL ; ALMEIDA (Org.). Gestão de Serviços de Saúde. São Paulo: EDUSP. 2001. p. 33. Cooperativo Brasileiro. Revista de Direito Sanitário, v. 3, n. 1, 2002 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992. BRASIL. Constituição Brasileira. Brasília, DF: Imprensa Oficial, 1988. C ANARIS, Claus-Wilheim. 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Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 184-191, set./dez. 2003 191 PORTO, Marcelo Firpo de Souza; LACAZ, Francisco Antonio de Castro & MACHADO, Jorge Mesquita Huet ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) Health Promotion and Different Sectors: contributions and limitations of Worker Health Surveillance within The Unified Health System (SUS) Marcelo Firpo de Souza Porto 1 Francisco Antonio de Castro Lacaz2 Jorge Mesquita Huet Machado 3 RESUMO Discute-se de que forma as ações de Vigilância em Saúde do Trabalhador (VST) vêm propiciando a construção de um modelo de promoção da saúde, dentro de um novo paradigma intersetorial e participativo para o SUS. A base conceitual do trabalho reside na discussão sobre VST e na conceituação de redes intersetoriais, uma aproximação teórica para compreender e operacionalizar estratégias de ações intersetoriais de promoção da saúde. Considera-se necessário um aprofundamento da reflexão crítica e síntese sobre as discussões conceituais e as práticas de promoção da saúde desenvolvidas no âmbito do SUS, particularmente em torno do futuro das ações de vigilância. Pesquisador do Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH), da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) Av. Leopoldo Bulhões, 1.480 – Manguinhos CEP 21041-210 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 1 DESCRITORES: Vigilância Sanitária; Promoção da Saúde; SUS. ABSTRACT The basic aim of this article is to discuss in which ways actions of Worker Health Surveillance (WHS) have provided tools to build a model Professor da Universidade Federal de São Paulo (U NIFESP) da Escola Paulista de Medicina (EPM) Rua Jader de Andrade, 322/202 CEP 52061-060 – Recife – PE e-mail: [email protected] of health promotion, within a new inter-sector and participative paradigm Tecnologista da Coordenação de Saúde do Trabalhador da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e-mail: [email protected] synthesis over conceptual discussions and practices of health promotion 2 3 for SUS. This work’s conceptual basis resides mainly in the discussion of WHS and in the concepts of inter-sector networks, a theoretical approach to understand and operate strategies for inter-sector actions of health promotion. We consider it necessary to deepen the critical reflection and developed within SUS, specially regarding the future of surveillance actions. DESCRIPTORS: Health Surveillance; Health Promotion; SUS. 192 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) LIMITES E POSSIBILIDADES DE AVANÇO DA(S) VIGILÂNCIA(S) de, mas como este interage com a as práticas clássicas de vigilância sociedade através de políticas pú- não sofreram mudanças estruturais, blicas intersetoriais e práticas trans- embora tenham ocorrido avanços A discussão sobre promoção da formadoras. Para tanto, buscou-se localizados, como na formação de saúde e o futuro do Sistema Único a universalização do acesso à saú- recursos humanos e na infra-estru- de Saúde (SUS) relaciona-se à neces- de e a descentralização, abrindo sua tura institucional. As práticas intra- sidade de substituição dos modelos gestão à participação popular e, setoriais mantêm-se ‘ilhadas’ den- médico-assistencial e assistencial- desde então, avanços têm ocorrido tro dos setores clássicos da vigilân- ‘sanitarista’ ainda hegemônicos en- com a realização das Conferências cia, notadamente a epidemiológica, tre nós (PAIM, 1994). Nestes, as prá- e a criação dos Conselhos de Saúde. a sanitária e a ambiental, com re- ticas de vigilância estão baseadas Tais avanços, contudo, não são cortes específicos de objetos de con- no modelo ecológico de explicação suficientes em si para a revisão dos trole e intervenção. Esta setorializa- das doenças e na epidemiologia clás- modelos médico-assistencial e ‘sa- ção coloca entraves para o desen- sica, tendo por objeto o controle dos volvimento da promoção e preven- modos de transmissão. Esta delimi- ção, seja em relação à eficiência das tação permite uma certa governabi- ações intra-setoriais, seja quanto ao necessário desenvolvimento de to de casos de doenças, em articu- A DISCUSSÃO SOBRE PROMOÇÃO DA SAÚDE E O FUTURO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE (SUS) RELACIONA-SE À NECESSIDADE DE SUBSTITUIÇÃO DOS MODELOS MÉDICOASSISTENCIAL E ASSISTENCIAL -‘SANITARISTA’ lação com análises epidemiológicas, AINDA HEGEMÔNICOS ENTRE NÓS agravos relacionados ao trabalho, lidade e eficácia das ações no âmbito intra-setorial da saúde, principalmente para as doenças infecto-contagiosas e outras evitáveis com medidas pontuais. Estas intervenções podem incluir o monitoramen- ações intersetoriais. As formas clássicas de intervenção simplesmente não dão conta de uma série de problemas de saúde, os quais não se restringem aos ‘compartimentos setoriais’ das vigilâncias, como os bem como a vacinação, o controle ao ambiente, às causas externas, às de vetores, de riscos ambientais e doenças crônicas, dentre outros. da qualidade da água, por exemplo. Obviamente, quanto mais distan- A crítica à eficácia deste mode- nitarista’. Além disso, o próprio tes da lógica dos modelos assisten- lo, quando se depara com o novo quadro político internacional e na- cial e ‘sanitarista’ estão os proces- perfil de doenças de massa, está no cional na década de 1990 não foi sos saúde-doença, maior será a ne- centro das formulações da Medici- favorável para que mudanças mais cessidade de serem construídas prá- na Social Latino-americana e da radicais ocorressem nas políticas ticas alternativas e intersetoriais que Saúde Coletiva que, no Brasil, atra- públicas do país. O SUS foi pressio- superem seus limites intrínsecos. vés do movimento pela Reforma nado por uma crise financeira agra- Não existem ‘vacinas’ contra aciden- Sanitária, contribuiu para a cons- vada pelo déficit público e pela po- tes de trânsito e do trabalho, tam- trução do SUS. Seus princípios e lítica econômica em curso, bem pouco substâncias ou barreiras que diretrizes foram calcados na visão como pela demanda espontânea das ‘higienizem’ ambientes gerais ou do de que a melhoria da qualidade de populações mais carentes, fato agra- trabalho contaminados e que, mais vida e saúde da população não se vado pelo aumento do desemprego tarde, podem ser implicados no cân- limita somente ao sistema de saú- e da exclusão social. Por seu turno, cer das pessoas expostas. Quanto Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 193 PORTO, Marcelo Firpo de Souza; LACAZ, Francisco Antonio de Castro & MACHADO, Jorge Mesquita Huet mais analisamos a gênese destes privilegiaria a construção de políti- o significado e a operacionalização riscos e seus efeitos, mais nos en- cas públicas com atuação interse- das ações intersetoriais, restringin- caminhamos para um emaranhado torial e intervenções integradas de do-se basicamente àquelas intrínse- de políticas públicas, práticas so- promoção, prevenção e recuperação, cas ao setor saúde. Nos itens seguin- ciais e processos decisórios que es- em torno de problemas de grupos tes, discutimos algumas questões tão fora do âmbito do setor saúde. populacionais específicos, tendo por relacionadas à implementação da Epistemologicamente, trata-se de base o planejamento das ações e as intersetorialidade a partir de expe- constatar os reducionismos e buscar análises das necessidades de saúde riências acumuladas pela Saúde do possibilidades de avanços concei- nos territórios. A VS também pres- Trabalhador no SUS, em especial as tuais e metodológicos frente aos pro- supõe a produção de dados de modo ações de vigilância. cessos saúde-doença mais comple- sistemático e contínuo através da xos. Em termos político-institucio- criação e manutenção de sistemas nais, trata-se de avançar nas práti- de informação para problemas con- A PROPOSTA DA VIGILÂNCIA EM SAÚDE DO TRABALHADOR (VST) cas intersetoriais e de relação com a sociedade para que critérios sanitários estejam cada vez mais presentes Neste artigo, a base empírica TRATA-SE DE AVANÇAR NAS PRÁTICAS para o entendimento das ações in- das políticas públicas que afetam a INTERSETORIAIS E DE RELAÇÃO COM A resultados do Estudo da Situação e saúde das populações. Em outras SOCIEDADE PARA QUE CRITÉRIOS Tendências da Vigilância em Saúde no conjunto dos processos decisórios palavras, é necessário superar a concepção biológica e medicalizante da SANITÁRIOS ESTEJAM CADA VEZ MAIS doença e internalizar a idéia de saú- PRESENTES NO CONJUNTO DOS PROCESSOS de como critério central dos modelos de desenvolvimento do país. Nos anos 1990, a discussão so- DECISÓRIOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS QUE AFETAM A SAÚDE DAS POPULAÇÕES tersetoriais em VST foi baseada nos do Trabalhador no Brasil (L ACAZ; MACHADO ; PORTO, 2002), que atendeu à demanda da Comissão Intersetorial de Saúde do Trabalhador, órgão assessor do Conselho Nacional de Saúde (CNS), sendo desenvolvido bre Vigilância da Saúde (VS) (T EIXEI- mediante parceria entre a Organiza- RA; ção Panamericana de Saúde (OPS) e PAIM ; VILASBÔAS , 1998) coloca as bases de um novo modelo de vigi- siderados essenciais. Nesse caso, a a Associação Brasileira de Pós-Gra- lância que visa superar os modelos intersetorialidade também implica a duação em Saúde Coletiva (ABRASCO). médico-assistencial e ‘sanitarista’, integração entre os sistemas de in- Devido à limitação de espaço, utili- apontando caminhos para a confi- formação existentes em diferentes zamos os resultados do referido es- guração de um novo modelo de aten- instituições, setores e níveis de go- tudo para analisar as ações interse- ção que busca superar os paradig- verno, exigindo a constituição de toriais em VST sem contudo apro- mas médico-sanitários ainda vigen- instâncias supra-institucionais e fundar a base empírica, a descrição tes no SUS (PORTO ; MACHADO; FREITAS, mecanismos de gestão e controle dos instrumentos de coleta de da- 2000). Na nova concepção, o objeto adequados de tais sistemas. dos, assim como a organização e o das ações de saúde caminharia do As propostas da Promoção da tratamento dos mesmos. O estudo, dano para os riscos, necessidades e Saúde e da VS ainda necessitam de pautado num universo inicial de 183 determinantes dos modos de vida e maior aprofundamento conceitual e serviços de níveis estadual e muni- saúde. A organização deste modelo metodológico, pois não aprofundam cipal distribuídos por todo o país, 194 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) revelou uma forte concentração na Assim, a VST será aqui entendi- sive gerenciais, como a atuação in- região Sudeste (cerca de 80% do total da como um processo contínuo que tersetorial, a descentralização dos de serviços), com grande relevância articula conhecimentos e práticas de serviços e das práticas de saúde ao para São Paulo. Apesar desta concen- controle sanitário em um território, nível loco-regional. Os processos de tração, observa-se que o desenvolvi- buscando a promoção, a proteção e trabalho em saúde são reorganiza- mento de ações de saúde dos traba- a assistência à saúde dos trabalha- dos, visando intervir sobre proble- lhadores, seja de assistência e/ou de dores, tendo como alvo de sua ação mas sanitários de maneira contínua, vigilância, ocorre atualmente em to- a análise e posterior intervenção nos num dado território, por meio de pro- dos os estados do Brasil, ainda que nexos entre os processos de traba- cedimentos que buscam atingir os com grandes diferenças quanto ao lho e suas repercussões à saúde dos determinantes das condições de vida seu grau de organização e maturi- trabalhadores, contando com sua e do processo saúde-doença de gru- dade, o que leva a uma flutuação participação (MACHADO, 1996). O pres- pos populacionais em diversos pe- no seu número, dependendo do mo- suposto da ação é o controle da ex- ríodos etários (MONKEN, 2000). mento em que o estudo é realizado No caso das relações trabalho- (LACAZ; MACHADO ; P ORTO, 2002). As ações em saúde dos trabalhadores no Brasil na rede básica iniciaram-se em meados dos anos 1980, influenciadas pela Medicina Social Latino-americana, Saúde Coletiva, saúde e da evolução histórica do A ÊNFASE HISTÓRICA DA ATUAÇÃO DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA SOBRE PRODUTOS COMO FÁRMACOS , ALIMENTOS Reforma Sanitária Italiana e pela re- E SERVIÇOS DIFICULTOU A INCORPORAÇÃO emergência do movimento sindical em DOS PROCESSOS DE TRABALHO E SUAS suas reivindicações por melhores condições de trabalho e defesa da saúde (LACAZ, 1996). Desde seu início, as sistema de saúde no Brasil, do ponto de vista institucional e operacional criou-se uma dicotomia que restringiu à Vigilância Epidemiológica o limite técnico das informações sobre a ocorrência e a distribuição das doenças e dos acidentes do trabalho. Ao lado disso, cristalizou-se REPERCUSSÕES À SAÚDE DOS uma Vigilância Sanitária cujo papel TRABALHADORES EM SUA ATUAÇÃO é intervir sobre riscos específicos que ações de VST buscaram se constituir estejam contribuindo para a ocor- a partir de uma compreensão inte- rência de doenças e acidentes, colo- grada entre promoção e proteção, posição/sujeição aos riscos, exigên- cando em perigo a saúde das popu- nesta incluída a prevenção de agra- cias e cargas, visando prevenir agra- lações trabalhadoras (WÜNSCH FILHO vos, além da assistência, mediante vos à saúde dos trabalhadores que et al., 1993). A ênfase histórica da diagnóstico, tratamento e reabilita- se manifestam como sofrimento, atuação da Vigilância Sanitária so- ção. A ênfase na necessidade de trans- dano, desgaste, doenças e acidentes bre produtos como fármacos, ali- formações dos processos e ambien- do trabalho (L AURELL; NORIEGA, 1989). mentos e serviços dificultou a incor- tes de trabalho favoreceu a constru- A concepção de VST é influencia- poração dos processos de trabalho ção de uma abordagem multiprofis- da pelo conceito de VS e pela opera- e suas repercussões à saúde dos tra- sional, interdisciplinar, intersetorial cionalização do conceito de ‘risco’, e balhadores em sua atuação. e participativa, pautada pela compre- está calcada numa proposta de rear- As ações de VST no SUS têm bus- ensão de que os trabalhadores devem ticulação das práticas sanitárias de cado superar tais dicotomias e li- ser sujeitos no planejamento e imple- promoção, prevenção e cura que mites através da integração das di- mentação das ações de vigilância. combina tecnologias distintas, inclu- ferentes ‘vigilâncias’, desde a iden- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 195 PORTO, Marcelo Firpo de Souza; LACAZ, Francisco Antonio de Castro & MACHADO, Jorge Mesquita Huet tificação e localização dos proble- devido à falta de uma política inte- de canais de comunicação e de es- mas de saúde, até a intervenção e o grada de seguridade social e, no in- tratégias de ação conjunta, estabe- controle dos processos e condições terior desta, de saúde e segurança lecendo novos compromissos entre de trabalho nocivas (L ACAZ, 2002). dos trabalhadores. Outra restrição instituições e atores sociais organi- A VST busca conhecer a realidade decorre das contradições do atual zados em torno da análise e enfren- de trabalho de populações trabalha- momento histórico, que tolhe a or- tamento de problemas locais ou re- doras, intervir nos determinantes dos ganização dos trabalhadores. gionais considerados relevantes. agravos, avaliar o impacto das medidas corretivas adotadas, subsidiar a tomada de decisões pelos São justamente os problemas de AÇÕES INTERSETORIAIS EM VST E O CONCEITO DE REDES INTERSETORIAIS órgãos competentes do governo, no natureza mais complexa que exigem ações integradas e intersetoriais. A noção de rede compreende a nível federal, estadual, municipal, Para melhor compreendermos o presença de organizações e entida- e estabelecer sistemas de informa- desenvolvimento das ações interse- des interdependentes e ao mesmo ção em saúde e trabalho que incor- tempo autônomas, e a dinâmica de porem, além das informações tradi- funcionamento das redes construídas cionalmente existentes e coletadas, AS REDES INTERSETORIAIS SÃO ESTRUTURAS depende da capacidade de serem uni- prio processo de vigilância e de pes- FLEXÍVEIS QUE PERMITEM A CONSTRUÇÃO políticos existentes num dado terri- quisas, ainda que limitados a al- DE CANAIS DE COMUNICAÇÃO E DE tório. Trata-se, portanto, de um processo dialético que inclui tanto o Constitui-se numa prática interins- ESTRATÉGIAS DE AÇÃO CONJUNTA, aproveitamento dos recursos existen- titucional e intersetorial que ultra- ESTABELECENDO NOVOS COMPROMISSOS tes quanto a transformação das prá- passa os limites do setor Saúde, mas ENTRE INSTITUIÇÕES E ATORES ticas políticas e culturais em direção bases de dados provindas do pró- guns segmentos populacionais. subordina-se aos princípios/diretri- SOCIAIS ORGANIZADOS zes do SUS e usa métodos da epidemiologia, da higiene e segurança do ficados os esforços institucionais e a processos democráticos voltados para os direitos e necessidades das populações daquele território. trabalho, da ergonomia, entre outros, Podemos compreender as ações não prescindindo do conhecimento e toriais em VST, incorporamos o con- intersetoriais de VST a partir da cons- participação dos trabalhadores (MA - ceito de rede intersetorial (PORTO; tituição de redes intersetoriais – ori- CHADO, 1996). Tal perspectiva tem en- MACHADO; FREITAS , 2000), pois o mes- ginalmente intra-setoriais – articu- contrado dificuldades para sua con- mo propicia uma concepção moder- ladas em torno de problemas mais solidação devido às dicotomias in- na e flexível das potencialidades de complexos num dado território, tra-institucionais do setor saúde que, articulação e construção de novos como casos de acidentes e doenças ao criar novas práticas de organiza- modelos de gestão que favorecem provocados por riscos ocupacionais. ção e atuação em ST, acabou por processos de descentralização, par- Diversas experiências de construção gerar ‘feudos’ freqüentemente para- ticipação e o estabelecimento de de redes intersetoriais em ST vêm lelos às estruturas do SUS, os Cen- parcerias entre instituições públicas sendo desenvolvidas nos programas, tros de Referência em Saúde do Tra- e a sociedade civil organizada. As centros de referência, serviços, nú- balhador (CRST) (RIBEIRO et al., 1998). redes intersetoriais são estruturas cleos ou coordenações em estados e O mesmo se dá intersetorialmente flexíveis que permitem a construção municípios. Através do desenvolvi- 196 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) mento sistemático das ações, um mal e transitório, gerando o que po- as redes mais informais e transitó- conjunto de instituições públicas, deria ser denominado de proto-rede. rias possuem um importante papel sindicatos, universidades, associa- Muitas vezes, tais espaços surgem na organização inicial de espaços ções profissionais, ONG e diversos após a ocorrência de eventos graves mais formais, ao mesmo tempo que outros atores sociais buscam inte- e se concentram em ações pontuais são mais flexíveis e agilizam dis- grar-se na análise e no enfrentamento de intervenção em empresas e ambi- cussões sobre estratégias e ações dos problemas, configurando uma entes de trabalho específicos. Com o conjuntas que, em contextos autori- série de pontes intersetoriais. Estas passar do tempo, tais relações po- tários e vulneráveis, seriam dificul- experiências possuem diferentes dem amadurecer e transformar-se em tadas por relações institucionais graus de organização, competên- espaços mais formais e instituciona- mais formalizadas. cias, atribuições, recursos e práti- lizados de planejamento e decisão, As redes devem ser vistas como cas de atuação, sendo desencadea- como convênios ou comissões inte- dinâmicas e de estabilidade provi- das por grupos institucionais locali- rinstitucionais, coordenados ou não sória, pois traduzem a conjunção de zados em vários pontos do Brasil. As diferentes interesses nas ações em características destas experiências relação a certos problemas de saú- dependem de questões como a força de organização dos trabalhadores e AS REDES DEVEM SER VISTAS COMO das questões de saúde e, em termos DINÂMICAS E DE ESTABILIDADE PROVISÓRIA, institucionais, dependem das políti- POIS TRADUZEM A CONJUNÇÃO DE DIFERENTES cas regionais, da estrutura organizacional, da capacidade instalada, da INTERESSES NAS AÇÕES EM RELAÇÃO A CERTOS qualificação dos profissionais e de PROBLEMAS DE SAÚDE, BEM COMO A FORÇA influências das instituições acadêmi- DOS TRABALHADORES, DO SETOR SAÚDE E cas. Portanto, cabe reconhecer que as experiências avançadas dependem SEUS USUÁRIOS, DENTRE OUTROS ATORES de, bem como a força dos trabalhadores, do setor saúde e seus usuários, dentre outros atores. A construção de determinadas redes pode desarticular outras, dado que os comportamentos dos vários atores refletem estruturas de poder e práticas culturais que precisam ser desestabilizadas, para que práticas mais efetivas e democráticas de pro- mais de uma constelação positiva moção e prevenção tomem seu lu- destes fatores do que do seu reconhe- gar. Neste processo, inevitavelmen- cimento enquanto uma política ins- pelo SUS e eventualmente organiza- te ocorrem mudanças nos objetivos titucional de Estado. dos por problemas, por exemplo se- iniciais, uma vez que a construção As formas de ação coordenada em gundo o tipo de risco (setor econô- de uma rede com atores heterogê- rede geram relações que possuem mico ou agente exposto) ou de doen- neos a partir de diferentes formas diferentes características e gradien- ça. Embora desejáveis, as redes ins- de relações (formais e informais) im- tes de formalização e organização, titucionalizadas implicam problemas plica um processo contínuo de re- com implicações para o planejamen- de gestão mais difíceis de serem negociação. Com isso, os objetivos to, a responsabilização e a institu- manejados, envolvendo aspectos ad- iniciais que um ator tenha, podem cionalização das ações. Em sua fase ministrativos, orçamentários e de se transformar em novos, redefini- inicial, freqüentemente as relações execução, ou ainda aqueles relacio- dos coletivamente a partir das pos- configuram-se enquanto espaços nados à cultura técnica das institui- sibilidades e necessidades dos dife- ampliados de discussão e troca de ções e à interferência do poder políti- rentes atores. Adotar o conceito de experiências, de caráter mais infor- co sobre as mesmas. Por outro lado, rede implica compreendermos e tra- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 197 PORTO, Marcelo Firpo de Souza; LACAZ, Francisco Antonio de Castro & MACHADO, Jorge Mesquita Huet balharmos tais dinâmicas como par- mais importantes que tendem a es- brasileira, sendo objetivo da rede a te integrante do processo de desen- truturar as redes intersetoriais de própria transformação de tais rela- volvimento de ações intersetoriais e VST. O foco central do esquema é a ções que condicionam a qualidade de promoção da saúde. relação potencialmente conflituosa do trabalho e da saúde dos traba- entre o processo de trabalho e a saú- lhadores nas empresas. A CONFIGURAÇÃO DAS REDES E AS PRINCIPAIS INSTITUIÇÕES E ATORES SOCIAIS ENVOLVIDOS de, já que o objetivo é mostrar que No centro da rede, como objeto os problemas não surgem ao aca- em torno do qual ela é tecida, en- so, mas são conformados a partir contram-se os trabalhadores expos- de relações sociais, econômicas, ins- tos e os processos/ambientes de tra- A Figura 1 apresenta, esquema- titucionais e tecnológicas existentes balho geradores de riscos, cuja di- ticamente, os elementos e processos em sociedades capitalistas como a nâmica de relação é estruturada FIGURA 1 – Rede de Vigilância em Saúde do Trabalhador 198 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) pelos dois pólos fundamentais: o do-se por sua lógica sistêmica e ori- calização e normatização no campo dos representantes dos trabalhado- gem político-institucional em um das relações entre trabalho e saúde, res e o das empresas. As institui- espaço estruturador de conexões das embora suas ações de inspeção se- ções constituem-se em pontos de redes. Em sua estrutura, estão ba- jam criticadas por seu caráter exces- encontro, conflito e de desencadea- sicamente os serviços assistenciais sivamente normativo (OLIVEIRA, 1994). mento de ações em várias camadas em geral, de vigilância epidemioló- As ações desenvolvidas pelas concêntricas e polares, que corres- gica e sanitária e os serviços que empresas correspondem ao segun- pondem ao tipo de poder de inter- atuam em saúde dos trabalhadores. do pólo do núcleo da rede e são venção e, em última instância, ao Estes serviços representam os focos exercidas nas grandes empresas pe- poder de influência de trabalhado- de articulação de ações do próprio las gerências e pelos serviços espe- res e das empresas sobre a socieda- SUS e deste com outras instituições. cializados em engenharia de segu- de, os governos e as instituições. Executam funções de referência rança e medicina do trabalho (SES- clínica, vigilância sanitária e epide- METS ). Dada As redes de VST são freqüente- a ausência de tais servi- mente constituídas por meio de de- ços nas pequenas empresas, nestas, núncias dos trabalhadores envolvi- as ações são exercidas exclusiva- dos diretamente em situações de ris- mente pela própria gerência. Em ge- co, ou de casos de acidentes e doen- AS REDES SÃO FREQÜENTEMENTE ças relacionadas ao trabalho. As CONSTITUÍDAS POR MEIO DE tentam provocar mudanças nas prá- denúncias mais organizadas ocor- DENÚNCIAS DOS TRABALHADORES ticas gerenciais e nos S ESMETS. Um rem a partir de representantes dos trabalhadores, como comissões internas das empresas, associações de contaminados, sindicatos, centrais sindicais, ONG e mídia. Freqüentemente, o clima autoritário e pater- ENVOLVIDOS DIRETAMENTE EM SITUAÇÕES DE RISCO, OU DE ral, os processos de vigilância in- dos pontos frágeis da intervenção são as ações que envolvem pequenas e médias empresas e, de forma CASOS DE ACIDENTES E DOENÇAS RELACIONADAS AO TRABALHO ainda mais radical, o setor informal da economia, cuja precariedade de vínculos dificulta a presença nalista dentro das empresas impede de interlocutores e a própria confi- uma exposição pública dos traba- guração de redes. lhadores diretamente envolvidos, o miológica aos agravos do trabalho, Inúmeras outras instituições po- que aumenta a importância da atua- constituindo um subsistema de vi- dem fazer parte das redes interse- ção dos sindicatos como porta-vo- gilância em saúde do trabalhador, toriais de VST, como os órgãos am- zes e instâncias mediadoras dos in- desencadeando o processo de controle bientais, as secretarias estaduais de teresses dos trabalhadores afetados. com ações em torno de casos especí- trabalho, as instâncias ligadas à As instâncias executivas das re- ficos. O MTE, através das Delegacias Previdência Social – como a perícia des de VST representam sua primei- Regionais do Trabalho (DRT), com- médica e a reabilitação – dentre ou- ra camada em contato direto com o põe a rede como ator que gravita tros (L ACAZ; MACHADO; PORTO , 2002). núcleo – trabalhador e ambiente de entre o pólo empresarial e o dos tra- Estas instituições se situam, pelo trabalho – sendo as duas instâncias balhadores, em contato direto com aspecto executivo e complementar principais o SUS e o Ministério do seu núcleo. Sua característica insti- de suas ações, no interstício entre a Trabalho e Emprego (MTE). O SUS tucional mais relevante é o amplo primeira e a segunda camada. Ain- exerce função múltipla, configuran- reconhecimento de seu poder de fis- da neste nível destacam-se as arti- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 199 PORTO, Marcelo Firpo de Souza; LACAZ, Francisco Antonio de Castro & MACHADO, Jorge Mesquita Huet culações, aqui de caráter formal, titucional (saúde, trabalho, meio to técnica do processo de vigilância mediante convênios, com os Minis- ambiente, previdência social, minis- e, ao mesmo tempo que desenvol- térios Públicos (MP) – o Estadual térios públicos, representações po- vem ações de planejamento e avali- e/ou o do Trabalho, de âmbito fe- líticas no congresso/assembléias/ ação, são espaços formais de forta- deral – atores com maior poder de câmaras) e econômico (empresa por lecimento das ligações entre os pon- arbitragem e penalização nos pro- tipo de risco, ramo econômico). Esta tos da rede de vigilância. cessos de negociação com empre- camada é o espaço, por excelência, A mídia desempenha função de sas e de conscientização do empre- de configuração e atuação de redes contato com a sociedade, sendo es- sariado, principalmente em situa- mais abrangentes e formais, pois trategicamente importante para a ções críticas de maior conflito e re- pode reunir múltiplas instituições e visibilidade e legitimização social sistência. Por isso, os MP têm exer- atores sociais em processos decisó- das ações de vigilância. Sua cola- cido papel de destaque na consti- rios que visam transformar as rela- boração, entretanto, é restrita e con- tuição de redes em situações de ções que condicionam a qualidade traditória, dada a banalização da maior conflito e fragilidade insti- morte de trabalhadores e das denún- tucional do SUS ou das DRT. cias no país, bem como a influência Em uma segunda camada de das empresas de maior poderio eco- apoio, destacam-se as ações desen- AS REDES MAIS FORMALIZADAS cadeadas por projetos acadêmicos e PODEM SE CONFIGURAR POR MEIO cândalos noticiados podem abalar de ensino, desenvolvidas por insti- DE NUMEROSOS FORMATOS, a imagem de empresas, setores eco- tuições principalmente da saúde coletiva. Elas têm importante papel COMO GRUPOS GESTORES , nômico. Os acidentes e casos de es- nômicos e mesmo instituições públicas responsáveis e, por isso, têm no desenvolvimento e estabilização CONVÊNIOS INTERINSTITUCIONAIS, de experiências através do suporte COMISSÕES, CÂMARAS TÉCNICAS ras técnicas autoritárias e engessa- E CONSELHOS queiam o processo coletivo de apren- técnico-científico, da divulgação e do apoio interdisciplinar em casos o papel de desestabilizar as cultudas das organizações, as quais blo- de maior complexidade, sendo ain- dizagem necessário para a evolução da fundamentais na formação de dos padrões preventivos. Os casos novos profissionais e na legitima- do trabalho e da saúde dos traba- de escândalos com mobilizações ção técnica, fortalecendo as insti- lhadores nas empresas. Conforme já coletivas permitem ‘furar’ esse blo- tuições e servindo de contraposição apontado no item anterior, as redes queio e transformar prevenções sim- ao saber empresarial. mais formalizadas podem se confi- bólicas, mais voltadas ao controle Finalmente, o esquema apresen- gurar por meio de numerosos for- da força de trabalho, em prevenções ta uma terceira camada que repre- matos, como grupos gestores, con- práticas mais efetivas (P ORTO, 1994). senta a esfera estratégica de negocia- vênios interinstitucionais, comis- ção e definição de políticas públi- sões, câmaras técnicas e conselhos. cas, leis e acordos desenvolvidos por Organizadas pelo SUS nos vários ações intersetoriais em diferentes níveis, as Comissões Interinstitucio- níveis de agregação que vão do lo- nais de Saúde do Trabalhador (CIST) Nesse item, apresentamos algu- cal ao global (distrito/município/es- existentes funcionam como elemen- mas características das experiên- tado/país/âmbito internacional), ins- tos de condução tanto política quan- cias intersetoriais desenvolvidas 200 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 A EXPERIÊNCIA DE AÇÕES INTERSETORIAIS EM VST NO SUS Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) pelo SUS com alguns setores e ór- pectivamente. O SUS estabelece re- quanto à adoção desta estratégia gãos específicos, tendo como base lações intersetoriais – algumas for- (BINDER; CORDEIRO, 2003; L ACAZ, 2000), empírica a investigação já referida mais, muitas informais – com múl- gera uma base de dados amplamente sobre as ações de VST desenvolvi- tiplas instituições, e as principais incorporada pelo SUS na análise das nos serviços do SUS que atua- indicadas pelo estudo, são apresen- epidemiológica dos acidentes e doen- vam em saúde dos trabalhadores tadas a seguir. ças do trabalho. As relações com o entre os anos de 2001 e 2002 (LACAZ; As articulações com o Instituto INSS são freqüentemente conflituo- M ACHADO ; PORTO, 2002). Conforme Nacional de Seguro Social (INSS) sas e marcadas por certo grau de veremos mais a frente, tais experi- vêm ocorrendo desde o início da informalidade, já que a política ins- ências encetadas nesses anos de implantação dos primeiros Progra- titucional da previdência social nos construção do campo da Saúde do mas de Saúde do Trabalhador (PST) últimos anos possuiu um caráter Trabalhador no SUS expressam si- criados nos anos 1980. Dois objeti- bastante conservador e burocráti- multaneamente fragilidades, contra- vos principais se destacam nessa co, em especial em relação à saúde dições e potencialidades que podem dos trabalhadores. contribuir para o debate sobre inter- Outra importante relação inter- setorialidade na constituição de um setorial é com o MTE, através das novo modelo de promoção da saúde. Existe uma grande heterogeneidade quanto à inserção dos servi- E XISTE UMA GRANDE HETEROGENEIDADE QUANTO À INSERÇÃO DOS SERVIÇOS DRT. O MTE, cujo papel na inspeção do trabalho foi assumido desde os anos 1930, alijou a Saúde Pública ços investigados dentro da estrutu- INVESTIGADOS DENTRO DA ESTRUTURAS da intervenção sobre ambientes e ras estaduais e municipais do SUS, ESTADUAIS E MUNICIPAIS DO SUS, QUE condições de trabalho até os anos que podem incluir programas, centros de referência, divisões ou coordenadorias vinculadas principal- PODEM INCLUIR PROGRAMAS, CENTROS DE REFERÊNCIA, DIVISÕES OU COORDENADORIAS 1980, momento em que surgem os primeiros PST (LACAZ, 1996). Esta trajetória tem reflexos sobre a atua- mente às estruturas das vigilâncias ção das instâncias do setor Saúde sanitária e/ou epidemiológica, mas e, malgrado os embates e disputas também ligados a hospitais univer- existentes entre os setores Trabalho sitários, com níveis variados de in- relação: (1) o estabelecimento do e Saúde (OLIVEIRA , 1994), uma maior tegração com o SUS. Em termos de nexo entre a incapacidade causada integração de ações, guiada por es- relações intra-institucionais, é mar- por doenças e/ou acidentes do tra- tratégia comum, seria bastante de- cante a atuação integrada assistên- balho e direitos previdenciários, fre- sejável. Tal afirmativa torna-se mais cia-vigilância, tanto para aqueles que qüentemente negados aos trabalha- verdadeira ao se considerar que o realizam ações de assistência na rede dores afastados ou demitidos; (2) a SUS, em função dos seus princí- especializada quanto na básica. análise pelos serviços dos bancos de pios, diretrizes e vocação, deveria O estudo indica que as relações dados gerados a partir das comuni- ser a instância nucleadora da polí- intersetoriais encontram-se presen- cações de acidentes do trabalho tica de assistência, prevenção e pro- tes na maioria dos serviços anali- (CAT). Este instrumento de notifica- moção em saúde dos trabalhadores, sados, em percentuais que variam ção usado pela Previdência desde envolvendo instituições da Previdên- de 55 a 80% quando se trata dos 1976, apesar do seu viés securitá- cia Social, Saúde, Trabalho, Meio serviços municipais e estaduais res- rio e dos limites já assinalados Ambiente e Agricultura, dentre ou- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 201 PORTO, Marcelo Firpo de Souza; LACAZ, Francisco Antonio de Castro & MACHADO, Jorge Mesquita Huet tras. Apesar das articulações com fortalecida pelo papel definido na serviços que permitiu a continuida- as DRT referidas pelos serviços pos- Constituição Federal de 1988 na de- de das ações frente a cenários polí- suírem um tendência de crescimen- fesa da cidadania e dos chamados tico-administrativos conservadores to, elas ainda possuem um caráter direitos coletivos e difusos, que en- e privatistas que se abateram sobre restrito a certas regiões e capitais, e volvem a relação trabalho-saúde. As os sistemas de saúde em diferentes ocorrem freqüentemente a partir de articulações ocorrem tanto com o regiões. A relação com o MP tam- contatos pessoais com técnicos mais Ministério Público do Trabalho, de bém é um indicador de que o poder engajados, não existindo envolvi- âmbito federal, quanto com os Mi- de intervenção dos serviços que mento formal da direção da institui- nistérios Públicos Estaduais. Nestas atuam na VST ainda é frágil e ne- ção. Apesar dessa limitação, as co- ‘parcerias’ existe o risco de que os cessita de melhor amparo técnico e operações técnicas existentes podem serviços tornem-se ‘braços técnicos’ jurídico para sua efetivação. O MP envolver distintas formas, como a do MP (RIBEIRO et al., 1998), empo- tem sido um ‘parceiro’ importante vigilância de ambientes de trabalho, brecendo a dinâmica dos serviços, na investigação de acidentes e do- a participação no Programa de Er- enças do trabalho e são inúmeros radicação do Trabalho Infantil, os casos de ações conjuntas pelo ações conjuntas na investigação de acidentes graves e fatais, ou ainda em problemas e setores específicos, como as Comissões do benzeno e das indústrias de construção civil. Ou- AS COOPERAÇÕES TÉCNICAS EXISTENTES PODEM ENVOLVER DISTINTAS FORMAS, país, em particular na retaguarda COMO A VIGILÂNCIA DE AMBIENTES DE cos, como os termos de ajuste de tra instituição do MTE mencionada TRABALHO, A PARTICIPAÇÃO NO PROGRAMA é a Fundação Jorge Duprat Figuei- DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO I NFANTIL, redo de Segurança e Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO) que, por ser AÇÕES CONJUNTAS NA INVESTIGAÇÃO DE ACIDENTES GRAVES E FATAIS órgão de pesquisa e formação de técnica de apoio ao MP em suas investigações e instrumentos específiconduta e as ações cíveis. Em alguns estados, o MP está a frente de acordos interinstitucionais que objetivam o planejamento, a priorização e a implementação de ações de controle em processos e ambientes de trabalho. abrangência nacional, tem contribu- As relações com a ‘Universida- ído para a capacitação técnica nos de’, marcantes principalmente no serviços em todo o país. Isto envol- cuja lógica de intervenção, levando- âmbito estadual dos serviços inves- ve a realização de cursos, seminári- se em conta o conceito de VST aqui tigados (73%), envolvem vários as- os, palestras e apoio bibliográfico. adotado, deveria ser pautada pelo pectos, como estágios de graduação Ademais, a articulação acontece pela método epidemiológico (L ACAZ; MA - e de pós-graduação, assim como atuação da FUNDACENTRO em comissões CHADO; PORTO , 2002; MACHADO , 1996) e assessoria técnica, capacitação e o nacionais e regionais, ou no suporte não exclusivamente pela lógica do desenvolvimento de pesquisas e es- técnico em avaliações clínicas, diag- direito quando do embate trabalha- tudos. A aproximação serviços-aca- nóstico de intoxicações químicas e dor ‘lesado’ versus empresa ‘infra- demia, preconizada por estudos da desenvolvimento de projetos especí- tora’. Por outro lado, o apoio do MP área (L ACAZ, 1996; MACHADO , 1996; ficos, como na vigilância de câncer tem sido fundamental em conjuntu- RIBEIRO et al., 1998), fortalece a com- ocupacional (MG e BA). ras políticas desfavoráveis à cons- petência técnica dos serviços no en- O Ministério Público (MP) vem trução do SUS, pois em várias situa- frentamento de problemas de maior ganhando crescente importância, ções foi justamente a parceria MP- complexidade. Por outro lado, a re- 202 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) lação do SUS com a Universidade relevante. A relação pode se dar de continuada dos trabalhadores or- também espelha a fragilidade dos distintas formas, como o forneci- ganizados na gestão e no controle serviços e costuma ser marcada por mento de informações sobre os ti- das ações de vigilância, isto não relações informais com grupos de pos de lavouras existentes, a toxi- significa que inexistam outras ins- pesquisa isolados, sem compromis- cologia dos agrotóxicos utilizados, tâncias de controle social. O estu- sos formais de longo prazo. Acor- as ações conjuntas de vigilância e do revelou que a demanda sindi- dos de cooperação com Centros de o suporte técnico para o uso con- cal junto aos serviços ocorre em Excelência em temáticas específicas trolado ou a eliminação de agro- 87% dos municipais e 50% dos es- e o financiamento de projetos prio- tóxicos através da agricultura or- taduais, expressando um modelo ritários apoiados pelo Ministério da gânica. O restrito interesse do se- participativo e com forte influên- Saúde (MS) e agências de fomento, tor agrícola com questões de saú- cia dos sindicatos de trabalhado- poderão contribuir futuramente para de e ambiente limitam a evolução res. A maior presença levantada de superar tais deficiências. dessa importante relação interse- conselhos gestores no nível muni- As instituições de dois outros cipal indica a facilidade que o ní- setores envolvidos também mere- vel local possui para envolver di- cem destaque. As relações com as retamente trabalhadores e cidadãos uma tendência de incremento, o que O ESTUDO APONTA DIFICULDADES ENVOLVENDO A PARTICIPAÇÃODOS TRABALHADORES, O QUE reflete tanto o crescimento da te- PODE SIGNIFICAR TANTO UM ALHEAMENTO DOS ra seja no município que as pres- ‘instâncias ambientais’ apresentam mática ambiental quanto os investimentos na criação da vigilância ambiental, principalmente a partir da implantação do VIGISUS e da criação de estrutura específica dessa área no MS. Várias temáticas têm SERVIÇOS DAS INSTÂNCIASDE REPRESENTAÇÃO DOS TRABALHADORES, COMO UMA FALTA DE PRIORIDADE POR PARTE DO MOVIMENTO SINDICAL PARA ATUAR NESTE NÍVEL DE CONTROLE em problemas mais diretamente vinculados à sua realidade, embosões maiores ocorrem, tornando tais conselhos mais vulneráveis que os de âmbito estadual. Apesar da relevância das demandas sindicais, o estudo aponta dificuldades envolvendo a participação sido trabalhadas conjuntamente dos trabalhadores, o que pode sig- entre o SUS e os órgãos que com- nificar tanto um alheamento dos põem o Sistema Nacional de Meio torial, o que deve ser superado serviços das instâncias de represen- Ambiente (S ISNAMA ), abarcando te- através de novos e continuados es- tação dos trabalhadores, como uma mas como resíduos sólidos, polui- forços de âmbito federal e regio- falta de prioridade por parte do mo- ção atmosférica e ruído urbano. nal, dada a importância do proble- vimento sindical para atuar neste Em estados como a Bahia, as arti- ma dos agrotóxicos e as expecta- nível de controle. Nesse último caso culações avançaram através da in- tivas de uma intensificação da re- expressa, provavelmente, o declí- serção da saúde dos trabalhado- forma agrária no país. nio da ação sindical como conse- res na Lei Estadual do Meio Ambien- Com relação às instâncias de qüência das alterações do mundo te e nos processos de licenciamen- participação, apesar da maioria dos do trabalho, caracterizadas pelo to. Quanto aos ‘órgãos da Agricul- serviços investigados (57% dos mu- desemprego, pela flexibilização dos tura’, a articulação vem se desen- nicipais e 73% dos estaduais) não direitos e pelas relações de traba- volvendo em algumas regiões onde contarem com um conselho gestor lho, e precarização dos vínculos a problemática dos agrotóxicos é específico que propicie a atuação (LACAZ, 2001). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 203 PORTO, Marcelo Firpo de Souza; LACAZ, Francisco Antonio de Castro & MACHADO, Jorge Mesquita Huet CONCLUSÃO como o aprofundamento de ações o que não deveria significar a di- articuladas e integradas envolven- luição da importância do papel do Apesar das diversas fragilidades do várias instâncias intra e extra- SUS. Nesse sentido, o setor Saúde encontradas nas experiências inter- setoriais ao setor saúde. Por exem- funciona mais como um catalisa- setoriais de VST do SUS, como a plo, precisam ser ampliadas as re- dor do que como executor das ações ausência de vínculos formais entre lações com várias organizações não- de promoção, que dependem de as instituições para dar sustentação governamentais e os setores respon- outros setores de governo dentro de às ações e que pudessem caracteri- sáveis pela formação de recursos uma política intersetorial. zar uma política efetiva nessa área, humanos, inovação e desenvolvi- estas apresentam uma rica varieda- mento tecnológico. O futuro das ações de promoção da saúde está fortemente relaciona- de de práticas que caminham na di- Acreditamos que a proposta con- do à articulação não só entre as vi- reção dos princípios do SUS, apon- ceitual apresentada de redes inter- gilâncias, mas também com os mo- tando para uma visão democrática setoriais para compreender o desen- vimentos sociais e as instâncias es- de promoção da saúde e que pode truturantes dos processos de desen- progredir em direção a um novo volvimento regional, caminhos im- modelo. Os dados do estudo empíri- portantes que começam a ser trilha- co revelam relações intersetoriais ainda limitadas, com ações em rede ainda incipientes e que exigem maior nível de coordenação e formalização para uma maior efetivação do potencial existente. Boa par- CONTANDO COM A DEDICAÇÃO DE INÚMEROS PROFISSIONAIS QUE ‘REMAM CONTRA A MARÉ’, PODE -SE APREENDER A dos. Ao pensarmos no papel do SUS EMERGÊNCIA DE UM MODELO QUE CONJUGA análises de situação de saúde visan- te desta limitação decorre da falta A ASSISTÊNCIA E A VIGILÂNCIA/ INTERVENÇÃO do interesse político na década de E QUE PRECISA AVANÇAR na perspectiva do desenvolvimento, torna-se imperativo serem ampliadas as concepções de território e do incluir, além dos moradores e usuários dos serviços locais, os trabalhadores, os ambientes de traba- 1990 do próprio governo federal e, lho e os riscos ambientais enquanto conseqüentemente, de uma Política objetos de investigação e intervenção de Estado de saúde dos trabalhado- no conjunto das questões locais de res mais abrangente. Tal limitação volvimento das ações integradas e saúde, integrando-as com uma con- dificulta o engajamento das instân- intersetoriais de VST pode ser in- cepção abrangente de desenvolvimen- cias dirigentes nos vários setores e corporada por outras áreas da saú- to regional e local sustentável. instituições com as quais o SUS se de para discutir o desenvolvimento O atual momento histórico, que articula em suas ações de VST. Ape- de ações intersetoriais de promo- vem fragilizando o pólo trabalho sar disso, e contando com a dedica- ção da saúde, dado que a interse- e suas formas clássicas de repre- ção de inúmeros profissionais que torialidade é reconhecidamente im- sentação, também indica a neces- ‘remam contra a maré’, pode-se portante em todas as áreas. A cons- sidade de novas estratégias de ar- apreender a emergência de um mo- trução de redes surge como estra- ticulação e intervenção com e na delo que conjuga a assistência e a tégia de fortalecimento do SUS para sociedade. Ao longo dos anos 1990, vigilância/intervenção e que preci- enfrentar problemas complexos, as- esta fragilidade pôde ser observa- sa avançar. Para tanto, vários desa- sociando inúmeros e heterogêneos da no emperramento de espaços in- fios ainda necessitam ser superados, atores através de diferentes formas, terinstitucionais de negociação e 204 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 192-206, set./dez. 2003 Promoção da Saúde e Intersetorialidade: contribuições e limites da Vigilância em Saúde do Trabalhador no Sistema Único de Saúde (SUS) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS estabelecimento de políticas públicas, como o Grupo Executivo In- cia em Saúde do Trabalhador no Bra- terministerial de Saúde do Traba- BINDER , M. C.; CORDEIRO, R . 2003. Sub- lhador (G EISAT), que reúne os mi- registro de acidentes de trabalho em nistérios da Saúde, Trabalho e Pre- localidade de São Paulo. Revista de vidência Social. As ações do GEI - Saúde Pública, São Paulo, v. 37, n. SAT têm sido limitadas diante da falta de políticas integradas na esfera federal, refletindo a fragmentação e descontinuidade de políticas entre instituições que possuem culturas diferenciadas. Do ponto de vista intra-setorial e enquanto fator condicionante do próprio desenvolvimento das ações intersetoriais pelo setor saúde, uma importante questão a ser enfrentada é a da integração entre as várias vigilâncias e os modelos de promoção da saúde atualmente em discussão no país. Nesse sentido, o Congresso da ABRASCO de 2003 trou- 4, p. 409-416, 2003. L ACAZ, Francisco Antonio de Castro. Saúde do Trabalhador: um estudo sobre as formações discursivas da academia, dos serviços e do movimento sindical. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas UNICAMP , 1996. . Sobre a necessidade de revisão do atual modelo de atenção à saúde do trabalhador no SUS. Livro de Resumos... VI Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, 2000, . Saúde do Trabalhador: integradas, pela primeira vez, dos cenários e perspectivas numa con- diferentes grupos temáticos que juntura privatista. Conferência pro- possuem interesses comuns, embo- ferida nos Seminários de Saúde e ra tradicionalmente suas reflexões Trabalho. Departamento de Medici- e propostas venham sendo produ- na Preventiva e Social (DMPS) da zidas de forma isolada. As temáti- Faculdade de Medicina (FM) da Uni- cas são: vigilâncias sanitária, saú- versidade Federal de Minas Gerais de ambiental, educação em saúde, (UFMG), 2001. máticas e a construção de uma agenda comum de aprofundamento conceitual e troca de experiências poderá se configurar numa es- L AURELL, Asa C.; NORIEGA, M. Processo de Produção e Saúde. Trabalho e Desgaste Operário. São Paulo: C EBES/ MACHADO , Jorge Mesquita Huet. Alternativas e processos de vigilância em Saúde do Trabalhador: a heterogeneidade da intervenção. Tese (Doutorado). Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 1996. MONKEM , M. Espaço e Vigilância em Saúde: uma perspectiva operacional para a territorialização em Silos. VI Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. CD Rom, 2000. Oliveira, L. S. B. A intervenção do p.133. saúde do trabalhador e promoção sil. Relatório Final, 2002. [mimeo]. HUCITEC, 1989. xe avanços ao promover discussões da saúde. A integração dessas te- da Situação e Tendências da Vigilân- Estado nos ambientes de trabalho: origens, evolução no Brasil e análise crítica da prática da Delegacia Regional do Trabalho do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado). Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 1994. P AIM, Jairnilson da Silva. A Reforma Sanitária e os Modelos Assisten- . Vigilância em Saúde do ciais. In: ROUQUAYROL, M. Z. (Org.). Trabalhador. 2 a Conferência Nacio- Epidemiologia & Saúde. Rio de Ja- nal de Saúde do Trabalhador. 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Conclui-se que é necessário repensar que sistema de saúde queremos e quais mecanismos devem ser privilegiados na sua implementação. DESCRITORES: Descentralização; Financiamento da Saúde; SUS. ABSTRACT The sector reform and the creation of SUS meant in fact a legal change, extremely expressive in the Brazilian health policy. The decentralization of SUS is the core axis of its implementation, focusing on the analysis of intergovernmental relations established by the process of decentralization. MD, MPH, Ph. D, pesquisadora, docente do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (D APS) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Av. Brasil, 4.036 – sala 707 – Manguinhos CEP 21040-361 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 1 A revision of financial transfer and induction mechanisms implemented by the central level is suggested. It is also proposed that the role of institutionalized participation forums be reviewed with the reform. It is imperative to reanalyze the kind of health system we want and which mechanisms should be privileged in its implementation. DESCRIPTORS: Decentralization; Health Financing; SUS. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 207 ALMEIDA, Celia INTRODUÇÃO tação da reforma, mudando a ma- existindo diversas maneiras de me- neira de alocação de recursos, ins- dir o cumprimento de objetivos na A Reforma Sanitária brasileira foi titucionalizando os fóruns partici- sua implementação. Cada uma delas formulada na perspectiva de rom- pativos no processo decisório, de- produz diferentes resultados. A atua- per com o modelo corporativista tra- finindo estratégias prioritárias e ção do Estado no campo social e sua dicional, reverter a linha privatizante mecanismos de indução que preten- inter-relação com a sociedade tam- da política setorial e integrar áreas dem impulsionar a reorganização bém podem ser examinadas acom- correlatas de política social, histó- dos sistemas locais de saúde numa panhando as conseqüências das po- rica e estruturalmente tratadas em perspectiva transformadora. líticas de reforma já institucionali- separado. Formalizou um conceito Pode-se afirmar, hoje, que a des- zadas, pois, uma vez implementa- ampliado de saúde (correlacionan- centralização do sistema de servi- das, interferem com interesses cons- do-a com condições de vida, traba- ços de saúde para o nível munici- tituídos, mudam a agenda pública e lho e lazer) e mecanismos de parti- pal, sobretudo da atenção básica e os padrões de conflito entre grupos cipação e controle social. Propôs a que impulsionam as mudanças sub- instituição do Sistema Único de Saú- seqüentes (SKOCPOL; AMENTA , 1986). Em de (SUS), com acesso universal e síntese, as causas e os objetivos ori- igualitário, atenção integral em to- A REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA FOI dos os níveis, com privilégio do se- FORMULADA NA PERSPECTIVA DE ROMPER COM não são necessariamente os mesmos tor público e regulação efetiva so- O MODELO CORPORATIVISTA TRADICIONAL, que determinam os seus desenvolvi- para sua operacionalização, recupe- REVERTER A LINHA PRIVATIZANTE DA POLÍTICA resistência dos perdedores ou oposi- ração e ampliação do sistema de SETORIAL E INTEGRAR ÁREAS CORRELATAS cionistas, mas pela inerente dinâmi- serviços de saúde segundo a base DE POLÍTICA SOCIAL, HISTÓRICA E ca de sua operacionalização: freqüen- ESTRUTURALMENTE TRATADAS EM SEPARADO política de reforma traz resultados bre o setor privado. Pressupunha, geográfico-territorial, além de descentralização e fortalecimento do ginais de uma determinada política mentos. E isto se dá não apenas pela temente a implementação de uma poder local; revisão das fontes e inesperados ou não previstos por mecanismos de financiamento (in- seus formuladores. clusive tributação); mudança dos ambulatorial, é inegável. Entretan- As estruturas estatais e o dese- mecanismos de compra de serviços to, vários têm sido os percalços e nho institucional afetam o processo e das relações com os produtores de as dificuldades nesse percurso. Ava- decisório de uma determinada polí- insumos e equipamentos. Com a liar a gestão de uma política de re- tica, a partir de mecanismos admi- implementação do SUS pretendia-se, forma setorial cujos mecanismos de nistrativos e também políticos (EVANS; portanto, materializar o direito de operação do sistema de serviços fo- RUESCHEMEYER ; SKOCPOL , 1985; S KOCPOL; cidadania na saúde. ram seu principal eixo de implemen- AMENTA, 1986; ARRETCHE, 2003). Po- A reforma setorial e a criação tação pressupõe analisar em que rém, a forma de implementação, os do SUS significou, de fato, no pla- medida esses instrumentos estão, de mecanismos e incentivos, os instru- no legal, uma mudança extrema- fato, possibilitando o alcance dos mentos de indução e controles esco- mente expressiva na política de saú- objetivos formulados inicialmente. lhidos para operacionalizar e gerir de brasileira. A descentralização do Os efeitos de uma política podem determinada política interferem na SUS é o eixo central da implemen- ser analisados de várias formas, qualidade de ação dos governos, 208 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 As três esferas de governo e a construção do SUS: uma revisão assim como nas formas de medir temáticos, discutidos pelo Ministé- esferas governamentais. Fatores po- seus resultados, e refletem valores rio da Saúde (MS) – que identifica líticos e conjunturais foram particu- e escolhas políticas em momentos para cada um deles lacunas e desa- larmente importantes nesse proces- específicos, revelando os objetivos fios a serem enfrentados e diretrizes so (como a ‘era Collor’ e a sua desti- estratégicos de diferentes opções. de atuação para o avanço na con- tuição), porém, a especificidade do Sendo assim, não são apenas os solidação do SUS e da reforma se- novo pacto federativo brasileiro, que atributos da gestão local que garan- torial (BRASIL, 2003). começou a ser desenhado na década tem o cumprimento dos objetivos da Este artigo pretende contribuir de 1980, refletiu de forma particular reforma. “Modificações nos instru- para a discussão, privilegiando a na área da saúde, condicionando o mentos não significam (...) modifi- análise de um desses eixos temáti- ritmo de implementação da reforma cação de paradigma, isto é, na hie- cos que, por outro lado, é uma das e alguns de seus impasses. rarquia de objetivos de uma política dimensões centrais da implementa- Na área social como um todo, e pública” (HALL, 1993 apud ARRETCHE , ção do SUS: as relações intergover- de saúde em particular, como se tra- 2003. p. 332). Apesar disso, os ins- ta de políticas nacionais com cará- trumentos escolhidos e a forma de ter redistributivo (S ANTOS, 1998), nos operacionalização do desenho insti- diversos países a estrutura federa- tucional podem, de fato, alterar os objetivos iniciais de uma política. Daí a necessidade de um processo O DIREITO LEGAL DE ACESSO UNIVERSAL E EQÜITATIVO A AÇÕES E SERVIÇOS DE SAÚDE tiva do Estado sem sombra de dúvida é um fator importante mas não impeditivo a priori da implementa- contínuo e permanente de avaliação, EM TODOS OS NÍVEIS DE COMPLEXIDADE VEM ção dessas políticas. O desenvolvi- revisão e correção de rota, desde que SENDO ASSEGURADO A TODO CIDADÃO mento histórico dos sistemas de saú- os objetivos iniciais se mantenham vigentes, assim como a vontade po- BRASILEIRO COMO REGISTRADO NA C ONSTITUIÇÃO DE 1988? lítica de alcançá-los. de no século XX oferece exemplos elucidativos do esforço desenvolvido para a garantia de implementa- Nessa perspectiva, a pergunta ção de direitos universais de acesso fundamental que permanece no de- a serviços de saúde, segundo prin- bate é: o direito legal de acesso uni- cípios nacionais, tanto em países versal e eqüitativo a ações e servi- namentais estabelecidas pelo proces- com sistemas centralizados em ter- ços de saúde em todos os níveis de so de descentralização do sistema. mos de financiamento e mais orga- complexidade vem sendo assegurado a todo cidadão brasileiro como registrado na Constituição de nizados em redes regionais, hierar- RELAÇÕES INTERGOVERNAMENTAIS E DESCENTRALIZAÇÃO DO SUS 1988? Ou, em outras palavras, em quizadas e articuladas localmente (como o Reino Unido) (RUGGIE, 1996; BUTLER , 1994) quanto em países que medida o processo de imple- A implementação do SUS teve um muito descentralizados (como Sué- mentação do SUS está caminhan- caráter claramente municipalista. cia e Canadá) (TSALIKIS, 1989; IMMERGUT , do nessa direção? Ainda que constitucionalmente o 1992). Também temos exemplos pa- Com a realização da 12 Confe- município seja definido como respon- radigmáticos da importância da re- rência Nacional de Saúde (CNS, de- sável pela gestão de serviços e ações gulação em sistemas fragmenta- zembro de 2003), essa discussão é de saúde, previa também a coopera- dos, mas administrados corporati- crucial e foram definidos dez eixos ção técnica e financeira das demais vamente e sob segura batuta cen- a Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 209 ALMEIDA, Celia tral (como a Alemanha) (L EICHTER, A descentralização setorial no Bra- constrangimentos econômicos ganha- 1979; S TONE, 1980; GIOVANELLA, 2001); sil está inserida num processo mais ram destaque (ALMEIDA, 1996. p. 16). assim como da implementação de amplo de passagem de uma forma A Constituição de 1988 de fato programas nacionais em países extrema de federalismo centralizado definiu um novo arranjo federativo, igualmente descentralizados, mas para alguma modalidade de federa- com significativa transferência de sem uma política de saúde univer- lismo cooperativo, ainda não comple- recursos, capacidade decisória e sal (como os EUA) (RUGGIE , 1996; tamente definido (veja-se o atual de- funções. A federação brasileira re- STARR, 1991). O que muda em cada bate sobre a reforma tributária). O fato desenhada se caracteriza por forte país é o caráter da política de saúde desse processo ter sido iniciado antes descentralização das competências como política social (ordem e ritmo de 1988 está mais vinculado à dinâ- tributárias, sem mecanismos de re- da intervenção estatal, escopo da le- mica da democratização e crise fis- distribuição horizontal da receita gislação, esquema de financiamen- cal do Estado, que foram os grandes arrecadada, perpetuando as dispa- to, formato burocrático e institucio- condicionantes e determinantes da ridades inter-regionais; alta descen- nal de administração); e a natureza tralização do gasto final de governo do federalismo, das transferências (maior inclusive para o gasto so- e dos incentivos, como também a cial, com exceção da Previdência So- forma de implementá-los. O federalismo pressupõe relações intergovernamentais “constitutiva- A DESCENTRALIZAÇÃO SETORIAL NO B RASIL ESTÁ INSERIDA NUM PROCESSO MAIS AMPLO cial); e elevado nível de autonomia orçamentária, principalmente para os municípios (A FONSO, 1994; D AIN, mente competitivas e cooperativas”, DE PASSAGEM DE UMA FORMA EXTREMA DE 1995; P RADO, 2001). Isto significou com modalidades de interação en- FEDERALISMO CENTRALIZADO PARA ALGUMA também, inicialmente, uma subs- tre níveis “necessariamente baseadas na negociação”. Entretanto, as MODALIDADE DE FEDERALISMO COOPERATIVO, relações entre federalismo e descen- AINDA NÃO COMPLETAMENTE DEFINIDO tancial perda relativa da União na receita fiscal do país (ROSA , 1989 apud MELO ; AZEVEDO , 1996), recupe- tralização são sempre complexas, rada depois com o aumento da car- pois configuram “um compromis- ga e recentralização tributária (com so particular entre difusão e con- o Fundo de Estabilização Fiscal e a centração do poder político em vir- transformação do sistema federativo Lei Kandir) (PRADO, 2001; L ESBAUPIN, tude de algum modelo compartilha- brasileiro, em curso há praticamen- 2000), e transferiu primeiro recursos, do de nação e de graus socialmen- te duas décadas, no qual a política sem definição clara dos encargos cor- te desejados de integração política social é apenas um dos elementos respondentes e sem uma estratégia e de eqüidade social” (ALMEIDA , (A LMEIDA, 1995; 1996; M ELO, 1993; de redefinição das respectivas com- 1996. p. 14). E, no caso brasileiro, MELO; AZEVEDO, 1996), do que especi- petências dos níveis de governo (AFON - esse compromisso e esse modelo ficamente à política de reforma seto- SO, 1994; MELO ;A ZEVEDO, 1996; PRADO, não são claros e os formatos im- rial. Esses dois fatores – econômico 2001), retirando-os posteriormente, plementados são carregados de con- e político – ainda que concomitan- mas mantendo os encargos e sobre- tradições, moldados à princípio tes, tiveram pesos e influência diver- carregando o nível local. pela transição política e, posterior- sos, sendo que nos anos 1980 os Esse desenvolvimento peculiar mente, pela dinâmica dos ajustes impulsos democratizantes foram teve duas conseqüências principais: macroeconômicos. mais importantes e, após 1988, os não há qualquer orientação geral 210 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 As três esferas de governo e a construção do SUS: uma revisão para a necessária adequação dos ‘aproximar’ os governantes das ne- O recurso às normas operacio- mecanismos de financiamento fede- cessidades da população, responsa- nais para implementar a descentra- rativo, sendo que grande parte do bilizando-os por suas políticas, e in- lização na saúde foi a resposta do processo de descentralização é co- crementar o acesso da população aos executivo setorial frente a essa si- mandado pela dinâmica desse finan- serviços sociais. A falta de um cen- tuação federativa e a partir delas ciamento, e inverte-se a relação de tro de comando do processo foi par- tem-se tentado estruturar uma des- determinação: é a descentralização ticularmente importante, resultando centralização planejada de encargos financeiro-orçamentária que define em disputas e explicitação de dis- entre níveis de governo. O SUS, a descentralização dos encargos, ou tintos projetos com diferentes obje- como política nacional e como op- em outras palavras – “a receita ten- tivos e prioridades, perpetuando ção de implementação da reforma de a gerar seus próprios gastos” lógicas particulares de ações seto- na saúde, não partiu de um modelo (PRADO, 2001. p. 2). Embora alguns riais que presidiram a redistribui- acabado, mas foi se desenhando municípios tenham ampliado de for- ção de competências e atribuições paulatinamente, ao sabor dos diri- ma importante suas receitas pró- gentes no poder e das formas espe- prias e inovado de forma significati- cíficas encontradas para superar os va a gestão local (L ESBAUPIN, 2000), os freqüentes impasses conjunturais, instrumentos que operam a distribuição dos recursos entre níveis de governo ganham especial importância, sendo essencial avaliar os mecanismos que determinam a capacidade de gasto dos governos sub-nacionais, especialmente os municípios. No âmbito das políticas sociais, NOS ANOS 1990, financeiros e políticos. Por outro lado, a arena decisória estruturada A ÁREA SOCIAL FOI com a descentralização politizou de NEGLIGENCIADA, EM forma importante o processo de decisão. Daí os sucessivos ajustes que FUNÇÃO DAS PRIORIDADES as diferentes normas proporciona- ESTABELECIDAS PELO AJUSTE ram. A forma de transferência de recursos aos estados e municípios MACROECONÔMICO a descentralização teve motivações anteriores aos anos 1990 teve ca- diversas daquelas que geraram a racterísticas bastante diferentes da- redefinição do pacto federativo, mas quelas verificadas ao longo da dé- também apontaram para a munici- nas diferentes áreas (ALMEIDA, 1996. cada (MÉDICI, 1996, VIANA, 1996; palização. Além disso, não existe p. 17-18). E, nos anos 1990, a área C OSTA ; SILVA ; RIBEIRO , 1999; COSTA , consenso sobre os graus desejados social foi negligenciada, em função 2001; L EVCOVITZ ; L IMA ; M ACHADO , de integração política e eqüidade so- das prioridades estabelecidas pelo 2001). O importante é analisar os ru- cial, embora esses termos freqüen- ajuste macroeconômico. mos que essas sucessivas correções tem o discurso político-reformista. O que se espera do atual gover- de rota estão imprimindo à reforma. Concretamente, nos anos 1980, com no Lula é a reversão desse modelo e a transição, não se tratava de redefi- a priorização da política social como nir a natureza da intervenção públi- metapolítica (S ANTOS, 1998), isto é, ca de caráter social no âmbito de um a política que deveria orientar to- A questão central que permane- novo pacto federativo que fortaleces- das as demais, e não a perpetuação ce no debate é a da autonomia da se os estados, mas de redistribuir de sua submissão às políticas ma- gestão local versus implementação competências e funções de forma a croeconômicas de ajuste financeiro. de políticas de escopo nacional: a AUTONOMIA LOCAL X CONTROLE CENTRAL Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 211 ALMEIDA, Celia autonomia plena seria desejável em mendação de mecanismos que indu- rogeneidade não significam neces- nome da democracia e da heteroge- zam maior ou menor autonomia, sariamente fragmentação e impos- neidade, mas é fortemente dependen- uma análise mais precisa depende- sibilidade de implementação de prin- te da eficiência e competência dos ria de vários fatores, mas ressalta- cípios nacionais. E as diferentes sistemas decisórios locais e tenden- se entre eles a necessidade de maior transferências financeiras para dis- te a produzir mais fragmentação e clareza sobre o padrão de autono- tintos programas ou atividades, tam- perpetuar desigualdades; a vincula- mia municipal vigente na enorme bém não são uma invenção brasilei- ção condicionada, tal como imple- diversidade da realidade local. Por ra nem um problema per se, poden- mentada, transformou os municípios outro lado, a vinculação é uma al- do ser interpretadas como respostas em ‘preenchedores de requisitos ternativa correta para o SUS, mas específicas a distintos problemas. burocráticos’, inibindo a criativida- deve ser formatada para ajustar as Mas as formas de pagamento e os de e o desenvolvimento de capaci- transferências efetuadas de forma mecanismos que balizam essas trans- dade local para enfrentar demandas dinâmica e eficiente (P RADO, 2001), ferências fazem toda a diferença. diferenciadas (GOULART, 2001; BARROS, 2001). Aparentemente, essa dinâmica espelha, por um lado, a falta de confiança do nível central na capa- O RESULTADO CONCRETO TEM SIDO TRANSFERÊNCIAS FINANCEIRAS E INDUÇÃO CENTRAL cidade de implementação local, que EXCESSIVA NORMATIZAÇÃO BUROCRÁTICA, Na experiência de diversos paí- não é infundada; mas também o afã REDUÇÃO DO PODER DE DECISÃO LOCAL E ses, sobretudo os desenvolvidos e do executivo federal na definição de critérios ‘precisos’, que garantam o CONTROLES FUNCIONAIS DESVINCULADOS DA cumprimento de parâmetros de po- AVALIAÇÃO DE RESULTADOS, CONFIGURANDO lítica nacional fixados centralmen- O QUE ALGUNS AUTORES DENOMINARAM te. O resultado concreto tem sido excessiva normatização burocrática, “DESCENTRALIZAÇÃO TUTELADA” que incluem a saúde na cesta de benefícios do Estado de Bem-estar Social, por sua natureza e por opção política, a área de saúde tem sempre algum grau de gestão centralizada de recursos, ainda que a redução do poder de decisão local e execução do gasto seja (e em geral controles funcionais desvinculados é) descentralizada. E isto é verdade da avaliação de resultados, configu- mantendo coerência entre os instru- mesmo em países em que a maior rando o que alguns autores denomi- mentos introduzidos e os objetivos parte da arrecadação de recursos naram “descentralização tutelada” da política que se quer implemen- que financia o sistema é local, como (ARRETCHE; RODRIGUEZ , 1999. p. 130). tar. Apontaremos apenas algumas na Suécia. Em geral, os aportes fe- questões para reflexão que nos pa- derais (ou estaduais) priorizam ati- recem importantes. vidades ou programas que induzem Sendo assim, a diretriz do Ministério da Saúde de “superação do processo burocrático-normativo” Os objetivos gerais de uma polí- um nível de gasto superior ao que (B RASIL, 2003. p. 11) é correta, mas tica de saúde que se pretende uni- resultaria de decisão orçamentária seria importante discutir melhor os versal podem (e devem) ser nacio- local e se destinam à indução do instrumentos e mecanismos a se- nais e similares, mas não necessa- cumprimento de determinados obje- rem instituídos. riamente a sua implementação deve tivos, definidos pelos governos de Embora seja difícil estabelecer ser “isonomista” (G OULART, 2001); em níveis superiores ou acordados no uma base lógica e simples de reco- outras palavras, diversidade e hete- pacto federativo, normalmente com 212 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 As três esferas de governo e a construção do SUS: uma revisão a finalidade de superar desigualda- pecífico de gasto, o que reduziria o De uma maneira geral, quando des e heterogeneidades. E, para tal, custo marginal do gasto social e ten- a demanda e a necessidade podem as condicionalidades são necessá- deria a superar a sub-otimalidade do ser quantificadas com alguma pre- rias e amplamente utilizadas. Nor- gasto local (P RADO, 2001; FERREIRA , cisão, o que não é tarefa fácil mas malmente são operadas como 2002). O problema é que esse siste- não impossível, a vinculação entre transferências negociadas, ou con- ma exige um monitoramento rigoro- o recurso financeiro repassado e as dicionadas, de caráter complemen- so para coibir o incentivo às fraudes atividades específicas têm grande tar e adicionais às transferências le- embutido na contabilização dos gas- chance de ser bem sucedidas, como gais, sendo mais ‘flexíveis’ e diri- tos. Federações altamente descentra- por exemplo, no controle das ende- gidas a políticas seletivas, na pers- lizadas, com estados e municípios mias (e outros programas verticais). pectiva de propiciar maior unifor- extremamente autônomos, inclusive No caso brasileiro, esse controle his- midade nos padrões do gasto per em termos de arrecadação fiscal, toricamente era realizado de forma capita, ou para atender situações como por exemplo, o Canadá (S TE- centralizada, com relativo grau de emergenciais ou excepcionais. sucesso, e foi desorganizado tanto O sistema de transferência de re- pelo stress fiscal quanto pelo pro- cursos ‘em bloco’ (block grants), uti- cesso de descentralização, com re- lizado pelo SUS, é independente da contribuição do nível local para a A VINCULAÇÃO ENTRE O RECURSO provisão de serviços, induz as áreas FINANCEIRO REPASSADO E AS ATIVIDADES menos povoadas a gastarem menos com saúde e privilegia as áreas ur- ESPECÍFICAS TÊM GRANDE CHANCE DE SER banas, estimulando a competição fis- BEM SUCEDIDAS, COMO POR EXEMPLO, NO cal com municípios vizinhos. O re- CONTROLE DAS ENDEMIAS curso a limites mínimos do gasto em crudescimento de epidemias. Naqueles anos, quando a disponibilidade financeira foi menor, o programa que mais sofreu cortes foi o de Controle de Doenças Transmissíveis que, em 1996, alcançou o patamar mais baixo de gasto e, embora tendo recuperado mais recursos na segun- saúde (Emenda Constitucional 29) da metade da década, a proporção também tenderá a prejudicar aque- que lhe foi destinada em 1999 era les municípios menores (menos de 10 menor que a de 1993 (REIS; R IBEIRO; mil habitantes), uma vez que os VENSON ; WILLIANS; V AYDA, 1988) e a P IOLA, 2001). E existem indícios de maiores já atingiram o patamar de Suécia (I MMER GUT, 1992; A NELL , que a descentralização também afe- gasto preconizado (FERREIRA, 2002. p. 1996), historicamente têm utiliza- tou de forma importante esses pro- 6), além de praticamente pouco ou do ambos os métodos de transferên- gramas, primeiro porque não foram nada alterar em relação ao gasto cias, mas sempre na perspectiva de contemplados nas primeiras nor- atual (MÉDICI, 2002). Outra alternati- garantir a coordenação central dos mas, centradas fundamentalmente va, bastante utilizada em certos rumos do sistema de saúde numa na assistência médica; e segundo países são as chamadas ‘transferên- perspectiva universal e mais eqüi- pela desorganização local frente à cias casadas’ (matching grant), tativa. Em síntese, centralização e retirada do nível central que coman- quando o governo central paga uma descentralização pressupõem o es- dava e operava os programas verti- parcela fixa do total de gastos do ní- tabelecimento de uma relação dia- cais localmente (BRITO, 2002). vel local, regulado em função do seu lética entre distintos níveis e ato- Quanto à priorização da atenção interesse em incentivar um tipo es- res e não polarizações excludentes. básica e dos repasses de recursos Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 213 ALMEIDA, Celia per capita, são recomendados para nova sistemática distributiva, ape- (como os programas especiais – Pro- os casos de países com níveis ele- sar de igualar valores per capita grama Saúde da Família [PSF] e Pro- vados de pobreza e grande desigual- para o financiamento de atividades grama de Agentes Comunitários de dade de distribuição de renda, na ambulatoriais consideradas básicas, Saúde [P ACS]), por um lado, e os de- perspectiva de garantir níveis míni- não leva em conta as desigualda- mais procedimentos de maior com- mos de atendimento de serviços bá- des inter-regionais, seja no que se plexidade e a atenção hospitalar, por sicos, não proporcionados por boa refere às necessidades de saúde, seja outro, não estão direcionados para parte dos governos locais. Por ou- em relação à rede existente de ser- induzir a maior integração dos dis- tro lado, a experiência de países da viços nas diferentes regiões (A LMEIDA tintos níveis de complexidade da OECD demonstra que a atenção pri- et al., 1999). Portanto, o efeito ho- atenção e aumentar a resolutivida- mária (ou básica) tem sido priori- mogeneizador do PAB (L EVCOVITZ; de do sistema, nem levam em con- zada, mesmo naqueles sistemas LIMA ; MACHADO , 2001. p. 288), embo- sideração a especificidade da reali- mais hospitalocêntricos (como a ra possa ser mais redistributivo, dade local, configurando, de fato, Suécia), ou nos tipicamente ‘libe- um ‘pacote básico’ e ‘gargalos’ de rais’ nesse nível de atenção (como acesso que dificultam a mobilidade a França). Os mecanismos e metas OS PLANOS PRIVADOSDE SAÚDE REPRESENTAM do usuário entre distintos serviços variando do repasse per capita, pa- MAIS UMA SEGMENTAÇÃO NA ESTRUTURA DE assimetrias históricas entre o setor gamento por capitação, por proce- CONSUMO DE SERVIÇOS, QUE APROFUNDA AS público e o privado, cujo mix de ser- são diferentes de um país a outro, dimento ou contratos, dependendo da especificidade de cada sistema. DESIGUALDADES GEOGRÁFICAS E SOCIAIS no sistema. Tampouco alteram as viços é diferente em cada localidade, estruturado segundo uma lógi- Mas de uma maneira geral, essas EXISTENTES , UMA VEZ QUE A DISTRIBUIÇÃO reformas têm a perspectiva de di- DAPOPULAÇÃO COBERTA E NÃO-COBERTAÉ ca, sem relação com as necessida- HETEROGÊNEA E PRIVILEGIA AS REGIÕESMAIS RICAS planos privados de saúde represen- minuir o gasto hospitalar e reduzir o número de leitos, por um lado, ca de oferta desordenada e casuístides de saúde da população. E os mas também buscam melhorar a tam mais uma segmentação na es- eficiência produtiva nesse nível de trutura de consumo de serviços, que atenção, definir porta de entrada no pode não ser mais eqüitativo, uma aprofunda as desigualdades geográ- sistema, promover a integração pla- vez que o alcance da eqüidade pres- ficas e sociais existentes, uma vez nejada entre níveis e focalizar em supõe a distribuição desigual de que a distribuição da população medidas de prevenção (O R, 2002; recursos, para compensar as desi- coberta e não-coberta é heterogênea SMEE, 2002; REHNQVIST , 2002; KLAZIN - gualdades (P ORTO, 1997; A LMEIDA et e privilegia as regiões mais ricas GA, al., 1999). Além disso, o uso das (T RAVASSOS et al., 2000). D ELNOIJ ; KUL U-G LASGOW , 2002; WOFSON ; ALVAREZ, 2002). séries históricas como base de cál- Os incentivos, por sua vez, não Com as mudanças na alocação culo para o financiamento da aten- necessitam ser exclusivamente fi- de recursos para a atenção básica ção básica, sem ajustes por algum nanceiros, podendo estar direciona- no SUS, a partir de 1998 (com o Piso indicador de necessidades, perpetua dos para as ‘funções nobres’ do ní- de Atenção Básica - PAB), observa- a desigualdade ou as carências his- vel federal (BARROS, 2001), fundamen- se alguma melhora na redistribui- tóricas. E as diferentes estratégias e talmente redistributivas, isto é, me- ção de recursos. Entretanto, essa os incentivos para a atenção básica lhorar os níveis de eqüidade do sis- 214 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 As três esferas de governo e a construção do SUS: uma revisão tema de serviços – investimento em tratos ‘em bloco’, que preservam a dá) (WOLSON ; A LVAREZ, 2002; CIHI , capacidade instalada, avaliação tec- experiência histórica dos serviços e 2001) e Suécia (REHNQVIST , 2002; ANE - nológica, suporte técnico, desenvol- os custos de transação são altos, LL , vimento de capacidade de implemen- postergando a avaliação das neces- Reino Unido) (S MEE, 2001). tação, regulação e distribuição da sidades de saúde, que deveria nor- A dinâmica recente desse proces- força de trabalho, sistemas de infor- tear a elaboração dos contratos de so em alguns países é ilustrativa: mação e produção de indicadores de serviços a serem oferecidos (HAM , cada vez mais o debate tem enfati- resultados, etc. A adesão dos níveis 1996; ILIFE; MUNRO , 2000). zado os aspectos políticos das polí- 1996) ou centralizados (como o sub-nacionais deve ser induzida, A revisão da tendência munici- ticas de saúde (S MEE, 2002) e tem nos sem dúvida, mas a pletora de ins- palista (com a Norma Operacional suscitado a revisão dos objetivos dos trumentos e de exigências burocrá- de Assistência à Saúde [NOAS] 2001 sistemas de serviços – o que se quer ticas, atrelada a repasses e incenti- e 2002), com recuperação do papel com as reformas? A questão do de- vos financeiros, tem levado à ade- do nível estadual e a organização sempenho dos serviços de saúde, são formal aos requisitos, para ter ponto central dessa agenda, tem acesso ao financiamento e não ne- obrigado a refletir sobre o “que se cessariamente vinculada ao alcan- entende por sistema de saúde” ce de determinados resultados. A utilização do instrumento contrato, de forma genérica, como su- PODER-SE-IA APROVEITAR, PORTANTO, PARA DESENCADEAR UM PROCESSO AMPLO DE gere a diretriz do Ministério da Saú- REVISÃO DO SUS, SEJA DAS PRIORIDADES DA de anteriormente mencionada (BRA- POLÍTICA DE REFORMA, SEJA DAS RELAÇÕES SIL, 2003. p. 11), pode ser uma al- ternativa, mas requer grande capa- INTERGOVERNAMENTAIS, SEJA DAS FORMAS DE cidade de implementação, seja do TRANSFERÊNCIA E MECANISMOS DE INCENTIVOS (quais os seus limites) (WOLFSON; A LVAREZ, 2002. p. 134; PAHO, 2001a; 2001b; 2001c) e quais os objetivos se pretende priorizar. Essa dinâmica tem apontado para a mudança de foco nos controles, monitoramentos e mecanismos de indução. Poder-se-ia aproveitar, portanto, para nível central, seja do nível estadual desencadear um processo amplo de e local, uma vez que exige a defini- revisão do SUS, seja das priorida- ção clara do que se quer contratar, des da política de reforma, seja das das metas que se quer alcançar e de regiões, é bem-vinda e quase tar- relações intergovernamentais, seja dos indicadores de desempenho para dia. Nas últimas décadas observa- das formas de transferência e meca- medir o alcance do cumprimento das se essa tendência à regionalização nismos de incentivos, aliás, como cláusulas contratuais, assim como também nos distintos países, numa preconizado no documento do Mi- permitir um adequado monitora- perspectiva de fortalecer a condução nistério (BRASIL; 2003 p. 12), mas mento e uma avaliação dos resulta- coordenada do sistema, vinculada levando em conta o aprendizado da dos. Por outro lado, exigem consi- a metas de maior responsabilização experiência passada e, principal- derável tempo de negociação entre com a coisa pública e medidas de mente, os problemas que emergiram ‘compradores’ e ‘vendedores’ de ser- desempenho. Isso acontece mesmo ou não foram resolvidos. viços (os chamados ‘custos de tran- naqueles países historicamente mu- Seria necessário, portanto, inves- sação’). Nesse aspecto, a experiên- nicipalistas (como a Itália) (BRENNA; tir com vigor nos sistemas de infor- cia inglesa pode ser uma referência: M APELLI ; T ROGNI , 1988; BARILETTI , mação e monitoramento, vincula- cada vez mais predominam os con- 1990), descentralizados (como Cana- dos, porém, à elaboração de indica- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 215 ALMEIDA, Celia dores de resultados e de um siste- de atendimento que avilta o cidadão reforma de fato implementada. O in- ma de avaliação de desempenho e, muitas vezes, pode resultar na vestimento programado nas áreas que obrigaria repensar não apenas sua morte, piora da enfermidade ou com maior demanda e necessidades as formas de transferências e defi- dano mais profundo. de saúde, mas com oferta inadequa- nição de papéis dos diferentes ní- Isto suscita a discussão sobre as da, deveria estar embutido, portan- veis de governo, mas também as dimensões do sistema que não fo- to, nas revisões sugeridas acima, o prioridades e os rumos que se quer ram tocadas na reforma da saúde e que implica distribuição desigual de imprimir ao sistema. E para o isso, que agravam a heterogeneidade e a recursos numa perspectiva de mai- o próprio nível central teria que se fragmentação. Entre elas, algumas or busca da eqüidade. capacitar, para induzir de forma seguem seu próprio curso, como a efetiva e apoiar o desenvolvimento natureza do mix público e privado dos níveis subnacionais. de serviços, a produção e distribui- ARENA DECISÓRIA, PARTICIPAÇÃO E CONTROLE SOCIAL ção de insumos médico-hospitalares, FLUXO DE PACIENTES E REDES DE SERVIÇOS Um outro ponto relacionado a essa temática e que merece reflexão é a natureza dos mecanismos de Quanto ao fluxo de pacientes en- ESSA ASSIMETRIA ENTRE O tre redes de serviços de distintos AVANÇO NO PROCESSO DE tucionalizados com a reforma. Con- municípios, também mencionado DESCENTRALIZAÇÃO E AS ÁREAS figurou-se uma dinâmica inovadora como um desafio pelo documento do Ministério (BRASIL, 2003), é o recur- NÃO TOCADAS NÃO É CASUAL, so natural, legítimo e legal do usuá- NEM É UMA QUESTÃO MENOR E rio/cidadão frente a uma oferta desigual e heterogênea, que o obriga DESVELA A NATUREZA DA REFORMA DE FATO IMPLEMENTADA a compor a ‘cesta de consumo’ ne- participação e controle social insti- no processo decisório setorial, que tem alterado a correlação de forças na arena decisória e permitido a negociação na formulação e implementação da política de saúde. Desenhados numa perspectiva democratiza- cessária para curar suas mazelas dora, os diferentes fóruns consti- segundo sua capacidade de deslo- tuem arenas privilegiadas em que os camento e acesso a sistemas mais a regulação da força de trabalho representantes dos diversos interes- bem equipados, principalmente (dimensão, distribuição, ‘dupla mi- ses setoriais expressam sua voz e quando não pode comprar no mer- litância’, formas de remuneração, voto. E as diferentes normas operaci- cado os serviços de que necessita. etc.); e outras que estão sendo me- onais que regulamentam o processo Também não é uma especificidade xidas há pouco tempo, como a re- de descentralização restauraram o do sistema brasileiro, pois vários gulação dos planos de saúde priva- poder de comando do sistema pelo Mi- outros países enfrentam esse proble- dos, a vigilância sanitária e epide- nistério de Saúde, deslocando outras ma. Entretanto, a solução não está miológica, a produção/distribuição esferas de poder (como o Legislativo). apenas nos mecanismos de ressar- de medicamentos. Essa assimetria Entretanto, “a dinamização e amplia- cimento, uma vez que não resolvem entre o avanço no processo de des- ção do processo de negociação e pac- a questão da sobrecarga de deter- centralização e as áreas não toca- tuação” (BRASIL, 2003. p. 12) deveria minados serviços, das filas de espe- das não é casual, nem é uma ques- levar em consideração algumas ques- ra ou da peregrinação pela busca tão menor e desvela a natureza da tões, que destacamos a seguir. 216 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 As três esferas de governo e a construção do SUS: uma revisão O processo de decisão institucio- tividade prática de discussões e deci- te é necessário. Queremos um ‘sis- nalizado tem deslocado os movi- sões (C ORTES, 1998; VALLA, 1998; C AR- tema nacional de saúde’ ou um mentos de participação e expressão VALHO, 1995; LABRA, 2001). ‘subsetor público para pobres’ ou na área setorial para as Comissões Atualiza-se, assim, a discussão menos aquinhoados, isto é, mais Intergestoras – CIT (em nível federal sobre os mecanismos mais adequa- de 70% da população? Na realida- e estadual), eminentemente tecnobu- dos para o exercício da democracia de nunca houve consenso entre os rocráticas. E a CIT cumpre papel participativa, além de suscitar a re- diversos atores sobre a ‘imagem- arbitral nas complicadas negocia- flexão sobre a funcionalidade e per- objetivo’ do SUS. ções relativas à descentralização tinência desses arranjos institucio- Sem desqualificar os avanços política, administrativa e financei- nais (S ANTOS, 1998; L ESBAUPIN, 2000). conseguidos (que não são poucos) ra do SUS, uma vez que reúne, em A maior politização das discussões e a complexidade desse empreendi- nível federal, os principais gestores sobre a reforma setorial, a comple- mento, num país continental, com da arena, e sua pauta de discussão xificação das negociações e a obri- enorme heterogeneidade e imensas é praticamente elaborada pelo exe- desigualdades, até o momento o re- cutivo central. Essa institucionali- sultado do processo de reforma não zação resgata, em certa medida, o tem apontado para a construção do poder da tecnoburocracia setorial e traz para esse fórum de negociação entre gestores os conflitos inerentes O GRANDE DESAFIO PARA A SUS tal como formulado na Carta Magna e nas leis que o instituíram. REFORMA NA SAÚDE ESTÁ Inicialmente pensado como um sis- às relações entre os diversos níveis EM EXPLICITAR CLARAMENTE O tema nacional de saúde, predomi- de governo, tendendo a favorecer QUE SE PRETENDE COM O SUS nantemente público, que harmoni- detinham maior poder de barganha, E DIMENSIONAR QUE TIPO público e privado de serviços (sua ou que passam de um cargo a ou- DE AJUSTE É NECESSÁRIO aqueles atores que historicamente já zasse e regulasse o complexo mix marca histórica e estrutural), o SUS tro, permanecendo na esfera de po- é visto hoje pela população, policy der, não raro em diferentes níveis de makers, analistas, pesquisadores e governo. Mais ainda, essa dinâmi- outros diferentes atores, como o ca legitima as propostas de política gatoriedade de exposição ao debate ‘subsistema’ público, ou a ‘alterna- do governo federal. de diferentes ‘projetos’ e perspecti- tiva’ para os que ‘não podem pagar’, Isso se dá também em detrimento vas na implementação da reforma é ou a ‘oportunidade’ de uso de cer- de certo desprestígio dos foros cole- um ganho em si, mas não elimina tos serviços para os que pagam por giados com participação paritária da ou minimiza necessidades de ajus- serviços privados, mas dispõem de sociedade civil, como os Conselhos tes e revisões de mecanismos. acesso diferenciado ao SUS a par- de Saúde, nos diversos níveis, nos quais persistem muitos problemas, tir de canais privilegiados. A frag- PARA CONCLUIR mentação e dualidade do sistema mencionados na literatura, desde a têm sido confirmadas (vingou a seg- dificuldade de participação em discus- O grande desafio para a refor- mentação perversa e o mix públi- sões técnicas, falta de rotatividade das ma na saúde está em explicitar cla- co/privado desordenado), a hetero- representações, até o desvirtuamento ramente o que se pretende com o geneidade e as desigualdades não do papel dos Conselhos e falta de efe- SUS e dimensionar que tipo de ajus- têm sido superadas. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 207-220, set./dez. 2003 217 ALMEIDA, Celia Isto não quer dizer que não ca- ARRETCHE , M. Financiamento federal NHS Reforms. London: King’s Fund minhamos nada. Ao contrário, ca- e gestão local de políticas sociais: o Institute, 1994. p. 12-23). minhamos bastante, mas numa di- difícil equilíbrio entre regulação, reção diferente daquela preconiza- responsabilidade e autonomia. Saú- da pelo impulso inicial da reforma. de & Ciência Coletiva, Rio de Janei- Talvez assumir essa constatação ro, v. 8, n. 2. 2003. p. 331-343. seja o primeiro passo para mudar e isso só será possível repensando que sistema de saúde queremos e quais mecanismos devem ser privilegiados na sua implementação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Saúde. 120 Conferência Nacional de Saúde Sergio Arouca. Propostas e Diretrizes do Ministério da Saúde para os Eixos ARRETCHE, M.; RODRIGUEZ, V. (1999). Temáticos. 2003. (mimeo). Descentralizar e universalizar a CARVALHO, Antonio Ivo de. Conselhos atenção à saúde. In: Descentraliza- e saúde no Brasil – participação ci- ção das Políticas Sociais no Brasil. dadã e controle social. Rio de Janei- São Paulo:FAPESP/IPEA/Edições FUNDAP, ro: IBAM/FASE , 1995. 135 p. 1999. p. 126-158. CANADIAN INSTITUTE OF HEALTH INFORMATION BARILETTI, A. et al. “Aspetti Distributivi AFONSO, J. R. R. Dilemas da Saúde: (C IHI ). 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Ao mesmo tempo, a 6ª Coordenadoria Regional de Saúde buscou fortalecer o sistema de petição e prestação de contas em relação aos municípios ampliando a participação da população no controle das políticas públicas. DESCRITORES: Descentralização; Accountability; Sistema de Saúde; Administração Pública; SUS. ABSTRACT This article’s goal is to discuss the practical relationship between two fundamental concepts of Public Administration of Health: decentralization Mestre em Saúde Pública, professor de Planejamento em Saúde da Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro, tutor do Curso de Aperfeiçoamento Gestão em Saúde – Ensino a Distância da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ), assessor-chefe de Planejamento da Fundação Municipal de Saúde de Niterói (RJ) Rua Benjamin Constant, 135/308 CEP 20241-150 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 1 and accountability. We take the experience in the 6th Health Region in Rio Grande do Sul, Brazil, as a reference to reflection. The decentralized consulting applied to the municipalities and the financing model both promoted decentralization and autonomy. At the same time, the 6th Health Region strengthened the requisition and accountability systems, increasing popular participation in public policy control. DESCRIPTORS: Decentralization; Accountability; Health System; Public Administration; SUS. