TeRRITORIALIdAdes e eNTRecRuZAmeNTOs GeOpOLíTIcOs NA AméRIcA LATINA ORGANIZAÇÃO: LuIs feRNANdO AyeRbe TeRRITORIALIdAdes e eNTRecRuZAmeNTOs GeOpOLíTIcOs NA AméRIcA LATINA ORGANIZAÇÃO: LuIs feRNANdO AyeRbe Governador Secretário da Cultura Geraldo Alckmin Marcelo Mattos Araújo FUNDAÇÃO MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA Diretor Presidente Chefe de Gabinete da Presidência Diretora do Centro Brasileiro de Estudos da América Latina Diretor de Atividades Culturais Diretor Administrativo e Financeiro DEPARTAMENTO DE PUBLICAÇÕES Gerente/Editora Executiva João Batista de Andrade Irineu Ferraz Carvalho Marília Franco Luiz Felipe Bacelar de Macedo Sergio Jacomini Leonor Amarante CONSELHO CURADOR Presidente Secretário da Cultura Secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia Reitor da USP Reitor da Unicamp Reitor da Unesp Presidente da Fapesp Reitor da Faculdade de Cidadania Zumbi dos Palmares Presidente do Conselho CIEE Almino Monteiro Álvares Affonso Marcelo Mattos Araújo Nelson Baeta Neves Filho Marco Antonio Zago José Tadeu Jorge Julio Cezar Durigan Celso Lafer José Vicente Ruy Altenfelder Silva TeRRITORIALIdAdes e eNTRecRuZAmeNTOs GeOpOLíTIcOs NA AméRIcA LATINA ORGANIZAÇÃO: LuIs feRNANdO AyeRbe Copyright© 2014 dos autores Todos os direitos reservados CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ T317 Territorialidades e entrecruzamentos geopolíticos na América Latina / organização Luis Fernando Ayerbe. - 1. ed. - São Paulo : Cultura Acadêmica : Fundação Memorial da América Latina, 2014. 260 p. : il. ; 23 cm. ISBN 978-85-7983-535-3 1. Geopolítica. 2. Geopolítica – América latina. I. Fundação Memorial da América Latina. II. Ayerbe, Luis Fernando. 14-16967 CDD: 320.12098 CDU: 911.3:32 Proibida a reprodução total ou parcial sem a autorização prévia dos editores Direitos reservados e protegidos (lei n. 9.610, de 19.02.1998) Foi feito o depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei n. 10.994, de 14.12.2004) Impresso no Brasil 2010 Foi feito depósito legal na Biblioteca Nacional (Lei nº 10.994, de 14/12/2004) Fundação Memorial da América Latina Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 Barra Funda 01156-001 Tel.: (011) 3823 4600 Fax: (011) 3823 4611 www.memorial.sp.gov.br TeRRITORIALIdAdes e eNTRecRuZAmeNTOs GeOpOLíTIcOs NA AméRIcA LATINA ORGANIZAÇÃO: LuIs feRNANdO AyeRbe Sumário Apresentação João Batista de Andrade..................................................................................................9 Introdução Luis Fernando Ayerbe.................................................................................................11 Capítulo 1. O conceito de áreas não-governadas ou black-spots e os desafios políticos e teóricos para a agenda de segurança dos Estados Unidos Marília Carolina Souza................................................................................................17 Capítulo 2. O Binômio Segurança-Desenvolvimento na Agenda Hemisférica dos Estados Unidos Luiza Rodrigues Mateo...............................................................................................36 Capítulo 3. As gangues urbanas do Triângulo Norte da América Central e a percepção dos Departamentos de Estado e Defesa dos Estados Unidos acerca de sua ameaça à segurança regional Paulo Mortari Araújo Correa........................................................................................51 Capítulo 4. Crimen organizado y áreas no gobernadas en la América Central: Mara Salvatrucha y Barrio 18 Harry Edwin Vanden....................................................................................................81 Capítulo 5. México: Estado falido? Percepções por parte da imprensa dos Estados Unidos Roberto Moll...............................................................................................................87 Capítulo 6. Regionalismo, interesse nacional e ordenamento territorial nas relações dos Estados Unidos com a América Latina Luis Fernando Ayerbe...............................................................................................101 Capítulo 7. Aspectos da Geopolítica Camponesa na América Latina e Caribe: paradigmas, conceitos e resistências Bernardo Mançano Fernandes...................................................................................120 Capítulo 8. Geopolítica Indígena. Entrecruzamiento de soberanías frente a los procesos de integración regional Jaime Preciado Coronado e Pablo Uc.........................................................................137 Capítulo 9. Geopolítica indígena en la región andina: territorialidades en disputa y proyectos plurinacionales Pablo Uc....................................................................................................................168 Capítulo 10. O conceito de Sumak Kawsay e o desenvolvimento equatoriano no governo de Correa: o caso da proposta Yasuní-ITT Carolina Silva Pedroso..............................................................................................195 Capítulo 11. Percepções de segurança regional no âmbito da UNASUL: o Conselho Sul-Americano de Defesa Héctor Luís Saint Pierre e Diego Lopes da Silva........................................................220 Capítulo 12. El ALBA y la seguridad regional Carlos Oliva Campos.................................................................................................245 Apêndice. Conflitos entre empresas e sociedade civil na Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e República Dominicana Adalton Oliveira........................................................................................................271 ApreSentAção U ma das prerrogativas do Memorial da América Latina, contribuindo para a integração cultural, social, artística e acadêmica entre os povos latino-americanos, tem sido a de promover a divulgação dos estudos, pesquisas e debates realizados pelas universidades do Brasil e dos países vizinhos. É o caso da presente publicação: Territorialidades, conflitos e desafios à soberania estatal na América Latina, resultado do seminário internacional que o Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL) promoveu em 2012, acolhendo projeto da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A obra que agora vem a público, disponibilizada para leitura digital, é a versão atualizada da edição que o Departamento de Publicações do Memorial lançou naquele ano. Esse update faz todo sentido, tendo em vista que as informações correm com a mesma velocidade com que os fatos se desenvolvem em todas as regiões do mundo. As relações de poder entre as grandes potências e o reflexo que elas produzem na conjuntura política, social e econômica dos demais países são, em suma, o objetivo central do livro. Por suas páginas desfilam gabaritados analistas e catedráticos identificados com as mais diversas terminologias ideológicas e logísticas. Eles emprestam seu notório saber para explicar como e por que a segurança dos povos continua sendo um dos maiores problemas na agenda dos nossos governantes. A obra oferece contundentes análises sobre o papel que eles tem desempenhado no gerenciamento de questões que já não deveriam ser tão emblemáticas nos dias atuais. Todas passam pela milenar discussão em torno da soberania dos países, naturalmente associada a situação de conflitos de fronteiras. 9 Trata-se de trabalho acadêmico de fôlego, uma radiografia sem retoques clicada por mãos e cabeças de especialistas. Textos que partem da digressão sobre a política externa dos EUA e os efeitos da Guerra Fria para abordar todo o conjunto de problemáticas que, desde então, envolvem a convivência entre os países latino-americanos. E desses nas relações com todo o mundo. João Batista de Andrade Presidente da Fundação Memorial da América Latina 10 introDução O presente livro é resultado da segunda etapa do projeto Extraterritorialidades, entrecruzamento de soberanias e conflitos na América Latina, coordenado pelo Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI-UNESP), com participação de pesquisadores de universidades de Cuba, Estados Unidos e México, e apoio da Fundação Friedrich Ebert. O objetivo do projeto é analisar problemáticas emergentes associadas à governabilidade e ao conflito, tomando como referência processos de desterritorialização e reterritorialização que resultam de políticas estatais, ação de movimentos sociais, organizações armadas, redes de crime organizado, grupos étnicos, empresas multinacionais e potências extra regionais. Os resultados da primeira fase foram publicados em dois livros, Territorialidades, conflitos e desafios à soberania estatal na América Latina, em 2012, pelo Memorial da América Latina, sob a organização de Luis Fernando Ayerbe, e US National Security Concerns in Latin America and the Caribbean: the concept of ungoverned spaces and failed states, em 2014, pela Palgrave Macmillan, sob a organização de Gary Prevost, Harry E. Vanden, Carlos Oliva Campos e Luis Fernando Ayerbe. No livro que agora apresentamos, incorporamos como tema de destaque a perspectiva geopolítica do entrecruzamento de soberanias, compreendendo três dimensões estratégicas de ordenamento territorial que projetam poderes e disputas de hegemonia. 11 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Em primeiro lugar, analisamos a perspectiva desde os Estados Unidos, cuja agenda de segurança hemisférica identifica “áreas não governadas”, associadas a territórios com baixa presença do Estado, favorecendo a atuação de redes do crime organizado, do terrorismo e de movimentos sociais antagônicos com os lineamentos da sua política externa. É esse o objeto dos capítulos 1 a 6, que tomam como referência abordagens oficiais, especificamente os Departamentos de Estado e da Defesa, Think Tanks e meios da imprensa escrita estadunidense. No capítulo 1, Marília Souza aborda o debate conceitual sobre a natureza dos novos conflitos e manifestações de violência internacional relacionados às deficiências de governança estatal, introduzindo elementos substanciais à compreensão dos estudos de caso desenvolvidos ao longo do livro. Sua análise nos permite situar os desafios políticos e teóricos para a agenda de segurança dos Estados Unidos na caracterização dos chamados “Estados falidos”, “áreas não-governadas” ou black-spots. Nessa perspectiva, as falhas de governança dos Estados, somadas aos efeitos da interdependência e da globalização sobre as fronteiras estatais, abririam espaço para que novos atores tenham um papel mais relevante nas questões de segurança internacional. No capítulo 2, Luiza Rodrigues Mateo se debruça sobre a agenda hemisférica dos Estados Unidos a partir das mudanças estratégicas posteriores ao “onze de setembro” quando a relação entre segurança e desenvolvimento passa a ser mais valorizada, crescendo em importância a atuação da USAID (Agenda Dos Estados Unidos Para o Desenvolvimento Internacional), vinculada ao Departamento de Estado. A fraqueza estatal e as “áreas não governadas” são descritas como ameaça à segurança nacional na medida em que potencializam o fluxo descontrolado de pessoas e armamentos, atividades criminosas (como o narcotráfico e lavagem de dinheiro), dispersão de doenças, degradação ao meio ambiente e infrações aos direitos humanos, dentre outros, levando à formulação de políticas direcionadas aos países e regiões latino-americanos considerados de risco. Os capítulos 3 e 4 tomam como referência a percepção por parte do governo dos Estados Unidos do grau de ameaça à sua segurança representada pela ação de gangues urbanas na América Central. Por um lado, Paulo Mortari Araújo Correa se detém na visão do Departamento de Estado e, em menor extensão, da Defesa, identificando algumas das principais preocupações e medidas adotadas com relação ao combate às Maras e Pandillas. Paralelamente, 12 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Harry Edwin Vanden situa a temática dentro do debate que associa crime organizado e áreas não governadas. O autor discute o ponto de vista dos formuladores da política estadunidense, que associam os espaços controlados pelas gangues a territórios à mercê de cartéis, organizações criminosas transnacionais – incluindo as próprias Maras- e até terroristas, motivo pelo qual propõe-se que tais espaços sejam estritamente vigiados quando não subordinados ao controle do governo nacional. No capítulo 5, Roberto Moll aborda as percepções por parte da imprensa dos Estados Unidos sobre a falência estatal como tema de segurança regional, tomando o México como referência. Embora considere comum que os grandes meios de comunicação impressos sobre a América Latina focalizem com destaque crises políticas, econômicas, violência, criminalidade, autoritarismo, corrupção e epidemias, as matérias são avulsas e só ganham continuidade quando os fatos envolvem, ou podem envolver, os interesses dos EUA. O México apresenta-se como uma exceção. Entre janeiro de 2009 e julho de 2012, os grandes jornais estadunidenses apresentaram centenas de reportagens e editoriais sobre o país, em que a guerra contra os cartéis de drogas mereceu atenção periódica e, às vezes, novelesca. Fechando as percepções desde os Estados Unidos, o capítulo 6, de Luis Fernando Ayerbe, aborda a perspectiva de think tanks de diversa filiação política e ideológica sobre o impacto da integração latino-americana na política hemisférica. Em termos de organizações regionais, tomase como referência a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), UNASUL (União de Nações Sul-americanas), AP (Aliança do Pacífico), e CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos). Entre os temas tratados, merece destaque a diferença entre o antagonismo com Washington atribuído à liderança chavista na ALBA, a maior moderação que pauta a UNASUL e a CELAC, e as explícitas boas-vindas à AP, elogiando sua convergência com a perspectiva hemisférica estadunidense e a sua orientação ao livre mercado. Os capítulos 7 a 10 abordam a segunda dimensão das estratégias de ordenamento territorial, compreendendo os espaços de soberania paralelos ao Estado reivindicados por geopolíticas indígenas e camponesas. O foco principal é o entrecruzamento de soberanias e conflitos decorrentes da ofensiva associada a projetos de infraestrutura promovidos por Estados, individualmente ou por meio de iniciativas 13 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina de integração regional, favorecendo interesses de empresas nacionais e transnacionais. Em diversos casos, as geopolíticas camponesa e indígena coincidem, tornando indissociáveis os elementos sociais e étnicos da conflitividade. No capítulo 7, Bernardo Mançano Fernandes analisa a estratégia camponesa de resistência ao capitalismo, que se manifesta nos territórios materiais e imateriais, em que a disputa ideológica e a disputa territorial configuram uma geopolítica da questão agrária. O processo de estrangeirização da terra é um exemplo da territorialidade dessa geopolítica, cujos componentes não se limitam à terra - embora esta seja fundamental para sua existência. O conhecimento, a tecnologia e a ideologia são cada vez mais expressivos para a resistência camponesa. Na perspectiva teórica do autor, é fundamental ressaltar a importância dos conceitos de agricultura camponesa e agricultura familiar, como parte de um mesmo sujeito, uma mesma relação social: o campesinato. No capítulo 8, Jaime Preciado Coronado e Pablo Uc abordam a geopolítica indígena que se expressa na revitalização de tecidos comunitários, criação de organizações, alianças e estratégias de negociação, construindo e legitimando um poder territorial originário e camponês, acompanhado das tensões que derivam das lutas e resistências entre essas espacialidades emergentes - com forte ênfase na conservação ou usufruto da natureza - e as que derivam dos projetos dominantes expressados em mecanismos de integração regional e relações interestatais da América Latina. Entre os exemplos, destacam-se a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-americana (IIRSA), vinculada ao Conselho Sul-americano de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN) da UNASUL, e o Projeto Mesoamérica (anterior Plano Puebla Panamá). No capítulo 9, Pablo Uc analisa os componentes da geopolítica indígena na região andina, especialmente durante a última fase do ciclo de emergência indígena-originária reconhecida a partir da década de 1990. A interpretação da geopolítica indígena proposta envolve uma territorialidade derivada do trinômio poder-espaço-linguagem. Por um lado, são analisadas as práticas e representações que conformam os discursos geopolíticos indígenas, originários e camponeses, com os quais têm obtido importantes conquistas na produção de espaços para a defesa da sua territorialidade, cosmovisão e organização política, assim como a modificação de estruturas e instituições estatais durante a primeira década do século XXI. 14 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina No capítulo 10, Carolina Silva Pedroso aborda a Iniciativa YasuníITT no Equador, fruto de lutas populares para manter as reservas de petróleo encontradas embaixo da terra no Parque Nacional Yasuní, parte integrante da agenda da campanha presidencial de Rafael Correa. Associado a essa iniciativa, coloca-se em destaque o processo de politização da cosmovisão indígena associada ao conceito de Sumak Kawsay (Buen Vivir) incorporado à Constituição equatoriana de 2008, como um elemento essencial para identificar a racionalidade dos atores envolvidos na dinâmica social e política do país. Nesse contexto, a Iniciativa Yasuní-ITT tornase fator desencadeador de conflitos que expressam entrecruzamento de territorialidades associadas ao uso dos recursos naturais. Os capítulos 11 e 12 completam as dimensões estratégicas propostas, abordando perspectivas estatais associadas a mecanismos de integração latino-americanos, especificamente a UNASUL e a ALBA, que têm como característica comum a preocupação em construir uma agenda capaz de expressar interesses regionais, especialmente nas relações com os Estados Unidos. No capítulo 11, Héctor Luís Saint Pierre e Diego Lopes da Silva consideram que se bem a integração sul-americana não é de per si um indício de autonomia decisória regional ou de aumento da soberania regional, tanto a UNASUL, como seu Conselho de Defesa Sul-americano (CDS), com poucos anos de vida, baixa institucionalidade e excepcional voluntarismo, tem avançado na construção da confiança, operando com rapidez e eficácia em diversas crises, como a interna à Bolívia, na região de Pando; o ataque por forças colombianas à região da Angostura em território equatoriano e o intento norte-americano de utilizar as bases militares na Colômbia. Hoje pode se dizer que, embora a região não esteja imune a crises e conflitos, há mecanismos institucionais que permitem certa prevenção diplomática e ações mais rápidas para resolver as controvérsias dentro da sub-região. No capítulo 12, Carlos Oliva Campos indaga as experiências acumuladas pela ALBA, avaliando o papel preponderante que tem a dimensão política dentro do projeto, resultando em um referente no aporte de ideias para a adoção de decisões que façam avançar a integração regional. Por outro lado, ao gerar fortes percepções e ações de segurança em nível hemisférico, dada sua perspectiva anti-hegemônica e de confrontação com Estados Unidos - com o consequente juízo crítico que 15 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina recebe desse governo e dos seus aliados na região - tendem a se impor distâncias e reservas sobre as experiências positivas aportadas pela ALBA, que poderiam ser incorporadas desde uma perspectiva aberta e sem alinhamentos políticos pré-condicionados. Fechando o livro, o Apêndice de Adalton Oliveira apresenta um conjunto de quadros que dimensionam os conflitos entre empresas e sociedade civil na Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e República Dominicana. Na mesma perspectiva dos quadros sobre países sul-americanos elaborados pelo autor para o volume anterior Territorialidades, conflitos e desafios à soberania estatal na América Latina, mencionado no início da apresentação, as disputas associadas ao impacto ambiental ocupam o centro da cena. O Apêndice opera como exemplo síntese das análises desenvolvidas nos doze capítulos, evidenciando um cenário regional em que o entrecruzamento de soberanias associadas a territorialidades nãoestatais desafia na sua conflitividade concepções de governabilidade cuja referência limitante é o Estado-nação. Nessa perspectiva, a visão estratégica estadunidense mostra-se capaz de identificar na sua geopolítica hemisférica uma diversidade de “ameaças” sub e supranacionais aos seus interesses, com a consequente implementação de programas de intervenção. Contrariamente, os mecanismos de integração latino-americana analisados encontram-se num estágio incipiente em termos de agenda comum de segurança, ao mesmo tempo em que demonstram dificuldades de interlocução com as geopolíticas indígena e camponesa, diferentemente da disposição manifesta para formular e implementar ambiciosos projetos de infraestrutura com decisivo protagonismo do capital privado. Para a publicação do livro, contamos com o apoio de diversas instituições: agradecemos ao selo Cultura Acadêmica, ao Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL) do Memorial da América Latina e à Fundação Friedrich Ebert. Luis Fernando Ayerbe 16 CApÍtuLo 1. o HemiSFÉrio oCiDentAL SoB A perSpeCtiVA DoS ConFLitoS em eSpAçoS De CLiVAGenS territoriAiS ou AS CHAmADAS áreAS não-GoVernADAS MARíLIA CAROLINA SOUzA O desencorajamento do conflito interestatal no pós-Guerra Fria e iniciativas para a Zona de Paz no Hemisfério Ocidental A segurança internacional do contexto do pós-Guerra Fria tem sido um campo fértil de debates, especialmente pelo advento de tendências de desencorajamento da utilização da força militar para a resolução de conflitos. Nesse contexto, seja em decorrência do paradigma da MAD (Mutually Assured Destruction) sob a rationale nuclear, seja pela tentativa de recomposição da ordem mundial pelas mãos americanas, a região do Hemisfério Ocidental tem sido permanentemente desencorajada a resolver conflitos por meio do uso da força. Tais desdobramentos na região reduziram a níveis mínimos as intenções conflitivas interestatais, tendência que pode ser observada, entre outros parâmetros: (I) pela adesão e ratificação do TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), (II) pelo aprofundamento de processos de integração regional, (III) bem como a criação de novas instituições com a proposta de não apenas aprofundar iniciativas para o desenvolvimento, como também declarar publicamente a não-intenção hostil entre os Estados. Esses exemplos podem ser verificados com a criação da UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), em 2008, e, em seu arcabouço constitutivo, o Conselho de Defesa Sul-Americano: uma importante iniciativa 17 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina de resolução de conflitos sem a utilização do uso da força na América do Sul. A CELAC (Comunidades de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), por sua vez, criada em 2010, já apresentou em sua segunda cúpula em 2014 uma Carta conjunta em que as lideranças políticas reconhecem-se como “zonas de paz” e apresenta-se como uma alternativa à presença americana na OEA (Organização de Estados Americanos) que, por sua vez, segue como um espaço de diálogo diplomático hemisférico, embora sem muitos resultados efetivos na resolução de conflitos. Entretanto, o fato de haver o desencorajamento para o uso da força militar entre países não significa afirmar que a região assiste a um período de paz. De fato, a violência crescente que se observa no início do século XXI exibe, por um lado, raízes intraestatais localizadas dentro de fronteiras formais de Estados, envolvendo grupos não estatais armados; em alguns casos, tais grupos apresentam conexões regionais e, até mesmo, conexões transnacionais. À primeira vista, pode-se ter a impressão de que essa violência é, portanto, um problema exclusivamente doméstico, já que ocorre, a princípio, dentro do território de um Estado. Porém, como se demonstrará mais adiante, os conflitos intraestatais, mesmo que não enquadrados com a devida relevância nas clássicas teorias de segurança internacional, têm sido considerados ameaças à sociedade internacional. Max Weber define o Estado como uma “organização que clama o monopólio do uso legítimo da força física dentro de certo território” (Weber, 1968, apud Frödin, 2010). O Estado, assim, seria dotado de soberania, exercida sobre um delimitado território e a um determinado número de pessoas. Sendo essa unidade considerada coesa e monolítica, apenas a autoridade central do Estado exerceria de forma plena o monopólio da força por todo o território sobre o qual possui jurisdição. Complementando essa conceptualização, sob uma percepção realista, dir-se-ia que o Estado se constitui como unidade de proteção de seus nacionais frente à anarquia do sistema internacional, marcada por hostilidades, desconfiança e constante ameaça. Por esse motivo, Estados que, por vezes, se constituam como uma autoridade política centralizada, apresentam em seus territórios espaços com baixa governança que, por vezes, coincidem com seus espaços de fronteira, apresentam graus de “fragilidade estatal”. Em última instância, sob tal lógica, os chamados “Estados falidos” são unidades políticas em 18 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina que a autoridade considerada central falha em praticar sua governança de forma eficiente em todo o território nacional. A natureza de tais espaços de clivagens é altamente sensível a conflitos e gera desafios políticos concertados não somente no âmbito doméstico, mas, por vezes, regional e, em casos de incidência de crimes transnacionais, necessita de uma concertação hemisférica. O não conflito interestatal e os desafios impostos pelos Black-Spots: espaços de clivagens no Hemisfério Ocidental Quando nos referimos a Estados falidos, podemos verificar o caso da Somália, que desde 1992 enfrenta grave instabilidade política. Apesar de haver no país uma autoridade reconhecida como legítima por boa parte da comunidade internacional – o Transitional Federal Government (TFG) –, pode-se dizer, desde a abordagem realista, que impera na região uma anarquia, considerando que esse governo controla uma porção territorial bastante pequena e não consegue prover à população da área bens e serviços públicos essenciais de forma minimamente satisfatória (Bruton, 2009). Porém, há casos como o México, país que, segundo Frödin (2010), está prestes a ser também considerado um Estado falido que, diferente da Somália, possui um governo constitucionalmente eleito e reconhecido pela população, mas enfrenta um grave problema com relação a cartéis de drogas que foge do controle estatal. Como é possível, entretanto, classificar da mesma maneira a Somália e o México, quando esses países apresentam deficiências tão distintas? O conceito de falência estatal, na verdade, deve ser aprofundado, pois não revela as particularidades de cada caso. No México, por exemplo, a “falência” não diz respeito ao controle da maioria do território do país ou ao provimento de bens públicos essenciais à maior parte da população – como é o caso da Somália –, mas sim, ao combate aos cartéis de drogas, que têm controlado consideráveis porções de espaço urbano. Desse modo, a denominação “Estado falido” apenas generaliza um aspecto: o da existência de alguma forma de fracasso de governança por parte das instituições formais do governo central do país. Há, contudo, diversos níveis de fragilidade que não são identificados em tal classificação. Primeiramente, cabe distinguir governo de governança. De acordo com James Rosenau (2000, p. 15), governo “sugere atividades sustentadas 19 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina por uma autoridade formal, pelo poder de polícia que garante a implementação das políticas devidamente instituídas”. Esse conceito se relaciona com aquele tradicional de Estado, já que também existe aqui o reconhecimento de uma autoridade central que, detendo o monopólio do uso legítimo da força, ordena uma sociedade por meio de instituições a ela vinculadas. Governança, por outro lado, não depende da existência desse ente centralizador para existir. Trata-se especificamente do ordenamento de uma sociedade, seja por meio de instituições formais do governo ou informais. Como afirma Rosenau (p. 15), governança: (...) refere-se a atividades apoiadas em objetivos comuns, que podem ou não derivar de responsabilidades legais e formalmente prescritas e não dependem, necessariamente, do poder de polícia para que sejam aceitas e vençam resistências. [...] [Governança] abrange instituições governamentais, mas implica também mecanismos informais, de caráter não governamental, que fazem com que as pessoas e as organizações dentro de sua área de atuação tenham uma conduta determinada, satisfaçam suas necessidades e respondam às suas demandas. Complementa, ainda, o autor (p. 16): [Governança] é um sistema de ordenação que só funciona se for aceito pela maioria (ou pelo menos atores mais poderosos do seu universo), enquanto os governos podem funcionar mesmo em face de ampla oposição à sua política. Assim, governança seria sinônimo de “ordem”, enquanto governo diria respeito à implementação dessa ordem por meio de uma autoridade central legitimamente reconhecida. No caso dos Estados falidos, dir-se-ia que o que falha é a governança exercida pelo governo, no sentido de que as instituições formais do país não possuem legitimidade ou efetividade em organizar certos setores da sociedade. Contudo, essa ausência de controle governamental não pode ser tida como sinônimo de falta de governança alguma ou caos. A Somália é um bom exemplo para elucidar essa questão. O TFG tem pouco controle sobre o território somali (Bruton, 2009), fazendo com que sua ordem institucional formal não chegue à boa parte do país. Contudo, nas regiões que carecem de controle governamental, acaba vigorando ou- 20 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina tro tipo de governança, exercida por grupos locais, clãs, senhores de guerra, entre outros. É o caso da Somalilândia – região separatista ao norte da Somália. Nesse território, a governança formal foi substituída por normas e iniciativas locais. Por meio de políticas descentralizadas e privatizações de serviços públicos, a população da área tem acesso a bens que o governo central do país não oferece. Há, desse modo, uma governança informal em vigor (Frödin, 2010). Assim, em muitos casos, a ausência de instituições formais não implica em um caos anárquico, como se poderia supor. Portanto, falência do Estado equivale à ineficácia ou até a ausência de governança por parte de instituições formais estatais. Entretanto, é necessário observar em quais aspectos o governo falha em exercer sua governança e de quais fontes têm emanado a ordem nas regiões onde carece a presença formal do Estado. Nesse sentido, até mesmo países mais desenvolvidos do capitalismo podem apresentar algum grau de falência estatal, já que o fracasso de governança pode estar localizado em um setor específico, enquanto os demais funcionam bem – por exemplo, falhas em prover segurança em determinadas áreas, enquanto os sistemas de educação e saúde públicos operam sem grandes problemas. Ao se ampliar o conceito de Estados falidos, é possível enxergar em que setores a governança estatal é deficitária, bem como qual é o grau de fragilidade institucional apresentado por certo governo. Por esse exercício, é possível identificar casos típicos de falência estatal, como é apresentado por Stanislawski. Como já se afirmou, nos Estados falidos há áreas que não são controladas pelo poder formal estatal. Nessas, vigora geralmente a autoridade não democrática de certos grupos, podendo eles, inclusive, ser de natureza ilícita – caso de grupos terroristas. Desse modo, apesar da falta de controle governamental, há de fato uma governança estabelecida nesses territórios. Stanislawski (2008), aprofundando a discussão sobre os Estados falidos, classificou esses territórios em quatro categorias, considerando-os possíveis sintomas de um para-state (ou Estado deficiente). São eles: black spots, as-if states, almost-states e states-within-states. Black spots (ou buracos-negros) são áreas localizadas dentro de um Estado, sobre as quais o governo formal não exerce governança alguma. O tipo de ordem vigente nesses territórios é, quase sempre, desconhecido tanto por parte das autoridades governamentais como pela comunidade internacional. Desse modo, as agências de segurança nacionais têm pouca supervisão sobre os black spots, que se tornam terrenos propícios para que 21 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina grupos terroristas e criminosos desenvolvam livremente suas atividades ilícitas. O México é um exemplo de país que possui black spots, já que há regiões em que o poder do Estado não vigora – caso de Ciudad Juárez, onde grupos de narcotráfico impõem suas próprias normas de convivência. As-if states (ou pseudo-Estados), por seu lado, diz respeito a Estados juridicamente reconhecidos pela comunidade internacional, mas que, na prática, não conseguem desempenhar esse papel. São países fragmentados internamente, com sérias falhas de governança formal, onde instituições informais acabam ocupando o vácuo de poder deixado pela autoridade central. Essa denominação é a que mais evidencia um Estado falido, tendo como exemplo o Afeganistão, que, apesar de internacionalmente reconhecido como sujeito do Direito Público Internacional, possui um governo central que não consegue controlar todo o território sob sua jurisdição. A terceira classificação, almost-states (ou quase-Estado), é praticamente oposta à anterior. Um almost-state é uma unidade política encrustada em um Estado reconhecido internacionalmente, buscando necessariamente independência. Dentro de seu território, esse “quase-Estado” exerce sua própria governança de forma autônoma àquela do Estado do qual formalmente faz parte. Assim, enquanto um “pseudo-Estado” possui soberania externa, mas falha em exercê-la internamente, um “quase-Estado”, apesar de carecer de reconhecimento internacional, aplica, de fato, sua governança em seu território, com o consentimento de seu Estado “anfitrião”. Exemplificam a definição os casos de Nagorno-Karabakh (região separatista do Azerbaijão) e a Abecásia (na Geórgia). Por fim, os states-within-states (Estados dentro de Estados) são unidades que, como os almost-states, gozam de boa autonomia com relação a seus governos formais, porém, com a diferença de nesse caso não haver busca por independência. Na Rússia há exemplos de regiões que, por suas particularidades sociais e étnicas, possuem suas próprias instituições operando com relativa liberdade. São repúblicas autônomas, reconhecidas pelo poder central russo (Pelczynska-Nalecz, Strachota, Falkowski, 2008). Mesmo essas classificações sendo ainda bastante generalistas, já é possível por meio delas ampliar a ideia de falência estatal. Primeiramente, a usual aplicação do termo “Estado falido” não revela o grau de fragilidade que a governança estatal apresenta. Além disso, mesmo países que não sejam considerados internacionalmente como falidos podem apresentar deficiências em suas instituições. 