I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 ANÁLISE DO DISCURSO COMO UMA VIA PARA A COMPREENSÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A DOCÊNCIA NO BRASIL Ricardo da Silva1 [email protected] RESUMO Este artigo, fundamentado no materialismo histórico e dialético, tem por objetivo apresentar reflexões acerca dos efeitos de sentidos das políticas públicas em educação a partir do discurso oficial do Estado brasileiro. Partimos da hipótese que o discurso oficial busca imprimir uma fórmula para a problemática da educação brasileira, a partir da lógica capitalista, investindo ofensivamente no processo de qualificação para o trabalho. O estudo integra uma pesquisa de doutorado em andamento e busca o entendimento crítico do processo de construção da docência no Brasil na última década, seus limites, avanços e retrocessos. Consideramos que o discurso é um lugar múltiplo de ação dos sujeitos, práxis humanas que não pode chegar a compreensão senão a partir das contradições sociais. Por essa razão lançaremos mão das categorias da análise do discurso para desvelar as condições de produção e os efeitos de sentidos presentes nos documentos oficiais do Estado brasileiro e no discurso que estrutura a lógica da educação como mercadoria. Palavras-chave: Educação. Política. Análise do discurso. 1 INTRODUÇÃO Mesmo diante de tantas dificuldades iniciais, o desejo de pesquisar as tensões que atravessam a docência nos coloca em definitivo a necessidade a refletir sobre os discursos que constroem e desconstroem a docência no Brasil, isto é, “discursos marcados pelas determinações históricas contemporâneas, produzindo sentidos para a docência atrelados às mudanças nas relações de trabalho, inscritas na reestruturação produtiva”, como afirma Melo (2011, p. 210). Concebemos o discurso, como práxis, atividade de sujeitos, que, conforme Magalhães (2002, p. 75), “ não é uma construção independente das relações sociais, mas, ao contrário, o fazer discursivo é uma práxis humana que só pode ser 1 Pedagogo, Mestre e Doutorando em Educação pelo PPGE/UFAL. Docente da Universidade Federal de Alagoas UFAL. Email: [email protected] 1 I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 compreendida a partir do entendimento das condições sociais que possibilitaram sua objetivação.” O discurso oficial busca imprimir uma fórmula para a problemática da educação brasileira a partir da lógica capitalista2, investindo ofensivamente no processo de qualificação para o trabalho. Para Mészáros (2005) “a educação não deve qualificar para o mercado, mas para a vida”. A classe trabalhadora é impelida a vivenciar um processo de formação unilateral, em que o trabalho é o meio mais rápido e estreito, para sua própria dominação. São as relações de trabalho e o seu próprio sentido, quem determinam o papel da educação. São vários os estudos acerca das transformações que ocorrem no mundo do trabalho nas últimas décadas. Segundo Melo (1998): As novas formas de acumulação do capital impulsionadas pela ciência e tecnologia tornam o processo de produção cada vez menos rígido, mais flexível, mais complexo e racionalizado, exigindo da força de trabalho uma formação educacional e profissional também mais flexível, no sentido de construir as bases para um novo conformismo científico-tecnológico, tendo em vista a construção de uma nova sociabilidade. As reformas profundas no Estado, seguindo as receitas do neoliberalismo, aprofundaram automaticamente a descentralização, a privatização e a desconstrução das funções do próprio Estado, subdividindo funções entre a sociedade, as unidades federativas e os municípios. A educação ganha um lugar central nesse meio e se torna a arena para as disputas sociais e políticas. Nas palavras de Frigotto (2000, p. 25), a educação se “apresenta [...] historicamente como um campo de disputa hegemônica”. Numa espécie de labirinto constituído por um conjunto de percursos intrincados criados com a intenção de desorientar quem o percorre, o Estado brasileiro lança mão de campanhas3 para incentivar os/as jovens da educação básica a se tornarem professores/as. Na contramão desse apelo encontramos diariamente em todo Brasil jovens que estão nos cursos de licenciaturas e não desejam ser professores/as. A 2 Mészáros (2005, p. 27) afirma que o capital é irreformável porque pela sua própria natureza, como totalidade sistêmica, é totalmente incorrigível. 3 Uma delas foi a propaganda social promovida pelo MEC com o objetivo de incentivar o aumento do número de professores/as no Brasil, intitulada “Seja professor”, no ano de 2009. 