T Tem professor na rede Adriana Rocha Bruno Eliane Medeiros Borges Léa Stahlschmidt Pinto Silva (orgs.) Juiz de Fora 2010 Tem Professor na rede.indd 1 30/05/2010 10:39:38 © Editora UFJF, 2010 Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização expressa da editora. UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA Reitor Henrique Duque de Miranda Chaves Filho Vice-Reitor José Luiz Rezende Pereira Diretora Executiva da Editora UFJF e Presidente do Conselho Editorial Nelma Fróes Conselho Editorial Ana Cristina Lima Santos Barbosa Andréa Pereira Luizi Ponzo Antonio Ferreira Colchete Filho Déa Lúcia Campos Pernambuco Henrique Nogueira Reis Rogerio Casagrande Rubem Barboza Filho Sueli Maria dos Reis Santos Editora UFJF Rua Benjamin Constant, 790 Centro - Juiz de Fora - MG Cep 36015 - 400 Fone/Fax: (32) 3229-7645 (32) 3229-7646 [email protected] [email protected] www.editoraufjf.com.br Acompanhamento de produção gráfica: Nathália Duque Editoração: Patrícia Mendes Fonseca Capa: Cláudio Max Goulhart Revisão textual: João Luiz Peçanha Couto Tem professor na rede / Adriana Rocha Bruno ... [et al.]. Juiz de Fora : UFJF, 2010. 135 p. ISBN 978-85-7672-066-9 1. Educação a distância. 2. Formação de professores. I. Bruno, Adriana Rocha. II. Título. CDU 37.018.43 Impresso no Brasil - 2010 Tem Professor na rede.indd 2 30/05/2010 10:39:38 Sumário Apresentação - Sobre professores e rede 05 Prefácio 09 Educação a distância: política social e formação de professores 13 Rede de (trans) formação: a escrita de professores e professoras a partir do que “guarda a memória” 29 Implicações dos ambientes online para a formação de comunidades colaborativas de gestores educacionais 41 No lugar da distância, presenças: formação de professores nas redes digitais 57 Docência na Educação online: professorar e (ou) tutorar? 67 Espaços compartilhados de ensinar e aprender: uma experiência de formação de professores em ambientes virtuais 85 Curso de Pedagogia para as séries iniciais FACED/UFJF: resgatando sua história 97 Projeto Veredas – Razões e sentido da formação em serviço 103 Para além das “distâncias”: provocações por uma prática responsiva 119 Sobre os autores 131 Adriana Rocha Bruno, Eliane Medeiros Borges, Lea Stahlschmidt Pinto Silva Lucila Pesce Beatriz de Basto Teixeira Ilka Schapper Santos, Maria Teresa de Assunção Freitas, Núbia Schaper Santos Adriana Rocha Bruno, Ana Maria Di Grado Hessel Eliane Medeiros Borges Adriana Rocha Bruno, Márcio Silveira Lemgruber Hilda Aparecida Linhares da Silva Micarello, Maria Tereza Scotton Jane Aparecida Gonçalves de Souza, Marlos Bessa Mendes da Rocha Maria da Assunção Calderano, Lecir Jacinto Barbacovi Bruna Sola Ramos Tem Professor na rede.indd 3 30/05/2010 10:39:38 P Tem Professor na rede.indd 4 30/05/2010 10:39:38 P Sobre professores e redes Para uma faculdade que faz formação de professores há tantos anos, como é o caso da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (FACED-UFJF), os tempos atuais trouxeram grandes desafios. Não basta mais atender aos alunos em nossas salas de aula presenciais, mas tornou-se necessário ultrapassar os limites locais e atender às demandas de estudantes além das “fronteiras” de Juiz de Fora. Tal ampliação, para além da geografia, nos impõe cenários múltiplos para se pensar e se fazer educação, bem como para formar docentes. A educação a distância na FACED iniciou-se com o projeto Veredas, que formou 14 mil professores no Estado de Minas Gerais no período de 2002-2005. Os professores foram capacitados em serviço e puderam relacionar estreitamente a ação e a reflexão. Utilizaram os conhecimentos desenvolvidos no curso em suas práticas e levaram para o mesmo saberes e questões elaborados no cotidiano da sala de aula. Para desencadear o processo de formação de professores, em serviço, em larga escala, a Educação a Distância (EaD) tornou-se estratégica para a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEEMG), configurando a tendência indicada pelos organismos internacionais e também pelo governo federal, através do Ministério da Educação e da Secretaria de Educação a Distância. Em seguida, mais recentemente, a FACED participou do consórcio CEDERJ1, com a graduação de 5 turmas na Zona da Mata mineira. Estas experiências, ao potencializarem o desafio de usar as tecnologias da informação e da comunicação para criar condições e possibilidades de interação pedagógica com nossos alunos em diversos pontos do Estado de Minas Gerais, foram abraçadas pela FACED-UFJF como oportunidades para construção da Educação na contemporaneidade. Começamos, portanto, nosso trabalho na educação a distância, entre o Veredas e o Consórcio CEDERJ, com 1 O Consórcio CEDERJ reúne o Governo do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Fundação CECIERJ e as seis Universidades públicas sediadas no Estado: Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ; Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro– UENF; Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO; Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Universidade Federal Fluminense – UFF, e; Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ. Tem Professor na rede.indd 5 30/05/2010 10:39:38 diferentes modelos de cursos, correspondentes, em parte, a diferentes momentos de desenvolvimento e acesso a tecnologias da comunicação. Como novo desafio, e tendo como bagagem estas experiências anteriores, elaboramos e abraçamos o projeto do curso de Pedagogia, licenciatura, a distância, por meio do programa Universidade Aberta do Brasil. O trabalho com o sistema UAB tem sido especialmente intenso para nós, educadores e pesquisadores da FACED-UFJF. Desta vez fomos, mais do que nunca, confrontados a uma série de questões sobre as implicações pedagógicas, sociais e políticas, deste tipo de formação. A participação no grande sistema nacional da UAB, que nos coloca em diálogo frequente com diferentes concepções de educação a distância, de formação de professores, de modos de fazer e pensar a educação em meio às tecnologias interativas da comunicação, tem sido, para nós, fonte permanente de indagações e debates. Os desafios práticos colocados no dia a dia por nossos professores, tutores (ou professores tutores) e alunos, têm suscitado discussões recorrentes sobre as “melhores maneiras” de desenvolver o curso e de realizar o nosso trabalho, considerando o nosso contexto, o novo e as experiências anteriores. Esta dinâmica, promotora de diálogo com outras instituições e trocas entre educadores e pesquisadores, se iluminam parte do caminho, contemplam outras configurações de cursos e de compreensão da docência e da discência. Como consequência, o fazer, para nós, passou a ter como contrapartida o pensar, o refletir, o fundamentar e, especialmente, o abrir-se aos sentidos e significados que as linguagens e ambientes digitais apresentam para a Educação de hoje. Se estamos habitando outros espaços, produzindo cultura (imergindo na cibercultura), se formar professores por meio de tecnologias da informação e comunicação (TICs) passa a fazer parte de nosso trabalho docente e de pesquisa, é necessário pensar e agir sobre esse novo contexto e suas implicações para a Educação. O percurso acadêmico é ampliado e ressignificado, para além da docência e da pesquisa. Estamos comprometidos com a produção, e não simplesmente com o consumo de conhecimento no interior de nossa universidade, que também tem suas “fronteiras” e limites ressignificados e redimensionados. Este é o sentido do livro Tem professor na rede: uma rede social de produção e construção de conhecimentos, uma rede de libertação, de interação e integração, uma rede de aprendizagem, de significados e sentidos (com)partilhados, uma rede inclusiva e crítica! O professor não foi “pescado” e aprisionado nesta rede, mas entende que pertence a ela e também a produz, a desenvolve. A metáfora da rede, na Educação on-line, remete também ao significado de se estar dentro ou fora da rede, na medida em que todos estamos de algum modo vivendo cotidianamente suas influências, seja por meio da cultura de massa ou por meio da cultura das mídias. O professor na rede é corresponsável pelas aprendizagens e pelos conhecimentos coletivamente produzidos nos ambientes on-line. 6 Tem Professor na rede.indd 6 30/05/2010 10:39:38 É um professor conectado, linkado, curioso, questionador! A rede aqui apresentada é híbrida e em construção. Não se pretende fechada, mas flexível, dinâmica. Não está posta, mas em devir, por vir. Este livro, portanto, apresenta algumas das reflexões derivadas de experiências de cursos a distância, para além dos “muros” da universidade. Seu título expressa o aspecto central que tem mobilizado o nosso fazer e o nosso pensar. – O papel do professor, neste cenário, apresenta-se na figura do coordenador, do professor de disciplina (formador ou especialista) ou do tutor (professor assistente ou auxiliar). Preocupação comum dos que fazem um curso a distância, o lugar do humano, constituído em relações pedagógicas e seus múltiplos desdobramentos, tem sido nosso foco. Para além da máquina, nosso objetivo é a aprendizagem de todos neste processo, desenvolvendo os diversos letramentos necessários que abarcam desde os aparatos tecnológicos e suas linguagens, até o aprofundamento teórico e prático, tecidos de modo a favorecer o nosso pensar e fazer educação de qualidade, com seu significado de promoção crítica, criativa e emancipadora. Por isso o lugar do professor no título. Para nós, organizadoras desta obra, quando trabalhamos com nossos alunos distantes (geograficamente), o importante é compreender que tem professor na rede... Desejamos que todos também façam parte dessa rede! Adriana Rocha Bruno Eliane Medeiros Borges Lea Stahlschmidt Pinto Silva 7 Tem Professor na rede.indd 7 30/05/2010 10:39:38 Tem Professor na rede.indd 8 30/05/2010 10:39:38 C Prefácio Lucila Pesce (UNIFESP) Contribuir com a pesquisa na área de formação online de educadores – a partir de experiências concretas – é a proposta do presente livro, que, desde o título, revela os múltiplos sentidos da rede: relacionados aos ambientes de rede propriamente ditos e às redes sociais que se constituem no contexto digital. O desejo de registrar tais experiências com um olhar analítico exorta a necessidade de adensar o diálogo acadêmico sobre a temática relativa à formação online. Dessa forma, a vivência na área se reflete nas considerações pontuadas nos capítulos que compõem a presente obra. Tal ação é de extrema importância e atualidade, no atual momento histórico de consolidação das ações de formação no contexto digital. Em outros termos, os autores desejam compartilhar inquietações oriundas de suas experiências, no âmbito da educação online, tendo em vista que, na contemporaneidade, urge chamar atenção para os múltiplos olhares sobre os processos de formação online, em especial para a formação de educadores e suas decorrentes tensões. Na contramão da fetichização da técnica, devemos ter em mente que o crescimento acelerado dos cursos online carrega consigo ambiguidades inerentes à ambivalência humana, como qualquer força apropriada pelo capital. Como possibilidade educacional emancipadora, a formação online de educadores pode ajudar na democratização do acesso à informação e no diálogo entre sujeitos sociais, que, embora distantes geograficamente, vivenciam circunstâncias históricas semelhantes e encontram na formação online a possibilidade de se atualizar e de pensar, junto a seus pares, propostas de ação respondentes aos desafios que se lhes apresentam no cotidiano profissional. Como possibilidade de cristalização, a formação online age ao encontro de uma racionalidade instrumental – no entendimento habermasiano – que se coaduna com os princípios neoliberais. Embora seja possível encontrar desenhos didáticos sérios e comprometidos com a qualidade educacional, o crescimento exponencial de cursos online tem trazido muitos desenhos didáticos erguidos em meio à racionalidade comprometida com as demandas mercantis. Desenhos didáticos que Tem Professor na rede.indd 9 30/05/2010 10:39:38 comportam processos aligeirados de formação, precarização do trabalho docente, cisão entre conceptores e tutores, supressão do legítimo ethos acadêmico no currículo dos educadores formados no contexto digital, dentre outros fatores contrários à assunção da educação online como elemento contribuinte à consolidação da educação que pretendemos: conceitualmente consistente e voltada para a emancipação humana. Incomoda-nos saber que a chamada Educação a Distância (EAD), de modo geral, tem assumido um caráter messiânico para com a problemática da formação docente. Caráter este relevado em diversos documentos oficiais que ensejam as políticas públicas de consolidação da EAD no país, conforme anunciado por pesquisadores como Raquel Barreto, João dos Reis da Silva Júnior, Luís Dourado e Antonio Zuin, dentre outros. O atual cenário socioeconômico mundial tem exigido novos saberes da educação e dos educadores. Nesse contexto, as reformas educacionais brasileiras compõem um macrocenário de reformas educacionais dos países sul-americanos respondentes aos anseios das agências multilaterais, conforme anunciado por Vera Candau. Dessas demandas emanam documentos legais que amparam diretrizes didático-metodológicas preocupadas com a equação custo/benefício e ancoradas na chamada pedagogia das competências, que revela uma racionalidade instrumental comprometida com a regulação do mercado, como nos ensina Lúcia Maria Wanderley. Diante desse cenário, assinalamos a importância das reflexões sobre a experiência de formação online serem feitas a partir da premissa de que a utilização dos ambientes virtuais de aprendizagem está para muito além da questão meramente técnica. Ao contrário, o desafio que se impõe – mormente diante da hegemonia de programas de formação docente que vestem uma nova roupagem, sem, contudo, assumir um caráter verdadeiramente emancipador – é pensar em programas de formação online de educadores pautados em concepções educacionais balizadoras de densos processos de formação, amparados nos fundamentos ontológicos e gnosiológicos, de modo a transcender a tônica didático-metodológica, percebida em seu sentido mais restrito. Dito de outro modo, o desafio que se impõe é pensar em programas de formação online de educadores que concebam o educador em formação como leitor crítico de si e de suas circunstâncias e, portanto, como realizador da sua história. Em refuta à racionalidade instrumental, representante de um ideário neoconservador, os autores do presente livro nos brindam com reflexões teórico-metodológicas sobre formação de educadores no contexto digital, à busca de caminhos profícuos para os processos de formação desenvolvidos nessa modalidade educacional. Temas concernentes à educação online – como comunidades colaborativas online, tutoria online, impacto dos programas de formação online sobre a formação profissional em serviço, políticas públicas de formação, práticas responsivas, o lugar da escrita dos 10 Tem Professor na rede.indd 10 30/05/2010 10:39:39 educadores em formação no contexto digital – são analisados na presente obra, tendo também como pano de fundo programas de formação online de educadores desenvolvidos no estado de Minas Gerais, dentre eles: a) Projeto Veredas; b) Cursos de Pedagogia da Faculdade de Educação (FACED) e vincula,dos à Universidade Aberta do Brasil (UAB), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Beatriz de Basto Teixeira traz ricas contribuições ao diálogo sobre política social e formação de professores no contexto da educação a distância, a partir da experiência do Curso de Pedagogia da UAB da Universidade Federal de Juiz de Fora. Ao fazê-lo, a autora destaca a importância política de ações de formação online similares à relatada no capítulo de sua autoria, pelo impacto sobre a qualidade da educação e pela oportunidade oferecida aos educadores que, até então, se viam alijados dos processos de formação profissional. Tendo como foco de análise o lugar da escrita dos professores nos processos de formação online, Ilka Schapper Santos, Maria Teresa de Assunção Freitas e Núbia Schaper Santos refletem sobre o sentimento de impotência de muitos formadores online, em face de um formando cuja alteridade se evidencia em uma presença sem rosto. Nesse movimento reflexivo, as autoras desvelam que o sentimento de impotência se apresenta, paradoxalmente, também como mobilizador da busca pela melhoria nos processos de formação online. Adriana Rocha Bruno e Ana Maria Di Grado Hessel versam sobre os desdobramentos da formação de comunidades colaborativas online, no cotidiano das escolas e dos educadores. Destacando a interface “fórum de discussão”, as autoras esclarecem as contribuições deste dispositivo midiático à formação dos gestores escolares e à consolidação de espaços mediados de aprendizagem coletiva. Eliane Medeiros Borges reflete sobre o valor da mediação para a construção colaborativa de conhecimento, no âmbito da formação online de professores da Educação Básica. E o faz acenando a potencialidade das metodologias que utilizam as interfaces midiáticas, para o recrudescimento de práticas pedagógicas interativas, em contraposição à representação social de que a educação a distância ergue-se em meio a práticas solitárias de estudo. Marcio Lemgruber e Adriana Rocha Bruno tecem considerações sobre a problemática concernente ao papel da tutoria na educação online, a partir da experiência no Curso de Pedagogia ofertado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, no contexto da Universidade Aberta do Brasil. Em defesa da valorização do formador, o texto situa o tutor como um mediador da aprendizagem. Hilda Aparecida Linhares da Silva Micarello e Maria Tereza Scotton discutem os espaços compartilhados de ensinar e aprender, com o intuito de refletir sobre os desafios e as possibilidades que se impõem aos processos de formação online de educadores. Ao 11 Tem Professor na rede.indd 11 30/05/2010 10:39:39 contextualizar a proposta de formação de professores da Educação Básica no Sistema UAB, as autoras propõem novas formas de interação e mediação no contexto digital e analisam os desdobramentos dessas novas práticas na experiência de formadores e formandos. Jane Souza e Marlos Bessa resgatam a história do curso Pedagogia a distância para as séries iniciais promovido pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Na narrativa, os autores delineiam o funcionamento da aludida licenciatura, destacando os convênios estabelecidos com prefeituras da região que entorna a supracitada universidade, em época anterior à criação do Sistema UAB. A experiência pioneira do Projeto Veredas – curso que habilitou, em nível superior, professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental do estado de Minas Gerais, na modalidade de ensino a distância – é relatada com maestria por Maria da Assunção Calderano e Lecir Jacinto Barbacovi. O movimento analítico desvela os impactos do aludido programa nos processos de formação profissional em serviço desses profissionais da educação. À guisa de tecer uma narrativa erguida em meio a provocações para uma prática responsiva, Bruna Sola Ramos discute os fundamentos de uma nova lógica comunicativa, no contexto digital, amparada na teoria enunciativa da linguagem de Bakhtin. Nesse movimento, a autora releva a idéia de responsividade, no dizer bakhtiniano, como possibilidade para se pensar um trabalho educativo constituído dialogicamente. Atentos às visões ambivalentes sobre a educação online, os autores do presente livro propõem-se a aprofundar os estudos na área, auferindo à sua experiência o status de corpus de análise dos processos de formação online de educadores. Nessa perspectiva, os capítulos do livro revelam um colorido de distintos matizes sobre a multidimensionalidade da educação online. Em um movimento dialógico, os capítulos nos convidam a adentrar e/ou a aprofundar as reflexões sobre os processos de formação online de educadores: um campo que, em função dos paradoxos inerentes ao seu crescimento acelerado, demanda minucioso estudo por parte de educadores e pesquisadores da área, se o objetivo é que a cibercultura de fato contribua com a educação, ao invés de se consubstanciar como mais um aparato perversamente apropriado pelo capitalismo tardio. Conforme relatado no início destas breves linhas, aí reside a profícua contribuição da presente obra: tendo como ponto de ancoragem experiências concretas no campo da formação online, refutar os descaminhos da educação a distância, desenvolvendo minucioso estudo sobre a ampla gama de aspectos atinentes à formação de educadores no contexto digital, com vistas a imprimir às ações de formação online o status de vetor significativamente contribuinte à melhoria da qualidade educacional. 12 Tem Professor na rede.indd 12 30/05/2010 10:39:39 Educação a distância: política social e formação de professores A Beatriz de Basto Teixeira Introdução A educação a distância (EAD) se apresenta para muitos de nós, educadores, como uma modalidade de ensino ainda desafiadora. A novidade de uma relação de aprendizagem que acontece sem que professor e aluno vivam uma relação face a face desafia as crenças, algumas consolidadas, de que o processo de socialização, ou pelo menos parte dele que acontece na escola, depende de vínculos de tipo mais comunitário. A noção de relação comunitária vem da Sociologia1 e pressupõe uma proximidade física, compartilhamento de território. Mas as tecnologias disponíveis neste início de século XXI criam possibilidades de compartilhamento online que seriam inimagináveis há bem pouco tempo. Alunos distantes do professor falam com ele, são vistos por ele, dialogam em tempo real, leem o que o professor escreve no quadro branco (um pod que simula uma lousa), percebem o que o professor lança na lousa enquanto o processo de escrita se desenrola. Arquivos de texto, slides e fotos podem ser apresentados nas telas de computador. Foram a desconfiança e a maravilha que me aproximaram de uma experiência em EAD. Ainda é desse ponto de vista que escrevo este artigo. Participo da coordenação do Curso de Pedagogia a distância da Faculdade 1 Comunidade é um tipo de relação orgânica, inicialmente baseada em vínculos de parentesco ou de compartilhamento de território (TÖNNIES, 1973). Não significa relação homogênea, mas pressupõe acordo sobre valores, projetos em comum. Mais recentemente, a noção aparece na formulação de Giddens (1991), associada a “experiência partilhada”, podendo referir-se a pessoas fisicamente distantes que, no entanto, reúnem-se em torno de projetos comuns. Ideia semelhante está contida nas “comunidades de aprendizagem” das escolas democráticas de Apple e Beane (1997), formadas por membros de uma comunidade escolar que partilham o desejo de construir um projeto educativo para a democracia. Tem Professor na rede.indd 13 30/05/2010 10:39:39 de Educação (FACED) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) desde outubro de 2007. Esse curso faz parte do programa Universidade Aberta do Brasil (UAB) do Ministério da Educação (MEC). Essa participação foi aceita como um desafio. Era preciso conhecer para melhor formar um juízo sobre a modalidade de ensino envolvida nessa experiência. Responsável pelo monitoramento do curso, tenho acesso a um conjunto de dados que trata dos alunos, dos tutores presenciais e a distância, de suas condições socioeconômicas, suas trajetórias escolares, suas opiniões sobre o curso e suas habilidades ou dificuldades para lidar com informática. Além disso, é possível percorrer as salas de aula na plataforma moodle (ambiente virtual de aprendizagem) e acompanhar o desenvolvimento das disciplinas, numa tentativa de avaliar o desenrolar de todo o processo. Mas isso ainda parece pouco nesse esforço de entender o que se passa em EAD. A possibilidade de ver o que acontece por outro ângulo se deu quando ministrei a disciplina Sociologia da Educação para os alunos da primeira turma do curso, entre março e maio de 2008. Deslocada da sala de aula – uso a palavra deslocada em alusão ao sentido que Anthony Giddens (1991) lhe atribui, quando descreve o que a modernidade faz com as categorias de tempo e espaço –, perdi também eu as coordenadas que sempre orientaram minha atividade docente: não tinha mais os alunos sentados diante de mim, numa sala edificada em algum lugar da universidade em que leciono; as aulas poderiam durar mais que duas ou quatro horas – poderiam chegar a 24 horas. A qualquer hora do dia ou da noite algum aluno poderia ser visto na plataforma. Foram, portanto, os dados da pesquisa de monitoramento e a experiência de docência a distância que me fizeram refletir sobre a EAD vista como motor da formação de professores e de uma política social. Se a UAB foi um programa criado para intensificar a formação de professores para a educação básica usando da modalidade a distância, talvez esteja se extrapolando positivamente quando leva a seus alunos uma oportunidade de realização de direitos que não seriam satisfeitos de outra maneira. Este é o argumento principal deste artigo. A noção de política social é usada como sinônimo de política pública e se refere à ação do governo (ou a falta dela, em alguns casos), em interação com atores que operam de alguma maneira na esfera pública, em diferentes níveis de governo; percorre diferentes etapas, desde a sua formulação até os efeitos que produz, atingindo, inclusive, a demanda e a produção de novas políticas; faz parte e é afetada pela política, em sentido mais amplo (CONDÉ, 2006). Dou início ao meu argumento trazendo um pouco da história da EAD no Brasil, especialmente destacando o que significou a promulgação de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) em 1996 (BRASIL, 1996) para essa modalidade de ensino. Prossigo com algumas considerações sobre o programa UAB e um breve relato da 14 Tem Professor na rede.indd 14 30/05/2010 10:39:39 experiência do Curso de Pedagogia a distância da UFJF. Na sequência, são apresentados e comentados alguns dados resultantes da pesquisa de monitoramento do Curso que servem, na minha interpretação, para mostrar o que, de política social, é realizado por via dessa experiência educativa. Por fim, é reforçada a ideia de que se realiza política social por meio de um programa desse tipo, comparando-se o perfil de seu público ao de outras políticas implementadas pelo Governo Federal. EAD no Brasil a partir da LDB Uma brevíssima história da EAD pode retroceder ao século XIX, quando teriam sido registradas as primeiras experiências em que essa modalidade de ensino foi utilizada. De acordo com Agnela Giusta (2003, p. 28), os cursos eram ancorados “em material auto-instrucional e constituíam-se em cursos por correspondência, academicamente desprestigiados”, voltados à formação profissional e preparação para os ofícios, o que não encontrava lugar nos sistemas formais de ensino. A distância física realmente significava completo apartamento entre professor e aluno. Desde então muita coisa mudou. Depois da experiência por correspondência, uma segunda geração de EAD usou a televisão. A terceira geração utiliza a Internet, que chegou até mesmo às residências a partir de 1994. Os avanços tecnológicos verificados ao longo do século XX mudaram a opinião de muitos educadores com relação ao uso das tecnologias como recurso pedagógico. Não apenas como meio de EAD, mas também como recurso no ensino presencial, tecnologias passaram a ser usadas como algo que poderia democratizar, dinamizar e tornar mais interessante o processo educativo. Essa mudança pode ter colaborado para a mudança de perspectiva em relação à EAD verificada na LDB de 1996. Na década de 1970 e início da década de 1980, as tecnologias eram apenas aparatos entendidos como recursos supostamente neutros a serem utilizados nas práticas didático-pedagógicas de sala de aula ou na organização do processo de trabalho pedagógico na escola. A partir da segunda metade da década de 1980 até a primeira metade da década de 1990, no período que antecedeu a aprovação da LDB, reduziramse as críticas à utilização das TICs[2] na educação e também à posição de que elas fossem recursos neutros nas práticas escolares. Ou seja, foi a partir dos anos 1990 que as TICs começaram a ser pensadas no âmbito das práticas educativas, da maneira como são vistas hoje (OLIVEIRA, 2001, p. 102 apud VIEIRA3, 2007, p. 25). 2 TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação). 3 Dissertação de Mestrado defendida no PPGE/UFJF, orientada por Beatriz de Basto Teixeira (VIEIRA, 2007). 15 Tem Professor na rede.indd 15 30/05/2010 10:39:39 A promulgação da LDB (BRASIL, 1996) cria novas possibilidades de emprego da EAD. Sua indicação como recurso para a formação de professores da educação básica é, ao mesmo tempo, disposição de que viesse a ser usada no ensino superior, conhecidas as novas exigências de qualificação para o exercício do magistério nas séries iniciais do ensino fundamental (graduação em nível superior). Depois da LDB, o Plano Nacional de Educação (PNE) reafirma a proposição de que a EAD seja utilizada como recurso efetivo para a formação de professores da educação básica. Sugere a cooperação entre Ministérios da Educação, da Cultura, do Trabalho, da Ciência e Tecnologia e das Comunicações para esse fim, com o objetivo de garantir condições tecnológicas para o desenvolvimento da EAD. As universidades seriam incentivadas a formar a mão-de-obra especializada necessária ao projeto (BRASIL, 2001). Já em 2002, o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Graduação das Universidades Brasileiras (FORGRAD) elaborou documento que propõe as diretrizes para o desenvolvimento da EAD nos cursos de graduação. O documento foi intitulado Educação a Distância (EAD) na Graduação: As políticas e as práticas (FORGRAD, 2002). A existência de um documento dessa natureza já indicava a disposição, de parte das instituições de ensino, de assumir essa modalidade em seus cursos. Não se deve desconsiderar, no entanto, o fato de que o crescimento da EAD, especialmente como recurso para a formação de professores, fosse visto com suspeição por educadores dedicados à pesquisa desse tema (FREITAS, 2002; BARRETO; GUIMARÃES; LEHER; MAGALHÃES, 2006), temendo que isso significasse formação apressada, barateada e empobrecida. Ainda sobre o documento do FORGRAD, Maria Cândida Moraes (2008) avalia de forma positiva seu conteúdo. Chama a atenção para as recomendações de que a EAD não deverá ser trabalhada de maneira dissociada de uma compreensão mais ampla de Educação, (...) a possibilidade de que a EAD possa vir a contribuir para maior dinamização dos projetos educacionais das Instituições de Ensino Superior (IES), bem como para a introdução de inovações pedagógicas e metodológicas que, aos poucos, possam ir sendo incorporadas pelas IES. O referido documento destaca, também, o necessário rigor na adoção desta modalidade de educação, no sentido de se evitar o modismo e a mercantilização do ensino superior no país (p. 20). Existiam as disposições da LDB, do PNE; as universidades brasileiras haviam se manifestado por meio do FORGRAD sobre a EAD. Em 2005, o Governo Federal, por meio do MEC, decide agir de forma mais incisiva na implementação de um programa de EAD para a formação de professores. 16 Tem Professor na rede.indd 16 30/05/2010 10:39:39 Nesse empenho, as instituições de ensino superior e as secretarias estaduais e municipais de educação foram chamadas à “articulação e integração experimental de um sistema nacional de educação superior, formado por instituições públicas, que levarão ensino superior público de qualidade aos Municípios brasileiros que não têm oferta ou cujos cursos ofertados não são suficientes para atender a todos os cidadãos” (disponível em http://www.uab.mec.gov.br/infogerais.php). A participação no programa se daria por inscrição. As IESs que se quisessem oferecer cursos e os municípios que desejassem recebê-los na modalidade a distância deveriam apresentar suas propostas. As Universidades atenderim aos municípios cadastrados no programa. As IESs ofertariam seus cursos, informando disponibilidade de docentes, número de vagas a serem ofertadas e proposta pedagógica. Os municípios formularim suas demandas, se comprometendo a instalar polos de apoio presencial. Por seu turno, o MEC garantiria a infraestrutura necessária ao desenvolvimento da modalidade. Esse é o sistema UAB. Atualmente, a UAB é a ação de maior envergadura implementada pelo Governo Federal para a formação de professores para a educação básica. Com o lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), em 2007, a UAB se definiu como a ação destinada por excelência à formação de professores, dentre as 41 que compõem o Plano. Dois editais do programa UAB já foram lançados. Nesse esforço, a UFJF colaborou, dentre outras áreas de formação, com a oferta de cursos superiores de Pedagogia que tiveram turmas iniciadas em 2007 e 2009. O Curso de Pedagogia a distância da UAB/UFJF A Faculdade de Educação da UFJF conta com significativa experiência em ministrar cursos na modalidade a distância. Participou do Projeto Veredas, na primeira turma desse projeto da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais (SEE-MG), no período de 2002 a 2005 (MINAS GERAIS/SEE, 2002a; 2002b). Atua ainda na segunda turma do Veredas; teve participação no PROGESTÃO, no curso do Consórcio Cederj/Faculdade de Educação. A participação no programa UAB trouxe uma série de desafios ao trabalho dos docentes da UFJF participantes. Na primeira turma do curso de Pedagogia da UAB foram ofertadas 350 vagas, distribuídas nos polos de Bicas, Boa Esperança, Coromandel, Ilicínea, Salinas, Santa Rita de Caldas e Pescador, cidades espalhadas pelas diversas regiões de Minas Gerais. Para a segunda turma da UAB foram destinadas mais 400 vagas, nos polos de Bicas, Boa Esperança, Coromandel, Ilicínea, Salinas, Santa Rita de Caldas (com a segunda turma) e nos novos polos de Durandé, Ipanema e Tiradentes. Em cada polo, há um coordenador e um tutor presencial para cada 25 alunos. Isso totaliza 17 Tem Professor na rede.indd 17 30/05/2010 10:39:39 nove coordenadores de polo e 28 tutores presenciais, que auxiliam o aprendizado de informática e prestam esclarecimentos sobre procedimentos do curso, mas não tratam dos conteúdos das disciplinas. Cada disciplina tem seu professor e um tutor a distância para cada polo. Chegamos a ter doze professores e 84 tutores a distância, considerando as duas turmas (UAB I e II). Além desse pessoal, há uma coordenação colegiada, formada por sete professores da UFJF, pesquisadores que se dedicam a cuidar do funcionamento do curso e a investigar a temática da EAD (TEIXEIRA; BORGES, 2008). O curso de Pedagogia está fortemente ancorado no uso de tecnologia. Não há utilização de apostila, e a plataforma Moodle é intensivamente frequentada. Todo o curso está nela construído, com acesso a materiais de domínio público (textos, vídeos, artigos de periódicos) que compõem as fontes de estudo e debate para os alunos. Tentase usar aquilo que Arnold (2003) trata como vantagens oferecidas pelas tecnologias da informação e comunicação (TICs): a construção colaborativa de conhecimento pela interação entre os estudantes; as possibilidades abertas à tutoria para o atendimento aos alunos com rapidez; e a Internet como fonte de pesquisa e de atualização de informações (p. 189-190). Tutores a distância têm papel destacado nessa modalidade de ensino, especialmente no formato de curso adotado na UFJF. Tem se investido numa interação intensiva entre os alunos, os tutores e professores. O curso de Pedagogia tem procurado inovar no que diz respeito ao papel do tutor em EAD. Vieira (2007, cap. 4) faz um balanço da produção mais recente sobre EAD e do papel do tutor nessa modalidade de ensino. Especialmente dedicados a discutir a função do tutor em EAD estão Malvestiti (2004), Matias e Paschoalino (2006), Moreto (2006), Pretti (2000) e Salgado (2006); outros autores, mesmo que se dediquem a tratar de forma mais geral os desafios postos para a EAD atualmente, não perdem de vista o debate, ainda em curso, sobre a tutoria. Este é o caso de Arnold (2003), Belloni (2003) e Litwin (1997). Mais ou menos central no “desenho” que assume um curso em EAD, o tutor é elemento novo, num certo sentido – porque inexistente na modalidade presencial, numa concepção mais tradicional de ensino –, que não pode ser desconsiderado num processo de ensino-aprendizagem que funciona como uma rede que liga professores, tutores presenciais e a distância, alunos e tecnologias. Ao reconhecer a função docente no ensino a distância como uma função coletiva, Belloni reúne as diferentes funções dos professores na EaD em três grupos. O primeiro “é responsável pela concepção e realização dos cursos e materiais”. O segundo é aquele que garante o planejamento, a organização e a distribuição do material, bem como a administração 18 Tem Professor na rede.indd 18 30/05/2010 10:39:39 acadêmica do curso. E, finalmente, o terceiro grupo “responsabiliza-se pelo acompanhamento do estudante durante o processo de aprendizagem” (BELLONI, 2003, p. 81-84 apud VIEIRA, 2007, p. 53). Arnold (2003), Malvestiti (2004) e Matias e Paschoalino (2006) reconhecem um traço comum na atividade de tutoria em EAD: o tutor não produz o material do curso, não é o responsável pelo planejamento do curso, mas é quem estabelece o contato direto com o aluno, acompanha suas atividades, presta-lhe assistência e realiza a