7.º Congresso do Comité Português da URSI – “Um mar sem fronteiras: desafios tecnológicos” 1 Modelos de Propagação Terra-Satélite e Separação das Contribuições para a Despolarização Flávio Jorge Armando Rocha, Membro IEEE Instituto de Telecomunicações Universidade de Aveiro, Portugal Departamento de Electrónica e Telecomunicações e Informática Instituto de Telecomunicações Universidade de Aveiro, Portugal Abstract— A caracterização do canal de propagação TerraSatélite nas microondas ganha um interesse crescente dada a elevada largura de banda oferecida e o desenvolvimento tecnológico que potencia o desenvolvimento de equipamento terminal a preços razoáveis. Abordam-se alguns fenómenos de propagação e os respectivos modelos ITU cujo desempenho é comparado com dados experimentais medidos em Aveiro na banda Ka usando o satélite HotBird-6. Uma abordagem à identificação e separação de contribuições para o fenómeno de despolarização é apresentado e o respectivo desempenho avaliado. Index Terms— atenuação, despolarização, discriminação da polarização cruzada, modelos de propagação, medidas de beacon, propagação Terra-Satélite 40.63º N, -8.66ºE, num ângulo de elevação de 39º e ângulo de inclinação da polarização de 23º, polarização horizontal e frequência 19.7 GHz. Apresentam-se a seguir os fenómenos de propagação principais, os respectivos modelos de propagação ITU e a análise do seu desempenho na previsão da atenuação e da discriminação da polarização cruzada com dados recolhidos monitorizando um padrão de frequência na banda Ka. Finalmente será exposta uma técnica para tentar obter as contribuições para despolarização e nomeadamente a contribuição de nuvens de gelo a qual, por impossibilidade de ser modelada por medidas à superfície terrestre, tem sido considerada de forma empírica no respectivo modelo ITU. I. INTRODUÇÃO II. NATUREZA DO CANAL TERRA-SATÉLITE NAS MICROONDAS Terra-Satélite nas microondas está condicionada pela troposfera. A precipitação, nuvens e nevoeiros e ainda a turbulência troposférica traduzem-se em impactos no sinal recebido que se agravam com o aumento de frequência e limitam os sistemas de comunicação. A prestação de serviços de qualidade exigirá a adopção de medidas que combatam os efeitos do canal o qual deverá ser suficientemente caracterizado, tanto em aspectos estáticos como dinâmicos, para implementar as denominadas Propagation Impairement Mitigation Techniques (PIMTs). Atendendo à variabilidade geográfica dos fenómenos meteorológicos é de suma importância levar a cabo quer exaustivas campanhas experimentais para recolha de dados em zonas do globo não constantes das bases de dados existentes (zonas cuja latitude é muito elevada, onde se observa uma reduzida taxa de precipitação e onde os links incorrem em ângulos de elevação muito baixos, zonas tropicais e no Sul da Europa), quer trabalho de investigação que conduza à avaliação dos modelos existentes, a propostas de alteração dos modelos sempre que necessário e à submissão de dados para servirem de teste. Neste sentido, o Instituto de Telecomunicações e a Universidade de Aveiro têm desempenhado um papel importante, contribuindo ativamente para o enriquecimento das bases de dados do ITU pela realização de uma campanha experimental realizada com o satélite Eutelsat HotBird-6 (rebatizado Hot Bird 13A) durante quase 9 anos que permitiu recolher dados de atenuação e despolarização. A experiência foi realizada no DETI/IT em Aveiro, cujas coordenadas são Abaixo de 3 GHz a Ionosfera desempenha um papel importante na propagação do sinal observando-se vários fenómenos relacionados, por exemplo, com a atividade solar. Acima desta frequência, embora a cintilação ionosférica possa ser observada a frequências bem mais elevadas, a variabilidade dos fenómenos passa a ser condicionada pela dinâmica da Troposfera[1]. O canal de radiopropagação apresenta uma dinâmica espácio-temporal complexa e o clima local desempenha papel de relevo. A Troposfera