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 221 LIMA, Juliano de Carvalho INTRODUÇÃO Em estudo realizado sobre a gestão de um sistema regional de saú- e o fato de estarmos trabalhando com também ser capaz de melhor pres- foco voltado para o processo de ges- tar contas.” tão global não nos permitiu um aprofundamento dessa discussão. Neste artigo buscaremos explorar alguns dos resultados obtidos no de no Rio Grande do Sul, pudemos No entanto, esses resultados nos referido estudo, resultados estes que observar a conformação de uma remetem, agora, para uma discus- permitam lançar alguma luz sobre gestão descentralizada, com envol- são sobre um tema bastante caro à aquela pergunta, no âmbito do sis- vimento de vários atores no proces- administração pública do setor saú- tema de saúde brasileiro. Para tan- so de tomada de decisão e, ao mes- de: como conciliar maior descentra- to, focalizaremos brevemente as atu- mo tempo, a organização de meca- lização com maior responsabilida- nismos que visavam garantir que de para com os cidadãos? os gestores municipais de saúde Dentre as principais idéias de prestassem conta de suas ações Contandriopoulos (1996. p. 60) para (L IMA, 2003). clusivamente da 6ª Coordenadoria Regional de Saúde (6ª CRS) sobre os municípios, mas sim organizados de modo a permitir maior en- apresentaremos o caso da 6ª Região de Saúde do Rio Grande do Sul, destacando alguns dos aspectos da sua ram para combinar descentralização ênfase desses mecanismos de petitarem voltados para a regulação ex- ção e accountability. Em seguida, gestão que, ao nosso ver, contribuí- Chamou-nos a atenção o fato da ção e a prestação de contas não es- ais discussões sobre descentraliza- A DESCENTRALIZAÇÃO TEM SIDO UM DOS MAIORES CONSENSOS NO ÂMBITO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS, INCLUSIVE ENTRE OS DIFERENTES e accountability. DESCENTRALIZAÇÃO E ACCOUNTABILITY: BREVE DISCUSSÃO CONCEITUAL A descentralização tem sido um volvimento da população no pro- MOVIMENTOS DE REFORMA DO E STADO dos maiores consensos no âmbito cesso de prestação de contas atra- E DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA os diferentes movimentos de refor- vés, principalmente, dos conselhos das políticas públicas, inclusive entre ma do Estado e da administração de saúde e de audiências públicas pública. Ela tem sido difundida tan- nos municípios. to pelos movimentos mais conser- Naquele momento destacávamos superar a crise mundial na saúde e vadores, quanto pelos mais progres- a importância destes mecanismos organizar uma nova utopia para o sistas. Variam, porém, a percepção para ampliar a accountability na setor, está a necessidade de se “As- e os objetivos: redução do tamanho região, compreendendo esta última segurar o papel central dos cidadãos do Estado e maior eficiência no pri- como a existência de mecanismos no sistema de saúde; descentralizar meiro caso, e maior eficácia, justi- institucionais efetivos que permitem as decisões e o funcionamento dos ça social e democracia no segundo aos cidadãos serem esclarecidos e sistemas de saúde; associar a auto- (JUNQUEIRA , 1997). cobrarem o cumprimento das res- nomia sobre os modos de fazer e Muito tem sido escrito e discuti- ponsabilidades dos governantes, uma obrigação de prestar contas dos do sobre o tema. Mas qualquer que gerando comprometimento perma- resultados obtidos”. seja o conceito de descentralização nente dos dirigentes públicos em Para Trosa (2001. p. 47), trata- que se adote, ele pressupõe, sem- relação às necessidades da popula- se de uma verdadeira revolução pre, transferência de poder do nível ção. A pouca interação com o tema cultural: “Sou mais livre mas devo central para os outros espaços de 222 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 Descentralização e Accountability em uma Região de Saúde poder, garantindo maior controle sistas (A NDRADE, 1996). Por isso a gressiva de responsabilidades para os das instâncias descentralizadas so- descentralização é tão associada governos estaduais e municipais. bre a tomada de decisão. tanto à maior possibilidade de exe- Uma análise cuidadosa da descentra- Misoczky(2002) diferenciadescentralização administrativa de descentralização política. Na primeira, prevaleceria uma transferência de competências e funções, com o objetivo de alcançar maior eficiência na gestão. Neste texto, no qual se busca uma articulação entre descentralização e accountability, adotamos uma cução das políticas sociais – como lização no Brasil demonstra a sua exemplo, ver associação entre des- complexidade e ambigüidade: abordagem de cunho mais político, tralização vem sendo relativizado. centralização e acesso aos serviços de saúde, estabelecida por Hortale (2000) – quanto à maior possibilidade de democratização, através da maior participação e controle realizado pela população. No entanto, o potencial democratizante da descen- aproximando o tema de idéias como democracia, transferência de poder e justiça social. Este tipo de abordagem Os conflitos de interesse entre as esferas de governo, as prioridades divergentes das elites políticas locais, a aparente ampliação da corrupção e o fraco desempenho de muitos governos subnacionais em combater as maiores chagas da sociedade – a fome e a pobreza – são características do atual processo de descentralização (BROSE , 2002. p. 93). Existem sérios desvios daquilo A ESTRUTURA DE PODER LOCAL, que deveria ser um ‘bom governo pressupõe autonomia de recursos e de poder de decisão nos níveis des- PRINCIPALMENTE NOS MUNICÍPIOS destaca-se não apenas a corrupção, centralizados, e o estabelecimento de MENORES, AINDA É UM POTENTE FATOR espaços de participação dos cidadãos. Ao mesmo tempo consideramos, em EXPLICATIVO PARA AS DIFICULDADES DA função da natureza do caso apresen- DESCENTRALIZAÇÃO, POIS NESTES MUNICÍPIOS tado (uma região de saúde), as duas dimensões abordadas por Hortale (1997): a dimensão territorial, pela AINDA PREVALECE UMA ESTRUTURA POLÍTICA PATRIMONIALISTA local’ (BROSE, 2002). Neste sentido, mas o autoritarismo e o amadorismo. A estrutura de poder local, principalmente nos municípios menores, ainda é um potente fator explicativo para as dificuldades da descentralização, pois nestes municípios ainda prevalece uma estrutura política pa- maior proximidade do nível local com trimonialista, com pouca distinção os serviços, quando haveria maior entre o público e o privado. possibilidade de controle por parte dos Trosa (2001) relata experiências Em Minas Gerais foi realizada setores organizados; e a dimensão fun- de países da OCDE que investiram uma pesquisa, coordenada por Fi- cional, pela criação de espaços de au- na descentralização e, hoje, sentem gueiredo et al. (1998), com o objeti- tonomia e participação. alguns efeitos negativos deste pro- vo de analisar a estrutura de poder No Brasil a descentralização en- cesso. Determinados problemas local e suas relações com o sistema trou em cena de maneira pragmáti- surgiram na tentativa de imple- de saúde. Dentre as conclusões das ca a partir da redemocratização do mentação de objetivos transminis- autoras, estão as seguintes: em al- País. Houve várias razões para isto, teriais devido à fragmentação e ao guns casos não foram observadas dentre elas a percepção de um défi- isolamento das organizações. mudanças na gestão da saúde e nem cit de efetividade e responsabiliza- Já no Brasil, a descentralização na ampliação dos canais de parti- ção nas políticas sociais (COSTA, SIL- é impulsionada a partir da Constitui- cipação; o despreparo das burocra- e RIBEIRO , 1999) e o desejo de de- ção Federal de 1988, e a partir de en- cias municipais dificulta a imple- mocratização dos setores progres- tão tem havido uma transferência pro- mentação da gestão descentraliza- VA Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 223 LIMA, Juliano de Carvalho da; com a descentralização da saú- privilegiado mecanismos que colo- sabilidade para com seu presiden- de, a assistência à saúde tem se tor- cam a ênfase nos clientes e nos re- te...” (FERLIE et al., 1999. p. 325). nado objeto de barganha política; em sultados através da avaliação do Neste modelo de prestação de con- alguns municípios, a descentraliza- desempenho individual, das compe- tas o verdadeiro interessado, o cida- ção da saúde vem fortalecendo o cli- tências e das relações contratuais. dão, fica de fora, mesmo sendo ele, entelismo; quando não há disposi- Este tipo de sistema de prestação de em última análise, o financiador de ção das administrações para apoiar contas se contrapõe à administração todas as atividades do setor públi- a descentralização pode haver pio- burocrática, cujas formas de ava- co. Os mecanismos de controle e de ra da prestação de serviços; os con- liação estão baseados nos proces- prestação de contas internos à bu- selhos têm pouca atuação na ges- sos e no controle hierárquico. rocracia são, portanto, insuficien- tão da política municipal de saúde. Na administração clássica (bu- Toda essa discussão remete para rocrática) pode-se dizer que os ins- a necessidade de se conciliar maior trumentos utilizados para a presta- tes para garantir accountability (C AMPOS, 1990). A tradição do controle sempre descentralização e autonomia com esteve voltada para dentro do apa- maior responsabilidade e dever de relho do Estado. A população rara- prestar contas, ampliando a accoun- A TRADIÇÃO DO CONTROLE SEMPRE ESTEVE mente é consultada e, muito menos, VOLTADA PARA DENTRO DO APARELHO DO recursos que saem do seu bolso para financiar os serviços públicos. cia dos mecanismos de prestação de E STADO. A POPULAÇÃO RARAMENTE É CONSULTADA E, MUITO MENOS , ESCLARECIDA contas. Em primeiro lugar, não há SOBRE A DESTINAÇÃO DOS RECURSOS QUE monstrado preocupação com a ques- tability, ou responsabilidade final. No setor público, e na área da saúde em especial, há inúmeras razões para a insuficiência e ineficá- uma cultura neste sentido; em segundo lugar, há uma certa visão de SAEM DO SEU BOLSO PARA FINANCIAR OS SERVIÇOS PÚBLICOS que os mecanismos de avaliação esclarecida sobre a destinação dos Mesmo o atual movimento da Nova Administração Pública, que tem detão da responsabilidade, tem dado ênfase ao controle de cima para baixo. A obrigatoriedade de prestação servem mais para punir do que para de contas aos parlamentos, pelos di- qualquer outra coisa; em geral não rigentes dos serviços descentraliza- há incentivos por desempenho; de- ção de contas enfatizam uma respon- dos, tem sido a tônica da responsa- vido à grande autonomia dos pro- sabilidade ‘em direção ao topo’. bilização em vários países da OCDE. fissionais de saúde, a avaliação é Numa pesquisa realizada junto aos Christensen e Laegreid (2001) vista como uma interferência que membros das diretorias do National acreditam que o modelo da Nova ameaça tal autonomia. Health Service na Inglaterra, desta- Administração Pública tem dado A preocupação com a falta de ca-se uma percepção substancial de muita atenção à prestação de con- transparência no setor público é responsabilidade para cima, princi- tas de corte gerencial, mas tido pou- acompanhada da preocupação com palmente para o Ministério da Saú- ca consideração com a responsabi- a eficiência dos mecanismos tradi- de (MS) e para o Ministro. “Dentro lidade política. cionalmente utilizados para tentar da própria diretoria local, 71% dos A accountability implica no es- assegurar a tal responsabilidade. Por diretores executivos das organiza- tabelecimento de garantias para a isso, as recentes reformas no âmbi- ções semi-autônomas do NHS rela- atuação da população, desenvolven- to da administração pública têm taram um senso pessoal de respon- do ações que levem em conta suas 224 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 Descentralização e Accountability em uma Região de Saúde necessidades e dando transparência desrespeito e não-atendimento das cendo no Reino Unido. A população às ações. Por isso, deve-se incorpo- necessidades da população, são de- é vista cada vez mais como cliente, rar elementos morais aos instrumen- correntes da falta de transparência consumidor. Os serviços públicos tos de prestação de contas, pois, administrativa aliada à fragilidade perdem a noção de direito e passam segundo Christensen e Laegreid política da sociedade civil, resultante a se organizar como resposta a de- (2001), não há uma relação tão di- da sua falta de organização. mandas de grupos específicos. reta entre prestação de contas e res- Aliás, no que diz respeito a esta Nos países em desenvolvimento, ponsabilidade. Ou seja, seria possí- última situação, nestes ‘novos’ tem- como o Brasil, o problema é ainda vel haver prestação de contas sem pos parece que a sociedade cada vez maior: a sociedade se individualiza responsabilidade. mais se desorganiza em função de mas não reclama. Impera a passivi- No caso do Brasil, o caráter cen- novos valores como a competição e dade diante dos abusos dos gover- tralista e autoritário de sua admi- o individualismo. Até mesmo nas nos e dos serviços públicos. Esta nistração pública, e conseqüente pressões por um Estado mais res- situação coloca vários desafios. Se- falta de accountability, possui de- gundo Campos (1990. p. 35) “so- terminantes internos à própria bu- mente a partir da organização de rocracia e também externos (C AMPOS, 1990). Da parte da burocracia a autora destaca a imunidade a controles externos, a falta de transparência, a pouca preocupação com o desempenho, a ênfase nos meios e PASSADOS 14 ANOS DA INSTAURAÇÃO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE E APESAR DOS MECANISMOS PENSADOS PARA SE VIABILIZAR O MAIOR CONTROLE DA SOCIEDADE SOBRE O procedimentos e a tendência exage- SISTEMA, AINDA NOS VEMOS ENREDADOS NOS rada para regras e normas que, CONTROLES BUROCRÁTICOS INTERNOS QUE SÃO, muitas vezes, não são cumpridas. Da parte do contexto, é destaca- NA MAIOR PARTE DAS VEZES, POUCO EFICAZES cidadãos vigilantes e conscientes de seus direitos haverá condição para a accountability”. No processo de descentralização da saúde no Brasil a preocupação com a questão da responsabilidade e accountability também é grande. No entanto, passados 14 anos da instauração do Sistema Único de Saúde (SUS) e apesar dos mecanis- da a passividade e a aceitação, por mos pensados para se viabilizar o parte da sociedade, da negligência, maior controle da sociedade sobre do favoritismo e do nepotismo. Os ponsável, a justificativa tem sido o sistema, ainda nos vemos enreda- determinantes desta situação são a uma sociedade que “se individuali- dos nos controles burocráticos in- debilidade das instituições, o bai- za e reclama” (TROSA , 2001. p. 40). ternos que são, na maior parte das xo nível de organização da socie- Os usuários já não querem mais vezes, pouco eficazes. dade civil, o baixo nível de expec- soluções gerais para seus proble- Uma expressão disso é a nova tativa da população em relação aos mas, que são individuais. As exi- Norma Operacional do SUS, a Nor- governos e o baixo nível de partici- gências são legítimas. O problema ma Operacional de Assistência à Saú- pação da população, que termina está colocado nos motivos e nas so- de (NOAS), que acentua a introdução por tornar-se mero objeto das polí- luções que são engendradas. Nestas de instrumentos burocráticos de con- ticas públicas. situações a receita já está pronta: trole e avaliação dos serviços. É sa- A falta de controle em relação ao serviços personalizados (e melhores) bido que tal norma concentra-se na Estado e sua máquina administra- para aqueles que pagarem pelo ser- assistência à saúde e não se propõe tiva, e os conseqüentes desmandos, viço sob medida, como vem aconte- a abordar outras questões relativas Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 225 LIMA, Juliano de Carvalho ao controle externo do sistema. Mas se de uma instância de gestão regio- documental. O estudo se deu na 6ª é justamente este aspecto que chama nal tentando garantir maior acoun- Região de Saúde do Rio Grande do a atenção: há uma tendência de des- tability através da cobrança de pres- Sul, gestão 1999-2002. politização do sistema de saúde. tação de contas pelos municípios para Como o objeto do estudo era a “De modo coerente com um tipo a população e ao mesmo tempo ten- gestão, foram organizadas três ca- de descentralização que exclui a di- tando estruturar uma instância regi- tegorias de análise, adaptadas da mensão política e, cada vez mais, a onal de controle da sociedade sobre o Teoria das Macroorganizações (MA - social [a NOAS] nega a possibilidade sistema de saúde. TUS , 1996), que foram desagregadas de reconstrução da malha territorial de acordo com as aspirações dos que nela vivem” (MISOCZKY, 2002. p. 129). A obsessão do Ministério da Saú- em variáveis para o estudo. No qua- DESCENTRALIZAÇÃO E ACCOUNTABILITY NA 6ª REGIÃO DE SAÚDE DO RIO GRANDE DO SUL de pelo controle dos meios, o cres- dro abaixo são apresentadas as variáveis das categorias Responsabilidade e Descentralização e Autonomia, mais diretamente ligadas ao cente interesse pelo controle advin- A estratégia metodológica utili- objeto desta discussão. do de outras esferas administrati- zada foi o estudo de caso. Para a Não vamos abordar, no âmbito vas, e o forte processo regulatório coleta de dados lançou-se mão de deste trabalho, o conjunto de resul- instaurado no setor marcam a ela- entrevistas com a equipe coordena- tados alcançados no referido estudo, boração da NOAS. dora, bem como de questionários mas apenas aqueles que nos permi- Por isso, é importante a visuali- respondidos pelos secretários muni- tam fazer a reflexão proposta sobre zação e discussão de outros movi- cipais de saúde da região e análise descentralização e accountability. mentos que ainda mantenham a ênfase no componente político e social do sistema de saúde, e não apenas no componente técnico e administrativo. Neste sentido, a ex- CATEGORIAS DE ANÁLISE VARIÁVEIS Responsabilidade/sistema de petição e prestação de contas Sistematicidade da prestação de contas; contas prestadas publicamente; tipo de prestação de contas; forma de definição dos critérios de avaliação e acompanhamento; instrumentos utilizados; sistema de incentivo/punição Descentralização e autonomia/sistema de gerência por operações Planejamento/plano; financiamento; alocação de recursos; participação no processo decisório; espaços de comunicação/negociação; gerência por produtos/resultados periência da região da 6ª Coordenadoria Regional de Saúde, tanto pelos seus pontos positivos quanto negativos, pode trazer alguns elementos para se pensar a accountability Os resultados alcançados apon- recursos financeiros do estado para taram para a organização de uma os municípios de maneira regular e A seguir, buscaremos expor al- gestão descentralizada na região, automática. guns resultados do trabalho realiza- prezando a autonomia municipal. A O recurso repassado pelo Gover- do naquela região. Dois aspectos cha- principal evidência disso foi a polí- no Estadual não é ‘carimbado’, ou mam a atenção: em primeiro lugar, tica de financiamento adotada. A seja, o município define como e onde percebeu-se uma tendência de descen- lógica de financiamento da Região implementar o recurso, podendo tralização e preservação da autono- segue a mesma orientação da pro- empregá-lo de acordo com a sua mia municipal na região, aliada a um posta da Municipalização Solidária necessidade e realidade. Em função aumento das cobranças de prestação da Saúde, implementada em todo o disso, 16 dos 28 secretários muni- de contas e, em segundo lugar, trata- estado e que realiza o repasse de cipais de saúde que responderam ao no setor saúde. 226 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 Descentralização e Accountability em uma Região de Saúde questionário por nós encaminhado Deste modo, permite a partici- para toda a população. No entan- afirmaram que os municípios ga- pação da população no momento to, esta lei está longe, muito longe nharam autonomia durante a ges- da formulação das ações e da deci- aliás, de ser cumprida. tão da 6ª CRS de 1999 a 2002; 20 são sobre onde empregar os recur- Os municípios não têm atentado desses mesmos secretários afirma- sos públicos. Neste sentido, a pre- para esta função; a diversidade dos ram que a 6ª CRS estimula a auto- sença dos Delegados do OP é im- conselhos e o seu caráter incipiente nomia municipal. Além do caráter portante. Tais mecanismos contri- fazem com que estes não cobrem de inovador, chama a atenção nessa buem, sem dúvida, para o desen- seus gestores a prestação de contas política a transparência, a eqüida- volvimento da accountability, for- devida. Não são muitas as ações de e o estímulo à descentralização. talecendo os conselhos como espa- espontâneas por parte dos gestores A transparência porque estabe- ços privilegiados para determina- para elaborar e apresentar aos con- ção do interesse público. selhos o Relatório de Gestão. lece critérios técnicos de repasse de recursos para os municípios, em Associada à liberdade de onde em- Na 6ª Coordenadoria Regional contraposição à política comum nos pregar os recursos, a 6ª CRS imple- de Saúde, a coordenação encarre- estados de repasse via convênio, gada de fazer o acompanhamento onde os municípios são obrigados e a avaliação dos sistemas muni- a ficar de ‘pires na mão”, implorando por algum recurso e onde nunca se sabe quais os critérios que ATRAVÉS DO R ELATÓRIO DE GESTÃO, TAMBÉM APROVADO PELOS CONSELHOS LOCAIS cipais é a Coordenação de Descentralização, Municipalização e Controle Social.1 Logo no início da ges- fazem com que este município seja E APRESENTADO EM AUDIÊNCIA PÚBLICA, contemplado e aquele não. A ado- VERIFICA -SE SE O RECURSO FOI REALMENTE um levantamento dos municípios após discussões com o Conselho Es- EMPREGADO NAQUILO QUE O GESTOR HAVIA Gestão para a Coordenadoria nos tadual de Saúde, permite a todos SE COMPROMETIDO DIANTE DA POPULAÇÃO ção de critérios técnicos, definidos tão, este setor tratou de realizar que haviam enviado Relatório de anos de 1997, 1998 e 1999. O re- saberem o quanto vão receber, sultado confirma nossas afirma- quando e o porquê da quantia. ções feitas antes. Somente dois mu- Aliado a isso, é exigido dos mu- nicípios haviam elaborado e enca- nicípios um plano de aplicação do mentou um forte esquema de cobran- minhado para a CRS o Relatório de recurso, aprovado pelo conselho ça de contas junto aos municípios. Gestão devidamente aprovado pelo municipal de saúde, com a partici- Consta nas leis que regulamen- pação dos Delegados do Orçamento tam o funcionamento do SUS que é Participativo (OP). Através do Rela- obrigação dos gestores, em todos A cobrança foi imediata. O prin- tório de Gestão, também aprovado os níveis de governo, a prestação cipal mecanismo utilizado pela 6ª pelos conselhos locais e apresenta- de contas das ações e dos recursos CRS para fazer com que os municí- do em audiência pública, verifica- utilizados trimestralmente. Tal ati- pios apresentassem o Relatório de se se o recurso foi realmente empre- vidade deveria ser feita pelos con- Gestão foi condicionar o repasse de gado naquilo que o gestor havia se selhos de saúde e em Audiência Pú- recursos estaduais à apresentação comprometido diante da população. blica, junto ao poder legislativo e do relatório pelos municípios aos 1 conselho de saúde nos anos anteriores a 1999. A 6ª CRS é a única Coordenadoria de Saúde do Rio Grande do Sul que possui esta estrutura. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 227 LIMA, Juliano de Carvalho conselhos de saúde.2 O resultado taram no ano de 2001 quatro Rela- lação em geral, através das Audiên- também foi imediato. Praticamente tórios de Gestão. No ano de 2002 o cias Públicas. todos os 51 municípios da época processo se deu da mesma forma. A 6ª CRS dedicou-se ao fortaleci- habilitados em alguma condição de A 6ª Coordenadoria teve uma mento da participação popular e do gestão elaboraram e apresentaram atuação dura em relação à cobran- controle social. O primeiro passo foi o Relatório de Gestão aprovado pelo ça dos Relatórios de Gestão dos mu- estruturar e consolidar o Conselho conselho municipal de saúde. nicípios. 53% dos secretários muni- Regional de Saúde. Mas além de realizar a cobran- cipais de saúde que responderam ao Na Política de Relações estabele- ça, a 6ª CRS e, em especial, a Coor- questionário por nós enviado afir- cida pela Coordenadoria, explicita- denação de Descentralização, Mu- maram que a Coordenadoria estimu- da no planejamento realizado em nicipalização e Controle Social, se la as SMS a prestarem contas ao 1999, a relação com o Conselho Re- preocupou em assessorar os muni- Conselho e 42% acreditam que a 6ª cípios na construção desse instru- CRS vem obrigando os municípios 2. Relação com o Conselho Regi- mento de gestão. onal de Saúde No ano de 1999, a 6ª CRS aceitou que os municípios apresentas- A 6ª CRS DEDICOU- SE AO sem apenas o Relatório de Gestão anual. Já a partir de 2000, passou a exigir a apresentação trimestral. Neste ano, os 58 municípios 3 da região apresentaram quatro Relatórios de Gestão, tanto no conselho municipal de saúde quanto em Audiência Pública na câmara de vereado- gional de Saúde é destacada: • Participante na mesa do CRS • Apoio e assessoria ao CRS FORTALECIMENTO DA PARTICIPAÇÃO • Formação de Conselheiros POPULAR E DO CONTROLE SOCIAL. • Auxiliar no processo de regu- O PRIMEIRO PASSO FOI ESTRUTURAR E CONSOLIDAR O C ONSELHO REGIONAL DE SAÚDE res, voltada para toda a população. lamentação • Que o CRS tenha o controle social • Relatório de Planejamento – 1999. O ano de 2001 não foi diferente. Ao observarmos o funcionamen- Na avaliação feita até o dia 23/04/ 2002, apenas um município não a fazê-lo. Nenhum gestor respondeu to do Conselho Regional de Saúde, havia apresentado nenhum Relató- que a Coordenadoria não interfere podemos evidenciar três pontos que rio de Gestão, um não apresentou neste processo. No entanto, o mais demonstram o seu fortalecimento: três (2º, 3º e 4º trimestres), um não importante e interessante é que a apresentou dois (3º e 4º trimestres) exigência maior não foi de que os e dois não apresentaram um (4º tri- municípios prestassem contas à 6ª 2) Apoio da 6ª CRS no que diz mestre). A exceção deste grupo, to- CRS, mas sim para os conselhos respeito à infra-estrutura; dos os demais municípios apresen- municipais de saúde e para a popu- 3) Ampliação da participação. 1) Regularidade das reuniões; Note-se que este foi um procedimento utilizado em todo o estado como parte da política de financiamento adotada – Municipalização Solidária da Saúde. 2 Devido à reestruturação das regiões do estado do Rio Grande do Sul, houve alterações no número de municípios pertencentes à 6ª Região, passando de 51 para 58. 3 228 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 Descentralização e Accountability em uma Região de Saúde Durante o ano de 2001 foram rea- contando com uma partic ipação não apenas através do Conselho Re- lizadas 11 reuniões, quase que inin- maior que nas microrregionais. Já gional, mas no dia-a-dia, chaman- terruptamente. Em torno de 90% das em 2001, nova rodada de capaci- do-os a participar de reuniões e reuniões houve quorum. tação atingiu 1.136 conselheiros de eventos importantes na região. Um Além disso, desde praticamen- saúde. Neste período abriu-se es- exemplo disso é que as visitas rea- te o início da gestão o Conselho dis- paço para a participação de outras lizadas pelas Equipes de Assesso- põe de infra-estrutura à sua dis- entidades não necessariamente pre- ria exigiam sempre a presença do posição dentro da própria Coorde- sentes nos conselhos, tais como conselho local, bem como nas audi- nadoria, com sala, computador e sindicatos, delegados do Orçamen- torias nos serviços localizados nos mobiliário. Também dispõe de to Participativo, movimentos popu- municípios. Também as reuniões apoio financeiro. lares, o que demonstra a visão am- feitas entre a Coordenadoria e os pliada da participação popular, municípios, importante canal de co- não restrita aos canais institucio- municação entre esses níveis de ges- Por fim, quando falamos na ampliação da participação, trata-se não tão, contavam sempre com a partici- apenas do aumento da freqüência pação de pelo menos um represen- dos participantes, mas também da ampliação do número de assentos tante dos conselhos locais, sendo que existentes no conselho. Ampliou-se E M 1999 FOI o convite partia sempre da 6ª CRS: o espaço para a participação dos REALIZADO UM CURSO uma forma de comprometer de fato gestores e profissionais representantes dos municípios, através de vagas dadas às microrregiões. Já em relação aos conselhos municipais de saúde da região, a 6ª CRS, em conjunto com o Conselho “...a gente achou que tinha que criar o gestor junto com o Conselho, por- DE CAPACITAÇÃO DE que a gente estava naquele momen- CONSELHEIROS EM to de trabalhar junto” (Coordenadora CADA MICRORREGIÃO de Descentralização, Municipalização e Controle Social). DE SAÚDE Estas características relatadas Regional, investiu na capacitação até agora correlacionam-se com al- dos conselheiros para torná-los eficientes na formulação das políticas municipais de saúde e na fiscalização da execução das ações e recursos por parte do gestor municipal. guns dos aspectos importantes para nalizados no interior do estado, a accountability. O primeiro e mais como os conselhos. relevante é a importância de que as Para o ano de 2002 a Coordena- contas sejam prestadas publicamen- doria possuía um projeto de capaci- te, ou difundidas junto à população. Em 1999 foi realizado um cur- tação para as chamadas Câmaras A aposta feita pela 6ª CRS de fazer so de capacitação de conselheiros Técnicas dos conselhos municipais, com que os gestores cumpram a lei em cada microrregião de saúde. quando procuravam tratar de temas que obriga à prestação de contas Este curso contou com uma parti- mais específicos e técnicos, como or- aos conselhos e, ao mesmo tempo, cipação média de 40% dos conse- çamento, tecnologia, entre outros. empenhar-se no fortalecimento des- lheiros. Já no ano de 2000 foram Além das capacitações, a CRS ses conselhos em parceria com o Con- realizados encontros com os con- procurou envolver os conselhos selho Regional, faz com que se am- selheiros municipais de saúde em municipais de saúde nas discussões plie a transparência na gestão no 56 dos 58 municípios da região, a respeito das questões regionais, âmbito do sistema regional de saú- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 229 LIMA, Juliano de Carvalho de. Também permite que a popula- Controle Social fazem a comparação guma pessoa da Coordenadoria pro- ção conheça e se aproprie das ques- do Relatório de Gestão com o plano cura estar presente nas Audiências tões fundamentais das políticas de de aplicação dos recursos da Muni- Públicas realizadas pelos municí- saúde municipais, tornando-se mais cipalização Solidária, buscando pios. A Coordenação de Descentra- capaz de controlar a coisa pública e identificar possíveis desvios. lização também identifica proble- colocá-la a seu serviço. Em relação às atividades descri- mas na maneira como são presta- Outro ponto importante diz res- tas nos relatórios de gestão, a com- das essas contas. peito à regularidade da prestação de paração se faz com o plano munici- Através de exemplos de municí- contas, a cada três meses no caso pal de saúde, ou seja, busca-se fazer pios da região, a Coordenadora de em estudo. Esta regularidade, ao uma comparação entre aquilo que foi Descentralização aponta o quanto os nosso ver, é propícia para gerar uma planejado e definido como prioritá- secretários municipais de saúde tem cultura de responsabilidade pois rio e aquilo que foi executado. Al- dificuldades para organizar uma ‘habitua’ aqueles que devem pres- guns problemas são identificados: Audiência Pública de maneira clara tar contas das suas ações a atua- e de fácil entendimento para a po- rem com mais transparência. pulação, embora sejam orientados Além da participação dos conselheiros, a 6ª CRS tem estimulado a A 6ª CRS TEM ESTIMULADO A PARTICIPAÇÃO pela Coordenadoria. Assim, a 6ª CRS tem observado participação de outros segmentos DE OUTROS SEGMENTOS DA SOCIEDADE CIVIL algumas debilidades nesse proces- da sociedade civil organizada, como ORGANIZADA, COMO POR EXEMPLO OS so. A Coordenadora aponta quatro por exemplo os Delegados do Orçamento Participativo, que acompa- DELEGADOS DO ORÇAMENTO PARTICIPATIVO, nham a apreciação e aprovação dos QUE ACOMPANHAM A APRECIAÇÃO E APROVAÇÃO planos de aplicação dos recursos da Municipalização Solidária da Saúde, bem como a prestação de contas do DOS PLANOS DE APLICAÇÃO DOS RECURSOS DA M UNICIPALIZAÇÃO SOLIDÁRIA DA SAÚDE problemas principais: o uso de uma linguagem excessivamente técnica no momento da apresentação para a população, principalmente em relação a recursos financeiros; a não demarcação daquilo referido recurso. O envolvimento de que é importante (resultados); a movimentos populares, independen- não mobilização da população para te da participação nos conselhos também foi observada na região. Além disso, a 6ª CRS buscava assegurar maior amplitude à prestação de contas dos municípios através das Audiências Públicas, quando toda a população era chamada. A prestação de contas financeira O que ele precisa é: que ações eu desenvolvi? o que eu ampliei dentro dos serviços? eu ampliei algum tipo de serviço? que ações eu desenvolvi e que geraram impacto? Porque a maioria dos municípios ainda colocava assim: ofertou tantas consultas, tantos exames, tantos isso, tanto aquilo... (Coordenadora de Descentralização). participar das audiências e a pouca motivação da maioria dos gestores para prestar contas. Apesar das dificuldades, visualizamos a experiência da região da 6ª Coordenadoria como válida no sentido de criar uma organização mais responsável. Este processo ini- é avaliada, principalmente no que A Coordenadoria, além de orien- ciado na 6ª CRS, bem como em todo diz respeito aos recursos de fonte tar a elaboração do Relatório de o estado do Rio Grande do Sul, tem estadual. Para esta análise os fun- Gestão, assessora a prestação de obrigatoriamente um período de cionários da Coordenação de Des- contas em si, realizada nas Audiên- amadurecimento, de fortalecimento centralização, Municipalização e cias Públicas. De maneira geral al- dos conselhos para que passem a 230 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 Descentralização e Accountability em uma Região de Saúde cobrar a prestação de contas, e da ção possa garantir o ‘bom governo’. No entanto, essa recentralização, população em geral para se habituar No setor saúde, apesar de toda a ên- cuja expressão maior é a Norma a participar e fiscalizar. fase dada à correlação entre demo- Operacional de Assistência à Saúde, Um fato que comprova isso diz cracia e saúde durante o movimento se dá conjuntamente com um certo respeito à própria visão dos secretá- da Reforma Sanitária, temos assisti- abandono do controle político e so- rios municipais de saúde da região, do, nos últimos anos, a um recru- cial sobre a gestão do sistema. que apontaram o ‘avanço no contro- descimento do controle burocrático. A ascensão de um partido de ca- le social’ como o principal resultado Um processo de descentraliza- ráter popular ao governo do país traz da pressão da 6ª CRS para que os ção, que não foi acompanhado do alguma esperança de mudança. No municípios prestassem contas trimes- aumento da responsabilidade espe- nível setorial, algumas modificações tralmente, pois 18 dos 28 secretários rado, possibilitou até mesmo, como já são observadas. Na linha da nos- que responderam ao questionário vimos nos relatos de alguns muni- sa discussão neste trabalho, a cria- apontaram esta alternativa. cípios de Minas Gerais, uma acen- ção de uma Secretaria de Gestão Par- Além do fortalecimento do con- ticipativa já demonstra maior preo- trole social, ‘menor possibilidade cupação com a participação da so- de desvio de recursos (11 secretá- ciedade na condução e acompanha- rios) e mudanças no perfil do ges- mento do sistema. Mas enquanto es- tor (8)’, como a necessidade de tra- A ASCENSÃO DE UM balhar mais em equipe e interse- PARTIDO DE CARÁTER torialmente, foram apontados pelos secretários municipais de saú- POPULAR AO GOVERNO de da região como avanços decor- DO PAÍS TRAZ ALGUMA rentes daquela estratégia. Em outra pergunta, relativa às sas mudanças estruturais não adquirem caráter de resultado, a pouca qualidade dos serviços públicos de saúde e a baixa capacidade de indignação da população usuária continuam predominantes. ESPERANÇA DE MUDANÇA Ainda assim, algumas boas ex- mudanças gerenciais causadas pela periências são vivenciadas. A 6ª prestação de contas, 23 secretários CRS, principalmente através do for- municipais de saúde apontaram que talecimento do controle social na a principal mudança no seu traba- tuação das práticas clientelistas e região, imprimiu ao sistema maior lho, resultante da prestação de con- partimonialistas em alguns locais. accountability, procurando através tas sistemática através do Relatório Este tipo de situação parece ter fei- da reestruturação e do apoio ao de Gestão, deve-se ao fato de ‘tor- to com que a direção nacional do Conselho Regional de Saúde, do en- nar a gestão mais transparente e SUS despertasse para a importância volvimento dos conselhos de saú- permeável ao controle social’. de se aliar responsabilidade à des- de em espaços de tomada de deci- centralização. No entanto, a via es- são regional, da capacitação de con- colhida foi a da ampliação dos me- selheiros e da vinculação de recur- canismos reguladores internos e de sos ao exercício da prestação de Em um Estado com tradição au- uma esfera de gestão sobre a outra. contas em Audiências Públicas, toritária e excludente, mecanismos Não negamos a importância de tais ampliar o espaço de atuação da de accountability não têm tido o es- instrumentos, que são necessários população no controle dos serviços paço necessário para que a popula- para o funcionamento do sistema. públicos de saúde. Além disso pro- CONSIDERAÇÕES FINAIS Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 231 LIMA, Juliano de Carvalho curou articular-se com movimen- rotado no segundo turno das eleições em Debate, Londrina, PR, n. 49-50, tos sociais e populares. para o governo do estado. É impor- dez./95-mar./96, 1996, p.53-64. Em relação aos municípios, con- tante se verificar a continuidade do comitante a um estímulo à autono- movimento instaurado em 1999 para mia, garantida principalmente atra- se avaliar se houve sustentabilidade vés da liberdade para decidir a apli- na proposta e se o processo foi con- cação de recursos repassados pelo sistente o suficiente para garantir estado, foi rigorosa na cobrança de independência aos espaços de in- contas. A exigência da prestação de fluência da população na formula- ção Pública em Ação. Brasília, DF: contas das secretarias municipais de ção das políticas de saúde na região. Editora Universidade de Brasília/ zação do sistema de saúde no Brasil. Revista do Serviço Público, ano 50, n. 3, jul.-set., 1999, p. 33-56. FERLIE, E. et al. A Nova Administra- ENAP,1999 saúde aos conselhos e em Audiência Pública favoreceu a construção COSTA, S ILVA e RIBEIRO , A descentrali- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS de uma cultura de transparência da FIGUEIREDO, A. M. Descentralização da saúde e poder local em Minas Gerais. gestão e conseqüente ampliação da ANDRADE, I. A. L. Descentralização e responsabilidade, apesar das dificul- Revista de Administração Pública, relações intergovernamentais no dades apresentadas durante a imple- São Paulo, v. 32, n. 4, 1998, p. 27-41. Nordeste do Brasil. In: Anais do I mentação do processo. Congresso da CLAD sobre Reforma Tínhamos como objetivo neste trabalho discutir modos de se conciliar descentralização e accountability. Estávamos interessados em discutir formas de controle que envolvessem os principais interessados, os cidadãos, e, deste modo, contribuirmos para uma discussão sobre as del Estado y de la Administración Pública, Rio de Janeiro, 1996. HORTALE, Virginia Alonso. O conceito de descentralização aplicado aos serviços de saúde: dimensões, padrões e regularidades. Revista de BROSE, M. 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A descentralização e a reforma do aparato estatal em saú- CHRISTENSEN, T.; LAEGREID , P. La nueva de. In: CANESQUI , A. M. Ciências So- administración pública: el equilibrio ciais e Saúde, São Paulo: HUCITEC, entre la gobernanza y la autonomía 1997. p. 173-204. administrativa. Revista do Serviço Público, ano 52, n. 2, abr.-jun., 2001. p.69-109. L IMA, Juliano de Carvalho. Gestão estratégica de sistemas de saúde: estudo de caso de uma região de gestão que promoveu tais mudanças CONTANDRIOPOULOS, A. P. Reformar o sis- saúde à luz da teoria das macroor- não se sustentou no poder, tendo o tema de saúde: uma utopia para sair ganizações, Dissertação (Mestrado), Partido dos Trabalhadores sido der- de um status quo inaceitável. Saúde Escola Nacional de Saúde Pública 232 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 Descentralização e Accountability em uma Região de Saúde (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Rio de Janeiro, 2003. M ATUS, Carlos. Adeus, Senhor Presidente: Governantes Governados. São Paulo: FUNDAP, 1996 M ISOCZKY, Maria Ceci. O Campo da Atenção à Saúde após a Constituição de 1988: uma narrativa de sua produção social. Porto Alegre: Dacasa Editora, 2002. T ROSA, S. Gestão Pública por Resultados: Quando o Estado se Compromete. Rio de Janeiro/Brasília: REVANENAP, 2001. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 221-233, set./dez. 2003 233 SILVA, José Paulo Vicente da; PINHEIRO, Roseni & MACHADO, Felipe Rangel S. ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES José Paulo Vicente da Silva1 Roseni Pinheiro2 Felipe Rangel S. Machado3 Necessidades, demanda e oferta: algumas contribuições sobre os sentidos, significados e valores na construção da integralidade na reforma do Setor Saúde* Mestre em Saúde Coletiva, professor e pesquisador visitante da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (F IOCRUZ), integrante do Laboratório de Pesquisas de Práticas de Integralidade em Saúde do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ ), que conta com apoio do CNPq, da FAPERJ e do Ministério da Saúde Av. Roberto da Silveira, 358/701 CEP 24230-153 – Niterói – RJ e-mail: [email protected] Needs, demand and offer: a few contributions on the meaning, sense and value in the construction of integrality within the Health Sector reform 1 Doutora em Saúde Coletiva, professora do Instituto de Medicina Social, coordenadora do Laboratório de Pesquisas de Práticas de Integralidade em Saúde, do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (U ERJ), que conta com apoio do CNPq, da FAPERJ e do Ministério da Saúde Rua Cândido Mendes, 279/307 CEP 20241-220 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 2 RESUMO O presente trabalho tem como objetivo contribuir para a discussão sobre a construção da integralidade da atenção, entendida como princípio norteador das ações e dos serviços de saúde – preventivos e curativos, individuais e coletivos – nos diversos níveis de complexidade do sistema. Grande parte dos cidadãos, principalmente os mais carentes de assistência, se depara com muitos obstáculos para conseguir acesso ao atendimento de qualidade capaz de responder positivamente às suas necessidades. Para tanto, propomos um olhar sobre os sentidos, significados e valores atribuídos às categorias necessidade, demanda e oferta, ampliando o leque de noções necessárias à materialização da integralidade, a fim de garantir o acesso universal com efetividade e ‘resolutividade’ como o grande desafio a ser enfrentado na luta pela implementação efetiva do Sistema Único de Saúde (SUS). DESCRITORES: Necessidades e Demanda de Serviços de Saúde; Cuidados Inte- Graduando em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ ), bolsista de Iniciação Científica da FAPERJ , no Laboratório de Pesquisas de Práticas de Integralidade em Saúde do Instituto de Medicina Social(IMS) da UERJ , que conta com apoio do CNPq, da F APERJ e do Ministério da Saúde Rua Califórnia, 326 CEP 24465-120 – São Gonçalo – RJ e-mail:[email protected] grais de Saúde; Serviços de Saúde; SUS. Este trabalho é parte integrante da dissertação de mestrado em Saúde Coletiva “Gestão Compartilhada e Construção da Integralidade da Atenção no SUS: a experiência da 4a região sanitária do estado do Rio Grande do Sul – período: 19992002”, de José Paulo Vicente da Silva, defendida em abril de 2003, orientada pela professora Roseni Pinheiro. their needs. The authors propose a new view on senses, meanings and 3 * ABSTRACT This article aims to contribute to the discussion on the construction of care integrality, as the principle that orientates preventive and healing, individual and collective health actions and functions on the several complex levels of the health system. Most people, especially the less assisted ones, face many obstacles in their search for a health care service able to meet values given to categories called needs, demands, and offer, widening the notions required for the fulfillment of integral care, in order to guarantee universal and effective access to health care, the great challenge to be faced in the struggle for the implementation of an efficient Unified Health System. DESCRIPTORS: Health Services Need and Demand; Comprehensive Health Care; Health Services; SUS. 234 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 234-242, set./dez. 2003 Necessidades, demanda e oferta: algumas contribuições sobre os sentidos, significados e valores na construção da integralidade na reforma do Setor Saúde INTRODUÇÃO letivo a serem realizados pelo Mi- tia do acesso universal com efetivi- nistério da Saúde (MS) e as ações e dade e ‘resolutividade’ permanece, O texto constitucional de 1988, serviços assistenciais de cunho in- ainda, como um grande desafio a que institui o Sistema Único de Saú- dividual, a serem implementados ser enfrentado na luta pela imple- de (SUS), aponta sua organização de pelo Ministério da Previdência e As- mentação efetiva do SUS. acordo com as seguintes diretrizes: sistência Social (MPAS), por meio “descentralização, com direção úni- do Instituto Nacional de Previdên- ca em cada esfera de governo; aten- cia e Assistência Social (I NAMPS) –, dimento integral, com prioridade o SUS deve combinar de forma har- para as atividades preventivas, sem mônica e igualitária a cobertura prejuízo dos serviços assistenciais; desses serviços à totalidade da po- e participação da comunidade”. Es- pulação, na direção da superação tas dizem respeito ao controle social de tal dicotomia. sobre as ações e serviços públicos de saúde (B RASIL, 1988. art. 198). Em consonância com essas diretrizes constitucionais, o SUS orienta-se ainda, e principalmente, pelo princípio da ‘universalidade do aces- D O PONTO DE VISTA JURÍDICOINSTITUCIONAL , A INTEGRALIDADE É Segundo Mendes, a aplicação do princípio da integralidade (...) implica reconhecer a unicidade institucional dos serviços de saúde para o conjunto de ações promocionais, preventivas, curativas e reabilitadoras e que as intervenções de um sistema de saúde sobre o processo saúde/doença conformam uma totalidade que engloba os sujeitos do sistema de saúde e suas inter-relações com os ambientes natural e social (MENDES, 1993. p. 149). Para tanto, “a integralidade exige, DEFINIDA COMO UM CONJUNTO exatamente, uma intervenção integra- ARTICULADO DE AÇÕES E SERVIÇOS DE SAÚDE , dora no seu âmbito tecnológico sobre os níveis de assistência’. Cabe salientar que, antes da institucionalização PREVENTIVOS E CURATIVOS, INDIVIDUAIS E so aos serviços de saúde em todos do SUS, o acesso aos serviços e ações de saúde só estava garantido aos contribuintes do sistema previdenci- COLETIVOS NOS DIVERSOS NÍVEIS DE ambiente” (MENDES, 1993. p. 150). tica de saúde deverão corresponder a uma abordagem das práticas sa- 1988 assegura, legalmente, a atennia a todo o povo brasileiro. coletivos, grupos sociais e o meio Essas dimensões da macropolí- COMPLEXIDADE DO SISTEMA ário. Neste sentido, a Constituição de ção à saúde como direito de cidada- os indivíduos, famílias, ambientes Então, do ponto de vista jurídico-institucional, a integralidade é nitárias que se traduza em duas dimensões, quais sejam: A integralidade – termo que, de definida como um conjunto articu- acordo com Mattos (2001), tem sido lado de ações e serviços de saúde, usado de forma corrente como re- preventivos e curativos, individuais ferência à diretriz da atenção inte- e coletivos nos diversos níveis de gral – deve ter sua leitura combi- complexidade do sistema. Mas, de nada com o princípio da igualdade acordo com Carvalho e Santos da assistência (B RASIL, 1988. art. (2002), grande parte dos cidadãos, 198. inciso IV). Em contraposição principalmente os mais carentes de Outrossim, no sentido da supe- ao antigo sistema de saúde – o qual assistência, se depara com muitos ração das desigualdades que se re- incluía a dicotomia entre as ações obstáculos para conseguir atendi- ferem a diferentes padrões de saúde e serviços preventivos de cunho co- mento médico-hospitalar. A garan- dos variados grupos populacionais (...) numa integração, definida por um problema a enfrentar através de um conjunto de operações articuladas pela prática da vigilância em saúde; (...) numa integração dentro de cada unidade de saúde, entre as práticas sanitárias de atenção à demanda e da vigilância em saúde (MENDES, 1993. p. 150). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 234-242, set./dez. 2003 235 SILVA, José Paulo Vicente da; PINHEIRO, Roseni & MACHADO, Felipe Rangel S. e ao acesso desigual desses distin- tuindo-se, portanto, na “essência tos segmentos da população às ações mesma da política pública de saú- e serviços de prevenção e cura de de” (CAMARGO J ÚNIOR, 2001. p. 11). NECESSIDADES DE SAÚDE: INTERAÇÃO DE SUJEITOS COLETIVOS E INDIVIDUAIS NA GESTÃO DA OFERTA NA ATENÇÃO INTEGRAL À SAÚDE doenças, o sistema de saúde deve Parte-se da premissa de que não ser, também, orientado pelo princí- existe a possibilidade de constru- pio da eqüidade. Esta deve ser com- ção da integralidade e da eqüida- De acordo com Stotz (1991), as preendida como de – os verdadeiros objetivos da necessidades de saúde situam-se no política de saúde, que vão além do nível das necessidades sociais mais consumo de determinadas tecnolo- gerais. Ainda que estas sejam deter- gias e serviços – sem a garantia minadas e constituídas social e his- do acesso universal a todos os ní- toricamente, só poderão ser apreen- veis de atenção. Essa perspectiva didas em sua dimensão individual, implica o reconhecimento da ação expressando uma relação dialética (...) a superação das desigualdades que, em determinado contexto histórico e social, são evitáveis e consideradas injustas, implicando que necessidades diferenciadas da população sejam por meio de ações governamentais também diferenciadas (...). Subjacente a este conceito está o entendimento de que as desigualdades sociais entre as pessoas não são dadas ‘naturalmente’, mas sim criadas pelo processo histórico e pelo modo de produção e organização da sociedade (MALTA, 2001. p. 135-136). entre o individual e o social. O autor está interessado em observar UNIVERSALIDADE, INTEGRALIDADE E como demandas sociais por saúde EQÜIDADE DA ATENÇÃO À SAÚDE jeitos coletivos, tendo em vista que CONSTITUEM, POIS, A FINALIDADE podem constituir determinados suessas demandas expressam determi- ÉTICO-POLÍTICA DO SISTEMA DE SAÚDE , nadas ‘carências’ ou ‘necessidades’ EXPRESSA EM CONTRIBUIÇÃO PARA A ca) geradas pelo modo de produção tica do sistema de saúde, expressa MELHORIA DAS CONDIÇÕES DE SAÚDE e pela organização da sociedade. em contribuição para a melhoria E VIDA DA POPULAÇÃO BRASILEIRA Universalidade, integralidade e eqüidade da atenção à saúde constituem, pois, a finalidade ético-polí- das condições de saúde e vida da vê esses três princípios como formadores de “um conceito tríplice, entrelaçado, quase um signo”, ca- Na busca por explicações acerca das mediações da prática social que dizem respeito à atuação dos população brasileira. Com efeito, Cecílio (2001. p. 113) (termos utilizados na Saúde Públi- movimentos sociais, recorre-se à recíproca existente entre a macro compreensão de carência como uma e a micropolítica de saúde. A bus- idéia que sempre tem por referên- ca pela integralidade e pela eqüi- cia o conceito de indivíduo: alguém dade deve ser orientada por meio é carente de algo. paz de expressar com todo vigor a de uma abordagem totalizante ao Contudo, como o indivíduo com- luta por cidadania, justiça e demo- repensar a “organização do proces- partilha o processo de determinação cracia, consubstanciada no ideário so de trabalho, gestão, planejamen- de suas carências/necessidades – da Reforma Sanitária brasileira. to e construção de novos saberes pois pertence a um determinado gru- A “visão ampliada da idéia de inte- e práticas em saúde” (CECÍLIO, 2001. po (família, colegas de trabalho, gralidade” seria capaz de incorpo- p. 113). Para esta reflexão sobre seita religiosa etc.) –, é influencia- rar as propostas de integralidade integralidade e eqüidade, o autor do pelos valores do grupo. (no seu entendimento corrente), toma como ‘analisador’ as neces- eqüidade e universalidade, consti- sidades de saúde. 236 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 234-242, set./dez. 2003 Sendo assim, o processo de determinação das carências individuais Necessidades, demanda e oferta: algumas contribuições sobre os sentidos, significados e valores na construção da integralidade na reforma do Setor Saúde é vivenciado com o grupo: tem uma dimensão coletiva. Trata-se, pois, de tadores de uma generalidade de uma essência universal(STOTZ, 1991. p. 107). des) cujo atendimento é socialmente sancionado como legítimo (inclusive, uma mediação fundamental da prá- Ao propor um conceito operacio- em certos casos, do ponto de vista xis social inerente à vida em socieda- nal de necessidades de saúde capaz jurídico) e implica obrigação política de. As necessidades de saúde expres- de contemplar a perspectiva dos su- na sua atenção (NUNES, 1989). sam as carências de milhões de indi- jeitos individuais e coletivos, o autor No entanto, quando se entra em víduos e também, simultaneamente, vislumbra propiciar uma ferramenta contato com determinado conceito as necessidades coletivas. que, potencialmente, contribua tanto operacional de necessidades de saú- Nessa visão de mundo, o ser para a superação do reducionismo de, descobre-se que tal conceito já humano é, ao mesmo tempo, uni- inerente ao enfoque normativo de pla- demarca a priori uma classificação versal e particular. O sujeito indivi- nejamento quanto para a superação baseada em critérios definidos an- dual está dialeticamente referido ao das incoerências e insuficiências con- teriormente. A existência prévia de seu grupo ou, como em Marx, à sua tidas no enfoque situacional. Tem-se tal taxonomia aponta para a domi- classe social, negando a perspecti- nância de determinada concepção de va do sujeito individual portador de necessidades de saúde. Para Stotz (1991), na Saúde Públi- necessidades, descolado das suas relações sociais. A última perspectiva subjaz ao enfoque atomista-individualista, cujo pressuposto é a existência de uma sociedade que é a soma de indivíduos isolados e livres (o homo economicus) para sa- O SUJEITO INDIVIDUAL ESTÁ DIALETICAMENTE REFERIDO AO SEU GRUPO OU, COMO EM M ARX, À SUA CLASSE SOCIAL, NEGANDO A PERSPECTIVA DO SUJEITO INDIVIDUAL tisfazer suas necessidades de acor- PORTADOR DE NECESSIDADES, DESCOLADO do com a lei de oferta e procura por DAS SUAS RELAÇÕES SOCIAIS ca, as duas vertentes da perspectiva individual do ‘sujeito de necessidades’ – a liberal e a funcionalista – foram incorporadas de forma pragmática ao enfoque normativo de planejamento. Nesse caso, ‘necessidades sentidas’, ‘expressas’, ‘normativas’ e ‘comparativas’ informam um critério que tra- bens e serviços (a lei natural do duz uma acepção naturalista do su- mercado). De outro lado, informa jeito, na qual as necessidades se cons- também o enfoque funcionalista que tituíram na ausência de algo cuja reconhece o sujeito individual como em mente que é essa racionalidade natureza se refere à idealização e à uma unidade da estrutura do siste- instrumental e economicista que vem generalidade, excluindo as relações ma social e busca, por meio de me- permeando, hegemonicamente, a for- sociais e, portanto, a sociedade. canismos de regulação, a normali- mulação das políticas públicas de Dessa forma, problemas e neces- zação dos hábitos da sociedade. saúde por meio do planejamento. Essa sidades de saúde apresentam-se como outra perspectiva possibilitaria a noções conexas: a necessidade é, de construção de novas mediações, ago- algum modo, a tradução de proble- ra entre sujeitos individuais e coleti- ma em termos operacionais. Enquan- vos e critérios de legitimação do po- to um determinado problema informa der político estatal. a existência de um estado de saúde Entretanto, a crítica é dirigida também à visão marxista-estruturalista, posto que nessa perspectiva a noção de sujeito não passa de uma noção ideológica: os sujeitos concretos são erigidos em dados absolutos, como indivíduos empíricos cujos atributos são gerais, universais. Os sujeitos são por- Nesse tipo de mediação, a referên- definido como deficiente, seja pelo in- cia se dá em relação à existência de divíduo, pelo profissional médico ou um conjunto de carências (necessida- mesmo pela coletividade, a necessi- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 234-242, set./dez. 2003 237 SILVA, José Paulo Vicente da; PINHEIRO, Roseni & MACHADO, Felipe Rangel S. dade é a expressão de um desvio ou nocrática do planejamento normati- a diferença entre o estado ótimo, defi- vo de necessidades de saúde quan- nido de modo normativo. to na ‘ausência’ de um conceito ope- os diferentes lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade capitalista como as explicações mais importantes para adoecer e morrer. Tal concepção dispensa mediações racional de necessidades de saúde do conceito de necessidades de saú- no enfoque estratégico, há um gran- O segundo “(...) fala da necessida- de, pois a explicação da situação em de problema a ser enfrentado quan- de de se ter acesso e se poder consu- questão cede lugar a um diagnósti- do se formula determinada política mir toda tecnologia de saúde capaz co com base em uma realidade obje- social. Isso porque, em última ins- de prolongar a vida (...)”. Um terceiro tiva que se controla e mensura por tância, essa taxonomia orientará a meio de indicadores tradicionais ex- definição dos parâmetros de cober- ternos ao planificador. tura e seletividade de tal política. (...) diz respeito à insubstituível criação de vínculos (a)efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional (...) significa o estabelecimento de uma relação contínua no tempo, pessoal e intransferível, calorosa: encontro de subjetividades. Quanto ao enfoque estratégico, Tendo como referência o caminho Stotz conclui que não existe qual- percorrido por Stotz (1991), Cecilio quer menção dirigida ao conceito de necessidades de saúde, tanto no pensamento estratégico de Mario Testa, quanto no planejamento situacional de Carlos Matus, para quem o planejamento do tipo estratégico é passível de incorporar determinados ele- À MEDIDA QUE SE CONSIDERA O PROCESSO SAÚDE /DOENÇA COMO AO MESMO TEMPO INDIVIDUAL mentos do enfoque normativo. Para E COLETIVO, HÁ UM GRANDE o primeiro, o diagnóstico de saúde PROBLEMA A SER ENFRENTADO do tipo tradicional, no qual os problemas de saúde são informados por QUANDO SE FORMULA indicadores objetivos e não definidos DETERMINADAPOLÍTICA SOCIAL O quarto e último (...) diz respeito à necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de levar a vida (...) informação e educação são em saúde apenas parte do processo (...) implicaria a possibilidade de reconstrução, pelos sujeitos, dos sentidos de sua vida (...) incluindo aí a luta pela satisfação de suas necessidades, de forma mais ampla possível. por sujeitos individuais ou coletivos, De acordo com este autor, a es- é indispensável na formulação do cuta dessas necessidades tem o po- plano. Já de acordo com Matus, (...) a planificação é uma atribuição governamental, relativa ao presente, que exige cálculo e se refere a problemas reais (...) empiricamente constatáveis, capturados através de uma técnica específica como parte dos procedimentos do momento explicativo, a saber, o fluxograma situacional (MATUS, 1989. p. 20). À medida que se considera o processo saúde/doença como ao mesmo tempo individual e coletivo, tanto na perspectiva reducionista e tec- (2001. p. 114-115) propõe “uma tencial de ampliar a capacidade e taxonomia das necessidades de saú- as possibilidades de intervenção por de totalizadora da visão dos sujei- parte dos trabalhadores de saúde em tos individuais e coletivos organi- relação aos problemas daqueles que zada em quatro grandes conjuntos”. procuram os serviços de saúde. O primeiro conjunto (...) diz respeito a se ter ‘boas condições de vida’ (...) que poderiam ser entendidas tanto no sentido mais funcionalista, que enfatiza os fatores do ‘ambiente’, ‘externos’, que determinam o processo saúde-doença (...), como nas formulações de autores de extração marxista (...), que enfatizam 238 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 234-242, set./dez. 2003 DEMANDA EM SAÚDE: PLURALIDADE DE CONTEXTOS E PRÁTICAS PARA DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO AOS SERVIÇOS DE SAÚDE A integralidade, em seu sentido ampliado, constitui ‘objetivo de rede’ Necessidades, demanda e oferta: algumas contribuições sobre os sentidos, significados e valores na construção da integralidade na reforma do Setor Saúde acabam por manter a distinção entre as categorias oferta e demanda, e pela qual o consumidor ou usuário vai para um lado e o prestador e o agente vão para outro, numa ação descolada do contexto em que estão inseridos (P INHEIRO, 2000. p. 16). e sua concretização depende de uma Setor Saúde. A autora ressalta a articulação entre a micro e a ma- urgência de se ultrapassar as for- cropolítica, e não apenas do espaço mulações originárias desses termos, singular dos serviços – mesmo que já que o campo da economia tem esses cumpram a contento a sua exercido enorme influência na área função social. Para ser alcançada, da saúde, estendendo seus braços depende de uma articulação entre em diferentes áreas do conhecimen- Dessa forma, ‘demanda’ e ‘ofer- serviços e ações setoriais e interse- to, em particular, na área do plane- ta’ são categorias que permitem toriais. Isso porque, conforme o jamento em saúde. apreender as dimensões assisten- momento que vive o usuário, a tec- Para Pinheiro (2000), diferente- cial, tecnológica e política, que têm nologia de saúde que necessita pode mente da economia e do planejamen- no cotidiano das instituições de saú- estar em uma unidade básica de to em saúde, deve-se evitar a divi- de seus elementos constitutivos. Afi- saúde ou em algum serviço produ- são peculiar entre demanda e ofer- nal, são essas dimensões que en- tor de procedimentos mais sofisti- volvem a formulação, a execução cados, ou até mesmo poderá depen- e a análise das políticas de saúde der de uma cooperação com outros setores da política governamental (CECILIO, 2001. p. 117). Nessa perspectiva, o acesso da população a todos os níveis de com- C ABE DIZER QUE ‘NECESSIDADES’, ASSIM COMO ‘DEMANDAS ’, SÃO no campo da organização dos pró- CATEGORIAS QUE DEVEM SER entende-se que a demanda e a ofer- plexidade é uma das condições para COMPREENDIDAS DE MANEIRA que haja garantia da integralidade da CONTEXTUALIZADA, O QUE REMETE atenção no SUS. Mas, o acesso per si não garante a integralidade, à medida que a mesma depende de outros PARA A UTILIZAÇÃO DE OUTROS REFERENCIAIS TEÓRICOS prios serviços que as instituições mantêm dentro do sistema. Assim, ta são construídas a partir de uma ação social, podendo incluir tanto a objetividade quanto a subjetividade de seus atores, assim como suas falas e práticas no interior das instituições de saúde. fatores para a sua materialização. É importante notar que, diferen- Cabe dizer que ‘necessidades’, as- temente da afirmação de Cecílio sim como ‘demandas’, são catego- ta, pois essa visão impede que a (2001), as demandas podem não ser rias que devem ser compreendidas de relação entre as duas categorias seja necessidades moduladas pela ofer- maneira contextualizada, o que reme- vista, reproduzindo-se o caráter di- ta dos serviços, a não ser que conti- te para a utilização de outros referen- cotômico e até estático das mesmas. nuemos somente a utilizar referen- ciais teóricos, que não somente os do campo da economia, mas também das ciências políticas e sociais. A discussão proposta por Pinheiro (2000) aponta para a importância de se reconstruir os conceitos de ‘demanda’ e ‘oferta’, no sentido de se apreender diferentes aspectos presentes nas propostas de reforma no (...) os estudos realizados sob esse prisma tendem a analisar os seus componentes separadamente, de modo que a demanda seja relacionada apenas aos usuários ou consumidores e a oferta seja ligada somente aos serviços propriamente ditos. Há nessa forma de elaboração estreita ligação com os conceitos econômicos clássicos, que, assentados no mercado, via consumo, ciais conceituais originários dessas categorias na formulação e no planejamento da oferta em saúde ou na própria análise das políticas. Por outro lado, se ampliarmos os conteúdos de diferentes campos de conhecimento, a demanda pode ganhar novos contornos conceituais, conforme proposto por Stotz (2001) Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 234-242, set./dez. 2003 239 SILVA, José Paulo Vicente da; PINHEIRO, Roseni & MACHADO, Felipe Rangel S. na discussão sobre a definição de tre a nossa política e as formulações necessidades. Compreendemos a das agências internacionais, como é demanda como fruto de uma rela- o caso do Banco Mundial. ção e interação entre atores que têm Posto isso, retomamos a perspec- necessidades, desejos e projetos ins- tiva dialógica do princípio da inte- titucionais distintos e que, portan- gralidade. Esta se afirma numa ação to, devem ser considerados. recíproca entre a micro e a macro- Partindo dessa compreensão, a política (CECÍLIO, 2001), entre o geral integralidade apresenta potenciali- e o particular, e entre o individual e dades que sugerem a construção o coletivo, pois as necessidades de de inovações no campo político e saúde espelham as mediações da institucional, desde que apreendi- prática social dos sujeitos individuais das como eixo estruturante de no- e coletivos (S TOTZ, 1991) que, em in- vas práticas sanitárias nos diferen- teração com o centro da ‘socieda- tes níveis de complexidade de aten- de civil’, lutam pela saúde. Dessa ção à saúde. forma, a integralidade, em seu sen- De acordo com Ceccim e Armani tido ampliado, só poderá ser fruto (2002), essa questão remete para a da ação social concreta e, portanto, garantia de amplo acesso à partici- da co-produção intencional de su- pação e ao controle social na plani- jeitos individuais e coletivos livres, ficação, na avaliação e no controle conscientes das suas necessidades em saúde, à articulação com os de saúde (consciência sanitária). Mattos afirma (2001. p. 61): quer tomemos a integralidade como princípio orientador das práticas, quer como princípio orientador da organização do trabalho, quer da organização das políticas, integralidade implica uma recusa ao reducionismo, uma recusa à objetivação dos sujeitos e talvez uma afirmação ao diálogo. E conclui que a luta pela integralidade (...) é travada cotidianamente no interior dos serviços de saúde, nas reuniões de técnicos e gestores do SUS nos seus diversos níveis, nas novas arenas de negociação e pactuação entre gestores e nos debates nas instâncias que contam com a participação popular (M ATTOS, 2001. p .61). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Constituição Brasileira. Brasília, DF: Imprensa Oficial, 1988. movimentos sociais e à negociação Para essa direção, parece con- política com a sociedade. Portanto, vergir a perspectiva de Mattos BRASIL. Lei n. 8.080, de 19 de se- a disseminação dos princípios dou- (2001), que apresenta a integrali- tembro de 1990. Dispõe sobre as trinários do SUS e de suas formas dade como uma ‘bandeira-de-luta’ condições para a promoção, prote- de materializá-los auxilia na quali- compondo uma ‘imagem-objetivo’ ção e recuperação da saúde, a or- ficação da participação política para maior e cuja tradução se dá em um ganização e o funcionamento dos a defesa da saúde como direito. projeto societário permeado pelos serviços correspondentes e institu- ideais de justiça e solidariedade. cionaliza a descentralização e as Essa tradução parece recompor a relações entre União, Estados e unidade dialética saúde/democra- Municípios com relação à política Pensar a integralidade da atenção cia, que permeou a construção do de saúde. Diário Oficial da Repú- se justifica pelo fato dessa diretriz, projeto político da Reforma Sanitá- blica Federativa do Brasil. Brasí- segundo hipótese de Mattos (2001) – ria. Cabe ressaltar que aquele pro- lia, DF, 29 de setembro de 1990. com a qual concordamos –, demar- jeto informava a ‘politização da BRASIL . Lei n. 8.142, de 28 de dezem- car a própria especificidade da polí- saúde’ como estratégia central para bro de 1990. Dispõe sobre a partici- tica de saúde brasileira. Atualmen- se alcançar os objetivos propostos, pação da comunidade na gestão do te, a integralidade parece constituir entre os quais a integralidade da Sistema Único de Saúde (SUS) e so- uma das principais divergências en- atenção se situa centralmente. bre as transferências intergoverna- CONSIDERAÇÕES FINAIS 240 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 234-242, set./dez. 2003 Necessidades, demanda e oferta: algumas contribuições sobre os sentidos, significados e valores na construção da integralidade na reforma do Setor Saúde menais de recursos financeiros na Operacionais Básicas. Ciência & danças de práticas sanitárias do Sis- área de saúde e dá outras providên- Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 6, tema Único de Saúde. São Paulo: cias. Diário Oficial da República n. 2, p. 269-291, 2001. HUCITEC, 1993. L EVCOVITZ, Eduardo. Transição x con- NUNES , Everardo Duarte. Carências solidação: o dilema estratégico da urbanas, reivindicações sociais e C AMARGO JÚNIOR , Kenneth R de. As construção do SUS. Um estudo so- valores democráticos. Lua Nova, muitas vozes da integralidade. In: bre as reformas da política nacio- Revista de Cultura e Política, São P INHEIRO , Roseni; MATTOS , Ruben nal de saúde – 1974/1996. 1997. Paulo, v. 17, p. 67-91, jun. 1989. Araújo de (Orgs.). Os sentidos da in- 302f. Tese (Doutorado) – Instituto tegralidade na atenção e no cuida- de Medicina Social, Universidade do à saúde. Rio de Janeiro: IMS-UERJ , do Estado do Rio de Janeiro, Rio de 2001. p.11-15. Janeiro, 1997. C ARVALHO, Guido Ivan de; SANTOS , Le- M ALTA , Deborah Carvalho. 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A ferramenta testada foi aplicada de forma rápida o que sugere que ela pode ser empregada nas avaliações regulares do desempenho das unidades. Conclui-se que apesar de Petrópolis ter realizado avanços importantes na atenção básica, enfrenta vários desafios, incluindo: melhorar acesso, reforçar o papel da atenção básica como porta de entrada no sistema, alcançar maior integralidade na atenção à saúde, melhorar a coor- Economista, Ph. D, ex-professor visitante do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (DAPS ) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ), professor de saúde pública na Universidade de Nova York e-mail: [email protected] 1 MD, MPH, Ph. D, pesquisadora titular do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (D APS) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Av. Brasil, 4.036 – sala 707 CEP 21040-361 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 2 MPH, pesquisadora assistente do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (D APS) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Av. Leopoldo Bulhões, 1.480 – 7 0 andar CEP 21041-210 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 3 denação e aumentar a orientação para a comunidade. DESCRITORES: Avaliação dos Serviços; Cuidados Primários de Saúde; Programa Saúde da Família. ABSTRACT The purpose of the study was to adapt and apply an instrument to measure the organizational features of the primary care system in the municipality of Petrópolis (RJ), comparing the performance of its Family Health Program (PSF) with traditional primary care facilities (UBS). The study used the methodology of key reporters. The tool successfully employed a rapid assessment methodology suggesting that it could be used in on-going monitoring and evaluation of the performance of health facilities. In conclusion, in spite of making important advances in primary care, Petrópolis faces several challenges including the need to improve access, enforce the role of primary care as a gatekeeper to the health system, and improve the scope, coordination, and community orientation of both types of primary care services. DESCRIPTORS: Services Evaluation; Primary Health Care; Family Health Program. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 243 MACINKO, James; ALMEIDA, Celia & OLIVEIRA, Eliane INTRODUÇÃO cas inovadoras do programa, in- Petrópolis (Rio de Janeiro) essa nova Durante a última década do sé- cluem-se a ênfase em reorganizar metodologia. Espera-se que no fu- culo passado, o Brasil experimen- serviços de atenção básica, cen- turo esse instrumento possa ser apli- tou grandes mudanças na organiza- trando-os na família e na comuni- cado a uma amostra nacional de ção, no financiamento e na oferta de dade e integrando-os aos outros municípios para determinar tendên- serviços de seu sistema de saúde, níveis de atenção. Entretanto, as cias no alcance das dimensões or- sendo que a atenção básica tem pesquisas e as metodologias exis- ganizacionais da atenção básica e o merecido especial cuidado, com a tentes para medir o alcance do pro- seu impacto na saúde da população introdução de programas inovado- grama nestas dimensões inovado- em nível nacional. res e estratégicos para a mudança ras ainda são insuficientes. do modelo assistencial no Sistema Único de Saúde (SUS). Estas mudanças realizaram-se Na primeira parte do trabalho Daí o interesse em avaliar o al- discutimos o marco teórico utiliza- cance destes programas e, mais am- do e a metodologia empregada; na plamente, o impacto dessas inova- segunda, apresentamos e discutimos devido a muitos fatores, entre eles alguns dos principais resultados; e, a necessidade de se desenvolver e por fim, fazemos algumas conside- disponibilizar para a população, ser- rações sobre este trabalho e seus viços básicos que sejam mais aces- possíveis desdobramentos. síveis, eqüitativos e de melhor qualidade. Para responder a esse desafio, o Ministério da Saúde (MS) vem A ATENÇÃO BÁSICA TEM MERECIDO ESPECIAL CUIDADO, COM A INTRODUÇÃO DE MARCO TEÓRICO utilizando diversas estratégias, des- PROGRAMAS INOVADORES E ESTRATÉGICOS Nas décadas antes mencionadas, tacando-se os programas especiais PARA A MUDANÇA DO MODELO ASSISTENCIAL de uma maneira geral, todos os paí- – o Programa de Agentes Comunitá- NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE ses reformaram seus sistemas de rios de Saúde (PACS), desde 1991, e o serviços de saúde, guiados por ob- Programa Saúde da Família (PSF), jetivos de alcance de maior eficiên- desde 1994 – assim como o Piso da cia, eqüidade e qualidade na aten- Atenção Básica (PAB), introduzido ção, sendo que novos modelos e com a Norma Operacional Básica ções na organização da atenção bá- paradigmas de reforma têm sido di- (NOB) 1996 e atualizado com a Nor- sica e na provisão de serviços, as- fundidos mundialmente. Na Améri- ma Operacional de Assistência à Saú- sim como o resultado da ação dos ca Latina, esses processos têm sido de (NOAS) 2001 e 2002, como parte serviços de atenção primária na saú- particularmente importantes, pois ao do processo de descentralização. de da população em nível local. mesmo tempo que estão vinculados O PSF em particular apresentou Apresentamos aqui alguns resul- às políticas de ajuste macroeconô- um crescimento considerável. De tados preliminares de uma pesqui- mico e à reforma do Estado, são 900 equipes em 900 municípios em sa que foi desenhada para validar concomitantes ao aumento impac- 1996 (AGUIAR , 1998), passou para uma metodologia de avaliação rá- tante da pobreza e das desigualda- quase cinco mil equipes em 1.870 pida dos elementos organizacionais des, pari passu à deterioração das municípios em 1999 e 10.025 equi- e do desempenho do sistema de aten- instituições públicas, exacerbadas pes em 3.059 municípios em 2000 ção básica do SUS. O objetivo do exatamente por essas mesmas polí- (BRASIL, 2000). Entre as característi- estudo foi testar, no município de ticas (FANELLi et al., 1992; HOEVEN ; 244 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 Avaliação das características organizacionais dos serviços de atenção básica em Petrópolis: teste de uma metodologia S TEWART, 1993; COMINETTI, 1994). Pa- A discussão contemporânea so- ralelamente, assistimos a mudanças bre a avaliação dos sistemas de ser- muito mais radicais dos sistemas de viços de saúde reconhece a impor- saúde, com resultados pífios em re- tância de definir os seus limites, lação ao preconizado pelas agendas explicitando-se claramente as áreas de reforma, ou mesmo piora das passíveis de intervenção direta das condições antes observadas (ALMEI- autoridades sanitárias ( P AHO , DA, 2002a; 2002b). Mais recentemen- 2001a). No que toca à atenção bási- te, esses resultados têm levado à ca, a avaliação se depara com o pro- formulação de estratégias que apon- blema adicional de que não existe tem para a (re)construção de siste- consenso na literatura sobre seu mas de saúde mais eqüitativos e conceito, tendo sido definida de for- com serviços de melhor qualidade ma diferente, no tempo e no espaço. (INFANTE, 2000). pelo menos dois significados: uma prescrição geral que advogava que os sistemas sanitários deveriam dar tecipando/evitando os problemas de desempenhado papel de destaque saúde e os agravamentos das doen- início pensada numa perspectiva A ATENÇÃO PRIMÁRIA restrita, como uma forma de dimi- FOI APROVADA COMO nuir o gasto hospitalar, particular- Esse enfoque inter-relacionava prioridade à assistência básica, an- A atenção básica em saúde tem nessas reformas contemporâneas. De tral dos SS de cada país e principal enfoque do desenvolvimento social e econômico da comunidade [...] É o primeiro nível de contato dos indivíduos, família e comunidade com a SS, levando a atenção de saúde mais próximo possível do local onde as pessoas vivem e trabalham, constituindo o primeiro elemento de um processo de atenção continuada à saúde (WHO, 1978, tradução livre). ças e quebrando os ciclos perversos produtores das enfermidades; e um conjunto mínimo de ações e servi- A PRINCIPAL ESTRATÉGIA ços que compunham a Atenção Pri- saúde, ela vem pouco a pouco sen- PARA ATINGIR A META DE mária e se estendiam para além do do retomada de forma mais ampla, “SAÚDE PARA TODOS NO ANO 2000” mente alto em todos os sistemas de voltada para a ‘reversão do modelo campo estrito dos serviços de assistência médica, focalizando as con- assistencial’, excessivamente centra- dições de vida e saúde das popula- do na assistência médica, com a re- ções, incorporando ações na área de comendação de que deva fazer par- educação, saneamento, promoção te integral das estratégias de desen- Assim, em 1978, na Declaração de da oferta de alimentos e da nutrição volvimento econômico e social Alma Ata, a atenção primária foi apro- adequada, saúde materno-infantil (WORLD BANK 1993; WHO 2001a). vada como a principal estratégia para (incluindo planejamento familiar), Entretanto, o impacto da atenção atingir a meta de “Saúde para todos medidas de prevenção, provisão de básica no alcance desses objetivos no Ano 2000” (ASSEMBLÉIA MUNDIAL medicamentos essenciais, garantia não foi investigado de maneira sis- S AÚDE, 1977), e definida como: temática. Quase um quarto de século após Alma Ata (1978), existe pouca evidência disponível sobre o impacto da atenção básica na saúde da população e, menos ainda, no desenvolvimento socioeconômico ao longo do tempo (HILL et al., 2000). DA A atenção essencial à saúde baseada em práticas e tecnologias cientificamente comprovadas e socialmente aceitáveis, universalmente acessíveis a indivíduos e famílias de uma comunidade, a um custo compatível com o estágio de desenvolvimento de cada país [...] É função cen- de acesso aos serviços etc. (WALT, 1994; ALMEIDA , 1995). O enfoque de Atenção Primária, promovido também pela U NICEF , conjuntamente com a Organização Mundial da Saúde (OMS), foi acolhido entusiasticamente pelos países da periferia, mas tratado de Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 245 MACINKO, James; ALMEIDA, Celia & OLIVEIRA, Eliane forma muito mais cautelosa nos FIGURA 1 – Atenção básica e sua relação com o sistema de saúde países desenvolvidos. Mais tarde, esse significado foi mudando e se confundindo com o de atenção básica, sendo que, para alguns autores, refere-se a um determinado nível de atenção; para outros, é um conjunto de serviços ou intervenções em saúde ou uma estratégia de conscientização das comunidades para melhora de seus problemas coletivos de saúde (VUORI , 1985). Neste trabalho, elaboramos um modelo teórico (ou uma representação) da atenção básica que tenta incorporar essas diferentes dimensões (Figura 1). A ênfase está posta nas muns; controles pré-natais e outros; setores como os de educação, sa- características e funções essenciais vacinações; planejamento familiar; neamento básico, meio ambiente ou da atenção básica e nas suas rela- educação em saúde; nutrição e desenvolvimento econômico. No ções com os outros elementos do atenção a problemas não graves de entanto, a atenção básica deve ser sistema de saúde, definido de for- saúde mental. Entretanto, a aten- responsável pela criação e manu- ma ampla pela Organização Mun- ção básica tem uma abrangência tenção da inter-relação entre esses dial da Saúde como “todas as ações maior do que o mero fornecimento setores e a saúde das populações. cuja principal intenção é promover de serviços de assistência médica, E o grau de participação da aten- a saúde” (WHO, 2000. p. 5). Esse inter-relacionando e integrando ou- ção básica nessas ações vai variar modelo pode ser utilizado para des- tras dimensões funcionais do sis- segundo o tipo de ação e a disponi- crever qualquer unidade de aten- tema de saúde, representadas pe- bilidade de recursos. ção básica, seja pública, privada ou las linhas que irradiam do círculo Devido à tendência mundial à não governamental. central e estabelecem as conexões descentralização e à privatização No meio do círculo, na Figura 1, mencionadas. Ao conectar a aten- de serviços públicos, hoje muitas a atenção básica é composta pela ção básica com outras ações inter- das ações originalmente pensadas assistência preventiva e curativa, setoriais, o que se propõe é que ela em Alma Ata como parte da aten- centrada na pessoa, e deve resol- possa influir nas demais ações ne- ção básica estão sendo desenvol- ver a maioria dos problemas de cessárias para as mudanças nos de- vidas por organizações não-gover- saúde da população. Incluem-se aí terminantes não biológicos da saú- namentais ou empresas privadas, serviços básicos de assistência de, sem ser a responsável direta que na maioria dos casos não têm médica, como o tratamento cotidia- pela execução dessas atividades, relação formal com o setor saúde no da maioria das doenças agudas, que podem ser concebidas, finan- (WHO, 2001b). Isso justifica a de- crônicas e traumatismos mais co- ciadas e implementadas por outros finição da atenção básica pelas 246 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 Avaliação das características organizacionais dos serviços de atenção básica em Petrópolis: teste de uma metodologia funções que cumpre, sendo que dade), ao longo do tempo, fornece (1992 e 1998) e na literatura disponí- essas definições funcionais tam- atenção para todas as condições, exceto as muito incomuns ou raras, vel que discute a meta de ‘Saúde para bém são úteis para avaliar os determinantes da saúde que podem ser mais especificamente enfrenta- e coordena ou integra os outros tipos de atenção fornecidos em algum outro lugar ou por terceiros. Assim, Todos no Ano 2000’, elaboramos uma lista dos principais atributos da atenção básica (Quadro 1). dos pelo setor de serviços de saú- é definida como um conjunto de fun- Pesquisas internacionais demons- de. Do ponto de vista histórico, as ções que, combinadas, são exclusi- tram que sistemas de saúde que pos- próprias definições de atenção bá- vas da atenção primaria [...] A aten- suem dimensões como as descritas ção primaria aborda os problemas na Quadro 1 estão, em geral, corre- sica dificultaram a medida do seu impacto na saúde da população mais comuns da comunidade ofere- lacionados com custos mais baixos, (S TARFIELD, 1992; 2003). Esse desa- cendo serviços de prevenção, cura e reabilitação [...] Ela integra a aten- fio pode ser superado pelo exame ção quando existem múltiplos pro- alto grau de satisfação do usuário dos elementos estruturais e fun- blemas de saúde [...] É a atenção (BERMAN, 2000; B INDMAN et al., 1996; maior qualidade dos serviços e um BOERMA, FLEMING, 1998; B UNKER, 2001; cionais da atenção básica. Entre os elementos estruturais, CASANOVA; C OLOMER, 1996; S TARFIELD , quatro definem o potencial da aten- 1994). Estas dimensões também es- ção primária – acessibilidade, elenco de serviços, população adscrita e continuidade (ou atenção contí- O MINISTÉRIO DA SAÚDE DEFINIU A tão correlacionadas com melhor saú- ATENÇÃO BÁSICA COMO UM CONJUNTO quando controladas por outros de- de em nível populacional, mesmo nua). E os elementos processuais DE AÇÕES, DE CARÁTER INDIVIDUAL OU terminantes como PIB per capita, incluem a utilização de serviços e o COLETIVAS , SITUADAS NO PRIMEIRO NÍVEL renda per capita, número de médi- reconhecimento das necessidades de saúde da população. São necessá- DE ATENÇÃO DOS SISTEMAS DE SAÚDE , rios um dos quatro elementos estru- VOLTADAS PARA A PROMOÇÃO DA SAÚDE cos, uso de tabaco e uso de álcool (MACINKO et al., 2003). No Brasil, o Ministério da Saúde turais e um dos dois elementos pro- definiu a atenção básica como um cessuais (desempenho) para medir conjunto de ações, de caráter indi- o potencial e o alcance de cada um vidual ou coletivas, situadas no pri- dos atributos da atenção primária, que organiza e racionaliza o uso de meiro nível de atenção dos sistemas que são: porta de entrada, longitu- todos os recursos, tanto básicos de saúde, voltadas para a promo- como especializados, direcionados ção da saúde, a prevenção dos agra- para a promoção, manutenção e me- vos, o tratamento e a reabilitação dinalidade, integralidade e coordenação (S TARFIELD, 2003). Nessa perspectiva, Barbara Star- lhora da saúde. (BRASIL, 1999). Esta definição inclui É desejável combinar a definição alguns elementos da definição de orientada aos serviços de saúde, de Starfield, tais como a porta de en- Starfield, com uma noção mais am- trada e a integralidade da atenção. pla de atenção básica que reflete o Mas outras dimensões essenciais da conceito comunitário e multisseto- atenção básica (tais como coorde- rial da atenção primária, como desen- nação da atenção, vínculo com o blemas de saúde da pessoa (não di- volvido nos países em desenvolvimen- usuário, foco na pessoa) não apare- recionadas apenas para a enfermi- to. Baseados no trabalho de Starfield cem na definição. field (2003. p. 28) elaborou a seguinte definição de atenção básica: Aquele nível de um sistema de serviço de saúde que funciona como porta de entrada no sistema, atendendo todas as necessidades e pro- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 247 MACINKO, James; ALMEIDA, Celia & OLIVEIRA, Eliane QUADRO 1 - Definições das dimensões essenciais da atenção básica da saúde (STARFIELD, 2003) Dimensão Definição Acessibilidade Envolve a localização do estabelecimento próximo da população à qual atende, os horários e dias em que está aberta para atender, o grau de tolerância para consultas não agendadas e o quanto a população percebe a conveniência destes aspetos da acessibilidade. Porta de entrada Implica acessibilidade e uso do serviço a cada novo problema ou novo episódio de um problema pelo qual as pessoas buscam atenção à saúde. Vínculo ou longitudinalidade Pressupõe a existência de uma fonte regular de atenção e seu uso ao longo do tempo. Assim a unidade de atenção primária deve ser capaz de identificar a população adscrita, bem como os indivíduos dessa população, que deveriam receber atendimento na unidade de atenção básica, exceto quando for necessário realizar uma consulta fora ou fazer um encaminhamento. Além disso, o vínculo da população com sua fonte de atenção deveria estar refletido em fortes laços interpessoais que refletissem a cooperação mútua entre as pessoas da comunidade e os profissionais de saúde. Elenco de serviços ou integralidade Implica que as unidades de atenção primária devem fazer arranjos para que o paciente receba todos os tipos de serviços de atenção à saúde. Isto inclui o encaminhamento para serviços secundários para consultas, serviços terciários para manejo definitivo de problemas específicos, tais como internação domiciliar e outros serviços comunitários. Coordenação ou integração dos serviços Requer alguma forma de continuidade, seja por parte dos profissionais, seja por meio de prontuários médicos, ou ambos, além do reconhecimento de problemas – por exemplo, os observados em consultas anteriores ou pelos quais houve algum encaminhamento para outros profissionais deveriam ser avaliados nas consultas subseqüentes. Centralidade na família Resulta quando o alcance da integralidade fornece uma base para a consideração dos pacientes dentro de seus ambientes, quando a avaliação das necessidades para a atenção integral considera o contexto familiar e sua exposição a ameaças à saúde e quando o desafio da coordenação da atenção se depara com recursos familiares limitados. Orientação para a comunidade Resulta de um alto grau de integralidade na atenção primária. Todas as necessidades relacionadas à saúde dos pacientes ocorrem em um contexto social; o reconhecimento dessas necessidades freqüentemente requer o conhecimento do contexto social. Formação profissional Não é uma dimensão definida, para Starfield, mas representa um importante requisito para que os profissionais de saúde sejam capacitados para desempenhar suas funções segundo estas dimensões. Pressupõe que a atenção básica seja uma área de ‘especialização’ que requer formação específica. METODOLOGIA Hopkins (S TARFIELD, 2000; 1998). Pes- plementação da política. Essas quisadores norte-americanos de- ações foram selecionadas segundo Esta pesquisa foi desenhada para monstraram que este instrumento seu potencial para melhorar a efe- validar uma metodologia de avalia- possibilitou medir as dimensões es- tividade da atenção primária. ção rápida dos elementos organiza- senciais da atenção básica de ma- O município de Petrópolis, no Rio cionais e de desempenho do siste- neira válida e confiável (S HI et al., de Janeiro, foi escolhido para testar ma de atenção básica do SUS. Foi 2001). O instrumento foi original- a metodologia pela facilidade de realizada pela adaptação de um ins- mente desenhado para ser usado acesso; por ter um sistema local de trumento – o Primary Care Assess- com informantes-chave e inclui saúde com razoável tradição histó- ment Tool (PCAT) – que é um ques- questões referentes às dimensões rica de desenvolvimento da atenção tionário formulado e validado para mencionadas antes. Cada uma des- básica; e ter o PSF funcionando há avaliar os aspectos críticos da aten- sas dimensões está relacionada a cerca de cinco anos, em algumas ção primária em países industriali- um determinado número de ações localidades, sendo que atualmente zados, como EUA e Canadá, desen- específicas em nível da prática clí- está em processo de implantação de volvido na Universidade de Johns nica, de saúde pública ou de im- mais equipes. Além disso, possui 248 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 Avaliação das características organizacionais dos serviços de atenção básica em Petrópolis: teste de uma metodologia unidades básicas tradicionais fun- bém por tipo de programa (PSF todo entrevistado foi solicitado a cionando com regularidade. ou Unidade de Saúde tradicional). avaliar a sua própria confiança nas Foram elaboradas duas versões O fato de as perguntas e as escalas respostas dadas, ou seja, foi pergun- do instrumento: uma para ser apli- serem iguais para cada pessoa en- tado que porcentagem das respos- cada aos profissionais que atuam trevistada, facilita a comparação tas havia sido extraída de dados nas unidades de atenção básica – entre as diferentes unidades, progra- preexistentes e que porcentagem era PSF e tradicionais – e outra aos ges- ma e níveis (por exemplo, compa- devida unicamente à opinião pes- tores da Secretaria Municipal de rando unidades com outras unida- soal do informante. Por fim, como a Saúde de Petrópolis (SMS/Petrópo- des ou comparando programas com primeira fase da pesquisa foi cen- lis). Cada instrumento contém cem outros programas). trada em apenas um município, os perguntas específicas sobre aspec- Vários mecanismos foram utili- tos da atenção básica, que correspon- zados para assegurar a validade das dem a indicadores de avaliação da respostas. Primeiro, cada informan- atenção básica tomados de pesqui- res foram modificados em relação aos originalmente incluídos no questionário PCAT e o instrumento foi adap- processo de ‘triangulação’ (usando FOI REALIZADO UM PRÉ -TESTE COM ALGUNS INFORMANTES -CHAVE SELECIONADOS , POIS EMBORA A tado para melhor refletir o contexto METODOLOGIA JÁ TENHA SIDO APLICADA brasileiro. Foi realizado um pré-teste EM OUTROS PAÍSES LATINO -AMERICANOS, com alguns informantes-chave selecionados, pois embora a metodolo- AINDA NÃO HAVIA SIDO APLICADA NO B RASIL perguntas segundo uma escala predefinida com valores de zero a cin- mar a sua validade) é muito comum nas pesquisas qualitativas (GOMES VÍCTORIA et al., 2000). Diferenças nos resultados entre tipos de unidades (PSF e tradicional) foram testadas usando o teste X2 . A diferença entre as duas unidades nificativa se a probabilidade calcu- países latino-americanos, ainda não Cada entrevistado respondeu às várias fontes de dados para confir- foi considerada estatisticamente sig- gia já tenha sido aplicada em outros havia sido aplicada no Brasil. 1 dados secundários disponíveis, a concordância entre ambos. Esse Cada indicador está relacionado tamcritas no Quadro 1. Alguns indicado- parados com a análise de fontes de quanti e qualitativos, avaliando-se sas e experiências internacionais. bém a uma das oito dimensões des- resultados da sondagem foram com- lada era menor que 0,05. Este limite-chave foi selecionado segundo os te é considerado conservador, pois critérios definidos – cargo atual, o tamanho da amostra (n = 33) é número de anos trabalhados na pequeno (FISHER; VAN BELLE, 1993). co. As respostas foram somadas e o municipalidade pesquisada e cre- valor médio das respostas de todas denciais profissionais. Segundo, as perguntas para cada dimensão vários informantes-chave foram se- foi calculado para cada pessoa en- lecionados para abordar o mesmo O município de Petrópolis fica trevistada. Essas respostas foram município, permitindo avaliar a con- localizado na região serrana flumi- analisadas individualmente e tam- cordância inter-avaliador. Terceiro, nense do estado do Rio de Janeiro. RESULTADOS Essa etapa da pesquisa foi financiada com alguns recursos da Bolsa Fulbright, assignada ao professor visitante da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ), James Macinko, e teve apoio operacional do Departamento de Administração em Planejamento e Saúde (DAPS ) e da Secretaria Municipal de Saúde de Petrópolis, Rio de Janeiro. 1 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 249 MACINKO, James; ALMEIDA, Celia & OLIVEIRA, Eliane Fundada em 1857, possui uma altitude de 809m, com uma área total de 776,6km² e uma população de 286.348 habitantes, perfazendo uma densidade demográfica de 359,49 TABELA 1 – Características do Município, 2002 Indicador Petrópolis Estado do Rio 2 Área (km ) 811 43.696 Habitantes 286.348 14.724.479 habitantes/km², segundo o Censo Renda per capita anual (R$) 7.588 9.788 Demográfico de 2002. Aos 160 anos, Taxa de mortalidade infantil/1.000 NV 23,20 19,74 Petrópolis possui mais de 700 cons- Proporção de NV com baixo peso ao nascer 10,34 8,58 truções históricas, tombadas em Proporção de NV de mães com > 4 consultas pré-natais 90,53 89,67 prol da preservação do patrimônio. Taxa de mortalidade por doenças cerebrovasculares/100,000) 79,57 60,23 Entre elas encontram-se o Museu Cobertura pelo PSF (%) (2002) 14,66 12,87 Imperial, a casa de Santos Dumont, Estabelecimentos de saúde 152 4.679 a catedral São Pedro de Alcântara, Estabelecimentos públicos 41 1.765 o palácio Rio Negro, o Museu Casa Estabelecimentos municipais 40 1.660 do Colono, o Palácio de Cristal e o Estabelecimentos privados com fins lucrativos 100 2.644 palácio Quitandinha, que atraem Estabelecimentos ambulatoriais 86 2.966 mais de 500 mil turistas por ano. Serviços de Apoio a Diagnose e Terapia 52 1.183 Empregos de Saúde 6.724 249.704 Empregos médicos 2.505 29.885 276 11.964 A Cidade Imperial, como é chamada, fica a uma hora da capital e vem ganhando destaque no país como pólo de alta tecnologia. É a única cidade brasileira a fazer parte da World Tecnópolis Association (WTA), considerado o mais importante organismo internacional na promoção de projetos e estudos entre as tecnópolis espalhadas pelo mundo. Alguns dados sobre o município e sua inserção no estado do Rio de Janeiro estão resumidos na Tabela 1. Foram entrevistados profissionais (médico ou enfermeiro) de 23 (90%) das 26 unidades do PSF e dez (75%) dos 15 postos e centros de saú- Empregos de Enfermeiros Fonte: IBGE, 2002. ria da população, identificados pelo de 5) para o PSF e 3.9 para os pos- censo, com base no número de pro- tos e centros de saúde. Esta diferen- cedimentos executados por unidade ça (p<0.05) é estatisticamente sig- em 2002 (SIASUS, 2002). nificativa (Gráfico 1). A pesquisa incluiu as oito dimen- Além da diferença nas esca- sões da atenção básica mencionadas, las, também existe uma variação mas neste artigo serão apresentados entre os indicadores específicos apenas os resultados referentes a de vínculo: algumas delas, consideradas essenciais: vínculo, foco na família, ori- • a população adscrita é mais fre- entação comunitária e coordenação. qüente nas unidades do PSF do que nas tradicionais (p<0.05); e de tradicionais no município, além Vínculo de todos os gestores da SMS/Petró- • os clientes têm mais facilidade polis, com pelo menos cinco anos As unidades do PSF têm um vín- para ligar ou falar com o mesmo de experiência na cidade. Foram in- culo mais forte com seus usuários profissional de saúde que o atendeu, cluídos na pesquisa os postos e cen- do que as unidades tradicionais. quando têm algum problema ou per- tros de saúde que atendem à maio- A escala é 4.4 (de um total possível gunta sobre seu tratamento, nas uni- 250 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 Avaliação das características organizacionais dos serviços de atenção básica em Petrópolis: teste de uma metodologia GRÁFICO 1 – Vínculo por tipo de unidade, Petrópolis, 2003 dades do PSF do que nas tradicio- enfermeiro. Discussão com inte- qüentam o posto de saúde tradicio- nais (p<0.05); grantes da equipe do programa re- nal, caso a fila de espera seja mui- vela que eles têm talvez uma defi- to longa no posto PSF. Quanto ao nição mais clara de atividades a vínculo, o fato do PSF estabelecer consulta, com mais freqüência nas serem desenvolvidas por cada pro- um vínculo mais claro com o cli- unidades tradicionais do que no PSF, fissional, sendo que para muitos ente seria devido a que os clientes mas esta diferença não é estatisti- problemas de saúde o cliente so- dispõem de mais tempo durante a camente significativa; mente se consulta com o enfermei- consulta, o que lhes permite escla- ro, mas para outros problemas te- recer dúvidas e conversar mais com ria que se consultar com o médico. o profissional. Entretanto, tanto as Com respeito à população ads- unidades do PSF quanto os postos crita, é interessante notar que qua- tradicionais avaliam que dão tem- se a metade das unidades tradicio- po suficiente para a consulta. • cada usuário é examinado pelo mesmo profissional, cada vez que • todas as unidades do PSF e as tradicionais reportam que os profissionais de saúde sempre usam os prontuários médicos em cada consulta do usuário. nais respondeu que tinha uma po- Por fim, é também importante Estes resultados merecem algu- pulação definida, embora essa não enfatizar uma boa prática que mas observações. O fato de ser mais seja uma norma de organização. acontece em todos as unidades: provável que o mesmo profissional Conversações com as equipes reve- o uso do prontuário médico em atenda ao usuário em diferentes laram que alguns dos postos de toda consulta, pois facilita quan- consultas nas unidades tradicionais saúde contam como clientes que do perguntam, durante a consulta, do que nas do PSF é surpreendente, também fazem parte do PACS; e pelo sobre todos os medicamentos que uma vez que as unidades de PSF menos um posto de saúde consta- o cliente está tomando e as possí- em geral têm só um médico e um tou que clientes do PSF também fre- veis intercorrências. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 251 MACINKO, James; ALMEIDA, Celia & OLIVEIRA, Eliane Coordenação Na dimensão ‘coordenação’ não existe grande diferença entre as unidades do PSF e as tradicionais (Gráfico 2). O valor médio para os dois tipos é praticamente igual. Algumas diferenças específicas incluem: • PSF utiliza mais as normas para referência e contra-referência (p<0.05); • o PSF reporta mais freqüente- para referências e fornecimento de mente o fornecimento de informa- informações escritas para serem ções escritas para clientes entrega- entregues ao serviço especializa- rem aos especialistas quando enca- do) têm a ver com as ações do minhados (p<0.05); e médico ou enfermeiro que faz a • os dois tipos de unidades reportam problemas no processo de contra-referência, recebendo informações sobre os resultados de consultas em cerca de metade dos casos. referência e podem refletir a capacitação permanente da equipe do PSF. A outra (mecanismos para marcar consultas com especialistas), supostamente, deveria ser igual para as duas. Uma possível • o PSF reporta maior probabili- O PSF mostrou melhor coorde- explicação seria que a Secretaria de dade de ter mecanismos formais nação que os postos de saúde tra- Saúde daria maior apoio às refe- para marcar consultas com espe- dicionais apenas em três áreas. rências do PSF do que às das uni- cialistas (p<0.05); Duas delas (utilização de normas dades tradicionais. GRÁFICO 2 – Coordenação por tipo de unidade, Petrópolis, 2003 252 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 Avaliação das características organizacionais dos serviços de atenção básica em Petrópolis: teste de uma metodologia Centralidade na família Observa-se uma diferença importante entre as unidades PSF e as tradicionais no que se refere à cen- • os PSF reportam que mais fre- em relação à orientação comunitá- qüentemente perguntam ao usuá- ria. Em geral, as do PSF são mais rio sobre fatores de risco na famí- voltadas para a comunidade, mas a lia dele (p<0.1); e escala não é significativa do ponto tralização na família, sendo que é • quase todos os postos, sejam mais freqüente nas unidades do PSF PSF ou não, incluem perguntas so- (4.5) do que nas tradicionais (3.13), bre fatores de risco socioeconômi- sendo que a diferença é estatisti- cos durante a consulta. camente significativa (p<0.05). Existem várias outras diferenças entre os indicadores específicos (Gráfico 3): • nas unidades do PSF quase todos os prontuários médicos são organizados por família, mas nenhum é organizado dessa maneira nos postos tradicionais (p<0.05); Esse resultado confirma a implementação de uma das principais diretrizes do PSF, o foco de ação está voltado para a família (C ANESQUI; OLIVEIRA, 2002). de vista estatístico, provavelmente por causa da grande variabilidade entre as unidades do PSF (Gráfico 4). Além disso, observa-se que: • as unidades do PSF realizam mais enquetes para saber os problemas de saúde nas comunidades (p<0.05); • mais freqüentemente oferecem Orientação para a comunidade Existe uma diferença entre as unidades do PSF e as tradicionais visitas domiciliares (p<0.05); • mais freqüentemente reportam realizar trabalhos intersetoriais na comunidade; e GRÁFICO 3 – Centralidade na família por tipo de unidade, Petrópolis, 2003 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 253 MACINKO, James; ALMEIDA, Celia & OLIVEIRA, Eliane • reportam mais autonomia para reorganizar os serviços com base nos problemas identificados na co- ordenação e aumentar a orientação um pouco pior do que os das unida- para a comunidade. des tradicionais, quando analisada a Em geral as unidades do PSF atin- confiabilidade das respostas, e isso giram um maior nível de alcance das provavelmente tem a ver com o fato dimensões organizacionais da aten- de que a maioria dessas unidades ção básica do que as Unidades Bási- serem novas e talvez os profissionais A pesquisa demonstrou que a cas de Saúde (UBS) tradicionais, mas sejam menos experientes. Entretanto, aplicação do instrumento (questio- em algumas dimensões as UBS apre- dado que o PSF tem vários sistemas nário) é capaz de discriminar cla- sentaram escores equivalentes, o que de informação disponíveis (SIAB , Pac- ramente a especificidade das duas pode ser explicado pela maior tradi- to da Atenção Básica), esperava-se modalidades de atenção básica no ção do município no desenvolvimen- melhor desempenho nas respostas município, além de fornecer infor- to da atenção básica tradicional e destes profissionais, apesar de que mações práticas e objetivas sobre pouco tempo de implementação do outras pesquisas já tenham observa- o alcance das dimensões essenci- PSF (cerca de cinco anos). Por fim, o do que vários sistemas de informa- ais dos serviços da atenção básica uso de gestores e supervisores como ção ainda não são utilizados ou con- no município. informantes-chave é complementar sultados rotineiramente pelos profis- Pode-se dizer que apesar de Pe- aos resultados obtidos com os infor- sionais (ESCOREL et al., 2002). Em fu- trópolis ter realizado avanços im- mantes-chave das unidades. Os ges- turas pesquisas deverá ser incluído portantes na atenção básica, enfrenta tores e supervisores concordaram maior número de informantes para vários desafios, incluindo: melhorar com as respostas obtidas nas unida- testar melhor a diferença entre eles. acesso, reforçar o papel da atenção des em 62,5% dos casos no PSF e Finalmente, é importante acres- básica como porta de entrada no sis- 87,5 % dos casos nos postos de saúde. centar que a ferramenta testada foi tema, alcançar maior integralidade Por outro lado, os informantes-cha- aplicada de forma rápida (menos de na atenção à saúde, melhorar a co- ve do PSF tiveram um desempenho vinte minutos por entrevista), o que munidade (P = 0.1). Recomendações e conclusões GRÁFICO 4 – Orientação comunitária por tipo de unidade, Petrópolis, 2003 254 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 Avaliação das características organizacionais dos serviços de atenção básica em Petrópolis: teste de uma metodologia sugere que ela pode ser empregada Paradigma? Dissertação (Mestrado) B RASIL. Ministério da Saúde. Ma- nas avaliações regulares do desem- - Escola Nacional de Saúde Pública nual para a Organização da Aten- penho das unidades. A apresentação (ENSP ) da Fundação Oswaldo Cruz ção Básica. Brasília, DF: Ministé- dos resultados preliminares aos ges- (FIOCRUZ), Rio de Janeiro, 1998. rio da Saúde, Secretária de Assis- ALMEIDA , Celia Maria de. As Reformas tência à Saúde, 1999. Sanitárias nos Anos 80: Crise ou BUNKER, J. P. The role of medical care in Transição? Tese (Doutorado) – Es- contributing the health improvements cola Nacional de Saúde Pública within societies. Int J Epidemiol, v. 30, tores em Petrópolis provocou um 2 diálogo muito interessante entre os pesquisadores, os gestores do PSF e os das unidades tradicionais, o que não apenas ajudou a interpretar alguns dos resultados encontrados, como também possibilitou a discussão das diferentes práticas adotadas em cada unidade específica, concluindo-se pela necessidade de compartilhá-las. Discutiu-se ainda a inconveniência de ‘acabar’ com as uni- (ENSP ) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Rio de Janeiro, 1995. . Eqüidade e reforma setorial na América Latina: um debate necessário. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 18, Suplemento, 2002a. p. 23-36. . Health systems reform do pelo Ministério da Saúde, e a and equity in Latin America and the importância de integrá-las ao PSF, Caribbean: lessons from the 1980s sendo que existe a proposta de im- and 1990s. 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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Participaram dessa reunião, além do Secretário Municipal de Saúde, João Werneck de Carvalho Filho, vários outros profissionais que atuam na área da atenção básica ou ocupam cargos de direção, formando um total de 11 pessoas. 2 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 243-256, set./dez. 2003 255 MACINKO, James; ALMEIDA, Celia & OLIVEIRA, Eliane FANELLI, J. M.; FRENKEL, R.; ROZENWURCEL, M AC INK O . James . P rimar y Care serviços e tecnologia. Brasília: G. “Crecimiento y Reforma Estrutural Orientation of Health Systems in the UNESCO, 2003. en America Latina. La situación Américas. Washington, DC: Pan actual”. In: Adonde va America American Health Organization, 2002. Latina. Buenos Aires: CEDES, 1992. OR , Z. Exploring the effects of health mary health care. Health Policy 4, FISHER, L.; VAN BELLE, G. Biostatistics: care on mortality across OECD 1985. p. 221-230. a methodology for the health countries. Paris: Organization for sciences. 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A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços The change in the model of Health Care in SUS: untying knots and creating links Carmen Fontes Teixeira1 RESUMO O objetivo do trabalho é caracterizar as principais propostas de mudança no conteúdo e na forma de organização das práticas de saúde que vêm sendo elaboradas e experimentadas no âmbito do sistema público de serviços de saúde no Brasil, nos últimos anos, tentando evidenciar suas diferenças e possíveis confluências tendo em vista o debate atual sobre as políticas e estratégias de transformação do “modelo de atenção à saúde” no âmbito do SUS. Tomase como ponto de partida uma breve revisão da emergência e desenvolvimento das diversas correntes de pensamento nesta área e sistematizam-se alguns elementos teóricos de referência para a análise das diversas propostas. DESCRITORES: Cuidados Integrais de Saúde; Cuidados Primários de Saúde; SUS. ABSTRACT The aim of this article is to characterize the main proposals of change in the content and organization of health practices that have been developed and experienced in Brazil in the last few years, trying to bring forward their differences and possible convergence, keeping in mind the current discussion on policies and strategies of transformation for the “model of health care” within SUS. We start with a brief revision of the emergence and development of the various thought lines in the area and then a system of reference theoretical elements is presented to the analysis of various proposals. Then the various discussed proposals are characterized, regarding their origin, theoretical and conceptual basis, action strategies and innovations Doutora em Saúde Pública, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia ( UFBA). 1 introduced in work processes and/or in the organization of health services. DESCRIPTORS: Comprehensive Health Care; Primary Health Care; SUS. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 257 TEIXEIRA, Carmen Fontes INTRODUÇÃO trução dos alicerces conceituais do Ainda assim, vários pesquisado- movimento pela RSB. Uma revisão res vinculados a universidades e A reflexão sobre a problemática crítica da ‘produção acadêmica’ ao núcleos de pesquisa e cooperação do que hoje denominamos ‘modelos longo desse período certamente in- técnica desenvolveram estudos e in- de atenção à saúde’, remonta aos pri- dicará que a temática do processo vestigações sobre essa temática, aco- mórdios do movimento da Reforma de trabalho em saúde ou a produ- pladas, no mais das vezes, ao desen- Sanitária Brasileira (RSB) e teve suas ção social dos serviços, em suas volvimento de experiências inovado- origens na análise crítica da prática distintas modalidades e formas de ras de gestão e reorganização de ser- médica e dos ‘movimentos ideológi- organização, foi sendo progressiva- viços e de processos de trabalho em cos’ de reforma que se apresentavam mente deslocada do centro das aten- saúde. Nesse sentido, pode-se cons- na conjuntura da época, especialmen- ções, em virtude da proeminência tatar uma diversificação de aborda- te a Medicina Preventiva (A ROUCA, que passaram a ter as questões de gens e propostas alternativas, dife- 1975) e a Medicina Comunitária (DON- ordem jurídico-legal (em função do renciadas em função dos contextos, 1 NANGELO, 1976). Esses estudos abriram dos fundamentos teórico-conceituais o caminho para a investigação dos adotados e das estratégias de mudan- determinantes do “processo de tra- ça das práticas preexistentes nas uni- balho em saúde” (MENDES-GONÇALVES, 1979), de um lado, e das diversas modalidades de organização social A REFLEXÃO SOBRE A PROBLEMÁTICA DO QUE HOJE DENOMINAMOS das práticas de saúde no Brasil, es- ‘MODELOS DE ATENÇÃO À SAÚDE’, pecialmente a “Medicina Previdenciá- REMONTA AOS PRIMÓRDIOS DO ria” (OLIVEIRA; TEIXEIRA , 1979) as em- MOVIMENTO DA REFORMA presas médicas de “Medicina de Gru- SANITÁRIA B RASILEIRA po” (OLIVEIR A; TEIXEIRA, 1984; CORDEIRO, dades de saúde e nos sistemas locais que se constituíram dessa experimentação e reflexão crítica. De fato, os últimos 15 anos foram pródigos na geração de ‘experiências locais, distritais e municipais’, que contemplaram a introdução de inovações organizacionais e operacionais no sis- 1984) e as experiências alternativas tema de serviços e nos processos de que começavam a ser desenvolvidas trabalho em saúde. naquele período, em vários locais, No período Sistema Unificado e como Montes Claros (MG), Londrina debate parlamentar sobre o direito Descentralizado de Saúde – SUDS (PR), Campinas (SP) e outros. à saúde e a legislação do Sistema (1987-1989), em alguns Distritos Sa- Muita coisa aconteceu nos 28 Único de Saúde - SUS) e político-ins- nitários (DS), dentre os que foram anos que nos separam dos trabalhos titucional, particularmente a proble- criados em todo o país, começou um pioneiros de Antônio Sergio da Sil- mática do financiamento e gestão do processo de experimentação que bus- va Arouca e de Maria Cecília Don- sistema público de saúde, o que re- cava articular as contribuições de nangelo, ponto de partida para uma flete, inclusive, a dinâmica do pro- distintas disciplinas e de distintos reflexão teórica e política que con- cesso político da RSB nos anos 1980 movimentos ideológicos em torno da tribuiu decisivamente para a cons- e primeira metade dos anos 1990. mudança das práticas de saúde. Ain- 1 Cabe destacar as contribuições dos integrantes do L APA – U NICAMP, os docentes do Departamento de Medicina Preventiva (DMP) da Universidade de São Paulo (USP) e o grupo do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA ), que desenvolveram, respectivamente, um conjunto de propostas identificadas como “modelo tecno-assistencial em defesa da vida”, “ações programáticas de saúde” e “vigilância da saúde”. 258 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços da no final dos anos 1980 e início de relações entre assessorias e con- dança do modelo de organização das dos anos 1990, com as mudanças po- sultorias prestadas por núcleos aca- práticas de saúde, que aponta para a líticas verificadas em vários municí- dêmicos e organismos de coopera- possibilidade de construção de pro- pios, multiplicaram-se as experiên- ção técnica, nacionais e internacio- postas e respostas coerentes com nos- cias que buscavam introduzir alte- nais. Isto contribuiu para a difusão sos problemas e nossas utopias. rações na organização dos serviços e incorporação de propostas que vi- Apesar disso, no âmbito do ‘de- de saúde e nas relações entre a ofer- nham sendo elaboradas e testadas bate político’, a questão dos mode- ta, a demanda e as necessidades de em espaços restritos, as quais pu- los de atenção, mesmo que tenha saúde da população, com a incorpo- deram ser transladadas a outras aparecido como tema da 10a Confe- ração de propostas elaboradas em con- realidades, gerando novas adapta- rência Nacional de Saúde (CNS), e junto com os grupos acadêmicos re- ções e desdobramentos. Observa-se, também na 11a , foi obscurecida pe- feridos, muitas vezes sob patrocínio assim, um processo de ‘interfertili- las discussões em torno do finan- de organizações internacionais como zação’ entre a experimentação prá- ciamento e da gestão do sistema. foi o caso da Organização Panameri- Isso, desde o período S UDS, passan- cana de Saúde (OPS) e da Cooperação do pelo período Collor (ênfase na Italiana em Saúde (S ILVA JÚNIOR, 1998; questão gerencial), no governo Ita- MENDES , 1993; TEIXEIRA ; MELO, 1995). mar (quando se coloca com mais Paralelamente a esse processo desencadeado pelos gestores de sistemas municipais de saúde, notada- O MINISTÉRIO DA SAÚDE VEM ADOTANDO PROPOSTAS DE REORGANIZAÇÃO DOS força a proposta de municipalização, implementada a partir daí através das Normas Operacionais Bási- mente a partir da implementação do SERVIÇOS , FUNDAMENTADAS NO DEBATE Programa de Agentes Comunitários INTERNACIONAL SOBRE O TEMA QUE quando, inicialmente, o debate cen- de Saúde (PACS) e do Programa Saú- ‘DIALOGAM’ COM A REFLEXÃO NACIONAL tral girou em torno da questão do de da Família (PSF), na segunda cas - NOBS ) e mesmo no período FHC, financiamento (CPMF e posterior- metade dos anos 1990, centenas de mente a EC-29) e da gestão (com a experiências inovadoras na presta- NOB-96 e a Norma Operacional de ção de serviços vêm sendo desen- Assitência à Saúde - NOAS). Somente volvidas, seja no âmbito de uma tica no âmbito de sistemas estadu- com a expansão do Saúde da Famí- unidade específica, ou mesmo no ais e municipais de saúde e a refle- lia, a partir de 1998, esse tema pas- seio de uma equipe dos programas, xão teórico-crítica de diversos grupos sou a ter um pouco mais de visibi- introduzindo-se inovações no con- acadêmicos. Mais recentemente, o Mi- lidade, tanto na mídia, em função teúdo das práticas – assistenciais, nistério da Saúde (MS) vem adotando do marketing político do governo preventivas ou promocionais, e nas propostas de reorganização dos ser- quanto por conta das iniciativas relações dos serviços com os diver- viços, fundamentadas no debate in- desencadeadas pelas instâncias de sos grupos da população nas áreas ternacional sobre o tema que ‘dialo- coordenação central e estadual dos de abrangência dos programas. gam’ com a reflexão nacional, geran- programas, especialmente em even- O processo de construção do SUS do experiências inovadoras, criativas, tos que evidenciaram os resultados vem se constituindo, portanto, em que constituem, a nosso ver, a base alcançados em termos de cobertura um imenso ‘laboratório’, por conta para o desenvolvimento de um modo populacional, número de equipes de uma complexa e intrincada rede de pensar e de agir em termos de mu- formadas e capacitadas, além dos Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 259 TEIXEIRA, Carmen Fontes efeitos verificados em alguns indi- federal em relação à política de saú- lo de atenção’ em uma perspectiva cadores de saúde. de e as principais estratégias diri- sistêmica. Como exemplo da primei- gidas à reorganização da atenção ra abordagem, resgatei a definição à saúde no SUS. de modelo assistencial elaborada No momento atual, levando em conta o novo cenário governamental, especialmente no âmbito do Ministério da Saúde, é possível se pensar que o centro do debate político que vem se configurando no SUS, cujos desdobramentos se ex- por Paim (1993; 1998; 1999) e tra- MUDANÇA DO “MODELO DE ATENÇÃO” E TRANSFORMAÇÃO DAS PRÁTICAS DE SAÚDE: ELEMENTOS CONCEITUAIS E ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO plicitarão na 12 CNS serão as pro- tei de descrever possíveis dimensões do ‘modelo de atenção’ entendido como um dos componentes de um sistema de serviços de saúde. Reproduzimos, a seguir, o trecho a postas e estratégias de mudança do Em um texto produzido para um correspondente a essa sistematiza- modelo de atenção à saúde. De fato, Seminário sobre Saúde e Desigual- ção tal como foi publicado na co- pela primeira vez, nos últimos 15 dade: instituições e políticas públi- letânea de artigos sobre o assun- anos, é possível que a problemática to, organizada por nós em 2002 (T EI- da mudança do modelo possa ser o XEIRA , eixo articulador do conjunto das 2002. p. 110-113), conside- PROCURAMOS DISCUTIR AS POSSIBILIDADES E OS rando que essa dupla perspectiva pecificamente, as opções em torno LIMITES QUE SE COLOCAM NO MOMENTO ATUAL ender as semelhanças e diferenças, do Financiamento das ações e do PARA O DESENVOLVIMENTODESSE PROCESSO, políticas do MS, direcionando, es- Desenvolvimento de Recursos Humanos, sabidamente os dois “nós LEVANDO EM CONTA AS TENDÊNCIAS E OPÇÕES críticos” mais importantes do pro- DOGOVERNO FEDERAL EM RELAÇÃO À POLÍTICA DE cesso de reforma. SAÚDE E AS PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS DIRIGIDAS À Nesse sentido, o objetivo do presente artigo é caracterizar as princi- REORGANIZAÇÃO DA ATENÇÃO À SAÚDE NO SUS ajudará, mais adiante, a compree os alcances e limites de cada uma das propostas alternativas que vêm sendo colocadas em debate no momento atual. ‘Modelos assistenciais’, segundo Paim (1993; 1998; 1999) podem ser entendidos como ‘combinações de pais propostas de mudança no con- saberes (conhecimentos) e técnicas teúdo e na forma de organização das (métodos e instrumentos) utilizadas práticas de saúde que vêm sendo cas no século XXI, realizado na Es- para resolver problemas e atender elaboradas nos últimos anos, ten- cola Nacional de Saúde Pública necessidades de saúde individuais e tando evidenciar suas diferenças e (ENSP ) da Fundação Oswaldo Cruz coletivas, não sendo, portanto, sim- possíveis confluências, tendo em (FIOCRUZ ), em novembro de 2001, tra- plesmente uma forma de organização vista a transformação do “modelo tamos de sistematizar alguns ele- dos serviços de saúde nem tampouco de atenção à saúde” em suas várias mentos conceituais que podem fun- um modo de administrar (gerir ou dimensões, política, tecnológica e damentar o debate sobre ‘modelo de gerenciar) um sistema de saúde’. Nes- organizacional. Em seguida, pro- atenção à saúde’, buscando explici- sa perspectiva, os modelos de aten- curamos discutir as possibilidades tar, de um lado, a definição de ‘mo- ção à saúde são “formas de organiza- e os limites que se colocam no mo- delo assistencial’ que toma como re- ção das relações entre sujeitos (pro- mento atual para o desenvolvimento ferencial a teoria do processo de tra- fissionais de saúde e usuários) me- desse processo, levando em conta balho em saúde, e do outro, a com- diadas por tecnologias (materiais e as tendências e opções do governo preensão que se pode ter de ‘mode- não materiais) utilizadas no processo 260 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços de trabalho em saúde, cujo propósito entretanto, podem acontecer em oferta e as necessidades e problemas é intervir sobre problemas (danos e cada uma das dimensões assinala- de saúde da população, contribuin- riscos) e necessidades sociais de saú- das, constituindo processos que fa- do para a correção dos efeitos mais de historicamente definidas. cilitarão transformações mais am- perversos da lógica de mercado no Além dessa concepção, funda- plas. Assim, propostas de mudança setor (SOLLA et al., 2000). mentada nos estudos sobre práticas no processo político-gerencial, com Do mesmo modo, a introdução de de saúde, especialmente na identifi- a introdução, por exemplo, de tec- mudanças na dimensão organizativa, cação dos elementos estruturais do nologias de gestão que proporcio- quer seja pela modificação nas pro- processo de trabalho em saúde, nem a identificação de problemas e porções entre os diversos níveis de pode-se admitir uma concepção ‘am- de necessidades de saúde em uma organização da produção dos servi- pliada’, sistêmica, sobre ‘modelo de perspectiva social e epidemiologica- ços, quer seja pelo estabelecimento de atenção’, que inclui três dimensões: mente orientada, podem favorecer a relações hierárquicas entre unidades uma dimensão ‘gerencial’, relativa ocorrência de mudanças nas práti- de produção de serviços nos níveis de aos mecanismos de condução do complexidade (referência e contra-re- processo de reorganização das ações ferência) tecnológica, ainda que sejam e serviços, uma dimensão ‘organi- fundamentalmente estratégias de ra- zativa’, que diz respeito ao estabelecimento das relações entre as unidades de prestação de serviços, geralmente levando em conta a hierarquização dos níveis de complexidade tecnológica do processo de PROPOSTAS DE MUDANÇA NO PROCESSO POLÍTICO-GERENCIAL , COM A INTRODUÇÃO DE TECNOLOGIAS DE GESTÃO, PODEM FAVORECER A OCORRÊNCIA DE produção do cuidado, e a dimensão MUDANÇAS NAS PRÁTICAS DE SAÚDE propriamente ‘técnico-assistencial’, PROPRIAMENTE DITAS cionalização de custos, podem contribuir para a indução de práticas mais adequadas aos problemas e necessidades de saúde. Nessa perspectiva, colocam-se, por exemplo, as propostas de ampliação da ‘rede básica’ de serviços de saúde, cuja expansão, em última instância, pode alterar a ou operativa, que diz respeito às proporção estabelecida entre ‘cuida- relações estabelecidas entre o(s) dos primários’, ‘secundários e terciá- sujeito(s) das práticas e seus obje- rios’, ou usando a terminologia da tos de trabalho, relações estas me- cas de saúde propriamente ditas, por NOAS, entre a ‘rede básica’ e a ‘aten- diadas pelo saber e pela tecnologia, induzir ao privilegiamento de ações ção de média e alta complexidade’. que operam no processo de traba- voltadas à intervenção sobre os de- Na mesma linha, as propostas dirigi- lho em saúde, em vários planos (pro- terminantes dos problemas e não das ao estabelecimento de um pacto moção da saúde, prevenção de ris- apenas aos seus efeitos (T EIXEIRA, de responsabilidades entre vários cos e agravos e recuperação e rea- 2001). Na mesma linha, a introdu- municípios, que podem vir a compor, bilitação) (T EIXEIRA, 2002). ção de mecanismos de controle e em conjunto, uma ‘microrregião de Nessa perspectiva ‘ampliada’, avaliação do processo de prestação saúde’, implicam, em última análi- para que se concretize uma trans- de serviços, principalmente sobre a se, a criação de possibilidades de aces- formação do modelo de atenção é rede privada contratada e convenia- so a uma gama variada de ações e imprescindível, a conjunção de pro- da com o sistema público, é de fun- serviços que, de outro modo, não po- postas e estratégias ‘sinérgicas’, nas damental importância para o estabe- deriam ser garantidos à população, três dimensões. Mudanças parciais, lecimento de uma adequação entre a principalmente aquela que habita os Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 261 TEIXEIRA, Carmen Fontes municípios menores, onde se cons- doentes’, para ‘prevenir riscos e processo de trabalho, tanto no pla- tata mais insuficiências de infra-es- agravos’ e ‘promover a saúde das no individual, de cada profissional trutura do sistema. pessoas e dos grupos populacionais’ e trabalhador de saúde, quanto, prin- Tudo isso é necessário, porém o que implica tomar como ‘objeto’ cipalmente, no perfil do ‘sujeito co- não suficiente para a transformação os problemas de saúde e seus de- letivo’. Entenda-se por ‘sujeito cole- propriamente dita do modelo de terminantes, organizando-se a aten- tivo’ não apenas a equipe multipro- atenção. Esta exige a implementa- ção de modo a incluir não apenas fissional responsável pelas ações de ção de mudanças no processo de tra- as ações e serviços que incidem saúde em cada território específico, balho em saúde, tanto no que se re- sobre os ‘efeitos’ dos problemas como se coloca no âmbito da estra- fere a seus propósitos ou finalida- (doença, incapacidade e morte), tégia de Saúde da Família, em que des, quanto, nos seus elementos es- mas, sobretudo, as ações e servi- pesem seus limites (C AMPOS, 2001; truturais, isto é, no objeto de traba- ços que incidem sobre as ‘causas’ PAIM , 2001), senão que a população lho, nos meios de trabalho, no per- (condições de vida, trabalho e la- organizada em torno da promoção fil dos sujeitos e principalmente, nas da saúde e da melhoria da qualida- relações estabelecidas entre eles e a de de vida, em um processo de ‘em- população usuária dos serviços. Do ponto de vista das ‘finalida- A REDEFINIÇÃO DO OBJETO DE TRABALHO EXIGE poderamento’ político e cultural. A introdução de mudanças nas des’ ou propósitos da atenção à saú- A UTILIZAÇÃO DE SABERES E TECNOLOGIAS finalidades, no objeto e no sujeito de, trata-se de superar o modelo cen- CONSENTÂNEAS COM A AMPLIAÇÃO E do processo de trabalho em saúde trado na atenção à ‘demanda espontânea’, de atendimento a doentes, DIVERSIFICAÇÃO DO LEQUE DE AÇÕES E para incluir ações de prevenção de SERVIÇOS, O QUE, POR SUA VEZ, SE REFLETE riscos e agravos e de promoção da NA NECESSIDADE DE MUDANÇA NO PERFIL DOS saúde, para além dos muros das unidades de saúde, isto é, nos terri- ‘SUJEITOS’ DO PROCESSO DE TRABALHO incidem, em seu conjunto, sobre as ‘relações’ estabelecidas entre os sujeitos e os saberes e tecnologias que utilizam para a apreensão do(s) objeto(s), entre os sujeitos, profissionais e trabalhadores de tórios onde vive e trabalha a popu- saúde, e a população usuária do lação da área de abrangência dos sistema de serviços. Cabe ressal- serviços, sejam estes delimitados zer), ou seja, no modo de vida das tar que estas relações sociais têm enquanto ‘área de abrangência’ de pessoas e dos diversos grupos so- uma dimensão ‘técnica’, mas tam- unidades de saúde, seja, como pre- ciais (P AIM, 1994; TEIXEIRA , 1998). bém uma dimensão ‘ética, políti- vê a NOAS, o espaço compreendido A redefinição do objeto de traba- ca e cultural’, que circunscreve a em um ‘módulo assistencial’ e, prin- lho exige a utilização de saberes e primeira, embora na maioria das cipalmente, o espaço circunscrito de tecnologias consentâneas com a vezes sua relevância escape à per- uma microrregião de saúde. ampliação e diversificação do leque cepção dos sujeitos envolvidos, até A ênfase do processo de presta- de ações e serviços, o que, por sua pela hipervalorização da dimensão ção de serviços se desloca do eixo vez, se reflete na necessidade de tecnológica nas práticas de saúde ‘recuperar a saúde de indivíduos mudança no perfil dos ‘sujeitos’ do no mundo contemporâneo. 2 Norma Operacional de Assistência da Saúde, que prevê a implementação de um processo de regionalização dos serviços, que contempla a constituição de “módulos assistenciais” e “microrregiões de saúde” (BRASIL, 2002). 2 262 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços Como se pode perceber pelo aqui exposto, o processo de mudança do serviços e as necessidades e deman- mos de forma de organização das das da população. relações entre os agentes das práti- modelo de atenção à saúde é extremamente complexo, exigindo um conjunto heterogêneo de iniciativas cas e destes com os usuários. PROPOSTAS DE MUDANÇA DO MODELO DE ATENÇÃO: DIFERENÇAS E CONFLUÊNCIAS ‘macro’-sistêmicas, quais sejam, a Uma análise mais detalhada das diferenças e eventuais confluências ou divergências entre as propostas formulação e implementação de po- Uma primeira observação a ser sugere como determinantes das di- líticas que criem condições para as feita em relação ao conjunto de pro- ferenças seu contexto de origem, os mudanças ao nível ‘micro’. Ou seja, postas de mudança no modelo de fundamentos filosóficos e teóricos pensamos que é preciso conjugar atenção à saúde que vêm sendo im- que embasam cada uma delas, o mudanças nas ‘regras básicas’ do plementadas e analisadas no âmbi- conteúdo mesmo das propostas apre- sistema, com o desencadeamento de to do SUS é que nenhuma delas dá sentadas e o grau de permeabilida- processos político-gerenciais que conta, sozinha, de todos os aspec- de, de diálogo, entre elas na práti- 3 criem condições favoráveis para a ca, isto é, a possibilidade de conju- introdução de inovações nas dimen- gação e articulação das propostas sões gerenciais, organizativas e técnico-assistenciais propriamente di- O PROCESSO DE MUDANÇA DO MODELO DE tas, isto é, no âmbito das práticas ATENÇÃO À SAÚDE É EXTREMAMENTE COMPLEXO, de saúde, tanto em termos de mu- EXIGINDO UM CONJUNTO HETEROGÊNEO DE dança no ‘conteúdo’ das práticas de modo a direcioná-las para a solu- INICIATIVAS ‘MACRO’-SISTÊMICAS, QUAIS SEJAM, ção dos problemas e atendimento A FORMULAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃODE POLÍTICAS das necessidades e demandas da população, quanto na ‘forma de organização do processo de trabalho QUE CRIEM CONDIÇÕES PARA AS MUDANÇAS AO NÍVEL ‘MICRO’ em situações concretas no âmbito do SUS, principalmente ao nível local (microrregional, municipal e/ou distrital). Para tornar claras essas diferenças e analisar suas possíveis confluências, trataremos de descrever sucintamente cada uma das propostas, seguindo uma lógica de exposição, que inicia com as que privilegiam o nível ‘micro’ dos proces- nas unidades’ de prestação de ser- sos de trabalho em saúde, como é o viços nos diversos níveis de com- caso do ‘modelo em defesa da vida’ plexidade (básica, média e alta, para tos envolvidos no processo de mu- e as ‘ações programáticas’, avan- usar a terminologia corrente no SUS) dança das práticas de saúde, pois çando paulatinamente para as pro- e também na ‘forma de organização cada uma delas enfoca aspectos postas que buscam dar conta de das unidades em redes assistenciais’ parciais desse processo, ou seja, o mudanças em nível ‘macro’, de for- que contemplem princípios de eco- desenho do sistema ao nível macro- mulação e implementação de políti- nomia de escala na distribuição ter- organizacional, ou a mudança do cas, que extrapolam, inclusive, os ritorial dos recursos e, ao mesmo processo de trabalho em saúde, no limites do sistema de serviços de tempo, busquem o ajuste possível nível das ‘micro-práticas’, tanto em saúde, como é o caso da Promoção entre o perfil de oferta de ações e termos de conteúdo quanto em ter- da Saúde e a proposta de Cidades Não estamos tratando aqui de outras propostas de mudança na organização e gestão da produção de serviços que vêm sendo difundidas no âmbito do sistema privado de prestação de serviços, especialmente o managed care ou a ‘medicina baseada em evidências’, ainda que, em algum momento, essas propostas possam repercutir no debate que vem sendo travado no sistema público. 3 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 263 TEIXEIRA, Carmen Fontes Saudáveis. Entre estas, situamos to, intelectual e político, indicando o lhadores e usuários – na organização as propostas da Vigilância da Saú- desejo de criar metodologias e instru- do ‘cuidado progressivo à saúde’. de e o Saúde da Família, que enfati- mentos de gestão e organização do Na prática, a incorporação des- zam aspectos técnicos e organiza- trabalho coletivo que desencadeiem sas propostas tem gerado experiên- cionais do conjunto das práticas de uma ‘revolução molecular’ no âmbi- cias bem interessantes, que trazem saúde, tendo como referência a no- to das instituições de saúde e resulte à tona a problematização da chama- ção de integralidade da atenção. no estabelecimento de novas relações da ‘(des)humanização’ do atendi- entre gestores, trabalhadores e usuá- mento, em função da tecnificação do rios, mediadas pela busca de autono- cuidado à saúde e também permi- mia e reconstrução de subjetividades. tem o enfrentamento de questões Com isso, estamos diante de uma derivadas do processo de medicali- perspectiva de transformação radical zação a que a população vem sen- das pessoas e das práticas, que bus- do exposta nos últimos 40 anos. Ou CONSTRUINDO UM MODELO “EM DEFESA DA VIDA”: ACOLHIMENTO, VÍNCULO, CONTRATO O conjunto de propostas que constituem o chamado ‘modelo técnico- seja, problematiza a visão que a assistencial em defesa da vida’ tem população usuária tem do sistema sua origem nos estudos e reflexões sobre a prática de gestão e consultorias institucionais desenvolvidas por docentes e pesquisadores do L APA UNICAMP ao longo, principalmente, da década de 1990. Uma leitura crítica A ORGANIZAÇÃO DE PRÁTICAS DE ‘ACOLHIMENTO’ À CLIENTELA DOS SERVIÇOS PÚBLICOS DE SAÚDE , E O ESTABELECIMENTO DE VÍNCULOS ENTRE PROFISSIONAIS E de saúde e da prática médica, tendendo a valorizar a especialização, a sofisticação tecnológica, o consumo de medicamentos e, até por associação, a prática privada. Desse modo, a organização de prá- de alguns dos textos que sistemati- CLIENTELA, IMPLICA MUDANÇAS NA ‘PORTA ticas de ‘acolhimento’ à clientela dos zam as propostas dessa corrente (CAM- DE ENTRADA’ DA POPULAÇÃO AOS SERVIÇOS serviços públicos de saúde, e o esta- COM INTRODUÇÃO DE MUDANÇAS sionais e clientela, implica mudanças POS, 1994; 1996; M ERHY, 1994; 1997; CECILIO, 1994) ainda que preliminar, belecimento de vínculos entre profis- revela que, guardadas as diferenças na ‘porta de entrada’ da população entre os principais autores, o funda- aos serviços com introdução de mu- mento filosófico e conceitual comum ca criar processos ‘instituintes’, sub- danças na recepção ao usuário, no foi construído a partir da apropria- vertendo modelos ‘instituídos’, entre agendamento das consultas e na pro- ção crítica de contribuições teóricas os quais, não só os modelos de orga- gramação da prestação de serviços, provindas do marxismo, do existen- nização social da prática médica e de modo a incluir atividades deriva- cialismo, da psicanálise e da análise sanitária hegemônica, senão também das na ‘releitura’ das necessidades institucional, sendo centrais nessa as propostas alternativas fundadas sociais de saúde da população (MERHY, corrente de pensamento as idéias de nas idéias de descentralização, regio- 1994). Além de contribuir para a hu- autores contemporâneos pós-estrutu- nalização e hierarquização de unida- manização e melhoria da qualidade ralistas, como Felix Guattari e Cor- des de prestação de serviços, torna- da atenção, é uma estratégia de reo- nelius Castoriadis. das supérfluas pelo estabelecimento rientação da atenção à demanda es- O objeto central da análise empre- de processos que privilegiam o ‘aco- pontânea que pode ter efeitos signifi- endida por esses autores é o processo lhimento’, os ‘vínculos’, o ‘contrato’ e cativos na racionalização dos recur- de trabalho em saúde e seu propósi- a ‘autonomia’ dos sujeitos – traba- sos, no perfil ocupacional dos profis- 264 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços sionais e nas relações destes com os torno do Centro de Saúde Escola Sa- delimitação dos objetos de interven- usuários e até no estabelecimento de muel Pessoa, sob responsabilidade do ção no âmbito dos serviços como processos de mudança nas concep- Departamento de Medicina Preventi- sendo as ‘necessidades sociais de ções da população acerca das suas va (DMP) da Universidade de São Pau- saúde’ definidas e função de crité- necessidades de saúde e do lugar ocu- lo (USP), têm sido identificadas, em rios demográficos, socioeconômicos pado pelo consumo de serviços de vários textos, sob o rótulo de ‘ações e culturais, o que promove o esta- saúde na melhoria do seu bem-estar programáticas em saúde’, na medida belecimento de recortes populacio- (CECILIO , 1994; MERHY, 1997). em que tomam como ponto de parti- nais sobre os quais incidem as ações O ‘ponto cego’, isto é, a lacuna da, uma reflexão sobre a programa- programáticas (M ENDES-G ONÇALVES , principal desse ‘modelo’, a nosso ver, ção enquanto uma tecnologia que 1990; S CHRAIBER, 1990; 1993; 1995; é a ausência de propostas em relação pode ser utilizada para a reorganiza- 1996). Como apontei em outro tra- ao desenho macroorganizacional do ção do processo de trabalho. Tendo balho (TEIXEIRA, 2000), essa propos- sistema, coisa aliás que extrapola o como ponto de partida uma reflexão ta constitui uma alternativa à im- universo teórico-conceitual e a pers- plementação dos chamados ‘progra- pectiva político-filosófica dos autores. mas especiais’ definidos centralmen- Talvez nem se possa considerar isto como sendo uma lacuna, na medida que os proponentes desse ‘modelo’ não colocam esse ponto como necessário em seu referencial, pelo contrário, ao O ‘PONTO CEGO’, ISTO É, A LACUNA PRINCIPAL DESSE ‘MODELO’, A NOSSO VER, É A AUSÊNCIA te como ‘pacotes tecnológicos’ a se- DE PROPOSTAS EM RELAÇÃOAO DESENHO cais derivam do conhecimento rem incorporados aos serviços. As ações previstas nos programas verticientífico-técnico disponível para in- trabalharem no plano dos ‘micropo- MACROORGANIZACIONAL DO SISTEMA, deres’, estes autores descartam a ne- COISA ALIÁS QUE EXTRAPOLA O UNIVERSO tituindo normas técnicas a serem se- cessidade de se definir uma ‘ima- TEÓRICO-CONCEITUAL E A PERSPECTIVA guidas universalmente. Estes pro- gem-objetivo’ do sistema de saúde, políticas e diretrizes, regras e nor- POLÍTICO-FILOSÓFICA DOS AUTORES tervenção sobre os problemas, cons- gramas têm sido implantados como ‘programas verticais’, normativos, mas gerais, sob responsabilidade do sem que o processo de operaciona- Estado, fazendo-nos crer que as que lização (ou não) leve em conta as existem devem ser, inclusive, sub- sobre o processo de trabalho em saú- características específicas das popu- vertidas, tendo em vista que o que de com forte viés do marxismo estru- lações dos distintos territórios e as se pretende é revolucionar o coti- turalista (MENDES-GONÇALVES, 1979), essa condições concretas de vida, que diano dos serviços de saúde e trans- corrente avançou para a incorpora- condicionam o modo de expressão formar as pessoas. ção do enfoque epidemiológico, em dos problemas de saúde e doença. uma perspectiva crítica (AYRES, 1995) A experiência desenvolvida pelo gru- e chegou, mais recentemente, a pro- po da USP, entretanto, aponta possi- blematizar a dimensão ética do cui- bilidades de redefinição das práti- dado à saúde a partir de filósofos da cas, tanto em termos do conteúdo modernidade como Heidegger, Haber- das ações quanto na mudança das mas e Ricoeur (AYRES, 2001). relações de trabalho e nas relações REDEFININDO O MODO DE ORGANIZAÇÃO TECNOLÓGICA DO TRABALHO EM SAÚDE: AÇÕES PROGRAMÁTICAS E UMA NOVA ÉTICA DO CUIDADO As propostas do grupo de docen- Do ponto de vista prático, esta dos trabalhadores de saúde e os tes e pesquisadores, organizado em corrente de pensamento propõe a usuários, resgatando, inclusive, a Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 265 TEIXEIRA, Carmen Fontes problematização da dimensão ético- na reorientação do processo de tra- caso específico da contribuição do pedagógica do cuidado à saúde. balho em saúde, sendo que o ‘mo- grupo da USP, também por não se A incorporação das idéias e pro- delo em defesa da vida’ privilegia constituir em objeto de eleição para postas desse grupo à prática geren- os processos intersubjetivos de na- a pesquisa e a elaboração de pro- cial no âmbito do SUS tem sido uma tureza psicológica e política, traba- postas. Chama a atenção também, fonte de inspiração para o aperfei- lhando as vinculações entre ‘desejo’ que apesar de tomar como espaço çoamento tecnológico e organiza- e ‘vontade’, no estabelecimento de de intervenção as unidades de saú- cional de processos de programação vínculos entre profissionais e usuá- de, no caso, uma unidade básica, o que tem como horizonte a busca de rios, enquanto que a corrente das grupo da USP não tematiza neces- superação do viés economicista da ‘ações programáticas’, enfatiza o sariamente o território e, conseqüen- Programação Pactuada Integrada aperfeiçoamento das práticas pela temente, não trabalha com a idéia (PPI) e a institucionalização da pro- incorporação crítica dos saberes, de ações territoriais de prevenção de gramação como um espaço de cons- dos conhecimentos e das tecnologi- riscos e agravos. Quer dizer, apesar trução coletiva do projeto de traba- da ênfase na utilização do enfoque lho das equipes de saúde. Cabe lem- epidemiológico, parece que a Epi- brar que a PPI tem sido basicamen- demiologia ingressa na prática dos APESAR DA ÊNFASE NA te um instrumento de racionalização da oferta de serviços pelas unidades de saúde, não problematizan- UTILIZAÇÃO DO ENFOQUE do o conteúdo das práticas que são EPIDEMIOLÓGICO , PARECE QUE realizadas nem a sua adequação às A EPIDEMIOLOGIA INGRESSA NA necessidades e aos problemas de saúde da população dos municí- PRÁTICA DOS SERVIÇOS PARA pios. O diálogo com as propostas ‘ILUMINAR’ A CLÍNICA das ‘ações programáticas’, entretanto, pode ser extremamente fértil na perspectiva de estimular os profis- serviços para ‘iluminar’ a clínica, ainda que seu conteúdo remeta à problematização dos determinantes sociais do processo saúde-doença nos grupos populacionais específicos sobre os quais e com os quais se organiza o cuidado. ARTICULANDO O CONJUNTO DE OBJETOS E ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO NO ÂMBITO DAS PRÁTICAS: VIGILÂNCIA DA SAÚDE E A BUSCA DE INTEGRALIDADE DA ATENÇÃO sionais e trabalhadores de saúde a as disponíveis para a delimitação de buscarem aperfeiçoar continuamente objetos de intervenção referidos às suas práticas à luz do desenvolvi- necessidades de grupos populacio- A proposta conhecida como Vi- mento científico e tecnológico dis- nais específicos – mulheres, adoles- gilância da Saúde tem suas ori- ponível, bem como pode evidenciar centes, idosos, etc. ou problemas gens nas experiências desenvolvi- a possibilidade de se experimentar específicos que se apresentam na das no âmbito de Distritos Sanitá- formas alternativas de organização prática clínica, relançando-os no rios implantados no final dos anos do cuidado mais consentâneas com espaço social mais amplo das de- 1980 e início dos anos 1990, por as características socioculturais dos terminações sociais e políticas. iniciativa de Secretarias Estaduais usuários dos serviços. Em ambas as correntes de pen- e Municipais de Saúde, contando Comparando a contribuição des- samento permanece a lacuna relati- com o apoio da Organização Pan- sa corrente com a anterior, podemos va ao desenho macroorganizacional americana de Saúde e da Coopera- perceber que têm em comum o foco do sistema de serviços de saúde, no ção Italiana em Saúde. A base con- 266 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços ceitual originária dos DS (S ILOS), de intervenções sobre condições de ticas públicas saudáveis’, conjun- resultava de uma atualização da vida da população. to de ações governamentais (inter- proposta de regionalização dos A noção de Vigilância da Saúde setoriais) e não-governamentais serviços de saúde elaborada por (VISAU ) surgiu, nesse contexto, como voltadas para a melhoria das con- Dawson, nos anos 1920, na Ingla- forma específica de denominação da dições de vida das populações, e a terra, matriz da macroorganização proposta de integração das ‘práti- reorganização das ações sob res- do NHS e também do sistema de cas de saúde’ no território do DS, a ponsabilidade direta do sistema de saúde italiano, ambos fontes ins- partir de uma releitura crítica e serviços de saúde, sejam as ações piradoras de propostas elaboradas atualização histórico-concreta, do de ‘vigilância ambiental, sanitária pela vertente ‘político-institucional’ diagrama proposto originalmente e epidemiológica’, dirigidas ao con- do movimento pela RSB, represen- por Leavell e Clarck, a propósito dos trole de riscos e danos, sejam as tada, de certa forma, pela presen- ‘níveis de prevenção’ que atraves- práticas de ‘assistência e reabilita- ça de Hésio Cordeiro na presidên- sam a História Natural das Doen- ção’ dirigidas ao atendimento de ne- cia do Instituto Nacional de As- cessidades e demandas de indiví- sistência Médica da Previdência duos e grupos populacionais. Social (INAMPS) no período S UDS. A operacionalização da propos- A INCORPORAÇÃO DA NOÇÃO DE ‘PROBLEMAS DE SAÚDE ’ NO PROCESSO ta de VISAU implica, pelo exposto, a sileiro absorveu rapidamente as pro- DE PLANEJAMENTO E PROGRAMAÇÃO DAS viços, aplicados simultaneamente à postas do planejamento estratégico- AÇÕES , PERMITE A VALORIZAÇÃO DE UMA delimitação de diversas ‘áreas’ (de Além do enfoque sistêmico, que fundamentava a noção de SILOS, a implantação dos DS no contexto bra- situacional, do Carlos Matus (1993), e também se alimentou da reflexão VISÃO POLICÊNTRICA E DEMOCRÁTICA NA que vinha sendo desenvolvida por DEFINIÇÃO DOS OBJETOS DE INTERVENÇÃO valorização dos princípios de regionalização e hierarquização dos ser- abrangência/influência dos serviços, de acordo com sua capacidade operacional) e, além disso, a incorpo- epidemiologistas, como Pedro Luis ração da idéia de ‘mapas de risco’ Castellanos (1991;1997), acerca da que fundamenta a delimitação de análise de situações de saúde. Além ‘microáreas’ (definidas em função do disso, incorporou, no mesmo mo- ças (HND) (L EAVELL; CLARCK , 1987; mosaico epidemiológico e das con- vimento, as contribuições da ‘nova A ROUCA, 1975; P AIM, 1994; T EIXEIRA , dições e modos de vida da popula- geografia’ do Milton Santos como re- 2000). A partir dessa concepção re- ção). A incorporação da noção de ferencial para a delimitação dos ‘ter- novada do modelo da HND, a VISAU ‘problemas de saúde’ no processo ritórios’ (no plural) circunscritos incorpora, para além do esquema de planejamento e programação das pelo DS, quais sejam, os territórios abstrato que organiza os diversos ações, por sua vez, permite a valo- administrativo, sanitário e epide- níveis de prevenção, a análise con- rização de uma visão policêntrica e miológico, não necessariamente co- creta das práticas de saúde tal democrática na definição dos obje- incidentes e sim recortados e super- como se apresentam ou podem vir tos de intervenção, sem se perder de postos como um mosaico que per- a se apresentar em uma situação vista, porém, a racionalidade técni- mite a identificação de ‘problemas específica como a brasileira. Pre- ca que orienta a identificação de e necessidades de saúde’ e das pos- vê, assim, a possibilidade de for- necessidades sociais de saúde e a sibilidades de oferta de serviços e mulação e implementação de ‘polí- problematização da demanda aos Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 267 TEIXEIRA, Carmen Fontes serviços para além da perspectiva líticas e estratégia de ação interse- América Latina nas décadas seguin- clínica predominante entre os profis- torial voltadas para a melhoria das tes, este movimento se deslocou pro- sionais de saúde. condições de vida. Simultaneamen- gressivamente das instituições de Como se pode perceber, a propos- te, esta noção passou a ser usada ensino para os serviços, inclusive ta de VISAU pretende dar conta do como referência no âmbito da ‘estra- no Brasil, onde emergiu enquanto principio da integralidade, pensado tégia de Saúde da Família’, introdu- proposta de formação pós-gradua- tanto em uma perspectiva ‘vertical’, zida por consultores do PACS e do PSF da em ‘Medicina Geral e Comunitá- de organização dos serviços segun- que buscavam um termo suficiente- ria’, vindo posteriormente a ser ab- do níveis de complexidade tecnoló- mente abrangente que desse conta da sorvido como fundamentação da gica, quanto ‘horizontal’, no que diz busca de integralidade perseguida política de organização da Atenção respeito à articulação entre ações de pela coordenação nacional e por al- Primária à Saúde. A trajetória insti- promoção da saúde, prevenção de gumas coordenações estaduais e tucional dessa proposta ilustra cla- riscos, assistência e recuperação. municipais desses Programas. ramente um processo de ‘refuncio- Na prática, todavia, essas propos- nalização’ de suas concepções e prá- tas tendem a ser flexibilizadas, de ticas, na medida em que, partindo modo a se superar a idéia de uma de uma concepção voltada para a estrutura ‘piramidal’ de serviços, reorganização da prática médica, AS ORIGENS DA PROPOSTA DE SAÚDE DA F AMÍLIA através da constituição de redes articuladas em função do atendimento de problemas e necessidades prio- clínica, a partir da ampliação do objeto de trabalho (dos indivíduos à família), estas propostas foram pau- ritárias, bem como permite uma REMONTAM AO SURGIMENTO plasticidade na composição do per- E DIFUSÃO DO MOVIMENTO pios da Medicina Comunitária e in- fil de oferta de ações promocionais, DE M EDICINA FAMILIAR corporaram princípios e diretrizes preventivas e assistenciais, nova- latinamente associadas aos princí- que vão além da clínica, especial- mente tendo em vista a adequação mente a contribuição da epidemio- dos serviços aos problemas e às logia e da administração e do pla- necessidades da população. nejamento em saúde. De fato, uma Talvez até por seu caráter abrangente, a Vigilância da Saúde não avança com propostas específicas de mudança na organização do proces- “REVERTENDO” O MODELO DE ATENÇÃO ATRAVÉS DA EXPANSÃO E DA QUALIFICAÇÃO DA ATENÇÃO BÁSICA: A SAÚDE DA FAMÍLIA E A REGIONALIZAÇÃO DA ATENÇÃO so de trabalho e saúde, tendo esta- análise da concepção brasileira do Saúde da Família evidencia a articulação de noções e conceitos provindos de distintas disciplinas do campo da Saúde Pública e Coletiva, belecido, inclusive, um diálogo com As origens da proposta de Saúde que se traduzem em princípios e di- a corrente das ‘ações programáti- da Família remontam ao surgimen- retrizes operacionais que buscam cas’, dada a confluência de muitos to e difusão do movimento de Medi- conformar um modelo de atenção dos seus pressupostos teóricos e cina Familiar (PAIM , 2003a) estrutu- pautado pela organização sistêmica políticos. Por outro lado, também rado em meados dos anos 1960, nos dos serviços (complementariedade e tem se aproximado do debate sobre EUA, com a finalidade de introduzir hierarquização), pelo caráter multi- Promoção da Saúde, visando am- reformas no processo de ensino mé- profissional das equipes de trabalho, pliar o escopo da reflexão sobre po- dico. Difundido em vários países da pela utilização da informação epide- 268 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços miológica para o planejamento e a o Saúde da Família vem sendo con- de (C AMPOS, 2003) ainda há um longo programação das ações de saúde e cebido como parte de uma estraté- caminho a percorrer para se alcan- pela busca de integralidade das prá- gia maior de mudança do modelo çar, na prática das equipes, uma ló- ticas (promoção, proteção e recupe- de atenção, na medida em que se gica de adequação permanente das ração) ainda que no âmbito da Aten- conjugue com mudanças na organi- práticas às necessidades e problemas ção Primária, ou como se conven- zação da atenção de média e alta de saúde da população, tendo como cionou denominar no SUS, da Aten- complexidade induzidas por políti- referência a possibilidade de conju- ção Básica (BRASIL , 1998; 2000). cas de regulação e controle. gar ações voltadas com controle de O mais interessante e, sem dúvi- A pertinência dessa estratégia determinantes, riscos e danos (pro- da, mais relevante politicamente, é para a extensão de cobertura da aten- que o Saúde da Família, formulado ção básica vem sendo evidenciada Do mesmo modo, a pertinência enquanto um programa ‘vertical’ a pela enorme expansão do número de dessa estratégia enquanto indutora ser implantado nas regiões Norte e equipes do PSF implantadas em todo de mudanças na organização do sis- moção, prevenção e assistência). Nordeste do país, onde se colocava tema de serviços de saúde como um a necessidade de interromper ou re- todo, vem sendo testada e compro- definir o ritmo de expansão da epi- vada em diversas experiências mu- 1990, foi reapropriada e redefinida, O SAÚDE DA FAMÍLIA DEIXOU DE SER UM PROGRAMA QUE OPERACIONALIZAVA UMA por um conjunto heterogêneo de ato- POLÍTICA DE FOCALIZAÇÃO DA ATENÇÃO BÁSICA cia ou criação de condições de per- demia de cólera no início dos anos res políticos, em nível estadual e posteriormente federal, que viram no P ACS e em seu sucedâneo, o PSF, uma oportunidade histórica de promover a mudança do modelo de atenção à saúde em larga escala. EM POPULAÇÕES EXCLUÍDAS DO CONSUMO DE SERVIÇOS, PARA SER CONSIDERADA UMA ESTRATÉGIA DE MUDANÇA DO MODELO DE ATENÇÃO À SAÚDE NO SUS nicipais, cuja institucionalização, evidentemente, depende da existênmanência e reprodução do modelo, o que extrapola, às vezes, a capacidade dos governos municipais. Daí se colocar a necessidade de articulação do processo de implementação do Saúde da Família com a Re- Com isso, a partir de 1994, e princi- gionalização da Assistência, desen- palmente no período 1998-2002, o cadeada no período 2001-2002 atra- Saúde da Família deixou de ser um o país (aproximadamente 20 mil), vés do debate e implantação da NOAS . Programa que operacionalizava ainda que não se possa afirmar que, De fato, a possibilidade de se avan- uma política de focalização da aten- no conjunto, as ações e serviços pro- çar na ‘microrregionalização coope- ção básica em populações excluídas duzidos signifiquem de fato, a mu- rativa’, forma de superação da cha- do consumo de serviços, para ser dança de conteúdo das práticas e da mada ‘municipalização autárquica’ considerada uma estratégia de forma de organização do processo (MENDES, 2001), que marcou o pro- mudança do modelo de atenção à de trabalho prevista nos documen- cesso de descentralização da gestão saúde no SUS, na verdade, o instru- tos oficiais. Nesse sentido, ainda que do SUS nos últimos dez anos, além mento de uma política de universa- o Saúde da Família tenha como ‘ima- de servir como um ‘choque de reali- lização da cobertura da atenção bá- gem-objetivo’ a integralidade das dade’, diante dos enormes vazios sica e, portanto, um espaço de reor- ações, o que tem gerado, inclusive, sanitários que se observa em vas- ganização do processo de trabalho um diálogo e ‘interfertilização’ com tos territórios de diversos estados do em saúde nesse nível. Mais que isso, as propostas da Vigilância da Saú- país, traz embutida uma preocupa- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 269 TEIXEIRA, Carmen Fontes ção com economia de escala na grandes municípios tem evidencia- cina, ultrapassando em muito a implantação de serviços de apoio do novas lacunas e desafios para o idéia embutida no ‘nível de preven- diagnóstico e terapêutico, bem aperfeiçoamento dessa estratégia, ção primária’ definido por Leavell e como de serviços de atenção hospi- os quais abordaremos no último Clarck (1987), estando associado a talar em áreas prioritárias, sabida- item desse trabalho. um conjunto de valores (vida, saú- mente o ‘ralo’ por onde escoa montante significativo dos recursos financeiros do SUS. Pelo exposto, percebem-se os avanços, mas também as lacunas de, solidariedade, eqüidade, demo- REORIENTANDO A POLÍTICA DE SAÚDE COM BASE NA PROMOÇÃO DA SAÚDE: DAS POLÍTICAS PÚBLICAS SAUDÁVEIS ÀRECRIAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO NAS CIDADES da proposta de Saúde da Família, cracia, cidadania, desenvolvimento sustentável, participação e parceria referindo-se a uma “combinação de estratégias que envolvem a ação do Estado (políticas públicas saudá- as quais, na prática concreta dos ser- A concepção atualmente difundi- veis), da comunidade (reforço da viços, podem vir a ser superadas da de Promoção da Saúde surge e ação comunitária), de indivíduos (de- pelo diálogo e pela incorporação senvolvimento de habilidades pesso- crítica de outras propostas que con- ais), do sistema de saúde (reorienta- templam a redefinição do conteúdo ção do sistema de saúde) e de parce- centralização das ‘vigilâncias’ – PERCEBEM-SE OS AVANÇOS, MAS TAMBÉM AS LACUNAS DA PROPOSTA DE SAÚDE DA FAMÍLIA, AS QUAIS, NA PRÁTICA CONCRETA DOS SERVIÇOS , PODEM VIR A SER SUPERADAS ambiental, sanitária e epidemioló- PELO DIÁLOGO E PELA INCORPORAÇÃO CRÍTICA Do ponto de vista conceitual, a gica, e, mais que isso, a incorpora- DE OUTRAS PROPOSTAS QUE CONTEMPLAM A Promoção da Saúde tem aberto espa- das ações, como, por exemplo, a Vigilância da Saúde, orientando a ampliação dos objetos de intervenção nos territórios a partir da des- ção das idéias e propostas do movimento em torno da Promoção da Saú- REDEFINIÇÃO DO CONTEÚDO DAS AÇÕES rias inter-institucionais, trabalhando com a propostas de “responsabilização múltiplas, seja pelos problemas, seja pelas soluções propostas para os mesmos” (BUSS, 2003. p. 16). ço à reflexão sobre o conceito de saúde (ALMEIDA FILHO; ANDRADE, 2003), e a de, que extrapola as ações de ‘educa- problematização das diferenças e se- ção e mobilização popular’ e incor- melhanças entre as estratégias de pre- poram o desencadeamento de ações se desenvolve, como assinala Buss venção e promoção (CZERESNIA, 2003), intersetoriais nos territórios de abran- (2003), nos últimos 20 anos, no Ca- estimulando epidemiólogos e cientis- gência das ações das equipes. Do pon- nadá, Estados Unidos e países da tas sociais que atuam no campo da to de vista da vinculação sistêmica Europa ocidental, sendo um marco Saúde Pública/Coletiva, a aprofunda- com outros níveis de atenção, a arti- importante a Conferência de Ottawa rem a discussão em torno do concei- culação com a proposta de microrre- (1986), na qual se apresentou a Pro- to de risco (CAPONI, 2003), vulnerabili- gionalização da assistência pode con- moção da Saúde como um ‘enfoque’ dade (Ayres et al., 2003) e suas im- tribuir para superar uma limitação de político e técnico em torno do pro- plicações para as práticas de saúde origem, isto é, o fato do Saúde da Fa- cesso saúde-doença-cuidado. De no mundo contemporâneo (CASTIEL, mília estar voltado fundamentalmen- fato, a proposta atual de Promoção 2003), o que tem como um dos des- te para a reorganização da atenção da Saúde dá novo significado ao ter- dobramentos a atualização da refle- básica. Além disso, o processo de mo cunhado por Sigerist (1946) para xão sobre a proposta de Vigilância da expansão do Saúde da Família para designar uma das funções da medi- Saúde (FREITAS, 2003; PAIM, 2003b). 270 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços A difusão das idéias que consti- vida e saúde, principalmente em mento pela Promoção da Saúde, in- tuem o corpo doutrinário da Promo- áreas territoriais das grandes cida- cluído recentemente na Agenda po- ção da Saúde tem gerado a incor- des onde se concentra a população lítica de entidades representativas poração de muitas de suas propos- exposta a uma aglomeração de ris- das Secretarias Municipais de Saú- tas no processo de formulação de cos vinculados à precariedade das de (CONASEMS) e pelo próprio Ministé- políticas e programas de saúde, condições de vida, incluindo fatores rio da Saúde que, em 1998, chegou como é o caso do Programa de Con- econômicos, ambientais e culturais a criar um projeto de Promoção da trole do Tabagismo e do Programa (WESTPHAL , 1997; M ALIK, 1997; K EI- Saúde sob responsabilidade da en- de Controle da AIDS , ao lado de di- NERT , 1997; F ERRAZ, 1999; R ADIS , tão Secretaria de Políticas de Saúde versas iniciativas em torno da defi- 2000). Como assinalamos em outro (BRASIL, 2002), sem dúvida, consti- nição de estratégias para a Promo- lugar, sua incorporação ao referen- tui uma importante inovação con- ção da Paz e do controle da Violên- cial adotado pelas administrações ceitual e político-ideológica na área cia, em várias cidades brasileiras municipais pode contribuir para a de formulação de políticas sociais, (TEIXEIRA ; PAIM , 2000) e da formula- porém, não dá conta, evidentemen- ção de políticas públicas saudáveis te, do encaminhamento dos proble- que levem em conta a possibilidade mas específicos da organização do de articulação de ações intersetoriais voltadas para a melhoria da qualidade de vida de grupos populacionais expostos a riscos diferenciados (VIANA, 1998; JUNQUEIRA, 2000). Uma das formas de difusão e in- A DIFUSÃO DAS IDÉIAS QUE CONSTITUEM O CORPO DOUTRINÁRIO DA PROMOÇÃO DA SAÚDE TEM GERADO A INCORPORAÇÃO ‘modelo de atenção à saúde’. Sua DE MUITAS DE SUAS PROPOSTAS NO um diálogo que tende a extrapolar corporação das propostas do movi- PROCESSO DE FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS mento da Promoção da Saúde no E PROGRAMAS DE SAÚDE inclusão nesse debate, a meu ver, se justifica, porém, pela renovação de perspectivas e pela abertura de o espaço de governabilidade das instituições gestoras do sistema de saúde e aponta, seja em nível federal, Brasil tem sido a criação de “cida- estadual ou municipal, para a pos- des saudáveis”, iniciativa fomenta- sibilidade de reorientação de práti- da pela Organização Mundial da cas que incidam sobre as condições Saúde e incorporada por várias ad- concretização de processos de des- e modos de vida da população, pro- ministrações municipais nos últi- centralização, intersetorialidade e, duzindo efeitos diretos e indiretos mos anos (Campinas, Curitiba, For- principalmente, para a ampliação sobre o perfil de necessidades e de- taleza, e outras) (A KERMAN, 1997; do leque de ações sociais voltadas mandas que venham a se apresen- JUNQUEIRA, 1997; 1998; R IBEIRO, 1997). para o atendimento de necessidades tar ao sistema de serviços no futu- A noção de “cidades saudáveis” im- de saúde da população, gerando ex- ro. Nesse sentido, a análise dos pro- plica uma visão ampliada da ges- periências inovadoras de articulação cessos de transição demográfica e tão governamental, que inclui a pro- intersetorial para o enfrentamento de epidemiológica, os novos ‘mapas de moção da cidadania e o envolvimen- problemas cujos determinantes extra- risco’ e as estratégias de promoção to criativo de organizações ‘comu- polam o âmbito de ação do sistema e prevenção a serem adotadas nes- nitárias’ no planejamento e execu- de serviços de saúde (TEIXEIRA, 2000). ses cenários, são parte da reflexão ção de ações intersetoriais dirigidas A difusão e multiplicação de pro- sobre as tendências e perspectivas para a melhoria das condições de postas políticas derivadas do movi- das políticas e práticas de saúde no Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 271 TEIXEIRA, Carmen Fontes âmbito do SUS (BARRETO , 2002; PAIM, durante os debates a serem realiza- sidade de se buscar reconstruir a or- 2003c; T EIXEIRA, 2003). dos na 12 Conferência Nacional de ganização dos serviços e se redefi- Saúde, na construção de um consen- nir o conteúdo das práticas, a partir so acerca de qual é o “SUS que que- da situação concreta de cada local, remos”, ainda que para isso se te- seja um distrito, um município ou nha de superar resistência de ordem uma microrregião de saúde, levan- Vistas, em suas linhas gerais, as filosófica até mesmo com relação a do em conta a heterogeneidade estru- semelhanças e diferenças, confluên- uma definição de ‘Imagem-objetivo’. tural da situação de saúde e do siste- cias e divergências entre as diver- A partir daí será mais fácil, acre- ma de serviços de saúde em cada re- sas propostas de mudança do mo- ditamos, avançar na definição das gião e estado. Com isso, é possível delo de atenção à saúde no âmbito políticas e estratégias de mudança admitir que não deve se estabelecer do SUS, cabe retomar a análise do do modelo, potencializando o que já um ‘modelo padrão’ a ser reproduzi- contexto atual para que se possa vem ocorrendo em grande número do em todos os locais, senão que, PROBLEMAS E DESAFIOS NO MOMENTO ATUAL: DESATANDO NÓS E CRIANDO LAÇOS a identificar tendências e desafios como já vem ocorrendo, deve se defi- colocados ao desenvolvimento des- nir princípios e diretrizes que possam se processo. Pelo exposto anterior- DEVE SE DEFINIR PRINCÍPIOS E DIRETRIZES ser adaptados às diversas realidades, um dos ‘nós críticos’ a serem de- QUE POSSAM SER ADAPTADOS ÀS DIVERSAS que tenha como eixo central a busca satados no momento atual, diz res- REALIDADES, CONSTITUINDO VARIANTES de universalização, integralidade e mente, podemos considerar que peito à compreensão dos limites e possibilidades de cada uma das DE UM MODELO QUE TENHA COMO EIXO constituindo variantes de um modelo eqüidade na prestação de serviços. Considerando que a questão da propostas em debate e experimen- CENTRAL A BUSCA DE UNIVERSALIZAÇÃO , integralidade pode ser tomada como tação, para que se possa, inclusi- INTEGRALIDADE E EQÜIDADE NA o eixo central para a formulação de ve, conjugar elementos conceituais, PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS metodológicos e operacionais de políticas e implementação de estratégias de mudança do modelo de cada uma delas, à medida que não atenção à saúde (PINHEIRO; M ATTOS, apresentem incoerências e incom- 2001; 2003), cabe avançar na análi- patibilidades entre si. de municípios que, através de con- se dos problemas e desafios que se Nesse contexto, além das insufi- sultorias ou pelo acesso à literatu- colocam, no momento atual, para a ciências e lacunas conceituais e ra da área, tratam de incorporar ino- efetiva construção de um ‘modelo metodológicas das diversas propos- vações na organização dos serviços de atenção’ que tenha a integralida- tas de mudança do modelo de aten- e nas práticas de saúde que, muitas de do cuidado como atributo cen- ção, nos depararmos com a possi- vezes, provêm de correntes de pen- tral. Nesse sentido, cabe, em primei- bilidade de que as diferenças entre samento diferentes. Como já defen- ro lugar, registrar que a noção de as propostas sejam assumidas como demos em outro trabalho (TEIXEIRA, ‘integralidade’ remete a uma dupla diferenças de projetos políticos das 2000), penso que nenhuma das pro- dimensão: a primeira, relativa à in- diversas forças envolvidas na for- postas sozinha, dá conta do proces- tegralidade do sistema de serviços mulação das estratégias de interven- so de mudança do modelo de aten- de saúde (e à construção dos cha- ção sobre o processo de reforma. Daí ção à saúde em todas as suas di- mados ‘sistemas integrados’, confor- que é fundamental que se avance, mensões; daí defendermos a neces- me analisado por MENDES, 2001), e a 272 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços segunda à integralidade das práti- sujeito responsável pela implemen- de através da expansão e da qualifi- cas de saúde (e à articulação das tação de um projeto político de mu- cação do Saúde da Família, com in- ações de promoção da saúde, pre- dança da lógica de organização e de corporação das chamadas ‘ações pro- venção de riscos e agravos, diagnós- funcionamento do sistema que sub- gramáticas estratégicas’ (MS); tico, recuperação e reabilitação de verta as pressões mercadológicas danos) em todos os níveis organiza- em nome dos interesses sociais (e cionais do sistema de serviços. epidemiológicos) da população. O processo de construção da In- Do ponto de vista ‘conjuntural’, tegralidade na dupla perspectiva as opções adotadas pelos gestores (sistema e práticas) enfrenta hoje no do sistema (em nível federal, esta- âmbito do SUS um conjunto de de- dual e municipal), hoje conformam safios que podem ser classificados um mosaico extremamente comple- de ‘estruturais’ e ‘conjunturais’. Do xo no qual se evidenciam elemen- ponto de vista ‘estrutural’, o princifato das práticas de saúde em nosgundo determinações econômicas e tar a proposta de regionalização da atenção à saúde (NOAS), sob responsabilidade dos gestores estaduais (Secretarias Estaduais de Saúde - SES); • o interesse em se avançar na implantação de ações intersetoriais de Promoção da Saúde, principalmente, em nível municipal (bandeira do C ONASEMS); pal problema deriva exatamente do so meio terem sido estruturadas se- • a possibilidade de se implemen- • a reorientação da formação C OMO ELEMENTOS DESFAVORÁVEIS, profissional em saúde (Novas Diretrizes Curriculares) e a implementa- político-ideológicas que continuam, DESTACAMOS A PROVÁVEL REDUÇÃO ainda hoje, a vigorar. Isto é, a re- DO VOLUME DE RECURSOS FINANCEIROS nente (SEGETES) desde que não enfra- produção do ‘modelo médico assis- PARA A SAÚDE, DIANTE DAS RESTRIÇÕES queçam e sim potencializem a ex- ta’ não ocorre por simples inércia DERIVADAS DA POLÍTICA ECONÔMICA ção e capacitação das equipes de ou somente pela vontade política ADOTADA PELO ATUAL GOVERNO tencial hospitalocêntrico e privatis- dos sujeitos que ocupam os vérti- cional da área da saúde. A própria existência desse triângulo revela as fortes determinações econômicas envolvidas na reprodução do modelo, determinações essas que só se alteram no longo prazo, por força da acumulação de fatos e processos que venham a condicionar uma nova dinâmica de reprodução, indu- Saúde da Família. destacamos: Estado, multinacionais de medicaempresariado nacional e multina- periência acumulada com a forma- Como elementos desfavoráveis, ces do triângulo constituído pelo mentos e equipamentos médicos e ção dos Pólos de Educação Perma- tos favoráveis e elementos desfavoráveis à manutenção ou transformação do modelo, que incidem, portanto, na construção da integralidade do cuidado e na acumulação de fatos e processos que po- • a provável redução do volume de recursos financeiros para a saúde, diante das restrições derivadas da política econômica adotada pelo atual governo; dem vir a contribuir para a ‘rever- • a pressão do empresariado são’ efetiva do modelo médico-assis- médico-hospitalar pela manuten- tencial hegemônico. ção do fluxo de recursos financei- Como elementos favoráveis podemos elencar: ros para os serviços de média e alta complexidade; zida pelo fortalecimento do papel do • a ênfase na implementação e for- • a resistência de algumas Se- Estado como regulador, isto é, como talecimento da Atenção Básica à Saú- cretarias Estaduais de Saúde em Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 273 TEIXEIRA, Carmen Fontes avançar com o processo de micro- possibilidade de se incidir nessa di- desse modelo, inclusive os profis- regionalização da atenção à saúde recionalidade, tendo em vista o for- sionais de saúde; por isso mesmo, acatando, apenas, uma perspectiva talecimento de um processo de mu- o Saúde da Família, tal como vem limitada de expansão da Atenção dança que conduza efetivamente à sendo implementado, encontra resis- Básica (focalização); universalização e à integralidade da tência na própria população usuá- atenção, exige a construção de ria, habituada a consumir serviços alianças estratégicas entre os ges- especializados, mesmo em nível de tores do SUS interessados nesse pro- atenção básica. Por conta disso, há cesso, os profissionais de saúde e a que se pensar na flexibilização da população usuária. proposta, de forma a não se perder • a baixa capacidade gerencial e operacional de um número significativo de secretarias municipais de saúde; Como se pode perceber, os ‘nós Nesse sentido, algumas questões de vista a possibilidade de legitimá- críticos’ essenciais a serem desata- merecem um aprofundamento, la junto à população, ator central dos, na prática político-institucio- como, por exemplo, a proposta de na construção da viabilidade da nal, dizem respeito ao financiamen- mudança do modelo. to e ao desenvolvimento de pessoal, através das ações de formação, capacitação e educação permanente dos profissionais e trabalhadores de saúde. De fato, as opções em termos dos critérios de distribuição e utili- Na mesma linha, há que se ter C OMO SE PODE PERCEBER, OS ‘NÓS CRÍTICOS’ ESSENCIAIS A SEREM DESATADOS, NA PRÁTICA POLÍTICO -INSTITUCIONAL, zação de recursos financeiros pelos DIZEM RESPEITO AO FINANCIAMENTO diversos níveis de gesto do sistema e E AO DESENVOLVIMENTO DE PESSOAL, pelos diversos níveis de organização dos serviços, podem atuar como constrangimentos ou mecanismos indu- bastante cuidado com a implementação das propostas de desenvolvimento de pessoal de saúde, seguramente o aspecto mais delicado na sustentação do processo de mudança das práticas. A experiência acumulada pelos Pólos de Capacitação ATRAVÉS DAS AÇÕES DE FORMAÇÃO, em Saúde da Família revela que os CAPACITAÇÃO E EDUCAÇÃO PERMANENTE os médicos, podem vir a se consti- profissionais de saúde, até mesmo tores de mudanças no modelo de aten- tuir em potentes aliados do proces- ção. Do mesmo modo, as políticas so, desde que sejam contemplados de formação e capacitação de pes- expansão da estratégia de Saúde da interesses econômico-financeiros e soal podem contribuir ou restringir Família aos municípios de mais de técnico-científicos, para além do as possibilidades de mudança das cem mil habitantes. Cabe problema- compromisso político e ético que práticas de saúde, daí sua importân- tizar a pertinência de se implemen- pode vir a ser construído coletiva- cia crucial nessa conjuntura. tar essa estratégia da mesma forma mente no âmbito do processo de for- A análise da direcionalidade da como vem sendo implementada nos mação e educação permanente. política de financiamento e de edu- pequenos e médios municípios, por Para concluir, queremos relem- cação permanente dos profissionais duas simples razões: nos grandes brar a observação precisa da pro- de saúde, portanto, é imprescindí- centros, o Saúde da Família passa a fessora Maria Cecília Donnangelo, vel para a compreensão dos rumos competir, de fato, com o modelo em 1979, chamando a atenção para que tomará o processo de mudança médico-assistencial hegemônico, que a reforma “se fará com a popu- do modelo de atenção à saúde no enfrentando a resistência de vários lação ou não se fará”, a lembrar- SUS. Mais que isso, entretanto, a atores implicados na reprodução nos que o sentido maior de todo o 274 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 257-277, set./dez. 2003 A Mudança do modelo de atenção à saúde no SUS: desatando nós, criando laços esforço desencadeado no âmbito jurí- . Sujeito, intersubjetivida- dico-normativo, político-institucional de e práticas de saúde. Ciência & e principalmente, na ‘ponta do siste- Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 6, ma’, para a mudança na organização n. 1, 2001. p. 63-72. e no conteúdo das práticas de saúde, é a escuta e a resposta aos problemas e às necessidades sociais de saúde da população, e que é através des- gilância da saúde e da saúde da fa- ceito de vulnerabilidade e as práti- mília. Ciência & Saúde Coletiva, Rio cas de saúde: novas perspectivas e de Janeiro, v. 8, n. 2, 2003.p. 569-584. para a redução das desigualdades, C. M. (Orgs.). 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Integration of the Family Health Program to the network of health services Lígia Giovanella1 Sarah Escorel 2 Maria Helena M. de Mendonça3 RESUMO Com o propósito de contribuir para a elaboração de estratégias a fim de melhorar a organização do Sistema Único de Saúde (SUS), este artigo apresenta resultados de avaliação do Programa Saúde da Família (PSF) realiza- Médica, doutora em Saúde Pública, pesquisadora do Núcleo de Estudos Político-Sociais em Saúde (N UPES ) do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (DAPS) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Av. Brasil, 4.036 – sala 1001 CEP 21040 – 361 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] ! Médica, doutora em Saúde Pública, pesquisadora do Núcleo de Estudos Político-Sociais em Saúde (N UPES ) do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (DAPS) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Av. Brasil, 4.036 – sala 1001 CEP 21040 – 361 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 2 Médica, doutora em Saúde Pública, pesquisadora do Núcleo de Estudos Político-Sociais em Saúde (N UPES ) do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (DAPS) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Av. Brasil, 4.036 – sala 1001 CEP 21040 – 361 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 3 Uma primeira versão deste artigo foi apresentada no VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva realizado em Brasília em julho de 2003. * da em dez grandes centros urbanos quanto à conformação de sistema integrado, analisando a constituição da unidade de saúde da família (USF) como porta de entrada e a sua articulação a outros níveis de complexidade. Argumenta-se que a constituição da USF/unidade básica como porta de entrada do SUS tem por objetivo tornar o generalista coordenador dos cuidados ao paciente e condutor do paciente pela rede assistencial na busca da melhor opção de atenção disponível, para além da função de gatekeeper, que visa apenas o controle de referência para especialista. DESCRITORES: Programa Saúde da Família; Cuidados Integrais de Saúde; Cuidados Primários de Saúde. ABSTRACT With the aim to contribute to the development of strategies to improve SUS organization, this article presents assessment results of the Family Health Program performed in ten large urban centers, analyzing the constitution of the family health unit (FHU) as entrance door and its articulation with other complexity levels. It is argued that the FHU/basic unit as an entrance door to SUS aims to turn the general physician into the coordinator of assistance to the patient and his/her conductor throughout the assistance network in search for the best care option available, beyond the role of gatekeeper that aims only to act as a control reference to the specialized physician. We defend that the booking and guarantee of procedure performance should be responsibility of the basic care unit. DESCRIPTORS: Family Health Program; Comprehensive Health Care; Primary Health Care. 278 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 Porta de entrada pela atenção básica? Integração do PSF à rede de serviços de saúde INTRODUÇÃO coordenação pelo clínico geral dos nea, fragmentada pela especialização cuidados ao paciente (S TARFIELD , progressiva, em garantir atenção in- O Sistema Único de Saúde (SUS) 2002). Com esses objetivos, mode- tegral e integrada, em particular, brasileiro passa por um momento los integrados de atenção à saúde aquela voltada ao paciente crônico. de reorganização e ensaia mudan- fazem parte da pauta de recentes Sistemas integrados de saúde, ças do modelo assistencial promo- reformas setoriais em países euro- nos quais o clínico geral atua como vidas por meio de incentivos ao Pro- peus, nos quais coalizões gover- porta de entrada obrigatória (gateke- grama Saúde da Família (PSF). Re- namentais de centro-esquerda – em eper), são considerados menos one- cente normatização federal regula- particular no Reino Unido e na Ale- rosos e mais aptos para conter a mentou a constituição de sistemas manha –, ao final dos anos 1990, progressão dos gastos ambulatoriais funcionais de atenção à saúde re- propuseram mecanismos para a re- (S TARFIELD, 2002. p. 213; DELNOIJ et al., gionalizados, incentivando a criação organização da atenção e melhoria 2000; BOWLING; REDFERN, 2000). A bus- de mecanismos para a integração da qualidade das prestações de ser- ca de alternativas menos dispendio- entre os serviços. Pode-se dizer que sas de atenção não é tarefa secun- a descentralização se efetivou, con- dária. Ainda que não haja consenso tudo, ainda não foi constituído um quanto aos fatores predominantes sistema integrado de saúde – hie- para o aumento das despesas em rarquizado e regionalizado – que fa- HÁ MUITO O QUE DEBATER cilite o acesso e permita a continui- E NEGOCIAR PARA APRIMORAR dade do cuidado garantindo atenção integral. Há muito o que debater e saúde, a preocupação pela otimiza- OS MECANISMOS POLÍTICOS E ção de recursos empregados é objetivo a ser alcançado por qualquer política pública que se pretenda negociar para aprimorar os meca- GERENCIAIS DE COOPERAÇÃO universal e sustentada por finan- nismos políticos e gerenciais de co- INTERGOVERNAMENTAL ciamento solidário. Como afirmou operação intergovernamental, de Gastão Wagner de Souza Campos – regulação da oferta assistencial e secretário executivo do Ministério da para referência e contra-referência Saúde – em recente conferência de que permitam a integração da rede abertura de reunião do Conselho assistencial e a constituição de sis- viços ainda que o objetivo de conten- Nacional de Saúde (CNS), “não há temas de saúde funcionais para além ção de gastos tivesse sido reiterado. recursos financeiros capazes de A organização de sistemas inte- sustentar o modelo tradicional, Entende-se que a organização de grados de serviços de saúde objeti- centrado em pronto-socorro, hos- sistemas integrados de serviços de va proporcionar atenção menos one- pital e especialistas, além da efi- saúde proporciona atenção de me- rosa, de melhor qualidade e mais cácia da atenção (no modelo tra- lhor qualidade e menos onerosa, direcionada a responder às neces- dicional) ficar comprometida”. É por meio da definição de porta de sidades de saúde da população. necessário garantir atenção bási- entrada, da articulação de cuida- A necessidade de repensar o mode- ca integral: equipes de saúde “com dos preventivos e curativos no pri- lo assistencial é exigência decorren- capacidade de fazer promoção e meiro nível de atenção e da inte- te de mudanças demográficas e epi- prevenção e com resolutividade gração entre as redes de cuidados demiológicas e da baixa capacida- clínica com capacidade de atender primários e especializados com a de da atenção médica contemporâ- aos problemas crônicos...”. das fronteiras municipais. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 279 GIOVANELLA, Lígia; ESCOREL, Sarah & MENDONÇA, Maria Helena M. de A implementação do Programa tuição de um sistema integrado de a Equipe de Saúde da Família (ESF) Saúde da Família a partir da segun- saúde. A análise apresentada re- e a comunidade, à conversão do da metade da década de 1990, com sultou da pesquisa Avaliação da modelo de atenção à saúde nas incentivos federais, pretendeu mu- Implementação do Programa Saú- unidades básicas e à sua articula- danças no modelo assistencial de de da Família em grandes centros ção com a rede de serviços de saú- atenção básica. Afora o debate so- urbanos – dez estudos de caso, em de (ESCOREL et al., 2002). bre características de seletividade e avaliação desenvolvida pelo Nú- A pesquisa foi realizada em dez focalização ao priorizar populações cleo de Estudos Político-Sociais em grandes centros urbanos com popu- em situação de risco e implantação Saúde (NUPES) do Departamento de lação superior a cem mil habitantes, inicial como mais um programa, o Administração e Planejamento em selecionados pela equipe técnica do Saúde da Família vem sendo enten- Saúde (DAPS ) da Escola Nacional de Projeto de Expansão da Saúde da Fa- dido como uma estratégia que visa Saúde Pública (ENSP) da Fundação mília em grandes centros urbanos à reorientação do modelo de aten- Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), demanda- (PROESF/MS) de modo a apreender si- ção. Pretende-se instituir a equipe tuações diversificadas. O estudo abar- de saúde da família como a porta cou os municípios de Camaragibe, de entrada do sistema de atenção, Palmas, Vitória da Conquista, Vitória, devendo este primeiro nível estar integrado a uma rede de serviços, estabelecendo-se um sistema de re- PRETENDE- SE INSTITUIR A EQUIPE DE SAÚDE DA FAMÍLIA COMO A Aracaju, São Gonçalo, Campinas, Goiânia, Manaus e Brasília. Utilizando a metodologia de estudos de caso, a ferência e contra-referência que ga- PORTA DE ENTRADA DO SISTEMA DE pesquisa incluiu abrangente trabalho ranta resolutividade e possibilite o ATENÇÃO, DEVENDO ESTE PRIMEIRO de campo constituído por: entrevistas acompanhamento dos pacientes. A importância da problemática NÍVEL ESTAR INTEGRADO A UMA REDE DE SERVIÇOS da organização da atenção à saú- semi-estruturadas com gestores do PSF e conselheiros municipais de saúde; questionários auto-preenchidos de para a efetivação do SUS é re- para os integrantes das Equipes de conhecida pelo Ministério da Saú- Saúde da Família e instrumento apli- de e pelo Conselho Nacional de cado por entrevistador em amostra de Saúde, incluindo a questão como da e financiada pelo Departamen- famílias usuárias do PSF.1 tema da 12ª Conferência Nacional to de Atenção Básica (DAB) da Se- Neste artigo, para avaliar a inte- de Saúde. Com o objetivo de con- cretaria de Políticas Públicas (SPS) gração do PSF à rede assistencial do tribuir para o debate e a constru- do Ministério da Saúde (MS). A pes- SUS, trabalhando-se informações ção de estratégias de organização quisa teve como objetivos analisar qualitativas e quantitativas, foram de um sistema integrado de saú- fatores facilitadores e limitantes da analisadas a constituição da USF de, neste artigo são analisadas as implementação do Programa de como porta de entrada do sistema mudanças do modelo assistencial Saúde da Família em grandes cen- de saúde e a articulação da USF com pretendidas pela estratégia de Saú- tros urbanos no que concerne ao os demais níveis de complexidade de da Família relativas à consti- estabelecimento de vínculos entre por meio da presença e uso de me- Em São Gonçalo (RJ) e Campinas (SP) não foram realizados inquéritos com famílias e profissionais, pois a implantação do PSF era muito recente. Deste modo, parte dos resultados refere-se a apenas oito cidades. 1 280 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 Porta de entrada pela atenção básica? Integração do PSF à rede de serviços de saúde canismos de referência e contra-re- tas ao PSF (>90%) afirmou conhe- Conquista (67%), Aracaju (62%), Vi- ferência pelos profissionais das ESF. cer o local onde funciona o PSF nos tória (56%), e Palmas (52%), metade municípios estudados, exceto Goiâ- (ou mais) das famílias informaram nia. Entre as famílias que conheci- que geralmente procuram a ESF/USF am a localização da USF, mais de para atendimento. Em geral, nos 90% afirmaram ser fácil chegar ao municípios em que o PSF foi conce- local e se deslocavam a pé até a uni- bido e implantado como programa dade (Quadro 1). paralelo, a ESF/USF, segundo este A USF COMO PORTA DE ENTRADA DO SISTEMA DE SAÚDE Um sistema integrado implica na hierarquização dos serviços em níveis crescentes de complexidade e Para funcionar como porta de en- critério, não se constituía em porta pressupõe existir um serviço de pri- trada, a USF, além de ser acessí- de entrada. Goiânia (22%), Manaus meiro contato, aqui denominado de vel, deve constituir-se em serviço (27%) e Brasília (31%) apresentaram porta de entrada (gatekeeper), pro- de procura regular e servir de fil- as menores proporções de ESF/USF curado regularmente a cada vez que tro e ponto de entrada do fluxo pela como serviço de procura habitual o paciente necessita de atenção (em rede assistencial na busca, coorde- pela população adscrita (Quadro 2). caso de adoecimento e/ou acompa- nada pelo generalista, da melhor Em todos os municípios, entretan- nhamento rotineiro de sua saúde). opção de assistência disponível to, foram observadas menores pro- para cada tipo de necessidade (STAR- porções de famílias que procuraram FIELD , a USF em episódio de doença ocorri- Para a constituição da USF como porta de entrada do sistema de saú- 2002. p. 207s). de o primeiro requisito é que a mes- Para avaliar a USF como porta do nos 30 dias anteriores à pesqui- ma seja acessível à população ads- de entrada do sistema de saúde, foi sa. Na experiência de uso recente, crita, eliminando-se barreiras finan- investigado se a mesma é o serviço Aracaju (61%), Vitória (40%), e Pal- ceiras, geográficas, temporais, ad- de procura regular da população mas (39%) apresentaram as maiores ministrativas e culturais (GIOVANELLA; adscrita. O primeiro indicador cons- proporções de procura à USF. Em F LEURY, 1996). Nas cidades estuda- truído foi a proporção de famílias Camaragibe (20%), Brasília (23%) e das as USF eram acessíveis e conhe- que em geral procuram a ESF/USF Manaus (24%) cerca de apenas um cidas pelas famílias cadastradas. A quando precisam de atendimento por quinto das famílias cadastradas ha- grande maioria das famílias adscri- profissional de saúde. Em Vitória da via procurado a ESF/USF frente a mal- QUADRO 1 – Acesso à ESF/USF das famílias adscritas ao PSF (%), em oito grandes centros urbanos, Brasil, 2002 Indicadores Camaragibe Palmas V. Conq Vitória Aracaju Goiânia Manaus Brasília % Famílias que conhecem localização da USF 96,7 96,7 85,9 98,7 93,8 55,9 99,2 94,6 % Famílias, entre as que conhecem, que afirmaram ser fácil chegar à USF 95,7 95,7 92,4 93,6 95,1 94,1 97,1 91,6 % Famílias que alguma vez receberam atendimento da ESF 95,8 96,7 85,6* 97,9 100,0 83,0 90,5 98,7 % Famílias que receberam atendimento da ESF nos últimos trinta dias 48,7 67,1 82,0 57,1 72,9 62,7 65,1 48,1 Fonte: NUPES /DAPS/ENSP /FIOCRUZ. * No questionário aplicado em Vitória da Conquista e Goiânia, a pergunta excluía o Agente Comunitário de Saúde (ACS) nesse atendimento. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 281 GIOVANELLA, Lígia; ESCOREL, Sarah & MENDONÇA, Maria Helena M. de QUADRO 2 – Serviços ou profissionais de saúde (%) geralmente procurados e utilizados pelas famílias assistidas pelo PSF, 2002* Serviços ou profissionais Camaragibe Palmas V. Conquista Vitória Aracaju Goiânia Manaus Brasília USF/ ESF ou ACS Geralmente procurado 36,6 56,3 67,3 56,2 62,9 22,0 27,3 31,3 Utilizado últimos 30 dias 20,0 39,1 25,6 41,4 61,6 32,7 24,1 23,1 Geralmente procurado 26,7 31,2 45,2 23,0 15,4 – 44,8 53,7 Utilizado nos últimos trinta dias 37,3 41,3 44,1 30,3 12,6 23,1 32,1 38,5 Geralmente procurado 29,6 2,1 – 7,5 4,2 26,0 – 0,8 Utilizado nos últimos trinta dias 31,8 3,4 – 14,1 2,0 7,7 1,2 4,8 Geralmente procurado 4,2 3,3 13,5 – 2,5 21,0 20,7 8,8 Utilizado nos últimos trinta dias 6,4 1,1 4,7 6,1 7,9 13,5 21,6 19,2 Geralmente procurado 2,5 7,1 – 12,5 12,5 – 6,2 5,0 Utilizado nos últimos trinta dias 4,5 12,6 – 7,1 12,6 – 12,3 9.6 Pronto-socorro, emergência, hospital Centro de saúde com serviço urgência Postos ou centros de saúde Clínica, médico, plano saúde/particular Outro, nenhum, farmácia Geralmente procurado 0,4 – 1,0 0,8 2,5 4,0 0,4 0,4 Utilizado nos últimos trinta dias – 2,3 25,6 1,0 2,6 23,2 8,6 4,8 Fonte: N UPES/D APS/ENSP /FIOCRUZ. * Em Vitória da Conquista e Goiânia, os dados foram coletados no segundo semestre de 2001 e o instrumento de pesquisa permitia mais de uma resposta. estar ou episódio de doença nos 30 do procurados em Manaus (22%), médicos e 52% dos profissionais de dias anteriores à pesquisa. Brasília (19%) e Goiânia (14%), in- nível superior concordaram muito Embora a maior parte dos epi- dicando existência de paralelismo com a afirmativa. Nos outros muni- sódios não fossem graves, os ser- de redes básicas nas localidades. cípios mais da metade dos profissio- viços mais procurados em diver- Outros indicadores para avaliar nais concordaram muito que a ESF/ sas cidades foram serviços de ur- a constituição da USF como porta de gência: pronto-socorro, emergên- entrada foram construídos a partir cia, hospital ou centro de saúde das percepções dos profissionais. As com serviço de urgência. Em Ca- percepções dos profissionais, em ge- maragibe 32% procuraram Centro ral, foram mais positivas do que o de Saúde com serviço de urgência informado pelas famílias. Em Cama- A integração da atenção básica e 37% pronto-socorro ou hospital. ragibe, Aracaju e Palmas mais de aos demais níveis de complexidade Em Vitória da Conquista (44%), 80% dos profissionais de nível supe- possibilita a coordenação da aten- Brasília (38%) e Manaus (32%), a rior, integrantes da ESF, concordaram ção ao paciente pelo generalista e principal procura foi por pronto- ‘muito’ que a ‘USF tornou-se porta pressupõe que o acesso à atenção socorro/hospital. Outros serviços de entrada do sistema de atenção’. especializada depende de encami- de atenção básica como postos e Os piores resultados foram observa- nhamento da ESF. A integração é centros de saúde continuavam sen- dos em Brasília onde apenas 37% dos proporcionada pelo estabelecimen- 282 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 USF tornou-se porta de entrada. ARTICULAÇÃO DA USF AOS DEMAIS NÍVEIS DE COMPLEXIDADE Porta de entrada pela atenção básica? Integração do PSF à rede de serviços de saúde to de mecanismos de referência e por pela ESF”. Em Vitória da Conquis- vas à percepção geral de resolutivi- realização da contra-referência. ta e Aracaju, observaram-se os me- dade. Entre as famílias atendidas nos A articulação da USF aos demais lhores resultados: 80% dos entrevis- últimos 30 dias por médico e enfer- níveis de complexidade foi analisa- tados consideraram o atendimento meiro, a proporção de encaminha- da por meio dos encaminhamentos da ESF resolutivo. Os piores resul- mentos para consulta médica e in- experimentados pelos usuários, tados foram encontrados em Goiâ- ternação variou de 15% em Manaus quando atendidos pela ESF, e pelo nia (46%), Palmas (34%) e Manaus a 28% em Camaragibe, sendo que em acesso das famílias a consultas es- (33%), onde cerca de um terço ou cinco das cidades tal proporção foi pecializadas, exames, internações e mais das famílias percebiam o inferior a 20%. A razão de encami- medicamentos, avaliado por usuá- atendimento da ESF como não-re- nhamentos observada, em geral, foi rios e profissionais (ESCOREL et al., solutivo, afirmando que “geralmen- superior à informada pelo S IAB. 2002). Esta avaliação completa-se te precisavam procurar o especia- com a análise dos mecanismos de lista” após consulta no PSF. A proporção de encaminhamentos por consulta realizada é indica- referência e contra-referência exis- A proporção de encaminhamen- dor de resolutividade do serviço, tentes em cada município e o seu tos realizados pela ESF em seus aten- porém não pode ser analisada iso- uso informado pelos profissionais da dimentos é indicativa da resolutivi- ladamente. Esse indicador não in- ESF. Alguns destes resultados são dade da equipe. Em geral, foram in- forma sobre o resultado do cuidado discutidos a seguir. formadas pelas famílias, proporções para o paciente, é influenciado pelo Em cinco das cidades estuda- inferiores de encaminhamentos para conhecimento clínico do médico, das, 70% das famílias consideraram especialistas e internações nos aten- com decisão adequada ou não, so- a USF resolutiva, informando “que dimentos nos últimos 30 dias, rea- bre a melhor opção de cuidado para geralmente consegue resolver o pro- lizados por médicos e enfermeiros cada caso, além de estar condicio- blema de saúde quando é atendido da ESF, do que as proporções relati- nada pelo elenco disponível de re- Resolutividade da ESF/USF e proporção de encaminhamentos do PSF para outros serviços de saúde (%), segundo famílias entrevistadas e a partir do SIAB, oito grandes centros urbanos, Brasil, 2002* Indicadores (%) Camaragibe Palmas V. Conquista Vitória Aracaju Goiânia Manaus Brasília 27,8 33,8 19,2 22,7 19,2 46,2 32,6 29,5 27,5 13,7 23,1 12,2 16,1 27,5 15,3 16,4 25,5 11,8 21,2 8,2 15,5 27,5 14,1 14,8 Internação ou cirurgia 2,0 1,9 1,9 4,0 0,6 0,0 1,2 1,6 Total de encaminhamentos SIAB* 12,8 9,9 10,0 7,7 8,3 8,6 – 8,1 Atendimento especializado 11,9 8,3 9,0 5,8 6,7 7,7 – 6,6 Internação hospitalar 0,2 0,3 0,2 0,2 0,4 0,5 – 0,3 0,4 – 1,2 Geralmente precisam procurar especialista (1) Total de encaminhamentos (2) Consulta médica Urgência/emergência 0,7 1,3 0,8 1,7 1,2 Fonte: NUPES/D APS/ENSP/FIOCRUZ. (1) Base: famílias que alguma vez foram atendidas na USF. (2) Base: familiares atendidos pelo PSF, nos últimos 30 dias, por médico ou enfermeiro. Em Vitória da Conquista e Goiânia a pergunta admitia mais de uma resposta. * Dados do SIAB para 2001. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 283 GIOVANELLA, Lígia; ESCOREL, Sarah & MENDONÇA, Maria Helena M. de cursos diagnósticos para solicitação em parte condicionadas por carac- los profissionais das ESF para en- pelo médico de atenção primária. terísticas demográficas e modalida- caminhamentos de pacientes para Outrossim, uma baixa proporção de des de sistemas de pagamento (2 a consultas especializadas (Quadro 3). encaminhamentos pode ser condi- 18%). Contudo, alta variabilidade Todavia somente em três municípios cionada por dificuldades de agenda- permanece mesmo quando os resul- havia central de consultas informa- mento nos outros serviços. É, por- tados são ajustados por estas con- tizada. Em Aracaju 90% dos profis- tanto, difícil concluir se os resulta- dições (STARFIELD, 2002. p. 223). sionais das ESF e em Vitória 82% dos encontrados são adequados ou Na maior parte dos municípios informaram utilizar a central de não. Uma estimativa muito difun- estudados havia alguma forma de consultas para encaminhamentos. dida entre sanitaristas brasileiros – regulação para a referência e em Em Palmas (60%) e Camaragibe defensores da atenção primária – é alguns deles estavam estruturadas (54%), mais da metade dos profis- de que a atenção básica deveria re- centrais de regulação de internações sionais de nível superior informou solver 85% dos casos atendidos, con- e centrais de marcação de consul- utilizar cotas de consultas estabe- tudo não há evidências suficientes tas especializadas e/ou exames com lecidas por ESF para realizar os en- que a corroborem (MS/CNS, 2002). o estabelecimento de cotas físicas caminhamentos para consultas es- Estudos nos EUA e Inglaterra mos- ou financeiras por unidades de saú- pecializadas. Centrais de internação tram variações importantes na pro- de ou por população/territórios de gerenciadas pela SMS funcionavam porção de encaminhamentos em pa- adscrição, sendo sua existência con- apenas em Vitória da Conquista, cientes atendidos por clínicos gerais firmada pelo uso das mesmas pe- Campinas e Goiânia. QUADRO 3 – Existência de mecanismos de referência e contra-referência e uso por ESF, 2002 Central consulta especializada Cotas por ESF Município Central de internação gestor e informatização Profis. NS utilizam (%) Existência Profis. NS utilizam (%) Camaragibe Não SMS limitada* 39,6 Exames, consultas 60,4 Palmas Não Não 3,8 Exames, consultas 53,8 (1) V.Conquista SMS SMS 93,7 Exames, consultas – Vitória SES SMS incipiente não informado SES 82,5 Não 14,3 Aracaju Não 89,4 Não 4,3 S. Gonçalo Não – Exames – Campinas SMS Goiânia SMS SMS 86,2(1) $ Exames – Manaus Não Não 26,8 Não 7,1 Brasília Não 50,0 Consultas 24,3 SMS e SES USF on-line Não SMS – Não informado Regionais não informado Fonte: NUPES /DAPS/ENSP /FIOCRUZ. * Formalizada apenas para saúde mental e gestação de alto risco. (1) Profissionais de nível superior que informaram a existência de sistema de marcação de consultas. 284 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 Consultas distrital Exames espec. – Porta de entrada pela atenção básica? Integração do PSF à rede de serviços de saúde Em geral, observou-se amplia- tanto próprios (centro de atenção serviços de média complexidade, ção da pressão da demanda por especializada) quanto contratados. condicionadas pela insuficiência de atenção secundária, com a exten- Em Aracaju, encontrava-se em oferta em certas especialidades e são de cobertura de atenção bási- funcionamento uma Central de Mar- exames, e pela carência de pessoal ca. Como mecanismo de racionali- cação de Consultas e Exames su- com habilidade em informática para zação, gestores de algumas cida- bordinada à Secretaria Municipal utilizar o sistema. As vagas torna- des instituíram cotas de exames e de Saúde, criada a partir de Cen- vam-se disponíveis na rede a cada consultas especializadas por uni- tral Estadual existente na época da cinco dias e logo preenchidas. Para dade. Segundo gestores, a defini- habilitação do município em ges- obter-se vaga, freqüentemente, eram ção de cota para cada equipe do tão plena do sistema municipal, em necessárias diversas tentativas em PSF garante melhor acesso, ao as- julho de 2001. A Central de Marca- horários e dias diferentes. segurar para todas as equipes a ção funcionava por meio de um sis- Em Campinas, município com oferta dos mesmos serviços e pro- tema informatizado e descentraliza- importante rede assistencial estrutu- cedimentos, ao mesmo tempo que rada, existia uma central de vagas controla o seu uso. para consultas especializadas não- Vitória da Conquista destacou-se informatizada, que funcionava por na organização da rede assistencial telefone. Eram definidas cotas por dis- no município. As unidades básicas AS UNIDADES BÁSICAS FORAM DEFINIDAS (22 USF e seis UBS) foram definidas COMO PORTA DE ENTRADA DO como porta de entrada do sistema de saúde e o acesso ao atendimento SISTEMA DE SAÚDE E O ACESSO AO especializado requeria encaminha- ATENDIMENTO ESPECIALIZADO REQUERIA mento do primeiro nível. Após atendimento na unidade básica, em caso ENCAMINHAMENTO DO PRIMEIRO NÍVEL trito, proporcionais ao número de atendimentos na região, monitoradas pelos gerentes distritais, também responsáveis pela distribuição das vagas entre as unidades de seu território. Marcação on-line estava sendo implantada em uma das regiões da de necessidade o usuário era refe- cidade. O acesso ao especialista era renciado formalmente para os ou- dependente do encaminhamento pelo tros níveis de complexidade por médico da unidade básica e realiza- meio de dois mecanismos de refe- do, com computadores, ligados em do por meio de formulário específi- rência: Central de Marcação de Con- rede, instalados nas unidades bá- co. A partir do monitoramento das sultas e Procedimentos Especializa- sicas sendo o acesso feito on-line. filas, foram identificados pelos ges- dos e Central de Internações Hospi- Por meio da Central, podem ser tores encaminhamentos indevidos, o talares. Esses mecanismos eram agendadas consultas em ambula- que gerou iniciativas de capacita- utilizados para toda rede e foram tórios especializados e marcados ção dos profissionais da rede bási- criados no recente processo de reor- exames de média e alta complexi- ca e estratégias para aumentar a re- ganização da assistência à saúde no dade nos dois Centros de Especiali- solutividade da rede básica para município. Deste modo, consultas e dades municipalizados, com pres- alguns problemas mais comuns, procedimentos especializados ambu- tadores privados ou na rede de ser- tornando desnecessária a referência latoriais eletivos eram agendados viços sob gestão estadual. Mesmo para o especialista. pela ESF com a Central que marca- com a central em funcionamento, A insuficiente realização da con- va para todos os serviços do SUS – havia dificuldades de acesso aos tra-referência foi dificuldade reitera- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 285 GIOVANELLA, Lígia; ESCOREL, Sarah & MENDONÇA, Maria Helena M. de da pelos gestores municipais do sis- para que o especialista promova o modo a assegurar uma seqüência tema de saúde na maior parte dos retorno do paciente ao serviço de ininterrupta de visitas, garantindo- municípios estudados e confirmada atenção básica. A troca de informa- se a continuidade do contato. A co- pelos profissionais das equipes. Um ções entre profissionais é essencial ordenação da atenção ao paciente terço ou mais dos profissionais de para que o generalista da ESF pos- pelo clínico geral proporciona me- nível superior das ESF informaram sa exercer sua função de coordena- lhor acompanhamento aos pacien- ‘nunca’ receber qualquer tipo de dor dos cuidados ao paciente. tes, especialmente aqueles portado- contra-referência, sequer verbal in- Segundo Starfield (2002), a es- res de doenças crônicas ou morbi- formada pelo paciente, em Palmas sência da coordenação é a disponi- dade múltipla, para o qual os siste- (44%), Brasília (39%) e Aracaju (32%). bilidade de informação acerca dos mas de atenção à saúde, em geral, A existência das centrais de mar- problemas prévios, o que implica em inclusive em outros países, estão cação contudo não é suficiente para prontuário de acompanhamento lon- ainda pouco preparados.2 o funcionamento efetivo de um sis- gitudinal (ao longo da vida) do pa- Em algumas das cidades estu- tema de referência e contra-referên- dadas, afora a criação de centrais cia. Embora tenha sido verificada a de regulação, os gestores iniciavam existência de centrais de marcação a construção de estratégias para em diversos municípios somente em Vitória da Conquista mais da metade dos profissionais de nível supe- E M ALGUMAS DAS CIDADES ESTUDADAS , AFORA A CRIAÇÃO DE CENTRAIS rior concordaram ‘muito’ que “A ESF DE REGULAÇÃO, OS GESTORES INICIAVAM conta com um sistema de referência A CONSTRUÇÃO DE ESTRATÉGIAS PARA e contra-referência que permite am- MELHORAR A REFERÊNCIA E A pliar a confiança no trabalho e a INTEGRAÇÃO DO SISTEMA resolutividade da rede básica.” melhorar a referência e a integração do sistema, tais como: estruturas gerenciais regionalizadas responsáveis pela integração dos serviços e dos equipamentos coletivos em cada área, a definição de serviços/profissionais específicos de referência para cada ESF, a participação dos Estes resultados indicam que um especialistas na supervisão clínica grande desafio do PSF e da atenção e na capacitação das ESF, a realiza- básica em geral é melhorar a comu- ção de interconsulta, além da defi- nicação entre profissionais da aten- ciente e no retorno do paciente ao nição de protocolos clínicos com o ção básica e especialistas e com os generalista após o encaminhamen- estabelecimento de fluxos e defini- serviços de pronto-atendimento e to para profissional especializado ção de responsabilidades. emergência. Os profissionais destes em apoio na elucidação diagnósti- A criação de estruturas geren- serviços têm formação, concepções ca ou sobre a decisão e manejo te- ciais regionalizadas e territórios cor- e experiências distintas e estabele- rapêutico. Para existir coordenação respondentes a partir de critérios cer melhor comunicação exige tam- do cuidado deve, portanto, ocorrer geográficos e administrativos (Cam- bém a ampliação da confiança dos a transferência de informações so- pinas, Camaragibe e Aracaju) teve profissionais da atenção secundária bre os problemas de saúde dos pa- como pressuposto que a melhora nos profissionais de atenção básica cientes e da atenção recebida de dos fluxos de referência e contra-re- A ausência de um profissional ou serviço que coordene a atenção do doente crônico e garanta atenção integrada não é um problema apenas do sistema público. É problema evidenciado também na assistência acessada por meio de seguros de saúde. 2 286 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 Porta de entrada pela atenção básica? Integração do PSF à rede de serviços de saúde ferência das ações de saúde poderia dados, as USF ainda não se torna- moradia (e não de trabalho), às di- ser propiciada por meio de comuni- ram a porta de entrada de um sis- ficuldades em garantir simultane- cação sistemática entre serviços tema de atenção à saúde integra- amente atendimento à demanda es- mediada pela gerência territorial e do, embora iniciativas de articula- pontânea e aos grupos não prioritá- a definição de serviços específicos ção estejam em curso. Os resulta- rios, e à implantação recente do ser- de referência para as unidades bá- dos sugerem que nas localidades viço. Os resultados indicam ser ne- sicas de cada território ou mesmo onde ocorreu substituição de rede cessário repensar horários de funci- de profissionais de referência para básica tradicional por saúde da fa- onamento das unidades e estabele- as ESF. Outras iniciativas buscaram mília há maior probabilidade da cer fluxos de informação e referên- ampliar a comunicação entre espe- ESF/USF constituir-se em fonte ha- cia entre os serviços de urgência/ cialistas e médicos do PSF por meio bitual de atenção (Aracaju, Palmas, pronto-atendimento e as ESF/USF. de estratégias de aproximação com Vitória). Nos municípios em que o A constituição da USF/unidade a participação dos especialistas na PSF foi implantado como programa, básica como porta de entrada do SUS supervisão clínica e/ou na discus- implica que a unidade básica seja são de temas clínicos com as ESF filtro e ponto de entrada do fluxo pela (Camaragibe), bem como a realiza- rede assistencial por meio de meca- ção de atividades de capacitação O CONJUNTO DE CRITÉRIOS ANALISADOS nismos de articulação da rede bási- Referência (Vitória da Conquista). EVIDENCIA QUE NA MAIOR PARTE DOS de. Contudo, o principal objetivo Outro mecanismo de regulação da MUNICÍPIOS ESTUDADOS, AS USF AINDA pelos especialistas dos Centros de atenção à saúde observado, que pode contribuir para a garantia de NÃO SE TORNARAM A PORTA DE ENTRADA ca aos outros níveis de complexidapara o SUS não deve ser o da instituição do clínico geral de atenção primária como gatekeeper, ou seja, retorno do paciente para continui- DE UM SISTEMA DE ATENÇÃO porta de entrada obrigatória que visa dade do cuidado na atenção básica À SAÚDE INTEGRADO o controle e minimização de referên- foi a definição de protocolos clíni- cias para especialistas com propó- cos com o estabelecimento de flu- sito de reduzir custos, como obser- xos para encaminhamentos aos es- vado nos esquemas de atenção ge- pecialistas e retornos, bem como observou-se atuação paralela à renciada (managed care). Nos es- para a solicitação de determinados atenção básica tradicional, a qual quemas de managed care estadu- procedimentos diagnósticos pelos também não funcionava como fil- nidenses, o profissional gatekeeper profissionais da rede básica (em ela- tro obrigatório para atenção espe- é cada vez mais utilizado para difi- boração em Aracaju). cializada que podia ser acessada di- cultar o uso de serviços especiali- retamente (Brasília, Goiânia). zados, o que pode ter como conse- 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A baixa proporção de procura da qüência a negação da atenção (STAR- USF frente a episódio de doença pode FIELD , Em síntese, o conjunto de crité- estar relacionada às barreiras de aces- barreira de acesso, a constituição do rios analisados evidencia que na so decorrentes de horários de fun- clínico geral da atenção básica (en- maior parte dos municípios estu- cionamento, adscrição ao local de tendido aqui de modo amplo, en- 3 2002. p. 221). Para além da Outra estratégia seria o atendimento pelo mesmo especialista em alguns dias da semana na própria USF (Campinas). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 287 GIOVANELLA, Lígia; ESCOREL, Sarah & MENDONÇA, Maria Helena M. de globando também pediatras e gine- considerado um primeiro indicador de da Família que necessita ser equa- cologistas) como porta de entrada de organização do sistema de aten- cionado. Estratégias de acolhimento no SUS tem por objetivo que esse ção. Com freqüência, o acesso ao podem propiciar a desejada articula- profissional se torne o coordenador nível secundário é tão difícil que as ção, reduzindo barreiras de acesso dos cuidados ao paciente, o condu- esperas nem são listadas. percebidas pelas famílias pesquisa- tor do paciente pelo emaranhado da Os resultados da pesquisa suge- das e contribuindo para o estabeleci- rede assistencial na busca da me- rem que a constituição da atenção mento da USF como porta de entra- lhor opção de assistência disponí- básica como porta de entrada do sis- da/serviço de primeiro contato regu- vel para cada tipo de necessidade. tema de saúde, possibilitando a con- lar. Uma adequada formação clínica O objetivo deve ser a assunção, pe- tinuidade do cuidado e garantindo dos médicos da atenção básica e a los serviços de atenção básica, da acesso à atenção adequada, depen- melhor distribuição de responsabili- responsabilidade pela garantia de da criação de mecanismos de in- dades entre médicos e enfermeiras da saúde e da atenção integral de tegração do sistema, do aumento da são também aspectos essenciais para sua população adscrita. esta articulação, recuperando o lu- Ao objetivo de conformação de gar da clínica na atenção primária uma porta de entrada no SUS deve se integrar cuidados básicos e especializados, facilitando o acesso e melhorando a qualidade da atenção. (FRANCO; MERHY, 1999). A REFERÊNCIA AO ESPECIALISTA DEVE SER RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DO CLÍNICO É necessário redefinir os papéis das outras especialidades básicas (pediatria, gineco-obstetrícia). Nas gran- No caso do SUS, significa que a re- DE ATENÇÃO BÁSICA E O AGENDAMENTO E des cidades, estes profissionais já es- ferência ao especialista deve ser res- A GARANTIA DA REALIZAÇÃO DA CONSULTA tão disponíveis na rede básica e po- ponsabilidade exclusiva do clínico de atenção básica e o agendamento PRESCRITA DEVEM SER RESPONSABILIDADES e a garantia da realização da con- DA UNIDADE DE ATENÇÃO BÁSICA dem ocupar o papel de gatekeeper paralelamente ao generalista, ou poderão ser qualificados para atuar sulta prescrita devem ser responsa- como referência em atividades de su- bilidades da unidade de atenção pervisão. A criação de um segundo básica/USF. Em um primeiro mo- nível de complexidade da atenção mento, dada a demanda reprimida, resolutividade da unidade básica e básica constituído por especialistas provavelmente implicará na forma- da melhor articulação com a presta- nas clínicas básicas e outras selecio- ção de filas de espera e incorrerá na ção de ações com enfoque coletivo e nadas conforme o perfil local de ne- necessidade de maiores investimen- das atividades clínicas individuais. cessidades pode ser uma alternativa. tos de atenção secundária. Filas de A mudança no modelo assisten- O aumento da resolutividade dos ca- espera certamente são indesejáveis, cial pretendida pelo PSF, centrada em sos possibilitaria a interconsulta e e sua redução tem sido o alvo de programação de atividades para gru- promoveria a constituição da USF recentes reformas de saúde, como pos de risco e na oferta organizada, como porta de entrada e a integração por exemplo no Reino Unido, contu- confronta-se com as demandas indi- da rede de serviços de saúde. No caso do, na realidade brasileira a exis- viduais por assistência. A adequa- de conversão de grandes unidades bá- tência de filas de espera organiza- ção entre respostas às necessidades sicas preexistentes em locais com ele- das com identificação dos tempos de individuais e coletivas é um impor- vada densidade demográfica, esse espera, paradoxalmente, pode ser tante ‘nó’ crítico da estratégia de Saú- segundo nível poderia ser instalado 288 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 Porta de entrada pela atenção básica? Integração do PSF à rede de serviços de saúde na mesma unidade de saúde com as A constituição de um sistema in- ESF. Para algumas doenças crônicas tegrado de serviços de saúde exige específicas, a exemplo dos serviços de investimentos nos demais níveis de saúde mental, poderiam ser criados complexidade. Parte das dificulda- serviços de atenção integral que in- des evidenciadas para referência es- corporassem em uma mesma unida- teve condicionada pela insuficiên- de diversos níveis de complexidade. cia de oferta para algumas especia- Simultaneamente à qualificação lidades e de disponibilidade finan- dos clínicos, a resolutividade da uni- ceira, contudo, a diversidade de re- dade básica deve ser ainda amplia- sultados dos casos analisados su- da por meio da oferta de atendimen- gerem leque de opções gerenciais e tos de urgência de baixa complexi- organizacionais nos limites de go- dade e pela realização de coleta de vernabilidade dos gestores locais material para exames de patologia para maior integração. Diversas clínica na unidade. Outra medida destas alternativas podem ser in- imprescindível, como acima menci- centivadas pelo governo federal, onada, é a implantação de mecanis- permitindo-se escolhas locais. ma destinado à mudança do modelo tecno-assistencial. (mimeo.), 1999. G IOVANELLA, Ligia; FLEURY, Sonia. Universalidade da atenção à saúde: acesso como categoria de análise. In: EIBENSCHUTZ , Catalina (Org.). Política de Saúde: o público e privado. Rio de Janeiro: Editora F IOCRUZ, 1996, p.177-198. S TARFIELD, Bárbara. 2002. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília, DF: UNESCO/MS, 2002. mos que garantam a contra-referência para a unidade básica/ESF tam- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS bém dos serviços de emergência e pronto-atendimento que em grandes BOWLING, A.; REDFEERN, J. The process of cidades deveriam ser distribuídos re- outpatient referral and care: the gionalmente, facilitando o acesso. A experiences and views of patients, their implantação do cartão do usuário general practitioners and specialists. do SUS é um possível instrumento British Journal General Practice v. 50, para esta articulação. n. 451, 2000. p. 116-20. A efetivação de porta de entrada no SUS certamente implica na inscrição de cada usuário em uma unidade de saúde. Além da adscrição territorial de clientela por local de moradia podem ser estudadas outras formas de vinculação dos usu- D ELNOIJ, D.; VAN MERODE, G.; P AULUS, A.; GROENEWEGEN , P. Does general practitioner gatekeeping curb health care expenditure? Journal of Health Service Research and Policy, v. 5, n. 1, 2000. p. 22-26. ários às unidades básicas de saúde. ESCOREL, Sarah et al. Avaliação da im- A adscrição domiciliar isolada difi- plementação do programa Saúde da culta a provisão de assistência para Família em dez grandes centros urba- trabalhadores e trabalhadoras. É imprescindível estudar a possibilida- nos: síntese dos principais resultados. Brasília, DF: MS/SPS/DAB, 2002. de de inscrição individual em USF FRANCO , Túlio Batista; MERHY, Emerson próxima aos locais de trabalho. Elias. PSF: Contradições de um progra- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 278-289, set./dez. 2003 289 SILVA, João Paulo Lyra da & TAVARES, Cláudia Mara de Melo ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Educação permanente de profissionais de saúde mental: competências para o trabalho interdisciplinar Permanent education of mental health professionals: competencies for interdisciplinary work João Paulo Lyra da Silva 1 Cláudia Mara de Melo Tavares 2 RESUMO Discutem-se algumas habilidades que envolvem a educação permanente interdisciplinar de profissionais de saúde mental. Contextualizado o problema na perspectiva do Sistema Único de Saúde (SUS), fala-se sobre a educação permanente na construção de competências para o trabalho em saúde. Trabalha-se o conceito de interdisciplinaridade no projeto de atenção psicossocial. Conclui-se que no confronto dos problemas cotidianos, o reconhecimento da diversidade dos sujeitos e o compartilhamento do poder são os principais desafios para a formação permanente de profissionais de saúde mental e podem ter seu enfrentamento facilitado pelo desenvolvimento e reforço das habilidades de raciocínio indutivo e inteligência associativa. DESCRITORES: Reabilitação; Centros de Reabilitação; Relações Interprofissionais. Médico psiquiatra, mestre em saúde pública, pesquisador convidado do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental (L APS ) da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Rua Alice, 1.950 CEP 22.241-020 – Rio de Janeiro – RJ E-mail: [email protected] 1 Enfermeira psiquiátrica, doutora em enfermagem, professora titular da Escola de Enfermagem da Universidade Federal Fluminense (UFF) Rua Tavares de Macedo, 20, A/1104 CEP 24230-211 – Niterói – RJ E-mail: [email protected] 2 ABSTRACT The goal of this paper is to discuss some abilities in the setting of a interdisciplinary permanent education of mental health professionals. The problem is contextualized in the SUS perspective; permanent education as a tool to build competencies for health work and the interdisciplinary concept of the psychosocial attention project are explained. The conclusion is that when facing everyday problems, the recognition of subjects diversity and participation are the main challenges to the permanent formation of mental health professionals and can be facilitated by the development and reinforcement of inductive thinking abilities and associative intelligence. DESCRIPTORS: Rehabilitation; Rehabilitation Centers; Interprofessional Relations. 290 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 Educação permanente de profissionais de saúde mental: competências para o trabalho interdisciplinar INTRODUÇÃO científicos e se afirmam novas tec- ventivas, sem prejuízo dos serviços nologias assistenciais. assistenciais, ser organizado com As mudanças no modo de pro- No campo da saúde mental o participação da comunidade e ter duzir capitalista têm resultado em processo de Reforma Psiquiátrica financiamento público. As leis orgâ- fortes impactos sobre a força de tra- questiona a função de saberes psi- nicas da saúde, complementares à balho. Do fordismo à acumulação quiátricos, ao mesmo tempo em que Constituição, determinam a existên- flexível, o trabalhador passa da rea- a assistência tende a mudar do ser- cia de instâncias colegiadas paritá- lização de uma única tarefa à mul- viço hospitalar para os cuidados no rias, com representação do poder tiplicidade delas. Passa do pagamen- território (A MARANTE , 1998). Territó- público, de técnicos e da comunida- to com base na definição ‘oficial’ do rio onde uma convivencialidade dos de na direção do Sistema: os conse- emprego ao pagamento por um sis- técnicos com a vida local (local que lhos – permanentes e renováveis – e tema detalhado de bonificações. De é muito mais do que o espaço físico as conferências, periódicas. um alto grau de especialização de da unidade e sua circunvizinhança) Para a articulação entre os ges- tarefas para a eliminação da demar- tores dos três níveis de governo – cação das mesmas. De pouco ou municipal, estadual e federal – na nenhum a um longo treinamento no negociação, regulamentação e ope- trabalho. De uma organização ver- racionalização das políticas de saú- tical no trabalho a uma mais horizontal. De nenhuma experiência na aprendizagem à aprendizagem no O SUS VEM ADQUIRINDO de no âmbito da gestão do SUS foi UM PAPEL ATIVO NA REORIENTAÇÃO trabalho. Do disciplinamento da for- DAS ESTRATÉGIAS E DOS MODOS ça de trabalho com ênfase na redu- DE CUIDAR, TRATAR E ACOMPANHAR ção da responsabilidade do trabalhador à ênfase na co-responsabili- A SAÚDE INDIVIDUAL E COLETIVA instituída, por Resolução do Conselho Nacional de Saúde, uma Comissão Intergestores Tripartite (CIT). Em reunião realizada em 18 de setembro de 2003, a CIT aprovou documento sobre política de educa- dade do trabalhador. De nenhuma ção e desenvolvimento para o SUS, segurança no trabalho à grande segu- apontando caminhos para a educa- rança no emprego para os trabalha- ção permanente em saúde por meio dores centrais – quase como se ele é transformada em epicentro da as- da criação de pólos de educação per- fosse perpétuo – e nenhuma se- sistência. Tais mudanças demandam manente em saúde (BRASIL, 2003). gurança no trabalho e condições necessárias reformulações no prepa- ruins para trabalhadores temporá- ro de profissionais de saúde. rios (AZEVEDO, 1998). Nesse documento, lê-se que o SUS vem adquirindo um papel ati- A Constituição Federal de 1988, vo na reorientação das estratégias e Essas mudanças no contexto so- ao falar da saúde no capítulo da dos modos de cuidar, tratar e acom- cial atual por si sós já indicam a Seguridade Social, consagrou o Sis- panhar a saúde individual e coleti- necessidade de mudança no modo tema Único de Saúde (SUS) como va, tendo sido capaz de provocar de formação dos profissionais de instância deliberativa. Esse sistema importantes repercussões nas estra- saúde. No entanto, além delas e da descentralizado, com direção única tégias e nos modos de ensinar e conseqüente resistência a elas, vi- em cada esfera de governo, deve aprender, por intermédio de diver- vemos um momento em que se en- prover atendimento integral, com sos programas. Mas, lá está ainda. contram em cheque os paradigmas prioridade para as atividades pre- Só recentemente o Ministério da Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 291 SILVA, João Paulo Lyra da & TAVARES, Cláudia Mara de Melo Saúde assumiu a formulação das ensino, organizações dos movimen- prevenção de danos. No entanto, a políticas orientadoras da formação, tos sociais e outras entidades. fundamentação teórico-metodológi- do desenvolvimento, da distribui- Assim, o fortalecimento do SUS ca e a prática docente ainda são for- ção, da regulação e da gestão dos desafia o aparato formador a melhor temente influenciadas por aborda- trabalhadores de saúde no Brasil, contribuir na reforma do ensino e das gens tradicionais de ensino-aprendi- tendo para isso criado uma secre- práticas na área da saúde. Não é zagem, o que torna urgente a neces- taria específica, a Secretaria de Ges- mais possível que as universidades sidade de se equacionar o treinamen- tão do Trabalho e da Educação na formem profissionais distantes da to, a capacitação docente e o desen- Saúde – com atribuições, entre ou- realidade dos serviços públicos de volvimento de pesquisas que sus- tras, de propor e formular políti- saúde. Impõe-se como desafio que o tentem novas práticas. cas relativas à formação, ao de- sistema formador incorpore o mun- Já no serviço, como antes expos- senvolvimento e à educação per- do do trabalho como eixo produtor to, a reorientação da política de re- manente dos trabalhadores de saú- de conhecimentos e definidor de de- cursos humanos no atual sistema de em todos os níveis de escolari- de saúde aponta para a necessida- dade; capacitar profissionais de de de qualificação de profissionais outras áreas, dos movimentos so- frente às ações concretas do mun- ciais e da população para favorecer a articulação intersetorial, incentivar a participação e o contro- AS REFORMAS EDUCACIONAIS NO BRASIL, COMO EM DIVERSOS PAÍSES , EVIDENCIAM A le social no setor da saúde; e inte- BUSCA DE FORMALIZAÇÃO DE UMA PEDAGOGIA ragir com a escola básica no to- DAS COMPETÊNCIAS, A FIM DE SUPERAR cante aos conhecimentos envolvendo saúde para a formação da cons- O ENFOQUE DESCONTEXTUALIZADO E DISCIPLINAR DO ENSINO ciência sanitária. do do trabalho. As reformas educacionais no Brasil, como em diversos países, evidenciam a busca de formalização de uma pedagogia das competências, a fim de superar o enfoque descontextualizado e disciplinar do ensino, com base na transmissão de co- Os três eixos fundamentais defi- nhecimentos específicos. A prepara- nidos para tais ações são: a relação ção do trabalhador, segundo Ramos entre educação e trabalho; a mudan- (2001), passou a exigir processos ça nas políticas de formação e nas mandas educacionais, de modo que educativos mais amplos e problema- práticas de saúde; e a produção e as experiências do trabalho passem tizadores, que visem o desenvolvi- disseminação de conhecimento. Pro- a ser o ponto de partida para a análi- mento de conhecimentos de caráter põe-se, então, neste documento, a se crítica e a tomada de decisões em global, indo além da aquisição for- adoção da educação permanente saúde (CARVALHO; MOTTA, 2003). mal de conhecimentos acadêmicos, como a estratégia fundamental para A estratégia tradicional de for- construindo saberes a partir das a recomposição das práticas de for- mação universitária, intramuros, experiências vividas no trabalho, na mação, atenção, gestão, formulação centrada na doença e nas ciências escola e na vida. de políticas e controle social no se- básicas, precisa ser transposta, bus- Deluiz (2001) destaca a impor- tor da saúde, tendo como estratégia cando-se na rede de serviços públi- tância de ampliar a qualificação operacional a cooperação técnica, cos novos espaços para a formação dos trabalhadores em saúde, tanto financeira e operacional com os es- profissional, valorizando-se os as- na dimensão técnica especializada, tados e municípios, instituições de pectos de promoção da saúde e de quanto na dimensão ético-política, 292 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 Educação permanente de profissionais de saúde mental: competências para o trabalho interdisciplinar comunicacional e de inter-relações servadas na realidade, na convivên- No desenvolvimento da inteli- pessoais, para que eles possam cia, desencadeando um processo de gência fluida, em processos educa- participar como sujeitos integrais ação-reflexão-ação e a construção de tivos mais amplos e problematiza- no mundo do trabalho, o que re- uma prática interdisciplinar. dores, de ação-reflexão-ação, e na força a necessidade de modelos de A partir de Primi e colaboradores construção de uma prática interdis- formação baseados em competên- (2001), podemos observar, no que se ciplinar estaria a possibilidade de cias profissionais. refere aos processos cognitivos, a se melhor utilizar o raciocínio in- Trabalharemos, aqui, com a no- distinção entre uma inteligência cris- dutivo. A inteligência associativa ção de que competência é um con- talizada, a qual prioriza o conheci- seria um dos aspectos da inteligên- junto de conhecimentos ou saberes; mento, e uma inteligência fluida, cia fluida, chave para a incorpora- habilidades, mais que o reflexo da a qual prioriza o processamento des- ção da interdisciplinaridade. simples atuação física, são consi- ses conhecimentos. A primeira é mais deradas noções inerentes à prática ligada à informação ou ao acervo de ASPECTOS CRÍTICOS DA FORMAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE MENTAL do trabalho; e atitudes são noções relativas à sabedoria da pessoa, feição intrínseca a um trabalho ético e de qualidade, realizado por meio da Vivemos hoje um processo de es- cooperação, solidariedade e partici- A INTELIGÊNCIA ASSOCIATIVA gotamento de um caminho e de bus- pação na tomada de decisões. As SERIA UM DOS ASPECTOS DA ca de alternativas. Evitando-se a ado- competências sempre se manifestam por comportamentos observáveis, e INTELIGÊNCIA FLUIDA, CHAVE trazem implícitos os conhecimentos PARA A INCORPORAÇÃO DA tecnológicos, as bases científicas e instrumentais dessas tecnologias e ção de um modelo de formação, são muitos os movimentos e processos de mudança e as experiências em andamento, com vista à construção INTERDISCIPLINARIDADE de uma educação crítica. as atitudes e valores inerentes à Novas tecnologias de informação realização do trabalho. e comunicação e rápidas mudanças No campo da formação perma- no conhecimento impõem os concei- nente em saúde mental, destaca-se conhecimentos. A segunda, a seu pro- tos de rede, integração e educação que treinamento em habilidades per- cessamento como o de relacionar permanente ao ambiente de flexibi- ceptivas como raciocínio indutivo e idéias complexas, formar conceitos lidade. Os mecanismos de educação inteligência associativa, em um am- abstratos e deduzir, ou devem ser condizentes com tais biente multidisciplinar (BUGGE et al., 1999), associados a uma adequada apropriação do conceito de interdisciplinaridade devem estar no centro da formação profissional na perspectiva territorial ou comunitária. O processo seria desenvolver-se a capacidade de construir conhecimentos novos por meio de situações ob- às operações mentais realizadas quando se resolvem problemas relativamente novos, para os quais existem poucos conhecimentos previamente memorizados. Esta capacidade implica na criação de estratégias a partir da organização das informações disponíveis na situação e da reorganização de esquemas disponíveis em nosso estoque de conhecimentos transformações. Considerando essa pretensão, é fundamental o desenvolvimento de uma visão sistêmica da formação, mediada por uma prática integradora, que busque aproximação e interação entre diferentes áreas de conhecimentos, projetos, atores e segmentos sociais. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 293 SILVA, João Paulo Lyra da & TAVARES, Cláudia Mara de Melo A formação do profissional de saú- Surgem assim novas tendências cias. Tomando-se como parâmetro de tem sido amplamente debatida no em relação ao trabalho em saúde a Resolução n.4, de 8/12/1999, cita- cenário nacional e muitos problemas mental, este se torna mais interdis- da por Deluiz (2001), destacamos já foram identificados, entre os quais ciplinar, indeterminado, complexo, como competências necessárias nes- destaca-se o distanciamento da apren- flexibilizado, crítico, singular e se campo profissional: competênci- dizagem do contexto social, estando criativo. O profissional de saúde as comunicativas – capacidade de sempre presentes nesses debates a mental estabelece relações com ou- expressão e comunicação, desenvol- necessidade imperiosa de se construir tras práticas sociais, num processo vendo a prática do diálogo, o exer- esquemas integralizadores e de linhas de interdisciplinaridade e interseto- cício da negociação e a comunica- de ação compatíveis com a realidade rialidade com o propósito de alcan- ção interpessoal; competências pes- de saúde do país. çar a integralidade do cuidado em soais – capacidade de assumir a res- É preciso considerar que proces- saúde. A natureza deste trabalho re- ponsabilidade sobre o trabalho, de sos profundos de mudança na for- veste-se de imprevisibilidade, em tomar a iniciativa, de aprender, de 1 mação educacional são complexos. ter abertura às mudanças, de desen- Envolvem mudanças de conceitos, de volver auto-estima; competências de postura, de lugares e de relações ins- cuidado – capacidade de interagir titucionais, levando ao enfrentamen- com o paciente levando em conside- É PRECISO CONSIDERAR to de conhecimentos e valores cristalizados, hegemônicos, para a cons- QUE PROCESSOS PROFUNDOS trução de alternativas que não estão ração suas necessidades e escolhas, valorizando a autonomia que este tem para assumir sua própria saú- dadas. São processos que implicam DE MUDANÇA NA FORMAÇÃO de, a partir da concepção de saúde conflitos, pressões e confrontações EDUCACIONAL SÃO COMPLEXOS. como qualidade de vida; competên- permanentes e que estão sob risco o tempo todo (FEUERWERKER, 2002). cias sociopolíticas – capacidade de refletir sobre a esfera do mundo do Na área de saúde mental, a Re- trabalho, de ter consciência da qua- forma Psiquiátrica apontou a neces- lidade e das implicações éticas do seu sidade de mudança na formação trabalho, de ter autonomia de ação e profissional, colocando o próprio que o trabalhador não só tem que compromisso social, e de desenvol- campo de saber psiquiátrico em fazer escolhas, mas criar soluções ver o exercício da cidadania. questão e lançando o desafio pro- individuais ou coletivas para enfren- É importante ressaltar que, no fissional de repensar as relações tar problemas postos pelo cotidiano caso da saúde mental, tais compe- entre conhecimento e objeto, sem da atenção psicossocial, ampliando- tências estão sendo desenvolvidas deixar de alertar para a complexi- se as operações mentais e cogniti- nos novos serviços de atenção psi- dade dessa relação, problematizan- vas envolvidas nas atividades. cossocial, servindo como parâmetro do a própria naturalização da noção de doença (A MARANTE, 2003). Para tanto é necessário desenvol- de ajuste da lógica de formação, ou ver diferentes níveis de competên- seja, não são meras conjecturas teó- Intersetorialidade é aqui entendida como a possibilidade de integração e de trabalho conjunto de diversos setores de um organismo, ou de vários organismos, de modo que possam funcionar em sinergia na gestão pública de um território bem definido, agindo sobre a realidade sob a lógica de problemas prioritários, definidos de forma democrática (REDE UNIDA, 2002). 1 294 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 Educação permanente de profissionais de saúde mental: competências para o trabalho interdisciplinar ricas, mas valores práticos. Como res da coletividade, movimentos com outras instituições de saúde, em muitas experiências de transfor- sociais, instituições, e ações cons- educacionais, jurídicas, assistenci- mação do processo de formação pro- truídas junto com os usuários em ais. A idéia é de que a assistência fissional permanente, a participação sua condição de sujeitos, seja en- vá ao encontro da existência que dos atores dos serviços, da comuni- quanto indivíduos, grupos, famílias, sofre, a fim de criar momentos e dade e da academia na definição de casais, instituições, ou movimentos espaços de garantia para a produ- novos saberes e habilidades a serem sociais, e na forma – momento ou ção de vida. desenvolvidos pelo profissional tem espaço – como possam produzir in- Nesses espaços de práticas, vá- sido essencial para que se revelem terlocução na assistência e com a rios projetos encontraram nas me- novas competências e para que no- mesma. Uma reformulação de con- todologias baseadas na concepção vas práticas (para responder aos ceitos que exige do serviço a possi- pedagógica crítico-reflexiva, especi- novos problemas) sejam construí- bilidade de arquitetar intervenções almente a problematização, um ins- das. E essas novas práticas inclu- técnicas múltiplas e variadas – como trumental adequado para articular em uma nova tecnologia no plane- a ação dos diferentes atores sobre jamento e na construção de conhe- os problemas da realidade. cimentos e objetivos educacionais, Trabalhar levando-se em conta os agora não mais como objeto exclu- problemas ou a problematização sivo da prática acadêmica. Segundo Vaz (1999), o atual modelo de formação das escolas médi- TRABALHAR LEVANDO-SE EM CONTA OS PROBLEMAS OU A PROBLEMATIZAÇÃO TEM cas não corresponde às necessida- OCASIONADO A BUSCA DE CAMINHOS QUE des colocadas pelos pacientes, pres- VIABILIZAM A ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR supondo-se que a principal qualidade dos profissionais deveria ser tem ocasionado a busca de caminhos que viabilizam a abordagem interdisciplinar das questões levantadas. Trabalhar sobre problemas também tem aberto espaço para tratar de maneira mais integral temas DAS QUESTÕES LEVANTADAS e conteúdos, aumentando a chance medida pela sua capacidade de re- de escapar das concepções reducio- solver problemas de saúde, o que nistas (LÜCK , 1994), biologicistas, requereria sua competência para psicologizantes ou sociológicas. realizar uma clínica ampliada. psicoterapias, processos de análise Ao desenvolver a formação pro- Compreendemos o conceito de de demandas, oficinas de expressão fissional nos serviços de saúde men- Clínica Ampliada como uma refor- e/ ou produção de potencialidades tal da rede pública de atenção, am- mulação de concepções tradicionais corporais, plásticas, musicais, ori- pliam-se as alianças estratégicas sobre a atenção e seu objeto (R OTE- entação vocacional, atendimento entre serviço-universidade para o LLI , 1990; DELL ’ACQUA; MEZZINA, 1991; psicopedagógico, atendimento psico- desenvolvimento de um trabalho G OLGBERG, 1994; AMARANTE, 2003; CAM- farmacoterapêutico, acompanha- integrado, fortalecendo e amplian- POS , 2003), como um trabalho na mentos terapêuticos, atendimentos do conhecimentos e seu espaço de invenção de dispositivos de ação e em torno de temáticas específicas atuação. A troca permanente de in- intervenção para além das técnicas como violência doméstica, adoção, formações e experiências na área de ou das atividades terapêuticas psico-oncologia, adolescência, ter- formação e o aprimoramento de re- stricto sensu, como uma clínica de ceira idade, violência instituciona- cursos humanos para o setor saúde ações elaboradas em grupos, seto- lizada – articuladas em parcerias são ativadas por meio de um ensi- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 295 SILVA, João Paulo Lyra da & TAVARES, Cláudia Mara de Melo no baseado na construção compar- tos, métodos e esquemas concei- plinaridade), passando pela prepon- tilhada do conhecimento. tuais podem vir a ser integrados. derância de uma delas sobre as de- Almeida Filho (1997) apresenta mais com ou sem uma axiomática um esquema conceitual que trans- comum (denominadas respectiva- cende à questão disciplinar. Para ele, mente como interdisciplinaridade há a multidisciplinaridade, um con- estrutural ou auxiliar). E a trans- A evocação do trabalho interdis- junto de disciplinas que se agrupam disciplinaridade corresponderia a ciplinar é antiga, contudo sua ado- em torno de um dado tema, desen- uma radicalização da interdiscipli- ção ainda se faz, e cada vez mais, volvendo investigações e análises naridade, pela articulação de um necessária no campo da atenção à isoladas por diferentes especialistas, amplo conjunto de disciplinas em saúde mental, tendo em vista a com- sem que se estabeleçam relações torno de um campo teórico e opera- conceituais ou metodológicas entre cional particular, sobre a base de elas. Corresponde à estratégia mais uma axiomática comum e envolven- A FORMAÇÃO DE PROFISSIONAL EM SAÚDE E A INTERDISCIPLINARIDADE plexidade do processo do adoecer humano e a ampliação do seu cam- do um sistema de disciplinas arti- po de interdependência. O mundo não culadas em diferentes níveis, cuja é feito de coisas isoladas, existe uma coordenação se daria pelas finalida- complementariedade de dimensões. O MUNDO NÃO É A compreensão desse mundo exige uma visão da realidade que transcenda os limites disciplinares. Japiassu (1976) define a disciplinaridade como um conjunto sistemático e organizado de conhecimen- vimento de teorias e conceitos trans- ISOLADAS, EXISTE UMA disciplinares, cuja aplicação é com- COMPLEMENTARIEDADE e abordagens que atuam num cam- distintas áreas de ensino, método po teórico e operacional. Interdisciplinaridade, portanto, é cias, à produção do conhecimento e vos conhecimentos que substituem disciplinaridade busca a superação partilhada por diferentes disciplinas um conceito que se aplica às ciên- etc., cuja exploração conduz a noos antigos. Para este autor, a inter- de integração possibilita o desenvol- FEITO DE COISAS DE DIMENSÕES tos com características próprias nas des e axiomática comuns. Esse tipo ao ensino. Se as pesquisas, para prolimitada, pois continuam a se re- duzirem as respostas necessárias, produzir práticas fragmentadas da têm de ser construídas interdiscipli- das fronteiras disciplinares. Poden- ciência normal, ainda que se avan- narmente, o mesmo deve se aplicar do-se construí-la pela definição do ce na incorporação de múltiplas di- ao processo de ensino-aprendizagem. que as disciplinas científicas têm em mensões de um problema. A inter- Como afirma Nunes (2002), a in- comum em níveis de integração mais disciplinaridade seria a reunião de terdisciplinaridade é um projeto que profundos, seja pela unificação ou diferentes disciplinas articuladas em atravessa indistintamente todas as síntese de conhecimentos científicos torno de uma mesma temática com áreas do conhecimento, em especial ou pelo estabelecimento de uma lin- diferentes níveis de integração, des- a área de saúde. Havendo nas práti- guagem interdisciplinar consensual- de uma cooperação de complemen- cas interdisciplinares um espaço mente construída entre os cientistas. taridade sem articulações axiomá- privilegiado para repensar teorias, Observa-se uma troca profunda en- ticas ou preponderância de uma dis- inovar as formas de pensar a saú- tre disciplinas, em que os instrumen- ciplina sobre as demais (pluridisci- de, a doença e a prestação de servi- 296 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 Educação permanente de profissionais de saúde mental: competências para o trabalho interdisciplinar ços e se concretizar num movimen- Cada vez mais se diferencia e fica diluída, uma vez que as especi- to que aglutine o saber e os sujeitos amplia o campo de saber em saúde ficidades profissionais não são ‘iden- desse saber. mental. O fazer profissional deman- tidades’ a serem defendidas, mas ins- No campo da saúde mental, a da conhecimentos diversos que, sob trumentos de ação que se transfor- interdisciplinaridade coloca-se como distintas perspectivas, coexistem, na mam a partir do agir cotidiano, de um desafio prático frente à gama de busca de integrar o homem em suas novos conhecimentos e das intera- corporações profissionais envolvi- várias dimensões como, por exem- ções sociais (O LIVEIRA; S ILVA, 2000). das no desenvolvimento de ações de plo, biológica, política, social, fi- Busca-se na prática em saúde atenção psicossocial. A experiência losófica, religiosa. A razão, a emo- mental a superação das fronteiras de integração entre diversos profis- ção, a quantidade, a qualidade, o disciplinares, através da definição do sionais permite o exercício do pen- técnico, o ético, o estético, o econô- que as diferentes profissões têm em samento complexo, capaz de susten- mico, o político, o cultural e o cien- comum em níveis de integração mais tar epistemologicamente o novo pa- tífico convivem como saberes que profundos, através da unificação ou radigma da atenção psicossocial. De síntese de conhecimentos científicos modo que a complexidade e a refor- ou do estabelecimento de uma nova ma do pensamento são elementos linguagem consensualmente cons- constitutivos da formação do futu- truída entre os profissionais. ro profissional de saúde. O projeto de atenção psicossocial incorpora a interdisciplinarida- NA PRÁTICA INTERDISCIPLINAR EM SAÚDE MENTAL, CADA de como exigência do cuidado, o PROFISSIONAL DESENVOLVE SUA qual enfoca a pessoa em sofrimen- AÇÃO E SABER COMPARTILHADOS to, nossa vida e fragilidade, enfim. Está em pauta a necessidade de FORMAR, NA PERSPECTIVA DA ATENÇÃO PSICOSSOCIAL O fracasso de experiências de Reforma Psiquiátrica, nas quais criou- COM OUTROS PROFISSIONAIS se um grande número de serviços al- construir vínculos, de acolher o so- ternativos ao hospital, se deveu ao fato frimento, de construir uma prática de esses serviços não terem sido em- criativa, solidária e saber transitar basados em profundo desmonte de por um conhecimento ecocêntrico, se diferenciam. Diferenciam-se, mas valores inerentes aos procedimentos, complexo, multidimensional, que se inter-relacionam na tentativa de idéias e protocolos de ação, metas e privilegie o intercâmbio entre vida apontar caminhos que possibilitem métodos, estilos do trabalho dos pro- e idéias (O LIVEIRA; SILVA , 2000). a compreensão do sujeito em sofri- fissionais; não terem representado mento psíquico e, sobretudo, o res- uma inserção em novas práticas peito à sua dignidade. discursivas que incluam uma con- A possibilidade de uma compreensão integral do ser humano e do processo saúde-doença e a comple- Na prática interdisciplinar em tratualidade social, legal e existenci- xidade do objeto de trabalho em saú- saúde mental, cada profissional de- al dos usuários totalmente diferente de mental passa necessariamente senvolve sua ação e saber comparti- da antes existente, e uma ética de res- por uma abordagem interdisciplinar, lhados com outros profissionais, sen- ponsabilização por parte dos profis- que implique na demolição das fron- do todos autores e atores de um pro- sionais que tivesse excluído o redu- teiras entre as diferentes disciplinas jeto coletivo. Neste tipo de trabalho, cionismo biológico, psicológico e so- e modos de abordagens. a competência de cada profissional ciológico do problema (ROTELLI, 1993). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 297 SILVA, João Paulo Lyra da & TAVARES, Cláudia Mara de Melo As duas primeiras Conferências tratado. A permanência desses lei- suporte; e a efetiva participação na Nacionais de Saúde Mental apontam tos e a implantação dos serviços vida pública. para um modo psicossocial de aten- ditos substitutivos não impediam a Propuseram-se projetos e ações, ção a ser alcançado, que combina- existência de camadas significativas tais como bolsas para as pessoas ria quatro parâmetros (COSTA-R OSA; da população sem acesso à atenção desinstitucionalizadas de longo tem- LUZIO ; YASSUI, 2001): implicação sub- psiquiátrica e em saúde mental, sen- po de internação; acesso efetivo às jetiva do usuário; horizontalização do que muitas pessoas com trans- iniciativas educacionais e culturais das formas de organização das re- tornos mentais se encontravam em e programas de formação e capaci- lações intra-institucionais; integra- graves situações de abandono ou, tação para o trabalho. lização das ações no território e su- ainda, em situações de instituciona- Avaliou-se que no panorama da peração da ética da adaptação. Tal lização nas próprias casas. Mas reforma psiquiátrica, apesar de modo seria exeqüível nos dispositi- garantia, auxiliada pela ausência ou muitas iniciativas existentes, o mo- vos construídos pelas práticas de fragilidade de laços sociais e pela delo tradicional permanecia hege- atenção psicossocial (COSTA-ROSA ; mônico, situação que podia ser ex- LUZIO ; YASSUI, 2001). pressa fosse pela capacidade insta- Na III Conferência Nacional de lada, ou quando se verificava o to- CONSTATOU- SE A Saúde Mental, em dezembro de 2001, o debate principal se deu em torno NECESSIDADE DE do eixo temático de reorientação do tal de gastos com transtornos mentais na rede hospitalar. Tal realidade estava em dissonância com as ne- Modelo Assistencial. Foram indica- REDIRECIONAMENTO DE cessidades da demanda, as diversas dos como subtemas: recursos huma- RECURSOS PARA A experiências municipais já desenvol- nos, financiamento, controle social IMPLEMENTAÇÃO DE REDES e direitos e acesso à cidadania. Enumeramos, a seguir, os pon- MUNICIPAIS DE ATENÇÃO tos de partida para as discussões: vidas que demonstraram a viabilidade de outra forma de atenção, da ampliação do movimento social, do arcabouço legal das leis estaduais Entendeu-se a Reforma Psiquiá- e municipais e da promulgação da trica como transformação em políti- Lei 10.216, de 6 de abril de 2001. ca pública comprometida com a me- ausência ou insuficiência de proces- Havia necessidade de aprofundar di- lhoria das condições de vida; a ga- sos de reabilitação psicossocial, a versas temáticas neste tópico, como, rantia de direitos de cidadania; a re- presença de mais de 20.000 pesso- por exemplo, a atenção às pessoas dução das desigualdades sociais e o as institucionalizadas há mais de envolvidas com abuso ou dependên- enfrentamento da exclusão social. um ano, à época, no país. cia de substâncias psicoativas, a Reconheceu-se que, embora ve- Constatou-se a necessidade de atenção à população em situação de nha se delineando uma tendência à redirecionamento de recursos para rua, a atenção à criança e ao ado- redução no número de leitos e de a implementação de redes munici- lescente e aos idosos. hospitais psiquiátricos, permane- pais de atenção, assim como de pro- Afirmou-se a meta de transfor- ciam, no final de 2001, mais de jetos e ações que viabilizassem: o mar o modelo atual, consolidando 61.000 leitos em 260 hospitais psi- fortalecimento do poder contratual a implementação, no contexto do quiátricos no país – 80% destes lei- dos usuários; o acesso aos direitos; SUS, de um modelo de atenção em tos alocados no setor privado con- a ampliação das redes sociais e de saúde mental totalmente substituti- 298 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 Educação permanente de profissionais de saúde mental: competências para o trabalho interdisciplinar vo ao manicomial, que fosse huma- gral e não-fragmentada da saúde; pelos profissionais de saúde mental no, eficaz, de amplo acesso, de quali- estimular o trabalho intersetorial, e que trabalhariam anteriormente ape- dade, cidadão e com controle social. a integração e o diálogo do saber nas no ambiente hospitalar, Bugge Para tanto, urgia a necessidade de científico convencional com os sa- (1999) identificou como habilidades que fossem desenvolvidos progra- beres populares. comuns a profissionais de diferentes mas de desinstitucionalização das Em que pesem as claras indica- formações necessárias ao ambiente pessoas há longo tempo internadas, ções de mudanças nas políticas de de trabalho comunitário: comunica- com garantia do acesso, acolhimen- Recursos Humanos, não há uma ção, inter-relacionamento, desenvol- to, responsabilização, produção de prescrição clara do conteúdo ou de vimento de autonomia, avaliação e novas formas de cuidado do sofri- competências mais específicas a se- aconselhamento. O desenvolvimento mento, com vista aos processos de rem esperadas dos técnicos traba- de tais competências pode ser abar- autonomia, construção dos direitos lhadores em Saúde Mental. Não se cado pelo conjunto de profissionais de cidadania e de novas possibili- esclarece, a partir das discussões e de saúde mental sem ferir as habili- dades de vida para todos. dades específicas que possuam. Pedia-se definição para questões CONSIDERAÇÕES FINAIS relacionadas aos recursos humanos, como as características, conhecimentos e práticas dos técnicos ne- CONSTRUIR UMA cessários à construção do novo FORMAÇÃO INTERDISCIPLINAR modelo assistencial e a articulação entre ensino, pesquisa e assistência na rede de cuidados. A III Conferência Nacional de Saúde Mental determinou, em resposta, Embora exista já um grande acúmulo de idéias na discussão teórico-conceitual sobre aspectos acerca REPRESENTA ASSOCIAR das mudanças desejáveis na forma- SENTIDO AO SABER, ção do profissional de saúde mental, falta ainda maior definição so- CRIATIVIDADE À RAZÃO bre o processos de implementação a elaboração de uma política de re- de tais mudanças e as competên- cursos humanos com as seguintes cias a serem alcançadas. diretrizes para a formação dos tra- No confronto com os problemas balhadores em Saúde Mental: capa- definições das Conferências de Saú- cotidianos, o reconhecimento da di- citar e qualificar continuadamente de Mental quais as competências es- versidade dos sujeitos e o comparti- por meio de fóruns e dispositivos pecíficas do profissional de Saúde lhamento do poder são os principais permanentes de construção teórica, Mental para que se habilite a reali- desafios para a formação de profis- científica, prática terapêutica e de zar profundo desmonte de valores; sionais em saúde mental numa pers- intercâmbio entre serviços; demo- a inserção em novas práticas dis- pectiva interdisciplinar. cratizar as relações e as discussões; cursivas totalmente diferentes das já Construir uma formação interdis- investir na implementação das no- existentes e uma ética que exclua ciplinar representa associar sentido vas tecnologias de educação, infor- os reducionismos. ao saber, criatividade à razão; unir mação e comunicação; romper com Para enfrentar a falta de defini- disciplinas e concepções diversas; os ‘especialismos’ por intermédio do ção, no âmbito das políticas educa- reconhecer parcerias, interagir com trabalho interdisciplinar e multipro- cionais, de outras competências que diferentes culturas e ampliar conti- fissional, incutindo uma visão inte- não vinham sendo desenvolvidas nuamente as formas de participação. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 290-301, set./dez. 2003 299 SILVA, João Paulo Lyra da & TAVARES, Cláudia Mara de Melo Para tal, é importante desenvol- BRASIL. Ministério da Saúde. III Con- DELUIZ , Neise. Qualificação, compe- ver competências básicas, comu- ferência Nacional de Saúde Mental. tência e certificação: visão do mun- nicativas, pessoais, de cuidado e Cuidar, sim. Excluir, não. Caderno do do trabalho. In: Formação/Minis- sociopolíticas, e neste desenvolvi- Informativo. Brasília, DF: Coordena- tério da Saúde. Projeto de profissio- mento de competências na constru- ção de Saúde Mental, Assessoria nalização dos trabalhadores da área ção de uma prática interdiscipli- Técnica, Secretaria de Assistência à de enfermagem. Brasília, DF: v. 1, nar são fundamentais as habilida- Saúde, 2001. n. 2, 2001. p. 5-15. BRASIL. Ministério da Saúde. Políti- FEUERWERKER, Laura. Mudanças na edu- ca de Educação e Desenvolvimento cação médica: os casos de Londrina e para o SUS Caminhos para a Edu- Marília. São Paulo: HUCITEC, 2002. cação Permanente em Saúde Pólos GOLDBERG , J. Clínica da psicose um des como inteligência associativa e raciocínio indutivo. Sabemos que tudo isto não é um objetivo facilmente alcançável. A definição do raciocínio indutivo e da inteligência associativa como habilidades fundamentais já é um avanço neste sentido. Faz-se necessário, porém, o estabelecimento de uma definição mais clara dos mecanismos para implementar seu treina- de Educação Permanente em Saúde. Brasília, DF: Departamento de Gestão e da Educação na Saúde, Secretaria da Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. BUGGE, Carol; SMITH. L. N.; SHANLEY E. projeto na rede pública. Rio de Janeiro: Te Corà, 1994. JAPIASSU , H. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976. A descriptive survey to identify the LÜCK, H. 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RESUMO Islândia Maria Carvalho de Sousa¹ Adriana Falangola Benjamin Bezerra² Ana Paula de Oliveira Marques³ Objetiva-se identificar a percepção que os profissionais de saúde do hospital universitário têm acerca dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). Trata-se de estudo descritivo com uma abordagem qualitativa. Dos princípios e diretrizes, a integralidade e o controle social não foram citados. Os maiores problemas identificados pelos profissionais foram o sucateamento, a desorganização no hospital e a desumanização no atendimento. Como estratégias de intervenção prioritárias foram referidos o financiamento e a capacitação de pessoal. conclui-se que é necessário a criação de um espaço na instituição para que através de uma construção crítica participativa, os profissionais possam, na condição de ¹ Enfermeira, mestranda em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) Rua Dick, 05 CEP 21240-800 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] ² Nutricionista, doutoranda em Nutrição em Saúde Pública da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em Saúde Publica, professora assistente do Departamento de Medicina Social da UFPE, especialista em Saúde Pública. e-mail: [email protected] ³ Nutricionista, doutoranda em Nutrição em Saúde Pública pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em Saúde Pública, professora assistente do Departamento de Medicina Social da UFPE, especialista em Gerontologia e-mail: [email protected] * Projeto financiado pelo Programa de Bolsas de Iniciação Científica-PIBIC -CNPq-UFPE agentes ativos, contribuir para que o hospital cumpra com sua missão institucional no contexto do SUS. DESCRITORES: SUS; Pessoal de Saúde; Serviços de Saúde. ABSTRACT The purpose is to identify the perception that the health professionals are concerned about the National Health System (SUS). Descriptive study with a qualitative approach. The principles and guidelines and the social control have not been mentioned. The main problems identified by the professionals was the lack of adequate materials, disorganization at the hospital and de-humanization in the assistance. As priority intervention strategies, the financing and personal qualification were mentioned. It has been concluded that it is necessary to create a space in the institution so that through the participating critical construction, the professionals may, as active agents, contribute, so that the hospital fulfills its institutional goal within the Unified Health System’s context DESCRIPTORS: SUS; Health Personnl; Health Services. 302 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 Trabalho em Saúde: quem implementa o Sistema Único de Saúde no hospital universitário conhece sua filosofia? INTRODUÇÃO nada, inviabilizando uma reflexão cursos humanos têm sido apontada por parte desse profissional sobre os como estratégica na luta por essas Em vias da realização da 12ª paradigmas do SUS. Entretanto, este transformações, e sua participação Conferência Nacional de Saúde profissional é responsável em fazer é imprescindível sempre que o as- (CNS) em um cenário de globaliza- o sistema funcionar. sunto é analisado. O aperfeiçoamen- ção e neoliberalismo é imperativo O trabalhador de saúde é um pon- to e a capacitação dos recursos hu- a retomada da consolidação do Sis- to-chave para a implementação do manos têm sido discutidos nas Con- tema Único de Saúde (SUS). É hora SUS, é ele que dá vida ao sistema, ferências Nacionais de Saúde e de de refletirmos sobre quem imple- através dele o projeto passa a ser Recursos Humanos, sendo respalda- menta as resoluções das Conferên- sentido pela população. À medida dos por decisões de conferências cias para fortalecermos o controle que exerce sua função, o sistema de estaduais e municipais (BRAGA JÚNI- social e para que possamos garan- saúde passa do aspecto teórico-con- OR tir que os princípios e as diretrizes ceitual para a prática da atenção. do SUS sejam efetivados. et al., 1998; C ECCIM et al., 2002). Entretanto, muitas vezes as re- soluções das Conferências após se- Muitos são os desafios que têm rem aprovadas não são operaciona- norteado as ações de saúde no Bra- lizadas. No que se refere aos traba- sil. Desde a transformação de um AS NECESSIDADES DE lhadores em saúde as profundas o acesso à saúde era permitido ape- MUDANÇA PARA MELHORAR lho, seja na sua precarização ou no nas aos trabalhadores urbanos (com O DESEMPENHO DOS sistema médico privatista, em que carteira de trabalho assinada) e a seus familiares, até a universalização da assistência. Além de universalizar a assistência, o sistema torna todo usuário um transformações no mundo do trabaaporte de novas tecnologias, tem deixado a área de trabalho em saú- SERVIÇOS DE SAÚDE de mais complexa e com poucos in- VÊM SENDO DEBATIDAS vestimentos em ações que a desen- HÁ MUITO TEMPO volvam atendendo as reais necessidades do SUS. agente no seu funcionamento atra- Neste sentido, os cursos de ca- vés dos conselhos de saúde, tendo pacitação e desenvolvimento de tra- assim o trabalhador de saúde res- O profissional de saúde busca e balhadores em saúde, na maioria ponsabilidade como usuário e como deve ser reconhecido como ‘agente das vezes se restringem a questões profissional. É preciso que este pro- ativo’, superando enfoques tradicio- técnicas, os profissionais são pou- fissional conheça a filosofia do nais da administração do trabalho co estimulados a discutirem o pa- sistema que operacionaliza, para que o tem na conta de um ‘recurso’ pel do sistema de saúde no qual eles que possa defender e lutar por ele. que se agrega, a outros recursos ‘não estão inseridos. Não são capacita- Contudo na prática, a contrata- humanizados’(CAMPOS; FEKETE, 1998). dos para entender a base conceitual ção de servidores públicos é feita Ser ‘agente ativo’ inclui conhecer a e filosófica do SUS. através de concursos, que não con- missão e objetivos do SUS. Na assistência à saúde da po- ferem ao contratado conhecimentos As necessidades de mudança pulação os hospitais universitários específicos sobre o sistema em que para melhorar o desempenho dos desempenham papel importante no ele irá atuar. O acesso não prevê trei- serviços de saúde vêm sendo deba- que se refere à formação de traba- namento e/ou capacitação direcio- tidas há muito tempo. A área de re- lhadores em saúde. É neste campo, Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 303 SOUSA, Islândia Maria Carvalho de; BEZERRA, Adriana Falangola Benjamin & MARQUES, Ana Paula de Oliveira muitas vezes, que grande parte dos para internação em diversas clíni- ram separados por categoria profis- universitários da área da saúde cas. Suas atividades envolvem o sional e sorteados de maneira alea- têm o primeiro contato com o sis- ensino, a pesquisa e a assistência. tória, respeitando o número de pro- tema público. Ainda, atua no su- É campo de prática para a gradua- fissionais por categoria: 153 médi- porte à pesquisa e assistência de ção e pós-graduação, locus de fun- cos, 94 enfermeiros, 39 farmacêuti- alta complexidade. damental importância para a inser- cos, 9 biomédicos, 10 fisioterapeu- Contudo, a participação do hos- ção do indivíduo no exercício coti- tas, 5 terapeutas ocupacionais e 16 pital universitário na Política Na- diano de implementação dos princí- assistentes sociais. Para o estudo cional de Saúde ainda se dá de ma- pios e diretrizes da política nacio- foram selecionados 15 profissionais: neira ineficiente. A maior integração nal de saúde, legalmente constituí- 5 médicos, 4 enfermeiras, 1 farma- do hospital universitário ao SUS ain- da e em processo de implementação. cêutica, 1 biomédica, 1 fisioterapeu- da constitui-se um desafio. O referido hospital foi escolhido por ta, 1 terapeuta ocupacional e 1 as- acreditarmos que como locus de for- sistente social. Neste estudo, partimos do pressuposto de que os profissionais que Os critérios de exclusão foram: atuam no hospital universitário não ser prestador de serviço, estar de fé- conseguem perceber a relação de sua prática profissional no serviço, com os aspectos teóricos conceituais do NESTE ESTUDO, PARTIMOS DO PRESSUPOSTO SUS. O que seria de grande impor- DE QUE OS PROFISSIONAIS QUE ATUAM NO tância para o aperfeiçoamento da HOSPITAL UNIVERSITÁRIO NÃO CONSEGUEM relação ensino-serviço. rias ou licença e estar fora de função. Houve substituição de caso em virtude da negação em participar do estudo e por ausência justificada (congresso, afastamento para cursos). PERCEBER A RELAÇÃO DE SUA PRÁTICA Para a adequação do instrumento objetivo analisar a percepção dos PROFISSIONAL NO SERVIÇO , COM OS de coleta de dados foi realizado um profissionais de saúde de um hos- ASPECTOS TEÓRICOS CONCEITUAIS DO SUS Portanto, este trabalho teve como pital universitário sobre os princí- teste piloto com cinco casos. Elaborou-se inicialmente um roteiro de entrevista com três perguntas abertas: pios e diretrizes do SUS. Quais os princípios e diretrizes METODOLOGIA mação, seus servidores, principalmente os de nível superior que rece- A pesquisa configura-se como um bem estudantes das diversas áreas estudo descritivo com uma aborda- para estágio estivessem capacitados gem qualitativa. O hospital no qual ou atualizados para atuar na imple- foi desenvolvido o estudo tem 345 mentação do sistema no qual esta- profissionais de nível superior na vam inseridos. do Sistema Único de Saúde? Quais os entraves encontrados para sua implementação? Quais as mudanças/investimentos necessários para a sua melhoria? O pré-teste demonstrou, no que condição de funcionário público e Para selecionar os entrevistados diz respeito aos princípios e dire- 28 prestadores de serviços. É um foi obtida no setor Gestão de Pes- trizes, que a maioria relatava não hospital universitário referência para soas a relação nominal de todos os ter sido capacitada e diziam não procedimentos de alta complexida- funcionários do hospital lotados por saber responder, demonstrando es- de e também presta assistência na setor. Buscando construir um gru- tar pouco a vontade para falar so- atenção básica. Possui 387 leitos po heterogêneo, os profissionais fo- bre o assunto. 304 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 Trabalho em Saúde: quem implementa o Sistema Único de Saúde no hospital universitário conhece sua filosofia? O formulário foi reestruturado, profissionais (ambulatórios, bloco tou variação entre seis e 28 anos, passando a ser semi-estruturado cirúrgico, unidade de terapia inten- ficando a média em dez anos. com perguntas abertas e fechadas. siva, laboratórios e farmácia). Percebe-se que os profissionais Na caracterização dos profissionais Durante as entrevistas alguns não foram treinados/capacitados foram coletadas informações sobre profissionais se recusaram a respon- para entender a base conceitual e sexo, categoria profissional e tem- der a todos os questionamentos, ale- filosófica do SUS. Surge então uma po na função atual. gando que não se sentiam à vontade pergunta: como podemos esperar para falar sobre o assunto. Os mes- que estes profissionais implementem mos foram sendo substituídos atra- o SUS se os mesmos não foram orien- vés de sorteio aleatório por outros tados para conhecer o sistema do qual profissionais da mesma categoria. fazem parte como agente ativo no pro- As perguntas abertas foram: Como trabalhador deste hospital você foi treinado/capacitado sobre os princípios e diretrizes do SUS? O SUS tem como princípios a eqüidade, a universalidade e a in- Na análise dos dados para as perguntas abertas foi elaborado um tivo, se não há o conhecimento das centralização, o financiamento e o sobre estes princípios e diretrizes correlacionando com a sua prática? Foi utilizado um gravador para posterior análise das respostas. As perguntas fechadas apresentavam alternativas de respostas baseadas no teste piloto: As Leis e as Normas Operacionais são o referencial jurídico-administra- tegralidade, e como diretrizes a descontrole social. Qual sua opinião cesso de trabalho em saúde? mesmas, qual será o referencial? COMO PODEMOS ESPERAR QUE ESTES PROFISSIONAIS IMPLEMENTEM O SUS informou ter sido treinado/capacita- SE OS MESMOS NÃO FORAM ORIENTADOS SUS. Menciona que vivenciou de per- PARA CONHECER O SISTEMA DO QUAL to a mudança no Sistema de Saúde: FAZEM PARTE COMO AGENTE ATIVO NO Na época estava aquela luta se PROCESSO DE TRABALHO EM SAÚDE? iria implantar ou não, até conven- Dos 15 entrevistados apenas um do sobre os princípios e diretrizes do cer a própria equipe (Profissional 1) Existem críticas em relação ao Os profissionais que não tiveram SUS apoiadas em várias questões. Na sua opinião o que mais contribui para essas críticas considerando a sua prática de trabalho no hospital, em ordem de prioridade? Para melhoria do Sistema Único de Saúde, quais as mudanças/investimentos necessários? Indique por ordem de prioridade. Na sua opinião qual o papel a ser desempenhado pelo hospital no contexto da Política Nacional de Saúde? treinamento/capacitação referiam ter esquema de codificação de Polit e Hungler (1995), relacionado aos principais tópicos abordados que apareciam com maior freqüência nas falas. Nas perguntas fechadas, uma recebido esse conhecimento de maneira informal ou recebido na graduação. As seguintes falas são representativas das respostas obtidas: Treinamento não recebi, a prio- distribuição por freqüência. ri não saberia falar sobre os princípios do SUS, sei através da impren- RESULTADOS E DISCUSSÃO sa e do conhecimento do dia-a-dia Na caracterização dos profissio- mesmo (Profissional 11). nais: três eram do sexo masculino e Na graduação eu tive uma disci- As entrevistas foram realizadas os demais entrevistados do sexo fe- plina que abordava o tema mas, era nos setores onde trabalhavam os minino. O tempo de serviço apresen- tão carregada, enquanto estudan- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 305 SOUSA, Islândia Maria Carvalho de; BEZERRA, Adriana Falangola Benjamin & MARQUES, Ana Paula de Oliveira te a gente estava preocupado em fragmentação do pensamento em Com relação às diretrizes, a mais aprender outras coisas e não isso relação à oferta de serviços. Ape- citada é hierarquização/regionaliza- (Profissional 8). sar do serviço oferecer assistência ção, seguida do financiamento: Apesar não de terem recebido treinamento/capacitação, quando perguntados sobre os princípios e dire- básica em saúde, a cultura institucional está mais voltada para a alta complexidade, dificultando ao pro- trizes e a relação dos mesmos com fissional enxergar o sistema numa sua prática no hospital, de uma ma- perspectiva também de promoção neira geral eles não verbalizavam os e prevenção, ou seja, numa pers- princípios e diretrizes como constam pectiva integral. na legislação, mas ao explanar sobre Alguns dos princípios orientado- sua prática em serviço, algumas das res do SUS são mais visíveis, como falas trazem conteúdos sobre o tema: a descentralização e a universali- A gente tem uma teoria desto- ria apenas referência, isto não acontece, tem uma demanda espontânea enorme (Profissional 7). Eu vejo o SUS como um serviço que está dando certo, está dando vez a quem não é segurado, ao trabalhador de modo geral (Profissional 1) APESARDO SERVIÇO OFERECER ASSISTÊNCIA BÁSICA EM SAÚDE, A CULTURA INSTITUCIONAL ESTÁ MAIS VOLTADA PARA AALTA COMPLEXIDADE, DIFICULTANDO AO PROFISSIONAL ENXERGAR O cebe muitos pacientes, lógico que de alta complexidade, mas recebe muito paciente que poderia ser atendido no interiorzinho dele no posto de saúde (Profissional 10) ...Não há nenhuma racionalização do uso dos insumos de que o hospital dispõe... isso você vê diariamente veis desde o uso do papel até o uso do equipamento mais sofisticado, acho que isso concorre muito para os hospitais estarem na situação em que estão (Profissional 3). O controle social não aparece em SISTEMA NUMA PERSPECTIVA TAMBÉM DE nenhuma das falas. Provavelmente PROMOÇÃO E PREVENÇÃO, OU SEJA, isto se deve ao fato da instituição não Agrupando as respostas, obser- NUMA PERSPECTIVA INTEGRAL va-se que em relação aos princípios, possuir uma instância deliberativa que permita a participação do usuário. Os próprios servidores demons- os mais referidos são a universalidade, seguido da eqüidade: zação da assistência... a gente re- na sua prática, isso em todos os ní- ante da prática... este hospital classificado como quaternário recebe- Ele prega também a municipali- traram durante as falas insatisfação zação. Todavia outros estão mais com a maneira como as decisões É a universalização do atendi- distantes do cotidiano da atenção eram tomadas, principalmente, quan- mento à população. Na verdade o como o controle social e a integra- do se tratava da prestação de servi- SUS no momento atual realmente lidade, talvez o mais ausente até atende a essa diretriz, atende a todo ços para seguros de saúde. agora (G IOVANELLA et al., 2002). Outro aspecto a ser considerado mundo indistintamente, as condi- Segundo Nogueira (1997), uma ções de atendimento é que ainda é que o monopólio do saber técnico, característica do processo de traba- seja médico ou de outro tipo, põe lho em saúde no hospital de alta em segundo plano o saber acumu- complexidade é a fragmentarieda- lado da população trabalhadora de dos atos. A assistência pontual (VALLA , 1998), dificultando a visua- e fragmentada – conseqüência do lização por parte dos profissionais modelo biomédico – é a realidade da participação social na dinâmica no sistema hospitalar. de funcionamento do hospital. deixam muito a desejar, não por conta do SUS, mas por conta da própria desestruturação dos hospitais públicos (Profissional 3). O princípio da integralidade não aparece nas falas, demonstrando a 306 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 Trabalho em Saúde: quem implementa o Sistema Único de Saúde no hospital universitário conhece sua filosofia? Há um grande despreparo dos ra do hospital, o que nos remete a nos (RH) em serviço e o investimen- serviços de saúde para o contato uma pergunta: Como humanizar a as- to na formação de gerentes apare- com o outro. Acontece, na verdade, sistência em condições desumanas de cem como estratégias prioritárias em um conflito de idéias, de visões de trabalho? Entretanto, vale salientar 7% das respostas, respectivamente. mundo que extrapola a dimensão que este aspecto pode ser mais apro- Percebe-se maior número de res- política. Sendo assim, a percepção fundado. Até que ponto os profissio- postas em ordem de prioridade dos pelos profissionais de saúde do con- nais percebem a desumanização como problemas e estratégias nos itens de trole social como diretriz do SUS não um aspecto do seu atendimento indi- recursos humanos e financiamento. se faz presente no cotidiano das re- vidual, já que eles apontam em pri- Como locus de produção intelec- lações (VALLA,1998). meiro plano o melhor financiamento tual, a contribuição da Universida- para melhoria da assistência? de é de fundamental importância Quando perguntados: Existem críticas em relação ao SUS apoia- Na pergunta: Para a melhoria do para a implementação do SUS, sen- das em várias questões. Na sua opi- Sistema Único de Saúde, quais as do o Hospital Universitário o espa- nião o que mais contribui para es- ço privilegiado para práticas de tas críticas, considerando a sua prá- modelos de gestão que atendam aos tica de trabalho no hospital? Em or- princípios e diretrizes do SUS. dem de prioridade. O sucateamento da estrutura fí- Desde a institucionalização do COMO HUMANIZAR SUS a partir da Constituição Fede- sica aparece como o principal problema (30%), seguido da desorgani- A ASSISTÊNCIA EM sido freqüentemente realçadas zação do hospital (21%) e do atendi- CONDIÇÕES DESUMANAS como fundamentais para a sua im- DE TRABALHO? plementação: a descentralização, o mento desumanizado (21%), o número insuficiente de profissionais ral de 1988, quatro questões têm financiamento, o controle social e (14%), a remuneração (7%) e a baixa os recursos humanos. De todas qualificação (7%). Os diferentes vín- elas, a mais complexa e que vem culos jurídicos não foram apresen- sofrendo o maior processo de des- tados como problema prioritário. O sucateamento tem prejudicado a qualidade da assistência, conse- mudanças/investimentos necessários? Indique por ordem de prioridade. regulamentação dentro da política de reforma do Estado no país é a dos Recursos Humanos (C ONSELHO qüentemente a sua missão enquan- O financiamento foi apontado em to campo de prática e de implemen- 51% das respostas como estratégia tação dos princípios do SUS. Perce- prioritária para a melhoria do SUS. be-se neste momento a inquietação Como segunda prioridade aparece o dos servidores com suas condições investimento na formação (gradua- de trabalho e prestação de serviços. ção) atualização e aperfeiçoamento A desumanização na assistência dos profissionais de saúde para o tem sido foco de discussão em vá- SUS (14%) e mudanças nos princí- rias instâncias da saúde. Nas falas pios e diretrizes (14%). A remunera- a desumanização estava entrelaça- ção dos profissionais, a capacitação O percentual para seguro saúde da com o sucateamento da estrutu- e atualização dos Recursos Huma- seria importante como fonte de re- NACIONAL DE SAÚDE , 2000). Ao perguntar: Na sua opinião qual o papel a ser desempenhado pelo hospital no contexto da Política Nacional de Saúde? Dos entrevistados, 50% consideram que o hospital deve ser um serviço público voltado exclusivamente para o SUS. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 307 SOUSA, Islândia Maria Carvalho de; BEZERRA, Adriana Falangola Benjamin & MARQUES, Ana Paula de Oliveira cursos, mas com certeza deixaria o básicas. No campo da atenção à Saúde Coletiva e os princípios e di- SUS sem vez (Profissional 5). saúde temos a Lei 8.080/90, a Lei retrizes do SUS (CECCIM et al., 2002). O serviço privado já tem hospi- 8142/90, as Normas Operacionais É preciso avançar para que estas tal demais. Privatizando, fatalmen- Básicas (NOB) e Normas Operacio- propostas sejam implementadas. te, eu não vejo como não prejudi- nais de Assistência à Saúde (NOAS). A disponibilidade de recursos hu- car o atendimento (Profissional 9). Todo este arcabouço jurídico é de manos preparados é fator indissociá- fundamental importância para que vel da qualidade e do volume da pro- Dos demais entrevistados, 43% avancemos na implementação do dução em qualquer ramo da ativida- responderam que o hospital deve sistema de saúde vigente no país, de, o que se aplica aos serviços de continuar público e cobrar os pro- no entanto, o cotidiano de serviços saúde. Neste sentido, é importante cedimentos realizados em usuários nos mostra uma realidade que apon- identificar os principais entraves à de planos de saúde/convênios: ta para o descompasso entre a le- qualificação na rede de serviços, bem gislação e a práxis. como, as questões referentes à inte- Que o hospital atenda cobrando gração ensino-serviço (CAMPOS , 1992). os planos de saúde, pois os planos Existe a necessidade de capacita- de saúde não pagam alguns atendimentos e os pacientes terminam vindo, mesmo com convênios. Outros 7% não responderam. A discussão sobre os atendi- É NECESSÁRIO QUE O TRABALHO ção dos profissionais dentro dos pró- ARTICULADO ENTRE UNIVERSIDADES E tais universitários que estejam inse- SERVIÇOS DE SAÚDE ESTEJA PRESENTE NAS ridos no sistema colaborando na sua mentos que os hospitais públicos AGENDAS POLÍTICAS NOS DOIS SETORES E realizam em pacientes/usuários QUE ESTABELEÇAM MECANISMOS DE que possuem seguro/convênio de saúde é antiga e já avançou no sentido da construção de propos- COOPERAÇÃO PARA ENFRENTAR OS PROBLEMAS DE TODOS OS TIPOS prios serviços, como também hospi- melhoria. A maior integração das atividades de ensino, desenvolvidas no hospital universitário com a rotina dos profissionais, constituindo uma agenda mútua, que possibilite a capacitação e o aperfeiçoamento, talvez seja uma estratégia neste processo. tas que viabilizem o ressarcimen- É necessário que o trabalho arti- to pelos empresas de saúde aos serviços públicos, no entanto a efe- Descompasso que poderia ser en- culado entre universidades e servi- tivação da cobrança ainda não tendido pela distância entre a inércia ços de saúde esteja presente nas aconteceu na prática, com exceção do escrito e a dinâmica dos proces- agendas políticas nos dois setores e de algumas experiências localiza- sos. Esta seria uma leitura correta que estabeleçam mecanismos de das na região Sudeste do país. caso a práxis estivesse tornando ob- cooperação para enfrentar os proble- soleta os escritos – a legislação – mas mas de todos os tipos, como o de ao contrário, ainda não conseguimos produção de conhecimento, de for- alcançar preceitos da legislação. mação profissional, e de educação CONSIDERAÇÕES FINAIS A Constituição de 1988 trouxe As ‘diretrizes curriculares’ pro- permanente (RODRIGUES et al., 2000). garantias no campo dos direitos so- postas para os cursos da área da O papel do usuário como prota- ciais, as quais foram regulamenta- saúde, elucidam no seu parecer de gonista do sistema vem crescendo e das através das respectivas leis or- aprovação a necessidade de serem tem impacto direto na melhoria da gânicas e normas operacionais enfatizados o conceito de saúde da relação entre ele e o serviço (RAMOS ; 308 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 Trabalho em Saúde: quem implementa o Sistema Único de Saúde no hospital universitário conhece sua filosofia? L IMA, 2003). É importante que a par- de trabalho no setor público. In: GIOVANELLA, Lígia et. al. Sistemas Mu- ticipação dos trabalhadores em saú- M ALIK, Ana Maria (Org.). Gestão de nicipais de saúde e a diretriz da inte- de também cresça e fortaleça a atua- Recursos Humanos. São Paulo: Fun- gralidade da atenção: critérios para ção do controle social. A integração dação Petrópolis, 1998. p. 97-137 avaliação. Saúde em Debate, Rio de usuário-profissional é um instrumento estratégico para a consolidação do “SUS que queremos”. É preciso ouvir o usuário e também os trabalhadores. Os entraves encontrados na implementação de política de Recursos Humanos podem ser minimizados se houver uma maior participação dos interessados nesta discussão e na sua implementação. Os achados deste estudo sugerem a necessidade de criar um espaço na instituição para que através de uma construção crítica participativa, os seus recursos humanos pos- BRASIL . Lei Orgânica da Saúde n. Janeiro, v. 26, n. 60, 2002. p. 37-61. 8.080/90. Dispõe sobre as condições NOGUEIRA, Roberto Passos. O trabalho para a promoção, proteção e recu- em serviços de saúde In: Desenvol- peração da saúde, a organização e vimento gerencial de unidades bási- o funcionamento dos serviços cor- cas do sistema Único de saúde. Bra- respondestes e das outras providên- sília, DF: OPAS/OMS, 1997. p. 182-185. cias. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Poder Executivo. Brasília, DF, 1990. P OLIT, Denise F.; HUNGLER , Bernadette P. Fundamentos de Pesquisa em Enfermagem. Porto Alegre: Artes . Lei Orgânica da Saúde nº. 8.142/90. Dispõe sobre o financiamento e o controle social e das outras providências. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Poder Executivo. Brasília, DF, 1990. Médicas, 1995. 391p. R AMOS, Donatela Dourado; L IMA, Maria Alice Dias Silva. Acesso e acolhimento aos usuários em uma unidade de saúde de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Cadernos de sam, na condição de agentes ativos, C AMPOS, Gastão Wagner de Sousa. Saúde Pública, Rio de Janeiro, n. 19, contribuir para que o hospital pú- Reforma da reforma – repensando 2003. p. 27-34. blico cumpra com sua missão insti- a saúde. São Paulo: HUCITEC, 1992. tucional no contexto do SUS. É imprescindível utilizarmos estratégias que superem o imaginário simbólico do SUS como ‘bico’ dos profissionais de saúde para atender os mais pobres. O desafio R ODRIGUES, Nelson dos Santos et al. C AMPOS, E. F.; F EKETE, M. C. Política A prática do controle social através de Recursos Humanos para o SUS- dos conselhos de saúde. Divulgação Texto produzido para o Programa de em Saúde para Debate, Rio de Ja- Capacitação de Gestores do SUS-CO - neiro, n. 22, 2000. p. 71-91. SEMS/N ESCON/MS/FNS,1998. VALLA, Victor Vicent. Sobre participa- para a 12ª Conferência Nacional de C ECCIM, Ricardo Burg; ARMANI , Teresa ção popular: uma questão de pers- Saúde é de que é a hora de nos ves- Borgert; ROCHA , Cristianne Famer. pectiva. Cadernos de Saúde Pública, tirmos do memorável espírito de O que dizem a legislação e o contro- Rio de Janeiro, n. 14, 1998. p. 7-18. luta da 8ª Conferência e implemen- le social em saúde sobre a forma- tarmos “O SUS que queremos”. ção de recursos humanos e o papel dos gestores públicos no Brasil. Ciên- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS cia & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, n. 7, 2002. p. 373-383. B RAGA JÚNIOR , David; AMORIM , Julio C ONSELHO NACIONAL Cesar Macedo; BRAGA, Douglas Ger- Operacional de Recursos Humanos, son. Recursos humanos e Relações Versão preliminar, Brasília, DF, 2000. DE S AÚDE. Norma Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 302-309, set./dez. 2003 309 BOURGUIGNOM, Denise Rozindo et al ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Denise Rozindo Bourguignon1 Geruza Rios Pessanha Tavares2 Liliane Graça Santana3 Marta Zorzal e Silva4 Rita de Cássia Duarte Lima5 Scheila Silva Rasch6 Recursos humanos em saúde: reflexões sobre o cotidiano do SUS que temos e as possibilidades do SUS que queremos Human Resources in Health: reflections about everyday life in the SUS we have and the possibilities in the SUS we want Médica especializada em Medicina do Trabalho, mestranda do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES ), coordenadora do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Espírito Santo 1 Médica especializada em Medicina Geral Comunitária, mestranda do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva da UFES, auditora em saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória (ES) 2 Enfermeira especializada em Enfermagem do Trabalho, mestranda do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva da UFES , enfermeira do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador do Espírito Santo 3 Socióloga, doutora em Ciência Política, docente do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva da UFES 4 Enfermeira, doutora em Saúde Coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP ), docente do Curso de Graduação em Enfermagem da UFES e do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva da UFES 5 Psicóloga com formação em Psicoterapia Corporal, mestranda do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva da UFES , psicóloga da equipe do Centro de Prevenção e Tratamento de Toxicômanos da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória (ES) 6 Os endereços para contato com os autores estão no final do artigo. RESUMO Propõe-se uma reflexão, com base histórica, sobre o estado atual das políticas de recursos humanos em saúde. Destaca-se a importância da utilização dos diagnósticos construídos a partir das Conferências Nacionais de Saúde e de Recursos Humanos e da Norma Operacional Básica de Recursos Humanos (NOB/RH), como paradigma de novas abordagens na área. Procura-se demonstrar a necessidade da construção de sujeitos sociais na reinvenção do cotidiano nas políticas públicas voltadas para a área como forma de avanço em direção ao Sistema Único de Saúde (SUS) que queremos. DESCRITORES: Política de Saúde; SUS; Serviços Básicos de Saúde; Conferências de Saúde. ABSTRACT The article proposes a reflection, using a historical base, on the current stage of human resources policies in health. We highlight the importance of using the findings achieved in National Health Conferences and Human Resources Conferences and in the Basic Operational Norm for Human Resources as paradigms of new approaches in the area. The article demonstrates the need to build social subjects in the reinvention of the everyday life of Public Policies of the field to achieve progress towards the SUS we want. DESCRIPTORS: Health Policy; SUS; Basic Health Services; Health Conferences. 310 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 310-315, set./dez. 2003 Recursos humanos em saúde: reflexões sobre o cotidiano do SUS que temos e as possibilidades do SUS que queremos INTRODUÇÃO de Saúde no Brasil, no Mestrado em durante o regime autoritário buro- Saúde Coletiva do Programa de Pós- crático militar, cujo esgotamento A Constituição Federal de 1988, graduação em Atenção à Saúde Co- coincide com o maior atrelamento ao instituir o Sistema Único de Saú- letiva da Universidade Federal do às políticas de ajuste econômico do de (SUS), define, por meio do seu ar- Espírito Santo (U FES ), aconteceu em Fundo Monetário Internacional, com tigo 196, um referencial paradigmá- um seminário sobre essa temática e conseqüências diretas sobre a so- tico de saúde como direito de todos e sob nossa responsabilidade, mes- ciedade civil brasileira. Crises eco- dever do Estado, garantido mediante trandas do curso, tendo a coordena- nômicas, com aumento de índices políticas sociais e econômicas. ção das professoras da disciplina. inflacionários, desemprego, achata- Apesar do SUS representar, na Para facilitar a exposição do mento salarial, estancamento e de- história da saúde pública no Brasil, tema, o texto foi dividido em três terioração dos serviços públicos uma das principais inovações da momentos: uma breve contextualiza- acarretaram um novo cenário so- reforma do Estado brasileiro, con- ção histórica, tendo como referen- cioeconômico, em que os campos da trapondo-se ao modelo hegemônico saúde e educação foram os princi- estabelecido pelo Estado capitalis- pais atingidos. ta, ainda persistem alguns desafios. Nas áreas de saúde e educação, PODEMOS CITAR, NA CONSTRUÇÃO DESSAS POLÍTICAS, DOIS PONTOS CRÍTICOS , os efeitos foram similares sobre os VERDADEIROS GARGALOS NA IMPLEMENTAÇÃO múltiplos vínculos empregatícios, DOS SISTEMAS DE SAÚDE , QUE SÃO AS demissões voluntárias, movimentos são as questões relacionadas com o financiamento e a política de recur- QUESTÕES RELACIONADAS COM O resultaram em descompromisso Podemos citar, na construção dessas políticas, dois pontos críticos, verdadeiros gargalos na implementação dos sistemas de saúde, que sos humanos. As formas de enfrentamento desses desafios têm produzido poucos recursos humanos: arrocho salarial, grevistas e posturas corporativas com o serviço público e o não-reco- FINANCIAMENTO E A POLÍTICA nhecimento dos usuários e dos tra- DE RECURSOS HUMANOS balhadores de saúde como atores impactos, resultando em ineficiência, no processo de construção das po- ineficácia, desigualdade, perda da líticas públicas nas áreas citadas solidariedade e da cidadania na re- ciais as VIII e IX Conferências Nacio- lação entre os profissionais de saú- nais de Saúde e I e II Conferências de e destes com os usuários, impac- Esse era o cenário que permea- Nacionais de Recursos Humanos; o tos estes manifestados por diversas va as discussões sobre os recursos estado atual das políticas de recur- formas de insatisfação tanto dos ato- humanos no bojo das Conferências sos humanos; e as reflexões sobre a res que participam da construção do anteriormente mencionadas e que necessidade da emergência de novos SUS quanto dos usuários que viven- trouxeram, como diagnósticos dife- paradigmas para as políticas da área. rentes, aspectos negativos, dentre os ciam tais políticas no cotidiano. Pretendemos fazer uma reflexão (PAIM , 1994). quais elencamos alguns: O CONTEXTO HISTÓRICO sobre um dos pontos críticos do SUS: • a inadequada distribuição as políticas de recursos humanos As décadas de 1980 e 1990 so- geográfica dos profissionais de saú- em saúde. Tal reflexão, aprofunda- freram os reflexos do fim do ‘mila- de, com maior concentração nas da na disciplina Estado e Políticas gre econômico’, política definida grandes cidades e regiões metropo- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 310-315, set./dez. 2003 311 BOURGUIGNOM, Denise Rozindo et al litanas dos Estados mais desenvol- cada instituição desenvolvesse nor- sideração a natureza do trabalho e vidos do país; mas, diretrizes e estratégias diver- as especificidades dos atos profissio- sificadas, contribuindo para a cria- nais. O profissional de saúde não ção de um mosaico disforme levan- deve ser tratado como insumo, pelo do a uma fragmentação no modelo seu caráter ‘insubstituível’, sob pena de assistência à saúde. de se manter uma visão distorcida, • desigualdade nas condições de inserção no mercado de trabalho, em especial no que se refere aos níveis salariais, regimes jurídicos de vinculação, acompanhada muitas vezes de desvios de funções, jornadas duplas ou triplas de trabalho e formas arcaicas de gestão; • adoção das gramáticas políticas de clientelismo e corporativismo como forma de relação Es- pois segundo nos coloca Mishima ESTADO ATUAL DAS POLÍTICAS DE RECURSOS HUMANOS pacitação de recursos humanos distorcidas e divorciadas das práticas desenvolvidas nos serviços de saúde que não levam em consideração as demandas epidemiológicas e sociais da população; • saber fragmentado em campos Sob a denominação de recursos ciam um trabalho repleto de para- humanos tem-se um conjunto de doxos, imprevisibilidade e conflitos, agentes com competência para o vivenciando no cotidiano a complexidade do processo saúde-doença. Apesar das Conferências de Re- A FALTA DE EXPLICITAÇÃO DA POLÍTICA DE D ESENVOLVIMENTO DE RECURSOS H UMANOS PARA A SAÚDE FEZ COM QUE CADA INSTITUIÇÃO DESENVOLVESSE NORMAS, DIRETRIZES E ESTRATÉGIAS DIVERSIFICADAS, CONTRIBUINDO PARA A CRIAÇÃO DE profissionais com divisão social do UM MOSAICO DISFORME trabalho e dificuldade do profissio- cursos Humanos (1986 e 1992) terem apontado proposições para o enfrentamento dos problemas identificados, tendo como eixos a valorização do profissional, a preparação de recursos humanos, as estratégias de integração interinstitucional, a organização dos trabalhadores de saúde e sua relação com o usuário do sistema, pouco se tem avançado (BRASIL , 1993a; 1993b). nal de saúde em compreender seu papel de agente na relação entre os são máquinas, instrumentos duros, vazios de desejos, são ‘gente’, viven- tado-sociedade; • formação, especialização e ca- et al. (2003) recursos humanos não A adoção do regime jurídico único desenvolvimento de ações que en- não se efetivou, coexistindo diferen- volvam o aspecto curativo, de pro- tes políticas de regulamentação de moção e proteção à saúde. Estes força de trabalho, nas quais se evi- Como conseqüências, observou- agentes são em geral vistos pelos dencia a precarização dos recursos se um descrédito da população usuá- gestores da mesma forma que qual- humanos. Exemplo disso é o que ria do SUS e um estado de desmoti- quer insumo, primordialmente foca- ocorre na estratégia de Saúde da Fa- vação e desvalorização dos servido- dos sob a ótica da otimização de mília, na qual se colocam diferen- res públicos, estimulando o oportu- alocação e utilização, para atender tes formas de relação de trabalho: nismo e o empreguismo, dificultan- à legislação vigente, em especial, a trabalhadores com vínculos estatu- do ainda mais a participação social. Lei de Responsabilidade Fiscal. tários, com contratos via ONG, por serviços públicos e as necessidades de saúde da população. A falta de explicitação da Políti- Essa concepção burocratizante é tempo determinado, e prestadores ca de Desenvolvimento de Recursos falha, pois, na complexidade do autônomos de serviços se mesclam, Humanos para a Saúde fez com que campo da saúde, não leva em con- dificultando a construção e atuação 312 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 310-315, set./dez. 2003 Recursos humanos em saúde: reflexões sobre o cotidiano do SUS que temos e as possibilidades do SUS que queremos de uma política eficaz na reorgani- sos Humanos (NOB/RH-SUS), já na ção social dos serviços de saúde e zação da atenção básica à saúde. sua terceira versão; a Emenda Cons- das políticas públicas, que atraves- A ausência de um Plano de Car- titucional 34, de 13 de dezembro de sam as relações e os estilos de tra- gos, Carreiras e Salários (PCCS) de- 2001, que estabelece o duplo víncu- balho na saúde. sestimula o crescimento profissio- lo para todos os profissionais de nal e um envolvimento maior do tra- saúde; o Programa Nacional de Ca- balhador no seu setor de trabalho, pacitação para Gestores Municipais; o que tem redundado em desmoti- o Projeto de Profissionalização dos vação e evasão de quadros impor- Trabalhadores da Área de Enferma- Diante desse cenário, perpassam- tantes no serviço público. gem (P ROFAE); as novas diretrizes nos algumas inquietações. Como pro- Também o crescente processo de curriculares aprovadas, em espe- duzir novas práticas de trabalho, se precarização da relação de trabalho cial, para os cursos da área de saú- muitas vezes estamos reproduzindo tem desmobilizado os trabalhadores de. Tudo com o propósito de rom- ‘velhas formas’ de produzir saúde, REFLEXÕES E INDAGAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA no sentido da construção de uma formas estas ancoradas nos precei- cultura que privilegie o SUS, como tos de uma formação capitalista? um indutor privilegiado das políti- Como implantar um modelo contra- cas públicas, sem que este seja o favorecedor da criação dos vínculos institucionais/profissionais, o que tem impactos nos modos com que cotidianamente se acolhem e se relacionam os diferentes protagonistas envolvidos com esse processo. Paralelamente às questões ante- COMO PRODUZIR NOVAS PRÁTICAS DE TRABALHO, SE MUITAS VEZES ESTAMOS REPRODUZINDO ‘VELHAS FORMAS’ DE PRODUZIR SAÚDE, FORMAS ESTAS ANCORADAS NOS PRECEITOS DE UMA FORMAÇÃO CAPITALISTA? hegemônico em meio à ordem neoliberal vigente, que desrespeita o ‘ser’ humano? De que forma se despir do poder corporativo para se integrar no trabalho coletivo, um dos princípios fundamentais da saúde pública? De que maneira vivenciar o cotidiano dos conflitos, das angústias, da falta de riores e igualmente importantes, está autonomia e das dificuldades dos a formação dos sujeitos sociais em recursos humanos em saúde com a saúde. Em um processo permeado baixa governabilidade dos gestores de antagonismo, o Estado define um per os equívocos das lógicas que que, quando trabalham com plane- tipo ideal de profissional para com- vêm sendo geradas pelo hiato his- jamento, o fazem de forma verticali- por equipes interdisciplinares, em tórico entre a Universidade (o terri- zada, indo de encontro às propostas que o processo de adoecimento seja tório do ensino/aprendizagem), os de descentralização do SUS? compreendido como social, e tem serviços de saúde (o território do A construção do SUS representa executado a sua formação sobre mundo do trabalho) e o Reforço à a possibilidade de uma resposta al- um caráter positivista, reducionis- Reorganização do Sistema Único de ternativa ao modelo hegemônico que ta, “[...] que reduz ao corpo o es- Saúde (REFORSUS). não dá conta de impactar as diver- paço de intervenção e mudança” No entanto, essas soluções não sas realidades de saúde no mundo têm sido capazes, na prática, de contemporâneo, o que demonstra a Entretanto, alguns avanços não equacionar as contradições da so- necessidade de se romper os limites podem deixar de ser registrados: a ciedade capitalista e seu modo de impostos pela dominação cultural Norma Operacional Básica de Recur- produção, bem como a organiza- e política no projeto neoliberal. (MINAYO, 1998. p.70). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 310-315, set./dez. 2003 313 BOURGUIGNOM, Denise Rozindo et al Conforme Campos (1992), a via- distanciamento entre a formação tanto na graduação quanto em ou- bilização do SUS não pode ter como profissional e a realidade posta tros processos de educação perma- ponto central a subordinação dos tra- (P AIM; A LMEIDA F ILHO, 2000). nente (LIMA, 2001). balhadores de saúde às normas ad- É preciso atentar, entretanto, Assim, faz-se necessário operar ministrativas burocratizadas tradi- para o fato de que só a reforma cur- nos espaços de transformação do cionais, que promovem um engessa- ricular não é suficiente para a cons- lugar social ocupado pela univer- mento do sistema, dificultando o trução desse novo perfil profissio- sidade, nos seus modos de estabe- exercício dos recursos humanos, nal, em função da dinâmica da rea- lecer cooperações e parcerias com como um dos atores principais do lidade sanitária e social, sendo ne- as outras instituições, revendo prio- processo de mudança, ou seja, não é cessário, também, que os educado- ridades de atuação. Qualquer ini- possível fazer avançar o SUS sem a res sejam submetidos a um proces- ciativa de mudança nas instituições integração e o esforço dos seus tra- so de reeducação contínua, trans- de ensino superior não pode ficar balhadores. Constata-se, no campo da formando-se e constituindo-se em restrita ao seu interior, muito pelo saúde, uma reprodução de práticas contrário, tem necessariamente que alienantes, descompromissadas com considerar os diferentes interesses a concepção do complexo ‘promoção- e levar em conta o apoio e adesão saúde-doença-cuidado’, constituindo- NO CAMPO ACADÊMICO , se em marcos históricos dos serviços de saúde em geral. Observa-se que, paralelamente à baixa governabilidade dos gestores posto, algumas características tor- DESENVOLVAM PROCESSOS nam-se fundamentais na construção tância destinada à saúde pública, a CONTÍNUOS, DINÂMICOS construção centralizada das políticas E CENTRADOS NA CRIATIVIDADE de recursos humanos e sua reprodu- Dentro do novo paradigma pro- É URGENTE QUE SE DE FORMAÇÃO E CAPACITAÇÃO municipais, fruto da relativa impor- de outros segmentos sociais. do profissional de saúde do SUS: que tenha capacidade de análise crítica em relação às suas práticas profissionais; que seja um sujeito ativo na organização e gestão dos pro- ção de forma fragmentada nas dife- cessos de trabalho em saúde, enten- rentes unidades federativas necessi- dendo-se como pertencente a uma tam ser transformadas sob a ótica sujeitos transformadores das insti- classe social; que paute sua atuação de planejamentos horizontalizados, tuições formadoras. no compromisso de construção de ascendentes, que levem em conside- As mudanças nas maneiras uma prática solidária, ética, centra- ração as diferenças regionais, tanto como a universidade (de)forma os da no vínculo, que implica uma liga- nos aspectos epidemiológicos como recursos humanos são certamente ção mais estável e duradoura entre culturais, entre outros. uma questão crítica no sentido da profissionais, usuários, ações em ser- No campo acadêmico, é urgente transformação das práticas, dos sa- viço, retirando a impessoalidade dos que se desenvolvam processos de beres e da construção do SUS, por espaços públicos (CAMPOS , 1997). formação e capacitação contínuos, seu papel insubstituível na forma- Na reinvenção do cotidiano das dinâmicos e centrados na criativi- ção dos profissionais de saúde e na políticas de recursos humanos em dade, voltados para uma integra- produção de conhecimentos em saú- saúde, é definitivo que os profissio- ção com os serviços públicos de de, educação, ciências sociais e ou- nais tenham uma construção técni- saúde, de forma a romper com o tras áreas que possam contribuir ca, social, ética e cultural no senti- 314 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 310-315, set./dez. 2003 Recursos humanos em saúde: reflexões sobre o cotidiano do SUS que temos e as possibilidades do SUS que queremos ENDEREÇO DOS AUTORES do de assumirem a responsabilida- Emerson Elias; O NOCKO , Rosana de pela integralidade da saúde da (Org.). Agir em saúde: um desafio população sob seus cuidados, den- para o público. São Paulo: HUCITEC , D ENISE ROZINDO BOURGUIGNON tro de valores centrados na igual- 1997. p. 229-266. Rua Aristides Navarro, 45/402 dade, solidariedade, democracia e autonomia, capazes de romper com uma cidadania regulada pelo Estado, construindo, dessa forma, novas utopias, reinventado a cada dia o humano, tendo sempre, como centro do processo do cuidar, o usuário como parceiro e sujeito social do SUS que queremos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS L IMA, R. de C. D. Enfermeira: uma protagonista que produz o cuidado no cotidiano do trabalho em saúde. Vitória: EDUFES, 2001. CEP 29055-270 – Vitória – ES tações da cura no catolicismo popu- e-mail: [email protected] lar. In: ALVES, P. C.; MINAYO, Maria Cecília de S. (Org.). Saúde e doença: um L ILIANE GRAÇA SANTANA olhar antropológico. Rio de Janeiro: Rua José Anchieta Fontana, 320/208 Editora FIOCRUZ, 1998. p. 57-71. CEP 29090-400 – Vitória – ES M ISHIMA, Silvana M. et al. Trabalha- e-mail: [email protected] Recursos Humanos para a Saúde. bilidade de reformulação do traba- Relatório Final Cadernos RH Saúde. lho. In: FALCÃO, A. et al. (Org.). Ob- Brasília, DF, v. 1, n. 1, 1993a. servatório de recursos humanos no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FIO CRUZ , 2003. p. 137-156. Relatório final Cadernos RH Saúde, P AIM, Jairnilson da Silva. Recursos Brasília, DF, v. 1, n. 1, 1993b. humanos em saúde no Brasil: pro- . Constituição Federal de 1988. Constituição [da] República Federativa do Brasil. São Paulo: Ed. Saraiva, 2002. . Norma operacional básica de recursos humanos. Brasília, 2003. G ERUZA R IOS P ESSANHA T AVARES MINAYO, Maria Cecília de S. Represen- dores de saúde: problema ou possi- Recursos Humanos para a Saúde. e-mail: [email protected] Rua Eugênio Netto, 764/401 B RASIL. I Conferência Nacional de . II Conferência Nacional de CEP 29016-040 – Vitória – ES blemas crônicos e desafios agudos. São Paulo: Editora da Faculdade de Saúde Pública da USP, 1994. MARTA ZORZAL E S ILVA CEP 29055-090 – Vitória – ES e-mail: [email protected] R ITA DE CÁSSIA D UARTE LIMA Rua Arthur Czartorisk, 315/202 CEP 29060-370 – Vitória – ES e-mail: [email protected] S CHEILA SILVA RASCH Rua Ulisses Sarmento, P AIM, Jairnilson da Silva; A LMEIDA 362/302, Bloco 3 F ILHO, Naomar de. A crise da saú- CEP 29052-320 – Vitória – ES de pública e a utopia da saúde co- e-mail: [email protected] letiva. Salvador: Casa da Qualidade, 2000. C AMPOS, Gastão Wagner de Souza. Reforma da reforma: repensando a saúde. São Paulo: H UCITEC, 1992. . Subjetividade e administração de pessoal: considerações sobre modos de gerenciar o trabalho em equipes de saúde. In: MERHY , Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 310-315, set./dez. 2003 315 MERHY, Emerson Elias & FRANCO, Túlio Batista ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Por uma Composição Técnica do Trabalho em saúde centrada no campo relacional e nas tecnologias leves. Apontando mudanças para os modelos tecno-assistenciais For a Technical Composition of Health Work based on the relationship field and light technology. Pointing to changes in the technical-assistance models Emerson Elias Merhy1 Túlio Batista Franco2 RESUMO A idéia central do artigo sugere que, ao realizar o cuidado, o trabalhador opera um núcleo tecnológico no seu processo de trabalho, composto por ‘trabalho morto’ (instrumental) e ‘trabalho vivo’ em ato. Os dois formam uma certa razão entre si, à qual chamamos de Composição Técnica do Trabalho (CTT), que pode trazer a hegemonia do ‘trabalho morto’, quando o modelo assistencial se caracteriza como médico-hegemônico, produtor de procedimentos. A mudança do modelo assistencial pressupõe impactar o núcleo do cuidado, compondo uma hegemonia do ‘trabalho vivo’ sobre o ‘trabalho morto’, quando então se caracteriza uma ‘transição tecnológica’, que no conceito aqui trabalhado, significa a produção da saúde, com base nas tecnologias leves, relacionais, e a produção do cuidado de forma integralizada, operando em ‘linhas de cuidado’ por toda a extensão dos serviços de saúde, centrado nas necessidades dos usuários. DESCRITORES: Pessoal de Saúde; Serviços de Saúde; Recursos Humanos em Saúde. ABSTRACT Médico sanitarista, professor livre docente da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Departamento de Medicina Preventiva da UNICAMP Rua Ana Fratta de Paula, 176 CEP 13104-028 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 1 Psicólogo sanitarista, doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) Assessor da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte Rua das Flores, 365/103 CEP 30460-210 – Belo Horizonte – MG e-mail: [email protected] 2 The core idea of this article suggests that when performing care, the worker operates a technological core within his/her work process, composed of a Dead Work (instrumental) and a Live Work. Both types form a certain reason between them, which we call Technical Work Composition (CTT), that can turn Dead Work homogeneous when the assistance-based model is characterized as a hegemonic physician, producer of processes. The change in the assistance-based model must cause impacts on the care core, turning Live Work hegemonic over Dead Work, and this moment is called Technological Transition, which in the concept handled here means the production of health based on light and relationship-based technologies and the production of care in an integral way, operating in “lines of care” throughout the health services, based on the users’ needs. 316 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 Por uma Composição Técnica do Trabalho em Saúde centrada no campo relacional e nas tecnologias leves. Apontando mudanças para os modelos tecno-assistenciais INTRODUÇÃO: MODELOS TECNO-ASSISTENCIAIS NA SAÚDE de organização da assistência é pro- arranjo de saberes da área (MERHY , duto dela (M ERHY, 2003). No âmbito 1991; CAMPOS, 1992). Esta produção da Reforma Sanitária brasileira e está associada, portanto, aos pro- Há algum tempo tem-se obser- nos primórdios da construção do Sis- cessos e tecnologias de trabalho, a vado que a mudança do modelo tec- tema Único de Saúde (SUS), nas dé- um certo modo de agir no sentido no-assistencial para a saúde depen- cadas de 1970 e 1980, o modelo as- de ofertar certos produtos e deles de menos de normas gerais e mais sistencial, entendido como a forma obter resultados capazes de melho- da produção da saúde, que se dá no de organização da assistência, or- rar a situação de saúde do usuá- espaço da micropolítica de organi- ganizou-se para a distribuição dos rio, individual e coletivo. Assim, en- zação dos processos de trabalho. Os serviços de saúde, de forma estru- tendemos que o campo de saberes e estudos que têm se dedicado a ob- tural hierarquizada, formalizando práticas da clínica é parte fundamen- servar e analisar a forma como se uma intervenção sobre o território. tal no debate sobre a organização da produz saúde indicam que esse é um Neste cenário, o debate se organiza- produção da saúde, associado aos lugar em que os sujeitos trabalha- outros saberes, sem excluir nenhum dores, individuais e coletivos, agem campo específico. Estudada a com- de forma interessada, isto é, de acor- plexidade dos problemas de saúde, do com projetos próprios, sejam es- somente é possível resolvê-los, con- tes de uma dada corporação, ou O MODELO ASSISTENCIAL mesmo da pessoa que ocupa um SE CONSTITUI A PARTIR DE certo espaço de trabalho. É um lu- tando também com multiplicidade de saberes e fazeres. Para melhor compreender a dimensão do problema que gar de permanente tensão à medida CERTAS CONTRATUALIDADES temos, recuperamos as contribuições que os interesses podem ser diver- ENTRE ESTES ATORES de Cecilio (1999) em torno da questão sos, e como é um espaço de produção, por natureza há o encontro de das necessidades, em que os autores SOCIAIS E POLÍTICOS apresentam uma taxonomia organizada em quatro grandes conjuntos: diferentes vontades, como a dos próprios trabalhadores, dos usuários, do governo instituído, dos mercados que se entrecruzam na esfera da va muito em torno da oferta e da saúde, entre outros. demanda por serviços, com um pro- Em se ter ‘boas condições de vida’ (...) ter acesso e se poder consumir toda tecnologia de saúde capaz de melhorar e prolongar a vida (...) criação de vínculos (a)efetivos entre cada usuário e uma equipe e/ou um profissional (...) necessidade de cada pessoa ter graus crescentes de autonomia no seu modo de levar a vida. Todos os atores que se colocam cesso de trabalho que operava cen- em cena, implicados com a produ- trado no conhecimento da vigilân- ção da saúde, governam certos es- cia à saúde, instrumentalizada pela paços, dado o grau de liberdade que epidemiologia, e com pouca inter- existe no agir cotidiano do trabalho venção sobre as práticas desenvol- Identificamos o campo da saúde em saúde. Isso pressupõe que o vidas no campo da clínica (MENDES , coletiva como o lugar privilegiado de modelo assistencial se constitui 1994; F RANCO ; MERHY, 1999). fazer esta discussão, visto que con- sempre, a partir de certas contratua- Temos buscado compreender os grega em torno de si os saberes da lidades entre estes atores sociais e modelos assistenciais como formas área, como a clínica, epidemiologia, políticos. Mesmo que esta pactua- de organização da produção de ser- planejamento, a psicanálise, filosofia, ção se dê sob forte tensão, a forma viços, a partir de um determinado estando ainda aberta a incluir outros Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 317 MERHY, Emerson Elias & FRANCO, Túlio Batista como o saber da análise institucio- duz centrada no ato prescritivo, com- gular como cada profissional aplica nal, que recentemente vem sendo in- pondo um modelo que tem, na sua seu conhecimento para produzir o corporado ao campo de debate em natureza, o saber médico hegemôni- cuidado (M ERHY, 1997). torno da saúde (L’ABBATE, 2003). co, produtor de procedimentos. Por Historicamente, a formação do outro lado, estas podem se dar como modelo assistencial para a saúde relações intersessoras estabelecidas esteve centrado nas tecnologias du- no trabalho em ato, realizado no cui- ras e leve-duras, visto que, aquele dado à saúde (MERHY, 2002). A estas, se deu a partir de interesses corpo- chamamos de tecnologias leves, pelo rativos, especialmente dos grupos Olhando sobre a conformação seu caráter relacional, que a coloca econômicos que atuam na saúde. dos modelos assistenciais, com foco como forma de agir entre sujeitos tra- No plano da organização micropo- na micropolítica de organização dos balhadores e usuários, individuais e lítica do trabalho em saúde, este processos de trabalho, temos como coletivos, implicados com a produ- modelo produziu uma organização A MICROPOLÍTICA DE ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO NA CONSTITUIÇÃO DO MODELO ASSISTENCIAL 1 primeira referência as contribuições do trabalho com fluxo voltado à de Ricardo Bruno Mendes Gonçalves consulta médica, em que o saber (1994) que trouxe para este campo médico estrutura o trabalho de ou- de análise, os conceitos de ‘tecnolo- tros profissionais, ficando a produ- gias materiais’ para os instrumentos e ‘tecnologias não-materiais’ para o conhecimento técnico usados na produção da saúde. Nossas observações têm concluí- O TRABALHO EM SAÚDE É SEMPRE RELACIONAL , PORQUE DEPENDE DE ‘TRABALHO VIVO ’ EM ATO , ISTO É, O TRABALHO NO MOMENTO EM do que, para além dos instrumentos QUE ESTE ESTÁ PRODUZINDO e conhecimento técnico, lugar de tec- ção do cuidado dependente de tecnologias duras e leve-duras. Observando o fazer cotidiano de um trabalhador da saúde, no seu micro-espaço de trabalho, em especial a micropolítica que ali se desenvolve, temos constatado que, ao re- nologias mais estruturadas, há um alizar o cuidado, ele opera, no seu outro, o das relações, que se tem processo de trabalho, um núcleo tec- verificado como fundamental para a nológico composto de ‘trabalho mor- produção do cuidado. Partimos do ção do cuidado. As tecnologias ins- to’ (TM) e ‘trabalho vivo’ (TV) (FRAN- pressuposto que o trabalho em saú- critas nos instrumentos, identifica- CO, de é sempre relacional, porque de- mos como tecnologias duras, porque são os instrumentos, e é definido as- pende de ‘trabalho vivo’ em ato, isto já estão estruturadas para elaborar sim porque sobre eles já se aplicou é, o trabalho no momento em que este certos produtos da saúde, e ao co- um trabalho pregresso para sua ela- está produzindo. Estas relações po- nhecimento técnico, identificamos boração. ‘Trabalho vivo” é o traba- dem ser de um lado, sumárias e bu- uma parte dura (estruturada e outra lho em ato, campo próprio das tec- rocráticas, onde a assistência se pro- leve, que diz respeito ao modo sin- nologias leves (MARX , 2001; MERHY, 2003). No caso, ‘trabalho morto’ “Intersessoras está sendo usado aqui com sentido semelhante ao de Deleuze, no livro Conversações, que discorre sobre a interseção que Deleuze e Guattari constituíram quando produziram o livro Antiedipo, que não é um somatório de um com outro e produto de quatro mãos, mas um ‘inter’, interventor. Assim, uso esse termo para designar o que se produz nas relações entre ‘sujeitos’, no espaço das suas interseções, que é um produto que existe para os ‘dois’ em ato e não tem existência sem o momento da relação em processo, e na qual os inter se colocam como instituintes na busca de novos processos, mesmo um em relação ao outro” (M ERHY, 2002. p. 50-51). 