22 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Desse modo, a desconstrução da ideia de que os Estados são unidades fechadas e plenamente capazes de exercer de forma exitosa sua soberania sobre seu território, somada a essa ampliação conceitual de falência estatal, abre espaço para que se estabeleça uma relação entre falhas de governança estatal e segurança internacional. Elucida essa questão o caso dos black spots, áreas que, apesar de parecerem, a princípio, um problema exclusivamente doméstico, costumeiramente se constituem como uma questão de segurança internacional. Como já foi citado, os black spots podem estar localizados em países desenvolvidos ou em desenvolvimento, apresentando diversas dimensões territoriais possíveis. São formados em locais em que há um déficit de governança do Estado, que não garante os serviços básicos à população dessas regiões, fazendo com que o vácuo governamental seja logo preenchido pela autoridade informal de diversos grupos, por vezes envolvidos na criminalidade. Nesse caso, tais grupos se beneficiam não só da falta de controle governamental, mas também da globalização, cujo avanço tecnológico nas áreas de transporte e comunicação, além de relativizar a imponência das fronteiras do Estado, oferece novos meios para a prática de crimes. Assim, se as atividades desenvolvidas nos black spots dificilmente são de conhecimento do governo central do país ou da comunidade internacional e os grupos que as praticam geralmente não respeitam ou não reconhecem fronteiras nacionais, logo, atos ilícitos podem transbordar com mais facilidade os domínios do Estado anfitrião. Desse modo, ao mesmo tempo em que os Estados se mantêm enraizados em sua conceptualização clássica, fechados em princípios como soberania, autodeterminação dos povos e não-intervenção, atores ilícitos expandem o escopo de suas atividades, contornando as limitações estatais. Levando-se em consideração o fato de as guerras entre Estados serem mais raras e a violência estar se manifestando com mais força em áreas em que falha a governança estatal – caso dos black spots –, é necessário que as teorias de Relações Internacionais visualizem outros atores além dos Estados no que tange à segurança coletiva. Segundo Rosenau (2000, p. 376): Os Estados ainda predominam; seus interesses, seus conflitos, suas barganhas e suas instituições modelam o rumo dos acontecimentos nos campos político, militar e na diplomacia econômica. Mas essa predominância 23 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina diminui à medida que a tecnologia eletrônica e de transporte ampliou a autonomia das diversas coletividades existentes no mundo multicêntrico, multiplicando o número e o tipo das transações realizadas por meio das fronteiras nacionais sem participação ou influência dos Estados. Essas palavras são aplicáveis no campo da segurança internacional. É o caso de grupos terroristas e criminosos, que também se beneficiam da globalização, internacionalizando suas atividades ao mesmo tempo em que contribuem para a fragilização das fronteiras e da segurança nacionais. Observa-se uma tendência geral por parte dos governos de perceberem alguns atores que operam em black spots – tais como os grupos citados anteriormente – como ameaças à segurança internacional, devendo isso ser considerado nas teorias e paradigmas mais recentes na academia de Relações Internacionais. Contudo, não cabe nas finalidades deste trabalho julgar a legitimidade ou eficácia das intervenções internacionais. O que se deseja ressaltar é que, com a diminuição dos conflitos interestatais, alguns grupos não governamentais, localizados em territórios cuja governança estatal falha, passam a ser os novos inimigos, principalmente das grandes potências mundiais, que os veem como ameaças à segurança internacional. Portanto, se os governos têm incluído no rol de sujeitos desestabilizadores da ordem internacional grupos criminosos que operam, sobretudo em black spots, pode-se introduzir, a partir dessa concepção, formas contemporâneas de conflitos nas definições de guerras internacionais. Torna-se importante ressaltar que o conceito de black spots tem a mesma significação que área não-governada ou espaço não-governado, que por vezes aparecem de forma conjunta em documentos oficiais e em literatura estadunidense, porém em língua portuguesa consideramos adequado denominar em paralelo de áreas não-governadas. O desafio conceitual dos conflitos internacionais contemporâneos Como já se pôde observar, o fenômeno da guerra tem sido convencionalmente visto nas Relações Internacionais como um conflito que deve envolver, necessariamente, pelo menos dois Estados em oposição (ou forças que, embora não pertençam diretamente ao Estado, o representem), já que esses seriam os principais atores do sistema internacional. 24 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Porém, a partir do momento que governos reconhecem outros atores – inseridos no território de um Estado que falha em exercer sua governança – como também capazes de desestabilizar a segurança internacional, deve-se ampliar o conceito tradicional de guerra, de modo que novos tipos de conflitos internacionais sejam percebidos. Tatiana Moura, em capítulo intitulado Novíssimas guerras à margem das novas guerras?, percebe pelo menos duas grandes modalidades contemporâneas de conflitos internacionais que contrariam as definições clássicas de guerra. A primeira é classificada como “novas guerras”, caracterizadas pelo envolvimento de grupos tanto estatais como não estatais em luta armada. Embora vários e diferentes casos possam ser incluídos nessa categoria, há em comum a todos eles o fato de a oposição (ou clivagem) ocorrer essencialmente entre um ou mais Estados e grupos não governamentais; ou seja, nessas novas guerras, não há embates entre Estados, mas sim, entre grupos domésticos e governos. O mais comum nessas situações é a existência de organizações que, por meio do controle de territórios e recursos estratégicos, disputam com a própria autoridade central de seu país o monopólio do uso da força. Assim, o interesse maior desses grupos domésticos seria afrontar o poder do Estado, almejando substituí-lo. Exemplo disso seriam as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que lutam para colocar em prática na Colômbia um novo modelo de organização política e socioeconômica. Desse modo, seriam considerados terrenos propícios para o irromper das novas guerras os black spots, os as-if states e os almost-states, característicos de Estados que apresentam alguma debilidade de governança. Já a segunda modalidade, apontada por Tatiana Moura, é denominada de “novíssimas guerras”, dada a atualidade desses conflitos e a baixa cobertura teórica que eles ainda têm nas Relações Internacionais. As novíssimas guerras, assim como as novas guerras, envolvem grupos não estatais, ocorrendo principalmente em black spots. Entretanto, nesse caso, as organizações envolvidas não demonstram inclinação em afrontar ou substituir o poder do Estado, mas sim, de evitar que este interfira nos lucros de suas atividades ilícitas. Trata-se da violência urbana, predominante em grandes cidades de países emergentes. A falha na governança por parte das autoridades centrais do Estado acaba gerando nesses locais pequenos black spots, situados geralmente em periferias onde as forças policiais não chegam e, por con- 25 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina sequência, acabam vigorando normas sociais paralelas às formais. Nesses black spots operam com frequência gangues e narcotraficantes, que buscam expandir sua influência por regiões estratégicas e obter lucros com suas atividades ilícitas. Para tanto, utiliza-se constantemente a violência. Contudo, se no caso das novas guerras é mais fácil enxergar uma relação com as Relações Internacionais, considerando que há uma ameaça direta e declarada à soberania do Estado por parte de grupos não-estatais, o mesmo não ocorre com as novíssimas guerras. Ora, se estes confrontos ocorrem especialmente nas cidades, por que se deveria considerá-los assunto das Relações Internacionais? Há, todavia, pelo menos três motivos para incluí-las nas formas internacionais de manifestação de violência. Em primeiro lugar (I), o crescimento da violência urbana tem sido uma tendência geral principalmente nos países emergentes. As metrópoles, que experimentaram um crescimento demográfico e econômico explosivo nas últimas décadas, se desenvolveram com profundas desigualdades sociais, o que, somado às falhas de governança estatal em determinadas regiões, contribuiu para o aumento da violência. Em segundo lugar (II), muitos dos grupos criminosos que operam nesses black spots urbanos se sustentam por atividades ilícitas que envolvem outros países – caso do tráfico internacional de drogas. Finalmente (III) – e com ainda mais evidência –, destaca-se o fato de muitos de esses grupos criminosos operarem de forma transnacional, não reconhecendo fronteiras estatais e operando em diversos territórios nacionais. O caso das “Maras” na América Central As Maras (ou pandillas, termo em espanhol que corresponde a gangues), são gangues urbanas formadas especialmente por jovens do sexo masculino, que se reúnem em torno de uma identidade e de um senso de solidariedade e irmandade comuns. Esses grupos são usuais nos países da América Central, sobretudo naqueles que compõem a região chamada de Triângulo Norte – sendo eles Guatemala, Honduras e El Salvador –, desenvolvendo suas atividades predominantemente nas periferias das grandes cidades desses países1. As maras têm sido vistas tanto pelos governos locais como pelos 26 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Estados Unidos como as principais responsáveis pelos surtos de violência que as cidades da região têm experimentado nas duas últimas décadas. Esses grupos são frequentemente associados a crimes como o tráfico de drogas, armas e pessoas, extorsões, sequestros e homicídios, o que justifica a adoção de políticas governamentais repressivas contra eles principalmente a partir de meados da década de 20002. Levando em consideração que as pandillas são um fenômeno regional, esforços multilaterais passaram a ser coordenados nos últimos anos. Governos centro-americanos, com o apoio de agências de segurança estadunidenses, têm cooperado em ações de segurança regional contra as maras, fazendo com que não só medidas domésticas fossem adotadas. Entre 2005 e 2007, por exemplo, realizaram-se em El Salvador três Cúpulas Antimaras, como foram denominadas. Participaram dessas reuniões autoridades de segurança pública dos países da América Central, México e Estados Unidos, nas quais se buscou traçar estratégias de combate regional às maras, o que inclui a troca de informações de inteligência e a identificação de suspeitos ou acusados de delitos (Aguilar & Carranza, 2008). Desse modo, as maras têm sido vistas pelas autoridades da região como grupos envolvidos essencialmente em atividades criminosas e que, apesar de não almejarem tomar o poder estatal como fazem as guerrilhas na América do Sul, buscam o controle de certas regiões urbanas para desenvolver seus negócios e obter riqueza e prestígio, consequentemente perturbando a segurança na região. Ilustraria essa percepção o caso da Mara Salvatrucha 13, considerada uma das maiores maras do mundo. A Mara Salvatrucha 13 (ou MS 13), apesar do nome, foi constituída em Los Angeles, Estados Unidos, no início da década de 1990, estabelecendo-se em El Salvador somente anos depois de sua fundação. Essa mara possui representantes em diversos países da região – incluindo os Estados Unidos –, cometendo delitos de forma transnacional. Para tanto, beneficia-se tanto dos avanços tecnológicos da globalização como das fragilidades dos Estados, estas relacionadas tanto à democracia – caso dos países centro-americanos, cuja transição democrática ainda é incipiente e marcada pela corrupção – como à própria constituição exclusivista do Estado, preso à sua soberania e leis quando, sozinho, não consegue combater um grupo criminoso transnacional (Bruneau, 2005). O combate multilateral a maras como a MS 13 ilustra a definição de novíssimas guerras de Tatiana Moura, já que há a presença de grupos 27 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina não estatais que se envolvem com a violência urbana e, mesmo que não almejem afrontar o poder de Estados, são combatidos por eles, pois suas práticas são consideradas como perturbadoras à segurança internacional. Entretanto, é importante ressalvar que a periculosidade das maras descrita faz parte da percepção que os Estados da região têm sobre elas, algo, desse modo, passível de ser questionado. Jeannette Aguilar e Marlon Carranza são exemplos de autores que não compartilham dessa visão. Segundo eles, é um equívoco adotar uma abordagem tão simplista com relação às maras, condenando-as por todos os males que a América Central tem passado. Primeiramente, os autores chamam a atenção para as particularidades que há entre os próprios países do istmo centro-americano. A atividade das pandillas difere com relação aos países do Triângulo Norte e os demais da região. Em países como a Nicarágua e Costa Rica, por exemplo, esses grupos mantiveram suas características tradicionais, tendo elas a predominância de membros adolescentes do sexo masculino, de idades entre 16 e 17 anos, a ausência de estruturas organizacionais e a prática de delitos leves (quando praticados) como pequenos roubos e depredação de patrimônio público. Por outro lado, em El Salvador, Honduras e Guatemala, muitas pandillas têm mostrado características diferentes, como o aumento da faixa etária de seus membros, um maior nível de organização (com lideranças mais bem definidas e delegação de tarefas) e a prática de delitos mais graves, como o tráfico de drogas e homicídios. Dessa forma, seria importante não fazer generalizações acerca das maras, observando as particularidades de cada caso. Entretanto, Aguilar e Carranza, como se viu, reconhecem que nos anos 2000, algumas maras do Triângulo Norte passaram a se modernizar quanto à sua organização e a adotar práticas mais violentas em suas operações, sendo a MS 13 (e sua rival, a Barrio 18) a principal. Contudo, os autores alegam que muito dessa mudança nas características tradicionais desses grupos se deve à ação dos próprios Estados na região, que praticamente de forma arbitrária passaram a reprimir os pandilleros, adotando uma espécie de combate preventivo a eles, como é o exemplo de El Salvador com a criminalização do pertencimento a maras. Assim, seriam as próprias políticas governamentais de tolerância zero que fomentariam a violência das maras, que teriam que agir dessa forma para garantir sua própria sobrevivência. 28 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina De qualquer modo, observa-se que há a percepção por parte dos Estados de que as maras são um problema de segurança coletiva para a região centroamericana, seja isso legítimo ou não. As maras exporiam, concomitantemente, falhas de governança por parte dos Estados – como a incapacidade de lidar com esses black spots urbanos – e a dimensão internacional que a violência urbana tem adquirido. A adoção de medidas multilaterais para combater esses grupos é um retrato das novas formas de conflito que aparecem após o final da Guerra Fria, algo ainda pouco abordado nas teorias de Relações Internacionais. Os desafios do México perante os Cartéis de Drogas: a escalada da violência O México tem apresentado nas últimas décadas dificuldades em conter os conflitos que envolvem diferentes grupos de Cartéis de Drogas e, desde o governo Vicente Fox, em 2005, ações contra tais grupos têm sido intensificadas. Essas ações centraram-se na apreensão dos principais líderes de cartéis, o que gerou um desequilíbrio entre os diferentes grupos, gerando uma disputa ainda mais acirrada, sobretudo entre o Cartel de Sinaloa e o Cartel do Golfo. Com efeito, entre 2005 e 2007 a violência no estado mexicano aumentou consideravelmente. (Chabat, 2010:3) Com Felipe Calderón no poder, a violência passa de fato a ser vinculada aos cartéis de drogas no país e o presidente lança mão de programas com caráter político-militares para restabelecer o controle de diversas regiões. Preocupações com os efeitos do aumento da militarização da região fizeram com que os Estados Unidos criassem a Iniciativa Mérida em 2008, com características muito semelhantes ao Plano Colômbia, vigente desde 2000 no país, que previa um investimento de U$1,4 bilhão de dólares, e de forma excepcional, o presidente Calderón reconheceu a incapacidade do Estado em lidar com o problema, acatando a Iniciativa Mérida. (Chabat, idem) Tais eram as frentes de atuação dessa iniciativa: (I) o combate ao narcotráfico e ao terrorismo; (II) a segurança pública e a aplicação da lei; e, por fim, (III) a construção institucional do Estado de Direito; sendo essa última marcante por se relacionar com o fortalecimento democrático e governança com justiça e democracia. (Chabat, idem) Ao se analisar os resultados da Iniciativa Mérida, fica evidente que a maior militarização das forças de combate ao narcotráfico ao invés de enfraquecer os cartéis acabou por gerar uma maior inserção e corrupção do Estado pelos cartéis. Em outubro de 2008, por exemplo, descobriu-se 29 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina que uma rede de funcionários de alto nível foi corruptível ao Cartel Los Hermanos Bertrán Lyva. (Chabat, idem) Conforme anteriormente discutido, o México apresenta um alto grau de fragilidade estatal, em decorrência da ação dos cartéis de droga, que fogem do controle estatal, e o Estado busca retomar o controle de tais espaços urbanos, dominados por esses grupos. (Frödin: 2010) Portanto, para a compreensão das dinâmicas de tais espaços, torna-se relevante a elaboração teórica das áreas de clivagens e espaços não-governados, ou black spots. Percebe-se que, em tais áreas, a ação de grupos criminosos no México tem se adensado progressivamente, conforme o Estado diminui seu alcance e seu papel enquanto gestor de segurança pública. Sullivan e Elkus apontam para a proliferação de cartéis a partir dos anos 2000 e observam a situação mexicana diante de tal cenário: O México está em uma encruzilhada. Existe uma possibilidade de o México vir a se tornar um estado criminoso, com a atividade criminosa dominando o sistema político mexicano. O Cartel de drogas pode se tornar tão profundamente enraizado no interior do estado mexicano que arrancá-lo significaria guerra civil. Tal resultado se prova desastroso para os interesses norte-americanos. (Tradução Livre) (Sullivan & Elkus, 2010) Observa-se, em paralelo, uma sofisticação do alcance dos grupos narcotraficantes: (I) Primeira Geração Relva: Previa a formação de gangues, sendo influenciados por uma violência que toma conta de bairros e cidadelas. Tais gangues possuem suas próprias leis e regularidades perante o comando de uma ou poucas pessoas; (II) Segunda Geração Mercado: Formação de gangues com grande influência perante o mercado de drogas. Praticam violência para inibir a ação de outras gangues e para proteger seu mercado. E, finalmente, (III) Terceira Geração Política/Mercenária: Visa o envolvimento político e pretende operar na esfera global usando formas mais sofisticadas de ganho de poder. (Sullivan, 2009) Da mesma forma, é também possível observar que, à medida que os espaços de clivagem vão se adensando, a natureza da ação violenta dos cartéis e seus objetivos vão também se intensificando: (idem) I. Primeira Fase (Competidor Agressivo): Essa fase originou-se na Colômbia durante a década de 80 e pode ser caracterizada 30 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina pela forma como o Cartel de Medellín agia e desafiava a ordem westfaliana pela sua propensão à utilização de violência extrema e disposição para desafiar a autoridade estatal; II. Segunda Fase (Concertação Sutil): Essa fase também pôde ser observada na Colômbia, mais especificamente no Cartel de Cali, onde as lideranças são mais pulverizadas e organizadas em rede. Portanto, era mais difícil para as autoridades localizarem seus líderes, bem como as ações visavam à corrupção mais diretamente, em detrimento de ações violentas e abertas. Esse tipo de operação pôde ser observado no México na Federação Mexicana, formada pelos quatro grandes grupos de Cartéis: Tijuana, Sonora, Juárez e Gulf. III. Terceira Fase (Sucessor Criminoso do Estado): Essa fase ocorre quando e se os Cartéis emergem, exercem um significante desafio ao Estado e suas instituições. Tal fase é uma consequência da corrupção disseminada em agências estatais, e mesmo nos atores policiais e militares do Estado. Essa fase é a mais profunda em termos de alcance dos grupos criminosos em que esses se assemelham mais a “senhores da Guerra” e dominam esferas estratégicas do Estado. A escalada de violência no México tem sido analisada por alguns autores como sendo de ordem sistêmica. Viridiana Rios (2012) apresenta dois argumentos centrais para tal escalada: (I) a emergência de batalhas (competição) em disputas por territórios entre os cartéis de drogas e (II) resultados das operações de fortalecimento da lei (enforcement). (Rios, 2012) O primeiro argumento demonstra uma mudança da dimensão oligopolista do Mercado de drogas para a dimensão competitiva. O sistema competitivo assiste a mais de um grupo atuando nas mesmas áreas, o que torna a atuação dos cartéis mais difícil, pois precisam lançar mão de mais recursos de corrupção e diminui a fração do mercado consumidor, bem como diminui a zona de influência de que dispõem. (Rios, idem) O Segundo argumento refere-se às respostas militares do Estado contra grupos criminosos e, sob tais ações, os confrontos com utilização de violência aumentam nos espaços urbanos, com mortes de policiais, de traficantes, e, por vezes, de civis inocentes; o que gera uma dinâmica chamada autorreforço de equilíbrio contra a violência. (Rios, idem) Sejam fatores micro ou macrossistêmicos, a escalada de conflitos no México enquadra-se no aprofundamento das dinâmicas dos espaços 31 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina não governados, ou Black-Spots, pois esses são justamente os focos de disputa entre os cartéis de drogas e, mesmo sob a ação militar estatal, percebe-se uma tentativa intensiva do Estado de “retomar” o controle de tais regiões, e não de “reforçar” sua presença em tais regiões, o que seria aceitável se o Estado tivesse controle de tal território. Reflexões sobre os conflitos contemporâneos e sua relação com Território, Sociedade e Governança Por tudo o que foi considerado até aqui, pode-se dizer que há alguns conceitos que devem ser incorporados ao arcabouço teórico das Relações Internacionais, para que seja possível compreender a nova relação entre território, estado e governança que se impõe no séc. XXI, especialmente no que se refere aos conflitos internacionais contemporâneos. As falhas de governança dos Estados, que facilitam o surgimento de áreas como os black spots e áreas não-governadas, somadas aos efeitos da interdependência e globalização sobre as fronteiras estatais, permitem que novos atores tenham um papel mais relevante nas questões de segurança internacional. A percepção por parte dos Estados da violência urbana como um problema internacional, como se evidencia no caso das maras centro-americanas e dos cartéis de drogas mexicanos, justamente reforça a participação de novos atores inclusive em uma agenda que sempre foi exclusiva dos Estados, como é a de segurança. As chamadas novíssimas guerras, tema ainda incipiente nas academias de Relações Internacionais, podem fazer as análises macro, características da área, serem direcionadas à esfera mais “micro” da vida social humana, propiciando uma importante renovação teórica. Para expor de forma mais clara essa afirmação, pode-se retomar o exemplo das maras na América Central e dos cartéis de drogas no México. Se os combates às maras na América Central e aos cartéis no México forem tipificados como casos de conflitos internacionais contemporâneos, seja por exigirem soluções concertadas entre nações, seja por receberem programas dos Estados Unidos, como a Iniciativa Mérida – considerando-se apenas a percepção que os Estados têm do caso e suas consequentes atitudes, e não os julgamentos a respeito da legitimidade dessas ações –, pelo menos dois efeitos em termos de análise poderão ser percebidos. 32 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Primeiramente, colocar-se-á foco em espaços que até então estiveram sob jurisdição e responsabilidade do Estado: sejam eles os black spots e áreas não governadas, gerando um efeito de relação direta entre o plano doméstico e o internacional, sem passar pelo Estado (ator intermediário), pois esse não teve condições de gerir o espaço; em segundo lugar, a concertação multilateral de ações para tais espaços será necessária, pois a natureza dos crimes praticados, bem como a resposta à maior militarização é o chamado spread effect o que afeta Estados vizinhos, pois o conflito se pulveriza. No caso das perspectivas oriundas da América Latina e Caribe que apresentamos no início do capítulo, cabe destacar que as iniciativas multilaterais e as declarações oficiais, como da UNASUL e da CELAC, de que a região se apresenta como uma zona de Paz, são ainda insuficientes para trazer paz efetiva a essas regiões, pois a intensificação da violência demanda respostas multilaterais mais abrangentes e compreensivas no que tange aos conflitos e suas diversas dimensões: (I) doméstica com lanças transnacionais, (II) altamente violentos, com presença de múltiplos grupos armados, incluindo o Estado; (III) com enormes prejuízos econômicos em tais regiões; (IV) com crianças e adolescentes entre as primeiras vítimas; e, por fim, (V) ocorrendo em espaços sem governo ou Black-Spots concomitantemente a ações militarizadas, que, ao invés de diminuir o conflito, apenas causam o spread effect, fazendo com que esse seja diluído e difundido para outras regiões fronteiriças. Marília Carolina Souza - Doutoranda do Programa San Tiago Dantas de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e PUC/SP, Pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI-UNESP), e professora na Universidade Anhembi Morumbi. (1) Embora as principais maras operem na América Central, há muitas também nos Estados Unidos (Bruneau, 2005). (2) Leis de “tolerância zero” às maras passaram a ser adotadas em toda a região do Triângulo Norte nos anos 2000. El Salvador, por exemplo, entre tantas outras medidas, aplicou a chamada Lei Antimaras, que torna ilícito o simples pertencimento de uma pessoa a uma mara. (Aguilar & Carranza, 2008). Referências bibliográficas AGUILAR, J., CARRANzA, M. Las maras y pandillas como actores ilegales de la región. Organization of American States. 2008. Disponível em: http://www.oas.org. 33 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Acesso em: 23/01/2014 BRUNEAU, Thomas C. 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Small Wars Journal. 