2 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 justificativa para o desprezo a esse campo de trabalho são as mais diversas dentre um conjunto de fatores que empurram a carreira docente para o lugar do esquecimento. Entre tantos dilemas, os/as jovens formandos/as anunciam as causas que os/as levaram a fazer um curso de formação de professores/as e os motivos que determinam a não permanência na área mesmo após a conclusão. Dentre outros fatores podemos destacar a questão salarial, o baixo reconhecimento social, a ausência de planos sólidos de cargos e carreiras, a formação inicial e a estrutura, ambas precárias. 2 O DISCURSO OFICIAL DA DOCÊNCIA NO BRASIL À LUZ DA ANÁLISE DO DISCURSO Pesquisa realizada pela Fundação Victor Civita em parceria com a editora Abril, publicada na Revista Nova Escola, em fevereiro do ano de 2010, apontou que 2% dos/as alunos/as da educação básica têm interesse em carreiras vinculadas às profissões relacionadas ao magistério. Os dados também apontaram o perfil daqueles/as que escolhem a docência como carreira profissional demonstrando categoricamente o desafio de pensar o papel dos/as professores/as em um universo eivado de sentidos que estreitam o lugar da docência como um espaço reservado à sala de aula, estanque e isolado, para dicotomizar a relação necessária entre ensino e pesquisa. Na verdade, o que queremos acentuar, com vistas a caracterizar o nosso problema, é que temos como pressuposto não ser possível efetivar um processo autêntico e autônomo da docência sem que se rompa com a lógica inexorável da reprodução do capital que busca realizações meramente transitórias e satisfatórias. “Trata-se de subordinar a função social da educação de forma controlada para responder as demandas do capital” (FRIGOTTO, 2000, p. 26). A determinação que transcorre dessa tese acerca da docência não significa que o processo da docência esteja em si acabado, contudo, os discursos dos sujeitos e os discursos oficiais transitam dentro das linhas limítrofes do capital. 3 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 A implementação disfarçada de muitas das políticas sociais existentes, entre elas a política de valorização dos/as professores/as, impostas sob medida pela cartilha neoliberal, demonstra a sua capacidade de expandir seus limites desde e quando as causas integralizáveis possam se refletir em benefício ao seu padrão de acumulação. Para Mészáros (2002, p. 95), “a possibilidade de o capital efetivar realizações humanizadoras está encerrada na atual fase de crise estrutural em que ele vive”. No Brasil, percebe-se uma expansão quantitativa dos cursos de formação de professores/as, seja na esfera pública ou privada, são ações formais instauradas pelo Estado para o controle, subtende-se, nesta direção, que é impossível garantir um processo de mudança. Pois, “limitar uma mudança educacional radical às margens corretivas interesseiras do capital significa abandonar de uma só vez, consciente ou não, o objetivo de uma transformação social qualitativa” (MÉSZÁROS, 2005, p. 27). Pensamos que os limites e possibilidades da docência e da educação em curso no Brasil não podem ser corretamente apreendidas a partir de explicações centradas no projeto neoliberal que acentua aos/às jovens trabalhadores/as a possibilidade de acesso à formação, sem que lhes permitam decidir qual lugar ocupa nas relações do trabalho. À classe trabalhadora – fundamentada nessa proposta societária – restou transitar nas manobras de um projeto engendrado no afastamento do sujeito das esferas do conhecimento na sua integralidade. Uma dessas questões é percebida quando na dicotomia entre as funções essenciais do/a professor/a: o ensino e a pesquisa. Durante a formação, quando adentram nas faculdades e ou universidades os/as discentes tomam conhecimento de um processo que visa prepará-los/as para o mercado de trabalho. O processo de formação, balizado nos ditames capitalistas, não formam professores/as-pesquisadores/as, forma professores/as ou pesquisadores/as, estes últimos na forma e na medida dos mecanismos de controle acadêmico produtivista. Esse processo não é uma escolha para a classe trabalhadora, é uma manobra desse sistema que não permite ao/a trabalhador/a o acesso às 4 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 informações, a garantia do conhecimento pleno e integral que vise à dimensão essencialmente humana de questionar, refletir e conhecer seu mundo e tudo o que o constitui. Compreendemos que existe um projeto neoliberal de sociedade e de educação que se consolida de maneira específica, desde os anos 1970, que de forma determinante modifica nossas vidas e interfere nas políticas educacionais. Contudo, acreditamos que é na década de 1990 que esse aviltante projeto subordina o Brasil a uma nova ordem mundial