ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 DOIS ASPECTOS DA DANÇA: APONTAMENTOS SOBRE NATUREZA E CULTURA RITA RIBEIRO VOSS RESUMO O artigo considera dois aspectos da dança. Considera as metamorfoses do corpo, as mudanças nas suas concepções que ensejaram mudanças também na sua abordagem e também na episteme, ao longo da história. O avanço das ciências cognitivas trouxe uma maior compreensão do papel do cérebro na compreensão das diversas expressões humanas, incluindo a dança. No entanto, isso não significa abandonar a instância cultural para entender a dança como um fenômeno complexo. Por esta razão, também discute a relação complementar entre os processos cognitivos e a cultura. Ao final, propõe-se, como nas discussões do comitê, o exercício da reconexão de natureza e cultura presente na dança. PALAVRAS-CHAVE: Dança, Natureza, Cultura, Cognição Humana. TWO ASPECTS OF DANCE: NOTES ON NATURE AND CULTURE ABSTRACT The article considers two aspects of dance. It considers the metamorphosis of the body, the changings in the conceptions correlated to the body, approaches and the episteme throughout the History. The advancement of the cognitive sciences brought a greater understanding of the role of the brain to understand several human expressions, including dance. However, it does not mean the abandon of the cultural instance to understand the dance as a complex phenomenon. For this reason, it also discusses a complementary relationship between cognitive processes and culture. At the end, it proposes, such as in the discussions in the committee, the exercise of the reconnection of nature and culture present in the dance. KEYWORDS: Dance, Nature, Culture, Human Cognition. http://portalanda.org.br/index.php/anais 1 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 Introdução A dança enquanto disciplina, delimitada por um objeto – ainda que seja estranho a uma arte construir fronteiras no sentido de especialização, como fazem as ciências naturais – não deve ser confundida com um fenômeno que sempre foi do interesse de várias áreas do saber, muito antes das atuais faculdades de dança serem abertas, como tem sido para a filosofia, para a antropologia, para a psicologia, para a linguística, para a arqueologia, para a história etc. A parte dessa confusão, a dança revela faces do humano, desde suas mais primeiras manifestações culturais, das quais as pinturas rupestres são prova, até as atividades cerebrais, neuronais que promovem a investigação dos movimentos que a evolvem, com o desenvolvimento do pensamento científico. Portanto, se remontarmos ao interesse multidisciplinar que possibilita diálogos interdisciplinares, veremos em termos epistemológicos e paradigmáticas constituir questões importantes para a dupla condição da dança: a constituição de um lugar no conhecimento em que é possível reconhecer aspectos de um fenômeno privilegiado para a compreensão da própria condição humana. A dança revela invariavelmente dois aspectos que a transversalizam, um se refere à natureza e outro à cultura. Embora essa afirmação possa expressar uma dicotomia, ela é apenas aparente. Para haver dança - uma de nossas características mais humanas, uma vez que nenhum outro animal revela habilidade para tal expressão -, é preciso um corpo que se manifeste no mundo, uma base material e, ao mesmo tempo, uma condição extra corporal o que Kroeber (1970) chamou de superorgânico, a cultura. Isto é, não existe nada parecido com a dança no sentido de revelar uma “natureza cultural”. Claude Lévi-Strauss (2009) afirma que não é possível saber onde termina a natureza e começa a cultura e, se consideramos a dança, essa afirmação é ainda mais verdadeira. Edgar Morin, ao se referir a essa indefinição em várias de suas obras, critica o postulado de um conceito fechado e acabado sobre o homem, diz que somos cem por cento natureza e cem por cento cultura, considerando nossa natureza material e nossas http://portalanda.org.br/index.php/anais 2 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 construções imateriais, do espírito. A condição humana então, se revela em instâncias que se determinam mutuamente