mediação pedagógica. No entanto, no Curso de Pedagogia há um forte aspecto de inovação com relação ao papel do tutor “a distância”. Ele permanece em Juiz de Fora e vai aos polos apenas para a realização de oficinas e aplicação de provas presenciais. No entanto, se engaja no que se convencionou chamar produção coletiva das disciplinas: estão junto com os professores na seleção de materiais didáticos e dão às diversas salas (espaços de cada disciplina em cada um dos polos) a sua própria marca, o que permite estabelecer novas bases para essas relações comunitárias. Apesar da distância física que existe entre alunos, tutores e professores, a organicidade pelo compartilhamento de um projeto educativo é, em termos, restabelecida pelos recursos tecnológicos intensivamente empregados, postos entre quem está nos polos e na UFJF, e entre tutores e professores, graças a reuniões semanais de planejamento e acompanhamento. Essa inovação precisa ser acompanhada de perto. O sucesso do Curso depende de uma orquestração que deve estar atenta a recursos pedagógicos disponíveis na plataforma; tutores com papel mais decisivo e, portanto, em constante processo de formação continuada, via plataforma e presencial; interação constante entre todos os participantes do curso; busca de uma proporção mais adequada entre o número de tutores e de alunos atendidos em cada disciplina. Estamos diante da implementação de uma política pública de formação de professores. Isso requer adequado monitoramento e avaliação e capacidade de negociação entre as várias instituições envolvidas. Eis a motivação de uma pesquisa que acompanhe todo o desenrolar do Curso, buscando conhecer melhor seu público, os atores nele envolvidos e suas opiniões sobre o que é feito. O Curso de Pedagogia em dados A decisão pela realização de uma pesquisa de monitoramento do Curso de Pedagogia serviu, além do acompanhamento de seu desenrolar, para coletar dados que pudessem subsidiar alguma reflexão sobre a modalidade de EAD. Desejamos conhecer melhor o público do curso, suas condições de vida, trajetória escolar, expectativas. O processamento dos dados tem trazido algumas revelações muito importantes para se avaliar o que significa oferecer um curso de EAD com o mesmo perfil oferecido por nós. 19 Tem Professor na rede.indd 19 30/05/2010 10:39:39 A pesquisa se realiza como um survey (BABBIE, 1998; 2001) que teve início em dezembro de 2007, com a conclusão do primeiro módulo para a turma da UAB I (como se convencionou chamar a primeira turma de Pedagogia a distância, no primeiro edital da UAB). Questionários são aplicados aos tutores a distância e presenciais e aos alunos, ao final de cada módulo. O questionário dirigido aos tutores tem questões relativas ao nível socioeconômico; nível de escolaridade; tipo de formação; trajetória escolar; experiência como tutores dentro ou fora de programas a distância, avaliando sua qualificação; disponibilidade de tempo para o trabalho; existência de outros empregos e suas jornadas de trabalho; conhecimento de informática; acesso à Internet; domínio de recursos de informática e seus equipamentos; recursos didáticos utilizados; local e frequência com que a plataforma Moodle é acessada; grau de interação dos tutores com os alunos, com seus colegas e com os professores; suas próprias avaliações e pontos de vista com relação ao curso. O questionário dirigido aos alunos contém as mesmas questões elaboradas para os tutores, naturalmente adaptadas ao seu caso, acrescidas daquelas que permitem captar a avaliação do curso e o desempenho de tutores e professores. O instrumento é autoaplicado, respondido na mesma ocasião das provas presenciais nos polos, em formulário impresso. Espera-se que, com a aplicação da pesquisa em semestres consecutivos, um estudo longitudinal permita a observação “do movimento dos dados” referentes às características e condições de vida e educacionais dos alunos. Questões idênticas, feitas aos dois universos pesquisados, permitirão o trabalho com respostas cruzadas. Tal cruzamento revelará a percepção do trabalho da tutoria por tutores e alunos, atores diretamente envolvidos na relação de ensino-aprendizagem. Foram aplicados os questionários referentes a quatro módulos da turma da UAB I. A pesquisa da turma da UAB II terá início em junho de 2009, quando da realização das suas primeiras provas presenciais. O monitoramento do curso é completado pela Coordenação, que tem acesso aos relatórios do trabalho desenvolvido na plataforma Moodle. Os dados processados dos questionários respondidos pelos alunos na primeira fase da pesquisa permitiram algumas reflexões que podem ser sintetizadas pelo título deste artigo. O programa UAB, criado para intensificar a formação de professores da educação básica, tem forte característica de política social, se considerados o público que atende, suas condições de vida, sua trajetória escolar e seu histórico familiar. É do que vamos tratar, analisando algumas respostas dadas a questões formuladas na pesquisa. Antes do mais, o programa UAB opera por meio das universidades públicas. Assim, há uma preocupação de realizar a formação de professores com a qualidade que essas instituições historicamente construíram em suas experiências de ensino, pesquisa e extensão. As inovações pedagógicas levadas a cabo no Curso de Pedagogia a distância da UFJF buscam intensificar a realização desse padrão de qualidade. Materiais didáticos idênticos àqueles utilizados nos cursos presenciais; inexistência de uma apostila para 20 Tem Professor na rede.indd 20 30/05/2010 10:39:39 as disciplinas, o que poderia sugerir algum tipo de autoinstrução; forte interação entre tutores, professores e alunos, o que procura reconstituir, a distância, padrões de relacionamento existentes na educação presencial. Além da formação de professores4, do domínio dos conteúdos que deverá ministrar quando do exercício da docência e da compreensão da forte dimensão pública que deve estar presente no trabalho docente, persegue-se a ampliação de horizontes culturais. O alargamento de possibilidades daí resultante se dá graças ao contato com a produção acadêmica desenvolvida nas universidades e à inclusão digital. Esta última, num primeiro momento, abre as portas do mundo de forma virtual para, posteriormente, surgir como uma inquietação motivadora da busca de mais informação e mais conhecimento, espalhados pelo mundo real. Isto é política social. Isto é busca de realização de direitos: direito à educação, ao conhecimento (necessidade propriamente humana, como escreveu Agnes Heller (1978), a partir do pensamento de Marx) e de ascensão social, por uma inserção mais qualificada no mercado de trabalho e consecução de melhores condições de vida. Assim, tomamos os dados obtidos na primeira fase de aplicação dos questionários (dezembro de 2007) para conhecer os alunos do Curso de Pedagogia a distância do programa UAB na UFJF. Os resultados são mostrados colocando lado a lado os polos atendidos na UAB I, para uma melhor visualização de padrões que se podem repetir entre as várias localidades. Sua caracterização mostra que é público preferencial de política pública. Começamos pela faixa etária: Tabela 1 – Idades dos alunos5. 18 - 24 17,0% 4,0 % 8,4% 18,2 % 20,9 % 4,1% Santa Rita 26,3% 25 - 31 31,7% 30,5% 29,2% 49,9 % 13,8 % 24,5% 26,4% Idades Bicas Boa Esperança Coromandel Ilicínia Pescador Salinas 32 - 38 19,4% 28,5% 29,3% 18,2 % 20,9 % 40,8% 28,9% 39 – 45 12,2% 18,3% 21,0% 9,2 % 25,7 % 14,2% 10,4% 45 - 51 12,1% 12,2% 10,5% 4,6 % 11,6 % 8,1% 5,2% 52 - 60 4,8% 6,0% 2,1% 0,0 % 2,3 % 2,0% 2,6% Não Respondeu 2,4 % 0,0 % 0,0% 0,0 % 4,7 % 6,1% 0,0 % Total 100% 100% 100% 100% 100% 100% 100% Fonte: Coordenação Pedagogia UAB/UFJF, 2009. 4 Sempre trabalhada com a preocupação de garantir acesso a conteúdos de fundamentos da educação – recurso para que o futuro professor possa situar seu contexto de trabalho em uma realidade social mais ampla. 5 Foram destacadas nesta tabela e nas de números 3, 4 e 5 as maiores frequências apuradas. 21 Tem Professor na rede.indd 21 30/05/2010 10:39:39 A predominância de alunos com faixa etária entre 25 e 45 anos indica aspecto relevante para a linha de argumentação defendida neste artigo. São pessoas que não tiveram oportunidade de ter ensino superior naquela que seria considerada idade própria para isso (18 a 24 anos). Ou seja, tendo concluído o ensino médio, não tiveram acesso a um curso superior. O programa UAB permite a realização desse direito para seus alunos agora. E mais: são pessoas que, em todos os polos, têm mais de 11 anos de escolarização em escola pública, chegando a dezoito anos em Pescador e vinte anos em Salinas. A escolarização pública superior a quatorze anos ainda sugere um provável histórico de reprovação e/ou evasão escolar. A maior frequência de um público feminino reforça aquela que tem sido uma característica tradicional do professorado de ensino fundamental, especialmente nas séries iniciais. Tabela 2 – Sexo. Feminino 39 Boa Esperança 46 48 44 43 47 34 Masculino 2 3 0 0 0 2 4 Total 41 49 48 44 43 49 38 Bicas Coromandel Ilicínia Pescador Salinas Santa Rita Fonte: Coordenação Pedagogia UAB/UFJF, 2009. Os dados a seguir indicam, reunidos, que o programa atinge de forma significativa pessoas que já atuam na área de educação. Foram destacadas as maiores frequências observadas em cada um dos polos. Ao lado da indicação de que o vínculo é com um trabalho na área de educação (Tabela 3), a jornada varia dentro da faixa (Tabela 4) que significaria um ou dois vínculos com empregos nessa área. Tabela 3 – Vínculo empregatício (%). Horas semanais trabalhadas Bicas Boa Esperança Coromandel Ilicínia Pescador Salinas Santa Rita Tenho emprego na área de educação 48,8 59,2 50,0 38,6 34,9 46,9 42,1 29,2 8,2 20,8 29,5 20,9 14,3 39,5 12,2 2,0 12,5 6,8 23,3 24,5 2,6 Não respondeu 4,9 14,3 4,2 2,3 16,3 6,1 2,6 Não se aplica 4,9 16,3 100,0 22,7 4,7 8,2 13,2 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Tenho emprego, mas não é na área de educação Não tenho atividade remunerada Total Fonte: Coordenação Pedagogia UAB/UFJF, 2009. 22 Tem Professor na rede.indd 22 30/05/2010 10:39:39 Tabela 4 – Jornada de trabalho – Horas semanais (%). Bicas Boa Esperança Coromandel Ilicínia Pescador Salinas Santa Rita 0 - 10 9,7 8,1 4,3 4,7 4,6 4,0 0,0 11 – 19 4,8 2,0 0,0 4,7 0,0 2,0 2,6 20 7,3 14,3 8,3 6,8 11,6 8,2 21,0 21 – 29 4,8 18,4 20,9 9,2 14,0 14,2 0,0 30 4,9 14,3 12,5 11,4 4,7 12,2 18,4 31 - 39 2,4 2,3 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 40 22,0 14,3 12,5 18,2 4,7 26,5 21,1 41 - 49 12,2 2,0 12,6 6,8 4,7 8,1 0,0 Acima de 50 7,2 6,1 2,1 4,5 7,0 4,0 7,9 Não respondeu 14,7 14,3 12,5 15,9 27,9 6,1 13,2 Não se aplica 9,8 4,1 14,6 18,2 20,9 14,3 15,8 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte: Coordenação Pedagogia UAB/UFJF, 2009. Nessa linha de argumentação de que o programa UAB é política social, além de uma política especificamente voltada para a formação de professores, o dado sobre renda familiar de seus alunos ganhou enorme destaque. Se tomarmos, por exemplo, a atual política de financiamento habitacional levada a cabo pelo Ministério das Cidades, o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS), a faixa de proteção está limitada àquela parcela da população que tem renda familiar de até três salários mínimos. Considerando que uma família tem em média quatro pessoas, cada um de seus membros teria menos que um salário por mês para atender a todas as suas necessidades. Uma família nessa faixa de renda muito provavelmente poderia ser enquadrada entre aquelas que têm ônus excessivo com aluguel (gastos superiores a 30% do orçamento), o que representa uma das condições de caracterização de déficit habitacional (eis o motivo pelo qual essas famílias constituem público-alvo de políticas de habitação). Esse exemplo serve apenas como parâmetro do que se considera baixa renda em uma política social. Pois veremos que a situação econômico-financeira familiar dos alunos do Curso de Pedagogia a distância da UAB/UFJF não se afasta muito disso. 23 Tem Professor na rede.indd 23 30/05/2010 10:39:39 Tabela 5 – Renda familiar estimada (%). Em salários mínimos Bicas Boa Esperança Coromandel Ilicínia Pescador Salinas Santa Rita Até três 36,6 49,0 56,3 63,6 78,4 65,3 63,2 De 3 a 4 46,3 34,7 35,4 31,8 16,2 26,5 23,7 De 5 a 10 7,3 8,2 6,3 2,3 5,4 6,1 5,3 De 10 a 15 7,3 4,1 2,1 0,0 0,0 0,0 2,6 Mais de 15 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 Não Respondeu 2,4 4,1 0,0 0,0 0,0 2,0 5,3 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte: Coordenação Pedagogia UAB/UFJF, 2009. Vale a pena prosseguir mostrando a escolaridade máxima atingida pelos pais dos alunos da turma da UAB I. Caminhamos em direção a mostrar que a oferta desse curso pode significar uma ascensão de escolaridade importante, se considerar que é mudança observada de uma geração para a outra. Tabela 6 – Escolaridade máxima concluída pelos pais de alunos – níveis predominantes, conforme citação dos entrevistados. Polo Escolaridade da mãe Escolaridade do pai Bicas entre primário incompleto e completo primário incompleto Boa Esperança primário incompleto primário incompleto Coromandel primário incompleto 56% analfabetos Ilicínea primário incompleto primário incompleto Pescador entre primário incompleto e completo entre analfabetos e primário incompleto Salinas primário incompleto primário incompleto Santa Rita de Caldas entre primário incompleto e completo entre primário incompleto e completo Fonte: Coordenação Pedagogia UAB/UFJF, 2009. O argumento pode ser reforçado se avançarmos no processamento dos dados dos três módulos de curso em que o questionário foi respondido. Trabalhar com uma série de respostas oferece possibilidade de um estudo de tipo longitudinal que mostre a evolução de algumas características desse público. Tomemos o caso de Coromandel, em que 56% dos pais são analfabetos. Perguntados sobre a existência de computador em suas casas, os alunos ofereceram as frequências abaixo. 24 Tem Professor na rede.indd 24 30/05/2010 10:39:39 Tabela 7 – Possuem computador em casa – frequência - Coromandel. 1ª fase 2ª fase 3ª fase Sim 17 23 24 Não 16 10 8 Não respondeu 0 0 1 Total 33 33 33 Fonte: Coordenação Pedagogia UAB/UFJF, 2009. Pode ser um indício. É um dado inicial. Mas os alunos de Coromandel estão adquirindo computadores, conectando-se à Internet, vendo o mundo pelo computador, um mundo muito maior que Coromandel6. Além de inclusão digital, isso é inclusão em possibilidades de conhecimento, informação e esclarecimento. Considerações (nada) finais Os desafios apresentados pela EAD ainda são muitos. As tecnologias permitem a proximidade, onde antes só existia a distância. Ao mesmo tempo, os procedimentos mais tradicionais ou costumeiros usados na sala de aula são questionados: selecionar materiais, definir atividades, estabelecer novas formas de avaliação, buscar novos modos de apurar a frequência do aluno. Junto a isso, a universidade precisa estabelecer normas específicas em seu regimento para regular direitos e deveres de alunos, professores e tutores: atendimento especial, faltas, segunda chamada de provas, reprovação, recuperação. Tudo isso acontecendo a distância, em ambiente virtual de aprendizagem que não opera com os mesmos tempos de um curso presencial. A implementação dos cursos do programa UAB não está livre de conflitos. A execução do curso depende de um intenso processo de negociação entre órgão central gestor do programa e as universidades executoras dos cursos. A planilha financeira é negociada de tempos em tempos, e assegura (ou ameaça) as condições de realização do curso nos moldes propostos na UFJF (TEIXEIRA; BORGES, 2008). Mas, como toda política social, parte do seu desenho é dada pela interpretação que acontece em cada fase de seu ciclo, desde a formulação até os resultados. E aqui se dá a referência à ideia de que a política percorre um ciclo que influencia os seus resultados (MAINARDES, 2006). Professores são formados nessa nova ambiência. E parece um caminho sem volta. A UAB passa a atuar também em nível de pós-graduação, com cursos de especialização 6 Como uma menina de quatro anos que disse à mãe: “O mundo de [cidade onde mora] é muito pequeno, eu quero ver um mundo maior”. Ela verá o mundo muito maior. Tenho certeza disso. 25 Tem Professor na rede.indd 25 30/05/2010 10:39:40 para professores e gestores das redes estaduais e municipais de ensino. Faz isso em atendimento às demandas desses entes da Federação que elaboram seus Planos de Ações Articuladas (PARs), planejamento das ações a serem levadas a cabo por secretarias estaduais e municipais de educação para o cumprimento das metas do PDE. Entre essas demandas, figuram cursos de formação em diversas áreas ligadas ao trabalho educativo. Todo esse esforço está ancorado na modalidade da EAD. A Secretaria de Educação Básica (SEB) do MEC já desenvolve processos de formação em serviço de profissionais da educação. Essas iniciativas permitem a ampliação das estratégias e modalidades empregadas. Igualmente serão ampliadas para atender às demandas dos PARs de estados e municípios, com cursos de curta duração (entre 60 e 180 horas). Dada a extensão de nosso país, recursos de EAD deverão ser usados com o intuito de aproximar os profissionais, dispersos por suas cidades e estados, das universidades, centros formadores de professores e gestores da educação básica. Todo esse empenho se consubstancia em uma intensiva ação política de formação. Procura atender às necessidades de qualificação do pessoal da educação, o que tem sido considerado variável importante na avaliação dos resultados do investimento público realizado nesse setor, e colabora para que as metas de qualidade sejam atingidas. Profissionais mais qualificados e conscientes do papel público que desempenham participam do processo de responsabilização (accountability) pelo que é feito em termos de política educacional. Voltando ao exemplo de Coromandel, cidade atendida pelo curso de Pedagogia da UAB/UFJF: temos 48 mulheres, na sua maioria com idades entre 25 e 45 anos, metade delas empregadas na área da educação, com renda familiar concentrada na faixa de até três salários mínimos (56,3%), com mães que cursaram até o “primário incompleto” na maior parte dos casos e pais analfabetos (56%), realizando um curso superior. Elas agora discutem as causas do fracasso escolar, leem Bourdieu, compram computadores e os instalam em suas casas. Isso é política social. 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O crescimento significativo da Educação a Distância via online vem se consolidando no cenário da educação brasileira, promovendo acesso a boa parte da população, principalmente jovem e adulta, ao ensino superior. A educação mediada pela web, que utiliza tecnologias de informação e comunicação, tem se configurado como uma possibilidade de formação para muitos brasileiros e brasileiras que não usufruíram da oportunidade de escolarização por uma série de fatores bem conhecidos por nós, educadores. Analisar as políticas de formação de professores, considerando o uso da educação via web, parece ter incutido no campo da educação a necessidade de depurar e compreender as implicações deste fenômeno na vida social. Se o advento do determinismo tecnológico e a necessária articulação entre formação/informação/conhecimento configuram-se co mo ponto de discussão acadêmica, a metamorfose do próprio significado do educar revela-se. Não é explicitamente sobre análises macropolíticas Tem Professor na rede.indd 29 30/05/2010 10:39:40 que escrevemos, mas sobre encontros e acontecimentos de palavras, de sentidos e de significados construídos historicamente. Assim, este trabalho reflete sobre as possibilidades e impossibilidades do lugar da escrita de professores e professoras no ciberespaço, “onde as línguas se intercruzam incessantemente, com caráter acentuadamente babélico” (SARAIVA, 2008, p. 50). A proposta está ancorada em nossas experiências como professoras de cursos de formação continuada nessa modalidade de educação, oferecidos pela Universidade Federal de Juiz de Fora1. Por que narrar essa experiência? Talvez porque, ao fazê-lo, reverberamos em nós a impotência diante do outro estrangeiro, que se apresenta sem rosto, sem tradução e que é, paradoxalmente, o motivo da procura. Por outro lado, o outro da aposta, do pacto, da relação ensinar/aprender existe e é acolhido pela linguagem, que apresentamos e que tenta incansavelmente ser concretude. Tomamos como referência, para discutir a questão apontada, a escrita de professores em sua formação inicial ou continuada, sendo o memorial de formação a base que nos possibilita a tessitura deste texto. Vygotsky, Bakhtin e Benjamin são os interlocutores escolhidos para essa incursão, pois é a partir de um referencial histórico-cultural que pode ser possível pensar em práticas de leitura e escrita como instrumentos, como uma “produção de si”. As perspectivas teóricas desses autores, notadamente marcadas por uma concepção dialética da linguagem, nos permitem pensar a escrita como produção de sentidos, instância discursivo/simbólica mediadora das relações entre os sujeitos da palavra. Bakhtin/Volochinov (1988) nos possibilita discutir o movimento da linguagem como leque de dimensões discursivas dialógicas e ideológicas. A palavra, interregno entre eu e o outro (locutor/interlocutor), é materializada em sentidos e significados compartilhados por um grupo social, a partir dos signos ideológicos de uma determinada comunidade semiótica. Espaço de vozes sociais que entremeiam o espaço histórico-social do sujeito nas suas interlocuções. Numa leitura bakhtiniana, podemos inferir (nós e o leitor) que o sujeito, sendo da linguagem, não pode permanecer emudecido, pois, como sujeito da enunciação, estabelece no/com o mundo uma relação dialógica. Essa relação se materializa na comunicação verbal, uma vez que um enunciado é sempre acompanhado de uma atitude responsiva ativa, no dizer de Bakhtin (1997, p. 290): “toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se locutor”. Nesse sentido, podemos refletir que o sujeito, ao interagir com diferentes vozes sociais, determina e é determinado pelos signos da comunidade semiótica/semântica de 1 Referimo-nos à nossa atuação nos Cursos de Formação Continuação: Projeto Veredas/Formação de professores/MG (2002/2005); Progestão/Curso de Pós-Graduação/RJ (2005/2007); Gestão e Avaliação da Educação Pública/Curso de Especialização/CE (2009). 30 Tem Professor na rede.indd 30 30/05/2010 10:39:40 que participa. Esse fluxo dialógico permite a ele e aos seus interlocutores um encontro entre consciências, marcado por movimentos de construções e reconstruções, que instituem tanto a reprodução do discurso do outro quanto a construção criativo-criadora de novas práticas linguístico-discursivas. Vygotsky também nos auxilia a pensar sobre a construção criativo-criadora dessas novas práticas linguístico-discursivas quando discute a atividade criadora. O processo de criação humano tem sua gênese na imaginação, na capacidade que o sujeito tem de combinar variáveis e de fazer uma nova leitura da realidade. Para Vygotsky (1987), na atividade criadora, a imaginação e a realidade, imbricando-se mutuamente, estabelecem uma relação dialética, que possibilita a transformação do homem com o outro. A criação de novas imagens se processa a partir das imagens e vivências passadas, entrecruzadas com as situações presentes, experienciadas pelo sujeito. São elementos importantes para que ele, sujeito, possa inaugurar novas maneiras de compreender e (re) inventar a realidade que o circunscreve. Nas elaborações teóricas de Benjamim são muitos os fios que se entrelaçam para conceituar linguagem e história. Para esse autor, passado e presente se conectam e se reformulam vislumbrando possibilidades jamais imaginadas. A conexão entre esses dois tempos se materializa na linguagem, via narrativa. Na capacidade humana de rememorar, nos apropriamos do passado entrecruzado com o presente, vislumbrando um futuro que se presentifica. Pois o cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado (BENJAMIN, 1994, p. 224). É sob a égide dessas imagens teóricas que discutiremos a relação entre a produção escrita e a formação inicial e continuada de professores na educação a distância. A educação a distância e o processo de formação de professores Na área acadêmica existe uma discussão bastante profícua sobre as implicações da educação a distância: de um lado, há paladinos que a defendem como um projeto de política pública fundamental para alavancar o ensino superior no Brasil; outro lado a vê meramente como uma política pública inscrita em princípios neoliberais, com todas as críticas recorrentes a este modelo político-econômico. Entre os aspectos positivos, estão a expansão de vagas no 31 Tem Professor na rede.indd 31 30/05/2010 10:39:40 ensino superior, a flexibilização do tempo/espaço, a superação das barreiras geográficas, o ganho de escala, a inovação tecnológica, a possibilidade de formação dos formadores, a autonomia do aluno, a convergência de mídias. Entre os aspectos negativos, temos o sucateamento da docência, a idéia salvacionista dos históricos problemas educacionais, a estratégia banal e maçante para substituir professores, a certificação em massa. Do ponto de vista do fazer do professor, mudanças significativas têm-se processado. Por exemplo, pensar em outras maneiras de ensinar/aprender. Parece não ser suficiente disponibilizar para o professor outras possibilidades de interação e comunicação, na expectativa de que haja variações em suas práticas. É necessário criar condições e espaços para que haja também ambiências para a ressignificação dessas práticas. O advento da internet trouxe a simultaneidade de um grande número de operações: observar, absorver, entender, reconhecer, buscar, escolher, elaborar e agir. O nativo digital lê, escuta e olha ao mesmo tempo. É bem possível que boa parte dos alunos tenha tido alguma experiência na internet. É razoável que estas mudanças chegassem cedo ou tarde à sala de aula, seja pelo uso do computador como ferramenta de auxílio no processo de aprendizagem na escola, seja pela informação e pelo conhecimento que o aluno traz para esse contexto. Essas ideias vêm circulando já há algum tempo entre professores e professoras. Silva e Claro (2009) afirmam que: mesmo inspirados nos excelentes autores, os professores permanecem apegados à transmissão porque não desenvolveram uma atitude comunicacional que favoreça as interações e a dialógica na aprendizagem. Então podem concluir que é necessário desenvolver uma atitude comunicacional não apenas atenta para as interações, mas que as promova de modo efetivo. Essa atitude supõe estratégias específicas desenvolvidas a partir da percepção crítica de uma mudança paradigmática em nosso tempo. Essa mudança manifesta-se, por exemplo, com a transição da tela da TV para a tela do computador ou com a emergência de uma nova cultura das comunicações entendida como cibercultura. A tela da TV é um plano de irradiação com as duas dimensões: altura e largura. A tela do computador permite imersão. Além de altura e largura, tem profundidade, que permite ao usuário interagir, e não meramente assistir. Permite adentrar, operar, agregar, modificar, compartilhar e cocriar. Com a pedagogia da transmissão os professores estão no mesmo paradigma da TV. Eles são transmissores iluminados que editam e distribuem os conteúdos de aprendizagem para os alunos receptores e sem luz. Estes, por sua vez, migram da tela da TV para a tela do computador conectado à internet em busca de interatividade. A marca de uma educação tradicional ou tecnicista ainda é muito forte nos meios educacionais. Despenham sobre os alunos informações, referentes aos conteúdos 32 Tem Professor na rede.indd 32 30/05/2010 10:39:40 das diferentes disciplinas, que devem ser memorizadas e depois reproduzidas. Esse processo mecânico exclui a reflexão pessoal sobre o material de estudo, as possibilidades de criação pessoal e o uso de uma escrita com autoria. A centralidade intelectual e a racionalidade acadêmica permitem uma compreensão teórica da linguagem, muitas vezes, desconsiderando a memória e a experiência pessoal. O que se vê é apenas uma identificação, e não uma significação em relação ao que lhes é apresentado pelo professor. O que acontece, portanto, é uma compreensão passiva que de acordo com Bakhtin (1988), exclui qualquer resposta pessoal. Para o autor russo, a compreensão deve ser ativa, contendo em si o germe de uma resposta. Entendemos que a formação dos professores deve contemplar não somente os saberes produzidos e sistematizados pela academia, mas também o permanente diálogo com outros espaços de formação. Portanto, essa formação deve partir dos conflitos, das interrogações, das tensões, dos questionamentos que emergem cotidianamente e que podem ser a matéria-prima para a reflexão das pessoas envolvidas no processo de construção-descontrução-reconstrução de suas práticas. Na educação, em especial nos processos de formação do professor, tem sido muito enfatizada a idéia do professor reflexivo, baseada em autores como Habermas (1973), Freire (1970, 1987), Schon (1983, 2000), Alarcão (2003), Nóvoa (1991, 1992, 1995), Pimenta e Guedin (2002), entre outros. Smyth (1992), preocupado com a amplitude de significados que o termo reflexão abrange, propõe que, em situações educacionais, as questões relativas à reflexão remetam-se mais diretamente ao contexto social, político, cultural, em que o processo ensino-aprendizagem ocorre. Assim, baseando-se em Freire (1970), o mesmo autor propõe a divisão do processo reflexivo em quatro ações indissociáveis: descrever (o que eu faço?); informar (o que significa isso?); confrontar (como me tornei assim?); reconstruir (como eu posso fazer as coisas de forma diferente?). Contreras (2002) explica que o professor não se constitui como um profissional reflexivo sozinho, de maneira isolada, pois a reflexão é um processo coletivo. Nessa perspectiva, refletir criticamente possibilita que o educador analise de forma crítica as condições sociais e históricas nas quais se estruturaram os modos e maneiras de entender e valorizar a prática educativa. Como já dissemos, para Smyth (1986), o processo reflexivo envolve quatro ações indissociáveis, que estão ligadas a certos tipos de perguntas que possibilitam refletir criticamente. Assim, ao descrever suas ações em resposta a uma pergunta – o que fiz? –, o participante se distancia de suas ações e passa a se questionar sobre as razões das escolhas feitas. O referido autor defende a constituição de processos de colaboração com os professores para favorecer sua reflexão crítica. Isto demanda, inicialmente, estimular um diálogo com os professores que contribua para a) o reconhecimento e análise dos 33 Tem Professor na rede.indd 33 30/05/2010 10:39:40 fatores que limitam a sua atuação docente e; b) a oportunidade de se sentirem capazes de levar a cabo a transformação da prática em valores educativos. Não basta criticar a realidade, mas mudá-la. Para isso, o Smyth (1986) organizou aquele ciclo de quatro fases, que representam os tipos de reflexão que os docentes deveriam adotar: descrever, informar, confrontar e reconstruir. É importante esclarecer que essas fases não são etapas hierarquizadas – podem ocorrer concomitantemente. Esse movimento do processo crítico reflexivo na formação de educadores foi utilizado por nós nas orientações para a escrita de memoriais em vários cursos de educação a distância da Universidade Federal de Juiz de Fora, tanto na formação inicial quanto na formação continuada. O lugar da escrita na formação de professores A produção escrita, na formação inicial ou na formação continuada, pode ser uma prioridade estratégica, constituindo em um processo criativo de aprendizagem que se opõe ao uso restrito que habitualmente se faz da leitura/escrita nos meios educacionais (que não permite o desenvolvimento de formas mais elaboradas de pensamento). Assim, o desafio que enfrentamos é criar condições para que, no ambiente escolar, professores em formação possam escrever a respeito da experiência vivida, da prática profissional, das dúvidas e dos dilemas enfrentados. Tarefa complexa, na medida em que exige, ao mesmo tempo, considerar essas vivências como objetos de reflexão, documentando-as por escrito. A reflexão por escrito é um dos mais valiosos instrumentos para aprender sobre quem somos – pessoal e profissionalmente – e sobre a nossa atuação como educadores. É nesse exercício que a análise do trabalho realizado, o percurso de formação, a sistematização dos saberes e conhecimentos construídos, o desenvolvimento intelectual e a afirmação profissional são possíveis. A palavra reflexão aparece no Dicionário Aurélio como retorno do pensamento sobre si mesmo. Sugere transformação da ação e, portanto, transformação social, tal como proposta por Paulo Freire. Nesse processo, as práticas emancipatórias se materializam e a consciência crítica da realidade se manifesta. Isso só é possível na interação com o outro. Não é tarefa individual, mas uma prerrogativa que se dá nas relações sociais. E o que muda neste cenário, a partir da educação via web? Certamente as experiências ainda são incipientes e qualquer leitura apressada poderia cair na categoria da inconsistência. No entanto, é necessário afirmar: é preciso repensar as relações envolvidas no processo ensinar/ aprender da atualidade. Os teóricos que, no início do século passado, empreenderam uma discussão sobre como o sujeito constrói o conhecimento provavelmente se posicionariam de outra maneira frente ao acesso de crianças ao computador e à internet. 34 Tem Professor na rede.indd 34 30/05/2010 10:39:40 No movimento de descrever a experiência corremos vários riscos. O mais perverso deles é o de coisificar gente, história, vida, sopro e, ao mesmo tempo, querer que a escrita esgote a sua potencialidade de querer-dizer. É por isso que a epígrafe que ilumina este texto fala da escrita a partir daquilo que se revela intraduzível, tal como aponta Derrida (1973). Embora reconhecido como um crítico contumaz do lugar que a escrita ocupa na cultura ocidental, esse autor acredita que um texto é um rastro do rastro, uma herança, sem possibilidade de compreensão, tal como tentamos fazer insistentemente com os nossos trabalhos acadêmicos. Será que a escrita traz em si um sentido oculto a ser desvelado? Uma coisa é certa: quanto mais explico mais compreendo, quanto mais compreendo mais sei. Na escrita se afirma a alteridade da alteridade. É o outro que fala pelo outro. Não há como escrever dissociado de si, mas paradoxalmente um texto não se deixa apropriar, pois não pertence ao autor ou ao leitor. Eis o embate no qual estamos imersos e do qual não há possibilidade de fuga. Eis a arena acadêmica atravessada pelas inúmeras possibilidades de conhecer; atravessada pela interação com o sujeito da cognição, agora plugado. O memorial de formação como um gênero discursivo Para continuarmos o debate, recorremos a mais uma imagem. Não à teórica, nem à poética, mas a uma alegoria pensada a partir do cinema. Assim, é na sensibilidade estética da linguagem do cinema que procuramos elementos para proceder nossa discussão. Isto porque no silêncio da interpretação da cena que se vê existe uma arena – universos inteiros tão reais e possíveis quanto queira a imaginação de cada um. É sobre história, escrita e memória que trata o filme Narradores de Javé (2004). Acontecimentos alterados pela relação do povo com a escrita, do temor da escrita como poder, da escrita que ameaça a oralidade, da escrita que estagna a experiência, da escrita que rouba o movimento, da escrita como lei. Platão instaura uma dura crítica a respeito da escrita como “bengala” da memória e perpetuação da tradição oral. Afirma que a escrita é remédio e veneno. Remédio porque cura e registra aquilo que a memória, por limitação, não seria capaz de armazenar. Veneno porque confiar o conhecimento à memória é condená-lo ao esquecimento. No contraponto dessa idéia, Michel de Certeau (1994), ao estabelecer as relações entre oralidade e escrita, considera impossível dissociá-las diante da força da memória e da tradição oral. Para ele, os registros escritos não abrandam a experiência da memória vivida, que produz marcas permanentes e singulares nos corpos, reveladas pela própria polissemia da palavra. 