Artigo Original RECONSTRUÇÃO DE FARINGE E ESÔFAGO COM TUBO ISOPERISTÁLTICO DA CURVATURA GÁSTRICA MAIOR APÓS FARINGOLARINGOESOFAGECTOMIA CERVICAL PHARYNGEAL AND ESOPHAGEAL RECONSTRUCTION WITH ISOPERISTALTIC GASTRIC TUBE OF GREAT CURVATURE AFTER CERVICAL PHARYNGOLARYNGOESOPHAGECTOMY JOSÉ FRANCISCO DE SALLES CHAGAS1 JOSÉ LUIS BRAGA DE AQUINO2 MARIA BEATRIZ NOGUEIRA PASCOAL3 4 ONIVALDO CERVANTES RESUMO Introdução: O carcinoma espinocelular (CEC) da hipofaringe é uma doença devastadora que continua tendo um prognóstico pobre, portanto, as técnicas cirúrgicas devem propiciar um restabelecimento rápido da deglutição, para proporcionar alguma qualidade de vida. Objetivo: Avaliar a viabilidade da reconstrução faringoesofágica com tubo gástrico isoperistáltico de grande curvatura e suas complicações no tratamento cirúrgico do CEC avançado da hipofaringe. Casuística e Método: Foram estudados 16 pacientes com CEC de hipofaringe, epiglote e recidiva local na faringe, em estádio clínico IV e tratados com faringolaringoesofagectomia cervical com ou sem esvaziamento cervical radical, no Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital e Maternidade Celso Pierro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, no período de janeiro de 1997 a março de 2000. A continuidade do trânsito digestivo foi feita com tubo isoperistáltico da curvatura gástrica maior através da via retroesternal. Resultados: Não houve toracotomia e nenhuma anastomose 1. Doutor em Medicina pelo Curso de Pós-Graduação em Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina. 2. Doutor em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas 3. Mestre pelo Curso de Pós Graduação em Ciências da Saúde do Hospital Heliópolis 4. Professor Livre Docente da Disciplina de Otorrinolaringologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina Instituição: Disciplina de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e Serviço de Cirurgia Torácica do Hospital e Maternidade Celso Pierro da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Correspondência: José Francisco de Salles Chagas, av. Heitor Penteado, 1780 – 13075460 Campinas, SP. e-mail: [email protected] Recebido em: 03/03/2006; aceito para publicação em: 21/03/2006. 102 foi realizada sob tensão, mesmo sem manobras de liberação do duodeno. A média de tempo cirúrgico foi de 5 horas e 30 minutos e houve apenas uma equipe cirúrgica. Conclusões: A técnica mostrou-se oncologicamente adequada, por não ser necessária a preservação do esôfago torácico para a reconstrução; a anastomose com a base da língua foi feita sem tensão; a toracotomia e a dissecção intratorácica foram desnecessárias; a mortalidade foi aceitável; e as complicações foram de fácil resolução. As complicações cirúrgicas mais freqüentes foram as fístulas salivares e as deiscências parciais da anastomose. Apenas um óbito foi relacionado à cirurgia. Descritores: faringe; esôfago; reconstrução; transposição gástrica. ABSTRACT Introduction: Hypopharyngeal squamous cell carcinoma (SCC) is a devastating disease that still presents poor prognosis. Therefore, the surgical techniques should take into consideration a fast re-establishment to swallowing in order to provide a better life quality. Objective: To evaluate pharyngeal and esophageal reconstruction with isoperistaltic gastric tube of great curvature after the cervical pharyngolaryngoesophagectomy. Patients and methods: We studied 16 patients with SCC of the hypopharynx, epiglottis and local recurrence in the pharynx, in clinical stage IV. They underwent pharyngolaryngectomy and cervical esophagectomy with or without neck dissection, in the Service of Head and Neck Surgery of Hospital e Maternidade Celso Pierro, Universidade Católica de Campinas, in the period from January, 1997 to Rev. Bras. Cir. Cabeça Pescoço, v. 35, nº 2, p. 102 - 108, abril / maio / junho 2006 March, 2000. The continuity of the digestive tract was provided with isoperistaltic gastric tube of the great curvature. The cervical area was reached through the retrosternal via. Results: There was no thoracotomy approach. The anastomosis was not accomplished under tension, even without maneuvers of duodenal liberation. The average