e estão de tal sorte enredadas, que é preciso um esforço metodológico para a sua compreensão. Se quisermos compreender a dança, sem dúvida, precisamos operar distinções, mas com a consciência de que estas são arbitrárias, dada a impossibilidade de separação, por isso, devemos também operar cognitivamente uma religação necessária das instâncias biológicas e culturais para uma compreensão mais integral do fenômeno que estudamos. Nesse breve artigo considero, no âmbito do comitê temático “Interfaces do dança e estados do corpo”, esses dois aspectos da dança, que espelham os trabalhos nele realizados. Em primeiro lugar, considero as metamorfoses do corpo, inspirada em José Gil, para considerar que as mudanças nas concepções sobre o corpo ensejaram mudanças na sua abordagem e também na episteme, ao longo da história. O conhecimento do corpo como expressão de saberes de uma época também revela a ordem do problema que estamos abordando e o sentido que lhe conferimos. O avanço das ciências cognitivas nas últimas décadas, por exemplo, trouxeram uma compreensão maior do papel do cérebro humano na compreensão das mais variadas expressões humanas, entre elas a dança. No entanto, essa perspectiva não significa o abandono da instância cultural para entender a dança como um fenômeno complexo. Por esta razão, também discuto aqui a relação complementar entre os processos cognitivos e cultura, cujo domínio repousa sobre a última. Por último, proponho a aproximação entre os aspectos físicos e os culturais como exercício de religação dos aspectos de natureza e cultura presentes na dança, a exemplo das discussões realizadas anualmente no comitê. Concepções sobre o Corpo O grande problema da dança, enquanto fenômeno passível de ser estudado pela academia, é de um lado abordá-la segundo uma estratégia que a considera numa mecânica biológica, em que os processos cognitivos têm um papel preponderante para a sua compreensão. As concepções sobre o corpo variaram através da história, revelando metamorfoses, entendimentos que http://portalanda.org.br/index.php/anais 3 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 correspondem a compreensões distintas do que vem ser o homem, sua natureza, sua condição social, suas ideologias, seus costumes, suas tradições, suas religiosidades. Como campo do conhecimento ainda em desenvolvimento as ciências da cognição humana, como outras áreas, respondem a um processo hegemônico, de escolhas sobre o que devemos e podemos conhecer, vinculadas que estão à sociedade e suas demandas contemporâneas por mais e mais tecnologia. A biotecnologia é uma das áreas que têm grandes investimentos, inclusive estatais. Por isso, é saudável buscar autores que tomaram o conhecimento do por meio de uma perspectiva arqueológica para investigar as razões pelas quais um certo saber se tornou hegemônico. Alguns autores como Michel Foucault (1987) e José Gil (1997), mais recentemente, refletiram sobre o corpo como objeto de interesse sobre o qual se tem conhecimento e se exerce poder, apreendido pela mudança em relação a um conhecimento construído socialmente e referido culturalmente. Passamos, por exemplo, da concepção do corpo contido num mundo sensível, de natureza material, de menor valor social que a esfera inteligível, o mundo de deus ou das ideias, à invasão da mentalidade cientificista sobre ele. A primeira concepção nasceu na Grécia e seguiu pela Idade Média. Seus pensadores emblemáticos para a estruturação das sociedades dessas épocas, Platão e Santo Agostinho, postularam as ideias de um corpo apartado de uma instância superior, o mundo das ideias ou a alma. Na época moderna passou-se a uma outra concepção que toma o corpo como exterioridade e passível de ser devassado, aberto, vasculhado, profanado, com o objetivo de ter conhecimento das estranhas do homem, esvaziando-o: Sobre esse esvaziamento do corpo, edifica-se o saber. Com a redução das energias do corpo, desaparecem também esses traços materiais, esses resíduos que condensam poderes precisos, tais como o de passar de um código a outro, de traduzir um registro no outro. Versálio conta que, segundo uma concepção medieval, existe