dentro do ideário de globalização. Para compreender como esse processo se intensifica historicamente é preciso refletir acerca dos acontecimentos determinantes ocorridos a partir da década de 1990, quando as políticas de caráter neoliberal nos atingiram frontalmente e provocaram mudanças na organização do trabalho, na estrutura da educação, causando profundas transformações na relação do Estado e o seu papel social. Neste sentido, tendo por fundamentos metodológicos a base conceitual e teórica que exporemos a seguir, tomamos como problema da nossa investigação as seguintes questões; qual a necessidade de se esvaziar os espaços de constituição da docência? Em que medida o caráter da docência, ora atravessada pelos conceitos de qualidade, competência e mérito – presentes nos cursos de licenciaturas – impendem o avanço qualitativo da educação no Brasil? Como o distanciamento dos/as professores/as das concepções de ensino e pesquisa contribuem para o projeto hegemônico do capital? Quais os limites, avanços e retrocessos na educação ocorridos da década de 1990 à atualidade? Cabe ressaltar, que não foi possível dar conta dos questionamentos supracitados neste trabalho e que não nos colocamos numa posição de descartar outras vias possíveis de se chegar a análise desse fenômeno que atribui à docência e sequencialmente a educação um lugar secundário na estrutura social deste país. Contudo, o referencial teórico-metodológico utilizado nesse percurso foi a da Análise do Discurso (AD), partindo-se das condições de produção do dizer como constitutivas desse próprio dizer. A partir daí, buscamos compreender quem está falando, para quem está falando, o que está falando, em que situação, de que lugar da sociedade está falando? Os processos constitutivos da linguagem são entendidos 5 I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 em sua dimensão histórico-social, pois, é através do discurso que buscamos a constatação do modo social da produção da linguagem e da produção dos sentidos. Não nos resta dúvida que pela via da AD, e por meio da análise das políticas educacionais lançadas a partir da década de 1990 à atualidade, é possível desvelar os sentidos das políticas de Estado. Acerca do discurso oficial, corrobora Melo (2011): “o discurso oficial é marcado pelas determinações históricas contemporâneas”. Portanto, a partir das condições de produção do discurso poderemos perceber que este discurso está inscrito em situações determinadas e que são produzidos socialmente, em um determinado momento histórico, mas ao mesmo tempo, atravessados por outros discursos. Destarte, para analisar os documentos oficiais e buscar compreendê-los através da AD, faz necessário dialogar com teóricos como Bakhtin/Volochinov (1981; 2004), Cavalcante (1999; 2007; 2005), Cavalcante e Florêncio (2013), Courtine (1981), Florêncio (2007), Florêncio et al. (2013; 2009), Magalhães (2000; 2005), Melo (2007; 2011), Orlandi (1999; 2007a; 2007b), Pêcheux (1995; 2008), Pêcheux e Fuchs (1993) e demais teóricos que trabalham com esse referencial. Acerca do referencial que dará sedimentação a análise dos documentos que remetem às políticas educacionais, apoiaremo-nos em Antunes (1999; 2005), Frigotto (2000), Mészáros (2002; 2005), Saviane (1985; 1996) e outros/as. Toda análise deve observar os discursos em seus movimentos múltiplos. Contudo, não pretendemos examinar exaustivamente todos os conceitos da AD, haja vista que não é esse o propósito. Pretendemos desenvolver nossa discussão, recortando princípios, conceitos e noções que consideramos significativos, por constituírem fundamentos indispensáveis à compreensão das categorias de formação ideológica e formação discursiva na Análise do Discurso. A Análise do Discurso considera que a linguagem é produzida pelo sujeito, em condições determinadas e cabe a quem analisa investigar o processo de produção. Assim, este projeto se inscreve na representação conceitual e epistemológica da AD, disciplina que tem como principal fundador, em sua linha francesa, Michel Pêcheux. A AD fundada por Pêcheux propõe que se confira outra noção de história, de conflito de classes e defende que se pense a história como lugar onde atua o complexo de determinações. 