Oftalmologia - Vol. 36: pp.315-319 Comunicações Curtas e Casos Clínicos Síndrome de Wolfram: Diagnóstico e 6 Anos de Acompanhamento Rita Gentil1, Cristina Freitas1, Cristina Almeida2, Natacha Moreno2 1 Interna de Formação Específica de Oftalmologia do Hospital de Braga 2 Assistente Hospitalar do Hospital de Braga RESUMO Introdução: a síndrome de Wolfram consiste num distúrbio neuro-degenerativo caracterizado pela presença de diabetes mellitus e atrofia óptica bilateral progressiva. Associa-se frequentemente a outras manifestações clínicas. Casos clínicos: trata-se de dois irmãos de 14 e 6 anos à data do diagnóstico, portadores de diabetes mellitus tipo 1, diabetes insípida, atrofia óptica bilateral e alterações auditivas neuro-sensoriais. A presença destes achados motivou a realização de estudo molecular que confirmou a suspeita clínica, tendo sido encontrada uma mutação homozigótica do gene WSF1. Conclusão: esta é uma patologia rara, com envolvimento sistémico e de prognóstico reservado, pelo que é necessário o envolvimento multidisciplinar que inclua o apoio específico no âmbito da reabilitação visual. Palavras-chave Síndrome de Wolfram, DIDMOAD, Atrofia Óptica, Diabetes mellitus, wolframina. ABSTRACT Introduction: Wolfram syndrome (WS) is a rare neurodegenerative disorder characterized by the presence of diabetes mellitus and bilateral progressive optic atrophy. It is frequently associated with other clinical features. Clinical cases: this study reports two siblings of 14 and 6 years old at the time of diagnosis, with diabetes mellitus type 1, diabetes insipidus, optic atrophy and bilateral hearing loss. The presence of these findings led to a molecular study to confirm the clinical suspicion of WS. It was found a homozygous mutation of the gene WSF1. Conclusion: WS is a rare disorder with systemic involvement and poor prognosis. It is necessary a multidisciplinary involvement that includes specific support for the visual rehabilitation. Key-words Wolfram Syndrome, DIDMOAD, Optic Atrophy, Diabetes mellitus, Wolframin Vol. 36 - Nº 3 - Julho-Setembro 2012 | 315 Rita Gentil, Cristina Freitas, Cristina Almeida, Natacha Moreno Introdução A síndrome de Wolfram (SW) é uma doença neuro-degenerativa rara, com uma incidência estimada de 1:770 0001. Descrita pela primeira vez em 1938 por Wolfram, é também conhecida pelo acrónimo DIDMOAD, derivado das suas principais manifestações clínicas: Diabetes Insipidus, Diabetes Mellitus, Optic Atrophy, Deafness2,3. Na maioria dos casos, a sua evolução é progressiva e inclui o aparecimento de diabetes mellitus (DM) e atrofia óptica na primeira década; diabetes insípida central e surdez neuro-sensorial na segunda década; alterações no aparelho génito-urinário no início da terceira década; patologias do foro neurológico e psiquiátrico, como ataxia cerebelosa, epilepsia e depressão no início da quarta década4. Os doentes com esta síndrome têm uma morte prematura (na terceira ou quarta década de vida) por insuficiência respiratória central resultante da atrofia do tronco cerebral4,5. Na origem desta síndrome estão alterações genéticas ao nível do cromossoma 4 (4p16.1 – gene WFS1 ou 4q22-q24 – gene WFS2)6. O gene da wolframina (WFS1) codifica uma proteína transmembranar de 890 aminoácidos, sintetizada a nível pancreático6,7. As mutações neste gene condicionam a morte celular nos ilhéus β do pâncreas. Nos casos de SW devidos a mutações nos genes WFS1 e WFS2, o padrão de hereditariedade é autossómico recessivo. No entanto, foram descritas mutações no DNA mitocondrial pelo que a SW parece ser uma entidade heterogénea a nível genético8. O diagnóstico é essencialmente clínico e requer sempre a presença de dois critérios mínimos: a DM insulino-dependente e a atrofia óptica9. Caso 1 O irmão mais velho