é a região da atmosfera terrestre na qual se encontra a maior massa da atmosfera e na qual ocorre parte dos fenómenos meteorológicos responsáveis por condicionar as comunicações espaciais especialmente na banda Ku e superiores. Gases atmosféricos, nevoeiros e nuvens de chuva (hidrometeoros) ou nuvens de gelo (cristais), condicionam em maior ou menor intensidade, a propagação no sistema de telecomunicações por satélite. Os fenómenos de propagação Terra-Satélite mais importantes no contexto do presente estudo são a atenuação e a despolarização. A PROPAGAÇÃO A. Atenuação A atenuação é o processo através do qual a onda perde parte da sua potência no meio de propagação dispersivo. O nevoeiro e as nuvens introduzem atenuação, esta muito reduzida em virtude da baixa densidade da água, mas ainda substancial o suficiente para condicionar alguns sistemas com margem de atenuação limitada[2]. Os gases atmosféricos, principalmente o oxigénio e o vapor 7.º Congresso do Comité Português da URSI – “Um mar sem fronteiras: desafios tecnológicos” de água (o qual apresenta elevada variabilidade espáciotemporal), são responsáveis por introduzir picos de atenuação a determinadas frequências estando as bandas atribuídas a comunicações por satélite razoavelmente afastadas destas. A absorção molecular, traduzida em atenuação, observa-se primeiramente em torno dos 22.2 GHz devido à ressonância da molécula de água e depois em torno dos 60 GHz devido à molécula de oxigénio. A atenuação provocada por gases é normalmente inferior à introduzida pela precipitação, mas deve ser tomada em consideração em sistemas com reduzida margem de atenuação e baixo ângulo de elevação[3]. A precipitação é o principal fenómeno meteorológico condicionante das comunicações acima de 10 GHz. A precipitação diz-se estratiforme quando contempla uma vasta extensão horizontal e incorre em precipitações de intensidade reduzida mas de longa duração. Por outro lado, tendo origem em nuvens de desenvolvimento vertical e apresentando um perfil horizontal limitado, diz-se convectiva e apresenta-se intensa mas de curta duração. Entretanto, a sua extensão vertical está dependente da latitude[4]. A distribuição do tamanho das gotas de chuva é fundamental no estudo da atenuação e depende do tipo de chuva e do clima. A distribuição de tamanho de gotas de chuva descreve o número de gotas de diâmetro D por unidade de volume e faixa de diâmetro dD. Existem diversos modelos caracterizadores deste parâmetro N(D) em função da taxa de precipitação R (mm/h) como sejam os modelos exponenciais de Marshall e Palmer (MP) e de Joss et al. As distribuições de Joss et al assumem contudo uma grande importância, principalmente porque diferenciam três tipos de chuva: chuviscos, chuva estratiforme e chuva convectiva. Como se pode observar na Fig. 1, o modelo para chuviscos privilegia as gotas de menor dimensão em detrimento das gotas maiores, podendo-se observar a mesma relação para o caso da chuva convectiva, mas agora contemplando um número muito maior de gotas de dimensão superior. As gotas de dimensão intermédia são mais importantes que as gotas maiores: as gotas maiores impõem uma atenuação mais elevada, mas são menos numerosas do que as que assumem uma dimensão mais modesta. Para o caso da chuva estratiforme, os modelos de Joss et al e de MP evidenciam características similares. Ainda na Fig. 1 é possível avaliar outras distribuições, como sejam as de Sekine e Lind e de Atlas e Ulbrich. 