Água mineral bicarbonatada com alto teor de sódio mais eficaz na
redução da lipemia pós-prandial em mulheres pós-menopáusicas do que
a água com baixo teor mineral
Stefanie Schoppen*, Ana M. Perez-Granados, Angeles Carbajal, Beatriz Sarria, Francisco J.
Sanchez-Muniz, Juan A. Gomez-Gerique e M. Pilar Vaquero
O papel das águas minerais bicarbonatadas no metabolismo lipídico e nas concentrações lipoproteínas no homem não foi ainda
devidamente aprofundado. Este estudo pretendeu investigar se a ingestão de água mineral bicarbonatada com alto teor de sódio
afecta o nível pós-prandial de colesterol e triglicéridos em mulheres pós-menopáusicas. Num estudo cruzado de três braços,
aleatorizado, dezoito mulheres pós-menopáusicas saudáveis ingeriram duas águas minerais bicarbonatadas com alto teor de sódio
(água mineral bicarbonatada 1 e água mineral bicarbonatada 2) e uma água com baixo teor mineral (500 ml de cada) com uma
refeição rica em gorduras (4552 kJ; 75,3g gordura). As águas bicarbonatadas tinham alto teor de sódio e bicarbonato e a água
mineral bicarbonatada 1 continha 5 a 7 vezes mais fluoreto do que a água mineral bicarbonatada 2. Foram colhidas amostras de
sangue em jejum e 30, 60, 120, 240, 360 e 420 minutos após o final da refeição. As concentrações de colesterol e triglicéridos
foram determinados no soro e quilomicrons. Observou-se um efeito significativo da ingestão de água na área total sob a curva
(TAUC) dos triglicéridos no soro e quilomicrons (ANOVA, p=0.008 e p=0,027, respectivamente). A TAUC da concentração sérica de
triglicéridos da água mineral bicarbonatada 2 foi significativamente inferior à da água com baixo teor mineral (Bonferroni,
p=0,039). As concentrações plasmáticas de triglicéridos foram significativamente afectadas pela água (p=0,025). As alterações nos
quilomicrons de colesterol não foram significativamente influenciadas pelo tipo de água. As águas minerais bicarbonatadas 1 e 2
não registaram diferenças significativas. A ingestão de águas minerais com alto teor de sódio e de bicarbonato reduz de forma
mais significativa a lipemia pós-prandial em mulheres pós-menopáusicas saudáveis do que a água com baixo teor mineral.
Bicarbonato sódico: Água mineral bicarbonatada: Lipemia pós-prandial: Mulheres pós-menopáusicas
Desde há alguns séculos, o consumo de água mineral tem sido considerado benéfico para a saúde. Sabe-se que as
águas com alto teor mineral, particularmente de cálcio e magnésio, contribuem para uma ingestão adequada dos
minerais (Cepollaro et al. 1996; Bohmer et al. 2000; Guillemant et al. 2000; Siener et al. 2004), afectando assim as
funções orgânicas (Bohmer et al. 2000; Guillemant et al. 2000; Buclin et al. 2001, Tapola et al. 2004). Contudo, o
possível papel de outros iões nestas águas não foi investigado em profundidade.
Estudos epidemiológicos mostraram que o teor mineral da água potável pode influenciar o risco cardiovascular
(Toussaint et al. 1986; Sauvant & Pepin 2000; Nerbrand et al. 2003). São escassos os estudos clínicos realizados
neste âmbito, mas o nosso grupo mostrou que uma água mineral carbonatada com alto teor de sódio reduz o risco
cardiovascular ao fazer baixar o colesterol total, o colesterol LDL, as moléculas de adesão intercelular solúveis
(ICAM-1) e as moléculas de adesão celular vascular solúveis (sVCAM-1) (Schoppen et al. 2004), embora outros
autores afirmem que diversas águas minerais (sobretudo as águas bicarbonatadas gasosas) podem desempenhar um
papel importante na regulação dos níveis de lipoproteínas no ser humano (Capurso et al. 1999; Bertoni et al. 2002;
Grassi et al. 2002). Em ratazanas, Toussaint et al. (1986) sugerem que as águas sulfúreas com alto teor de cálcio e
magnésio promovem a conversão do colesterol em ácidos biliares e a sua subsequente eliminação. Luoma et al.
(1997) observaram menor prevalência de DCV e enfarte do miocárdio nos homens que beberam água com alto teor
de fluoreto e magnésio. Nas ratazanas, uma alimentação rica em fluoreto (12 mg/kg) reduziu o colesterol, os
triglicéridos e os fosfolípidos (Luoma et al. 1995).