of surgical time was 5 hours and 30 minutes and there was only one surgical team. Conclusions: The most frequent surgical complication was salivary fístulas and anastomosis partial dehiscences. Only one postoperative dead was related to the surgery. Since the preservation of the thoracic esophagus for the reconstruction was not necessary, the technique was shown oncologically adequated. The anastomosis with the base of the tongue was performed without tension, and the thoracotomy was unnecessary. The procedure is relatively simple and the mortality was acceptable. The complications were easily solved and the reconstruction was fast. Key words: pharynx; esophagus; reconstruction; gastric transposition. INTRODUÇÃO O carcinoma espinocelular (CEC) da hipofaringe é uma doença devastadora, que continua tendo um prognóstico pobre, além de apresentar dificuldade no seu manuseio cirúrgico, quando se faz necessária reconstrução do trânsito digestivo1. Várias tentativas de reconstrução da faringe têmse mostrado mais promissoras, com uma série de métodos que envolvem a transposição de víscera abdominal, se comparadas com os métodos descritos por Wookey (1942)2, Bakamjian (1965)3, Ariyan (1980)4 e Baek (1980)5. Em 1905, Beck e Carrel6 relataram a concepção de tubo com a curvatura gástrica maior, ainda como trabalho experimental em cães. O estômago foi utilizado em sua totalidade para reconstrução do trânsito digestivo por Shefts & Fischer7, em 1949 eOng & Lee8, em 1960. Jejuno e cólon direito ou esquerdo foram outros métodos utilizados com o mesmo objetivo9. A interposição gástrica é um bom método para reconstrução da hipofaringe, pois apresenta incidência baixa de fístulas e estenoses e permite grandes margens de ressecção. No entanto, é necessária cirurgia abdominal de grande porte e dissecção do mediastino posterior, para a transposição do estômago para a região cervical. A confecção de tubo com a curvatura gástrica maior parece apresentar facilidade em sua confecção e em sua transposição à região cervical por via retroesternal, evitando-se manuseio do mediastino, manobras para mobilização do órgão em sua totalidade e outros inconvenientes da transposição gástrica. Nosso objetivo é avaliar a viabilidade da reconstrução faringoesofágica com tubo gástrico isoperistáltico de grande curvatura e suas complicações no tratamento cirúrgico do CEC avançados da hipofaringe, já que esse tipo de reconstrução apresenta maior facilidade de confecção em relação a outros métodos reconstrutivos e não ser referida para esses tumores. CASUÍSTICA E MÉTODO Este trabalho foi aprovado pela Comissão de Ética em Pesquisa Médica da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Foram avaliados 16 pacientes submetidos à faringolaringoesofagectomia cervical, com ou sem esvaziamento cervical radical, por CEC da hipofaringe, epiglote ou recidiva local na faringe e reconstrução do trânsito digestivo por meio de tubo isoperistáltico da curvatura gástrica maior, no período de janeiro de 1997 a março de 1999, no Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital e Maternidade Celso Pierro, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, São Paulo. Todos os pacientes eram do gênero masculino, com idades que variavam de 39 a 71 anos, com média de 54 anos (desvio padrão de 10,072; mediana de 53; e moda de 51 anos). A localização primária das lesões encontra-se na tabela 1. Em relação ao estadiamento da lesão primária, todos os pacientes eram T 4 , sendo que dois pacientes apresentavam tratamentos cirúrgicos prévios, um deles foi submetido à radioterapia e um outro sofreu reconstrução com tubo gástrico isoperistáltico por falha do método reconstrutivo utilizado anteriormente (retalho miofascial do músculo peitoral maior). A disseminação linfonodal cervical encontra-se na tabela 2. Nenhum dos pacientes apresentava metástase à distância no momento do procedimento cirúrgico. O estadiamento dos pacientes seguiu as normas da União Internacional de Combate ao Câncer (UICC – 1997). Tabela 1 – Distribuição numérica e percentual dos pacientes em relação à lesão primária. Tabela 2 – Distribuição numérica e percentual dos pacientes em relação à disseminação linfonodal