35 Tem Professor na rede.indd 35 30/05/2010 10:39:40 É considerando essa indissociabilidade entre o oral e o escrito que trabalhamos nos nossos cursos de formação um gênero discursivo que se materializa a partir do movimento da narrativa. Narrativa que, na escrita, tem em seu germe as marcas do oral. Com essa finalidade, privilegiamos o memorial de formação. Ele se constitui como um espaço de registro e reflexão que entrecruza a experiência atual com a história pessoal/profissional. Dessa forma, as vivências passadas entrecruzadas com as atuais, podem trazer para o autor do memorial uma ressignificação de sua formação, de seu trabalho, de sua vida. Refletir sobre suas ações em um processo de formação implica num movimento de novas construções geradoras de mudanças. Será que a escrita do memorial pode ser um instrumento de aprendizagem e um espaço pessoal de articulação entre teoria e prática? Será que é possível produzir mudanças no pensamento e na ação? Estas questões sinalizam nossa preocupação em discutir o uso do memorial como uma estratégia metodológica e, no interior desse movimento, ser um processo investigativo que se constitua em espaço de formação. Ao trabalhar com o memorial de formação, enfrentamos um grande desafio: levar os participantes a escreverem sobre a experiência vivida e a se defrontarem com a escrita como forma de expressão pessoal, de reflexão e de aprendizagem. Essa escrita nem sempre é fácil ou prazerosa, principalmente quando nela se inicia. Mas é necessária. Acreditamos que a reflexão por escrito é um dos mais valiosos instrumentos para aprender sobre quem somos nós e sobre a nossa atuação como educadores, uma vez que favorece a análise do trabalho realizado e do percurso de formação; o exercício da capacidade de escrever e de pensar; a sistematização dos saberes e conhecimentos construídos; o uso da escrita em favor do desenvolvimento intelectual e da afirmação profissional. Pode-se, pois, converter as conversas cotidianas das pessoas em formação sobre o que pensam e sentem em relação ao que vivem, aprendem e fazem – em um tipo de texto privilegiado para essa finalidade: o memorial de formação. Convidamos os participantes a narrarem eventos ocorridos, situações vividas, atividades realizadas (descrever); pedimos para analisarem quais teorias poderiam estar embasando práticas vividas ou presenciadas (informar); perguntamos sobre os valores que estariam fundamentando as práticas de salas de aula (confrontar); e sugerimos um movimento em direção ao futuro, buscando novas formas de agir, uma ressignificação da prática (confrontar). É esse o sentido que atribuímos à construção do memorial: que ele seja um espaço de formação pessoal e profissional; que cada autor possa converter as coisas das quais fala, pensa, sente, vive, em uma narrativa; em histórias escritas que, falando de sua vida pessoal e de sua prática profissional, possam ajudá-lo a tomar consciência do que faz, chegando a uma autocompreensão e a uma ressignificação de seu trabalho. 36 Tem Professor na rede.indd 36 30/05/2010 10:39:40 No trabalho com o ensino, o memorial de formação é uma significativa estratégia para o processo ensino-aprendizagem. Se, de um lado, ele auxilia na organização e sistematização do pensamento do sujeito, de outro possibilita ao professor compreender, não só as internalizações que os alunos estão fazendo, mas também as reflexões que estão tecendo. É exatamente aí que reside a importância do gênero memorial no processo de ensino, pesquisa e dos cursos de extensão: formar sujeitos mais críticos e mais conscientes de suas intervenções no mundo. A proposição de que devemos partir das problematizações que emergem do contexto tem sido uma tendência na formação de educadores. Desconsiderar as práticas que constituem o modo de ser e de fazer dos educadores é concordar com o argumento de que o que se faz não tem valor, é prescindível. Não há prática infalível ou exata. O que há é a possibilidade de refletir sobre ela. O verbo refletir tem sua origem em retorno, reflecto. O verbo retornar possibilita fazer a mesma coisa de forma diferente. Retornar não é voltar novamente, é voltar diferente. E qual é nossa concepção de memorial? Como escrevê-lo? Prado & Soligo (2005) definem o memorial de formação como um gênero textual predominantemente narrativo, circunstanciado e analítico, que trata do processo de formação num determinado período – combina elementos de textos narrativos com elementos de textos expositivos (os que apresentam conceitos e ideias, aos quais geralmente chamamos de ‘textos teóricos’) (p. 58). Compreendemos que o memorial é um texto narrativo, escrito a partir da memória, da reminiscência, da recordação, da lembrança, em especial da experiência vivida. Em um mundo caracterizado pela pressa e pelas relações impessoais, as pessoas estão habituadas a apenas dizer, informar, falar sobre coisas, repetir palavras de outros, reproduzir. O homem de hoje, da sociedade de consumo, da época do capitalista, está perdendo sua capacidade de narrar, “não cultiva o que não pode ser abreviado” (BENJAMIN, 1987, p. 206). Walter Benjamin nos ensina a importância da narrativa que evita explicações, mas que mergulha na vida do narrador, “que retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros” (Idem, p. 201). A narrativa não está interessada na mera informação ou relatório, mas ela “mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso” (Idem, p. 205). No memorial de formação o que se pede ao aluno é que ele se torne um narrador. Que mergulhe em sua própria experiência e vivência e fale dela... Conte sua história... a sua história fiada e tecida no interior do curso, da escola em que trabalha, na trama de 37 Tem Professor na rede.indd 37 30/05/2010 10:39:40 sua vida. É um exercício na arte de contar, de narrar. Uma escrita pautada não na mera informação ou relatório, mas mergulhada na vida de seu autor. Portanto, uma escrita pessoal, com autoria. “O acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois” (Idem, p. 37). Rememorar é uma oportunidade para o autoconhecimento. A memória busca no fundo de nós o que está lá, ajudando-nos a construir um conhecimento sobre nós mesmos, e também sobre o mundo que nos rodeia. Portanto, falar de si mesmo, contar a sua história, fazer o relato autobiográfico é penetrar no mundo do eu, no segredo da vida pessoal. Santo Agostinho, em “Confissões”, recontou sua vida como um meio para sua autocompreensão. Mergulhando em seu passado, traçou uma trajetória para a descoberta de seu eu, um eu articulado com a história. Daí a primazia que ele dá à memória como processo de autocompreensão. “É lá que me encontro a mim mesmo, e recordo as ações que fiz, o seu tempo, lugar e até o sentimento que me dominava ao praticá-las” (AGOSTINHO, 1975, p. 249). Ao reunir elementos dispersos, ao recontar sua vida recapitulando anos de existência, relacionamentos e encontros, obrigou-se a se situar em relação ao que tinha sido e ao que pretendia ser. Vivemos episódios, mas não estabelecemos as interligações para capturar os seus sentidos. É a memória que nos permite integrar os acontecimentos numa perspectiva histórica, contextualizando-os no tempo e no espaço. Não é apenas recontar o passado, mas procurar o sentido dele, como num ato interpretativo ao fim do qual nossa compreensão do eu se alarga. De fato, relatos autobiográficos, como pensamos ser o memorial, são um processo de criação em um contexto interpretativo, em que se cria também uma nova relação entre passado e presente, para que o texto do eu seja reescrito. É nesse sentido que o narrador confere ao acontecido um significado que este não possuiu no momento em que ocorreu. Ele o narra com a percepção do hoje. O sentido, portanto, é atual. É uma leitura do passado à luz do presente. Bakhtin/Volochinov (1988) interpreta desta forma o papel da memória na transformação e na compreensão do passado em seu caráter inconcluso: “não se pode mudar o aspecto filosófico objetivo do passado, porém o aspecto de sentido, o aspecto expressivo e falante pode ser mudado, porque é inconcluso e não coincide consigo mesmo.” (p. 393). Esse também é o pensamento de Benjamin (1987, p. 224), para quem “articular historicamente o passado não significa conhecê-lo como ele de fato foi. Significa se apropriar de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo” (Idem). Já Vygostsky (1987) complementa essa reflexão afirmando a importância da atividade criadora possuir, como elementos, os estilhaços e fragmentos da memória, 38 Tem Professor na rede.indd 38 30/05/2010 10:39:40 entrecruzados com as situações presentes vivenciadas pelo sujeito, possibilitando, assim, a criação de uma nova imagem, gênese do processo criador. Compreendemos, pois, o memorial de formação como um texto narrativo escrito que tem como finalidade ser espaço de registro e reflexão, que entrecruze a experiência atual à história pessoal/profissional. Algumas palavras ainda... O eixo da reflexão do artigo foi a escrita do memorial de formação como um espaço fértil para o desenvolvimento docente, possibilitando a formação de sujeitos que podem não só descrever, a partir de estéreis conteúdos e programas da formação inicial e continuada, a realidade que os cerca, mas também criar novas imagens de transformação das experiências cotidianas, culturais e da produção científica do conhecimento coletivo e individual. Somos seres da memória. A escrita da memória é sempre invenção. Mas é neste movimento de inventar e reinventar o dizer, o fazer, o ver e o viver que a possibilidade de sentir e significar acontece. São os pequenos e revolucionários acontecimentos que apontam outros e novos percursos, que nos faz deslocar. Uma escrita sem verdade e que não pretende sê-la no seu absolutismo; antes, verossímil para aquele que fia e que tece sua história pessoal, profissional e coletiva. Referências BAKHTIN, M. (Volochinov) (1929) Marxismo e Filosofia da Linguagem. 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Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1998. 40 Tem Professor na rede.indd 40 30/05/2010 10:39:40 Implicações dos ambientes online para a formação de comunidades colaborativas de gestores educacionais1 A Adriana Rocha Bruno – UFJF Ana Maria Di Grado Hessel – PUC-SP Introdução A principal intenção deste artigo é refletir sobre a visão que temos sobre educação online e um dos seus grandes desdobramentos: a relação humana. Faremos um recorte no processo de formação do gestor educacional em ambientes digitais. A Educação tem dedicado especial atenção a temáticas que envolvem a gestão escolar e, mais especificamente, a formação do gestor escolar. De fato, a pessoa do gestor, no universo institucional educacional, é chave para os processos de articulação intraescolar e para a maioria dos processos de mudança em que a escola e seus atores estejam envolvidos. Ao gestor são delegadas e atribuídas funções que nos levam a refletir a respeito das formas de atuação deste profissional: como e qual deve ser o seu foco de trabalho? Deve-se investir no trabalho por projetos? Devese integrar a equipe? Deve-se promover uma gestão democrática? Devese isso e aquilo, numa enorme lista de responsabilidades que não iremos discutir ou questionar aqui. Entretanto, desejamos propor uma reflexão sobre a pessoa do gestor educacional. Quem é ele? Qual é a sua história? Ele é um administrador pura e simplesmente ou um educador que assumiu a missão de administrar? De que forma as tecnologias da informação e da comunicação (TICs) podem contribuir neste processo? 1 O teor das discussões e reflexões apresentadas neste artigo foram adaptadas do trabalho publicado nos Anais do 13º Congresso Internacional de Educação a Distância: “em busca de novos domínios e novos públicos através da Educação a Distância” – 2 a 5 de setembro de 2007. Tem Professor na rede.indd 41 30/05/2010 10:39:40 De que gestor falamos? Com raras exceções, o gestor é um educador que conduziu sua carreira como docente até chegar à área de administração. Sua formação inicial reflete sua escolha por uma área específica do conhecimento e sua ação docente fez dele um educador. Ainda que sua experiência em sala de aula seja pequena, seu processo de formação inicial contribuiu com elementos fundamentais para a sua formação como educador, e essa experiência estará contemplada em sua prática como administrador. Por que tudo isso é importante? Trabalhando com formação de educadores há bastante tempo, percebemos que grande parte dos cursos de formação de gestores privilegia aspectos administrativos e técnicos, deixando de lado aspectos que fizeram do educador um administrador: pedagógicos, por exemplo. Desse modo, a formação de gestores escolares deve ser, antes de tudo, a formação de um educador. Em 1996, num dos cursos de formação de gestores de que participamos, resolvemos oferecer o mesmo curso oferecido aos professores, formados anteriormente. Dentre as gratas surpresas que tivemos na avaliação do curso, citamos a quase unanimidade da gratidão e da felicidade por parte dos gestores, afinal tinham sido finalmente tratados e percebidos como educadores, que são e que nunca deixaram de ser. Tal experiência promove reflexões sobre este ponto fundamental: o educador gestor. De fato, por mais que possa parecer óbvio, o gestor não é apenas um administrador, mas um educador que assumiu a condição de administrar uma instituição. Essa diferença é fundamental para que compreendamos os encaminhamentos necessários à sua formação. Além disso, devemos ter clareza de que, se um dia esse educador pertenceu a um grupo de professores da escola, hoje sua nova condição de gestor o coloca em posição distinta, o que traz algumas consequências. Gestor: ser solitário / gestão: ação coletiva O sentimento de pertença que deve acompanhar todo educador ao longo de sua vida como docente, integrando grupos de professores dentro da escola, podendo trocar experiências com seus pares cotidianamente, no caso do gestor educacional é redimensionado. O gestor que, como professor, integrava um grupo, agora pertence a outro grupo que nem sempre está constituído e integrado, pois não está necessariamente dentro da escola. O grupo ao qual pertence o gestor escolar constitui uma classe de educadores que pode sem dúvida se articular, mas na maioria das vezes está sozinho dentro da escola. Sabemos que a equipe de gestão não é composta apenas pelo gestor educacional, mas por assistentes, coordenadores pedagógicos etc. Porém, o sentimento de solidão 42 Tem Professor na rede.indd 42 30/05/2010 10:39:40 pela falta de pares nas mesmas condições, hierárquicas inclusive, pode permanecer. Além destas sensações, há manifestações de grupos aos quais o gestor já pertenceu como docente. É natural ouvir pelos corredores da escola que o colega “fulano de tal”, agora gestor, “mudou de lado”, ou seja, é opositor ao grupo que pertencia como professor. Pertenço a um grupo na medida em que compartilho com ele as minhas experiências e busco cumplicidade ou até mesmo oposição ideológica. Sinto-me parte de um grupo na medida em que percebo que a minha história se intercruza com a história da comunidade em que vivo e atuo. Todos estes aspectos explicitam que o gestor escolar é certamente um educador, muitas vezes solitário. Além de tudo, ele é cobrado no sentido de que sua gestão seja democrática e de que as boas relações interpessoais e interprofissionais sejam mantidas e garantidas. Para compreender e contextualizar o gestor educacional, precisamos também ressignificar o seu papel, na figura da equipe gestora de escolas. Hoje, um diretor tem como desafio liderar uma equipe de educadores na implementação de um projeto pedagógico. Este empreendimento estratégico consiste na integração e na convergência das ações na escola, por meio da mobilização dos recursos humanos, materiais e tecnológicos. Esta tarefa não é considerada fácil e esta liderança não é exercida tranquilamente. Como mencionado, o diretor de escola vive um sentimento de isolamento. Na escola, sua imagem está associada a um educador solitário, que não é integrante de um segmento específico. É visto como um administrador que ora se tranca na diretoria para cumprir sua rotina burocrática, ora passeia pelos corredores para “vigiar” a ação dos demais elementos da estrutura escolar, pronto para surpreender o erro e punir quem o cometeu. Historicamente, a administração escolar tem-se caracterizado como uma função especializada, tanto horizontalmente dissociada da atividade técnico-docente como verticalmente hierarquizada e autoritária. Nesta concepção, o gestor, apoiado numa estrutura piramidal de poder, dá conta de ser o elemento de correspondência entre esferas superiores e sua equipe, mas se distancia daqueles que devem ser seus parceiros de trabalho numa proposta educativa. Daí se deduz que os gestores precisam perceber o caráter transformador da sua ação administrativa e reconhecer a escola como um elemento vivo, rico em relações interpessoais que podem ser valorizadas no processo de idealização e concretização do fazer pedagógico. Além disso, precisam compreender a cultura e o clima da sua escola para estimular a interação entre os elementos da equipe de educadores, a fim de promover a construção de uma identidade grupal e a execução das mudanças estruturais necessárias num processo auto-organizativo. Esperase, portanto, que os gestores assumam a articulação de todos os atores escolares, muitas vezes rompendo isolamentos, para envolvê-los num trabalho coletivo e integrá-los num projeto educacional. 43 Tem Professor na rede.indd 43 30/05/2010 10:39:41 A relação ambiental na formação de gestores A formação continuada, em qualquer área profissional, muitas vezes tende a valorizar os aspectos objetivos em detrimento dos subjetivos. É consenso que o gestor educacional possui todos os recursos para trabalhar em prol da integração de todos os atores sociais ativos na escola. Mesmo sabendo o quão solitária é a função deste educador, caberá a ele executar o papel de articulador de docentes e discentes, promovendo a tão desejada gestão democrática e integradora. Entretanto, quando pensamos nas relações estabelecidas no âmbito escolar, devemos também refletir de que se tratam de relações intersubjetivas, que imbricam pontos da interpessoalidade e da interprofissionalidade. Tais elementos integrantes constituem as relações ambientais. Mas: de que ambiente falamos? Desejamos refletir aqui sobre uma formação de educadores e, mais especificamente, de gestores, que considere o ambiente em seu significado amplo. A palavra ambiente, do Lat. Ambi-ens-entis, possui diversos significados e o mais usual refere-se “ao que rodeia ou envolve por todos os lados e que constitui o meio em que os seres vivos vivem” (HOUAISS, 2001; CUNHA, 1986). Tal acepção pode ter sido uma das responsáveis pela relação que fazemos entre meio ambiente e natureza (flora, fauna etc.). Entretanto, ambiente também significa “conjunto das particularidades de um meio social, natural ou histórico em que situa uma ação”. O ambiente, como espaço de viver, abriga todos os seres vivos que dele fazem parte. Um problema ambiental envolve elementos que afetam determinado ambiente e que, portanto, podem reverberar ou se desdobrar em soluções ou novos problemas. São indivíduos que interagem e promovem relações as mais diversas. Todo esse processo está totalmente relacionado ao que também chamamos de educação ambiental. O que queremos dizer é que relações interpessoais e profissionais devem também ser reconhecidas como relações ambientais e, portanto, devem implicar em educação ambiental. Quando um gestor, isolado em seu “cárcere”, busca soluções para os problemas pedagógicos ou para as relações entre docentes e discentes, está na realidade refletindo sobre como desenvolver relações ambientais. Nesse sentido, a educação ambiental se processa em qualquer ambiente, inclusive o humano, entre humanos. Podemos inferir que parte das relações do homem com os diversos ambientes reflete modalidades de uma educação ambiental. O gestor educacional é, desse modo, um dos grandes articuladores da educação ambiental em sua escola e corresponsável pelas implicações que a envolvem. Tais considerações podem esclarecer a que educação ambiental estamos nos referindo, mas não elucida a questão do gestor solitário. Pois bem, a formação do gestor deve considerar estes aspectos e oferecer oportunidades que atenuem a condição solitária do gestor e promovam situações de encontro com outros gestores, uma espécie de comunidade de gestores. 44 Tem Professor na rede.indd 44 30/05/2010 10:39:41 As TICs2 e a relação ambiental Formar comunidade de gestores educacionais em tempos de Internet é viabilizar a concretização de sonhos e de necessidades. Isso porque as tecnologias da informação e comunicação podem favorecer a criação de espaços de troca, de formação continuada e de construção do conhecimento por meio do que chamamos “ambientes virtuais de aprendizagem” (AVAs). Nos cursos de formação de gestores escolares, a definição do ambiente virtual de aprendizagem e a escolha de suas respectivas ferramentas são fundamentais para o sucesso na preparação dos educadores na incorporação das TIC no cotidiano escolar. Uma dessas ferramentas, o fórum, pode representar uma experiência inédita e proveitosa para muitos gestores que participaram dessas formações. Mas em que medida isto pode ser uma assertiva? Como o fórum contribui para a formação de gestores? Como se caracteriza este espaço de debate virtual? Como o fórum pode contribuir para o desenvolvimento da educação ambiental? De que forma a relação ambiental pode contribuir para a formação de educadores? Entendemos que é importante para o gestor vivenciar a criação de uma rede de comunicação colaborativa com troca e intercâmbio de idéias, para compreender como concretizar aquelas experiências no seu trabalho de coordenação e articulação do coletivo escolar. Procuramos analisar a participação dos gestores nos fóruns de discussão promovidos em ambiente online, por suas mensagens, desvelando aspectos que evidenciam a construção de uma comunidade colaborativa. Com base nos estudos de Palloff e Pratt (2002), definimos as questões da aprendizagem colaborativa, da construção de significado, do compartilhamento de recursos e da avaliação crítica como filtros de análise das comunicações postadas em dois fóruns de cursos de formação de gestores. Nas oportunidades em que os gestores se reúnem, gostam de saber das vivências de outros gestores nas suas escolas: que problemas enfrentam, que soluções encontram. Dessa forma, amenizam a sensação de estarem desempenhando um trabalho solitário e se sentem confortados com a troca de experiências. Neste sentido, os cursos de formação de gestores podem oportunizar momentos de intensa interação entre esses profissionais, pois as ferramentas do ambiente de e-learning privilegiam os contatos em tempos assíncronos. Os fóruns de discussão, aqui exemplificados, viabilizaram conversas, trocas de experiências, questionamentos, relatos, demonstrações de solidariedade e construção coletiva de significados, caracterizando-se como verdadeiras comunidades de 2 Tecnologias da Informação e Comunicação. 45 Tem Professor na rede.indd 45 30/05/2010 10:39:41 aprendizagem colaborativa. Na concepção de Moraes (2002), “a virtualização de uma comunidade de aprendizagem implica no rompimento de barreiras temporais e espaciais, ao mesmo tempo na superação de barreiras disciplinares e curriculares”. O fórum como comunidade de aprendizagem colaborativa O fórum de discussão no ambiente virtual de aprendizagem é uma ferramenta para conversa ou diálogo entre seus participantes. Permite a troca de experiências e o debate de idéias, bem como a construção de novos saberes, uma vez que é um local de intensa interatividade. Neste sentido, caracteriza-se como uma arena de discussão assíncrona. Esta especificidade permite que o debate se prolongue no tempo e possibilita a cada membro a participação em momentos distintos. O acesso ao fórum pode ser feito para postar uma mensagem a partir de uma questão colocada inicialmente pelo mediador da discussão ou para responder a uma mensagem postada por outro participante. Na dinâmica do diálogo, cada integrante do fórum pode publicar suas opiniões, questionar, prestar esclarecimentos, argumentar, concordar, refutar, contestar, negociar, etc. (HESSEL; BRUNO, 2005). O fórum pode ser caracterizado também como uma comunidade de aprendizagem colaborativa (PALLOF e PRATT, 2002). A comunidade, como movimento associativo, sempre esteve presente na cultura humana. Entretanto, com o advento da Internet e o surgimento das possibilidades de interação midiática, os grupos se proliferaram rapidamente na rede virtual e a concepção inicial de comunidade foi ampliada. Restritas anteriormente a um espaço e tempo determinados, hoje, as formações de comunidades podem ocorrer em condições inimagináveis no chamado ciberespaço. Na web, elas surgem e se estruturam em situações variadas, motivadas pela abertura e pela facilidade da comunicação eletrônica. Pallof e Pratt (2002) afirmam que a busca pela comunicação indica tentativas de construir comunidades e que a tecnologia contribui para a criação de uma rede interdependente. Isto quer dizer que a necessidade de conexão com o outro motiva a criação de vínculos e influencia no desenvolvimento das comunidades eletrônicas que, por sua vez, alimentam a necessidade de comunicação. Neste sentido, Capra (2002) explica que as redes vivas são autogeradoras e que cada comunicação gera pensamentos e um significado, os quais dão origem a novas comunicações. O grupo, à medida que cresce e se auto-organiza, cria uma identidade que tem como limites os significados que este grupo constrói. Em adição às experiências presenciais, as comunidades virtuais apresentam algumas peculiaridades. Uma delas é a “personalidade eletrônica” (PALLOF e PRATT, 46 Tem Professor na rede.indd 46 30/05/2010 10:39:41 2002), segundo a qual o participante pode assumir uma determinada identidade, que se manifesta na capacidade de dialogar com o outro, de articular textualmente as questões de ordem emocional, de criar uma imagem de privacidade no espaço de comunicação, uma imagem mental de si e do parceiro do processo comunicativo, além da capacidade de criar uma sensação de presença online por meio da personalização de sua comunicação. O fato é que as comunidades de aprendizagem virtuais podem se desenvolver em condições diferenciadas das experiências presenciais. Ao permitirem a conversa de todos com todos, cada qual a seu tempo, possibilitam a criação de um ambiente centrado na interação online, cuja participação é valorizada. Através dele, o conhecimento é construído de maneira significativa pois integrado com sentimentos, desejos e necessidades pessoais. Além disso, seus participantes podem aprender colaborativamente pois encontram oportunidade de refletir sobre as mensagens postadas, bem como postar novas contribuições que podem ensejar a continuidade de uma discussão. As mensagens postadas num fórum têm grande importância pois carregam no seu bojo a dinâmica da interação e os conteúdos desenvolvidos. Elas representam o corpo do conhecimento socialmente construído e oferecem uma trilha, que permite que compreendamos e visualizemos a formação e a manutenção da própria comunidade. Segundo Pallof e Pratt (2002), uma análise dessas mensagens pode revelar em que medida uma comunidade online está em formação. Estes indicadores são comentados a seguir, pois neles estão embasadas as categorias adotadas neste estudo para análise dos fóruns selecionados. Uma comunidade online está em formação quando há farta e intensa interação, tanto para tratar de conteúdos de estudo como para assuntos e comunicação pessoais. As mensagens não ficam restritas a um professor e a um aluno. Ao contrário, os participantes tecem comentários entre si, o que caracteriza a aprendizagem colaborativa. Dessa forma, os significados são construídos socialmente, através de acordos e questionamentos. Há compartilhamento de recursos entre todos e, finalmente, os participantes externam avaliações críticas a respeito das produções dos colegas, bem como expressam seu apoio e seu estímulo. Utilizando fóruns Em cursos de formação de gestores, o fórum é uma ferramenta de comunicação que deve ser usada para implementar debates entre seus participantes. É interessante que este recurso seja utilizado para a discussão de textos, análise de cenários e acompanhamento da implementação das propostas de projetos de uso da TIC na escola. A participação em fóruns na modalidade a distância em cursos online requer um tempo significativo para integração do grupo. Numa experiência de mediação de 47 Tem Professor na rede.indd 47 30/05/2010 10:39:41 um fórum, percebemos que, desde o inicio, os alunos estavam dispostos a interagir e a explorar a ferramenta. Isso pode ser explicado na medida em que a utilização desta ferramenta foi bem explorada pelo formador. Assim, os gestores foram orientados, com relação ao gênero “debate” na modalidade fórum, sobre as características argumentativas observadas nas trocas entre participantes de fóruns de discussão, os tipos de interações mais usuais, a “netiqueta” etc. Um aspecto que deve ser enfatizado com os gestores é a percepção da especificidade de cada fórum, em que a clareza sobre a utilização deste e o respeito ao tema proposto devem ser preservados. É usual que num curso sejam trabalhados fóruns denominados “temáticos”, cujo objetivo é aprofundar as reflexões emergentes dos debates do grupo; são espaços diferenciados para que os participantes possam tratar de dúvidas tecnológicas e dialogar sobre assuntos diversos, como o fórum “Café”. Vale ressaltar que os fóruns se apresentam como ferramentas riquíssimas para diálogos e troca de experiências, na medida em que são antecedidos por leituras que oferecem subsídios teóricos e pelo uso de cases para a busca de soluções alternativas. Nessas situações, a qualidade das interações num fórum pode surpreender pela consistência nos debates, bem como pela análise crítica dos textos e cases propostos. Tais pontuações refletem a importância da seleção de elementos que tenham a intenção de promover espaços para relações ambientais, o que implica no desenvolvimento de uma consciência ampla sobre questões que envolvem o ser humano e suas relações com o outro e consigo mesmo. A relevância do debate nos fóruns em geral e a riqueza das trocas e das construções deste em particular devem se materializar em produções teóricas desenvolvidas pelos grupos de gestores ao final do curso com a publicação, por exemplo, de um artigo. No presente texto, apresentamos a análise de mensagens postadas em fóruns que selecionamos ao longo de nossas experiências e que podem exemplificar as colocações já abordadas. O que desvelamos Na formação de gestores, em geral, os integrantes devem ser estimulados a participar dos fóruns, como forma de interagir com seus parceiros de curso. O intercâmbio de idéias e o trabalho colaborativo, desde o início, devem constituir estratégias adotadas na concepção pedagógica de formação continuada. Coerente com esta metodologia, sabendo que a emergência de relações deve ser favorecida pela valoração da intersubjetividade, a abertura de um fórum, como o apresentado a seguir, ganhou uma mensagem convidativa para animar a participação dos gestores: 48 Tem Professor na rede.indd 48 30/05/2010 10:39:41 Queridos (as), Este fórum foi aberto para vocês contarem como estão desenvolvendo as ações propostas... Assim, comentem, discutam, troquem à luz das questões: como o seu grupo está mobilizando a comunidade da escola para se envolver na ação proposta? Quem está participando? Como está sendo encaminhado este processo? Que estratégias estão sendo utilizadas? Que dificuldades estão encontrando? Que caminhos estão sendo propostos para “sanar” as dificuldades? Beijinhos cheirosos, (D) Durante a discussão virtual, os gestores se sentiram à vontade, partilhando seus feitos, suas conquistas e suas dificuldades. A conversa entre os participantes representou forte indício de uma aprendizagem colaborativa, na medida em que a troca de experiências cumpre um papel informativo e um acréscimo aos conhecimentos pessoais. As informações fluem entre os participantes, em muitas direções, como uma rede. Os gestores não ficam restritos a receberem informações somente do professor, ou interagirem somente com ele, como no modelo instrucionista3. Há uma co-construção de conhecimento. O seguinte diálogo entre duas gestoras exemplifica esta questão: Quando elaboramos nossa proposta, contagiados pelo grupo e pela professora, nos esquecemos que temos nas escolas um grupo muito resistente a área tecnológica. Como falar em TIC se alguns querem a solução imediata para indisciplina na sala e são completamente surdos para outros assuntos. Portanto tivemos que repensar e replanejar. Mas educar não é exatamente isso? A primeira solução foi, através de um convite, utilizar horários livres de alguns professores voluntários e que ainda não conseguiram se adequar aos horários de troca coletiva4 e montar dois grupos para a utilização do laboratório de informática5. Vamos ver se dessa maneira conseguimos capacitar multiplicadores. Fizemos também o levantamento dos alunos que gostariam de ser monitores para esse espaço e atuar conjuntamente com os professores envolvidos. Iniciaremos no laboratório de informática na semana que vem, pois ainda faltam alguns ajustes na sala, como por exemplo umidade na linha telefônica, não temos internet rápida, mas temos muita paciência e perseverança. (AM). Aluna AM, vou contar uma experiência que tive como diretora de escola. Naquela época, eu não tinha computador e não sabia nem mover o 3 Instrucionismo é uma abordagem de ensino na qual o professor tem o papel de transmissor da informação e o aluno passivamente deve assimilar o que lhe foi transmitido. 4 O termo utilizado pela aluna no curso foi substituído respeitando o anonimato do público em questão. 5 Idem à nota anterior. 49 Tem Professor na rede.indd 49 30/05/2010 10:39:41 mouse. A escola tinha uma sala de informática maravilhosa e eu comecei a incentivar os professores a usar a sala. O nosso projeto era não levar a classe toda para a sala. Organizei o horário com dobradinhas, metade ia para a sala, metade ficava com atividade na aula, depois trocava. Os professores além de resistirem, não sabiam. Tinha uma que “manjava” e começou a levar os alunos. Os moleques mais levados ficavam uns anjinhos doidos para participar.(S) O primeiro gestor fala da resistência dos professores e das providências para enfrentar essa disposição. O segundo gestor se solidariza com o primeiro e conta a sua experiência e respectivas estratégias desenvolvidas. Nesta situação, a professora mediadora, bem humorada, contribuiu com observações estimulantes, enriquecendo e validando o conhecimento contido nas mensagens sem, contudo, tomar uma postura de centralização do saber. Pelo contrário, incentiva a investigação e a reflexão: Ê turma maravilhosa! Vemos que vocês já estão se mobilizando para a implementação das ações...