Sabe-se também que o aumento e prolongamento da lipemia pós-prandial estão relacionados com DCV e
aterosclerose (Summers et al. 1999; Hyson et al. 2003; Sanders, 2003). Todas as gorduras absorvidas entram na
circulação sobretudo sob a forma de quilomicrons. A redução dos quilomicrons remanescentes no pós-prandial poderá
conter a progressão da aterosclerose coronária ao limitar a exposição do leito vascular ao conteúdo aterogénico
destas partículas (Wilhelm & Cooper, 2003). Contudo, a composição da dieta alimentar pode influenciar a magnitude
da lipemia pós-prandial. Para além dos efeitos de diferentes ácidos gordos na lipemia pós-prandial (Sanders 2003;
Kris-Etherton et al. 2004; Lefevre et al. 2004), sabe-se que as fibras alimentares (Keogh et al. 2003), a glicose (Van
Oostrom et al. 2004), os hidratos de carbono (Volek et al. 2003; Iovine et al. 2004), o exercício físico (Gill &
Hardman, 2003) e o álcool (Chung et al. 2003) afectam a lipemia pós-prandial.
A diminuição do nível de estrogénios em mulheres pós-menopáusicas saudáveis pode aumentar o risco de DAC, como
resultado da diminuição dos efeitos positivos dos estrogénios no metabolismo lipídico. Ao regular o metabolismo
lipídico nos adipócitos e hepatócitos, o 17b-estradiol modula a concentração plasmática de lípidos (Szafran &
Smie-lak-Korombel, 1998; van Beek et al. 1999; Masding et al. 2003). Este efeito protector desaparece após a
menopausa.
Uma vez que se sabe que a ingestão de 1l/d de uma água altamente mineralizada e carbonatada reduz o risco
cardiovascular em mulheres pós-menopáusicas (Schoppen et al. 2004) e que os mecanismos envolvidos não foram
ainda definidos, este trabalho visa estudar os efeitos na lipemia pós-prandial da ingestão de 0,5 litros de duas
águas minerais bicarbonatadas com alto teor de sódio, com diferenças sobretudo a nível do seu teor de fluoreto, em
comparação com a ingestão de água com baixo teor mineral durante a refeição. Assim, foram determinados os níveis
de colesterol e triglicéridos no plasma e quilomicrons.
Doentes e métodos
Doentes
1
Dezoito mulheres pós-menopáusicas do Menopause Program of the Madrid City Council Food and Health Department
foram recrutadas para este estudo. As mulheres incluídas neste programa de prevenção foram submetidas a
avaliações clínicas periódicas, i.e., medições antropométricas, análises de sangue, determinação da densidade
mineral óssea e mamografia. As mulheres deram o seu consentimento informado por escrito para participar num
protocolo aprovado pela Comissão de Ética do Conselho Espanhol para a Investigação Científica. Nenhuma mulher
sofria de doença digestiva ou metabólica, como se pôde verificar através da história médica e de análise ao sangue
em jejum. As mulheres seleccionadas para o estudo tinham de estar amenorréicas há pelo menos um ano, não podiam
ser obesas (IMC, 30kg/m2), nem estar a fazer terapêutica de substituição hormonal ou outra medicação passível de
afectar o metabolismo ósseo e lipídico ou a tomar vitaminas, suplementos minerais ou fitoesterogénio.
Nenhuma das mulheres fumava. As participantes foram aconselhadas a manter os seus hábitos, designadamente os
alimentares e o peso corporal, o consumo de álcool e o exercício físico.
As participantes tinham entre 51 e 59 anos; os dados antropométricos, a pressão arterial e os níveis lipídicos
observados no início do estudo são apresentados no Quadro 1.
Quadro 1. Dados antropométricos e valores basais do colesterol e
dos triglicéridos de 18 mulheres no início do estudo
(Valores médios e desvios padrão)
Média
DP
Idade (anos)
55,7
2,4
Peso corporal (kg)
IMC (kg/m2)
Cintura (m)
Anca (m)
Rácio cintura/anca
Colesterol total (mmol/l)
Triglicéridos (mmol/l)
64,2
26,89
0,83
1,03
0,81
5,46
0,99
6,6
3,04
0,09
0,06
0,70
0,75
0,31
Estudo pós-prandial
Durante o estudo realizaram-se três visitas em intervalos de 2 semanas. Em todas as visitas, as mulheres estavam em
jejum desde a noite anterior (durante >12h). Para uniformizar a dieta alimentar, as mulheres receberam instruções
escritas relativamente à composição do jantar (alface e tomate com azeite, vinagre e sal; bife de frango grelhado;
pão e fruta) da noite anterior à visita do estudo. Na manhã da visita foram medidos a pressão arterial, o peso, a
altura e o rácio cintura/anca e avaliado o cumprimento das instruções relativas ao jantar através de um questionário.