no corpo humano um osso incorruptível que serve de semente de ressurreição do corpo, no dia do julgamento final. (...) Este osso, resíduo material do permutador dos códigos, garantia a passagem do código humano ao código divino, da morte à ressureição. Daí em diante, já não haverá osso imortal – mas sim uma ciência imortal (GIL:1997: 142-143). http://portalanda.org.br/index.php/anais 4 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 Esse esvaziamento do corpo como prática de conhecimento do corpo configuram a medicina e, sobretudo, a neurociências atuais. É conhecida a arte de Michelangelo em dissecar cadáveres, deixando para a posteridade grandes estudos sobre o corpo humano. No século XIX, Franz Joseph Gall foi o precursor das ciências da mente ao desenvolver um estudo, a frenologia, sobre as áreas do cérebro e suas correspondentes relações com a personalidade e com a inteligência, No entanto, esse tipo de pesquisa foi desenvolvido no quadro da teoria evolucionista que pretendia realizar uma taxonomia dos povos segundo critérios que definiam em que grau, na escala da evolução, eles se encontrariam. Por causa desse espírito da época, a eugenia, uma teoria racista, encontrava na frenologia a justificativa para a defesa da purificação da “raça humana”. Seus estudos foram mais tarde destituídos dessas marcas temporais e seu método de divisão e mapeamento cerebral acabou sendo utilizado com sucesso pelos seus sucessores. Mas o é importante reter, em termos de concepção do corpo, que o entendimento quer seja filosófico quer seja científico, sempre foi amalgamado pela cultura, pelos valores de um tempo. Portanto, o conhecimento não tem autonomia, sua fonte de erros e acertos é a sociedade composta por pessoas falíveis, daí a possibilidade do erro e da ilusão, uma advertência que muitos filósofos fizeram e fazem acerca do entendimento humano, o que já coloca sempre o conhecimento entre aspas, por isso, a redução é sempre perigosa, por seu caráter absoluto. A busca pela exterioridade e objetivação do corpo humano, ao longo do tempo foram se tornando mais e mais precisa, mais e mais referida pela ideia de rigor e controles científicos, à medida que mais e mais se foi fazendo uso das tecnologias desenvolvidas, principalmente nas últimas décadas do século XX. Uma dessas tecnologias é o PET Scan (Tomografia por emissão de pósitrons) que possibilitou o crescimento das pesquisas sobre o cérebro e suas atividades. Metodologicamente, o que chamamos de ciências cognitivas é sempre um trabalho multi e interdisciplinar em que concorrem a antropologia, a filosofia, a linguística, a biologia, a psicologia, as ciências da computação, a engenharia para estudar a cognição humana, com um forte peso nas http://portalanda.org.br/index.php/anais 5 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 tecnologias que possibilitam verificar as hipóteses dos pesquisadores. Quanto a essa invasão imagética do corpo humano, David Le Breton diz: As imagens tornam-se hoje as peças para a convicção de uma realidade sempre mais evanescente. O mundo faz-se amostragem (e, portanto, demonstração); ele organiza-se antes de tudo na imagens que lhe dão a ver. Da mesma maneira que o desenrolar do crime decifra-se in abstentia pelos indícios deixados pelo criminoso, a Modernidade dá-se a ler a partir das miríades de signos que se afirmam mais reais do que o real e se lhe substituem (LE BRETON: 2011: 309). Muitos trabalhos apresentados no comitê têm aqui o compromisso de desvelar a relação entre os aspectos cognitivos e o movimento do corpo na dança. Nas ciências cognitivas são investigados aspectos sensoriais, musculares, como respostas a um comando central hipercomplexo, o cérebro humano, cujo desvelamento é possível ao se observar áreas de atividades cerebrais acionadas por uma determinada atividade humana. Desvendar os mais variados comportamentos humanos, tem se constituído no grande objetivo da neurociências para desenvolver tecnologias de movimento. Para a dança, enquanto espaço de saberes sobre uma arte em que os aspectos biológicos e culturais estão entrelaçados, as pesquisas que visam compreender