é nesse momento que nos deparamos com as dificuldades mas também encontramos parcerias, sugestões e soluções para o que emerge... Todo esse processo é muito rico e cada momento deve ser aproveitado ao máximo... Vocês estarão ouvindo idéias, reclamações, “desculpas” de alguns pelo medo das TICs, enfim, é nesse diálogo com os pares e com a comunidade escolar que o papel da equipe gestora fica ainda mais forte e fundamental. Parabéns, pessoal! Vamos conversar sobre os encaminhamentos de cada um e continuar comentando e contribuindo com as ações dos colegas, ok? Beijinhos felizes. (D) Numa outra sequência de mensagens postadas, percebemos o processo de construção de significado. Por meio de questionamentos e acordos, os gestores discutem a formação tecnológica de seus professores durante o horário de troca coletiva. Os professores coordenadores contam com este horário para reunirem os docentes e sentem necessidade de falar desta experiência com outros gestores. Ao compartilharem suas dúvidas e certezas, constroem novas concepções e visualizam novas possibilidades. Geralmente, partem de circunstâncias vivenciadas que os inquietam e, quando formulam questões, estão em busca de novas respostas que façam sentido para o seu fazer. Há sempre busca de um consenso. Estou tentando reproduzir o que aprendi para meus professores nos horários de troca coletiva e tenho me surpreendido; muitos professores têm interesse, mas a dificuldade maior que encontro é quando o professor 50 Tem Professor na rede.indd 50 30/05/2010 10:39:41 me pergunta onde e quando utilizar o computador para os fóruns e bate papos. (K) (K), penso que você não deve encarar como problema, mas sim, apenas mais um processo de descobertas e aprendizados coletivo. ( M) (K), seus professores estão entusiasmados e querem começar uma experiência. Isto é um bom sinal, pois quando eu tentei na escola que eu dirigia, encontrei muita resistência. Que tal começar com um bate papo através de e-mail? Parece-me mais fácil, além de fazer com que todos os professores tenham o seu e-mail. Quer tentar? (S). A ressignificação dos espaços colaborativos presenciais decorre das trocas entre os participantes, como apresentado acima, na qual a vivência, pelos gestores, de situações problema, amplia o lócus de interação para a formação de modo integral. (K), aqui nós iniciamos explicando aos professores o curso sobre as TICs e logo após eles terão seu e-mail, pois essa foi nossa proposta de ação, só que como aqui nós temos em média 8 encontros por semana vai demorar um pouuuuuquinho. (J) Mesmo tendo lançado a idéia de organizar grupos para a utilização do laboratório de informática, eu não tenho tido sucesso em fazer com que a maioria participe. Os questionamentos são sempre os mesmos: usam nossos espaços para tudo. E a que horas vamos discutir os problemas das salas, dos alunos? Vocês têm sugestões? (A) Oi (A), como a (S) falou, unanimidade não teremos no momento... Acho que você deve iniciar os trabalhos com um pequeno grupo e fortalecer ao máximo este grupo atuante... Com o tempo, outros vão sendo estimulados a fazer parte também. (D) (A), os colegas de sua escola têm de ter a clareza que os horários de troca coletiva não são apenas para discutir problemas de sala de aula, mas também legislação, vida funcional do professor e anexos como devem ser preenchidos, novas tecnologias e lermos e discutirmos pensadores da educação, e proposição de propostas que busquem a solução de problemas existentes na escola e aperfeiçoarmos projetos já em andamento. Abraço. (V) Em fóruns de cursos a distância, é comum que alunos concebam este espaço apenas para inserção de mensagens ou para divulgação de seus problemas, não valorizando a interação. Neste caso, o espaço de debate é percebido meramente como um repositório de idéias. A dinâmica promovida pela mediação utilizada e pela proposta do curso, exemplificada anteriormente, transcendeu esta postura, na medida em que propôs diálogos entre todos os participantes em busca de soluções para os 51 Tem Professor na rede.indd 51 30/05/2010 10:39:41 problemas emergentes, a construção de um espaço para o registro escrito coletivo, facilitando a consulta a todas as produções do grupo e o incentivo a revisitas constantes a estas produções, a fim de ressignificar o conhecimento socializado pela leitura das mensagens trocadas. Para Sabbag (2005), esse registro escrito significativo permite uma “tomada de consciência”, uma reconfiguração dela própria, na direção da mudança e da constituição de uma identidade do educador. A comunidade colaborativa também se caracteriza pelo compartilhamento de recursos. Os participantes de um grupo podem sentir prazer em divulgar suas descobertas, tais como textos, sites, referências, autores, eventos etc. No contexto de um papo acalorado, identificamos atitudes amistosas e intenção de ajuda. Um dos gestores, disposto a compartilhar uma experiência proveitosa, anuncia a idéia para seus parceiros e, juntos, combinam um encontro: Olá Galerinha. Hoje tivemos reunião na escola Y. Conheci o professor (G), e pude conversar com ele sobre o site da escola. (A) Oi pessoal, a (A) é abelhuda e eu peguei carona nessa pra que o professor me explique algumas coisas, pois é um sonho muito antigo informatizar as notas e mapões, além de dar uma nova na cara para o nosso site. (J) Oi (J)... Podemos combinar de voltar lá na Escola Y. (A) Olá (J) e (A)! Li seus comentários, e coloco à disposição a Escola Y no que for necessário para ajudá-las. (V) O processo de construção de comunidades colaborativas pode suscitar movimentos e ações que transcendem o próprio espaço virtual. Percebemos acima situações de aproximação e integração que culminaram em encontros presenciais para o encontro coletivo de resolução de problemas. Mais do que simples solidariedade, tais movimentos explicitam o rompimento com a condição solitária vivida pelos gestores e anunciada no início deste artigo. As declarações de apoio e de estímulo entre os participantes, além da vontade de comentar criticamente o trabalho dos colegas são expressões da avaliação crítica dentro do fórum. No ambiente cooperativo, os parceiros costumam fazer elogios para incentivar ações, para expressar concordância etc. Mas as colocações construtivas que contribuem para a reflexão das idéias externadas são os exemplos mais interessantes desta categoria: Lendo o texto proposto, e com as experiências que estamos vivenciando, muitas vezes a equipe gestora é vista pelo professor como controladora dos ambientes principalmente a sala de informática, quando se trata da conservação, manutenção e projetos compartilhados com o coordenador 52 Tem Professor na rede.indd 52 30/05/2010 10:39:41 pedagógico e com o próprio grupo. Concordo que o diretor tem que ser o facilitador e motivador no desenvolvimento de ações, e o coordenador o elo entre todos os participantes do processo. Dificuldades sempre haverá, tenho consciência que muitos alunos e até os professores não possuem computador, e o único lugar para esta apropriação é a escola que tem o papel de orientar e subsidiar as ações e propostas de trabalho. (V) Oi (V), muitas pessoas confundem organização com controle. Ser democrático não é ser permissivo. O Gestor é o responsável pelos equipamentos da escola e seu dever é cuidar, zelar pela manutenção, o uso adequado, etc. isto não é ser controlador, é ser responsável e organizado. (S) Também sinto isso, noto que para muitos professores os gestores estão ali apenas para controlar, depende de nos mudarmos esta visão, mostrar para eles que precisamos caminhar juntos para melhorar a educação. (M) Nessa situação, um gestor se posiciona frente à uma questão polêmica, tratada num texto disponível no ambiente do curso. Em seguida, sua interlocutora traz um olhar diferente a respeito da idéia exposta. Mais adiante, surge uma terceira opinião e o tema é abordado durante o restante do fórum, suscitando reflexões, a revisão da própria prática, algumas defesas e ataques, sem que haja necessidade de uma idéia prevalente. Elas se apresentam complementarmente, e às vezes antagonicamente, num movimento organizador e criativo, sem a pretensão de se excluírem. Assim é o pensamento humano (MORIN, 1996) e, neste processo dialógico e dialético, oportunizado no fórum, está a riqueza da construção do conhecimento. Geralmente, o mediador da discussão finaliza o tema ou a sessão com uma síntese, articulando todas as contribuições postadas, sem pretender esgotar o debate, mas procurando valorizar todos os aspectos tratados. Algumas considerações: buscando a alteridade Ao longo deste artigo, refletimos acerca do debate em fóruns virtuais e percebemos uma faceta do universo complexo habitado pelo educador-gestor, que é a sua capacidade de se refazer, tal como fênix, e de ressignificar sua prática e o seu papel articulador de comunidades de aprendizagem dentro da escola, considerando as relações emergentes neste ambiente de aprendizagem. A partir deste ponto de vista, a gestão assume dimensões múltiplas e, dentre elas, a possibilidade de gestar novos conhecimentos, novas práticas, novos movimentos nos espaços escolares e, consequentemente, nova gestão. Escolhemos este tema, motivadas pela experiência como professoras formadoras no projeto e pelo reconhecimento da relevância da construção de ambientes de aprendizagem 53 Tem Professor na rede.indd 53 30/05/2010 10:39:41 com o suporte da TIC, tanto como estratégia de formação dos gestores, como para orientação de trabalhos colaborativos na escola. Inevitavelmente, nossa trajetória se imbrica com nossos interesses de pesquisa (FAZENDA, 2002). Entendemos que é importante para o gestor vivenciar a criação de uma rede de comunicação colaborativa com troca e intercâmbio de idéias, para compreender como concretizar estas experiências no seu trabalho de coordenação e articulação do coletivo escolar. Esse processo de gerar e gerir comunidades de aprendizagem de gestores assinala aspectos essenciais para a gestão escolar, tais como: a valorização das diferentes experiências para a construção da identidade do educador; a força e o diferencial das relações intersubjetivas para a transformação dos ambientes de aprendizagem; o espaço e o tempo para o diálogo; a mediação construtiva para propiciar trocas efetivas e reflexões complexas; os desafios constantes para que o estímulo e o desejo de mudança e de criação não se percam no caminho; a presença e o compromisso de todos os envolvidos neste processo e, principalmente, o resgate ao sentimento e à consciência da alteridade como movimento que transforma as relações e redimensiona as ações humanas em relação ao outro, a si mesmo e ao espaço (ambiente) vivido e vivente. O fórum de discussão, ferramenta essencial para que o diálogo aconteça no ambiente virtual de aprendizagem, deve ser apreendido pelos participantes ao longo dessa gestação como um espaço de construção. Dessa aprendizagem, algumas lições práticas podem contribuir para orientar os gestores na formação de outros educadores e na mediação de futuros fóruns com suas equipes escolares. Ao participar de um fórum e acessar o debate, é sempre importante iniciar com a leitura das mensagens postadas, dos colegas e mediadores, para depois acrescentar sua contribuição e apresentar novas idéias argumentativas. O tema central merece respeito e novos debates ou subtemas podem ser inseridos com justificativas face à necessidade de ampliação dos assuntos. À medida que a discussão avança, é interessante a inserção de colocações problematizadas, pois elas alargam olhares e fomentam o debate. Afinal, a rede interativa deve ser alimentada em formato de rizomas. Por fim, títulos adequados nas mensagens do fórum podem facilitar a participação, na medida em que revelam e sintetizam o foco das conversas. As interações exemplificadas permitiram aos gestores uma vivência de formação de comunidades de aprendizagem, e essa experiência positiva pode redundar na adoção das tecnologias para a transformação das dinâmicas pedagógicas e administrativas da escola. Sob este aspecto, a tecnologia pode-se tornar uma grande aliada na sustentação de um espaço co-construído exclusivamente para e pelos educadores a fim de desenvolver uma educação ambiental. 54 Tem Professor na rede.indd 54 30/05/2010 10:39:41 Vale ressaltar que a formação de gestores, via Educação online, deve buscar a inclusão digital deste profissional, mas não pode restringir ou esgotar o espaço de interação. É fundamental que os cursos ofereçam aos gestores possibilidades de comunicação em outros ambientes, de preferência gratuitos, para que as comunidades que se formam possam ter continuidade em espaços alternativos. Não podemos criar dependência dos gestores em relação aos cursos de formação, mas habilitá-los para o exercício efetivo da autonomia, a fim de que continuem encontrando seus pares e possam autogerir ambientes virtuais de aprendizagem. Por fim, as tecnologias da informação e comunicação devem estar a serviço de uma educação responsável, que enxergue o sujeito como ser ativo no processo de construção de uma sociedade mais justa e democrática, onde o desenvolvimento de uma consciência crítica seja de inclusão e que o significado de ambiente seja ampliado, para que os indivíduos possam efetivamente incorporar o sentimento de pertença e fundamentalmente de alteridade. O caminho para aprendizagem, em sentido pleno, não pode ser exterior ao humano, mas imbricado a ele. Referências CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas. São Paulo: Cultrix, 2002. CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. FAZENDA, Ivani. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. Campinas-SP: Papirus, 2002. HESSEL, Ana Maria D. G.; BRUNO, Adriana R. et al. Tecnologia da informação e comunicação aplicada à educação. Educação corporativa: fundamentos e metodologia de ensino. Projeto Petrobrás. Módulo 1, Caderno 3. São Paulo: PUC/SP, 2005. HOUAISS. Dicionário da Língua Portuguesa. Versão 1.0. Instituto Antonio Houaiss. Editora Objetiva, 2001. MORAES, Maria Cândida (org.). Educação a distância: fundamentos e práticas. Campinas-SP: NIED/UNICAMP, 2002. MORIN, Edgar. O método: o conhecimento do conhecimento. Portugal: Publicações Europa América Ltda, 1996. PALLOFF, Rena M.; PRATT, Keith. Construindo comunidades de aprendizagem no ciberespaço: estratégias eficientes para salas de aula online. Trad. 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Para nós, responsáveis pelo curso de Pedagogia, Licenciatura, da Universidade Federal de Juiz de Fora, pelo sistema Universidade Aberta do Brasil, esta afirmação parece inteiramente divergente das condições oferecidas aos alunos do curso. Refletindo sobre esta experiência, ora sendo desenvolvida, pretende-se partilhar as concepções estruturantes do trabalho que empreendemos na UFJF. A relevância do tema refere-se à enorme importância que a educação online, ou a distância, vem assumindo no Brasil, a partir das iniciativas tanto do setor privado da educação como das políticas públicas mais recentes, expressas hoje no projeto Universidade Aberta do Brasil. Levantamentos recentes do Ministério da Educação, apurados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), indicam um aumento de 571% no número de alunos no país, entre 2003 e 2006, segundo dados do Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (Sanchez, 2008). 1 Polos são locais nos quais podem ser feitas as atividades presenciais de cursos a distância. Tais locais se caracterizam por oferecerem base tecnológica instalada que permite a interação remota, dispondo, em geral, de computadores, rede, salas de estudo, bibliotecas e tutores presenciais. Tem Professor na rede.indd 57 30/05/2010 10:39:41 Quanto à Universidade Aberta do Brasil, trata-se de projeto do governo federal que pretende expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior no país. Como explicado no seu site (uab.capes.gov.br), os cursos oferecidos pelo programa UAB possuem foco na formação de professores e administração pública. Estes cursos têm como objetivo atender professores da rede pública de ensino básico melhorando suas qualificações e, por consequência, a qualidade do ensino nas regiões atendidas por polos UAB. Os cursos ofertados são de graduação (bacharelado, licenciatura e tecnólogo), sequencial, pós- graduações lato sensu. Estes cursos são ofertados por instituições de educação superior (universidades ou CEFETs) que os ministram a distância. A instituição possui como ponto de apoio presencial aos alunos os polos localizados em municípios estratégicos. Por isso os projetos pedagógicos são definidos com foco na educação a distância utilizando o apoio de novas tecnologias. A ênfase na formação de professores por meio da educação a distância tem sua origem na promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei n. 9.394, de 20/12/1996 (Brasil, 1996). Como observado por Teixeira e Borges, Essa Lei dispõe, em seu Artigo 62, que a instrução mínima exigida para o exercício do magistério nas séries iniciais do ensino fundamental é a graduação em nível superior. O Artigo 87 da mesma Lei orienta que os recursos da EaD sejam usados para a capacitação de professores nos níveis considerados desejáveis a partir de 1996 para a atuação na educação básica (TEIXEIRA E BORGES, 2008, p. 200). Embora a educação a distância tenha existido no país desde o início do século passado, iniciando-se por cursos por correspondência e continuando em telejornais educativos, é a partir do surgimento das novas tecnologias digitais e da sua relativa disseminação que esta modalidade ingressa numa terceira fase, a da interatividade. Ou seja, foi a partir dos anos 1990, com o início da popularização da internet, que as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) começaram a ser pensadas no âmbito das práticas educativas, da maneira como são vistas hoje. A participação neste programa trouxe, para o curso de Pedagogia da UFJF, muitos desafios. São cerca de setecentos alunos, em dez cidades-polos, espalhadas por Minas Gerais: Bicas, Boa Esperança, Coromandel, Ilicínea, Salinas, Santa Rita de Caldas, Tiradentes, Durandé, Ipanema e Pescador, representantes de várias e distantes regiões mineiras. Pelo menos três destas cidades estão localizadas a mais de mil quilômetros de Juiz de Fora. São 58 Tem Professor na rede.indd 58 30/05/2010 10:39:41 vinte tutores presenciais e dez coordenadores atuando nos polos presenciais. Trabalhamos com até nove tutores a distância por disciplina, que desempenham papel de destaque no seu desenvolvimento, e cada um deles atende em média a cinquenta alunos. Além dessas equipes, há os professores-pesquisadores, com função de coordenação colegiada do curso, e os professores de cada uma das disciplinas ministradas. Pode-se dizer que é quase uma faculdade dentro da outra. O Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação se fundamenta no uso das novas tecnologias, no planejamento e na realização das disciplinas por cada um de seus professores e de seus tutores a distância2, no uso de materiais selecionados pela equipe e na busca da máxima interação entre alunos, professores e tutores, seguindo as diretrizes curriculares do curso de Pedagogia. Para a melhor compreensão do projeto pedagógico do curso de Pedagogia, Licenciatura, a distância/UAB, é conveniente esclarecer sua origem. Embora já existisse um projeto pedagógico, cujas bases foram elaboradas a partir do Projeto Veredas3, a efetiva construção do curso se deu a partir da constituição de uma equipe multidisciplinar de professores da Faculdade de Educação, vindos das áreas de História, História da Educação, Sociologia, Pedagogia, Psicologia e Filosofia, professores estes atuantes nos cursos de Pedagogia e Licenciaturas. Todos com alguma experiência prática de educação a distância, obtida com o trabalho no curso do consórcio CEDERJ/Faculdade de Educação, ou do anterior Veredas mas, naquele momento, nenhum especialista em educação a distância. As discussões, desde o início, apontavam para a construção de um curso diferente das concepções que conhecíamos até então. Compreendendo, a priori, que educação a distância, hoje, constitui processo educativo mediado por tecnologias, nossa preocupação principal era que o curso transcorresse de maneira a favorecer a tessitura de relações humanas no bojo daquele aparato tecnológico. Julgávamos necessária a ênfase na mediação pedagógica, possível somente a partir de interações efetivas entre professor e alunos, bem como a construção coletiva do conhecimento, por meio de interações entre todos os sujeitos envolvidos. Compreendíamos, certamente, a especificidade do processo educativo realizado por meio de tecnologias da informação e da comunicação. Igualmente entendíamos que a pouca disponibilidade da presença física do professor e a eventual separação física dos alunos tinham como contraponto as possibilidades de comunicação hoje oferecidas pelas tecnologias. A constituição de comunidades virtuais, de uma inteligência coletiva; a larga 2 Tutores que permanecem na faculdade, junto aos professores e distantes dos alunos. 3 Projeto de Formação de Professores constituído por diversas universidades públicas do Estado de Minas Gerais que formou cerca de 5000 professores a distância. 59 Tem Professor na rede.indd 59 30/05/2010 10:39:41 utilização da rede para troca de informações e conhecimentos e, ainda, a produção de subjetividades, nas quais os elementos mais humanos dos afetos e das emoções estão presentes, são dimensões conhecidas da rede (internet). Para o movimento do curso, entendemos como essencial a comunicação interpessoal. O ambiente virtual de aprendizagem no qual a maior parte do curso ocorre é a plataforma Moodle. Seus recursos interativos (fóruns, chats, wikis) deveriam ser o suporte para o estabelecimento de forte comunicação entre todos os sujeitos do curso: professores, tutores e alunos. Aqui cabe uma pequena digressão: quando falávamos de educação a distância, há apenas poucos anos, os recursos disponíveis de interação remota eram muito reduzidos. Mesmo a partir do surgimento da rede mundial de computadores, a dificuldade de acesso dos alunos a computadores e à internet no interior do país limitava em grande medida a possibilidade de sua utilização. Era frequente que os cursos tivessem como recursos comunicacionais o e-mail e o telefone, dando ênfase maior aos encontros presenciais, como foi o caso do mencionado Veredas. A expansão da efetiva utilização da comunicação digital, possibilitada por maior acesso a tecnologias e à rede (seja por meio dos polos presenciais, mantidos pelas prefeituras, seja pela redução do preço de equipamentos, permitindo aos alunos adquirir seus próprios computadores), estabelece novas condições para a realização de cursos a distância. A decisão de privilegiar a dimensão humana do processo implicou em uma série de escolhas, sobre cada um dos elementos que viriam a compor o curso. A distância deveria ser minimizada pelas possibilidades de interatividade das tecnologias, o que de certa forma condicionou a decisão sobre os recursos pedagógicos e o papel dos atores no processo. Os recursos pedagógicos remetem à produção de materiais didáticos para as disciplinas do curso. Embora considerando a especificidade do aporte comunicacional das tecnologias, para nós são os professores do curso os autores-criadores dos caminhos necessários para o cumprimento do programa. Nesse contexto, a preocupação foi evitar uma formação que se mostrasse aligeirada e superficial. Belloni (1999) aponta para a existência (referindo-se aos grandes sistemas da modalidade concebidos nas últimas décadas, tais como a Open University inglesa) de ênfase excessiva nos processos de ensino. Assim, aspectos como a estrutura organizacional, o planejamento, a concepção de metodologias e a produção de materiais estariam erroneamente preponderando sobre os processos de aprendizagem, expressos nas características e necessidades dos estudantes, seus modos e condições de estudo, níveis de motivação etc. Segundo a autora, as práticas propostas e/ou descritas por estes modelos 60 Tem Professor na rede.indd 60 30/05/2010 10:39:41 referem-se muito mais aos sistemas ensinantes do que aos sistemas aprendentes. Nessa análise, a educação a distância constitui o conjunto de teorias, metodologias e práticas de ensino e aprendizagem propostas pela tecnologia educacional. Em grande parte, tais práticas ainda são dominantes em muitas experiências importantes de educação a distância que, por motivos históricos e político-sociais, oferecem um ensino baseado em “pacotes instrucionais” de inspiração behaviorista e em sistemas demasiado burocratizados de acesso, controle e avaliação. O modelo fordista se estendeu para além dos limites da produção de bens de consumo, tornando-se tanto um discurso político quanto uma forma de ação do estado, chegando até à educação. Contudo, em tempos pós-fordistas, de desterritorialização dos espaços e construção de novas temporalidades, com a mediação onipresente das tecnologias digitais na sociedade e sua gradual mas profundamente transformadora inserção nos processos educativos, a inadequação de modelos industriais para a educação pode-se tornar evidente. No interior dos processos de educação a distância, algumas questões pedagógicas já colocadas historicamente tornam-se mais oportunas. Dentre elas, o estabelecimento da centralidade do aprendente no processo de ensino-aprendizagem. O modelo histórico ainda prevalente, em muitas situações, no contexto atual de EaD, estabelece as condições e concepções subjacentes à produção de material didático específico para os cursos da modalidade. Presente praticamente como palavra-de-ordem da maioria dos projetos de cursos no país, a produção quase obrigatória de materiais, em sua maior parte impressos, sob a forma de hipertextos estáticos, é constituída, em maioria, por apostilas que utilizam linguagem sintética e frequentemente redutora, na qual o cerne do conteúdo das disciplinas é supostamente incluído. Contudo, esta situação não é necessária, mas uma escolha: (...) nos países mais tradicionais no uso de EaD, costuma-se usar livros-texto convencionais em cursos a distância; mesmo em cursos realizados pela web – o aluno recebe um pacote de livros... No Brasil, porém, é prática comum o aluno receber, para cada curso, apenas uma única apostila, de 50 ou 60 páginas, composta de textos surrupiados de livros verdadeiros (...) caracterizando uma redução na disponibilização do conhecimento; em casos mais extremos, o aluno recebe, como único recurso informacional além do contato com o docente ou o tutor, páginas com slides em PowerPoint usados pelo docente – a redução de uma redução (LITTO, 2008, p. 10). Como consequência, o professor ministrante da disciplina (lembremos o caráter industrial e segmentado da produção do curso a distância) em geral se encontra atrelado aos conteúdos e formatos concebidos e produzidos por outro professor. 61 Tem Professor na rede.indd 61 30/05/2010 10:39:41 Duas implicações parecem se evidenciar na prevalência deste modelo. A primeira: a concepção do caráter passivo do estudante, considerado como objeto e como um público de massa. Em segundo lugar, a permanência da linguagem tradicional da escola – a escrita –, reduzindo a importância da utilização das novas linguagens e dos recursos de hipertextualidade e interatividade no interior dos processos educativos dos cursos online4. O enraizamento histórico desta última evidência se deve a alguns dos processos sociais e culturais que constituíram a modernidade, que (...) em certo sentido, ofuscou a relevância comunicacional das telas e das imagens em prol de um outro tipo de interface, a página, que, a partir da difusão da imprensa, passou não apenas a fazer parte da lógica da comunicação estabelecida em áreas cada vez mais abrangentes como a exercer uma forte influência sobre a forma como as sociedades se organizavam (NOVA E ALVES, 2006, p. 108). A ênfase numa pedagogia tradicional, expressa na utilização de materiais instrucionais, em textos impressos aligeirados, reduz a percepção do aluno da multiplicidade de interpretações possíveis do real. Instrucionismo é “linearizar” a aprendizagem no plano da mera lógica sequencial, tornando-a reprodutiva e mantendo o aprendiz na condição de objeto...o instrucionismo gera a quimera da solução simples de problemas simples, quando no mundo real as soluções, sendo complexas, não cabem em nenhuma solução reducionista (DEMO, 2006, p. 80). Na consideração de um modelo alternativo de EaD (menos industrial, pós-fordista e até certo ponto, artesanal, em sintonia com as tecnologias de deslocamento de espaços, tempos) e da criação de novas relações humanas e afetividades, surge a possibilidade de construção de conteúdos de disciplinas em relação mais direta com os materiais produzidos pela própria cultura, de cada sociedade ou comunidade. Decidiu-se, portanto, pela seleção e produção de materiais pelo próprio professor que ministra as disciplinas, num movimento de reapropriação do cumprimento das diversas fases de um processo, pelo mesmo sujeito, o professor. 4 Para uma reflexão sobre as potencialidades dos ambientes virtuais nos processos interativos ver SILVA, Marco. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Ed. Quartet, 2001. 62 Tem Professor na rede.indd 62 30/05/2010 10:39:41 Professor-Autor A decisão de não utilizar textos preparados previamente para o curso teve como consequência a atribuição da criação da disciplina ao professor. O professor da disciplina é, portanto, o responsável pela seleção e elaboração dos conteúdos, das atividades, do ritmo dos trabalhos, das avaliações. Ele acompanha e orienta o trabalho dos seus tutores, em reuniões presenciais regulares. Igualmente participa de reuniões com o coordenador pedagógico e com outros professores, de maneira a trocar experiências e estabelecer estratégias comuns, quando necessário. Cada problema que surge ao longo do desenvolvimento do curso é debatido. Os desafios ficam evidentes quando se considera que o curso é ministrado em diferentes polos simultaneamente, em diferentes contextos sociais e geográficos. Essa atribuição faz com que seja do professor a primeira das três funções que Belloni atribui ao “professor coletivo”: ser responsável pela concepção e realização dos cursos e materiais. Segundo a autora, a segunda função seria a de planejamento, organização e distribuição do material, bem como a administração acadêmica do curso. E, finalmente, o terceiro grupo teria a responsabilidade pelo acompanhamento do estudante durante o processo de aprendizagem (Belloni, 2003, p. 81)5. Tutores Uma das novidades da prática de educação a distância é a introdução da figura do tutor, ou orientador de ensino. Este se coloca entre o professor e o aluno, uma vez que a grande quantidade de estudantes não permite o acompanhamento direto daqueles por cada professor. Em contato mais direto com os alunos, por meio de atuação em ambiente virtual, o tutor atua como professor auxiliar, sob a coordenação do professor de disciplina. O conceito de mediação pedagógica, processo que constitui o fundamento do trabalho do tutor, pode ser entendido como: a atitude, o comportamento do professor que se coloca como um facilitador, incentivador ou motivador da aprendizagem, que se apresenta com a disposição de ser uma ponte entre o aprendiz e a aprendizagem (MORAN, 2000, p. 144). Ainda segundo o mesmo autor, diversas são as competências necessárias para o sujeito que opera a mediação (p. 185): 5 Sobre o tema do professor coletivo, ver Borges, Melo e Constâncio, 2007. 63 Tem Professor na rede.indd 63 30/05/2010 10:39:42 São características da mediação pedagógica: dialogar permanentemente de acordo com o que acontece no momento; trocar experiências; debater dúvidas, questões ou problemas; apresentar perguntas orientadoras; orientar nas carências e dificuldades técnicas ou de conhecimento quando o aprendiz não consegue encaminhá-las sozinho; garantir a dinâmica do processo... criar intercâmbio entre a aprendizagem e a sociedade real onde nos encontramos, nos mais diferentes aspectos. Ao discutir o potencial da educação a distância para subverter o atual paradigma educacional prevalente, que situa o aluno como receptor de conhecimento, Neder vê no tutor um sujeito de interlocução e diálogo: Além disso, esse papel do orientador contribui para que o aluno deixe de ser passivo, receptor de informações, possa passar a se constituir sujeito que produz conhecimento, uma vez que, quebrada a relação de dependência do professor, inclusive porque pode contar com outros interlocutores, o aluno percebe-se interlocutor e não apenas ouvinte (NEDER, 2000, p. 100). A realização da mediação pedagógica, possível entre sujeitos, só pode se concretizar, em cursos com número elevado de alunos, por meio da tutoria. Na estrutura dos cursos UAB, de maneira geral, tutores a distância fazem a mediação entre o professor da disciplina e os estudantes. No nosso caso, um tutor para cada cinquenta alunos, por disciplina e por polo. Para realizar este trabalho, o tutor deve ter diversas competências ou habilidades. A primeira, a intimidade com tecnologias, seu instrumento de acesso aos estudantes. Em seguida, o conhecimento do conteúdo das disciplinas, com as quais deve ter afinidade. Por último, a capacidade pedagógica de promover, junto aos estudantes, a produção de conhecimentos, conduzindo-os no passo a passo do desenvolvimento da disciplina, orientando, provocando, avaliando a aprendizagem. Sua formação, portanto, deve se dar, ao longo do desenvolvimento do curso, nestas três dimensões: em tecnologias, nos conteúdos da disciplina e na mediação pedagógica no interior das TIC. O trabalho do tutor é cotidiano. Sua permanência na plataforma, acompanhando o movimento dos alunos, frequente. Ele deve conhecer cada um dos sujeitos aos seus cuidados, o contexto no qual se movem, monitorar sua presença na plataforma, estabelecer um diálogo constante, identificando dificuldades para poder auxiliar a dirimilas. São, a rigor, professores, e frequentemente participam, com suas sugestões derivadas da experiência, da elaboração da disciplina com o professor responsável, nas reuniões semanais de discussão sobre seu rumo. 64 Tem Professor na rede.indd 64 30/05/2010 10:39:42 Considerações finais A implantação do curso de Pedagogia pela UAB trouxe ainda, como desafios importantes a serem superados, aqueles derivados de um projeto em construção. A concepção e realização do curso diversas vezes esbarraram no modelo prevalente das políticas nacionais de Educação a Distância, expresso objetivamente nos modelos de planilhas nos quais os itens de financiamento de cada curso devem ser descritos para apreciação. De certa maneira, a definição dos itens constitui direcionamento da formatação do curso, como amarras de conformação. Apesar deste fato, a negociação sobre o financiamento e consequente estruturação do curso foram, na maior parte, negociadas com a UAB, o que nos possibilitou, em grande medida, a realização do curso como o visualizamos (Teixeira e Borges, 2008). Do ponto de vista da instituição, a inserção de novas categorias de docentes, constituídas por professores bolsistas, sem vínculo efetivo com a Universidade, e de tutores, nesta mesma condição, ainda faz com que esta modalidade de curso se apresente, por vezes, como um corpo estranho no interior de práticas estabelecidas. A falta de vínculo funcional dos tutores, em especial, tem sido duramente criticada como forma de precarização do trabalho docente no ensino superior. Embora a lei disponha sobre a equivalência dos cursos presenciais e a distância, a passagem da condição de projeto para a de cursos regulares impõe a necessidade de regulamentação acadêmica, de maneira que os alunos possam desfrutar plenamente de seus direitos junto à Universidade. A discussão sobre a melhor forma de realizar EaD acrescenta tensões à Universidade, pois o modelo administrativo é centralizador das ações a distância, enquanto diversos cursos e unidades pretendem integrar a concepção e gestão das modalidades presenciais e a distância sob seus cuidados. Apesar dessas dificuldades, em parte justificáveis por um contexto de novas práticas em construção, os cursos devem se tornar, cada vez mais, parte do cenário universitário do país. Importa então que se construam contextos educacionais de construção coletiva de conhecimentos significativos, e que se recuse o isolamento dos sujeitos a pretexto do uso de tecnologias. Frente às imensas distâncias geográficas, à importante demanda nacional de formação de professores, à carência social de educação superior pública e de qualidade, a educação a distância pode ter um papel de extrema relevância, aproximando sujeitos fisicamente distantes para prover e produzir, humanisticamente, conhecimento e formação. Referências BELLONI, Maria Luíza.. Educação a Distância. Campinas-SP: Autores Associados. 1999. 65 Tem Professor na rede.indd 65 30/05/2010 10:39:42 BORGES, Eliane; NEVES Cátia Mara; CONSTANCIO, Julimar. (2007). Formação em Pedagogia a Distância na UFJF: a experiência do professor coletivo. Anais do II Encontro Nacional sobre Hipertexto. Página eletrônica: http://www.ufpe.br/nehte// hipertexto2007/anais/ANAIS/Art15_Borges-Melo&Constancio.swf BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União. Brasília, DF. N.248, 23 dez.1996. DEMO, Pedro. Instrucionismo e nova mídia. 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A partir dos anos 1970, a segunda geração da EaD, ainda tendo como principal suporte o material impresso, passou a utilizar, cada vez mais, recursos como a televisão, fitas de áudio e vídeo, além da interação por telefone. Enquanto na Europa e nos EUA surgiam as primeiras Universidades Abertas, no Brasil, com base em artigo referente ao ensino supletivo na LDB (Lei no. 5.692/71), os programas de educação a distância eram classificados como “experimentais” e seu funcionamento permitido a título precário. Atualmente, vivemos a terceira geração, baseada em redes de conferência por computador e estações de trabalho multimídia, destacandose as possibilidades oferecidas pelo acesso à Internet. O fato é que o cenário atual indica múltiplas possibilidades que foram se constituindo por meio da web 1.0, marcada pela socialização da informação; hoje, pela web 2.0, que se apresenta por meio de espaços de relacionamento e interações; e já se fala em web semântica, que anuncia o que será a personalização da web. Tem Professor na rede.indd 67 30/05/2010 10:39:42 Alguns aspectos são característicos do que estamos vivendo, especialmente nos ambientes de aprendizagem online: sistemas de ensino e aprendizagem ‘mistos’ ou ‘integrados’; oportunidades diversificadas de formação, organizadas de modo flexível, de acordo com as possibilidades do aluno; atividades presenciais e a distância (hibridismo/ubiquidade); uso intensivo de tecnologias diversas (podcast, wiki, áudio e vídeo aulas, fóruns, chats, games, blogs, ambientes imersivos, uso de personagens, avatares, dispositivos móveis/celular, web conferências); interação e interatividade; mediação pedagógica; trabalho em equipe colaborativo; exigência cada vez maior de aprendentes autônomos. Para alguns, a educação a distância, com as TICs, é panacéia dos problemas educacionais. Outros apresentam grande resistência, vendo-a como forma educacional necessariamente inferior, por sua própria natureza. Para além dessas visões extremadas, tentaremos esboçar um breve panorama da EaD no Brasil, apresentando dados atuais de sua expansão e resgatando elementos do processo histórico, aspectos da legislação em vigor e, a partir daí, trazer alguns pontos para discussão, tomando como focos a mediação docente e o papel do professor e do tutor em ambientes online, mais especificamente, implicações no Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Juiz de Fora, do Sistema Universidade Aberta do Brasil. Educação a Distância no Brasil: expansão quantitativa ou qualitativa? O Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (SANCHEZ, ABRAEAD/2008), publicação editada pelo Instituto Monitor (SP), com apoio da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), contabilizou mais de dois milhões e meio (2.504.483) de brasileiros como alunos de cursos de EaD, em 2007. A maior parte deles, mais de um milhão e meio, frequentou projetos de formação técnicoprofissionalizante. Já nos cursos das instituições credenciadas pelo Sistema de Ensino (credenciamentos Federal para Graduação e Pós-Graduação e Estadual para EJA, Ensino Médio, Fundamental e cursos técnicos), havia quase um milhão, ou, mais exatamente, 927.826 alunos, o que significou um aumento de 213,8%, nos últimos quatro anos. Merece registro que, em 2007, as matrículas, no estado de São Paulo, cresceram em 80%, perfazendo cerca de 1/3 do total nacional. Também vem contribuindo para a expansão da educação a distância a implantação, pelo governo federal, da Universidade Aberta do Brasil (UAB). Com o compromisso de expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior no país, foi fixada a meta inicial de ofertar 60 mil vagas em todo o país, tanto 68 Tem Professor na rede.indd 68 30/05/2010 10:39:42 em cursos de graduação quanto de pós-graduação lato senso, e implantar cerca de 300 polos presenciais. A Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação (SEED/MEC) tem a expectativa de atender significativamente à demanda de formação ou capacitação de mais de um milhão de professores para a educação básica, nos próximos anos. Essa expansão acelerada trouxe a necessidade da elaboração de um conjunto de normas legais e de referenciais de qualidade, nos quais destacaremos, posteriormente, suas definições (e indefinições) quanto à função docente. Podemos dizer que a “certidão de nascimento” da EaD, no Brasil, foi o artigo 80 da LDB (Lei 9.394/1996), cujo caput dispõe que “o Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada”. Sua regulamentação mais específica está, atualmente, a cargo do Decreto no. 5.622/2005, que, em seu artigo 1º, caracteriza a educação a distância como modalidade educacional na qual a mediação didáticopedagógica nos processos de ensino e aprendizagem ocorre com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares ou tempos diversos. Tal definição constituiu um avanço, pois explicitou a necessidade de professores desenvolverem a mediação pedagógica. Outro fator de incentivo à expansão da utilização de tecnologias de informação e comunicação na educação superior foi a Portaria no. 4.059/2004, conhecida como a Portaria dos 20%, pois permite a oferta, em cursos presenciais, de disciplinas semipresenciais, em até 20% da carga horária total. Assim, visa aproximar as duas formas de educação – presencial e a distância - que alguns tratam como realidades incomunicáveis. Entretanto, o risco que apresenta, e que ocorre em algumas instituições, é ser incorporada como mera estratégia de redução de custos, desvirtuando seu propósito. Cabe, também destacar que, apesar da criação de cursos e programas de mestrado e doutorado a distância serem previstos no Decreto 5.622/2005, a CAPES ainda não editou as normas complementares para sua implementação. Por fim, apontamos que o Ministério da Educação publicou, em agosto de 2007, os Referenciais de Qualidade para a Educação Superior a Distância, que analisaremos quanto às recomendações a propósito da mediação pedagógica em geral e da tutoria em particular. 