Depois, efectuou-se a colheita de sangue (ABOCATH 20G; Abbott Laboratories, Abbott Park, Illinois, EUA) basal, e as
voluntárias receberam a refeição estipulada e 0,5 litros de uma das águas minerais do estudo. Neste estudo foram
usadas três águas minerais diferentes: água mineral bicarbonatada 1, água mineral bicarbonatada 2 e água com
baixo teor mineral.
Mediante um desenho triplo cruzado, no seu primeiro dia do estudo, as mulheres foram aleatoriamente incluídas num
regime de ingestão sequencial das três águas minerais, até todas as mulheres completarem o estudo pós-prandial
com as três águas. As três águas foram fornecidas em garrafas de 0,5 litros (Vichy Catalán, SA, Barcelona, Espanha).
As duas águas minerais bicarbonatadas tinham alto teor de bicarbonato, sódio e cloreto; a outra água tinha baixo
teor mineral (Quadro 2). A água mineral bicarbonatada 1 continha 5,7 vezes mais fluoreto do que a água mineral
bicarbonatada 2, e 37,5 vezes mais do que a água com baixo teor mineral. A refeição do estudo (Quadro 3)
proporcionou 4552 kJ e continha 75,3 g de gorduras, 21,5 g de proteínas, 86,5 g de hidratos de carbono e 289mg
de colesterol. O perfil energético foi o seguinte: proteínas –7,9%, lípidos - 62,3% e hidratos de carbono 29,8 %; o
perfil lipídico foi o seguinte: ácidos gordos saturados – 11,8 %, ácidos gordos monoinsaturados (MUFA) - 39,7% e
ácidos gordos polinsaturados (PUFA) - 6,6%.
As amostras pós-prandiais de sangue foram obtidas 30, 60, 120, 240, 360 e 420 minutos após o final da refeição
do estudo. Em média, a refeição foi ingerida em 31 minutos. Para manter a hidratação ao longo do período
pós-prandial, as mulheres beberam 100 ml de água desmineralizada aos 240 e 390 minutos. As amostras de sangue
foram obtidas com tubos Venoject e gel coagulante para a colheita de soro e posterior separação de quilomicrons.
Métodos analíticos
As amostras de sangue foram colocadas em gelo e imediatamente centrifugadas durante 15 minutos a 1500g e 4ºC,
e depois mantidas a uma temperatura de -80ºC.
Mediante ultra-centrifugação (L8-70M, rotor SW50; Beckman Inc., Palo Alto, CA, EUA), a fracção de quilomicrons foi
isolada de uma camada superior de 2ml de soro com 1,5ml de água destilada por meio de um processo de
separação de solução salina (Terpstra et al. 1981). Os tubos foram centrifugados durante 11 minutos (tempos de
aceleração e desaceleração incluídos) a 232.000g e 4ºC. Os quilomicrons contidos na camada superior foram
removidos por aspiração depois de cortados os tubos com marcas de calibração de 1ml. O volume das amostras de
quilomicrons foi reconstituído com 1,5ml de água destilada.
2
As concentrações de soro e quilomicrons de colesterol e triglicéridos foram determinadas por processos enzimáticos
automáticos (CHOD-PAP e GPO-PAP, Boehringer Mannheim, Germany; RA-XT, Technicon, Tarrytown, NY, EUA).
Análises estatísticas
Para as análises estatísticas dos resultados recorreu-se ao Sistemas de Análise Estatísticas, versão 8.2 para o
Windows XP (SAS Institute, Cary, NC, USA). Os dados são apresentados sob a forma de médias e desvios padrão.
Os dados relativos aos triglicéridos foram log normalizados para análise estatística. Realizaram-se medições
repetidas de dois factores ANOVA para as concentrações de colesterol e triglicéridos no soro e quilomicrons
relativamente à água, tempo e efeitos interactivos da água x tempo.