1 318 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 Por uma Composição Técnica do Trabalho em Saúde centrada no campo relacional e nas tecnologias leves. Apontando mudanças para os modelos tecno-assistenciais 2003). Este encontro em TM e TV no miliares, uma dada subjetividade que campos de necessidades relaciona- interior do processo de trabalho re- expressa sua história e, portanto, este dos acima. Observamos que o ins- flete uma certa correlação entre eles, conjunto deve ser olhado. Aqui ele tra- trumental e o ‘trabalho vivo’ estão no núcleo tecnológico do cuidado. A balha com a transferência de conhe- juntos no processo de trabalho, mas, esta correlação chamamos de Com- cimentos para o auto-cuidado, formas ao mesmo tempo, o TV exerce hege- posição Técnica do Trabalho (CTT), diversas de intervir sobre sua subjeti- monia sobre o TM. isto é, a CTT é a razão entre TM e TV. vidade, valorizando-o e aumentando Importa registrar que a CTT não é Inferimos daí que a Composi- sua auto-estima e, assim, de forma mensurável, é um analisador quali- ção Técnica do Trabalho, quando criativa, o projeto terapêutico deve ter tativo das tecnologias de cuidado favorável ao ‘trabalho morto’, re- o objetivo de realizar ganhos de au- presentes no processo de trabalho flete um processo de trabalho, tec- tonomia para viver a vida. (F RANCO, 2003). Se a razão existente aí nologias duras dependente, volta- No segundo caso, há um proces- estiver centrada no ‘trabalho vivo’, é do à produção de procedimentos e so de trabalho cujo núcleo de tecno- indicador que a relação entre traba- quando, ao contrário, houver pre- lhador e usuário, para a produção da dominância do ‘trabalho vivo’ em saúde, se dá sob parâmetros de im- ato, haverá uma produção do cui- plicação mútua, no reconhecimento dado centrado nas tecnologias le- que ali há o encontro de sujeitos que ves. Como exemplo, utilizamos o trabalho de um profissional da saúde, para atender à necessidade O MODELO ASSISTENCIAL QUE ADVOGAMOS, PORTANTO, do usuário, no cuidado à hiperten- DEVE OFERTAR TODOS OS são arterial. Aqui podemos dizer que RECURSOS TECNOLÓGICOS pode haver duas alternativas de projeto terapêutico: 1 ) ele cuida do a têm juntos protagonismos na produção da saúde e, sobretudo, estão presentes diretrizes de intervenção/relação de acolhimento, estabelecimento de vínculo e responsabilização. O modelo assistencial que ad- AOS CUIDADO DOS USUÁRIOS vogamos, portanto, deve ofertar problema de saúde, utilizando quase todos os recursos tecnológicos aos exclusivamente dos exames e medi- cuidado dos usuários e mesmo camentos, e tem um processo de tra- que este necessite, para sua assis- balho centrado no ato prescritivo. Nes- logias está centrado no ‘trabalho tência, de insumos de alta tecno- te caso, o núcleo tecnológico do cui- vivo’, formas de abordagens mais logia, o processo de trabalho pode dado está centrado no ‘trabalho mor- relacionais, operando dentro da ainda ter no seu núcleo de cuida- to’ (instrumental); 2 ) ele trabalha um idéia de que no encontro entre tra- do, a hegemonia do ‘trabalho vivo’, projeto terapêutico mais relacional balhador e usuário, este é também desde que aquela seja a necessi- com o usuário e, mesmo utilizando- sujeito da produção da saúde e dade real do usuário e o acesso à se do instrumental (exames e medi- pode, desta forma, ser também pro- mesma e sua utilização sejam sus- camentos), reconhece que aquele usu- tagonista de atos cuidadores, gera- tentados pelo encaminhamento se- ário, além de apresentar um proble- dores de autonomia. Esta forma de guro e trânsito tranqüilo em uma ma de saúde, traz consigo uma certa agir para a produção do cuidado é dada ‘linha do cuidado’ que garan- origem social, relações sociais e fa- capaz de intervir sobre os quatro ta a integralidade da atenção 2, isto a 2 Sobre Integralidade e Linhas do Cuidado, ver Cecílio e Merhy (2003); Franco e Magalhães Júnior (2003). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 319 MERHY, Emerson Elias & FRANCO, Túlio Batista é, o seu ‘caminhar na rede assis- vas tecnologias na produção da as- do modo de produzir saúde, no en- tencial’ acompanhado pelo profis- sistência em dois hospitais, um pú- tanto, a micropolítica de organiza- sional ou pela equipe com a qual blico e outro privado. No caso anali- ção do trabalho revela, especialmen- formou seu vínculo, onde esta se sado, é notório o impacto que cau- te na atividade clínica, um núcleo responsabiliza pelo encaminhamen- sa a incorporação tecnológica no do cuidado que continua operando to do seu projeto terapêutico. É hospital, mudando o processo de um processo centrado na lógica ins- como se houvesse um lastro de cui- trabalho, mas ao mesmo tempo, o trumental de produção da saúde dado, sustentando todos os atos as- núcleo tecnológico do cuidado per- (F RANCO ; MERHY , 2003). sistenciais ao usuário, o que pres- manece inalterado, isto é, centrado A saúde suplementar tem rees- supõe a freqüente presença do ‘tra- no trabalho morto, pouco relacio- truturado sua produção, com o ob- balho vivo’, a sustentar o princípio nal, o que revela a captura do ‘tra- jetivo de impactar os custos da as- da integralidade da assistência e a balho vivo’ pelo instrumental, a sistência à saúde. Isto vem sendo operação das linhas de cuidado. feito, introduzindo no campo da micro-regulação do trabalho, dire- REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E TRANSIÇÃO TECNOLÓGICA: PENSANDO A MUDANÇA NA SAÚDE, A PARTIR DA MICROPOLÍTICA DO PROCESSO DE TRABALHO trizes do managed care, que pressupõe o controle do ato prescritivo A SAÚDE SUPLEMENTAR TEM REESTRUTURADO SUA PRODUÇÃO, COM O OBJETIVO O debate em torno da reestruturação produtiva da saúde vem se DE IMPACTAR OS CUSTOS colocando em torno da discussão DA ASSISTÊNCIA À SAÚDE dos modelos tecno-assistenciais. do médico, com base em protocolos técnicos e a auditoria de um administrador, ao qual, muitas vezes, é delegado o poder de autorizar procedimentos que fogem à norma previamente estabelecida. No entanto, a produção do cuidado continua tendo a hegemonia das tecnologias Entendemos que a Reestruturação duras, apesar de haver impacto im- Produtiva é caracterizada por um portante no processo de trabalho do modo de produzir saúde, diferente médico, especialmente pela captura de um certo modelo adotado em não valoração da tecnologia leve no do seu micro processo decisório. momento anterior, em uma dada processo produtivo. (IRIART, 1999; MERHY , 2002). unidade produtiva de saúde, que Outro processo de Reestrutura- Em todos estes casos, observa- impacta processos de trabalho, sem ção Produtiva pode ser verificado mos que há mudanças em curso, a no entanto operar uma mudança na no Programa Saúde da Família, que partir da alteração verificada no pro- Composição Técnica do Trabalho em muitos casos, muda a forma de cesso de trabalho, mas ao mesmo (CTT). Identificamos que há vários produzir, sem no entanto alterar o tempo, a Composição Técnica do processos de Reestruturação Produ- processo de trabalho centrado nas Trabalho, isto é, a razão entre ‘tra- tiva da saúde, em curso no Brasil. tecnologias duras. A formação da balho vivo’ e ‘trabalho morto’, no Para ficarmos em três exemplos, de equipe, o deslocamento do traba- núcleo do cuidado, permanece sob lugares diferentes, mencionamos o lho para o território e o incentivo hegemonia do segundo, nos revelan- trabalho de Pires (1998) que relata ao trabalho de vigilância à saúde, do que não há uma alteração estru- o processo de incorporação de no- dão uma idéia de que há mudança tural no modo de produzir saúde. 320 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 Por uma Composição Técnica do Trabalho em Saúde centrada no campo relacional e nas tecnologias leves. Apontando mudanças para os modelos tecno-assistenciais O trabalho executado a partir da re- dutiva e Transição Tecnológica), mas ção secundária não teve o mesmo lação entre sujeitos, acolhedor e pro- ao debruçarmos sobre os efeitos que tratamento por parte dos formula- dutor de vínculo com responsabili- têm no cuidado ao usuário, um pro- dores das políticas de saúde, tendo zação sobre a clientela, acompa- cesso produtivo guiado por uma ló- as formulações para gestão deste nhando projetos terapêuticos cuida- gica instrumental e outro, por ‘tra- nível de cuidado, centrado sua aten- dores, é suprimido por uma lógica balho vivo’ em ato, que pressupõe ção na questão da oferta e deman- instrumental, tecnologias duras cen- uma lógica relacional, tecnologias da, sem no entanto avançar para tradas, realizado a partir do ato leves dependentes, observamos que imaginar um cenário de construção prescritivo. A mudança verificada são dois mundos muito distintos. de um modelo mais interativo com nestes casos não chega a alterar de fato as estruturas do modelo assistencial vigente, médico hegemônico produtor de procedimentos. os outros equipamentos. A integra- O TRABALHO VIVO COMO POTÊNCIA INSTITUINTE PARA A MUDANÇA DO MODELO ASSISTENCIAL lidade pressupõe e, portanto, exige um esforço em entender este outro conjunto de saberes e práticas no A reestruturação produtiva pode cuidado à saúde. Ao mesmo tempo vir a produzir mudanças no núcleo estes serviços têm sido um ‘nó críti- tecnológico do cuidado, compondo co’ para gestores e usuários, onde uma hegemonia do ‘trabalho vivo’ esses têm o seu ‘caminhar na rede’ e, neste caso então, passamos a trabalhar com outro conceito, que ajuda a pensar a mudança neste nível, O TEMA DA INTEGRALIDADE dificultado por falta de integração destes recursos assistenciais. DA ATENÇÃO À SAÚDE GANHA O tema da integralidade da aten- no modo de produzir saúde, que é o RELEVÂNCIA E VEM SE PRODUZINDO ção à saúde ganha relevância e vem de Transição Tecnológica. Esta é EM TORNO DE UMA IMAGEM DE se produzindo em torno de uma ima- caracterizada por mudanças no CONSTRUÇÃO DE ‘LINHAS DO CUIDADO’ gem de construção de ‘linhas do cui- modo de produzir saúde, impacta dado’, que significam a constituição processos de trabalho, alterando a de fluxos seguros a todos serviços correlação das tecnologias existen- que venham atender às necessidades tes no núcleo tecnológico do cuida- dos usuários (CECILIO; MERHY, 2003; do, a Composição Técnica do Tra- FRANCO ; MAGALHÃES JÚNIOR , 2003). Sur- balho. É sempre um processo de O debate em torno da organiza- ge como um tema que é transversal construção social, política, cultural, ção da assistência à saúde ocupou- ao conjunto de necessidades de saú- subjetiva e tecnologicamente deter- se, até o momento, principalmente de, já mencionados neste texto. As- minado. Assim deve configurar um da discussão em torno do equipa- sim, a integralidade aparece em todo novo sentido para as práticas assis- mento hospitalar, pela flagrante he- núcleo de competências que se es- tenciais tendo como conseqüência o gemonia do hospital na história da truturam em unidades produtivas impacto nos resultados a serem ob- formação do modelo assistencial, e que ofertam cuidados à saúde. A ‘li- tidos, por intermédio dos usuários de outro lado, a atenção básica sur- nha do cuidado’ disponibilizada aos e na resolução dos seus problemas. giu como um projeto contra-hegemô- usuários movimenta-se acionada por A princípio pode-se imaginar que há nico, ao qual se dedica grande par- certos projetos terapêuticos que re- uma tênue linha divisória entre os te dos estudos e da literatura dispo- quisitam recursos para a assistên- dois conceitos (Reestruturação Pro- nível. Entre estes dois pólos, a aten- cia aos usuários, e aí forma-se o en- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 321 MERHY, Emerson Elias & FRANCO, Túlio Batista contro entre o mundo das necessida- tre unidades produtivas em diversos CECILIO , Luis Carlos de Oliveira. As des com o das intencionalidades dos níveis de atenção depende, fundamen- Necessidades de Saúde como Con- trabalhadores protagonistas de cer- talmente, do esforço e vontade polí- ceito Estruturante na Luta pela In- tas cartografias que vão se desenhan- tica em integrar estes serviços. Em tegralidade e Equidade na Atenção do e dando forma à integralidade na outro nível, aparecem como funda- em Saúde. Rio de Janeiro: UERJ /IMS/ saúde. Este agir na saúde traz consi- mentais a rede de conversas que se ABRASCO , 2001. go inúmeros elementos, inclusive os estabelece em cada serviço deste, que das tecnologias de cuidado, as quais vão compor a ‘linha do cuidado’. sugerimos que tenham a hegemonia Esta deve ocorrer entre os trabalha- do ‘trabalho vivo’ em ato, calçando dores, como parte integrante de uma ção das Linhas de Cuidado. In: um trabalho mais relacional, tecno- rede de petição, onde há mútua im- MERHY, Emerson Elias et al. “O Tra- logias leves centradas. Isto significa plicação com o processo produtivo balho em Saúde: olhando e experi- romper com a lógica prescritiva da que é, por natureza, formado a par- enciando o SUS no cotidiano”. São atividade assistencial, que a captu- tir dos saberes e fazeres, que vão se Paulo: HUCITEC, 2003. ra do ‘trabalho morto’ exerce, em to- expressar em atos como o do acolhi- dos os níveis da assistência. mento em cada serviço deste, a vin- FRANCO, Túlio B.; M AGALHÃES, J. R. Atenção Secundária e a Organiza- FRANCO, Túlio B. Processos de trabalho e transição tecnológica na saú- Entendemos que para conseguir culação de clientela e responsabili- operar satisfatoriamente a integra- zação com seu cuidado e sobretudo, lidade, nos campos de necessidades para um trânsito seguro na linha do descritos aqui, o espaço da micro- cuidado, é necessária uma gestão política do processo de trabalho, eficaz por parte da equipe de saúde, GONÇALVES, R. B. M. Tecnologia e Or- como vimos, aparece com evidên- à qual o usuário está vinculado, do ganização Social das Práticas de cia na medida que este é um lugar seu projeto terapêutico. Isto se dá, Saúde. São Paulo: HUCITEC , 1994. por excelência de encontro entre os com objetivo de garantir que os atos sujeitos trabalhadores e usuários, cuidadores sejam de fato eficazes portanto, onde se dá o agir no coti- para conseguir os resultados de au- diano do cuidado à saúde. tonomização, fazendo da integrali- de. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP ), SP, 2003. IRIART, A. C. Atenção Gerenciada: Instituinte a Reforma Neoliberal. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), SP, 1999. Uma pergunta que surge freqüen- dade um importante dispositivo temente em coletivos de trabalhado- para a abertura de muitos proces- L’ABBATE, S. A análise institucional e a res e gestores dos serviços de saúde sos de mudança em toda rede as- saúde coletiva. Ciência & Saúde Co- é: como isto se dá, ou seja, como sistencial. Sobretudo, age assim letiva, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, 2003. operar para constituir ‘linhas de cui- como dispositivo instituinte do pro- dado’ que agem interessadamente em cesso de trabalho e da produção do defesa da vida, centradas nas neces- cuidado em saúde. sidades dos usuários? Aqui aparece como fundamental, a necessária pac- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MARX , Karl. O Capital – Livro 1, Vol. 1. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2001. MENDES , Eugênio Vilaça et al. Distrito Sanitário: o processo social de tuação entre os diversos gestores dos serviços implicados em ofertar os re- CAMPOS , Gastão Wagner de Souza. A mudança das práticas sanitárias do cursos em produzir o cuidado aos Saúde Pública e a Defesa da Vida. Sistema Único de Saúde. São Paulo: usuários. A definição dos fluxos en- São Paulo: HUCITEC, 1994. HUCITEC, 1994. 322 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 Por uma Composição Técnica do Trabalho em Saúde centrada no campo relacional e nas tecnologias leves. Apontando mudanças para os modelos tecno-assistenciais MERHY , Emerson Elias. Saúde: A Cartografia do Trabalho Vivo. São Paulo: HUCITEC, 2002. . Um dos Grandes Desafios para os Gestores do SUS: apostar em novos modos de fabricar os modelos de atenção. In: M ERHY, Emerson Elias et al. O Trabalho em Saúde: olhando e experienciando o SUS no cotidiano. São Paulo: H UCITEC, 2003. P IRES, D. Reestruturação Produtiva e Trabalho em Saúde no Brasil. São Paulo: A NABRUME/CNTSS, 1998. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 316-323, set./dez. 2003 323 ASSIS, Marluce Maria Araújo ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES O processo de construção do controle social no Sistema Único de Saúde e a gestão nos espaços institucionais The building process of social control in the Brazilian Health System and administration in institutional areas RESUMO Marluce Maria Araújo Assis1 O presente artigo resgata brevemente a história do controle social, descreve a legislação brasileira que assegura a participação da comunidade no Sistema Único de Saúde (SUS), e aponta a gestão institucional como espaços coletivos de participação, envolvendo diversas representações sociais (governo, trabalhadores de saúde, prestadores de serviço e usuários). Tomando como base as análises de Campos (2000; 2003) e do Ministério da Saúde (BRASIL, 1998), são ressaltadas as condições de legitimidade dos espaços coletivos organizados como lócus de enfrentamento, autonomia, visibilidade e articulação institucional e social. Conclui-se que o controle social vem sendo experimentado por coletivos organizados em realidades locais e regionais. O desafio é a construção de um sistema de saúde universal, resolutivo e compartilhado pela sociedade. DESCRITORES: Organização e Administração; Legislação e Jurisprudência; Sistema de Saúde. ABSTRACT This article briefly talks about the history of social control, describes the Brazilian legislation that ensures community participation in the Health System (SUS), and points at institutional management as collective participation spaces, involving various social representatives (government, health workers, service providers and users). Based on the analyses of Campos (2000; 2003) and of the Health Ministry (BRAZIL, 1998), the conditions of legitimacy of Enfermeira, docente do Departamento de Saúde da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora do Núcleo de Pesquisa Integrada em Saúde Coletiva (N UPISC ) e-mail: [email protected] 1 organized collective spaces are pointed out as locus of confrontation, autonomy, visibility and institutional and social articulation. As a conclusion it is perceived that social control is being experienced by organized collectives in local and regional realities. The building of a health system considered universal, operational and shared by society constitutes a challenge. DESCRIPTORS: Organization and Administration; Legislation and Jurisprudence; Health System. 324 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 O processo de construção do controle social no Sistema Único de Saúde e a gestão nos espaços institucionais INTRODUÇÃO vamente por meio de distintas arti- nicos e convergentes, ainda que os culações e representações sociais, a processos de discussão e pactuação A inspiração inicial deste traba- saber: movimentos populares, enti- busquem acordos em defesa de in- lho teve sua origem na produção de dades de classe, sindicatos, gover- teresses individuais e/ou coletivos. dois artigos (A SSIS; KANTORSKI; T AVA- no, entidades jurídicas, prestadores Para o desenvolvimento do tex- RES , 1995; ASSIS; VILLA, 2003), dos de serviço, entre outros, além de uma to, resgatamos brevemente a cons- quais extraímos questões que ser- população com suas necessidades e trução histórica do controle social; viram de base para a discussão da interesses envolvendo o indivíduo, em seguida, descrevemos e comen- temática que ora apresentamos neste a família e grupos da comunidade. tamos sobre o direito à participação texto. No primeiro momento, em Os espaços institucionais de ges- como conquista legal, e, por fim, 1995, o eixo de discussão era a par- tão compartilhada no Sistema Úni- apontamos as condições que possi- ticipação social articulada à ques- co de Saúde (SUS) são os Conselhos bilitam a legitimidade da participa- tão da cidadania e dos direitos so- e as Conferências de Saúde que, na ção social no SUS. ciais; os caminhos do direito à saú- CONTROLE SOCIAL: UM BREVE RESGATE HISTÓRICO de; e a participação social como possibilidade de construção de sujeitos sociais. No segundo momento, em 2002, discutiu-se a partici- O FATO DE CONTAR COM ESPAÇOS O controle social em saúde, no pação social como conquista jurídi- INSTIGANTES DE DISCUSSÃO E DE Brasil, vem adquirindo denomina- co-institucional e as suas condições REFLEXÃO TEM SIDO MUITO ções diferenciadas ao longo de sua para legitimar-se socialmente. Analisamos também a informação como elemento fundamental para a gestão e o controle social. Outras fontes de inspiração têm IMPORTANTE PARA COMPREENDER A história. Do início do século XX até meados dos anos 1960, predomina- PRÁTICA DA PARTICIPAÇÃO SOCIAL va no país o modelo pautado no ‘sa- COMO UM CAMPO DE RELAÇÕES SOCIAIS nitarismo campanhista’ (M ENDES , 1996), que procurava explicar os pro- sido o exercício da participação cole- blemas de saúde por meio da rela- tiva, no espaço acadêmico do Núcleo ção linear entre agente e hospedeiro. de Pesquisa Integrada em Saúde Co- última década do século passado, As ações de saúde pública eram de- letiva (NUPISC ) e a participação em se- protagonizaram a participação da senvolvidas através de campanhas minários, reuniões e conferências mu- comunidade na gestão do sistema. sanitárias, visando combinar o fun- nicipais de saúde em alguns municí- Dessa forma, estes espaços coleti- cionamento da sociedade com as ne- pios do estado da Bahia, a exemplo vos vêm acumulando experiências cessidades do mercado econômico, de Alagoinhas e Nordestina. de articulação entre os diferentes em especial a exportação de produ- O fato de contar com espaços ins- atores sociais, nos municípios, nos tos agrícolas, com forte predomínio tigantes de discussão e de reflexão estados e no âmbito nacional. Além da economia cafeeira. tem sido muito importante para com- disso, ficam demarcados os distin- Nesse período, o controle social preender a prática da participação tos olhares sobre as realidades – em em saúde, segundo Carvalho (1995) social como um campo de relações que as disputas de poder estão pre- e Carvalho, Petris e Turini (2001), sociais. Este campo é representado sentes – de conflitos, de interesses e era visto como medida sanitária de por sujeitos que se organizam coleti- de negociação, nem sempre harmô- controle do Estado sobre a socieda- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 325 ASSIS, Marluce Maria Araújo de, por meio de algumas medidas, sume um papel secundário, de as- munitária, vinculada às experiênci- como por exemplo o combate de sessoria ou de fiscalização a poste- as de medicina comunitária desen- vetores (nos casos da peste e da fe- riori dos atos da presidência. volvidas nos centros comunitários bre amarela) e de imunização com- Na década de 1960, os institutos de saúde norte-americanos, confor- pulsória da população (no caso da são unificados com a criação do Insti- me análise de Carvalho (1995), e varíola). O Estado adotava medi- tuto Nacional de Previdência Social reinterpretada por Carvalho, Petris das de intervenção em pessoas e (INPS) e, finalmente, a assistência e Turini (2001). grupos sociais em nome da saúde médica passa a ser de responsabili- Os autores mencionam que os de todos. Ou seja, o controle era dade do Instituto Nacional de Assis- elementos estruturais da medicina exercido pelo Estado sobre a socie- tência Médica e Previdência Social comunitária adotados nos centros dade e, desta maneira, a popula- (INAMPS), criado em 1974 (OLIVEIRA; TEI- comunitários tinham o caráter de ção era alvo das ações de saúde. XEIRA, 1986). Em 1964, com o golpe assistência social (dirigia-se aos militar, esvazia-se a participação do mais pobres, com grande risco so- Ainda nesse período, as ações de saúde eram dicotômicas, cabendo ao cial e sanitário); de educação (trans- Ministério da Saúde (e, antes da cria- missão de conhecimentos que esti- ção deste, ao Ministério da Educa- mulassem a solidariedade, o coleti- ção e Saúde) as ações de caráter vismo e o autocuidado); de integra- preventivo; e ao sistema previden- lidade (programas de atenção à saú- ciário as ações curativas, com o pro- NO BRASIL, pósito de atender somente os traba- A EXPERIÊNCIA DE zação comunitária (o êxito do tra- lhadores inseridos no mercado for- PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA balho dependia do grau de integra- mal de trabalho. A organização do TEVE POUCA REPERCUSSÃO sistema previdenciário foi edificada de) e de descentralização e organi- ção da comunidade). Nesse sentido, a participação nos anos de 1923 a 1930, por meio comunitária advém do termo ‘comu- das Caixas de Aposentadorias e Pen- nidade’ e é entendida, segundo Car- sões (CAPs), sendo assegurados aos valho (1995), como um agrupamen- trabalhadores dois representantes por to de pessoas que coabitam no mes- empresa no Conselho de Administra- trabalhador no sistema. O Estado mo ambiente em condições sociais ção (OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1986). assume a direção do INPS em 1966, e culturais homogêneas, predispos- Os autores citados acima referem e os empregados e empregadores tas à solidariedade coletiva e ao tra- que entre 1930-1945 foram criados perdem o direito de gerir e definir as balho voluntário de auto-ajuda. os Institutos de Aposentadorias e políticas previdenciárias e de saúde. No Brasil, a experiência de par- Pensões (IAP), organizados por ca- Ressalte-se, no entanto, que tam- ticipação comunitária teve pouca tegorias funcionais (marítimos, co- bém no início do século XX houve repercussão, considerando que hou- merciários, bancários, entre outros), forte influência norte-americana nas ve uma crescente intervenção esta- e a representação de empregados e formas de participação da socieda- tal, pela previdência social; e no empregadores passou a ser feita de no cenário internacional, forman- campo da saúde pública as práti- pelos sindicatos. Nesse momento, a do uma nova perspectiva de relação cas dominantes centravam-se no sa- representação – tanto dos emprega- Estado-sociedade no setor saúde. nitarismo campanhista. No entanto, dos quanto dos empregadores – as- Daí o surgimento da participação co- houve apoio de instituições norte- 326 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 O processo de construção do controle social no Sistema Único de Saúde e a gestão nos espaços institucionais americanas na implantação de unidades de saúde que adotassem os elementos estruturais da medicina comunitária, a exemplo dos Serviços Especiais de Saúde Pública (SESP ). bilitem aos indivíduos, às famílias e às comunidades assumir a responsabilidade para sua saúde e bem-estar. (OMS/U NICEF, 1989, p.14) Na década de 1980, emergem Destaca-se que, na década de crises: da sociedade, do Estado e das 1970, a participação comunitária ideologias. Os movimentos sociais restringia-se a algumas participa- se diversificaram, passando a lutar ções pontuais, anuladas na sua di- por uma nova ordem democrática. mensão participativa, principalmen- Este cenário possibilitou em seus te pelo quadro político centralizador espaços de contradição o surgimen- e autoritário, e pelo modelo domi- to da participação popular, por meio nante de organização das ações e de diferentes organizações: os mo- serviços de saúde, fortemente vin- tava era a idéia de participação social como parte do processo de gesque se efetivar em órgãos colegia- T URINI , 2001). No entanto, no final da referida O grande desafio que se apresen- tão do sistema de saúde. Haveria culadas à previdência social (C ARVALHO ; PETRIS; do acesso aos bens e serviços. Nesse contexto, os problemas sociais da população deslocam-se da dimensão técnica para a dimensão política. A concepção do processo saúde-doença passa a enfatizar a dimensão que o meio social exerce no curso das doenças e o risco sanitário passa a ser permanentemente associado à dificuldade de acesso da população aos bens e serviços essenciais, entre eles a educação, moradia, saúde, lazer. dos e representativos que reconhe- década, conforme discute Carvalho O GRANDE DESAFIO QUE cessem e legitimassem as organiza- (1997), tiveram início as lutas co- SE APRESENTAVA ERA A lidade de compartilhar poder entre aos movimentos sociais urbanos, o IDÉIA DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL os gestores, trabalhadores de saúde que resultou numa contestação fron- COMO PARTE DO PROCESSO DE munitárias por saúde, articuladas tal ao regime militar de 1964, identificado com práticas políticas coer- ções da sociedade civil, com a fina- GESTÃO DO SISTEMA DE SAÚDE e usuários do sistema. Em meados da década de 1980, com a implantação das Ações Integradas de Saúde (AIS), vislum- citivas e socialmente excludentes. brava-se a construção do processo Por outro lado, no cenário interna- de descentralização com a univer- cional merece destaque a Conferên- salização do acesso e a integração cia de Alma Ata em 1978 (OMS/UNI- vimentos ligados às associações de CEF , 1989), que defendia a participa- moradores, sindicatos, e à Igreja, ção comunitária como forma de en- que buscavam como objetivo co- volver a comunidade na solução dos e cura. Foram instituídos mecanis- mum a transformação política do seus problemas, canalizando mais mos de administração descentrali- país, aliada ao movimento pela recursos dela própria para esse fim, zados com a constituição de órgãos mudança das práticas sanitárias do conforme explicitado na Declaração: gestores: Comissões Interinstitucio- sistema de saúde. nais de Saúde, organizadas em ní- recomenda-se que os governos incentivem e assegurem a plena participação da comunidade por meio da efetiva divulgação de informação pertinente, de crescente alfabetização e do desenvolvimento dos necessários instrumentos institucionais que possi- interinstitucional para superar a clássica dicotomia entre prevenção Carvalho, Petris e Turini (2001. vel estadual (CIS), regional (C RIS) e p. 97) resumem o cenário daquele municipal (CIMS). Estas comissões momento: contavam com a participação de A categoria comunidade é substituída pela categoria povo, entendido como parcela da população excluída gestores do sistema público de saúde, prestadores de serviços públicos e privados, representantes de enti- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 327 ASSIS, Marluce Maria Araújo dades representativas de trabalha- que contemplassem a universaliza- de nosso país. O setor saúde reflete dores de saúde e da população. ção do atendimento, descentralizas- essas contradições nos discursos e Ainda compõem o cenário da re- sem a atenção à saúde e diminuís- nas práticas geradas e conformadas ferida década os novos movimentos sem custos. As referidas estratégi- nos espaços sociais e institucionais. sociais, distintos dos tradicionais as têm como principais marcos his- Por um lado, as forças sociais insti- (partidos e sindicatos), que propu- tóricos: as Ações Integradas de Saú- tuídas (sobretudo as aliadas ao pro- seram novas formas de participação de (AIS), em 1983; o Sistema Unifi- jeto neoliberal) têm gerado um mo- e a construção de novas identida- cado e Descentralizado de Saúde delo de saúde discriminatório e de- des sociais. Assim, conforme lem- (S UDS), em 1987; e o Sistema Único sigual, dominado pela lógica mer- bram Assis, Kantorski e Tavares de Saúde (SUS), em 1988. cadológica; por outro lado, no en- 1 (1995), esses novos sujeitos, com O caminho trilhado alia-se à frentamento das questões de saúde suas novas identidades e espaços de ‘reorganização’ e ‘reestruturação’ do se edificam movimentos instituintes luta, passaram a ser reconhecidos Estado e da sociedade brasileira com em defesa do SUS, que vem engen- como propulsores dos ‘novos movi- drando um ‘jeito democrático’ de mentos sociais’ (a exemplo do mo- agir, um novo modelo de Estado e vimento das Diretas Já). novas relações sociais. Cabe destacar que, articulado a esse movimento mais amplo da so- O CONTROLE SOCIAL ciedade, tinha-se o movimento da reforma sanitária, liderado por tra- É ASSEGURADO NA balhadores da saúde comprometidos LEI 8.142, com as necessidades de mudança. Estas mudanças vêm sendo desen- DE 28 DE DEZEMBRO DE 1990 CONTROLE SOCIAL: A CONQUISTA NA LEGISLAÇÃO O Controle Social é assegurado na Lei 8.142, de 28 de dezembro de 1990 (CARVALHO; SANTOS, 1995), reconhecen- cadeadas com a progressiva libera- do a participação da comunidade na lização do regime autoritário e com gestão do SUS, mediante a criação a consolidação de espaços institu- de Conferências e de Conselhos de cionais mais democráticos e parti- Saúde. As Conferências possuem o cipativos. Além disso, surgem no- suas contradições e antagonismos papel preponderante de avaliar a si- vos projetos de racionalização e re- sociais. Haveria que se enfrentar esse tuação da saúde e propor as diretri- formas do setor saúde no país, evi- desafio, se considerarmos a multi- zes para a formulação das políticas denciados por estratégias políticas plicidade de interesses e de valores de saúde. Os Conselhos formulam 1 Os princípios reformistas indicam teoricamente as proposições políticas desse período e estão contidos nos documentos bases da Reforma Sanitária, porém, mesmo correndo o risco de sermos repetitivos, passamos a explicitá-los, por entender que necessitamos de um esforço constante para incorporar e fazer valer este ideário na prática social, considerando a universalidade como a garantia de acesso de toda e qualquer pessoa a todo e qualquer serviço de saúde, seja ele público ou contratado pelo poder público; eqüidade que confira a igualdade de insumos e de acesso por necessidades iguais enquanto valor e princípio normativo de estruturação do sistema de saúde; a integralidade individual e do sistema de saúde, reconhecendo-se que deva existir uma integração na relação profissional-usuário, abrangendo a totalidade psicofisiológica e social, como um todo indivisível, inserido numa organização institucional que englobe ações de promoção, proteção e recuperação da saúde; a descentralização financeira, de poder e de autonomia relativa aos municípios para melhoria de eficiência e eficácia dos serviços ao nível local; participação e controle social, compreendidos estes espaços enquanto instâncias problematizadoras, de exercício da democracia e da atualização de identidade das lutas de saúde no país. 328 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 O processo de construção do controle social no Sistema Único de Saúde e a gestão nos espaços institucionais estratégias e atuam no controle da Os Conselhos de Saúde são, por- cias possam ser espaços de avalia- tanto, instâncias internas à estrutu- ção e proposições de diretrizes para A Lei 8.142/1990 explicita a ra do SUS e as suas deliberações a formulação de políticas de saúde composição dos Conselhos de Saú- deveriam, em geral, ser resultados nos três níveis de governo (nacio- de. Garante a representação dos se- de negociações com os órgãos exe- nal, estadual e municipal). No perí- guintes setores: governo, prestado- cutores (Ministério da Saúde, Secre- odo de 1986 a 2000 foram realiza- res de serviços, profissionais de tarias Estadual e Municipal de Saú- das quatro Conferências Nacionais saúde e usuários. Define também a de), que teriam como eixos orienta- de Saúde e diversas Conferências Es- paridade da composição de usuá- dores: representatividade de seus taduais e Municipais. rios em relação às demais represen- membros, visibilidade de suas pro- A Conferência, que se transfor- tações; ou seja, 50% do número to- posições, transparência das relações mou em um grande marco na cons- tal de conselheiros serão de repre- e a articulação com a sociedade. trução do projeto da reforma sani- sentantes dos usuários, e os outros Seria a garantia do processo demo- tária, ocorreu em 1986, a VIII Con- execução das políticas de saúde. 50% serão de representantes dos ferência Nacional de Saúde, com demais segmentos. participação pela primeira vez da O guia de referência para Conselheiros Municipais (BRASIL , 1998a) sociedade brasileira, contando com A C ONFERÊNCIA, QUE SE três mil delegados (CONFERÊNCIA, 1986). nos Conselhos de Saúde, segundo TRANSFORMOU EM UM mento histórico, por parte dos mili- critérios estabelecidos pelo Conse- GRANDE MARCO NA informa a recomendação das vagas lho Nacional de Saúde, sendo assim distribuídas: 25% para traba- tantes da saúde, pois ele coloca na ordem do dia da sociedade brasilei- CONSTRUÇÃO DO PROJETO lhadores de saúde e 25% para pres- DA REFORMA SANITÁRIA, tadores de serviços públicos e pri- OCORREU EM 1986 vados. Os conselheiros teriam que Há um reconhecimento deste mo- ra a discussão do direito à saúde; avança também na compreensão do conceito de saúde, passando a concebê-lo enquanto resultante das con- ser indicados pelas entidades ou dições de vida e das formas de or- movimentos a que pertencem, me- ganização da produção. A referida diante discussão ampliada entre os crático e a qualidade das ações no Conferência apontou ainda: saúde pares ou outras entidades e movi- processo de gestão institucional. como direito de todo cidadão e dever mentos afins. Esta questão merece Ao trazer para a discussão ou- do Estado; criação de um sistema úni- uma reflexão, já que a exigência tra forma de se exercer o controle co de saúde – descentralizado, com legal de paridade e representação social no SUS – as Conferências de acesso universal, integrando práticas coletiva nem sempre vem acompa- Saúde –, é preciso ter claro que es- preventivas e curativas, e que tivesse nhada de escolhas democráticas e tas são fóruns de representação a participação da população –, por participação consciente. Até mesmo ampla e democrática dos diversos intermédio dos conselhos de saúde, porque ainda temos na sociedade segmentos sociais: usuários do SUS, como parte constitutiva deste sistema. brasileira baixa politização das profissionais de saúde, gestores, Em 1992, foi realizada a 9ª Con- demandas, se revelando como um prestadores dos serviços de saúde, ferência (CONFERÊNCIA,1992), fortale- processo de aprendizagem na orga- parlamentares, entre outros. Além cendo o cumprimento da Lei que nização do sistema de saúde. disso, espera-se que as Conferên- rege o SUS. Em 1996, aconteceu a Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 329 ASSIS, Marluce Maria Araújo 10ª Conferência (BRASIL, 1998b, que aumentando sua capacidade de ana- interesses públicos? Quais são os reafirmou o Sistema Único de Saú- lisar e de operar sobre o mundo (prá- interesses representados? Principal- de sob a lógica da solidariedade. xis)” (C AMPOS, 2000. p. 185). mente, se considerarmos que os Con- Foram discutidas e reafirmadas: Não se pode negar que o SUS selhos de Saúde são órgãos colegia- a universalização não excludente; a encontra-se regulamentado desde dos, de caráter permanente e delibe- participação social consciente; e 1990, e uma série de processos par- rativo, e têm a responsabilidade de a descentralização financeira com ticipativos foram desencadeados em definir, fiscalizar e avaliar as políti- reestruturação de poder, com o pro- vários ‘cantos’ deste Brasil, ainda cas de saúde e a gestão do sistema pósito de melhorar a eficiência e efi- mais se tomarmos os avanços da no atendimento às demandas e pro- cácia dos serviços em nível local. descentralização via municipalização posições dos segmentos sociais. A 11ª Conferência Nacional de da saúde e se examinarmos a am- No entanto, o que se percebe mui- Saúde (BRASIL , 2001), realizada em pliação do número de conselhos mu- tas vezes, na prática, são manifesta- dezembro de 2000, teve como fina- nicipais, atendendo aos dispositivos ções de interesse individual deste ou lidade reforçar as diretrizes das Con- daquele grupo, em detrimento dos ferências anteriores. O tema central interesses coletivos. É preciso se cons- do encontro foi: Efetivando o SUS – truir uma nova cultura de compro- Acesso, Qualidade e Humanização misso coletivo nos espaços de ges- da Atenção à Saúde com Controle Social. Os participantes indicavam os avanços e colocavam os desafios que deviam ser enfrentados para que se alcançasse o objetivo de concretizar o SUS. No período de 7 a 11 de dezem- ACONTECERÁ A 12ª CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, TENDO COMO TEMA CENTRAL “S AÚDE, UM DIREITO DE TODOS E UM DEVER DO E STADO: A SAÚDE QUE TEMOS E O SUS QUE QUEREMOS ” tão colegiada, visando a produção de sujeitos com capacidade de análise e de intervenção em defesa dos interesses da sociedade. Concordamos com Carvalho (1997) quando diz que os Conselhos de Saúde devem representar e defen- bro do corrente ano (2003) aconte- der os interesses da sociedade, cum- cerá a 12ª Conferência Nacional de prindo a função de indutores de res- Saúde, tendo como tema central ponsabilidade governamental, enten- “Saúde, um direito de todos e um legais. O município, nesse contexto, dida como a qualidade dos gover- dever do Estado: a saúde que temos deveria representar um espaço privi- nos de estar à altura da confiança e e o SUS que queremos”. Esperamos legiado da luta social e política. das expectativas dos cidadãos. que as definições políticas e estra- Ressalta-se que nem sempre os Diante dessas proposições são tégicas desta Conferência indiquem Conselhos de Saúde representam ins- necessários esforços para possibili- caminhos que possibilitem avançar tâncias públicas de formação de opi- tar um sistema de gestão com co- no processo de participação efetiva nião e vontade política. Um dos de- responsabilidade, envolvendo gesto- da sociedade. Há, portanto, o desa- safios refere-se à representatividade res, profissionais de saúde e usuá- fio de produzir um modelo de saú- e legitimidade dos representantes ins- rios. Todos deveriam assumir uma de que inclua os que ainda estão tituídos como conselheiros nas suas postura de compromisso com a ‘coi- fora do sistema e que reoriente a ges- relações com seus representados. sa pública’, no sentido de dar mai- tão institucional: “ampliando a ca- Será que os Conselhos de Saúde têm or visibilidade à gestão dos servi- pacidade de direção dos grupos, funcionado como instrumentos de ços de saúde. E nesse campo de ação 330 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 O processo de construção do controle social no Sistema Único de Saúde e a gestão nos espaços institucionais institucional se insere o controle dialética das relações conflitantes e tórico do Estado brasileiro, que é social. Como diz Cecilio (1999): contraditórias entre Estado e socie- efetivado na prática por sujeitos so- “... não há ‘controle’ possível sobre dade civil e suas determinações his- ciais, portadores de projetos e que organizações ‘opacas’, verticais, tórico-sociais, econômicas e políticas. definem, em última instância, as que não explicitam suas metas e seus critérios de qualidade e nas quais não existe responsabilização pelos atos individuais e de equipe”. políticas do SUS nos níveis central O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO CONTROLE SOCIAL NO SUS E A GESTÃO NOS ESPAÇOS INSTITUCIONAIS2 O controle social aqui não é tra- (União), intermediário (estado) e local (município). Imprime-se um poder político e ideológico nos microespaços políticos, nos quais se con- tado como forma do Estado manter O sistema de saúde brasileiro tem cretiza a gestão institucional. Os li- a ordem e a coesão social em torno avançado com relação à descentrali- mites estão presentes; eis alguns: de um projeto hegemônico, mas a zação de poder do nível federal para burocratização dos Conselhos de participação efetiva da sociedade o estadual e municipal; bem como a Saúde; autoritarismo e manipulação sobre as ações do Estado. Este con- dos gestores locais; recursos insu- trole seria representado, em última ficientes; baixa capacidade resolu- instância, pelas instituições que são tiva da rede de serviços; centraliza- responsáveis pela gestão da saúde, ção de poder; modelo de atenção rios do sistema. Para isto, seria im- O CONTROLE SOCIAL NÃO É TRATADO COMO FORMA DO E STADO portante garantir a participação efe- MANTER A ORDEM E A COESÃO SOCIAL ria; cobrança por fora nos serviços tiva do sujeito/cidadão na definição EM TORNO DE UM PROJETO HEGEMÔNICO , pelos trabalhadores e pelos usuá- das políticas de saúde nos cenários local, regional e nacional. Os questionamentos de Aciole (2003. p. 66) são pertinentes em re- pautado no pronto-atendimento médico; interferência político-partidáprivados contratados pelo SUS. Paralelamente a essa realidade MAS A PARTICIPAÇÃO EFETIVA DA desalentadora, há várias experiên- SOCIEDADE SOBRE AS AÇÕES DO E STADO cias locais – ainda que seja uma pequena parte dos mais de 5.500 lação ao apontado acima: “o que municípios brasileiros –, atestan- dizer do que conseguimos fazer em do que o SUS pode funcionar. São relação ao fortalecimento da socie- democratização das políticas públi- dezenas de cidades brasileiras nas dade organizada? Será que o fato de cas, reconhecendo o município como quais os sistemas de saúde avan- termos milhares de Conselhos de um espaço autônomo da federação. çaram muito no modelo assisten- Saúde em funcionamento pelo Bra- Transfere-se para este espaço novas cial de saúde e no modelo de ges- sil afora significa a ocorrência de responsabilidades e recursos públi- tão descentralizado e participati- uma revolução silenciosa no seio da cos capazes de fortalecer o controle vo. Estas experiências precisam sociedade civil?”. social e a participação da sociedade ser valorizadas, reconhecidas e di- civil nas decisões políticas. vulgadas para compormos um blo- São questões que estão em pauta de discussão, ao analisarmos os 13 No entanto, não se pode negar a co convergente, respeitando as in- anos de existência legal do SUS e a discussão mais ampla do papel his- dividualidades, as diferenças, as 2 Utilizamos a denominação de gestão institucional como espaços coletivos de gestão do sistema de saúde, nos quais ocorre o exercício da participação social (como os Conselhos Municipais de Saúde, Conselhos Locais de Saúde, Conselhos Diretores, Comissões, movimentos organizados, entre outros). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 331 ASSIS, Marluce Maria Araújo especificidades regionais e a diver- Nessa perspectiva, a proposta de espaço coletivo que expresse dese- sidade dos projetos. Teriam que Campos (2000; 2003) é bastante jos e interesses entre os diversos ato- combinar o reconhecimento com instigante na defesa de espaços co- res sociais (internos e externos), con- críticas construtivas, no sentido de letivos de gestão (a co-gestão de frontando-se entre si e com a reali- reconstruir novos projetos, não coletivos) para construir uma nova dade. Além disso, é necessário bus- como um modelo estruturado, dialética entre autonomia e contro- car nos processos de luta/negocia- pronto e acabado, mas com criati- le social nos coletivos organizados ção o surgimento de contratos po- vidade para responder às necessi- para a produção. O autor propõe tentes que orientem a produção de dades locais e institucionais. uma reinvenção do sistema de ges- bens e serviços de saúde. O processo de gestão nos espa- tão participativa: “um sistema de co- A organicidade envolve o nível ços institucionais, em que atuam os gestão em que coubessem vários ti- de organização na gestão participa- Conselhos gestores (locais, munici- pos de arranjos institucionais, ou tiva que deve ser caracterizado pela pais e estaduais), tem sido aponta- várias modalidades de espaços co- infra-estrutura básica para realiza- do por Campos (2000; 2003) como ção dos encontros entre os represen- espaços de enfrentamentos, parado- tantes. Há que se levar em conta xos e ambigüidades inerentes aos aspectos como: periodicidade, fre- coletivos organizados. Nesse sentido, o Ministério da Saúde (BRASIL, 1998a) estabelece algumas condições para a sua legitimidade, tais como: autonomia, organicidade, permeabilidade, visibilidade e articulação, discutidos a seguir. A PARTICIPAÇÃO SOCIAL NÃO SERIA ENTENDIDA APENAS COMO UMA EXTENSÃO BUROCRÁTICA E EXECUTIVA, MAS COMO UM PROCESSO CONTÍNUO DE DEMOCRATIZAÇÃO E DE PRODUÇÃO DE SUJEITOS COM A autonomia para o Ministério MAIOR AUTONOMIA qüência e regularidade dos participantes às reuniões, regimento interno, entre outros (BRASIL, 1998a). Os controles e a infra-estrutura administrativa são importantes e necessários, porém não podem substituir o fluxo democratizador de idéias, de debates, de negocia- da Saúde (BRASIL, 1998a) seria a ga- ções e de compromissos nos órgãos rantia das condições de funciona- colegiados de gestão, pois corre-se mento dos Conselhos de Saúde, dos o risco da participação dos repre- pontos de vista administrativo, fi- letivos, ou seja, várias rodas de aná- sentantes ficar limitada a deman- nanceiro e técnico, com recursos lise e co-gestão. Isso tanto em insti- das restritas e autoritárias, mani- garantidos nos orçamentos das Se- tuições como em organizações, puladas muitas vezes pelos técni- cretarias Municipais e Estaduais de quanto em movimentos sociais” cos ou gestores do sistema, confor- Saúde para o desenvolvimento do (C AMPOS, 2000. p. 142). me refere Arretche (2003). trabalho. Teria que garantir desde o A participação social não seria O estabelecimento de canais de espaço físico até pessoal de apoio e entendida apenas como uma exten- recepção das demandas sociais per- administrativo para a execução das são burocrática e executiva, mas mite estabelecer a permeabilidade atividades, como também valorizar como um processo contínuo de de- (BRASIL, 1998a) no processo de ges- estudos de problemas detectados mocratização e de produção de su- tão, com o intuito de identificar as pelos representantes e elaboração de jeitos com maior autonomia. Impli- demandas locais e as necessidades instrumentos que facilitem as deci- ca o estabelecimento de uma nova de saúde emergentes, que deverão sões dos conselheiros. sociabilidade política e um novo ser estabelecidas nas pautas de dis- 332 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 O processo de construção do controle social no Sistema Único de Saúde e a gestão nos espaços institucionais cussões dos espaços coletivos de representações: Conselho Local (das prometida e engajada com os pro- gestão. Esta condição de legitimida- unidades básicas e distritais de saú- blemas e alternativas de solução de visa operacionalizar os projetos de); Conselhos Municipal, Estadual para as questões sociais e de saú- por parte dos órgãos executores e e Nacional; Comissões Intergestores de do nosso país. dos sujeitos que operam no cotidia- Bipartite e Tripartite; Conselhos de Como diria Gramsci (1992. p. 25): no dos serviços. Secretários Municipais e Estaduais “nenhuma sociedade se coloca pro- Um dos pontos centrais da ges- de Saúde; bem como as instituições blemas sem que existam condições tão institucional diz respeito à visi- da área da saúde. Além disso, é im- necessárias e suficientes para a sua bilidade (BRASIL, 1998a), que deve ser portante a articulação com outros solução ou sem que essas condições caracterizada pela transparência das setores da sociedade, como por estejam ao menos em via de apare- ações dos representantes, na criação exemplo: Câmara de Vereadores, As- cer ou desenvolver-se”. Cremos que de canais de comunicação com a sembléias Legislativas, movimentos a reflexão apontada por Gramsci sociedade. Seria colocar o usuário populares e o Ministério Público. (ainda que seja em momento histó- no centro do processo, numa rela- rico diferente) possibilita uma arti- ção de co-responsabilidade entre os culação com o que estamos viven- sujeitos participantes (governo, tra- ciando no cenário atual brasileiro. balhadores de saúde, prestadores de Uma onda de esperança e de cons- serviços e usuários). Daí a impor- A SAÚDE DISCUTE UMA tância dos meios de comunicação e NOVA POLÍTICA DE EDUCAÇÃO E da criação de instrumentos que pos- trução do novo. As reformas (da pre- sibilitem a democratização da infor- DESENVOLVIMENTO PARA O SUS: mação como: boletins, jornais, car- CAMINHOS PARA A EDUCAÇÃO tilhas e outros tipos de publicações. Nessa perspectiva, os Conselhos vidência e tributária) estão sendo articuladas e aprovadas. A saúde discute uma nova política de educação e desenvolvimento para o SUS: caminhos para a educação perma- PERMANENTE EM SAÚDE nente em saúde. Há toda uma mo- de Saúde deveriam ser o exemplo bilização nos estados e municípios vivo dos interesses da sociedade, para em torno da 12ª Conferência Nacio- ser dotado de legitimidade pública. nal de Saúde. E o mais importante é Portanto, é preciso criar mecanismos Estas relações fortalecem as ações o compromisso político assumido para que a Lei deixe de ser apenas dos Conselhos e podem formar um pelos gestores do SUS (em especial um instrumento legal e passe a con- bloco de forças sociais em defesa dos o Ministério da Saúde) em acatar as cretizar um espaço democrático de interesses da sociedade. deliberações definidas no relatório construção coletiva, no atendimento Enfim, as indagações estão pre- final desta conferência, organizada sentes, os dilemas e os desafios na em dez eixos temáticos de discus- Outra questão relevante é a arti- construção de um sistema de saú- são: direito à saúde; seguridade so- culação (BRASIL, 1998a), que seria a de universal, resolutivo e gerido cial e a saúde; intersetorialidade das capacidade dos espaços coletivos de pela sociedade. O caminho está sen- ações de saúde; as três esferas de gestão de estabelecerem relações uns do trilhado pelos coletivos organi- governo e a construção do SUS; a com os outros, no campo da saúde e zados em realidades locais e regio- organização da atenção à saúde; em outras áreas sociais. Na saúde, nais. Pois acreditam, assim como gestão participativa; o trabalho em a articulação deve envolver todas as nós, em uma sociedade justa, com- saúde; Ciência e Tecnologia e a saú- às demandas da população. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 324-335, set./dez. 2003 333 ASSIS, Marluce Maria Araújo de; o financiamento do SUS; e a in- ASSIS, Marluce M. Araújo; VILLA, Te- dadã e controle social. Rio de Janei- formação, informática e comunica- reza C. Scatena. O controle social e ro: F ASE/IBAM, 1995. ção (BRASIL, 2003). a democratização da informação: Concluímos este artigo, acredi- um processo em construção. Revis- tando que as relações estabelecidas ta Latino-Americana de Enferma- entre os diferentes sujeitos que fa- gem, v. 11, n. 3, 2003. p. 376-382. zem a gestão coletiva em saúde são permeadas por singularidades, por conflitos, por dúvidas, por diferenças, convergências, entre outros. A proposta é construir as possibili- CARVALHO, Antônio Ivo de. Conselhos de saúde, responsabilidade pública e cidadania: a reforma sanitária como reforma do Estado. In: FLEURY, BRASIL. Ministério da Saúde. O SUS e Sonia (Org.). Saúde e democracia: a o controle social: guia de referência luta do CEBES. São Paulo: Lemos, para conselheiros municipais. Bra- 1997. p. 93-112. sília, DF: Ministério da Saúde, 1998a. dades da co-gestão coletiva, de modo . Ministério da Saúde. Re- que as certezas ou incertezas se tor- latório final da 10ª Conferência nem instrumentos de criatividade Nacional de Saúde. Brasília, DF: no agir cotidiano. 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Ainda que essa discussão seja retomada ao longo do texto, acredita-se ser necessário esclarecer sobre a posição que orienta essa redação, qual seja, a adoção da concepção de participação como condição para a redistribuição de poder na sociedade. No decorrer do artigo, revisa-se, de modo breve, a participação na administração pública brasileira, no período recente. Finalmente, são abordadas algumas das potencialidades e dos imensos desafios para a prática da gestão participativa em saúde, tendo sempre como pano de fundo a perspectiva do aprofundamento da democracia. DESCRITORES: Democracia; Administração Pública; Política de Saúde. ABSTRACT This article is a theoretical essay. The text begins with a review on a few potential meanings related to the issue of participation and participative management in order to make a reflection on potentialities and challenges concerning participative management in health. The reference is always the possibility of deepening democracy. Although this discussion is made in the Docente e pesquisadora da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, médica sanitarista, mestre em planejamento urbano e regional, doutora em administração Washington Luiz, 855 sala 427 CEP 90010-460 – Porto Alegre – RS e-mail: [email protected] 1 article, it is necessary to state the position behind this text, the consideration of participation as a condition to the redistribution of power in the society. In the article there is also a review of participation in Brazilian public administration in the recent period. Finally, some potentialities and challenges to the implementation of participative management in health are considered, always having as reference the perspective of deepening democracy. DESCRIPTORS: Democracy; Public Administration; Health Policy. 336 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 Gestão participativa em saúde: potencialidades e desafios para o aprofundamento da democracia INTRODUÇÃO Esse texto se inspira na conclamação feita por Sergio Arouca, na entrevista que se encontra na RADIS de outubro de 2002. Nela, Arouca, adequadamente denominado ‘eterno guru’, conclama a que se retome a relação entre saúde e democracia, que se combata a burocratização do sistema, que se recupere os princípios da Reforma Sanitária “que não se resumiam à criação do SUS (...). A segunda conotação, que inclui a primeira, é a que diz respeito à Saúde em si, de cada um e de todos os indivíduos de uma sociedade, na apreensão do seu grau de higidez possível, o que significa compreender como e quanto as relações de produção e a organização do tecido social em uma formação social concreta contribuem para o usufruto da riqueza nacional (ou mobilizável da Nação), em benefício da qualidade e da extensão da vida de todos e de cada um dos seus integrantes. (…) julga-se que alguns dos conceitos e categorias em uso podem não estar revelando ou evidenciando o problema mais de Com relação aos temas do controle social e da gestão participativa, a situação não é diferente. O primeiro tem sido tratado com um enfoque estruturalista e normativo, e o segundo, praticamente, relegado ao esquecimento, a não ser pela prática e reflexão de alguns poucos gestores e acadêmicos. No texto que segue, realiza-se uma revisão sobre alguns dos potenciais significados relacionados ao tema da participação e da gestão O momento que estamos vivendo re- participativa para, a seguir, refletir vela a paralisia do pensamento crí- criticamente, sobre as potencialida- tico nacional. (…) Isso exige que re- des e os desafios da gestão partici- tomemos a Reforma Sanitária enxergando o SUS a partir dessa reforma, e não vendo o SUS pelo umbigo do SUS. O umbigo do SUS vai apenas tentar regular o que está aí” (AROUCA, 2002. p. 21). Nesse sentido, o objetivo desse artigo é, exatamente, explorar essa re- O OBJETIVO DESSE ARTIGO É pativa em saúde, tendo como refe- EXPLORAR ESSA RELAÇÃO ENTRE SAÚDE E DEMOCRACIA , SOB O ENFOQUE DA rência a possibilidade do aprofundamento da democracia. Ainda que essa discussão seja retomada ao DEMOCRATIZAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES longo do texto, acredita-se ser ne- E DA RELAÇÃO ENTRE SOCIEDADE CIVIL que orienta essa redação, qual seja, cessário esclarecer sobre a posição a adoção da concepção de partici- E ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE lação entre saúde e democracia, sob pação como condição para a redis- o enfoque da democratização das or- tribuição de poder na sociedade. Por- ganizações e da relação entre socie- tanto, considera-se como mais rele- dade civil e organizações de saúde. Como lembra com precisão outro guru, Eleutério Rodriguez Neto (2003a), na concepção original do projeto reformista não se considerava a saúde apenas na conotação de assistência aos indivíduos, envolvendo as ações específicas dirigidas a prevenir a ocorrência de doenças e outros agravos, e a recuperar ou restaurar a saúde daqueles que a têm comprometida. Considerava-se saúde em uma segunda e mais ampla conotação. fundo, isto é, a real determinação de classe dos problemas de saúde, remetendo o centro das atenções para os ângulos racionalizadores da política setorial. (…) a prática tem me feito compreender (ou imaginar) que existe aí um conceito ‘gigante adormecido’, ainda por ser despertado e posto a serviço dos interesses populares; o problema é dominar o ‘antídoto do sono’ estimulado pela ordem estabelecida. (…) A reflexão que se faz não é sobre algum desacerto de tática, pelo contrário. O que se propõe é que o movimento volte a privilegiar a questão da democracia (R ODRIGUEZ NETO, 2003a. p. 24-25). vantes formas de participação que contribuam para sua concretização, em especial atividades de participação no processo decisório sobre as políticas de saúde, o controle da administração pública pelo cidadão, a realização de parcerias efetivas entre frações do Estado e organizações da sociedade civil, práticas de autogestão e de intervenção direta nas ações públicas. Por gestão participativa entendese a orquestração de um conjunto de Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 337 MISOCZKY, Maria Ceci políticas construídas em parceria com trata-se apenas de uma “generaliza- neoconservadores assumiram a a sociedade. Participativa porque per- ção do discurso da participação, à concepção de democracia como um mite a construção de ações planeja- medida que ‘participação’, democra- conjunto de regras, sem considerar das por executores e usuários; por- cia, controle social e parceria não são os condicionamentos sociais e econô- que trabalha com recuos e avanços conceitos com igual significado para micos, ao mesmo tempo em que pri- decididos pelos próprios protagonis- os diversos atores e têm, para cada vilegiaram as temáticas da governa- tas do processo; por proporcionar aos um deles, uma construção histórica bilidade e da eficácia administrativa.” envolvidos o exercício da aprendiza- diferente” (CARVALHO, 1998. p. 1). Para Kliksberg (1999), a partici- gem; por entender que a responsabi- Como, então, compreender a partici- pação é uma estratégia para a me- lidade para ser solidária deve ser, pri- pação social e suas diferentes signi- lhoria dos resultados da ação go- meiramente, assimilada, compreendi- ficações? Uma necessidade imediata vernamental. Inserem-se aí os pres- da, internalizada. Gestão participati- reside em distinguir abordagens supostos da cooperação para o de- va porque busca a eficiência e a efi- pragmáticas – em que a participa- senvolvimento postulados pelas di- cácia com a devida efetividade, por versas organizações internacionais, meio da construção coletiva de todos com a liderança do Banco Mundial. os envolvidos (R OCHA, 2003). Para elas, a boa governança é ca- O item que segue inclui a sistematização de alguns enfoques so- A PARTICIPAÇÃO É bre participação, diferenciados se- UMA ESTRATÉGIA gundo abordagens pragmáticas ou PARA A MELHORIA emancipatórias. No item seguinte, racterizada por um processo previsível, aberto e esclarecido de formulação de políticas; por uma burocracia imbuída de um ethos profissional, um corpo executivo de con- revisa-se, de modo breve, a partici- DOS RESULTADOS DA trole governamental para suas pação na administração pública bra- AÇÃO GOVERNAMENTAL ações; e uma sociedade civil forte sileira, no período recente. Finalmen- participando dos negócios públicos te, abordam-se algumas das poten- – todos procedendo sob a lei. Parti- cialidades e dos imensos desafios cipação é intrínseca à boa governan- para a prática da gestão participati- ça (WORLD BANK , 1996). va em saúde, tendo sempre como ção é vista como um meio para au- Trata-se de uma mudança da, até pano de fundo a perspectiva do apro- mentar a eficiência de abordagens de então dominante, ênfase na gover- fundamento da democracia. caráter político e emancipatório – em nabilidade para a ênfase na governan- que a participação é vista como um ça. É importante compreender as meio para alterar as relações de po- implicações dessa mudança. DEMOCRACIA E ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA der na sociedade, na perspectiva de Ainda que os mais diversos ato- maior eqüidade e justiça social. res sociais, tanto na sociedade como no Estado, reivindiquem e apoiem a participação social, a democracia De acordo com Gohn (2001), o conceito de governabilidade se refere à capacidade das elites dirigen- A ABORDAGEM PRAGMÁTICA DA GESTÃO PARTICIPATIVA participativa, o controle social sobre tes de perseguir, atingir ou combinar objetivos econômicos, sociais, políticos e administrativos. Para ele, o Estado, a realização de parcerias De acordo com Silva (2003. p. 23), o tema da participação não existe, entre o Estado e a sociedade civil, “alguns segmentos da esquerda e os ou tem um papel coadjuvante como 338 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 Gestão participativa em saúde: potencialidades e desafios para o aprofundamento da democracia auxiliar em uma boa gestão. O foco segmentos da população. Já o con- te reforma do aparelho de Estado no se dirige aos governantes, sendo que ceito de governança local Brasil, com as organizações sociais a sociedade entra em cena como consumidora, cliente ou contribuinte/beneficiária. Nessa abordagem, os temas da democratização do poder, bem como o da ampliação das esferas de decisão do governo e da sociedade, não estão presentes. Fiori (1995) considera a governabilidade como uma categoria de conteúdo normativo associada à agenda político-econômica conservadora. se refere a um sistema de governo em que a inclusão de novos atores sociais é fundamental, por meio do envolvimento de um conjunto de organizações, públicas (estatais e não estatais) e privadas. Ou seja, trata-se de um sistema que poderá envolver, entre outros, as ONGs, os movimentos sociais, o terceiro setor de forma geral, assim como entidades privadas e órgãos públicos estatais. A governança local diz respeito ao universo de parcerias, à gestão compartilhada sendo identificadas como a materialização da democracia participativa ou direta (BRASIL, 1998). Nesse processo, as organizações da sociedade são consideradas como participantes de um espaço virtual situado entre o público e o privado, ou seja, o público não-estatal. Segundo Silva (2003. p. 98), esse espaço realiza um deslocamento de fronteiras – “adapta-se aos princi- O conceito de governança pode pais postulados neoliberais, uma ser considerado uma evolução com vez que responde às necessidades da relação ao de governabilidade, tendo seu surgimento associado ao movimento de renovação da administração pública no contexto de glo- flexibilidade da gestão estatal, co- AS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE loca-se em um espaço virtual/híbrido que não é nem público e nem SÃO CONSIDERADAS COMO PARTICIPANTES privado, dificultando a identifica- cias de cooperação internacional DE UM ESPAÇO VIRTUAL SITUADO ENTRE ção da responsabilidade institucio- para o desenvolvimento, sobre ‘boas O PÚBLICO E O PRIVADO, OU SEJA, práticas’ nos governos. O conceito O PÚBLICO NÃO- ESTATAL balização e de prescrições, das agên- foi criado e desenvolvido em reuniões de cúpulas dessas agências e dos governos dos países centrais, como parte de estratégias para vigiar a dívida externa e a implementação dos ajustes estruturais prescri- entre diferentes agentes e atores (G OHN, 2001. p. 40). nal e facilitando a apropriação de recursos públicos.” Tais organizações, ao serem alçadas à condição de agentes privilegiados de mediação entre o Estado e os sujeitos políticos, tanto desmobilizam os movimentos sociais como obscurecem o processo de privatização dos serviços públicos. (SILVA, 2003. p. 41). tos pelo FMI (A LTVATER, 1999). Aco- Nesse sentido, os mecanismos plada a recomendações para a re- de participação baseiam-se no en- dução do tamanho do Estado, a no- gajamento da população como um ção de governança inclui a constru- recurso produtivo, mais do que po- ção de articulações com setores e lítico; como uma forma de preen- organizações da sociedade, que pas- cher o vácuo deixado pela retirada Pedro Demo (1993) tem sido um sariam a assumir partes das respon- do Estado dos serviços de proteção dos autores brasileiros mais preo- sabilidades na formulação e imple- social (S ILVA, 2003). cupados com o tema da participação A ABORDAGEM EMANCIPATÓRIA DA GESTÃO PARTICIPATIVA mentação de ações sociais de cará- Essa abordagem pode ser encon- na perspectiva da emancipação, con- ter compensatório dos efeitos pro- trada nos discursos e dispositivos siderada como um antídoto contra a duzidos pelos ajustes sobre amplos legais que acompanharam a recen- tendência histórica de dominação e Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 339 MISOCZKY, Maria Ceci exclusão social que caracteriza nos- ção, porque planta a fé do grupo em Bava (2001. p. 13) indica que sa sociedade. Para Demo (1996), a seu futuro”; (c) conquista de direitos essas práticas, “embora acenem participação é conquistada, no pro- em um caminho amplo de horizonte para uma socialização do poder”, cesso histórico, juntamente com as aberto no qual se constrói o compro- não o fazem efetivamente. Nos con- condições de autodeterminação, que misso de “montagem de uma socie- selhos, além da falta de recursos não podem ser dadas, outorgadas ou dade onde a democracia seja um disponíveis e de matérias para a efe- impostas. Uma participação atribuí- modo de vida” (DEMO, 1996. p. 96-97). tiva decisão, dada a centralização da representa, para este autor, um conceito paternalista que, no fundo, representa uma anti-participação. de recursos pelo Governo Federal, A PARTICIPAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA BRASILEIRA NO PERÍODO RECENTE Para Demo (1996. p. 94-97), a par- que os utiliza para impor políticas e, mesmo, ações aos demais níveis de governo, falta à população infor- ticipação somente é revelada por meio Carvalho (1998) destaca algumas mações suficientes para conceber de canais que a sociedade disponibi- formas de aproximação entre popu- alternativas e para controlar a ad- liza. Entre eles destacamos: (a) orga- ministração pública. Já no caso dos nização da sociedade civil – forma orçamentos participativos, dado o mais operacional que exige a compe- empenho residual de pequenas ver- tência de grupos por meio da representatividade de lideranças, legitimidade dos processos, participação da base e planejamento participativo auto-sustentado, em que “o objetivo A PARTICIPAÇÃO É CONQUISTADA, NO PROCESSO HISTÓRICO , JUNTAMENTE COM AS CONDIÇÕES DE AUTODETERMINAÇÃO, QUE NÃO PODEM SER DADAS, histórico é atingir uma trama bem urdida e sólida de organizações de OUTORGADAS OU IMPOSTAS caráter popular que permita plantar bas públicas – aquelas disponíveis para investimentos, sem mudanças de prioridades no conjunto dos gastos públicos – cuja maior parte se dirige para o custeio, “não chega a se concretizar a participação cidadã na formulação e implementação de políticas públicas” (BAVA , 2001. a democracia como algo cotidiano”; p. 13). Quanto às parcerias, é fre- (b) planejamento participativo – um qüente que seja utilizado o trabalho canal baseado no regime da autoges- da população mais pobre, manten- tão e co-gestão na conjunção entre lação e setor público na história re- do-se o desfavorecimento desses no população e governos, não valendo a cente da administração brasileira: acesso aos recursos e políticas so- banalização de distribuir participação por atacado, mas fundamentalmente a capacidade de “formular uma situação de negociação mútua”. No entanto, para que a participação emancipatória se concretize, algumas condições são indispensáveis: • conselhos deliberativos, vinculados a políticas setoriais – por exemplo: criança e adolescente, saúde, educação, meio ambiente etc.; • práticas de orçamentos participativos; ciais (C ARVALHO, 1998). Não se pode negar a importância dessas práticas que, mesmo com suas limitações, podem estar produzindo uma nova qualidade nas relações entre sociedade civil e Estado. Não se pode, por outro (a) educação básica como base in- • parcerias entre organizações da lado, deixar de apontar os limites dispensável para a qualidade da ação sociedade, organizações públicas e, impostos pela preservação de es- política; (b) identidade cultural co- em algumas situações, organiza- truturas e modos de intervenção, munitária – “parteira da participa- ções da iniciativa privada. por parte das organizações públi- 340 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 Gestão participativa em saúde: potencialidades e desafios para o aprofundamento da democracia GESTÃO PARTICIPATIVA EM SAÚDE: POTENCIALIDADES E DESAFIOS PARA O APROFUNDAMENTO DA DEMOCRACIA cas que, ao utilizarem uma lógica conselhos setoriais que, usualmen- muito mais administrativa – prag- te, se constituem em meros apêndi- mática, colocam barreiras para ces no organograma de secretarias avanços continuados e conseqüen- ou departamentos que não se modi- tes para a aproximação da gestão ficam internamente e, portanto, não Não se pode negar a relevância e com a política. criam canais pelos quais poderia se as imensas potencialidades da exis- Neste sentido, Bava (2001. p. 11) capilarizar a participação da popu- tência de conselhos de saúde em to- destaca que “uma cultura política lação nos processos decisórios e dos os estados e, principalmente, na privatista e clientelista e um arca- cotidianos da gestão e, desse modo, quase totalidade dos municípios. No bouço institucional cristalizado le- produzir-se a transformação da pró- entanto, como destacam Labra e Fi- vam, muitas vezes, os governantes pria administração pública. gueiredo (2002. p. 541), numerosos e a população a confundir democra- Volta-se, novamente, à questão estudos têm demonstrado que “exis- cia com o simples atendimento às de como integrar, efetivamente, as tem muitos problemas em seu fun- necessidades dos mais pobres, e par- cionamento, atribuídos, em boa me- ticipação com eficiência das políti- dida, à falta de tradição de participa- cas mantenedoras do status quo”. ção e de cultura cívica no país”. “Di- Misoczky (2002a), por sua vez, analisando o caso do Orçamento Participativo de Porto Alegre, indica a É PRECISO ENTENDER A PARTICIPAÇÃO NÃO APENAS COMO UMA ESTRATÉGIA DE ficuldades derivam, também, de questões regulamentares que afetam o resultado das resoluções adotadas.” preservação, no interior da organi- GOVERNANÇA PARA APRIMORAR AS AÇÕES zação da Prefeitura Municipal, de GOVERNAMENTAIS, MAS RECONHECENDO SEU a ênfase que lhe é característica, onal, evidenciando que podem ocor- POTENCIAL PARA A CRIAÇÃO DE UM ETHOS DE saúde e de outros fóruns como “vi- rer avanços na relação entre o go- REDISTRIBUIÇÃO DE PODER NA SOCIEDADE uma formação burocrática tradici- Gilson Carvalho (2003. p. 1), com denuncia o uso dos conselhos de trine como se de decisões democrá- verno e a sociedade, mas que esses ticas”. “Tenho insistentemente per- avanços são limitados pela preser- guntado, por inúmeras vezes e fó- vação e, mesmo, pelo reforço de es- runs, até que ponto as pautas, as truturas e padrões centralizadores dimensões administrativa e política resoluções, os encaminhamentos e rígidos no interior das organiza- – ou pragmática e emancipatória – dentro dos conselhos estão cuidan- ções públicas. O que esta autora sa- na gestão pública, não apenas no do de coisas essenciais ou são si- lienta é que, quando isso ocorre, as desenho estrutural das políticas, mulacros a cuidar da periferia das instâncias de participação permane- mas também nas práticas organi- coisas, das migalhas concedidas cem como apêndices na estrutura or- zacionais. Fundamentalmente, é pelos dirigentes. Muitas vezes por ganizacional dos governos, tenden- preciso entender a participação não inócuas, são excelentes artifícios do a ter uma ação limitada e deter- apenas como uma estratégia de go- para desviar a atenção do principal minada pela administração pública, vernança para aprimorar as ações e do essencial.” que mantém a centralidade na con- governamentais, mas reconhecen- Essas afirmações indicam dois cepção e execução das políticas. Um do seu potencial para a criação de aspectos de um mesmo problema: exemplo dessa situação pode ser um ethos de redistribuição de po- por um lado, como avançar nas po- encontrado, exatamente, no caso dos der na sociedade. tencialidades presentes no espaço Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 341 MISOCZKY, Maria Ceci dos conselhos e, por outro, como jogo, etc. A criação dos conselhos e processo de implementação do SUS tornar as organizações permeáveis o desejo de que os mesmos se cons- perdeu as dimensões políticas e so- ao que ali se decide. Ainda que es- tituíssem em instância legítima de de- ciais que marcavam sua concepção ses temas sejam absolutamente in- liberação sobre a política e as práti- no movimento pela Reforma Sanitá- terdependentes, são abordados em cas em saúde, fez com que se rele- ria, transformando-se em mera des- separado nos sub-itens que seguem. gasse a um plano secundário a inte- centralização administrativa e, prin- ração com a população nos seus pró- cipalmente no caso dos municípios, prios espaços. Acredita-se que esses operacional (MISOCZKY, 2002b), deixa dois espaços sejam complementares os conselhos sem a possibilidade de e possam fecundar-se mutuamente, exercício de sua razão de ser, qual criando a possibilidade de que se rom- seja, formular estratégias e contro- Para que estes espaços se efe- pa com a inércia e a baixa represen- lar a execução da política de saúde, tivem, acredita-se que dois obstácu- tatividade que marca muitos conse- inclusive nos aspectos econômicos CONSELHOS DE SAÚDE: ESPAÇOS POTENCIAIS PARA O APROFUNDAMENTO DA DEMOCRACIA los precisam ser superados. e financeiros. Como indica Bava O primeiro deles é a exclusivida- (2001), a centralização dos recursos de do espaço dos conselhos como o financeiros no governo central, e sua espaço legítimo para a participação em saúde. A criação desse espaço A CENTRALIZAÇÃO DOS RECURSOS utilização para impor políticas e programas aos demais entes fede- organizacional constitui-se, sem dú- FINANCEIROS NO GOVERNO CENTRAL , vida alguma, em importante altera- E SUA UTILIZAÇÃO PARA IMPOR POLÍTICAS E exerçam a atividade nobre da ges- ção no arcabouço do Estado brasi- PROGRAMAS AOS DEMAIS ENTES FEDERADOS, tão – a formulação de estratégias, a leiro. No entanto, não se pode ignorar que se encontra, em sua origem, IMPEDE QUE OS CONSELHOS EXERÇAM A uma perspectiva estruturalista e nor- ATIVIDADE NOBRE DA GESTÃO mativa das relações sociais, uma rados, impede que os conselhos participação no processo decisório. Nesse sentido, a efetivação do potencial presente nos conselhos tem relação direta com o tipo de descen- modalidade de “participação atri- tralização que se constitua. Eleuté- buída”, nos termos de Demo (1993). rio Rodriguez Neto (2003b. p. 95-96) A sua adoção, de modo estrito, lhos. Nessa direção, é interessante ver cria mais obstáculos do que avan- as conclusões de Lima (2001) sobre ços para o aprofundamento da de- fatores que facilitam a representação mocracia. Antes da existência dos e a participação das bases no conse- conselhos, o trabalho em saúde, de lho municipal de saúde, onde se des- muitos, incluía ‘ir aonde o povo taca que essas refletem o acúmulo de está’. Ou seja, reconhecia-se a legiti- discussão e de lutas políticas pela con- midade, inclusive para tratar dos te- quista da cidadania e de direitos que mas relativos à saúde, de espaços ocorre fora do mesmo. de participação autonomamente O segundo obstáculo se refere à constituídos – associações de mora- necessidade de que haja matéria para dores, clubes de mães, locais de cul- que o conselho possa decidir sobre. to, áreas e momentos de festa e de O fato de que a descentralização, no 342 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 deixa clara essa relação. Na verdade, a descentralização faz parte de um binômio indissociável, juntamente com a participação que compõe a essência da questão democrática. (…) a idéia é que o poder de decisão seja exercido pelos seus reais atores, o mais próximo possível da realidade. Dessa forma, pode-se conferir pertinência e relevância a essas decisões, na suposição de que elas interessam ao conjunto dos sujeitos das mesmas e, assim, sejam ‘positivas’ no sentido de contribuir para o alcance de aspirações comuns e de interesses coletivos. Isso Gestão participativa em saúde: potencialidades e desafios para o aprofundamento da democracia significa dar caráter ético às decisões, uma vez que elas não deverão ser discricionárias ou responder aos interesses distantes da realidade. romper com o fatalismo, identificar, de estudos empíricos focalizando a para disseminar e aprofundar, prá- perspectiva do lado da demanda ca- ticas de gestão que rompam com a racterizada por etnia, sexo, orienta- centralidade da noção de hierarquia ção sexual e ser portador do vírus No entanto, ainda que obstácu- e, portanto, propiciem a participa- da A IDS, defende a exigência de uma los como estes sejam superados no ção de trabalhadores e dos cidadãos burocracia representativa. “Apesar de espaço dos conselhos de saúde, isso na vida das organizações e no que às vezes uma burocracia neutra ser não será suficiente para que se ins- essas produzem para a sociedade. buscada para compor uma agência, titua a gestão participativa. Como Algumas indicações para esse re- este estudo mostra que a neutralida- apontam Sposati e Lobo (1992), um conhecimento podem ser encontradas de weberiana não é sempre vantajo- outro obstáculo reside na inexistên- na literatura, focalizando em aspec- sa. A burocracia representativa é cia de canais, no interior da admi- tos críticos, para a constituição de importante não só porque tem impor- nistração pública, que possibilitem organizações, que permitam, em vez tantes implicações políticas, que se a interferência dos conselhos na di- referem a criar a oportunidade para nâmica da mesma. Esse aspecto é a produção de serviços governamen- abordado a seguir. tais efetivos, mas também porque ela ALGUMAS CONDIÇÕES NECESSÁRIAS PARA A PARTICIPAÇÃO NA GESTÃO Ainda que esse texto seja produzido a partir da prática profissi- É PRECISO ROMPER COM O FATALISMO , IDENTIFICAR , é valorizada pelos cidadãos que são servidos por estas agências.”O que PARA DISSEMINAR E APROFUNDAR , PRÁTICAS DE GESTÃO QUE ROMPAM onal no campo da administração COM A CENTRALIDADE DA NOÇÃO (ou, quem sabe, por causa disto!), DE HIERARQUIA recusa-se a idéia de que não existe se encontra em discussão nessa abordagem é a compreensão de que, assim como Weber (1997) já indicava, o processo de decisão sobre a característica da política, sobre a definição de prioridades para o gasto de recursos financeiros usualmente es- alternativa para o controle e a do- cassos, assim como sobre a própria minação nas organizações. Acredi- forma como o serviço é oferecido à ta-se que existam alternativas às de obstaculizar, a gestão participati- população a que se dirige, não se concepções estreitas sobre as or- va. Esses aspectos podem ser sinte- fundamenta em escolhas racionais ganizações, como as que são gera- tizados nos temas da neutralidade baseadas exclusivamente na perícia das pelo conhecimento administra- burocrática, da centralidade da efi- técnica mas, em vez disso, é domi- tivo voltado para o mercado e que ciência, e da estrutura e organiza- nada por preferências ideológicas e está centrado na noção de hierar- ção das práticas de trabalho. culturais e, não raramente, por inte- quia. Trata-se, como indica Parker A primeira dessas indicações se resses particulares em busca de sa- (2003), de estar aberto ao reconhe- refere à legitimidade da existência de tisfação. Sendo assim, nada mais cimento de que, no mundo da vida, burocracias militantes, como pontes indicado que escolher os componen- se constituem modos de ‘organizar’ entre as organizações públicas e gru- tes do corpo burocrático entre pes- que são muito mais múltiplos e pos sociais em luta pela inclusão e soas que possuem identidade e com- diversos do que o pensamento do- por direitos de cidadania. Thielemann promisso com os objetivos inclusi- minante. Nesse sentido, é preciso (1996. p. 172), por exemplo, a partir vos da política em questão. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 343 MISOCZKY, Maria Ceci Além disso, como diversos au- Formação burocrática tradicional Formação político-organizacional Centro claro de poder – planejamento centralizado, sem a participação de executores e cidadãos. Centros difusos de poder – planejamento descentralizado, incluindo a participação de executores e cidadãos. Estruturas hierárquicas rígidas – liderança centralizada nos diversos níveis hierárquicos (unidade de comando) e orientada para o cumprimento de metas definidas de modo normativo. Estruturas fluidas flexíveis – liderança descentralizada com uma ética voltada para servir os cidadãos em uma rede de relacionamentos, orientada por uma imagem objetivo que inclui a alteração do contexto histórico social. Ações padronizadas, baseadas em papéis e normas. Ações auto-reguladas, criadas a partir das necessidades da imagem objetivo e das mudanças em processo. Setorialidade – operação fragmentada com base na especialização do saber e em programas normativos verticalizados. Intersetorialidade – articulação de saberes e experiências no planejamento, realização e monitoramento de ações interligadas. Refere-se aos problemas da população e ao seu equacionamento. As metas são a racionalização e a eficiência. A meta é a mudança, como um processo consciente de alterar relações sociais. Controle cultural, por meio de padrões de conduta. Aceitação da diversidade e celebração das particularidades. Controle formal via supervisão e controle, tendo como referência a conformidade com normas e padrões. Monitoramento das atividades em conjunto com trabalhadores e cidadãos, tendo como referência o encaminhamento de soluções para os problemas que estão sendo enfrentados. Favorece a inovação e a criatividade. Avaliação auto-referida a metas e normas definidas internamente ao sistema. Avaliação referida a expectativas dos cidadãos e dos parceiros na rede intersetorial. balhadores e cidadãos. Em oposi- Neutralidade tecnocrática – impessoalidade nos julgamentos, autonomia da burocracia. Opção por valores claramente expressos, burocracia militante ou representativa. ção à formação burocrática tradi- Líder como condutor. Líder como mobilizador, articulador. Motivação pela remuneração e pela ascenção na hierarquia. Motivação pela liberdade de implementar idéias e de gratificar-se com o sucesso (o que não dispensa a justa remuneração). O espírito de corpo como condição para a harmonia e a unidade, sendo mais produtivo que a discordância. A discordância em torno de idéias é fator de sucesso em processos de mudança. Todos os fatores de produção precisam estar, ordenadamente, em uma estrutura adequada. Os fatores de produção são continuamente rearranjados. Localização espacial clara. Localização espacial difusa. Formalismo como estrutura de sobrevivência da organização e da preservação de interesses. Formalismo como estratégia de mudança, de avançar no tempo com relação a normas que paralisam processos de mudança. tores têm defendido ao longo das últimas décadas, o foco predominante no aumento da eficiência dos processos administrativos pode lesar políticas que estas melhorias supostamente deveriam apoiar. Assim, processos em vez de procedimentos, direitos substantivos, equidade, proteção dos direitos das minorias, assim como igualdade entre os cidadãos, são valores que podem ter precedência com relação à eficiência (KELLY, 1998). Finalmente, com relação à estrutura e às práticas de trabalho, apresentam-se, a seguir algumas características que podem apoiar a identificação de aspectos mais propícios à permeabilidade das organizações à participação de tra- cional, com base nos princípios clássicos propostos por Fayol (1954) e nas características identificadas por Weber (1997) nas organizações modernas, contrapõese a possibilidade de uma formação político organizacional 1 (a partir da livre adaptação de contribuições de Boje e Dennehy, 1993; Clegg, 1990; Cooper, 1984; Farah, 1998; Fisher, 1997; Guerreiro Ra- CONSIDERAÇÕES FINAIS mos, 1893; Junqueira, Inojosa; Ko- bate político em torno da participação na formação da política de saú- matsu, 1998; Loiola; Moura, 1997; Matus, 1996; Santos, 1995; Soares; Esse texto se inscreve na condi- de. Não se recusa, nem se considera Gondim, 1998; Thielemann, 1996). ção de uma provocação para o de- como pejorativa, qualquer crítica que 1 Uma outra versão dessa tipologia pode ser encontrada em Misoczky (2002a). 344 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 336-347, set./dez. 2003 Gestão participativa em saúde: potencialidades e desafios para o aprofundamento da democracia o defina como tendo um caráter vo- Espera-se que esse artigo contri- nalmente, que a Conferência recuse luntarista. Mais do que isto, esse é bua, ainda que de modo pontual e a definição de gestão participativa um texto que se assume como orien- restrito, para a discussão necessá- que se encontra nas Diretrizes pro- tado por desejos os quais no sentido ria e indispensável sobre gestão par- duzidas pelo Ministério de Saúde deleuziano, são sempre positivos, ticipativa e aprofundamento da de- para a mesma, e que afirma como não se referindo a ausências. O dese- mocracia no campo da saúde. As sendo seu objetivo a agregação de jo como positividade corre sempre o indicações aqui sistematizadas “legitimidade às ações de governo, risco de acontecer, de ganhar força, apontam para a superação do pólo criando sustentabilidade aos progra- de criar territórios e de mudar a vida. do pragmatismo na abordagem da mas e políticas propostas” (BRASIL , Como indica Caiafa (2000. p. 72) “a participação na administração pú- 2003. p. 14). São visões como esta potência transformadora do desejo blica. Apontam, também, para al- que concebem a participação a par- nos leva a admitir essas linhas de guns obstáculos que, ao serem su- tir de uma visão pragmática e, nesse fratura, nos permite agir/pensar não perados, potencializariam esse es- caso, ainda com foco na governabi- só no que já está, mas também no lidade, que obstaculizam o aprofun- possível. (…) Daí o otimismo crítico, damento da democracia na adminis- que se produz acompanhado de um tração pública brasileira. pessimismo rigoroso”. Para adotar-se o otimismo crítico é preciso romper com a proibição de pensar o futuro e, como indica Nogueira (2001. p. 126), deixar de lado formas adaptativas de administração da mudança e retomar a capacidade de projetar o futuro, sempre presente O DESEJO COMO POSITIVIDADE CORRE SEMPRE O RISCO DE ACONTECER , DE GANHAR FORÇA, A LTVATER, Elmar. Os desafios da globalização e da crise ecológica para o discurso da democracia e dos di- DE CRIAR TERRITÓRIOS E reitos humanos. In: HELLER, A. et al. DE MUDAR A VIDA (Orgs.). A crise dos paradigmas em na noção de democracia. Em boa medida, a democracia é um jogo de poderes e contra-poderes: sua natureza é dada pela intervenção deliberada de sujeitos organizados. Tratase de uma construção que depende de correlação de forças, de capacidades organizacionais, técnicas, políticas e intelectuais, e que não vive fora do conflito, do confronto constante entre as partes e os poderes. Toda democracia é forma (instituição, regras) e movimento, silêncio e ruído. Em seu coração pulsa uma aposta: a de que é possível mudar o modo de vida e de decisão, deslocar hegemonias e fundar novos pactos. Na metáfora do teatro, ela afirma ser possível que a platéia domine a cena e vincule o palco a si. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ciências sociais e os desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999. paço magnífico que se constitui em praticamente todos os municípios brasileiros – os conselhos de saúde. Esses obstáculos se localizam tanto nos próprios conselhos quanto no interior das organizações. De qualquer forma, espera-se que as discussões, as quais ocorre- A ROUCA, Sergio. O eterno guro da Reforma Sanitária. Entrevista concedida à RADIS , Rio de Janeiro, n. 3, out. 2002. p. 18-21. BAVA , Silvio Caccia. Participação, representação e novas formas de diálogo público. 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Apresenta-se o controle social como um processo a ser construído e determinado por três questões: a aceitação e reconhecimento do conflito entre os grupos sociais, pela complexidade da vida; a construção de relações solidárias entre estes grupos para a detecção de problemas e a resolução dos mesmos; a necessidade da elaboração de conhecimento sobre as questões locais e o saber constituído, entendendo que são saberes que se complementam. A partir da articulação destas questões, o controle social transcende o caráter de fiscalização das ações governamentais, tornando-se um contrato social entre todos os atores envolvidos no processo. DESCRITORES: Sistemas Locais de Saúde; Participação Comunitária; Governo Local. Enfermeira, doutora em Filosofia da Saúde e Enfermagem, coordenadora do curso de Enfermagem da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC ), funcionária da Diretoria de Regulação e Auditoria do Sistema de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina Rua São Vicente de Paula, 307 CEP 88025-330 – Florianópolis – SC e-mail: [email protected] ABSTRACT Enfermeira, mestre em Saúde Pública, Diretora de Regulação e Auditoria do Sistema de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina Rua das Cerejeiras, 186 – Casa 2 CEP 88040-510 – Florianópolis – SC e-mail: [email protected] local questions and knowledge which consists understanding, keeping in 1 2 The present article brings a reflection on the resultant social control of a process of construction of popular participation in health in cities of the highlands in Santa Catarina State. It presents social control as a process to be constructed and determined by three issues: the acceptance and recognition of conflict between social groups, given the complexity of life; the construction of solidarity relations between these groups for the detection of problems and their solution; the necessity of elaborating knowledge on mind their complementary nature. From the articulation of these questions, social control exceeds the inspection character of governmental actions, becoming a social contract between all the actors involved in the process. DESCRIPTORS: Local Health Systems; Consumer Participation; Local Government. 348 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 Controle social: de quem? Para o quê? Cabe-nos aqui a tarefa de trans- te, a totalidade das entidades gover- de pensar e agir. A construção de formar em palavras, escritas e inte- namentais desses municípios. um novo modo de pensar é sem- ligíveis, a experiência de participa- Como avaliar se essa experiência pre um processo frágil, “notada- ção popular em saúde e de controle contribuiu e, em quê, para a cons- mente quando estas novas convic- social realizada em alguns municí- trução da cidadania e consolidação ções estão em contradição com as pios de Santa Catarina, situados no do controle social local? convicções ortodoxas, socialmen- 4 Planalto Serrano, que posteriormen- Gramsci (1975, p. 51) afirmara te reformistas, de acordo com os te foi tema de tese de doutoramen- que “toda ação é o resultado de interesses das classes dominantes” to. Este artigo é a adaptação do úl- diversas vontades, com diversos (GRAMSCI , 1975. p. 27). timo capítulo da tese. graus de intensidade, de consciên- Esta última afirmação não re- Nas últimas décadas do século cia, de homogeneidade, com o con- flete integralmente a experiência vi- XX, vimos o florescer de diversas junto íntegro da vontade coletiva”. vida na Região Serrana, à medida experiências de participação co- E, a vontade individual, muitas que, neste processo de construção munitária, mas esta, por nós vi- da participação popular em saúde, venciada na Região Serrana, foi sin- o fim tornou-se o próprio caminho, gular, dado o grande envolvimento de todos os segmentos sociais (sociedade civil e política, além dos técnicos dos setores públicos), as formas alternativas de enfrentamen- A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO MODO DE PENSAR É SEMPRE UM PROCESSO FRÁGIL, “NOTADAMENTE QUANDO ESTAS NOVAS em que cada passo correspondia aos objetivos que tínhamos de participação popular e controle social5 e no qual tentamos construir formas de aceitação de toda e qualquer to dos problemas locais e as mu- CONVICÇÕES ESTÃO EM CONTRADIÇÃO COM AS danças ocorridas nesses municípi- CONVICÇÕES ORTODOXAS, SOCIALMENTE nasce daí? Sabemos que ele pode os, graças ao trabalho coletivo dos REFORMISTAS , DE ACORDO COM OS surgir da aceitação e do estímulo atores sociais envolvidos. Não é fácil traduzir uma expe- INTERESSES DAS CLASSES DOMINANTES” vontade e desejo. O controle social às diferenças e multifacetas que, antes de serem antagônicas, podem riência que foi construída em sete ser complementares e traduzir a anos, 17 municípios, congregando complexidade da sociedade e de 1 cerca de 265.000 habitantes, junto vezes, é desagregada, contraditó- com diversas entidades não gover- ria. Mas, pertencemos sempre a No construir da participação namentais, numerosos técnicos de um, ou a diversos grupo(s) que popular em saúde, a paixão, a instituições públicas e, praticamen- compartilha(m) um mesmo modo vontade e o empenho de todos 2 3 suas relações sociais. Anita Garibaldi, Bom Jardim da Serra, Bom Retiro, Bocaina do Sul, Campo Belo do Sul, Cerro Negro, Celso Ramos, Correia Pinto, Lages, Otacílio Costa, Ponte Alta, Rio Rufino, São José do Cerrito, São Joaquim, Urupema e Urubici. 1 Entre elas, Cáritas Diocesana, Pastoral da Saúde, Pastoral da Mulher, Sindicatos de Trabalhadores Urbanos e Rurais, Rotary Club, Associações de Moradores, Conselhos Municipais de Saúde, Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente, Fórum de Entidades da Saúde. 2 3 Dos setores: Saúde, Educação, C ASAN, E PAGRI, C ELESC, TELESC, CIDASC, FATMA, Segurança Pública, Banco do Brasil. 4 Prefeituras com suas Secretarias, Legislativo Municipal e Estadual. Pois, como apontar, no discurso, o direito e a responsabilidade da participação de cada vontade individual na construção de uma vontade coletiva e conseqüente elaboração de políticas de saúde sem respeitar essas vontades, e sem criar instrumentos capazes de abarcá-las e refleti-las, por mais que elas possam ser descoordenadas, desarticuladas e contraditórias? 5 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 349 DORNELLES, Soraia & LOCKS, Maria Teresa aqueles que fossem aderindo ao samentos não são possibilitados. sobre questões comuns a todas, uma processo foram vitais para sua re- Quer dizer, a hegemonia de uma vez que a diversidade de idéias é alização (independente da profis- dada visão de mundo não ocorre inerente à própria existência huma- são, do grau de escolaridade ou somente por seus méritos ou demé- na. A tentativa de hegemonização de do grupo social ao qual pertences- ritos, ou pelo estabelecimento de uma sobre as demais é parte do pro- se a pessoa). Todos foram consi- mecanismos que possibilitem esse cesso social do homem, aceitemos derados entre si essenciais à cons- domínio, mas, também, por méri- trução de um novo modo de pen- tos e deméritos das outras visões. sar e agir em saúde. Assumimos É o embate democrático que possi- essa postura por acreditar que é bilitará a explicitação dos diversos no embate democrático das diver- pontos de vista. É a existência de sas visões e concepções de mundo conflitos que possibilita7 a busca que há a possibilidade de constru- de soluções coletivas e democráti- ção da própria participação e con- mos longe de viver em uma sociedade na qual os seres humanos são essencialmente éticos, a ponto de buscarem os bens produzidos no limite de suas necessidades.8 Controle social, embate democrático e participação popular ape- trole social sobre as ações públi- nas têm sentido se pensados e cons- cas e/ou governamentais. 