35 CApÍtuLo 2. o BinÔmio SeGurAnçADeSenVoLVimento nA AGenDA HemiSFÉriCA norte-AmeriCAnA LUIzA RODRIGUES MATEO A deficiência no exercício da capacidade estatal é assinalada, pela política externa norte-americana, como um dos grandes desafios à segurança internacional no século XXI. Instabilidades domésticas advindas de conflitos civis, impactos ambientais e fluxos migratórios indesejados, proliferação de armas de destruição em massa ou atividades criminosas e terroristas não mais se restringem às fronteiras dos Estados nacionais. Em um contexto de buracos funcionais na soberania estatal, os problemas de segurança se internacionalizam. Concomitantemente, novos espirais de violência são impulsionados pela lucrativa economia ilícita (tráfico de armas, pessoas, drogas), movimentos insurgentes políticos e identitários (étnico-religiosos) e pelos avanços tecnológicos (nos setores militar, de comunicação e transportes). Os principais conflitos no globo deixam de ser travados entre atores estatais, e passam a ser definidos pelo paradigma da guerra subclássica, nos chamados conflitos irregulares ou “novas guerras”. (Kaldor, 2001; Munkler, 2005) Diante do cenário de ameaças difusas, o fortalecimento dos Estados parece ser um instrumento valorizado pelas grandes potências na tentativa de resguardar sua segurança nacional, integridade territorial e estabilidade econômica. A proposta deste capítulo é pensar a estratégia dos Estados Unidos (EUA) para o enfrentamento desses desafios na última década. Os documentos estratégicos norte-americanos1 revelam a 36 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina associação entre as ameaças do século XXI e a fraqueza estatal ou mesmo a multiplicação de “áreas não governadas” em Estados formalmente estruturados, mas com déficits em sua capacidade. Desde a Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) de 2002, o governo norte-americano descreve sua atuação internacional por meio da combinação entre diplomacia, defesa e desenvolvimento. A opção por esse tripé se deve ao diagnóstico de que as lacunas na governança doméstica, em diversos Estados ao redor do globo, é fonte de instabilidade e ameaças: “Os Estados Unidos estão hoje menos ameaçados por Estados conquistadores que por aqueles fracassados.” (NSS, 2002:7).2 Ou seja, segundo a narrativa da fragilidade estatal, presente na agenda internacional norte-americana, o subdesenvolvimento se tornou uma ameaça. (Duffield, 2001, 2010) Nesse contexto, tanto o Departamento de Estado quanto o Departamento de Defesa têm se engajado nas atividades de assistência ao desenvolvimento, por meio da ajuda externa norte-americana. Nos anos 2000, observa-se uma valorização da ajuda bi e multilateral como ferramenta de política externa: aumento do volume de dólares destinados à promoção do desenvolvimento internacional e reformas institucionais para dar maior transparência e objetividade ao sistema de ajuda externa nos EUA. (Lancaster, 2007) A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês) torna-se peça central na estratégia de (re)composição das capacidades estatais por meio de projetos que se apresentam como promotores do império da lei e de instituições democráticas, abertura econômica, controle da fome e doenças, socorro em caso de desastres naturais, reconstrução pós-conflitos civis, dentre outros. No contexto hemisférico, ganham destaque os programas de ajuda externa destinados à reforma no setor judiciário, combate à corrupção, combate ao narcotráfico e acesso a serviços sociais básicos, como saúde e educação. Fraqueza estatal e “áreas não governadas” Principalmente a partir das mudanças estratégicas na política externa dos Estados Unidos após os atentados terroristas em setembro de 2001, a relação entre segurança e desenvolvimento passa a ser valorizada. A fraqueza estatal e as “áreas não governadas” são descritas como ameaça à segurança nacional estadunidense na medida em que potencializam o fluxo 37 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina descontrolado de pessoas e armamentos, atividades criminosas (como o narcotráfico e lavagem de dinheiro), dispersão de doenças, degradação do meio ambiente e infrações aos direitos humanos, dentre outros. As “áreas não governadas” são aquelas nas quais o poder central não é capaz de controlar os limites fronteiriços, influenciar a população e manter a lei e os serviços básicos. Seja devido à falta de vontade política ou ineficiência da estrutura burocrática e logística dos Estados, as áreas não governadas possibilitam a emergência de autoridades paralelas que preenchem a lacuna estatal, muitas vezes conquistando apoio de populações locais. (Gates, 2010; Lamb, 2008; Menkhaus, 2007; Rabasa et al, 2006). Na perspectiva estadunidense, essas regiões com problemas de governança podem atrair terroristas, insurgentes e grupos criminosos por terem fronteiras porosas, vigilância reduzida (devido à corrupção e à intimidação de oficiais da lei), desgaste da legitimidade política e populações vulneráveis que sucumbem às autoridades paralelas. Atores ilícitos tomariam proveito de “pontos cegos” da capacidade governamental e bolsões de descontentamento. Muitos explorariam males sociais ou afinidades étnico-religiosas e ideológicas para recrutar novos membros para suas atividades. (Mateo & Santos, 2012) Cabe ressaltar que as “áreas não governadas” não compreendem apenas áreas remotas ou refúgios geográficos (ex. montanhas ou selvas), mas também áreas urbanas, marítimas ou mesmo virtuais (ex. redes de comunicação ou transações financeiras). Os déficits de governança podem aparecer, portanto, em Estados com diferentes gradações de fragilidade, desde aqueles considerados estáveis (como Brasil, Colômbia, Venezuela, Filipinas e Indonésia) àqueles apontados como falidos (como Haiti, Somália, Iêmen e Sudão). Especificamente para a política externa norte-americana, a fragilidade estatal e as áreas não governadas ganham importância porque influenciam no combate ao terrorismo global. Segundo o 9/11 Commission Report (2004): “a linha de frente na Guerra contra o terrorismo está nesses territórios não governados”. Também segundo a Estratégia de Segurança Nacional de 2006: Estados fracos e empobrecidos e áreas não governadas não são apenas uma ameaça à sua população e um fardo à economia regional, mas também são suscetíveis à exploração por terroristas, tiranos e criminosos internacionais. Nós vamos trabalhar para apoiar Estados ameaçados, prover 38 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina alívio para crises e construir capacidade em Estados em desenvolvimento para aumentar seu progresso. (NSS, 2006: 33) À semelhança dos documentos estratégicos rubricados por George W. Bush (2001-2008), aqueles produzidos na gestão Barack H. Obama (2009-atual) também sublinham a necessidade de fortalecer a capacidade de Estados fragilizados: “A boa governança é o único caminho para paz e segurança a longo prazo”. (NSS, 2010: 26). A ausência de governos eficazes ou responsáveis na Ásia, África e mesmo nas Américas funcionaria como solo fértil para os atores não estatais engajados com o crime transacional e o terrorismo, tornando-se santuários para diversas atividades ilícitas. Ou seja, “[...] cada vez mais os desafios e ameaças emanam dos territórios de Estados fracos e em processo de falência”. (QDR, 2010: 12) O Plano Estratégico do Departamento de Estado norte-americano revela a conexão entre fraqueza estatal e o terrorismo global: “os mais intratáveis santuários terroristas existem em regiões fronteiriças ou sem governança. Precisamos desenvolver meios para negar refúgio aos terroristas.” (USDS, 2007: 12) Há ainda os Estados fragilizados que oferecem riscos à segurança por serem focos de pandemias (ex. Angola, Congo), crises humanitárias (ex. Sudão, Libéria, Serra Leoa e Burundi) ou reservas energéticas (ex. Venezuela e Nigéria). Instabilidades domésticas nesses países podem transbordar e se tornar problemas regionais ou globais. (Patrick, 2006) Destarte, a atuação dos EUA no combate às ameaças do século XXI compreende não somente instrumentos militares, mas diversos instrumentos diplomáticos, dentre os quais se destaca a ajuda externa com programas voltados ao fortalecimento da capacidade estatal. (Miko, 2004). Consoante Condoleezza Rice, Secretária de Estado no segundo mandato de George W. Bush: “No mundo atual, é impossível delinear claramente o limite entre nossos interesses de segurança, nossos esforços pelo desenvolvimento e nossos ideais democráticos.” (USDS, 2007:6) A ajuda para o desenvolvimento é entendida pelo governo norte-americano de maneira ampla, incluindo programas para o crescimento econômico, problemas globais de saúde e de meio-ambiente, reforma democrática e combate à corrupção, mitigação de conflitos e transições pós-crises civis. Segundo o relatório da USAID (2002), “Quando o desenvolvimento e a governança falham num país, as consequências encobrem regiões inteiras e se lançam pelo mundo”. Assim, a ajuda para o desenvol- 39 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina vimento é considerada uma importante ferramenta de política externa para lidar com regiões instáveis e evitar que Estados entrem em colapso. Ajuda para o desenvolvimento Os Estados Unidos são a maior fonte individual de recursos para ajuda externa. (Lancaster & Van Dusen, 2005). Os norte-americanos proveem, hoje, um quarto de toda ajuda para o desenvolvimento, doando mais que o dobro que a França, o segundo doador entre os países da OCDE3. Os Estados Unidos também são o maior doador de ajuda multilateral, responsáveis por 9% do total investido no Banco Mundial e em programas das Nações Unidas (ONU). Entre 1999 e 2009, a ajuda externa estadunidense cresceu 147% (enquanto o somatório dos países da OCDE cresceu 62%) e também cresceu a proporção do PIB destinado à assistência internacional, de 0,1% em 2001 para 0,2% em 2011. (DAC, 2011) Durante reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o presidente George W. Bush delimitou a relação entre a promoção do desenvolvimento e o combate ao terrorismo: Nós trabalhamos pela prosperidade e oportunidade porque elas ajudam a derrotar o terrorismo. A persistência da pobreza e da opressão leva à falta de esperança e ao desespero. E quando os governos falham em prover as mais básicas necessidades de seu povo, os Estados falidos podem se tornar santuários para o terrorismo. (Bush, 2002) Em 2003, Bush anunciou dois grandes programas de ajuda: o Plano Emergencial de combate à AIDS e a Corporação Desafio do Milênio. Além de uma profunda reforma organizacional do sistema de ajuda externa, a administração Bush também avançou na revitalização da USAID, que havia sofrido um processo de esvaziamento durante a década de 90, quando a agência perdeu muitos funcionários e diminuiu sua presença no exterior. Segundo Carol Lancaster (2008:1), “Desde a administração do presidente John F. Kennedy não se via tantas mudanças no volume da ajuda, seus propósitos e políticas, na organização e status da ajuda na política externa norte-americana”. O reposicionamento da USAID na grande estratégia norte-americana começou em 2002, com o relatório Foreign Aid in the National Interest 40 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina e seguiu com o importante white paper de 2004, que elencou as cinco missões da agência diante dos desafios do século XXI: Desenvolvimento Transformacional Governança democrática, crescimento econômico e capacidade humana Estados frágeis Melhorar segurança, estabilidade, capacidade institucional e modernização da infraestrutura Ajuda humanitária Desastres naturais e conflitos violentos Apoiar interesses geopolíticos Desenvolvimento em países de importância estratégica Lidar com desafios globais Doenças infecciosas e combate ao crime transnacional, tráfico de drogas, pessoas, armas e lavagem de dinheiro Fonte: USAID, 2004. Conforme apresentado no quadro acima, predominou a preocupação com o desenvolvimento voltado à contenção da fragilidade estatal e seus efeitos, o que se observa por meio da criação de inúmeras instâncias burocráticas para lidar com a prevenção de crises e prover resposta humanitária. No Departamento de Estado foi criado o Office of the Coordinator for Reconstruction and Stabilization, em 2004. Na USAID, um white paper de 2005 deu origem ao Democracy, Governance and Humanitarian Assistance Bureau e do Office of Military Affairs (para ser uma ponte institucional com o Departamento de Defesa). A Defense Directive 3000.05 impeliu, por sua vez, o Pentágono a ajudar na reconstrução de Estados frágeis: O Departamento de Defesa deve estar preparado para conduzir operações de estabilização a fim de estabelecer controle civil e segurança, restaurar ou prover serviços essenciais, reparar infraestrutura crítica ou fornecer assistência humanitária. (USDD, 2005) O engajamento com programas de combate à fragilidade estatal é um dos eixos do crescente envolvimento do Departamento de Defesa com a assistência internacional. Se no início do século XXI o Pentágono administrou 4% dos recursos orçamentários de ajuda externa, em 2005 foi o responsável por 22% da ajuda não militar estadunidense4. Voltado principalmente aos projetos de reconstrução no Afeganistão e Iraque, o Pentágono também está presente em zonas de paz onde não há presença militar dos EUA. (DAC, 2006) A administração Obama deu continuidade tanto ao nível crescente de dólares empregados na assistência internacional quanto às reformas 41 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina organizacionais (principalmente na USAID) iniciadas com Bush. No discurso proferido em Oslo, quando do recebimento do prêmio Nobel da Paz, o presidente Obama afirmou: É sem dúvida verdade que o desenvolvimento raramente se enraíza sem segurança; e é também verdade que não há segurança quando os seres humanos não têm acesso à comida, água potável, ou remédios e abrigo necessários à sua sobrevivência. A segurança não existe quando uma criança não pode almejar uma educação decente ou um emprego para ajudar sua família. A ausência de esperança pode corroer uma sociedade por dentro. (Obama, 2009) Durante a Cúpula da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, em 2010, Obama definiu a busca pelo desenvolvimento como um pilar do poder americano. Durante seu primeiro mandato, Obama inaugurou três importantes iniciativas: Feed the Future, Global Health Initiative e Global Climate Change Initiative. Em 2012, a ajuda externa estadunidense atingiu a cifra recorde de 47 bilhões de dólares. Ainda em 2010, foram lançados dois documentos que mudaram as regras do jogo na ajuda externa estadunidense: o President Directive on Global Development (PPD) e a Revisão Quadrienal de Diplomacia e Defesa (QDDR). O primeiro é uma tentativa (inédita) de reorientar a agenda de assistência internacional em todas as instâncias do governo, refundando a metodologia operacional e interpretação de objetivos na promoção do desenvolvimento. Os documentos estratégicos e discursos oficiais revelam, portanto, a manutenção e aprofundamento da abordagem 3D (com o tripé diplomacia, desenvolvimento e defesa) em vigor desde a Estratégia de Segurança Nacional de 2002. Segundo a avaliação do governo norte-americano: O desenvolvimento é indispensável na defesa dos interesses norteamericanos num mundo marcado pela crescente integração econômica e fragmentação do poder político, pela ascensão de poderes emergentes e fraqueza persistente de Estados frágeis, pelo potencial da globalização e riscos das ameaças transnacionais, e pelos desafios da fome, pobreza, doenças e mudanças climáticas. A busca do desenvolvimento é essencial para avançar os objetivos de nossa segurança nacional, prosperidade, respeito a valores universais e uma ordem internacional justa e sustentável. (PPD, 2010) 42 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Segurança e desenvolvimento no hemisfério Tendo descrito anteriormente a abordagem estadunidense associando fatores de vulnerabilidade social e de vácuo de autoridade estatal às fontes de instabilidade, motor de criminalidade e santuário para grupos terroristas, ganha destaque a lógica que orienta os programas de ajuda externa nos campos político, jurídico, econômico e social para a administração de ameaças à segurança no hemisfério. Nesse sentido, a agenda de assistência internacional, implementada pelo Departamento de Estado e pela USAID, busca aprofundar o que consideram como pilares da governabilidade na América Latina. Segundo a Estratégia para Estados Frágeis da USAID (2005), a debilidade reside na incapacidade ou no desinteresse dos Estados na provisão adequada de segurança e serviços básicos para parcelas significativas da sua população, ou aqueles cuja legitimidade governamental está em questão. Isso inclui os Estados que já faliram ou estão se recuperando de crises civis5. Segurança Política Economia Sociedade Efetividade Legitimidade Serviços militar e policial capazes de proteger as fronteiras e limitar o crime Serviços militar e policial empregados razoavelmente, sem ferir os direitos humanos Instituições e processos políticos capazes de garantir as necessidades do cidadão Processos políticos, normas e líderes aceitos pela população Intuições econômicas e financeiras e infraestrutura que comportem crescimento econômico (inclusive geração de empregos) e manejo de recursos naturais Instituições econômicas, serviços financeiros e oportunidades para geração de renda, transparência quanto ao uso de recursos naturais Provisão de serviços básicos (inclusive para minorias e grupos vulneráveis) Tolerância para com crenças, hábitos e culturas diversas Fonte: USAID, 2005: 12. Ou seja, segundo a USAID (2005: 10-11), a instabilidade ligada aos Estados frágeis é produto de uma governança não efetiva e/ou ilegítima. De tal modo, seria possível antever a corrosão da capacidade estatal por meio de sintomas como decadência das instituições, eleições contestadas, distribuição de renda precária, déficit de infraestrutura, degradação ambiental descontrolada, acesso limitado a recursos naturais, educação ideologizada, dentre outros. 43 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Portanto, a atuação da ajuda externa norte-americana tem priorizado os focos de fragilidade, com programas de ajuda a fim de diminuir os impactos de conflitos armados, garantir segurança e serviços sociais básicos, e também de incentivo a reformas nos campos político e econômico, (re)compondo a capacidade institucional do Estado. Essa realidade não é menos importante quando abordamos a região latino-americana. No hemisfério ocidental, os objetivos explicitados pela USAID envolvem: combate à corrupção, aumento na transparência dos governos e participação popular, modernização do sistema de justiça, promoção do comércio e criação de empregos. Além da atuação focada no desenvolvimento econômico e político-institucional, a USAID também provê assistência humanitária a populações vulneráveis e vítimas de catástrofes ambientais, como nos terremotos no Haiti e Chile (2010) ou nas enchentes na Guatemala e El Salvador (2005). A USAID reconhece que governança de qualidade influencia a sustentabilidade do desenvolvimento, e esta é uma prioridade vital para erradicar a pobreza, encorajar o desenvolvimento econômico e de infraestrutura, impulsionar a legitimidade do setor público, erradicar doenças e vencer o terrorismo global. (USAID, 2004: 2) Destarte, o desenvolvimento serviria como um antídoto para as áreas não governadas elevando a qualidade das relações sócio-político-econômicas, evitando a associação das populações locais com atividades ilícitas e prevenindo, principalmente, as crises agudas. Segundo o governo norte-americano, a prosperidade e o controle estatal na América Latina implicam em estabilidade nas suas fronteiras6 e nas diminuições de migrações ilegais e do crime transrregional. A América Latina recebe 13% de toda a ajuda externa norte-americana (somando ajuda militar e econômica), incluindo os programas direcionados à Colômbia, ao México e América Central. (Tarnoff & Lawson, 2011) Na justificativa para o Congresso assinada pela Secretária de Estado no primeiro mandato de Obama, Hillary Clinton, cinco prioridades foram elencadas para as parcerias hemisféricas (CBJ, 2013): • Melhorar os esforços regionais para prevenção do crime e violência; • Fortalecer os sistemas de educação básica e saúde em Estados-chave; • Ajudar países a aproveitar as oportunidades econômicas; 44 territoriALiDADeS e entreCruZAmentoS GeopoLÍtiCoS nA AmÉriCA LAtinA • • Promover investimentos em segurança alimentar; Mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas globais; Esse documento ressalta, ainda, o potencial econômico da região e descreve os principais programas: Central American Regional Security Initiative e Caribbean Basin Security Initiative (focados no combate ao crime transnacional e narcotráfico), Energy and Climate Partnership of the Americas (segurança energética e mudanças climáticas), Pathways to Prosperity in the Americas (crescimento econômico). (CBJ, 2013) Em 2013, o planejamento de ajuda econômica externa para o hemisfério ocidental somou 181 milhões de dólares, distribuídos em cinco setores, conforme apresentado no gráfico: Fonte: Foreign Assistance Dashboard, 2013 Nota-se, assim, uma disposição do governo norte-americano para enfrentar o que considera lacunas de desenvolvimento no hemisfério, com destaque para o combate ao crime organizado e ao narcotráfico. Nos países andinos, além da ajuda militar (financiamento, treinamento e transferência de equipamentos) para fortalecer a atuação das Forças Armadas (sobretudo na Colômbia, América Central e Caribe) na repressão à produção e tráfico de cocaína, muitos projetos da USAID incentivam os pequenos agricultores à substituição do cultivo da coca. Em termos mais 45 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina gerais, a agenda da USAID para a região explicita como foco dos seus programas o fortalecimento dos regimes democráticos e a abertura de mercados para alavancar o desenvolvimento econômico. Considerações finais O capítulo buscou compreender como a política externa dos Estados Unidos tem recorrido ao binômio segurança-desenvolvimento para definir e enfrentar as novas fontes de ameaça aos seus interesses, alimentadas pelo contexto de fraqueza estatal e proliferação de áreas não governadas em diversos países ao redor do globo. A importância da ajuda para o desenvolvimento se revela, principalmente, na possibilidade de conter os santuários para o terrorismo global. Seja negando o abrigo físico (em zonas sem vigilância formal) e virtual (redes de comunicação e levantamento de recursos), ou evitando que populações desamparadas apoiem grupos extremistas. Na América Latina, a maior preocupação norte-americana reside nas diversas atividades do crime organizado, desde o tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e cooptação de autoridades policiais, até a conexão com grupos terroristas fora do hemisfério. A escalada de violência nas grandes cidades (como Rio de Janeiro, Caracas, Bogotá e Cidade do México) e o fortalecimento da economia ilícita e de poderes paralelos criam “bolsões de fragilidade” e revelam a ausência do poder do Estado. A resposta de Washington, na última década, veio por meio do investimento na recomposição da capacidade estatal, por intermédio de programas de ajuda externa para atender localidades em que identifica maiores ameaças aos seus interesses, priorizando infraestrutura, saúde, segurança alimentar e educação, incentivo ao crescimento econômico e fortalecimento das instituições políticas e judiciais. Segundo Ayerbe (2012: 113), “[...] verifica-se a centralidade assumida pela dimensão estatal tanto no lado dos problemas de segurança identificados, como das soluções prescritas”. Observa-se, assim, a valorização da ajuda para o desenvolvimento como instrumento de controle da fragilidade estatal e de ameaças vindas de pandemias, crises humanitárias, crime organizado e terrorismo, potencializadas pela existência das áreas não governadas. Conforme mostramos, 46 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina diversos documentos estratégicos norte-americanos apontam nessa direção, assim como as iniciativas lançadas pelas administrações Bush e Obama para fortalecer a agenda de ajuda externa. Essas iniciativas tentam dar coesão e eficácia aos programas executados pela USAID, pelos Departamentos de Estado e Defesa, a fim de assegurar a projeção do poder dos EUA no mundo. Luiza Rodrigues Mateo - Doutoranda do Programa San Tiago Dantas de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e PUC/SP, Pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI-UNESP), e professora da Universidade de Sorocaba (UNISO). (1) Destaque para a Estratégia de Segurança Nacional, o Plano Estratégico, a Revisão Quadrienal de Diplomacia e Desenvolvimento, a Estratégia de Defesa Nacional e a Revisão Quadrienal de Defesa. (2) Todas as citações em língua inglesa foram livremente traduzidas pela autora. (3) A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é um organismo internacional criado em 1948 para coordenar políticas econômicas e promover o desenvolvimento. (4) Este ano representou um pico nas atividades do Pentágono em ajuda externa. Entre 2007 e 2012, o papel do Departamento de Defesa na entrega de assistência internacional decaiu paulatinamente, até se estabilizar entre 8 e 9% do total. (DAC, 2011) (5) Segundo dados do Banco Mundial, os Estados fracos crescem apenas um terço da taxa média global, têm um terço da renda per capita, 50% mais dívidas/PIB e o dobro da pobreza em relação aos países medianos. (Wyler, 2008: 13) O tempo esperado para que o Estado fraco saia desse limbo de crescimento é de 56 anos, o que ressalta a importância dos programas capazes de impulsionar seu desenvolvimento. (6) Principalmente nos estados norte-americanos que fazem divisa com o México, Califórnia, Arizona, Novo México e Texas. Referências bibliográficas: AYERBE, L. F. Os territórios não governados na agenda de segurança dos Estados Unidos: afirmação da ordem mundial estadocêntrica? Política Externa, 21(1): 107-114, 2012. BUSH, George W. Speech at Inter-American Development Bank, 14 maio 2002. Disponível em: http://www.presidency.ucsb.edu/ws/?pid=64974. Acesso em 21 set. 2012. DAC. The United States Peer Review 2006. Organization for Economic Co-Operation and Development. 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AS GAnGueS urBAnAS Do triÂnGuLo norte DA AmÉriCA CentrAL e A perCepção DoS DepArtAmentoS De eStADo e DeFeSA DoS eStADoS uniDoS ACerCA De SuA AmeAçA À SeGurAnçA reGionAL PAULO MORTARI ARAúJO CORREA Introdução A s grandes cidades do Triângulo Norte do istmo centro-americano1, região formada por El Salvador, Guatemala e Honduras, têm sido acometidas, no geral, por alarmantes níveis de criminalidade nos últimos anos. Com referência a 2009, por exemplo, estudos do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2011, pp. 118-120), realizados com base nas taxas de homicídio doloso das cidades mais populosas de 112 países, relacionaram as respectivas capitais nacionais San Salvador, Cidade de Guatemala e Tegucigalpa entre as cinco mais violentas do mundo2. Entre os grupos frequentemente responsabilizados por esse cenário encontram-se as maras e pandillas, gangues urbanas constituídas predominantemente por jovens do sexo masculino e atuantes, sobretudo, em bairros periféricos onde se fazem mais notáveis a escassez de bens e serviços públicos e a condição de vida precária de muitos de seus habitantes. No intuito de conter a expansão desses grupos, diversas medidas domésticas têm sido adotadas na região por iniciativa dos governos locais, com 51 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina destaque a planos usualmente referidos como de “tolerância zero”, aplicados a partir de 2003 nos três países, e, em menor escala, programas de prevenção ao ingresso de jovens a gangues e de reinserção social de ex-membros, os quais, por vezes, contam com a participação de atores da sociedade civil, como associações religiosas e ONGs (Organizações Não Governamentais). Com relação às medidas repressivas, El Salvador e Honduras, por exemplo, sancionaram ao longo dos últimos anos, leis que declaram como ilícitas as maras e pandillas, algo que, entre outros efeitos, respalda a perseguição policial a seus integrantes. As reações, no entanto, não se limitam à esfera nacional. Principalmente a partir da década de 2000, os governos da região têm manifestado certa propensão à cooperação na contenção das gangues de rua, levando em consideração a abrangência regional do fenômeno e suas percebidas implicações à segurança pública. Dentro das ações internacionais que de fato se concretizaram, destaca-se a participação de agências dos Estados Unidos, envolvidas tanto com medidas de caráter policial como social. A fim de obter um entendimento maior sobre a atuação estadunidense no combate às maras e pandillas no Triângulo Norte, analisa-se, neste capítulo, especificamente a percepção que os Departamentos de Estado e, em menor extensão, de Defesa do país têm sobre a problemática, identificando-se algumas das principais preocupações apontadas e medidas adotadas com relação a esses grupos e inserindo-as nas discussões acerca das ameaças transnacionais à segurança regional. Foram consultados, para tanto, os endereços eletrônicos de ambos os departamentos, verificando-se todo tipo de material apresentado de 2000 a 2013 – desde relatórios e acordos até declarações, contidos nas seções referentes às diversas agências relacionadas dentro dos próprios sites. Não se conferiu grande destaque, contudo, a materiais que não estavam necessariamente dentro desses veículos eletrônicos, concentrando-se nas informações disponibilizadas neles. É importante delimitar, por conseguinte, o alcance deste trabalho. Não se almeja expor uma visão definitiva sobre qual é a política estadunidense para as gangues na porção setentrional da América Central, mas, sim, apresentar uma percepção específica sobre a problemática (mais precisamente, aquela expressada nos materiais divulgados pelos Departamentos de Estado e Defesa), oferecendo-se, assim, diretrizes para o aprofundamento no tema, considerando as informações obtidas por meio das pesquisas como úteis para a ampliação do conhecimento sobre a realidade concernente aos referidos grupos na região. Ademais, será destacado aquilo que é comum aos três países centro-americanos relacionados, embora se reconheça que existem diferenças e particularidades em cada um deles. 52 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Panorama da situação das maras e pandillas no Triângulo Norte da América Central Antes de tratar especificamente dos resultados obtidos por meio das pesquisas nos endereços eletrônicos dos Departamentos de Estado e Defesa dos Estados Unidos, é necessário traçar brevemente um panorama sobre as maras e pandillas (com foco em El Salvador, Guatemala e Honduras), de modo que se compreenda minimamente a realidade sobre a qual se está discorrendo. As maras e as pandillas, em linhas gerais, são gangues urbanas, constituídas majoritariamente (mas não unicamente) por jovens do sexo masculino, atreladas, usualmente, a uma região específica de suas cidades e detentoras de uma identidade compartilhada entre seus integrantes, o que pode incluir desde o uso de gírias, tatuagens e gestos corporais próprios até rigorosas normas de conduta. Tais grupos, ademais, são comumente associados à prática de ilicitudes como homicídios, roubos à mão armada, tráfico de drogas e extorsões, o que os caracterizaria como atores frequentemente envolvidos com a criminalidade violenta. Porém, embora na América Central seja comum referir-se a esses agrupamentos de forma indiferenciada, há autores que estabelecem uma distinção entre o que se entende por maras e por pandillas – ambas, contudo, tratadas neste texto como gangues de uma forma geral, sendo distinguidas apenas quando necessário. Em primeiro lugar, cabe mencionar que pandilla é uma palavra hispânica que, em seu uso literal, significa gangue ou bando, possuindo, assim, uma conotação geralmente negativa (tal como ocorre com a palavra pandilha em português). Nesse sentido, poder-se-ia incluir como pandillas até mesmo as maras, já que estas são, também, um tipo de gangue. Entretanto, com a finalidade de distinguir dois fenômenos historicamente diferentes em âmbito centro-americano, autores como Dennis Rodgers, Robert Muggah (2009, pp. 305-306) e Clare Seelke (2009, p. 4) atribuem a cada um dos termos uma particularidade, mais especificamente relacionada às origens dos grupos por eles representados. Pandillas, para tais autores, diria respeito a gangues de rua formadas exclusivamente dentro de um dos países da América Central (ou seja, não apenas naqueles do Triângulo Norte), subcontinente onde estariam presentes há décadas. Já o termo maras, por sua vez, se referiria a gangues de raízes 53 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina transnacionais, constituídas, inicialmente, por imigrantes centro-americanos no exterior (mais precisamente, nos Estados Unidos), os quais, em seu regresso ao país-natal, levaram consigo a experiência vivenciada fora, ajudando a difundi-la pela região. Desse modo, a formação e expansão das maras, em específico, estão relacionadas aos fluxos migratórios ocorridos a partir da América Central (com destaque ao Triângulo Norte) principalmente ao longo das décadas de 1970 e 1980. É importante ressaltar que, nesse período, os países da porção setentrional do subcontinente passavam por grande instabilidade política. A Guatemala, desde 1960, se encontrava imersa em uma longa guerra civil (encerrada apenas em 1996), algo experimentado por El Salvador a partir de 1980 (com fim apenas em 1992). Honduras, por sua vez, embora na época não tenha passado por uma guerra civil propriamente dita, também testemunhava em seu território movimentos de insurgência política, quadro agravado por fatores como elevados índices de pobreza, fome e desigualdade social, comuns, também, a seus vizinhos e persistentes, em variados graus, até hoje3. Diante desse cenário, muitos indivíduos se viram forçados a sair de seus respectivos países em busca de melhores condições de vida, sendo o principal destino os Estados Unidos – com maior ênfase à cidade de Los Angeles e seus arredores (Domínguez, 2008, p. 3). Colocando tal afirmação em perspectiva, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, 2002, pp. 106; 145; 177), em 1980, havia 196.674 indivíduos oriundos desses três países vivendo nos Estados Unidos, número que, em 1990, já atingia o patamar de 800.095 (dos quais 465.433 eram salvadorenhos, 225.739 guatemaltecos e 108.923 hondurenhos, o que representava, aproximada e respectivamente, 87, 77 e 80 por cento do total de indivíduos dessas nacionalidades no exterior). Ao ingressar em terras estadunidenses, contudo, muitos imigrantes, sem qualquer documentação ou reconhecimento de refúgio, terminaram por se assentar, de forma clandestina, em regiões urbanas periféricas, onde, além da discriminação sofrida em decorrência de sua condição de irregularidade e procedência nacional, da falta de acesso a empregos e bens públicos e da marginalização social, tiveram que enfrentar a hostilidade de alguns grupos locais opostos à sua presença. Por conseguinte, alguns desses imigrantes passaram a aderir a gangues de rua existentes em seus novos locais de residência, enquanto outros decidiram fundar as 54 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina suas próprias organizações. No caso dos últimos, tem-se como exemplo a formação da Mara Salvatrucha 13 (ou MS-13), hoje uma das maiores gangues das Américas do Norte e Central. (Wolf, 2012, pp. 65; 71) Ainda ao longo dos decênios de 1970 e 1980, muitos salvadorenhos, guatemaltecos e hondurenhos em situação irregular (seja por ingresso e/ou permanência considerados ilegais, seja por problemas criminais) foram forçados a voltar aos seus respectivos países, dentre eles, alguns membros de gangues, que, em seu regresso, inauguraram a presença das primeiras maras no Triângulo Norte centro-americano. No entanto, a expansão mais notável desses grupos na região ocorreu somente na década de 1990, após o significativo aumento no número de deportações e outras formas de retorno compulsório, algo devido, em parte, ao enrijecimento de leis e políticas migratórias nos Estados Unidos (sendo o maior exemplo o Illegal Immigration Reform & Immigrant Responsibility Act, adotado em 30 de setembro de 1996). De acordo com informações do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (U.S. Department of Homeland Security, 2012, p. 102), entre 1991 e 2000, por exemplo, cerca de 14,5 milhões de pessoas tiveram que retornar aos seus países (frente a 10 milhões entre 1981 e 1990), destacando-se o triênio de 1998 a 2000, que, como consta, foi o período com maior número de “retornados” da história estadunidense – com cerca de 5,4 milhões de indivíduos, dos quais aproximadamente 200.000 seriam criminosos (U.S. Department of Homeland Security, 2006, p. 162). É importante observar, contudo, que a expansão das gangues em El Salvador, Guatemala e Honduras não deve ser atribuída exclusivamente à migração de seus integrantes dos Estados Unidos, considerando que sem a existência de um contexto propício (incluindo fatores socioeconômicos como desigualdade social e baixa disponibilidade de empregos e o predomínio de ações repressivas por parte das forças de segurança pública contra populações econômica e socialmente menos abastadas) dificilmente a experiência marera teria tido a mesma atratividade nesses países (ver, por exemplo, Wolf, 2012). Desse modo, como salientam Rodgers e Muggah (2009, p. 303), as gangues na América Central existiam antes da década de 1970 (caso das pandillas), porém, foi com o advento das maras e com sua expansão, sobretudo a partir dos anos 1990, que o fenômeno ganhou maior notoriedade. 