Para investigar se o consumo das três águas minerais alterou a evolução pós-prandial das concentrações de colesterol
e triglicéridos no soro e quilomicrons, calcularam-se as respostas da área total sob a curva (TAUC) e realizaram-se as
medições ANOVA. Estas medições também se efectuaram para estudar as concentrações máximas de colesterol e
triglicéridos no soro e quilomicrons.
Quadro 2. Composição das águas minerais usadas no estudo em mg/l
(mmol/l)
Água mineral
bicarbonatada 1
Componente
DM
HCO3
IC
so42~
F~
Ca2+
Mg2+
Na+
K+
Água mineral
bicarbonatada 2
Água natural
leve
2872
2865
112
2094,4 (34,34)
583,0 (16,44)
49,9 (0,52)
7,9 (1,0)
43,6 (1,09)
5,7 (0,24)
1116,5 (48,57)
54,7 (1,4)
2013 (32,99)
592 (16,7)
42,9 (0,45)
1,4 (0,07)
52,1 (1,30)
9,7 (0,40)
948 (41,3)
47,7 (1,22)
71,1 (1,17)
5,7 (0,16)
15,7 (0,18)
0,2 (0,01)
25,2 (0,63)
2,7 (0,11)
9,0 (0,39)
1,4 (0,04)
Quadro 3. Composição da refeição
ingerida com as três águas minerais
Ingredientes
Leite de vaca gordo
Café instantâneo (descafeinado)
Pêra abacate
Caranguejo
Maionese
Azeite
Ovos
Açúcar
Farinha de trigo, branca
Pão branco, tostado
Sacarina
Peso (g)
150
2
80
44
30
33
51
33
33
18
1
O tempo até ao pico foi calculado e analisado através do teste de Friedman. O valor p<0,05 foi considerado
estatisticamente significativo.
Realizou-se uma análise post hoc usando o teste de Bonferroni.
Resultados
As dezoito mulheres recrutadas completaram o estudo com as três águas.
As medições ANOVA para as concentrações séricas de colesterol não foram afectadas pelos factores água, tempo ou
água x tempo (Fig. 1). Não se registaram diferenças significativas em termos de concentração máxima (Quadro 4) e
tempo até ao pico.
Os triglicéridos foram significativamente afectados pelo factores água (p=0,028) e tempo (p<0,000), mas não pela
interacção água x tempo. A diferença entre a água mineral bicarbonatada 2 e a água com baixo teor mineral foi de
p=0,05; as restantes comparações não foram relevantes (Fig. 1). A concentração máxima de triglicéridos foi
significativamente afectada pelo factor água. Embora os valores das duas águas minerais bicarbonatadas tenham
sido inferiores aos da água com baixo teor mineral, as diferenças não atingiram significado estatístico (Quadro 4).
As concentrações de colesterol sob a forma de quilomicrons não foram afectadas pela água e pela interacção água
x tempo. O tempo exerceu um efeito significativo (p<0,0001) (Fig. 1).
3
As concentrações de triglicéridos sob a forma de quilomicrons foram significativamente afectadas pela água
(p=0,049) e o tempo (p<0,0001), embora o efeito da interacção água x tempo não tenha sido notório. Contudo, as
diferenças entre águas não foram significativas (Fig. 1).
Fig. 1. Concentração de colesterol e triglicéridos em jejum e no pós-prandial no soro e quilomicrons ao longo de 420 minutos em 18 mulheres
pós-menopáusicas saudáveis depois de beberem a água mineral bicarbonatada 1 (W), a água mineral bicarbonatada 2 (B) e a água com baixo
teor mineral (O). Os valores são apresentados sob a forma de médias e desvios padrão. Para mais informações acerca das águas minerais,
consulte o Quadro 2 e a página 583.
Triglicéridos (mmol/l)
Colesterol (mmol/l)
Quilomicrons colesterol (mmol/l)
Quilomicrons triglicéridos
Tempo (min)
As concentrações máximas de colesterol e triglicéridos sob a forma de quilomicrons não foram significativamente
diferentes (Quadro 4). O tempo até à concentração máxima de colesterol e triglicéridos sob a forma de quilomicrons
e no soro não atingiu relevância estatística.