Em relação ao estado nutricional, os pacientes foram classificados como eutróficos em nove casos (56,3%), desnutridos grau I em quatro casos (25%) e, em três casos, desnutridos grau II (18,7%). O seguimento mínimo dos pacientes foi de quatro meses e o máximo, de 38 meses. Foi realizada faringolaringoesofagectomia cervical e esvaziamento cervical radical bilateral em dez casos, faringolaringoesofagectomia cervical e esvaziamento 103 cervical radical unilateral em três casos, glossectomia total com faringectomia total e esofagectomia cervical e rotação de retalho miocutâneo de músculo peitoral maior em um paciente, faringectomia total e esofagectomia cervical em um paciente e rotação de tubo isoperistáltico da curvatura gástrica maior em um paciente (tabela 3). A reconstrução com tubo gástrico foi realizada no mesmo ato operatório ao da ressecção em 12 casos, sendo o restante reconstruído em um segundo ato cirúrgico. O menor tempo cirúrgico gasto foi de 2 horas e 30 minutos e o maior foi de 8 horas, o que ocorreu em apenas um paciente, sendo que a média foi de 5 horas e trinta minutos. Tabela 3 - Distribuição numérica das cirurgias realizadas Quando o tubo da curvatura gástrica maior isoperistáltico foi utilizado primariamente para a reconstrução do trânsito alimentar, a técnica cirúrgica seguiu os seguintes passos: a) esvaziamento cervical; b) ressecção da lesão primária e; c) laparotomia, confecção do tubo gástrico e anastomose. A confecção do tubo gástrico era iniciada após a ressecção da peça cirúrgica, troca do material cirúrgico e nova paramentação por parte da equipe cirúrgica, de acordo com a seguinte padronização: laparotomia mediana xifoumbelical; inventário da cavidade abdominal e fixação de compressas; abertura do ligamento gastro-cólico a mais ou menos 5 cm da curvatura gástrica maior para preservação da artéria gastro-omental direita, desde 10 cm do piloro até próximo do fundo gástrico, quando a esse nível ligam-se os ramos da artéria gastro-omental esquerda e os vasos curtos gástricos, liberando-se o fundo gástrico (figura 1); colocação do aparelho de sutura mecânica linear-cortante TLC 75 a mais ou menos 7 cm da cárdia e em angulação de 90 graus em relação à parede da curvatura gástrica maior com realização de disparo do aparelho, conseqüente secção e sutura de 5 cm de extensão no fundo gástrico; colocação de outro aparelho de sutura mecânica linear-cortante TLC 75, agora em posição paralela à curvatura gástrica maior, confeccionando-se, assim, um tubo de mais ou menos 2 a 3 cm de largura; ressecção do apêndice xifóide e dissecção romba do espaço retroesternal até ultrapassar o manúbrio esternal, alcançando-se, dessa maneira, a região cervical (figura 2); passagem de sonda retal pelo espaço retroesternal e fixação do tubo gástrico a essa sonda com fio inabsorvível para transposição do tubo gástrico até a região cervical; nesse momento, o cuidado era para que não houvesse rotação do tubo, com conseqüente prejuízo de sua vascularização (figura 3); início da anastomose entre o tubo gástrico isoperistáltico e a continuidade do trato digestivo, após verificação da coloração e condições de perfusão do tubo gástrico; primeiramente, fazia-se um plano seromuscular entre a parede posterior do tubo gástrico e a musculatura pré-vertebral para fixação e alívio na tração do tubo pelo seu peso; realizava-se a um segundo plano total entre a parede posterior do tubo gástrico e a parede posterior da hipofaringe e, a seguir, introduzia-se sonda nasogástrica número 16; sutura em plano total entre a parede anterior do tubo gástrico e a base da língua ou com os retalhos usados, para refazer o trato digestivo; sutura, em segundo plano, entre a musculatura da base da língua e a camada sero- 104 muscular do tubo gástrico; todas essas suturas foram realizadas em pontos separados com fio multifilamentar de ácido poliglicólico 3-0; drenagem uni ou bilateral da região cervical com drenos de aspiração a vácuo em sistema fechado; fechamento da região cervical em planos separados; a cavidade abdominal passava por inventário minucioso e, após contagem das compressas utilizadas, revisão da hemostasia e drenagem, quando necessária, iniciava-se