Água mineral bicarbonatada com alto teor de sódio mais eficaz na redução da lipemia pós-prandial em mulheres pós-menopáusicas do que a água com baixo teor mineral Stefanie Schoppen*, Ana M. Perez-Granados, Angeles Carbajal, Beatriz Sarria, Francisco J. Sanchez-Muniz, Juan A. Gomez-Gerique e M. Pilar Vaquero O papel das águas minerais bicarbonatadas no metabolismo lipídico e nas concentrações lipoproteínas no homem não foi ainda devidamente aprofundado. Este estudo pretendeu investigar se a ingestão de água mineral bicarbonatada com alto teor de sódio afecta o nível pós-prandial de colesterol e triglicéridos em mulheres pós-menopáusicas. Num estudo cruzado de três braços, aleatorizado, dezoito mulheres pós-menopáusicas saudáveis ingeriram duas águas minerais bicarbonatadas com alto teor de sódio (água mineral bicarbonatada 1 e água mineral bicarbonatada 2) e uma água com baixo teor mineral (500 ml de cada) com uma refeição rica em gorduras (4552 kJ; 75,3g gordura). As águas bicarbonatadas tinham alto teor de sódio e bicarbonato e a água mineral bicarbonatada 1 continha 5 a 7 vezes mais fluoreto do que a água mineral bicarbonatada 2. Foram colhidas amostras de sangue em jejum e 30, 60, 120, 240, 360 e 420 minutos após o final da refeição. As concentrações de colesterol e triglicéridos foram determinados no soro e quilomicrons. Observou-se um efeito significativo da ingestão de água na área total sob a curva (TAUC) dos triglicéridos no soro e quilomicrons (ANOVA, p=0.008 e p=0,027, respectivamente). A TAUC da concentração sérica de triglicéridos da água mineral bicarbonatada 2 foi significativamente inferior à da água com baixo teor mineral (Bonferroni, p=0,039). As concentrações plasmáticas de triglicéridos foram significativamente afectadas pela água (p=0,025). As alterações nos quilomicrons de colesterol não foram significativamente influenciadas pelo tipo de água. As águas minerais bicarbonatadas 1 e 2 não registaram diferenças significativas. A ingestão de águas minerais com alto teor de sódio e de bicarbonato reduz de forma mais significativa a lipemia pós-prandial em mulheres pós-menopáusicas saudáveis do que a água com baixo teor mineral. Bicarbonato sódico: Água mineral bicarbonatada: Lipemia pós-prandial: Mulheres pós-menopáusicas Desde há alguns séculos, o consumo de água mineral tem sido considerado benéfico para a saúde. Sabe-se que as águas com alto teor mineral, particularmente de cálcio e magnésio, contribuem para uma ingestão adequada dos minerais (Cepollaro et al. 1996; Bohmer et al. 2000; Guillemant et al. 2000; Siener et al. 2004), afectando assim as funções orgânicas (Bohmer et al. 2000; Guillemant et al. 2000; Buclin et al. 2001, Tapola et al. 2004). Contudo, o possível papel de outros iões nestas águas não foi investigado em profundidade. Estudos epidemiológicos mostraram que o teor mineral da água potável pode influenciar o risco cardiovascular (Toussaint et al. 1986; Sauvant & Pepin 2000; Nerbrand et al. 2003). São escassos os estudos clínicos realizados neste âmbito, mas o nosso grupo mostrou que uma água mineral carbonatada com alto teor de sódio reduz o risco cardiovascular ao fazer baixar o colesterol total, o colesterol LDL, as moléculas de adesão intercelular solúveis (ICAM-1) e as moléculas de adesão celular vascular solúveis (sVCAM-1) (Schoppen et al. 2004), embora outros autores afirmem que diversas águas minerais (sobretudo as águas bicarbonatadas gasosas) podem desempenhar um papel importante na regulação dos níveis de lipoproteínas no ser humano (Capurso et al. 1999; Bertoni et al. 2002; Grassi et al. 2002). Em ratazanas, Toussaint et al. (1986) sugerem que as águas sulfúreas com alto teor de cálcio e magnésio promovem a conversão do colesterol em ácidos biliares e a sua subsequente eliminação. Luoma et al. (1997) observaram menor prevalência de DCV e enfarte do miocárdio nos homens que beberam água com alto teor de fluoreto e magnésio. Nas ratazanas, uma alimentação rica em fluoreto (12 mg/kg) reduziu