Ideias À Solta
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Escola – A Grande
Revolução do Século
Luís Sá Cunha
Economia
ou humanidades ?
“Uma verdadeira revolução está
a passar-se sob os nossos olhos”
– palavras do ministro francês
da Educação, há cerca de dois anos.
O ministro fazia um balanço
da evolução da escola durante
os últimos quarenta anos
em França, depois de sucessivas
reformas e concluía numa direcção:
“abandonamos uma abordagem
quantitativa de cada vez mais
para seguir o cada vez melhor,
a batalha da escola para todos
para o sucesso de cada um.”
Voilá! Simples, directo, prático,
e em duas linhas o anúncio
do fim da mitologia igualitarista
na pátria que proclamou ao mundo
a escatologia da igualdade para
a sociedade dos homens. Estaria
aqui substante, provavelmente,
uma experiência de quarenta anos
desilusora da distribuição
da excelência simultaneamente
para todos, ou seja, a incapacidade
da escola de acorrer e dar resposta
e satisfação às pressões de uma
sociedade embrenhada na guerra
A grande pressão a que têm estado
sujeitas as universidades nas
recentes décadas deve-se a serem
arrastadas pelo pescoço para
as arenas da competitividade bélica
da sociedade dos mercados,
repuxadas a darem-lhes as armas
que paradoxalmente geram
no próprio seio da inovação científica
e técnica sem paralelo na história.
das violentas concorrências
económico-financeiras,
e assim exigente de mais e mais
especializações e reciclagens.
Estará aqui um dos mais dramáticos
desafios com que a escola se vem
defrontando nas últimas décadas,
compelida a fornecer os técnicos
especializados à vertigínica
expansão da sociedade industrial.
A escola perante bifurcação do seu
caminho: economicismo versus
humanismo? As reacções às
proclamações
do ministro francês não se fizeram
esperar, denotando as tensões
antigas em volta das concepções
de ensino e da finalidade da escola
pública, acusando o ministro
de provocar “uma degradação
organizada do sistema educativo(...)
recusando o sucesso de todos
os jovens no serviço público
de educação(...) para promover
uma escola a duas velocidades”,
de “mercantilização da escola,
de “favorecer a abertura da escola
aos interesses privados”, etc..
E o que se tem visto no campo
universitário é um notável
“jogo de cintura” para responder
às poderosas pressões, flexibilizando
currículos, adaptando áreas,
reforçando soft powers, alargando
a atmosfera do debate no campus
para não ceder às pressões
de vassalização pelas potências
económicas e acantonar
as humanidades no dispensário
das ciências mortas.
Braço – de – ferro, este, em cena
constante, mas onde tem estado
em jogo o mais essente espírito
da universidade, sujeita não só
às pressões dos grandes agentes
económicos no terreno, mas também
de instituições como a Organização
Mundial do Comércio (OMC)
intentando a suserania sobre a
universalidade do corpus universitário.
Perante isto, surgem alguns
observadores que pensam que seria
inadiável a proposta de um novo
contrato social à escala universal,
onde pudessem integrar-se um novo
conceito de trabalho, o respeito pela
natureza e pelos valores tradicionais
da cidadania, do civismo, e do bem
comum.
abandonamos
uma abordagem quantitativa
de cada vez mais para
seguir o cada vez melhor,
a batalha da escola
para todos para o sucesso
de cada um
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TRANSMISSÃO
OU APRENDIZAGEM?
Mas não é este o único, e talvez
mais complexo e incontornável,
desafio posto às escolas nos
últimos decénios. Em pleno
deflagrar da maior revolução
acontecida nos conhecidos
tempos históricos, é sobre
a escola que se vão abater
todas as explosões, clivagens
de crise e gritos de socorro.
Este fenómeno só confirma
que a escola é talvez o núcleo
estruturante mais sensível
das sociedades,
como nos foram legadas
pelos grandes impactos sociais
de anteriores revoluções.
No fundo, uma revolução
é apenas uma aceleração
do tempo. O ir mais depressa,
que as estruturas sociais só
acompanham ao preço de drama.
No livro, impresso, tudo é
estabilidade, imobilidade, dictum
de autoridade; no ecran tudo é
mobilidade, rápida mudança, leveza,
diversidade, interacção. No sistema
de séculos o centro é a entidade
transmissora, símbolo com auréola
de infalibilidade (no tempo da nossa
juventude, coroa de glória da turma
era “apanhar” o prof num erro ou
contradição...); a fonte transmissora
do conhecimento era o professor,
catedrático porque elevado
numa cátedra, similarmente
ao bispo elevado na Sé
(de sede > see > sé, isto é cadeira,
donde cátedra e catedral). Bispo
e professor (que professa, ensina
qualquer matéria ou adere a uma
doutrina) tinham evidente conotação
religiosa. Transmissão era segurança
da tradição.