seu fechamento com o cuidado de evitar o estrangulamento do tubo gástrico em sua passagem na região retroesternal; fechamento da parede abdominal em planos separados; o tubo gástrico obtido tinha cerca de 3 cm de diâmetro; não houve necessidade de manobras de liberação do duodeno (manobra de Kocher) em nenhum dos pacientes. O tubo gástrico foi anastomosado na base da língua e faringe em 14 casos e em retalhos de músculo peitoral maior, utilizados para refazer o soalho da cavidade oral, em outros dois casos, sendo um deles um retalho miocutâneo e outro um retalho miofascial. Após a anastomose, a região cervical foi drenada com dreno a vácuo em 15 casos e com dreno laminar em um dos pacientes. Em todos os casos, a anastomose para refazer a continuidade do trânsito digestivo pôde ser realizada sem tensão (figura 4). Em quatro pacientes, foram realizados procedimentos complementares, que consistiram na rotação de retalho miocutâneo de músculo peitoral maior, em três casos e de retalho de vizinhança, em um caso. Foi necessário realizar esplenectomia em seis pacientes por lesão esplênica acidental no intra-operatório. Executou-se jejunostomia em quatro casos, porém, esse procedimento foi abandonado após perda da sonda, ocorrendo septicemia de origem abdominal e óbito no vigésimo dia de pós-operatório, em um paciente. No pós-operatório imediato, era solicitada radiografia simples de tórax no leito para a verificação da expansibilidade pulmonar pelo risco da ocorrência de pneumotórax, fato este ocorrido em dois casos, sendo que um não necessitou de drenagem (20% de extensão) e, no outro, foi realizada drenagem torácica, sob anestesia local, no segundo dia de pós-operatório. Entre o 7o e 10o dias de pósoperatório, o paciente era submetido a um deglutograma, se não houvesse sinais de fístula salivar (figura 5). Figura 2 – Dissecção romba do espaço retroesternal, após ressecção do manúbrio esternal. Figura 3 – Fixação do tubo gástrico em uma sonda retal e passagem através do espaço retroesternal em d ireção cervical. RESULTADOS O tempo de internação desses pacientes variou de 5 a 20 dias, com média de oito dias. A complicação cirúrgica mais freqüente foi a fístula salivar, ocorrida em sete dos 16 pacientes (43,8%). Em apenas um caso houve a necessidade de fechamento cirúrgico da fístula, o que foi realizado sob anestesia local. A deiscência parcial foi a segunda complicação mais freqüente, presente em quatro pacientes (25%). Houve apenas um caso de estenose e necrose parcial do tubo (6,25%). A estenose ocorreu por volta do 40o dia de pós-operatório e necessitou de intervenção cirúrgica para a resolução do quadro e liberação da fibrose existente. A infecção da área operada ocorreu em três pacientes (18,8%); em um deles, secundária à fístula na região cervical e, em outro, à deiscência da jejunostomia, levando a septicemia com posterior óbito no 20o dia de pósoperatório. Um outro paciente apresentou infecção local (região cervical), tratada clinicamente com sucesso. As complicações clínicas ocorreram em seis pacientes (37,5%) e estão demonstradas na tabela 4, sendo a mais freqüente a broncopneumonia, em quatro casos (25%). Ocorreu um acidente vascular cerebral em um paciente (6,3%), que o levou a óbito no 62o dia de pós-operatório. Assim, dos 16 pacientes, dois evoluíram ao óbito no período pós-operatório até o 3o mês. Dois pacientes apresentaram apenas complicações clínicas, nove apenas cirúrgicas e quatro pacientes tiveram os dois tipos de complicações. Em relação à reabilitação para alimentação via oral, quatro pacientes não foram reabilitados, sendo um deles devido a óbito no 20o dia de pós-operatório e três deles por fístula, com posterior recidiva tumoral local. Tabela 4 – Distribuição numérica e percentual das complicações cirúrgicas e clínicas. 