tem actualmente 19 anos de idade. Na primeira observação (aos 13 anos de idade), apresentava: acuidades visuais (AV) de 2/10 no olho direito (OD) e de 4/10 no olho esquerdo (OE); midríase pupilar ODE não reactiva ao estímulo luminoso e de acomodação; tensões oculares de 16mmHg; e, no fundo ocular, observava-se atrofia óptica bilateral sem a existência de outras lesões, nomeadamente retinopatia diabética (figura 1). Resultados/Casos clínicos Fig. 1 | Midríase pupilar e atrofia óptica bilateral. Apresentam-se os casos clínicos de dois irmãos com Síndrome de Wolfram. Os pais são saudáveis, consanguíneos e não há outros casos descritos nesta família. Em ambos os casos, a gravidez tinha sido vigiada, o parto fora eutócico e não existiram quaisquer intercorrências no período neonatal. Os dois irmãos recorreram à Consulta de Oftalmologia por diminuição progressiva da acuidade visual. A observação oftalmológica foi complementada com fotografias do segmento anterior, retinografias, electroretinograma (ERG) e tomografia de coerência óptica (OCT). O estudo genético (realizado no Klinisch-Genetisch Centrum Nijmegen – Netherlands) revelou uma mutação homozigótica no exão 8 do gene WFS 1 (2164ins24). Num estudo prévio, esta mutação havia sido descrita na patogénese da Síndrome de Wolfram7. O reconhecimento cromático era rudimentar (amarelo). O ERG revelou respostas de cones e bastonetes normais e os potenciais evocados visuais (PEV) demonstraram redução da amplitude e aumento da latência, características do envolvimento do nervo óptico (figura 2). Este doente tinha antecedentes pessoais de diabetes mellitus insulino-dependente e de diminuição da acuidade auditiva. Na família tinha uma irmã mais nova também diabética e com história de perda da audição (caso 2). Foi pedida uma observação neurológica, onde se verificou uma diminuição dos reflexos osteo-tendinosos. No exame auditivo, apresentou uma perda auditiva moderada bilateral (de 33 a 36dB) com escotoma nas altas frequências (a partir de 2000Hz). 316 | Revista da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia Síndrome de Wolfram: Diagnóstico e 6 Anos de Acompanhamento Fig. 2 | Midríase pupilar e atrofia óptica bilateral. Actualmente, apresenta uma AV de 1/10 no OD e de 2/10 no OE. Tem ajuda electrónica que lhe permite estudar na faculdade. Caso 2 A irmã, com 12 anos actualmente, foi observada pela primeira vez na consulta de Oftalmologia aos 6 anos de idade. Fazia insulina e hormona anti-diurética desde os 3 anos de idade, na sequência do diagnóstico de Diabetes Mellitus e Diabetes Insípida (revelada após início de poliúria e polidipsia). Nessa altura, o exame oftalmológico evidenciou AV de 3/10 ODE, endotropia alternante de pequeno ângulo (6-8 dioptrias prismáticas), midríase pupilar, e atrofia óptica bilateral, sem lesões de retinopatia diabética (figura 3). Na avaliação da visão cromática, reconhecia o amarelo e o azul. O ERG, à semelhança do caso 1, não evidenciou lesão a nível da retina e os PEV foram compatíveis com lesão do nervo óptico. Foi realizado um OCT que revelou uma diminuição da espessura da camada de fibras nervosas bilateral (figura 4). Neste momento, tem AV inferior a 0,05 ODE e beneficia de ajudas electrónicas para as actividades de perto na escola. Discussão Estes dois doentes apresentam manifestações clínicas compatíveis com a Síndrome de Wolfram. O diagnóstico foi posteriormente confirmado em análise genética. Esta síndrome tem como principais diagnósticos diferenciais a rubéola congénita, a atrofia óptica hereditária de Leber e a anemia “thiamine responsive”4,8. Na literatura, existem cerca de trezentos casos descritos. Estima-se que a percentagem de doentes com a síndrome de Wolfram ou DIDMOAD completa varie entre 13 a 53%, de acordo com as diferentes