6 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 Fundada nos anos 1960, a AD constitui-se no espaço de questões criadas pela relação entre a Linguística, o Marxismo e a Psicanálise. Descrita por Pêcheux e Fuchs (1975, p. 163), versa na articulação desses pilares do conhecimento científico: O materialismo histórico, como teoria das formações sociais e de suas transformações, enquanto teoria das ideologias; a linguística, como teoria dos mecanismos sintáticos e também dos processos de enunciação; a teoria do discurso, como teoria dos processos semânticos e da determinação histórica. A esse respeito Orlandi (2007, p. 20) faz uma importante reflexão: Se a Análise do Discurso é herdeira das três regiões de conhecimento – Psicanálise, Linguística, Marxismo – não o é de modo servil e trabalha uma noção – a de discurso – que não se reduz ao objeto da linguística, nem se deixa absorver pela teoria Marxista e tampouco corresponde ao que teoriza a Psicanálise. Interroga a Linguística pela historicidade que ela deixa de lado, questiona o materialismo perguntando pelo simbólico e se demarca da Psicanálise pelo modo como, considerando a historicidade, trabalha a ideologia como materialmente relacionada ao inconsciente sem ser absorvida por ele. A relação língua/discurso, fundamentada nessa fronteira teórica, considera as questões ideológicas em seu referencial, procurando a dimensão histórico-social do discurso para garantir acesso ao lugar social de onde os sujeitos falam. Para Bastos (2007, p. 64), “Na Análise do Discurso, a ideologia manifesta-se a partir do lugar social do sujeito, com o qual ele se identifica e a partir do qual ele se expressa”. Para a AD, nenhum discurso é gerado a partir do nada, de um lugar vazio de relações sociais, mas a partir de discursos outros com os quais o enunciante mantém contato, dialoga. São relações sociais que atravessam o tempo, a história da sociedade, em um contexto histórico amplo e interpela o enunciante através do seu dizer. Então, a AD permitirá trilhar uma perspectiva materialista de ciência, acolhendo os procedimentos teórico-metodológicos para ouvir os/as egressos/as dos cursos de licenciaturas, podemos desvendar as posições dos sujeitos desses discursos, pois: A análise do discurso introduz, através da noção de sujeito, a de ideologia e a de situação social e histórica. Ao introduzir a noção de história vai trazer para a reflexão as questões de poder e das relações sociais. [...] O discurso é definido como não transmissor de informação, mas como efeito 7 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 de sentido entre locutores. Assim, se considera que o que se diz não resulta só da intenção de um indivíduo em informar um outro, mas da relação de sentidos estabelecida por eles num contexto social e histórico (ORLANDI, 2007, p. 63, grifo da autora). A AD não tem como objetivo trabalhar com a língua como um sistema abstrato, distante da nossa realidade, mas com a língua inerente das relações sociais do mundo. Diante disso, mostra-se pertinente a afirmação de Lukács (1978, p. 3), para o qual a língua é “um instrumento para comunicar as múltiplas e mutáveis formas de relacionamento dos homens entre si”. A língua não é um sistema fechado nela mesma, mas com a formação sócio-histórica que dá origem ao discurso, pois, conforme Orlandi (2007, p. 15-16). Assim, a primeira coisa a se observar é que a Análise de Discurso não trabalha com a língua enquanto um sistema abstrato, mas com a língua no mundo, com maneiras de significar, com os homens falando, considerando a produção de sentidos enquanto parte de suas vidas, seja enquanto sujeitos, seja enquanto membros de uma determinada forma de sociedade. A AD tece suas bases partindo da ideia de que a materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade específica do discurso é a linguagem; a relação língua, discurso e ideologia fica evidenciada. Pêcheux (1975), diz que não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia. A função da AD nesta conjuntura significa buscar entender e explicar como se constrói historicamente o sentido de um discurso e como esse discurso se articula com a história e a sociedade que o produziu. O discurso é um objeto ao mesmo tempo histórico, linguístico, social e, para entendê-lo, devemos analisar a relação discurso/história. Neste sentido, o discurso tem um lugar privilegiado, pois, permite uma análise da realidade, principalmente por ser ele, como afirma Bastos (2007, p. 55): “produto e produtor, presente em todas as relações sociais indispensáveis ao ser social, constituindo-se como objeto de estudo da Análise do Discurso”. Trazemos, ainda, outras definições de discurso, tais como: a de Maingueneau (2000, p. 43), em que o discurso é “a atividade de sujeitos inscritos em contextos determinados”; de Orlandi (2007, p.15), para a qual “O discurso é assim palavra em movimento”; de Florêncio et al. (2007, p. 11) que é o “lugar onde as significações se produzem”; de Cavalcante (2007, p. 35), para a qual “todo discurso é ideológico, 8 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 uma vez que, ao produzi-lo, o sujeito o faz, a partir de um lugar