105 DISCUSSÃO O manuseio das lesões malignas avançadas da hipofaringe ainda se mantém controverso, porque apresentam prognóstico pobre e já se apresentam inicialmente em fases avançadas10. Apesar de, em muitos centros, a cirurgia ser o tratamento de escolha, somente 25% desses pacientes sobrevivem mais de 2 anos, muitos deles com doença recidivada ou com alguma complicação do tratamento cirúrgico11. Assim, as medidas reconstrutivas devem ser o menos complexas possível, fornecendo qualidade de vida, ao menos razoável e levando a procedimento reconstrutivo que ofereça baixa mortalidade e morbidade e que permita a menor taxa de hospitalização, com menor intervalo para retorno à alimentação oral e que limite a extensão da ressecção oncológica12,13. Os métodos reconstrutivos do trânsito digestivo passaram por fases de preferência até a popularização e padronização do uso de vísceras abdominais como o método mais vantajoso. As técnicas cirúrgicas baseadas na ressecção radical da faringe e laringe e reconstrução do esôfago com retalhos cutâneos cervicais apresentavam a necessidade de vários procedimentos cirúrgicos, o que era sua desvantagem principal, além de apresentarem altas taxas de estenose, restrição da reconstrução em cerca de 10 a 12 cm e muitos dias de hospitalização, ocorrendo alguns casos de recidiva tumoral local antes do término da reconstrução2,14. Os retalhos livres, apesar de apresentarem reconstrução satisfatória no que diz respeito à função e às taxas de complicações, necessitam de anastomose vascular microcirúrgica, o que representa uma grande barreira para sua utilização em nosso meio, devido à necessidade de equipe cirúrgica altamente especializada e tempo cirúrgico muito mais longo do que o das outras técnicas, além do risco de fístula na região do mediastino devido à presença de anastomose dentro do tórax5. A utilização do estômago para a reconstrução do trânsito digestivo apresenta as vantagens de serem forrados com mucosa; poderem ser confeccionados tubos com extensões consideráveis, atingindo inclusive a nasofaringe; suprimento sangüíneo excelente; e, no estômago do homem, os vasos sangüíneos situam-se na parede do órgão, tornando desnecessária a transferência de mesentério para manter a vascularização íntegra. O estômago é muito elástico e o seu poder de cicatrização é muito bom13,15,16. Após o trabalho de Swenson & Magruder17 (1944), os tubos gástricos passaram a ser denominados de acordo com o sentido do peristaltismo do estômago: tubo gástrico anisoperistáltico (TGA) e tubo gástrico isoperistáltico (TGI). Na construção do TGA, sempre é realizada esplenectomia, que tem como objetivo permitir maior mobilização e ampliar sua irrigação. No TGI, a esplenectomia não é realizada rotineiramente. No TGA, a mucosa antral, constantemente estimulada pela passagem de alimento ou secreção alcalina, seria desvantajosa e responsável pelo potencial ulcerogênico da operação18-21. A transposição gástrica para reconstrução do trânsito digestivo, após faringolaringectomia popularizou-se depois que Orringer & Sloan22 (1978) difundiram a técnica de esofagectomia sem toracotomia, apesar de Ong & Lee7 terem descrito este método, em 1960. Apresenta como vantagens o fato de ter o estômago como substituto esofágico, no que diz respeito a sua ótima vascularização; realização em um único estágio; e necessitar apenas de uma anastomose, diminuindo a possibilidade de estenose e/ou fístula; além de não apresentar complicações referentes às esofagectomias23. Como desvantagens, apresenta necessidade de equipe 106 experiente em cirurgia gástrica, tempo cirúrgico extenso e necessidade de pós-operatório desses pacientes em unidade de terapia intensiva, devido ao manuseio do mediastino posterior, com riscos de penumotórax uni ou bilateral, pneumomediastino e hemorragia mediastinal24,25. Devido aos incovenientes da transposição gástrica e à experiência adquirida pelo Serviço de Cirurgia Torácica de nosso hospital, com 35 casos de by pass esofágico com tubo isoperistáltico de curvatura gástrica maior isoperistáltico para câncer inoperável do esôfago, resolvemos reconstruir o trânsito digestivo com este método após faringolaringoesofagectomia cervical. A via de acesso escolhida à região cervical foi a retroesternal, mesmo contrariando a afirmativa de que o traqueostoma permanente, que resulta após faringolaringectomia no tratamento do câncer da hipofaringe e de alguns casos de esôfago cervical, impede o uso da via retroesternal para a passagem de um substituto esofágico. A via retroesternal é mais longa do que a mediastinal