55 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Com relação à magnitude de sua presença nos últimos anos, o UNODC (2007, p. 60), em referência a meados da década de 2000, divulgou que haveria em todo o subcontinente centro-americano cerca de 70.000 membros de gangues (incluindo maras e pandillas), dos quais mais de 60.000 estariam no Triângulo Norte (36.000 em Honduras, 14.000 na Guatemala e 10.500 em El Salvador), número que, no entanto, pode ter se elevado a quase 100.000 membros em 2012 apenas nesses três países4. Somente a MS-13, segundo o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos (U.S. Department of the Treasury, 2012, online), possuiria ao menos 30.000 integrantes distribuídos não só pelo Triângulo Norte, mas, também, pelo México e por mais de 40 estados dos Estados Unidos (onde teria, aproximadamente, 8.000 membros), sendo, assim, considerada “uma das gangues criminosas mais perigosas e rapidamente expansivas do mundo nos dias de hoje”5. Contudo, é importante frisar que, embora existam pequenos grupos – denominados clicas – em diferentes países que se intitulam como parte de maras como a MS-13, é questionável o nível de integração entre eles. Em outras palavras, apesar do nome comum, é pouco evidente ainda a coesão entre todos esses grupos em nível transnacional a ponto de existirem estruturas hierárquicas e padrões de ação comuns entre eles, fazendo com que sua ligação seja, a princípio, muito mais simbólica (relacionada a uma identidade ou origem comum) do que de fato operacional (Wolf, 2012, p. 76). Como se pode perceber, apesar de ser um aspecto tradicional do istmo da América Central como um todo (caso das pandillas), as gangues estão presentes com maior intensidade na região do Triângulo Norte, sobretudo devido à notável expansão das maras em El Salvador, Guatemala e Honduras. Com relação a tal fato, os governos dos três países, principalmente a partir dos anos 2000, passaram a empreender uma série de medidas de contenção às gangues, principalmente no âmbito da segurança pública (embora iniciativas de cunho preventivo e de reinserção social, em menor número, tenham sido também colocadas em prática). Exemplos disso são os Planos Mão Dura (de 2003) e Super Mão Dura (2004), de El Salvador, o Plano Tolerância zero (2003), de Honduras, e o Plano Escoba (2004), da Guatemala, por meio dos quais, de maneira geral, intensificavam-se as perseguições policiais contra supostos membros de maras e pandillas (Aguilar; Carranza, 2008). Em El Salvador e Honduras especificamente, aprovaram-se, em 2003, leis que tornam 56 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina ilícitos tais agrupamentos, sendo que, no caso do primeiro, a lei foi revogada em 2004 (após ser considerada inconstitucional), sendo relançada em 2010, com um novo texto. Ademais, tem-se visto certa propensão à cooperação regional para o combate às gangues, as quais não apenas são apresentadas como uma ameaça comum aos três países, mas, também, no caso de algumas delas, como uma ameaça transnacional, devendo, desse modo, ser enfrentadas com ações multilateralmente coordenadas – ver, por exemplo, a Declaração Conjunta dos Presidentes de El Salvador, Honduras, Guatemala e Nicarágua sobre as Gangues “Mara Salvatrucha” e “Mara 18”, de janeiro de 2004 (SICA, 2004, online). As gangues de rua em El Salvador, Guatemala e Honduras, portanto, são frequentemente apresentadas como uma ameaça à segurança pública, responsabilizadas por parte dos altos índices de criminalidade violenta da região e, por vezes, apontadas como transnacionalmente articuladas. A partir disso, e com base principalmente na trajetória das maras, expõe-se e analisa-se, na sequência, a percepção que os Departamentos de Estado e, com menor ênfase, de Defesa dos Estados Unidos, têm sobre esses grupos no Triângulo Norte centro-americano. A percepção do Departamento de Estado As informações e análises contidas nos trabalhos das diversas agências do Departamento de Estado comporiam, em conjunto, uma singular visão do departamento como um todo a respeito não só das maras e pandillas, mas, também, de sua principal região de atuação (e seus arredores). Nesse sentido, a fim de compreender qual é essa percepção, discorre-se, a partir daqui, sobre o que cada agência (dentre aquelas que efetivamente tratam da temática) apresenta a respeito das gangues, abrangendo uma série de elementos que estariam relacionados com as ações de tais grupos em El Salvador, Guatemala e Honduras. Inicialmente, fala-se, a título de ilustração, do cenário no qual as gangues se inserem, sobre duas variáveis que, dentre outras, seriam características principalmente dos países do Triângulo Norte do subcontinente centro-americano, sendo elas a criminalidade e o tráfico de drogas. Para tratar da primeira, recorre-se a informações contidas na seção referente ao Escritório de Operações de Conflito e Estabilização (Bureau of Conflict and Stabilization Operations ou CSO, no acrônimo em inglês), 57 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina do Departamento de Estado. Esse escritório, responsável desde 2011 por trabalhar na prevenção e mitigação de conflitos violentos ao redor do mundo, enumerava, até meados de 2013, quatro zonas prioritárias de atenção, sendo uma delas a denominada “Camada Norte da América Central”, na qual se incluem justamente os três países do Triângulo Norte mais Belize. A grande preocupação na região seria a criminalidade violenta, da qual participariam, como se aponta, gangues tanto nacionais como transnacionais, cujas atividades gerariam medo e insegurança nas comunidades sobre as quais detivessem controle efetivo. Assim, ter-se-ia a porção setentrional do istmo centro-americano como uma zona crítica em termos de violência e necessidade de apoio externo. Recentemente (no segundo semestre de 2013), a lista do CSO6 foi atualizada, substituindo-se a “Camada Norte” por apenas Honduras, mantendo-se, no entanto, a preocupação com as gangues, cujas ações, segundo se afirma, poderiam ter repercussão inclusive nos Estados Unidos7. Como principal resposta, o escritório apoiaria reformas nas instituições de segurança pública e no sistema judicial hondurenhos, sendo disponibilizados, para tanto, conselheiros técnicos estadunidenses. Para complementar a visão panorâmica da região e suas adjacências, podem ser citados alguns dados do Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei (Bureau of International Narcotics and Law Enforcement Affairs ou INL). No relatório Estratégia de Controle Internacional de Narcóticos referente a 2011 (2012, p. 213), estima-se que 95% da cocaína que sai da América do Sul com destino aos Estados Unidos passa pela América Central e pelo México, sendo que 80% desse volume transitaria pelo istmo centro-americano antes de prosseguir em direção ao território mexicano. Por conseguinte, todos os oito países da região estão incluídos na lista de maiores países de trânsito ou produção de drogas ilícitas do INL, juntamente com mais catorze de outras partes do mundo (2012, p. 6). Dentre os países centro-americanos, destaca-se o peso que Guatemala e Honduras teriam no encaminhamento das drogas aos Estados Unidos. Enquanto o primeiro serviria de corredor para 15% da cocaína que é direcionada a solo estadunidense (2012, p. 233), o último seria território de trânsito para 79% de toda a cocaína que embarca em aviões na América do Sul com o mesmo destino (2012, p. 251). Tendo em mente essas duas variáveis – o aumento da criminalidade e o tráfico de drogas (caracterizando a região mais como território 58 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina de trânsito do que de produção8) –, pode-se iniciar a análise acerca das gangues propriamente ditas, começando por sua relação com a comercialização de drogas ilícitas. De acordo com o INL, nos três países do Triângulo Norte, as gangues têm atuado na distribuição local de drogas – ou seja, na comercialização nas ruas de suas respectivas cidades –, com maior ênfase para El Salvador e Honduras. No entanto, no que concerne ao tráfico internacional, não se confere destaque a esses grupos. Em relação a 2005 e 2006, os relatórios do INL chegaram a indicar o envolvimento de gangues de El Salvador e Honduras com organizações internacionais de narcotraficantes (como aquelas provenientes da Colômbia e do México), porém, seu papel se limitaria a proteger carregamentos recém-chegados aos seus países, recebendo em troca armas e drogas (2006, p. 147; 2007, pp. 157, 164). Tal visão foi ainda mais atenuada em 2011 e 2012, em cujos relatórios se afirmou que as gangues, ainda nos dois países citados, tendem a não ter um papel significativo na logística do narcotráfico internacional, sendo mais relevantes, portanto, na distribuição local, apenas (2011, p. 242; 2012, pp. 213, 252). Assim, pelas informações veiculadas nos relatórios do INL, percebe-se um envolvimento mais significativo das gangues nos três países com o tráfico “doméstico” de drogas – com menor destaque na Guatemala –, havendo pouca conexão evidente entre tais grupos e organizações internacionais de narcotraficantes – a não ser em alguns casos relatados em El Salvador e Honduras, onde algumas gangues chegam a oferecer proteção a carregamentos que vêm do exterior, tarefa considerada, todavia, pouco significativa perante a magnitude do processo que envolve o tráfico internacional de drogas. Contudo, apesar dessa relação ainda pouco relevante com o contrabando de ampla escala, não se pode deixar de considerar a gradual importância que as gangues têm tido nos relatórios do INL. Na publicação referente a 2001, por exemplo, esses grupos eram citados somente na seção correspondente a Honduras, na qual se alertava apenas para o consumo de drogas pelos seus membros. Nos anos seguintes, foi-se conferindo maior destaque às gangues não só com relação ao tráfico doméstico de drogas mencionado, mas também ao envolvimento com delitos como roubos à mão armada, assassinatos contratados e esquemas de extorsão, algo comum aos três países e enfatizado, inclusive, nas publicações mais recentes. Ademais, em 2008 (p. 165), na seção correspondente a El Salvador, utilizou-se pela primeira vez 59 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina o termo “gangues de rua transnacionais”, recorrente desde então, com algumas variações, também nos casos de Honduras e Guatemala – nesta, por exemplo, mais especificamente na forma de poderosas gangues regionais de jovens (2011, p. 270). Por fim, destaca-se a informação divulgada no relatório de 2013 (p. 160) de que a Mara Salvatrucha 13 (ou MS-13) foi considerada, em outubro de 2012 pelo Departamento de Tesouro estadunidense, uma organização criminosa transnacional, qualificação que, pelo momento em que se deu, suscita a ideia de que a periculosidade de algumas gangues esteja aumentando de acordo com a percepção do governo norte-americano. O envolvimento com a criminalidade, porém, como o INL também cita, não se limita à comercialização de drogas ilícitas. O Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor ou DRL), cujo trabalho envolve, entre outras finalidades, a observância da situação dos direitos humanos ao redor do mundo, identifica em seus relatórios anuais – denominados Relatórios de Países sobre Práticas de Direitos Humanos – alguns crimes que as gangues no Triângulo Norte centro-americano praticam regularmente. Nesse caso, é mais oportuno analisar a situação de cada país de forma particular. Em El Salvador, apontam-se como alguns dos crimes praticados pelas gangues os assassinatos (usualmente relatados entre 2003 e 2010), a violência direcionada a mulheres (incluindo torturas e mutilações, relatadas entre 2003 e 2004) e o encorajamento da participação de crianças em delitos como homicídios e tráfico de drogas, beneficiando-se de sua condição de menor de idade (algo citado, inclusive, no relatório referente a 2012, o mais recente até a data de redação deste capítulo). Contudo, os três problemas mais citados nos relatórios, presentes em todas as publicações de 2002 a 2013, são: I) o conflito entre gangues rivais em penitenciárias9, II) a influência exercida pelas gangues nos sistemas carcerário e judicial, desenvolvendo, inclusive, atividades ilícitas dentro das celas, e III) a intimidação de testemunhas em julgamentos contra membros de gangues. Os integrantes desses grupos, porém, não apenas colocariam em risco os direitos humanos do restante da sociedade, como também sofreriam violações aos seus próprios direitos. No relatório referente a 2010, por exemplo, alertou-se para os abusos de autoridade exercidos por parte da polícia, incluindo prisões arbitrárias e perseguição a menores de idade10 suspeitos de fazerem parte de gangues. 60 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Salienta-se também o estabelecimento da chamada Força Tarefa Antigangue (Anti-Gang Task Force), em vigor a partir de 2004. Tal iniciativa, conduzida pelo Ministério de Segurança Pública de El Salvador, conta com a participação de militares no apoio à Polícia Nacional Civil nas áreas de maior criminalidade. Embora os militares envolvidos não tenham permissão de efetuar prisões – limitando-se à tarefa de proteger as forças de segurança pública –, a iniciativa ganha destaque por envolver membros das Forças Armadas do país em ações de combate a gangues de rua. (DRL, 2004-2007, online) Na Guatemala, apontam-se alguns crimes similares ao caso de El Salvador, como assassinatos (nos relatórios referentes a 2007 e 2008), recrutamento de crianças11 para exercício de atividades ilícitas (como roubos, algo citado em praticamente todas as publicações desde 2001 a 2013) e conflitos entre grupos rivais dentro das penitenciárias (algo recorrente, sobretudo, nos relatórios referentes ao período de 2005 a 2010, apesar de apenas 16% da população carcerária do país nesse último ano ser reconhecidamente composta por membros de gangues). No entanto, o que pode ser destacado na situação guatemalteca é o processo de privatização da violência e os elementos com os quais este se relaciona. Afirma-se que o ambiente de insegurança do país, somado aos altos índices de corrupção e impunidade12, tem favorecido a atuação de grupos de execução extrajudicial, os quais teriam a participação inclusive de policiais e de seguranças privados, incumbidos da tarefa de promover a chamada “limpeza social”, mais precisamente, a perseguição e execução de jovens supostamente vinculados a gangues (DRL, 2001-2007, online). Tais práticas se alinhariam às políticas repressivas encabeçadas pelo governo contra as maras e pandillas e ao próprio abuso de poder praticado por parte de alguns agentes de segurança pública, o que incluiria prisões arbitrárias, detenções ilegais e forjamento de mandados de prisão, algo relatado em praticamente todas as publicações do DRL entre 2005 e 2012. Por fim, em Honduras, aparentemente o caso mais expressivo – tanto pela magnitude da presença das gangues no país, que, segundo relatório de 2010, teriam aproximadamente 36.000 membros, como pelo número de vezes que esses grupos são citados (embora em 2011 e 2012 isso não tenha sido tão expressivo)13 –, destaca-se, além dos enfrentamentos entre gangues rivais em presídios (DRL, 2002-2013, online) 61 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina e o envolvimento com crimes como roubos e assassinatos (DRL, 20032011, online), o recorrente relato da violência praticada nos transportes públicos, incluindo ameaças e assaltos contra passageiros, situação que teria urgido o governo hondurenho a instalar câmeras de segurança em diversos veículos e ao longo de suas rotas de trânsito em 2011. Com relação aos crimes menos citados, pode-se enfatizar a caracterização das gangues como entre os principais grupos envolvidos com o tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, como se alega nos relatórios referentes a 2007 e 2008. Contudo, em nenhuma dessas publicações se detalha qual seria exatamente sua participação nesse crime – fazendo com que tal informação, inclusive, seja contraditória com outras expostas por outra agência estadunidense, como será visto mais adiante. No que concerne às gangues enquanto vítimas, repetem-se no caso hondurenho os relatos de abuso de poder por autoridades de segurança pública (os quais incluem prisões arbitrárias e uso excessivo da violência contra jovens de regiões mais pobres, motivados por leis “antigangues” vigentes no país desde 2003, que, entre outros efeitos, tornaram ilícito o simples pertencimento a uma gangue) e de formação de grupos extrajudiciais de execução contra supostos membros de maras e pandillas. Tais grupos, inclusive, teriam sido responsáveis entre 1999 e 2005 por mais de 970 assassinatos, cujas vítimas incluem desde membros de gangues até crianças de rua e jovens que, a princípio, não tinham qualquer engajamento em atividades criminosas (DRL, 2006, online). No relatório referente a 2007, por exemplo, alega-se que: Grupos de vigília de bairro chamados Conselhos de Segurança Cidadã ocasionalmente tomaram as leis pelas próprias mãos. Organizações de direitos humanos credivelmente asseguraram que alguns conselhos, assim como companhias privadas de segurança com laços com antigos e atuais oficiais militares e policiais, agiram com a cumplicidade da polícia como vigilantes ou esquadrões da morte para usar a força letal contra supostos criminosos habituais. Em 21 de junho, um grande jornal diário publicou o flyer de um suposto “Esquadrão da Morte” composto por policiais, militares e empresários. Ainda em junho, uma pessoa anônima entregou o flyer, o qual ameaçava defensores de direitos humanos de gangues e de traficantes de drogas, a um ativista de direitos humanos em uma rua de Tegucigalpa. 62 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Por fim, assim como no caso de El Salvador, aponta-se a participação de militares em patrulhas conjuntas com a polícia, a fim de prevenir e combater os altos níveis de criminalidade e a atividade de gangues, algo relatado entre 2001 e 2007. Assim, de maneira geral, as gangues aparecem nos relatórios do DRL tanto como grupos significativamente engajados na criminalidade como alvos de violação de direitos humanos e perseguições nos três países do Triângulo Norte. Ainda com relação aos crimes cometidos pelas gangues, pode-se complementar as informações já expostas com aquelas contidas nos relatórios anuais do Escritório para Monitoramento e Combate ao Tráfico de Pessoas (Office to Monitor and Combat Trafficking in Persons ou TIP), responsável por verificar o tráfico de pessoas ao redor do mundo. De acordo com tais publicações, El Salvador, Guatemala e Honduras são, principalmente, territórios de origem e trânsito no tráfico de pessoas, tendo menor ênfase como destinos. Os últimos estariam em condição mais problemática do que o primeiro, sendo incluídos, por vezes, em uma denominada “Lista de Observação Especial” (Special Watch List)14, integrada por países que mereceriam maior atenção por parte dos Estados Unidos para que sua situação não se deteriorasse a ponto de colocá-los entre os locais mais vulneráveis do mundo. Destaca-se nos três países o tráfico de mulheres e crianças para fins de exploração sexual e laboral – não só para o exterior, mas também internamente, como no caso da Guatemala, onde, em 2004, apontava-se a existência de aproximadamente 2.000 menores de idade trabalhando com prostituição apenas na capital (2005, p. 237). No que concerne às gangues, elas aparecem pela primeira vez nos relatórios apenas em 2008, algo ainda limitado ao caso de Honduras. Neste, afirma-se a preocupação com a exploração do trabalho infantil pelas gangues, incluindo o uso de crianças em crimes de rua, como se apontou em 2009 (p. 151). Já em 2011 (p. 182), relata-se a prática de ameaças e coerção contra jovens por parte de membros de gangues a fim de forçá-los a traficar drogas, algo repetido nas publicações de 2012 (p. 178) e 2013 (p. 189) – nesta última, afirma-se, também, que jovens estariam sendo usados pelas gangues como hit men (ou assassinos contratados). Com relação a El Salvador e Guatemala, as gangues somente são citadas nos dois últimos relatórios, relacionadas também ao uso de crianças (por vezes de maneira coercitiva ou forçosa) em atividades ilícitas (2012, 63 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina pp. 148, 171; 2013, pp. 160, 182). Especificamente sobre El Salvador, diz-se que, somente em 2011, mais de 2.500 crianças pertencentes a gangues foram detidas (2012, p. 148). Desse modo, as gangues não aparecem com grande relevância na problemática do tráfico de pessoas propriamente dita, estando envolvidas, basicamente, na exploração de crianças para a execução de atividades ilícitas em âmbito doméstico, com maior gravidade em Honduras, em cuja seção se explicita o engajamento de menores de idade no tráfico de drogas a mando das gangues. Ainda com relação a esse país, pode-se observar um conflito de informações entre o TIP e o DRL, já que, em publicações referentes a 2007 e 2008, o último alegava que as gangues estavam entre os principais grupos envolvidos com o tráfico de pessoas com fins de exploração sexual, algo que não é relatado em nenhum momento pelo TIP, escritório que trabalha com maior ênfase nessa problemática. De qualquer modo, apesar de as gangues não terem grande relevância nos relatórios do TIP, observa-se uma maior atenção a elas a partir de 2008, com o caso hondurenho, e em 2012, abrangendo os três países. Por fim, é pertinente, a partir dos relatórios do Escritório de Combate ao Terrorismo (Bureau of Counterterrorism ou CT), discorrer sobre a possível relação das gangues com o terrorismo. Sobretudo em meados dos anos 2000, surgiram alguns rumores acerca da existência dessa ligação. Em 2004, por exemplo, o ministro de segurança de Honduras, Oscar Alvarez, teria declarado que um membro do alto escalão da Al-Qaeda se encontrara com lideranças da Mara Salvatrucha 13 em Tegucigalpa, a fim de estabelecer planos para se infiltrar nos Estados Unidos (Wolf, 2012, p. 89). Apesar de alegações como essa, o próprio CT, cujo trabalho está direcionado exclusivamente à percepção de ameaças terroristas ao redor do mundo, rejeita tal hipótese. Em publicação referente a aquele mesmo ano, diz-se que relatos de envolvimento de gangues com terroristas são infundados, algo que, inclusive, prejudica a percepção de reais ameaças. Nos demais anos entre 2000 e 2012, as gangues sequer foram citadas, além de o Triângulo Norte centro-americano não ser visto como foco significativo de terrorismo, sendo a única preocupação relevante dos Estados Unidos a de que países como Guatemala e Honduras, devido ao frágil controle fronteiriço e ao fluxo de pessoas traficadas, possam servir como rota para terroristas que, porventura, se associem a organizações criminosas operantes na região (CT, 2010). De qualquer forma, 64 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina o norte da América Central não tem destaque no combate mundial ao terrorismo, e tampouco as gangues são atores relevantes na temática. Portanto, de acordo com as informações analisadas, as gangues de rua no Triângulo Norte estariam envolvidas principalmente com a criminalidade urbana local, incluindo a prática de roubos, homicídios e recrutamento de crianças para exercício de atividades ilícitas, sendo responsáveis, desse modo, por parte da violência que acomete os países da região, além de, por sua vez, também sofrerem com abusos de direitos humanos. No entanto, apesar do aumento de sua relevância nas publicações de alguns dos escritórios estadunidenses citados, tais grupos ainda não são apontados como atores relevantes no crime organizado ou no tráfico internacional de drogas e de pessoas – apesar de, por várias vezes, serem mencionadas gangues transnacionais nos relatórios, pois não se explicita de maneira clara como se manifestaria tal “transnacionalidade”. De qualquer modo, seu engajamento em atividades criminosas tem influenciado a adoção de medidas de contenção à sua expansão, das quais diversas agências dos Estados Unidos participam. Articulação regional e bilateral na contenção das gangues As iniciativas nas quais os Estados Unidos participam no Triângulo Norte podem ser divididas entre as de abrangência regional (por vezes, ampliando-se à América Central como um todo e a países adjacentes) e aquelas de caráter bilateral, sendo destacadas, nesta seção, as principais dentro de tais grupos. Sobre as medidas regionais, pode-se iniciar pela denominada Iniciativa Mérida, surgida no final de 2007. Tal iniciativa, apesar de inicialmente firmada entre Estados Unidos e México, foi expandida aos sete países da América Central, ao Haiti e a República Dominicana, tendo como principal objetivo, de acordo com o INL, “confrontar gangues violentas nacionais e transnacionais e organizações criminosas e narcotraficantes que ameaçam toda a região, cujas atividades se espalham até os Estados Unidos” (2009, p. 254). Para tanto, previa-se a disponibilização de recursos por parte dos Estados Unidos principalmente a programas de fortalecimento institucional dos governos da região, incluindo o aumento da capacidade operacional de forças de segurança pública, o provimento de equipamentos e treinamento, 65 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina o combate à corrupção e o fomento a iniciativas socioeconômicas de prevenção ao ingresso de jovens no crime (INL, 2009, p. 254). Em 2010, a parte que concernia à América Central foi separada do restante, dando origem à Iniciativa de Segurança Regional para a América Central (CARSI, no acrônimo em inglês). Seu objetivo era endereçar com maior especificidade os desafios do subcontinente, mantendo-se a diretriz do combate aos grupos responsáveis pela alta criminalidade na região por meio de estratégias como o fortalecimento da capacidade dos governos de garantir a segurança pública e aquelas citadas no caso da Iniciativa Mérida. Nesse sentido, as gangues seguem sendo alvo da assistência estadunidense. Por meio das informações contidas na seção correspondente à CARSI no endereço eletrônico do Departamento de Estado (CARSI, 2013, online), por exemplo, explicita-se a preocupação com a expansão do fenômeno das gangues (parte delas referidas como transnacionais), algumas das quais teriam sob seu controle bairros inteiros, gerando medo e insegurança na sociedade. Reforça essa percepção declarações como a de William Brownfield (2011, online), Secretário Assistente do INL, que afirma que as gangues são, ao lado das organizações de tráfico de drogas, as principais ameaças à segurança dos países centro-americanos. Com relação aos recursos, afirma-se na seção da CARSI que, desde 2008, aproximadamente US$ 495 milhões foram direcionados aos programas referentes à iniciativa, não sendo especificados, contudo, todos os destinos de sua aplicação. A única informação que se tem a respeito se refere ao montante disponibilizado ao INL, que, em 2009 (dentro da Iniciativa Mérida), 2010 e 2011 somava, respectivamente, US$ 64.680.000, US$ 63.500.000 e US$ 71.508.000, com US$ 85.000.000 estimados para 2012 – portanto, com um total de cerca de US$ 284.688.000 em 4 anos, além dos 60 milhões de dólares requeridos para 2013. Embora estejam especificados os programas contemplados pelos fundos – incluindo medidas de fortalecimento institucional, combate ao crime, prevenção15 e reabilitação – e a quantidade de recursos que cada um recebeu (ou que se espera receber), não se explicita em quais deles as gangues são envolvidas. (INL Bugdet, 2009-2013) Ainda do ponto de vista dos recursos disponibilizados pelos Estados Unidos e em complementariedade com as iniciativas regionais, pode-se destacar o denominado Programa às Gangues de Jovens Criminosas (Criminal Youth Gangs Program), o qual, diferente da Iniciativa Mérida 66 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina e da CARSI, está direcionado exclusivamente às gangues de rua. De acordo com sua descrição (INL Budget, 2009-2013), foram disponibilizados a América Central entre 2008 e 2012 aproximadamente US$ 34.935.000 (sendo os valores de 2008 a 2011 reais e o de 2012 estimado, além dos 12,5 milhões de dólares requeridos para 2013), distribuídos em áreas como de capacidade investigativa (envolvendo treinamento de equipe e desenvolvimento de técnicas investigativas contra as gangues), capacidade legal (relacionada ao aperfeiçoamento de práticas como as de balística e análise de evidências), capacidade de inteligência (a qual inclui o provimento de equipamentos de informática para facilitar investigações e trocas de informações) e prisões (relacionada a fatores como a melhoria nos processos de reabilitação de presos), com abrangência predominantemente