social”; Magalhães (2005, p. 26) “se configura na articulação de seus conceitos primordiais, que fazem a relação dialética entre história e língua, a partir de uma subjetividade socialmente posta”; Pêcheux (1995, p. 56): “todo discurso é índice potencial de uma agitação nas filiações sócio-históricas”; Ferreira (2003, p. 13): “É no discurso, precisamente, que se encontram, se intricam e se confundem, como um verdadeiro nó, as questões relativas à língua, à histórica e ao sujeito”; e para Silva Sobrinho (2007, p. 40), “tratase de uma prática regulada pela ordem da língua e da história”. A produção do discurso se faz em um momento histórico com o intuito de responder às demandas presentes nas relações entre os seres humanos, com o objetivo de produzir e de reproduzir a sua existência, levando o contexto histórico e ideológico dessas relações, impedindo que o discurso seja neutro, considerando que, ao produzi-lo, o sujeito o faz a partir de um lugar da sociedade, de uma perspectiva ideológica presente naquele momento sócio-histórico. O discurso, como diz Bakhtin (2004), é sempre a arena em que lutam pontos de vista em oposição. Ainda para Magalhães (2000, p. 75), discurso “é uma práxis humana que só pode ser compreendida a partir do entendimento das contradições sociais que possibilitam a sua objetivação”. As relações sociais são o ponto de partida para o entendimento do discurso. Neste sentido, o discurso se constitui no terreno das mediações, atribuindo novos sentidos aos que já existem. Essa relação se constitui nos contextos sociais, nos conflitos que permeiam a sociedade e na capacidade que o ser humano tem de se relacionar com o outro. A enunciação do discurso novo não é possível, senão, a partir de um processo de ressignificação do discurso que já existe. Destarte, o sujeito enuncia a partir de lugares sociais, atravessado pela ideologiai. Neste lugar, com o qual o sujeito se identifica e a partir do qual ele enuncia, é que se podem reconhecer as Formações Ideológicas e Discursivas. É a partir da Formação Ideológica - FI e da Formação Discursiva - FD que podemos compreender os sentidos das palavras. O sentido das palavras não pertence à própria palavra, não é dado diretamente em sua relação com a ‘literalidade do significante’; ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico, no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (CAVALCANTE, 2005, p. 21). 9 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 Bakhtin/Volochinov (2004, p. 41) diz que, “as palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios”. Como os fios dialógicos são inúmeros e como cada enunciado se articula a uma cadeia infinita de enunciados, entendida esta cadeia não como uma linha horizontal, mas como elos que se ligam em qualquer direção, não é nossa pretensão buscar esgotar todas as relações possíveis. Cada palavra traz em si as marcas de suas enunciações anteriores, as marcas de sua história enunciativa concreta; num certo sentido. Ao ser proferida a palavra traz em si sua significação histórica e culturalmente constituída, em suma, traz em si as marcas dos vários temas únicos por ela encarnados. As palavras produzem sentidos quando usadas entre interlocutores em condições determinadas. Por isso, os sentidos nunca são literais. Na verdade, são móveis e diversos, uma vez que são determinados pelas relações sócio-históricas que, em movimento, dão à palavra sentidos possíveis (SILVA SOBRINHO, 2007, p. 43). Não há palavra estanque, plena de um único sentido, sem nenhuma via de contramão, uma vez que, ainda que proferida por uma única voz, esta voz traz em si as marcas das muitas e, por vezes, conflitantes enunciações da palavra que profere, ou seja, a história de suas mutações de sentido. De muitos sentidos repletos de conexões e rupturas construídas a partir das relações sociais. Mas, é necessário considerar as condições específicas para compreender as condições de produção do discurso em que os sentidos são produzidos. Para Florêncio et al. (2007, p. 22): “Assim o discurso em seu caráter ideológico, se presta à disseminação de formas específicas de ideologia, a exemplo do Direito, da Política, dos Meios de Comunicação, dos Meios de Produção [...]”. Em outras palavras, de acordo com Amaral (2005, p.18): tratar das condições de produção de discurso (CPD) requer compreender o processo das determinações sociais, políticas e econômicas da produção intelectual em geral, designada pela teoria marxista como formas de consciências ou formações ideológicas. Essa produção é concretamente organizada e explicitada em formas de discursos. Assumimos, então, nesse percurso que todo discurso é ideológico na sua complexidade. Quando o produzimos, fazemo-nos de um lugar social, repleto de manifestações e sentidos permeados por uma perspectiva ideológica. 