69 Tem Professor na rede.indd 69 30/05/2010 10:39:42 Devemos, no entanto, olhar com cuidado para os dados quantitativos apresentados, pois eles podem oferecer apenas idéias de crescimento do atendimento às necessidades da educação no país, deixando aspectos qualitativos em segundo plano, o que não é nossa intenção. O que está em jogo é o modo como a contradição expansão-redução tem sido “resolvida” em termos de política educacional: ao invés de fortalecer as instâncias universitárias de formação docente pela incorporação das TIC, esta promove um modelo de substituição tecnológica (BARRETO, 2008, p. 922). Há sim uma contradição, ainda que não evidente para todos, entre: 1) a promessa de expansão e atendimento a um número significativamente maior de profissionais ou estudantes que buscam formação e encontram na modalidade a distância tais possibilidades, e 2) os mecanismos perversos de formação aligeirada, que encontra nos cursos a distância o sistema ideal para formação em massa, e não para as massas, colocando em segundo plano a qualidade deste processo. Barreto adverte ainda, após resgate do “documento produzido pelo Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), constituído pelo Decreto de 20 de outubro de 2003, encarregado de apresentar plano de ação visando a reestruturar, desenvolver e democratizar as instituições federais de ensino superior”, sobre as intenções do uso da EaD como alternativa no processo de expansão da formação docente no Brasil: “a EaD é posta como alternativa para multiplicar o número de alunos sem alterar significativamente os quadros docentes e os investimentos” (BARRETO, 2008, p. 927). Comungamos com os alertas desta pesquisadora e temos clareza sobre as reais necessidades de democratização dos processos formativos para todos os brasileiros. Entendemos ainda, que a EaD pode ser uma alternativa para o encurtamento das distâncias, redimensionamento do tempo e acesso tanto às tecnologias como ao conhecimento, aspectos nevrálgicos da educação (ou falta dela) em nosso contexto. Porém, compartilhando de todas as críticas apresentadas pelos autores aqui destacados e por nós, pesquisadores e educadores do Ensino Superior Público, queremos também apresentar possibilidades de realizar um curso a distância de formação superior em Universidade Pública, que prime pela qualidade. A seguir, faremos uma breve reflexão sobre as transformações na docência advindas da expansão da educação a distância e sobre o papel do tutor neste contexto. A docência e suas implicações Desde os tempos mais remotos, o professor desenvolve um importante papel social. Em tempos de Cibercultura, pensar o papel do professor significa romper com as 70 Tem Professor na rede.indd 70 30/05/2010 10:39:42 imagens predominantes que tínhamos até poucas décadas e entender a multiplicidade de papéis que esse profissional da educação assume. Prega-se que, nos cursos realizados a distância, equipes multidisciplinares trabalhem coletivamente, de forma interdependente. Não se fala mais de um único professor, mas de grupos de profissionais integrados nos processos de ensino e de aprendizagem. Será? Dentre o que é divulgado como ideal, destacam-se: o autor – seleciona e produz conteúdos para os cursos; o editor – trabalha a qualidade comunicacional do texto; tecnólogo educacional (instructional designer) - que organiza pedagogicamente os materiais; artista gráfico (web designer) – responsável pela aparência visual do ambiente online. Muitos outros profissionais estariam envolvidos nesse processo, como programadores, operadores, editores de vídeo, de áudio etc., bem como administradores, planejadores e organizadores que cuidariam do processo como um todo. Assim, numa equipe de Educação a Distância poderíamos ter: pedagogos, profissionais da comunicação, técnicos em informática, programadores, professores de diversas áreas, desenhistas, analistas etc. Esta composição, embora interessante, ainda não se apresenta como realidade no contexto atual, exceto em algumas empresas, prestadoras de serviço e poucas instituições educacionais. Esse cenário implica em que o professor assuma múltiplas funções, se integre a uma equipe multidisciplinar e se assuma como formador, conceptor ou realizador de cursos e de materiais didáticos; pesquisador, mediador, orientador e, nesta concepção, se assumir como recurso do aprendente. Por isso a adjetivação de professor coletivo: a figura do professor corresponde não a um indivíduo, mas a uma equipe de professores. Porém, embora essa visão da docência como integrada, coletiva e cooperativa possa parecer promissora e coerente com a proposta da web 2.0 (pautada no relacionamento e nas coautorias, cocriações), há, sem dúvida, o outro lado da questão no que diz respeito aos papéis múltiplos assumidos pelo professor, que Antonio Zuin (2006) aponta como coisificação: marca o professor como prestador de serviços, recurso do aluno e animador de espetáculos audiovisuais. É notável, sem dúvida, certa perversidade no tocante a essa pluralidade na docência, pois denota tanto a diluição do papel e da função do professor, quanto pode promover a desprofissionalização docente, na medida em que suas ações são retalhadas, fragmentadas e com elas todo o processo de ensino e de aprendizagem. Aliado a estes elementos, há o predomínio da técnica, das mídias, dos ambientes virtuais, das tecnologias da informação e da comunicação, como um flash back, uma retomada do já vivenciado em nosso país nos anos 60-70 do século passado com o tecnicismo, marcadamente a Indústria Cultural de Adorno. 71 Tem Professor na rede.indd 71 30/05/2010 10:39:42 Nessa direção, chamamos a atenção para a necessidade de construção de saberes dos docentes, em ambientes virtuais de aprendizagem, que envolvam também o conhecimento específico da área do conhecimento que estão mediando e, por conseguinte, interferências, mediações qualitativas não apenas nas relações inter e intrapessoais, mas também de conteúdo. Para a educadora espanhola Juana Sancho (1998), o profissional da educação deve considerar alguns pontos para sua formação e atuação na sociedade atual. Dentre eles, destacamos: a) o crítico-situacional e o conceitual: que contemplam informação ampla e atualizada (continuada) e que envolvam conhecimentos específicos da área de atuação e o acompanhamento dos avanços tecnológicos e sua aplicação na área educacional, e b) o autorreflexivo: que compreende meta-análise do papel do professor e suas implicações para o processo de ensino e de aprendizagem, bem como do estudante nesse processo. Mais uma vez, o que se espera do professor e da docência é, no mínimo, paradoxal em relação aos “ditames” de pluralidade propostos nos cursos a distância atuais. A discussão central diz respeito, portanto, à educação. As grandes questões da EaD são muito próximas das questões gerais da educação. Há uma imensa tarefa de regulamentar uma forma nova, tão dinâmica, desafio que tem paralelo com a luta por estabelecer critérios de qualidade também no presencial. Não se trata de propor o desenvolvimento de uma aprendizagem autônoma em que se atribua aos estudantes a responsabilidade total pelo seu processo de formação ou que compreenda o professor ou o tutor como “recursos do aprendente”, como menciona Zuin em seu artigo Educação a distância ou educação distante? (2006). Mas sim de desenvolver processos formativos em que se ofereça possibilidades reais aos estudantes de assunção e exercício de uma autonomia de fato. Lembrando que este processo não é solitário, visto que o processo de aprendizagem se dá pelas relações com o outro. Critérios de qualidade para a EaD e a questão da docência Em 1998, o Decreto 2.494 afirma que a falta de atendimento aos padrões de qualidade seria motivo de sanções às instituições de ensino. Tais “padrões de qualidade” seriam definidos em ato próprio de Ministro. A função de estabelecer critérios de qualidade para a EaD foi cumprida, em 2003, pelo documento Referenciais de Qualidade para Cursos a Distância, de Carmen Moreira de Castro Neves, diretora de Política de Educação a Distância do MEC. Ele serviu de base para 72 Tem Professor na rede.indd 72 30/05/2010 10:39:42 nova formulação, os Referenciais de Qualidade para a Educação Superior a Distância, apresentados pela SEED/MEC, em agosto de 2007. Esse documento é de grande importância, pois, embora não tenha força de lei, constitui-se em “um referencial norteador para subsidiar atos legais do poder público no que se refere aos processos específicos de regulação, supervisão e avaliação da modalidade citada” (SANCHEZ, ABRAEAD, 2008, p. 156). São oito os tópicos básicos elencados nos Referenciais de Qualidade: concepção de educação e currículo no processo de ensino e aprendizagem; sistemas de comunicação; material didático; avaliação; equipe multidisciplinar; infraestrutura de apoio; gestão acadêmico-administrativa; sustentabilidade financeira. Dentre eles, para nossa abordagem, cabe examinar o item Equipe Multidisciplinar. Embora balizado por colocações extremamente pertinentes – tais como a idéia pluralista de que não deve haver um modelo único para EaD, a concepção de conhecimento como construção e não mera transmissão, e a necessidade de qualificação permanente dos profissionais envolvidos – o documento atribui o adjetivo “docentes” exclusivamente aos professores, qualificando os tutores em outra categoria. Ou seja, nele, há bem nítida a dicotomia professores e tutores, que problematizamos ao longo desse artigo. Nossa posição não é a de desconhecer especificidades, nem de defender que não haja uma assimetria nessa relação. Temos uma preocupação muito grande em conceber professores e tutores desempenhando, conjuntamente, funções referidas à mediação docente. Quando afirma que a principal atribuição do tutor é o esclarecimento de dúvidas, vemos que os Referenciais ainda se dirigem, sobretudo, a práticas mais próximas da transmissão de conhecimento, onde a tutoria é uma função mais de suporte técnico ou repassadora, do que da propalada construção coletiva do conhecimento. Desse modo, diversas dúvidas se colocam, nas discussões sobre EaD, que vão desde a própria existência de professores até, principalmente, a identidade docente do tutor. Inicialmente, é preciso deixar claro que EaD não prescinde de professor, como se sua mediação pedagógica pudesse ser exercida por técnicos especialistas em informática. Ao contrário, a função docente se alarga. Segundo Belloni (2006, p. 84), Consideradas do ponto de vista da organização institucional, podemos agrupar as funções docentes em três grandes grupos: o primeiro é responsável pela concepção e realização dos cursos e materiais; o segundo assegura o planejamento e organização da distribuição de materiais e da administração acadêmica (matrícula, avaliação); e o terceiro responsabiliza-se pelo acompanhamento do estudante durante o processo de aprendizagem (tutoria, aconselhamento e avaliação). 73 Tem Professor na rede.indd 73 30/05/2010 10:39:42 O problema é que, como aponta a autora citada, o maior investimento tem-se dado nas funções do primeiro e do segundo grupos. Somente a partir da última década, as instituições que adotam uma perspectiva de aprendizagem aberta têm apresentado um maior investimento em atividades de tutoria. O que é a função de tutoria? Tutor é professor? A legislação não é clara na distinção entre tutor e professor, porém nos dá elementos para essa compreensão. Nesse sentido, podemos trazer o disposto da Portaria 4059/2004, em seu Art. 2º, quando prescreve (grifo nosso): § Único. Para os fins desta Portaria, entende-se que a tutoria das disciplinas ofertadas na modalidade semi-presencial implica na existência de docentes qualificados em nível compatível ao previsto no projeto pedagógico do curso, com carga horária específica para os momentos presenciais e os momentos a distância (grifo nosso). Outro exemplo, agora em âmbito estadual, é a Deliberação CEE-RJ no. 297/2006, que, ao tratar do quadro técnico e pedagógico para o funcionamento de cursos e programas a distância autorizados, explicita que “a função de tutoria terá que ser exercida por professores”. Assim, tais prescrições legais reforçam o entendimento de que essa mediação é uma função docente, tanto na tutoria específica de uma disciplina, quanto na tutoria como orientação de estudo. Marco Silva é um dos estudiosos de EaD que criticam a utilização do termo tutor, ao invés de professor. Em seu artigo Criar e professorar um curso online: relato de experiência, escreve que preferiu recorrer ao verbo professorar o título de seu trabalho, visando “garantir o papel do professor no ambiente online, reagindo assim à equivocada supressão do seu lugar em nome do ‘tutor’ ou da ‘tutoria’” (2006, p. 73). A luta por uma EaD de qualidade deve contemplar, além da qualificação docente dos tutores, suas condições de trabalho. O tutor não pode simplesmente absorver os conhecimentos transmitidos pelos professores, quer seja nos encontros presenciais esporádicos entre ambos, quer seja no sortilégio que as imagens de tais mestres “virtuais” possam exercer. Ele deve se permitir, cada vez mais, ousar saber, o que implica não a aceitação passiva dos conhecimentos obtidos, mas sim o questionamento destes mesmos conhecimentos (ZUIN, 2006, p. 949). 74 Tem Professor na rede.indd 74 30/05/2010 10:39:42 Nos cursos superiores a distância, professor e tutor muitas vezes se confundem, especialmente na prática de cursos de formação docente. Em meio a tantas ações profissionais, o professor hoje tem funções específicas dentro de um curso oferecido em ambientes online. Do ponto de vista político e de gestão, uma das propostas em voga é a de dividir tarefas e, portanto, responsabilidades. Na prática, essa divisão de docência tem-se apresentado: de um lado o professor, cujas funções se imbricam entre desenvolver o conteúdo, criar estratégias didáticas, estruturar o formato da disciplina (ou módulo) e acompanhar todas as atividades desenvolvidas pelo professor tutor. De outro lado temos o professor tutor (a distância), cujas funções se concentram nos processos de interação com os alunos e mediação pedagógica dos conteúdos e estratégias desenvolvidas pelo professor. Vejam que estamos, intencionalmente, utilizando o termo professor-tutor por considerarmos que o tutor a distância1 é também um docente e não simplesmente um animador ou monitor neste processo, e muito menos um repassador de pacotes instrucionais. Este profissional, como mediador pedagógico do processo de ensino e de aprendizagem, é aquele que também assume a docência e, portanto, deve ter plenas condições de mediar conteúdos e intervir para a aprendizagem. Por isso, na prática, o professor-tutor é um docente que deve possuir domínio, tanto tecnológico quanto didático. Considerando todos estes aspectos, implicados na qualidade dos cursos e no comprometimento com a aprendizagem dos alunos, não se justifica remuneração especialmente desvalorizada do professor tutor, como temos acompanhado nos cursos online, que precariza a própria docência. Tampouco a denominação de tutoria, que descaracteriza a função docente para profissionais que assumem a mediação pedagógica. Estes aspectos, nos cursos a distância, se considerarmos que a tutoria tem acontecido majoritariamente neste formato de educação2, deflagra intenções que podem comprometer a qualidade destes cursos. Porém, se de fato se pretende apenas que o tutor seja um monitor, um estagiário que irá auxiliar o professor, ele não deve assumir a responsabilidade da mediação pedagógica, trabalhar 1 Tutor a distância é o termo usado no Programa Universidade Aberta do Brasil para os profissionais que assumem atividades pedagógicas via ambiente virtual de aprendizagem, assumindo a mediação junto aos alunos. Diferente de tutor presencial, que neste Programa presta atendimento aos alunos no Polo, presencialmente. Neste artigo, estaremos sempre tratando das questões relacionadas ao tutor a distância. 2 Cabe, entretanto, fazer uma observação sobre a caracterização que este Decreto (nº. 5.622/2005 – complemento nosso) faz da educação a distância como uma ‘modalidade educacional’ (...). O Decreto de 1998 (...) caracterizava a EAD como ‘uma forma de ensino’, evitando o termo modalidade, que na tradição normativa brasileira de educação tem sido aplicada para caracterizar especificidades de ensino nos diversos graus ou níveis quanto a objetivos e público (exemplo: educação indígena, educação profissional). Aliás, o próprio Decreto (5.622/2005), no Art. 2º, lista os graus (ou níveis) e “modalidades educacionais” nas quais pode ser aplicada a EAD. Os termos “forma” ou “estratégia” contemplariam melhor o campo metodológico, no qual existe e se move a educação a distância (LOBO NETO, 2006, p. 405). 75 Tem Professor na rede.indd 75 30/05/2010 10:39:42 com os conteúdos específicos, fazer correções de avaliações etc. Neste caso, ele será apenas um gerenciador de atividades, um suporte para as questões tecnológicas, um orientador de estudos, e poderá, nestes casos, ser um estudante de cursos de licenciatura ou bacharelado. Mas, se for realmente assumir a mediação pedagógica e todas as responsabilidades que esta função requer, inclusive o domínio de conteúdo, há que se rever a remuneração deste profissional, bem como suas condições de trabalho e, de uma vez por todas, assumir que ele é também um professor. Assim, a nomenclatura “tutoria” deverá ser descartada ou reconceituada. As implicações destes docentes para os processos de ensino e de aprendizagem são muitas e apontaremos algumas delas ao tratarmos no curso de Pedagogia UAB-UFJF. Outro aspecto relacionado à docência online diz respeito ao estabelecimento de parâmetros quanto ao número de alunos atendidos. O Decreto 5.622/2005 aborda diversos aspectos que os projetos pedagógicos para os cursos e programas devem contemplar, mas não menciona a relação tutoria->número de alunos. Muitas instituições abusam dessa relação, expondo seus profissionais a uma superexploração. Isso vem se dando igualmente nas disciplinas semipresenciais permitidas pela Portaria dos 20%. Por sua vez, os Referenciais de Qualidade para Educação Superior a Distância, dentre outros pontos que o projeto político-pedagógico de uma instituição deva atender, fazem menção a quantificar a relação tutor/estudantes. Em outra passagem, explicita que o quadro de tutores previstos deve especificar a relação numérica estudantes/tutor capaz de permitir interação no processo de aprendizagem. Porém, também aqui percebemos que se evita a definição de um número que traduza tal garantia. Talvez não pudesse ser de forma diferente, pois tal proporção depende das opções epistemológicas, pedagógicas e metodológicas de cada curso. Assim, uma mesma relação numérica pode ser satisfatória ou excessiva, de acordo com as concepções adotadas. Como veremos, ainda que reconheçamos os pontos conflitantes existentes em torno da função de tutoria, estamos implementando um formato singular das ações destes profissionais no curso Pedagogia UAB/UFJF: nele, a ênfase na relação de tutoria se dá com os tutores a distância, especialistas nos conteúdos de uma dada disciplina. Temos trabalhado com a proporção 1/50. O número é superior ao desejado, porém concentrado em uma só disciplina. Contudo, tais relações numéricas estão longe de expressarem a média existente no Brasil. Na pesquisa feita para o Anuário AbraEAD (SANCHEZ, 2008), abrangendo 140 instituições, foi constatada, em 2007, a média de um profissional docente (professores, coordenadores, produtores de conteúdo, monitores e tutores) para 92 alunos. Vale mencionar que boa parte do que se ganha com a proporção alta, é perdido por uma evasão muito alta. Foi confirmado que um número menor de alunos por profissional acarreta menores índices de evasão. Afinal, basta um clique de mouse para o aluno evadir. 76 Tem Professor na rede.indd 76 30/05/2010 10:39:42 O curso de Pedagogia – UAB-FACED-UFJF Apresentamos, a seguir, uma análise (inicial) do Curso de Pedagogia a distância, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), do Sistema da Universidade Aberta do Brasil (UAB). Trata-se de um curso iniciado em 2007, com turmas que adentraram o 4º período do curso e outras que estão começando o 1º período. Nosso objetivo é apresentar os resultados parciais das investigações em andamento, bem como os caminhos percorridos e construídos. Longe de querermos oferecer mais um modelo a seguir, nossa intenção é compartilhar estes dados e abrir espaço para o diálogo. Este Curso de Pedagogia atende a dez polos, distribuídos pelo estado de Minas Gerais. Possui, atualmente, 12 professores, 98 tutores a distância e 30 tutores presenciais e 680 alunos. Em levantamento realizado pela coordenação de avaliação, no ano de 2008, podese perceber que os alunos são, em sua maioria, do sexo feminino, tiveram entre 11 a 12 anos de estudos na Educação Básica em escola pública, e têm, em média, uma renda mensal de até três salários mínimos. O projeto pedagógico do curso foi construído a partir da reformulação curricular desenvolvida para o Curso de Pedagogia (presencial) da mesma Universidade, o que veio ao encontro do objetivo da Faculdade de Educação (FACED), de não dividir em dois os cursos de Pedagogia (um a distância e um presencial), mas de buscar a mesma qualidade nos dois formatos. Tal projeto, apesar de contrariar alguns dos formatos priorizados pelo MEC para sua realização, foi aceito em sua proposta original. Ainda que discordemos do termo e das atribuições propostas pela UAB-MEC para a chamada tutoria, o curso é desenvolvido com a presença e atuação de profissionais intitulados tutores, mas que na prática são percebidos por nós como professores-tutores. A composição dos profissionais que atuam neste curso de Pedagogia, na forma online, é composta por: - professores (gestores-orientadores): são professores da UFJF (ativos ou aposentados), que assumem a docência em sua área de atuação e pesquisa. Responsáveis pelo planejamento e gestão das disciplinas, desenvolvem, junto aos professores tutores, as ações pedagógicas do curso. Devem orientar os trabalhos desenvolvidos, produzir ou selecionar materiais didáticos e estratégias para a aprendizagem no ambiente Moodle e orientar e acompanhar os professores tutores em suas ações junto aos alunos. Este educador acompanha as ações desenvolvidas pelos alunos e pode, com um olhar atento e observador, auxiliar nos redimensionamentos da ação docente do professor-tutor, a partir das emergências advindas do contexto. Ao longo do curso, este profissional passou a assumir também o papel de formador de formadores. 77 Tem Professor na rede.indd 77 30/05/2010 10:39:42 - professor tutor: mediador pedagógico nas disciplinas específicas, deve ter aderência à área de conhecimento em que irá atuar, domínio tecnológicos dos recursos disponíveis, especialmente a Plataforma Moodle, e disponibilidade para participar de cursos de formação, reuniões semanais e viagens aos polos, quando necessário. É selecionado por edital público e, em sua maioria, são pós-graduandos ou mestres e doutores. O projeto pedagógico do curso prevê que os professores-tutores assumam suas funções de mediadores em disciplinas específicas, retirando, desse modo, a condição de polivalência que este profissional teria. - equipe de coordenação: formada por professores e pesquisadores da UFJF, que se revezam na gestão da coordenação geral, assumem funções específicas, como: gestão e formação continuada dos tutores, desenvolvimento pedagógico, desenvolvimento de materiais didáticos, gestão administrativa e avaliação. Estas condições resultam num trabalho desenvolvido por equipes colegiadas, em que todos participam desse processo, articuladamente. Além disso, os materiais didáticos são selecionados e produzidos pela equipe técnicopedagógica do curso, composta por todos os profissionais nele atuantes. A opção é pela hipermodalidade e não pela fixação em materiais impressos, como proposto pelo MEC. A formação continuada de professores e de tutores é marca do Projeto Pedagógico e ocorre, sistematicamente, ao longo do curso, por meio de cursos, oficinas (presenciais), reuniões semanais (professores, coordenadores) e quinzenais (tutores), além da formação continuada a distância, via plataforma Moodle. Como dissemos, um estudo está sendo realizado com o objetivo de conhecer, mais profundamente, as vozes dos sujeitos envolvidos diretamente no processo de ensino e de aprendizagem. Tal investigação está em andamento e é parte dos projetos de pesquisa realizados no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da UFJF, mais especificamente pelo Grupo de Pesquisa Aprendizagem em Rede (GRUPAR). Apresentamos, a seguir, parte dessa investigação que envolveu questões específicas acerca do papel do professor e do tutor no Curso de Pedagogia: o lugar habitado pelo professor e pelo tutor no curso, o processo de mediação pedagógica desses sujeitos, as ações pedagógicas ocorridas no curso e seus desdobramentos para a docência online. Foi possível traçar um panorama do percurso trilhado até o momento e analisar algumas das implicações deste processo. Por meio de entrevistas, alguns professores e tutores apresentaram suas impressões sobre as ações desenvolvidas no curso, especialmente no que se refere à docência e ao processo de formação. Estas vozes indicam que há assimetrias na função docente e nos alertam para o redimensionamento constante nos encaminhamentos realizados até o momento. 78 Tem Professor na rede.indd 78 30/05/2010 10:39:42 Nesta etapa, onze educadores foram contatados, porém apenas cinco concordaram em participar das entrevistas. Como a pesquisa está em andamento, outros dados emergirão até a sua conclusão. Uma das questões norteadoras dizia respeito aos papéis do professor e do tutor no curso, bem como à mediação neste espaço. Em relação ao papel do professor e o do tutor (grifos nossos): Tutor 1: O professor pensa e organiza a estrutura do curso (...) participa verificando como a estrutura curricular que ele pensou está refletindo no aprendizado significativo dos alunos e pode reavaliar seu planejamento e se for o caso “mudar os rumos” da proposta inicial. O tutor executa a proposta (...) faz o caminho de comunicar o professor para reorganização ou mudança de rumo (...) e tem a responsabilidade de mediar e usar instrumentos para possibilitar o aprendizado. Tutor 3: Ficou bem claro a importância do professor como o detentor do conhecimento específico, insubstituível e gestor da organização da disciplina. O tutor deve atender ao aluno de uma maneira mais direta. Promover o suporte para que o educando se sinta componente do grupo. Professor 1: o professor é o responsável pela organização da disciplina e o tutor situado numa posição de aplicador das tarefas já preparadas pelo professor. As falas dos sujeitos apresentadas (tutores 1 e 3 e professor 1) ilustram com clareza que há um entendimento por grande parte dos educadores de que o professor é o “dono” da disciplina e, portanto, gestor, organizador, avaliador, detentor etc., enquanto o tutor é um repassador de conteúdos, aplicador, executor, suporte etc. Como explicitou o professor 1: “Acredito que acontece uma cisão entre o pensar e o fazer pedagógicos”. Ainda que em nosso curso o tutor seja visto como profissional da educação, mediador e corresponsável pela ação docente, esta postura não tem sido incorporada por todos os tutores. Indo mais longe, tais questões podem indicar o quanto estes profissionais estão se assumindo como meros executores. Isso ocorre sem que atentem para o que este processo pode representar para a educação e para a profissão docente. Contudo, nem todos os sujeitos entrevistados apresentaram a mesma percepção desta questão: Tutor 2: pude perceber o papel determinante do professor (...) Não poderia afirmar qual o papel de cada um (professor e tutor) pois estes se entrecruzam e alternam. Também não ouso dizer que isso acontecesse em todas as disciplinas do curso, pois, assim como no presencial, temos diferentes maneiras de conceber o processo de ensino aprendizagem. 79 Tem Professor na rede.indd 79 30/05/2010 10:39:42 Professor 2: espera-se do professor uma formação específica nos conteúdos com os quais trabalha, que por sua vez não é exigida do tutor. Entretanto, a relação pedagógica que se estabelece com os alunos os coloca num mesmo lugar: o de facilitador do processo de aprendizagem, de problematizador, de canal para os alunos do conhecimento a ser estudado. Esses sujeitos apresentam um olhar diferenciado para a questão, colocando estes os educadores (professor e tutor) como parceiros, ou possíveis parceiros. Isso pode indicar um processo, ainda que lento, de mudanças na concepção do que hoje chamamos de “professor coletivo”, uma vez que o fosso que se abre, hierarquicamente, entre esses educadores é relativizado. Porém, ainda que haja simbolicamente uma fusão dessas funções ou um compartilhamento da ação docente, a fala do tutor 2 indica que o processo está nas mãos do professor, que pode (ou não) desenvolver um relação partilhada. Nesse sentido, novamente o papel do tutor é de coadjuvante do processo de docência, ainda que assuma na prática a função de mediador no processo. Isso fica claro na fala do professor 2, que pontua o papel e a função de cada um. Mais uma vez, as falas dos sujeitos ratificam os alertas apresentados pelos autores estudados, como Marco Silva, que refuta o termo tutoria, por compreender que tal função é, de fato, a de professor (professorar). Isso indica contradições entre o que é apresentado no Referencial de qualidade (2007), quando atribui ao tutor a função de “tira-dúvidas” ou suporte técnico, e o que ocorre na prática. Também na Portaria 4059/2004, em seu Art. 2º, ainda que não defina o tutor como um professor, ao apontar “existência de docentes qualificados em nível compatível ao previsto no projeto pedagógico do curso, com carga horária específica para os momentos presenciais e os momentos a distância (grifo nosso)” pode deixar margem para que tal docência possa ser assumida pelos tutores, uma vez que é ele (tutor) quem tem relação mais intensa e direta (mediadora) com os alunos. Aspectos envolvendo concepções e ações pedagógicas e o processo de mediação foram apresentados pelos sujeitos de forma convergente: Tutor 2: (o curso) formou minha concepção sobre docência na UAB. Temos no nosso curso o PROFESSOR COLETIVO que é formado pelo professor e o seu grupo de tutores. Estes, conjuntamente, são os responsáveis pela ação pedagógica do nosso curso. Tutor 3: O ensino na modalidade a distância corre um risco maior de provocar um desânimo... Tal atendimento deve se dar uma forma individual e humana – aquecendo a relação homem X máquina. O mais brilhante é que aprende o aluno e o tutor. 80 Tem Professor na rede.indd 80 30/05/2010 10:39:42 Professor 2: A mediação do professor deve se manifestar explicitamente para os alunos, pois a presença constante do tutor em seu polo, por vezes eclipsa, perante os alunos, o papel do professor. A prática da docência online (vale dizer que a maioria dos sujeitos teve sua primeira experiência em educação online neste curso de Pedagogia) está se constituindo como algo possível, mas o esteio nas referências advindas do presencial emerge o tempo todo. Se por um lado o tutor 2 apresenta a concepção de professor coletivo, por outro, como indicado anteriormente, compreende que a relação está nas mãos do professor, que pode ou não se dar coletivamente. Em outra direção, mas de forma complementar, o tutor 3 sinaliza uma mediação mais individualizada, compreendendo a necessidade de humanizar as relações entre os sujeitos da aprendizagem. Este tutor ainda indica, ainda que veladamente, quem são esses sujeitos: o aluno e o tutor. Os cuidados com a mediação e com a criação de vínculos (dada a distância espacial e temporal) adquirem um mote significativo na fala do Professor 2, quando ele alerta para a mediação como processo que deva também ser assumido pelo professor. Ao percebermos este alerta, podemos compreender que o processo de mediação está prioritariamente nas mãos do tutor. No processo de mediação pedagógica, os papéis de professor e alunos podem se fundir para se auto-construírem, na medida em que se auto-organizam à luz das aprendizagens emergentes. Desta relação se constituem parcerias, nas quais todos aprendem a trabalhar colaborativamente. Nos ambientes de aprendizagem online, a colaboração e a parceria são fundamentais, o que incita-nos a buscar formas cada vez mais ousadas de mediação (BRUNO, 2008). Embora ainda esteja em construção, o desejo de trabalhar em parceria é latente em boa parte destes sujeitos. Há necessidade, porém, de se definir com clareza os papéis e funções de cada um, pois é notória a visão desencontrada e desconfortável de alguns dos sujeitos entrevistados. A transparência e a objetividade quanto a esta e outras questões nos documentos oficiais se faz premente. No que tange aos espaços de formação criados no Curso (reuniões de professorescoordenadores, de tutores-professores e formação de educadores), os sujeitos apresentam percepções muito semelhantes. Tutor 1: importante para início da discussão do que é educação a distância, do domínio dos instrumentos e para repensar o curso. Tutor 2: Nos auxiliavam nas relações que poderíamos fazer com a teoria e o objetivo da disciplina. As leituras indicadas para os alunos e nossos debates no espaço virtual sobre elas, somados com as idéias que surgiam davam forma a disciplina. 81 Tem Professor na rede.indd 81 30/05/2010 10:39:43 São espaços para que diferentes vozes dialoguem entre si. Tutor 3: no início me sentia um “patinho fora da água” (...) Com o passar do tempo, senti-me forte e segura, tenho a convicção de que foram os professores, com os quais lidei, que me forneceram tal condição. Professor 1: selecionei tutores que trabalham na mesma perspectiva, tendo sido formados pelo nosso grupo de estudos e pesquisas (...) já conheciam os textos selecionados para o trabalho e pudemos focar na aprendizagem dos conteúdos pelos alunos. Sempre é positivo o diálogo, a troca de experiências, aprendi muito com os colegas, tendo alterado algumas ações a partir das colocações nestas reuniões. Professor 2: analisar o desenvolvimento das disciplinas uns dos outros constitui o espaço privilegiado de aprendizagem e troca. Discutir o encaminhamento do trabalho do ponto de vista de conteúdos e métodos, tarefas, avaliações, etc. A formação continuada (dos tutores) pode fornecer elementos para que cresçam (a larga experiência pode levá-los a se acomodarem). As falas dos sujeitos apontam para diversas questões. É unânime a valorização dos espaços de formação propostos pelo curso. Todos qualificam esses espaços como potenciais para as trocas, diálogos e redimensionamentos coletivos. Os dados informam que estamos construindo um caminho favorável para a integração, a formação continuada e o crescimento para todos. Porém, é evidente que estes espaços ainda estão cindidos, embora o tutor 2 apresente uma visão mais otimista. Nos espaços em que a formação se dá entre professores e tutores, o “tom” é dado pelo professor, embora todos reconheçam que os espaços estão a caminho da esperada dialogia. O professor 2 aponta ainda o aspecto da acomodação advinda da qualificação docente do tutor, que pode surgir especialmente por parte do mais qualificado em relação aos demais. Este é também um ponto a ser trabalhado. A busca por tutores qualificados e com aderência às áreas trabalhadas no curso ganha força na fala dos Professores. Tal aspecto vem ao encontro da visão do tutor como docente, apresentada ao longo do presente texto. Se há um movimento, por parte das políticas públicas, de expandir e atender um maior número de alunos, como indicado por Barreto (2008), tais articulações têm deixado lacunas significativas na implantação de projetos de formação, levando as instituições educacionais promotoras dos cursos a buscarem caminhos, de modo a primar pela qualidade dos cursos a distância oferecidos. A valorização dos processos de formação continuada dos tutores que atuam no Curso de Pedagogia a distância da UFJF é forte indicativo das soluções encontradas pelas instituições para atenuar os problemas existentes. 