2 Ainda que as dimensões, formas e orientações das gotas de chuva possam variar no contexto de um mesmo fenómeno de chuva, pode assumir-se que o espectro de dimensões é relativamente estável, variando fundamentalmente com a intensidade da precipitação[5]. O tamanho e a forma das gotas estão intrinsecamente relacionados. As gotas de chuva evoluem desde pequenas esferas, quando as suas dimensões são reduzidas, até esferoides oblatos desenvolvendo uma depressão inferior, para dimensões maiores. Uma vez que a forma não altera o volume de água presente, a atenuação para uma polarização linear será dependente da orientação relativa do vetor campo elétrico com o eixo principal da gota. Na Fig. 2 podem-se observar as formas de uma gota em função do raio da esfera equivolumétrica segundo Pruppacher e Pitter[6]. Fig. 2. Forma das gotas em função do raio da esfera equivolumétrica segundo Pruppacher e Pitter. Adicionalmente, em virtude do gradiente da velocidade do vento com a altitude, as gotas de dimensão mais reduzida em queda exibem uma inclinação em relação à vertical que é tanto maior quanto maior é o raio. O ângulo de inclinação é tanto maior quanto menor é a altitude e por isso, este factor é especialmente importante em ligações cujo ângulo de elevação é reduzido. No que concerne às gotas maiores, a inclinação é essencialmente constante, e depende unicamente da altitude. Na Fig. 3 podem observar-se estas relações obtidas por Brussaard[7]. Finalmente, também a turbulência atmosférica pode contribuir para a alteração da forma das gotas aumentando a isotropia do meio de propagação. Fig. 3. Ângulo de inclinação das gotas em função do raio e da altitude segundo Brussaard. Um último parâmetro microfísico descritivo do meio chuvoso é a velocidade de queda das gotas que, em conjunto com a distribuição de dimensões das gotas, permite derivar a Fig. 1. Distribuição de tamanho de gotas de chuva segundo vários autores. 7.º Congresso do Comité Português da URSI – “Um mar sem fronteiras: desafios tecnológicos” taxa de precipitação. A velocidade de queda das gotas aumenta com a sua dimensão, até se atingir a velocidade terminal de aproximadamente 9 m/s quando as forças gravítica e de atrito se equilibram. A existência deste limite é consequência da deformação a que as gotas estão sujeitas, sendo que a velocidade de queda é função da pressão atmosférica, da humidade, da temperatura e do diâmetro das gotas. Na Fig. 4 pode-se observar a dependência da velocidade terminal com o diâmetro das gotas segundo vários autores. Fig. 4. Velocidade terminal de queda das gotas de chuva de acordo com vários autores. B. Despolarização A despolarização é o processo pelo qual a onda vê o seu estado de polarização alterado tal que parte da potência na polarização original (copolar) é transferida para a polarização ortogonal (crosspolar), dando origem a interferência entre dois canais polarizados ortogonalmente, quando se faz reuso de frequência para duplicar a capacidade de transmissão. A despolarização deve-se ao facto de as partículas do meio de propagação não serem esféricas e assumirem uma orientação preferencial. Assim, gotas de chuva maiores, que apresentam maior distorção com respeito à forma esférica, cristais de gelo das nuvens a elevadas altitudes que não originam precipitação (cirriformes) e o gelo quer no topo das nuvens a baixa altitude mas de extensão vertical (cumuliformes) que originam chuva convectiva quer presente nas nuvens estratiformes, impõem despolarização. As primeiras devem provocar uma despolarização residual comparativamente aos dois últimos casos. Nuvens cumuliformes, muitas vezes em ambientes com atividade eléctrica, originam forte despolarização num período de tempo relativamente curto e no contexto de um evento complexo. Nuvens estratiformes originam despolarização de longa duração e o evento sucede-se de forma ordenada[8]. Uma medida da despolarização consiste na discriminação da polarização cruzada (XPD) que relaciona as amplitudes dos sinais crosspolar e copolar. O XPD, normalmente apresentado em dB, é definido pela equação ( ) (1) onde ACx é amplitude do sinal recebido na polarização 3 ortogonal e ACo a amplitude recebida na polarização original. A despolarização devido a chuva deve-se à atenuação diferencial e à diferença de fase diferencial ao longo dos planos principais –eixo rotacional das gotas e o eixo perpendicular- enquanto a despolarização devido a gelo devese exclusivamente à diferença