10 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 O discurso é a conexão entre o sujeito e o processo de produção e reprodução de vida de uma comunidade em um determinado momento histórico. Segundo Bastos (2007, p. 57), “Isso pressupõe levar em consideração, primordialmente, as relações sociais e a luta de classes, ou seja, as condições materiais específicas que possibilitaram a produção do discurso”. Todos os sentidos, todos os discursos estão sujeitos a coerções próprias das relações de poder inerentes às relações sociais. Os discursos têm a característica de se constituírem a partir de outros discursos, são atravessados pelo discurso do outro. Um texto remete a, pelo menos, duas abordagens diferentes: aquela que ele toma partido, defendendo-a; e aquela em que ele faz oposição. Há sempre duas vozes ressoando, dois pontos de vista. Sob as palavras de um discurso, há muitas outras palavras, outros discursos, outros pontos de vista. Ao longo da história de uma sociedade, estabelecem-se pontos de vista contraditórios. Para Bakhtin/Volochinov (2003), a vida social e a evolução histórica criam nos limites de uma língua nacional uma pluralidade de mundos concretos, de perspectivas literárias, ideológicas e sociais, fechadas; os elementos abstratos da língua, idênticos entre si, carregam-se de diferentes conteúdos semânticos para repercutir de diversas maneiras no interior destas diferentes perspectivas. Considerando que o motor do processo histórico numa sociedade onde há desigualdade está na luta entre as classes sociais existentes, Marx e Engels (2001, p. 23) afirmaram que “a história de toda sociedade até os nossos dias é a história da luta de classe”. E ainda, “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante” (MARX; ENGELS, 2004, p. 48). Contudo, segundo Bastos (2007, p. 57), “tal realidade não elimina a existência de outros sentidos no interior dos discursos, noutras perspectivas”. Mesmo com todas as dificuldades e impossibilidades, ainda que uma posição ideológica dominante e hegemônica esteja presente naquele momento histórico, as possibilidades de outros caminhos estão presentes também. Pois, “a classe dominante busca imprimir a seu discurso a ideia de neutralidade ou de consenso 11 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 acima das diferenças de classe, na tentativa de ocultar e/ou abafar os conflitos que são travados permanentemente” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004, p. 46-47). 3 CONCLUSÃO A docência e todo seu processo de organização está no bojo das reformas educacionais brasileiras, que em geral, por meio das políticas públicas permanece sob o invólucro ideológico dos parâmetros capitalistas. Entendemos que pela via da análise do discurso, é possível compreender os enigmas que estão presentes na estrutura que fundamenta todo o sistema educativo e consequentemente as políticas de formação da docência no Brasil. É preciso romper com as estruturas ideológicas e decifrar seus interesses e objetivos para destruir as bases do discurso neoliberal. É tempo de desvelar as estratégias de poder, os recursos discursivos e retóricos, por meio dos quais são abordadas questões que imprimem um desenvolvimento centrado nas premissas neoliberais. Discursos como “o papel da escola”, “ensino de qualidade”, “educação para todos” e “cidadania”, “seja um professor” carregam inevitavelmente as marcas da subordinação a um processo de reorganização produtiva do trabalho. Arquitetam paralelamente um imaginário sombrio à docência no Brasil. Desconstruindo o que restou da carreira docente em todos os níveis e afastando impiedosamente a classe trabalhadora desse espaço de reflexão, desestimulando as novas gerações a seguirem a carreira e ao mesmo tempo as submetendo a um processo pífio de qualificação para o trabalho. Trata-se de mais uma manobra de deslocamento dos efeitos de sentidos que consiste em direcionar os paralelos da análise social. Encobrindo acintosamente as causas da desigualdade social, dos conflitos presentes nas lutas de classes e principalmente na despolitização total da classe trabalhadora e na naturalização da desigualdade. É preciso repensar as políticas públicas de educação e torná-las numa agenda prioritária na pauta governamental deste país, sob pena de permanecermos 12 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 nessa inércia sistêmica e condenarmos as futuras gerações ao fracasso em todos os aspectos. 4 REFERÊNCIAS ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 1999. 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