o movimento tendo como inspiração as ciências cognitivas são muito importantes. A dança é um fenômeno que não se reduz ao biológico, seu maior objetivo é explicar uma expressão humana tão antiga como a história da própria humanidade, entrelaçada que está à sua condição biocultural. O que torna original os trabalhos do comitê é justamente estabelecer uma ponte, em nossas discussões anuais, entre esses aspectos fisiológicos da dança e suas interfaces, tomando a dança como narrativa cultural. A dança como Narrativa da Cultura Tomo aqui alguns autores para fazer uma breve incursão pela cultura, como fonte inesgotável de nossas criações artísticas, entre elas a dança. Antonio José Faro diz que a evolução da dança seguiu o seguinte caminho no tempo: aldeia, igreja, praça, salão e palco. E adverte que: http://portalanda.org.br/index.php/anais 6 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 Há várias maneiras de se considerar a história da dança. Podemos visualizá-la do ponto de vista técnico, do ponto de vista social e do ponto de vista estético. Mas se analisarmos estas três facetas que se nos apresentam notaremos que uma delas, ou seja, a parte técnica, poder ser, e deve ser, submetida às demais. A técnica por sí só transformaria a o artista em mero robô (FARO: 2011: 33). Essa ideia de que o corpo se submete à sociedade e à necessidade que o homem tem de estetizar o mundo, deve-se a um dado cultural: o corpo deve passar por processos de endoculturação, por processos educativos de aprendizagem de códigos de convivência em uma determinada sociedade. Cada cultura nos diz como seus membros devem interagir. Cada sociedade tem um conjunto de ritualizações da vida, que dizem como fazer sexo, comer, como acessar o mundo espiritual de forma humana, construindo fronteiras entre os humanos e outros animais. Isto é, a cultura é um grande guia de regras, que não são universais, dada a diversidade das culturas humanas (Lévi-Strauss, 2012). A afirmação universal invariável é que a regra domestica o corpo. É nesse sentido que Marcel Mauss (1936) fala de mudanças corporais ao longo da história humana, observando que essas mudanças expressam diferenças à medida que a sociedade muda. Essa domesticação é dinâmica. Para Mauss, o corpo expressa técnicas que se inserem na cultura. Para o filósofo Michel Serres (2004), as técnicas de treinamentos corporais, a repetição dos movimentos para a automação em nível cognitivo para alcançar um grau de perfeição excelente, estão sempre referidas a um universo de valores importantes para a vida. O que isso significa afinal, aproximar cognição à dança, de seus aspectos biológicos e culturais? Em primeiro lugar, o aparato biológico, que empurra o homem para a cultura, como o bipedismo, o aparelho fonador, o dedo opositor e o crescimento cerebral, por si só, não é capaz de fazer emergir qualquer produção artística ou cultural. É preciso a presença importante de outro ser humano. As trocas de palavras em sociedade, através da aprendizagem, possibilita o nascimento de um universo simbólico que, consequentemente, possa ser compartilhado e transmitido para as futuras gerações. Pessoas que viveram insoladas e adquiriram comportamento da espécie dos animais com quem foram criadas, parece oferecer uma explicação http://portalanda.org.br/index.php/anais 7 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 razoável para conferirmos a complementaridade e indissociabilidade das instâncias de natureza e cultura, em que pese a importância dessa última para o propriamente humano. Nossa organização biológica humana é, por isso, uma promessa que contém o potencial para ser humano e não uma certeza. A cultura nos condena à sociabilidade, sem ela não há humanidade possível, nem o que chamamos de cognição humana, ainda, que estejamos biologicamente preparados para isso. Religações As pesquisas ligadas à antropologia da dança, forçosamente, devido à característica do fenômeno estudado, promovem um encontro entre as instâncias que estão no cerne de toda a discussão antropológica, a relação entre natureza e cultura, problematizando-a. A resultante disso é uma discussão de