séries10,11. Vol. 36 - Nº 3 - Julho-Setembro 2012 | 317 Rita Gentil, Cristina Freitas, Cristina Almeida, Natacha Moreno Fig. 3 | Midríase pupilar e atrofia óptica bilateral. A diabetes mellitus juvenil é uma das condições essenciais ao diagnóstico e está presente nos dois casos apresentados desde os 3 anos de idade. A diabetes insípida associada ou não a alterações renais surge habitualmente na segunda década de vida4. Todavia, a diabetes insípida foi diagnosticada na irmã durante a primeira década. Na Síndrome de Wolfram, a prevalência, a gravidade e a idade de início das várias manifestações são variáveis12. A nível oftalmológico, a atrofia óptica é a alteração mais frequente nos doentes afectados com a SW e tem um carácter bilateral e progressivo, tal como aconteceu nos dois casos apresentados. Estão descritas na literatura outras alterações, para além da atrofia óptica: catarata, miopia, alterações do epitélio pigmentar da retina, glaucoma e nistagmo13,14. A presença de retinopatia diabética é rara e inferior a 8%4,15. Não se sabe ainda o motivo da baixa incidência de retinopatia diabética nestes doentes, apesar do aparecimento precoce da diabetes mellitus e do mau controlo metabólico verificado na maioria dos casos15. Nos dois casos existe uma diminuição da acuidade auditiva. Na literatura, as alterações da função auditiva neuro-sensorial e/ou a presença de audiograma anormal foram observadas em 39-62% dos doentes diagnosticados com SW4,17. Não se verificaram, na observação sistémica e analítica, alterações de relevo a nível génito-urinário. Na avaliação psiquiátrica, foi referido um quadro de ansiedade e agitação (sobretudo na irmã) justificado pela baixa visão e pelo contexto familiar. Deve prestar-se atenção ao aparecimento (mais tardio) de alterações relacionadas com esta síndrome, nomeadamente do foro psiquiátrico9.O apoio psicológico prestado aos doentes e às respectivas famílias é essencial. Existem mais de 50 mutações descritas para a SW18. Quando existem mutações comprovadas nos genes WFS1 e WFS2, como aquela revelada pelo estudo genético dos dois casos apresentados, a doença tem um padrão de transmissão autossómico recessivo9. Os dois doentes têm seguimento/aconselhamento genético que refere um baixo risco de transmissão (0,1%), na ausência de consanguinidade, para a mutação verificada. Conclusão Fig. 4 | OCT OD e OE. 318 | Revista da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia A SW exige um envolvimento multidisciplinar atento e o recurso a ajudas técnicas para contornar a baixa visão que afecta a vida destes doentes e das respectivas famílias. A nível oftalmológico, a observação clínica pode contribuir para o reconhecimento do diagnóstico e, apesar da inexistência de tratamento curativo, existem medidas que podem ajudar de forma significativa os doentes com baixa visão. Os dois irmãos utilizam lupas para leitura (+6 D), ajudas electrónicas (para visão de perto e longe), lentes com filtros especiais (F80) para uso no exterior, e sistemas Síndrome de Wolfram: Diagnóstico e 6 Anos de Acompanhamento de amplificação de imagem (Pocket viewer CCTV). Actualmente, pensa-se que esta síndrome não é muitas vezes identificada e, como tal, é uma patologia subdiagnosticada. O conhecimento da sua existência é essencial para a correcta avaliação e orientação clínica destes doentes 9. 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Menção Honrosa para Melhor Apresentação da área de Oftalmologia Pediátrica (SPO/Edol) no 52º Congresso da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia Os autores não têm conflitos de interesse a declarar CONTACTO Rita Gentil Serviço de Oftalmologia do Hospital de Braga Sete Fontes - São Victor, 4710-243 Braga [email protected] Vol. 36 - Nº 3 - Julho-Setembro 2012 | 319