82 Tem Professor na rede.indd 82 30/05/2010 10:39:43 Por fim, a fala do professor 1 sintetiza as discussões apresentadas ao longo deste texto e ratifica as idéias aqui debatidas: Mas é fato a desprofissionalização do ser professor, colocando alguém como intermediário na relação do professor com os alunos, sem uma seleção com o rigor que a seleção do professor universitário exige, recebendo menos e muitas vezes privilegiando seu conhecimento da plataforma em detrimento dos seus saberes pedagógicos e da disciplina em questão. Considerações finais Diversos pontos aqui apresentados, passíveis de análise a partir de documentos disponibilizados pelos órgãos oficiais e ilustrados por alguns dos sujeitos de pesquisa do Curso de Pedagogia a distância da UFJF, podem sugerir, como analisa Barreto (2008), uma abordagem neotecnicista, na medida em que é retomada ênfase na técnica e não nos sujeitos do processo. O papel de “tarefeiro” das ações pedagógicas em cursos online, atribuído ao tutor, focaliza este profissional como responsável integral pela mediação pedagógica nestes contextos, conforme indicou a prática de cursos a distância, como os desenvolvidos pela UAB. Apesar dos papéis definidos destes sujeitos (o tutor como executor de ações pensadas pelo professor e o professor como organizador da disciplina), o que de fato tem ocorrido nos cursos é uma divisão de trabalho em que, de acordo com sua concepção de educação, o professor poderá estabelecer parceria entre suas ações e as do professor-tutor. Caso haja essa parceria, o professor-tutor se torna corresponsável por todo o processo, contribuindo em todas as instâncias, tais como gestão, autoria etc. A centralidade do professor ainda é um aspecto a ser debatido. Porém, o desenho didático de grande parte dos cursos é nela embasado, seja pela posição que o professor tutor é obrigado a assumir pela proposta do MEC, seja pelo projeto pedagógico que, ainda que se proponha à criação de espaços dialógicos, fica “amarrado” nos papéis impostos ao tutor e ao professor. Mais do que referenciais de qualidade que abarquem aspectos pedagógicos e ideológicos, há que se acordar (legislar) aspectos administrativos, financeiros e de carreira docente. Esses aspectos permitirão oferecer a todos os profissionais da educação plenas condições de realização de cursos de qualidade, para que não sejamos “cúmplices” na gestação e desenvolvimento de formações “mancas” que identifiquem a Educação a Distância com cursos de segunda linha. Precisamos partir da atual cultura de separação, para a de convergência de mídias, de profissionais e de recursos, advinda da cibercultura, em que a mediação técnica, dominante na EaD, possa se integrar à mediação pedagógica, superando a concepção bancária, ainda latente no cenário educacional. 83 Tem Professor na rede.indd 83 30/05/2010 10:39:43 Referências BARRETO, Raquel Goulart. As tecnologias na política educacional de formação a distância: entre a expansão e a redução. Educ. Soc., Campinas, v. 29, n. 104 - Especial p. 919-937, out. 2008. Disponível pelo endereço: http://www.cedes.unicamp.br. Acessado em janeiro de 2009. BELLONI, Maria Luisa. Educação a Distância. Campinas: Autores Associados, 2006. BRUNO, Adriana Rocha. Aprendizagem integradora e a didática online: contribuições para a formação do educador. Anais do III Congreso Mundial de Estilos de Aprendizaje – Cáceres (ES), ocorrido no período de 7 a 9 de julho de 2008. BRASIL. Lei no. 9.394, de 20 dez. 1996. 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A primeira parte do texto, na qual discutimos a relação entre formação de professores e as novas tecnologias da informação e comunicação, foi produzida, inicialmente, como parte de um projeto de pesquisa apresentado à Funadespe3, no primeiro semestre do ano de 2009. Posteriormente, incorporamos àquele texto algumas reflexões desenvolvidas a partir da experiência de uma das autoras com a formação inicial de professores na modalidade a distância, sendo este o texto que ora se apresenta. Nosso objetivo é desenvolver uma reflexão sobre os desafios, possibilidades e limites da formação inicial de professores na modalidade a distância, sob o ponto de vista do formador. Para isso, apresentamos e discutimos nossa experiência como docente de uma disciplina do curso 1 Doutora em Educação. Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, atuando nas modalidades presencial e a distância. 2 Doutora em Educação. Professora do Mestrado em Educação da Universidade Presidente Antônio Carlos. 3 Fundação Nacional de Desenvolvimento do Ensino Superior Particular. Tem Professor na rede.indd 85 30/05/2010 10:39:43 de Pedagogia da Universidade Federal de Juiz de Fora na modalidade a distância, no âmbito do sistema da Universidade Aberta do Brasil. Inicialmente, contextualizamos a proposta de formação de professores na modalidade a distância e o papel do Sistema UAB naquela proposta. Em seguida, discutimos novas formas de interação e mediação que se estabelecem na formação a distância e, finalmente, analisamos as repercussões dessas novas formas de interação e mediação na experiência de formadores e formandos. Formação de professores na modalidade a distância: uma possibilidade? No Plano Nacional de Educação – PNE4 – a educação a distância é apontada como importante instrumento auxiliar no processo de universalização e democratização do ensino. É enfatizada a prioridade do Ministério da Educação com relação à atualização e ao aperfeiçoamento dos professores para o ensino fundamental, tendo como instrumento o uso das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação – NTICs. Para atender à prioridade de formação e aperfeiçoamento de professores, o Ministério aponta a necessidade de um projeto de universidade aberta “que dinamize o processo de formação de profissionais qualificados, de forma a atender às demandas da sociedade brasileira” (BRASIL, PNE, 2001). Como decorrência das metas estabelecidas pelo PNE em 2001, surge, em 2005, a Universidade Aberta do Brasil. A Universidade Aberta do Brasil é um programa do Ministério da Educação criado em 2005, no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação, com o objetivo de levar a educação pública de qualidade aos diversos municípios brasileiros, se inserindo num movimento pela democratização do acesso ao ensino superior. A UAB se organiza a partir de uma articulação entre as esferas federal, estadual e municipal de governo e é assumida por diferentes universidades. O objetivo do Programa é, de acordo com informações disponíveis no site do MEC5, “chegar a 2010 com mais de mil polos em funcionamento e, por conseguinte, alcançar um total de 300 mil novas vagas no sistema de educação superior”. Sua prioridade é a formação de professores da educação básica, a partir da oferta de cursos de licenciatura e de formação continuada. Percebe-se, portanto, a abrangência da proposta da UAB e o lugar que ocupa nas políticas públicas de formação de professores, não sem críticas de diferentes segmentos envolvidos com as questões educacionais. As críticas atualmente feitas aos modelos de Educação a Distância têm-se concentrado na preocupação com um barateamento da 4 Lei nº 1.172, de 9 de janeiro de 2001. 5 www.uab.mec.gov.br/conteudo. 86 Tem Professor na rede.indd 86 30/05/2010 10:39:43 formação e a consequente perda de qualidade dos cursos; na dificuldade de controle dos processos de aprendizagem dos alunos; na redefinição do papel do professor nesta modalidade, cuja figura é, muitas vezes, substituída pela figura do tutor, que nem sempre dispõe de formação adequada à função e, em muitos casos, recebe remuneração inferior à do professor, dentre outras questões. Portanto, essa nova realidade impõe desafios aos formadores, no que se refere: aos processos de produção e de difusão de conhecimentos sobre o ensino e a aprendizagem; às formas de conceber e implementar esses processos, considerando as características peculiares aos processos de aprendizagem de adultos; às novas relações que se estabelecem com a entrada de novos atores na cena educacional e; ao papel das novas tecnologias da informação e da comunicação na formação docente. Nesse sentido, cumpre apresentar, inicialmente, dentro dos limites da proposta deste texto, algumas considerações sobre a formação de professores frente à realidade das assim chamadas Novas Tecnologias da Informação e Comunicação – NTICs. A formação de professores e o debate sobre as NTICs: para além da técnica, a atividade formadora A formação de professores tem sido tema recorrente nos debates educacionais sobre a eficácia da escola e seu papel no contexto de uma sociedade caracterizada por mudanças que afetam as relações dos sujeitos entre si, com a cultura e com o conhecimento. Nesse contexto de mudanças, a relação dos professores com o saber, tanto os saberes que ensinam, quanto os saberes sobre como ensinar, tem sido objeto de pesquisas que buscam uma aproximação com o tema a partir de diferentes enfoques. Brzezinski e Garrido (2001), em seu levantamento sobre os trabalhos apresentados no Grupo de Trabalho “Formação de Professores” da ANPEd6 , constatam que, no período entre 1992 e 1998, a preocupação maior dos pesquisadores da área tem-se concentrado nos cursos de formação em nível superior. As autoras concluem que estes têm sido continuamente questionados, e indagam: até que ponto os cursos de formação inicial de professores estariam respondendo às demandas da sociedade pós-industrial, da revolução tecnológica, marcada pela produção científica, pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e informação, por desigualdades, tensões sociais alarmantes e por novas formas de exercício da cidadania? (Idem, p. 96). 6 Associação Brasileira de Pós-Graduação em Educação. 87 Tem Professor na rede.indd 87 30/05/2010 10:39:43 As respostas a estas questões se vinculam a uma reflexão sobre os paradigmas que vêm orientando a formação de professores e sobre as demandas que vêm se colocando para esses profissionais na contemporaneidade, advindas, principalmente, de uma das principais características da sociedade pós-industrial: a centralidade atribuída aos meios de comunicação de massa e seu papel na produção e difusão da informação. Que papel esses meios têm exercido na formação dos professores? Alava (2002) destaca que as pesquisas que se voltam para a integração das novas tecnologias ao campo educacional têm atribuído centralidade à técnica, superestimando seus aspectos positivos ou negativos, numa perspectiva de causalidade linear entre a adoção das novas tecnologias e os resultados em termos de aprendizagens. Tal perspectiva, segundo o autor, tem estado presente tanto entre os defensores das novas tecnologias, quanto entre aqueles que têm sobre elas um olhar mais crítico. É ainda Alava (idem) que enfatiza que “a atividade formadora que engloba o ato de ensinar deve estar no centro das pesquisas em educação, se se pretende superar o quadro processo/produto depois de ter identificado suas lacunas” (p. 56). Essa atividade formadora adquire novos contornos num curso de formação inicial de professores na modalidade a distância, uma vez que as interações entre os sujeitos se diferenciam não apenas em função do distanciamento físico entre formadores e formandos no ambiente virtual, mas também pela inserção de novos atores neste processo, como é o caso dos tutores. Portanto, as relações entre os sujeitos e os objetos do conhecimento apresentam peculiaridades, tanto pela inserção dos instrumentos tecnológicos no processo, quanto pela ampliação das mediações entre o sujeito e o conhecimento, do ponto de vista qualitativo – são de outra natureza que aquelas existentes no ensino presencial – e do ponto de vista quantitativo, vez que ocorre uma ampliação das esferas de mediações – relações professor/tutor; professor/alunos; tutor/tutor; tutor/alunos etc. É sobre essas peculiaridades que passamos a refletir a seguir. Como já apontamos, as possibilidades de uso das novas tecnologias para a educação têm sido objeto de debates acalorados, gerando posicionamentos muitas vezes divergentes e até opostos. Entretanto, um ponto em comum tanto entre os entusiastas da técnica, quanto entre seus críticos mais contundentes, é a constatação de que essas tecnologias estabelecem formas qualitativamente diferentes de relação entre os sujeitos e destes com o conhecimento: assistimos, na contemporaneidade, ao estabelecimento de relações entre sujeitos, tempos e espaços radicalmente novas, que diferem daquelas instituídas pelo advento da Modernidade. A intensificação do processo de globalização se caracteriza não apenas como um fenômeno econômico, mas também por novas formas de ver o mundo, de estabelecer relações nesse mundo e de aprender. Belloni (2003), apoiando-se em Giddens (1997), 88 Tem Professor na rede.indd 88 30/05/2010 10:39:43 destaca que a globalização estabelece novas formas de relação dos indivíduos com o tempo e o espaço, que repercutem em novos modos de operar das sociedades, alteram a relação entre os indivíduos e, consequentemente, sua relação com o conhecimento e o saber. Portanto, os sentidos e significados dessas novas relações só podem ser devidamente dimensionados a partir de uma noção clara de saber. Charlot (2000), citando Moteil (1985), estabelece uma distinção entre informação, conhecimento e saber. Para o autor, a informação é um dado exterior ao sujeito, que pode ser armazenado, estocado. O conhecimento é fruto da experiência de um sujeito dotado de qualidades afetivo-cognitivas, estando sob a primazia da subjetividade. O saber, por sua vez, é produzido pelo sujeito confrontado a outros sujeitos. Baseado nessa diferenciação, Charlot afirma: “não há saber senão para um sujeito, não há saber senão produzido em uma ‘confrontação interpessoal’” (2000, p. 61). A concepção de saber enunciada por Charlot aponta a centralidade das interações e mediações nos processos de construção de conhecimento. Na contemporaneidade, essas interações e mediações são atravessadas pela presença marcante de novas mídias, dando origem ao fenômeno da midiatização, assim definido por Sodré (2006): Está presente na palavra mediação o significado da ação de “fazer ponte” ou fazer comunicarem-se duas partes (o que implica diferentes tipos de interação), mas isto é na verdade decorrência de um poder originário de descriminar, de fazer distinções, portanto de um lugar simbólico, fundador de todo conhecimento. A linguagem é por isso considerada mediação universal (p. 20). Ainda para Sodré (idem), o conceito de midiatização diz respeito a um tipo particular de mediação, caracterizada por um tipo também particular de interação: as tecnomediações, ou seja, as mediações sociais caracterizadas pela interação com os instrumentos tecnológicos. Esses são conceitos importantes para compreendermos as repercussões que a introdução de novas mídias trazem às relações entre os sujeitos nos processos de ensino e aprendizagem. A interação com as novas mídias no ambiente educacional muda a natureza das mediações entre os sujeitos e entre esses e os objetos do conhecimento, sendo este um processo que perpassa as situações de ensino, tanto na modalidade presencial, quanto na modalidade a distância – especialmente nesta última. Desde a sua origem, em fins do século XIX, a EaD tem passado por fases que se caracterizam pela incorporação de diferentes tecnologias aos processos de ensino e aprendizagem. Tais fases possibilitaram maneiras diversas de organização desses processos. Entretanto, há que se considerar que a mediação das novas tecnologias da informação e da comunicação, presentes em ambientes virtuais de aprendizagem, se diferenciam de 89 Tem Professor na rede.indd 89 30/05/2010 10:39:43 outras tecnologias utilizadas nos modelos de EaD do passado, pois não se caracterizam meramente por seu caráter instrumental. As novas tecnologias, por permitirem o acesso à informação em tempo real, a interatividade entre os sujeitos e, ainda, a circulação por vários espaços simultaneamente, introduzem um novo modo de relação entre os processos simbólicos e as formas de produção e circulação de bens e serviços. Os ambientes virtuais passam a se constituir, portanto, em instâncias de articulação de diversos saberes e formas de aprender; e a EaD, em ambientes mediados pelo uso das NTICs, adquire contornos bem diversos daqueles que remontam à sua origem, ganhando destaque essa modalidade de educação por suas potencialidades. Referindo-se a esses novos ambientes de aprendizagem, Martín Barbero (2006) fala do surgimento de um meio educacional fortemente descentrado do sistema educativo formal, que está organizado em torno da escola e do livro, com a oferta de um saber centralizado e personificado nas figuras sociais que o administram. Considerando o exposto até aqui, conclui-se que, se as novas tecnologias da informação e comunicação, por um lado, permitem uma ampliação considerável das possibilidades de relacionamentos entre os sujeitos, por outro lado estabelecem novas regras para esses relacionamentos. As mediações que se dão entre os sujeitos da aprendizagem passam a requerer a mediação dos aparatos tecnológicos, exigindo dos indivíduos não apenas o domínio dos códigos linguísticos, mas também o domínio do aparato tecnológico que materializa esses códigos. Além disso, os ambientes virtuais de aprendizagem oferecem a possibilidade de integração entre cultura escrita e cultura audiovisual, o que estabelece novas formas de relação dos sujeitos entre si e com o saber. Como essa nova realidade impacta os processos de formação? É sobre essa questão que refletiremos no tópico a seguir, a partir do relato de nossa experiência como docente. Uma experiência de formação de professores a distância: ressignificando a atividade formadora “(...) o sujeito da experiência é aquele que sabe enfrentar o outro enquanto que outro e está disposto a perder o pé e se deixar tombar e arrastar por aquele que lhe vai ao encontro: o sujeito da experiência está disposto a se transformar numa direção desconhecida” (Larrosa, 1999). A perspectiva de experiência enunciada por Larrosa na citação que abre este tópico tem sido um norte para nossa prática na formação de professores, tanto na formação inicial, em cursos de Pedagogia e Normal Superior, quanto na formação continuada, em 90 Tem Professor na rede.indd 90 30/05/2010 10:39:43 cursos de especialização e de formação em serviço nos quais temos atuado. A dimensão formativa do encontro com o outro tem orientado nossa formação. Nessa experiência profissional, esse encontro tem sido sempre físico, no ambiente das salas de aula, no qual aquilo que percebemos do outro e que ele percebe de nós chega a partir das imagens que temos de nossos corpos físicos e que inclui as entonações das vozes, os gestos, o conhecimento de nossas histórias. Tudo isso vai se fazendo ao longo de uma convivência que às vezes tem a duração de alguns semestres letivos e às vezes não passam do curto espaço de tempo de um Módulo de estudos ou de uma palestra, mas que, em qualquer dos casos, assume sempre uma dimensão corpórea. Portanto, o fato de não estarmos fisicamente em contato com os alunos foi um primeiro desafio que se impôs, quando fomos convidadas a desenvolver a disciplina “Ludicidade e Educação” do curso de Pedagogia da UAB/UFJF. No ambiente da plataforma Moodle, espaço virtual no qual se desenvolvem as disciplinas do referido curso, professores, tutores e alunos interagem a partir das diferentes ferramentas oferecidas pela plataforma – fóruns, chats, wikis –, através da escrita. A interação face-a-face, na qual a linguagem oral é privilegiada, é substituída pela interação no ambiente virtual, que pode até se dar em tempo real, com uso da oralidade mas, em geral, é mediada pela escrita. Aprender a reconhecer o outro e a estabelecer com ele uma interação satisfatória por meio do texto escrito é um grande desafio para o professor, acostumado ao uso da palavra para este fim, e também para o aluno que, especialmente nos períodos iniciais do curso, se sente inibido em expor sua escrita, com receio de que ela seja julgada incorreta, precária, ou que o julguem incapaz de se expressar competentemente por escrito. Quanto àqueles recursos que podem trazer as vozes e/ou imagens dos sujeitos, como é o caso de áudios ou vídeos: ao produzi-los, o professor precisa considerar um interlocutor virtual, antecipando suas dúvidas, questionamentos ou possíveis intervenções. Nesse processo, ele se orienta por aquilo que já conhece do grupo com o qual trabalha, sendo esse conhecimento, aliado àquele dos conteúdos da disciplina – o recurso do qual se vale para organizar seu discurso. Nesse caso, não é possível reorganizar o discurso em função da contrapalavra do interlocutor, pois esta só chega ao professor em momento posterior (nos fóruns de discussão, por exemplo). Do mesmo modo, o aluno só pode se posicionar com relação àquilo que viu e/ou ouviu em momento posterior. Entretanto, se por um lado não é possível se ter uma resposta imediata a dúvidas eventuais, por outro esta impossibilidade pode estimular a busca por outras fontes de informação e esclarecimento. Essa busca, quando bem orientada, favorece uma autonomia progressiva do aluno com relação aos seus processos de aprendizagem, um dos objetivos da educação na modalidade a distância. 91 Tem Professor na rede.indd 91 30/05/2010 10:39:43 Na nossa experiência docente na modalidade a distância, a impossibilidade de estar com os alunos presencialmente gerou, inicialmente, uma necessidade de movimentação “às escuras”, orientada por uma palavra alheia presumida, em função da qual nosso discurso deveria ser orientado. O outro está ali, sem dúvida. Eu o conheço e aquilo que dele conheço e o que de mim ele conhece orienta nossas intervenções, nossas “falas”, portanto essa não é uma experiência solitária. Entretanto é, pelo menos aparentemente, mais exigente em termos da capacidade dos sujeitos de se deslocarem de seus lugares e perceberem o lugar do outro. O bastante, inclusive, para antecipar algumas de suas possíveis questões - pois é essa percepção que orientará as intervenções. Ao longo do desenvolvimento da disciplina “Ludicidade e Educação”, buscamos, juntamente com os tutores da disciplina7, enfrentar o desafio de estar com o outro virtualmente pela conjugação de alguns recursos tecnológicos que pudessem dialogar mais intensamente com a experiência dos cursistas, a partir da utilização de múltiplas linguagens que dialogassem com essa experiência e pela escuta da contrapalavra oferecida pelos cursistas a essa linguagens, através dos fóruns de discussão. Assim, ao iniciarmos o trabalho, buscamos promover uma aproximação dos cursistas com a temática da disciplina, a partir de uma experiência estética com as obras de Cândido Portinari, na série na qual o pintor retrata brincadeiras de infância. Para isso, abrimos, na página da plataforma Moodle, um link para o site www.portinari.org.br/candinho/candinho/ abertura.htm, que oferece a possibilidade de um passeio por uma série de pinturas do artista, nas quais são retratadas brincadeiras de diferentes épocas. Tal procedimento funcionou como um elemento mobilizador do grupo, provocando um diálogo entre as representações do artista e as vivências dos cursistas. Esse diálogo, mediado pela contrapalavra do professor da disciplina e dos tutores, trouxe novos elementos para que os cursistas refletissem sobre a experiência lúdica em suas próprias vidas e no contexto educacional mais amplo, favorecendo a aproximação com aspectos mais teóricos da temática envolvida na disciplina. Por outro lado, ofereceu à professora e aos tutores elementos para melhor se aproximarem dos alunos, conhecendo esses sujeitos a partir do modo como se posicionavam em relação à experiência estética de apreciação das obras do pintor. Outro recurso utilizado ao longo da disciplina foi a construção de um diário pessoal, no qual os cursistas registravam suas experiências lúdicas, focalizando diferentes aspectos dessa experiência em diálogo com as Unidades de estudo abordadas. A ferramenta “diário”, disponibilizada na plataforma Moodle, oferece a possibilidade de 7 Atuaram como tutores da disciplina os professores: Anderson dos Santos Romualdo, Edilene Maria Lopes, Suzi Mara Almeida Passos, Glaucia Cavalieri, Maria Leopoldina Pereira, Luciana de Oliveira e Silvana Souza. 92 Tem Professor na rede.indd 92 30/05/2010 10:39:43 fazer inserções, modificações e revisões ao longo de todo o processo de construção do texto. Sendo assim, a mediação do professor e dos tutores do curso se deu no sentido de provocar a ressignificação, pelos cursistas, das memórias registradas no diário, a partir da incorporação dos elementos abordados no plano teórico. Embora produtivo, o uso da ferramenta ficou, em alguns casos, prejudicado pela dificuldade do cursista em utilizar a linguagem escrita como forma de expressão, tendo provocado certa inibição. A despeito dessa limitação, através da ferramenta diário foi possível identificar peculiaridades do grupo com o qual trabalhávamos: em sua maioria era composto por pessoas que viveram a infância no meio rural, com experiências lúdicas muito voltadas para o contato com elementos da natureza e com outras crianças. Tais características, como percebemos mais tarde, influenciavam fortemente uma concepção, por parte dos cursistas, de que a criança urbana da contemporaneidade – em sua maioria, vivendo experiências bem diferentes daquelas vividas pelos cursistas – não teriam infância. As percepções acerca do grupo, advindas da análise dos diários, funcionaram, dessa forma, como ferramentas para que professora e tutores pudessem penetrar, mais intensamente, na experiência do outro num movimento recíproco, já que também os tutores e a professora da disciplina compartilharam suas experiências. Em outros momentos, o recurso à fotografia também foi utilizado como forma de problematizar algumas concepções dos cursistas com relação a temas abordados na disciplina, como, por exemplo, a concepção de infância. A seleção de fotos de crianças de diferentes tempos e culturas, envolvidas em atividades lúdicas, e a sua apresentação em slides, acompanhadas de um roteiro de orientação para a leitura das imagens, contribuiu para problematizar as concepções de infância evidenciadas por alguns cursistas e fortemente referenciadas nas experiências individuais dos sujeitos. Nesse caso, a própria escolha das cenas e sua organização numa determinada sequência foram uma forma de responsividade às intervenções dos cursistas nos fóruns de discussão e nas tarefas propostas na disciplina, uma vez que professora e tutores se valeram dessas intervenções para escolher quais situações privilegiar nas fotos e como as mesmas poderiam dialogar com as percepções mais imediatas dos cursistas. A utilização dos recursos apresentados até aqui foi possibilitada pela inserção de novas mídias no processo de ensino e aprendizagem. Portanto, a mediação dos aparatos tecnológicos foi um fator diferenciador desse processo com relação ao que muitas vezes se dá no ensino presencial. No entanto, esses aparatos não são suficientes para assegurar o sucesso do processo. Estiveram em jogo as mediações entre sujeitos, que adquiriram a peculiaridade de se configurarem a partir de um diálogo entre os envolvidos, não na perspectiva do diálogo face a face, mas numa acepção de dialogia, compreendida como diálogo entre textos produzidos em diferentes tempos e espaços. Nessa perspectiva, para oferecer sua 93 Tem Professor na rede.indd 93 30/05/2010 10:39:43 contrapalavra aos alunos, o professor não dispõe da possibilidade de uma leitura corporal de seu interlocutor, mas deve fazer essa leitura nas entrelinhas do que seu interlocutor manifesta em suas produções escritas, nos fóruns de discussão e nos textos que produz nas tarefas da disciplina, ou mesmo em seus silêncios e suas ausências nos espaços virtuais da disciplina. Finalmente cumpre destacar que, nesse processo de mediação, o professor compartilha seu lugar de organizador e dinamizador da disciplina com a figura do tutor, também ele um mediador privilegiado nos processos de ensino e aprendizagem. Na organização do curso de Pedagogia a distância da UAB/UFJF, o tutor a distância tem o papel de dinamizar as disciplinas nos diferentes polos nos quais o curso é ministrado. É ele quem interage mais diretamente com os cursistas no espaço da plataforma, embora o professor também possa – e deva – participar dessas interações. Há, ainda, a figura do tutor presencial, que deverá atuar como orientador de estudos dos cursistas nos polos. Torna-se necessária, portanto, uma articulação entre tutores presenciais, tutores a distância e professores das disciplinas no desenvolvimento dos conteúdos e também nos processos de acompanhamento das aprendizagens dos cursistas. Tal articulação requer que o professor compartilhe com os tutores seu lugar de organizador dos processos de ensino e aprendizagem e, principalmente, seu lugar de autoridade, historicamente construído, nesses processos. Temos, portanto, uma rede de formação cujas malhas representam mediações de diferentes naturezas, e na qual as mídias funcionam como pontos que atam essas malhas. Estão em jogo as tecnomediações – mediações sociais caracterizadas pela interação com os instrumentos tecnológicos – mas também as mediações, nas quais a interação com o outro faz a ponte entre os sujeitos e entre estes e os objetos do conhecimento. Ainda longe das conclusões A partir da experiência relatada, algumas ideias iniciais sobre os sentidos e significados da formação de professores na modalidade a distância foram ressignificadas e novos desafios se apresentaram à atividade formadora. A ideia de que a experiência na educação a distância se organiza sobretudo em torno do uso das novas tecnologias da informação e da comunicação não se sustenta, uma vez que a inserção dessas novas tecnologias não pode prescindir das mediações entre os sujeitos para que a aprendizagem se efetive. As NTICs oferecem uma vasta gama de possibilidades que, no relato que apresentamos neste artigo, foram exploradas apenas de forma incipiente, tanto pelos limites de tempo de realização de uma disciplina, quanto pela própria aproximação, ainda hesitante, dos formadores com essas tecnologias. Entretanto, a opção pelo uso de qualquer uma delas só pode 94 Tem Professor na rede.indd 94 30/05/2010 10:39:43 ser feito, de forma consciente e informada, quando há clareza dos processos vividos pelo grupo, de suas necessidades, suas expectativas e seus limites. Caso contrário, corre-se o risco de um fascínio pela técnica que obscurece os sujeitos envolvidos na ação formadora. Portanto, o que está em jogo, tanto na modalidade de formação presencial, quanto na modalidade a distância, é a possibilidade de formadores e formandos se constituírem em sujeitos da experiência, permutando esses lugares na tessitura da rede de mediações requeridas por qualquer processo de formação. Nessa perspectiva, os aparatos tecnológicos funcionam como pontes que favorecem o encontro entre sujeitos produtores de textos, mas que não podem substituir esse encontro. Talvez essa seja uma importante aprendizagem a ser construída pelos egressos de cursos de formação de professores, a partir de sua própria experiência enquanto discentes da modalidade a distância: o papel que as novas tecnologias poderá desempenhar na vida dos alunos está, em grande medida, condicionado à qualidade das mediações que farão a aproximação entre crianças, jovens e adultos e essas novas tecnologias. São coisas para se pensar. Referências ALAVA, S. & Colaboradores. Ciberespaço e formações abertas: rumo a novas práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002, p. 25-52. BELLONI, M. L. Educação a distância. Campinas-SP: Autores Associados, 2003. Brzezinski, I. e Garrido, E. Análise dos trabalhos do GT Formação de Professores: o que revelam as pesquisas entre 1992 e 1998. 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Rio de Janeiro: Mauad, 2006, p. 51-79. 95 Tem Professor na rede.indd 95 30/05/2010 10:39:43 Tem Professor na rede.indd 96 30/05/2010 10:39:43 Curso de Pedagogia para as séries iniciais FACED/UFJF: resgatando sua história E Jane Aparecida Gonçalves de Souza – UFJF Marlos Bessa Mendes da Rocha – UFJF Este artigo propõe discutir sobre o ensino na modalidade a distância, buscando explicitar o funcionamento do Curso de Pedagogia a Distância da Universidade Federal de Juiz de Fora nos convênios criados diretamente com prefeituras da região, antes mesmo da criação do Sistema UAB. No caso específico da formação de professores, atualmente objeto principal das políticas públicas da EaD no país, o formato dos cursos, em grande parte determinado pelas formas com que os conteúdos são apresentados, constitui modelo de relação ensino-aprendizagem a partir do qual os futuros professores tenderão a construir seus modos de formação. A Lei de Diretrizes e Bases nº 9.394/96 valoriza a qualificação dos profissionais, destacando a possibilidade de capacitação em serviço, utilizando, para isso, os recursos da educação a distância. Como justificativa para este estudo, cabe destacar a necessidade de analisar, refletir e discutir esse modelo de educação, uma vez que a modalidade se expande enormemente no Brasil e será, provavelmente, nos próximos anos, um dos principais meios de formação de adultos, tanto na graduação quanto nos cursos de especialização. A educação a distância deve ser compreendida como uma atividade pedagógica caracterizada por um processo de ensino-aprendizagem realizado com mediação docente e utilização de recursos didáticos sistematicamente organizados. Tais recursos são apresentados em diferentes suportes tecnológicos de informação e comunicação, os quais podem ser utilizados isolada ou combinadamente, sem a frequência presencial de alunos e professores, nos termos do art. 47, § 3º, da LDB. Segundo o site www.uab.mec.br, o Sistema UAB tem como objetivo a democratização, expansão e interiorização da oferta de ensino superior público e gratuito no país. Igualmente busca estimular o desenvolvimento de projetos de pesquisa e de metodologias inovadoras de Tem Professor na rede.indd 97 30/05/2010 10:39:43 ensino, preferencialmente para as áreas de formação inicial e continuada de professores da Educação Básica. O sistema é formado por instituições públicas de ensino superior que propõem levar ensino superior público de qualidade aos municípios brasileiros cuja oferta inexista, ou seja, insuficiente. O curso Pedagogia, Licenciatura para as Séries iniciais do Ensino Fundamental a distância foi criado a partir de um convênio assinado inicialmente entre a UFJF e as prefeituras de Bicas, São João Nepomuceno e Santa Rita de Jacutinga, em dois de setembro de 2005. Este último polo, não cumprindo suas obrigações contratuais, foi substituído pelo polo de Passa Vinte (MG). O curso foi apresentado à FACED/UFJF pelas professoras Fernanda Campos e Mônica Silva, coordenadoras, então, do NEAD (Núcleo de Educação a Distância). Por ser um projeto piloto, trabalhamos utilizando toda a sistemática de conteúdos do CEDERJ.1 Participamos, então, de seminários, onde nos foram apresentados a plataforma Moodle e o material didático. Assinale-se que já havia projetos de educação a distância no CEDERJ desde 2000. Visitamos os três polos para a aula inaugural e nos deparamos com pessoas que viam, no Curso de pedagogia a distância via FACED/UFJF, a possibilidade de realização de sonhos até então considerados impossíveis, devido à distância geográfica e à dificuldade de agenciamento do tempo disponível, necessário num curso presencial. Algumas não tinham tido, até então, qualquer contato com um computador. Isso foi um problema inicial. As dificuldades de interação aluno-máquina eram evidentes nas postagens de tarefas e no envio de arquivos sem anexos, dentre outros problemas relacionados a essa dinâmica tecnológica. Outro problema enfrentado diz respeito à ocorrência de greve, que impediu a disponibilização de todas as disciplinas propostas pelo CEDERJ para o primeiro período. Por isso, iniciamos o curso oferecendo apenas três disciplinas: Português para o ensino fundamental, Fundamentos da Educação I e Pesquisa em Educação e Construção do Projeto Político Pedagógico I. Inicialmente, deveríamos oferecer cinco disciplinas, pois a duração do curso estava prevista para seis semestres, com oferecimento de seis disciplinas por período. O curso foi montado com a seguinte estrutura: 1 O Consórcio CEDERJ reúne o Governo do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Fundação CECIERJ e as seis Universidades públicas sediadas no Estado: Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ; Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro– UENF; Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO; Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Universidade Federal Fluminense – UFF, e; Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ. 