alcance epistemológico e paradigmático. As pesquisas sobre cognição e dança têm revelado, como dissemos anteriormente, a relevância da cultura para a afirmação do Homo sapiens e da criação e reprodução de uma mundo humano. Nesse sentido, quanto mais compreendemos os processos bioquímicos e mecânicos envolvidos na dança, mais compreendemos que a cultura, isto é, a dimensão superorgânica da existência humana, influencia o biológico como observou Laraia (2009). Trata-se, então, na verdade, de procurarmos aproximações, promover religações importantes a partir das reflexões epistemológicas, de onde emergem possibilidades de intercrítica, conceito do biólogo Henri Atlan (2000), que se refere à construção de espaço conceituais interdisciplinares por meio do diálogo entre o biológico e o cultural. O conceito de intercrítica resolve uma questão importante para o conhecimento na contemporaneidade. A crescente especialização na ciência colocou o problema da fragmentação e reducionismo do conhecimento por meio das disciplinas, que impossibilita olhar o fenômeno estudado em suas várias dimensões. Assim, o mesmo objeto é olhado de maneira particular explicado de modo reducionista. Já é conhecida a crítica que se faz, por exemplo, do conhecimento construído sobre o homem, em cada disciplina http://portalanda.org.br/index.php/anais 8 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 responde por uma de suas “fatias”. O problema é saber como integrar essas partes num todo que responda uma dimensão transdisciplinar, com o concurso das diferentes disciplinas. A riqueza da dança repousa justamente em ser um fenômeno de interesse de disciplinas diversas, como já disse no início desse artigo. A interdisciplinaridade, como a palavra mesmo indica, acontece em espaços promovidos para encontros de pesquisas e reflexões, que geralmente se fazem nos domínios restritos das disciplinas. Por fim, deixo aqui uma questão aberta que emerge da reflexão sobre a natureza cultural do corpo e da dança, que se refere ao estabelecimento de uma área do saber que impõe a construção de uma disciplina acadêmica. O conceito de autopoiese e de acoplamento estrutural do vivo desenvolvido por Humberto Maturana envolve plasticidade e deriva na organização da vida e da sociedade e pode auxiliar a construção de espaços dinâmicos de interação disciplinar na Dança. Os seres vivos são ao mesmo tempo independentes e complementares, isto é, a existência supõe a interação do vivo com o meio. A organização da vida revela, ao mesmo tempo, autonomia e dependência ecossistêmica. Nossa percepção do mundo é limitada pelo fechamento do sistema nervoso, como organização autorreferente, e por isso sofre o efeito da ilusão de ótica, o que, em termos de observação na relação sujeito e objeto do conhecimento, coloca a questão da falibilidade, do erro e da ilusão em primeiro plano. Mas são as interações que “corrigem” a ilusão latente no sujeito do conhecimento. O próprio conhecimento é também auto-eco-dependente. A implicação para o homem é clara. É a interação entre cognição e experiência, a convivência numa dimensão social, que permite o conhecimento e a construção de espaços legitimados, referido por regras consensuais que emergem das interações. Para esses autores é vital religar natureza e cultura na constituição do conhecimento humano. http://portalanda.org.br/index.php/anais 9 ANAIS DO III ENCONTRO CIENTÍFICO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Interfaces da Dança e Estados do Corpo – Maio/2013 Referências ATLAN, Henri. O Livro do Conhecimento: As Centelhas do Acaso e da Vida. Lisboa: Piaget, 2000. FARO, Antonio José. Pequena História da Dança. Rio de Janeiro: Zahar, 2011 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. O Nascimento da Prisão. Petrópolis: Vozes, 1987. GIL, José. Metamorfoses do corpo. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1997. KROEBER, Alfred. O Superorgânico. In: PIERSON, Donald (org.). Estudos de organização social. São Paulo: Martins Fontes, 1970. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um Conceito Antropológico. 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