regional, e não apenas nacional. Justifica-se a necessidade de tais fundos pela percepção de que algumas gangues possuem mobilidade transnacional, sendo apontados como países mais afetados justamente El Salvador, Guatemala e Honduras, embora o resto do continente também esteja ameaçado pela expansão desses grupos (INL Budget, 2009).16 Além das iniciativas e programas vistos, podem-se citar os diálogos estabelecidos entre os Estados Unidos e o SICA (Sistema de Integração Centro-Americano, do qual fazem parte os sete países da América Central mais a República Dominicana, esta como membro associado). De acordo com o que se tem registrado na seção correspondente ao Escritório sobre Assuntos do Hemisfério Ocidental (Bureau of Western Hemisphere Affairs ou WHA, 2007-2010, online) no endereço eletrônico do Departamento de Estado, houve pelo menos três reuniões entre representantes de ambas as partes antes de 2013, ocorridas em 2007, 2008 e 2010, intituladas Diálogo entre Estados Unidos e América Central sobre Segurança (U.S. -Central America Dialogue on Security). O intuito dos encontros era discutir questões relacionadas à segurança, abordando, sobretudo, as ameaças consideradas transnacionais e os crimes que afetam os cidadãos da região de forma geral. Nesses, as gangues são claramente colocadas como um problema a ser combatido, como se percebe na primeira reunião, de 2007, na qual se estabeleceram nove objetivos dos Estados Unidos e do SICA com relação a tais grupos, entre eles, melhorar as condições educacionais, empregatícias e comunitárias dos países envolvidos (a fim de que jovens não sejam tão suscetíveis a ingressarem em gangues), trocar informações sobre a movimentação e a ação das 67 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina gangues, reformar o sistema judicial de cada Estado, reforçar a cooperação na área de segurança pública (de modo que as gangues possam ser mais bem combatidas) e expandir os programas de prevenção, reabilitação e reintegração de jovens, envolvendo diversas organizações da própria sociedade civil. Desse modo, ganham também importância nas palavras dos representantes centro-americanos e estadunidenses fatores socioeconômicos como influentes na expansão das gangues, além de se reforçar a necessidade dos Estados em questão articularem esforços para combater uma ameaça percebida como comum a todos.17 Em abril de 2013, um novo diálogo foi estabelecido entre o SICA e os Estados Unidos (sendo incluídos, nesse momento, também México e Canadá), denominado Diálogo entre América do Norte e SICA sobre Segurança Democrática (North America-SICA dialogue on Democratic Security). Nesse, os objetivos continuavam sendo o fortalecimento da cooperação interregional e a coordenação de ações para enfrentar a delinquência organizada transnacional, termo que, embora não se explicite, provavelmente incluiria as gangues. De acordo com Wendy Sherman, Subsecretária de Assuntos Políticos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, entre as diversas intenções expressas no diálogo, buscar-se-ia aplicar o modelo de redução à criminalidade de Los Angeles em diversas localidades da América Central, inclusive com trabalhos de prevenção ao ingresso de jovens em gangues. Percebe-se, contudo, que os resultados tanto desse diálogo como dos anteriores se limitam, basicamente, a uma declaração de intenções ou diretrizes, sem o compromisso de adoção de planos de ação concretos, por exemplo. (WHA, 2013, online) Outro acontecimento em âmbito regional é a designação de um Conselheiro Regional sobre Gangues (Regional Gang Advisor) em 2007, orientado, nesse caso, a atuar especificamente no Triângulo Norte. Tal profissional, vinculado ao INL, é responsável por coordenar políticas e iniciativas contra gangues na região, incluindo o treinamento de oficiais de segurança pública em tarefas como a redução de homicídios (INL, 2009, p. 254; 2012, p. 215). Somente em 2011, por exemplo, mais de 1.500 oficiais salvadorenhos teriam sido treinados pelos Estados Unidos sob a coordenação do conselheiro (INL, 2012, p. 215). Do ponto de vista preventivo, os Estados Unidos desenvolvem desde 2010 em El Salvador, Guatemala e Honduras uma iniciativa denominada Programa Educacional de Resistência a Gangues (GREAT). O programa, 68 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina amplamente aplicado em próprio território estadunidense, é conduzido por policiais locais treinados para lecionar em escolas, com o intuito de educar e instruir os jovens para que não se envolvam com gangues (INL, 2011, pp. 242, 272; 2012, pp. 213, 235; 2013, pp. 162, 175, 191). O GREAT, no entanto, apesar de ser uma experiência comum na região, não se desenvolve, aparentemente, de maneira coordenada nos três países, sendo apoiado por instituições específicas em cada um deles. Finalmente, há também entre as medidas de abrangência regional o estabelecimento de uma unidade das Academias Internacionais de Aplicação de Lei (ILEA)18 em San Salvador, capital de El Salvador, no ano de 2005. Trata-se de um centro de treinamento para profissionais de segurança pública e do sistema judiciário, no qual se oferecem cursos focados no combate tanto a gangues como ao terrorismo internacional, tráfico ilegal de drogas, tráfico de pessoas, financiamento de terroristas e crimes financeiros (INL, 2013, p. 39). O escopo de atividades de tal unidade, no entanto, não se restringe ao Triângulo Norte centro-americano (apesar de estar localizado na região e ter muitos de seus programas direcionados a ameaças predominantes no local), abrangendo toda a América Latina, atendendo-se, desse modo, profissionais de países como Argentina, Brasil, Colômbia e México (INL, 2012, p. 42). Com relação às iniciativas bilaterais que envolvem as gangues, pode-se iniciar por aquelas relacionadas a El Salvador, das quais se enfatizam a Unidade Transnacional Antigangue (TAG) e o Centro Nacional de Monitoramento Eletrônico. A TAG é resultado da cooperação entre a Polícia Nacional Civil salvadorenha e agentes de segurança estadunidenses, consistindo em um centro de compartilhamento de informações de inteligência para combate às atividades ilícitas praticadas por gangues, algo complementado pelo provimento de equipamentos por parte dos Estados Unidos. (INL, 2008, p. 165). Já o Centro Nacional de Monitoramento Eletrônico, operante desde 2012, baseia-se exclusivamente na interceptação da comunicação entre criminosos, entre eles, membros de gangues, no intuito de detê-los e ter mais domínio sobre suas atividades (INL, 2013, p. 161)19. Já na Guatemala, tem-se como medidas de maior relevância o Precinto Policial Modelo (MPP) e o apoio estadunidense à Unidade Nacional Contra o Desenvolvimento Criminal de Gangues (PANDA). O MPP é um projeto desenvolvido em áreas urbanas de alta criminali- 69 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina dade, centrado, segundo o INL, em melhorar o policiamento e a segurança pública e implementar medidas antigangue (INL, 2009, p. 290), fortalecendo, assim, a eficiência policial por meio de ações como o treinamento de oficiais de segurança e o aumento da presença da polícia nas ruas. A iniciativa teve início em 2005 em Villa Nueva, subúrbio da Cidade de Guatemala, sendo estendida em 2009 à cidade de Mixco (INL, 2006, pp. 144-145; 2010, p. 313). A PANDA, por sua vez, é uma unidade nacional formada por representantes da Polícia Nacional Civil e do Ministério Público guatemaltecos, trabalhando em parceria com os Estados Unidos e outras instituições relacionadas à área criminal na Guatemala, com suas atividades direcionadas principalmente à investigação e ao desmantelamento de gangues locais. Por fim, em Honduras, destacam-se a Unidade Investigativa Especial (Special Vetted Unit) e os Centros de Assistência (Outreach Centers), os quais recebem apoio dos Estados Unidos. A Unidade Investigativa Especial, apesar de focada no combate ao tráfico de drogas no país, estaria também engajada na contenção das gangues, algo demonstrado em 2006, por exemplo, quando um banco de dados biométricos de todos os membros de gangues conhecidos teria sido criado (INL, 2007, p. 166). Além do apoio a esse centro, os Estados Unidos, segundo relatório do INL referente a 2010 (2011, p. 292), teriam estabelecido em Honduras uma unidade investigativa sobre gangues (Vetted Gang Unit), com a principal finalidade de combater gangues transnacionais. Já do ponto de vista social, foram estabelecidos até 2011 vinte e cinco Centros de Assistência em bairros de alta criminalidade, sendo locais seguros para brincadeiras e desenvolvimento vocacional (INL, 2012, p. 254). Portanto, percebe-se que as medidas tanto regionais como bilaterais empreendidas ou favorecidas pelos Estados Unidos envolvendo gangues estão direcionadas principalmente à cooperação na área da segurança pública propriamente dita, visando à articulação entre instituições policiais e ao compartilhamento de informações e técnicas de combate a fim de conter a ação de tais grupos. No entanto, há também alguns exemplos de medidas sociais, voltadas tanto à prevenção de ingresso de jovens na criminalidade quanto à reabilitação de ex-membros de gangues. Em ambas os casos, contudo, não se têm, por vezes, informações suficientes acerca da forma como os Estados Unidos colaboram, algo que mereceria uma investigação mais minuciosa. 70 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Departamento de Defesa: a possível percepção implícita na escassez de informações Ao contrário do que se viu anteriormente, o endereço eletrônico do Departamento de Defesa não oferece grandes contribuições à temática das gangues na América Central. Tais grupos não aparecem na lista de assuntos prioritários do órgão, assim como as respectivas regiões não estão no foco de sua atenção no mundo. As gangues apenas são mencionadas em algumas notícias e declarações veiculadas pelo site, porém, de forma pouco numerosa e sem acrescentar grandes informações àquelas vistas no Departamento de Estado. Uma possível análise que se pode fazer dessa falta de menções é que, considerando o escopo de atuação do Departamento de Defesa, baseado com maior especificidade nas Forças Armadas, as gangues não seriam um assunto de significativa relevância militar – como o terrorismo, por exemplo –, sendo mais bem abordadas dentro da esfera da segurança pública, envolvendo, assim, especialmente instituições dessa área. Logo, a própria escassez de informações pode revelar alguns vestígios da possível percepção dos Estados Unidos sobre as gangues centro-americanas. Considerações finais William Brownfield, Secretário Assistente do INL, declarou em outubro de 2012 que “[não se pode] tratar dos desafios de segurança e aplicação da lei ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México sem lidar com a América Central”, não sendo possível, por sua vez, “tratar das crises de segurança, crime, drogas e violência na América Central sem lidar com os jovens e as gangues” (2012, online). Tais palavras parecem se alinhar ao que se analisou neste capítulo no momento em que as gangues são responsabilizadas por parte da criminalidade que acomete, principalmente, a porção setentrional centro-americana, e a decorrente violência ou insegurança ultrapassa fronteiras nacionais. As gangues urbanas no Triângulo Norte da América Central, apesar de, a princípio, não estarem relacionadas de forma significativa com o narcotráfico e o crime organizado internacionais – além de serem pouco prováveis os vínculos com grupos terroristas –, têm recebido maior atenção por parte de alguns escritórios vinculados ao Departamento de 71 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Estado, sendo alvo de diversas ações de alcance regional e bilateral, prevalecendo aquelas de caráter combativo, as quais se pautam na caracterização desses grupos como um problema de segurança pública – longe, por outro lado, do escopo de ação do Departamento de Defesa estadunidense, o qual lidaria com questões que envolvessem o uso de forças militares. Em outras palavras, embora estejam mais notavelmente engajadas na criminalidade urbana localizada – segundo as informações coletadas –, as gangues têm sido objeto de preocupação dos Estados Unidos, que têm se articulado principalmente com os governos da região a fim de conter sua difusão. O motivo para tanto pode ser a percepção de certo potencial de ameaça que esses grupos carregariam, considerando que sua expansão poderia acarretar em problemas maiores inclusive aos próprios estadunidenses. Assim, a criminalidade praticada por maras e pandillas nas ruas de cidades centro-americanas poderia se ampliar, propiciando um entrelaçamento mais intenso desses grupos com outros também engajados em práticas ilícitas – caso dos cartéis de drogas operantes na região –, consolidando-os, por fim, como uma ameaça regional de fato (no sentido de que algumas gangues se expandiriam a ponto de se articularem por meio de fronteiras estatais e com outros grupos criminosos, afrontando a segurança de diversos países da região). Isso se torna mais evidente nas assunções acerca da transnacionalidade de certas maras, cujas atividades já ultrapassariam fronteiras (embora não seja clara a magnitude da articulação entre supostos membros de uma mesma gangue em diferentes países). Ademais, é importante ressaltar que a questão pode ter maior relevância aos Estados Unidos pelo considerável fluxo de centro-americanos ao seu território e pela realidade já histórica de problemas com gangues enfrentados pelo país. Portanto, na visão expressada especialmente pelo Departamento de Estado, as gangues no Triângulo Norte da América Central se apresentam mais como uma ameaça potencial à segurança regional do que como grupos de fato transnacionais “organizados”, operantes através de fronteiras estatais. Significa dizer que, embora as agências confiram ênfases distintas à transnacionalidade das gangues, o que predomina é a percepção de que, a princípio e por ora, tais grupos, no geral, não operam de forma significativa através de limites lindeiros internacionais – concentrando-se, logo, na delinquência circunscrita a seus respectivos países –, mas possuem potencial para, em breve, fazê-lo. Assim, fatores como 72 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina as medidas de alcance regional e bilateral e a identificação de maras transnacionais denunciam a percepção do risco que a expansão das gangues acarretaria à segurança de toda a região, o que justificaria o engajamento dos Estados Unidos em uma questão que, a princípio, pode parecer estritamente doméstica, reservada a cada país. Paulo Mortari Araújo Correa - Pesquisador do projeto “Extraterritorialidades, entrecruzamento de soberanias e conflitos na América Latina”, do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da UNESP (IEEI-UNESP), e mestrando do Programa San Tiago Dantas de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UNESP, UNICAMP e PUC/SP. (1) Neste texto, entendem-se como países centro-americanos somente aqueles localizados no istmo do subcontinente, sendo eles Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá. (2) Os índices apresentados por tais capitais em 2009 foram de, respectivamente, 94, 118 e 72 homicídios para cada 100.000 habitantes, números bastante superiores à média de 9,5 mortes (para a mesma referência) das outras 109 cidades analisadas (com base nos dados mais recentes disponíveis de cada uma entre 2004 e 2010, considerando que apenas em poucos casos os números haviam sido atualizados até o último ano citado). Com relação às médias nacionais, Honduras, El Salvador e Guatemala apresentaram índices de, respectivamente, 82, 66 e 41 homicídios para cada 100.000 habitantes em 2010 – frente a uma média mundial de 6,9 mortes para a mesma referência –, fazendo-os ocupar, entre outros 204 países e territórios, a primeira, segunda e sétima posições na lista dos locais mais violentos do mundo de acordo com esse critério (UNODC, 2011, pp. 9; 93). Em 2011, os índices teriam variado para 92, 70 e 38, seguindo a sequência de países citada (UNODC, 2013, online). Embora até a data de redação deste texto o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime não tenha atualizado seus dados para além de 2011, de acordo com a Organização dos Estados Americanos (OAS, 2013, online), as taxas de homicídio nos três países em 2012 teriam sofrido uma queda, atingindo o nível de 83 mortes para cada 100.000 habitantes em Honduras, 41 em El Salvador e 35 na Guatemala, números, contudo, ainda muito elevados. Com relação ao penúltimo – caso mais notável de queda –, costuma-se atribuir a diminuição nos homicídios especialmente à trégua estabelecida entre as duas maiores gangues do país, a Mara Salvatrucha 13 e a Barrio 18, nos primeiros meses de 2012 (Martínez; Sanz, 2012, online). (3) Alguns dados ilustram o quadro socioeconômico característico dos três países atualmente. Em relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP, 2013, pp. 153-154) referente a 2012, El Salvador, Honduras e Guatemala apresentaram índices de Desenvolvimento Humano (IDH) considerados medianos, fazendo-os ocupar, respectivamente, as 107ª, 120ª 73 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina e 133ª posições (entre 187 países analisados) no ranking mundial para tal indicador. No que concerne à pobreza, o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONUHabitat, 2012, pp. 42-43) apontou que, com relação a 2009, mais de 40% das populações urbanas dos três países viviam abaixo da linha da pobreza (ou seja, com o equivalente a menos de dois dólares estadunidenses por dia, ajustados por paridade de poder de compra), com destaque para Honduras, cujo percentual chegava próximo às seis dezenas. Por fim, sobre a fome, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, 2012, p. 30), no período entre 2010 e 2012, o percentual de habitantes afetados pela desnutrição era de 30,4 na Guatemala, 12,3 em El Salvador e 9,6 em Honduras. Com relação ao caso guatemalteco, apenas o Haiti possuía um índice de desnutrição pior em toda a América Latina e Caribe, com 44,5% de sua população afetada pela fome. (4)Mauricio López Bonilla, Ministro do Interior da Guatemala, após troca de informações com seus pares dos outros Estados do Triângulo Norte, teria afirmado, em fevereiro de 2012, que haveria aproximadamente 95.000 membros de gangues na região, sendo 40.000 em El Salvador, 35.000 em Honduras e 20.000 em seu país (Castañón, 2012, online). (5) Todas as traduções feitas neste capítulo são livres e de responsabilidade do autor. (6) As demais regiões, até finais de 2013, são: I) Síria, onde a tarefa seria apoiar a oposição não-violenta ao atual regime, II) Mianmar, onde se ofereceria suporte a trabalhos de remoção de minas terrestres e apoio a vítimas desse armamento, e III) Somália, com atenção voltada ao restabelecimento de instituições estatais estáveis, à contenção de grupos piratas e extremistas e à assistência humanitária. Anteriormente, além da “Camada Norte da América Central” e dos países acima citados (com exceção da Somália), o Quênia também era apontado como prioridade, onde a preocupação se dava com a violência no processo eleitoral do primeiro semestre de 2013 (7) Tal receio é manifestado no seguinte trecho: “This corrosive combination of spreading violence and an increasingly resigned public threaten the security and prosperity of Honduras, potentially exacerbating trends of illegal immigration, trafficking in all forms of illicit contraband, and gang activities that reach into the U.S” (CSO, 2013, online – grifo nosso). (8) Embora o Triângulo Norte centro-americano seja caracterizado principalmente como um território de trânsito no tráfico internacional de drogas, há indícios de uma produção incipiente com fins de exportação. Sobre a Guatemala, por exemplo, afirma-se no relatório do INL referente a 2011 (2012, p. 233) que, além da maconha para consumo doméstico, tem-se produzido papoula de ópio para exportação. Em Honduras, por sua vez, ter-se-ia descoberto em março de 2011 um laboratório para processamento de cocaína com fins de comercialização externa (2012, p. 253). (9) Apesar da política de separação de grupos rivais nas penitenciárias – como se relatou, por exemplo, em 2004, em referência às duas maiores maras do país, a Mara Salvatrucha 13 e a Barrio 18, cujos membros passaram a ser direcionados a presídios distintos –, a violência nesses locais continuou sendo apontada como um grave problema. Em 2007, para se perceber o potencial da 74 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina situação, alegou-se que 34% da população carcerária do país era composta por membros de gangues. (10) Em 2003, aprovou-se na Assembleia Legislativa uma “lei antigangues”, na qual, entre outros pontos, afirmava-se que crianças entre 12 e 18 anos poderiam ser julgadas como adultos (DRL, 2004 e 2005, online). Tal lei foi posteriormente, em 2004, declarada inconstitucional, como se mencionou anteriormente. (11) Nos relatórios referentes ao período de 2000 a 2007, trabalhou-se com a estimativa de que aproximadamente 10.000 crianças faziam parte de gangues na Guatemala. Tal número, contudo, foi reduzido a cerca de 3.000 a partir de 2008, cifra baseada em informações do Ministério Público e da Polícia Nacional Civil do país (como se alega nos relatórios referentes a 2011 e 2012). (12) Segundo o Escritório de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei (INL, 2012, p. 233), 96,5% dos assassinatos cometidos no país não são solucionados. (13) Apesar de as gangues aparecerem com maior frequência no caso de Honduras do que nas seções referentes a El Salvador e Guatemala, há algumas informações que poderiam suscitar questionamentos acerca de sua real responsabilidade na escalada da violência no país. No relatório do DRL referente a 2008, por exemplo, afirma-se que apenas 15% dos crimes cometidos em Honduras naquele ano tiveram participação de membros de gangue, informação que teria sido divulgada pela ONG Washington Office on Latin America. Já em 2005, com relação à população carcerária hondurenha, diz-se que dos 11.545 presos, apenas cerca de 900 eram, de fato, membros de gangues. Por outro lado, há informações como a de que 44% dos casos de assassinato de crianças reportados entre julho de 2003 e o final de 2005 ao Ministério Público foram atribuídos a gangues (DRL, 2006, online), o que faz aumentar as dúvidas sobre a magnitude de envolvimento desses grupos com a criminalidade. (14) O TIP classifica os países em três possíveis níveis. No primeiro nível estão aqueles cujos governos cumprem com os requisitos mínimos do chamado Ato de Proteção de 2000 sobre Vítimas de Tráfico e Violência (Victims of Trafficking and Violence Protection Act of 2000 ou TVPA, documento aprovado pelo Congresso estadunidense no qual se estabelecem padrões para o combate do tráfico de pessoas no mundo), embora não signifique que em tais países não haja qualquer incidência do problema. Já no segundo nível encontram-se os países que não cumprem com todos os requisitos mínimos do TVPA, mas que, contudo, estão empreendendo esforços significativos para tanto. Dentro desse nível, há a citada “lista de observação especial”, na qual se incluem aqueles que, apesar de estarem se esforçando para se adequar ao TVPA, enfrentam crescentes dificuldades nesse processo. Por fim, no terceiro nível estão os países que, além de não cumprirem com os requisitos mínimos do TVPA, não demonstram inclinação para tanto. El Salvador, Guatemala e Honduras, por todo o período analisado, estiveram no segundo nível, sendo que os últimos, por vezes, foram incluídos na referente lista de observação especial. (15) No que concerne à prevenção, podem-se citar ao menos dois fatores relevantes. No fact sheet Combatir la corrupción y fomentar la transparencia (2012), em referência à corrupção, por 75 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina exemplo, diz-se que “as gangues pagam à polícia para que os permitam operar em vizinhanças de toda a região”, permitindo-se que tais grupos, desse modo, ajam dentro de suas áreas de influência sem serem incomodados. A pobreza, por sua vez, como se aponta no fact sheet intitulado Presencia del Estado y seguridad en las comunidades en situación de riesgo (2012), é considerada uma condição que facilita o recrutamento de jovens por gangues e grupos de traficantes e do crime organizado. Assim, a CARSI é vista como uma iniciativa que deve abranger não só medidas combativas, mas, também, socioeconômicas e de reforma em instituições governamentais, levando-se em consideração o contexto da região. (16) Para completar as informações orçamentárias às quais se têm acesso, pode-se apontar a disponibilização de fundos complementares às iniciativas regionais citadas, direcionados, por sua vez, especificamente a cada país, embora com o objetivo comum de combate à criminalidade (INL BUDGET, 2009-2012). Levando-se em consideração o período entre 2009 e 2010 (último ano no qual tais cifras são citadas), tem-se o requerimento de US$ 1.600.000 a El Salvador (dos quais US$ 635.000 seriam direcionados ao combate de gangues e organizações criminosas transnacionais), US$ 14.170.000 à Guatemala (sendo US$ 4.020.000 direcionados a gangues e ao crime organizado – salientando-se que os dados de 2009 são estimados, enquanto os de 2010 se referem a valores requeridos) e US$ 1.550.000 a Honduras (dos quais US$ 450.000 se destinariam ao combate a gangues e ao crime organizado). Enquanto os três países não foram citados nos dois anos seguintes, na publicação de 2013, somente a Guatemala é especificada, afirmando-se que US$ 3.992.000 foram disponibilizados em 2011 ao país, além de US$ 5.000.000 estimados para 2012 e US$ 2.000.000 requisitados para 2013. No entanto, os fundos previstos seriam direcionados à Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala (CICIG) (INL BUDGET, 2013, p. 212). (17) Destaca-se dentro desse diálogo a cooperação entre a USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) e a Secretaria Geral do SICA, direcionada a medidas preventivas e de reabilitação. Em julho de 2007, por exemplo, ambos assinaram um acordo intitulado Atividade Regional de Prevenção de Gangues, o qual estabeleceu que a USAID disponibilizaria a quantia de US$ 3 milhões ao SICA durante 3 anos, a fim de, entre outros objetivos, apoiar iniciativas de prevenção ao ingresso de jovens em gangues e promover reformas legais e políticas para melhorar o tratamento e reinserção social de ex-membros de tais grupos. (USAID, 2007, online). (18) Há unidades das ILEA em outras localidades do mundo, como Tailândia, Hungria e Botsuana, com focos em ameaças mais específicas em suas respectivas regiões (INL, 2012, p. 42). (19) Poder-se-ia citar também o apoio prestado pelo governo estadunidense à ONG salvadorenha FundaSalva, cujo trabalho se direciona, entre outros fins, à reinserção social de ex-membros de gangues. Embora nos relatórios do INL não se detalhe o alcance desse suporte, a cooperação é significativa por mostrar o apoio dos Estados Unidos não só a instituições públicas, mas, também, a organizações da sociedade civil nas tarefas direcionadas às gangues. (INL, 2011, p. 243; 2012, p. 214) 76 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Referências bibliográficas AGUILAR, Jeannette; CARRANzA, Marlon. Las maras y pandillas como actores ilegales de la región. Departamento de Seguridad Pública de la Organización de los Estados Americanos (OEA), 2008. Disponível em: <http://www. oas.org/dsp/documentos/pandillas/2sesion_especial/IUDOP/Las%20 maras%20y%20pandillas%20como%20actores%20ilegales%20de%20 la%20regi%C3%B3n.pdf>. Acessado em novembro de 2013. BROWNFIELD, William R. 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Los pequeños estados están encarando desafíos a su capacidad de controlar el espacio del territorio nacional. Incluso algunos se preguntan si Guatemala y Honduras están a camino de ser estados fallidos. (Vanden, 2011) Los zetas están operando en partes de Guatemala y el Cartel de Golfo está cada vez más involucrado con el transbordo de drogas en Honduras. Como se ve que el mapa (figura 1) hay una incursión significativa de varios de los Carteles Mexicanos en el Triángulo Norte de Centro América (Guatemala, El Salvador y Honduras), y están trabajando con varios otros grupos criminales para facilitar el movimiento de cocaína y otras drogas por la región en camino a Norte América y Europa. La campaña del gobierno Mexicano en contra de los carteles ha hecho Centroamérica muy atractivo como una ruta alternativa para el transbordo del producto de la producción ilícita de Colombia y la América del Sur. La capacidad de los varios carteles de controlar espacios y enfrentar los gobiernos centroamericanos es muy preocupante para estas naciones pero también para los Estados Unidos y el Comando Sur de las Fuerzas Armadas Estadounidenses. Sin embargo, los carteles no son los únicos grupos que tienen la capacidad de controlar espacios del territorio nacional y enfrentar el poder de los gobiernos nacionales centroamericanos. 