Quadro 4. Concentração máxima (mmol/l) e área sob a curva total (TAUC, mmol/l min) do colesterol total,
triglicéridos e quilomicrons de colesterol e triglicéridos das 18 mulheres pós-menopáusicas
(Valores médios e desvios padrão)
Água mineral
bicarbonatada 1
Média
DP
Água mineral
bicarbonatada 2
Água com baixo teor
mineral
Média
DP
Média
DP
p
Colesterol total
Concentração máxima
TAUC
Triglicéridos
Concentração máxima
TAUC
Quilomicrons colesterol
Concentração máxima
TAUC
Quilomicrons triglicéridos
Concentração máxima
TAUC
5,70
1276,85
0,17
163,01
5,62
1262,01
0,16
146,98
5,68
1267,28
0,17
151,69
NS
NS
2,60
953,73
0,21
260,16
2,58
949,55
0,19
249,99
2,97
1123,56*
0,28
392,34
0,025
0,008
0,32
44,56
0,04
16,52
0,31
44,28
0,03
12,12
0,35
51,18
0,04
20,03
NS
NS
1,09
310,74
0,13
138,46
1,09
320,52
0,12
137,78
1,25
383,63
0,15
187,12
NS
0,027
* O valor médio foi significativamente diferente do da água mineral bicarbonatada 2: p<0,05 (teste de Bonferroni).
t Para mais informações acerca das águas minerais e procedimentos consulte o Quadro 2 e a página 583.
Os valores da TAUC das concentrações de colesterol e de triglicéridos no soro e quilomicrons são apresentados no
Quadro 4. Não se registaram diferenças significativas entre a TAUC das concentrações séricas de colesterol com as
três águas minerais. A TAUC da concentração sérica de triglicéridos salienta o efeito importante da ingestão de água
mineral. Não se registaram diferenças significativas entre a TAUC das duas águas minerais bicarbonatadas; a TAUC
da água mineral bicarbonatada 2 foi significativamente inferior (15 %) à da água com baixo teor mineral
(p=0,039).
As medições ANOVA evidenciaram os efeitos significativos da água entre a TAUC das concentrações de triglicéridos
sob a forma de quilomicrons, embora com o teste Bonferroni não se tenham registado grandes diferenças entre as
três águas minerais.
A TAUC das concentrações de colesterol sob a forma de quilomicrons não se alterou significativamente.
Discussão
A ingestão de uma refeição contendo gorduras com as três águas minerais diferentes resulta em curvas que
apresentam um único pico devido à subida rápida e consequente queda das concentrações de lipoproteínas ricas em
triglicéridos. É um dado assente nas referências bibliográficas (Sethi et al. 1993; Ostos et al. 2000). Contudo, Cohen
et al. (1989) sugeriram que diversos factores podem influenciar a dimensão, quer do pico quer do formato. Os
resultados deste estudo pós-prandial mostram de forma clara que a ingestão de água mineral bicarbonatada pode
influenciar a lipemia pós-prandial.
As águas minerais bicarbonatadas são usadas em terapias termais e são conhecidas pelas suas propriedades
digestivas. Podem aliviar a dispepsia e a obstipação, aumentar o motor gástrico e as funções excretoras, favorecem
a acção das enzimas pancreáticas e a acção saponificante dos ácidos biliares, e promovem a eliminação de fluidos
pancreáticos e o fluxo de ácidos biliares (Chijiiwa & Linscheer, 1984; Armijo Valenzuela, 1994; Anti et al. 1998;
Bertoni et al. 2002; Grassi et al. 2002). O nosso grupo mostrou recentemente que a ingestão de 1 l/d da água
mineral bicarbonatada 1 durante 2 meses reduziu significativamente os níveis de colesterol total e colesterol LDL,
aumentou o colesterol HDL e fez, ainda, baixar as concentrações de moléculas de adesão intercelular solúveis e as
moléculas de adesão celular vascular solúveis em mulheres pós-menopáusicas (Schoppen et al. 2004). Foram relatados
4
efeitos similares no colesterol total e LDL por Capurso et al. (1999) em participantes com hipercolesterolemia ligeira.
Estes autores observaram também concentrações mais elevadas de ácidos biliares nas fezes e diminuição de volume
da vesícula. Os resultados deste estudo pós-prandial sustentam e reforçam os dados aqui apresentados. As águas
minerais bicarbonatadas usadas neste ensaio são moderadamente alcalinas e induzem um efeito osmótico (Armijo
Valenzuela, 1994) que pode influenciar a absorção e/ou eliminação de gorduras e colesterol. Neste estudo, a água
mineral bicarbonatada reduziu a TAUC das concentrações de triglicéridos, por comparação com a água com baixo
teor mineral. Este efeito foi também observado nos triglicéridos sob a forma de quilomicrons, embora as diferenças
tenham sido menos acentuadas devido provavelmente à metodologia usada no manuseamento das amostras.