98 Tem Professor na rede.indd 98 30/05/2010 10:39:43 Essa estrutura demonstra que a EAD estava inter-relacionada em quatro pilares: Avaliação, Tutoria, Comunicação e Material Didático. Esses pilares deveriam ser sustentados por uma gestão eficiente, composta por uma equipe multidisciplinar. Muitos autores, entre os quais Belone (2003), afirmam que, por meio da tutoria, é possível garantir o processo de interlocução necessário a qualquer projeto educativo. Dessa forma, trabalhamos com dois tutores distintos. O que denominamos “tutor presencial” trazia aspectos de presencialidade para o modelo da educação a distância. O processo seletivo para a sua admissão ocorria no início de cada período, por meio de provas ou entrevistas, com a finalidade de avaliar o conhecimento na disciplina que seria ministrada. Este tutor exercia o papel de intermediador presencial entre o professor e os alunos, devendo cumprir plantão no polo duas horas por semana, a fim de sanar dúvidas dos alunos. Os tutores a distância, por sua vez, tinham como função atender e orientar os alunos, tirando suas dúvidas a respeito dos conteúdos, sob orientação do professor da disciplina, e dos recursos dos ambientes virtuais. Obrigatoriamente deveriam ser alunos de graduação de Pedagogia ou de cursos afins. Foram selecionados a partir dos critérios de afinidade com a disciplina e desembaraço técnico no uso da plataforma Moodle2. 2 A plataforma Moodle foi essencial para o nosso trabalho, pois a utilizamos como forma de contato com os alunos e como espaço virtual de aulas, discussões, seminários e fóruns. A plataforma Moodle, como se sabe, é um software aberto, que permite que seu código-fonte seja alterado, ampliado ou modificado sem necessidade de permissão autoral para isso. Além disso, seu download é gratuito. 99 Tem Professor na rede.indd 99 30/05/2010 10:39:45 Até 2006, o treinamento dos tutores estava sob a responsabilidade do NEAD. Com a nova gestão (Da UFJF?) e o atraso da definição dos nomes para coordenar o Núcleo, nos vimos na contingência de assumir a responsabilidade pelo treinamento, presencial e a distância. O treinamento dos tutores passou a ser semestral, sendo oferecido um workshop para a capacitação dos tutores novos e aperfeiçoamento dos antigos. Os processos avaliativos aplicados foram bem diferenciados em suas formas: provas, trabalhos, memórias, elaboração de textos, grupos de discussão e seminários. Inicialmente, antes de assumirmos a autoria dos procedimentos, eram elaboradas duas provas: uma a distância e outra presencial. No decorrer do curso, percebemos que a avaliação a distância poderia ser substituída por uma avaliação que denominamos “avaliação em três tempos”: (1) uma questão era levantada pelo professor e trabalhada em grupo num fórum aberto para a turma; (2) em seguida, no polo era montada uma apresentação com a presença e coordenação do tutor presencial; (3) por fim, os alunos apresentavam presencialmente, na FACED/UFJF, um seminário para o professor. O calendário foi montado, reservando uma semana para os professores postarem suas propostas de estudo. A partir das postagens, os alunos tinham 15 dias para a montagem dos grupos e para a discussão da proposta no fórum da plataforma. Em 100 Tem Professor na rede.indd 100 30/05/2010 10:39:46 seguida, era marcado encontro entre os alunos e o tutor presencial, buscando auxiliar na preparação do seminário proposto (formas de apresentação, tira-dúvidas etc.). A partir desse encontro, a discussão voltaria ao fórum da plataforma por mais uma semana. Na semana seguinte, todos os alunos se encontrariam na Faculdade de Educação/UFJF para que os grupos apresentassem seus seminários, abrindo, assim, um grande espaço de discussão e interação presencial. Os alunos recebiam o material didático em seus respectivos polos, e pagavam por ele. Apesar de relativamente barata, a aquisição do material de referência se tornava onerosa para os alunos, que, na sua maioria, trabalhavam na rede estadual ou municipal. Por vezes, havia diferenças entre o referencial teórico utilizado por quem projetou o material de referência e o do professor responsável pela disciplina. Quando isso ocorria, o professor optava por não utilizar o material, disponibilizando artigos em PDF que o complementavam ou substituíam. Isso acarretava insatisfação por parte dos alunos, que se sentiam prejudicados financeiramente. Esta situação nos fez pensar numa outra dinâmica em relação ao material didático, segundo a qual o professor trabalharia na modalidade a distância da mesma forma que sempre trabalhou na presencial, sem livro didático, diretamente com textos disponibilizados na internet, principalmente no SCIELO, e com outros materiais (livros, documentos) de domínio público. Poderíamos aplicar essa dinâmica alternativa em disciplinas optativas, fora do quadro oficial, que completavam a carga horária. Em 2007, estávamos atendendo a 120 alunos distribuídos em 5 polos distintos, para os quais, no início de cada semestre, disponibilizávamos um calendário com todos os eventos agendados (avaliações, tarefas etc.). Sempre incentivávamos os alunos a buscarem autonomia e disciplina nos estudos, e muitas vezes discutíamos a questão da qualidade do curso oferecido. Não estávamos apenas oferecendo um curso a distância, mas um curso a distância com qualidade. Participamos do ENADE e obtivemos um resultado satisfatório. Hoje, para nossa satisfação, temos ex-alunos como tutores presenciais ou a distância na UAB (Universidade Aberta do Brasil), como também temos alunos que estão cursando especialização, com pretensão de alcançarem uma vaga num Programa de Pós-Graduação stricto sensu. Não é a modalidade de ensino que determina a qualidade do aprendizado. Esta é determinada pelo esforço, dedicação e comprometimento dos atores envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Para oferecermos uma educação a distância de qualidade, necessitamos que os alunos busquem a autonomia, desenvolvam habilidades de estudo individualizado e em grupo, troquem experiências e conhecimentos em atividades grupais e utilizem as novas tecnologias de comunicação e informação. Quanto aos professores e tutores, é necessário que permitam e incentivem a autonomia dos alunos; proponham desafios e trabalhos em grupo; avaliem o aluno 101 Tem Professor na rede.indd 101 30/05/2010 10:39:46 em todo o processo, valorizando seu crescimento; incentivem o pensamento crítico; forneçam assistência ao estudante, ao contexto e ao processo de aprendizagem; que, enfim, estimulem a utilização das novas tecnologias de comunicação e informação. O que percebemos é que a EAD vem forcejando mudanças na realidade educacional das cidades citadas, pois estamos acompanhando as transformações que os alunos desta modalidade vêm sofrendo. Eles, que antes não tinham perspectiva de acesso ao ensino superior, hoje já discutem a necessidade de uma pós-graduação a distância. Por fim, podemos afirmar que o grande desafio é levar educação de qualidade para todos, rompendo as barreiras do tempo e do espaço. Referências BARBOSA, R.M. Ambientes Virtuais de Aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2005. BARRETO, R.G. et al. Tecnologias educacionais e educação a distância: avaliando políticas e práticas. Rio de Janeiro: Quartet, 2003. BELLONI, M.L. Educação a Distância. Campinas-SP: Autores Associados, 1999. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. 29a ed. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2002. CONED. Plano Nacional de Educação-proposta da sociedade brasileira. Belo Horizonte: CONED, 1997. ______. Lei de Diretrizes e Bases e perspectivas da educação Nacional. Revista Brasileira de Educação ANPED, n. 8, São Paulo: Anpae, mai./jun./jul./ago. 1998. NISKIER, Arnaldo. Educação a distância: a tecnologia da esperança; políticas e estratégias a implantação de um sistema nacional de educação aberta e a distância. São Paulo: Loyola, 1999. PEREIRA, Eva Wairos; TEIXEIRA, Zuleide de Araújo. A educação básica redimensionada. In: BRZEZINSKI, Iria (org.). LDB Interpretada: Diversos olhares se entrecruzam. São Paulo: Cortez, 1997. 102 Tem Professor na rede.indd 102 30/05/2010 10:39:46 Projeto Veredas – Razões e sentido da formação em serviço A Maria da Assunção Calderano – UFJF Lecir Jacinto Barbacovi – UFJF / UFMG Algumas considerações sobre o processo de investigação A proposta metodológica desse estudo foi construída a partir do Realismo Crítico de Baskhar (1974), caracterizado por sua objetividade, falibilidade, transfenomenalidade e contrafenomenalidade. (COLLIER, 1994; CALDERANO, 2002). Nesta perspectiva, foram articulados instrumentos distintos, tais como: entrevistas exploratórias, questionário, entrevistas de aprofundamento e observação direta. Os depoimentos coletados são analisados em seu contexto, buscando ir além de sua fenomenalidade. Tendo em comum o interesse de investigar sobre os impactos do Projeto Veredas, a partir de diferentes enfoques teóricos pertencentes a áreas de formação dos pesquisadores, foram definidas dimensões centrais do estudo, em torno das quais o processo de investigação se deu. Essa definição orientou a eleição de subdimensões e a construção de indicadores que se tornariam guias fundamentais para a construção dos instrumentos de pesquisa. Isso contribuiu para que o foco de estudo pudesse ser analisado com o rigor e o cuidado necessários à coleta e à compreensão das informações distintas, de forma a identificar algumas de suas estruturas ocultas, evitando distorções e cristalizações próprias à obviedade aparente. As entrevistas exploratórias favoreceram a identificação e o mapeamento das percepções dos cursistas quanto às dimensões focalizadas no estudo. A transcrição das entrevistas e a eleição de categorias que brotaram desse levantamento, sob a luz das abordagens teóricas, constituíram a base de outro instrumento de coleta de informações: o questionário. Este fora aplicado, em janeiro de 2005, aos cursistas inscritos na AFOR/UFJF Tem Professor na rede.indd 103 30/05/2010 10:39:46 (Agência Formadora – Universidade Federal de Juiz de Fora). Dentre os 1800 cursistas, pertencentes a esta AFOR, 1446 responderam ao questionário. As alternativas de respostas foram cuidadosamente elaboradas, de forma a guardar uma relação bem próxima entre a linguagem e a percepção manifestada pelos cursistas na etapa anterior e os propósitos teórico-metodológicos em curso. Na construção e análise do banco de dados, foi utilizado o programa estatístico SPSS (Statistical Package For Social Sciences). Para a análise das informações colecionadas foi utilizada – de forma adaptada – o método de triangulação, apresentado por Triviños (1992). A observação direta foi desenvolvida antes e durante o levantamento formal de dados, devido a algumas particularidades da relação estabelecida entre alguns pesquisadores e o Veredas – curso em foco. Das mais diversas formas, como “tutor”, “especialista” ou “coordenador de Polo”, foi possível captar algumas singularidades desse processo que forneceram pistas importantes para o processo de análise do material coletado. As entrevistas de aprofundamento aconteceram a partir da análise dos dados de seu entrecruzamento, como forma de agudizar a interpretação do que fora encontrado e construído. As informações mais detalhadas do projeto de pesquisa podem ser vistas em Calderano e Silva (2004). A sistematização analítica dos dados encontra-se em Calderano e Silva (2005). Maiores informações sobre a concepção, metodologia e dinâmica do projeto Veredas poderão ser obtidas em documentos oficiais, tais como MINAS GERAIS a e b (2002). Destacam-se, nesta apresentação, alguns aspectos pertencentes às seguintes dimensões: satisfação profissional e função social do ensino, tendo como base, a percepção dos cursistas. Alguns conceitos teóricos centrais serão utilizados como recursos auxiliares ao processo de análise, descrição, interpretação e explicação – ainda que parcial – do que está sendo focalizado. Entre esses conceitos destacam-se habitus, em Bourdieu (1994), e reflexividade, em Giddens (1989). Considerando a abrangência e a complexidade desses conceitos, eles foram redimensionados para os fins dessa investigação. O habitus é aqui concebido como uma estrutura externa e internalizada de alguma forma. Ela opera, mesmo quando não se tem um maior conhecimento sobre sua existência. Refere-se, consiste e constitui um clima organizacional que impele um conjunto de atividades, procedimentos e iniciativas. Essa estrutura, mesmo não visualizada ou detectada pelos sujeitos sociais, está ali presente, fazendo as coisas se apresentarem de um determinado modo. O habitus é o clima cultural, social e organizacional que faz com que seja identificado e classificado um tipo de conduta, parecer, julgamento e ação de um determinado sujeito ou grupo social. Nas palavras de Bourdieu (1994ª, p. 60-61), as estruturas constitutivas de um tipo particular de meio produzem o habitus: 104 Tem Professor na rede.indd 104 30/05/2010 10:39:46 sistemas de disposições duráveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, isto é, como princípio gerador e estruturador das práticas e das representações que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares” sem ser o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu fim sem supor a intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um regente. Coulon (1995b, p. 151), considera que o habitus é o “que faz com que seja possível ‘reconhecer’ que somos da mesma escola, mesma classe social e mesmo meio. É o princípio de reconhecimento entre pares cujas características, por vezes infinitesimais ‘transpiram’ sem terem necessidade de ser enunciadas ou exibidas com grande estardalhaço”. Em Brubaker (1990, p. 226), vê-se que o habitus é o “passado que sobrevive no presente”, é a “lei emanente... colocada em cada gente por seus primeiros educadores”, apesar de modificado por experiências subsequentes, ele é dominado pelas primeiras experiências. Para melhor delinear o conceito de habitus, focalizou-se, nesse estudo, duas subdimensões – o habitus acadêmico-escolar e o habitus profissional –, a partir das quais indicadores foram estabelecidos com o fim de analisar no cotidiano esses conceitos, identificando suas características observáveis. Compreendendo a aplicabilidade desses conceito e ao mesmo tempo seus limites, buscou-se ancorar também em outro conceito, com o fim de identificar como e até quando o conceito de habitus é adequado ao foco de estudo e em que momento as reflexões dele decorrente exigem outra forma de conceber a realidade observada. Assim, outro conceito central foi redimensionado, nesse estudo. A reflexividade de Giddens é aqui entendida como a capacidade de ação dos agentes sociais. É a capacidade do ser humano de agir de uma forma que lhe pareça mais conveniente, dentro de determinados parâmetros sócio-biográfico-culturais, combinando o cumprimento de normas estabelecidas e seu rompimento. A existência de uma realidade social externa ao sujeito não apenas constrange, mas também possibilita sua ação. É essa a visão de Giddens, no que se refere à estrutura social: ela simultaneamente constrange e facilita. O agente social, atuando reflexivamente, manifesta sua capacidade de reconhecer a realidade externa, dialoga com ela, insere-se nela, interfere nela – admite sua existência e sua influência, sem, no entanto, tornar-se refém dela. Sua capacidade reflexiva permite, ao agente social, usufruir de certa autonomia em relação ao passado e às estruturas atuais – externas e internalizadas de alguma forma. Assim compreendendo, o agente social possui e exerce um poder de ação que cria uma 105 Tem Professor na rede.indd 105 30/05/2010 10:39:46 diferença. Ele interfere no seu meio social, e sua interferência não é a mesma de outrem, nem é a mesma no tempo e no espaço. Em Giddens, agência diz respeito a eventos dos quais um indivíduo é o perpetrador, no sentido que ele poderia, em qualquer fase de uma dada sequência de conduta, ter atuado de modo diferente. O que quer que tenha acontecido não o teria se esse indivíduo não tivesse interferido (GIDDENS, 1989). O poder de ação, em Giddens (1989, p. 11), pode ser resumido da seguinte forma: Ser capaz de ‘atuar de outro modo’ significa ser capaz de intervir no mundo, ou abster-se de tal intervenção, com o efeito de influenciar um processo ou estado específico de coisas. Isso pressupõe que ser um agente é ser capaz de exibir (cronicamente, no fluxo da vida cotidiana) uma gama de poderes causais, incluindo o de influenciar os manifestados por outros. A ação depende da capacidade do indivíduo de ‘criar uma diferença’ em relação ao estado de coisas ou curso de eventos preexistente. Um agente deixa de o ser se perde a capacidade para ‘criar uma diferença’, isto é, para exercer alguma espécie de poder. Em outras palavras e, redimensionando esse conceito de reflexividade no campo profissional, pode-se dizer que ele se refere à “percepção e relato crítico, por parte do profissional sobre o mundo à sua volta e sobre seu próprio poder de ação, através do reconhecimento de suas habilidades, possibilidades e limites dentro do mundo social – sua capacidade de fazer “uma diferença”, agindo de forma singular em meio a ele” (CALDERANO, 2002, p. 92). Entendendo a reflexividade como uma percepção ativa de si e do mundo e buscando um delineamento mais preciso desse conceito, foram eleitas, no presente estudo, três subdimensões que se referem, respectivamente: ao próprio cursista; ao seu processo de formação e ao espaço de sua atuação profissional. Algumas descobertas a partir das informações coletadas Motivações e razões que justificam certas decisões A partir dos conceitos centrais desse estudo, as questões que orientaram a reflexão, aqui expressa, foram as seguintes: quais as motivações que levaram o cursista a se inscrever e permanecer nesse processo de formação; em que medida e de que forma houve um impacto no habitus acadêmico e profissional do cursista; qual a sua compreensão da função social do ensino? 106 Tem Professor na rede.indd 106 30/05/2010 10:39:46 Entre os princípios defendidos por Pimenta e Ghedin (2002), no processo de qualificação profissional de professores, destaca-se a importância de uma maior valorização das experiências já vividas pelos professores e/ou futuros professores e de seus valores. Marafon (2001) também ressalta a valorização do cotidiano do aluno, analisando sua prática social educativa, com o fim de construir uma Pedagogia crítica, defendendo também a formação do educador-pesquisador. Bolívar (2002) apresenta uma reflexão em torno de como deve ser pensada a formação continuada do professor. Ele critica as propostas de desenvolvimento profissional e de aperfeiçoamento do ensino que se têm apresentado com um caráter externo, alheias à cultura e histórias dos centros educativos, e não levam em conta as vidas e sentimentos do professorado. Forquin (1993) trata das funções e implicações culturais das transmissões escolares. Afirma que a questão das implicações educativas do pluralismo cultural só pode se tornar pertinente a partir de uma definição antropológica e sociológica do conceito de cultura. Estes autores auxiliam no fortalecimento da argumentação acerca da importância de se identificar melhor os sujeitos, os agentes sociais, com os quais se está trabalhando nos distintos processos de formação – seja inicial e/ou continuada. É importante destacar que os cursistas do Veredas se caracterizam por atuar como professores. Portanto, apresentam uma formação prévia nesse campo, pois fizeram o curso de Magistério de segundo grau. Nessa perspectiva, torna-se importante identificar os motivos e razões que levaram o professor-cursista a optar pelo curso de magistério; a permanecer na atividade profissional no campo da educação; e a se inscrever nesse curso Veredas. Graças ao resultado das entrevistas exploratórias, chegou-se a uma categorização das respostas e a uma sistematização de informações sobre essas razões, a partir das quais foi construído um leque de alternativas inseridas no questionário. Ao se indagar sobre o “principal” motivo ou razão que levou o cursista a fazer o curso de Magistério, entre os 1441 respondentes, 356 marcaram mais de uma alternativa. Nesse estudo, para facilitar o trabalho de análise e correlações, serão consideradas como válidas somente aquelas respostas que identificaram apenas o motivo principal. Tais respostas foram reagrupadas em cinco grandes categorias, relativas aos motivos e razões, que podem ser assim explicitadas: “influência de familiares e outras pessoas”; “Questão financeira”; “Força das circunstâncias”; “Ascensão social” e “Postura pessoal/profissional”. Entre as respostas consideradas válidas nessa questão, relativas, portanto a 1080 cursistas, um grande percentual – 51,9% – apresentou motivos pertencentes à categoria “postura pessoal e profissional”. Entre as respostas agrupadas dentro dessa categoria, encontram-se: “Ser professor (a) sempre foi meu sonho”; “Por gostar de trabalhar com crianças”; “Para ter uma profissão em que poderia aprender sempre mais”; “Por achar que poderia ajudar no desenvolvimento das pessoas”. 107 Tem Professor na rede.indd 107 30/05/2010 10:39:47 Em segundo lugar, com 23,5%, foi destacada a “força das circunstâncias” como motivo principal que levou o cursista a fazer o Magistério de ensino Médio. A essa categoria ‘Força das circunstâncias’, correspondem às afirmações: “Foi por acidente, não sei bem porque”; “Não existia outro curso em minha cidade”; “Por falta de condições de seguir a carreira sonhada”; “Por poder conciliar o trabalho dentro e fora de casa”. Ao focalizar o principal motivo que levou o cursista a continuar trabalhando na educação, dos 1441 cursistas, 161 marcaram mais de uma alternativa. Ao se considerar as respostas válidas, chega-se a 1260 respondentes. Dentro deles, 85,9% focalizam itens que correspondem à postura pessoal/profissional. A “força das circunstâncias” também está presente em segundo lugar, só que com um percentual bem menor, de apenas 11,3%. Assim, o enfoque “postura pessoal profissional” cresce no primeiro momento – opção pelo curso de magistério – de 51,9%, para 85,9%, quando no segundo momento é focalizado o motivo relativo à permanência do cursista no trabalho educacional. No terceiro enfoque (indicação do motivo ou razão que fez com que o cursista se inscrevesse no Veredas), observa-se o seguinte: permanecem ainda em primeiro lugar os motivos ligados à “postura pessoal profissional”. Só que o percentual cai para 108 Tem Professor na rede.indd 108 30/05/2010 10:39:47 59,9 das respostas válidas. Em segundo lugar, ficam as respostas integrantes de outra categoria, “ascensão profissional”, com 22,3% das respostas válidas. Nessa categoria, encontram-se afirmativas tais como: a inscrição no Veredas se deu “Por causa do prestígio e status” ou “Para sair com um diploma”. É em terceiro lugar, com 13,3%, que aparece a “força das circunstâncias” 109 Tem Professor na rede.indd 109 30/05/2010 10:39:47 É interessante notar que a “influência de familiares e outras pessoas” – categoria expressa de diversas formas: “Segui o exemplo de pessoas importantes para mim”; “Para agradar minha família”; “Estímulo de minha família”. – apresenta um percentual cada vez menor quando se trata de analisar a trajetória de vida da pessoa: ao fazer o magistério - ensino médio, esta categoria apresenta-se com 10,5% das respostas válidas. Ela desaparece quando se refere aos motivos relativos à permanência no trabalho educacional. Ao focalizar o motivo pelo qual o cursista se inscreveu no Veredas, essa categoria volta a aparecer mas de forma estatisticamente pouco significativa (0,4%). Dessa forma, verifica-se que, com o decorrer do processo educativo, a influência de outras pessoas acaba cedendo lugar para uma decisão tomada internamente, centrada no poder de ação dos próprios sujeitos observados. A ênfase na postura pessoal cresce, mas também guarda certo equilíbrio com os olhares externos, posto que a vida social impõe limites e possibilidades. O agente social, através de sua reflexividade, passa a construir uma autonomia relativa ao seu ambiente externo, sem, contudo negá-lo. Observa-se também uma forte correlação entre essas diferentes respostas, e aquelas apresentadas pelos cursistas, quando focalizados os diferentes estágios de vida social e profissional. Em outras palavras, ao se cruzar as três tabelas relativas ao “principal motivo pelo qual se fez o Curso de Magistério”, “Motivo principal que levou o cursista a continuar trabalhando na educação” e “Motivo principal pelo qual o Cursista se inscreveu no Veredas”, foi possível notar uma série de correlações muito interessantes entre esses resultados. Por exemplo, entre os que responderam que foi a “postura pessoal-profissional” o principal motivo para fazer o Magistério, 94,7% insistem que foi essa postura que fez com que continuassem trabalhando na educação. Nota-se assim a presença do movimento cíclico entre busca de formação, atuação profissional e busca de aprimoramento profissional, deixando claras as relações entre o trabalho desenvolvido e a postura de crescimento profissional, mesmo que estimulado por exigências externas, mas sempre assimiladas, de algum modo, internamente. Sobre a Função Social do Ensino Ao fazer uma análise, ainda que parcial, do Projeto Pedagógico do VEREDAS, conteúdos trabalhados e seus objetivos, foi possível observar que a compreensão acerca da função do ensino, ou do papel do Educador (a) e da Escola, é que dá sustentação teórica e metodológica ao VEREDAS. Encontra-se na justificativa desse documento, tal afirmação: 110 Tem Professor na rede.indd 110 30/05/2010 10:39:47 a escola, como espaço de prática educacional sistemática e planejada, onde as novas gerações permanecem por um período contínuo e extenso, pode contribuir de forma decisiva para transformações sociais que resultem em maior justiça, tolerância e diálogo, e para um desenvolvimento sócio-cultural e ambiental harmonioso (MINAS GERAISa, 2002, p. 13). Sobre a identidade do profissional da educação, observa-se a seguinte definição: um profissional que domina um instrumental próprio de trabalho e sabe fazer uso dele; um pensador capaz de ressignificar criticamente sua prática e as representações sociais sobre seu campo de atuação; um cidadão que faz parte de uma sociedade e de uma comunidade (Idem, 2002, p. 14). Em síntese, o Projeto Pedagógico VEREDAS se propõe a garantir ao profissional da educação uma sólida formação que lhe permita ser: um pensador capaz de (re) significar sua prática e as representações sobre seu campo de atuação, compreendendo a natureza da educação, produzindo saberes pedagógicos, contextualizando e avaliando criticamente sua própria atuação; um cidadão comprometido com sua comunidade e com a sociedade de cuja dinâmica ele participa como sujeito com direitos e deveres comuns a todas as pessoas, mas com um olhar e uma ação típicos do profissional da educação (Idem, p. 16). Considerando alguns resultados obtidos por meio do questionário aplicado aos cursistas, percebe-se que a proposta teórica sobre o significado da educação foi, de certa forma, assimilada pelos professores cursistas. Ressalta-se o enorme percentual daqueles que afirmam que a educação serve para oferecer condições para que o aluno conquiste a autonomia intelectual e exerça a cidadania crítico-ativa em seu cotidiano. Entre as 1398 respostas obtidas, 1191 – equivalentes a 85% delas – expressaram essa opinião sobre a função da educação. Algumas considerações sobre este resultado podem ser assim expressas: os professores cursistas, em sua grande maioria, conseguiram apreender o discurso teórico-conceitual explícito nos Guias de estudo – texto-base sobre os diversos conteúdos trabalhados no decorrer do Curso – a respeito do papel da educação no mundo contemporâneo. Há uma clara evidência de que os conceitos/discursos são passíveis de serem aceitos, desde que pareçam “estar na moda” – eles se repetem muito nos documentos oferecidos pelo Curso. Todavia, tal aceitação, pode não significar uma 111 Tem Professor na rede.indd 111 30/05/2010 10:39:47 compreensão mais profunda dos significados relacionados aos conceitos destacados e das possibilidades de transposição dos mesmos para o mundo da vida em suas diferentes dimensões. Percebe-se também que há uma defasagem entre o que dizem os professores a respeito da função da educação e o que fazem em sua prática pedagógica. Isso pode ser observado a partir de outra questão. Ao analisarem uma lista de possíveis temas a serem debatidos na escola, 37% dos professores veem com “indiferença” o estudo da “história e ações dos partidos políticos”; 32% manifestam também “indiferença” diante do tema “sindicatos: bandeiras e conquistas”. Em outra questão, ao indicarem a frequência com que “procuram envolver sua escola” em determinadas atividades, 74% dos cursistas afirmam que “‘quase nunca’ acompanham a aplicação das verbas destinadas à educação de seu município”. Da mesma forma, 56% afirmam que “quase nunca” há “debates na escola, envolvendo políticos, professores e alunos...”; “debates ou ações promovidos em conjunto com associação de moradores ou sindicatos”, 51%; “debates na escola sobre temas que envolvem as políticas públicas municipais”, 45%. Tais declarações apontam uma tendência a uma ação educativa intramuros, descolando a escola da realidade político-social que está à sua volta e dentro dela – relação que passa muitas vezes despercebida. 112 Tem Professor na rede.indd 112 30/05/2010 10:39:47 Esses dados referentes à prática pedagógica do cursista e à sua percepção da função social da educação provocam, além das análises já expostas acima, outras reflexões em torno da busca da compreensão da “politicidade” do ato educacional. Entende-se que a prática sem contexto, sem explicação e sem referências que a sustente não tem mais sentido do que a simples atividade, pois deixa de lado as dimensões educacionais e sociais da ação docente. Todavia, não se está aqui afirmando que os docentes não têm uma visão prática da sua ação e do seu conhecimento. Mas é necessário que esta visão prática esteja informada pela dimensão política do pensar e fazer pedagógicos. O sociólogo da Educação, Carlos Alberto Torres, ao falar sobre a “politicidade do ato educacional”, cita Paulo Freire dizendo que este num sem-número de intervenções, postula que não existe revolução educacional sem revolução política. Nenhuma ação educacional é capaz de provocar uma revolução de poder. A educação não é meramente instrumental; ela é antes um campo de batalhas ideológicas a serem travadas, um possível resultado sendo a politização da cidadania.Esta politização pode ajudar a cidadania a começar a pronunciar a palavra, a pronunciar o mundo, um mundo cada vez mais diversificado e multicultural; um mundo que está estruturando a vida nas escolas (TORRES, 2001, p. 269). Estas reflexões sobre Função Social do Ensino nos apontam também para a compreensão de que o papel do professor não se resume a ensinar determinada “área 113 Tem Professor na rede.indd 113 30/05/2010 10:39:48 específica”. O professor é também aquele que atua na instituição social, política e cultural que é a escola, participando de uma forma ou de outra das lutas políticas que se travam nela e por ela, e das experiências sociais e culturais que se desenvolvem no contexto escolar – lutas e experiências que apontam um caminho para o exercício da cidadania democrática. Evidentemente, as “áreas específicas” também podem e devem ensinar para tal exercício. Com isto, pode se dizer que a qualidade da educação guarda uma relação com a compreensão da função social do ensino, assumida pelo professor. Se o professor percebe que o que ele faz produz algum impacto positivo na qualidade da vida, seja no aspecto econômico, social, afetivo, político ou cultural, ele atuará de maneira mais propositiva. A busca pela formação continuada permanente será uma consequência desta postura. Julgase que este passo é fundamental na compreensão da atividade profissional do professor. Através dele, torna-se possível reunir condições morais e intelectuais para defender um reconhecimento social e econômico compatível com o exercício da profissão docente. A visibilidade social do trabalho docente não se ganha. Ela é conquistada e construída também através dos impactos positivos daquilo que se elabora e se executa de forma orgânica. Tais ações agregam poder para pressionar e reivindicar o reconhecimento e a visibilidade. A escola pode ampliar sua visibilidade social, na medida em que ela se organiza, mobilizase e produz novidades capazes de colocar o meio que a cerca em constante movimento. É necessário unir ação-reflexão-ação e proposição como fatores-chave na constituição de uma democracia de conteúdo universalizante e não apenas de método. Considerações finais Busca-se, na síntese que Carlos Alberto Torres fez das idéias de Paulo Freire, a relação entre a política, o poder e a educação. a política, o poder e a educação constituem uma unidade indissolúvel. Como uma série de relações, elas se interpenetram mutuamente. É vital para a educação a busca da constante construção e reconstrução de mediações históricas como vias onde o discurso passa ir além do politizante. Paulo Freire diz: Compreender os limites da prática educacional requer com absoluta necessidade uma clareza política por parte dos educadores no que diz respeito a seu projeto. Exige que o educador ou a educadora assuma a natureza política de sua prática. Não é suficiente dizer que a educação é um ato político, como não basta dizer que os atos políticos também são educativos. É necessário assumir efetivamente a natureza política da educação. Não posso considerar-me progressista quando entendo o espaço da escola como sendo algo neutro, com pouca ou nenhuma relação com a luta de classes, onde os estudantes são vistos unicamente como aprendizes de limitados domínios de conhecimento que eu 114 Tem Professor na rede.indd 114 30/05/2010 10:39:48 procuro imbuir de um poder mágico. Não serei capaz de reconhecer os limites da prática político-educativa em que estou inserido se não sei, se não tenho clareza sobre a favor de quem eu estou trabalhando. Quando esclareço a questão de em favor de quem eu atuo, isto me coloca numa certa posição relacionada com a classe, na qual percebo contra quem minha prática se dirige e quais as razões por que a realizo – isto é, o sonho, o tipo de sociedade em favor da qual eu gostaria de intervir, agir e participar (TORRES, 2001, p. 272). Estas reflexões, que emergiram a partir da constatação da distância entre o pensar e o fazer dos cursistas, fundamentadas nas idéias de Paulo Freire, apontam para a necessidade de se incluir nos cursos de formação de professores, sejam eles de formação inicial ou continuada, pressupostos teóricos que permitam: - entender as relações entre educação e formação para o exercício da cidadania, e especialmente realçando os fundamentos históricos, normativos e ontológicos da educação democrática e dos direitos e responsabilidades da cidadania; - compreender que a Escola, especialmente pelo seu nível de organização, ampliação e quantidade de conhecimentos acumulados e sistematizados; pelas competências que já adquiriu e pelas experiências acumuladas pode fazer um movimento que, não só responda às suas necessidades institucionais, mas também seja propositiva e mobilizadora de idéias e valores; - entender a Escola como gestora, criadora de mecanismos capazes de implementar formas reais de se exercer a cidadania; - construir uma proposta que contemple o fortalecimento do compromisso político que permeia a relação educativa. E que, acima de tudo, possibilite aos discentes criarem e experimentarem novas formas democráticas de se viver em sociedade. Ao refletir sobre alguns resultados encontrados, percebe-se os impactos do curso no processo de formação profissional – inicial e em serviço. Dilemas e perspectivas podem ser apontados, indicando a necessidade de se qualificar os programas de formação a partir da compreensão da processualidade desse percurso. Resta ainda observar, nesse contexto, que o perfil dos alunos – professores em exercício – guiou a concepção e a metodologia do curso. Portanto, o objetivo central foi a qualificação de um trabalho já em desenvolvimento. Isso se faz notar pela prontidão com que os professores cursistas falaram de motivações e razões que os levaram a ingressar no magistério, permanecer na profissão e continuar os estudos. Resta ainda saber em que medida tal clareza reforçou os princípios de formação continuada ou cristalizou ações, aparentemente modificadas pelo discurso da “significação da prática”, cujo conteúdo pouco foi transposto – princípio didático tão necessário para assegurar a fidedignidade de tal declaração. 