81 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Figura 1 Carteles Mexicanos en La América Central Como muestra el cuadro 2, miles de jóvenes salvadoreños, hondureños y guatemaltecos fueron deportados de los Estados Unidos, una vez que sus acciones criminales se registraron en su “record” de antecedentes criminales, o simplemente estaban registrados por la policía local por infracciones menores como conducir sin licencia, o no tener los documentos necesarios para probar su status legal. En respuesta a consulta que hicimos a la Immigration and Customs Enforcement –ICE, nos informaron que en 2008, 20.975 personas fueron devueltas a El Salvador por el gobierno Norteamericano; el número de guatemaltecos y hon- 82 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina dureños fue aún mayor: respectivamente 28.899 y 29.768. La proporción de jóvenes en estas cifras no es informada por la Immigration and Customs Enforcement (Department of Homeland Security), pero nuestra investigación preliminar indica que la gran mayoría de los deportados tenían menos que 30 años. Para dar una idea global de esta política del gobierno de los Estados Unidos, incluimos datos recientes con respecto a tales deportaciones al Triángulo Norte de América Central. Cuadro 2 Remociones de la U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE): El Salvador, Guatemala, Honduras Total Ciudadanía Año fiscal 2008 Año fiscal 2009 Año fiscal 2010 Año fiscal 2011 Año fiscal 2012 Año fiscal 2013 (datos enero de 2014) EL SALVADOR 20,975 21,157 20,830 18,870 19,694 5,858 GUATEMALA 28,899 30,411 31,347 33,324 40,498 12,010 HONDURAS 29,768 27,679 25,635 23,822 32,464 8,734 La expulsión de miles de jóvenes Guatemaltecos, Salvadoreños y Hondureños, la existencia de pandillas en los Estados Unidos y la América Central, la violencia de las guerras civiles centroamericanos y las condiciones sociales y económicas se han combinado para dar luz y nutrir el crecimientos de pandillas o maras en Guatemala, El Salvador y Honduras. Se calcula que operan más de 100,000 mareros o pandilleros (miembros de pandillas juveniles) en el triángulo norte de Centroamérica (Guatemala, Honduras y El Salvador) y según varias estimativas, son responsables por hasta 70% de los homicidios en estas pequeñas naciones (Tobar, 2007). Y las tazas de homicidio en El Salvador y Guatemala estaban iguales o mayores que durante las guerras civiles que estos países sufrieron en los setenta, ochenta y principios de los noventa. En El Salvador, la tasa anual de homicidio era 56 muertos por cada 100,000 personas en principios de 2012, lo cual era 5 veces más que lo que la Organización Mundial de Salud considera una epidemia. Y los mareros se involucran también en muchos otros tipos de crímenes. Violan a las muchachas jóvenes que se niegan a ser sus novias o cuyas familias resisten a su control en los barrios o que van a la policía para dar testimonio con respecto a sus crímenes, 83 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina matan a otros jóvenes que niegan incorporarse a su pandilla o resistan su control, y hacen guerra brutal en contra de las maras rivales, y muchas veces mutilan o decapitan a sus víctimas. En los últimos años están involucrados en secuestros y extorciones y cada vez más en el negocio de narcotráfico, trabajando con los carteles que están utilizando Centroamérica para transbordar las drogas que van a los Estados Unidos y Europa. Están, pues, enfrentando el Estado en territorios determinados en la América Central, y creando un desafío al poder y soberanía de los pequeños Estados del istmo. Combinado con la incursión de los carteles implica, entonces, que el control del territorio y la naturaleza del Estado y hasta el sistema de relacionales internacionales está en juego en esta región. Esta realidad se explica bien con el concepto de espacios no gobernados o espacios contra gobernados que se está elaborado en obras como Clunan and Trinkunas (2010). Encima de eso, un reportaje del Departament of Defense de los Estados Unidos subraya que amenazas surgen en “espacios no gobernados, con un gobierno mínimo, mal gobernados, o en áreas desafiadas, donde actores puedan organizar, planear, acumular fundos, comunicar, entrenar y operar en seguridad relativa” (Lamb: 2008, citados in Clunan and Trinkunas, 2010, p. 5). Esto es precisamente lo que las maras están haciendo en Guatemala, Honduras y El Salvador, y en parte de Nicaragua y Costa Rica, lo que es percibido como una preocupación con respecto a la seguridad por los “policy makes” en los Estados Unidos. En un número especial de Small Wars and Insurgencies, editado por Robert J. Bunker, el mismo autor escribe el artículo “Grand Strategic Overview: ephocal change and new realities for the United States” en el que observa que el sistema está cambiando en una transición y el cambio de lo que consideramos el sistema de Estado moderno (sus orígenes más o menos en correlación con el Tratado de Westfalia en 1648) a alguna forma post-westfaliana (por ejemplo, después del Estado-nación) sistema que todavía está en sus primeras etapas de formación. Con esta transición viene la pérdida de la autoridad política, el monopolio de la declaración de la guerra, y la soberanía sobre tierras y derechos que durante tantos siglos disfrutaron los estados modernos. Este nivel de cambio es a escala de gran estrategia y de época y en última instancia atestigua la transición de una forma política dominante a otra. (Y que) todo tipo de vacíos de poder son producidos por los patrones 84 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina cambiantes de la existencia humana y de interacción. Como estos vacíos, huecos, y nichos se ensanchan, son explotados por la competencia de entidades no estatales - tanto subnacionales y supranacionales - que ganan status económico, militar, posición política, religiosa y, con el tiempo, poder. (Y concluye que) las entidades no estatales, beligerantes y politizadas tienen la posibilidad de seguir evolucionando para formas estatales nuevas e indeseables, organizadas en enclaves criminales - , ciudades, pequeños estados, y en redes incluso mucho más grandes de Estados criminales. (Bunker, 2011: 728) Y es en este contexto que las maras centroamericanas están actuando. Como base de operaciones, las maras ocupan espacios en todas las ciudades grandes de Guatemala, El Salvador y Honduras y están ocupando más barrios en Managua y unas otras ciudades en Nicaragua. En estos espacios, los gobiernos nacionales no pueden ejercer su soberanía plena y muchas veces no quieren -- o tienen miedo-- de enfrentar las maras en estos territorios. En estos espacios son las maras y no los gobiernos que hacen ejercicio del poder. Son ellos que como Max Weber y Vladimir Lenin decían, tienen monopolio del uso de violencia, y no los gobiernos nacionales o municipales. Utilizando su capacidad de violencia y su asociada capacidad de coerción, son los que deciden quienes tienen que pagar los impuestos (“renta” para ellos) que imponen y cuyo valor determinan. Negocios tienen que pagar, familias tienen que pagar, personas tienen que pagar, taxistas tienen que pagar y los autobuses que operan dentro del barrio-- o pasan por el barrio-- tienen que pagar. Pueden ser unos 5 o 10 dólares por semana o $50, o más por mes para un negocio o una familia que tiene medios económicos. Puede ser más para los autobuses y los mareros han matados muchos conductores y ayudantes que no quieren—o no podían—pagar. Y para continuar y aumentar su poder reclutan a la fuerza jóvenes muchachos – y a veces muchachas—para ser nuevos miembros de la mara, o sea, sus soldados. Harry Edwin Vanden - Professor de Ciência Política, University of South Florida, foi bolsista Fulbright e Professor visitante no Programa San Tiago Dantas de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e PUC/SP. Tem estudado as maras centroamericanas por mais de 5 anos. 85 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Referencias bibliográficas Bunker, Robert J. Grand Strategic Overview: epochal change and new realities for the United States. 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Herman, poucos grupos sociais poderosos controlam e financiam a mídia – por meio das propagandas publicitárias, empréstimos, aquisições, fusões e ações – para propagandear e inculcar percepções de mundo que carregam princípios, valores e crenças, a fim de concretizar suas agendas e realizar seus interesses. Chomsky e Herman lembram do estudo de Ben Bagdikian, que constata que as vinte e nove maiores corporações de comunicação controlam os jornais e revistas mais vendáveis nos Estados Unidos. As publicações que conseguem atrair grande quantidade de publicidade podem colocar os preços de capa abaixo dos custos e, consequentemente, vender mais e alcançar um público maior. Portanto, neste sistema de “livre mercado” nas comunicações, são os proprietários e anunciantes que escolhem quais publicações vão sobreviver, prosperar e alcançar o maior número de cidadãos, não o consumidor (Chomsky & Herman, 2010). Não se trata de uma conspiração ou de manipulação, mas de uma análise da mídia como empresas de um mercado mais ou menos monopolizado e guiado por líderes corporativos e governantes, que têm 87 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina objetivos parecidos e dividem percepções de mundo semelhantes. De certo que, os meios de comunicação de massa precisam retratar o mundo real. Entretanto, a interpretação deve refletir os interesses e objetivos dos anunciantes, dos compradores, dos proprietários e das instituições governamentais e privadas, que as elites dominam. Repórteres, comentaristas, articulistas, editores, jornalistas e outros intelectuais da mídia são escolhidos porque já internalizaram, ou estão dispostos e aptos a internalizar, a percepção de mundo dos proprietários, anunciantes e poderes institucionais que controlam a mídia, sem questionar o sistema. Assim, esses grupos filtram as notícias que podem ser publicadas, marginalizam os dissidentes e permitem que as elites enviem suas mensagens ao público (Chomsky & Herman, 2010). Contudo, a mídia não é monolítica. Ainda que os grupos que dominam a mídia tenham interesses sistêmicos comuns, pode haver divergências quanto às estratégias para alcançar tais interesses. As grandes corporações midiáticas permitem os debates, as críticas e o dissenso, desde que permaneçam dentro dos princípios e pressuposições do sistema, que reflete os interesses das elites. Junto a isso, os meios de comunicação de massas precisam dos governos e das corporações para fornecer matérias-primas baratas para as produções jornalísticas. Obter diretamente recursos desse tipo reduz os custos da investigação jornalística. Como fonte acessível de informações, os governos e corporações podem tentar estabelecer e enquadrar determinadas agendas políticas. Esse processo ocorre de forma direta e indireta, por intermédio de agências, porta vozes e financiamentos de intelectuais e think thanks, que se apresentam como isentos (Chomsky & Herman, 2010). Para Lance Bennet, os jornalistas das grandes corporações “calibram” as notícias de acordo com a esfera de poder, que é conflituosa. Nesse processo de calibragem, implícito e contínuo, os jornalistas colocam o foco sobre as questões políticas mais importantes; avaliam o poder dos grupos que se organizam contra ou a favor da posição dominante; e observam as ações que podem provocar possíveis mudanças políticas. Depois disso, reproduzem a versão dos atores que têm mais poder. Isso cria um sistema que define o que será notícia, qual a importância da notícia, quanto tempo a notícia é notícia e quem tem voz na notícia. Em momentos de embate dentro desse sistema, se interessar, a mídia pode tomar uma posição mais ativa e organizar novos consensos. 88 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Para isso, as grandes corporações da mídia jornalística de massa monitoram e noticiam a formação de forças políticas; definem vencedores e perdedores; transmitem as histórias de forma rápida, sem dar tempo para interferência dos agentes opositores; investigam informações confidenciais, que vazam por fontes anônimas; e/ou adotam contrapautas de fontes extraoficiais. Mesmo assim, reportagens com investigações sólidas que denunciam o governo precisam de elementos do próprio governo para comprovar a veracidade das denúncias. Sem isso, não conseguem ter sucesso (BENNET, 2007). Mais do que isso, os meios de comunicação dependem dos governos e corporações para conseguir políticas fiscais vantajosas; taxas de juros baixas; políticas trabalhistas flexíveis; leis antitrustes favoráveis; e apoio diplomático para atuar em outros países, por meio de subsidiárias ou de repórteres. Assim, os governos e as corporações podem constranger os meios de comunicação que tentarem se opor completamente às estratégias ou aos interesses estabelecidos. A capacidade da mídia jornalística de difundir visões de mundo e projetos políticos para um público amplo é ainda maior em áreas como a política externa. Quando os acontecimentos em outros locais do mundo tomam dimensões globais e podem atingir os interesses dos governos e das corporações, mesmo que não haja participação direta dos mesmos, a imprensa precisa noticiar e passar a mensagem que deseja, na tentativa de construir consensos acerca das estratégias de política externa. A mídia jornalística pode amplificar os debates e, mesmo quando não há consenso, pode abrir ou fechar possibilidades de mudança na política externa, ao enquadrar as questões, definir a agenda e influenciar a opinião pública em nível nacional e internacional. Entre todos os acontecimentos que se desenrolam em centenas de países, os repórteres escolhem o que será notícia com base no conhecimento prévio; no que supõem que os leitores querem saber; na necessidade de vender a publicação; e no que os editores e os proprietários dos meios de comunicação querem que seja noticiado. Os principais temas são as guerras, os desastres e conflitos, que interessam de alguma maneira à sociedade civil. Nesse escopo, aqueles que envolvem o país, os aliados, os inimigos ou os vizinhos têm mais chance de virar notícia do que aqueles que acontecem em lugares distantes da posição geográfica e dos interesses das elites. A preponderância dos relatos de guerras, conflitos e desastres, mesmo em lugares longínquos que interessam a setores da sociedade civil, deixam a percepção de que o mundo é hostil e sem esperança. A paz di- 89 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina ficilmente é notícia e eventos globais de longa duração, como migração e aquecimento global, são noticiados esporadicamente (Love, 2003). As notícias sobre a guerra contra o tráfico na fronteira entre México e Estados Unidos De forma geral, a maioria das matérias jornalísticas nos grandes meios de comunicação impressos dos Estados Unidos sobre a América Latina tratam de crises políticas, crises econômicas, violência, tráfico de drogas, tráfico de armas, tráfico de pessoas, autoritarismo, corrupção e epidemias. As matérias são avulsas e só ganham continuidade quando os fatos envolvem, ou podem envolver, os interesses estadunidenses. Por isso, o México é uma exceção e um destaque. Entre janeiro de 2009 e julho de 2012, os grandes jornais estadunidenses apresentaram centenas de reportagens e editoriais sobre o México. A guerra contra os cartéis de drogas mereceu atenção periódica e, às vezes, novelesca. Nas décadas de 1980 e 1990, os cartéis de drogas colombianos dominaram a distribuição de cocaína em toda América. O poderoso Cartel de Medellín, chefiado por Pablo Escobar, fazia a cocaína entrar nos Estados Unidos, maior mercado consumidor do produto no continente, através da fronteira sul. O negócio funcionava em sociedade com os cartéis de drogas mexicanos, sobretudo com o Cartel de Guadalajara, chefiado, até então, por Miguel Angel Felix Gallardo, ex-agente da Polícia Federal Judiciária Mexicana. Naquele período, os cartéis mexicanos dominavam o mercado estadunidense de maconha e heroína e controlavam a logística e as rotas de tráfico por meio da fronteira com o vizinho do norte. Em 1989, as autoridades mexicanas e estadunidenses prenderam Gallardo e, em 1992, as autoridades colombianas prenderam Escobar, morto no ano seguinte. Consequentemente, nos anos 1990, o Cartel de Guadalajara e o Cartel de Medellín perderam força, envoltos em conflitos internos e embates com as autoridades mexicanas, colombianas e estadunidenses. Com isso, surgiram, no México, outros cartéis concorrentes – como o Cartel de Sinaloa, Cartel de Juarez, Cartel do Golfo, Cartel La Famiglia e Los zetas – que iniciaram confrontos violentos para cobrir o vácuo no mercado de drogas estadunidense, sobretudo de cocaína. Atualmente, os cartéis mexicanos fornecem noventa por cento da cocaína que entra nos Estados Unidos. 90 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina A concorrência entre os cartéis mexicanos se tornou violenta. O governo de Vincent Fox, entre 2000 e 2006, tentou intervir diretamente na competição pelo mercado de drogas e, para isso, enviou tropas militares para conter o conflito entre os cartéis. Na campanha presidencial de 2006, Felipe Calderón, então candidato à presidência do México, prometeu iniciar uma guerra contra os traficantes de drogas. Já no governo, depois de uma vitória eleitoral apertada, Calderón enviou, de 2006 até 2012, quarenta e cinco mil homens do exército às ruas para combater os cartéis. No mesmo período, as autoridades registraram aproximadamente sessenta mil mortes ligadas ao tráfico de drogas. De acordo com o governo mexicano, a maioria das mortes resultou dos conflitos dentro dos cartéis, entre diferentes cartéis e entre cartéis e autoridades policiais e militares. Frequentemente, os assassinatos obedeceram à estética da violência, voltada para atrair notícias e disciplinar facções internas aos cartéis, integrantes de outros cartéis e até mesmo agências estatais. Nessa lógica, os cartéis promoveram ataques com granadas nos festejos nacionais; abriram fogo contra jovens em comemorações de aniversário, festas particulares e cassinos; assassinaram imigrantes; promoveram sequestros e extorsões; e espalharam corpos decapitados e cabeças de inimigos. Nos Estados Unidos, o governo Republicano de George W. Bush reforçou a visão do tráfico de drogas como problema de política externa estadunidense. Em 2008, o congresso dos Estados Unidos, a pedido da Casa Branca, aprovou a Iniciativa Mérida, um acordo entre o país e os países da América Central para combater o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro entre as fronteiras. Sob o acordo, os Estados Unidos disponibilizaram US$ 1,6 bilhões por três anos em armamentos, equipamentos, treinamento para militares e civis e inteligência. Nesse contexto, em 10 de dezembro de 2008, logo após a vitória eleitoral de Barack Obama, no Los Angeles Times, David J. Danelo, veterano da Guerra do Iraque e autor dos livros “Blood Stripes: The Grunt’s View of the War in Iraq” e de “The Border: exploring US-Mexican Divide”, relatou que em Ciudad Juarez os traficantes enviaram mensagens e espalharam cartazes para lembrar os professores de que deveriam pagar por proteção, para eles mesmos e para os alunos. Segundo Danello, “se criminosos organizados desejarem cobrar tributos de professores, empresários, turistas ou qualquer um, não há nada que o governo mexicano possa fazer” (Danelo, 2008). O México é descrito como um “Estado fragmentado que pode 91 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina entrar em uma espiral de falhas como a recessão e piorar a violência derivada do tráfico de drogas” (Danelo, 2008). Mais do que isso, o autor sugere ao leitor um exercício de imaginação comparativa: “substitua os clãs tribais por cartéis de drogas, e o México começará a parecer perturbadoramente similar ao Afeganistão, onde a economia é alimentada pelo comércio de papoula para fabricação de heroína” (Danelo, 2008). Em fevereiro de 2009, toda a força policial da pequena cidade de Villa Ahumada pediu baixa, depois que homens de um cartel de drogas tomaram a cidade e executaram o chefe de polícia. A cidade fica em um ponto estratégico na rota do tráfico de drogas. Frequentemente, os cartéis, sobretudo o Cartel de Sinaloa e o Cartel de Juarez, entram em disputa pelo controle da cidade. O New York Times relatou o caso na reportagem de Marc Lacey, direto de Ciudad Juarez. Nessa, o jornalista informou aos estadunidenses que todo o estado de Chihuahua, onde está Ciudad Juarez e Villa Ahuamada, estava “sitiado por senhores feudais das drogas fortemente armados” (Lacey, 2009). De acordo com Lacey, os traficantes “rotineiramente coletam tributos de empresários”, mas “nada mais é surpresa em Chihuahua” (Lacey, 2009). Por fim, o repórter ouviu a diretora executiva do plano estratégico de Juarez, que confidenciou que “não há nenhum centímetro da cidade intocado pela violência” e “há muitas evidências de que Juarez, em sentido micro, está se tornando um Estado Falido” (Lacey, 2009). O Miami Herald publicou a matéria de Julie Watson, da Associated Press, sobre o mesmo caso. Para a jornalista, a situação não é exclusiva em Villa Ahuamada. Segundo Victor Clark, especialista da Universidade de San Diego entrevistado por Watson, “os cartéis tratam essas cidades como feudos – em algumas comunidades todos, desde o barman até os policiais locais, pagam algum tipo de tributo aos traficantes” (Watson, 2009a). Por fim, a reportagem da Associated Press reproduz a fala de uma senhora de 67 anos, que implora “nós queremos alguma autoridade aqui” (Watson, 2009a). Seis dias depois, a mesma jornalista, no mesmo jornal, noticiou que, em Ciudad Juarez, um chefe de polícia pediu demissão, após os traficantes avisarem que matariam um policial a cada quarenta e oito horas, se ele não deixasse o cargo. Para Watson, “a ameaça de assassinato era um sinal sombrio de que as gangues estavam determinadas a controlar as forças policiais na maior cidade da fronteira do México” (Watson, 2009b). De acordo com a reportagem, a violên- 92 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina cia “transbordou através da fronteira para os Estados Unidos, onde as autoridades relatam um aumento nos assassinatos, sequestros e assaltos a residências ligadas aos cartéis do México” (Watson, 2009b). O especialista George Grayson, do College of William and Mary, completou a reportagem: “é o principal problema de segurança nacional para nós, muito mais importante que o Iraque e o Afeganistão” (Watson, 2009b). Na edição de 26 de janeiro de 2009 do Wall Street Journal, Mary Anastasia O’Grady, ao relatar alguns casos de violência na fronteira, afirmou que esta ainda pode piorar e os Estados Unidos “enfrentam o contágio” (O’Grady, 2009). Para a jornalista, o México está “à beira do caos, e a confusão poderia facilmente sangrar através da fronteira” (O’Grady, 2009). Para reforçar seu argumento, cita um aviso do U.S Joint Forces Command de que a instabilidade no México pode representar “um problema de segurança interna de imensas proporções para os Estados Unidos”. A repórter publicou ainda o depoimento do general da reserva Barry McCaffrey para quem “a malignidade da criminalidade que cerca o tráfico de drogas se estende por todo os EUA em mais de 295 cidades” (O’Grady, 2009). O general da reserva relatou que os cartéis agem com um aparato militar moderno e que esses grupos são poderosos porque comercializam noventa por cento da cocaína e a maior parte das anfetaminas que entra nos Estados Unidos. Por fim, ainda com apoio do documento do U.S Joint Forces Command, O’Grady concluiu que o México e o Paquistão são potenciais “Estados Falidos” (O’Grady, 2009). Aproximadamente um mês depois, o mesmo diário publicou uma reportagem de David Luhnow e José Córdoba, com o título The Perilous State of Mexico. Após ilustrarem a violência mexicana com mais uma história de assassinato, os autores compararam: “exatamente como o Paquistão está lutando pela sobrevivência contra os radicais islâmicos, o México está travando uma batalha de vida ou morte com os mais poderosos cartéis de drogas do mundo” (Luhnow & Cordoba, 2009). Segundo os repórteres, traficantes mexicanos decapitam os adversários como um “eco arrepiante das táticas de intimidação utilizadas pelos radicais islâmicos” e extorquem “empresários, criando um sistema de impostos paralelo que ameaça o monopólio do governo” (Luhnow & Cordoba, 2009). Para Luhnow e Cordoba, a semelhança entre Paquistão e México é tão grande que os militares estadunidenses consideram ambos como lugares “onde existe um risco de que o governo sofra um catastrófico 93 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina colapso, tornando-se um Estado Falido” (Luhnow & Cordoba, 2009). A situação é apresentada como alarmante porque o México tem cem milhões de pessoas “nas portas dos Estados Unidos, o que significa que qualquer instabilidade séria provocaria uma inundação de refugiados” (Luhnow & Cordoba, 2009). Ainda mais assustador, os repórteres relatam que os traficantes já estabeleceram laços através da fronteira e são, segundo o próprio Departamento de Estado, o “maior crime organizado que ameaça os Estados Unidos”. Apoiados nas análises de especialistas estadunidenses, os repórteres do Wall Street Journal publicaram, bem como O’Grady no mês anterior, a fala de Barry McCaffrey que afirmou que, se as coisas não melhorassem, o México se tornaria um “narcoestado”. Outros especialistas, não nomeados no artigo, teriam dito que o maior perigo não era o colapso, mas que o país “se tornaria como a Rússia, um Estado pesadamente influenciado pela máfia” (Luhnow & Cordoba, 2009). Para tornar a reportagem ainda mais crível, Luhnow e Cordoba publicaram relatos de especialistas mexicanos, como Gerardo Priego, deputado do PAN (Partido Ação Nacional), que disse “nós ainda não somos um Estado Falido, mas se não agirmos logo, nós nos tornaremos em pouco tempo” (Luhnow & Cordoba, 2009). Em 2011, a situação parecia a mesma, ao menos nas páginas dos periódicos. Na edição de 16 de janeiro de 2011 do Miami Herald, o colunista Carl Hiaasen informou aos leitores de que um dos piores terroristas do mundo vivia muito perto da cidade de San Diego e fazia a Al Qaeda parecer os Simpsons, em referência ao famoso seriado de animação. No decorrer da coluna, Hiaasen criticou o governo Obama e, para reafirmar a importância de uma ação estadunidense, relatou os crimes violentos, o número de mortes no México e o clima nas cidades fronteiriças, inclusive do lado norte. Ainda mais enfático, alertou que a violência no México “é uma ameaça mais premente de segurança interna dos Estados Unidos do que o que está acontecendo no Afeganistão ou no Iêmen” porque a violência diária está na “nossa porta, e transbordando” e os cartéis de drogas mexicanos já atuariam em diversos estados estadunidenses como Flórida, Alabama, Califórnia, Arizona e Texas (Hiaasen, 2011). Por fim, ele advertiu: “para os americanos, os desafios podem ser tão grandes quanto no Afeganistão, e as balas estão voando muito mais próximo” (Hiaasen, 2011). A ideia de Estado Falido ficou exemplificada nas eleições. Em 94 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina 2010, os jornais reportaram a prisão de Gregório Sanchez, prefeito de Cancun e candidato ao governo do estado de Quintana Roo pelo PRD, por associação ao Cartel Los zetas e lavagem de dinheiro. Na edição de 27 de maio do The Los Angeles Times, Ken Ellingwood lembrou que a prisão “aumenta a preocupação de que grupos do crime organizado tenham se infiltrado na política mexicana em todos os níveis e que estejam minando os frágeis movimentos do país em direção a uma democracia real” (Ellingwood, 2010). Segundo o repórter, o aeroporto internacional de Cancun “ocupa uma posição estratégica para o contrabando de cocaína da América do Sul para os Estados Unidos” e a cidade turística “oferece um mercado robusto para as drogas ilegais” (Ellingwood, 2010). Na reportagem, Sanchez e o PRD (Partido da Revolução Democrática) disseram que as acusações eram frutos da perseguição política do Partido da Ação Nacional (PAN), do presidente Calderón. Segundo as pesquisas, Sanchez era o favorito para vencer o pleito no estado de Quintana Roo. Na mesma data, David Luhnow reportou o mesmo caso no Wall Street Journal e acrescentou que “há uma crescente preocupação de que os cartéis tenham pagado e ameaçado candidatos em vários estados” (Luhnow, 2010). Logo após perder a eleição para o governo do estado de Michoacan, em 2011, Luisa Maria Calderón, irmã do presidente Felipe Calderón, acusou Fausto Vallejo, candidato pelo PRI (Partido Revolucionário Institucional), de receber ajuda dos cartéis. Tracy Wilkinson e Cecília Sanchez publicaram, na edição de 15 de novembro do The Los Angeles Times, a declaração que Luisa Calderón deu aos meios de comunicação no México. Segundo o periódico Calderón teria dito que “a intervenção pelo crime organizado durante todo o processo eleitoral, e ontem especialmente, é alarmante, não apenas para Michoacan, mas para todo o país” (Wilkinson & Sanchez, 2011). Nas linhas seguintes, Jesus zambrano e Silvano Aureoles, respectivamente presidente e candidato do PRD, ecoou as acusações de Luisa Calderón. O PRI saiu em defesa de Vallejo e negou todas as acusações. Dez dias depois, o Miami Herald noticiou que escutas telefônicas, reveladas por uma emissora de televisão mexicana, flagraram o chefe do Cartel La Famiglia ao ameaçar queimar casas e assassinar quem votasse no candidato do PRD. De acordo com o jornal de Miami, zambrano teria dito que o México virará um Estado Mafioso, caso o PRI vencesse as eleições presidências. Entretanto, 95 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina segundo a mesma reportagem, Aureoles também era acusado de receber US$ 2 milhões do Cartel Knights Templar, que disputava o controle do mercado em Michoacan contra o Cartel La Famiglia (Johnson, 2011). Conclusão: a definição do “outro” e do Estado Falido como instrumento político As análises e as notícias acerca do exterior não são simplesmente narrativas, julgamentos e caracterizações do Estado no cenário internacional. Mais do que isso, embora tentem parecer isentas, os intelectuais que desenvolvem essas narrativas arquitetam imagens da nação, imprescindíveis às disputas na sociedade civil e na construção da hegemonia. É na imagem da nação que as concepções de mundo e o projeto nacional se articulam. As nações são comunidades construídas por meio do estímulo à sua imaginação. Como observa Benedict Anderson, as nações são comunidades imaginadas, pois os membros não se conhecem pessoalmente, mas mesmo assim nutrem e dividem o mesmo sentimento de comunhão nacional. Nos jornais, os leitores reconhecem imagens comuns e narrativas coletivas em que diversos relatos, em diferentes partes do globo, formavam uma espécie de romance real, que incluem suas próprias realidades. Dessa forma, o leitor se vê como parte de uma “comunidade imaginada” por meio da linguagem com um espaço circunscrito e sujeitos nunca vistos, onde se desenrolam os enredos e as narrativas que guiam parte de suas vidas. (Anderson, 1983). A analogia entre as narrativas jornalísticas, o exterior e a vida do leitor se estabelece de duas maneiras distintas. Primeiro ocorre por meio da lógica novelesca diária do jornal, reforçada pelo calendário. Quando os leitores recebem as narrativas sobre a vida de outros indivíduos durante um curtíssimo período, que cessa com o fim da notícia, ficam a imaginar a vida daqueles mesmos indivíduos, que vivem no mesmo território ou se distinguem justamente por viverem em territórios diferentes. Isso instiga a percepção de que existem outros indivíduos que vivem simultaneamente a mesma realidade temporal, formando uma comunidade imaginada. Segundo, enquanto o leitor lê o jornal e percebe que outros sujeitos, em qualquer parte do planeta, podem estar a ler as mesmas notícias, o mundo imaginável se torna visível, aparente. De acordo com Anderson, “imaginada porque 96 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina mesmo os membros das menores nações nunca irão conhecer a maioria dos seus companheiros, encontrá-los, ou mesmo ouvi-los, ainda que nas mentes de cada um exista a imagem da comunhão deles” (Anderson, 1993, p. 6). As peças jornalísticas supracitadas caracterizam o México sempre com palavras e expressões como caos, medo, feudal, problema, narcoestado, estado-mafioso, movimento frágil em direção à democracia, nenhum centímetro da cidade intocado pela violência, queremos alguma autoridade, Estado fragmentado e outras do tipo. Nesse espaço, vivem senhores feudais da droga, criminosos organizados, gangues e outros comparáveis aos radicais islâmicos e terroristas. Eles são sujeitos de todas as ações. Controlam a entrada das drogas nos Estados Unidos; dominam a política institucional; e envolvem todos, desde garçons até candidatos, por passividade ou parceria. Em pouquíssimas reportagens o México é lembrado como uma economia emergente e um dos países com melhores índices de crescimento na América, realidades do mesmo período. Nenhuma reportagem colocou como tema ou personagem principal outros sujeitos da sociedade mexicana. Mesmo as vítimas, de alguma maneira, estavam inseridas na realidade caótica daquele espaço. Tal realidade nunca é conjuntural ou excepcional. A realidade é generalizada, como mostram expressões como “rotineiramente” e “nada mais surpreende”. A conclusão, quase invariavelmente, é que o México é, ou será, inevitavelmente, um Estado Falido ou um conjunto de feudos, portanto atrasado e sem Estado. Por isso, o México, mais do que o Iraque e o Afeganistão, é uma ameaça aos Estados Unidos. É ainda pior porque a violência está na “porta” e há risco de contágio se transbordar através da fronteira. Tudo isso ganha veracidade com a participação de fontes oficiais estadunidenses e mexicanas, supostamente neutras – como o relatório da U.S Joint Forces Command e os depoimentos do general da reserva Barry McCaffrey e de outros especialistas –, que aparecem repetidas vezes em diferentes jornais e, consequentemente, dão uma impressão da realidade. Como lembra David Campbell, diante do exterior, frequentemente, as narrativas jornalísticas operam pelo paradigma da soberania, que funciona por meio da dicotomia soberania/anarquia e também reforça dicotomias como bem/mal, nativo/estrangeiro, eu/outro, racional/irracional, razão/emoção, estabilidade/anarquia, 97 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina herói/vilão e outros mais, em que o primeiro elemento é positivo ideal e o segundo elemento negativo ameaçador. Entre positivo e negativo, o enquadramento dentro desses elementos possibilita a generalização, a diferenciação e a hierarquização. O medo da anarquia, que pode levar à morte do Estado e do indivíduo, estimula o sentido de fidelidade e de pertencimento por meio da promessa de segurança e, consequentemente, de salvação (Campbell, 1998). Nessa lógica, os meios de comunicação definem a fronteira que separa o espaço do “mocinho” onde reina o racional, o ordeiro, o bom e o civilizado do espaço do “bandido” onde imperam a irracionalidade, o caos, o mal e a selvageria. Essa dicotomia é a fronteira verbalizada, que opõe o que é benigno e o que é maligno, em vários níveis, e é, portanto, fundamental para definição da concepção de nação. Sendo assim, as notícias não caracterizam apenas o México e o mexicano, mas também os Estados Unidos e os estadunidenses. O México é o espaço do caos, do medo, da ausência de autoridade e da falta de democracia. É a anarquia – em seu sentido pejorativo – o Estado falido, o problema. Os Estados Unidos, ao contrário, são o espaço da ordem, da segurança, da autoridade e da democracia. É a soberania, a terra prometida, o Estado bem sucedido, a solução. No México, reinam traficantes, organizações criminosas, gangues, assassinos, terroristas ou envolvidos como o tráfico. Nos Estados Unidos, vivem as vítimas da violência e o tráfico – mesmo quando se reconhece o alto consumo de drogas – os especialistas, os políticos, os soldados e as comissões que dão sugestões e podem, supostamente, resolver o problema. As identidades não têm um fim em si mesmas. As narrativas que constroem as identidades são armas fundamentais nas mãos dos intelectuais orgânicos a fim de construir um projeto político hegemônico. Os periódicos jornalísticos não pretendem apenas satisfazer o público, mas buscam suscitar necessidades e desenvolver consenso entre os leitores. Nesse processo de construção da hegemonia por meio dos meios de comunicação, a repetição é um meio didático para alcançar a mentalidade popular e criar novos intelectuais orgânicos, que replicam as visões de mundo, alcançando, inclusive, aqueles que não leem as publicações periódicas. A repetição – em caráter diário, semanal, quinzenal, mensal, semestral ou em qualquer periodicidade – não é mecânica, mas adaptada às tradições e às narrativas conjunturais cotidianas. As narrativas acerca do 98 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina exterior suscitam, quase sempre, o medo em relação ao outro, externo e negativado, e direta ou indiretamente, conformam o comprometimento dos homens com o ideal nacional, em compromisso com sua própria vida e com a vida dos seus semelhantes. Nesse sentido, são vetores de externalização de valores negativos e do perigo e, ao mesmo tempo, de mobilização da população para evitar e controlar os mesmos. A violência no México está concentrada, sobretudo, no norte, próximo à fronteira com os Estados Unidos, mas não exclusivamente. Por isso, atinge diretamente a segurança e os interesses estadunidenses na região, onde estão instaladas centenas de plantas industriais, conhecidas como maquiladoras; que têm posição estratégica importante; abrigam recursos naturais como petróleo e gás; fornecem mão de obra sazonal para plantações no sul estadunidense; e produzem e distribuem drogas que podem gerar alta rentabilidade. Sendo assim, as narrativas jornalísticas que apresentam o México como um Estado falido, assemelhado ao Iraque e ao Afeganistão, e os Estados Unidos como solução para o problema, dão sustentação a projetos políticos que, entre outras coisas, visam controlar e reconstruir a região de diferentes formas, a fim de promover a ordem desejável para realização do capital. Mais do que isso, a associação direta entre Estado falido e a ameaça aos Estados Unidos pressupõe, se for preciso, uma guerra contra um inimigo que ameaça ambas as nações e o mundo. Assim, transfere a questão para o nível militar e legitima, inclusive, intervenções no país vizinho. Não por coincidência, enquanto o México e os Estados Unidos eram caracterizados nos jornais, o congresso estadunidense e o governo Barack Obama estenderam a Mérida Initiative para 2011, com mais US$ 310 milhões, e para 2012, com mais US$ 290 milhões. Roberto Moll - Doutorando do Programa San Tiago Dantas de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e PUC/SP, Pesquisador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI-UNESP), pesquisador e docente do Instituto Federal Fluminense (IFF). Referências bibliográficas ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the origin and Spread of Nationalism. New York: Verso, 1983. BENNET, Lance. When the Press Fails: Political Power and the News Media from Iraq 99 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina to Katrina. University of Chicago Press, 2007. CAMPBELL, David. 