de fase diferencial, observandose muitas vezes neste caso a quase ausência de atenuação em simultâneo, uma vez que a permitividade eléctrica do gelo é essencialmente real. As propriedades micro e macrofísicas da chuva foram já descritas. Os cristais de gelo assumem um espectro de dimensões até 2 mm apresentando formas extremamente diversificadas, dependentes da temperatura e da humidade, mas são modeladas em propagação por agulhas e discos. As agulhas em queda tendem a alinhar-se com o eixo maior no plano horizontal mas com orientação aleatória neste plano. A presença de campos eléctricos atmosféricos (trovoadas) pode provocar um alinhamento preferencial o qual se desfaz rapidamente após a descarga eléctrica. O fenómeno, observado várias vezes em Aveiro, traduz-se em rápidas e sucessivas variações do XPD com possibilidade de mudança de fase como se observa na Fig. 5. Entretanto, à semelhança das gotas de chuva, fatores como o gradiente do vento e a turbulência atmosférica podem também influenciar a orientação do gelo[9]. Fig. 5. XPD causado por gelo durante uma tempestade. III. MODELOS ITU O ITU (International Telecommunications Union) é o organismo das Nações Unidas responsável por produzir normas padrão globais para sistemas de radiocomunicações que tornem o uso do espectro electromagnético optimizado, sendo os seus modelos largamente utilizados pelos operadores. Os modelos ITU são o ponto de partida no planeamento e no estudo do desempenho de qualquer sistema de radiocomunicações. Em virtude da dinâmica da atmosfera terrestre, a modelação do canal rádio não é trivial. Apenas a descrição física longitudinal do meio de propagação, o que exige a identificação das características dos hidrometeoros no que concerne à sua dimensão, forma, orientação, temperatura, velocidade de queda e respectivo estado físico permitiria uma descrição completa do canal. Além destes dados relativos à microestrutura, é ainda fundamental o conhecimento da 7.º Congresso do Comité Português da URSI – “Um mar sem fronteiras: desafios tecnológicos” macroestrutura do meio, salientando-se os perfis vertical e horizontal dos agentes intervenientes dos fenómenos, assim como a sua distribuição ao longo do caminho de propagação. Em resultado da complexidade supracitada, os modelos são construídos em sucessivas aproximações, sendo as primeiras modelações essencialmente empíricas e obtidas pela recolha local e processamento estatístico de dados de propagação e meteorológicos que podem ser submetidos ao ITU. Hoje, a grande parte dos dados submetidos são oriundos dos nortes da Europa e da América. Com o progressivo conhecimento que se vai obtendo por meio dos modelos empíricos e novos dados relativos à macroestrutura do canal, é possível o desenvolvimento de modelos cada vez mais físicos e melhor descritivos da realidade. Estes modelos permitem optimizar os sistemas de telecomunicações por satélite e nomeadamente dimensionar as malhas de controlo subjacentes à utilização dos PIMTs. Relativamente às condicionantes apresentadas e a título de exemplo, o modelo ITU-R P.618-10 permite a determinação da distribuição cumulativa da atenuação devido a chuva numa gama de frequências até 55 GHz, assim como a determinação do XPD condicionado à atenuação[10]. Um dos parâmetros necessários a estes modelos é a taxa de precipitação a qual pode ser obtida da recomendação ITU-R P.837-6[11]. Fig. 6. Distribuição cumulativa da taxa de precipitação medida e proposta pelo modelo ITU. Na Fig. 6 pode-se observar a distribuição cumulativa da taxa de precipitação obtida pelo modelo ITU e a mesma obtida por meio de medições locais nos anos de 2004/2005 e de 2005/2006, ao mesmo tempo que se sobrepõe o total dos dois anos. Como se pode constatar, existe uma diferença significativa entre as duas. Por exemplo para 0.01 % do ano a diferença atinge 18.65 mm/h. Sendo este parâmetro um valor de entrada no modelo da atenuação é de esperar que exista alguma discrepância entre as previsões e os dados experimentais. Uma diferença de 6.5 dB pode ser confirmada por consulta da Fig. 7 onde se apresenta a distribuição cumulativa da atenuação proposta pelo modelo ITU e as medidas efetuadas nos anos de 2004/2005 e 2005/2006, sobrepondo-se ao mesmo tempo o total dos dois anos e as previsões do ITU usando a taxa de precipitação medida localmente. 