Da passagem do oral ao escrito,
e depois do escrito ao impresso,
e já agora aos nossos olhos,
da galáxia Gutenberg
à galáxia digital, à civilização
do ecran e da internete.
Na História, revolução é expansão
da comunicação.
O cerne da situação das
últimas décadas foi a pressão
silenciosa das novas
tecnologias nascentes
que surgiram a catalizar
os sentimentos das novas
gerações de libertação
das disciplinas (e, disciplinas,
é oportuno lembrar, significavam
instrumentos de martírio)
do ensino tradicional,
cujos emblemáticos agentes
eram o mestre e o livro.
O que esteve em curso
nos últimos decénios foi
o processo de inversão do binómio
transmissão/aprendizagem,
o processo cognitivo centrado
agora no aprendiz. Destronamento
da tradição pelo novo império
da inovação, conduzido pelas
novas tecnologias da informação
e da comunicação (NTIC).
Quando todo o saber está acessível
em enciclopédias universais,
ao alcance de um clic,
para quê perder tempo a escutar
o dispensador de saberes, ao arrepio
dos ritmos de cada um? Como se,
subidos no final de milénios
ao cume do mundo, sempre
amparados ao báculo do passado,
agora nos precipitássemos a correr
pelo declive do outro lado,
na exaltação de uma libertação.
O número
de utilizadores
de Internet continua
a subir
A utilização da internet
traz inúmeras vantagens
à nossa vida diária pelo
que há cada vez mais
utilizadores. De acordo
com os dados da
Direcção dos Serviços
de Estatísticas e Censos
estavam registados
em
2008 em
128.502
Macau
utilizadores
de internet e em
Fevereiro de
2014
estavam registados
269.980,
mostrando um aumento
de mais do dobro.
Number of Internet
users continues
to grow
The application of
the Internet has brought
much convenience
to daily life; the number
of Internet users thus
continues to grow.
According to the
data released by the
Statistics and Census
Service, the number
of registered Internet
2008 was
128,502; as
at February 2014,
users in
the number sharply rose
to
269,980,
more than double versus
that of
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2008.
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NTICs RESOLVEM TUDO?
A DEMOCRACIA DOS ECRANS
Em 1971, num livro então de impacto
polémico, Ivan Illich proclamava
que era preciso “Descolarizar
a Sociedade”. Hoje, tido como
lucidez profética, reforça-nos
a atenção de que, de facto, a escola
é núcleo estruturante da sociedade,
e, como tal, caixa de ressonância
e panela de pressão onde vão
referver todos os conflitos da crise
revolucionária. Segundo Ilich, “o
ensino obrigatório parece (ia) minar
a vontade pessoal de aprender”.
Eram os primeiros sintomas de uma
ânsia profunda de mudança recôndita
no imo das novas gerações, que,
bastante mais do que desejos de
mudança nas práticas do ensino,
escondiam no ventre o ovo germinal
de uma nova era para a humanidade.
Célula estrutural, é a escola o
cenário das grandes transformações.
Desprevenidos e (quase) sempre
sem pregnância às realidades,
teóricos das recomendações
pedagógicas correram a socorrer-se das concepções hedonistas
para a transmissão dos saberes,
determinando a emblemática
abolição do ensino da tabuada,
tomando uma só onda pela
tempestade e a nuvem por Juno.
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O que as novas gerações
subconscientemente queriam,
exigiam, era fazer tábua rasa de
tudo o que era passado anterior
porque com elas despontava toda
uma nova era, um novo começo
do mundo. Na desobstrução a tudo
o que fosse obstáculo ou abatiz
no seu caminho de acesso
e fruição dos novos tempos em que
eram os grandes actores, ei-las
na reivindicação do mais fundo
individualismo, sem albardas
na fruição da liberdade e da
criatividade na inaugural era festiva
do espírito. No entusiasmo de quem
aborda um novo continente até
então desconhecido, catalizadas
pela força e profusão das novas
tecnologias todos os dias
oferecendo surpreendentemente
novas possibilidades, multi-usos,
acesso a novos mundos e labirintos
desconhecidos, inculcou-se
às gerações novas que todo
o passado e toda a sua herança
mereciam sem piedade o destino
do lixo imprestável. Causa-nos
ainda um álgido arrepio este despejo
de Sócrates, Kant, e de tantos
outros, mas sabemos dos
“tempos do obscurantismo”
que há sempre uma herança
transmitida ao futuro, de valores
humanistas e de referências
eternas, que a criatividade não
se confunde com imutabilidade,
e que tão importantes como as
revoluções arruando lá fora são os
renascimentos de que são capazes
as nossas criatividade e inovação
íntimas. Com este texto, que
pretendemos de enquadramento
e de equacionamento a gerais
problemas e questões sofridos
pelas casas do ensino superior,
visamos provocar a pessoal
apreciação do leitor, tencionando
aprofundar alguns aspectos
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em seguintes edições
desta revista. Deixamos desde
já enunciadas algumas questões:
– Se temos todo o saber à disposição
nas grandes enciclopédias digitais,
acesso igual, imediato, fácil,
ao nosso ritmo, se podemos ser
já os protagonistas daquilo a que
se chama já a “cultura do quarto”,
pode dispensar-se, ou como deve
ser reconvertida a função do
professor?