As águas minerais bicarbonatadas comprometeriam a absorção de 2-monoacilglicerol e de ácidos gordos. As
condições mais favoráveis para a máxima absorção de triglicéridos pelas mucosas encontram-se no intestino delgado
proximal, em que o 2-monoacilglicerol e os ácidos gordos não esterificados (NEFA) estão presentes na fase oleosa,
bem como na fase micelar, com uma fase aquosa (Chijiiwa & Linscheer, 1987) e uma taxa de absorção do ácido
oleico da solução micelar inferior a pH 6,5 vs pH 5,5 (Chijiiwa & Linscheer, 1984), o que também se verificou neste
estudo em que as concentrações máximas de triglicéridos foram grandemente afectadas pelo tipo de água, com
valores médios inferiores para as águas bicarbonatadas. Isto pode dever-se à maior rapidez de hidrólise dos
triglicéridos que entram na circulação com as águas bicarbonatadas.
Os sais biliares são essenciais para a formação de micelas. O aumento das concentrações de ácidos biliares nas fezes
reportado por Capurso et al. (1999) em participantes que ingeriram outras águas minerais alcalinas é indicador de
menor reabsorção de ácidos biliares. A maior perda de ácidos biliares nas fezes e o menor volume combinado de
ácidos biliares estimulam a síntese destes ácidos do nível de colesterol via 7a-hidroxilase. A ingestão destas águas
minerais bicarbonatadas promove a transformação do colesterol em ácidos biliares e a sua eliminação, o que é
consistente com a diminuição observada do volume da vesícula em participantes que beberam outras águas minerais
ricas em sais (Eberhardt et al. 1991; Marchi et al. 1992; Capurso et al. 1999).
O colesterol alimentar é absorvido pela solubilização em micelas; esta absorção é favorecida com um pH inferior
(Linscheer & Vergroesen, 1994). Estas águas minerais bicarbonatadas podem alcalinizar o quimo que é libertado no
duodeno, o que reduz a absorção de colesterol e promove a formação de quilomicrons, por comparação com a água
com baixo teor mineral. Contudo, talvez porque as concentrações de colesterol nos quilomicrons são muito baixas, as
diferenças entre águas não atingiram um nível significativo.
Alterações recentes à legislação europeia neste contexto estabeleceram que o teor de fluoreto das águas minerais
não pode ser superior a 5,0 mg/l (Jornal Oficial da União Europeia, 2003). Assim, a água mineral bicarbonatada 2
substitui a água mineral bicarbonatada 1 no mercado. Quando esta água mineral bicarbonatada é comparada com
a água com baixo teor mineral, observa-se uma redução significativa na TAUC de colesterol nos quilomicrons e um
tempo até ao pico significativamente superior (dados não apresentados). A água mineral bicarbonatada 2 também
apresenta um efeito notório e significativo na TAUC das concentrações de triglicéridos, por oposição à água com
baixo teor mineral.
Desconhecem-se os mecanismos subjacentes aos resultados observados neste estudo. Contudo, o nosso grupo de
investigação (Schoppen et al. 2004) encontrou níveis mais elevados de colesterol HDL nos participantes que beberam
1l/d de água mineral bicarbonatada 1 durante 2 meses, em comparação com a água com baixo teor mineral. A
diminuição da lipemia pós-prandial está associada a concentrações mais elevadas de HDL (Hardman & Herd, 1998).
Assim, ambos os resultados parecem estar ligados e apontam para a influência destas águas minerais
bicarbonatadas na digestão, embora sejam necessárias mais investigações para determinar os mecanismos
envolvidos.
Dados de estudos a longo prazo em ratazanas revelam que o fluoreto pode ter um papel benéfico nos lípidos (Luoma
et al. 1995, 1997). Contudo, neste estudo e apesar das diferenças no teor de fluoreto, os efeitos das duas águas
minerais bicarbonatadas na lipemia pós-prandial não foram significativamente diferentes.
Os resultados deste estudo revelam que a ingestão de uma água mineral bicarbonatada com alto teor de sódio
reduz a lipemia pós-prandial em mulheres pós-menopáusicas saudáveis, por comparação com a água com baixo teor
mineral. Os resultados deste estudo em mulheres pós-menopáusicas podem também ser importantes para os homens,
que apresentam risco CV mais elevado do que as mulheres, e para as pessoas que sofrem de outras dislipemias. No
entanto, são necessárias investigações mais profundas para apurar os mecanismos envolvidos.
5
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Água mineral bicarbonatada com alto teor de sódio