4 Fig. 7. Distribuição cumulativa da atenuação medida e proposta pelo modelo ITU. O uso da taxa de precipitação local no modelo de atenuação, em vez da proposta pelo ITU (aliás o ITU recomenda usar os dados de precipitação locais sempre que existam) permite obter melhores resultados. Alguma discrepância nos resultados é comum e não se deverá inteiramente à sobrestimação da taxa de precipitação mas sim à variabilidade anual dos fenómenos meteorológicos. É assim essencial possuir dados de bastantes anos. Entretanto, também a atenuação é um parâmetro de entrada no modelo proposto para a determinação do XPD, esperandose uma discrepância entre resultados a qual pode ser observada na Fig. 8. Fig. 8. Distribuição cumulativa do XPD medido e proposto pelo modelo ITU. Como se pode depreender, usando a atenuação obtida recorrendo à taxa de precipitação local na obtenção das previsões do ITU para o XPD consegue-se obter também aqui uma boa concordância entre os valores medidos e propostos. Ainda relativamente ao XPD, o modelo ITU propõe o uso de uma expressão empírica para tomar em conta a contribuição do gelo que resulta numa degradação adicional da despolarização, principalmente para atenuações mais baixas, onde o gelo assume maior preponderância. Posto isto, torna-se necessária a modelação do XPD de forma mais direta, principalmente no que concerne às contribuições individuais da chuva e do gelo. O XPD pode ser uma porta de acesso às propriedades físicas do meio, permitindo a identificação dos hidrometeoros mas apenas se se encontrar bem caracterizado. Esta caracterização é ao mesmo tempo fundamental para o escalonamento em frequência do 7.º Congresso do Comité Português da URSI – “Um mar sem fronteiras: desafios tecnológicos” XPD e da atenuação. 5 V. APLICAÇÃO DO MÉTODO IV. SEPARAÇÃO DAS CONTRIBUIÇÕES DE GELO E CHUVA O meio de propagação é bastante complexo e, apesar de nem ser longitudinalmente homogéneo nem possuir planos principais, pode ser modelado de forma simples como a cascata de duas camadas longitudinalmente homogéneas com planos principais: gelo no topo da chuva. Mesmo nesta aproximação é necessário ter conhecimento de cinco parâmetros para caracterizar o canal: anisotropia complexa da chuva, ângulo de inclinação das gotas, anisotropia (imaginária) e ângulo de inclinação do gelo. A determinação completa da matriz de transmissão foi levada a cabo por vários investigadores [12, 13] que fizeram uso da dupla polarização disponibilizada pelo satélite Olympus a 20 GHz, campanha que originou contudo um conjunto de dados limitados. O método que se propõe é baseado numa única polarização (horizontal) e concretizado a 19.7 GHz com os dados recolhidos da campanha referida. Os dados experimentais permitem apenas medir três parâmetros do canal: atenuação e XPD complexo. Primeiramente determinou-se a anisotropia de chuva usando a teoria de scattering para as seguintes distribuições: MP, JossDrizzle (JD) e Joss-Thunderstorm (JT). De seguida determinou-se relação da anisotropia de chuva com a atenuação para cada distribuição e assumiu-se que o ângulo de inclinação das mesmas era nulo. O XPD para a polarização horizontal, num meio longitudinalmente homogéneo com planos principais, inclinação da polarização de θ e anisotropia D é dado por: ( ) (2) ( ) O método de separação das contribuições de chuva e gelo foi aplicado sucessivamente evento a evento, procurando-se atribuir a origem da despolarização a uma das quatro populações padrão: chuviscos, chuva estratiforme, chuva convectiva e gelo. Claramente este é um ponto crítico, já que dificilmente uma