6 É na É NA CONSTRUÇÃO DE construção de instrumentos democráticos que a vontade coletiva ou não, mesmo porque ainda esta- truídos em conjunto. Participação popular é a concretização da par- pode prevalecer e contribuir para INSTRUMENTOS DEMOCRÁTICOS ticipação cidadã em questões de in- a melhoria da qualidade de vida QUE A VONTADE COLETIVA PODE teresse coletivo, cotidianas e co- das pessoas. Contudo, isto não elimina o fato de termos de partir da realidade, constituída das mais di- PREVALECER E CONTRIBUIR PARA muns a todos, portanto, de conhecimento de todo e qualquer cida- A MELHORIA DA QUALIDADE DE dão, o saber local. O controle so- VIDA DAS PESSOAS cial se torna, a partir disso, a rea- versas visões de mundo. As diversas concepções coexis- lização da análise coletiva sobre tentes geram conflito entre si. O con- as ações, também coletivas e co- flito existe, as diversas visões so- letivamente contratadas, voltadas bre vida, saúde e doença coexistem cas, mas em uma nova construção, para o interesse de todos. Deixa de simultaneamente (em uma relação em que todos possam estar instru- ser a simples fiscalização sobre as dialética), e, se uma prevalece so- mentalizados de modo adequado ações governamentais, porque o bre as demais, não é somente por- para a argumentação política. ‘governamental’ se confunde com que há o domínio ideológico dessa A vida das pessoas as coloca (in- o bem comum, entendido como o visão, mas também porque resis- dividual ou coletivamente) entre pos- melhor para todo e qualquer cida- tência e explicitação de outros pen- turas e pontos de vista diferenciados dão, no seu cotidiano. 6 Nem toda ação, com conseqüências coletivas, é governamental. 7 Aqui entendida a possibilidade como potência, que só pode ser expressa a partir da premissa da liberdade. Além disso, o próprio entendimento sobre necessidade humana reflete toda a complexidade social. A necessidade, concebida apenas como carência material, implica na limitação de seu espectro ao puramente fisiológico, à mera subsistência. Ao contrário, necessidade como ‘carência’ e ‘possibilidade de’ permite-nos tornar a sua satisfação um processo dialético, de viver e realizar as necessidades, de forma contínua e renovada, em todos os aspectos da vida. 8 350 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 Controle social: de quem? Para o quê? DIAGRAMA – Categorias componentes de participação popular na detecção, priorização e resolução dos problemas de saúde O diagrama sintetiza a reflexão rias, fraternas, democráticas e dia- modos de viver, e planetarização sobre a tecnologia construída e a lógicas, em uma época, como diria política e institucional dos modos inter-relação entre saber, poder, con- Dreifuss (1996. p. 325), de fim de de dominar”. Concomitante à globa- trole e participação. A interação en- milênio, com as “perplexidades de lização, mundialização e planetari- tre o saber local, o poder local e o três processos estonteantes: globa- zação, presenciamos as contradi- controle social ocorre sob o prisma lização econômica e de modos de ções e os antagonismos da “afirma- da construção de relações igualitá- produzir, mundialização social e de ção e preservação de particularida- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 351 DORNELLES, Soraia & LOCKS, Maria Teresa des, localismos e singularidades”, em um sistema repleto de contradições, capazes de produzir, além de determinações sociais complexas, um sistema de relações que tendem a esta mesma complexidade. A entrada de um novo milênio, por si só, não nos remete automaticamente a lutas pela construção de alternativas aos regimes econômicos e sociais dominantes e à história de seus vencedores, ou ao declínio e emergência de culturas e sociedades locais, ou ainda, ao reconhe- mercado – que não é auto-organizante de forma espontânea, mas é essencialmente institucional e costumeiro – e do governo; do fronteiriço e do transnacional; do comunitário e do particular; do público e do privado; do físico e do virtual (DREIFUS, 1996. p. 330). As sociedades tornam-se mais complexas em um tempo cada vez menor. Novas realidades irrompem com rapidez alucinante e velhas transformam-se continuamente, de modo que se torna difícil visualizar e organizar, em termos de conhecimento e ação, a os mecanismos e práticas de exclusão embutidos nas instituições e nas mentalidades? Como compartilhar, de forma legítima e legal, de bens societários que requerem uma designação prévia, pois somente ao consensualizar a sociedade a respeito de quais seriam haveria possibilidade de apropriar-se deles, efetivamente (DREIFUS, 1996). Estas questões devem estar presentes na construção do controle social, acrescentando ao esforço prático uma direção teórica, pela constante necessidade de agregar ao ato a reflexão sobre sua adequação téc- cimento ou negação da pluralidade nica e ética, em especial sobre as e complexidade da natureza huma- conseqüências de cada decisão. na, estranhamente questões muito ligadas às tendências de globalização, mundialização e planetariza- A tentativa de respostas a algu- A ENTRADA DE UM NOVO MILÊNIO mas das questões colocadas têm, como local predominante de origem ção. Mas, nos leva a refletir sobre NOS LEVA A REFLETIR SOBRE OS os conceitos assumidos acerca dos CONCEITOS ASSUMIDOS ACERCA é lugar de moradia das pessoas, próprios fatos e da forma de apre- DOS PRÓPRIOS FATOS E DA FORMA onde consideramos haver a possibi- DE APREENSÃO DOS MESMOS dades e multiplicidades deste come- ensão dos mesmos. Dreifus afirma: vivemos, em verdade, fenômenos atordoantes e desconcertantes, enfeitiçadores e inquietantes, que deixam a descoberto a inadequação de categorias e conceitualizações, espichadas até as raias do absurdo, para acomodar “acontecimentos-em-processos” e realidades qualitativamente diferentes – singulares, particulares, “específicos concretos” vividos ou acontecidos. Eles deixam em flagrante evidência, como nunca, não só a incapacidade explicativa das ideologias, mas sua inoperância para fornecer ‘harmonias cognitivas’ tranqüilas e conclusivas (1996, p. 329). Atualmente, convivemos com diversas simultaneidades: do estatal, e do não estatal; do e desenvolvimento, o município, que lidade de apreensão das singulariço de milênio, sob uma perspectiva de vivência concreta cotidiana, tentando uma aproximação com a ri- diversidade e a multiplicidade de diversidades. Questionamentos antigos são acrescidos de novos e/ou mesmo mudam de significados. queza e a complexidade da vida individual e coletiva das pessoas em seu local de moradia, trabalho e vivência, lugar onde efetivamente se dá a intervenção e a mudança na Pergunta-se o que seja bem comum “(ou ‘da maioria’, ou ‘de todos’) e como alcançá-lo, mas tendo que considerar história humana. O espaço se refe- os diversos padrões e referências de satisfação individual? Como fazer para maximizar e preservar a liberdade pe- ele o município ou a comunidade. rante a autoridade, a regulamentação e o controle? Como assegurar o exercício da autoridade sem ofender a iniciativa do indivíduo? Como lidar com 352 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 re, portanto, ao espaço local, seja O município é aqui tomado como primeiro nível de representação democrática do território, definido jurídica e territorialmente, como um espaço limitado, em que as pessoas Controle social: de quem? Para o quê? vivem e têm poder e autonomia na Voltando ao espaço de implemen- forma das relações estabelecidas, ou condução de suas políticas locais tação do SUS: o planejamento cen- seja, construir planos de horizontali- (sejam elas econômicas ou não). tralizado, no qual as ações são de- dade, nos quais o saber, o poder e o Os municípios são os espaços terminadas de forma vertical, do controle seriam ressignificados, em naturais onde se produzem trocas nível central ao local, deve ser in- uma ‘dialógica’ pela emergência da entre homens e mulheres. Onde são vertido, e o planejamento e a exe- mais dinâmicas as relações cultu- cução das ações devem ser realiza- rais, econômicas ou sociais, o que das com base em relações igualitá- significa que a maior presença local rias (e horizontais), tanto no nível na vida cotidiana não pode ser uni- local, quanto na relação entre esse forme, mas sim assimétrica e imagi- nível e o mais central. nativa. Este raciocínio é semelhante Há, pois, uma reversão para a à noção conferida à comunidade, que horizontalização, sustentada pela pressupõe também um caráter de neste espaço municipal que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido discursado desde sua inclusão na por Leopardi (1998). O local – seja ele o município, parte dele, ou a comunidade – é a base do trabalho, e sem esta referência seria impossível obter os resultados relatados. Dalari, 1985. p. 14 menciona que: as Prefeituras e as formas de articulação política municipal são a face local do Estado, a face local do poder, que tem um papel fundamental para manutenção do conjunto das relações de dominação na sociedade. identidade, cultural e histórica. É com base na sua implantação ‘equidiversidade’, como o proposto O PLANEJAMENTO DAS POLÍTICAS DE SAÚDE Constituição Federal brasileira de DEVERIA SE VOLTAR 1988, criando uma rede de referência PARA A APROXIMAÇÃO à questão da localização, no sentido DA VIDA COTIDIANA de ser o município o local de origem DE CADA CIDADÃO ção das políticas públicas e das ações que têm início e fim no local de moradia das pessoas. Assim, o planejamento das políticas de saúde deveria se Isso confere uma nova dimensão e chegada do planejamento e execu- voltar para a aproximação da vida de saúde, início e fim também do pro- cotidiana de cada cidadão. cesso de planejamento em saúde, con- Nesse sentido, nada mais óbvio que em nível local se deva lutar para que todos participem ativamente das decisões locais sobre as ações de saúde, sendo o Conselho Municipal participação cidadã e democrática, constituída de três dimensões das relações sociais: o saber local, o poder local e o controle social, aqui de Saúde um promotor da partici- analisadas sob prisma particular, pação cidadã cotidiana (e não ape- como veremos a seguir. ferindo maior decisão e controle local sobre elas, ainda que possam ter pontos de convergência com políticas de caráter estadual ou nacional. Longe estamos, portanto, de diminuir a importância de outras instâncias que não aquelas municipais, nas nas Conferências) e o coordena- A nossa experiência de tentar co- as de cunho regional, estadual ou dor do processo municipal de pla- locar no seu lugar o processo de par- federal, até mesmo porque muitas nejamento e execução das ações e ticipação cidadã, tem como premis- ações de saúde somente têm senti- políticas de saúde local. sa a inclusão desse novo conteúdo à do nestes níveis. 9 Apenas chamamos 9 Como, por exemplo, as ações direcionadas ao enfrentamento de epidemias ou as referências de serviços de maior complexidade, nos quais a articulação tem de ser em níveis mais elevados do que no espaço municipal. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 353 DORNELLES, Soraia & LOCKS, Maria Teresa a atenção para a necessidade do de- comunitários ou mesmo indivíduos, soas transformadas em indicadores senvolvimento de novas formas de implica no reconhecimento da par- estatísticos. Por mais sofisticadas articulação entre os diversos níveis, ticipação como forma de convivên- que sejam as técnicas estatísticas, de modo que caiba ao município ser cia. A esfera pública constitui o ele- muitas questões detectadas não são a porta de entrada do Sistema de Saú- mento aglutinador das vontades co- passíveis de mensuração. O saber de, em todos os sentidos dessa expres- letivas e individuais. local transcende-as e pode tê-las são, ou seja, ser a porta de entrada O saber local é desenvolvido com como um instrumento auxiliar no no planejamento e execução das polí- base na vida cotidiana (coletiva e ticas de saúde e finalidade deste mes- individual) das pessoas e se refere Não pode ser confundido, porém, mo planejamento e políticas. a ela. É esta vida e nela que estão com a opinião pública, pois sua base O local é encarado, aqui, sob a as condições concretas para que as é o conhecimento da realidade local, ótica das pessoas que o ocupam, pois comunidades possam detectar, prio- de pessoas que nela vivem e que a os municípios e as comunidades so- rizar e resolver os problemas. transformam. Aqui, diferentemente conhecimento da realidade. mente existem porque as pessoas os da opinião pública, a riqueza e com- criam. O saber local só existe quan- plexidade da própria vida é ressalta- do pessoas o possuem, e está ligado ao conhecimento que elas têm de sua história coletiva, seus cotidianos e os problemas dele decorrentes. Uma visão parcial, de um único ator (ou grupo), seja ela técnica ou governamental, ou mesmo das camadas mais populares, não comporta a complexidade da vida cotidiana lo- UMA VISÃO PARCIAL, DE UM ÚNICO ATOR (OU GRUPO ), da e se parte da multiplicidade de SEJA ELA TÉCNICA OU deixando distantes as distorções pró- GOVERNAMENTAL, OU MESMO DAS CAMADAS MAIS POPULARES, NÃO COMPORTA A COMPLEXIDADE DA VIDA COTIDIANA LOCAL cal. Do mesmo modo, o conhecimento exclusivo de fatos que ocorrem em outros locais, 10 nhecer melhor o próprio cotidiano, prias da ideologia de massas. Diferencia-se da opinião pública por conter como elemento chave a participação, portanto, também a enunciação coletiva dos fatos da saúde. Lançamos mão de Sànchez (1997, p. 2), que considera participação cidadã apesar de de- monstrar uma apreensão da vida em Quanto mais próximos estiver- geral e até um domínio dos aconte- mos da vida concreta das pessoas, cimentos gerais, não expressa a ri- mais conhecimento teremos dos pro- queza da vida cotidiana da coletivi- blemas a elas afetos e maiores as dade à qual as pessoas pertencem. possibilidades de produção de ações O poder concentrado é que deter- conseqüentes, em sintonia com ou- mina os sistemas não democráticos, tros níveis de conhecimento, do cien- ao passo que o poder distribuído (ou tífico ao religioso. conquistado) entre as parcelas de O saber local não se restringe à uma população, representadas por simples coerência dada aos proble- associações, sindicatos e grupos mas percebidos como tais pelas pes- 10 visões de mundo como forma de co- no sentido de tomar parte (do indivíduo para o todo) na gestão do coletivo, da coisa pública. E a coisa pública (res publica) é aquilo que afeta e interessa à sociedade em seu conjunto, não é monopólio exclusivo do Estado (...) Participar não é somente colaborar, nem opinar sobre determinado assunto ou atuação. Não é informar, ou sentir-se informado do que fazem os seus representantes. Participar supõe um mais de vontade, de intervenção, um sentimento de pertencimento a uma coletividade, a um grupo, a uma cidade. O conhecimento de fatos mundiais, considerados de ‘grande importância’, como a alta do dólar, a queda da bolsa, as guerras etc. 354 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 Controle social: de quem? Para o quê? A participação não pode ser re- cimento da realidade. O conflito – en- duzida àquela permitida pelos go- tendido não como a existência de an- vernos e, tagonismos, como já discutido –, no pretender reduzir a participação na coisa pública ao que permitem os canais desenhados pelos poderes públicos é desconhecer a importância da atividade associativa nas cidades, é limitar a idéia de participação à emissão de opiniões a respeito das atuações administrativas. Participar é um verbo, um processo, uma ação, uma dinâmica. Há um problema aqui. A infor- qual a vitória de uma visão dependeria da derrocada de outra(s), mas como parte integrante da vida, reflexo da multiplicidade de visões. Nesse sentido, seu reconhecimento torna-se sua superação, e o saber local passa a conter também o conflito e a busca do interesse geral, o que afeta a uma generalidade de pessoas. Como diz Sànchez, a democracia necessita ao mesmo tempo de conflitos de idéias e de opiniões, que lhe conferem sua vitalidade e produtividade. [...] Desse modo, exigindo ao mesmo tempo consenso, diversidade e conflituosidade, a democracia é um sistema complexo de organização e de civilização políticas que nutre e se nutre da autonomia de espírito dos indivíduos, da sua liberdade de opinião e de expressão, do seu civismo, que nutre e se nutre do ideal Liberdade/Igualdade/Fraternidade, o qual comporta uma conflituosidade criadora entre esses três termos inseparáveis. (2000, p. 108) mação é essencial para o saber lo- Assim, os conflitos conferem vi- cal e a participação cidadã. O conhe- talidade à democracia, que vive das cimento de cada indivíduo sobre o O SABER LOCAL DEPENDE pluralidades e das concorrências. que se passa no seu município, sobre as decisões tomadas pelos orga- DA ARTICULAÇÃO DOS DIVERSOS pretação sobre o segundo eixo, con- ATORES SOCIAIS E DA POSSIBILIDADE siderado a questão do poder local, nismos locais (sejam eles governamentais ou não) em relação aos pro- Esta perspectiva dá uma nova inter- jetos e ações sobre os problemas en- DE EXPLICITAÇÃO DAS DIVERSAS contrados, possibilita a participação VISÕES DE MUNDO, DE COTIDIANO individual nos organismos locais (sejam eles governamentais ou não). diano e de problemas percebidos. Quanto maior o número de participantes do processo, mais próximo chegamos da realidade local. Quanto mais visões explicitadas, mais pos- sociais, mas sim a partir da capacienfrentamento e resolução dos problemas detectados, além de ser fun- lação dos diversos atores sociais e diversas visões de mundo, de coti- hegemonia de grupos e/ou atores dade de autonomia local, dada pelo E DE PROBLEMAS PERCEBIDOS O saber local depende da articuda possibilidade de explicitação das visto agora não mais sob a ótica da damentalmente a expressão da capaé no caminho da realização dos interesses gerais, das diferentes visões, contraditórias entre si, plurais e diversas que a coisa pública é gerida. Não há um único caminho, um único jeito, um único agente interventor (1997, p. 3). cidade de decisão sobre o processo. O que entra em jogo é a força coletiva e a participação cidadã na definição de problemas e no encaminhamento de sua solução, constituídos pela experiência do poder sibilidades temos de apreender a Morin, ao tratar do elo vital en- distribuído. A partir do momento em complexidade da vida cotidiana. Aqui, tre democracia e diversidade, afir- que haja o conhecimento dos pro- a pluralidade é bem-vinda e perpas- ma que a necessidade do resgate blemas locais, sua solução é discu- sada pelo reconhecimento de que a dos valores pressupunha, embora tida, encaminhada e avaliada. explicitação do conflito reflete a rique- invertido em sua concepção bur- O poder local não se refere a ca- za da própria vida, vista agora como guesa, uma nova possibilidade de pacidades individuais (sejam estas instrumento essencial para o conhe- relações, pois de uma pessoa ou grupo) de en- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 355 DORNELLES, Soraia & LOCKS, Maria Teresa frentamento dos problemas, mas ao problemas encontrados. O conheci- coletivo, constituído por vontades mento técnico é colocado a serviço individuais que se expressam mu- da vontade coletiva. tuamente. É o coletivo que define o A capacidade coletiva de conhe- que seja problema, prioriza-o e en- cimento dos problemas e construção caminha sua solução. A obtenção das soluções fundadas nestes mol- dessa solução, ou soluções, é, por- des leva-nos, portanto, ao terceiro tanto, uma vitória da coletividade, eixo: o do controle social, aqui en- uma afirmação de um tipo de po- tendido como as regras estabeleci- der pleno de potência para o desen- das para a detecção, priorização e volvimento social, porque é consti- resolução dos problemas, e não sim- tuído efetivamente por pessoas con- plesmente a fiscalização sobre a atu- cretas. Reafirmando, é um poder ação de entidades governamentais munidade, pois primeiramente, cada um se dando por inteiro, a condição é igual para todos, e a condição sendo igual para todos, ninguém tem o interesse de torná-la onerosa para os outros (2000, p. 36). Para ele, o contrato social é a base de toda sociedade civil, e é na natureza desse contrato que devemos procurar a base da sociedade que ele forma. Reconhece-se, hoje, que o poder público (mesmo sob os auspícios da local e não individual, ainda que a tão propalada democracia) não abar- separação indivíduo/sociedade seja ca a riqueza da vida das cidades. Sanchéz acrescenta que, apesar da muito tênue e confusa. eleição direta ser uma das formas de Mais uma questão deve ser tratada aqui, a das relações desenvolvidas entre os trabalhadores do se- CABE AOS TRABALHADORES tor saúde e os usuários dos servi- DO SETOR SAÚDE A TAREFA ços, ambos cidadãos, atores políticos com capacidades particulares e visões de mundo distintas. Cabe DE COLOCAR SEUS CONHECIMENTOS A SERVIÇO DO SABER E PODER LOCAIS aos trabalhadores do setor saúde a tarefa de colocar seus conheci- o sistema eleitoral e o sistema de funcionamento dos partidos políticos e instituições por si só não resultam em uma intervenção direta da cidadania na gestão dos assuntos públicos . [...] As decisões tomadas nos diferentes níveis de governo (local, autônomo ou central) são, na sua grande maioria, desconhecidas, quando não ignora- mentos a serviço do saber e poder locais, articulando as diversas visões de mundo existentes no mu- ou não governamentais, embora nicípio, com o objetivo de traduzir também a contenha. O controle é a linguagem coletiva e popular em exercido pelo coletivo na avaliação ações pertinentes específicas do do processo de solução dos proble- setor saúde, permitindo a emergên- mas detectados e no compromisso cia do controle social. prévio dos atores sociais em contri- Essa tarefa transcende o simples garantia da participação cidadã, buir para buscar soluções. das pela maior parte dos cidadãos, que, unindo a percepção da política como algo perverso, comporta um alheamento da questão social que diz respeito à gestão da coisa pública (1997, p. 3). Se, por um lado, há esses limites da administração governamen- conhecimento técnico, explicitando- Rousseau elabora o que intitula tal, por outro, a conduta do gestor se em uma postura, do técnico em de ‘contrato social’, no qual, segun- municipal é essencial no sentido de saúde, de estímulo à diversidade de do ele, todas as cláusulas reduzem- estimular a participação cidadã e idéias e de respeito aos diversos se a apenas uma: reforçar o compromisso ético com o participantes do processo de detecção, priorização e resolução dos a alienação total de cada associado com todos os seus direitos a toda co- 356 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 348-357, set./dez. 2003 conjunto de seus moradores. Apesar de a administração pública ser Controle social: de quem? Para o quê? condição insuficiente para a parti- < w w w. i a g a . c o m / i g a d i / h t m l / cipação cidadã, ela é essencial. t_fondo.htm>. Acesso em: 04 ago. Em síntese: o controle social efeti- 2000. vo transcende a fiscalização de ações R OUSSEAU, Jean Jacques. Do contra- governamentais. Depende da aceita- to social. São Paulo: Abril Cultu- ção do conflito, do respeito a todo e ral, 1978. qualquer ator social e da construção de mecanismos de participação cidadã. Não existe controle social sem sua construção no cotidiano das pessoas envolvidas. O fim é o próprio caminho, e é nele que aprendemos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS S ÀNCHEZ, Fernando Pindado. A la vida de lês ciutats. In: Simposio – La democràcia local cap ao segle XXI. Cerdamyola del Vallès, Espanha. 20 a 22 de bivenbri de 1997. Disponible no site: <www.troc.es/repensar/ simposixxi/ponencia.htm>. Acessado em: 28/08/00. D ENTE, N. J. H. Dicionário Rousseau. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1996. D REIFUSS, Renè Armand. A época das perplexidaddes: mundialização, globalização, planeraização – novos desafios. Petrópolis, RJ: VOZES , 1996. G RAMSCI , Antonio. Quaderni del carcere. 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Os mecanismos para o Ana Maria Costa1 José Carvalho de Noronha2 seu exercício se estruturam não apenas sob a forma das Conferências e dos Conselhos de Saúde, mas por meio de outras alternativas que se foram consolidando com o aprofundamento da democracia no país. O artigo examina as potencialidades desses mecanismos participativos enquanto ferramentas de mudanças estruturais nos modelos de concepção, organização e gestão do sistema de saúde brasileiro, e da própria organização do Estado, ao colocálo sob controle permanente da sociedade, por meio de um novo estatuto jurídico-institucional e da participação direta da população. As relações entre as estruturas gestoras do SUS e a representação societária nos Conselhos são examinadas e o conceito de ‘gestão participativa’ é explorado. DESCRITORES: Participação Comunitária; Direito à Saúde; Reforma Sanitária; Mudança Social. ABSTRACT The participation of the society is one of the fundamental directives of Médica sanitarista, coordenadora do GT Gênero e Saúde da Associação Brasileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), Diretora de Articulação Intersetorial da Gestão Participativa do Ministerio da Saúde (MS) SQN 313 Bloco I Apto. 503 CEP 70766-090 – Brasília – DF e-mail: [email protected] 1 Professor Adjunto do Departamento de Políticas, Planejamento e Administração em Saúde do Instituto de Medicina Social (IMS), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (U ERJ ) Rua São Francisco Xavier, 524 – 7o andar CEP 20550-900 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] 2 the Brazilian Health Reform fixed in the Constitution of 1988. It is exercised not only through the mechanisms of the Health Conferences and Councils, but also through other alternatives that are being consolidated with the advancement of democracy in the country. The article examines the potentialities of these participatory mechanisms as tools for structural changes in the models of conception, organization and management of the Brazilian Healthcare System. It also discusses their role in challenging the State organization as they put it under permanent societal control through new juridical institutional statutes and direct peoples’ participation. The relationships between the managerial structures of the Unified Health System (SUS) and society’s representation in the Health Councils are examined and the concept of ‘participatory management’ explored. DESCRIPTORS: Consumer Participation; Right to Health; Health Care Reform; Social Change. 358 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 358-363, set./dez. 2003 Controle Social na Saúde: construindo a Gestão Participativa INTRODUÇÃO res e dos usuários do SUS. Envolve tralização pelo fato da aproximação modificar consagrados conceitos de territorial entre usuários e gestores. A inclusão do direito à saúde fazer saúde e a consciência de cada No entanto, vícios de cultura política como direito universal no texto cons- trabalhador, fazendo-o incorporar na podem constituir-se em fatores nega- titucional de 1988 foi uma importante concepção que vai mediar seu tra- tivos na concretização das práticas conquista no processo de construção balho, valores libertários, humani- democráticas e do respeito aos prin- da cidadania brasileira. Esta tendên- tários e de solidariedade. cípios da Democracia que persegui- cia da chamada Constituição Cidadã As mudanças necessárias no es- mos. O combate ao clientelismo re- incorporou outras dimensões igual- paço institucional estão relacionadas quer a construção de instituições que mente relevantes: a reafirmação do à prática e ao aperfeiçoamento para garantam a capacidade de fortaleci- direito ao trabalho, à liberdade de a gestão participativa. Entre estas, a mento do governo agregada à capaci- expressão, à educação; a reorgani- valorização dos profissionais, o redi- dade de controle dos cidadãos sobre zação do Estado e a redefinição do recionamento da lógica de organiza- as ações governamentais. pacto federativo, com ênfase na des- Essa perspectiva orientou a cons- centralização das políticas públicas trução da proposta de organização e na participação social. Com o advento do Sistema Único de Saúde, o SUS, na forma em que foi concebido, ou seja, a partir do acúmulo gerado no processo da Reforma Sanitária, está posto o desafio da mudança do paradigma da saúde. Esta mudança envolve um outro modelo assistencial para a saúde, que somente se processará C OM O ADVENTO DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE , O SUS, NA FORMA EM QUE FOI CONCEBIDO, OU SEJA, A PARTIR para instâncias subnacionais tornando-se, para os setores organizados DA REFORMA SANITÁRIA , ESTÁ POSTO dimensão fundamental do processo. O DESAFIO DA MUDANÇA DO dade sobre o Estado, por meio de ins- PARADIGMA DA SAÚDE trumentos próprios específicos em re- Toda ação controladora da socie- lação ao SUS, está no contexto do que chamamos de Controle Social. cesso: gestores, profissionais e ção dos serviços para os usuários e, usuários. Na esfera legal e norma- no plano do maior desafio, as mudan- tiva acumularam-se muitos avan- ças subjetivas, tanto referidas aos tra- ços e mudanças, que ainda não se balhadores, quanto aos usuários, processaram no âmbito operativo cujo objetivo é a construção de novos da atenção à saúde. sujeitos, na condição de atores sociais e políticos, ansiosos por mudanças e capazes de realizá-las. Portanto, o controle social expressa o objetivo de controle da sociedade sobre a política de saúde. As Conferências e os Conselhos de Saúde, criados pela Lei 8142/90, são, embora não exclusivos, instrumentos de Controle Social. Há igualmente outras alternativas de importância estratégica para a sua efetivação. En- sário que cada serviço de assistência se transforme em uma Unidade deslocamento de espaços de poder da sociedade, a participação em uma todos os atores envolvidos no pro- manifeste concretamente, será neces- descentralização é concebida como DO ACÚMULO GERADO NO PROCESSO com o envolvimento e o esforço de Para que este novo paradigma se do sistema de saúde brasileiro. A CONTROLE SOCIAL NO CONTEXTO DO SUS de Atenção à Saúde. Isto requer mu- tre estas, listamos algumas: • o voto sufragado na escolha dos dança de cultura na instituição e nas O princípio de participação social vidas e nos valores dos trabalhado- se associa fortemente ao de descen- governantes (executivos e legislativos) das diversas esferas de governo; Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 358-363, set./dez. 2003 359 COSTA, Ana Maria & NORONHA José Carvalho de • plebiscito criado pela Constituição Federal; Art. 14 – I; • projeto de Lei de iniciativa popular, criado pela Constituição Federal; Art. 27 § 4º e Art. 29 inciso XI; • Ministério Público, definidas suas atribuições na Constituição Federal, Cap. IV, Seção I e respectivos artigos; pal). O Conselho Nacional de Secre- Em relação ao controle social tários Estaduais de Saúde (C ONASS) exercido nas instâncias definidas pela e o Conselho Nacional de Secretári- Lei 8.142, constituiu-se a expectati- os Municipais de Saúde (C ONASEMS) va de que esses fóruns tivessem a têm representação no Conselho Na- “capacidade de influir sobre a ges- cional de Saúde (CNS), e a repre- tão pública” com o objetivo de “ba- sentação dos usuários nos conse- nir as práticas fisiológicas e cliente- lhos é paritária em relação ao con- lísticas que conduziram à privatiza- junto dos demais segmentos. ção da ação estatal no Brasil” (BAR- Essa forma de participação insti- ROS , 1992) e, por essa forma, tornar • órgãos de Defesa do Consumi- tucionalizada é definida por Carvalho o acesso aos resultados da ação do dor, regulamentados nos termos da como o “processo de inclusão no ar- Estado menos iníquo e desigual. Constituição Federal, Art. 5º - XX- cabouço institucional do Estado de no âmbito da ação dos conselhos XII e Art. 170 – V; de saúde constitui um processo de • mobilização popular, por meio interação entre distintos sujeitos, dos mecanismos próprios das enti- APESAR DOS OLHARES dades populares e sindicais; DIFERENTES PARA O MUNDO • meios de comunicação próprios dos Conselhos e a mídia em geral. A legislação que regulamenta a O exercício do controle social E A REALIDADE, CADA CONSELHEIRO DEVE SER CAPAZ DE RECONHECER , implantação do SUS cria os meca- TOLERAR E RESPEITAR AS nismos para efetivar as condições DIFERENÇAS DO OUTRO para isso1 , com a figura das Confe- portadores de interesses diversos, nem sempre congruentes ou convergentes. Apesar dos olhares diferentes para o mundo e a realidade, cada conselheiro deve ser capaz de reconhecer, tolerar e respeitar as diferenças do outro, desenvolvendo, com todos, negociações claras e democráticas. rências de Saúde e dos Conselhos de Os Conselhos de Saúde são, nes- Saúde existentes nas três esferas de se contexto, espaços de poder, de governo. O Conselho de Saúde, órgão colegiado composto por repre- estruturas de representação direta da conflito e de negociação. Mas, nas sentantes do governo, prestadores sociedade”, o que converte os Conse- condições sociopolíticas brasileiras, de serviço, profissionais de saúde lhos, na sua acepção, em “espaços não há como deixar de reconhecer a e usuários, atua em caráter perma- estatais contra-hegemônicos”. Por assimetria entre os membros dos nente e deliberativo na formulação outro lado, a gestão participativa pres- Conselhos de Saúde, especialmente de estratégias e no controle da exe- supõe conselhos atuantes e delibera- no que se refere ao acesso e ao uso cução da política de saúde, inclu- tivos e conferências definindo priori- das informações, assim como a ou- sive nos aspetos econômicos e fi- dades locais, estaduais e nacionais, tros recursos de poder, resultantes nanceiros, na instância correspon- que devem pautar e definir as políti- nas dificuldades para o efetivo cum- dente (federal, estadual e munici- cas de saúde a serem implementadas. primento dos seus objetivos. A participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde, assim como as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde, foram regulamentadas pela Lei 8142, de 28/12/90. 1 360 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 358-363, set./dez. 2003 Controle Social na Saúde: construindo a Gestão Participativa A realização de seus fins pressu- Os anos recentes de atuação dos põe a existência de sujeitos políti- conselhos evidenciam que estes or- cos e sociais que atuem, que parti- ganismos aglutinam forças emergen- Sobre o caráter deliberativo do cipem das decisões que os afetam, tes da sociedade, surgindo como ele- Conselho de Saúde não há dúvidas que lutem para determinar quais são mento novo no cenário das políti- na interpretação da Lei, adverte Sue- os seus direitos e exigir o que for cas de saúde no Brasil. São, por si li Dallari, mas, na prática, é depen- necessário para que possam usu- só, questionadores da velha estru- dente da concepção política que o fruí-los. Sujeitos dotados de repre- tura institucional, tecnocrática, cen- abriga, pelo jogo de poder que se sentatividade e de legitimidade, pois tralizadora, autoritária e normativa, estabelecer no seu interior, e por suas a ação individual, ainda que impor- própria da tradição do Estado bra- relações com os gestores. O poder tante, não é suficiente para a ação sileiro. Caracterizam-se, portanto, da legitimidade se manifesta na per- política. A ação política exige sujei- como poderoso dispositivo de mu- meabilidade que o Conselho adota tos coletivos, em que se expressem dança no interior da estrutura or- às questões que são colocadas pe- o auto-reconhecimento e o reconhe- presentados, em especial, os usuá- de direitos e de interesses. É isso entes que congregam coletividades (COSTA ; BARROS , 2000). Ao participar de um conselho, as entidades representadas o fazem por vêm do interior da sociedade. los diversos segmentos sociais re- cimento do outro como portadores que confere representatividade aos forças criativas e renovadoras que rios dos serviços de saúde. Os conselheiros são eleitos por OS C ONSELHOS E OS determinados segmentos sociais, a SEUS INTEGRANTES DEVEM saber: “O Conselho de Saúde, órgão colegiado composto por representan- ESTAR ABERTOS AOS NOVOS tes do governo, prestadores de ser- intermédio de pessoas. Essas pes- VALORES E ÀS FORÇAS CRIATIVAS soas somente podem exercitar a par- E RENOVADORAS QUE VÊM rios”. Na eleição, os representados DO INTERIOR DA SOCIEDADE outorgam poder aos seus represen- cela de poder que lhes é facultada, se sua representatividade for reco- tantes, compondo aí elementos da nhecida. É o reconhecimento que democracia representativa, “onde o confere legitimidade e, portanto, poder à representação. viço, profissionais de saúde e usuá- direito de fazer leis diz respeito a ganizacional da saúde e na moda- um corpo restrito de representantes lidade de gestão. São as mudanças eleitos por aqueles cidadãos a quem requeridas pela gestão participati- são reconhecidos direitos políticos”. representação dos usuários (...) será va seguindo o desejo das forças mo- Estes, no conselho, não se constitu- paritária em relação ao conjunto dos bilizadas e atuantes na sociedade. em enquanto um organismo ‘acima’ De acordo com a legislação, os Conselhos devem ter uma representação popular, e assim define que “a demais segmentos”. A definição da Isto não significa que os Conse- e separado das suas bases sociais. sua composição, no entanto, por si lhos estão isentos de incorporar ele- O vínculo permanente com o respec- só não garante o caráter popular do mentos conservadores. Para se pre- tivo segmento deve estar expresso Conselho, definido aqui como demo- venirem contra a burocratização, no exercício do controle direto dos crático e identificado com os interes- evitando que passem a se caracteri- atos do conselheiro ou por meio das ses populares. Uma composição zar como força conservadora, os Con- suas entidades representativas. ampla e representativa é fundamen- selhos e os seus integrantes devem Esse controle e a revogabilidade tal ao cumprimento deste objetivo. estar abertos aos novos valores e às dos mandatos dão aos Conselhos Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 358-363, set./dez. 2003 361 COSTA, Ana Maria & NORONHA José Carvalho de características de organismos de de- Por outro lado, o representante delo gerencial e assistencial propos- dos trabalhadores de saúde tem a to pela Reforma Sanitária Brasilei- Outro dado a ser analisado diz oportunidade de ouvir como o usuá- ra. No fundamental, os conselhos de- respeito ao fato de que os Conselhos rio deseja ser atendido o que signi- vem ser autônomos e adquirir capa- têm características de poder execu- fica uma mudança no seu proces- cidade de auto-análise e autogestão, tivo e legislativo. De acordo com so de trabalho, modificando velhas para se tornarem sujeitos em qual- Guido Ivan de Carvalho, “O Conse- rotinas e estruturas, em nome de quer processo de mudança. Os con- lho auxilia tanto a Câmara Munici- uma nova forma de atender a po- selhos devem ser, por excelência, os pal na elaboração de leis como o pulação. O diálogo criativo e cria- ‘novos protagonistas da Reforma Prefeito na execução das leis, e am- dor dos trabalhadores e usuários Sanitária’. Para esse desafio, os con- bos, Câmara e Prefeito (e especial- certamente influenciará no proces- selhos devem ser capazes de se cons- mente o dirigente municipal do so dos Conselhos, de modo que sur- tituir em atores sociais com vontade SUS), na condução dos assuntos de jam processos e propostas novas na e potência suficientes para reverter o mocracia direta. saúde no Município”. quadro sanitário nacional. É neces- Os Conselhos podem representar sário avaliar, permanentemente, os um avanço na organização do Es- impedimentos para aumentar as ca- OS CONSELHOS DEVEM tado, colocando-o sob o controle permanente da sociedade permitindo, por meio de um novo estatuto SER AUTÔNOMOS E ADQUIRIR pacidades e os poderes dos conselheiros e por resultado, dos conselhos. Os conselhos têm o poder político jurídico-institucional e da partici- CAPACIDADE DE AUTO-ANÁLISE E conferido pela Lei, mas isso não tem pação direta da população, que se AUTOGESTÃO, PARA SE TORNAREM sido suficiente para que se estabele- estabeleçam novos padrões de relacionamento da comunidade com o SUJEITOS EM QUALQUER governo e os serviços de saúde. PROCESSO DE MUDANÇA çam como ‘atores’ políticos que são. Para acumular força para mudar a realidade, o conselho deve utilizar os Esta proposta de organização do diversos recursos que podem mobi- Estado está no bojo do que hoje se lizar entre os que possuem ou que denomina Gestão Participativa. necessitam adquirir e exercer efeti- Ao se investir de poder políti- organização dos serviços de saú- vamente o Controle Social. co, a população e, principalmen- de. Assim, por meio da Gestão par- O Conselho acumula recursos te, os usuários vivenciam um in- ticipativa, os Conselhos podem tam- políticos pela inserção e mobiliza- teressante processo pedagógico de bém influir na política da organi- ção social por um lado e, por ou- aprendizado do exercício do poder zação dos serviços de saúde. tro, sua capacidade de pressão so- político. Ganham conhecimento po- Com esta nova prática, é neces- bre o Estado. Para isso é necessá- lítico e técnico, conquistam cida- sário deixar que os conflitos surjam ria uma comunicação com os seg- dania, o que leva ao estabelecimen- no interior da instituição, dando- mentos sociais por meio de suas en- to de uma relação da população lhes o adequado tratamento institu- tidades, e uma mobilização social com o governo, a partir de um pa- cional a partir de uma gestão par- formando opinião em defesa do SUS tamar diferenciado, como atores ticipativa, democrática, capaz de e ao direito à saúde. sociais e não mais como atores acionar todo o potencial libertário, Os Conselhos devem dispor de passivos e alheios. democrático, inerente ao novo mo- alguma estrutura física e de pes- 362 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 358-363, set./dez. 2003 Controle Social na Saúde: construindo a Gestão Participativa soal para o seu funcionamento. So- exercerem efetivamente sua função BOBBIO, Norberto. Dicionário de Po- bre isso, o Conselho Nacional de e o poder decisório que possuem. lítica, v. 1, 7. ed., Brasília, DF: Edi- Saúde definiu que “os organismos No entanto, as capacidades e habi- tora UnB, 1995, p. 324. de Governo Estadual e Municipal de- lidades que devem ser fornecidas verão dar apoio e suporte adminis- para os conselheiros representantes trativo para a estruturação e o fun- dos usuários, não devem se con- cionamento dos Conselhos, garantin- fundir com as capacidades dos téc- do-lhes, inclusive, a dotação orça- nicos ou gestores institucionais. Art. 1 . § 2 o mentária. O Conselho de Saúde de- Apesar de freqüentemente confun- CAMPOS , Gastão Wagner de Sousa et verá ter, como órgãos, o Plenário ou didas, as capacitações para conse- al. Considerações Sobre a Arte e a Colegiado Pleno e uma Secretaria lheiros devem ser claramente defi- Ciência da Mudança: Revolução das Executiva com assessoria técnica”. nidas, tomando como base o perfil Coisas e Reforma das Pessoas. In: Como esses recursos estão sob desejável para cada conselheiro, de Inventando a Mudança na Saúde. controle do governo local, nem sem- acordo as aspirações sobre a saú- São Paulo: HUCITEC, 1994. p. 65. pre o Conselho consegue dispor de- de de seus representados. BRASIL. Lei Federal 8.142/90 Art. 1o. § 4o. . Lei Federal 8142/90, o CARVALHO, Antonio Ivo de. Conselhos les. Isso tem causado uma estag- As diferenças de necessidades, nação política que dificulta a efeti- forma de inserção social e visão de vação do controle social. Na verda- mundo fazem com que haja uma de, isso ocorre porque muitos ges- disputa de poder entre os diversos tores têm uma visão de que os con- atores sociais, que atuam nos con- C ONSELHO NACIONAL selhos incomodam e são questiona- selhos. Os diversos rumos que esta Resolução 33 do Conselho Nacio- dores e, assim, não querem contri- disputa pode conduzir não deve, nal de Saúde de 23.12.92. http:// buir para elevar o seu grau de po- entretanto, afastar o Conselho de conselho.saude.gov.br. der. O gestor comprometido com a seu papel social, ou seja, a promo- gestão participativa suporta a atua- ção da justiça social e a melhoria ção do conselho e lhe confere poder e respeito. Em muitos casos, é seu aliado na luta por recursos ou decisões que favorecem a saúde da população. Os conselheiros devem acumular conhecimentos para sua melhor atuação e fortalecimento do poder do Conselho. O fato do conhecimen- do nível e situação de saúde da po- de Saúde no Brasil: participação cidadã e controle social. Rio de Janeiro: FASE/IBAM , 1995. DE S AÚDE (CNS). COSTA ; BARROS. A Saúde da Mulher e o Controle Social, Anais…ABRASCO 2000. D ALLARI, Sueli. Incentivo à Participa- pulação representada. ção Popular e Controle social no SUS: REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS textos técnicos para conselheiros de saúde, Brasília, DF: IEC/MS, 1994. BARROS , Elizabeth. A Política de Saú- F RANCO ,Túlio B. Controle Social, de Pós IX CNS. In: Cadernos da Nona, 1997. (mimeo.). Brasília, DF, 1992. to no campo da saúde ser tradicio- . O Controle Social e o Pro- nalmente um saber específico, res- cesso de Descentralização dos Ser- trito aos profissionais, gera um im- viços de Saúde. In: Incentivo à Par- portante diferencial em relação aos ticipação Popular e Controle Soci- usuários que se reflete no interior al no SUS: textos técnicos para con- do Conselho. Estes ficam, em certa selheiros de saúde, Brasília, DF: medida, dependentes daqueles para IEC/MS, 1994 . Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 358-363, set./dez. 2003 363 DALLARI, Sueli Gandolfi ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES A Participação Popular na Vigilância Sanitária para a garantia do Direito à Saúde Popular Participation in Health Surveillance as a guarantee of the Enforcement of the Right to Health Sueli Gandolfi Dallari1 RESUMO Examina-se a participação popular como requisito do Estado Democrático de Direito e, portanto, do direito contemporâneo. A partir da observação da evolução do conceito de saúde, verifica-se a essencialidade da vigilância sanitária. Mostra-se que o sistema nacional de saúde brasileiro adotou a participação popular. Conclui-se, com base nos resultados obtidos, a impossibilidade jurídica da vigilância sanitária sem a participação popular. DESCRITORES: Vigilância Sanitária; Direito Sanitário; Democracia; Direito à Saúde. ABSTRACT This article examines ‘popular participation’ as a requirement of the Coordenadora científica do Núcleo de Pesquisas em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (USP), livredocente em Direito Sanitário na USP, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP Av. Dr. Arnaldo, 715 CEP 01246-904 – São Paulo – SP e-mail: [email protected] 1 ‘Democratic State of Law’ and, therefore, of contemporary Law. From the observation of the health concept evolution, the essentiality of health surveillance is verified. It is noted that the Brazilian national health system adopted “popular participation”. Based on the results found, the author concludes that health surveillance would be legally impossible without citizen participation. DESCRIPTORS: Health Surveillance; Health Law; Democracy; Right to Health. 364 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 A Participação Popular na Vigilância Sanitária para a garantia do Direito à Saúde A PARTICIPAÇÃO POPULAR COMO REQUISITO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E, PORTANTO, DO DIREITO CONTEMPORÂNEO ção implica mais eficiência 1 – foi as- a vontade do soberano (por isso mes- sociado à interdição formal de que mo, dito absoluto) e não da falta de “aquele que faz as leis as execute” recursos materiais para tal exercício. (ROUSSEAU, 1760) e erigido em verda- Instaurada a democracia liberal A Constituição brasileira de 1988 deiro dogma . É, igualmente, a ori- burguesa, verificou-se – durante o começa com a afirmação do Brasil gem revolucionária que permite século XIX, no mundo ocidental – como Estado Democrático de Direi- compreender o grande valor que foi que apenas a garantia de igualdade to. É necessário compreender, então, dado à forma – muitas vezes em formal (perante a lei), característica o que significa essa qualidade acres- prejuízo do próprio conteúdo – na do Estado de Direito, não atendia ao centada ao Estado de Direito, que elaboração da doutrina do Estado anseio de liberdade real de todos justificou sua inclusão no artigo de Direito. Com efeito, aos líderes aqueles que haviam sido excluídos inaugural da Lei Maior. Assim, cons- revolucionários bastava que se de- do processo de elaboração legislati- tata-se inicialmente a manutenção clarassem extintos os privilégios e va. De fato, já a primeira Constitui- 2 da força da doutrina do Estado de ção francesa, ao estabelecer quem Direito, um dos instrumentos ima- pode participar da feitura da lei, tan- ginados pelas revoluções burguesas to compondo o Parlamento como ele- do final do século XVIII para resolver o desafio formulado por Rousseau, ao iniciar o Contrato Social: “encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de cada associado com toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedece a si mesmo, permanecendo as- gendo seus representantes, excluiu AS REVOLUÇÕES OPERÁRIAS DO FINAL DO SÉCULO XIX E COMEÇO DO SÉCULO XX inicialmente todas as mulheres e, em seguida, os homens que não possuíssem patrimônio ou renda superior a determinado valor3 . Desenvol- INTRODUZEM O ADJETIVO ve-se, então, novo período revolu- ‘SOCIAL’ PARA QUALIFICAR O E STADO DE D IREITO cionário, pois ficava claro que os assalariados da indústria nascente, por exemplo, embora formalmente sim tão livre quanto antes” (R OUSSEAU , 1760). iguais aos proprietários, perante a A ele se uniam o desen- lei, não possuíam as mesmas con- volvimento da doutrina da separa- instituída a igualdade perante a lei dições materiais de seus patrões no ção de poderes, a afirmação da para que a burguesia vencedora fos- que diz respeito ao exercício do di- Constituição como o mais importan- se realmente livre. Isso porque os reito à liberdade. Assim, as revolu- te documento político de um povo e obstáculos, até então postos ao exercí- ções operárias do final do século XIX a idéia moderna de democracia. cio da liberdade burguesa, decor- e começo do século XX introduzem Assim, o ensinamento da experiên- riam dos privilégios outorgados à o adjetivo ‘social’ para qualificar o cia – mostrando que a especializa- aristocracia e da insegurança dos di- Estado de Direito. Buscava-se corri- ção no exercício de qualquer fun- reitos que tinham, como única fonte, gir a deformação do processo legisla- É a conclusão de Aristóteles em A política, Livro III, cap. XI; John Locke, no Segundo tratado sobre o governo, XII, XIII e XIV; e Montesquieu, no Espírito das leis, VI, entre outros. 1 A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa de 1789, afirmava, no artigo 16: “Toda sociedade na qual a garantia de direitos não está assegurada, nem a separação dos poderes determinada, não tem Constituição”. 2 3 Cf. La Constitution de 1791, Chapitre premier, Section II, Art.2 & Section III, Art.3. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 365 DALLARI, Sueli Gandolfi tivo e, conseqüentemente, da idéia tir que todos tomem parte na feitu- mais ao interesse público. Assim, o moderna de democracia, causada ra da lei, não “assegurou a justiça papel que os fundadores dos Esta- pelo predomínio da forma. É im- social nem a autêntica participação dos Unidos da América reservaram portante notar que esses revoluci- do povo no processo político” (S ILVA, para o Poder Judiciário (na determi- onários continuaram a valorizar a 1989. p. 105). Verificou-se que a nação final da teoria da separação igualdade formal como uma con- exigência de formalidade combina- dos poderes) de controlar a obediên- quista fundamental, que deveria, en- da com a grande ampliação das es- cia à lei, que representava a vonta- tretanto, ser acrescida das possibi- feras de atuação do Estado, atingin- de geral, tornou-se impossível de ser lidades de sua efetiva realização. do quase todos os setores da vida cumprido: ora exigia-se a estrita Tratava-se, portanto, de reconhecer social, colocou em risco a democra- observância da legalidade em casos a existência de desigualdades ma- cia. Já não era apenas a lei – fruto onde a lei não mais abrigava a idéia teriais que inviabilizavam o gozo da atividade dos Parlamentos – que de justiça, ora deixava-se enredar dos direitos liberais e de responsa- regulava a vida social, mas, cada pelos vários documentos normativos bilizar o Estado pelo oferecimento – que expressavam interesses particu- inicialmente aos trabalhadores e, em lares, tornando aleatória a obediên- seguida, a todos aqueles que neces- cia ao princípio da legalidade. A lem- sitassem – daquelas condições que A LEI PASSOU A ATENDER A INTERESSES DE GRUPOS, permitissem a igualdade real de oportunidades. Caracterizam as conquistas desse período a adoção do brança da Alemanha nazista ou da Itália fascista é suficiente para evidenciar que sem a “efetiva incorporação de todo o povo nos mecanis- 4 A PARTES DA SOCIEDADE dos o direito de participar no pro- E NÃO MAIS AO participação de todos nos rendimen- cesso de elaboração das leis, por INTERESSE PÚBLICO tos da produção” (S ILVA , 1989. p. 105) sufrágio universal (garantindo a to- meio da eleição de representantes), a inclusão de um capítulo nas Cons- mos de controle das decisões e a real não se pode adequar a idéia de democracia aos tempos de hoje. tituições garantindo direitos traba- Desse modo, o conceito de Esta- lhistas e a implementação do cha- do Democrático de Direito reconhe- 5 mado Estado do Bem-Estar Social, vez mais essa função era realizada ce, respeita e incorpora as conquis- que presta serviços públicos para por atos normativos emanados pelo tas representadas pelo Estado de garantir direitos , entre outras. Poder Executivo. Observou-se, so- Direito e pelo Estado Social de Di- A experiência do Estado Social bretudo, que a forma da lei afastou- reito, mas soma à igual possibili- de Direito revelou, contudo, que a a de seu conteúdo ético. A lei pas- dade de participação na elaboração ampliação da participação no pro- sou a atender a interesses de gru- das normas gerais que devem reger cesso legislativo, de modo a garan- pos, a partes da sociedade e não a organização social e o controle de 6 Introduzido na Constituição francesa de 1793, não foi praticado. Embora com menos restrições, foi essa a situação até 1919, na Inglaterra e, 1920, nos Estados Unidos da América, com a admissão do voto feminino. 4 5 Introduzido, pela primeira vez, na Constituição do México de 1917. Entretanto, com maior repercussão doutrinária – porque buscou efetividade; assinale-se o Livro II da Constituição de Weimar (Constituição alemã de 11 de agosto de 1919) dedicado aos “Direitos e deveres do cidadão alemão”. 6 A expressão foi forjada na Inglaterra nos anos 1940. 366 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 A Participação Popular na Vigilância Sanitária para a garantia do Direito à Saúde A VIGILÂNCIA SANITÁRIA COMO ESSENCIAL AO CONCEITO DE SAÚDE sua aplicação aos casos particula- povo não institucionalizada. Tal equi- res. Trata-se, enfim, de instaurar a líbrio implica “a preservação de es- cidadania, onde o “cidadão é aque- paços públicos autônomos, a exten- le que tem uma parte legal na auto- são da participação dos cidadãos, a O conceito contemporâneo de ridade deliberativa e na autoridade domesticação do poder das media e saúde pública começou a ser deli- judiciária”, como ensina Aristóteles a função mediadora dos partidos po- neado no Renascimento, correspon- (ao redor de 330 a. C.). líticos não estatizados” (H ABERMAS, dendo praticamente ao desenvolvi- O Estado contemporâneo é, es- 1996. p. 471). Assim, por exemplo, mento do Estado Moderno. A expe- sencialmente, um implementador a participação popular na Adminis- riência das epidemias deixou sua de políticas públicas. E não se tração deve ser considerada um pro- marca, elaborando o conceito de pode ignorar que “o material jurí- cedimento eficiente ‘ex ante’ para perigo social, “usado mais como dico sobre o qual trabalham as legitimar as decisões que – apreci- pretexto para um controle sobre as políticas públicas contemporâneas adas conforme seu conteúdo nor- pessoas e não somente sobre as do- é indissociável de uma experiên- enças do que para medidas especí- cia do Direito e da juridicidade, que ficas de prevenção” (BERLINGUER, 1988. permanece como uma das marcas p. 82). Foi durante o Renascimento, identificadoras do Ocidente” (CAI- na Alemanha, que se definiu a idéia 2000, p. 51). Assim, para a PARA A CONSTRUÇÃO DA DEMOCRACIA , construção da democracia, conti- CONTINUA SENDO INDISPENSÁVEL QUE O LLOSSE, nua sendo indispensável que o direito, que pode assegurar a coesão de sociedades complexas, tenha fundamento democrático. Deve-se então, proteger as condi- DIREITO, QUE PODE ASSEGURAR A COESÃO DE SOCIEDADES COMPLEXAS, TENHA de polícia médica, a partir da ideologia hegemônica que afirmava ser o crescimento populacional a manifestação primeira da prosperidade e bem-estar de um povo; por isso, um bom governo deveria agir para prote- FUNDAMENTO DEMOCRÁTICO ger a saúde de seus súditos. O apa- ções procedimentais do processo rato administrativo do Estado de- democrático. É indispensável, por- veria estimular a prática da medi- tanto, a criação de um espaço ju- cina, da cirurgia, da farmácia, e rídico público, “suplantando a mativo – atuam como atos legisla- regulamentar o exercício dessas ati- cultura existente dos peritos e tivos ou judiciários. Apenas a ma- vidades para evitar abusos e o suficientemente sensível para sub- nutenção do espaço jurídico públi- charlatanismo. Deveria, também, meter ao debate público as deci- co permite superar a velha oposi- promover a pureza da água e dos sões sobre princípios – como o da ção entre direitos formais e reais, alimentos, assim como assegurar solidariedade social – que trazem direitos políticos e sociais, e mes- a higiene do meio, regulando, in- os problemas” (HABERMAS , 1996. p. mo a diferença entre a idéia de de- clusive, as edificações em solo ur- 469). Na lição de Habermas, a cha- mocracia e a de socialismo, uma bano (R OSEN, 1980. p. 159). ve para a gênese democrática do vez que é no seio de uma teoria am- Fica claro que a sistematização direito encontra-se na combinação pliada de democracia que os direi- da polícia médica resulta, especial- e na mediação recíproca entre a so- tos sociais podem ser repensados e mente, da profunda influência exer- berania do povo juridicamente ins- os direitos políticos aprofundados, cida – durante todo o século XVIII – titucionalizada e a soberania do ao mesmo tempo. pela filosofia do Iluminismo, que Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 367 DALLARI, Sueli Gandolfi considera a razão o caminho único as primeiras leis que tratavam orga- momento, verifica-se que o risco co- para a sabedoria. Assim, ao não ad- nicamente da higiene urbana, da no- letivo de contrair doenças sobrepõe- mitir as explicações sobrenaturais ção de estabelecimento insalubre e do se ao da própria moléstia, transfor- para os fenômenos naturais, o Ilu- controle sanitário de fronteiras . Em mando-a de episódio individual em minismo promove a ampla aceitação suma, as atividades do Estado rela- objetivo social, principalmente por da obrigação do Estado de controlar cionadas à vigilância sanitária, du- meio da disseminação dos meios es- o exercício das práticas médico-cirúr- rante a implantação do liberalismo, tatísticos na avaliação da saúde. gicas e farmacêuticas, combatendo eram em tudo coincidentes com os in- O início do século XX encontra o charlatanismo. Do mesmo modo, teresses da burguesia vitoriosa: va- instaurada a proteção sanitária por buscar a aplicação do método lorizando sobremaneira o individua- como política do Estado. São hie- científico na descrição das doenças e lismo dominante, limitá-lo apenas rarquizadas as três formas – hoje na determinação dos tratamentos, naquilo estritamente necessário à pre- clássicas – de prevenção9 e o Esta- essa filosofia eleva o exercício das servação da segurança individual, do do Bem-Estar Social da segunda 8 ciências médicas (como das demais metade daquele século reforça a ló- profissões liberais) a uma condição gica econômica, especialmente em de dignidade inimaginável na Idade decorrência da evidente interdepen- A NOÇÃO CONTEMPORÂNEA Média, o que justifica plenamente a regulamentação estatal do ensino DE SAÚDE PÚBLICA COMEÇA médico. E, também, ao advogar a dência entre as condições de saúde e de trabalho, responsabilizando-se pela implementação da prevenção possibilidade de planejamento da ati- A GANHAR MAIOR NITIDEZ DE sanitária. Instituem-se, então, os vidade estatal, somada à exaltação CONTORNOS NO E STADO sistemas de previdência social, que homem – que permitiu consagrar LIBERAL BURGUÊS DO tes, sistemas logo suplantados pelo mais atenção aos infortúnios das FINAL DO SÉCULO XVIII crescente dos direitos naturais do classes mais pobres – o Ilumismo não se limitam a cuidar dos doenconceito de seguridade social, que engloba os sub-sistemas de assis- estimulou a drenagem de pântanos, tência, previdência e saúde públi- a abertura de canais, favorecendo a cas10. Trata-se, portanto, de identifi- prevenção de epidemias. com o mais absoluto respeito à lei – car a responsabilidade a priori do A noção contemporânea de saúde condição do Estado de Direito. Entre- Estado. Assim, mesmo no que res- pública começa a ganhar maior niti- tanto, é apenas a partir da segunda peita aos estilos de vida, verifica-se dez de contornos no Estado liberal metade do século XIX que a higiene um grande investimento estatal 11. Os burguês do final do século XVIII. Apa- se torna um saber social, envolvendo últimos anos do século XX, contu- receram, assim, durante a Restaura- toda a sociedade, e faz da saúde pú- do, revelam uma nova concepção da ção (tomando-se o exemplo francês) blica uma prioridade política. Nesse saúde pública, fortemente influen- 7 7 1814 (1ª queda de Napoleão) – 1830 (revolução de julho, queda de Charles X). Ver o trabalho de Jean-Michel Lemoyne de Forges intitulado L’intervention de l’Etat en matière sanitaire: quelques repères historiques, publicado no Rapport Public 1998 do Conseil d’Etat (Paris, La documentation Française, p.489-501). 8 9 Veja-se, especialmente, na obra de Leavell & Clark, Medicina preventiva (São Paulo, Mcgraw-Hill do Brasil, 1976), as págs. 17-35. 10 Modelo adotado, por exemplo, na Constituição federal brasileira de 1988 (art.195). 11 Considerem-se, por exemplo, os investimentos dos Estados contemporâneos na luta anti-tabagista. 368 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 A Participação Popular na Vigilância Sanitária para a garantia do Direito à Saúde ciada, seja pelo relativo fracasso das ainda, daqueles que, derivados da Além disso, é indispensável o conhe- políticas estatais de prevenção, que economia, possibilitam a fixação do cimento da filosofia e da teoria ge- não conseguiram superar os limi- preço justo para a comercialização ral do direito que permitem a com- tes impostos pela exclusão social, de medicamentos. Entretanto, a par- preensão da eficácia formal das nor- seja pela constatação – agora cien- tir do momento em que a percepção mas que regulam os comportamen- tífica – da importância decisiva de do risco coletivo de contrair doenças tos humanos, mas é indispensável comportamentos individuais no es- se sobrepõe ao da própria moléstia, o conhecimento das práticas que tado de saúde. Por outro lado, o pre- é possível identificar uma unidade atuam o sistema de justiça, para domínio da ideologia neo-liberal entre aqueles saberes e práticas que que se possa conseguir sua eficácia provocou uma diminuição do papel fundamentam a regulação, caracte- social, controlando efetivamente os do Estado na sociedade, em favor rizando a Vigilância Sanitária. riscos para a saúde pública. dos grupos e associações e da pró- A vigilância sanitária represen- Assim, no momento em que as pria responsabilidade individual. As ta, sem qualquer dúvida, uma evi- condições da vida política e social estruturas estatais de prevenção apontam para uma mudança cultu- sanitária passam a estabelecer suas ral que valoriza as implicações do prioridades, não mais em virtude sistema produtivo na saúde, é na- dos dados epidemiológicos, mas, principalmente, em decorrência da análise econômica de custo/benefí- AS ESTRUTURAS ESTATAIS DE PREVENÇÃO SANITÁRIA PASSAM A ESTABELECER SUAS cio. E isso, por vezes, acaba impli- PRIORIDADES, NÃO MAIS EM VIRTUDE cando a ausência de prevenção, ele- DOS DADOS EPIDEMIOLÓGICOS, MAS, mento historicamente essencial ao conceito de saúde pública. Verifica-se, portanto, que, dada a PRINCIPALMENTE, EM DECORRÊNCIA DA ANÁLISE ECONÔMICA DE CUSTO/BENEFÍCIO tural que cresça em importância o campo do conhecimento que reúne a ciência pura e a aplicada para atuar a Vigilância Sanitária. Do mesmo modo, é lógico que seja superado o viés deformador do positivismo liberal-burguês, mutilador da compreensão global dos fenômenos hu- complexidade do conceito de saúde, manos. Por isso, pode-se afirmar que o estudo da vigilância sanitária en- a vigilância sanitária expressa um volve – necessariamente – seu exa- sub-campo do conhecimento cientí- me sob várias óticas. É certo que, dência da mudança de paradigma fico 12 – dotado de leis próprias, deri- para regular o exercício das chama- no campo da saúde coletiva. Com vadas dos agentes e instituições que das profissões de saúde (medicina, efeito, para sua definição, tanto é o caracterizam – que facilita a supe- farmácia, enfermagem, odontologia, necessário o conhecimento químico ração da divisão (hoje inconvenien- etc.), exigem-se um conhecimento e puro, que permite a compreensão da te) entre ciência pura e aplicada. uma prática diferente daquela desti- estrutura da molécula que antago- nada a promover a pureza da água e niza o bacilo, quanto a prática da dos alimentos, assim como ela dife- organização do trabalho da enferma- rirá daqueles destinados a assegu- gem hospitalar ou de transporte e rar a higiene do meio ou a regular armazenamento de alimentos, que Em um rápido exame do sistema as edificações em solo urbano ou, permitirão o controle de infecções. constitucional de proteção e promo- 12 O SISTEMA NACIONAL DE SAÚDE E A PARTICIPAÇÃO POPULAR Conforme a lição de Pierre Bourdieu em Les usages sociaux de la science. Paris, INRA, 1997. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 369 DALLARI, Sueli Gandolfi ção do direito à saúde no Brasil, ve- ria no Brasil: as conferências, os mular estratégias e controlar a exe- rifica-se que a vontade de participa- conselhos e os fundos de saúde. cução da política de saúde, inclusi- ção no governo, que fez do Brasil um Deve-se notar que, em razão da ado- ve em seus aspectos econômicos e Estado Democrático de Direito, está ção do modelo federal, essas insti- financeiros (Lei Federal n° 8.142/90, presente na Constituição, examina- tuições devem se reproduzir nas três art. 1°, II). Os fundos de saúde de- da sob a ótica da saúde, como ‘de- esferas de poder político do Estado. vem ser geridos por um Conselho mocracia sanitária’. De fato, a exi- As conferências de saúde devem se com a participação paritária dos gência de participação da comunida- reunir pelo menos uma vez a cada usuários (50%) e de representantes de foi erigida em princípio de orga- quatro anos, com a participação dos do governo, dos prestadores de ser- nização do sistema público de saú- usuários (50%) e de representantes viços e dos profissionais de saúde e de (SUS), tal como, em resposta à ne- do governo, dos prestadores de ser- seu funcionamento deve ser super- cessidade de racionalização, esse sis- viços e dos profissionais de saúde. visionado pelo respectivo conselho tema deve ser organizado de acordo Elas existem para avaliar a situa- de saúde. Os recursos dos fundos com a diretriz de descentralização, de saúde devem ser alocados como com direção única em cada esfera de despesa de manutenção e capital; governo; e de atendimento integral, investimento conforme a lei orça- com prioridade para as atividades preventivas (art. 198). Fruto dos mesmos movimentos que conquistaram AS CONFERÊNCIAS DE SAÚDE DEVEM SE REUNIR PELO MENOS UMA VEZ A CADA o direito à participação direta no go- QUATRO ANOS, COM A PARTICIPAÇÃO DOS verno, a lei que organiza o sistema USUÁRIOS (50%) E DE REPRESENTANTES nacional de saúde, respeitando esses mentária; investimento conforme o Plano Quinqüenal; ou pagamento das ações e serviços de saúde realizados por outras pessoas jurídicas (Lei Federal n° 8.142/90, art.2°). É evidente que, no plano legisla- princípios constitucionais, foi edita- DO GOVERNO , DOS PRESTADORES DE tivo, sejam os dispositivos consti- da em 1990. Refletindo a tensão en- SERVIÇOS E DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE tucionais, seja a legislação ordiná- tre as posições políticas representa- ria, organizaram mecanismos ade- das no Congresso Nacional, a Lei Or- quados para o exercício de uma ver- gânica da Saúde é, em realidade, dadeira democracia sanitária. E, duas leis: todas as disposições so- ção de saúde e sugerir diretrizes fato curioso caso seja considerado bre a participação popular e o finan- para a formulação da política sani- a tradição de governos ditatoriais ciamento, que constavam da primei- tária e deve ser convocada pelo Po- convivendo com uma Constituição ra Lei Orgânica, a Lei Federal n° der Executivo (Lei Federal n° 8.142/ e um Poder Judiciário funcionando 8.080/90, foram objeto de um veto 90, art. 1°, I). Os conselhos de saú- regularmente, no Brasil, todas as ins- presidencial e um acordo foi nego- de são órgãos de caráter permanen- tituições da democracia sanitária fo- ciado para a apresentação imediata te e deliberativo, constituídos pela ram implementadas e atuam nor- de um novo projeto de lei regulando participação paritária dos usuários malmente. Entretanto, a democracia a matéria, cuja tramitação muito rá- (50%) e de representantes do gover- sanitária encontrou uma sociedade pida (três meses no total) resultou no, dos prestadores de serviços e dos que, depois da queda da ditadura e na Lei Federal n° 8.142/90. profissionais de saúde, cujas deci- da conquista da Constituição, não Especialmente três instituições sões devem ser homologadas pelo mais se interessa com igual força caracterizam a democracia sanitá- Poder Executivo. Seu objetivo é for- pelos movimentos de ampliação da 370 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 A Participação Popular na Vigilância Sanitária para a garantia do Direito à Saúde cidadania e um Estado não habitua- las Normas Operacionais Básicas a destinação de recursos. Ela criou, do a ter suas ações controladas. De (NOB) desde 1991. A primeira des- também, o mecanismo para a trans- fato, quando se considera a força sas normas (NOB 1/91) limitava-se a ferência direta dos recursos federais dos movimentos em prol da partici- aplicar o sistema de pagamento por para os municípios (fundo a fundo) pação popular por ocasião da As- produção de serviço ao setor públi- e os modelos de ‘autonomia’ pro- sembléia Constituinte, houve um co e a seguinte (NOB 1/92) vinculava gressiva, de adesão voluntária. As- expressivo enfraquecimento desses a liberação de recursos à existência sim, se, por exemplo, um municí- movimentos quando se tratou do fi- de um plano qüinqüenal. pio decide aderir à forma mais au- nanciamento do sistema de saúde: Foi a terceira Norma Operacio- tônoma, esse município tem a liber- a reforma do mecanismo de financi- nal Básica (NOB 1/93), chegando dade de decidir sobre a aplicação de amento da saúde no sentido da real mesmo a receber um nome – ‘ousar certa quantidade de recursos trans- universalização desse direito acon- respeitar a lei’ – que criou os meca- feridos em função do tamanho de teceu apenas no final do ano 2000. nismos de gestão participativos e sua população. Uma avaliação des- Tem-se claro, hoje, que os movimen- ses mecanismos de descentralização tos sociais são, sobretudo, reivindi- e democratização oriundos da ordem cativos e reticentes quanto à assun- constitucional, instaurada em 1988, ção de co-responsabilidade com os poderes públicos. Tal comportamento pode ser explicado, seja pela necessária participação pessoal nas despesas, custos em horas de trabalho e mesmo nos meios de trans- TEM- SE CLARO, HOJE, QUE mostrou que a forma engenhosa de OS MOVIMENTOS SOCIAIS SÃO, SOBRETUDO, REIVINDICATIVOS E RETICENTES QUANTO À ASSUNÇÃO porte, por exemplo, seja pela baixa DE CO-RESPONSABILIDADE COM capacidade de resposta do Estado às OS PODERES PÚBLICOS repartir rendas e distribuir responsabilidades, adotada no seio dessas comissões entre gestores, respeita verdadeiramente a autonomia federativa (NASCIMENTO; ZIONI, 2002). A evolução das Normas Operacionais Básicas prosseguiu com a edi- reivindicações de seus dirigentes, o ção da NOB 1/96, que criou uma ru- que constitui uma dificuldade para brica – Piso de Atenção Básica (PAB) suas pretensões políticas. especialmente para a atenção de base, Por outro lado, quando se consi- descentralizados. Ela criou as co- além do sistema de pagamento por dera a operacionalização do federa- missões entre gestores bi (gestores produção de serviço, e consagrou lismo de cooperação no campo da municipais e do estado-membro) e uma parte variável desse teto (PAB) saúde, deve-se reconhecer que a de- tripartite (gestores dos estados, dos aos programas federais (saúde da mocracia sanitária está inserida nos municípios e representantes do go- família, vigilância sanitária, assis- mecanismos da responsabilidade verno federal), encarregados de ela- tência farmacêutica, etc.) Assim, essa solidária da União, dos Estados e dos borar propostas para o sistema, Norma Operacional Básica de 1996 Municípios para ‘cuidar’ da saúde . acompanhar a implementação de limitou, em certa medida, a autono- As relações internas entre essas três normas e programas, avaliar os re- mia dos estados e dos municípios esferas autônomas são regidas pe- sultados e definir os critérios para que, para receber mais recursos fe- 13 Expressão que traduz uma nova fórmula de competência derivada do federalismo de cooperação, a competência comum, que foi adotada pelo sistema de saúde. Assim, existe responsabilidade solidária entre as três esferas federais por ‘cuidar’ da saúde (C. F. art.23, II). 13 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 371 DALLARI, Sueli Gandolfi derais, devem adotar os programas autarquias formalmente definidas encontrar o percurso constitucional- federais. Finalmente, em 2001, foi como ‘agências reguladoras’ . mente delimitado. Tão importante 14 editada a Norma Operacional de Assistencia à Saúde (NOAS 1/01), que deixou aos gestores dos estados a possibilidade de criar regiões de saú- foi a constatação de que o risco co- A IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA SEM A PARTICIPAÇÃO POPULAR de e de estimular a criação de con- letivo é de determinação cultural, recíproca e pública, que gerou a necessidade de uma nova teoria da justiça para dar forma política aos sortia entre os municípios. Obser- Tornar efetivo o sistema de vigi- riscos sociais. Assim, apenas uma ve-se que essa norma, fruto da cola- lância sanitária – intrinsecamente proteção eficaz contra as injustiças boração do Conselho Nacional de Se- vinculado ao direito e não apenas à relativas à liberdade ou à igualda- cretários Estaduais de Saúde (CONASS), lei – é tarefa árdua, que encontra, de pode garantir o sentido da justi- do Conselho Nacional de Secretários porém, um caminho já sinalizado na ça e o apego moral aos valores po- Municipais de Saúde (CONASEMS), e do Constituição Cidadã . Com efeito, líticos, indispensáveis à ação após 15 governo, foi aprovada na Comissão a descoberta do futuro comum (WOR- Intergestores Tripartite (CIT) e no Con- MS , selho Nacional de Saúde (CNS). se sustenta a crença numa ciência Verifica-se, portanto, que apesar de todas as dificuldades que decorrem da exigüidade do tempo de vida TÃO IMPORTANTE FOI A CONSTATAÇÃO DE QUE O RISCO COLETIVO É DE DETERMINAÇÃO das instituições democráticas no CULTURAL, RECÍPROCA E PÚBLICA, QUE Brasil e dos desafios postos pela falta GEROU A NECESSIDADE DE UMA NOVA de desenvolvimento social e econômico, a participação popular foi efe- TEORIA DA JUSTIÇA PARA DAR FORMA tivamente introjetada no sistema POLÍTICA AOS RISCOS SOCIAIS 1996). Por outro lado, não mais capaz de sempre melhor controlar os riscos. Bem ao contrário, é exatamente a constatação de que a própria evolução científica vem aumentado os riscos imprevisíveis, que está provocando a afirmação de um novo paradigma social: o da segurança. Assim, num contexto de in- sanitário nacional. Assim, em 2001, certezas científicas e do risco da dentre mais de 5.000 municípios ocorrência de danos graves e irre- brasileiros, 99% tinham um Conse- versíveis, ele induz a formação do lho de Saúde e o Fundo de Saúde e tratando a vigilância sanitária do princípio de precaução. É igualmen- realizavam, periodicamente, uma controle dos riscos associados ao te evidente que esse princípio pre- Conferência de Saúde. Além disso, processo de produzir e consumir, a tende disciplinar a inovação, reori- em vários estados e municípios – verificação de que não mais exis- entando o progresso científico ilimi- cujos governos eram mais democrá- tem riscos individuais tornou-se ine- tado e revalorizando a busca dos ticos – existem Conselhos Gestores vitável. E é, exatamente, a partir da verdadeiros responsáveis pelos com- junto aos serviços de saúde. E, tam- convicção de que todos os homens portamentos imprudentes. Assim, o bém, a consulta pública faz parte têm um destino comum, pois todos princípio de precaução não se com- do cotidiano da ANS e da ANVISA, ‘estão no mesmo barco’, que se pode praz apenas com a caracterização Agência Nacional de Saúde Suplementar (criada pela Lei Federal n° 9.961/00) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (criada pela Lei federal n° 9.782/99). 14 15 Em referência ao, já citado, conceito de cidadania proposto por Aristóteles. 372 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 A Participação Popular na Vigilância Sanitária para a garantia do Direito à Saúde do dano a ser compensado, pois ele a partir da apreciação de relatórios definição de uma carreira para os abriga a convicção de que existem periciais que traduzam a complexi- peritos (paralela àquela dos profes- comportamentos que devem ser proi- dade da pesquisa científica em in- sores nas universidades públicas, bidos, sancionados e punidos. A formações que sejam compreensíveis por exemplo), que lhes impusesse a mudança é, portanto, significativa: para todos os interessados. Verifi- imparcialidade requerida do juiz e não basta determinar o montante da ca-se, portanto, a necessidade de que os preparasse para traduzir indenização, pois existem danos que investimentos tanto na formação dos seus achados em linguagem acessí- não têm preço. pesquisadores, que deverão domi- vel para as pessoas comuns do povo. Talvez a maior contribuição tra- nar, também, as ciências sociais – O que se deve pretender, enfim, é que zida pelo princípio da precaução na teoria e na prática – para serem a discussão desses temas aconteça seja, contudo, duplamente jurídica. capazes de comunicar à sociedade num espaço que permita a supera- Com efeito, ao deixar claro que se os resultados de seus experimentos, ção da ‘cultura dos peritos’, onde trata de analisar um risco, isto é, a quanto das pessoas em geral, que possam ser efetivamente debatidas possibilidade de causar dano a al- as grandes opções sociais. guém, ainda que sem culpa, a exigência de precaução obriga a tomar Toda a discussão até aqui trava- TODA A DISCUSSÃO ATÉ AQUI da permite concluir que tornar efe- da perícia judicial, mas, também, TRAVADA PERMITE CONCLUIR QUE nitária exige que as condições pro- extra-judicial. É conveniente obser- TORNAR EFETIVA A REGULAÇÃO EM cedimentais do processo democráti- em conta, seriamente, a instituição var que o risco está diretamente ligado à técnica, não ao indivíduo tiva a regulação em vigilância sa- VIGILÂNCIA SANITÁRIA EXIGE QUE co sejam protegidas. Ou seja, na lição de Habermas, acima referida, que dela se vale. A complexidade AS CONDIÇÕES PROCEDIMENTAIS torna-se necessário preservar o pa- dos saberes envolvidos na decisão DO PROCESSO DEMOCRÁTICO pel dos Parlamentos como legítimos de instituir a vacinação generalizada contra uma grave infecção viral representantes dos interesses dos SEJAM PROTEGIDAS diferentes setores envolvidos tanto de incidência crescente, ou de reti- no processo de produzir e consumir rar do mercado um produto suspei- quanto de controlar os riscos sani- to de causar infecção e morte, com necessitam conhecer as bases do tra- tários relacionados a tais atividades, base apenas em informações epide- balho científico para poderem esco- combinando-o com a extensão das miológicas ainda não-comprovadas lher o grau de risco ao qual consi- hipóteses de participação dos cida- laboratorialmente, por exemplo, re- deram aceitável submeterem-se em dãos nos serviços de vigilância sa- quer a participação de peritos que nome do progresso. nitária, com o controle democrático não sejam responsáveis pela deci- Assim, o passo seguinte implica dos meios de comunicação de mas- são, mas de quem se deva exigir o – nas hipóteses em que as limita- sa, especialmente no que se refere, domínio sobre sua área de especia- ções do conhecimento científico in- diretamente, aos riscos para a saú- lidade e que respondam – social e vocam o princípio da precaução – a de e com o fortalecimento de comis- juridicamente – pelas informações necessidade de um grande investi- sões especializadas no tema nas es- prestadas. E, em caso de se exigir a mento social para disseminação truturas partidárias. Verifica-se, resposta judicial, o juiz deverá ser popular dos meios e modos da ciên- portanto, que a participação popu- capaz de formar seu convencimento cia. Seria igualmente conveniente a lar (entendida em sua inteireza, en- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 373 DALLARI, Sueli Gandolfi volvendo todos os segmentos poten- tivos da administração desvincula- gênio racionalista às exigências da cialmente interessados) na feitura da dos de uma lei. Assim, o Judiciário atualidade, permite explicar a exis- norma administrativa de vigilância contemporâneo vive uma situação, tência de decisões judiciais totalmen- sanitária (que se perfaz na execu- em certa maneira, esquizofrênica: te discrepantes em casos semelhan- ção), deve ser considerada um pro- tendo recebido a função de preser- tes e, igualmente, justificar o com- cedimento eficiente ‘ex ante’ var a supremacia da lei na organi- portamento popular descrente da para legitimar suas decisões. zação social, ele deve, agora, deci- eficácia do recurso a esse Poder para Não deve, contudo, haver qual- dir qual a lei que deve prevalecer, a garantia de direitos. Por outro lado, quer ilusão de que ao garantir-se a entre as várias que dispõem sobre a a definição legal de padrões de qua- gênese democrática da norma jurí- mesma matéria de modos diferen- lidade para as ações e serviços de dica de vigilância sanitária – valo- tes e algumas vezes opostos; ou, em saúde não é da tradição brasileira. rizando a idéia de justiça – se esta- muitas oportunidades, ignorar o Com efeito, é muito freqüente que rá efetivando o direito à saúde. É dever de estrita observância da le- os gestores públicos, especialmente necessário reconhecer que o ambien- na área da saúde, não se preocu- te judiciário é essencial para a atu- pem com a forma legal de seus atos ação da vigilância sanitária, até a última instância. E não se pode ignorar que a grande engenhosidade do mecanismo criado para garantir a supremacia da lei [um sistema dito É MUITO FREQÜENTE QUE OS GESTORES PÚBLICOS, administrativos e, também, com a ESPECIALMENTE NA ÁREA tema em questão, dificuldade de sua publicidade. Assim, soma-se à pouca legislação sobre o específico acesso àquela existente posta aos ‘de freios e contrapesos’, que reser- DA SAÚDE, NÃO SE PREOCUPEM va a edição dos atos gerais (normas COM A FORMA LEGAL DE SEUS ATOS tão, baseado quase que exclusivamente na legislação trazida pelas rem emitidas, não se sabe a quem ADMINISTRATIVOS E, TAMBÉM , irão atingir) ao Legislativo, poder COM A SUA PUBLICIDADE de de povo e gestores públicos pro- abstratas que, no momento de se- não especialistas. O juiz decide, en- partes16, o que reforça a necessida- que, teoricamente, não dispõe de curarem dar forma legal à definição meios para cometer abusos; os atos dos padrões de qualidade dos servi- especiais (atuações concretas abso- galidade para convalidar ações da lutamente limitadas pelos atos ge- Administração tendentes à instaura- Para o funcionamento ideal do rais) ao Executivo] (DALLARI , 1999. ção de situação mais justa, não di- sistema jurídico, em matéria de vi- p. 220), facilitou a mitificação do retamente previstas em lei. E – ne- gilância sanitária, não basta, entre- princípio da legalidade. A instaura- cessário notar – justificando sempre tanto, a existência de leis adequa- ção do Estado Social de Direito, por sua opção na perfeita submissão ao das aos anseios sociais. Ele preci- sua vez, estimulou a proliferação de princípio da legalidade. A compre- sa, igualmente, de operadores que leis que atendem a interesses parti- ensão dessa inadequação do Poder ‘falem a língua do sistema sanitá- culares e, também, de atos norma- Judiciário tal qual imaginado pelo rio’ 17. Assim, seria interessante que ços e das ações de saúde. Veja-se, por exemplo os resultados, ainda não publicados, da pesquisa que vem sendo conduzida pelo Núcleo de Pesquisas em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo. 16 Adaptando-se a expressão de Teubner, quando discute a regulação da sociedade pelo direito reflexivo (Teubner, G. Le droit: um système autopoiëtique. Paris, PUF, 1993). 17 374 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 A Participação Popular na Vigilância Sanitária para a garantia do Direito à Saúde os órgãos envolvidos – Polícia, Mi- polis. Muito já vem sendo feito para NASCIMENTO, P. R.; ZIONI, F. Relações nistério Público e Magistratura – se possibilitar o exercício pleno da ci- federativas no SUS: autonomia nas organizassem para oferecer a infra- dadania, especialmente no que diz relações intergovernamentais da CIB- estrutura de apoio necessária para respeito à saúde. É chegado, contu- SP. Revista de Direito Sanitário, ano a apresentação dos argumentos e a do, o momento de dar o salto de 3, n. 2, jul. 2002, p. 11-33. formação do convencimento, respec- qualidade que garantirá a efetivida- tivamente, em matéria de vigilância S ILVA, J. A. da. Curso de direito cons- de da regulação em vigilância sani- sanitária. Isso deve implicar, por titucional positivo. São Paulo: Re- tária. É necessário, pois, que povo exemplo, a existência de facilida- vista dos Tribunais, 1989, p. 105. e governantes se unam na constru- des para o acesso (virtual ou real) ção e manutenção dos espaços pú- à legislação e à doutrina especializa- blicos de discussão e que seja feito da no assunto e, igualmente, o ofe- um esforço importante em educa- recimento de cursos e seminários ção, seja ela especializada em direi- sobre temas de direito sanitário. É to sanitário para os operadores do indispensável, porém, que todos – direito, seja – não menos importan- juízes, membros do Ministério Público e policiais – tenham acesso a tais recursos de infra-estrutura em qualquer Comarca onde se encontrem, uma vez que questões de segurança sanitária envolvem pessoas em todas as partes do território brasileiro e não apenas nos grandes centros urbanos. É necessário concluir enfatizando a importância do papel que o angústias e inquietações – a existência do direito à saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A RISTÓTELES. A política, Livro III, cap. XI e Livro III, cap. I, § 8. C EBES/HUCITEC, 1988, p. 82. saúde. De fato, tanto para que a lei CAILLOSSE, J. A propos de l’analyse des reflita o ideal de justiça da socieda- politiques publiques. In: COMMAILLE , de, quanto para que os órgãos de J; D UMOULIN, L.; ROBERT , C. La juridi- vigilância sanitária normatizem as cisation du politique: leçons scien- pre preservando o direito de proteção à saúde, é indispensável a par- 2, 1996, p. 287-307. cedendo, poderemos afirmar – sem na garantia do direito à proteção da que o Poder Judiciário decida sem- ce. L’Année sociologique, v. 46, n. para todo o povo. Apenas assim pro- BERLINGUER , G. A doença. São Paulo: çar a segurança sanitária ou para tion publique et sentiment de justi- te – sobre os métodos da ciência exercício da cidadania desempenha relações concretas que podem amea- WORMS, F. Risques communs, protec- tifiques. Paris: L.G.D.J., 2000. p 51. D ALLARI, D. de A. Elementos de teoria geral do Estado. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 220. ticipação dos cidadãos, atuando sua H ABERMAS. J. Droit et démocratie: parcela de responsabilidade na au- entre faits et normes. Paris: Galli- toridade deliberativa e judiciária da mar, 1996. p. 469; 471. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 364-375, set./dez. 2003 375 PORTO, Silvia Marta et al ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro Equity in the distribution of financial resources: an alternative for the Brazilian case Silvia Marta Porto Francisco Viacava Célia Landmann Szwarcwald Mônica Martins Cláudia Travassos Solon Magalhães Vianna Sérgio Francisco Piola Maria Alicia Ugá Cid Manso Vianna RESUMO Diversos países têm realizado esforços a fim de definir metodologias eqüitativas para distribuição geográfica de recursos destinados ao setor saúde. Entretanto, as experiências internacionais mostraram-se pouco apropriadas ao caso brasileiro. Neste trabalho, apresenta-se uma metodologia alternativa para o caso brasileiro. Os resultados distributivos obtidos a partir dessa metodologia apontam para a existência de iniqüidades na alocação de recursos financeiros, efetuada pelo Ministério da Saúde no ano de 1999, e permitiram verificar que a maior iniqüidade está relacionada aos repasses destinados ao financiamento de assistência hospitalar e ambulatorial. DESCRITORES: Financiamento da Saúde; Alocação de Recursos; Recursos em Saúde. ABSTRACT Various countries have made efforts to define equitable methodologies Este artigo apresenta parte dos resultados obtidos no projeto de pesquisa “Metodologia de Alocação Eqüitativa de Recursos” Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), financiado pelo REFORSUS do Ministério da Saúde. A titulação e endereço de contato dos autores estão no final do artigo for the geographical allocation of financial resources in the health sector. Nevertheless, international experiences are poorly adequate to the Brazilian case. This paper presents an alternative methodology for the Brazilian case. The distributive results obtained through this method indicate that, in 1999, the Brazilian Ministry of Health distributed resources in an inequitable way and that the main inequities are related to the distribution of financial resources directed to medical care. DESCRIPTORS: Health Financing; Resource Allocation; Health Resources. 376 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro INTRODUÇÃO onal. Ao mesmo tempo, criaram-se racterizado por um gasto per capita incentivos financeiros para o desen- em saúde menor nas localidades Nos últimos anos vem sendo res- volvimento de programas específi- com situações sanitárias e socio- saltada, no Brasil, a necessidade de cos como o Programa Saúde da Fa- econômicas mais precárias. Assim, desenvolver mecanismos capazes de mília (PSF), cujo volume de recur- em 1999, a percentagem de recur- reduzir as desigualdades no uso de sos é determinado pelo número de sos destinados à atenção básica re- serviços de saúde e, nesse sentido, equipes implantadas e pela cober- presentava apenas 21,3% da despe- um aspecto considerado fundamen- tura populacional alcançada pelo sa total com atenção hospitalar e tal refere-se ao desenvolvimento de programa (LEVCOVITZ et al., 2001). ambulatorial e 11,4% do gasto líqui- metodologias mais eqüitativas para Essas mudanças no sistema de fi- do do MS, e o restante dos recursos efetuar a alocação geográfica de re- nanciamento definiram uma partilha continuava sendo alocado em fun- cursos financeiros. de recursos que favoreceu as áreas ção do faturamento da produção geográficas mais carentes, abrangen- realizada, que é reflexo da oferta Entre 1991 e 1996, a alocação de recursos do Ministério da Saúde existente (MARQUES; MENDES, 2002). (MS) foi realizada em função do faturamento dos serviços ambulatoriais e hospitalares e, conseqüentemente, refletia as desigualdades existentes na distribuição da oferta, sabidamente concentrada nas regiões mais ricas do país (ALMEIDA et al., 2000; P IOLA; BIASOTO, 2001; P ORTO, 2002). Essa política alocativa de recursos passou por uma reformulação a partir de 1997, quando foi Diversos países têm realizado E NTRE 1991 E 1996, A ALOCAÇÃO DE RECURSOS DO M INISTÉRIO DA SAÚDE (MS) esforços para definir metodologias FOI REALIZADA EM FUNÇÃO DO FATURAMENTO financiamento do setor saúde e to- DOS SERVIÇOS AMBULATORIAIS E HOSPITALARES E, CONSEQÜENTEMENTE, REFLETIA AS DESIGUALDADES EXISTENTES NA DISTRIBUIÇÃO DA OFERTA eqüitativas para distribuição geográfica de recursos destinados ao das as propostas metodológicas têm como ponto de partida as correspondentes bases populacionais 1. Contudo, como a simples distribuição de recursos per capita desconsidera as desigualdades existen- estabelecido que o financiamento tes entre as estruturas populacionais destinado à atenção básica seria fei- dimensionadas em função das va- to procurando-se atingir a igualdade do grande parte dos municípios que riáveis sexo e idade, todas as pro- de despesa per capita para todos os recebiam menos do que o valor mé- postas realizam ajustes levando em municípios (BRASIL, 1996). Dada a dio nacional em atenção básica. conta o fato de que as necessidades grande diversificação dos valores per Entretanto, pode-se dizer que de saúde das populações mudam se- capita até então existentes, iniciou- essa modificação na sistemática dis- gundo sua composição demográfi- se o processo de homogeneização es- tributiva de recursos destinados à ca. Assim, por exemplo, crianças e tabelecendo-se um valor per capita atenção básica, embora tenha resul- idosos demandam mais serviços de mínimo, fundamentado no gasto mé- tado em uma distribuição geográfi- saúde que as outras faixas etárias, dio nacional, e um valor per capita ca um pouco menos desigualitária, e homens e mulheres em idade re- máximo para os municípios, com não foi suficiente para reverter o produtiva apresentam diferentes per- gasto superior ao valor médio naci- quadro de desigualdades ainda ca- fis de morbidade. Por outro lado, 1 Uma síntese das experiências de 19 países pode ser encontrada em Rice N. e Smith P. (1999). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 377 PORTO, Silvia Marta et al também existem diferenças entre os metodologia de alocação segundo a Em 1985, o governo inglês so- custos médios dos serviços utiliza- qual os recursos financeiros devem licitou a um grupo de especialis- dos entre os diferentes subgrupos ser distribuídos em função da po- tas a revisão desta metodologia, populacionais. Os idosos, por exem- pulação corrigida a partir de três para que a fórmula captasse de plo, além de demandarem mais ser- fatores: diferenças na estrutura de melhor maneira as necessidades de viços de saúde, também requerem sexo e idade, outras necessidades de saúde. As principais modificações atendimentos que, em média, são uso de serviços e variações regio- sugeridas foram: mais onerosos. nais no custo da atenção médica (In- Um ponto fundamental entre as abordagens metodológicas, orienta- glaterra, Department Of Health And Social Security, 1976). das pelo princípio de igualdade de Na primeira formulação da meto- recursos financeiros para necessida- dologia proposta pelo RAWP , foram des iguais, é o reconhecimento de que utilizadas como proxy de necessida- uma distribuição eqüitativa de recur- • usar as taxas padronizadas por todas as ‘causas’, para a população de 0 a 75 anos, como base da medida de mortalidade, ao invés de medidas de mortalidade para cada grupo etário; sos financeiros deve ser baseada em • considerar que o peso dado às um proxy de necessidades que per- taxas padronizadas de mortalidade mita dimensionar desigualdades re- A ALOCAÇÃO DE RECURSOS FINANCEIROS lativas entre as condições sanitárias DEVE SER REALIZADA A PARTIR DE e socioeconômicas das populações de distintas áreas geográficas. Em síntese, a alocação de recur- SUCESSIVOS AJUSTES DA BASE POPULACIONAL, LEVANDO EM CONTA sos financeiros deve ser realizada a O PERFIL DEMOGRÁFICO E AS partir de sucessivos ajustes da base DESIGUALDADES ENTRE AS populacional, levando em conta o NECESSIDADES DE SAÚDE perfil demográfico e as desigualda- deveria ser reduzido; • incorporar um indicador de deprivação social (Rice; Smith,1999. p. 36). Essas modificações foram parcialmente implementadas, dado que o indicador de deprivação social nunca chegou a ser utilizado (SHELDON ; C ARR-H ILL, 1992). des entre as necessidades de saúde. Nos anos de 1990, Carr-Hill et É, porém, justamente nas formas de medir as necessidades de saúde que des unicamente as taxas de mortali- al. (1994) elaboraram uma nova as propostas se diferenciam. Cabe dade específicas por ‘causa’, padro- proposta metodológica centrada em destacar que existem medidas mais nizadas por sexo e idade. Sua aplica- dados do uso de serviços de saúde simples e mais sofisticadas para ção no Reino Unido, ao longo de mais para estimar a demanda potencial dimensionar as necessidades do uso de dez anos, produziu uma distribui- aos serviços, gerada pelas necessi- de serviços de saúde, contudo ne- ção de recursos mais eqüitativa. En- dades de saúde, ajustando pela dis- nhuma delas consegue captar total- tretanto, a metodologia foi amplamen- tribuição da oferta de serviços. mente todos os aspectos e a com- te criticada, dado que não havia evi- Essa metodologia foi testada para plexidade das necessidades de saú- dências empíricas para assumir que o caso brasileiro (PORTO et al., 2001) de das populações. as taxas padronizadas de mortalida- e, contrariamente ao observado na Na Inglaterra, na década de de estariam linearmente relacionadas Inglaterra, mesmo com o ajuste pela 1970, foi proposta pelo Resource às necessidades do uso de serviços distribuição da oferta de serviços, Allocation Working Party (RAWP) uma de saúde (Rice; Smith,1999. p. 36). vários indicadores de necessidades 378 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro mostraram-se inversamente relacio- zadas de mortalidade) como foi (MS/1998), e o Sistema de Nascidos nados ao uso de serviços de saúde. feito na fórmula R AWP. Vivos (MS/1998). Foram priorizados Assim, por exemplo, em áreas com piores condições de vida (maior coeficiente de mortalidade infantil, os indicadores sociais sobre os CÁLCULO DO ÍNDICE DE NECESSIDADES DE SAÚDE quais existem evidências científicas indicando associação positiva com maior porcentagem de analfabetos as necessidades de saúde (por exem- e maior concentração de pessoas por Os indicadores epidemiológicos plo, média de pessoas residentes em domicílio) o modelo estimou menor e socioeconômicos foram seleciona- domicílios e taxa de analfabetismo) volume de uso de serviços de saúde dos consultando-se os sistemas de e indicadores epidemiológicos que do que nas áreas com melhores informação de base municipal mais apresentam distribuição espacial em condições de vida. atuais: Contagem de 1996, realiza- todas as áreas geográficas, como Os resultados sugerem que, além da pelo Instituto Brasileiro de Geo- por exemplo, mortalidade por doen- das desigualdades na oferta, exis- grafia e Estatística (IBGE) (variá- ças cardiovasculares, neoplasias e tem outras barreiras no acesso aos veis socioeconômicas); Sistema de doenças infecciosas e parasitárias serviços de saúde no país. Esse tra- Informações sobre Mortalidade (ver Tabela 1). balho tem por objetivo propor um modelo alternativo para alocação de recursos financeiros a partir das necessidades de saúde no Brasil e, des- TABELA 1 – Indicadores socio-econômicos e epidemiológicos selecionados Indicadores se modo, fornecer subsídios para uma distribuição mais eqüitativa de Taxa de analfabetismo recursos de custeio a ser realizada pelo Ministério de Saúde para os governos estaduais, condicionandoa à oferta existente. METODOLOGIA Considerando as limitações apontadas na utilização das metodologias revistas para alocação dos recursos financeiros levando em conta as necessidades de saúde, decidiu-se elaborar uma metodologia alternativa, definindo as necessidades de saúde a partir de um conjunto de indicadores epidemiológicos e socioeconômicos, e não apenas utilizando um único tipo de indicador (taxas padroni- Densidade domiciliar Proporção da população rural Proporção de óbitos infantis mal definidos Proporção de óbitos infantis por D/D Taxa de mortalidade por Neoplasias Taxa de mortalidade por DCV Taxa de mortalidade por DIP Taxa de mortalidade 1-64 anos Coeficiente de mortalidade infantil Proporção de mães adolescentes Taxa de mortalidade 65 anos e mais Descrição Proporção de pessoas residentes, com quatro anos ou mais de idade, sem instrução ou menos de um ano de estudo/pessoas residentes com quatro anos ou mais de idade Média do número de pessoas residentes por domicílio Proporção de pessoas residentes na área urbana/pessoas residentes Proporção de óbitos infantis sem definição da causa básica Proporção de óbitos infantis por diarréia/deficiências, desnutrição Taxas de mortalidade por todas as neoplasias padronizadas por idade e sexo Taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares padronizadas por idade e sexo Taxas de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias padronizadas por idade e sexo Taxa de mortalidade na população de 1 a 64 anos de idade Fonte Coeficiente de mortalidade infantil corrigido SIM/SINASC 1998 ou IBGE1998* Proporção de mães entre 10 e 19 anos de idade Taxa de mortalidade da população de 65 e mais corrigida SINASC 1998 IBGE – Contagem 1996 IBGE – Contagem 1996 IBGE – Contagem 1996 SIM 1996-1998 SIM 1996-1998 SIM 1998 SIM 1998 SIM 1998 SIM 1998 SIM 1998 *Quando a cobertura das informações de registro era considerada adequada, segundo a RIPSA , a mortalidade infantil foi estimada pelo método direto (SIM/S INASC). Para os estados e municípios com deficiência no registro dos dados vitais, foram utilizados fatores de correção obtidos por mensuração indireta pelo IBGE. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 379 PORTO, Silvia Marta et al Considerando que os municípios cada UF, utilizando-se ponderações permanência, internações de longa pequenos geralmente têm maiores diretamente proporcionais à popula- permanência, internações obstétri- deficiências na qualidade do regis- ção de cada subunidade geográfica. cas, internações psiquiátricas e in- tro das estatísticas vitais, apresen- Finalmente, fez-se uma transforma- ternações de reabilitação. Para cata tando instabilidade nos indicadores ção linear de tal forma que o INS va- tipo de serviço, partiu-se da base de mortalidade, já que o evento não riasse entre 1 e 2. populacional correspondente e efe- tem, muitas vezes, a chance de ocorrer em um determinado período de tempo, a utilização do município como unidade territorial de análise tuaram-se ajustes sucessivos em ESTIMATIVA DA DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA DE RECURSOS FINANCEIROS SEGUNDO NECESSIDADES DE SAÚDE não foi viável, usando-se apenas os função do perfil demográfico e do índice de necessidades de saúde. O INS foi usado em todos os casos, excetuando-se as internações municípios capitais dos 26 estados e Tendo em vista a diversidade dos obstétricas onde as necessidades fo- o Distrito Federal, outros municípios tipos de serviços de saúde deman- ram estimadas usando-se apenas a com mais de 200 mil habitantes, e taxa de fertilidade, e as internações áreas geográficas correspondentes ao psiquiátricas para as quais utilizou- agregado dos demais municípios se apenas o ajuste pela estrutura de- para cada estado da federação. Foi assim constituído um banco de da- A CONSOLIDAÇÃO EM UM dos com 134 unidades geográficas. ÚNICO CÁLCULO DISTRIBUTIVO Para calcular um Índice de Neces- FOI REALIZADA A PARTIR DAS sidades de Saúde (INS), utilizou-se um procedimento de análise estatís- PONDERAÇÕES OBTIDAS PARA tica multivariada (análise de compo- CADA TIPO DE SERVIÇO nentes principais), de tal forma que, mográfica, já que os indicadores de mortalidade não são considerados apropriados para determinar necessidades por esse tipo de serviço (G OLDACRE, M. J.; HARRIS, R. I., 1980). A consolidação em um único cálculo distributivo foi realizada a partir das ponderações obtidas para podendo representar o espaço multi- cada tipo de serviço, usando-se variado original em um número re- como fator de ponderação a partici- duzido de fatores formados por com- pação do gasto por cada tipo de ser- binações lineares das variáveis ori- dados, e que as estruturas demográ- viço no ano anterior, em relação ao ginais, não correlacionados entre si ficas expressam demandas diferen- total distribuído naquele ano. (ortogonais), e estimados, matema- ciadas para os diversos tipos de ser- ticamente, no sentido de maximizar viços (por exemplo, a população de a variância total original. O INS foi 0 a 5 anos não demanda serviços de obtido por meio da média pondera- internação psiquiátrica, e é a popu- da dos componentes principais da ne- lação idosa que demanda mais ser- cessidade, utilizando-se como pon- viços de reabilitação), foram feitos derações o percentual total da vari- cálculos distributivos separadamen- Foram efetuadas duas compara- ância explicado por cada fator. O INS te, segundo o tipo de serviço: servi- ções: uma primeira, em que se con- por Unidade da Federação (UF) foi ob- ços ambulatoriais e hospitalares. sidera apenas a distribuição da des- tido pela média ponderada dos índi- Dentre esses últimos foram discri- pesa efetuada em 1999 pelo MS, com ces das subunidades geográficas em minadas as internações de curta atenção ambulatorial e hospitalar 380 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 COMPARAÇÕES ENTRE A ALOCAÇÃO DE RECURSOS FEITAS POR MEIO DO MÉTODO E A ALOCAÇÃO EFETUADA PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro (incluindo a rede própria do MS e a TABELA 2 – Indicadores de oferta rede contratada); e uma segunda, Indicadores considerando a despesa líquida do MS, que exclui apenas a despesa com a amortização da dívida e o gasto com pessoal inativo e pensionistas. Nesse caso incluem-se, além das des- Autoclave / Pop Desfibrilador/ Pop Gama câmara / Pop Equipamento para fototerapia/ Pop Mamógrafo simples/ Pop Incubadora/ Pop Mamógrafo com estereotaxia/ Pop Marcapasso temporário/ Pop Raio X de mais de 500 ma/ Pop Monitor de ECG/ Pop pesas com internação ambulatorial Tomógrafo computadorizado/ Pop Monitor de pressão invasivo/ Pop e hospitalar, a despesa efetuada com Ressonância magnética/ Pop Monitor de pressão não-invasivo/ Pop pessoal ativo, programas do Fundo Raio X de 100 a 500 ma/ Pop Oxímetro/ Pop Nacional de Saúde (FNS), medica- Raio X com Fluroscopia/ Pop Reanimador pulmonar adulto/ Pop mentos estratégicos e excepcionais e Raio X para densiotometria óssea/ Pop Reanimador pulmonar infantil/ Pop as despesas da Fundação Nacional Endoscópio das vias urinárias/ Pop Respirador/ ventilador adulto/ Pop Endoscópio digestivo/ Pop Respirador/ ventilador infantil/ Pop de Saúde – FUNASA (convênios, emendas parlamentares e saneamento). CÁLCULO DO ÍNDICE DE OFERTA Laparoscópio/ Vídeo/ Pop Centrífuga/ Pop Microscópio cirúrgico/ Pop Equipamento para cauterização/ Pop Endoscópio das vias respiratórias/ Pop Esfignomanômetro adulto/ Pop Eletrocardiograma/ Pop Esfignomanômetro infantil/ Pop Eletroencefalograma/ Pop Oftalmoscópio/ Pop Considerando que haja uma de- Bomba de cobalto/ Pop Otoscópio/ Pop sigualdade na distribuição espacial Bomba de infusão/ Pop Equipamento para hemodiálise/ Pop da oferta existente e que a distribui- Berço aquecido/ Pop Forno de Bier/ Pop ção de recursos de custeio deva es- Leito agudo sem obstetrícia/ Pop tar condicionada à existência de capacidade instalada, foi calculado um índice de oferta (IO) por meio de análise de componentes principais, para um conjunto de variáveis de oferta hospitalar e ambulatorial (recursos humanos, leitos hospitalares e equi- em cada UF, utilizando-se pondera- res importantes. No fator 1, cargas ções diretamente proporcionais à po- grandes e positivas foram encontra- pulação de cada subunidade geográ- das para todos os indicadores so- fica. Finalmente, fez-se uma trans- cioeconômicos, e para todos os in- formação linear de tal forma que o dicadores que caracterizam a situa- INS variasse entre 1 e 2. ção da mortalidade infantil. Este fator pamentos) de estabelecimentos que Para analisar a viabilidade da foi, portanto, denominado de ‘Con- prestam serviços ao SUS (Tabela 2). redistribuição de recursos financei- dições Socioeconômicas’. Já no fa- A base de dados utilizada foi a Pes- ros de custeio, efetuou-se uma com- tor 2, cargas positivas e próximas quisa Assistência Médico-Sanitária paração entre o INS e o IO. da unidade foram encontradas para (IBGE, 2001). As unidades geográficas foram as mesmas 134 utiliza- todos os indicadores de mortalida- RESULTADOS de geral e por causas selecionadas. das para o cálculo do INS. O fator 2 foi, portanto, denominado O IO por Unidade da Federação foi Na análise de componentes prin- obtido pela média ponderada dos ín- cipais, efetuada para o cálculo do O INS foi composto pela soma dos dices das subunidades geográficas INS, foram identificados dois fato- dois fatores, ponderando cada fator de ‘Mortalidade Geral’ (Tabela 3). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 381 PORTO, Silvia Marta et al pela porcentagem da variância TABELA 3 – Análise de componentes principais para o cálculo do INS correspondente, ou seja: Indicadores utilizados Fator 1 Fator 2 Taxa de Analfabetismo 0.940 -0.035 Densidade Domiciliar 0.846 -0.009 Proporção de Óbitos Infantis Mal-definidos 0.735 -0.081 tou uma amplitude de variação de - Proporção de Óbitos Infantis por Diarréia/ Desnutrição 0.784 0.010 0,77 a 1,68, fez-se uma transforma- Coeficiente de Mortalidade Infantil 0.809 0.280 ção linear, obtendo-se um índice que Taxa de Mortalidade 65 anos e mais 0.141 0.937 varia entre 1e 2. Proporção de População Rural 0.737 -0.198 Taxa de Mortalidade 1 a 64 anos -0.010 0.894 Taxa de Mortalidade por DCV -0.044 0.913 Taxa de Mortalidade por Neoplasias -0.571 0.650 Taxa de Mortalidade por DIP 0.606 0.565 Proporção de Mães Adolescentes 0.776 -0.025 INS= (0,440) x fator 1 + (0,281) x fator 2 Como o fator composto apresen- A Figura 1 permite observar que os estados que detêm menores valores de INS são: São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Em contraste, todos os Fonte: PORTO et al., 2001. estados do Nordeste, com exceção de Sergipe, apresentam os maiores índices do Brasil. Nas Tabelas 4 e 5, apresentam- FIGURA 1 – Distribuição geográfica do índice de necessidades por Unidade da Federação se os resultados comparativos da alocação de recursos em função das necessidades (populações ajustadas por sexo, idade e ICN) e a efetuada pelo Ministério da Saúde (MS) para o ano de 1999. Na primeira comparação (Tabela 4) na qual considerou-se apenas a distribuição da despesa efetuada pelo MS com atenção ambulatorial e hospitalar (incluindo a rede própria do MS e a rede contratada), observa-se que, com o uso dessa metodologia: • as Regiões Norte e Nordeste teriam um acréscimo de recursos de, respectivamente, 40,26% e 34,67% e que todos os estados dessas regiões seriam beneficiados com aumentos que oscilam entre 17,46% (Tocantins) e 70,00% (Roraima); Fonte: PORTO et al., 2001. 382 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro TABELA 4 – Comparação entre a despesa com assistência hospitalar e ambulatorial e da rede própria do MS e a alocação estimada segundo população ajustada por sexo/idade/custo e proxy de necessidade – Unidades da Federação – Brasil – 1999 Alocação MS Assistência REGIÃO / UF Hospitalar/Ambulatorial e Rede Própria % (1) NORTE 5,34 Rondônia 0,62 Acre 0,23 Amazonas 1,02 Roraima 0,1 Pará 2,56 Amapá 0,17 Tocantins 0,63 NORDESTE 24,89 Maranhão 2,76 Piauí 1,59 Ceará 4,25 Rio Grande do Norte 1,42 Paraíba 1,71 Pernambuco 4,45 Alagoas 1,45 Sergipe 0,92 Bahia 6,34 SUDESTE 47,02 Minas Gerais 9,48 Espírito Santo 1,49 Rio de Janeiro 11,61 São Paulo 24,45 SUL 16,89 Paraná 5,83 Santa Catarina 2,89 Rio Grande do Sul 8,17 CENTRO-OESTE 5,86 Mato Grosso do Sul 1,01 Mato Grosso 1,27 Goiás 2,43 Distrito Federal 1,15 TOTAL 100 TOTAL: R$11.508.690,75 (em R$1.000). nas Gerais, cujos aumentos seriam de 10,07%, e 3,80%; • a Região Centro-Oeste teria seus recursos aumentados em Alocação Estimada % Diferença % 7,49 0,77 0,35 1,49 0,17 3,75 0,23 0,74 33,52 4,13 2,08 5,01 1,91 2,76 5,42 2,27 1,11 8,84 39,31 9,84 1,64 8,25 19,57 13,45 5,23 2,68 5,54 6,24 1,15 1,36 2,75 0,98 100 40,26 24,19 52,17 46,08 70,00 46,48 35,29 17,46 34,67 49,64 30,82 17,88 34,51 61,40 21,80 56,55 20,65 39,43 -16,40 3,80 10,07 -28,94 -19,96 -20,37 -10,29 -7,27 -32,19 6,48 13,86 7,09 13,17 -14,78 0 6,48%; entretanto, haveria grandes diferenças na redistribuição entre as UF da região: três estados ganhariam, enquanto o Distrito Federal perderia 14,78%. Na segunda comparação referente à despesa líquida do Ministério da Saúde (Tabela 5), que exclui apenas a despesa com a amortização da dívida e o gasto com pessoal inativo e pensionistas, verifica-se que: • na Região Norte, quatro dos estados teriam seus recursos para custeio diminuídos e os restantes registrariam aumentos bem inferiores aos estimados na comparação anterior; • a nova distribuição continuaria favorecendo, fundamentalmente, os estados da Região Nordeste que, na sua maioria, receberiam menos recursos que os estimados na comparação anterior; • na Região Sudeste, contrariamente aos resultados observados na comparação anterior, Minas Gerais teria seus recursos aumenta- Assistência hospitalar e ambulatorial inclui pagamentos do SIH/SIA, transferências para MAC, Atendimentos Básicos e rede própria. 1 Fonte: PORTO et al., 2001. dos (18,00%) e Espírito Santo diminuídos (-9,58%); • outra diferença a ser destacada • este ganho das Regiões Norte e perderiam, respectivamente, 16,40% é que na Região Sul os estados de Nordeste daria-se em função da re- e 20,37%. Cabe destacar que, na Re- Paraná e Santa Catarina, que na com- tração do volume de recursos alo- gião Sudeste, seriam beneficiados paração anterior perderiam recursos cados às Regiões Sudeste e Sul, que dois estados: Espírito Santo e Mi- para custeio, agora receberiam mais Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 383 PORTO, Silvia Marta et al recursos do que os alocados pelo Ministério da Saúde neste ano; TABELA 5–Comparação entreogastolíquidodo MSeaalocação estimadasegundopopulação ajustada por sexo/idade/custo eproxyde necessidade – Unidadesda Federação Brasil – 1999 • finalmente, na Região Centro-Oes- REGIÃO / UF Gasto MS % (1) NORTE 6,76 Rondônia 0,90 Acre 0,49 Amazonas 1,18 Roraima 0,40 Pará 2,73 Amapá 0,34 Tocantins 0,72 NORDESTE 25,16 Maranhão 2,88 Piauí 1,64 Ceará 4,24 Rio Grande do Norte 1,61 Paraíba 1,92 Pernambuco 4,40 Alagoas 1,52 Sergipe 1,00 Bahia 5,94 SUDESTE 46,30 Minas Gerais 8,34 Espírito Santo 1,81 Rio de Janeiro 14,97 São Paulo 21,18 SUL 14,96 Paraná 5,03 Santa Catarina 2,64 Rio Grande do Sul 7,30 CENTRO-OESTE 6,81 Mato Grosso do Sul 1,15 Mato Grosso 1,41 Goiás 2,36 Distrito Federal 1,88 TOTAL 100,00 TOTAL: R$15.976.207,05 (em R$1.000). te, o Distrito Federal registraria uma perda ainda maior (-48,21%) do que a verificada anteriormente, sendo que também o estado de Mato Grosso teria seus recursos diminuídos (-3,60%). Como mencionado na metodologia, foi criado um índice de oferta (IO) com o intuito de analisar a distribuição de recursos financeiros para custeio com distribuição da capacidade instalada. A análise de componentes principais permitiu identificar que um único fator explica 57% da variância total. O IO por estado, obtido pela média ponderada dos índices das áreas geográficas de cada estado, também foi submetido a uma transformação linear de tal forma que os valores ficassem compreendidos entre 1 e 2. Na figura 2, representa-se graficamente a situação dos estados segundo o INS e o IO. Pode-se observar que há um número importante de estados, quase todos localizados no Nordeste, que têm relativamente alta necessidade e baixa oferta e para os quais seria discutível o efeito da redistribuição apenas dos recursos de custeio sem ampliação inicial da oferta existente. Entretanto, identifica-se, também, que a presença de oferta Alocação Estimada % 7,49 0,77 0,35 1,49 0,17 3,75 0,23 0,74 33,52 4,13 2,08 5,01 1,91 2,76 5,42 2,27 1,11 8,84 39,31 9,84 1,64 8,25 19,57 13,45 5,23 2,68 5,54 6,24 1,15 1,36 2,75 0,98 100,00 Diferença % 10,66 -14,65 -28,68 26,03 -58,30 36,97 -34,23 3,53 33,23 43,60 26,65 18,26 18,42 43,53 23,05 49,40 10,48 48,65 -15,10 18,00 -9,58 -44,85 -7,59 -10,12 4,11 1,51 -24,14 -8,43 0,14 -3,60 16,23 -48,21 0,00 Gasto líquido do MS inclui: pessoal ativo, pagamentos do SIH/SIA, transferências para MAC, Atendimentos Básicos, Rede Própria do MS, Programas do FNS, Medicamentos (Estratégicos e Excepcionais) e F UNASA (Convênios, Emendas Parlamentares e Saneamento. 1 Fonte: PORTO et al., 2001. está associada a um alto grau de DISCUSSÃO necessidades e que corresponderiam INS incorpora um leque de variáveis socioeconômicas, epidemiológicas e a situações em que seria possível A distribuição de recursos, esti- demográficas, permite uma melhor iniciar um processo de redistribui- mada a partir da metodologia apre- estimativa das necessidades do que ção dos recursos de custeio. sentada neste trabalho, dado que o a utilização de uma única variável 384 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro FIGURA 2 – Distribuição das Unidades da Federação segundo necessidade e oferta Fonte: PORTO et al., 2001. epidemiológica conforme proposto tiva do INS, indicadores das condi- rer em um determinado período de pela fórmula RAWP. Além disso, o INS ções de saneamento básico não fo- tempo. Essa limitação fez com que poderia também ser utilizado para ram incorporados, já que os últimos fosse necessário trabalhar com agre- orientar a alocação de recursos en- dados disponíveis eram os do Cen- gados de municípios heterogêneos, tre municípios de um dado estado, so 1991, e não refletiriam a situa- perdendo a possibilidade de captar com a vantagem de que a análise ção atual das populações das dife- a especificidade de cada um dos de componentes principais pode rentes áreas geográficas. municípios, o que reduziu a incor- identificar fatores diferenciados em Outra limitação foi a impossi- cada caso, dependendo das variáveis bilidade de adotar como unidade ge- Ainda assim, é importante des- que melhor expressem a desigual- ográfica todos os municípios do tacar que, apesar das limitações dade de necessidades de saúde en- país, já que os municípios peque- apontadas, foi possível obter dois tre os municípios. nos geralmente têm maiores defi- fatores associados às condições so- Entretanto, a estimativa das ne- ciências na qualidade do registro cioeconômicas e à mortalidade ge- cessidades no caso brasileiro ressen- das estatísticas vitais e apresentam ral de cada área geográfica. tiu-se da falta de informações socio- instabilidade nos indicadores de A comparação entre a distribui- econômicas de base municipal mais mortalidade, dado que o evento não ção estimada através dessa metodo- atualizadas. Por exemplo, na estima- tem, muitas vezes, a chance de ocor- logia e a alocação efetuada pelo MS, poração da variabilidade. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 385 PORTO, Silvia Marta et al quando se consideram os recursos • o primeiro relacionado às difi- comparados à despesa líquida obser- destinados exclusivamente à assis- culdades de implementar uma polí- vada em 1999 (FAVERET et al., 2001). tência médico-hospitalar, evidenciou tica redistribuitiva a partir da qual Esse volume de recursos seria sufi- que todos os estados das Regiões alguns estados teriam seus recur- ciente para outorgar os aumentos Norte e Nordeste receberam menos sos significativamente diminuídos; determinados pela alocação segun- recursos do que deveriam se a alocação fosse realizada segundo as necessidades de saúde. Todavia, quando se considera o total da despesa líquida alocada pelo MS, em 1999, verifica-se que alguns estados da região Norte (Rondônia, Acre, Roraima, e Amapá) perderiam recursos se a alocação fosse realiza- • o segundo refere-se à desigualdade na distribuição da oferta de serviços de saúde no Brasil; aumentar recursos de custeio em áreas sem oferta de serviços certamente implicaria em alocações ineficientes, que pouco ou nada melhorariam os patamares de inequidade existentes. da a partir das necessidades de saúde, já que na despesa líquida estão do necessidades relativas, sem diminuir os recursos dos outros estados, já que os recursos necessários seriam da ordem de 1,3 bilhões de reais, ou seja, 6,4% da despesa líquida executada pelo MS em 1999. Por outro lado, para a obtenção de uma maior eqüidade inter-regional, a redistribuição de recursos financeiros, destinados ao custeio dos serviços de saúde, deveria ser acom- incluídos os recursos destinados a PARA SUPERAR A DIFICULDADE DE programas específicos da FUNASA, e IMPLEMENTAR UMA POLÍTICA REDISTRIBUTIVA mento que teriam por objetivo equi- programas preventivos do FNS, que A PARTIR DA QUAL ALGUNS ESTADOS TERIAM librar – entre as regiões – a oferta favorecem prioritariamente os estados da Região Norte. Destaca-se que SEUS RECURSOS SIGNIFICATIVAMENTE o mesmo não aconteceu com os es- DIMINUÍDOS , SERIA IMPORTANTE INICIAR tados da Região Nordeste, que também nesse caso, receberiam mais O PROCESSO A PARTIR DA CAPTAÇÃO DE NOVOS RECURSOS SETORIAIS recursos se a distribuição ocorresse segundo critérios de necessidade. panhada de programas de investi- existente. Caso contrário, a redistribuição poderia ser altamente ineficiente, já que estados sem oferta receberiam recursos que não poderiam ser executados. Ao mesmo tempo, estados com redes assistenciais de média e alta complexidade pode- As diferenças observadas nas riam ter comprometida sua quali- duas comparações demonstram Para superar a dificuldade de dade de atenção, no caso de uma que a maior iniqüidade está relaci- implementar uma política redistribu- redistribuição interregional que di- onada à distribuição de recursos tiva a partir da qual alguns estados minuísse seus recursos. destinados ao financiamento das teriam seus recursos significativa- Diferentemente da metodologia ações de assistência ambulatorial mente diminuídos, seria importante elaborada por Carr-Hill et al. (1994), e hospitalar, e que são os estados iniciar o processo a partir da capta- que estima a demanda potencial aos da Região Nordeste os que foram ção de novos recursos setoriais. Se- serviços gerada pelas necessidades mais penalizados. gundo projeções realizadas para ava- de saúde, considerando a distribui- Finalmente, para implementar liar o impacto da Emenda Constitu- ção espacial da oferta existente, a uma política mais eqüitativa dos cional 29, entre 2002 e 2004, o Mi- metodologia alternativa elaborada recursos entre as unidades da fe- nistério da Saúde deveria contar com para o caso brasileiro não incorpo- deração, devem ser considerados um aumento de cerca de 1,3 bilhões ra a distribuição da capacidade ins- dois aspectos: de reais de novos recursos quando talada. O indicador de oferta, apre- 386 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 Alocação Eqüitativa de Recursos Financeiros: uma alternativa para o caso brasileiro sentado neste trabalho, oferece in- p. 36, Série J. Cadernos nº 4. Brasília, financieros en los sistemas de salud. dicativos para orientar uma aloca- DF: Ministério da Saúde/SGIS, 2001. Cadernos de Saúde Pública, Rio de ção mais eqüitativa de recursos de custeio, levando em conta as desigualdades na distribuição geográfica da oferta, e poderia ser refinado discriminando a oferta por nível de complexidade. GOLDACRE, M. J.; HARRIS, R. I. Mortality, Janeiro, v. 18, n. 4, 2002. p. 939-57. Morbidity, resource allocation, and P ORTO, Silvia M. et al. Metodologia planning: a consideration of disease de Alocação Equitativa de Recursos. classification. British Medical Relatório final de projeto R EFORSUS. Journal, v. 281, 1980. p. 1511-1517. Rio de Janeiro: Escola Nacional de Saúde Pública ( ENSP ) Fundação Finalmente, cabe destacar que INGLATERRA. Department of Health and estas metodologias têm por objetivo Social Security. Report of the distribuir os recursos existentes de Resource Allocation Working Party R ICE , N.; S MITH , P. Approaches to forma mais eqüitativa, partindo das (RAWP). Londres, 1976. capitation and risk adjustment in necessidades de saúde, e não permi- INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ES- tem avaliar se o volume de recursos TATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Assistên- destinados a cada unidade geográfi- cia Médico Sanitária. Rio de Janei- ca é suficiente, ou não, para atender ro: IBGE, 1999. todas as necessidades de saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A LMEIDA, Celia et al. Health Sector Reform in Brazil: a case study of inequity. International Journal of health care: an international survey. Occasional Paper, Centre for Health Economics, University of York, 1999. S HELDON, T.; CARR -HILL, R. A. (1992). L EVCOVITZ, Eduardo. Política de saúde nos anos 90: relações intergovernamentais e o papel da Normas Operacionais Básicas. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, Resource allocation by regression in the NHS statistical critique of the RAWP review. Journal of the Royal Statistical Society, (Series A), 155, n. 3, 1992. p. 403-420. 2001. p. 269-291. AUTORES Health Services, v. 30, n. 1, 2000. MARQUES, Rosa; MENDES, Áquilas N. A p. 129-162. dimensão do financiamento da aten- BRASIL. Ministério da Saúde. Porta- Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), 2001. ção básica e do PSF no contexto da S ILVIA MARTA PORTO Doutora em Saúde Pública pela ria 2203 de 1996. Dispõe sobre a saúde. In: S OUSA , Maria Fátima de Norma Operacional Básica do SUS (Org.). Os Sinais vermelhos do PSF. O1/96. Brasília, DF, 1996. São Paulo: HUCITEC, 2002. p. 71-101. CARR -HILL, R. A. et al. A Formula for P IOLA , Sergio F.; B IAOSOTO JÚNIOR, Ge- Pesquisadora Titular da ENSP/ Distributing NHS Revenues based on raldo. (2001). Financiamento do SUS F IOCRUZ Small Area Use of Hospital Beds. nos anos 90. In: NEGRI , Barjas; DI Rua Leopoldo Bulhões, Occasional Paper, Centre for Health G IOVANNI, G. (Org.). Brasil: Radiogra- 1.480 – 7º andar Economics, University of York, 1994. fia da Saúde. Campinas, SP: Institu- CEP 21041-210 – Rio de Janeiro – RJ to de Economia da Universidade Es- e-mail: [email protected] F AVERET, A. C. S. C. et al. Estimativas de impacto da vinculação constitu- Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (F IOCRUZ), tadual de Campinas (UNICAMP), 2001, p. 219-232. FRANCISCO VIACAVA (Emenda Constitucional nº 29/2000). P OR T O , Médico, Mestre em Medicina Cadernos de Economia da Saúde 1, distribuición geográfica de recursos cional de recursos para a saúde Silvia M. Equidad y Preventiva e Social pela Faculdade Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 387 PORTO, Silvia Marta et al de Medicina de Ribeirão Preto da Av. Brasil, 4.365 Universidade de São Paulo (USP), CEP 21045-900 – Rio de Janeiro – RJ Coordenador do Departamento de e-mail: [email protected] Informações em Saúde do Centro de Informação Científica e SOLON M AGALHÃES VIANNA Tecnológica (C ICT) da Fundação Consultor Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) Av. Brasil, 4.365 CEP 21045-900 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] CÉLIA L ANDMANN S ZWARCWALD Matemática, doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Pesquisadora Titular do Centro de Informação Científica e Tecnológica (C ICT) da FIOCRUZ Av. Brasil 4.365 CEP 21045-900 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] MÔNICA M ARTINS Ph D pela Universidade de Montreal, Pesquisadora Adjunta da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ ) Rua: Leopoldo Bulhões, 1.480 – 7º andar CEP 21041-210 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] CLÁUDIA T RAVASSOS Ph D pela London School of Economics, Pesquisadora Titular do Centro de Informação Científica e Tecnológica (CICT) da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) SHIN QI 12 Conjunto 6, Casa 13 – Lago Norte CEP 71525-260 – Brasília – DF e-mail: [email protected] SÉRGIO FRANCISCO P IOLA Técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) Ed. do BNDES – 14º andar CEP 70076-900 – Brasília – DF e-mail: [email protected] MARIA ALICIA UGÁ Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Pesquisadora Titular da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Rua: Leopoldo Bulhões, 1.480 – 7º andar CEP 21041-210 – Rio de Janeiro – RJ e-mail: [email protected] CID M ANSO VIANNA Doutor em Saúde Coletiva, Professor Titular do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ ) e-mail: [email protected] 388 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 376-388, set./dez. 2003 Os (Des)caminhos do financiamento do SUS ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES Os (Des)caminhos do financiamento do SUS The Sinuous ways of SUS financing RESUMO Ao longo da década de 1990 e nos primeiros anos de 2000, a sociedade Áquilas Nogueira Mendes 1 Rosa Maria Marques 2 brasileira assistiu a freqüentes embates sobre o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Mesmo após a promulgação da Emenda Constitucional n0 29/2000, diversos aspectos que definem o financiamento são contestados, apontando quão frágil é o consenso sobre ser a saúde um dever do Estado e um direito do cidadão. Este artigo tem por objetivo reconstituir o processo de institucionalização do financiamento do SUS e as suas tensões existentes com a área econômica do governo federal, destacando as condicionalidades impostas ao financiamento e ao conceito de saúde, enquanto universal e integrante da Seguridade Social. A primeira parte do artigo resgata os 15 anos de tensão na trajetória de institucionalização do SUS e a segunda analisa os principais aspectos que evidenciam a relação entre os constrangimentos econômicos e o SUS nos anos 2000. DESCRITORES: Financiamento da Saúde; SUS; Seguridade Social. ABSTRACT Professor de Economia da FAAP de São Paulo, vice-presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde, técnico do Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal (CEPAM ) Rua Pedroso Alvarenga, 401/131 CEP 04531-010 – São Paulo – SP e-mail: [email protected] 1 Professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ex-presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política (1998 e 2002). Departamento de Economia da PUC-SP Rua Monte Alegre, 984, edifício Reitor Bandeira de Melo, sala 131-A. CEP 05014-901 – São Paulo – SP e-mail: [email protected] 2 During the 90’s and the first years of this decade, the Brazilian society observed frequent “disputes” regarding SUS financing. Even after the Constitutional Amendment 29/2000 several aspects which define financing are dubious, indicating how weak is the consensus of health as a State duty and a citizen right. This article aims to rebuild the process of SUS financing institutionalization and the existing tensions with the federal government economic area, focusing on the conditions imposed to heath financing and the concept of health as universal and part of Social Security. This article is divided in two parts. The first part rescues the fifteen years of tension in the history of SUS institutionalization and the second part analyses the main aspects which demonstrate the relationship between the economics constraints and SUS in this decade. DESCRIPTORS: Health Financing; SUS; Social Welfare. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 389 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria INTRODUÇÃO o SUS somente sobrevive porque o foram considerados os recursos do Legislativo soube definir recursos Fundo de Combate e Erradicação da No ano de 2000, mesmo com a para seu financiamento e porque a Pobreza (Emenda Constitucional 31) aprovação da Emenda Constitucio- chamada Frente Parlamentar da Saú- como fonte de despesa a ser utiliza- nal (EC) nº 29, vários aspectos que de da Câmara Federal tem defendi- da para ações e serviços públicos definem o financiamento do Sistema do, de forma incansável, o seu cum- de saúde. No momento em que es- Único de Saúde (SUS) continuaram primento. Não fosse isso, estaríamos ses R$3.571 milhões são considera- sendo contestados ou colocados em assistindo à continuidade do proces- dos como ações de saúde, não só a dúvida, indicando o quanto é frágil so de (des)financiamento. Saúde deixa de contar com esse o ‘consenso’ em torno do entendi- Entretanto, a implementação da montante de recursos, incorrendo em mento de que a saúde é um dever EC-29 não tem sido tarefa fácil. descumprimento da EC-29, como é do Estado e um direito do cidadão. Além da discussão em torno da par- desrespeitado o processo de constru- Assistiu-se ao embate entre os Mi- ticipação da União, ‘interpretações’ ção da definição do que sejam ações nistérios da Saúde, do Planejamento típicas de saúde, iniciado por meio e da Fazenda em torno da interpreta- dos cinco seminários realizados (de ção do texto da emenda relativa ao 2001 a 2003) entre os Tribunais de montante da participação da União no financiamento do SUS. Ao mes- O SUS SOMENTE SOBREVIVE PORQUE O Contas, o Conselho Nacional de Saúde (CNS), o Conselho Nacional de mo tempo, os entes federados tenta- LEGISLATIVO SOUBE DEFINIR RECURSOS PARA ram insistentemente redefinir o con- SEU FINANCIAMENTO E PORQUE A CHAMADA (C ONASEMS), o Conselho Nacional de ceito de saúde para, assim proceden- FRENTE PARLAMENTAR DA SAÚDE DA C ÂMARA FEDERAL TEM DEFENDIDO, DE FORMA INCANSÁVEL , O SEU CUMPRIMENTO Secretários de Saúde (CONASS ), o Mi- do, diminuir o volume de recursos comprometidos com essa área. No campo econômico, a ênfase em promover elevado superávit pri- Secretários Municipais de Saúde nistério da Saúde e outras entidades vinculadas ao SUS. A inclusão da alimentação, da nutrição e do saneamento básico, previstas para se- mário, acordado com o Fundo Mo- rem financiadas com o Fundo de netário Internacional (FMI), resulta- Combate e Erradicação da Pobreza, va em uma política fiscal contraci- sobre o que constitua ações e ser- contrariam o §2 do artigo 198 da onista e em taxas de juros elevadas, viços de saúde tentam considerar Constituição, os artigos 5 e 6 da Lei constrangendo o desenvolvimento como tais os programas de alimen- nº 8.080/90 e a Resolução nº 322 do das políticas sociais, tais como a de tação e saneamento e a despesa CNS, homologada pelo MS em 8 de garantir saúde para a população com inativos da área da saúde. E do maio de 2003. E o que impressiona brasileira. Das sinalizações dos ‘ato- lado quantitativo, não é desprezível é vermos que governos que se diziam res’ envolvidos na discussão sobre o volume de recursos envolvido comprometidos com um programa o financiamento da saúde, fica ab- caso esses gastos sejam indevida- de avanço social defendem, hoje, solutamente claro que o governo mente apropriados. essa ‘interpretação’. federal considera a saúde, e todas Recentemente, na Proposta Orça- Na legislação infra-constitucio- as demais políticas sociais, subor- mentária do Ministério da Saúde nal está escrito ou considerado: os dinadas ao cumprimento das metas (MS) para 2004, encaminhada pelo recursos financeiros destinados pe- junto ao FMI. Fica também óbvio que executivo ao Congresso Nacional, los governos para fazer ações e ser- 390 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 Os (Des)caminhos do financiamento do SUS viços públicos de saúde (Lei nº 8080/ tos. Para servir como um alerta do analisada como parte integrante de 90) não podem ser usados para fi- que estamos vivenciando, este arti- um processo que tem início, quase nanciar ações referentes aos condi- go reconstrói o processo de institu- que imediatamente, após a promul- cionantes e determinantes de saúde, cionalização do financiamento do gação da Constituição cidadã e con- como saneamento e programa de com- SUS e destaca as tensões existentes tra ela. Na segunda parte, de ma- bate à fome. É claro que, em um com a política econômica dos últi- neira breve, são analisados os prin- conceito amplo, pode-se entender mos anos, indicando que podemos cipais aspectos que evidenciam os que tudo é relevante para a saúde, estar assistindo ao abandono do constrangimentos econômicos e o educação, lazer, comida, casa, tra- conceito de saúde tal como concebi- SUS nos anos 2000. balho, salário etc., mas, no momento do na Constituição Federal e, por da alocação de recursos orçamen- conseqüência, de suas bases de fi- tários para cada área, existem leis nanciamento, o que coloca em pau- e normas orçamentárias separando ta qualquer tipo de sistema de pro- AS TENSÕES NA TRAJETÓRIA DE INSTITUCIONALIZAÇÃO DO SUS uma coisa da outra. Essas leis de- A construção do SUS ao longo terminam “que tipo de recurso ou de seus 15 anos de existência não arrecadação vai financiar o quê”, foi isenta de embates políticos. Par- O PERCENTUAL DA RECEITA DE IMPOSTOS E TRANSFERÊNCIAS CONSTITUCIONAIS , QUE OS ticularmente nos anos de 1990, o e 80 – com suas próprias fontes de GOVERNOS SÃO OBRIGADOS A ALOCAR EM implementação da política de saú- financiamento). Um outro exemplo EDUCAÇÃO, NÃO PODE SER USADO EM de no País. A crise do financiamento como é o caso do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza (EC 31, Constituição Federal ADCT artigos 79 são os recursos da Seguridade Social, que só podem ser gastos com NENHUMA OUTRA ÁREA , CASO CONTRÁRIO previdência, saúde e assistência so- ESTARÃO DESCUMPRINDO A LEI financiamento foi um dos temas mais controversos da agenda de do SUS revelou-se mediante insuficiência e indefinição de recursos e alteração da sistemática dos repas- cial. Já o percentual da receita de ses realizados pelos governo federal impostos e transferências constitu- aos municípios, distanciando-se do cionais, que os governos são obri- disposto nas leis infraconstitucionais gados a alocar em educação, não teção social que não aquele inspi- da área da saúde – a Lei nº 8.080/90 pode ser usado em nenhuma outra rado na universalidade. e a Lei nº 8.142/90. Merece menção, área, caso contrário estarão des- Este artigo está dividido em duas ainda, a reduzida participação dos cumprindo a lei e sujeitos às pena- partes. A primeira resgata os 15 recursos fiscais no financiamento da lidades administrativas e cíveis, anos de trajetória de institucionali- saúde, em contraposição à destaca- conforme ocorreu com alguns pre- zação do SUS – reconhecido como da participação da fonte de contri- feitos e governadores. uma política pública de saúde uni- buições sociais – mais de dois ter- Que todos os comprometidos com versal, ancorada nos princípios da ços do financiamento total. o SUS fiquem atentos, pois está em seguridade social, consolidados na Na trajetória do financiamento do risco sua continuidade. Que nossos Constituição de 1988. Isto porque a SUS ao longo da década de 1990, governantes e seus assessores bus- verdadeira dimensão dos (des)ca- identifica-se um duplo movimento, quem se lembrar da história do SUS, minhos do financiamento do SUS resultado da ação permanente e con- de sua legislação e de seus concei- somente é compreendida se for traditória de dois princípios que se Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 391 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria embricam, embora cada um deles deveria ser a abrangência dos ser- bate pela descentralização/municipa- aponte para métodos e objetivos es- viços cobertos pelo SUS. lização; no embate contra os ditames pecíficos. Um seria o ‘princípio da O duplo movimento na história do da política econômica, defendendo a construção da universalidade’, que financiamento do SUS não deve ser afirma o direito de cidadania às entendido como uma seqüência no ações e serviços de saúde, viabili- tempo ou como um movimento pen- zando o acesso de todos através da dular. Trata-se de um movimento di- defesa permanente de recursos fi- alético, pois os dois princípios têm nanceiros seguros e suficientes. E o raízes materiais e sociais que convi- A descentralização da saúde é outro seria o princípio da ‘conten- vem permanentemente e contradito- resultado de um longo processo, ção de gasto’, uma reação defensi- riamente dentro do processo de cons- iniciado no período anterior à Cons- va que se articula em torno da defe- trução do SUS. A defesa da constru- tituição de 1988 e nela consolida- sa da racionalidade econômica, an- ção da universalidade das ações e do. Nos anos 1990, assumiu lugar garantia de recursos financeiros. O EMBATE PELA DESCENTRALIZAÇÃO/MUNICIPALIZAÇÃO corada na visão contábil-financeira, de destaque na agenda do SUS, den- na qual a redução das despesas tre outros motivos porque os dife- públicas é o elemento-chave, propi- rentes níveis de governo manifesta- ciado por uma política fiscal contracionista e pela manutenção de A DESCENTRALIZAÇÃO DA SAÚDE É RESULTADO DE UM LONGO alto superávit primário em todas as PROCESSO , INICIADO NO esferas da atuação estatal . Esse 1 ‘princípio’ está diretamente relacio- PERÍODO ANTERIOR À nado à política econômica desenvolvida pelo governo federal durante CONSTITUIÇÃO DE 1988 todos os anos da década de 1990. E NELA CONSOLIDADO ram interesses diversos. Esses interesses, somados ao fato de inexistir um projeto coordenado de descentralização por parte do governo federal, delimitando as responsabilidades de cada esfera de governo2, fez da descentralização um palco de disputa política. Na defesa desse princípio, entre os É nesse ambiente em que, ao vários argumentos, destaca-se a de mesmo tempo, são aperfeiçoados os que os direitos introduzidos pela mecanismos de construção de um Constituição de 1988 teriam provo- serviços de saúde, que acabam corri- sistema de caráter nacional de saú- cado fortes desequilíbrios nas con- gindo a expansão da política econô- de. Dessa maneira, o SUS tem im- tas do governo, provocando o défi- mica ortodoxa, manifesta-se de duas posto modificações no papel das cit público. Daí decorre a defesa da maneiras: na luta pelo rompimento esferas de governo, exigindo uma redução do gasto em saúde e, por da centralização das ações e recur- forma particular de relacionamento conseqüência, indaga-se sobre qual sos em nível federal, por meio do em- entre elas, tudo isso na busca da A idéia do duplo movimento utilizada aqui apóia-se na contribuição de Karl Polanyi, quando procura explicar as origens da ‘grande transformação/crise’ que destruiu a civilização liberal do século XIX, entre as duas grandes guerras mundiais do século XX e, ainda, sobre as forças de longo prazo que levaram a surgir, depois de 1930 e das guerras, um novo consenso econômico e político favorável à construção dos Estados do Bem Estar Social. Para Polanyi, é possível identificar um duplo movimento na história do capitalismo. São eles: o princípio do liberalismo econômico e o princípio da autoproteção social. Ver Polanyi, 1980. 1 2 Ver Cohn, 2000. 392 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 Os (Des)caminhos do financiamento do SUS integração, da regionalização e da pios no financiamento se mantém. significou uma ruptura em relação hierarquização de suas ações e ser- Mas os aspectos quantitativos obs- à sistemática anterior. Mais do que viços. Mas as tensões entre os níveis curecem o fato de, nos últimos anos, isso, os municípios habilitados a re- de governo são constantes, sobretu- ter ocorrido um movimento no sen- ceberem (dessa forma) esses recur- do se considerarmos a realidade he- tido da centralização. sos não tinham obrigação de alocá- terogênea de cada região, estados e De fato, a NOB/93 introduziu los em programas pré-determinados, municípios, obrigando que o dese- importantes alterações no processo tendo autonomia de aplicação, se- nho da política de saúde ocorra de de descentralização/municipaliza- gundo suas prioridades. forma específica e diferenciada. ção e no seu esquema de financia- Contudo, exatamente quando a Durante os anos 1990, o Ministé- mento. Segundo Carvalho (1999), ela forma transferências ‘fundo a fun- rio da Saúde, em nome da continui- promoveu uma nova relação no pro- do’ se firma como alternativa à re- dade da descentralização da política cesso de descentralização, uma vez muneração por serviços produzidos de saúde, num país marcadamente que representou “um divisor de pelo Ministério da Saúde, os recur- heterogêneo, acabou impondo um sos federais, principalmente a par- maior comprometimento das esferas tir da NOB/96, ganharam um ‘carim- subnacionais no financiamento da bo’, classificando sua destinação. saúde e um maior controle sobre os recursos a elas transferidos. Isto porque, mesmo tendo diminuído o peso dos recursos federais no financiamento da saúde, ainda o governo fe- OS ASPECTOS QUANTITATIVOS OBSCURECEM O FATO DE, NOS ÚLTIMOS ANOS, TER OCORRIDO Entre 1997 e 2001, a queda da participação relativa da Remuneração por Serviços Produzidos, os quais foram efetuados pelo Ministério da Saúde aos prestadores de deral é aquele que garante 56,4% do UM MOVIMENTO NO SENTIDO serviços da saúde, de 71,34% para total dos recursos (dados de 2001). DA CENTRALIZAÇÃO 33,41%, e o conseqüente crescimen- O aumento da participação dos to das Transferências Fundo a Fun- municípios no financiamento (de do de 28,66% para 66,59% foram 17,2%, em 1994; para 21,3%, em acompanhadas pela expansão, no 2001) foi decorrente da crescente interior desse último item, da Mé- implantação do processo de descen- águas entre os fluxos e refluxos de dia e Alta Complexidade (de 28,66% tralização do SUS, particularmente movimentos de descentralização para 40,62%) e da Atenção Básica a partir do histórico documento frustrados, alguns até irresponsá- (de 15,68% para 25,06%). Na Média “Municipalização das ações e ser- veis, seguidos geralmente de movi- e Alta Complexidade, a prática de viços de saúde: a ousadia de cum- mentos recentralizadores e punido- ‘carimbos’ manifestou-se por meio prir e fazer cumprir a lei” que intro- res” (CARVALHO, 1999. p. 143). É por do crescimento do item ‘Outros’ duz a Norma Operacional Básica do meio dela que foram adotadas trans- (campanhas3 ) e, em 2001, a ‘Assis- SUS 01/93 (NOB/93). ferências regulares e automáticas do tência hospitalar e ambulatorial Nos anos seguintes, a tendência Fundo Nacional de Saúde para os (MAC)’ foi desdobrada em mais dois a maior participação dos municí- Fundos Municipais de Saúde, o que itens específicos: ‘Gestão plena do As campanhas, desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, compreendem, entre outras, a humanização do pré-natal e dos nascimentos, o combate ao câncer uterino, transplantes e cirurgia de catarata. 3 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 393 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria O EMBATE PELA GARANTIA DE RECURSOS FINANCEIROS sistema municipal alta complexida- acompanhado pela autonomia dos de’ (4,45%) e ‘Gestão Plena do siste- municípios na determinação da po- ma municipal média complexidade’ lítica de saúde. Esses, dependentes (16,83%). Essas novas formas de dos recursos federais, passaram a ser Desde a instituição do SUS, a in- registro deveram-se à lógica impres- meros executores da política estabe- suficiência de recursos, bem como sa pela NOAS/2001, que atribui des- lecida no âmbito federal, na medida a ineficiência e a ineficácia de sua taque à média e alta complexidade, em que os recursos financeiros, na utilização, têm estado constantemen- como forma de melhor garantir o sua maioria, são vinculados aos pro- te em debate. Contudo, é fora de processo de regionalização dos ser- gramas de saúde, incentivados pelo dúvida que a primeira restrição as- viços de saúde. Ministério da Saúde, não podendo ser sume papel de destaque nesse de- Assim, em que pese as intenções redirecionados para outros fins. Isto bate, pois condiciona muitas vezes da NOB/96, a separação dos recur- torna a descentralização cada vez a eficiência esperada do sistema. sos para a Alta e Média Complexi- mais enfraquecida, isto é, esquecida A situação financeira da área da dade (MAC) daqueles destinados à saúde é condicionada por dois de- Atenção Básica, mediante a criação terminantes: o tratamento concedi- do Piso da Atenção Básica (PAB) – A FORMA ASSUMIDA PELO do à previdência no interior da se- definidor da política de saúde pela FINANCIAMENTO ACABA REFORÇANDO implementada pelo governo federal esfera federal. Essa lógica também A CENTRALIZAÇÃO PELO MINISTÉRIO DA no campo social, decorrente de sua fixo ou variável –, reforçou o papel se aplica à NOAS/2001. A cada ano aumenta o número de itens ‘carimbados’ – campanhas guridade social e a política austera SAÚDE NA ELABORAÇÃO DA POLÍTICA LOCAL DA SAÚDE , CRIANDO –, para os quais se destinam os re- CONSTRANGIMENTOS À cursos federais. Em 1997, o D ATASUS O SUS E A SEGURIDADE SOCIAL Tendo em vista os novos direitos AUTONOMIA DO GESTOR registrava apenas cinco tipos de ‘ca- realidade financeira. introduzidos na área previdenciária, rimbos’, 14 em 1998, 33 em 1999, a universalização da saúde e a cria- 43 em 2000 e 77 em 2001. Esse cres- ção da assistência social enquanto cimento dos itens de despesa não em nome da ar:“garantia de uma política pública, a Constituição de assume apenas seu aspecto contá- aplicação” do gasto em saúde sob 1988 preocupou-se em ampliar os bil. Trata-se de recursos vinculados as ‘rédeas’ do controle. Dito de outra recursos destinados ao financiamen- a programas específicos, de manei- maneira, a forma assumida pelo fi- to específico da Seguridade Social. ra que, para o município ser mere- nanciamento acaba reforçando a cen- Além das fontes tradicionalmente cedor dos recursos, a condição é a tralização pelo Ministério da Saúde utilizadas pelo antigo sistema pre- sua implementação. na elaboração da política local da videnciário, criou a Contribuição Em síntese, o aumento de impor- saúde, criando constrangimentos à sobre o Lucro Líquido e incorporou tância das Transferências ‘fundo a autonomia do gestor – já exercida a receita do FINSOCIAL (hoje COFINS ) fundo’ a partir da NOB/96 não foi quando do período da NOB/93 . para seu único uso. 4 4 Para uma análise dos incentivos financeiros federais nos municípios e seu impacto no processo de planejamento local, ver Marques e Mendes, 2003a. 394 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 Os (Des)caminhos do financiamento do SUS De 1988 a 2003, no entanto, os com a criação do Fundo Social de (CPMF), o que veio a vigorar a par- cuidados estabelecidos pelos consti- Emergência (hoje Desvinculação das tir de 1997. Contudo, a entrada dos tuintes foram sendo minados, não só Receitas da União – DRU), quando recursos da CPMF no financiamento pela utilização dos recursos em fins foi definido, entre outros aspectos, da saúde – que atingiu R$20,37 bi- alheios à Seguridade Social, como que 20% da arrecadação das contri- lhões em 2002, representando 12,8% também pela quebra do próprio con- buições estariam disponíveis para do total da Seguridade Social – foi ceito de Seguridade. Esse conceito, uso do governo federal. compensada pela diminuição da pre- que concebe a proteção como uma Ao mesmo tempo, na medida em sença de outras fontes da Segurida- totalidade, expressava-se no plano do que se deteriorava a situação finan- de, indicando, desta vez, não somen- financiamento, no entendimento de ceira da Previdência – o ínfimo de- te o avanço da previdência Social, que nenhuma fonte de recurso da sempenho da arrecadação das con- como também a aplicação da des- Seguridade poderia ser considerada tribuições refletia o não-crescimen- vinculação de parte dos recursos da como de uso exclusivo de um de to da economia, as elevadas taxas Seguridade, mencionada acima. seus ramos, isto é, pela Previdência, A restrição de recursos em que pela Saúde ou pela Assistência. se viu a área da Saúde durante to- A primeira investida realizou-se dos esses anos teve repercussões A RESTRIÇÃO DE RECURSOS em 1989 e 1990, quando recursos do então FINSOCIAL foram utilizados no no desempenho do gasto federal com saúde. O gasto líquido – ex- EM QUE SE VIU A ÁREA DA financiamento dos encargos previdenciários da União, despesa que não SAÚDE DURANTE TODOS ESSES integra a Seguridade. A segunda in- ANOS TEVE REPERCUSSÕES vestida ocorreu em 1993, quando o executivo descumpriu a Lei de Dire- NO DESEMPENHO DO GASTO trizes Orçamentárias (LDO), que de- FEDERAL COM SAÚDE cluindo os valores da dívida e inativos e pensionistas – realizado pelo Ministério da Saúde, no período 1995-2002, cresceu apenas 2,1%, indicando um esforço bem modesto do Ministério. Isso resul- terminava o repasse para a Saúde de tou menor dispêndio per capita, 15,5% da arrecadação das contribui- que passou de R$180,56 em 1995, ções de empregados e empregadores, para R$164,53 em 2002, tudo a obrigando o Ministério da Saúde a de desemprego e o aumento da pre- preços de dezembro de 2002. solicitar empréstimo ao Fundo de carização do trabalho – ela passou É interessante destacar que, ape- Amparo do Trabalhador (FAT). A par- a dispor de parte da receita dos ou- sar da retração econômica, com seus tir desse momento, na prática, essas tros recursos da Seguridade Social, reflexos no mercado de trabalho, o contribuições passaram a ser de uso o que criava constrangimento cres- conjunto da Seguridade Social não exclusivo da Previdência. Essa prá- centes para a área da Saúde. foi deficitário ao longo desses anos. tica foi ‘legalizada’ na reforma pre- Na impossibilidade de continuar Para se ter uma idéia, caso fosse videnciária promovida pelo governo solicitando empréstimos junto ao aplicado o conceito escrito na Cons- Fernando Henrique Cardoso. FAT , o então ministro Adib Jatene tituição de 1988 e fosse desconside- Um terceiro momento, talvez o sugeriu a criação da contribuição rado o confisco dos 20% DRU, a Se- mais importante, ocorreu em 1994, sobre a movimentação financeira guridade teria encerrado o ano de 5 5 O Ministério da Saúde realizou três empréstimos junto ao FAT. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 395 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria 2002 com um superávit de R$32,96 sa PEC, várias outras propostas de sendo que o percentual deve crescer bilhões, em valores correntes. vinculação de recursos foram ela- anualmente até atingir, para os esta- Apesar do resultado expressivo boradas e discutidas no âmbito do dos, 12% em 2004 e, para os municí- da Seguridade Social, o governo, Congresso Nacional, sendo que, so- pios, 15%. Quanto à União, define, durante todos esses anos, continuou mente após sete anos – em 2000 –, para o primeiro ano, o aporte de pelo a confundir a opinião pública. Suas foi conseguida a aprovação de uma menos 5% em relação ao orçamento diversas declarações a respeito do emenda constitucional (EC-29) . empenhado do período anterior; para 7 déficit da Previdência Social acaba- Essa emenda inovou ao vincu- os seguintes, o valor apurado no ano ram por facilitar a aprovação de re- lar recursos para o financiamento anterior é corrigido pela variação do formas, seja durante o governo FHC, da saúde, definindo o quanto das PIB nominal. Em relação à União, a seja durante o período inicial do receitas resultantes de impostos e EC-29 não explicita qual seja a ori- governo Lula . De maneira geral, transferências constitucionais dos gem dos recursos. portanto, a falta de perspectiva de estados e municípios devem ser des- 6 Aprovada a emenda, não faltaram crescimento da economia brasileira contestações. Do ponto de vista da e o aprofundamento do desemprego área econômica do governo – Fazen- e da precarização do mercado de trabalho tenderão a dificultar o financiamento da Previdência Social e a tornar cada vez mais tensa a relação dessa área com as demais da Seguridade Social. A TRAJETÓRIA EM DIREÇÃO À VINCULAÇÃO DE RECURSOS – A EMENDA CONSTITUCIONAL 29 NA ÉPOCA DA PRIMEIRA CRISE DE FINANCIAMENTO DA SAÚDE, QUANDO O MINISTÉRIO FOI OBRIGADO A RECORRER AO PRIMEIRO EMPRÉSTIMO NO FAT, OS D EPUTADOS EDUARDO JORGE E WALDIR PIRES ELABORARAM A PROPOSTA DE EMENDA CONSTITUCIONAL 169 da – a divergência recaiu sobre o ano-base para ser calculada a participação da União no financiamento do SUS. Do ponto de vista dos estados e municípios, a polêmica foi sendo travada em torno dos itens que devam ser considerados no âmbito da saúde. Dessa forma, a lógica desses entes federados era conseguir um subterfúgio pelas avessas para desrespeitar a vinculação, qual seja: a Na época da primeira crise de financiamento da Saúde, quando o tinados a ela. Entretanto, no tocan- Ministério foi obrigado a recorrer ao te às contribuições da Seguridade primeiro empréstimo no FAT, os De- Social, a EC-29 é omissa, como se putados Eduardo Jorge e Waldir Pi- não houvesse nenhuma disputa por res elaboraram a Proposta de Emen- seus recursos. inclusão de tudo na saúde. A LUTA PELO CUMPRIMENTO DA EC-29 O conflito com a União da Constitucional 169 (PEC-169) Segundo a EC-29, estados e mu- A EC-29 não permite dúvidas que, em resumo, definia para a saú- nicípios devem alocar, no primeiro quanto ao que seja a base de cálcu- de recursos vinculados. A partir des- ano, pelo menos, 7% dessas receitas, lo dos percentuais que os estados e 6 Para compreender o sentido da reforma do governo Lula, sob o título “O governo Lula e a contra-reforma previdênciária”, ver Marques e Mendes, 2003. Para a caracterização de cada proposta de vinculação/reordenamento de recursos para o financiamento da saúde ver, Marques e Mendes, 1999. 7 396 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 Os (Des)caminhos do financiamento do SUS municípios necessitam destinar às ações e serviços de saúde do SUS. Já em relação à União, embora os autores da emenda considerassem sua redação precisa, o texto deu origem à acirrada discussão entre os Ministérios da Saúde e da Fazenda. Na interpretação do primeiro, o ano-base para efeito da aplicação do adicional de 5% seria o de 2000, sendo que o valor apurado para os demais anos é sempre do ano anterior, ou seja, calculado ano a ano. Para o Ministério da Fazenda, contudo, o O conflito com os estados e municípios No caso dos estados, considerando que sua maioria vinha destinando, até 2000, 6% de suas receitas de impostos e transferências constitucionais para a saúde, de fato a EC-29 contribuiu para ampliar sua participação. Contudo, nos anos que se seguiram à promulgação da emenda, o seu cumprimento por parte dos estados tem sido difícil. De acordo com o Sistema de Informação sobre Orçamentos Públi- res desempenhos em termos do percentual da receita própria aplicada em saúde (EC-29) foram: Rio de Janeiro (6,14%), Paraná (3,70%), Maranhão (1,76%) e Minas Gerais (6,75%) (TEIXEIRA ; TEIXEIRA , 2003). Nas regiões Sul e Centro-Oeste do país, nenhum estado cumpriu a emenda no ano de 2001, isto é, aplicando 8%, conforme observa a regra de evolução progressiva de aplicação dos percentuais mínimos – 7% em 2000 e 8% em 2001. No Sudeste, somente São Paulo (8,94%) ano-base seria o de 1999, somente e Espírito Santo (9,39%) o fizeram. acrescido das variações nominais do No Nordeste, os que cumpriram PIB ano a ano. O resultado dessa diferença de E M RELAÇÃO À UNIÃO, EMBORA OS foram Paraíba (10,42%) e Pernambuco (10,94%). No Norte, que teve interpretação – pela qual a Advoca- AUTORES DA EMENDA CONSIDERASSEM o melhor desempenho, só o estado cia Geral da União (AGU) deu ganho SUA REDAÇÃO PRECISA, O TEXTO DEU do Amapá deixou de aplicar o de- de R$1,19 bilhão já para o orçamen- ORIGEM À ACIRRADA DISCUSSÃO ENTRE Para a obtenção desses resulta- to de 2001. Essa quantia permitiria, OS MINISTÉRIOS DA SAÚDE E DA FAZENDA de causa para o Ministro Malan – foi por exemplo, que o Ministério da vido em saúde. dos, porém, alguns estados incluíram, como se fossem gastos em saú- Saúde dobrasse os recursos do Pro- de, as despesas com inativos, em- grama Agentes Comunitários em re- presas de saneamento, habitação lação a 2000. Para o Ministério da urbana, recursos hídricos, merenda Fazenda, no entanto, significava mais cos em Saúde (SIOPS ), do Ministério escolar, alimentação de presos, hos- uma vitória no caminho do superá- da Saúde, em 2001, 17 dos 27 esta- pitais de ‘clientela fechada’ (como vit primário acordado com o Fundo dos deixaram de aplicar, juntos, hospitais de servidores estaduais). Monetário Internacional (FMI). mais de R$1 bilhão em ações e ser- E tudo isso implica a existência de Além do embate sobre a base de viços de saúde, descumprindo a parâmetros claros e acordados en- cálculo, outro aspecto foi assumin- EC-29 . O valor, em título de com- tre o Ministério da Saúde, os esta- do relevância no debate sobre a apli- paração, seria suficiente para sus- dos e seus tribunais de contas para cação e a regulamentação da EC-29: tentar todas as atividades de saúde o que seria incluído como despesas a necessidade de definir ações e ser- executadas pelo município de São de ações e serviços de saúde. Me- viços de saúde pública, que será Paulo durante o ano de 2001. Nesse diante ‘artifícios’, os estados des- explorado mais adiante. ano, os estados que tiveram os pio- conheceram esses parâmetros e 8 8 Ver Folha de São Paulo, “Estados retêm R$1 bilhão da saúde”, 11/03/2003. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 397 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria incluíram gastos alheios à saúde economistas clássicos, defensores tivaram a aprovação da emenda. para atingirem sua meta. dos arautos da política ortodoxa. Esperava-se que o resultado dessa Já nos municípios, as informações Dito de outra maneira, o respeito à parceria, por meio de troca de co- existentes no SIOPS indicam que o cum- LRF passa a ser o aspecto fundamen- nhecimentos técnico e político, con- primento da EC-29 é uma realidade tal no âmbito da gestão, alargar re- tribuiria para a elaboração de nor- desde 1998. Nesse ano, para 1.500 ceitas para conter as despesas – mas adequadas ao cumprimento da municípios, o percentual destinado à naquilo que é por vezes chamado EC-29, facilitando a construção de saúde foi de 15% das receitas de im- de ‘Lei de Say fiscal’. seu projeto de regulamentação me- postos e transferências constitucionais. Em 2003, esse percentual atingiu 16,0%, sendo que os municípios do estado do Amapá – os últimos colocados – apresentaram uma aplicação de 12,2% e os do estado do Mato diante Lei complementar. A construção de um consenso Para agilizar a aplicação da EC-29, Os temas abrangidos nesses seminários foram: o Conselho Nacional de Saúde, em • definição conceitual e abran- conjunto com outras entidades, gência de despesas com saúde, estabelecidas de forma bem geral na Grosso – os primeiros – registraram emenda como ‘ações e serviços pú- 18,1%. Isso demonstra que para os blicos em saúde’; municípios, a vinculação de recursos NOS MUNICÍPIOS, não chegou a alterar o quadro do financiamento da saúde. AS INFORMAÇÕES EXISTENTES Também nos municípios, verifi- • definição dos mecanismos de transferência e de aplicação dos recursos da esfera federal; ca-se a ocorrência da inclusão do NO SIOPS INDICAM QUE O • definição das formas de sus- gasto com inativos como despesa CUMPRIMENTO DA EC-29 pensão de repasse de recursos e in- com saúde. Surpreendentemente, É UMA REALIDADE DESDE 1998 mesmo em gestões progressistas, tervenção da União nos estados e destes nos municípios; houve um embate entre a área da • formas de acompanhamento, saúde e o das finanças. Os secretá- fiscalização e controle do cumpri- rios de Finanças também defende- mento das disposições da EC-29; ram, interpretando indevidamente a elaborou o documento intitulado emenda, que o percentual de 15% “Parâmetros consensuais sobre a definido como o mínimo seria exa- implementação e regulamentação tamente o percentual que eles apli- da EC-29”. A partir daí, o Ministé- cariam, mesmo que as necessidades rio da Saúde promoveu, entre setem- Cabe lembrar que, embora o de- exigissem gastos maiores. Tal como bro de 2001 e setembro de 2002, três talhamento desses temas seja maté- no plano macroeconômico, a descen- seminários com os tribunais de con- ria da Lei Complementar que regu- tralização da saúde subordina-se à tas da União, a comissão de Seguri- lamentará a Emenda Constitucional lógica do ‘econômico-contábil’, onde dade Social da Câmara e do Sena- 29 em 2004, já existe um consenso os secretários de finanças entendem do, o C ONASS e o CONASEMS . Esses se- entre o Ministério da Saúde e os Tri- que é a receita que condiciona a minários tinham a finalidade de bunais de Contas do país para efei- despesa. Para Prado (2001), esse buscar uma interpretação homogê- to de fiscalização do cumprimento pensamento expressa a visão dos nea e assegurar os objetivos que mo- da emenda. Esse consenso, de for- 398 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 • definição de critérios de redução de disparidades regionais; dentre outros. Os (Des)caminhos do financiamento do SUS ma legal, se apoiou no documento lizados, em Brasília, mais dois se- Demonstramos a seguir, de ma- “Parâmetros consensuais sobre a minários, promovidos pela Câmara neira sintética, o conteúdo dos arti- implementação e regulamentação Técnica do S IOPS e pela Comissão gos do Projeto de Lei Complementar da EC-29” e em um segundo do- para Elaboração de Proposta de Lei (principais itens de discussão no cumento, explicitado pela Portaria do Complementar (PLC) do Ministério âmbito da Câmara Técnica): Ministério da Saúde/Gabinete do da Saúde, onde foi intensa a discus- Ministro de nº 2.047, de 5 de no- são das entidades presentes 9. vembro de 2002. Muitas foram as sugestões encaminhadas para serem incorpora- A DISCUSSÃO DA REGULAMENTAÇÃO DA EC-29 das à minuta final do Projeto de Lei Complementar (PLC), o que faz do documento síntese uma carta de in- Quanto à indefinição do conceito tenção pra garantir as conquistas de ações e serviços públicos de metida. Depois de um intenso deba- básica de negociação do PLC todas as propostas de redação do artigo que trata da aplicação dos recursos da União, desde as propostas que mantêm a definição de aplicação atual até aquelas que tentam vinsociais da União, o total das recei- dos sabiam que, se isso não estiaplicação da EC-29 estaria compro- União – foi adotado como diretriz cular os impostos e contribuições saúde, todos os segmentos envolvivesse acordado e regulamentado, a • Aplicação dos recursos da QUANTO À INDEFINIÇÃO DO CONCEITO DE AÇÕES E SERVIÇOS PÚBLICOS DE SAÚDE, tas correntes da União e até mesmo a vinculação sobre o Orçamento da Seguridade Social; te, foi aprovada, pelo Conselho Na- TODOS OS SEGMENTOS ENVOLVIDOS SABIAM • Periodicidade na sistemática de cional de Saúde, a resolução nº 316, QUE , SE ISSO NÃO ESTIVESSE ACORDADO E transferências de recursos – ficaram de 4 de abril de 2002, substituída depois pela resolução nº 322, de 8 de maio de 2003, que foi homologa- REGULAMENTADO, A APLICAÇÃO DA EC-29 ESTARIA COMPROMETIDA estabelecidas duas formas de periodicidade dos recursos transferidos aos Fundos de Saúde: 1) os recur- da pelo Ministro da Saúde. Esta últi- sos do Fundo Nacional de Saúde, ma Resolução, então, ao dispor so- destinados aos estados, Distrito Fe- bre dez diretrizes a respeito dos te- deral e municípios serão transferi- mas abordados no âmbito dos Semi- da EC-29. Mesmo assim, ao que dos diretamente e de forma regular nários, constituiu-se no grande ins- tudo indica, por melhores que te- e automática com periodicidade de- trumento-chave do consenso entre as nham sido os resultados propicia- cendial (os recursos de custeio entidades ligadas à saúde e na peça dos pela aprovação da Emenda podem seguir essa periodicidade, principal de orientação para o proje- Constitucional 29, muito resta a fa- porém os relativos a investimento to de regulamentação da EC-29. zer, principalmente quanto à defi- devem seguir outra periodização – Para finalizar os encaminhamen- nição do que seja gasto com saúde a ser definida); 2) os recursos dos tos pró-regulamentação da EC-29, e à participação das contribuições tesouros federal, estadual e muni- durante o ano de 2003, foram rea- sociais no financiamento. cipal serão repassados para ações e CONASEMS; Procuradoria Geral da República; Banco do Brasil; representante da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas; Conselho Federal de Contabilidade; assessoria do Deputado Roberto Gouveia; asssessoria do Deputado Guilherme Menezes – PT/Bahia; IBGE/Departamento de Contas Nacionais; técnicos do SIOPS ; Secretaria Gestão Participativa/MS; STN; técnicos do Departamento de Economia da Saúde/MS; assessoria da bancada do PT na Câmara Federal. 9 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 399 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria serviços públicos de saúde com a pe- tro meses, a partir da audiência bunais de Contas como o do Banco riodicidade preferencialmente decen- pública nas câmaras de vereadores, do Brasil encaminharam minutas de dial, assim como ocorre com os re- nas respectivas assembléias legis- projetos de Lei organizados por ca- cursos do FPE, FPM e outros vincula- lativas e no Congresso Nacional, a pítulos, visando clarificar os instru- dos constitucionalmente à manuten- ser realizada até trinta dias após o mentos de controle e avaliação dos ção e desenvolvimento do ensino. encerramento de cada bimestre; recursos aplicados. Particularmen- • Da distribuição dos recursos da • Despesas a serem consideradas União para estados e municípios e como ações e serviços públicos de dos estados para municípios – en- saúde – após muita discussão, re- tre as diversas entidades presentes, solveu-se acatar o conteúdo da Re- o conceito de eqüidade não está cla- solução n o 322 do Conselho Nacio- ro na legislação brasileira e, parti- nal de Saúde, homologada pelo Mi- cularmente, na da saúde. Os crité- nistro da Saúde em 8 de maio de rios vigentes no artigo 35 da Lei PLC encaminhados, o Banco do Brasil incluiu a necessidade da abertura de uma conta bancária específica referente aos recursos provenientes dos impostos e das transferências constitucionais – SMS-FMS/Tesouro, semelhante ao tratamento dado ao F UNDEF na educação. Essa n. 8.080/90 mostraram-se de difícil aplicação ao longo da década de te, dentre as diversas sugestões dos conta bancária facilitaria a automaticidade dos repasses das transferên- to de necessidades desiguais dos OS DOIS ARTIGOS DO PROJETO DE L EI COMPLEMENTAR DA EC-29 DEVEM APOIAR -SE estados e dos municípios. Para tan- NUM CONJUNTO DE NECESSIDADES to, sugeriu-se que a distribuição de DESIGUAIS DOS ESTADOS do Brasil. A periodicidade desses re- E DOS MUNICÍPIOS passes seria decendial. Cerca de 1990. Dessa forma, os dois artigos do projeto de Lei Complementar da EC-29 devem apoiar-se num conjun- recursos ocorra segundo critérios de: perfil demográfico; perfil socioeconômico; perfil epidemiológico. cias constitucionais da União e dos estados aos fundos municipais de saúde, conforme percentual definido pelo município (no mínimo 15%) e estabelecido no convênio com o Banco 1.427 municípios já assinaram convênio com o Banco do Brasil, o que Ainda, sugere-se acerca da im- significa disporem de repasse auto- portância em relacionar os crité- 2003. Optou-se, porém, por reor- mático das transferências, mesmo rios de necessidades acima como ganizar a redação dos artigos do antes da regulamentação da EC-29. os de oferta de serviços e, portan- PLC de forma a melhor ordenar as to, será necessário diferenciar as ações e serviços públicos ‘típicos’ formas de distribuição de recur- de saúde. Além dos gastos relaci- sos, custeio e investimento; onados às atividades fim, foi dada • Avaliação da aplicação dos Recursos da EC-29 – os gestores deverão apresentar ao Conselho Nacional de Saúde e aos Conselhos Esta- ênfase à incorporação das ações administrativas voltadas a viabilizar a gestão do SUS em nível de cada esfera de governo; • Valorização do Planejamento como mecanismo central da Estrutura de Gasto do SUS – foi sugerida uma série de artigos ao PLC, produzido pelo grupo coordenado pela Secretaria de Gestão Participativa do MS, que diz respeito ao estabelecimento de parâmetros para os gas- duais e Municipais de Saúde a pres- • Fiscalização, Avaliação e Con- tos do SUS, valorizando o processo tação de contas – recursos aplica- trole dos Recursos do Fundo de Saú- de planejamento. A idéia geral pode dos e ações realizadas –, a cada qua- de – tanto o representante dos Tri- ser descrita pela proposta do artigo 400 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 Os (Des)caminhos do financiamento do SUS 6º do PLC: “os cronogramas de de- tuições criadas pelo SUS resistem. aberto mão de repensar as condições sembolso referidos no caput desse Dentre elas, destacam-se as estru- de sustentação do conjunto da se- artigo devem ser vinculados aos pla- turas institucionais para coordenar guridade social, em especial da saú- nos, metas, custos e prioridades as ações dos três gestores do siste- de. Contudo, nos avanços das nego- definidas a cada município, estado ma e a municipalização da atenção ciações para a aprovação da refor- e DF, em função dos Planos Direto- básica, onde os governos locais tor- ma, apareceu a possibilidade de res Regionais, Planos Diretores de naram-se essenciais na provisão de mecanismos semelhantes à DRU se- Investimentos e a Programação Pac- serviços de saúde. rem aplicados aos estados e muni- tuada Integrada”. Essas são, em linhas gerais, a trajetória do financiamento da saúde nos anos pós-Constituição. A persistência da lógica da ‘disputa’ en- Essa situação, contraditoria- cípios, o que, segundo estimativa mente, aparece como se a área da realizada pela Comissão de Orçamen- saúde estivesse permanentemente to e Finanças do Conselho Nacional em crise, quando na verdade todas de Saúde, significaria uma redução suas manifestações apenas refletem de recursos de R$3 bilhões em nível dos estados e de R$2,5 bilhões em tre os ramos da Seguridade Social e nível dos municípios, caso a desvin- as políticas econômicas implementadas não permitiram que o financiamento do conjunto das áreas da Seguridade Social e a implantação da EC/29 fossem tratados com o devido cuidado exigido pela situação, sobretudo por ser tratar de importantes instrumentos de promoção de redistribuição social da renda. OS CONSTRANGIMENTOS ECONÔMICOS E O SUS NOS ANOS 2000 O prolongamento da crise instalada há duas décadas, sem perspectiva de crescimento continuado da economia brasileira, a permanência de altas taxas de desemprego e a precarização do mercado de trabalho vêm impedindo que a construção da universalidade do SUS ca- culação de 20% fosse aplicada à ar- APESAR DE TODAS AS INVESTIDAS DOS DEFENSORES DO ‘PRINCÍPIO DA CONTENÇÃO DO GASTO ’ – ANCORADO NO LIBERALISMO –, AS ESTRUTURAS recadação prevista para este ano de E INSTITUIÇÕES CRIADAS intensas mobilizações, o compro- PELO SUS RESISTEM misso de retirada dessa proposta no 2003. Contudo, em uma reação defensiva daqueles que lutam por proteger o caminho de construção da universalidade da saúde, conseguiu-se obter do governo Lula, após âmbito do projeto do executivo. As entidades vinculadas à saúde – CO - os conflitos de interesse em jogo e o grau de resistência que tem o movimento pela universalização da saúde pública. NASS , CONASEMS, CNS, Associação Bra- sileira de Pós-graduação em Saúde Coletiva (A BRASCO), Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABRES ), Comissão da Seguridade A Saúde e a proposta de Reforma Tributária do governo Lula Social da Câmara – formaram um A proposta de reforma tributária defesa pela garantia de recursos . bloco de auto-proteção do princípio da universalidade assegurando a do governo Lula, por melhores que O financiamento da saúde públi- Mas apesar de todas as investi- tenham sido as intenções de seus ca no Brasil está longe de ser uma das dos defensores do ‘princípio da proponentes, apenas sancionou o questão resolvida no âmbito da pro- contenção do gasto’ – ancorado no comprometimento atual dos muni- posta de reforma tributária apresen- liberalismo –, as estruturas e insti- cípios e do governo federal, tendo tada pelo governo Lula. Isso porque minhe sem obstáculos. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 401 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria no momento em que a austeridade e Finanças (C OFIN) do Conselho Na- No momento em que os R$3.571 fiscal é alçada à prioritária pelo cional de Saúde (CNS) trabalhou ar- milhões referentes ao Fundo de Com- governo – na verdade continuando duamente para defender o financia- bate e Erradicação da Pobreza (Fon- a política anteriormente executada mento do SUS. Além de seu trabalho te 179) são considerados como – isso se choca diretamente com o rotineiro – análise da execução orça- ações de saúde, não só a Saúde dei- interesse daqueles que pretendem mentária do Ministério da Saúde –, a xa de contar com esse montante de assegurar a implementação do SUS COFIN realizou um trabalho intenso. recursos como é desrespeitado o como uma política universal. Dito O veto presidencial ao parágrafo 2 processo de construção da definição de outra maneira, o SUS universal do artigo 59 da LDO/2004, realizado do que sejam ações típicas de saúde, encontra-se na contramão dos dita- em 31 de julho, passou a permitir iniciado por meio dos cinco seminá- mes do FMI, que exige corte nos que fossem consideradas como ações rios realizados (de 2001 a 2003) en- gastos e superávit primário eleva- e serviços públicos de saúde as des- tre os Tribunais de Contas, o Conse- do. Essa atitude é emblematica- pesas realizadas com Encargos Pre- lho Nacional de Saúde, o CONASEMS, o mente registrada na defesa intran- CONASS, o Ministério da Saúde e ou- sigente do governo Lula em manter tras entidades vinculadas ao SUS. a CPMF (mas sem dividir os recur- A inclusão da alimentação e nutri- sos com os outros níveis de governo, é claro) e a DRU. A discussão da reforma do Esta- A DISCUSSÃO DA REFORMA DO ESTADO, ção e saneamento básico, atividades ENVOLVENDO PROPOSTAS DE ALTERAÇÕES com o Fundo de Combate e Erradica- previstas para serem financiadas do, envolvendo propostas de altera- SUBSTANTIVAS DAS ÁREAS PREVIDENCIÁRIA E ção da Pobreza, contrariam o §2 do ções substantivas das áreas previden- TRIBUTÁRIA, COLOCA A POSSIBILIDADE DO artigo 198 da Constituição, os artigos lidade do próprio sistema de saúde PRÓPRIO SISTEMA DE SAÚDE VIR A SER ção nº 322 do Conselho Nacional de vir a ser alterado nos seus fundamen- ALTERADO NOS SEUS FUNDAMENTOS Saúde, homologada pelo Ministério ciária e tributária, coloca a possibi- tos. Isto ocorreria na medida em que 5 e 6 da Lei nº 8.080/90 e a Resolu- da Saúde em 8 de maio de 2003. não contemplam atenção especial às Além disso, mesmo se fossem principais fontes de financiamento do considerados os recursos do Fundo sistema de saúde e que a escassez videnciários da União (EPU) e com o de Combate à Pobreza, o orçamen- relativa de recursos passar a ser usa- serviço da dívida, bem como a dota- to do MS previsto para 2004 não da como argumento para sustentar ção dos recursos do Fundo de Com- cumpre com o disposto na EC-29: somente a manutenção dos cuidados bate e Erradicação da Pobreza. A rea- no lugar de R$32.930 milhões (or- com a saúde da parcela mais caren- ção contrária do CNS e da Frente Par- çamento de 2003 mais a variação te da população. lamentar da Saúde resultou na men- nominal do PIB 2003/2002 de sagem do Poder Executivo ao Con- 19,24%, segundo as projeções do gresso Nacional, criando o parágra- IBGE), foi encaminhada uma pro- fo 3 para o artigo 59, onde, para efeito posta de R$32.481 milhões, ou seja, das ações em saúde, são deduzidos menor em R$449 milhões. O DESCUMPRIMENTO DA PROPOSTA ORÇAMENTÁRIA 2004 DO MINISTÉRIO DA SAÚDE Nos meses de agosto e setembro deste ano, a Comissão de Orçamento o EPU e o serviço da dívida. Contu- Dessa forma, somando-se esses do, nenhuma menção foi feita ao R$449 milhões aos R$3.571 milhões Fundo da Pobreza. do Fundo de Pobreza, o SUS, em ní- 402 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 Os (Des)caminhos do financiamento do SUS vel do Ministério da Saúde, está sen- impedindo a realização de políticas postas de alterações substantivas do desfinanciado em R$4.020 mi- governamentais ativas, impede que das reformas previdenciária e tribu- lhões. Em termos comparativos, é se volte a crescer, redistribuindo ren- tária, coloca a possibilidade do pró- como se o orçamento deste ano fos- da e promovendo o emprego. Por prio sistema de saúde vir a ser mo- se cortado em 14,8%, lembrando que outro lado, a necessidade das taxas dificado. Na medida em que forem a inflação atingiu 15,07% entre agos- de juros serem mantidas relativa- extintas as atuais fontes de finan- to de 2002 e agosto de 2003. É im- mente altas para garantir o afluxo ciamento do sistema e a escassez re- portante atentar para o fato de que, de capital ao país deprime o inves- lativa de recursos determinar ape- além dos efeitos negativos dessa timento e aprofunda o déficit públi- nas a manutenção dos cuidados com redução ao orçamento do MS e, con- co, por maior que seja o superávit a saúde da parcela mais carente da seqüentemente, ao financiamento do primário obtido mediante o corte de população, propostas de adoção de SUS, o descumprimento da EC-29 gastos sociais, em geral, e da saú- modelos alternativos de gestão da pela União abre precedente para que de em particular. Nessa perspecti- saúde certamente ganharão corpo e estados atuem da mesma forma, isto importância no debate que está por é: considerar como despesas em saú- vir. Isto pode permitir que se colo- de outros itens que não se referem a AO MESMO TEMPO EM QUE SE IMPLANTA O SUS, ANCORADO NO ‘ PRINCÍPIO DA CONSTRUÇÃO DA UNIVERSALIDADE’, AGRAVAM- SE que qualquer tipo de sistema de pro- nhos do financiamento da saúde AS CRISES FISCAL E FINANCEIRA aprofundamento do processo de pública no país têm sido tortuosos, DO E STADO, LIMITANDO O APORTE (des)financiamento da área da saú- DE RECURSOS PARA A SAÚDE to definido pela governo Lula, a ‘ações típicas de saúde’ . 10 CONSIDERAÇÕES FINAIS O artigo demonstra que os cami- e que se pode denominá-los de ‘(des)caminhos’. Isto porque, ao teção social que não se inspire sob o princípio da universalidade. O fato da EC-29 não estar sendo cumprida, seja em nível da União como dos estados, pode resultar no de. Mesmo para o primeiro orçamen- mesmo tempo em que se implanta o inclusão do Fundo de Erradicação da SUS, ancorado no ‘princípio da cons- Pobreza como atividade do Ministé- trução da universalidade’, agravam- va, espera-se que as taxas de desem- rio da Saúde, indica que o governo se as crises fiscal e financeira do prego mantenham-se altas e que o Federal não tem muita disposição em Estado, limitando o aporte de recur- encolhimento do emprego formal – aumentar sua participação no gasto sos para a saúde. característica dos anos de 1990, com saúde e tampouco em definir após a entrada do Real – aprofun- fontes exclusivas para seus cus- de-se nos primeiros anos de 2000. teios. Espera-se que sua regulamen- De um lado, a presença esmagadora da dívida interna e externa (esta última carregando sistemati- Nessa dimensão, a discussão da tação, ancorada nas definições da Re- camente recursos para fora do país) reforma do Estado, envolvendo pro- solução CNS nº 322, possa estabele- Ao final de setembro de 2003, a governadora do estado do Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho, propôs ao Supremo Tribunal Federal uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, com pedido de medida cautelar, em razão da Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 322, de 8 de maio de 2003, especialmente para sua invalidação e suspensão imediata dos seus efeitos. Dito de forma direta, a governadora questiona, particularmente, a diretriz da Resolução que define as despesas a serem consideradas como ações e serviços públicos de saúde. Os motivos, todos sabem, são para incluir gastos na saúde que na Resolução são vedados. !0 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 403 MENDES Áquilas Nogueira & MARQUES Rosa Maria cer as bases legais necessárias para Aires, 16 a 18 de outubro de 2003 e que a União e também os Estados para a revista Proteo (Roma). cumpram o disposto na EC-29. Mas a continuidade da institucionalização do SUS universal exige a redefinição da posição econômica e política assumida pelo governo atual, o que implicará o abandono das ‘estratégias’ ortodoxas adotadas pelo governo democrático e popular. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARVALHO, G. Saúde: Avanços e Entraves ao Processo de Descentrali- . O Papel e as conseqüências dos incentivos como estratégia de financiamento das ações de saúde. In: Série Técnica Projeto de Desenvolvimento de Sistemas e Serviços de Saúde, 4. Brasília, DF: Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS /OMS)/SAS/Ministério da Saúde, 2003 a. POLANYI , K. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 1980. zação. In: C EPAM. O município no PRADO , S. Transferências Fiscais e século XXI: cenários e perspectivas. Financiamento Municipal no Bra- São Paulo, 1999. sil. Trabalho elaborado para o Se- COHN , Amélia . “Saúde para Todos”. In: RATTNER , Henrique (Org.). Brasil no limiar do Século XXI: Alternativas para a construção de uma sociedade sustentável. São Paulo: minário: Descentralização Fiscal e Cooperação Financeira Intergovernamental, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP ). São Paulo: julho de 2001. Editora da Universidade de São TEIXEIRA , H. V.; TEIXEIRA , M. G. Finan- Paulo, 2000. ciamento da saúde pública no Bra- MARQUES, Rosa; M ENDES, Áquilas N. sil: a experiência do Siops. Ciência Financiamento: a doença crônica da & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, saúde Pública Brasileira. In: UGÁ, v. 8, n. 2, 2003. p. 403 – 415. Maria Alícia et al. (Org.). Anais do V Encontro Nacional de Economia da Saúde. Salvador: A BRES, 1999. p. 213-237. . O governo Lula e a contra-reforma previdenciária. Artigo preparado para o VIII Encontro Nacional da ABET (Universidade de São Paulo, 13 a 16 de outubro de 2003), para o III Colóquio de Economistas Políticos da América Latina (Buenos 404 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 389-404, set./dez. 2003 O SUS que temos e a informação como estratégia de (in)visibilidade ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES O SUS que temos e a informação como estratégia de (in)visibilidade Fábio Lúcio Tavares 1 Mariana Rabello Laignier 2 Marta Zorzal da Silva 3 Raphaella Fagundes Daros4 Rita de Cássia Duarte Lima5 Enfermeiro, mestrando em Atenção à Saúde Coletiva na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES ) Rua Antônio Araújo Lyra, 530/705 CEP 29090-230 – Vitória – ES e-mail: [email protected] The SUS we have and information as strategy of (in)visibility 1 RESUMO Com o objetivo de desvelar o nível de entendimento da população sobre o que é o Sistema Único de Saúde (SUS), desenvolvemos este trabalho, utilizando Enfermeira, mestranda em Atenção à Saúde Coletiva na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES ) Avenida Rio Branco, 1.400/801 CEP 29055-642 – Vitória – ES e-mail: [email protected] como estratégia metodológica a estimativa rápida, por meio de entrevista Cientista política, doutora em Ciência Política pela FFLCH da Universidade de São Paulo (USP), docente do Programa de Pós-graduação em Atenção à Saúde Coletiva do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (U FES ) Alameda Hélio Ferraz, 25/201 CEP 29055-090 – Vitória – ES e-mail: [email protected] parecia referenciar o entendimento acerca do modelo de saúde pública vigente: Psicóloga, mestranda em Atenção à Saúde Coletiva na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES ) Rua Alice Bumachar Neffa, 343/403 CEP 29090-290 – Vitória – ES e-mail: [email protected] of the Brazilian Unified Health System (SUS), this work was developed, 2 3 4 Enfermeira, doutora em Saúde Coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (U NICAMP), docente do Programa de Pósgraduação em Atenção à Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (U FES) Rua Artur Czartorzys, 315/202 CEP 29060-370 – Vitória – ES e-mail: [email protected] 5 aleatória. Foi feita a abordagem direta das pessoas nas ruas na tentativa de apreender o nível de informação da população em relação ao conceito de saúde e ao funcionamento do SUS. Foi possível observar elementos que se repetiam e, assim, denunciavam a concepção predominante da saúde, a qual o SUS como oferta de serviços para a população carente. DESCRITORES: SUS; Saúde Pública; Serviços de Informação. ABSTRACT With the objective of knowing the level of comprehension by the population using as its methodological strategy the fast estimate, by means of random interviews. People were asked directly on the streets with the intention of finding out their information about the concept of health and how SUS operates. The work done was able to illustrate the pertinence of the proposed discussion, the issue of information levels. The results pointed to answers that disclose different levels of information by these people on this subject. It was possible to observe recurrent elements and that therefore denounced the predominant conception of health, which seemed to bring forward the understanding of public health today: the SUS as a service provided for the less fortunate. DESCRIPTORS: SUS; Health Public; Information Services. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 405 TAVARES Fábio Lúcio et al INTRODUÇÃO e os desafios que são apresentados entendimento das questões relati- no processo de construção dessa po- vas à acessibilidade a conhecimen- A impressão que se tem quando lítica pública estão, especialmente tos e informações como produto da se fala do Sistema Único de Saúde quanto ao conhecimento das pes- condição de trabalho e da cidada- (SUS) e sobre os temas da saúde soas, rompendo com a perspectiva de nia, funcionou como uma verda- para o cidadão comum e o grande exclusão da clientela, tomando como deira lupa, fornecendo-nos uma público em geral é que há um gran- princípio norteador da produção de extensão produtiva e problemati- de desconhecimento do que é de fato marcos construtores da cidadania. zadora do nosso olhar sobre a rea- esse sistema de serviços. Mais que Para tanto, tomamos por base a lidade social brasileira. isso, tem-se a idéia de que, em ge- análise dos significados que a po- Importa destacar que as especi- ral, essas pessoas associam ao tema pulação tem atribuído do que seja o ficidades do processo de incorpora- a noção de serviços prestados com SUS, procurando investigar na fala ção social e política, de um lado, e qualidade precária para a popula- das pessoas a percepção que elas as condições da construção da esfe- ção carente, além de toda uma car- ra pública, no Brasil, por outro, ga de negatividade embutida na impõem sérios condicionantes aos imagem acumulada pelos serviços modos de ser e de pensar do bra- públicos junto aos cidadãos, que se explicita como a face mais perversa de um complicado processo de des- NOSSA INTENÇÃO É VERIFICAR SE OS COMPROMISSOS E OS DESAFIOS QUE SÃO sileiro, e dessa forma impõem restrições e dificuldades a maior participação dos cidadãos no processo gaste da legitimidade do Estado, APRESENTADOS NO PROCESSO DE de formulação e implementação das sobretudo nas últimas décadas do CONSTRUÇÃO DESSA POLÍTICA PÚBLICA políticas públicas, em geral, e em século passado, cujos desdobramentos estão longe de se poder avaliar. ESTÃO ROMPENDO COM A PERSPECTIVA DE EXCLUSÃO DA CLIENTELA Tendo em vista esse contexto do particular as da área de saúde. Sob essa ótica, a literatura desta área pontua a forma como se mani- senso comum e considerando a for- festou a crise do sistema de saúde ma como a mídia em geral conduz brasileiro e as características do o debate sobre as questões da saú- movimento sanitário que se iniciou, de no Brasil, ao lado de reflexões têm sobre os temas da saúde e sua especialmente a partir de meados suscitadas durante a elaboração de vinculação com o referido sistema. dos anos 1970, bem como a forma um seminário realizado para a dis- A compreensão da singularida- como o debate foi conduzido no ciplina Estado e Políticas de Saúde de da constituição do Estado brasi- âmbito da liberalização do regime no Brasil, do Programa de Mestra- leiro e sua estreita ligação com a político autoritário e da transição do em Atenção à Saúde Coletiva da forma peculiar com que foi sendo democrática que então presidia a Universidade Federal do Espírito construída nossa cidadania é um cena política. Com esse contexto em Santo, fomos motivados a investi- elemento indispensável às análises mente é possível compreender os gar se as impressões e percepções que se fazem necessárias em torno contornos dos debates entre os ato- que compartilhávamos faziam sen- da temática aqui proposta. Desse res sociais envolvidos no processo tido. Nossa intenção é tecer algumas ponto de vista, o conceito de cida- no sentido de levantar questiona- considerações sobre o SUS, assim dania regulada (SANTOS , 1987; CAR- mentos acerca da concepção hege- como verificar se os compromissos VALHO, mônica de saúde e de suas práticas 406 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 2003), além de lançar luz ao O SUS que temos e a informação como estratégia de (in)visibilidade assistencialistas, apontando propos- Com esse objetivo, utilizamos zar a discussão proposta, ou seja, o tas de transformação na direção da como estratégia metodológica a es- SUS e os limites da acessibilidade à democratização e descentralização, timativa rápida, por meio de entre- informação por parte da população. que constituiriam, a seguir, o esco- vista aleatória, fazendo a abordagem po da Reforma Sanitária (MENDES , direta dos cidadãos nas ruas, na ten- 1996; ESCOREL, 1999). tativa de apreender o nível de infor- SUS: A (DES)INFORMAÇÃO COMO DESAFIO Um dos maiores desafios à ges- mação da população em relação ao Tomando como referência a noção tão democrática das instituições conceito de saúde e ao funcionamento de que participar significa “[...] fazer públicas, no sentido de garantir do SUS. Dessa maneira, entrevista- saber, informar, anunciar, comunicar maior eqüidade de suas ações, pas- mos algumas pessoas que se dispo- [...]” (GARCIA, 1986. p. 1.433), ressal- sa pela dinâmica que articula e pro- nibilizaram a participar de nossa tamos a pertinência e relevância de cessa a informação e o conhecimen- enquete. Após explicar o objetivo de se identificar que informações com- to nas diversas instâncias de sua nossa pesquisa, pedimos que as pes- põem o imaginário das pessoas acer- produção e sua forma de socializa- ca do que é saúde e o que é o SUS. ção com os mais diversos atores e Isso, à medida que a possibilidade de segmentos da sociedade. Implica, participação e o decorrente exercício ve da informação no processo de NÃO SE PRETENDEU FAZER GENERALIZAÇÕES ACERCA DO ASSUNTO, MAS SUSCITAR democratização do Estado, do mer- UM DEBATE QUE NOS AJUDASSE A lidade à informação, hoje um grande portanto, em reconhecer o papel-cha- cado e da sociedade civil como evidência do esforço de ampliar as bases potenciais de exercício da política e da cidadania. Considerando as múltiplas faces dos processos de exclusão social, PROBLEMATIZAR A DISCUSSÃO PROPOSTA, OU SEJA, O SUS E OS LIMITES DA ACESSIBILIDADE À INFORMAÇÃO POR PARTE DA POPULAÇÃO da cidadania encontram-se diretamente atrelados às condições de acessibidesafio para o SUS. É relevante observar que a informação tratada aqui não se refere a um conjunto de componentes que atuam integrada e articuladamente como os bancos de dados característicos das sociedades capi- para a informação do sistema, mas talistas, atualmente radicalizadas e àquela que é usada na perspectiva transformadas pela difusão das no- soas, de início, respondessem a duas de um processo de comunicação in- vas tecnologias de informação (EGLER, perguntas básicas: “O que é saúde terativo, que permita à população 2001), a intenção que moveu o es- para você? e Você sabe o que é SUS?” conhecer e entender o SUS (sua con- forço de pesquisa realizado foi obter Foram realizadas 16 entrevistas, cepção, estrutura, organização, ser- uma primeira aproximação aleató- com pessoas escolhidas aleatoria- viços disponíveis, limites, avanços ria sobre o conhecimento/informação mente dentre as que circulavam pe- etc.). Processo este que permite o que as pessoas possuem sobre o SUS. las ruas ou trabalhavam em esta- exercício de seu direito constitucio- Com isso, se deseja contribuir para o belecimentos comerciais em um nal de participação, tanto no que esclarecimento das questões que ain- bairro de classe média alta do mu- diz respeito à quantidade de infor- da não haviam sido colocadas e avan- nicípio de Vitória (ES). Não se pre- mação acumulada quanto à quali- çar em direção à resposta a questão tendeu fazer generalizações acerca dade dessa informação. que, apesar de não-dita, paira no ar: do assunto, mas suscitar um deba- Sabe-se que, desde a Constitui- “O que é o SUS afinal?” te que nos ajudasse a problemati- ção Federal de 1988, a saúde passa Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 407 TAVARES Fábio Lúcio et al e a sua utilização pelo usuário [...] (B RASIL, 1990). a ser concebida não apenas como maior relevo no processo decisório, ‘assistência médica’, mas como o papel exercido não só por meio dos resultado da ação do Estado na for- mecanismos de representação, mas Por outro lado, para regulamen- mulação e implementação das polí- também pela participação direta. Des- tar constitucionalmente o direito à ticas públicas na área social e eco- sa forma, a Constituição brasileira prática da participação, um dos ca- nômica de forma a “[...] assegurar consagrou a participação como um o desenvolvimento sustentável e a minhos foi a implementação dos con- de seus princípios básicos, pelo me- distribuição de renda; cabendo, es- selhos gestores de políticas públicas. nos no plano teórico. Estes proporcionam à sociedade ci- pecificamente ao SUS a promoção, Assim, a partir da Lei Orgânica proteção e recuperação da saúde dos vil, ao lado do poder público, um 8.080, de 1990, que dispõe sobre as indivíduos e da coletividade de for- espaço plural, de discussões e de to- condições para a promoção, prote- ma eqüitativa” (BRASIL, 2003. p. 2). mada de decisões conjuntas, indepen- ção e recuperação da saúde, a or- O dever do Estado e o direito à dente da natureza do conselho, no que ganização e o funcionamento do concerne à formulação e ao acompa- saúde, como pressuposto da ci- nhamento de políticas públicas. dadania, emergem a partir da década de 1970, no bojo do regime militar autoritário, são consagrados na 8 a Conferência Nacional de Saúde e na Constituição Federal de 1988. Dessa forma, pela primeira vez, o tema da saúde é explicitado em seus princípios e diretrizes legais – que vão constituir o SUS –, nos seguintes termos: Art. 198 – As ações e serviços integram a rede regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único, organizado de acordo com as seguintes diretrizes: O DEVER DO E STADO E O DIREITO À SAÚDE , COMO PRESSUPOSTO DA CIDADANIA, EMERGEM A PARTIR DA DÉCADA DE 1970, NO BOJO DO REGIME MILITAR AUTORITÁRIO , SÃO CONSAGRADOS NA 8A CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE E NA C ONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 ano de 1990, com o objetivo de dispor, entre outras providências, sobre a participação da comunidade na gestão do SUS, foi sancionada a Lei 8.142, em 28 de dezembro, que criou as instâncias colegiadas, a Conferência de Saúde e os Conselhos de Saúde. Estes, em caráter permanente e deliberativo, compostos por representantes do governo, prestadores de serviços, profissionais de saúde e usuários, têm como objeti- SUS, em todo o território nacional, vo formular estratégias e controlar I – descentralização, com direção única em cada esfera de governo; ratificou-se a importância da infor- a execução de políticas de saúde na mação da população como suporte instância correspondente (A SSOCIAÇÃO II – atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; fundamental para um eficaz contro- PAULISTA DE MEDICINA, 2003) III – participação da comunidade. (B RASIL, 1988). Como se depreende do inciso III, a Constituição reforçou a preocupação em garantir à população um papel de 1 Na área da Saúde, no mesmo le social do sistema. Sobre esse aspecto, a referida Lei é taxativa: CAPÍTULO II – DOS PRINCÍPIOS E DIRETRIZES Art.7º. [...] VI – divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde No Relatório da 11ª Conferência Nacional de Saúde,1 em um tópico intitulado “Desafios”, que discute as possibilidades de acelerar e efetivar o SUS no cotidiano da população, a participação coloca-se como um ponto recorrente e, por- Disponível em:<http://www.datasus.gov.br/cns/11Conferencia/relatorio/DESAFIOS.htm>. Acesso em: 11 set. 2003. 408 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 O SUS que temos e a informação como estratégia de (in)visibilidade tanto, fundamental na efetivação de relatório enfatiza a questão nos se- medida que nos deparamos constan- um sistema público de saúde de- guintes termos: temente com essa realidade. A com- mocrático, devendo o SUS [...] definir uma política que garanta instrumentos permanentes de divulgação e comunicação dos Conselhos de Saúde com a sociedade, como acesso e legalização das rádios comunitárias, jornais e outros meios no sentido de prestar informações à população sobre seu funcionamento. Referindo-se de forma mais específica à discussão da importância da informação, o mesmo relatório apon- [...] a quantidade de informação acumulada a respeito do SUS (financiamento, orçamento para a saúde, acesso, recursos humanos envolvidos, programas desenvolvidos, experiências exitosas, etc.) não é democratizada e disseminada de forma transparente e nem mesmo com uma linguagem acessível para os diferentes atores sociais. Destaca-se a importância de publicização [sic] de todas essas informações, pois elas são fundamentais para a atuação É evidente que um sistema de saúde com a magnitude e as pro- construção e de gestão. A problemática da complexidade do sistema coincide com a questão das condições de disseminação e acessibilidade da informação e, também, configura-se como tema nar a informação cada vez mais ‘inacessível’ para a população e mesmo para os trabalhadores da saúde. Dessas dificuldades surgiram as inquietações já mencionadas, que direcionam nosso debate e focalizam de certa maneira já havíamos nos inserido na área da saúde, a informação sobre o SUS tem, em alguns momentos, se constituído como um DIFICULTA A COMPREENSÃO entrave, refletindo a complexidade DO SISTEMA dos fenômenos que ocorrem em sua construção, como isso se coloca para a população de modo geral? Um dos grandes desafios que se cracia e os direitos de cidadania, por desafio para todo o processo de sua extrema especificidade, parece tor- ma Único de Saúde. Se, para nós, que A COMPLEXIDADE DA LINGUAGEM, INCLUINDO O EXCESSO DE SIGLAS, se por um lado garantem a demo- bem como representam um grande cia de uma ‘linguagem susista’, em pulação acerca da Saúde e do Siste- sem sombra de dúvida, fatores que, ser compreendido em sua totalidade, compreensão do sistema. A existên- a questão da (des)informação da po- postas colocadas pelo SUS geram, outro, tornam o sistema difícil de do o excesso de siglas, dificulta a nosso objetivo neste artigo: discutir ta, como desafio para essa temática, [...] tornar o SUS conhecido da população, dos profissionais de saúde e dos poderes constituídos, em termos de seus princípios, diretrizes, programas, metas, dificuldades e recursos, entre outras coisas. plexidade da linguagem, incluin- coloca na agenda de pesquisas da dos sujeitos sociais, objetivando a efetiva construção do SUS. área de saúde e do SUS passa pela formulação de estratégias de comunicação, que atendam ao objetivo E ainda: de explicitar, de maneira clara e [...] como problema central, a falta ou o pouco conhecimento/informação a respeito do SUS, em seus aspectos legais e operacionais. Este cenário atinge não só os conselheiros, mas também a população usuária do SUS e os seus recursos humanos. acessível, o que seja efetivamente o SUS aos diferentes segmentos da sociedade, incluindo os profissionais de saúde, uma vez que muitos destes estão inseridos no sistema sem que tenham os conheci- norteador dos desafios apontados no A nossa própria experiência con- mentos e a compreensão que se fa- Relatório da 11ª Conferência Nacio- firma a pertinência dos entraves de- zem fundamental para tornar o SUS nal de Saúde. Dessa perspectiva, o batidos na referida Conferência à realmente um direito de cidadania, Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 409 TAVARES Fábio Lúcio et al em que os diferentes sujeitos se sin- a exposição de alguns olhares pode tam parte do sistema e comprome- ilustrar nossa análise: tidos com sua construção. Nesse sentido, consideramos fundamental buscar entender e intervir sobre esses vários olhares e sentidos, explicitados a partir das representações que a população define como sendo saúde e sobre seu conhecimento sobre o SUS. Partindo desse pressuposto, apresentaremos algumas dessas concepções sobre as duas questões mencionadas. É um sistema de saúde. Acho que é uma ajuda para as pessoas carentes que não têm condições de procurar um médico particular. Acho que este programa ajuda as pessoas carentes, que mais precisam. Sim, é uma coisa que o Governo implantou para a saúde da população, para que as pessoas possam ter um benefício para quem recorrer... As pessoas que não têm condições financeiras de pagar um plano de saúde para ter um hospital particular. COMO O SUS É VISTO E IMAGINADO: ALGUMAS PERCEPÇÕES O que verificamos nas ruas acaba por refletir uma concepção multi- Verificamos que nas falas acima, em nenhum momento, aparece o termo ‘direito’ ou qualquer vocábulo que nos remeta a essa idéia. O sentimento de acesso excludente nos leva a supor o fato de que o direito à saúde está freqüentemente sendo substituído pela noção de caridade, ou seja, na visão desses sujeitos, o SUS não se constituiu ainda em um efetivo e integral direito de todos. A maior visibilidade e a positividade sobre o SUS permitem vislumbrar que os respondentes com um maior nível de informação acerca do sistema apontam também os seus O DIREITO À SAÚDE ESTÁ FREQÜENTEMENTE SENDO SUBSTITUÍDO limites e os avanços em termos da universalização dos direitos do cidadão, desvinculando-o da obriga- facetada e fragmentada acerca da PELA NOÇÃO DE CARIDADE , OU SEJA, saúde que, de algum modo, traz sé- NA VISÃO DESSES SUJEITOS, O SUS goria profissional para ter acesso NÃO SE CONSTITUIU AINDA EM UM nimo de qualidade e solidariedade. rias repercussões sobre o que se entende por ação do Estado neste tema. Analisamos esse fato como produto EFETIVO E INTEGRAL DIREITO DE TODOS de todo um processo de construção do imaginário social que vem ocorrendo desde os primórdios da década de 1940, quando, a partir de uma visão previdenciária, cria-se o hábito de relacionar a saúde como benefício adquirido para alguns mediante a inserção no mercado formal de trabalho, ou mais comumente como caridade, direcionada à população ‘excluída’, exercida pelas ações públicas comandadas pelo Governo Federal, distanciando-se amplamente da concepção de saúde como direito universal aclamada pela Constituição Federal de 1988. Nesse sentido, É a previdência mesmo, né? Idéia de plano de saúde... Uma coisa que quando você estiver mal tem alguém para te atender. Mas nada além disso. Sim, é um órgão de complemento de saúde do Governo e que atende o povo carente. É um órgão criado pelo governo que, traduzindo a sigla, significa Sistema Único de Saúde, onde as pessoas, principalmente as carentes que não têm condições de pagar um plano de saúde, deveriam ter acesso a um serviço de saúde. 