115 Tem Professor na rede.indd 115 30/05/2010 10:39:48 Referências BOLÍVAR, Antônio. Profissão Professor: O Itinerário profissional e a construção da escola. Tradução Gilson César de Souza. Bauru-SP: EDUSC, 2002. Bourdieu, Pierre. Esboço de uma Teoria da Prática. In: ORTIZ, Renato (org.). Pierre Bourdieu - Sociologia. 2a ed. São Paulo: Ática, 1994 (a), p. 46 a 81. ______. Trabalhos e Projetos. In: ORTIZ, R. (org.). Pierre Bourdieu - Sociologia. 2a ed. São Paulo: Ática, 1994 (b), p. 38-45. BRUBAKER, Rogers. Social Theory as Habitus. In: BOURDIEU, Pierre. The Logic of Practice. Stanford: Stanford University Press, 1990, p. 212-234. 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O que se deve considerar quando o que está no centro do debate não é propriamente a terminologia ou a categorização de uma modalidade de educação, mas modos de se pensar práticas de linguagem que organizam e dão sentido à dinâmica do ensinar/aprender? Com isso, busco problematizar, sob o enfoque da teoria enunciativa da linguagem de Bakhtin, os desafios que a educação online encontra para implementar uma prática efetivamente interativa. Por sua vez, o termo responsivo grafado em itálico quer denotar a importância que esta concepção bakhtiniana assume no interior do estudo que proponho. A partir dela, assumo o pressuposto central deste ensaio: de que a educação que se realiza nos diferentes ambientes virtuais de aprendizagem só se fará prenhe dos discursos de interatividade que preconiza se fizer das práticas discursivas que se organizam em seu interior movimentos responsivos, capazes de gerar respostas que mobilizem compreensões ativas e contribuam para o efetivo diálogo entre professores/tutores e alunos. Este texto nasce, portanto, de inquietações próprias do lugar de quem pensa a linguagem como instância discursivo/simbólica de relevância ímpar em nossa condição de sujeitos ensinantes e aprendentes. Sujeitos que, por Tem Professor na rede.indd 119 30/05/2010 10:39:48 lentes bakhtinianas, são vistos como seres de resposta, o que significa dizer que falam e só podem ser conhecidos por entre os textos que continuamente criam e recriam. O lugar do texto Uma imagem do discurso não deixa de ser a imagem de um homem que fala. Mikhail Bakhtin Para início de conversa, é preciso discutir a concepção de texto que subjaz ao estudo aqui proposto. O que entendemos por texto quando pensamos as práticas discursivas que são desenvolvidas por professores e alunos nos espaços virtuais de aprendizagem? A primeira tentativa que persigo é a de escapar de uma definição tradicional, advinda de heranças clássicas, que concebe o texto como uma forma gráfica impressa em um plano finito. Organizado a partir de uma lógica imposta pelo código da língua escrita, o texto tem aí limites claramente determinados: um título que o principia e um ponto final que o encerra, devendo ser lido da esquerda para a direita e de cima para baixo. Em um segundo plano não persigo, também, a idéia de texto tendo em vista a materialidade que lhe dá concretude, o que implicaria estudá-lo em relação às suas diferentes formatações: manuscrito, impresso ou eletrônico/digital (hipertexto), e exigiria um resgate histórico das rupturas resultantes dos usos de novas modalidades de composição, difusão e apropriação de textos. Quero, na verdade, percebê-lo, junto a Bakthin, no interior de sua proposta de enunciação, em torno de uma concepção de linguagem que se organiza pelos modos de produção da significação. Para o autor russo, a linguagem se constitui como uma atividade que se processa por meio da interação verbal entre os interlocutores, materializando-se por meio das enunciações por eles construídas. No escopo de sua obra, Bakhtin (1999, 2000) propôs que os estudos da língua não se pautassem apenas no sistema linguístico, como pretendiam os formalistas. Sua perspectiva interacionista nos leva a considerar que a realidade da língua se encontra justamente em seu conteúdo vivencial, ou seja, na prática viva da língua, na interação verbal. Daí resulta que, segundo ele, é necessário considerar que os enunciados proferidos pelos sujeitos, unidades reais de comunicação, sejam compostos por dois elementos: um verbal, constituído pelas unidades da língua, parte percebida ou realizada em palavras; e outro, extraverbal, parte presumida, caracterizada pelo espaço e tempo em que ocorrem a enunciação, o objeto (ou o tema) sobre o qual se fala e a atitude dos falantes frente ao que ocorre (valoração). Essa nova perspectiva propõe a análise da interação humana 120 Tem Professor na rede.indd 120 30/05/2010 10:39:48 não mais focada apenas nos aspectos verbais, mas também, e em especial, nos aspectos extraverbais, sendo estes os que determinam o significado da comunicação. Por isso, o enunciado pode ser percebido como um todo de sentido (BAKHTIN, 2000, p. 351), uma posição assumida por um enunciador no momento da interlocução. Vê-se aí explicitada a dimensão ideológica da linguagem: Não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis... A palavra está carregada de um discurso ideológico e vivencial (BAKHTIN, 1999, p. 95). Sob lentes bakhtinianas entende-se que toda palavra é prenhe de intenções e significados; possui valor semiótico, sendo, portanto, percebida como um signo ideológico. Não há enunciados neutros. A partir desta constatação, podemos revisitar o entendimento de que um enunciado implica muito mais do que aquilo que o conforma a fatores estritamente linguísticos, solicitando também um olhar para outros elementos que o constituem. Diante disso, falar em texto é dizer da manifestação do enunciado, “realidade imediata, dotada de materialidade, que advém do fato de ser um conjunto de signos”. (FIORIN, 2006, p. 52). O sentido do texto e a significação das palavras dependem, pois, da relação entre sujeitos, o que significa dizer que se constroem na produção e na interpretação dos textos. Orlandi (2001) nos auxilia no entendimento dessa questão quando afirma que a formulação do discurso se faz materialmente pela textualização, ou seja, pela colocação do discurso em texto, objeto simbólico que dá contorno material ao dizer, aberto às diferentes possibilidades de leitura. Sem texto, pois, não há significação: ele é o lugar do jogo de sentidos; é um texto que pode ser oral, escrito e associado também às linguagens não verbais, e a partir do qual se pode perceber aspectos instigantes do funcionamento do dizer. Tais percepções se fazem fundamentais no momento em que se busca compreender o lugar do texto nas práticas que se desenvolvem em um ambiente virtual de aprendizagem. Penso aqui, portanto, em uma textualidade que está relacionada à imagem de sujeitos situados, professores/tutores e alunos que falam e produzem seus textos mediados por interfaces virtuais de ensino/aprendizagem; manifestações verbais de sujeitos em um dado contexto, cujas marcas se apresentam no próprio texto que criam. Como uma trama de muitas vozes que se entrecruzam, confrontam e completam, um texto, portanto, só vive se em contato com outro texto. Nesse sentido, a linguagem, na educação a distância, não pode ser concebida simplesmente como instrumento de 121 Tem Professor na rede.indd 121 30/05/2010 10:39:48 informação, mas, sobretudo, como um caminho privilegiado de interação e de construção de sentidos. (...) os outros falam no meu texto, eu incorporo e articulo a fala dos outros; eu falo o/no discurso de outros que, ao mesmo tempo, ampliam o meu dizer. (...) Cada texto, um momento de enunciação. Em cada momento, muitas vozes (SMOLKA, 1988, p. 136). É, portanto, a busca por um movimento intertextual que se deve empreender em nossas salas de aula virtuais, tendo em mente que cada texto produzido se configura como um momento de enunciação que interfere diretamente no dizer do outro. Nesse contexto, leitura e escrita devem-se construir como ações dinâmicas e criativas, nas quais o leitor, em interação com o outro, pode expor suas idéias, acolher diferentes significações, confrontar o já-dito e reescrever o seu próprio dizer, sempre mediado pelo texto, que passa a ser produto de ambos. Em interfaces comunicativas como fóruns virtuais de discussão – notadamente uma das mais privilegiadas interfaces tecnológicas de interação entre os atores envolvidos na educação online – a leitura da escrita do outro está intimamente ligada à própria expressão por meio da escrita. É a leitura, portanto, que nos permite circular por entre os textos do outro e, nesse movimento, ampliar e reestruturar nossos próprios dizeres. São estas provocações iniciais para que se pense o texto, que se produz e faz circular nas diferentes interfaces virtuais, para além de sua materialidade, como possibilidade para o diálogo entre as diferentes vozes, aberto à construção coletiva e à partilha de interpretações. Para isso, é necessário (re) encontrar, nos movimentos discursivos realizados nas práticas da educação a distância, o lugar da palavra e do texto como unidades discursivas que só encontram sua completude no processo dialógico que constituem e a partir do qual são constituídos. Dialogismo e alteridade: bases para uma nova lógica comunicativa/interacional nos processos de ensino/ aprendizagem a distância Tudo se reduz ao diálogo, à contraposição dialógica enquanto centro. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina, nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida. Mikhail Bakhtin 122 Tem Professor na rede.indd 122 30/05/2010 10:39:48 Dois pilares do pensamento de Bakhtin podem nos auxiliar na discussão aqui proposta: a alteridade, que pressupõe a existência de um outro, reconhecido por um eu - ambos determinados historicamente pelo espaço social e político que compartilham; e sua concepção de dialogismo como princípio constitutivo da linguagem. Vejamos. A concepção de linguagem de Bakhtin se apresenta notadamente marcada pelo princípio dialógico. Segundo Faraco (2001), o termo dialogismo deve ser compreendido não como um instrumento do qual Bakhtin faz uso para abordar a realidade, mas “como um olhar compreensivo e abrangente do ser do homem e de seu fazer cultural” (FARACO, 2001, p. 118). Nesse sentido, pode-se perceber que a visão de Bakhtin segue a lógica de uma concepção radicalmente social do homem, considerando-o como um ser ao mesmo tempo produtor e produto das relações humanas. Entende-se por dialogismo o princípio constitutivo da linguagem, o que significa dizer que toda a vida da linguagem, em qualquer âmbito de seu desenvolvimento, se encontra permeada de relações dialógicas. Num diálogo, os falantes constroem juntos o texto e os inúmeros sentidos que dele emanam, ao mesmo tempo em que se constroem como indivíduos pertencentes a uma coletividade. Percebe-se, então, que as palavras de um falante estão sempre e inevitavelmente impregnadas pelas palavras do outro; o discurso elaborado pelo falante se constitui também pelo discurso do outro que o atravessa, condicionando o discurso do eu. Cabe aqui ressaltar que o termo diálogo não é entendido apenas em seu sentido tradicional, referente a uma relação face a face, mais formal. Tomando emprestadas as palavras do próprio Bakhtin (1999): o diálogo, no sentido estrito do termo, não constitui, é claro, senão uma das formas, é verdade que das mais importantes, da interação verbal. Mas pode-se compreender a palavra ‘diálogo’ num sentido amplo, isto é, não apenas como a comunicação em voz alta de pessoas colocadas face a face, mas toda comunicação verbal, de qualquer tipo que seja (p. 109). Bakhtin (1999) encontra, portanto, na interação entre interlocutores, o princípio fundador da linguagem. Nessa medida, tal como Saussure, reconhece a linguagem como um instrumento de comunicação, mas ao mesmo tempo amplia a concepção deste autor, ao perceber que o verdadeiro núcleo da realidade linguística consiste na prática viva da língua, na interação verbal. Dessa forma, verifica-se que um discurso nunca é individual, pois ao mesmo tempo em que se constrói entre interlocutores – seres sociais – também se desenvolve a partir de outros discursos. Percebidos os locutores como seres sociais, construídos a 123 Tem Professor na rede.indd 123 30/05/2010 10:39:48 partir da interação entre eles e por suas relações com a sociedade, vemo-nos diante do momento em que as duas perspectivas de dialogismo se encontram, surgindo a concepção de dialogismo como diálogo entre discursos. Assim concebido o dialogismo, define-se o texto como uma tessitura de muitas vozes, sendo que um enunciado se constitui sempre a partir de outro enunciado, é uma réplica a ele (FIORIN, 2006). Ao conceber a interação verbal como lugar de efetiva produção da língua, Bakhtin nos remete à idéia de um sujeito cuja subjetividade se constitui por meio das interações que realiza, via linguagem. A constatação de que os seres humanos são historicamente datados sustenta a concepção de que os sujeitos se constituem mutuamente, por meio da linguagem e dos processos históricos de interação social, nos quais se engendram negociações de sentido. Dessa forma, é impossível pensar o homem fora das relações que o aproximam do outro: o eu se constrói em coletividade, em colaboração com outros eus. Nessa construção, uma tríade de categorias se faz presente: o eu para mim, caracterizado por minha autopercepção; o eu para os outros, delimitando a forma como pareço aos olhos dos demais; e o outro para mim, que define o modo como percebo o outro. Há uma complementaridade de visões que se encontra na base do processo dialógico bakhtiniano. Daí que o seu conceito de exotopia, definido em suas discussões sobre a relação entre o autor e o herói na obra de arte, acaba por ampliar e aprofundar a discussão acerca da alteridade, na medida em que apenas o outro é capaz de ver aquilo que eu não sou capaz de perceber em mim mesmo, assim como eu posso nele entrever o que ele não pode acerca de sua própria imagem. Aquilo que constitui o campo de visão de um, excede o campo de visão do outro. Uma pessoa só vê aquilo que está fora dos limites da visão do outro. Assim, os pontos de vista simultâneos se completam na formação do todo, o evento dialógico (MACHADO, 1997, p. 151). O conceito de exotopia (excedente de visão) é, pois, o que garante o entendimento do ato dialógico como um evento notadamente marcado e relativizado pelas visões que nele e/ou a partir dele são estruturadas. É justamente a posição exotópica que permite ao indivíduo o encontro com o outro: se não temos a possibilidade de compreender o todo, porque nossa visão é incompleta e inacabada, é a visão do outro que se mostra capaz de completar nossa compreensão. Aliado a isso, percebemos que o processo de comunicação de significados implica em coletividade: nossas palavras se dirigem sempre ao outro, e este outro não desempenha um papel passivo, uma vez que participa ao atribuir significados à enunciação, o que se caracteriza, segundo Geraldi (1999), como a interação do homem com os outros homens no desafio de construir compreensões do mundo vivido (p. 7). 124 Tem Professor na rede.indd 124 30/05/2010 10:39:48 Assim, o sujeito se constitui nos processos interativos dos quais participa, numa rede de relações em que se entrelaçam e se entrechocam diversas vozes sociais de uma determinada época. É no encontro e/ou desencontro com o outro, nas relações conflitivas que estabelecem que os homens se constituam como sujeitos, através da linguagem, percebida, portanto, como mediação sígnica efetivamente necessária. É nessa perspectiva que concebo o conceito de alteridade e suas implicações como importantes aliados deste estudo. No centro da discussão estão os novos espaços virtuais/ discursivos mediadores de relações entre os atores dos processos educativos a distância; espaços que se constituem sob as bases de relações alteritárias. Na verdade, poderíamos caracterizá-los como espaços de copresença percebida, sustentados por uma alteridade virtual/real: virtual em função da distância física que separa professores/tutores e alunos da mediação realizada pelo computador/internet, mas real, não só porque ocorre entre participantes reais, existentes como indivíduos, mas porque se materializa a partir do fluxo de textos por eles produzidos. Percebe-se, ainda, haver para estes sujeitos uma espécie de “promessa”, implícita e compartilhada, de que haverá sempre uma resposta que dará sentido ao já dito. E esta promessa é justamente um dos elementos que configuram a alteridade virtual: a presença do outro é assinalada mesmo diante da ausência visual. Contudo, é interessante ressaltar que essa presença apenas percebida acaba por configurar um paradoxo. Por um lado, é um elemento facilitador do desenvolvimento das práticas discursivas, pois, apesar da autoria das falas ser bem marcada (normalmente há o registro do nome daquele que compartilha suas mensagens), a própria questão da escrita, que é um processo solitário em primeira instância, e a ausência física dos demais usuários permitem ao autor do texto um certo distanciamento da situação, como se isso facilitasse a sua exposição. O contato virtual oferece muitas vantagens para os tímidos, que podem, pelo uso do computador, interagir com as pessoas sem ter de enfrentar as dificuldades do contato físico ou visual. As pessoas que desejam o isolamento virtual podem simplesmente recusarse a responder aos outros participantes ou a interagir com eles (PALLOFF e PRATT, 2002, p. 60). Por outro lado, essa presença percebida pode se tornar concreta pelo medo das marcas deixadas pela escrita. Isso é talvez o que explica a resistência de muitos alunos a participarem de interfaces comunicativas como fóruns e chats propostos nos ambientes virtuais de aprendizagem. A autoria das falas é sempre bem marcada (ao final de cada mensagem encaminhada a um fórum de discussão, por exemplo, aparece o registro do 125 Tem Professor na rede.indd 125 30/05/2010 10:39:48 nome daquele que a enviou). Assim, não há como negar um comentário feito ou uma idéia divulgada, prevalecendo, portanto, o receio de ter sua escrita e seus posicionamentos avaliados pelos demais participantes (RAMOS, 2004). Dialogismo e alteridade são, portanto, dois dos princípios teóricos fundamentais para se pensar uma prática educativa sustentada pelo discurso da interatividade. Já se tornou lugar comum, na retórica educacional da atualidade, pensar a educação a distância – mais especificamente a educação online – e, portanto, seus mecanismos discursivos, nos termos de uma pretensa interatividade, que permitiria ao aluno ultrapassar a condição de espectador passivo e ao professor superar a postura autocrática e monológica que tradicionalmente delimitou sua ação educativa nas salas de aula presenciais. A meu ver, aí reside um dos maiores desafios da educação a distância: o de fazer emergir concretamente a interatividade que preconiza, pois sabemos que não basta ter o computador conectado em alta velocidade de acesso e uma ampla gama de conteúdos disponíveis para assegurar a aprendizagem do aluno. Interfaces como o fórum de discussão, por exemplo, apresentam um duplo valor, quando desenvolvidos nos termos do dialogismo e da alteridade: estimulam o embate de idéias do aluno com os colegas e com o professor/tutor, promovendo um descentramento, na medida em que se reconhece os pontos de vista alheios e se cria possibilidades para uma reflexão sobre suas próprias idéias, resultando em processos de tomada de consciência. Ou seja, cada um passa a avaliar as contribuições dos outros. Os desequilíbrios são motivados pelas opiniões divergentes e o ponto de vista de cada um vai sendo enriquecido na diferença. É, portanto, no confronto com outras opiniões que os alunos podem se voltar para a sua produção e repensar suas posições assumidas. Em acréscimo, nesse movimento o professor ganha uma nova forma de acompanhamento do processo de construção do conhecimento por parte do aluno. O reconhecimento do caráter intrinsecamente dialógico e alteritário da linguagem é talvez o primeiro passo para se pensar um modelo pedagógico interativo, que se baseia no diálogo entre os diferentes enunciados construídos por alunos e professores/tutores em interação virtual. Discursos que, por certo, devem prever divergências, conflitos, recusas e negociações, como pontos de tensão de uma voz em relação a outras vozes sociais. Na verdade, o dialogismo e a alteridade, assumidos como princípios básicos de uma proposta de ensino/aprendizagem interativos, precisam se tornar a mola propulsora nos ambientes formados pela educação online, sobretudo em relação às suas interfaces comunicativas, como chats e fóruns, e às discussões próprias dos conteúdos de aprendizagem. Seja de forma síncrona ou assíncrona, a possibilidade de interação aparece como condição fundamental para se pensar a educação a distância online. É ela que gera a comunicação, o intercâmbio de informações e as inúmeras possibilidades de um trabalho colaborativo. 126 Tem Professor na rede.indd 126 30/05/2010 10:39:48 Nunca é demais lembrar que práticas educativas com o uso das TIC podem oscilar entre as tradicionais formas mecanicistas de transmissão de conteúdos digitalizados e os processos de produção colaborativa de conhecimentos no interior das comunidades virtuais de aprendizagem. Alguns estudiosos, como Moran (2003), acreditam que a maior parte dos cursos que se desenvolvem na Web continua focada no conteúdo, na informação, no professor, no aluno individualmente e na interação isolada com o professor/tutor. Na contramão desses princípios, é importante criarmos uma cultura de EAD focada na construção do conhecimento e na interação; no equilíbrio entre o individual e o coletivo, entre conteúdo e aprendizagem cooperativa. Em ambos os casos, é importante compreender que é o princípio educativo que se constrói em torno da proposta, e que jamais as ferramentas tecnológicas utilizadas poderão determinar o tipo de relação pedagógica estabelecida. Por uma prática responsiva (...) a responsabilidade abarca, contém, implica necessariamente a alteridade perante a qual o ato responsável é uma resposta. Somos cada um com o outro na irrecusável continuidade da história. Buscar nos eventos, nas singularidades, nas unicidades dos atos desta caminhada como se realizam as “respostas responsáveis” é um modo de reencontrar os deslocamentos imperceptíveis na construção continuada dos valores, dos sentidos que regem, mas que se fazem e se desfazem na existência. Wanderley Geraldi Em tempos marcados pela assunção das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) nos processos de ensino-aprendizagem a distância, há que se problematizar configurações comunicativas/interacionais que nos auxiliam a pensar os novos espaços discursivos por onde professores e alunos transitam na busca de uma construção compartilhada de conhecimentos. O anúncio é de uma aprendizagem que se constrói em torno de uma interatividade própria das diferentes interfaces virtuais/comunicativas. Mas como isso se realiza, em termos das práticas discursivas que aí se desenvolvem? Quais são os recursos de linguagem que devem orientar o professor/tutor para garantir que o processo de ensino-aprendizagem mediatizado pelo computador/internet atenda às exigências de uma comunicação interativa, tida como essencial na formação a distância de nossos educandos? 127 Tem Professor na rede.indd 127 30/05/2010 10:39:48 Nos limites deste ensaio, assumo a idéia de responsividade, tal como formulada por Bakhtin (2000), como possibilidade para se pensar um trabalho educativo constituído e processado dialogicamente. Por responsividade, o autor russo percebe a capacidade do enunciado de gerar contrapalavras entre os falantes, o que nos leva ao entendimento de que a compreensão não é um ato passivo, de mero reconhecimento e decodificação da linguagem em seus aspectos formais. Ao contrário, configura-se como uma réplica ativa, uma resposta, uma tomada de decisão perante o texto. O enunciado deve ser considerado acima de tudo como uma resposta a enunciados anteriores dentro de uma dada esfera (a palavra “resposta” é empregada aqui no sentido lato): refuta-os, confirma-os, completa-os, baseia-se neles, supõe-nos conhecidos e, de um modo ou de outro, conta com eles (BAKHTIN, 2000, p. 316). A atividade de compreensão responsiva ativa, portanto, é uma atividade dialógica, pois contém em si o germe de uma resposta. Dessa forma, o ato de compreender exige uma relação ativa entre os interlocutores de uma situação enunciativa, sendo, em si mesma, uma forma de diálogo. Isso significa a necessária coparticipação dos sujeitos no ato de compreensão. Significa também que a apropriação do discurso do outro se dá não apenas no ato de reconhecer os enunciados por ele produzidos, o que “apenas duplicaria seu pensamento no espírito do outro” (BAKHTIN, 2000, p. 291), mas no manifestar-se ativamente na negociação de sentidos, recriando, reinterpretando e reconstruindo a palavra alheia, para então torná-la própria e significativa. É essa atitude responsiva frente ao dito, a possibilidade de réplica, de contrapalavras, que nos permite explorar a natureza dialógica do discurso, podendo oportunizar uma interatividade efetiva entre os atores dos processos de ensino/aprendizagem a distância. Uma responsividade que, a meu ver, deve abarcar não apenas a consciência de que nossos ditos respondem e provocam novos ditos, mas a assunção de nossa responsabilidade perante eles, como atos responsáveis. Para além das “distâncias”, é preciso, pois, pensar a educação online sob uma nova lógica comunicativa/interacional, que priorize o diálogo e a participação dos sujeitos educativos em um espaço discursivo que só encontra sentido na necessária presença do outro. 128 Tem Professor na rede.indd 128 30/05/2010 10:39:48 Referências BAKHTIN, M. (VOLOCHINOV) Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999. ______. Estética da criação verbal. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. FARACO, Carlos Alberto. O dialogismo como chave de uma antropologia filosófica. In: FARACO, C. A.; TEZZA, C.; CASTRO, G. (orgs.) Diálogos com Bakhtin. 3ª ed. Curitiba: Ed. da UFPR, 2001. FIORIN, J.L. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2006. GERALDI, J. W. A linguagem nos processos sociais de constituição da subjetividade. 1999. mimeo. MACHADO, Irene A. Os gêneros e o corpo do acabamento estético. In: BRAIT, Beth (org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1997. MORAN, José Manuel. Contribuições para uma pedagogia da educação online. In: SILVA, Marco (org.). Educação online: teorias, práticas, legislação e formação corporativa. São Paulo: Loyola, 2003. ORLANDI, E.P. Discurso e Texto: formação e circulação dos sentidos. Campinas-SP: Pontes, 2001. PALLOFF, R. & PRATT, K. Construindo comunidades de aprendizagem no ciberespaço: estratégias eficientes para salas de aula on-line. Porto Alegre: Artmed, 2002. RAMOS, Bruna Sola. Práticas discursivas no Fórum Virtual de Discussões do Projeto Veredas: uma alternativa de aprendizagem? 2004. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora. SMOLKA, A. L. B. A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo. São Paulo: Cortez; Campinas-SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1988. 129 Tem Professor na rede.indd 129 30/05/2010 10:39:48 Tem Professor na rede.indd 130 30/05/2010 10:39:48 Sobre os autores Adriana Rocha Bruno - É Doutora e Mestre em Educação: Currículo, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É professora efetiva do Depto. de Educação, da Universidade Federal de Juiz de Fora (FACED-UFJF), professora do Programa de PósGraduação em Educação da UFJF e membro da equipe de coordenação do Curso de Pedagogia a distância – FACED-UAB-UFJF. Pesquisa e coordena o GRUPAR: Grupo de Pesquisa Aprendizagem em Rede e é pesquisadora do NUPEL-LIC: Linguagem, informação e conhecimento (UFJF). Experiente na área de Educação, pesquisa e atua, principalmente a partir dos seguintes temas: Educação online, didática e didática online, aprendizagem de adultos em ambientes digitais, formação de educadores, neurociência e neuropsicologia, linguagem emocional e educação e tecnologias. Contatos: adriana. [email protected]. Site: https://sites.google.com/site/arbruno Ana Maria Di Grado Hessel - É Doutora e mestre em Educação:Currrículo pela PUCSP e graduada em Pedagogia pela PUC-SP, com especialização em Informática pela UFPA. Atualmente é Professora do Departamento de Fundamentos da Educação da PUC/SP. Na graduação é docente no curso de Tecnologia e Midias Digitais e no curso de Comunicação e Multimeios. Na pós-graduação, é pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, vinculada à linha de pesquisa Aprendizagem e Semiótica Cognitiva. Tem experiência em formação on-line de educadores, experiência na escola pública como professora, coordenadora, diretora e supervisora. O interesse em pesquisa é formação on-line, educação a distância, gestão escolar e tecnologia, aprendizagem em ambientes virtuais (AVA), interdisciplinaridade, transdisciplinaridade e pensamento complexo. Beatriz de Basto Teixeira - Possui graduação em Ciências Sociais, mestrado e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo. Atualmente é Professora Associada I da Universidade Federal de Juiz de Fora, atuando no Departamento de Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em Educação. É professora colaboradora no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFV. Coordena a Unidade de Formação do CAEd/UFJF. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Políticas Educacionais, especialmente relacionadas a Currículo. Publicou já vários artigos relacionados às pesquisas que desenvolveu nos últimos dez anos sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino fundamental. 131 Tem Professor na rede.indd 131 30/05/2010 10:39:48 Bruna Sola Ramos - Pedagoga e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ); Pesquisadora do Grupo Educação e Comunicação (UERJ) e Coordenadora Adju nta do Grupo de Pesquisa Linguagem, Interação e Conhecimento (UFJF). Eliane Medeiros Borges - É Professora do curso de Pedagogia e do Programa de PósGraduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora e pesquisadora do NUPEL – Núcleo de Pesquisas em Linguagem. Graduada em Ciências Sociais, com Mestrado em Multimeios e Doutorado em Educação pela UNICAMP, realiza pesquisas na confluência dos campos da comunicação e da educação, em especial sobre Mídias e Infância e Educação a Distância. É membro da equipe de coordenação do Curso de Pedagogia, licenciatura, a distância da Faced/UAB/UFJF. Contato: [email protected] Hilda Aparecida Linhares da Silva Micarello - Graduada em Pedagogia e doutora em educação. Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora. Desenvolve pesquisas nos campos da linguagem, infância e formação de professores. Atuou como consultora pedagógica da do MEC/SEB/COEDI na elaboração do material didático para o curso de formação de professores da educação infantil de nível Médio – PROINFANTIL. Atualmente é coordenadora geral do curso de Pedagogia na modalidade a distância da FACED/UFJF/UAB. Ilka Schapper Santos - Possui graduação em Pedagogia (1994) e em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2002). Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1998). Atualmente é professora adjunta I da Universidade Federal de Juiz de Fora e faz doutorado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação e Linguagem, atuando principalmente nos seguintes temas: Linguagem, Formação de Professores e Educação Infantil. Jane Aparecida Gonçalves de Souza - Mestre em Ciências Sociais e Pedagoga pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2004). Na Educação a Distancia atuou como 132 Tem Professor na rede.indd 132 30/05/2010 10:39:48 Tutora presencial e a distancia das disciplinas da EAD (curso Graduação Administração e Pedagogia para Séries iniciais) Atualmente está apoiando a coordenação da Revista Educação em Foco, professora do Colégio de Aplicação João XXII UFJF e do Curso de Licenciatura em Química(UFJF). Integrante dos grupos de pesquisas, Políticas de Educação, escolarização e estratégias de nação: a transição império república e Entre O Industrial E O Artesanal: A Produção De Material Didático Em Educação A Distância. Lecir Jacinto Barbacovi - Possui graduação em Licenciatura Em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1993), Mestrado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1997). Faz parte do Programa de Pós Graduação da UFMG, como aluno de Doutorado em Educação. Desenvolveu atividade profissional como docente no ensino superior na UNICAP - Universidade Católica de Recife, PE. Atuou como coordenador do setor de Suporte Acadêmico do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação - UFJF. Atualmente trabalha como professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, em contrato temporário. É também professor de graduação e pós graduação do Faculdade Metodista Granbery. Tem experiência na área de Filosofia em sua interface com a educação. Desenvolve estudos e pesquisas na área da Filosofia e Educação, focalizando principalmente os seguintes temas: Gestão Escolar, Ensino a Distância, Política e Sociologia Jurídica. Marcio Silveira Lemgruber - Professor Associado da Faculdade de Educação/UFJF. Membro do Colegiado do Programa de Pós-Graduação em Educação. Membro do NUPEL. Integrante da equipe de Coordenação do curso de Pedagogia UAB/UFJF. Doutor em Educação pela UFRJ. Maria Assunção Calderano - Possui Doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (2002) e Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1988). Professora da Universidade Federal de Juiz de Fora desde 1992, coordena e desenvolve pesquisas no campo da Formação de Professores e Políticas educacionais. Dedica-se a estudos comparados, focalizando processos de formação e o trabalho docente desses profissionais que atuam em Instituições brasileiras e latinoamericanas. Investiga as políticas de formação de professores e suas interrelações com 133 Tem Professor na rede.indd 133 30/05/2010 10:39:49 a formação e o trabalho docente. Coordenou o processo de reestruturação do Curso de Pedagogia da UFJF. Orienta estudos de mestrado e doutorado que se interligam aos seguintes temas: formação e atuação do professor e do pedagogo; educação presencial e a distância; trabalho docente e políticas de formação de professores. Atualmente é coordenadora de estágios nos cursos de Licenciatura da UFJF e professora de estágio pela UAB, no curso de Pedagogia a distância. Maria Teresa de Assunção Freitas - Possui graduação em Pedagogia pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia Ciências e Letras (1966), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978) e doutorado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1992). Atualmente é professor associado II da Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Psicologia da Educação, trabalhando com o enfoque teórico da psicologia histórico-cultural (Vygotsky, Luria, Leontiev e Mikhail Bakhtin).Atua principalmente nos seguintes temas: pesquisa na abordagem histórico-cultural, práticas sócio-culturais de leitura e escrita, letramento digital e formação de professores. É pesquisadora do CNPq com bolsa de produtividade de pesquisa nível 1C e pesquisadora do programa “Pesquisador mineiro da FAPEMIG”. Desde setembro de 2006 exerce o cargo administrativo de Coordenadora da Pós Graduação stricto-sensu da UFJF. Maria Tereza Scoton - Graduada em Pedagogia e doutora em Educação. Professora adjunta do curso de Pedagogia do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF) e do Mestrado em Educação da Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC). Atualmente desenvolve pesquisa no campo da formação de professores e do uso das Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (NTICs). Marlos Bessa Mendes da Rocha - Professor Adjunto no Departamento de Educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF). O mestrado foi realizado no programa de pós-graduação em Ciências Políticas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutorou-se pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Publicou em 2000 o livro Educação Conformada: a política publica de educação no Brasil 1930-1945, pela editora da UFJF, com financiamento do programa COMIND/ 134 Tem Professor na rede.indd 134 30/05/2010 10:39:49 INEP/MEC. Em 2004, publicou Matrizes da Modernidade Republicana. Cultura política e pensamento educacional no Brasil, pela Editora Autores Associados (Campinas) em parceria com a Editora Plano (Brasília). Seus trabalhos têm sido publicados em livros e revistas especializadas da área de educação. Atualmente coordena na Faculdade de Educação da UFJF o grupo de pesquisa Políticas de educação, escolarização e estratégias de nação: a transição entre o Império e a República, financiado pela FAPEMIG. Núbia Schaper Santos - Possui graduação em Psicologia (UFJF - 1999) e Mestrado emEducação Especial (UFSCar - 2002). É doutoranda em Educação (UERJ). Atualmente atua como professora do Ensino Superior e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Diversidade - NEPED/UFJF e do grupo de pesquisa Educação, Formação de professores e Infância - EFoPI/UFJF. Tem experiência na orientação de trabalhos de conclusão de curso e monografias de especialização. Atua nas áreas de Educação e Psicologia, com destaque para os seguintes temas: educação especial, escola, educação inclusiva, psicologia e formação de professores. 135 Tem Professor na rede.indd 135 30/05/2010 10:39:49