única distribuição de tamanho de gotas de chuva consegue modelar o evento, sendo necessário dividi-lo em subeventos (os 265 eventos analisados foram subdivididos em 1035 subeventos). Também a ocorrência simultânea ou sucessiva de chuva e gelo não é incomum, o que dificulta ainda mais o processo de análise e justificando a subdivisão do evento. Desta forma, é imperativo avaliar o evento com base em todas as informações disponíveis. Para isso, numa análise evento a evento, subevento a subevento, fez-se uso quer de representações do XPD, em fase e em quadratura, em função da atenuação, quer de representações polares do XPD, todas sobrepostas às previsões teóricas para cada distribuição de tamanho de gotas, e de séries temporais da atenuação e do XPD, este absoluto, em fase e em quadratura. Por fim, procurou-se reconstruir cada parte do evento processado usando (3), onde já se descartou a componente residual em fase determinada para o gelo (originária em erros de medida, limitações do modelo ou da descrição do canal), procurando-se assim confirmar o sucesso de cada classificação. A Fig. 9 representa um troço de um evento simples, medido no dia 20 de Janeiro de 2009, onde se representa a série temporal da atenuação sobreposta pelas componentes cartesianas do XPD e pelo XPD em dB, onde se observa desde logo a existência das duas componentes do XPD associada a uma atenuação modesta. Á custa da atenuação medida é obtida a previsão da anisotropia de chuva, o que permite escrever a matriz de transmissão de chuva parcial, e assim determinar o para cada distribuição de tamanho de gotas em cada evento. Resolvendo a matriz cascateada de chuva e gelo, e efetuando aproximações de primeira ordem, pode-se escrever: (3) onde se observa a soma da contribuição da chuva, a segunda população atravessada, com a contribuição do gelo, a primeira população a ser atravessada, afectada pela transmissão no meio de chuva. Resolvendo (3) isolando é possível obter a contribuição do gelo, cuja anisotropia assume-se ser puramente imaginária, com base nas medidas efetuadas do XPD e em estimativas para o XPD de chuva obtidas pelo método descrito acima. Esta metodologia foi aplicada a um ano completo de dados recolhidos à frequência de amostragem de 1 S/s na referida campanha. As séries temporais foram previamente filtradas passa-baixo com frequência de corte de 0.025 Hz para remover o ruído e a cintilação. Fig. 9. Séries temporais da atenuação e do XPD. Entretanto, também cada componente do XPD é representada em função da atenuação, sendo que a distribuição que melhor se adequa aos dados é ainda inconclusiva, como se pode observar na Fig. 10. Certo é que o XPD é melhor do que o previsto e por isso espera-se que o uso de um correto factor de redução da anisotropia possa justificar os resultados experimentais. 7.º Congresso do Comité Português da URSI – “Um mar sem fronteiras: desafios tecnológicos” 6 Fig. 12. Factor de redução da anisotropia em função da atenuação. Fig. 10. Representação do XPD em função da atenuação. A justificação para o uso deste factor recai no facto de o meio ser mais complexo do que aquilo que é realmente assumido pelo modelo, esperando-se desta forma que o meio seja mais isotrópico comparativamente àquilo que se estima. A expressão usada no cálculo deste factor é dada por: [( ) ] Entretanto o modelo provou funcionar adequadamente não só nas situações em que o meio era composto por apenas chuva, como no caso apresentado. Também nos casos em que foi fisicamente possível separar o gelo da chuva e nos casos em que o gelo se imiscuiu com a chuva sendo a separação efectuada exclusivamente pelo método se obtiveram bons resultados. (4) onde XPDmIn representa o XPD medido em fase e XPDtIn a estimativa para o XPD teórico em fase. Finalmente, a análise da representação polar do XPD medido e das respectivas previsões teóricas da Fig. 11 sugere que o troço do evento é dominado por chuva MP. Fig. 13. XPD medido e modelado com chuva