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Los Angeles, 15 de novembro de 2011. 100 CApÍtuLo 6. reGionALiSmo, intereSSe nACionAL e orDenAmento territoriAL nAS reLAçõeS DoS eStADoS uniDoS Com A AmÉriCA LAtinA LUIS FERNANDO AYERBE Introdução O presente capítulo aborda as relações entre os Estados Unidos e a América Latina a partir da análise sobre a percepção em setores do establishment da política externa do país sobre os desafios originários da recente profusão de mecanismos de integração regional, pensados como estratégias de ordenamento territorial que projetam poderes estatais e disputas de hegemonia. Selecionamos sete think tanks com base no seu reconhecido prestígio nos Estados Unidos, sua representatividade em termos de diversidade político-ideológica e por desenvolverem linhas de pesquisa sobre América Latina: 1. O American Enterprise Institute (AEI) é um dos principais centros de referência do pensamento conservador, próximo ao Partido Republicano, inclui nos seus quadros ex-funcionários do governo George W. Bush como Paul Wolfowitz, Secretário Adjunto da Defesa, e Roger Noriega, Subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental; 2. O Brookings Institution (BI) se define como independente, embora venha tendo uma proximidade maior com administrações 101 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina 3. 4. 5. 6. 7. Democratas. Entre os funcionários governamentais oriundos da instituição, cabe mencionar William Cohen, Secretário da Defesa de Bill Clinton, e Susan Rice, atual Assessora de Segurança Nacional; O Center for American Progress (CAP), tem proximidade com o Partido Democrata, conta no seu Conselho Diretor com a participação da ex-secretária de Estado de Bill Clinton, Madeleine Albright. Dan Restrepo, ex-diretor do Programa Latino-americano da instituição, exerceu o cargo de Diretor para Assuntos do Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional na primeira administração Obama; O Center for Strategic and Internacional Studies (CSIS), busca se posicionar de forma não-partidária, conta entre seus conselheiros com zbigniew Brzezinski, Assessor de Segurança Nacional de Jimmy Carter, e teve como membro a Otto Reich, Subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental de George W. Bush; A Heritage Foundation (HF), centro conservador e próximo ao Partido Republicano, com vários dos seus quadros atuando em cargos governamentais, como Sara Youseff, assessora especial de George W. Bush para Política Doméstica. Ray Walser, analista de política externa da instituição, foi co-presidente para as questões relativas a América Latina da campanha do candidato Mitt Romney às eleições de 2012; O Inter American Dialogue (IAD), além de estar orientado exclusivamente para os assuntos hemisféricos, incorpora lideranças do setor público e privado da América Latina e do Canadá. Conta com a participação no seu Conselho Diretivo de ex-funcionários de administrações Republicanas e Democratas, como Carla Hills, Representante Comercial de George H. W. Bush, e Thomas F. McLarty III, enviado especial para as Américas no governo de Bill Clinton; O The Washington Office on Latin America (WOLA), cujo objetivo é influenciar a política dos Estados Unidos para a região em temas de direitos humanos, democracia e desenvolvimento socioeconômico, interagindo com órgãos governamentais do país, organizações multilaterais e parceiros na América Latina. Conta com um quadro dirigente de trajetória vinculada à sociedade civil, como Jay Olson e Geoff Thale. 102 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Embora sem a pretensão de estabelecer um consenso sobre a representatividade da eleição dentro da grande variedade de setores que, direta ou indiretamente, exercem influência sobre os rumos do posicionamento internacional estadunidense, consideramos que a seleção feita possibilita o aceso a importantes atores. Além de prover quadros para funções decisórias importantes do Poder Executivo, essas instituições produzem estudos que refletem a percepção da América Latina por parte de interlocutores relevantes dos recentes governos Republicanos e Democratas, permitindo uma visão bastante próxima sobre os desafios que o establishment da política externa do país identifica na região. Uma exclusão que consideramos necessário justificar é a do Council on Foreign Relations (CFR). Desde a sua fundação em 1921, até os dias atuais, a instituição inclui entre seus membros ex-ocupantes de cargos nas mais altas esferas decisórias do país, independentemente da origem partidária de cada administração, incluindo presidentes, vice-presidentes, secretários de Estado, de Defesa, do Tesouro e, após a Segunda Guerra, assessores do Conselho de Segurança Nacional e diretores da CIA. Sua projeção perpassa também boa parte dos principais Think Tanks do país, com participações de vários integrantes daqueles que apresentamos anteriormente. No nosso entender, a ampla disseminação da presença do CFR dificulta a caracterização de posições institucionais, um dos objetivos deste artigo. (Ayerbe, 2012, p. 73) Em termos de organizações regionais latino-americanas, tomaremos como referência quatro instituições criadas entre 2004 e 2012: a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), de 2004, a UNASUL (União de Nações Sul-americanas), de 2008, a Aliança do Pacífico (AP), de 2011, e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos), de 2012. Essas quatro organizações apresentam como característica comum o fato de serem iniciativas que partem dos próprios países latino-americanos, inserindo-se no movimento mais geral visando a uma ordem internacional multipolar, buscando articular um espaço econômico e político regional a partir do fortalecimento de mecanismos de cooperação. Para organizar a análise, dividimos os Think Tanks em três categorias: 1) conservadores, Heritage Foundation e American Enterprise Institute, com foco no poder estadunidense como instrumento privilegiado na criação de uma ordem internacional próxima aos interesses do país, defendendo 103 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina o isolamento e/ou subordinação dos governos considerados adversários; 2) moderados, Brookings Institution e Center for American Progress, mais preocupados com a construção de consensos, valorizando o poder de atração dos valores que consideram inerentes ao sistema político estadunidense; 3) não-partidários, CSIS, Inter-American Dialogue e Wola, que objetivam apresentar, para além do partido no poder, análises e proposições direcionadas a favorecer políticas de Estado. Os Think Tanks e o regionalismo latino-americano Três temas adquirem maior destaque na vinculação que os Think Tanks selecionados estabelecem entre a política externa dos Estados Unidos e os desafios dos mecanismos regionais: 1) Reconhecem-se diferenças entre o radicalismo atribuído à ALBA, a maior moderação que pauta a UNASUL e CELAC, embora ganhe destaque o fato de que as duas últimas, mais amplas em termos de participação de países, também deixam fora os Estados Unidos, e as explícitas boas-vindas à AP (Aliança do Pacífico), elogiando seu pragmatismo na abertura a novos membros dentro ou fora do hemisfério e a sua orientação ao livre mercado. 2) Reconhece-se a perda de relevância da América Latina na agenda internacional estadunidense, tendo como contrapartida uma diminuição da influência do país na região. 3) A continuidade da abordagem hemisférica da política externa perde consenso, despontando análises que vislumbram um cenário pós-Doutrina Monroe, priorizando convergências sub-regionais e bilaterais. Começando com o campo conservador, tanto o AEI como a HF focalizam a atenção no ativismo chavista e sua estratégia de enfraquecimento da influência dos Estados Unidos. Durante o processo eleitoral de 2008, Roger Noriega destaca entre os desafios do próximo presidente o “Imperialismo Bolivariano” sustentado financeiramente pelo contexto de alta dos preços do petróleo, apresentado como fator de fortaleza conjuntural, mas de limitado alcance estrutural, prevendo um inevitável fracasso quando o mercado se estabilizar. No entanto, No momento, Chávez está em maré de sorte, e a diplomacia dos EUA está se reduzindo a partir desse desafio. Sua marcha descarada para a ditadura 104 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina continua, com muito poucos comentários dos diplomatas estadunidenses, que estão lutando para se mostrar impassíveis, mas não indiferentes. Jogos de empurra constitucionais na Bolívia e Equador têm chamado pouca ou nenhuma atenção. Aqueles que uma vez se uniram aos Estados Unidos para dizer o que pensam na defesa dos valores democráticos — Canadá, Chile, os países centro-americanos e a Colômbia— têm ficado em silêncio. Aqueles que desejavam que os Estados Unidos trabalhassem de forma mais colegiada não têm conseguido convencer a Organização dos Estados Americanos (OEA) a assumir o papel que lhe corresponde na defesa multilateral da ordem democrática. (Noriega, 2007) Diferentemente de Hugo Chávez e a ALBA, Noriega vê positivamente a atuação do presidente peruano Ollanta Humala, que dá continuidade à AP, iniciativa que teve no seu antecessor, Alan Garcia, um dos seus grandes promotores, especialmente a partir da Declaração de Lima de 2011. Humala “provou ser mais pragmático do que ideológico, e parece cada vez mais confortável com as soluções de livre mercado em detrimento da agenda estatista”. (Noriega, 2013a) Com o falecimento de Hugo Chávez em março de 2013, Noriega alerta para o caos que pode se instaurar na Venezuela, construindo um quadro que combina crise econômica, falência da revolução bolivariana, aprofundamento da polarização política e fraqueza de liderança do novo presidente Nicolás Maduro, acenando para um cenário pior que o da Síria: Uma implosão da economia da Venezuela — ou, Deus não queira, uma guerra civil prolongada — vai perturbar os mercados internacionais de petróleo e desestabilizar a região num momento em que a economia dos EUA está crepitando. O que é pior, na última década, a Venezuela converteu-se num narco-Estado, com dúzias de altos funcionários e empresas estatais cúmplices no lucrativo tráfico de cocaína. O regime também é um aliado de Irã e Hezbollah, que podem encontrar suas próprias formas de explorar o caos na Venezuela. A geografia faz com que o banho de sangre na Síria seja quase invisível para os estadunidenses, mas a Venezuela é um voo de três horas desde Miami, e o Nº 3 no mundo das redes sociais... Por outra parte, nas Américas se espera dos Estados Unidos que exerçam a liderança. (Noriega, 2013b) 105 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Na perspectiva de analistas da HF, a estratégia bolivariana adquire notoriedade em três áreas importantes da agenda estadunidense: economia, política de drogas e defesa. No âmbito econômico, Ray Walser remete ao discurso de Chávez na reunião de Chefes de Estado dos países da ALBA em novembro de 2008, em Caracas, quando chamou a acabar com “a ‘hegemonia do dólar’ e propôs a criação de um ‘sistema de intercâmbio comercial baseado na solidariedade’, centrado numa zona monetária única e no estabelecimento de uma moeda comum, o sucre, a ser estabelecido nos próximos dois ou três anos”. (Walser, 2009a) Em declaração ao Comitê de Assuntos Exteriores do Congresso em dezembro de 2009, Walser estabelece um paralelo entre a política de enfraquecimento da presença dos Estados Unidos patrocinada pela ALBA e a política de combate às drogas: “Expulsar a Agência de Controle de Drogas da Bolívia ou Venezuela, o fechamento da base de operações avançadas em Manta, Equador, e a expulsão dos embaixadores estadunidenses com pretextos frágeis, são sinais de um esforço consistente para socavar o passado de progresso conjunto na frente das drogas.” (Walser, 2009b) No campo da defesa, Walser e Ortiz (2008) destacam a aproximação entre a Venezuela e a Rússia, que se torna seu maior provedor de armas, e o protagonismo nas iniciativas da UNASUL para a criação do Conselho de Defesa Sul-Americano, colocando em evidência a convergência com o Brasil, embora deixando claras as diferenças de abordagem dos dois países em termos de radicalismo antiamericano. Para Walser, a liderança brasileira assume um caráter diferenciado, já que paralelamente à busca de maior autonomia regional, consegue moderar o alcance da influência venezuelana. Chávez reconhece que não pode ditar por completo a agenda regional para a América Latina. Deve, portanto, continuar sendo o suficientemente flexível como para apoiar projetos como a recentemente criada União das Nações Sul-americanas (UNASUL). Ele também tem que ajustar as políticas econômicas e comerciais o suficiente como para manter o ingresso ao Mercado Comum da América do Sul, MERCOSUL. (Walser, 2009a) A construção de espaços de autonomia por meio dessas organizações é reforçada a partir de 2008 pelos efeitos da crise financeira, 106 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina quando a Ásia, e especialmente a China, amplia sua projeção nas relações econômicas da região. Em um quadro de menor influência estadunidense, Walser sugere à administração Obama que não desdenhe dos frutos de uma política de duas décadas que considera consistente e de caráter bipartidário: Desde o Plano Brady para o alívio da dívida, a promoção da democracia no marco do guarda-chuva do National Endowment for Democracy, e a Iniciativa para as Américas, todos produtos da era Reagan-Bush; por meio do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), da Cúpula das Américas e do Plano Colômbia durante o governo de Clinton; aos acordos bilaterais de livre-comércio, da Corporação do Desafio do Milênio (MCC), e da Iniciativa Mérida da Administração passada, uma Administração atrás da outra foi construindo sobre o trabalho dos seus predecessores. Quando começam a se queixar da falta de atenção dos EUA com a região, os latino-americanos necessitam ser gentilmente lembrados dessas iniciativas políticas estadunidenses custosas e extensas dos últimos vinte anos. (Walser, 2009c) A percepção com relação aos perigos colocados por Chávez e a ALBA reaparece no processo de destituição do presidente Fernando Lugo no Paraguai em julho de 2012. Para Walser (2012), trata-se de um teste para a liderança dos Estados Unidos na região frente aos que rotula como “autocratas da ALBA”, na vanguarda das denúncias de que houve um golpe de Estado, recomendando a Obama o apoio ao impeachment e a nomeação pelo congresso do vice-presidente Federico Franco como novo chefe do executivo. Da mesma forma que Roger Noriega, o analista da HF Suarez-Murias acusa a ALBA de ser uma porta de entrada do Irã na região: Quando os EUA levaram o Ocidente a estabelecer sanções paralisantes contra o Irã, os Estados da ALBA continuaram a negociar com o Irã. Venezuela e Equador (...) permitem ao Irã usar estruturas bancárias internas para mover o seu dinheiro no mercado internacional. Além disso, as operações com Cuba e Venezuela (...) têm sido bem sucedidas em falsificar documentos de identidade para que cidadãos iranianos migrem mais livremente para a América do Norte. (Suarez-Murias, 2013) 107 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Robert James (2013), também da HF, considera a CELAC uma criação chavista, em que seu caráter antiamericano estaria manifestando-se explicitamente com a nomeação de Cuba para a presidência rotativa em 2013. Nessa perspectiva, chama para a ação o governo dos Estados Unidos: “O presidente Obama deveria trabalhar com a União Europeia (UE) e apresentar uma frente unida contra os renegados chavistas, em interesse não só dos investidores de EUA e da UE, senão também em nome dos cidadãos de Argentina, Bolívia e Venezuela que estão sendo enganados pelas políticas dos seus governos”. Nesse clima de “ameaça bolivariana iminente”, a reunião realizada em Cali em maio de 2013 entre os presidentes da AP, que decidem eliminar taxas alfandegarias sobre 90% do seu comércio, é percebida como fator positivo que deveria demandar maior atenção do governo Obama. Para Sergio Daga (2013), da HF, trata-se de um “bloco comercial, consideravelmente mais pragmático e menos ideológico que outros da região (por exemplo, a ALBA, CELAC e UNASUL, todos eles chavistas)”. Em documento dirigido ao Congresso dos Estados Unidos, Ana Quintana e James M. Roberts, da HF, sugerem sete prioridades para a América Latina e Caribe em 2014: 1) Apoiar uma genuína transição democrática em Cuba, condicionando qualquer relaxamento de sanções a passos concretos do regime na direção da liberdade política e econômica. 2) Apoiar a Aliança do Pacífico “como o melhor caminho a seguir por parte da América Latina”. 3) Forjar uma relação mais forte com a Costa Rica, “prestes a aderir à Aliança do Pacífico e a assumir a liderança da Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe 2014-2017”. 4) Apoiar reformas econômicas mais amplas e profundas no México. 5) Encorajar reformas no Brasil, que da mesma forma que o México, “escorregou para trás e provou mais uma vez que não tinha jogado fora as políticas nacionalistas e protecionistas que por gerações têm atrasado o seu potencial econômico”. 6) Preparar-se para o inevitável colapso na Venezuela, “que virá quando os militares venezuelanos finalmente decidirem que têm mais a perder se ficarem com o sucessor que Hugo Chávez escolheu a dedo (junto com seus supervisores cubanos) do que se o derrocassem”. 7) Construção de uma Fundação que “incentive os governos da América Latina a buscar uma maior liberalização das suas economias”. (Quintana e Roberts, 2014) No campo dos Think Tanks que caracterizamos como moderados, se bem a preocupação com a perda de influência e a emergência de novos 108 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina polos de poder também esteja presente, se descartam ameaças à ordem hemisférica originárias de governos associados à esquerda. O que se propõe é que os Estados Unidos trabalhem na construção de alianças que explorem as diferenças entre as lideranças da Venezuela e do Brasil expressas na ALBA e na UNASUL. Citando o descontentamento gerado em 2009 pelo anúncio da Colômbia da utilização por parte dos Estados Unidos de bases militares no seu território, que levou a um maior isolamento de Álvaro Uribe, seu principal aliado, Diana Villiers Negroponte, da BI, questiona a postura do governo Obama de não levar em conta o Brasil na hora de promover essa iniciativa. O resultado do anuncio foi uma estridente reação “antigringo”, que jogou a favor de Hugo Chávez e seus colegas na ALBA (...). Também deixou o presidente brasileiro Lula, fundador do Conselho Sul-Americano de Defesa, que deliberadamente excluiu a participação de EUA, irritado por não ter sido consultado com suficiente antecedência. A boa vizinhança sem dúvida indica um formal “cara a cara” antes que aviões dos EUA adquiram direito de aterrisagem em bases aéreas na fronteira norte do Brasil. (Villiers Negroponte, 2009) Na mesma perspectiva, Michael Werz e Winny Chen, do CAP, percebem o Conselho de Defesa Sul-Americano como uma iniciativa que explicita objetivos de liderança brasileira, buscando “aumentar a transparência dos gastos militares, a promoção da cooperação militar entre seus Estados membros, e resolver as disputas regionais com a clara exclusão dos Estados Unidos, pressionados a renovar sua presença num entorno regional que mudou dramaticamente.” (Werz e Chen, 2010) Avaliando os desafios de um quadro complexo de proliferação de mecanismos de interlocução sub-regional, documento do CAP recomenda à administração Obama assumir a iniciativa de reforma da OEA, instância privilegiada para o diálogo hemisférico e na qual a busca de convergências com aliados como Brasil se torna fundamental. Se bem essa dinâmica funciona por si só através da América Latina, um significativo diálogo de EUA com o Brasil, consciente do enfoque matizado do país para a diplomacia regional, é crucial. O Brasil não está disposto a adotar um enfoque de confronto aberto na sua diplomacia 109 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina regional —especialmente se os Estados Unidos estão na mesa, e não quer ser visto como um lacaio dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, no entanto, o Brasil tem um crescente apreço do valor da estabilidade regional, dada a exposição do seu banco de desenvolvimento e das empresas multinacionais brasileiras ao risco político nas Américas e ao redor do mundo. (Meiman e Rothkopf, 2009) Contrariamente ao estado de alerta presente nas análises do AEI e da HF com relação às ameaças originárias da atuação conjunta dos governos “esquerdistas” em organizações regionais, os Think Tanks que caracterizamos como não-partidários adotam perspectiva similar à BI e a do CAP sobre a necessidade de conviver pragmaticamente com as novas realidades. Documento de WOLA de 2007 propondo à administração a ser eleita em 2008 uma redefinição de lineamentos nas relações Estados Unidos-América Latina, aponta o peso regional dos fatores econômico-sociais como motor de mudanças políticas geradas em um quadro de respeito à democracia. Frente a esse cenário, devemos entender que as correntes populistas que surgiram na América Latina nos últimos anos —e que em muitos países têm vencido eleições livres e justas, e agora exercem poder político— são uma resposta aos problemas reais que enfrenta a região. Os Estados Unidos deveriam responder positivamente ao impulso que está por trás desses movimentos. (WOLA, 2007) Caso não se estendam pontes de cooperação que passem por cima da diversidade regional, será mantida a tendência de isolamento dos Estados Unidos com relação à sua vizinhança. Essa perspectiva passa a ser percebida como realidade mais palpável nas análises de WOLA sobre a CELAC, que ao mesmo tempo em que aprofunda a percepção de perda de influência dos Estados Unidos, suscita interrogações sobre a operacionalidade da nova organização em comparação à OEA, levando em conta seu grau de institucionalidade. Analisando a Cúpula de janeiro de 2014 em Havana, Geoff Thale considera que a presença do Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e do Secretário Geral da OEA, José Miguel Insulza, sinaliza “a crescente importância diplomática do corpo regional”. No entanto, mesmo considerando que a autonomia da organização está se tornando real e não deve ser subestimada ou antagonizada pelo 110 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina governo Obama, Thale pondera o fato de que os Estados Unidos “são ainda o maior parceiro comercial de muitos países latino-americanos, incluindo algumas das vozes mais críticas, como Venezuela. E a OEA é ainda muito importante na região na medida em que possui uma institucionalidade da qual a CELAC carece. Adicionalmente, muitos países na região querem estar em um diálogo multilateral que inclua os Estados Unidos e o Canadá”. (Thale, 2014) Em junho de 2011, respondendo ao Portal argentino Infobae sobre como Washington avalia o surgimento das novas organizações multilaterais na América Latina e no Caribe, Michael Shifter, do IAD, apresenta uma síntese que nos parece ilustrativa da análise que desenvolvemos até aqui: Em geral, Washington recebe bem esses novos mecanismos que estão surgindo na região, porque são vistos como complementares à OEA e a outros fóruns dos quais participam os Estados Unidos. É preferível ter instituições fracas que não ter nenhum tipo de instituições. Há certo ceticismo sobre quão sólidos e coerentes podem chegar a ser esses novos organismos regionais, especialmente perante as divisões políticas entre os diferentes governos. Inclusive deixando de lado os EUA, há uma grande desconfiança em vários países da América Latina. Até agora a UNASUL jogou um papel positivo em alguns casos, como na redução das tensões entre Colômbia e Venezuela, mas os desafios institucionais são consideráveis. Washington acompanha de perto como isso evolui; é claro que a região mudou e que a influência dos Estados Unidos declinou notavelmente. Alguns poderão sentir saudades dos velhos tempos de hegemonia estadunidense, mas a maioria está de acordo que Washington tem que entender e se relacionar melhor com essas novas realidades. (Shifter, 2011) O quadro que se estabelece em 2013 a partir do falecimento de Hugo Chávez e das denúncias sobre espionagem do ex-consultor da CIA, Edward Snowden, embora impacte nas relações Estados Unidos-América Latina, não altera a percepção de Shifter, que mantém um olhar diferente sobre o “estado de alerta iminente” exaltado por analistas do AEI e da HF: Hugo Chávez teria adorado o caso Edward Snowden: um homem que foge das autoridades estadunidenses, apontando à suposta hipocrisia da 111 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina política externa de EUA, uma brecha entre Washington, Beijing e Moscou, e contando com a ajuda de um grupo de governos latino-americanos esquerdistas que vocifera a possibilidade de incluir a Venezuela, Cuba e Equador na sua busca de refúgio... Mas este momento de centralidade de atenção dos governos de esquerda da América Latina chega em tempos difíceis. Depois de quase uma década e meia das grandes ambições de Chávez para construir a solidariedade regional em oposição à influência dos EUA na região, seu sucessor, Nicolás Maduro, parece demasiado preocupado por crises internas para fazer grandes incursões no cenário mundial. (Shifter, 2013) Se bem a situação interna da Venezuela afete a liderança da ALBA, isso não se traduz em uma alteração de correlação de forças que sinalize o retorno ao cenário político-ideológico regional prévio à emergência do chavismo. Shifter considera que a AP representa de fato uma boa notícia em termos de retomada da agenda de livre-comércio em países importantes da região após a interrupção da iniciativa da ALCA, no entanto, a volta ao governo do Chile de Michele Bachelet tende a esfriar entusiasmos com um potencial contraponto AP-ALBA: “Embora tenha se comprometido com a Aliança, é provável que (Bachelet) se mova mais perto do Brasil e talvez um pouco mais distante do bloco do Pacífico. Seu governo resistirá à qualquer tentativa de apresentar a Aliança como um contrapeso ideológico à ALBA”. (Shifter, 2014) Respondendo uma consulta da publicação do IAD “Latin America Advisor” sobre as tendências das relações Estados Unidos-América Latina para 2014, Peter Hakim, membro do Conselho Assessor da instituição, considera que já passou o tempo de se discutir uma política latino-americana dos Estados Unidos, em um contexto em que a administração Obama, na voz do Secretário de Estado John Kerry, anuncia o fim da Doutrina Monroe (Kerry, 2013) e as relações com a região estão atomizadas. Não existe América Latina ou uma política latino-americana. Os Estados Unidos se desacoplaram em grande parte das operações da OEA —e está mais distante que nunca dos países da região. Particularmente prejudicial tem sido a disputa entre Brasil-EUA sobre a espionagem da NSA, que levou a presidente Rousseff a cancelar sua visita de Estado a Washington (...). Apesar dos esforços diplomáticos do Secretário Kerry (particularmente 112 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina para a Venezuela), as relações com o grupo antiestadunidense da ALBA se mantêm sem mudanças. (Latin America Advisor, 2013) Na mesma direção dos analistas vinculados ao IAD, Carl Meacham, do CSIS, trata o caso Snowden e a emergência da AP como exemplos da diversificação do espaço hemisférico. No caso dos vazamentos de informações de inteligência, questiona sobre o fato de que a oferta de ajuda ao espião asilado provisoriamente na Rússia se concentre no Hemisfério Ocidental, particularmente em países associados à ALBA, o que vê como indicador do deterioro da posição dos Estados Unidos: Uma série de líderes da região, particularmente Maduro, procura seguir o exemplo de Chávez e Fidel Castro. Sua liderança dependeu principalmente de ganhar relevância e influência posicionando-se como contrários aos Estados Unidos e ao interesse nacional dos EUA. Emprestando uma mão para Snowden (...) esses líderes latino-americanos continuam essa longa (e em grande medida cansativa) tendência. (Mecham, 2013a) Como compensação, aponta as razões pelas quais os Estados Unidos deveriam integrar a AP: “a Aliança do Pacífico incorpora um conjunto de valores que os Estados Unidos tem defendido, tanto na região como ao redor do mundo (...). Aceitar um convite para ser membro pleno seria, em suma, a mensagem de que os Estados Unidos estão do lado dos seus vizinhos da América Latina que trabalham por uma maior liberalização econômica”. (Meacham, 2013b) Eric Farnsworth, em estudo para o CSIS sobre as tendências da política hemisférica estadunidense, faz um balanço crítico do que considera iniciativas bem intencionadas, mas de escassos resultados em torno do apoio à democracia, segurança pública e abertura dos mercados, na medida em que não conseguiram deter a diminuição da influência do país na região. Como consequência, diagnostica um colapso do pensamento estratégico que concebia a possibilidade de construção de uma agenda de alcance regional, como a representada pela Cúpula das Américas lançada por Bill Clinton, que tem se tornado crescentemente irrelevante. Para ele, “os formuladores de políticas internalizaram a dinâmica do ‘fim da história’ em que a emergência da democracia por meio do eixo norte-sul na América Latina asseguraria a busca de uma agenda comum baseada em 113 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina valores compartilhados e interesses comuns” (Farnsworth, 2013, p. 60). Isso aparece claramente no caso do Brasil e suas relações paralelas com os Estados Unidos e a ALBA. “Brasil, o peso pesado regional, uma democracia forte e vibrante, mas com uma visão estratégica independente, também tem desenvolvido uma agenda que busca construir sua própria influência às custas dos Estados Unidos (...). Por exemplo, a busca do Brasil de obter uma vantagem comercial em Venezuela e Cuba tem sido prioridade sobre o desejo de apoiar as instituições da democracia nesses países”. (Farnsworth, op. cit., p. 58) O vigésimo aniversário do Nafta em janeiro de 2014 representa para Farnsworth um bom marco para a atualização estratégica consistente com o cenário regional descrito, com um relançamento do livre-comércio capaz de atrair os líderes de países com maior afinidade, como os congregados na AP e o presidente Cartes do Paraguai. “Isto significativamente estabelecerá uma agenda mais estratégica e consequente com as Américas da que tem existido desde a ruptura da agenda da Área de Livre-Comércio das Américas (ALCA) de uma década atrás” (Farnsworth, op. cit., p. 63) Considerações finais Desde o início da pesquisa que deu origem a este capítulo, um elemento comum verificado nas abordagens dos sete think tanks selecionados é a escassa relevância atribuída às organizações latino-americanas como objeto específico de análise, prevalecendo seu dimensionamento como projeção dos interesses nacionais de países membros, destacando-se, por ordem de prioridade, Venezuela (ALBA), Brasil (UNASUL, CELAC). Isso aparece não apenas no conteúdo das posições expressas, mas também no processo de levantamento de fontes, em que as escassas alusões aos organismos regionais se dão dentro de estudos que tomam como foco os países citados. As referências que aqui utilizamos praticamente esgotam as publicações dessas instituições sobre o impacto da atuação da ALBA, a UNASUL e a CELAC nas relações hemisféricas. O caso de CELAC é paradigmático. Antes de 2013, mesmo sendo a iniciativa mais ambiciosa em termos de articulação e expressão de autonomia regional, apenas o IAD e o CSIS apresentavam análises específicas. 