o colesterol, os triglicéridos e os fosfolípidos (Luoma et al. 1995). Sabe-se também que o aumento e prolongamento da lipemia pós-prandial estão relacionados com DCV e aterosclerose (Summers et al. 1999; Hyson et al. 2003; Sanders, 2003). Todas as gorduras absorvidas entram na circulação sobretudo sob a forma de quilomicrons. A redução dos quilomicrons remanescentes no pós-prandial poderá conter a progressão da aterosclerose coronária ao limitar a exposição do leito vascular ao conteúdo aterogénico destas partículas (Wilhelm & Cooper, 2003). Contudo, a composição da dieta alimentar pode influenciar a magnitude da lipemia pós-prandial. Para além dos efeitos de diferentes ácidos gordos na lipemia pós-prandial (Sanders 2003; Kris-Etherton et al. 2004; Lefevre et al. 2004), sabe-se que as fibras alimentares (Keogh et al. 2003), a glicose (Van Oostrom et al. 2004), os hidratos de carbono (Volek et al. 2003; Iovine et al. 2004), o exercício físico (Gill & Hardman, 2003) e o álcool (Chung et al. 2003) afectam a lipemia pós-prandial. A diminuição do nível de estrogénios em mulheres pós-menopáusicas saudáveis pode aumentar o risco de DAC, como resultado da diminuição dos efeitos positivos dos estrogénios no metabolismo lipídico. Ao regular o metabolismo lipídico nos adipócitos e hepatócitos, o 17b-estradiol modula a concentração plasmática de lípidos (Szafran & Smie-lak-Korombel, 1998; van Beek et al. 1999; Masding et al. 2003). Este efeito protector desaparece após a menopausa. Uma vez que se sabe que a ingestão de 1l/d de uma água altamente mineralizada e carbonatada reduz o risco cardiovascular em mulheres pós-menopáusicas (Schoppen et al. 2004) e que os mecanismos envolvidos não foram ainda definidos, este trabalho visa estudar os efeitos na lipemia pós-prandial da ingestão de 0,5 litros de duas águas minerais bicarbonatadas com alto teor de sódio, com diferenças sobretudo a nível do seu teor de fluoreto, em comparação com a ingestão de água com baixo teor mineral durante a refeição. Assim, foram determinados os níveis de colesterol e triglicéridos no plasma e quilomicrons. Doentes e métodos Doentes 1 Dezoito mulheres pós-menopáusicas do Menopause Program of the Madrid City Council Food and Health Department foram recrutadas para este estudo. As mulheres incluídas neste programa de prevenção foram submetidas a avaliações clínicas periódicas, i.e., medições antropométricas, análises de sangue, determinação da densidade mineral óssea e mamografia. As mulheres deram o seu consentimento informado por escrito para participar num protocolo aprovado pela Comissão de Ética do Conselho Espanhol para a Investigação Científica. Nenhuma mulher sofria de doença digestiva ou metabólica, como se pôde verificar através da história médica e de análise ao sangue em jejum. As mulheres seleccionadas para o estudo tinham de estar amenorréicas há pelo menos um ano, não podiam ser obesas (IMC, 30kg/m2), nem estar a fazer terapêutica de substituição hormonal ou outra medicação passível de afectar o metabolismo ósseo e lipídico ou a tomar vitaminas, suplementos minerais ou fitoesterogénio. Nenhuma das mulheres fumava. As participantes foram aconselhadas a manter os seus hábitos, designadamente os alimentares e o peso corporal, o consumo de álcool e o exercício físico. As participantes tinham entre 51 e 59 anos; os dados antropométricos, a pressão arterial e os níveis lipídicos observados no início do estudo são apresentados no Quadro 1. Quadro 1. Dados antropométricos e valores basais do colesterol e dos triglicéridos de 18 mulheres no início do estudo (Valores médios e desvios padrão) Média DP Idade (anos) 55,7 2,4 Peso corporal (kg) IMC (kg/m2) Cintura (m) Anca (m) Rácio cintura/anca Colesterol total (mmol/l) Triglicéridos (mmol/l) 64,2 26,89 0,83 1,03 0,81 5,46 0,99 6,6 3,04 0,09 0,06 0,70 0,75 0,31 Estudo pós-prandial Durante o estudo realizaram-se três visitas em intervalos de 2 semanas. Em todas as visitas, as mulheres estavam em jejum desde a noite