MP, original e reconstruido. Fig. 11. Representação polar do XPD e das previsões teóricas. Aplicando o factor de redução da anisotropia de chuva sugerido para a distribuição MP, vide Fig. 12, é possível reconstruir o troço como se pode observar na Fig. 13 onde se apresenta adicionalmente o XPD original. Como se pode constatar, atribuir a chuva como causa da despolarização observada que é modelada pela distribuição MP permite reconstruir os dados, provando ser a escolha mais adequada. Tal evidência é dada pela análise da Fig. 14 que escrutina a qualidade da reconstrução dos dados. Nesta figura observa-se o XPD medido versus XPD reconstruído, constatando-se uma linha recta confirmando que a modelação de um evento de despolarização usando a distribuição de tamanho de gotas mais adequada associada a um factor de redução da anisotropia sensato é capaz de descrever os dados medidos usando o método proposto. 7.º Congresso do Comité Português da URSI – “Um mar sem fronteiras: desafios tecnológicos” Fig. 14. Distribuição conjunta do XPD medido com o XPD reconstruído. Finalmente, uma representação do XPD medido em quadratura conjunto com o XPD medido em fase durante todo o ano pode ser observada na Fig. 15, onde se pode observar que tiveram lugar várias distribuições para o tamanho das gotas, ao mesmo tempo que se observa a ocorrência de gelo, esta também associada a fenómenos de atividade elétrica na atmosfera traduzidos em inversões de fase do vector XPD que se manifesta significativa. Também é observável uma componente em fase negativa, provavelmente devida à turbulência atmosférica que tornou as gotas de alguns eventos prolatas, como se apresentou acima. segurança quantificar estatisticamente cada uma das contribuições. Finalmente prova-se desta maneira que a extração das contribuições individuais da chuva e do gelo não é passível de ser obtida exclusivamente resolvendo completamente a matriz de transmissão, o que implica o recurso a dupla polarização ortogonal. Por isso, este é desde já um método promissor, uma vez que é um meio económico de acesso às propriedades do canal rádio pois faz uso de apenas uma polarização. Por outro lado, na óptica tecnológica, e portanto de sistemas, espera-se que o volume de tráfego continue a aumentar de forma expressiva, tanto que a optimização do uso do espectro é um assunto em debate atual. O uso inteligente do espectro, porém, não será suficiente para colmatar as necessidades dos avanços tecnológicos e do número crescente de clientes, devendo a tecnologia de raiz procurar ser económica na utilização deste recurso importante, mas limitado. A caracterização do XPD permite avaliar o desempenho de sistemas de cancelamento de interferência quando se faz o uso de duas polarizações ortogonais na mesma frequência que duplicam a capacidade de tráfego. REFERÊNCIAS [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9] [10] Fig. 15. Distribuição conjunta do XPD em quadratura com o XPD em fase. [11] [12] VI. CONCLUSÃO Foi desenvolvido um método simples que se mostra capaz de separar as contribuições individuais da chuva e do gelo para o XPD na banda Ka, recorrendo apenas a uma única polarização. O método foi aplicado evento a evento a um ano completo de dados provando conseguir reconstruir os dados com base nas contribuições extraídas anteriormente. Foi também apresentada a importância deste estudo e a inerente dificuldade em modelar o meio em virtude da sua dinâmica. Entretanto, o volume de dados analisado é ainda limitado, pelo que o método carece da análise de mais dados com vista à estabilização dos resultados, podendo-se depois com maior 7 [13] J. Louis J. Ippolito, Radiowave Propagation in Satellite Communications: Van Nostrand Reinhold Company Inc., 1986. P. M. d. S. Gaspar, "Modelos de Propagação Terra-Satélite na Banda Ka," MSc, Departamento de Electrónica Telecomunicações e Informática, Universidade de Aveiro, 2008. 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