Confiabilidade Metrológica Como quantificar o erro e a incerteza da indicação de um instrumento de medição devido ao efeito da temperatura Por Gilberto Carlos Fidélis Temperatura (°C) O Efeito da Temperatura na Medição Medir e obter um resultado tecnicamente válido não é tão simples como parece. São muitos os detalhes a serem observados. A figura 1 mostra a temperatura do ar em um laboratório variando entre 24°C e 17°C no período de praticamente 10 horas. 8h 10 h 12 h 14 h 16 h 18 h Figura 1. Exemplo de como a temperatura do ar pode variar durante o dia em um laboratório de metrologia. Será que esse comportamento variável da temperatura do ar pode afetar a indicação de um instrumento de medição que está operando naquele ambiente? Sempre foi evidenciado que a temperatura é o inimigo maior do metrologista, pois geralmente atua no sentido de prejudicar ou invalidar os resultados obtidos. Este artigo aborda como se quantifica o efeito da temperatura sobre o instrumento de medição e como este pode ser aplicado para melhorar a confiabilidade dos resultados. Mais importante do que medir é planejar a medição detalhadamente. Outros cuidados são necessários para a redução de erros durante a medição a fim de garantir resultados confiáveis. Revelaremos o caminho para você realizar medições tecnicamente válidas, considerando a contribuição do efeito temperatura sobre a indicação do instrumento de medição. A temperatura pode provocar dois efeitos. O efeito sistemático, um erro de medição, cujo valor podemos corrigir matematicamente da indicação do instrumento de medição. O segundo, denominado aleatório, é a componente de incerteza de medição devido à influência da temperatura. Mostraremos como quantificar estes dois efeitos. A maioria dos instrumentos de medição são sensíveis às alterações nas condições ambientais, principalmente à temperatura. Se você observar o manual de um instrumento de medição, na seção especificação ou dados técnicos, conseguirá a informação de como se comporta este instrumento se a temperatura mudar durante o seu uso. Os fabricantes analisam o comportamento dos instrumentos realizando calibrações em diferentes temperaturas. No final deste estudo é determinado um “coeficiente de temperatura” muitas vezes denominado “temperature drift”. Na figura 2 é apresentada a forma como normalmente os fabricantes especificam o coeficiente de temperatura. Revista Metrologia e Qualidade n.01 ã CECT Todos os direitos reservados www.cect.com.br F: 48 32343920 48 99772827 1 Confiabilidade Metrológica Observamos que, no caso do exemplo da figura 1, o coeficiente depende da faixa de indicação utilizada e da temperatura ambiente no momento da medição. Por exemplo, se estamos medindo na faixa até 2 V e numa temperatura ambiente de 20°C o coeficiente de temperatura é de ±0,3 ppm da indicação/°C. A interpretação que devemos ter é que a cada grau Celsius de variação na temperatura ambiente a indicação do multímetro se altera em ±0,3 vezes 10-6 vezes o valor da indicação, onde o termo ppm, partes por milhão, foi substituído por 10-6. Nesta mesma faixa mas a uma temperatura de 35°C, o coeficiente utilizado passa a ser ±0,5 ppm da indicação/°C. Coeficiente de Temperatura (Temperature Coefficient) 15°C – 30°C 5°C – 15°C Faixa 30°C – 40°C ± ppm da Indicação/°C (± ppm Reading/°C) 200 mV 0,4 0,6 2V 0,3 0,5 20 V 0,3 0,5 200 V 0,7 1,0 1000 V 0,7 1,0 Figura 1. Exemplo de apresentação do coeficiente de temperatura no manual de um multímetro digital. No manual de uma balança, se você encontrar um coeficiente de temperatura igual a ± 2 ppm/°C implica que a indicação se altera em 2 vezes o valor da indicação, dividido por um milhão (que é o ppm = partes por milhão) a cada grau Celsius de variação de temperatura no ambiente. Note que neste exemplo não aparece o termo “indicação” no próprio coeficiente, mas é necessário multiplicar por este valor para encontramos o erro, devido ao efeito da temperatura, em unidade de massa como veremos no exemplo que segue. Comumente trabalhamos com a diferença de temperatura no momento de medição em relação à temperatura em que o instrumento foi calibrado. Vejamos o exemplo de medição de uma massa cuja indicação da balança foi 20,000_5_g, realizada na temperatura de (26,5±2,0)°C. Qual o erro de medição e qual a parcela de contribuição para a incerteza de medição presentes nesta medição se a temperatura no momento da calibração, informada no certificado, foi de (21,5 ± 1,0)°C? No manual da balança é informado que o coeficiente de temperatura é de ± 4 ppm/°C. Analisaremos cada efeito isoladamente: a) erro de medição devido à temperatura Para avaliar o erro de medição devemos levar em consideração a diferença de temperatura no momento da medição em relação à temperatura da calibração. Este valor é igual a 26,5°C–21,5°C, isto é, 5,0°C. Como a temperatura no momento da medição foi maior do que a da calibração, essa variação tem sinal positivo. O inverso aconteceria caso a temperatura da calibração fosse maior numericamente do que a temperatura durante a medição e obteríamos uma variação negativa. Detalhes com relação ao sinal da variação da temperatura devem ser observados no manual de cada instrumento. É comum o fabricante fornecer exemplos de determinação deste valor. A figura 3 ilustra o quanto o erro de indicação, informado no certificado, aumentou em função da temperatura de uso ser diferente daquela de calibração. O