posterior, porém, os motivos para sua seleção foram a facilidade de dissecção da região retroesternal, permitindo atingir a região da anastomose faringogástrica com rapidez, sem dificuldade e sem morbidade cirúrgica, além de não ter extensão muito maior do que o acesso pelo mediastino posterior26,27. Não houve dificuldade na dissecção romba da região retroesternal nem da passagem do tubo gástrico por essa via. A única manobra cirúrgica utilizada para esse fim foi a ressecção do processo xifóide do esterno, que não apresentou nenhum efeito deletério. Em nossos casos, foi desnecessária a realização da toracotomia, pois não se realizou esofagectomia total e, dessa maneira, evitou-se morbidade maior. Segundo alguns autores, a manutenção de segmento do esôfago pode levar ao perigo teórico de desenvolvimento de carcinoma em um órgão sujeito, por muito tempo, a fatores cancerígenos, como álcool, irritação crônica por esofagite etc. No entanto, apresenta enormes vantagens no que se refere à morbimortalidade do ato cirúrgico, pois a ausência de dissecção às cegas do esôfago torácico diminui a possibilidade de ocorrência de complicações relativas à esofagectomia. No que se refere à possibilidade de surgimento de segundo carcinoma sincrônico ou metacrônico no esôfago torácico ou abdominal restantes, a incidência desse evento relatada na literatura varia de 8% a 17%. Se separar-se por localização, verifica-se que a incidência de segunda lesão primária no esôfago situa-se entre 2% a 4%, além do que a avaliação com endoscopia digestiva préoperatória é bastante precisa. Harrison28, em 1970, demonstrou a inexistência de segunda lesão esofagiana e de lesões por disseminação submucosa em 20 peças cirúrgicas de esofagectomia total estudadas com secção de todo o órgão29,30. Além desses fatores, a margem de ressecção esofágica ideal ainda se mantém controvertida e, segundo Kirschner31 (1975), uma extensão de 5 cm é oncologicamente suficiente, porque não é usual a disseminação inferior dos carcinomas de hipofaringe para o esôfago. Portanto, acreditamos que a ressecção total do esôfago não está justificada como um procedimento profilático contra um risco duvidoso de câncer. A duração do procedimento cirúrgico parece estar diretamente relacionada à incidência de complicações subseqüentes. Tempos cirúrgicos curtos resultam em períodos curtos de risco para o paciente. Diminuição do tempo operatório diminui o tempo de anestesia geral, a quantidade de sangramento e o tempo de exposição dos tecidos aos efeitos do ressecamento e da contaminação. Não há substituto para um procedimento bem planejado, rápido e meticuloso. Em nossos casos, não houve aumento do tempo cirúrgico gasto com a confecção do tubo isoperistáltico da curvatura gástrica maior, mesmo trabalhando com uma única equipe. Se considerarmos o tempo gasto com a confecção do procedimento reconstrutivo, vimos que esse não ultrapassou mais que 70 minutos. Assim, essa técnica tem total possibilidade de ser realizada por apenas uma equipe, pois não demanda tempo e desgaste superiores a qualquer tipo de reconstrução na área da cabeça e pescoço. Esse tempo reduzido deve-se a alguns fatores próprios dos tubos gástricos isoperistálticos, que são a facilidade de sua confecção, pois dispensam a realização de manobras cirúrgicas mais complexas como liberação do duodeno de seu leito, ausência de necessidade de procedimentos cirúrgicos adicionais como piloroplastia, vagotomia e esplenectomia e possibilidade do uso de suturas mecânicas, que agilizam e facilitam em demasia a confecção do tubo. Para os tubos gástricos, uma extensão de 28 a 32 cm normalmente é suficiente15,32, o que foi facilmente obtido com essa técnica em todos os nossos casos. A manobra de Kocher não foi utilizada em nenhum de nossos pacientes, visto que a anastomose do tubo gástrico, tanto à base da língua quanto aos retalhos a ele suturados, foi realizada facilmente e sem tensão. Vários autores que utilizaram a transposição gástrica empregaram essa manobra para obter alguns centímetros e facilitar a anastomose do estômago à base da língua. Em nossos casos, não encontramos dificuldade no esvaziamento gástrico ou regurgitação, pois essas complicações