anterior (durante >12h). Para uniformizar a dieta alimentar, as mulheres receberam instruções escritas relativamente à composição do jantar (alface e tomate com azeite, vinagre e sal; bife de frango grelhado; pão e fruta) da noite anterior à visita do estudo. Na manhã da visita foram medidos a pressão arterial, o peso, a altura e o rácio cintura/anca e avaliado o cumprimento das instruções relativas ao jantar através de um questionário. Depois, efectuou-se a colheita de sangue (ABOCATH 20G; Abbott Laboratories, Abbott Park, Illinois, EUA) basal, e as voluntárias receberam a refeição estipulada e 0,5 litros de uma das águas minerais do estudo. Neste estudo foram usadas três águas minerais diferentes: água mineral bicarbonatada 1, água mineral bicarbonatada 2 e água com baixo teor mineral. Mediante um desenho triplo cruzado, no seu primeiro dia do estudo, as mulheres foram aleatoriamente incluídas num regime de ingestão sequencial das três águas minerais, até todas as mulheres completarem o estudo pós-prandial com as três águas. As três águas foram fornecidas em garrafas de 0,5 litros (Vichy Catalán, SA, Barcelona, Espanha). As duas águas minerais bicarbonatadas tinham alto teor de bicarbonato, sódio e cloreto; a outra água tinha baixo teor mineral (Quadro 2). A água mineral bicarbonatada 1 continha 5,7 vezes mais fluoreto do que a água mineral bicarbonatada 2, e 37,5 vezes mais do que a água com baixo teor mineral. A refeição do estudo (Quadro 3) proporcionou 4552 kJ e continha 75,3 g de gorduras, 21,5 g de proteínas, 86,5 g de hidratos de carbono e 289mg de colesterol. O perfil energético foi o seguinte: proteínas –7,9%, lípidos - 62,3% e hidratos de carbono 29,8 %; o perfil lipídico foi o seguinte: ácidos gordos saturados – 11,8 %, ácidos gordos monoinsaturados (MUFA) - 39,7% e ácidos gordos polinsaturados (PUFA) - 6,6%. As amostras pós-prandiais de sangue foram obtidas 30, 60, 120, 240, 360 e 420 minutos após o final da refeição do estudo. Em média, a refeição foi ingerida em 31 minutos. Para manter a hidratação ao longo do período pós-prandial, as mulheres beberam 100 ml de água desmineralizada aos 240 e 390 minutos. As amostras de sangue foram obtidas com tubos Venoject e gel coagulante para a colheita de soro e posterior separação de quilomicrons. Métodos analíticos As amostras de sangue foram colocadas em gelo e imediatamente centrifugadas durante 15 minutos a 1500g e 4ºC, e depois mantidas a uma temperatura de -80ºC. Mediante ultra-centrifugação (L8-70M, rotor SW50; Beckman Inc., Palo Alto, CA, EUA), a fracção de quilomicrons foi isolada de uma camada superior de 2ml de soro com 1,5ml de água destilada por meio de um processo de separação de solução salina (Terpstra et al. 1981). Os tubos foram centrifugados durante 11 minutos (tempos de aceleração e desaceleração incluídos) a 232.000g e 4ºC. Os quilomicrons contidos na camada superior foram removidos por aspiração depois de cortados os tubos com marcas de calibração de 1ml. O volume das amostras de quilomicrons foi reconstituído com 1,5ml de água destilada. 2 As concentrações de soro e quilomicrons de colesterol e triglicéridos foram determinadas por processos enzimáticos automáticos (CHOD-PAP e GPO-PAP, Boehringer Mannheim, Germany; RA-XT, Technicon, Tarrytown, NY, EUA). Análises estatísticas Para as análises estatísticas dos resultados recorreu-se ao Sistemas de Análise Estatísticas, versão 8.2 para o Windows XP (SAS Institute, Cary, NC, USA). Os dados são apresentados sob a forma de médias e desvios padrão. Os dados relativos aos triglicéridos foram log normalizados para análise estatística. Realizaram-se medições repetidas de dois factores ANOVA para as concentrações de colesterol e triglicéridos no soro e quilomicrons relativamente à água, tempo e efeitos interactivos da água x tempo. Para investigar se o consumo das três águas minerais alterou a evolução pós-prandial das concentrações de colesterol e triglicéridos no soro e quilomicrons, calcularam-se as respostas da área