erro de indicação/tendência informado no certificado de calibração está representado pelo ponto azul. Se a temperatura de uso do instrumento de medição coincidir com a de calibração não haverá deslocamento do erro de indicação, ou seja o ponto azul no gráfico permanece na mesma posição. Como neste caso as duas temperatura são diferentes, o erro de indicação é “deslocado”. O novo valor está representado pelo ponto vermelho no gráfico. Revista Metrologia e Qualidade n.01 ã CECT Todos os direitos reservados www.cect.com.br F: 48 32343920 48 99772827 2 Confiabilidade Metrológica Erro de Indicação/Tendência Incerteza devido a variação da temperatura no uso Erro de Indicação na temperatura de uso (26,5±2,0)°C O quanto o erro de Indicação aumentou em função da temperatura de uso ser diferente daquela de calibração Erro de Indicação na temperatura de calibração (21,5 ± 1,0)°C (informado no certificado de calibração) Indicação Figura 3. O efeito da temperatura sobre a indicação de um instrumento de medição. Assim o erro de medição devido à temperatura é: ErroTemperatura = Indicação x coeficiente x variação de temperatura ErroTemperatura = 20,000 5 x 4 x 10-6 x 5 = 0,000 4 g. Como este erro tem sinal positivo devemos corrigir o resultado negativamente, ou seja, a correção deste erro é – 0,000 4 g. Como o resultado corrigido (Rc) é igual à indicação mais a correção, temos: Rc = 20,000 5 + (-0,000 4) g, ou seja, Rc = 20,000 1 g. O Rc deve ainda ser melhorado pois foi informado no certificado de calibração da balança que esta tem uma tendência. Digamos que para a indicação de 20,000_0_g, seja o valor de +0,000_8_g, por exemplo. Como, para um instrumento de medição, o erro de medição é denominado de tendência e que a correção é o erro de medição com o sinal trocado, temos: Rc = 20,000 1 + (-0,000 8) = 19,999 3 g. Outra forma de avaliarmos o resultado corrigido é escrevermos a expressão abaixo: Rc = Indicação + Correção devido à temperatura + Correção devido à tendência Rc = 20,000 5 + (-0,000 4) + (- 0,000 8) = 19,999 3 g. A soma da correção devido à temperatura com a correção devido à tendência é denominada de correção combinada. Revista Metrologia e Qualidade n.01 ã CECT Todos os direitos reservados www.cect.com.br F: 48 32343920 48 99772827 3 Confiabilidade Metrológica Se o instrumento é utilizado na mesma temperatura em que ele foi calibrado, o erro de medição devido ao efeito da temperatura é igual à zero, já que neste caso a variação desta é também zero. Veremos mais adiante que não necessariamente a componente de incerteza também será zero quando as temperaturas de calibração e de uso do instrumento forem iguais. b) Componente de incerteza devido ao efeito temperatura Chamamos de componente de incerteza porque a incerteza que determinaremos não é a incerteza combinada e nem a incerteza expandida do resultado da medição. O efeito da temperatura durante a medição é uma das componentes para a avaliação da incerteza expandida do resultado da medição. Para avaliar a incerteza devido à temperatura nos interessa apenas o quanto a temperatura da balança variou no momento da medição. Para determinar esta variação deveríamos ter medido a temperatura da balança, e não a do ar. Como em geral a informação disponível é a variação da temperatura do ar no momento da medição, consideraremos como igual a variação da temperatura da balança. Sabemos que se a medição é realizada num curto intervalo de tempo a temperatura da balança variará bem menos do que a do ar. A pergunta é, quanto? Como não temos esta resposta, pois não medimos a temperatura da balança, assumiremos que a mesma variou igualmente ao ar. Pecamos pelo conservadorismo, mas ao menos mantemos a coerência. Algo primordial. Na figura 3, destacado em vermelho, ilustramos o efeito da variação da temperatura no momento da medição. Se a temperatura fosse “exata” de 26,5°C a indicação do instrumento de medição ficaria estática na posição do ponto verde no diagrama. Como a temperatura oscila em ±2,0°C a indicação “sobe e desce” dentro dos limites tracejados em vermelho no gráfico. Assim, a incerteza devida ao efeito da temperatura é: UTemperartura = Indicação x coeficiente x variação de temperatura Como a variação da temperatura no momento da medição foi de ±2,0°C, temos UTemperartura = ± 20,000 5 x 4 x 10-6 x 2 = ± 0,000 2 g. Se a variação da temperatura durante a medição for igual à variação no momento da calibração, a componente de incerteza devido à temperatura será praticamente zero. Isso é válido quando o laboratório executante da calibração considerar, na incerteza declarada no certificado de calibração, esta influência. Como geralmente durante a calibração a preocupação é como se comporta o padrão com a temperatura, recomenda-se verificar com o executante da calibração se foi ou não considerado o efeito da temperatura na avaliação da incerteza expandida no processo de calibração do instrumento. Não pense que os valores de correção e incerteza determinados nesse exemplo são insignificantes. Somente podemos concluir isto com o conhecimento da finalidade para qual se destina o resultado de medição dessa massa. O procedimento aqui adotado é o mesmo para a maioria dos instrumentos de medição. Gilberto Carlos Fidélis é gerente de capacitação do CECT ([email protected]) Revista Metrologia e Qualidade n.01 ã CECT Todos os direitos reservados www.cect.com.br F: 48 32343920 48 99772827 4