não foram relatadas pelos pacientes. Isso se deve ao fato da não interferência com a inervação vagal gástrica, não havendo, dessa maneira, prejuízo ao seu esvaziamento nem necessidade de piloroplastia9,33. A esplenectomia só foi feita em casos acidentais de lesão esplênica durante a cirurgia, quando da liberação da curvatura gástrica maior. Outra variável importante para avaliação é a incidência de complicações. Elas levam a terapia adicional, prolongam a hospitalização e, em alguns casos, podem levar ao óbito. Tivemos sete pacientes (43,8%) desnutridos entre grau I e grau II, o que pode ser um fator de incidência de complicações no pós-operatório. A decisão de não se levar em consideração o estado nutricional ideal para iniciar-se o tratamento desses pacientes baseou-se no fato de a doença não permitir perda de tempo para seu tratamento, sob pena de haver pacientes ressecáveis transformados em irressecáveis, durante o período necessário para melhora do estado nutricional. Dentre as complicações encontradas, as mais comuns foram as fístulas salivares, deiscência parcial da anastomose e broncopneumonia. Ao compararmos nossas taxas de morbidade e mortalidade às relatadas por outros autores, verificamos que nossos percentuais de fístulas salivares em sete pacientes (43,8%) e deiscências parciais da anastomose em quatro pacientes (25%) estão dentro dos índices encontrados. Os índices relatados para as fístulas salivares variam de 10% a 67%; porém, se estas séries tiverem uma separação entre os pacientes submetidos à reconstrução do trânsito digestivo por doença neoplásica maligna, veremos que esses índices situam-se nos valores mais altos20,34. Dentre os pacientes com fístulas salivares, somente um deles precisou de correção cirúrgica, que foi realizada sob anestesia local. As deiscências parciais e a necrose parcial também foram corrigidas cirurgicamente com anestesia local. As complicações clínicas ocorreram em seis pacientes e a mais incidente foi a broncopneumonia, o que é facilmente entendido, visto que todos os pacientes eram portadores de lesões avançadas, com interferência na deglutição por meio de estase salivar que provocava certo grau de aspiração, além de serem pacientes tabagistas e etilistas de longa data. Quanto à reabilitação da deglutição, houve quatro pacientes que não alcançaram esse objetivo, porém, não podemos relacionar esse insucesso à técnica cirúrgica reconstrutiva pois esses pacientes apresentaram fístula salivar e recidiva tumoral local, o que impossibilitou a ingestão de alimentos por via oral. Um desses pacientes foi a óbito no 20o dia de pós-operatório, também impossibilitando o uso da via oral para alimentação. Todos os outros pacientes adquiriram dieta via oral, de consistência pastosa. Os dois pacientes que foram a óbito no período pósoperatório formam uma taxa de mortalidade de 12,5%, contudo, é preciso notar que somente um desses pacientes apresentou relação com a técnica cirúrgica, por septicemia após deiscência da jejunostomia, o que nos fez optar pela sonda nasogástrica como técnica de introdução de alimentação, diminuindo a probabilidade de complicações com a eliminação da jejunostomia da rotina cirúrgica. Considerando-se que todos os pacientes tinham doença extremamente avançada, essa taxa de mortalidade pósoperatória parece ser aceitável. CONCLUSÕES Do estudo da reconstrução da faringe e do esôfago com tubo isoperistáltico da curvatura gástrica maior após faringolaringoesofagectomia cervical, pode-se concluir: (1) o tubo gástrico isoperistáltico alcançou a base da língua sem dificuldades em todos os casos; (2) a toracotomia e a dissecção intratorácica foram desnecessárias, já que não houve necessidade de ressecção total do esôfago; (3) não houve necessidade de procedimentos cirúrgicos auxiliares como manobras de liberação do duodeno, piloroplastia e esplenectomia e a mortalidade foi baixa; (4) as complicações mais freqüentes foram as fístulas salivares e estenoses, porém, de fácil resolução; e (5) a reconstrução foi rápida, viável e funcional, mesmo em pacientes irradiados. REFERÊNCIAS 1. Pingree TF, Davis RK, Reichmann O, Derrick L. 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