total sob a curva (TAUC) e realizaram-se as medições ANOVA. Estas medições também se efectuaram para estudar as concentrações máximas de colesterol e triglicéridos no soro e quilomicrons. Quadro 2. Composição das águas minerais usadas no estudo em mg/l (mmol/l) Água mineral bicarbonatada 1 Componente DM HCO3 IC so42~ F~ Ca2+ Mg2+ Na+ K+ Água mineral bicarbonatada 2 Água natural leve 2872 2865 112 2094,4 (34,34) 583,0 (16,44) 49,9 (0,52) 7,9 (1,0) 43,6 (1,09) 5,7 (0,24) 1116,5 (48,57) 54,7 (1,4) 2013 (32,99) 592 (16,7) 42,9 (0,45) 1,4 (0,07) 52,1 (1,30) 9,7 (0,40) 948 (41,3) 47,7 (1,22) 71,1 (1,17) 5,7 (0,16) 15,7 (0,18) 0,2 (0,01) 25,2 (0,63) 2,7 (0,11) 9,0 (0,39) 1,4 (0,04) Quadro 3. Composição da refeição ingerida com as três águas minerais Ingredientes Leite de vaca gordo Café instantâneo (descafeinado) Pêra abacate Caranguejo Maionese Azeite Ovos Açúcar Farinha de trigo, branca Pão branco, tostado Sacarina Peso (g) 150 2 80 44 30 33 51 33 33 18 1 O tempo até ao pico foi calculado e analisado através do teste de Friedman. O valor p<0,05 foi considerado estatisticamente significativo. Realizou-se uma análise post hoc usando o teste de Bonferroni. Resultados As dezoito mulheres recrutadas completaram o estudo com as três águas. As medições ANOVA para as concentrações séricas de colesterol não foram afectadas pelos factores água, tempo ou água x tempo (Fig. 1). Não se registaram diferenças significativas em termos de concentração máxima (Quadro 4) e tempo até ao pico. Os triglicéridos foram significativamente afectados pelo factores água (p=0,028) e tempo (p<0,000), mas não pela interacção água x tempo. A diferença entre a água mineral bicarbonatada 2 e a água com baixo teor mineral foi de p=0,05; as restantes comparações não foram relevantes (Fig. 1). A concentração máxima de triglicéridos foi significativamente afectada pelo factor água. Embora os valores das duas águas minerais bicarbonatadas tenham sido inferiores aos da água com baixo teor mineral, as diferenças não atingiram significado estatístico (Quadro 4). As concentrações de colesterol sob a forma de quilomicrons não foram afectadas pela água e pela interacção água x tempo. O tempo exerceu um efeito significativo (p<0,0001) (Fig. 1). 3 As concentrações de triglicéridos sob a forma de quilomicrons foram significativamente afectadas pela água (p=0,049) e o tempo (p<0,0001), embora o efeito da interacção água x tempo não tenha sido notório. Contudo, as diferenças entre águas não foram significativas (Fig. 1). Fig. 1. Concentração de colesterol e triglicéridos em jejum e no pós-prandial no soro e quilomicrons ao longo de 420 minutos em 18 mulheres pós-menopáusicas saudáveis depois de beberem a água mineral bicarbonatada 1 (W), a água mineral bicarbonatada 2 (B) e a água com baixo teor mineral (O). Os valores são apresentados sob a forma de médias e desvios padrão. Para mais informações acerca das águas minerais, consulte o Quadro 2 e a página 583. Triglicéridos (mmol/l) Colesterol (mmol/l) Quilomicrons colesterol (mmol/l) Quilomicrons triglicéridos Tempo (min) As concentrações máximas de colesterol e triglicéridos sob a forma de quilomicrons não foram significativamente diferentes (Quadro 4). O tempo até à concentração máxima de colesterol e triglicéridos sob a forma de quilomicrons e no soro não atingiu relevância estatística. Quadro 4. Concentração máxima (mmol/l) e área sob a curva total (TAUC, mmol/l min) do colesterol total, triglicéridos e quilomicrons de colesterol e triglicéridos das 18 mulheres pós-menopáusicas (Valores médios e desvios padrão) Água mineral bicarbonatada 1 Média DP Água mineral bicarbonatada 2 Água com baixo teor mineral Média DP Média DP p Colesterol total Concentração máxima TAUC Triglicéridos Concentração máxima TAUC Quilomicrons colesterol Concentração máxima TAUC Quilomicrons triglicéridos Concentração máxima TAUC 5,70 1276,85 0,17 163,01 5,62 1262,01 0,16 146,98 5,68 1267,28 0,17 151,69 NS NS 2,60 953,73 0,21 260,16 2,58 949,55 0,19 249,99 