410 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 toriedade de inclusão a uma cateaos serviços de saúde com um mí- Sim, claro. Hoje ele atende a todo mundo. Não precisa você ter carteira profissional para ser atendido pelo SUS. Hoje você consegue ser atendido pelo SUS independentemente de ser funcionário público ou privado, etc. Então o SUS hoje é quem cuida da saúde pública do País. É um negócio monstruoso. O SUS é monstruoso. E é por isso que tem essa deficiência enorme. Não é privilégio do SUS ter a deficiência que tem em termos de serviço público, mas por ele ser gigantesco, acho que os problemas se afloram mais lá, exatamente por causa das necessidades da população. É a população mais carente que procura o SUS. A informação que eu tenho do SUS é que todas os hospitais deveriam ser conveniados... Ele deveria atender a O SUS que temos e a informação como estratégia de (in)visibilidade todas as pessoas da mesma forma. Mas eu acho que não deve ser assim, não... No entanto, também podemos observar que, mesmo nas falas que conseguem evidenciar uma visão mais ampliada acerca do sistema, ainda permanece a tendência para atrelar a saúde pública a serviços destinados à população carente, fazendo uma Já. Bom, a gente vai lá no médico e aí pega uma ficha e depois marca outro dia pra gente ir. deviam pagar por seus próprios Sim, fiz uma cirurgia no joelho há uns dois anos atrás. Foi pelo SUS que eu fiz... da assistência médica também pa- Usei no Hospital das Clínicas e na Santa Casa. Tive o meu primeiro filho pelo SUS. tabelecimento destinado apenas à seguros de saúde. A restrição da saúde ao campo rece contribuir para que o SUS seja identificado como um lugar ou esrecuperação e reabilitação da saúde e, às vezes, até como sujeito, nítida distinção entre o sistema pri- Verificamos ainda que, dentre não como um sistema que organi- vado e público, em que o segundo os entrevistados, há duas catego- za a assistência à saúde da popu- funcionaria como complemento ao rias que se destacaram: a primei- lação brasileira: primeiro e não ao contrário, como está ra engloba as pessoas que, em um estabelecido na legislação. Revela-se, desse modo, o distanciamento da população com maior poder aquisitivo e a falta de estratégias de reivindicações (classe média em particular) em relação à rede pública, já que pode PARECE NÃO HAVER UMA PERCEPÇÃO CLARA DA POPULAÇÃO QUANTO ÀS CONQUISTAS optar por outras formas de acesso aos ENSEJADAS PELO NOVO MODELO, QUE TEM serviços (privados/medicina suple- DIFERENCIAIS BÁSICOS, TANTO NO QUE SE mentar), que acreditam ter mais credibilidade, como exemplifica o depoimento abaixo: Eu já precisei na minha juventude. Depois a gente teve condições de ter plano de saúde, então a gente não utilizou mais o SUS... REFERE À CONCEPÇÃO DE SAÚDE COMO AO MODO DE FUNCIONAMENTO DO SISTEMA Não sei bem o que é SUS, não. Minha irmã levou a menina dela lá... Se a gente for marcar uma consulta no SUS, ele não atende na hora... Já fui muito nele, mas não sei explicar o que é o SUS. O SUS é o organismo que cuida da saúde do país. É um órgão criado pelo governo... Um outro fato que nos chama a atenção é a não-distinção feita por algumas pessoas entre o SUS, como modelo recente e atual de saúde pública, e os modelos centralizados e momento inicial, demonstravam excludentes vigentes em épocas pas- É interessante observar que, en- não saber o que era o SUS, o que, sadas. Ou seja, parece não haver tre as pessoas entrevistadas, verifi- de certa maneira, acabam por jus- uma percepção clara da população ca-se a manutenção da tendência de tificar o desconhecimento acerca quanto às conquistas ensejadas pelo relacionar a saúde com assistência de seu uso; a outra categoria é novo modelo, que tem diferenciais médica ambulatorial e hospitalar, identificada por pessoas que, ape- básicos, tanto no que se refere à con- uma vez que as pessoas que afir- sar de saberem minimamente do cepção de saúde como ao modo de maram ter utilizado o SUS sempre que se tratava, ainda relacionavam funcionamento do sistema. se referem ao uso de serviços desse o SUS a um modelo de atendimen- Nesse sentido, algumas falas re- tipo, ignorando o acesso ao uso in- to direcionado prioritariamente à metem a um dos limites do sistema: direto, no que se refere a ações população carente e, por entender os modos como tem se dado, cotidia- como vigilância sanitária e epide- que não faziam parte dessa parce- namente, o acesso da população a miológica, por exemplo. la da população, acreditavam que maioria dos serviços ofertados pelo Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 411 TAVARES Fábio Lúcio et al SUS – filas, atendimentos permeados se dando, ao longo dos anos, o pro- dificultam o pleno funcionamento do pela falta de solidariedade com as cesso de construção do sistema pú- SUS esteja diretamente relacionada queixas e necessidades dos usuários, blico de saúde no Brasil. Este fato é com a capacidade de divulgação e sem produção de vínculos e nem aco- observável tanto no que ele tem de democratização das informações com lhimento humanizado: avanço, como em relação aos limi- linguagem acessível à população tes de fazê-lo andar num país com a como um todo. Isso permite que a diversidade e os jogos de interesses sociedade, de modo geral, possa, tão divergentes quanto é o Brasil. mediante melhores informações so- O atendimento não é bom [...], pois o funcionário faz muito corpo mole em dizer que o serviço é público. Ele atende você mal porque ele acha que o serviço é público e não precisa atender bem. Hoje em dia tem muita fila. Você tem que passar por muita coisa para você conseguir uma ficha para depois ser atendido. A gente vai de manhã para o posto de saúde, tem que pegar aquelas filas grandes, tem a espera. Às vezes a gente não é bem atendido. Às vezes os médicos faltam. Não vão ao trabalho. Essa imagem-objeto do SUS tem sido muitas vezes reforçada pela mídia que, sistematicamente, prioriza as dificuldades de operacionalizar um sistema com a magnitude do SUS, ao invés de mostrar também as experiências exitosas do modelo em diferentes regiões. A informação que eu tenho do SUS é aquela velha história. Que hospital X é credenciado ao SUS, mas a verba não é repassada. É a informação que o povo tem no geral. É o que a gente vê na televisão. Mesmo de forma pouco expres- bre esse sistema, usá-lo em sua ple- siva, tomada como está posta na nitude, fazendo valer sua cidadania, Constituição Federal, a diretriz or- e também participar e colaborar emi- ganizacional da participação da co- tindo sugestões e propostas direcio- munidade acaba por levantar deba- nadas à melhoria do sistema. tes em torno da questão da informação como algo inovador e rele- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS vante para a construção da cidadania, à medida que funciona como ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE MEDICINA. O que pré-requisito fundamental para a você precisa saber sobre o Sistema participação das pessoas, que são Único de Saúde. São Paulo: Athe- convidadas a atuar nos processos neu, 2003. decisórios referentes a uma das problemáticas que mais afeta o ser humano em toda sua totalidade, que é a saúde, a vida e a sua cidadania. Todavia, se pensarmos que estamos há apenas 15 anos de sua implantação, o SUS representa um imenso mar de possibilidades. Isto significa que poderemos conquistar os terrenos da cidadania e inclusão social ou nos perder nesta imensidão. Dessa forma, podemos fazer BRASIL . Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. . Desafios. In: CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 11, 2000, Brasília, DF. Anais Eletrônicos... Disponível em: <http:// www.datasus.gov.br/cns/11Conferencia/relatorio/DESAFIOS.htm>. Acesso em: 11 set. 2003. uma reflexão do quanto avançamos . Propostas e diretrizes do ponto de vista dos direitos dos do Ministério da Saúde para os ei- cidadãos, quando a comunidade pas- xos temáticos 2003. In: CONFERÊN- O que se percebe é que as pes- sa a ter papel importante no modo CIA NACIONAL DE SAÚDE, 12, soas encontram grande dificuldade, de organização do sistema de saúde. 2003, Brasília, DF. Anais eletrôni- inclusive os próprios profissionais de Pensamos que a contribuição ne- cos... Disponível em: <http:// saúde envolvidos de alguma forma cessária e indispensável que se dará conselho.saude.gov.br/>. Acesso com o SUS, para entender como vem na contramão desses impasses que em: 12 set. 2003. CONSIDERAÇÕES FINAIS 412 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 405-413, set./dez. 2003 O SUS que temos e a informação como estratégia de (in)visibilidade C AMPOS, Gastão Wagner de Sousa. 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É algo que esta tem que ganhar por si mesma. Para consegui-la se necessita coragem e fé, ao mesmo tempo que um sentido de unidade nacional: coragem para enfrentar os fatos e as dificuldades e vencê-los; fé em nosso futuro e nos ideais de um jogo limpo e de liberdade, pelos quais nossos antepassados estiveram dispostos a morrer um século atrás do outro; um sentido de unidade nacional que se sobreponha a qualquer classe ou setor da população. BEVERIDGE, Informe de 1942 BREVE HISTÓRICO DA PROTEÇÃO SOCIAL organizados e consolidados entre as as relações de poder na institucio- décadas de 1930 e 1940, como parte nalidade do aparato administrati- As políticas sociais brasileiras do processo mais geral de constru- vo, seja ele voltado para a imple- desenvolveram-se, a partir do início ção do Estado moderno, intervencio- mentação do projeto econômico, do século passado, por um período nista e centralizador, após a revolu- seja ainda responsável pela repro- de cerca de 80 anos, configurando ção de 1930. Datam desta época a dução da força de trabalho e incor- um tipo de padrão de proteção so- criação dos Institutos de Aposenta- porador das demanda políticas dos cial só alterado com a Constituição doria e Pensões (IAP) em substitui- grupos subalternos. A opção por Federal de 1988. O sistema de prote- ção às Caixas de Aposentadorias e um dado formato de política social, ção social brasileiro, até o final da Pensões (CAP), a Legião Brasileira de que se cristaliza na combinação de década de 1980, combinou um mode- Assistência (LBA), o Ministério da modelos distintos para diferentes lo de seguro social na área previden- Educação e Saúde, o Serviço Especi- segmentos dos trabalhadores, indi- ciária, incluindo a atenção à saúde, al de Saúde Pública (S ESP). ca o lugar que cada um deles ocu- com um modelo assistencial para a A construção do Estado nacio- pa em uma dada correlação de for- população sem vínculos trabalhistas nal é um processo sempre inacaba- ças, além das tendências internaci- formais. Ambos os sistemas foram do, no qual vão sendo desenhadas onalmente preponderantes. 414 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 Seguridade Social: a agenda pendente As diferenças entre o modelo de Como os direitos sociais estão con- cação universitária e secundária e seguro social aplicado à Previdên- dicionados à inserção dos indiví- a atenção hospitalar). cia Social e o modelo assistencial duos na estrutura produtiva, Wan- Em meados da década de 1970, são conhecidos (FLEURY, 1994). derley G. dos Santos (1979) denomi- a luta pela democratização das po- nou a relação como de cidadania re- líticas adquire novas característi- gulada pela condição de trabalho. cas e estratégias. Antes confinada • No modelo assistencial, as ações, de caráter emergencial, estão às universidades, aos partidos dirigidas aos grupos de pobres mais No período da democracia popu- vulneráveis; inspiram-se em uma lista (1946-1963), a expansão do sis- perspectiva caritativa e reeducado- tema de seguro social fez parte do ra; organizam-se com base na asso- jogo político de intercâmbio de be- ciação entre trabalho voluntário e nefícios por legitimação dos gover- políticas públicas; estruturam-se de nantes, beneficiando de forma dife- forma pulverizada e descontínua, rencial os grupos de trabalhadores gerando organizações e programas com maior poder de barganha. Este muitas vezes superpostas. Embora fenômeno ficou conhecido como permitam o acesso a certos bens e ‘massificação de privilégios’ e im- serviços, não configuram uma rela- sociais, buscando aproveitar a cri- plicou o aprofundamento da crise ção de direito social, tratando-se de se financeira e do modelo das polí- financeira e de administração do sis- medidas compensatórias que termi- ticas sociais para introduzir elemen- tema previdenciário. tos de transformação; em terceiro clandestinos e aos movimentos sociais, passa cada vez mais a ser localizada no interior do próprio estado. Primeiramente, a partir das experiências inovadoras desenvolvidas pelas prefeituras oposicionistas eleitas em 1974; em segundo lugar, no interior dos órgãos centrais, responsáveis pelas políticas nam por ser estigmatizantes. Por A inflexão que vão sofrer os sis- isso, denomino a esta relação como lugar, há um fortalecimento das temas e mecanismos de proteção de ‘cidadania invertida’, na qual o capacidades técnicas dos partidos social a partir da instauração do indivíduo tem de provar que fracas- políticos e do parlamento, que pas- regime burocrático-autoritário em sou no mercado para ser objeto da sam a tomar a problemática social 1964 obedeceu a quatro linhas mes- proteção social (FLEURY, 1997). como parte de suas plataformas e tras: a centralização e concentração projetos de construção de uma so- • No modelo de seguro social, a do poder em mãos da tecnocracia, ciedade democrática. proteção social dos grupos ocupa- com a retirada dos trabalhadores do O resgate da dívida social passa cionais estabelece uma relação de di- jogo político e da administração das a ser um tema central da agenda da reito contratual, na qual os benefíci- políticas sociais; o aumento de co- democracia, convergindo para ele os são condicionados às contribui- bertura, incorporando, de modo pre- movimentos de natureza diversa. ções pretéritas e à afiliação dos indi- cário, grupos antes excluídos, as Este processo intensifica-se na déca- víduos a tais categorias ocupacionais empregadas domésticas, os traba- da de 1980, por meio do surgimento que são autorizadas a operar um lhadores rurais e os autônomos; a de um rico tecido social emergente a seguro. A organização altamente criação de fundos e contribuições partir da aglutinação do novo sindi- fragmentada dos seguros expressa a sociais como mecanismo de autofi- calismo e dos movimentos reivindi- concepção dos benefícios como pri- nanciamento dos programas sociais catórios urbanos, da construção de vilégios diferenciados de cada cate- (FGTS, PIS-PASEP, F INSOCIAL , FAS, Sa- uma frente partidária de oposição, e goria, como resultado de sua capa- lário-Educação); a privatização dos da organização de movimentos seto- cidade de pressão sobre o governo. serviços sociais (em especial a edu- riais capazes de formular projetos de Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 415 FLEURY, Sonia reorganização institucional, como o mos mais solidários e redistributi- Este novo modelo foi expresso Movimento Sanitário. vos. Os benefícios passam a ser con- nos princípios organizadores da Se- Toda esta efervescência democrá- cedidos a partir das necessidades, guridade Social: universalidade da tica foi canalizada para os trabalhos com fundamentos nos princípios da cobertura e do atendimento; uni- da Assembléia Nacional Constituinte, justiça social, o que obriga a esten- formidade e equivalência dos bene- iniciados em 1987. Em boa medida, der universalmente a cobertura e in- fícios e serviços às populações ur- a construção de uma ordem institu- tegrar as estruturas governamentais. banas e rurais; seletividade e distri- cional democrática supunha um re- A Constituição de 1988 avançou butividade na prestação dos benefí- ordenamento das políticas sociais que em relação às formulações legais cios e serviços; irredutibilidade do respondesse às demandas da socie- anteriores, ao garantir um conjunto valor dos benefícios e serviços; eqüi- dade por maior inclusão social e eqüi- de direitos sociais, expressos no dade na forma de participação do dade. Projetada para o sistema de capítulo da Ordem Social, inovando custeio; diversidade da base de fi- políticas sociais como um todo, tal ao consagrar o modelo de Seguri- nanciamento e; gestão quadriparti- demanda por inclusão e redução das dade Social como “um conjunto in- te, democrática e descentralizada, desigualdades adquiriu as concretas tegrado de ações de iniciativa dos com participação dos trabalhadores, conotações de afirmação dos direitos Poderes Públicos e da sociedade, dos empregadores, dos aposentados sociais como parte da cidadania. destinadas a assegurar os direitos e do governo em órgãos colegiados. relativos à saúde, à previdência e à Além disso, introduziu a noção de assistência social7” (Título VIII, Ca- uma renda de sobrevivência, de ca- pítulo II, Seção I, art. 194). A inclu- ráter não contributivo, ao assegu- são da previdência, da saúde e da rar um benefício financeiro de pres- A Constituição Federal de 1988 assistência como partes da seguri- tação continuada para idosos e de- representa uma profunda transfor- dade social, introduz a noção de di- ficientes incapazes de trabalhar. mação no padrão de proteção so- reitos sociais universais como par- O modelo de seguridade social cial brasileiro, consolidando, na lei te da condição de cidadania, sendo foi originalmente proposto por Be- maior, as pressões que já se faziam que antes eram restritos à popula- veridge, que o definiu, em seu infor- sentir há mais de uma década. Inau- ção beneficiária da previdência. me de 1942, como “a manutenção SEGURIDADE SOCIAL: O PADRÃO CONSTITUCIONAL DE 1988 gura-se um novo período, no qual o O novo padrão constitucional da dos ingressos necessários à sobrevi- modelo da seguridade social passa política social caracteriza-se pela uni- vência” (1987, p. 73). Tratava-se de a estruturar a organização e o for- versalidade na cobertura, o reconhe- um plano de seguros sociais fun- mato da proteção social brasileira, cimento dos direitos sociais, a afir- damentado em seis princípios funda- em busca da universalização da ci- mação do dever do Estado, a subor- mentais: “uniformidade da taxa do dadania. No modelo de seguridade dinação das práticas privadas à re- benefício de subsistência; uniformi- social busca-se romper com as no- gulação em função da relevância pú- dade da taxa de contribuição; unifi- ções de cobertura restrita a setores blica das ações e serviços nestas áre- cação da responsabilidade adminis- inseridos no mercado formal e as, uma perspectiva publicista de co- trativa; suficiência do benefício; am- afrouxar os vínculos entre contribui- gestão governo/sociedade, um arran- plitude e classificação”(1987, p. 73).1 ções e benefícios, gerando mecanis- jo organizacional descentralizado. Sua proposta previa um benefício 1 As pessoas em idade de trabalhar foram classificadas em empregados, pessoas com ocupação lucrativa, donas-de-casa, desempregados. 416 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 Seguridade Social: a agenda pendente único universal para aposentadori- requer uma base de cálculo atuarial tir do nível central em direção ao as, pensões e desemprego, corres- para garantir sua sustentabilidade nível local e a partir do Estado em pondente a um mínimo vital, a ser não a separa do modelo solidário e direção à sociedade. A ênfase na assegurado pelo sistema público, distributivo da Seguridade Social, participação da sociedade é um as- seja porque o beneficiário cumpriu pois o espírito da Constituição de pecto muito salientado no texto as condições de tempo de contribui- 1988 é assumir que a contribuição constitucional, refletindo uma res- ção, seja em casos de necessidade, requerida não é, necessariamente, posta às reivindicações dos movi- quando o beneficiário receberia um feita sobre o salário do trabalhador. mentos sociais em toda a década de benefício assistencial depois de com- Neste sentido, os princípios orien- 1980, bem como às formulações dos provada a ausência de recursos. tadores da seguridade social não se grupos reformistas na área de saú- Além disto previa a “provisão de aplicam de igual modo a todos os de, ao longo dos anos de ditadura. cuidados médicos, que abarquem a setores, sendo a universalidade da A originalidade da Seguridade totalidade das necessidades, a todos cobertura e do atendimento o eixo do Social brasileira está dada em seu os cidadãos, mediante um serviço novo sistema de saúde, a uniformi- forte componente de reforma do Es- nacional de saúde” (1987, p. 78). dade e equivalência dos benefícios e tado, ao redesenhar as relações en- Previa a fundação de um Ministério sua irredutibilidade a base da refor- tre os entes federativos e ao instituir da Seguridade Social, responsável ma da previdência social e a seleti- formas concretas de participação e pelos seguros sociais e assistência, vidade e distributividade o princípio controle sociais, com mecanismos de ainda que o serviço nacional de saú- orientador da política de assistência articulação e pactação entre os três de fosse organizado pelos departa- social. No entanto, apesar de haver níveis de governo. A organização dos mentos correspondentes. maior adaptabilidade de princípios sistemas de proteção social deveria Beveridge reafirma o princípio às áreas, a sua integração sob o adotar o formato de uma rede des- contributivo de propiciar benefícios mesmo conceito de seguridade soci- centralizada, integrada, com coman- como direito em troca de contribui- al supunha uma contaminação posi- do político único e um fundo de fi- ções, já que as políticas assisten- tiva entre os três componentes. nanciamento em cada esfera gover- ciais seriam residuais, pois a ten- O padrão constitucional da pro- namental, regionalizada e hierarqui- dência ao pleno emprego é condição teção social inovou, mesmo em re- zada, com instâncias deliberativas indispensável para o sucesso de lação ao modelo original da seguri- que garantissem a participação pa- qualquer política social. dade social, na organização dos se- ritária da sociedade organizada, em Já nossa proposta de seguridade tores componentes da seguridade cada esfera governamental. articulou três sistemas preexistentes, social, subordinando-os a dois prin- O modelo constitucional ficou regidos por lógicas diversas: a saú- cípios básicos: a participação da caracterizado pelo desenho dos sis- de pela necessidade, a previdência sociedade e a descentralização polí- temas de políticas sociais de saúde pela condição de trabalho e a assis- tico-administrativa. Ou seja, o novo e de assistência de forma descen- tência pela incapacidade. O entendi- formato das políticas sociais deve- tralizada e participativa. No caso da mento de que a Previdência é um sis- ria aprofundar o duplo movimento Previdência, este modelo não se apli- tema contributivo (art. 201) e que de democratização, qual seja, a par- cava completamente, dado a resis- 2 “O que disse com caráter geral e não em detalhe foi não que meu plano seja impraticável se existe desocupação em larga escala, senão que nenhum plano de seguro social é satisfatório se existe desocupação em massa” (1987, p. 168). 2 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 417 FLEURY, Sonia tência à descentralização, embora Além disso, a adoção de um faturamento das empresas (COFINS). tenha sido criado também um con- modelo solidário e redistributivo Tal sistemática de financiamento não selho no qual os beneficiários e con- implicou no imediato aumento das foi criada por acaso, pois buscava tribuintes têm assento, em resposta despesas, como por exemplo, ao mecanismos de solidariedade e de à grande mobilização dos aposen- duplicar o valor dos benefícios ru- estabilização do sistema, na tenta- tados e dos sindicatos. rais com sua equivalência ao salá- tiva de romper com a arraigada no- Em termos organizacionais, o Mi- rio mínimo urbano. A mesma linha ção do seguro social, de que existe nistério da Saúde absorveu, por fim, de raciocínio pode ser aplicada à uma relação inexorável entre con- a rede de serviços de atenção à saúde população urbana, já que se fez ne- tribuição e benefício. da Previdência (INAMPS) e passou a ser cessária a adoção de um perfil de 3 o único responsável por todos os serviços de saúde, com exceção do benefício de auxílio-doença. O Ministério da Previdência e Assistência Social ficou responsável pelas duas 4 áreas, mas foram transferidos para a área de Assistência Social todos os benefícios assistenciais da Previdência (renda mensal vitalícia,5 auxílionatalidade e auxílio-funeral) além do novo benefício de prestação continuada, e o papel de atribuir o caráter de filantropia às instituições, o que lhes garante isenção das contribuições previdenciárias. Os Constituintes preocuparam-se financiamento mais estável em um quadro marcado pela precariedade das relações de trabalho. Para tanto, foram diversificadas as fontes de financiamento, e a Constituição estabeleceu que A concretização deste modelo de Seguridade Social se realizaria com a criação do Orçamento da Seguridade Social, modalidade de integração, nunca implementada, de todos os recursos oriundos das distintas fontes, a serem distribuídos entre os a seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, e das contribuições sociais: três componentes: saúde, previdên- I – dos empregadores, incidente sobre a folha de salários, o faturamento e o lucro; fontes de financiamento em relação II – dos trabalhadores; cia e assistência. No entanto, a CF/ 88 não estabeleceu o modo de operação deste mecanismo, o que permitiu que, quase imediatamente, houvesse uma especialização das ao destino, ao arrepio da lei. Como a Previdência era a arrecadadora das contribuições, reservou para si a III – sobre a receita de concursos de prognósticos. (art. 195) folha de salários, e foram atribuí- de contribuição sobre a folha de sa- Desta forma, buscou-se integrar buições sobre o lucro (FINSOCIAL e, lários havia se demonstrado pró-cí- contribuições sobre salários realiza- depois, CSLL) – questionadas juri- clica, inviabilizando as finanças pre- das por empregados, empregadores dicamente como bi-tributação pelos videnciárias nos momentos de crise e autônomos; contribuições sobre o empresários até 1993 –, e à assis- econômica, quando a população lucro líquido das empresas financei- tência foram destinados os recursos apresenta mais demandas. ras (CSLL) e contribuições sobre o sobre o faturamento (COFINS). em reduzir a vulnerabilidade do sistema de seguridade social, cuja base 3 dos à Saúde os recursos das contri- Lei 8.689, de 1993. 4 O MPAS, com um interregno entre 1990/92, durou até 2003, quando a Assistência Social ganhou o estatuto de Ministério da Assistência e Promoção Social. A RMV foi instituída pela Lei 6.179/74 e extinta em 1991, pela Lei 8.213, que estipulou dezembro de 1995 como limite para a solicitação dos benefícios. 5 418 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 Seguridade Social: a agenda pendente A arena política onde se trava- país vivia o auge de uma forte crise oriundas dos negócios privados e a ram as lutas e negociações entre os fiscal, inflacionária e política, que retirada do Estado da provisão de diferentes atores políticos foi o Con- desaguou no impeachment do en- serviços, foi fortemente indicada gresso Nacional, na forma de Assem- tão presidente Fernando Collor, ob- pelas agências internacionais como bléia Nacional Constituinte. Neste servou-se a inflexão na forma de a solução capaz de devolver ao país sentido, partidos políticos e congres- encaminhamento das discussões em os níveis de crescimento social e sistas foram atores privilegiados, torno da Previdência brasileira. A econômico alcançados no passado. canalizando para seu espaço as nova agenda incorporou uma inten- É na esteira do discurso reformista, pressões dos diferentes grupos de sa discussão pública em torno da de cunho marcadamente neoliberal, interesse, incluindo a burocracia sustentabilidade financeira do sis- ditado pela orientação ortodoxa na previdenciária, os movimentos so- tema em virtude das significativas economia nos últimos anos, que se ciais, as centrais sindicais, as re- mudanças no mundo do trabalho, desenvolveram os debates acerca da presentações empresariais, as as- fatores de natureza demográfica, necessidade de reorganização do sociações profissionais como a ANFIP além do crescimento dos questiona- modelo de seguridade. e as que representavam os benefi- mentos em relação à generosidade A regulamentação dos novos ciários. O arcabouço legal da Se- do sistema, à manutenção de privi- dispositivos constitucionais rela- guridade Social seria completado légios para alguns setores e suas tivos à seguridade social foi bas- com a promulgação das leis orgâ- distorções gerenciais. tante conflitiva. As leis orgânicas nicas, em cada setor, que por fim Em toda a América Latina e, em desta área foram promulgadas definiriam as condições concretas particular, no Brasil vivia-se, neste após um processo intenso de con- pelas quais estes princípios consti- momento, uma grave crise econô- flitos e barganhas, e em um con- tucionais e diretivas organizacio- mica que exigia uma série de refor- texto político em que o Executivo nais iriam materializar-se. mas, algumas profundas. Como era abertamente hostil ao seu con- No entanto, a correlação de for- diagnóstico da crise, apresentava- teúdo reformista original. ças que favorecera a promulgação se o elevado endividamento públi- Todas as leis orgânicas 6 – da saú- deste modelo constitucional havia co, decorrente da incapacidade es- de, previdência e assistência – tive- mudado e a promulgação das leis trutural do Estado de gerar poupan- ram de ser negociadas nesta nova orgânicas só foi possível graças à ça interna necessária ao desenvol- conjuntura desfavorável, e sua mai- rearticulação das forças reformistas, vimento sustentável do país. Uma or ou menor correspondência com para pressionar e negociar com um política reformista, que incluiu a os preceitos constitucionais foi fru- governo de orientação claramente privatização do patrimônio do Es- to da capacidade política de resis- centralizador e liberal. A partir do tado, a reforma administrativa in- tência às tendências de privatização, início da década de 1990, quando o troduzindo práticas gerenciais recentralização, capitalização e fo- 6 Na área de saúde, foram finalmente promulgadas as Leis 8.080 e 8.142 de 1990, que regulam as ações, a organização e o funcionamento dos serviços e dispõem sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS), sobre a alocação dos recursos financeiros e sobre a estrutura dos conselhos e das conferências de saúde. Na área de previdência, as inovações constitucionais foram regulamentadas pela Lei 8.212/91, intitulada Lei Orgânica da Seguridade Social, mas que apenas estabelece o Plano de Custeio da Previdência Social e pela Lei 8.213/91, que estabelece o Plano de Benefícios da Previdência Social. A Lei Orgânica da Assistência Social (L OAS) demorou cinco anos para ser promulgada (Lei 8.742/93), instituindo o Conselho Nacional de Assistência Social, responsável pela política nacional e pela gestão do fundo nacional de assistência social (RACHELIS, 1998). Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 419 FLEURY, Sonia calização que ameaçaram a implan- trativo, desde que a legislação or- Algumas considerações sobre o tação da seguridade social. A mai- dinária separou as três áreas com- que significou a Seguridade Social or fragilidade se fez sentir na área ponentes, nem do ponto de vista fi- em termos de continuidades e rup- de assistência social, em função da nanceiro, já que houve uma pro- turas com nosso padrão de incorpo- baixa capacidade de reivindicação gressiva especialização das fontes, ração de demandas sociais podem dos usuários destes benefícios, ape- que se acentuará no período seguin- ser colocadas para o debate: sar do forte movimento dos profis- te (VIANNA, 2003). • a Seguridade Social represen- sionais da área, o que resultou na A nosso ver, a Seguridade So- aprovação da lei orgânica (LOAS ) cial, como princípio reitor da prote- apenas em 1993. Os critérios para ção social, consagrado na CF/88, obtenção do benefício de prestação não foi concluído organizacional, continuada (BPC/LOAS, no valor de financeiramente ou em relação ao um salário mínimo) foram definidos padrão de benefícios e à cobertura. de forma tão restritiva que o benefí- No entanto, segue como norteador cio tornou-se focalizado em exces- dos movimentos e lutas sociais, a cobertura da Previdência Social so, atendendo exclusivamente popu- atravessando a burocracia pública, fica limitada pelo tamanho do mer- lações de alto risco social.7 Para seus na defesa dos direitos sociais uni- cado formal de trabalho (em 2002, críticos, a introdução da Segurida- versais, tendo demonstrado sua ca- a previdência cobria apenas 45% dos de Social como preceito constitucio- pacidade de resistência às conjun- trabalhadores), a Assistência é limi- nal inviabiliza financeiramente a turas mais adversas. tada pelos restritivos critérios de e flexibilizadas as condições de aces- processo de ampliação da cobertura que vinha se processando durante todo o século XX, ainda que, não se tenha alcançado a universalização das políticas sociais. Enquanto inclusão e pela escassez de recur- Previdência Social, pois foram aumentados os valores dos benefícios tou uma continuidade em termos do SEGURIDADE SOCIAL: CONTINUIDADES E RUPTURAS sos disponíveis. Já a universalização legal da condição de beneficiário do sistema de Saúde foi uma so aos benefícios, não houve vinculação de benefícios com contribui- Passados 15 anos da promulga- ruptura com o modelo de saúde pre- ções e também separação entre as ção da Constituição Federal de 1988 videnciário, ficando apenas limita- contas da Previdência e Assistência (CF/88), já alterada por quarenta da pelas condições de acesso e uti- (VELLOSO, 1999). Emendas Constitucionais e ainda lização dos serviços, cuja rede con- Para alguns dos defensores do em debate de novas reformas cons- centrada, e muitas vezes sucateada, conceito de Seguridade Social, esta titucionais, parece ser o momento é incapaz de atender à demanda. A já não tem mais existência nem do adequado para fazer um balanço auto-exclusão dos setores de classe ponto de vista formal nem adminis- sobre nossa Seguridade Social. média dos serviços de menor custo 8 7 Em relação à renda – renda mensal familiar per capita abaixo de 1/4 de salário mínimo – ou idade – acima de 67 anos – ou incapacidade para vida independente e para o trabalho – incapaz de escovar os dentes –, além de não se aplicar a pessoa em cuja família exista algum beneficiário de outro programa da Previdência Social ou do seguro-desemprego. A primeira iniciativa reformista veio em 1991, com o envio do Emendão, no governo Collor. Suas propostas liberais foram paralisadas no Congresso, tendo apenas aprovado duas emendas, uma que limitava o salário dos deputados estaduais e vereadores e outra que antecipou em cinco meses o plebiscito sobre o sistema de governo. No governo Itamar Franco foram aprovadas duas emendas. Fernando Henrique Cardoso retomou as idéias liberais de Collor e, em apenas oito meses, alterou profundamente a ordem econômica. Em seu governo foram aprovadas 35 emendas à Constituição. 8 420 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 Seguridade Social: a agenda pendente não se repete, no entanto, com rela- realizado, considerado socialmente xistente, para além da abordagem ção aos serviços de alta complexi- necessário, e não apenas retribuição disciplinar ou dos enfoques especí- dade e aos custosos tratamentos das em base à contribuição financeira ficos que caracterizam as áreas de enfermidades crônicas; individualmente efetuada. Esta mu- saúde, previdência e assistência, dança é crucial para garantir a con- gerando um novo objeto da produ- tinuidade das aposentadorias que ção de conhecimentos e formação são subsidiadas, como a dos traba- profissional. O campo das políticas lhadores rurais, bem como abre a sociais, ainda que cada vez mais possibilidade de introdução de no- politicamente identificado como vos benefícios relacionados ao tra- ações de combate à pobreza, ganha balho não remunerado; estatuto acadêmico de campo mul- • a Saúde, Previdência e Assistência já se encontravam sob o mesmo marco institucional desde a década de 1970 (com a criação do MPAS), mas sua integração sob a Seguridade Social significou uma ruptura com a condição anterior de tidisciplinar de produção/difusão de subordinação das outras áreas ao • a não-operacionalização do modelo de seguro previdenciário, Orçamento da Seguridade Social sig- que permitia, por exemplo, o per- nificou uma continuidade no insu- manente questionamento acerca da lamento das finanças das áreas com- compatibilidade do benefício de saú- ponentes da Seguridade Social. • a constituição da Seguridade de no interior da previdência, já que Como conseqüência, cada área bus- Social como um campo de práticas não havia vinculação entre benefí- cou definir uma fonte cativa de fi- políticas evidencia-se na emergên- cio e contribuição. A área de Assis- nanciamento, terminando por cons- cia de novos atores políticos, como tência ganhou estatuto de direito titucionalizar estas vinculações, o os Conselhos de Secretários Muni- social e institucionalidade constitu- que impede a integração efetiva das cipais de Saúde (CONASEMS) e de Se- cionalmente garantida pela primei- ações da Seguridade. A tendência ao cretários Estaduais de Saúde (CO - ra vez em nossa história; insulamento ultrapassou o âmbito NASS ) do financiamento, manifestando-se Auditores Fiscais da Previdência na inexistência de qualquer outro (ANFIP ), que rompem com dualida- mecanismo integrador das políticas de tecnocracia/clientelismo como nas três áreas, com grande prejuízo únicas formas de atuação tecno-po- de possíveis sinergias e ganhos em lítica nas áreas sociais. Novas prá- eficiência e eficácia. O temor à cria- ticas políticas, inauguradas com os ção de um super ministério da Se- processos de participação e contro- guridade Social fez com que hou- le social, como os Conselhos e as vesse uma rejeição, desde a ANC, à Conferências nas áreas de saúde e busca de formas mais orgânicas de assistência, desenham novas mo- atuação envolvendo a previdência, dalidades de relação Estado/socie- saúde e assistência; dade, com forte impacto no proces- • houve ruptura ao assegurar o mesmo estatuto de política social às três áreas, introduzindo-se a noção de direitos sociais a serem garantidos como dever do Estado, o que distanciou as ações assistenciais das meras medidas correcionais e da filantropia. Na área de saúde, a ação estatal passa a ser responsável também pelas medidas curativas, não se limitando mais, legalmente, às tradicionais campanhas de saúde pú- saber e prática política, cujo arcabouço teórico está fundado na teoria da cidadania; e a Associação Nacional de so de produção das políticas públi- blica. Na previdência, onde já havia • apesar da não integração insti- a noção de direito contratual, há a tucional destas políticas, a criação introdução da perspectiva de direito da Seguridade Social inaugura um • desde a Assembléia Nacional universal de retribuição ao trabalho campo de conhecimento antes ine- Constituinte, o Congresso Nacio- cas e construção da cidadania; Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 421 FLEURY, Sonia nal qualifica-se como sendo o fórum torial e mesmo o das políticas soci- naquele orçamento setorial. Em de- privilegiado de convergência dos ais, esta proposta de pacto federati- corrência, o que vem ocorrendo é interesses no campo das políticas vo tende a expandir-se e ser adota- que, de superavitária a Seguridade sociais. A criação da Comissão de da em outras áreas, como, recente- Social passou assim a ser, cronica- Seguridade Social dá continuidade mente, no desenho do sistema úni- mente, deficitária;9 a este processo de formação de uma co de segurança; elite de congressistas especializados • no campo das políticas assis- • as reformas constitucionais ti- tenciais houve também ruptura com veram o intuito de dar tratamento o modelo constitucional, materiali- fiscal às políticas sociais, omitindo zado na estrutura descentralizada e qualquer referência ao conceito de participativa regulamentada pela le- Seguridade Social. Além de vincu- gislação ordinária (LOAS) com a cria- lar recursos às áreas de previdên- ção de programas vinculados à Pre- cia e saúde as emendas constitucio- sidência da República (como o Pro- nais alteraram as condições de aces- grama Comunidade Solidária e ago- so aos benefícios previdenciários, ra o Programa Fome Zero), que in- introduziram um teto máximo, bem troduziram a perspectiva de refilan- como redefiniram a estrutura dos tropização da política assistencial. À regimes geral, próprio, militar e com- margem da Seguridade Social, tais plementar. No entanto, as principais programas focalizados, de eficácia sabotagens à Seguridade Social fo- duvidosa, passam a ser identificados ram impetradas no campo financei- como marcas políticas dos governos, ro, com as sucessivas apropriações desvinculando os benefícios assisten- dos recursos oriundos das contribui- ciais da condição de cidadania. Já os • a ruptura introduzida com o ções sociais para outros fins, seja parcos recursos para os Benefícios modelo de organização do Sistema para pagamento dos Encargos Pre- de Prestação Continuada (BPC) e a Único de Saúde (SUS), representou videnciários da União (EPU), a Des- pouca ênfase dada à eficácia dos um novo desenho de relações entre vinculação das Receitas da União benefícios previdenciários na redução Estado e sociedade e entre as esfe- (DRU) para atender aos critérios de da pobreza (11,3%, nas estimativas ras governamentais, deslocando o superávit primário acordados com do MPAS para 1999), são indícios da poder do centro para a periferia. as agências financeiras internacio- fragilidade da Seguridade Social Apropriado também pela área de nais, seja, ainda, no mero uso inde- como principal instrumento, que de- Assistência, o modelo do SUS ofere- vido dos recursos daquelas contri- veria ser, para as políticas de distri- ce uma proposta de pacto federati- buições. Na área de saúde, depois buição de renda. vo que rompe com o centralismo de garantir recursos do orçamento secular de nossa tradição, sem cair nos três níveis governamentais para na desresponsabilização do poder a área, ainda está em discussão a central proposta pelo modelo neoli- legislação que impedirá a inclusão Há um renovado interesse pelo beral. Transcendendo o âmbito se- de outros programas e ações sociais tema da Seguridade Social, que de- em políticas sociais, com fortes conexões com os movimentos sociais e atores políticos atuantes na área. Uma troca contínua de informações permite uma atuação altamente eficaz na negociação das reformas constitucionais e da legislação infraconstitucional. Ao contrário do executivo, quando as burocracias de cada uma das áreas atuam de forma insular, a existência da Comissão de Seguridade Social permitiu ao Congresso a superação das separações entre as políticas sociais, possibilitando um tratamento mais integrado; 9 A AGENDA PENDENTE Conforme demonstram dados apresentados pela ANFIP em Seguridade e Desenvolvimento: um projeto para o Brasil, Brasília, 2003. 422 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 Seguridade Social: a agenda pendente verá se acentuar com o processo de pacto social capaz de inclusão da mente, deserdados. No entanto, há discussão das Conferências Nacionais população excluída, que permitisse a expectativa de que a questão de Saúde e de Assistência Social, pre- a consecução de políticas efetivas e social seja resolvida via crescimen- vistas para dezembro de 2003. Este universais de cidadania. As conjun- to econômico com geração de em- é o momento político adequado para turas adversas subseqüentes leva- prego, relegando a incorporação um balanço sobre a agenda penden- ram a aprofundar o boicote à Segu- cidadã por meio de direitos sociais te na implantação da Seguridade ridade Social, em diferentes frentes. universais a um segundo plano. Social. Torna-se necessário sair da No entanto, o fracasso das políticas Em outras palavras, há uma vi- atual postura reativa, de defesa de neoliberais e a emergência de uma são que cada vez ganha mais for- uma Seguridade Social constante- nova questão social, a violência, ça na condução governamental, na mente ameaçada pelas medidas finan- repõem as condições para repactuar espera de que o desenvolvimento ceiras e legais que descumprem os a inclusão social. nos permita, por um lado, vincu- preceitos constitucionais e buscar A existência destas condições, lar os trabalhadores aos sistemas uma agenda positiva, que nos per- dadas pela busca de um novo proje- e benefícios sociais através de suas mita avançar na sua consolidação e to de desenvolvimento nacional, fru- contribuições e, por outro lado, aprofundamento. to de um pacto interclasses, não nos gere excedentes para permitir a A verdadeira concretização da autoriza a pensar, no entanto, que extensão de cobertura dos progra- Seguridade Social, já o apontava haja um fortalecimento das políticas mas de combate à pobreza. com muita clareza Beveridge, impli- sociais de Seguridade Social. As ten- Diferentemente do projeto neoli- ca a existência de um pacto social tativas de alterar a posição do Esta- beral, que reduzia o compromisso renovado que, transcendendo inte- do, desde a garantia da cidadania e estatal nas políticas sociais porque resses setoriais e classistas, permi- dos direitos sociais para mobilizar pretendia incentivar a ampliação ta a definição de um novo padrão os recursos societários, implica, por dos mercados nos setores sociais, civilizatório, a ser institucionaliza- um lado, em aumento das condições esta visão desenvolvimentista é in- do por intermédio das políticas e de envolvimento da sociedade na gênua ao supor que o crescimento instituições da Seguridade. A tran- construção de um pacto social e, por econômico propiciará a inclusão sição à democracia no Brasil per- outro lado, em retirar as políticas so- social de grande parte da popula- mitiu-nos colocar como meta a re- ciais dos marcos jurídicos e institu- ção, além daquela que será subsi- tomada da ordem democrática mas cionais da Seguridade Social. diada diretamente pelo Estado. não nos autorizou a resolver o dile- A preponderância da perspecti- É neste contexto, que se coloca ma constitucional brasileiro, apro- va fiscal na definição dos rumos de novo a necessidade de fortale- fundando a contradição entre demo- da política econômica tem impe- cimento da Seguridade Social, cracia política e democracia social. dido o país de retomar o desenvol- como formato de inclusão social Não houve, por ocasião da As- vimento, condição imprescindível não apenas no mercado, como pro- sembléia Nacional Constituinte, con- para a incorporação de grupos po- dutor ou consumidor, mas na con- dições políticas de construção de um pulacionais e regiões, historica- dição de cidadania. 10 No sentido dado por Fábio Wandeley Reis (1988. p. 16): “trata-se de regular através do Estado a convivência entre setores e categorias que, se chegam a erigir-se em atores sociopolíticos reais, fazem-no no marco de um sistema capitalista e nos termos da dinâmica própria desse sistema”. 10 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 423 FLEURY, Sonia Para aprofundar este debate e Conselhos, Conferências e outras O LI V EIR A , Jaime; F LEU RY , Sonia. criar condições para avançar na con- formas de geração/consolidação de (Im)Previdência Social, Petrópolis: solidação da Seguridade Social será políticas próprias de Seguridade. Vozes, 1986. necessário romper alguns entraves que se consolidaram neste campo. Uma terceira problemática de atualização da Seguridade Social REIS, Fábio Wanderley. “Consolidação Democrática e Construção do Em primeiro lugar, a tendência à diz respeito à convivência entre po- endogenia das áreas componentes da líticas seletivas no interior de siste- Seguridade Social. Este fenômeno mas universais. É preciso revisitar ocorre em todas elas, mas é particu- este tema fora dos marcos doutri- larmente importante na área de Saú- nários liberais, para buscar compa- de, já que esta área, por possuir uma tibilizar direitos universais com in- dinâmica política complexa, constitu- clusão social. Esta tensão se apre- SANTOS , Wanderley G. Cidadania e Jus- ída nas lutas pela democracia, teria senta em todas as três áreas da Se- tiça. Rio de Janeiro: Campus, 1979. condições de fazer avançar as demais, guridade, seja nas aposentadorias VELLOSO , Raul. Balanço da situação em uma perspectiva mais orgânica. subsidiadas na Previdência, seja na das contas públicas. Rio de Janei- A inclusão social será fruto de políti- dicotomia existente entre programas ro: Fórum Nacional INAE, BNDES, cas integradas, com mútua implica- de subsídios e a estrutura e benefí- maio, 1999. ção nas áreas de previdência, saúde cios da LOAS, seja na garantia legal e assistência, e não ocorrerá como de tratamentos específicos de pa- somatório das políticas insulares. cientes que recorrem à justiça, em- Isto nos remete à segunda ques- bora não façam outro uso do SUS. tão, que diz respeito à construção Certamente, existem muitas ou- de uma institucionalidade própria tras questões relativas ao financia- para a Seguridade Social. É neces- mento, à gestão e à estrutura de sário encarar de frente esta questão, afastada a paranóia em relação a uma possível unificação de todas as áreas, e buscar analisar quais são as condições institucionais necessárias para viabilizar o fortalecimento da Seguridade Social. É imprescindível reduzir sua fragilidade frente à área econômica e também consolidar mecanismos que permitam a contaminação positiva das áreas sociais. É necessário reconhecer que a Seguridade Social não será um somatório de políticas sociais espe- prestação dos serviços sociais. No entanto, ao destacar aquelas mais gerais, que dizem respeito à Seguridade Social, pretendo chamar a atenção para a necessidade de construir uma agenda afirmativa que possa garantir sua consolidação e aprofundamento institucional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEVERIDGE, William. Las Bases de la Seguridad Social. México: Fondo de Cultura económica, 1987. cíficas e que seu desenvolvimento FLEURY, Sonia. Estados sem Cidadãos. requer mecanismos próprios como Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1997. 424 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 414-424, set./dez. 2003 Estado – Notas Introdutórias e Uma Tese” In: R EIS, Fábio Wanderley; O’ DONNELL, Guilhermo. A Democra- cia no Brasil: Dilemas e Perspectivas. São Paulo: Vértice, 1988. p. 16. VIANNA , Maria l. W. Reforma da Previdência: missão ou oportunidade perdida? In: MORTHY, Lauro (Org.). Reforma da Previdência em Questão. Brasília: Ed. UnB, 2003. O Financamento do SUS ARTIGOS DE OPINIÃO / OPINION ARTICLES O Financamento do SUS Social Security: incomplete agenda Elias Antônio Jorge1 Diretor do Departamento de Economia da Saúde (DES) da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde (MS) 1 A primeira cooperativa da qual arrecadadora de alimentos por meio bém responsabilidade do Ministério se tem notícia no Brasil organizou- da ‘campanha do quilo’ para distri- Público Federal e Estadual. se no Século XIX, em Vila Rica (atual buição aos menos favorecidos. Ao introduzir o conceito de Se- Ouro Preto-MG). Visava assegurar Até a merenda mantinha a lógi- guridade Social, o Constituinte de aos cooperados o caixão e o veló- ca da cobertura aos incluídos no 1988 buscou estabelecer uma base rio. Buscava-se dignidade na hora processo escolar e da exclusão de sólida de financiamento para a se- de morrer. cobertura aos demais membros da guridade como um todo, por meio família e da comunidade. de contribuições sociais (fontes), Somente em 1923 foi criada a Previdência Social no Brasil, para ga- A Constituição de 1988, pro- recolhidas pelas empresas sobre a rantir dignidade na hora de viver: a mulgada em 5 de outubro, preten- folha de pagamento (Fonte 154), o aposentadoria e a pensão à família deu substituir o conceito de segu- faturamento (Fonte 153) e o lucro do segurado (contribuinte direto). ro (cobertura ao contribuinte dire- líquido (Fonte 151). Até a Constituição de 1988, im- to) pelo de seguridade social (co- Estas receitas são arrecadadas perou o conceito de seguro, vale di- bertura ao cidadão). O fundamen- pelo Governo Federal, por meio do zer, como cobertura do Estado ape- to foi o de eliminar a dupla puni- recolhimento das empresas, porém nas para aqueles que tivessem vín- ção: exclusão do processo econô- quem paga em última instância é o culo direto e formal com o processo mico formal e da cobertura do Es- consumidor final do produto ou do econômico e com a produção de tado. A Previdência Social, a As- serviço, uma vez que a planilha de bens e serviços. sistência Social e a Saúde foram custos inclui os valores previstos reconhecidas como direitos nos ter- das contribuições nos preços finais. A Saúde era tratada como questão de misericórdia (a grande rede mos dos artigos 194 a 204. Logo, é totalmente coerente e con- de Assistência à Saúde da popula- A partir desta Constituição, o di- sistente a determinação constituci- ção era formada pelas Santas Casas reito à Assistência Social e à Saúde onal do parágrafo único do Artigo de Misericórdia) e a Assistência So- não depende de contribuição direta 1º: que o uso destes recursos seja cial como questão de caridade a do beneficiário. Além disso, a saú- definido pela sociedade por meio de cargo de associações, como a Soci- de foi reconhecida como bem de re- ‘seus representantes ou diretamen- edade São Vicente de Paula (SSVP), levância pública, o que a torna tam- te’, uma vez que a origem dos re- Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 425-428, set./dez. 2003 425 JORGE, Elias Antônio cursos é a própria sociedade. Este superior a R$50 bilhões. Este será, ta de Emenda à Constituição (PEC) princípio é reafirmado e consolida- aproximadamente, o valor para fi- 169 (10% da Receita de Impostos da do no capítulo da Seguridade So- nanciamento do Sistema Único de União, do Distrito Federal, dos esta- cial (artigos 194 a 204). Saúde (SUS) em 2004, caso haja dos e municípios e 30% do Orçamen- Apenas as três principais contri- cumprimento integral da Emenda to da Seguridade Social). buições sociais têm arrecadação de Constitucional 29 (EC-29) pela No Conselho Nacional de Saúde R$138 bilhões prevista para 2003, União, pelo Distrito Federal (DF), (CNS) são aprovadas as Resoluções sendo R$79,3 bi sobre a folha, pelos estados e municípios. 67 e 68 que tratam de diretrizes R$48,7 bi sobre o faturamento e As Leis de Diretrizes Orçamentá- para elaboração do orçamento da rias (LDO) para 1990, 1991, 1992 e saúde e da vinculação constitucio- Além dessas três contribuições 1993 reproduziram apenas o dispos- nal de recursos (10% da Receita de sociais, estão previstas para 2003 a to no Artigo 55 do ADCT/Constitui- Impostos e 30% das Receitas da Se- arrecadação de R$12,6 bi do PIS/ ção Federal de 1988. guridade Social). R$10,0 bi sobre o lucro líquido. PASEP na Fonte 140 (60% para o Fun- Apesar disso, as Leis Orçamen- Outras propostas de Emenda do de Amparo ao Trabalhador – FAT tárias Anuais de 1990, 1991, 1992 e Constitucional foram apresentadas e 40% para o Banco Nacional de De- 1993 não respeitaram o disposto na pelo Deputado Carlos Mosconi (100% senvolvimento Econômico e Social LDO respectiva e a crise de financia- da Fonte 151 – lucro líquido e da – BNDES), a arrecadação de R$23,8 mento da Saúde de 1992 eclodiu, Fonte 153 – faturamento) e pelo De- bi da CPMF na fonte 155 (cerca de sendo sanada com o empréstimo putado Pinotti (5% do PIB). R$0,5 bi para a Saúde, R$4,6 bi para cedido pelo FAT. Em 1993, a crise A Comissão de Seguridade So- a Previdência, R$5,0 bi para o Fun- foi agravada, pois além de não cum- cial e Família da Câmara dos Depu- do de Combate à Pobreza e R$3,7 bi prir o disposto na LDO (30% do Or- tados criou uma comissão especi- para Desvinculação das Receitas da çamento da Seguridade para o Se- al, cujo relator foi o Deputado Dar- União – DRU), entre outras fontes tor Saúde), o Ministério da Previdên- ciso Perondi, que tentou tornar com- de menor significado orçamentário. cia suspendeu o repasse dos valo- patíveis as três propostas. Este tra- No texto permanente da Constitui- res arrecadados pelo INSS e previs- balho abriu caminho para uma nova ção Federal de 1988, não foi possível tos para a Saúde. Foi decretado, pelo tentativa, em 1999, tendo como re- assegurar uma vinculação específi- Presidente, estado de calamidade lator o Deputado Ursicino Queiroz, ca de recursos para a Saúde, entre- pública e, recorreu-se novamente a que resultou na PEC 82-A da Câma- tanto, no Ato das Disposições Consti- empréstimo financeiro no FAT. O ra. Essa PEC previu para a União tucionais Transitórias (ADCT), no Ar- Ministério da Saúde, na gestão do um valor mínimo, em 2000, não in- tigo 55, ficou estabelecido que: “Até Dr. Jamil Haddad, passou a exigir ferior ao montante empenhado em que seja aprovada a Lei de Diretrizes o cumprimento da LDO (30% do OSS 1999, corrigido em 5%. E para os Orçamentárias, 30%, no mínimo, do para a Saúde) nas negociações com anos subseqüentes, até 2004, o va- orçamento da Seguridade Social, ex- a área econômica. O resultado foi lor empenhado no ano imediatamen- cluído o seguro-desemprego, serão o veto presidencial a este dispositi- te anterior, corrigido pela variação destinados ao Setor Saúde.” vo na LDO/1994. nominal do Produto Interno Bruto Caso este dispositivo fosse apli- No Congresso Nacional, os De- (PIB). Ou seja, para 2001, o orça- cado em 2003, a dotação orçamen- putados Eduardo Jorge, Waldir Pi- mento deveria ser o empenhado em tária do Ministério da Saúde seria res e outros apresentaram a Propos- 2000, corrigido pela variação nomi- 426 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 425-428, set./dez. 2003 O Financamento do SUS nal do PIB de 2000 sobre o PIB de rem, respectivamente, os 12% e os que, na Decisão 143/2002, reconhe- 1999 (à época prevista em 13%). 15% da Receita de Impostos destina- ceu no relatório e no voto da decisão O orçamento de 1999 foi de R$18 dos a ações e serviços públicos de que as posições sobre o ano imedia- bilhões e com a correção de 5% au- saúde. Tornou-se relevante definir o tamente anterior, sobre o valor em- mentaria para R$19 bilhões em 2000. que poderia e o que não poderia ser penhado superior ao mínimo assegu- Entretanto, a execução orçamentá- considerado como ‘ações e serviços rado constitucionalmente e sobre ria de 2000 da União, para cumprir públicos de saúde’. qual variação nominal do PIB deve- a EC-29 foi de R$20 bilhões, portan- Deste esforço, surgiu, em julho ria ser considerada, tinham formu- to, a definição do orçamento de 2001 de 2001, o documento Parâmetros lação correta na Resolução 316 do deveria partir de R$20 bilhões. Consensuais para Regulamentação CNS (homologada pelo Ministro Hum- e Implementação da EC-29. berto Costa em 2003, com o 322). A área econômica do governo entendeu de forma diferente e pre- Em setembro de 2001, foi reali- O Sistema de Informação sobre tendeu que o ano anterior a 2001 zado um seminário no Ministério da Orçamentos Públicos em Saúde (S I- não era 2000, mas sim 1999, corri- Saúde, que contou com representan- OPS), que foi gido em 5%. Isso diminuiria o mon- tes de quase todos os Tribunais de de discussão da EC-29, vem acom- tante em R$1 bilhão. Além disso, a Contas do País, em que se utilizou panhando, sistematicamente, por variação nominal prevista do PIB de como texto-base o documento Parâ- meio de dados de Balanço e de sua 2001 sobre o PIB de 2000 era de 9%. metros Consensuais. A busca de alimentação regular, o cumprimen- Mais uma vez, a área econômica consenso continuou no 2º seminá- to da EC-29, nos termos da Resolu- entendeu que deveria tomar a va- rio com os Tribunais de Contas, em ção 322 do CNS. Evidencia-se, em riação nominal do PIB, que só seria dezembro de 2001, na sede da OPAS . geral, um aporte maior de recursos, conhecida em 2002, após o encerra- A execução orçamentária da embora persistam operações de in- mento do exercício de 2001. Com União, em 2001, foi bem superior clusão de despesas alheias (inativos, isso, rebaixava-se o montante da EC- àquela que a área econômica pre- por exemplo) e exclusão de receitas 29 em outros R$800 milhões (13% - tendeu impor ao Ministério da Saú- (renúncias fiscais, por exemplo). 9% = 4% de R$20 bilhões). de, mas inferior em R$560 milhões Há no Senado o Projeto de Lei O Conselho Nacional de Saúde ao mínimo assegurado constitu- do Senador Tião Viana e na Câma- convidou a Associação dos Tribu- cionalmente. Além disso, a dotação ra o Projeto de Lei do Deputado nais de Contas (ATRICON ), o Ministé- inicial do Orçamento de 2002 era Roberto Gouveia, para regulamen- rio Público Federal, as Assessorias bem inferior ao mínimo assegura- tação da EC-29. da Câmara e do Senado, o Conselho do pela EC-29. importante no processo O CNS atribuiu à Comissão de Nacional de Secretários de Saúde Em abril de 2002, o CNS apro- Orçamento e Financiamento (C OFIN) (CONASS ), o Conselho Nacional de vou a Resolução 316, cuja redação a tarefa de acompanhar o processo Secretários Municipais de Saúde (C O- final foi objeto de nova rodada de de regulamentação. NASEMS), ajustes entre os representantes dos e várias secretarias do Mi- nistério da Saúde para discutirem Tribunais de Contas. O Ministério da Saúde constituiu uma comissão especial com a fina- este impasse e outras questões, tais A Comissão de Seguridade So- lidade de formular propostas de di- como a vigência da EC-29 e os crité- cial e Família da Câmara dos Depu- retrizes para a regulamentação da rios de progressão percentual para tados encaminhou uma consulta ao EC-29 e encaminhá-las ao CNS para municípios, estados e DF alcança- Tribunal de Contas da União (TCU) análise e posicionamento. A partir Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 425-428, set./dez. 2003 427 JORGE, Elias Antônio disso, construir um consenso, no âmbito do Executivo em interação com o Legislativo. A Câmara Técnica do S IOPS tem como atribuição o acompanhamento da regulamentação e da implementação da EC-29. Existe um processo interno de socialização dos subsídios construídos nessas instâncias e uma articulação com os autores das propostas de lei e seus relatores. É necessário que esse processo seja intensificado, visando salvaguardar o financiamento do SUS das interferências negativas da Reforma Tributária – desvinculação de recursos – e garantir a definição de parâmetros seguros e duradouros a partir de 2005. A Conferência Nacional de Saúde e as Conferências Preparatórias devem ser espaços privilegiados para a discussão do tema. 428 Saúde em Debate , Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 425-428, set./dez. 2003 DOCUMENTOS / DOCUMENTS Transgênicos: decisões açodadas envolvendo uma questão de perigo que exige maior segurança1 Transgenic: diligent decisions involving a matter of danger that requires greater security A questão dos alimentos contendo organismos geneticamente modificados ou seus derivados tem merecido grande destaque na mídia e nas discussões políticas dos últimos anos. Nesses dias, no entanto, a aceleração de decisões cruciais para o futuro da saúde, do meio ambiente e da economia nacionais motiva um posicionamento crítico e responsável por parte do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (C EBES). No campo da saúde, não há como deixar de apontar os ainda restritos conhecimentos e avaliação científica sobre os impactos dos transgênicos. Vários aspectos devem ser assinalados, desde a falta de clareza institucional sobre os fóruns decisores até a ausência de uma política de biossegurança e de pesquisa de instituições independentes sobre os impactos ambientais e sobre os riscos para a saúde humana. A regulação da rotulagem de produtos, atrelada a um efetivo programa de vigilância pós-comercialização e o controle ambiental constituem o mínimo que se poderia exigir para que os riscos fossem conhecidos pelos indivíduos e pela sociedade brasileira. No campo econômico, a falta de clareza sobre políticas comerciais nacionais pode resultar em graves prejuízos ao país. A disjuntiva que se coloca é: ou buscar um mercado de consumidores que se propõe a pagar mais por um produto seguro, ou direcionar a produção para mercados menos exigentes, que aceitam o produto transgênico. Em cada caso, as decisões de produção serão distintas. A convivência das duas vocações é problemática, o que se agrava com a ausência de condições estritas de certificação de produtos. Como grande produtor das principais comodities transgênicas, possuímos todas as condições necessárias para estabelecer uma política que atenda aos interesses nacionais. No campo do direito e das responsabilidades, é altamente questionável a eficácia de que produtores e comercializadores da soja transgênica sejam responsabilizados pelos danos à saúde e ao meio ambiente. Além de inaplicável, a medida cria uma falsa sensação de que os ‘culpados’ pagarão pelos malefícios, retirando do Estado a responsabilidade na condução das políticas. Ao contrário, é nossa posição que o Estado não se furte ou transfira responsabilidades sobre suas decisões que afetam diretamente a saúde da população, conforme o mandamento constitucional: SAÚDE É DIREITO DE TODOS E DEVER DO ESTADO. É um engano achar que a Medida Provisória produzirá efeitos apenas até o fim do ano de 2004. Embora o texto republicado contenha salvaguardas sobre a preservação da biodiversidade, dos mananciais e das áreas indígenas, a área plantada com sementes geneticamente modificadas deve crescer, o que aponta para o fortalecimento dos interesses econômicos na a prorrogação da permissão de plantio e comercialização da soja Esta nota, produzida pela Diretoria do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES ) no auge da aprovação da Medida Provisória 131 – sobre os trangênicos –, contou com a revisão do professor Silvio Valle, pesquisador sênior da Fundação Oswaldo Cruz ( FIOCRUZ ) e coordenador do Curso de Biossegurança, a quem agradecemos as contribuições. 1 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, 429-438, set./dez. 2003 429 DOCUMENTOS / DOCUMENTS transgênica para depois de 31 de dezembro de 2004. A transitoriedade legal deverá aumentar a pressão para sua efetivação como permissão permanente. Outro aspecto importante é que de forma pioneira foi autorizado o plantio de uma ‘soja pirata’, e não se permitiu o plantio da soja original, o que além de ser um contra-senso, coloca o seguinte cenário: se até o final de 2003 e no mais tardar início de 2004 for aprovado o plantio comercial, não teremos sementes certificadas para o plantio e a única saída para o executivo será o de baixar outra medida provisória legitimando ainda mais a pirataria. Pior, no entanto, é acelerar decisões sobre o uso dos transgênicos sem que o debate ocorra em um ambiente institucional que permita a expressão dos interesses da população de forma ampla e na ausência das sociedades científicas e organizações de defesa da saúde e do consumidor. Certamente, não será no açodamento do debate político, que pareceu nortear os últimos acontecimentos, que a sociedade brasileira logrará encontrar os melhores caminhos para enfrentar uma questão tão complexa e que envolve tantos interesses econômicos. Não se trata, aqui, de assumir uma posição contrária ou favorável aos transgênicos. Trata-se de questionar o processo de discussão da Medida Provisória e sua publicação. O posicionamento do CEBES é de que as grandes decisões da sociedade e de seu futuro devem ser tomadas em fóruns qualificados com o máximo de esclarecimento da população. Neste caso, é inadiável que investimentos públicos sejam destinados a pesquisas científicas sobre a biossegurança de processos e produtos oriundos da tecnologia do ADN, cujos resultados tenham ampla divulgação e discussão na sociedade de forma a embasar as decisões futuras. Com relação ao impacto na saúde dos trabalhadores e da população em geral, alertamos que a MP 131 aprovou o uso da soja transgênica resistente ao agrotóxico glifosato, mas, como esse agrotóxico é lançado sobre a planta (aplicação pós-emergência), ainda não temos estudos no Brasil sobre o efeito da aplicação do produto nessas condições. Em suma, a medida legalizou a semente, mas o agrotóxico usado sobre a semente continua ilegal perante aos órgãos de saúde pública. Existe a necessidade premente de que o Ministério da Saúde, por intermédio da A NVISA, tenha uma postura próativa com relação à adoção na dieta alimentar humana do brasileiro, considerando a existência do decreto de rotulagem de alimentos contendo OGM e seus derivados, e a necessidade de colocá-lo em prática, visto que apesar de existir, até a presente data, a proibição de plantio comercial, o país é um importador de alimentos contendo derivados de OGM de países que autorizam a sua comercialização sem a exigência de rotulagem. A Diretoria Nacional 430 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 429-438, set./dez. 2003 DOCUMENTOS / DOCUMENTS Carta Aberta ao Presidente Luis Inácio Lula da Silva Open Letter to President Luis Inácio Lula da Silva Prezado Presidente, Com todo o respeito, o senhor está inteiramente equivocado: não somos ‘lobistas da Saúde’. Pelo menos, não o somos no sentido em que o senhor utilizou a palavra ‘lobista’. Os lobbies, grupos de defesa de interesses privados, cujos representantes articulam-se com o poder público por meio de parlamentares, são mecanismos que a sociedade civil lança mão para apresentar e reivindicar demandas e desejos. Nos Estados Unidos, sua atuação é conhecida (e reconhecida). Ao mesmo tempo em que representam interesses coletivos, estes são de natureza privada, ou seja, são desejos e aspirações dos mais diversos grupos e nem sempre, é bem verdade, objetivam o interesse público ou aspiram o bem comum. Mas, no sentido que o senhor conferiu ao termo, os lobbies seriam grupo de pressão em defesa de interesses privados, corporativos, visando obter favores ou privilégio – em particular, de ordem econômica. Esse, definitivamente, não é o caso do movimento da Reforma Sanitária, nem daqueles que vêm resistindo à incorporação de verbas do Fundo do Combate à Pobreza e as destinadas ao saneamento básico no orçamento da Saúde para 2004. Permita-me contar-lhe brevemente uma parte da história do Brasil que seu ministro da Fazenda, dr. Palocci, como médico sanitarista, deve conhecer e lembrar: o movimento da Reforma Sanitária, cuja origem remonta ao ano de 1976 – quando foi criado o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), em plena ditadura militar –, tinha como lema “Saúde e Democracia” e propunha que a saúde fosse direito de todos os cidadãos e um dever do Estado. Para isso, era necessário unificar a Saúde Pública sob a responsabilidade do Ministério da Saúde, com a assistência médica da Previdência Social. A criação do Sistema Único de Saúde (SUS) era necessária para romper com a barreira que impedia que enormes contingentes da população, alijados do mercado formal de trabalho, pudessem obter atenção à saúde. Desde aquela época, numerosas associações, como a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), entidades como o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (C ONASS) e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS), parlamentares de partidos de todos os espectros ideológicos, profissionais de saúde e diversos movimentos sociais, resistindo às mais diversas pressões de caráter conservador, neoliberal e corporativo envolveram-se na construção do SUS, confiando na garantia da universalização do direito à Saúde e na oferta de atenção à saúde com qualidade. Boa parte dessa luta esteve e está relacionada com os recursos destinados à Saúde. Desde a Constituição, passando pela criação da CPMF até a aprovação da EC 29, nossos esforços têm sido direcionados a obter os recursos necessários para que a população brasileira possa ter acesso a ações e serviços de saúde. Não para obter benefícios Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, 429-438, set./dez. 2003 431 DOCUMENTOS / DOCUMENTS pessoais ou corporativos, não para ajudar hospitais, empresas ou grupos econômicos. Para viabilizar o SUS, para garantir um mínimo de saúde, é necessário aumentar o orçamento da Saúde. É fácil de entender: os recursos destinados para a saúde de cada cidadão brasileiro por dia equivalem a cerca de 70 centavos de real. Como bem exemplificou o ex-deputado federal Eduardo Jorge, é como dar o dinheiro da condução de ida para a escola e dizer aos nossos filhos que se virem para voltar para casa. Saúde, assim como a educação, é fundamental para a inclusão social. Temos total consciência que boas condições de Saúde não dependem exclusivamente dos serviços de saúde. Concordamos, integralmente, que o combate à fome e saneamento básico são imprescindíveis para a Saúde, e de que constituem políticas de Saúde. Desde a 8a Conferência Nacional de Saúde, em 1986, defendemos o conceito ampliado de Saúde que exige políticas intersetoriais. Não temos divergências a esse respeito. Nossa posição, entretanto, é que novos recursos devem ser somados àqueles constitucionalmente destinados à Saúde. Essa é a nossa divergência: para cumprir o estabelecido por meio da EC 29 em relação às verbas para a Saúde julgamos que sejam incorporadas essas ações. O que desejamos – e o que a população precisa – é que, além dos recursos para a Saúde, o orçamento de 2004 destine verbas próprias para as ações de combate à fome e para saneamento básico. Não somos lobistas, senhor presidente. Não no sentido utilizado. Pelo contrário. Ao longo de todos esses anos, nossa luta e nossas ações como servidores públicos no verdadeiro sentido do termo (servir ao povo) conseguiram transformar a Saúde em uma ‘questão nacional’. Ou seja, como nos indica Gramsci, uma questão torna-se nacional à medida que supera todo o corporativismo e é portadora de um projeto global de sociedade. Esse tem sido o nosso principal objetivo. A reforma sanitária, a única reforma democrática do Estado brasileiro na última década, traz consigo um projeto de transformação da sociedade, de mudança de valores, em que a qualidade de vida dos cidadãos está em primeiro lugar, é o primeiro ponto de pauta, é o nosso objetivo primordial. “O projeto da Reforma Sanitária é um projeto civilizatório, que, para se organizar, precisa ter dentro dele valores que nunca devemos perder, pois o que queremos para a Saúde queremos para a sociedade brasileira”, nos ensinou Sergio Arouca. Todos nós, senhor presidente, de maneira suprapartidária, estamos nessa luta. Luta essa que estamos seguros, o governo pelo senhor presidido, tem condições de desenvolver. Conte conosco, mas, sobretudo, não feche os olhos à nossa história, nossos propósitos e nossas ações cotidianas por melhores condições de saúde da população brasileira. Atenciosamente, Sarah Escorel Médica sanitarista; pesquisadora titular da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CE BES). 432 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 429-438, set./dez. 2003 DOCUMENTOS / DOCUMENTS 1ª Conferência Nacional de Medicamentos e Assistência Farmacêutica: um olhar sobre os acontecimentos 1st National Conference of Medications and Pharmaceutical Assistance: an eye on the news Maria Ceci Misoczky1 André Porto2 José Augusto Barros3 Delegada do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES) na Conferência, docente e pesquisadora da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 1 2 Coordenador de Assistência Farmacêutica da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre(RS), mestrando em Gestão da Assistência Farmacêutica (PPGCF) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 3 Delegado do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES ) na Conferência Diversos atores estão envolvidos no processo de formação das políticas de medicamentos e de assistência farmacêutica no Brasil. Na Figura 1, tem-se uma imagem esquematizada desse campo, na qual estão posicionados os principais atores e delimitadas as políticas setoriais que incidem sobre o processo. A seleção dos atores incluiu a consideração de sua força, no momento presente, para influir na configuração do campo. Estes atores são dotados de recursos díspares de poder e encontram-se, muitas vezes, em posições de confronto devido à existência de interesses contraditórios. FIGURA 1 – O campo da formação das políticas de medicamentos e assistência farmacêutica (PORTO, 2003) Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, 429-438, set./dez. 2003 433 DOCUMENTOS / DOCUMENTS Observa-se que a política de assistência farmacêutica faz parte da política de saúde, enquanto a de medicamentos a extrapola, sendo formada pela inter-relação entre diversas políticas setoriais, ainda que se superponha, parcialmente, à política de assistência farmacêutica, conforme mostra a Figura 2. FIGURA 2 – Interfaces que configuram as políticas de assistência farmacêutica e de medicamentos (PORTO, 2003) Esta 1ª Conferência de Medicamentos e Assistência Farmacêutica é fruto de uma demanda de vários anos. Reuniu mais de mil pessoas para discutir e elaborar proposições. No espaço da Conferência, se encontravam organizações de representação: • da indústria em geral, da indústria nacional privada e estatal, do comércio; • de usuários como, por exemplo, aposentados e pensionistas, portadores de deficiência e patologias, defensores dos direitos da mulher e dos povos indígenas; • de conselhos de saúde de diversos estados e municípios, e do Conselho Nacional de Saúde; • do poder público, incluindo diversos ministérios, agências, instituições formadoras e de pesquisa, bem como gestores da saúde dos estados e municípios; • do Legislativo e do Judiciário; • dos trabalhadores de saúde, com destaque óbvio para os farmacêuticos; • de prestadores de serviço, de planos e seguros de saúde; • de entidades nacionais como CEBES , ABRASCO , SOBRAVIME, IDEC , CONTAG , entre outras. Chamou a atenção a presença de delegados usuários com posições extremamente combativas e capacidade de auto-organização. Um exemplo de combatividade foi a atuação dos representantes de portadores de deficiência, que se encontravam em número bastante reduzido e que, no entanto, foram capazes de incluir diversas propostas em defesa de seus interesses. Outro exemplo é a capacidade de apor argumentos construídos a partir da vivência em contraposição aos discursos construídos com recursos retóricos de cientificidade. Tais situações ganhavam vulto em momentos de oposição dos usuários frente ao discurso dos produtores privados de medicamentos. 434 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 429-438, set./dez. 2003 DOCUMENTOS / DOCUMENTS No tema “Acesso à assistência farmacêutica: a relação dos setores público e privado de atenção à saúde”, predominaram as propostas para a ampliação dos recursos financeiros e da autonomia de estados e municípios como gestores; as propostas para a qualificação dos serviços no nível municipal, alterando a ainda intensa ênfase no medicamento; aquelas visando acabar com a fragmentação dos programas (Programa Saúde da Família - PSF, hiperdia, saúde da mulher, saúde mental, etc.) e a constituição de um único programa de assistência farmacêutica, com estados e municípios podendo gerir sua implementação; e propostas para incentivos à produção de genéricos, e incentivos à produção dos laboratórios oficiais, aumentando a disponibilidade a custos menores. No tema “Pesquisa e desenvolvimento tecnológico para a produção de medicamentos”, predominaram as propostas para a diminuição da dependência externa do país e para o incentivo à produção de fitoterápicos. Nesta perspectiva, foram apresentadas proposições que tratam do incentivo ao desenvolvimento da química fina; da qualificação e ampliação da produtividade dos laboratórios nacionais, especialmente os públicos; da proteção do patrimônio genético nacional; da produção de hemoderivados. Com relação ao tema das patentes, foi marcante a controvérsia quanto a sua revisão ou revogação. Sobre a produção de fitoterápicos foram feitas propostas sobre fomento à pesquisa, desenvolvimento tecnológico e produção; e sobre a implantação da fitoterapia no SUS. No tema “Qualidade na assistência farmacêutica, formação e capacitação de recursos humanos” ocorreram diversos momentos de embate, no Plenário, em torno de aspectos corporativos, como a regulamentação da atividade de técnico de farmácia, que acabou derrotada por pequena margem de votos. No aspecto ‘formação e capacitação’, destacaram-se as discussões em torno da necessária interdisciplinaridade. Alguns temas, no entanto, ficaram ausentes ou foram apenas tangenciados. Para entender melhor o desenho desta 1ª Conferência, vamos recorrer mais uma vez à Figura 1. Nela, percebese logo a relevância de atores que se encontram no cenário internacional e que têm grande influência sobre a configuração do campo no Brasil. Em algumas proposições, percebeu-se uma visão ingênua sobre o papel de alguns deles – esse foi o caso, por exemplo, da suposição de que o Banco Mundial poderia apoiar a obtenção de fármacos essenciais ou, em outro exemplo, a instalação de indústrias farmoquímicas. Ainda que estas propostas tenham sido destacadas e modificadas em Plenário, são indicativas da necessidade de que se disseminem mais informações a esse respeito. Outro tema abordado de modo superficial foi o da relação com a política de saúde. A interdependência entre a estrutura do gasto com medicamentos e o modelo de atenção à saúde, estimulado pelas Normas Operacionais, não aparece nas discussões sobre assistência farmacêutica, ali tratada como se fosse uma política com relativa autonomia. Com relação à dinâmica do encontro, é preciso dizer que, em proporção ao tempo destinado a conferências e palestras, o espaço para os grupos de trabalho foi bastante reduzido, coisa parcialmente superada pelo afã dos delegados, que ficavam além do horário previsto para o funcionamento dos grupos. Certamente, o balanço final sobre a Conferência é muito positivo, em especial, voltamos a dizer, pela presença e interesse das representações de usuários em participar e decidir sobre o tema. Ficou claro que as diversas proposições enfatizaram a necessidade de um amplo e efetivo controle social sobre a assistência farmacêutica. Espera-se que o relatório final, com um conjunto de propostas que detalharam o aprofundamento das discussões iniciadas nas Conferências Estaduais e Municipais, sirva de fato de norte às instâncias de governo responsáveis pela implementação, da assistência farmacêutica que se requer para tornar o SUS cada vez mais importante para a população brasileira. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, 429-438, set./dez. 2003 435 DOCUMENTOS / DOCUMENTS Entre os componentes da atenção integral à saúde, certamente os medicamentos, utilizados de modo racional e adequado, constituem um elemento imprescindível. Esta Conferência representou, nesse sentido, uma contribuição importante para que ocorram avanços neste campo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PORTO, André. Produção estatal de medicamentos e regulação do mercado farmacêutico. Projeto de Dissertação apresentado ao Curso de Mestrado Profissionalizante em Gestão da Assistência Farmacêutica PPGCF-UFRGS, maio de 2003. 436 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 429-438, set./dez. 2003 DOCUMENTOS / DOCUMENTS Convocatória do IX Congresso da Associação Latino-americana de Medicina Social (Alames) Call for the 9th Latin-American Association Social Medicine (ALAMES ) Congress SAÚDE, UM DIREITO A CONQUISTAR Agenda para a Medicina Social Latino-americana: Garantir a Saúde para Todos(as) em um Mundo em Crise Agosto de 2004 Lima, Peru Estimados(as) Amigos(as): Temos o prazer de informar-lhes que em agosto de 2004 realizar-se-á em Lima o IX Congresso Latino-americano de Medicina Social, que se desenvolverá simultaneamente com a II Conferência Nacional de Saúde do Peru. Neste IX Congresso, no qual estaremos comemorando os 20 anos de existência da ALAMES, daremos continuidade à longa tradição crítica e inovadora da medicina social latino-americana, cujos Congressos têm sempre se pautado no debate da realidade social e sanitária do Continente e no empreendimento de iniciativas em prol da saúde de nossos povos. Em meio a vertiginosas e profundas transformações, foram aprofundados antigos problemas e apareceram novos. O fracasso das reformas neoliberais tornou mais evidentes os desafios para o crescimento e o desenvolvimento, e mais claros os níveis crescentes de iniqüidade. Aumentou a instabilidade de nossos países, fragilizando ou postergando para o futuro a possibilidade de que muitas pessoas possam exercer seus direitos, gerando um profundo malestar para todos os cidadãos neste atormentado começo do século XXI. Neste contexto, devemos enfrentar no IX Congresso os complexos problemas da saúde contemporânea e dos sistemas de saúde. Os desafios se estabelecem em várias dimensões: • na construção de una agenda política capaz de afirmar o direito à saúde como tema central em nossos países; • na concentração de alianças potentes e duradouras, baseadas em um compromisso programático, que dêem vida a movimentos sociais em saúde; • na afirmação e renovação da medicina social como campo de conhecimentos e práticas sociais; • no balanço crítico e fortalecimento de nossa Associação em seus 20 anos de existência como movimento acadêmico, político e social. Realizar este IX Congresso conjuntamente com a II Conferência Nacional de Saúde do Peru valoriza a luta que se vem travando no Peru pelo direito à saúde e nos dá a oportunidade de nos apoiarmos mutuamente, fazendo com que Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, 429-438, set./dez. 2003 437 DOCUMENTOS / DOCUMENTS o IX Congresso se comprometa com um movimento social nacional significativo, e contribuindo para que a luta peruana se situe no contexto das lutas latino-americanas pela saúde. Convidamos a todos(as) para participar ativamente da construção deste IX Congresso, de seu processo e do evento final. Será uma grande oportunidade para analisarmos nossas realidades e buscarmos respostas num fórum que garantirá a presença maciça de pesquisadores, professores, profissionais, gestores, dirigentes governamentais, estudantes, militantes e líderes sociais, todos(as) motivados(as) pelo compromisso com o direito universal e eqüitativo à saúde, como já é tradição em nossos Congressos. Tenham, além disso, a certeza de que estaremos fazendo tudo que for necessário para garantir um clima agradável e frutífero para todos(as). Armando De Negri Filho, Coordenador Geral da ALAMES Sandra Vallenas, Presidenta da Comissão Organizadora do IX Congresso 438 Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 27, n. 65, p. 429-438, set./dez. 2003 ASSOCIE-SE AO CEBES E RECEBA AS NOSSAS REVISTAS O CEBES tem duas linhas editoriais. a revista Saúde em Debate, que o associado recebe quadrimestralmente em abril, agosto e dezembro, e a Divulgação em Saúde para Debate, cuja edição tem caráter temático, sem periodicidade regular. QUEM SOMOS Desde a sua criação em 1976 o CEBES tem como centro de seu projeto a luta pela democratização da saúde e da sociedade. Nesses 27 anos, como centro de estudos que aglutina profissionais e estudantes, seu espaço esteve assegurado como produtor de conhecimentos com uma prática política concreta, em movimentos sociais, nas instituições ou no parlamento. Durante todo esse tempo, e a cada dia mais, o CEBES continua empenhado em fortalecer seu modelo democrático e pluralista de organização; em orientar sua ação para o plano dos movimentos sociais, sem descuidar de intervir nas políticas e nas práticas parlamentares e institucionais; em aprofundar a crítica e a formulação teórica sobre as questões de saúde; e, em contribuir para a consolidação das liberdades políticas e para a constituição de uma sociedade mais justa. A produção editorial do CEBES é resultado do trabalho coletivo. Estamos certos que continuará assim, graças a seu apoio e participação. A ficha abaixo é para você tornar-se sócio ou oferecer a um amigo! Basta enviar a taxa de associação (anuidade) de R$ 80,00 (oitenta reais) em cheque nominal e cruzado, junto com a ficha devidamente preenchida, em carta registrada, ou solicitar, nos telefones ou e-mail abaixo, o envio do boleto bancário. É possível também efetuar o pagamento por cartão de crédito. Consulte a secretaria do CEBES sobre esta forma de pagamento. CORRESPONDÊNCIAS DEVEM SER ENVIADAS PARA CEBES – Centro Brasileiro de Estudos de Saúde Diretoria Nacional – Av. Brasil, 4.036 – Sala 802 – Manguinhos – 21040-361 – Rio de Janeiro – RJ – Brasil Tel.: (21) 3882-9140 e 3882-9141 – Fax.: (21) 2260-3782 www.ensp.fiocruz.br/parcerias/cebes/cebes.html E-mail: [email protected] FICHA DE INSCRIÇÃO (preencher em letra de forma) Valor: R$ 80,00 Para efetuar depósito: Caixa Econômica Federal – Agência: 1343 C/C: 0375-4 Operação: 003 ou Banco do Brasil, Agência 4220-X C/C: 14137-2 CNPJ: 48.113.732/0001-14 Pagamento de Anuidade Nome: Nova Associação Rua/Av.: Atualização de Endereço Bairro: CEP: Cidade: UF: Tel.: ( ) Cel.: Fax.: ( E-mail: Local de Trabalho: Profissão: Data de Inscrição: Assinatura: ) INSTRUÇÕES AOS AUTORES SAÚDE EM DEBATE Revista do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (C EBES), voltada para a área de Saúde Pública e Saúde Coletiva, publicada quadrimestralmente em abril, agosto e dezembro, é distribuída a todos os associados em situação regular com a tesouraria do CEBES . Aceita trabalhos inéditos sob forma de artigos originais, artigos de opinião, artigos de revisão ou de atualização, relatos de casos e resenhas de livros de interesse acadêmico, político e social. Os textos enviados para publicação são de total e exclusiva responsabilidade dos autores. É permitida a reprodução total ou parcial dos artigos desde que identificada a fonte e a autoria. A publicação dos trabalhos está condicionada a pareceres de Membros do Conselho Editorial e do quadro de Pareceristas Ad-Hoc (através do sistema duplo cego). Eventuais sugestões de modificações da estrutura ou do conteúdo, por parte da Editoria, serão previamente acordadas com os autores. Não serão admitidos acréscimos ou modificações depois que os trabalhos forem entregues para a composição. ARTIGOS Seqüência de Apresentação do Texto 1. Título em português e em inglês. O título deve expressar claramente o conteúdo do artigo. 2. Folha de apresentação com nome completo do(s) autor(es), endereço, e-mail e no rodapé as referências profissionais (contendo filiação institucional e titulação). Quando o artigo for resultado de pesquisa com financiamento, citar a agência financiadora. 3. Resumo em português e inglês (abstract), em que fique clara uma síntese dos propósitos, dos métodos empregados e das principais conclusões do trabalho; descritores (descriptors), mínimo de três e máximo de cinco palavras, não ultrapassando o total de 700 caracteres (aproximadamente 120 palavras). Para os descritores utilizar os apresentados no vocabulário estruturado (DECS), encontrados no endereço http://decs.bvs.br. Caso não sejam encontrados descritores disponíveis para a temática do artigo, poderão ser indicados termos ou expressões de uso conhecido. 4. Artigo propriamente dito. a) as marcações de notas de rodapé no corpo do texto, deverão ser sobrescritas. Ex.: Reforma Sanitária 1 b) para as palavras ou trechos do texto que são destacados a critério do autor, utilizar aspas simples. Ex.: ‘porta de entrada’. c) quadros e gráficos deverão ser apresentados, também, em folhas separadas do texto, numerados e titulados corretamente com indicações das unidades em que se expressem os valores e com as fontes correspondentes. d) os autores citados no corpo do texto deverão estar escritos em caixa baixa (só a primeira letra maiúscula), observando-se a norma da ABNT NBR 10520: 2001 (disponível em bibliotecas). Ex.: Conforme Mario Testa (2000). e) as referências bibliográficas no corpo do texto, deverão ser apresentadas entre parênteses em caixa alta seguidas do ano e, se possível, da página. Ex.: (MIRANDA NETTO , 1986; TESTA, 2000, p. 15). 5. Referências Bibliográficas deverão ser apresentadas no final do artigo, observando-se a norma da ABNT NBR 6023:2000 (disponível em bibliotecas). Exs.: CARVALHO, Antonio Ivo. Conselhos de saúde, responsabilidade pública e cidadania: a reforma sanitária como reforma do Estado. In.: FLEURY , Sônia Maria Teixeira (Org.). Saúde e democracia: a luta do CEBES . São Paulo: Lemos, 1997. p. 93-112. COHN, Amélia; ELIAS, Paulo Eduardo M.; J ACOBI, Pedro. Participação popular e gestão de serviços de saúde: um olhar sobre a experiência do município de São Paulo. Saúde em Debate, n. 38, 1993. p. 90-93. DEMO , Pedro. Pobreza política. São Paulo: Cortez, 1991. 111p. EXTENSÃO DO TEXTO O artigo propriamente dito deve conter até 15 laudas. Os artigos que ultrapassarem este total serão devolvidos aos autores. Obs.: 1 lauda tem 1400 caracteres (com espaço), portanto a cada 20 linhas de 70 caracteres resulta em 1 lauda. Na carta de apresentação do artigo, o(s) autor(es) deve(m) mencionar o número de laudas. RESENHAS Serão aceitas resenhas de livros de interesse da área de Saúde Pública e Saúde Coletiva, a critério do Conselho Editorial. Devem dar uma noção do conteúdo da obra, de seus pressupostos teóricos e do público a que se dirige, em até três laudas. ARTIGOS DE OPINIÃO Serão aceitos trabalhos referentes a textos publicados na revista ou a assuntos de conjuntura de interesse nacional. Serão publicados a critério do Conselho Editorial. Devem conter até 7 laudas. ENVIO DO ARTIGO 1. Os trabalhos para apreciação do Conselho Editorial devem ser enviados à Secretaria Executiva do CEBES – Av. Brasil, 4036 – sala 802 – CEP: 21040-361 Manguinhos – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3882-9140 e 3882-9141 Cel.: (21) 9738-4101 Fax.: (21) 3104-7251 2. Deverão ser apresentados impressos em 03 (três) vias e em disquete. Aceitaremos textos no programa Word for Windows. 3. Os gráficos e/ou tabelas deverão ser apresentadas em arquivo separado, no mesmo disquete. INSTRUCTIONS FOR AUTHORS SAÚDE EM DEBATE Journal of the Centro Brasileiro de Estudos de Saúde ( CEBES) which focuses on Public Health and Collective Health, published every four months: April, August and December, and distributed to all associated individuals up-to-date with CEBES’ treasury. It accepts original studies in the form of original articles, opinion articles, review or update articles, case studies and critical book reviews of academic, political or social interest. Texts sent for publishing are responsibility of the authors. Total or partial reproduction of articles is permitted, as long as both authorship and source are identified. Publication of articles is subject to approval by the Editorial Advisory Board and Ad-Hoc Partners (through a double-blind system). Any suggestion of changes in structure or content, by the editors, will be previously agreed by the authors. No changes or additions can be made after articles are sent to typesetting. ARTICLES Text presentation sequence 1. Title in Portuguese and English. Titles must clearly express article content. 2. Cover containing full author(s) name(s), address, Email, and, as footnotes, professional references (including institutional affiliation and titles). When the article is a result of a sponsored research, the sponsoring agency should be mentioned. 3. Abstract in Portuguese and English, containing a summary of purpose, used methods and main work conclusions; descriptors, between three and five words (not more than 700 characters (approximately 120 words). For descriptors use the ones presented in the available vocabulary (D ECS), which can be found at http://decs.bvs.br, in case available descriptors are not found for the articles theme, terms or expressions of known use can be indicated. 4. Article. a) footnote numbers inserted in the text must be superscripted. E.g.: Reforma Sanitária1 b) for highlighting words or excerpts the author should use simple. E.g.: ‘porta de entrada’. c) tables and graphics should also be presented in separate sheets, numbered and correctly named, with indication of the units used and corresponding sources. d) authors mentioned in the text should be written in lower case (only first letters of each name in capital letters), according to regulation ABNT NBR 10520: 2001 (available in libraries). E.g.: Conforme Mario Testa (2000). e) bibliographic references in the text shall be presented inside brackets and upper case followed by year and, if applicable, page. E.g.: (MIRANDA NETTO , 1986; TESTA, 2000, p. 15). 5. Bibliographic References shall be presented in the end of the article, according to regulation ABNT NBR 6023: 2000 (available in libraries). E. g.: CARVALHO, Antonio Ivo. Conselhos de saúde, responsabi-lidade pública e cidadania: a reforma sanitária como reforma do Estado. In.: FLEURY, Sônia Maria Teixeira (Org.). Saúde e democracia: a luta do CEBES . São Paulo: Lemos, 1997. p. 93-112. COHN , Amélia; ELIAS , Paulo Eduardo M.; JACOBI , Pedro. Participação popular e gestão de serviços de saúde: um olhar sobre a experiência do município de São Paulo. Saúde em Debate, n. 38, 1993. p. 90-93. DEMO, Pedro. Pobreza política. São Paulo: Cortez, 1991. 111p. TEXT LENGTH The article itself must have a maximum of 15 pages. Articles that do not comply to this will be returned to authors. Note: one page has 1,400 characters (including spaces), so every 20 lines of 70 characters each forms one page. In the article presentation letter, the author(s) must state the number of pages. REVIEWS Critical reviews of books of interest to Public Health and Collective Health, will be accepted, as judged by the Editorial Board. They must discuss book’s content, its theoretical postulates and the audience it aims to reach, in up to three pages. OPINION ARTICLES Articles about previously published articles in this journal or about national interest issues will be accepted. These will be subject to Editorial Board approval. Must be made up of seven pages maximum. ARTICLE SUBMISSION 1. Articles should be submitted to the following address for appreciation by the Editorial Board: Secretaria Executiva do C EBES – Av. Brasil, 4036 – sala 802 – CEP: 21040-361 – Manguinhos – Rio de Janeiro – RJ Phone: +(55)21 3882-9140 and +(55)21 3882-9141 Cellular phone: +(55) 21 9738-4101 Fax: +(55) 21 3104-7251 2. Articles must be submitted in three copies and in diskette. We will accept articles in Word for Windows. 3. Graphics and/or tables must be presented in a separate file, in the same diskette. CURSO GESTÃO EM SAÚDE CURSO DE VIGILÂNCIA ALIMENTAR E NUTRICIONAL NÍVEL: Aperfeiçoamento NÍVEL: Aperfeiçoamento DURAÇÃO: 9 Meses (180 HORAS) DURAÇÃO: 9 meses (180 horas) MATERIAL DIDÁTICO: Livros (três) MATERIAL DIDÁTICO: CD-ROM, Livro, Vídeo e Internet PÚBLICO ALVO: Profissionais de nível superior ou médio, da área da saúde, envolvidos com atividades de gestão PÚBLICO ALVO: Profissionais de Saúde envolvidos direta ou indiretamente na implantação de Sistemas de Vigilância Alimentar CURSO AUTOGESTÃO EM SAÚDE NÍVEL: Especialização CURSO VIGILÂNCIA SANITÁRIA DURAÇÃO: 16 Meses (384 Horas) NÍVEL: Aperfeiçoamento MATERIAL DIDÁTICO: Internet, CD-ROM e Livros (quatro) DURAÇÃO: 9 meses (180 horas) PÚBLICO ALVO: Profissionais de nível superior, que atuam em empresas que administram seus próprios Sistemas de Saúde. MATERIAL DIDÁTICO: CD-ROM e Livro CURSO PÚBLICO ALVO: Profissionais de Saúde que desenvolvam atividades relacionadas à Vigilância Sanitária BIOSSEGURANÇA NÍVEL: Aperfeiçoamento DURAÇÃO: 9 Meses MATERIAL DIDÁTICO: Internet, CD-ROM e Apostila PÚBLICO ALVO: Profissionais de nível superior ou médio que busquem capacitação no desenvolvimento de técnicas de Biossegurança e na aplicação e regulamentação de técnicas afins. CURSO SAÚDE MENTAL NÍVEL: Aperfeiçoamento DURAÇÃO: 10 Meses (240 horas) PÚBLICO ALVO: Profissionais de nível superior e médio, com interesse no campo da Saúde Mental CURSO GESTÂO INTEGRADA DE RESÍDUOS SÓLIDOS MUNICIPAIS E IMPACTO AMBIENTAL NÍVEL: Aperfeiçoamento DURAÇÃO: 9 meses (180 horas) MATERIAL DIDÁTICO: Livros (sete) PÚBLICO ALVO: Profissionais de empresas públicas ou privadas preocupados com a Gestão de Resíduos Sólidos Municipais e seus impactos sobre o meio ambiente. R EV I S TA B RA S I LE I R A DE E DU CA ÇÃ O M É DI CA Associação Brasileira de Educação Médica – Rio de Janeiro/RJ A Revista da ABEM está em seu 27 o ano. É uma publicação indexada ( LILACS, PERIÓDICA E IRESIE) , que aceita colaborações em português, inglês ou espanhol – em diversos formatos, de artigos originais, ensaios e relatos de experiências a resumos de teses e resenhas de livros. Os textos são submetidos à apreciação do Conselho Científico, segundo os critérios e normas disponíveis em: w w w. ab e m- e du c m ed . o r g .b r Valor da anuidade:Professores, residentes e outros – R$ 75,00 (setenta e cinco reais) Estudantes: R$ 20,00 (vinte reais) O pagamento poderá ser efetuado mediante o envio de cheque nominativo à Associação, ou através de depósito bancário para o Banco do Brasil S/A, agência 0249-6, conta no 33.369-7 (neste caso solicitamos a gentileza de nos enviar cópia do recibo bancário via fax: (21) 2260-6662). Prerrogativa do sócio: receber todas as publicações produzidas pela Associação e participar de eventos promovidos por esta, entre eles o Congresso Brasileiro de Educação Médica anual, com desconto de 50% na inscrição.