- Os jovens podem bastar-se a si
próprios no processo cognitivo,
podem aprender verdadeiramente
à margem de toda a transmissão?
- Como deverá a escola competir
com a avalancha de conhecimentos
produzidos exteriormente e
diariamente fornecida aos jovens
estudantes pelos NTIC?
A adicção às novas tecnologias
que repercussões tem na alteração
dos processos mentais e cerebrais
da netgeração?
- É irremediável o alheamento,
desencanto, até a ostensiva
indiferença desta geração
da cultura dos ecrans a tudo
o que surge como “oficial”,
comemorativo, da participação
cívica, da cidadania, de obrigações
sociais?
É habitual ouvir-se que a
necessidade de entrada decisiva
das escolas na era digital seria
a criação de “um serviço público
de ensino digital”. Viu-se já que
em primeiras e vastas reacções
de socorro e adaptação, se assistiu
à extensão do aprendizado pelo
ensino à distância, o e-learning,
com destaque para as experiências
em grandes países da América do Sul
como o Brasil. Mas o que se vê
é o alastramento da aprendizagem
informal por todo o lado,
de autoformação fora de toda
a instituição de ensino. Dá alguma
tranquilidade, perante isto,
a produção em maior escala
e de melhor qualidade científica
e pedagógica, de materiais
didácticos on line, de conteúdos,
monitorização dos desempenhos
dos usuários, exercícios etc., como
os vídeos Khan, da Khan Academy,
num site onde pode aceder-se
gratuitamente aos vídeos com
explicações e que já tem extensão
a Portugal através da Fundação
Portugal Telecom. Há quem opine
que o futuro da educação, o alívio
da congestão das escolas públicas
tradicionais, o “controlo”
das autoformações e da sua
qualidade e avaliação podem passar
e ter princípio de solução por esta
via. É lógico, porque o que provoca
a crise é o que a pode resolver.
O que alguns pensadores mais
atentos às novas realidades
esquematizam, em síntese é que
podemos partir da sistematização
entre a cultura dos ecrans
– a videoesfera, e a cultura das
escolas (ainda) “tradicionais”
— a grafoesfera.
em que serão “poetas à solta”
na expressão do filósofo português
Agostinho da Silva. Tanto pior
para a OMC, ou talvez não, porque
a imaginação e a criatividade
servidas pelas tecnologias ao serviço
da produção poderão transformar
cada um em empresário.
A primeira sustentando-se numa
lógica algorítmica e de dicotomia
de alternâncias, a segunda na base
escrita e na razão discursiva. Esta
baseada e fazendo apelo ao esforço,
perseverança, ritmos e conteúdos
constrangidos, aceitação de códigos,
linguagens e regras de escrita
e de matemáticas. A escola
da videoesfera prodigalizando
a livre escolha, o gozo do ritmo
próprio e da descoberta,
a ausência de imposições, de regras,
e a interactividade, a troca
e a colaboração inter pares.
Porque nos parece impraticável,
sob pena de germinar um império
do caos, que se dispense uma
herança comum, a transmissão
de uma traditio. Por outro lado,
começa a impor-se a opinião de que
a disseminação avassaladora das
tecnologias, como meio divulgativo,
pode ser instrumento de divulgação
maior de erros, e que sendo um
“milagre” da evolução, não são
a panaceia e deixam um problema,
o problema axial por resolver. Porque
terá que ser na, e a pedagogia,
a dar solução às grandes incertezas
e lacunas que terão também
um espaço de solução: a sala
de aulas. E, no meio deste cenário,
o professor, mesmo que já
desapeado da cátedra. Talvez até,
ou de certeza, que a sua palavra,
por ser então um outro inter pares,
tenha melhor capilaridade nos ávidos
espíritos das netgerações.
À primeira impressão, parece-nos
que o triunfo pertencerá à escola
que saiba operar a conciliação
dos dois sistemas, a sua
complementação com maior ou
menor partilha por um ou outro,
e que esta será talvez a nova base
de um sistema de escola pública,
que a partir de agora não conhecerá
repouso, porque sempre ao ritmo da
evolução imaginativa da inesgotável
criatividade dos homens, numa era
•
- Como deve ser a escola nova,
a que digere e tem capacidade
de adaptabilidade aos prementes
desafios, a que integrará
a inovação, a criatividade,
sem cadeira professoral?
- E como será definido o perfil,
papel, a função do professor do
futuro (já)?
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