114 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina O falecimento de Hugo Chávez e a evidência adquirida pela AP a partir da Cúpula de Cali geram um maior foco no tema do regionalismo. Como vimos, esse interesse coincide com a profetização de uma tendência de bifurcação da América Latina em dois eixos, um considerado emergente e promissor em termos de retomada da agenda de livre-comércio associado a AP e um protecionista e crítico dos Estados Unidos cuja retração estaria condicionada pelo vácuo de liderança venezuelana. A associação das organizações regionais a “eixos” pró ou contra os Estados Unidos revela-se como principal preocupação dos estudos apresentados, com cinco desdobramentos mais específicos. Em primeiro lugar, a continuidade de governos marcados por lideranças com origem na esquerda, que promovem políticas de crescente autonomia ou de oposição ao país, especialmente os sul-americanos Hugo Chávez, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, Néstor e Cristina Kirchner, Evo Morales e Rafael Correa. Em segundo, o reconhecimento de diferenças entre o radicalismo atribuído à ALBA e a maior moderação prevalecente nas demais. Em terceiro, a percepção de que a UNASUL e a CELAC, como organizações mais abrangentes em termos do número de países participantes, deixam à margem os Estados Unidos e debilitam a influência da OEA, tradicional fórum de interlocução hemisférica. Em quarto lugar, ressalta-se a perda de relevância da região, que nos últimos anos ficou cada vez mais afastada do centro das atenções estadunidense, o que teria favorecido a perda de influência. Finalmente, reconhecem-se dificuldades para restabelecer uma abordagem hemisférica da política externa após o abandono da ALCA. Essas questões têm tratamentos diferentes por parte dos Think Tanks, resultantes de seu perfil político, conforme as categorias conservadora, moderada e não-partidária que estabelecemos. Para os conservadores, o governo deve estar alerta para a projeção de uma esquerda capaz de reinventar suas tradições de antiamericanismo, estatismo e rejeição da economia de mercado, o que exige forte compromisso no apoio a aliados, destacando-se os países que conformam a AP, e o enquadramento de adversários, fundamentalmente a Venezuela e sua projeção na ALBA, UNASUL e CELAC. A retomada de uma política hemisférica dos Estados Unidos permanece como recomendação, demandando a Washington maior ativismo. Do lado dos moderados, se descartam ameaças sistêmicas originadas nos governos mais à esquerda, propondo que os Estados Unidos 115 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina trabalhem sem vetos prévios com os países da região em temas convergentes. Sem questionar a importância de uma abordagem hemisférica, não se explicitam recomendações nessa direção. As diferenças entre conservadores e moderados não são de caráter antagônico, mas de percepção de ameaças e definição de prioridades na resolução de problemas, o que se reflete na notória distância entre a profusão de estudos gerados no interior do AEI e da HF e a reduzida oferta oriunda da BI e do CAP. No âmbito dos Think Tanks não-partidários, vislumbra-se um cenário menos conflitivo, identificando espaços que favorecem uma reinserção dos Estados Unidos, já não com alcance hemisférico, mas com possibilidades de interação com importantes atores. Assume-se uma mudança estrutural, convergente com manifestações da administração Obama de abandono da Doutrina Monroe, num cenário em que já não se aplicariam abordagens totalizantes como a do “fim da história”, reorientando o foco para o estabelecimento de convergências sub-regionais e bilaterais. Se por um lado a interlocução por intermédio de mecanismos de integração econômica se mantenha ativa ao norte e ao sul do hemisfério, no campo da formulação de agendas políticas abrangentes as tendências divergem: a concepção da América Latina como espaço comum perde consenso nos Estados Unidos ao mesmo tempo em que ganha status na região em organizações como a CELAC. Paralelamente à diminuição da influência de Washington e a busca de autonomia de países latino-americanos apontadas por analistas dos diversos Think Tanks, as tendências assinaladas sugerem uma terceira perspectiva: a perda de relevância passou a ser mútua. Luis Fernando Ayerbe - Professor do Departamento de Economia da Unesp, campus de Araraquara, e do Programa San Tiago Dantas de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e PUC/SP. Coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da UNESP (IEEI-UNESP). Referências bibliográficas AYERBE, Luis. 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A partir do debate paradigmático, analisamos como a produção teórica é influenciada e influencia as políticas de desenvolvimento territorial no campo. A soberania alimentar é compreendida como uma política pública com o objetivo de garantir a produção de alimentos de qualidade e o abastecimento da população, evitando a dependência do mercado capitalista. O conceito de agricultura familiar é recente e tem “ocupado” o lugar do conceito de agricultura camponesa em algumas análises teóricas e políticas públicas. Essa “ocupação” não teria maiores problemas se não fosse o caráter pejorativo que muitos pesquisadores e políticos profissionais aplicam ao conceito de campesinato, como por exemplo: atrasado, antigo, ultrapassado etc. A diferencialidade é um atributo do campesinato que pode ser classificado como: rico, médio ou pobre nas definições clássicas ou consolidado, intermediário e periférico nas acepções contemporâneas. É importante distinguir a diferencialidade do preconceito. O preconceito aparece quando se afirma que o campesinato tem que se transformar em agricultor familiar para tornar-se moderno. Que somente a metamorfose pode livrá-lo do destino de ser camponês (Abramovay, 1992). Neste texto, 120 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina procuramos superar o caráter pejorativo e afirmamos que campesinato e agricultura familiar são a mesma relação social, são o mesmo sujeito. É fundamental ressaltar que há diferença estrutural entre agricultura de base familiar (denominada popularmente de agricultura familiar) e agricultura familiar capitalista. Quando afirmamos que a agricultura familiar é camponesa, estamos nos referindo à agricultura de base familiar, cuja renda total é produzida predominantemente pelo trabalho dos membros da família. Nesse critério, estamos determinando a condição de classe social para delimitar o conceito. A agricultura de base familiar é camponesa exatamente por se distinguir da agricultura capitalista. O conceito de campesinato nasceu antes de existir o capitalismo de modo que essa relação social e forma de organização do trabalho e da produção pode ser familiar, comunitária, associativa, cooperativa, mas nunca é capitalista. Quando uma família camponesa começa a praticar a mais-valia, ela deixa de ser camponesa para se transformar em capitalista. A estratégia camponesa de resistência ao capitalismo se manifesta nos territórios materiais e imateriais. As disputas ideológicas e a disputa territorial configuram uma geopolítica da questão agrária (Fernandes, 2011). O processo de estrangeirização da terra é um exemplo da territorialidade dessa geopolítica. Mas os componentes da geopolítica camponesa não se limitam à terra - embora esta seja fundamental para sua existência. O conhecimento, a tecnologia e a ideologia são cada vez mais expressivos para a resistência camponesa, como demonstramos neste ensaio teórico em que procuramos contribuir com a reflexão e o debate sobre a importância da agricultura camponesa e defender o poder desse conceito. Também podemos utilizar o conceito de agricultura familiar, mas jamais como preconceito, pois isso seria um ato de falseamento da realidade cujas implicações políticas ampliam as desigualdades sociais. Este artigo é também uma proposta de diálogo com outros paradigmas, pois o debate é condição para expressarmos nossas diferenças e realizarmos nossas disputas. A importância da agricultura camponesa Em quase toda América Latina os governos têm substituído o conceito de campesinato por agricultura familiar em suas políticas de desenvolvimento rural. Um pesquisador curioso, visitando as páginas dos ministérios ou secretarias responsáveis pelo desenvolvimento do campo, 121 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina encontrará facilmente a expressão agricultura familiar ou agricultura familiar campesina. Com exceção de Cuba, onde a ideia de agricultura familiar ainda não está disseminada, em todos os outros países, o conceito predomina. Mas qual a diferença entre agricultura familiar e agricultura familiar campesina, como aparece, por exemplo, no Chile? No Brasil, os movimentos vinculados à Via Campesina utilizam o termo camponês e agricultura familiar com o mesmo sentido. Utilizar os dois conceitos juntos ou separados, mas referindo-se sempre à organização familiar, comunitária, associativa ou cooperativa é coerente. O que devemos evitar é separá-los por meio de falsas definições como incompleto, atrasado, superado, antigo etc. O campesinato vive o seu tempo e viveu todos os tempos: nas sociedades escravocratas, feudais, capitalistas e socialistas. É um sujeito histórico perene que luta para ser ele mesmo. Enquanto os sistemas querem destruir o campesinato, ele reage para se reproduzir com dignidade. Shanin, 1983, chamou a atenção para essa classe social que incomoda a todos os sistemas porque não aceita ser cooptado. Assim como os povos indígenas, os camponeses possuem suas próprias formas de organização e lutam contra o capital, porque a subalternidade é a única condição de existência desses povos na sociedade capitalista. Por causa da hegemonia capitalista, é nessa condição que os povos indígenas e camponeses vivem. E resistem. Todos os dias, em nuestra América Latina há conflitos entre organizações camponesas e indígenas contra o capital, manifestando a questão agrária. Todavia, a negação da questão agrária pelas políticas de governo e por parte dos intelectuais vinculados ao paradigma do capitalismo agrário faz com que a subalternidade do campesinato ao capital seja vista como um fato natural. Essa postura dos governos amplia a desigualdade entre as agriculturas camponesa e capitalista, promovendo o agronegócio. Reconhecer o campesinato como um modelo estratégico de desenvolvimento da agricultura é necessário para superar o mito das commodities como condição para acabar com a fome. A seguir apresentamos aportes da agricultura camponesa em treze países da América Latina (quadro 1) para analisarmos sua importância na produção de alimentos saudáveis e na geração de postos de trabalho que contribuem para o desenvolvimento local. Observe que os camponeses guatemaltecos garantem 49% do valor da produção, ou seja, quase metade da produção agropecuária do país vem de unidades com área média de um hectare. No Panamá, onde a 122 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina área média é de 4,1 hectares, o campesinato assegura 58,3% do valor da produção. Em Honduras, Nicarágua, El Salvador e Costa Rica, os números são respectivamente: 56,5; 49,3; 42,7 e 40,6%, o que significa que nesses países o campesinato garante em média a metade do valor bruto produzido na agropecuária. É importante destacar que a importância estratégica da agricultura camponesa não contém somente o valor da produção, mas também a produtividade. Brasil e Equador são os países onde a produtividade camponesa é mais alta. Relacionando a participação percentual das áreas das unidades territoriais da agricultura camponesa com a participação percentual no valor da produção, observa-se que a agricultura de base familiar no Brasil, embora controle somente 24,3% das propriedades agrícolas produz 38% do valor da produção. Isso significa que o agronegócio ou agricultura capitalista controla 75,7% das terras e produz apenas 62% do valor da produção. Ainda é preciso dizer que a agricultura capitalista fica com 90% do crédito agrícola (Fernandes, 2012; Fernandes, 2013). Esses números são uma referência para compreender a desigualdade de renda entre agricultores camponeses e capitalistas. No Equador, a produtividade camponesa também é maior que a capitalista. Os camponeses usam 41% das terras e asseguram 45% do valor da produção. Na Argentina e Chile, onde o avanço do agronegócio foi ainda mais devastador, a agricultura camponesa representa 19,2 e 22% do valor da produção. Uma análise desde o debate sobre agricultura camponesa e agricultura familiar na Argentina está em Hocsman, 2010. Dos países analisados, a Colômbia é o único onde os camponeses ou agricultores de base familiar utilizam uma área maior que a agricultura capitalista e são responsáveis por 41% do valor da produção e 57% no oferecimento de postos de trabalho. Aliás, com relação ao trabalho, somente a Costa Rica está abaixo dos cinquenta por cento. O campesinato gera mais postos de trabalho que o agronegócio, promovendo as condições necessárias para o desenvolvimento sustentável. 123 Quadro 1 Aportes da agricultura camponesa em treze países da América Latina Importância da Agricultura camponesa Argentina Brasil Chile Colômbia Equador Paraguai Uruguai Costa Rica El Salvador Guatemala Honduras Nicarágua Panamá Participação % no valor da produção 19,2 38,0 22,0 41,0 45,0 NI NI 40,6 42,7 49,0 56,5 49,3 58,3 Participação % no oferecimento de emprego 53,0 77,0 61,0 57,0 NI NI NI 36,0 51,0 63,0 76,0 65,0 70,0 Número de unidades territoriais da agricultura camponesa (x mil) 251,1 4367,9 254,9 737,9 739,9 264,8 32,6 70,0 230,0 1062,0 484,0 334,0 164,0 Participação % da agricultura camponesa no total das unidades territoriais 75,3 84,4 95,0 87,0 88,0 91,4 57,2 NI NI NI NI NI NI Áreas médias das unidades territoriais da agricultura camponesa (ha) 142,0 18,4 17,0 3,0 7,0 7,4 77,2 NI 2,2 1,0 NI 6,7 4,1 Participação % das áreas das unidades territoriais da agricultura camponesa em relação ao total 20,3 24,3 44,0 57,0 41,0 6,3 15,4 NI NI NI NI NI NI Fonte: CEPAL – FAO – IICA. Perspectivas de la agricultura y del desarrollo rural en las Américas: una mirada hacia América Latina y el Caribe. Santiago, 2013. 124 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina O debate paradigmático O quadro 1 revela algumas disparidades, como a concentração fundiária e de renda. Mas as desigualdades são maiores ainda quando analisamos o domínio de tecnologias, o acesso aos recursos públicos e aos mercados. Os monopólios em diferentes setores são os pilares da hegemonia do agronegócio no mundo. Para compreender melhor as desigualdades entre a agricultura camponesa e a agricultura capitalista é imprescindível analisar o debate paradigmático, pois é o gerador do pensamento e das políticas que promovem o desenvolvimento da agricultura. O ponto de partida é a intencionalidade. O que nos conduz ao debate é tanto a intenção de defender nossas visões de mundo, nossos estilos de pensamento, nossos paradigmas, nossas posições políticas, quanto de conhecer outras posições teórico-políticas e suas visões de mundo, respectivos estilos de pensamento e distintos paradigmas. O debate é, portanto, uma disputa. Mesmo não tendo noção dos paradigmas e suas tendências, os trabalhadores intelectuais transitam por esses territórios epistemológicos, onde a filosofia e a ciência se encontram (Japiassu, 1979). A intencionalidade é manifestada de diversos modos: pela ação cognitiva, percepção, linguagens, práticas etc. (Searle, 1995). Ao mesmo tempo em que a ação cognitiva é produtora de territórios imateriais, a ação prática é produtora de territórios materiais. Esta relação tempo-espaço a partir das ações cognitivas e práticas criam a conexão entre o pensamento e a realidade, o conhecimento e o fato. Esse processo é um movimento que possui direções expressando diferentes intencionalidades, como também é uma espécie de trilha entre o sujeito e o objeto (Santos, 1996, p.74). Este processo-movimento-dirigido é a práxis (Vázquez, 2007), que ninguém pode evitar, pois qualquer ato é revelador de ação, tanto a proposição quanto a negação. O processo de construção do conhecimento é uma práxis intelectual e política que por meio de coletivos de pensamento se organiza para produzir seus estilos de pensamento, seus paradigmas (Fleck, 2010; Kuhn, 1978). Nenhum trabalhador intelectual está fora desse processo, nem os que trabalham em grupos de pesquisas, em redes nacionais e internacionais, nem mesmo aquele que trabalha sozinho e muito menos os que trabalham para os governos. É por meio da práxis intelectual que 125 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina utilizamos conceitos produzidos e produzimos outros, ao adentrarmos nos territórios das teorias conduzidos pelo método. A discussão sobre os conceitos tem um papel importante dentro do debate paradigmático, porque trazem à luz as intencionalidades dos pensadores e revelam suas posições políticas. Um exemplo que trabalhamos neste artigo são os conceitos de campesinato e agricultura familiar. Lembrando da afirmação feita na introdução deste artigo, optamos pelo diálogo, para promover o debate para melhor compreensão das razões que levam a teoria e a política a promoverem diferentes modelos de desenvolvimento. Debater significa ter uma posição definida nos territórios imateriais formados pelos paradigmas. Estes são formados por teorias ou pensamentos referências organizados em correntes teóricas, que são interpretações dos fatos, o que implica necessariamente ter uma postura política diante dos mesmos. A primeira vez que manifestamos nosso entendimento sobre o debate paradigmático na forma de texto foi em Carvalho, 2005, p. 23-5, onde apresentamos as primeiras ideias de paradigmas. As teses recentes de Felício, 2011, Campos 2012 e Camacho, 2013, são contribuições fundamentais para o avanço dessa iniciativa inaugurada há quase uma década, com o objetivo de mais bem analisarmos os pensamentos, as políticas e os territórios que são produzidos pelas ações de diferentes instituições no desenvolvimento da agricultura. O debate paradigmático explicita a disputa de paradigmas que se utilizam do embate das ideias, dos campos de disputas, por meio de relações de poder, para defender e ou impor diferentes intenções que determinam seus modelos interpretativos. Os paradigmas representam interesses e ideologias, desejos e determinações, que se materializam por meio de políticas públicas nos territórios de acordo com as pretensões das classes sociais. Por intermédio do recurso paradigmático, os cientistas interpretam as realidades e procuram explicá-las. Para tanto, eles selecionam um conjunto de constituintes como, por exemplo: elementos, componentes, variáveis, recursos, indicadores, dados, informações etc., de acordo com suas perspectivas e suas histórias, definindo politicamente os resultados que querem demonstrar. Evidente que sempre respeitando a coerência e o rigor teórico-metodológico. Nas leituras sobre o desenvolvimento e as transformações da agricultura, nos detemos nos problemas e soluções criadas pelas relações 126 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina sociais na produção de diferentes espaços e territórios. Estas leituras paradigmáticas têm influências na elaboração de políticas públicas para o desenvolvimento da agricultura, definindo a aplicação de recursos em determinadas regiões, territórios, setores, culturas, instituições etc. Por essa razão, conhecer o movimento paradigmático que vai da construção da interpretação à execução da política é fundamental. Tomamos como ponto de partida dois paradigmas para representar as posturas das diversas instituições, como os governos em diferentes escalas: federal, estadual e municipal, as corporações do agronegócio nacional e multinacional e dos vários movimentos camponeses. O paradigma da questão agrária tem como ponto de partida as lutas de classes para explicar as disputas territoriais e suas conflitualidades na defesa de modelos de desenvolvimento que viabilizem a autonomia dos camponeses. Entende que os problemas agrários fazem parte da estrutura do capitalismo, de modo que a luta contra o capitalismo é a perspectiva de construção de outra sociedade (Fernandes, 2008; Fernandes, 2009). O paradigma da questão agrária está disposto em duas tendências: a proletarista que tem como ênfase as relações capital trabalho e a campesinista que tem como ênfase as relações sociais camponesas e seu enfrentamento com o capital. Para o paradigma do capitalismo agrário, as desigualdades geradas pelas relações capitalistas são um problema conjuntural e pode ser superado por meio de políticas que possibilitem a “integração” do campesinato ou “agricultor de base familiar” ao mercado capitalista. Nessa lógica, campesinato e capital compõem um mesmo espaço político fazendo parte de uma totalidade (sociedade capitalista) que não os diferencia, porque a luta de classes não é elemento desse paradigma. (Abramovay, 1992). Esse paradigma possui duas vertentes, a tendência da agricultura familiar que acredita na integração ao capital e a vertente do agronegócio que vê a agricultura familiar como residual. Em síntese, para o paradigma da questão agrária, o problema está no capitalismo e para o paradigma do capitalismo agrário, o problema está no campesinato. No Brasil, esses paradigmas têm contribuído para a elaboração de distintas leituras sobre o campo brasileiro realizadas pelas universidades, pelos governos, pelas empresas e organizações do agronegócio e pelos movimentos camponeses. Na atualidade, as organizações mais influentes do agronegócio são: a Associação Brasileira do Agronegócio - ABAG - e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA. 127 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina Entre as organizações camponesas estão a Via Campesina, formada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST, Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA, Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB, Movimento das Mulheres Camponesas e Comissão Pastoral da Terra - CPT; a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG e a Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar - FETRAF. O governo federal possui dois ministérios que tratam das políticas de desenvolvimento para o campo: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA - e o Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA. Entre as universidades mais influentes, destacamos: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ, Universidade de São Paulo - USP, Universidade Estadual Paulista – UNESP e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. A análise do debate paradigmático também contribui para uma postura crítica em relação às atitudes dos governos. A partir das políticas de governos, por meio de seus documentos, podem-se ler suas tendências políticas e formular proposições para mudá-las. O paradigma do capitalismo agrário é hegemônico e o paradigma da questão agrária tem conseguido apenas denunciar a hegemonia. Em alguns eventos, tenho sido questionado sobre por que dois paradigmas? Respondo que nos parâmetros de minhas análises ainda não encontrei referências suficientes que possibilitassem pensar um terceiro paradigma. Todavia, recentemente na América Latina tem surgido novo debate sobre vivir bien e buen vivir. Vários estudiosos estão apresentando suas primeiras análises e perguntando se não estaria nascendo um novo paradigma não capitalista e contra hegemônico, como são os trabalhos organizados em Farah e Vasapollo, 2011, e Hidalgo e Fernandez, 2012. Essas questões estão colocadas e estudos futuros com certeza contribuirão para se conhecer como acontecerá a superação da hegemonia. A questão agrária de Kautsky, 1986, é a principal obra teórica de referência e que inaugura o paradigma da questão agrária. Nesse livro são analisados elementos como, por exemplo: a produção renda da terra, a concentração da renda e da terra, a industrialização da agricultura e o papel das ciências e da construção do conhecimento para a geração de tecnologias. Shanin, 1983 e Shanin, 1990; Houtart e Wen, 2013, são referências do desenvolvimento do pensamento desse paradigma que mantém a questão da existência do campesinato como ponto central na 128 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina luta contra o capitalismo para garantir sua existência. Na América Latina há inúmeros exemplos de trabalhos elaborados a partir do paradigma da questão agrária e uma referência pode ser vista na coletânea organizada por Fernandes, 2008. Em sua obra, Kautsky discute o fim do campesinato como uma possibilidade frente ao processo de destruição do trabalho familiar e aumento do trabalho assalariado. O problema do fim do campesinato apontado por Kautsky, quando publicou seu livro em 1899, refere-se à destruição física de uma classe social, o campesinato, que se transforma em outra classe social com o assalariamento. Enquanto o camponês é subordinado formalmente por meio da renda capitalizada da terra, o assalariando é subordinado totalmente por meio do assalariamento. A obra O fim do campesinato de Mendras, 1992 é a principal obra teórica de referência que estabelece o paradigma do capitalismo agrário. Nesse livro, o autor analisa as mudanças que ocorreram pós segunda guerra mundial e destaca a intensificação da relação entre produtores familiares e as corporações capitalistas. Se para Kautsky essa relação provoca a destruição do campesinato, para Mendras ocorreu a eliminação de uma relação milenar em que o campesinato tradicional deixou de existir e cedeu lugar a um novo tipo de produtor familiar. Seguindo essa visão, os trabalhos de Lamarche, 1993, e Lamarche, 1998, analisaram o campesinato na França, Polônia, Canadá, Tunísia e Brasil e procurou demonstrar as diferenças entre camponeses e agricultores familiares por meio do grau de relação com o capital. A tese de Abramovay, 1992, estudou o desenvolvimento do capitalismo, tomando como referência as realidades de países ricos. Nesse contexto, com a consolidação das estruturas nacionais de mercado, o campesinato não conseguiria sobreviver no capitalismo por sua incompatibilidade com esses ambientes econômicos onde se realizam relações mercantis. Essas estruturas destruiriam a personalização dos laços sociais, levando consigo o próprio caráter camponês da organização social (Abramovay, 1992, p. 117). Segundo o autor, a pobreza do campesinato é uma das bases sociais em que se apoiam os mercados incompletos. “O capitalismo é por definição avesso a qualquer tipo de sociedade e de culturas parciais” (Abramovay, 1992, p. 125 e 129). Todavia, nesse estágio do desenvolvimento do capitalismo aconteceria um processo de integração plena. Com base na realidade dos camponeses do Sul do Brasil, Abramovay afirma: 129 TerriTorialidades e enTrecruzamenTos geopolíTicos na américa laTina [...] integram-se plenamente a essas estruturas nacionais de mercado, transformam não só sua base técnica, mas sobretudo o círculo social em que se reproduzem e metamorfoseiam-se numa nova categoria social: de camponeses tornam-se agricultores profissionais. Aquilo que era antes de tudo um modo de vida converte-se numa profissão, numa forma de trabalho. O mercado adquire a fisionomia impessoal com que se apresenta aos produtores numa sociedade capitalista. Os laços comunitários perdem seu atributo de condição básica para a reprodução material. Os códigos sociais partilhados não possuem mais as determinações locais, por onde a conduta dos indivíduos se pautava pelas relações de pessoa a pessoa. Da mesma forma, a inserção do agricultor na divisão do trabalho corresponde à maneira como os indivíduos se socializam na sociedade burguesa: a competição e a eficiência convertem-se em normas e condições da reprodução social. [...] O ambiente no qual se desenvolve a agricultura familiar contemporânea é exatamente aquele que vai asfixiar o camponês, obrigá-lo a se despojar de suas características constitutivas, minar as bases objetivas e simbólicas de sua reprodução social. [...] Aí reside então a utilidade de uma definição precisa e especifica de camponês. Sem ela é impossível entender o paradoxo de um sistema econômico que, ao mesmo tempo em que aniquila irremediavelmente a produção camponesa, ergue a agricultura familiar como sua principal base social de desenvolvimento (Abramovay, 1992, p. 126-7). Essa é uma diferença importante. Enquanto para o paradigma da questão agrária, a diferenciação gera a subalternidade e a destruição do campesinato no capitalismo, para o paradigma do capitalismo agrário, a diferenciação produz uma metamorfose em que o camponês ao se integrar ao mercado capitalista transforma-se em agricultor familiar. Se para o paradigma da questão agrária a relação do campesinato com o capitalismo pode gerar a morte do camponês, para o paradigma do capitalismo agrário essa relação pode salvá-lo. Para o paradigma do Capitalismo Agrário a permanência ou fim do campesinato é uma qu