2,97 1123,56* 0,28 392,34 0,025 0,008 0,32 44,56 0,04 16,52 0,31 44,28 0,03 12,12 0,35 51,18 0,04 20,03 NS NS 1,09 310,74 0,13 138,46 1,09 320,52 0,12 137,78 1,25 383,63 0,15 187,12 NS 0,027 * O valor médio foi significativamente diferente do da água mineral bicarbonatada 2: p<0,05 (teste de Bonferroni). t Para mais informações acerca das águas minerais e procedimentos consulte o Quadro 2 e a página 583. Os valores da TAUC das concentrações de colesterol e de triglicéridos no soro e quilomicrons são apresentados no Quadro 4. Não se registaram diferenças significativas entre a TAUC das concentrações séricas de colesterol com as três águas minerais. A TAUC da concentração sérica de triglicéridos salienta o efeito importante da ingestão de água mineral. Não se registaram diferenças significativas entre a TAUC das duas águas minerais bicarbonatadas; a TAUC da água mineral bicarbonatada 2 foi significativamente inferior (15 %) à da água com baixo teor mineral (p=0,039). As medições ANOVA evidenciaram os efeitos significativos da água entre a TAUC das concentrações de triglicéridos sob a forma de quilomicrons, embora com o teste Bonferroni não se tenham registado grandes diferenças entre as três águas minerais. A TAUC das concentrações de colesterol sob a forma de quilomicrons não se alterou significativamente. Discussão A ingestão de uma refeição contendo gorduras com as três águas minerais diferentes resulta em curvas que apresentam um único pico devido à subida rápida e consequente queda das concentrações de lipoproteínas ricas em triglicéridos. É um dado assente nas referências bibliográficas (Sethi et al. 1993; Ostos et al. 2000). Contudo, Cohen et al. (1989) sugeriram que diversos factores podem influenciar a dimensão, quer do pico quer do formato. Os resultados deste estudo pós-prandial mostram de forma clara que a ingestão de água mineral bicarbonatada pode influenciar a lipemia pós-prandial. As águas minerais bicarbonatadas são usadas em terapias termais e são conhecidas pelas suas propriedades digestivas. Podem aliviar a dispepsia e a obstipação, aumentar o motor gástrico e as funções excretoras, favorecem a acção das enzimas pancreáticas e a acção saponificante dos ácidos biliares, e promovem a eliminação de fluidos pancreáticos e o fluxo de ácidos biliares (Chijiiwa & Linscheer, 1984; Armijo Valenzuela, 1994; Anti et al. 1998; Bertoni et al. 2002; Grassi et al. 2002). O nosso grupo mostrou recentemente que a ingestão de 1 l/d da água mineral bicarbonatada 1 durante 2 meses reduziu significativamente os níveis de colesterol total e colesterol LDL, aumentou o colesterol HDL e fez, ainda, baixar as concentrações de moléculas de adesão intercelular solúveis e as moléculas de adesão celular vascular solúveis em mulheres pós-menopáusicas (Schoppen et al. 2004). Foram relatados 4 efeitos similares no colesterol total e LDL por Capurso et al. (1999) em participantes com hipercolesterolemia ligeira. Estes autores observaram também concentrações mais elevadas de ácidos biliares nas fezes e diminuição de volume da vesícula. Os resultados deste estudo pós-prandial sustentam e reforçam os dados aqui apresentados. As águas minerais bicarbonatadas usadas neste ensaio são moderadamente alcalinas e induzem um efeito osmótico (Armijo Valenzuela, 1994) que pode influenciar a absorção e/ou eliminação de gorduras e colesterol. Neste estudo, a água mineral bicarbonatada reduziu a TAUC das concentrações de triglicéridos, por comparação com a água com baixo teor mineral. Este efeito foi também observado nos triglicéridos sob a forma de quilomicrons, embora as diferenças tenham sido menos acentuadas devido provavelmente à metodologia usada no manuseamento das amostras. As águas minerais bicarbonatadas comprometeriam a absorção de 2-monoacilglicerol e de ácidos gordos. As condições mais favoráveis para a máxima absorção de triglicéridos pelas mucosas encontram-se no intestino delgado proximal, em que o 2-monoacilglicerol e os ácidos gordos não esterificados (NEFA) estão presentes na fase oleosa, bem como na fase micelar, com uma fase aquosa (Chijiiwa & Linscheer, 1987) e uma taxa de absorção do ácido oleico da solução micelar inferior a pH 6,5 vs pH 5,5 (Chijiiwa & Linscheer, 1984), o que também se verificou neste estudo em que as concentrações máximas de triglicéridos foram grandemente afectadas pelo tipo de água, com valores médios inferiores para as águas bicarbonatadas. Isto pode dever-se à maior rapidez de hidrólise dos triglicéridos que entram na circulação com as águas bicarbonatadas. Os sais biliares são essenciais para a formação de micelas. O aumento das concentrações de ácidos biliares nas fezes reportado por Capurso et al. (1999) em participantes que ingeriram outras águas minerais alcalinas é indicador de menor reabsorção de ácidos biliares. A maior perda de ácidos biliares nas fezes e o menor volume combinado de ácidos biliares estimulam a síntese destes ácidos do nível de colesterol via 7a-hidroxilase. A ingestão destas águas minerais bicarbonatadas promove a transformação do colesterol em ácidos biliares e a sua eliminação, o que é consistente com a diminuição observada do volume da vesícula em participantes que beberam outras águas minerais ricas em sais (Eberhardt et al. 1991; Marchi et al. 1992; Capurso et al. 1999). O colesterol alimentar é absorvido pela solubilização em micelas; esta absorção é favorecida com um pH inferior (Linscheer & Vergroesen, 1994). Estas águas minerais bicarbonatadas podem alcalinizar o quimo que é libertado no duodeno, o que reduz a absorção de colesterol e promove a formação de quilomicrons, por comparação com a água com baixo teor mineral. Contudo, talvez porque as concentrações de colesterol nos quilomicrons são muito baixas, as diferenças entre águas não atingiram um nível significativo. Alterações recentes à legislação europeia neste contexto estabeleceram que o teor de fluoreto das águas minerais não pode ser superior a 5,0 mg/l (Jornal Oficial da União Europeia, 2003). Assim, a água mineral bicarbonatada 2 substitui a água mineral bicarbonatada 1 no mercado. Quando esta água mineral bicarbonatada é comparada com a água com baixo teor mineral, observa-se uma redução significativa na TAUC de colesterol nos quilomicrons e um tempo até ao pico significativamente superior (dados não apresentados). A água mineral bicarbonatada 2 também apresenta um efeito notório e significativo na TAUC das concentrações de triglicéridos, por oposição à água com baixo teor mineral. Desconhecem-se os mecanismos subjacentes aos resultados observados neste estudo. Contudo, o nosso grupo de investigação (Schoppen et al. 2004) encontrou níveis mais elevados de colesterol HDL nos participantes que beberam 1l/d de água mineral bicarbonatada 1 durante 2 meses, em comparação com a água com baixo teor mineral. A diminuição da lipemia pós-prandial está associada a concentrações mais elevadas de HDL (Hardman & Herd, 1998). Assim, ambos os resultados parecem estar ligados e apontam para a influência destas águas minerais bicarbonatadas na digestão, embora sejam necessárias mais investigações para determinar os mecanismos envolvidos. Dados de estudos a longo prazo em ratazanas revelam que o fluoreto pode ter um papel benéfico nos lípidos (Luoma et al. 1995, 1997). Contudo, neste estudo e apesar das diferenças no teor de fluoreto, os efeitos das duas águas minerais bicarbonatadas na lipemia pós-prandial não foram significativamente diferentes. Os resultados deste estudo revelam que a ingestão de uma água mineral bicarbonatada com alto teor de sódio reduz a lipemia pós-prandial em mulheres pós-menopáusicas saudáveis, por comparação com a água com baixo teor mineral. Os resultados deste estudo em mulheres pós-menopáusicas podem também ser importantes para os homens, que apresentam risco CV mais elevado do que as mulheres, e para as pessoas que sofrem de outras dislipemias. No entanto, são necessárias investigações mais profundas para apurar os mecanismos envolvidos. 5